Memória Roda Viva

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Dadá Maravilha

5/1/1987

Dadá Maravilha esbanja sinceridade e fala sem reservas dos bastidores do futebol brasileiro

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Rodolpho Gamberini: Boa noite, nós estamos começando agora mais um Roda Viva, o programa de entrevistas e debates da TV Cultura, trazendo nessa noite como entrevistado o jogador Dario Maravilha. Esta noite o programa foi gravado com antecedência e ninguém em casa pode fazer as perguntas que quiser aqui no programa. Para participar dessa entrevista do Dario Maravilha aqui conosco nos estúdios da TV Cultura estão os jornalistas Antônio Carlos Duarte, editor da revista Placar; Roberto Avallone, chefe de reportagem e colunista do Jornal da Tarde; Juarez Soares, comentarista esportivo da TV Bandeirantes; Valdir Zuet, coordenador de jornalismo da TV Cultura; José Maria de Aquino, também está conosco, do jornal O Estado de S.Paulo, é o repórter esportivo do Estadão; Regiane Ritter, repórter e apresentadora da TV Gazeta; José Carlos Cicarelli, apresentador e narrador esportivo da TV Cultura; João Carlos Albuquerque, narrador, apresentador e comentarista da TV Record, e o Adilson Monteiro Alves, que é o nosso sociólogo aqui no programa Roda Viva desta noite. Também está conosco o jornalista Marcos Ferman, da TV Cultura.

Rodolpho Gamberini: Dario, para a gente começar nossa conversa. Você pode não ser, me desculpe, o melhor jogador do mundo, mas certamente é um dos melhores homens de marketing do futebol. Você tem essa coisa de falar do Dadá, você fala do Dadá na terceira pessoa, você fala dos gols que você faz, você faz homenagens, você tem um ótimo marketing do seu futebol. Você inventou isso ou foi uma coisa que surgiu? Como é que aconteceu isso?

Dadá Maravilha: Essas coisas brotam, né, elas acontecem, e realmente o Dadá foi o meu mundo. Inclusive você tava falando aí “Dario Maravilha”, eu achei um tanto quanto esquisito, de momento assim, para acostumar. Então eu prefiro mesmo é Dadá Maravilha. O Dadá surgiu do Dario né, e o Dario vive a fantasia do Dadá, e eu gosto. Infelizmente, eu tô chegando no final, vou ter que voltar a Dario porque eu era um número, virei um nome e vou voltar a ser número e voltando a ser rosto na multidão, voltarei a ser Dario José dos Santos, o que é lamentável para mim...

Rodolpho Gamberini: Por quê? Por que lamentável, Dario?

Dadá Maravilha: Lamentável porque foram vinte anos de fantasias, de maravilhas, um mundo que eu fiz, um mundo que eu curti, um mundo que foi abençoado, tudo deu certo. E de repente eu volto a ser aquele Dario, em que eu poderia voltar a pensar naquele menino que foi do SAM [Serviço de Assistência ao Menor] ou da Funabem [Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor]. Não que isso venha a me entristecer, mas, de qualquer maneira, são pesadelos que passaram, são momentos difíceis que eu tive, e eu quero viver a fantasia do Dadá que são só glórias.

Rodolpho Gamberini: O Adilson Monteiro Alves quer fazer a primeira pergunta para você.

Adilson Monteiro Alves: Dadá Beija-Flor, aquele que paira no ar. Eu queria discordar de você, começar discordando. Eu acho que o Dario, o Dadá, jamais vai ser uma pessoa comum. O Dario é um ser humano excepcional, uma pessoa que todos admiram, todos gostam, o Dario como pessoa. Acho que o Dadá nunca vai ser uma pessoa comum, o Dadá vai ter sucesso em qualquer carreira, vai se dar bem em qualquer ambiente, e tem muita coisa para dar. Se você parar como jogador de futebol, você ainda tem pelo menos mais uns dez anos para jogar, ainda quero te ver jogando no Corinthians. Você terá sucesso em qualquer canto que abraçar, sem dúvida nenhuma. Mas eu queria te fazer uma pergunta: quantos títulos e quantas vezes artilheiro de campeonatos do Brasil todo?

Dadá Maravilha: Bem, nacional três vezes né, sou o único. Regional, mais oito; e de torneios, todos que eu disputei, para deixar a humildade de lado.

Adilson Monteiro Alves: E quantas vezes você foi artilheiro? Você foi onze vezes campeão, você é o que mais títulos tem no futebol brasileiro?

Dadá Maravilha: Bem, de vinte anos, eu devo ter uns dezesseis títulos ao todo, entre torneios e campeonatos.

Adilson Monteiro Alves: Valeu.

Rodolpho Gamberini: José Maria de Aquino, você nem precisa virar para cá, não, Dario, tá ali na sua frente, do Estadão.

José Maria de Aquino: Dario, eu acho muito importante que essa sua tomada de consciência, saber que quando pára a bola, o mundo é outro, porque, sei lá, a gente como jornalista, tá cansado de ver jogador que pára a bola, ele continua pensando que é tudo uma fantasia, tudo uma festa, tudo comemoração de gols e dali a quatro cinco anos a gente às vezes é obrigado a sair para fazer uma matéria porque o cara está precisando de alguma coisa quando às vezes não deveria. E às vezes joga a culpa no dirigente ou na estrutura de tudo isso e ele também não teve a tranqüilidade, não teve a consciência, não teve a orientação, para saber aplicar aquilo que ganhou.  Eu acho essa sua tomada de consciência muito importante. Eu gostaria de saber o seguinte: tudo que você fez era estudado então? Você disse que era uma fantasia, você criou esse mundo, você, talvez até rememorando seus tempos de garoto no Santos, criou esse mundo, você inventava aquilo sabendo que o povo queria aquilo, além dos gols, claro?

Dadá Maravilha: Bem, em primeiro lugar eu sempre fui uma pessoa confusa na vida, porque eu nasci Dário e me tornei Dario. [risos] Porque meu pai me colocou Dário e tinha uma professora no primário que ficava brigando comigo dizendo que o meu nome era Dario. Até que eu vi a minha certidão e vi que era Dario, isso eu tinha vinte anos. Entrei no futebol, botei Dario, então eu vivi vinte anos de Dário e vivo vinte anos de Dario, quer dizer, tá bem conturbado. Agora, quanto às coisas estudadas, nunca aconteceram com o Dadá, porque eu nunca fui uma pessoa "escolada", mas sou inteligente, inteligente de momento, porque minhas coisas são momentâneas. Eu, por exemplo, falei: “Não me venha com "problemática" que eu tenho a "solucionática", sem saber que os termos estavam certos. E eu fui gozado pelos jogadores, baixei a cabeça e não conversei com ninguém. Eu dormi como burro e acordei como inteligente. [risos e palmas]

Dadá Maravilha: Sendo manchete em todos os jornais e crônica do Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta vivo do Brasil. Então as coisas acontecem muitas vezes sem eu saber. Eu acredito que sejam mais fluidos divinos, inspirações divinas que acontecem em mim, porque estudo eu não tenho para falar coisas lindas como eu falei. Faço tudo com amor, inclusive o amor, eu acho que tem profundidade a coisa. Então as coisas acontecem naturalmente. Eu não estudo, eu não vou fazer uma coisa para agradar Dadá, eu falo aquilo mais com o coração e a boca transmite.

Juarez Soares: Dario, você foi um garoto que, para o público entender, foi criado naquela que seria a Funabem, que seria aqui de São Paulo, quando todos os políticos dizem que vão resolver o problema do garoto, o problema do adolescente problema, por que você não se tornou um bandido se você era um garoto desamparado? Ou, por outro lado, o adolescente que vive, o garoto que vive hoje, são milhões no Brasil, que vive hoje a situação que você viveu, do que ele precisa, que tipo de amparo ele precisa para não se tornar um bandido?

Dadá Maravilha: Bem, em primeiro lugar, eu vivi é dos cinco aos dezenove anos no SAM, e dos cinco aos dezenove anos, nesses quatorze anos, treze anos eu fui marginal,. Fui marginal, roubei, fiquei preso, fiz tudo que era peripécias possíveis imagináveis de um marginal. Mas, na realidade, a minha índole não era de marginal, eu vivia um momento de marginal, mas a minha índole era boa, meu coração. Então eu me recuperei com a bola, eu agradeço a bola, inclusive eu vou botar um, eu vou colocar um troféu em casa, no meu jardim: “Obrigado, bola”. Porque ela salvou o homem que aqui está, que hoje pode ser considerado um exemplo.

Juarez Soares: Quer dizer que você não foi salvo nem por pessoas, nem por políticos, porque você viveu no meio de bandidos, foi um garoto problema, quer dizer, foi um adolescente problemático, roubou, foi preso, e acabou se recuperando por si só. Você foi uma exceção, ou é possível o adolescente se recuperar por si só?

Dadá Maravilha: Bem, hoje é possível qualquer menor se recuperar, porque as condições hoje são favoráveis, a minha não. A minha tendência, 99% era de ser marginal, tanto é que depois que eu saí da escola XV, eu encontrava com amigos meus tudo marginais e eu tive a oportunidade de andar na Frei Caneca [rua da cidade de São Paulo], quando eu era do Campo Grande, e que pelo menos uns sessenta companheiros meus de colégio eu encontrei na Frei Caneca. Eram amigos do Dadá, que saíam para roubar comigo. Mas eu me salvei pela bola, agora eu me salvei pela necessidade, porque eu nunca joguei bola também, meu negócio era roubar, meu negócio era correr, era subir em árvore, era pular murro, correr de cachorro, razão pela qual o Dadá faz trezentos por hora, [risos] razão pela qual o Dadá sai um metro e pouco do chão, exatamente pular murro e roubar manga. Agora, quanto à minha agilidade dentro do campo, eram os tiros de sal, né, eu tinha que fugir dos tiros de sal, peguei cintura, né.

Rodolpho Gamberini: Quando que você percebeu que a bola ia te tirar dessa malandragem e ia ser um caminho interessante na sua vida?

Dadá Maravilha: Eu não senti. Eu não senti nunca que a bola fosse me dar nada. Eu apenas, quando eu vi que a necessidade de comer, de ser alguém na vida, eu comecei a chutar bola, tanto é que eu fui dispensado seis vezes por ruindade e na sétima...[risos] Inclusive eu sempre ia a Campo Grande, aí eu era dispensado, os caras: “Pô, já vem esse negão de novo”. [risos]

Regiane Ritter: Dadá, no momento em que o futebol atravessa, acredito uma das piores fases, o futebol brasileiro atravessa uma das suas piores fases da sua história, num momento em que os políticos, os politiqueiros, armam, urdem, fazem tramas e tentam destruir o que de mais bonito, de mais belo, existe no futebol. O jogador não fala, em alguns momentos até alguns clubes tentaram proibir qualquer um de seus atletas de dirigir qualquer crítica aos homens fortes, entre aspas, que dirigem o futebol brasileiro, principalmente os da CBF [Confederação Brasileira de Futebol] e do CNB [Campeonato Nacional Brasileiro]. Me parece que o Dario não tem críticas à política, o Dario, pelo menos, não teria nada contra a política, o Dario teria vivido momentos, inclusive, muito gratos à política e aos políticos em especial a um determinado presidente da República. Como você vê o Dario grato aos políticos e o Dario que hoje vê o futebol morrendo por causa dos políticos?

Dadá Maravilha: Bem, em primeiro lugar, não que o Dario, que o Dadá, eu gosto muito de Dadá...

Regiane Ritter: Eu também...

Dadá Maravilha: Não que o Dadá seja grato aos políticos, porque se os políticos falaram no Dadá é porque o Dadá fez alguma coisa que fizesse com que eles viessem mexer comigo, porque quando eu tava no SAM ninguém falou em Dadá, ninguém se preocupou comigo. Então eu fiz por onde que alguém se preocupasse com o crioulo desengonçado, que depois virou Dadá Maravilha. Então, de qualquer maneira, eu fui atrás da sorte, então essas pessoas que falaram no Dadá, falaram também porque o Dadá dá ibope, porque o Dadá era um nome também...

Regiane Ritter: Procurando projeção...

Dadá Maravilha: Que era projeção porque se eu não fosse, ninguém ia atirar pedra em árvore sem fruto. Então se falaram em Dadá é porque eu tinha alguma coisa para se oferecer a eles. Então não é propriamente gratidão ao político, é o respeito ao torcedor, eu prefiro não falar ao político, ao torcedor que admirou o futebol do Dadá, admirou o meu esforço em campo, porque o torcedor, ele não tem divisão. Quando se senta numa arquibancada, o lixeiro e o presidente da República, todos os dois têm o mesmo cargo. Aliás, é o único lugar que não tem discriminação: é o futebol. Ali são torcedores, que sejam doutor, que sejam o britador, que sejam o recolhedor de papel, ali são todos torcedores, então eu prefiro falar o torcedor respeitou o Dadá, porque a recíproca foi verdadeira, porque o meu futebol foi de amor, a palavra que eu uso: amor. Eu amo o torcedor, porque ele me paga, não que ele me paga, ele merece o respeito, porque quem paga um espetáculo merece ter um espetáculo à altura. Então, dentro das minhas limitações, porque eu nunca fui craque, aliás, até hoje eu não sei dominar uma bola, eu não sei como é que eu fiz 925 gols. Agora o negócio é que eu entro em campo, eu faço com amor, então eu entro para fazer o melhor, então eu acho que o torcedor merece toda a nossa consideração, eu piso na bola, entro com tudo, quero fazer o gol, e o torcedor merece isso, por isso que eu falo: o torcedor.

Valdir Zuet: Você joga mais para agradar a torcida ou para ganhar o jogo?

Dadá Maravilha: Bem, eu quero ganhar o jogo, agora, eu não uso de modos ilícitos, eu uso a desportividade, porque eu acho que o futebol, ele é entretenimento, é lazer, então a gente tem que fazer a coisa com carinho, com respeito. Então eu não ganho um jogo querendo quebrar um companheiro de profissão, muito pelo contrário, eu sempre apanhei e fiquei rindo. Eu aconselho sempre aquele que entrar no futebol, ele fazer com alegria, a profissão com alegria e com amor, deixar a violência de lado, porque quem tenta quebrar, ele é quebrado, porque sempre alguém vem com maldade. Eu sempre me machuquei, mas ninguém teve maldade com o Dadá, de vir no meu joelho, porque sabe que eu não entro em ninguém com maldade, eu só viso a bola e, às vezes, quando a bola está mais para o defesa, eu deixo ele levar a bola. Agora isso é psicologia, por exemplo, eu deixo ele pegar a bola para ele pensar que tá marcando o Dadá, na outra eu vou e...

 [?]: Você já foi expulso, Dario?

Dadá Maravilha: Já. Já fui expulso, mas não por indisciplina propriamente, eu fui expulso para defender um companheiro. Então, um companheiro meu é expulso, eu vou no juiz e digo: “Ô, seu juiz por que você expulsou o rapaz”? “Vai também”. Eu fui por tabela.

Rodolpho Gamberini: Dadá, o Avallone quer fazer a próxima pergunta...

Roberto Avallone: Dario, você falou agora há pouquinho em amor, e o Dadá, o rei Dadá foi um personagem que você criou, que o povão criou, foi um rei fiel ao gol, à alegria e às redes, mas não foi tão fiel assim às camisas porque foram muitas as camisas que ele vestiu, não é? Campo Grande, Atlético Mineiro, Flamengo, Inter de Porto Alegre, Bahia, Paysandu, Ponte, Goiás, Nacional de Manaus, XV de Piracicaba, Douradense e São Bento. Foi infidelidade ou foi amor demais?

Dadá Maravilha: Não, é porque todos esses times quiseram ser campeão. [risos]

[?]: Todos foram?

Dadá Maravilha: Nem todos, porque Deus tem que proteger aos outros também, mas a maioria, tiveram a alegria de ter o Dadá como campeão.

José Carlos Cicarelli: Dada, você se considera um homem realizado? Por que você conseguiu notoriedade no esporte, mas dizem, existe uma corrente, e está aí um sociólogo, que não vai deixar me desmentir, que para ser um homem realizado precisa plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Você teve essas outras três coisas, além de alcançar destaque no futebol?

Dadá Maravilha: Eu fiz um Dadazinho, né. [risos]. E os outros dois eu tô devendo.

[?]: A árvore é fácil...

Dadá Maravilha: A árvore eu vou plantar ainda, mas a prefeitura precisa né, dar um desconhecimento no Dadá que o Dadá não tem conhecimento.

João Carlos Albuquerque: Eu acho que tenta-se situar o Dario no episódio de 1970, quando você não pertencia à Seleção Brasileira do João Saldanha e o então presidente da República, general Emilio Médici, teria imposto a sua convocação, e o Saldanha teria dito inclusive que ele não se metia no governo, não escalava ministros, e que o presidente não tinha nada que escalar jogador na seleção do Brasil e ele acabou saindo da seleção e o Zagallo assumiu e conquistou a Copa do México. Você diria, especificamente em relação a esse episódio, que você era útil, era interessante para o sistema, para o poder, para um governo muito pouco popular. Ou que era uma coisa só de simpatia, que ele era realmente um torcedor apaixonado por você, que achava que podia mandar em tudo, até na seleção brasileira?

Dadá Maravilha: Bem, o negócio por uma imposição da imprensa mineira em me convocar nem que fosse na marra, porque eu fiz 69 gols no ano, fui disparadamente o jogador que tinha balançado mais as redes do adversário, e sempre que jogava pelo Atlético Mineiro a minha média de três gols era mantida. E a imprensa achou que eu deveria ser convocado, começaram a forçar a barra. E a seleção tava invicta há trinta e tantos jogos e arrumaram um jogo da seleção brasileira contra o Atlético Mineiro, no Mineirão. E o Atlético Mineiro foi proibido de jogar com a camisa do Atlético e jogamos com a camisa da Federação Mineira de Futebol. E eu, ousado, botei a camisa do Atlético por baixo e rebentei com a boca do balão, joguei uma partida impecável e ganhei todos os prêmios. E fiz o gol e ainda gozei os caras. E o presidente, como todos os brasileiros viram o jogo e ficaram impressionados, e o presidente ficou impressionado com o Dadá, “porque que esse homem não é da seleção”? Então foi quando a imprensa partiu em cima do João Saldanha e forçou a barra nele e o João Saldanha falou que eu não jogaria na seleção dele, que teria mais dois ou três centroavantes para ele convocar. Então já era uma questão de pirraça do João Saldanha não me convocar porque, modéstia à parte, eu estava numa fase extraordinária e deveria ser convocado.

João Carlos Albuquerque: Você tinha quantos anos, Dario?

Dadá Maravilha: Eu tinha 24 anos, idade feia, né? 23 e meio... e eu fui convocado.

José Maria de Aquino: Dadá, eu estou percebendo que uma das coisas bonitas em você, além dos gols que você já marcou é a sua franqueza, e a sua coragem de falar a coisa exatamente como você sente, e como ela é. Correndo tantos times, jogando por esse mundo afora, você encontrou alguma vez, algum técnico, algum preparador físico, algum massagista que tenha proposto a você o doping [uso de drogas que melhoram o desempenho no esporte]?

Dadá Maravilha: Ah, tranqüilo...

José Maria de Aquino: Onde?

Dadá Maravilha: Vi de montão, vi de montão, no Sport Recife, no próprio Bahia, mas eu não aceitei. Não aceitei porque sempre falavam que eu era o melhor preparo físico do mundo, que sempre me cuidava, não tenho nenhum vício, não bebo e não fumo. Hoje com quarenta anos dificilmente um menino de dezoito ganha do Dadá em dez quilômetros, porque eu me cuido. Poderia jogar mais três anos, mas exatamente para manter essa imagem que eu fiz no futebol, porque eu lutei vinte anos para fazer uma imagem que possa se arranhar em vinte minutos. Então eu não quero que o pessoal lembre do Dadá do passado. “Ah, o Dadá já fez, o Dadá era bom, é um beija-flor e hoje não é mais. Então eu acho que é hora de largar, como eu falei, seguir o fim da linha, né. Então eu vou largar o futebol com a imagem de campeão.

Rodolpho Gamberini: Por favor, fala.

Marcos Ferman: Primeiro, eu vou fazer um elogio a você. Sou especialista em texto, jornalista, escritor, você tem os melhores textos desse país. Você tem o texto brilhante, você poderia escrever grandes peças de teatro, magníficos textos de jornal, de rádio, de televisão, você deveria até pensar em tudo isso. Você é um gigante brasileiro com corpo de gladiador e cabeça de poeta. Isso é uma coisa realmente bonita tá, e é uma coisa brasileira. Agora eu queria falar o seguinte. Você me torturou porque eu sou gremista, você marcou muito gol contra o meu time, contra o Grêmio, lá em Porto Alegre, me fez chorar, me arrebentar todo, né.. bom... Eu vou te fazer um pergunta. Você fez mais de 900 gols. Teve algum gol que ficou marcado na sua cabeça como, digamos assim, uma obra prima? Porque um poeta escolhe uma obra, um jornalista também, e você tem algum gol que é a obra da tua vida?

Dadá Maravilha: É, eu tenho um gol que marcou, principalmente pela data, foi sete de setembro de 72. Atlético e Cruzeiro, casa cheia. O gol independência. E o falecido Tião, ponta-esquerda do Atlético cruzou para trás, e eu vinha na meia-lua, subi com o Fontana, cabeceei, a bola bateu na trave e na volta eu peguei de bicicleta. Um gol lindo, fugindo inclusive das características do Dadá.

Rodolpho Gamberini: Dario, ah, o Tonico Duarte, da revista Placar, quer fazer uma pergunta para você.

Antônio Carlos Duarte: O Mirandinha, outro dia, falou pra gente que o centroavante é um goleiro do avesso. Como é que esse ofício de centroavante, essa coisa do caçador solitário, exposto a botinadas, a ameaças, a cotoveladas, e tá sempre ali sozinho? Como é que a cabeça de um centroavante, ela é diferente das dos outros jogadores?

Dadá Maravilha: Não, a responsabilidade do artilheiro é fazer gol. E ele tem que fazer gol. E se não fizer é massacrado. Eu vou mais longe: o futebol tem nove posições e duas profissões, porque todo mundo diz que o futebol tem onze posições né, eu discordo, são nove posições e duas profissões. Porque um time quando perde e a pessoa não vê o jogo, a primeira reação dele é: “Ah, o goleiro é frangueiro, o centroavante não faz gol”. Ele nem analisa o jogo, então o centroavante não faz gol é ruim, e o goleiro também. Então, são duas profissões. Eu concordo plenamente com o Mirandinha, porque o centroavante hoje, cada dia, a cada dia, fica mais órfão.

Roberto Avallone: Dario, você falou em gols e goleiros. Em 64 - hora da saudade agora-, Santos venceu o Botafogo por onze a zero, o Botafogo de Ribeirão Preto, e o Pelé fez oito gols. Agora, no dia cinco de abril de 76, o Sport Recife venceu o Santo Amaro, mais conhecido como “As vovozinhas”, por quatorze a zero, e o Dadá fez dez gols. Quem era o goleiro, como é que foi essa história?

Dadá Maravilha: Não, o negócio é o seguinte, tem uma história interessante nesse jogo. O nosso treinador era o Mario Travaglini, o famoso, e nós fomos jogar com o Santo Amaro. E o Santo Amaro tinha alguns jogadores que eu conhecia, então eles trabalhavam o dia todo, para jogar à noite. E, aquele, o jogo era nove horas, então oito horas aqui. E eles comiam um sanduíche para jogar. Eu cheguei, o Mario Travaglini, cheio de tática, faz isso, faz aquilo, eu digo: “Seu Mario, por favor, como é que um time, que trabalha o dia todo e come um sanduíche pode jogar contra a gente”? Sanduíche, eu não entendo desse negócio, mas deve durar no estômago quinze minutos. [risos] Marcamos sobre pressão, vai dar câimbra nos rapazes. Foi o que aconteceu, deram câimbra neles aí eu fiz dez gols. [risos] Porque os caras ficaram com fome, cansado, tadinhos.

Rodolpho Gamberini: Adilson...

Adilson Monteiro Alves: Eu não queria estar lembrando muito dessa história, que eu lembro da final de 76 lá, o Dario jogando no Inter e liquidou a chance do Corinthians naquele campeonato brasileiro nas poucas vezes que o Corinthians chegou perto de conquistar o nacional...

[?]: O Dario fez todo mundo sofrer aqui, hein...

Adilson Monteiro Alves: Tô sofrendo e tô na alegria também com o Dario. Mas eu queria falar sério, eu acho que o esporte faz parte da enorme dívida social que a gente tem com o povo brasileiro. Que raras vezes o esporte dá algum retorno à sociedade, principalmente o futebol normalmente tira da sociedade e devolve muito pouco. Eu acho que o Dario é um exemplo importante do esporte funcionando como fator de integração social. E você já pensou, Dario, em ensinar tudo isso que você já aprendeu na vida? Não, apenas ensinar futebol, mas principalmente ensinar essa sua filosofia de vida, ensinar a vida?

Dadá Maravilha: É, eu penso sempre em ensinar a vida, mostrando que a vida sempre tem um lado bom. E eu começo sempre pelo lado favorável, porque eu sou otimista por excelência. Inclusive eu vou um pouco além, eu acho que o Dadá é positivista, porque eu só acho coisas boas na minha vida. Não que eu as tenha, mas eu sempre procuro e me proponho a fazer da minha cabeça um eterno circo, né, mostrando sempre alegria. E gosto de falar, não posso dar o pão, dou o circo ao povo. Então eu acho que não só o Dadá, mas o povo deveria pensar que as coisas sempre, a tendência é melhorar. E colocar o divino mestre na cabeça né, Deus, que ele sempre tem que repartir o pão e sempre vai sobrar, nem que seja uma migalha para a gente. E ninguém pode entrar em desespero, porque dias melhores haverão de acontecer, porque a tendência... Deus ajuda, quem o ajuda a ajudar, não é verdade? Então, o mínimo que nos temos que fazer é acreditar nele e trabalhar, trabalhar bastante e confiar.

Adilson Monteiro Alves: Você é um otimista né?... Você está colocando, você procura criar fatos positivos. Eu estou falando em ensinar realmente, ensinar profissionalmente, você tem uma experiência de vida que não se aprende na escola. Você já pensou nisso profissionalmente, ensinar crianças, ensinar pessoas, ensinar jovens?

Dadá Maravilha: Eu inclusive eu vou além, eu acredito que eu me formei na faculdade da vida, né. Se tem um diploma que eu tenho é esse. E me coloco à disposição, porque eu acho que eu sofri, né, eu fui um cara que muitas vezes fui dormir com fome para esquecer que não tinha comido, não tinha almoçado e jantado, então eu dormia para esquecer que tava com fome. Então eu acho que, eu me proponho, tendo chance, de ensinar, eu ensino e será um prazer.

José Maria de Aquino: Dario, você há alguns dias se registrou como técnico lá na associação, no sindicato dos técnicos, portanto você pretende ser técnico de futebol?

Dadá Maravilha: Pretendo...

José Maria de Aquino: Nessa linha da pergunta do Adilson, você acha que você se encaixaria melhor trabalhando com jogadores profissionais, talvez você pudesse fazer de alguém um centroavante impecável, se ensinasse tudo que você, conseguisse ensinar tudo que você sabe, e mostrou que sabe, como centroavante, ele seria perfeito. Ou você acha que seria melhor para você fazer exatamente isso que o Adilson está te perguntando: trabalhar com garotos, em que você ensinasse talvez não tanto futebol, mas muito mais, o que é viver, o que é ser gente, o que é ser homem. E eu acho até que hoje você está dando aqui uma lição que pelo menos dez que estão aqui em cima.

Rodolpho Gamberini: Aliás, aliás, deixa eu apresentar, esses garotos todos que estão aqui a maioria deles é de alunos da escola de futebol do São Paulo Futebol Clube que foram convidados pela produção para assistir a sua entrevista, viu Dario...

Juarez Soares: Tem um ali que parece muito com o Muller, deve ser o Muller [?], é a cara do Muller. [vários comentam ao mesmo tempo]: “É irmão do Muller, é irmão dele”...

Dadá Maravilha: É inclusive eu achei muito bela, inteligente a sua pergunta, porque eu acho que é muito mais fácil ensinar os meninos porque eles têm a humildade de aprender. Porque um jogador quando ele tá no profissional, ele normalmente acha que sabe alguma coisa, então começa a dizer que o cara é chato, “como é que vai me ensinar a jogar bola? Bola não se aprende, eu já sei”. Então, é normal você encontrar essa revolta no profissional. Então para mim seria mais fácil ensinar os meninos porque eles estão com a intenção de seguirem a carreira, de vencer, então tão com menos vício, entendeu? Não entraram ainda naquela maldade que o futebol tem, que o cara passa por ela, às vezes muitos não conseguem ultrapassar esse obstáculo maligno né, que existe também no futebol. Então para mim seria mais fácil treinar os meninos, porque eu teria mais facilidade, a recepção seria maior, e a decepção seria maior também com um profissional, porque às vezes ele não quer aprender porque acha que já sabe.

Juarez Soares: Dario, de todos os garotos que estão aqui, eu encontrei eles na portaria, eles já têm, inclusive, a carterinha de atletas do São Paulo na sua identificação, então são garotos que estão se iniciando num grande clube. Quais são os perigos que esses garotos correm? Ou do garoto que está em casa, do pai que quer que o garoto seja jogador de futebol. Quais são os riscos e os perigos que esses garotos enfrentam dentro do futebol?

Dadá Maravilha: Olha, o perigo desses meninos, ele é grande porque quando ele consegue, no caso desses meninos, que já estão envergando uma camisa de gabarito, de tradição no futebol brasileiro, ele sempre se aumenta, principalmente com os companheiros que jogam peladinha com ele tudo, então ele tá botando a camisa do São Paulo, ou do Corinthians ou do Palmeiras, então ele já acha que passou por uma peneira, que é alguém, e muitas vezes ele se envaidece, então já começa a pisar nos próprios companheiros. Então precisa chamar o ego de cada um deles e mostrar que estão aprendendo, que eles estão ainda no primeiro degrau, que eles não sabem nada ainda, que estão no be-a-bá do futebol. Então a pessoa tem que ser clara, tem que ser objetiva, mas falar como um pai, ensiná-los de que a estrada é grande e para eles chegarem ao sucesso, eles vão ter de olhar de binóculo.

Juarez Soares: Só um minutinho, eu estive lendo um livro do Zé Roberto, que foi ponta-esquerda do Flamengo, e que as revistas apontam hoje como sendo um dos livros mais vendidos, é interessante que é a primeira vez que aparece um livro, a Veja, por exemplo, deu como um dos livros mais  vendidos o livro do Zé Roberto. E ele colocava o problema do homossexualismo, e que agride violentamente os garotos dessa idade. Não que os garotos sejam homossexuais, mas que justamente nessa idade do juvenil, nessa idade que o garoto aparece, vem sempre um cara que quer ser diretor, ou que é diretor do clube, que procura se aproximar dos garotos e que alguns conseguem sair e que outros até convivem com esse tipo de coisa. Você que, a quem a vida não tem muito mais que ensinar, e que no futebol você aprendeu e viveu praticamente tudo, existe realmente isso? É um risco que esses garotos correm, ou depende do clube, depende da região, depende do estado?

Dadá Maravilha: Bem, foi comprovado que o futebol brasileiro, nas divisões inferiores, existe uma maioria de homossexuais dirigindo os meninos, infantis, infanto-juvenil e consequentemente, isso bloqueia os meninos, porque a maioria deles, quase na sua totalidade, eles não são homossexuais, são pessoas que têm uma formação pensando e visando se consagrar no futebol, e com isso eles ficam bloqueados porque eles são comandados por pessoas nessas condições, e o comandado é a imagem do comandante. Não que ele vá assimilar o que o comandante faz, mas na maioria das vezes ele tem que acatar ordens, então existe uma situação difícil dos meninos que precisa muito do pai e da mãe, estar em cima deles pra conversar, e os meninos também tem que se abrir pros pais “olha, eu tô passando por esses momentos, por isso e aquilo...”, pro pai ter conhecimento de onde o filho está pisando. Porque ele pode estar numa areia movediça e os pais não tomarem conhecimento, e na maioria das vezes, os meninos ficam com medo de falar com os pais, com medo que os pais tirem eles do time e eles não venham a ser o craque que eles sonham ser.

Rodolpho Gamberini: Dadá, e no futebol profissional?

Antonio Carlos Duarte: Corre drogas no meio do futebol?

Dadá Maravilha: Aí, de monte...

Antonio Carlos Duarte: Que tipo de droga? Você conhece alguma situação, algum caso?

Dadá Maravilha: Conheço vários casos de jogadores se dopando, já vi jogadores se dopando, entendeu? No vestiário, tomando, já vi...

Rodolpho Gamberini: Tomando o quê?

Dadá Maravilha: Tomando gluconergan [estimulante muito utilizado pelos atletas nos anos 80] e tantas outras coisas aí, eu sempre aconselhei para os caras não fazer...

Rodolpho Gamberini: Agora, só uma coisa, toma como, os jogadores tomam injeção?

Dadá Maravilha: Não, jogador já aplicando em jogador, inclusive, casos de jogador que vai sair com mulher e toma "gruconegan" para poder aumentar o seu ato sexual pra depois chegar para os caras e dizer “pô, sou garanhão e tal”...

Rodolpho Gamberini: E no campo também? É a mesma coisa?

Dadá Maravilha: No campo também, tem muitos que tentam fazer isso, mas...

Valdir Zuet: Mas a eventual droga que o cara usa, de alguma forma, reflete no rendimento dele?

Dadá Maravilha: Não, ela reflete, ela reflete em um ou dois jogos, mas em compensação, ela tira um, dois anos da carreira do jogador...

Juarez Suares: Até que ponto o exame antidoping pode evitar isso, Dario, ou não evita, o pessoal sabe como driblar o exame antidoping?

Dadá Maravilha: O negócio é o seguinte, o exame antidoping, ele quase não existe, porque sempre tem aquela do massagista vir com um saquinho de urina do outro, e troca e tal. Você tem uns cambalachos no futebol que precisa normalizar, entendeu? O futebol tem que ser levado mais a sério, eu acho que o futebol, além de ser uma competição, ele é um lazer entendeu? Então precisa ser tratado com mais respeito, porque você vê que muitos jogadores têm a carreira curta. Muitos por azar mesmo, tomam um pontapé e caem, e outros não conseguem porque acabam, morrem na casca né...

Rodolpho Gamberini: Dadá, você disse que já viu vários ... [um dos entrevistadores diz que gostaria de conversar mais sobre determinado assunto] Só uma coisa, porque antes de começar o Roda Viva, eu tava conversando com o Dadá e ele tava contando algumas dessas histórias que ele já contou aqui, essa, por exemplo, de jogadores se drogando no vestiário. Agora, existem casos, às vezes, em que a própria equipe técnica, o próprio técnico, o treinador, o preparador físico acabam dopando jogadores que nem querem ser dopados não é, Dadá?

Dadá Maravilha: No caso, muitas vezes, eu mesmo já fui dopado, sem saber.

Rodolpho Gamberini: Como é que foi isso?

Dadá Maravilha: Eu jogava em Recife, no Sport, e meu time tava perdendo de um a zero no primeiro tempo pro América. No segundo tempo eu cheguei cansado, e me deram duas laranjas...

Rodolpho Gamberini: Laranja preparada?

Dadá Maravilha: No segundo tempo eu fiz quatro gols... [risos]

Rodolpho Gamberini: Laranja preparadíssima...

Dadá Maravilha: Fiz quatro gols e cheguei em casa com o olho que pareciam dois holofotes. A minha mulher, como a lua tava, era lua nova, a minha mulher pensou: “Você vai virar lobisomem”? [risos]

Rodolpho Gamberini: O que tinha na laranja?

Juarez Soares: Você já tinha muita experiência. [vários entrevistadores falam ao mesmo tempo]

Dadá Maravilha: Eu já tinha experiência, mas me deram as laranjas, eu chupei né? [risos]

José Carlos Cicarelli: Você acha que numa grande equipe, publicamente, num Palmeiras, num Vasco, num Fluminense, num Corinthians, há essa possibilidade de alguém fazer hoje isso Dadá, ou você considera quase impossível? Publicamente...

Dadá Maravilha: Não, eu acho que hoje a mentalidade melhorou bastante, inclusive, depois das ondas que saíram na televisão, então, o pessoal já ficou com medo e existe um respeito maior, porque antigamente se falava no doping como uma criança pegar uma bola ou uma menina pegar uma boneca... Era diversão...

Roberto Avallone: Alguns jogadores foram punidos até agora, entre eles o Campos, que foi seu companheiro no Atlético Mineiro, o Mário Sérgio, que você conheceu bem. Agora, eu insisto nessa pergunta: o doping corre a solto também em São Paulo, Rio, ou fica mais, lá em cima?

Dadá Maravilha: Não, isso, corre solto em todo o Brasil. Agora, lógico que tem lugares que têm maiores precauções, entendeu? E você vê muitas carreiras de jogadores aí que terminam cedo exatamente por isso...

João Carlos Albuquerque: Dario, deixa eu passar para um outro campo, que a gente, além do doping, tá falando muito desse seu lado de ídolo, né, que você sempre foi carregado nos braços da torcida, artilheiro, campeão. E o outro lado? Você apanhou já de torcida adversária? Você já foi ameaçado? Já ameaçaram familiares seus? Você já viveu esse outro lado do ídolo? Quer dizer, o ídolo que incomoda os adversários?

Dadá Maravilha: Não, eu apanhei uma vez. Apanhei, eu tava no Atlético Mineiro, e fui jogar em Uberaba, e falei que eu ia fazer o gol zebu, porque lá é a terra do [boi] zebu. [risos] E a torcida encheu o campo né, mas eu não tava fazendo nada, e a torcida me vaiando, vaiando... Num determinado momento da partida, o Odair chutou de fora da área e eu fui sair da bola, a bola bateu na minha bunda e foi lá no ferro. [risos] E eu fui para torcida mostrando que eu tinha feito o gol de bumbum e gozando. Mas aí, o time deles caiu, eu fiz mais dois gols, ganhamos de quatro a zero e quando acabou o jogo, uns quinze rapazes de quinze a vinte anos, sei lá, “aí, Dada, dá um autografo aqui”. Eu, todo alegre. “Opa, Dadá é ídolo meu”. Quando eu fui dar o autógrafo, os caras me deram umas pancadas, me sangraram, me cortaram, cheguei no ônibus ainda cortado e tudo...

João Carlos Albuquerque: Como é que você escapou disso? Sozinho, teve ajuda?

Dadá Maravilha: Não, eu dei uns tapas, mas cada soco que eu dava ganhava dez...

Rodolpho Gamberini: Mas você disse que corre bem, né, Dada.

Dadá Maravilha: Não, mas num deu para correr, porque se desse eu corria, porque eu não gosto de brigar...

Rodolpho Gamberini: Dadá, você tava falando aí do gol que você fez, o “gol zebu”, de bumbum, a gente queria mostrar um gol para quem está vendo o Roda Viva, depois você falasse desse gol pra gente, é um gol que você marcou numa partida entre o Internacional e o Atlético Mineiro, vamos ver o gol olhando ali por aqueles monitores.

Dadá Maravilha: Eu até hoje posso dizer que o Dadá é o melhor preparo físico do mundo porque foi uma velocidade incrível né, uma impulsão fenomenal e depois do Pelé, queira ou não, o maior fenômeno da história do futebol mundial...

Rodolpho Gamberini: Dadá, quanto tempo você parou no ar ali naquele gol?

Dadá Maravilha: Eu, em primeiro lugar, eu fiquei emocionado  porque esse gol aí foi o “gol Shirley”, né, foi o “gol Shirley”, a minha filha nasceu, hoje ela tem dez anos...

Rodolpho Gamberini: Esse gol tem dez anos?

Dadá Maravilha: Tem dez anos.

Rodolpho Gamberini: E você, como é que essa história que você fica parado no ar muito tempo? Isso aí foi uma das suas técnicas de marketing, não é?

Dadá Maravilha: Não, isso aí realmente é uma realidade. [risos, alguém comenta: “E o pior é que ele acredita nele”] Não, mas eu paro no ar realmente. Eu peguei a técnica de parar no ar. Porque os beques sobem comigo e eles caem primeiro do que eu, que o Dadá. Inclusive isso começou foi no jogo Atlético e Valério, que deu o título ao Atlético em 78. O beque subiu comigo e ele caiu primeiro e eu tava no ar ainda e cabeceei e depois ele chegou e falou: “O Dadá realmente pára no ar, porque nós subimos juntos e eu caí primeiro”.

Rodolpho Gamberini: E você acha que você desenvolveu essa técnica ou é um dom divino?

Dadá Maravilha: Eu desenvolvi a técnica porque eu cheguei à conclusão. Porque eu vejo os nadadores nadando com aquela nadadeira e eles batem o pé sempre de lado, eles não ficam com o pé assim, eles batem o pé assim. E eu peguei e achei que no futebol quando a pessoa sobe com os pés juntos, ele pesa o corpo, então eu achei que fazendo assim, deixando o pé mais solto e depois, que eu dava a impulsão, a primeira impulsão, para trás. Então o que eu fazia: eu ficava mais leve para a densidade do ar, é menor do Dadá. Prendia a respiração, pra cabeçada sair mais forte e de olho aberto, porque os brasileiros, com exceção do Pelé e mais o Leivinha e mais uns três aí e  o Dadá que cabeceiam de olhos abertos, né.

Rodolpho Gamberini: E aí na hora que cabeceia solta o ar?

Dadá Maravilha: Não, eu não solto, eu prendo, cabeceio, depois que eu cabeceio, eu prendo, aí eu solto o ar porque eu sou mortal...

José Maria de Aquino: Amanhã vai ter reclamação dos clubes aí que pelo menos uns 800 moleques vão estar com o pescoço roxo...

Juarez Soares: Você já fez dupla de área com o Pelé, ou não?

Dadá Maravilha: É, eu tive o prazer de jogar com o Pelé na Seleção Brasileira.

Juarez Soares: Eu tava vendo que você falou do Pelé, depois do Pelé, o Dadá pára no ar, e eu peço que os companheiros entendam o que eu vou perguntar. Eu vi que o seu tornozelo está muito inchado, mas você vai disputar o campeonato mundial de sênior jogando ao lado do Pelé, ou você realmente encerrou a sua carreira? O seu tornozelo está um pouco inchado, você acha que vai dar tempo de você se recuperar, ou não?

Dadá Maravilha: Bem, isso aqui é uma fratura transversa da base do quinto metatarsiano. É muito bonita a fratura, mas é horrível como dói. E meu pé realmente tá inchado, mas eu tô fazendo um tratamento dia e noite, inclusive vou na Ponte Preta para fazer tratamento, faço em casa, porque quando eu vejo a seleção jogar e como fosse o cumprimento meu lá. E eu quero jogar nessa seleção porque eu tenho certeza que o Brasil voltará a ser campeão do mundo. E essa geração vencedora vai voltar a dar alegria ao futebol brasileiro. Então eu quero estar junto com esse pessoal e voltar a ser campeão mundial e tenho certeza que isso acontecerá.

Antônio Carlos Duarte: Dadá eu queria te perguntar...

Rodolpho Gamberini: Tunico, deixa eu te pedir licença só um minutinho para o Dadá e também a todo mundo que está participando da entrevista, vamos fazer um intervalo agora, daqui a pouquinho a gente volta, até já e a gente continua com o Roda Viva entrevistando Dadá Maravilha, até já.

[intervalo]

Rodolpho Gamberini: Nós voltamos então com o Roda Viva, esta noite entrevistando o centroavante Dadá, Dario Maravilha. E, antes de chamar o intervalo, eu tive até que caçar a palavra do Tunico, editor da Placar, para quem eu passo a palavra novamente, Tunico Duarte, por favor.

Antonio Carlos Duarte: Dario, como bem lembrou o Juarez aqui, vamos falar um pouquinho de tocar o realejo. Eu queria saber de você, se você acha que o futebol brasileiro, se ele ainda é o melhor do mundo, e qual é a solucionática para esse futebol?

Dadá Maravilha: Bem, eu vou ser sincero com o meu ponto de vista. O melhor é o que ganha, então o melhor atualmente é a Argentina. O brasileiro tem que cair na realidade de que caiu, caiu do pedestal, caiu aquela moral que o brasileiro tinha, de acabar com uma partida em lances isolados. O brasileiro hoje tem que jogar em conjunto, tem que ser uma equipe homogênea. Então, de modo que nós temos que buscar o nosso lugar comum, que nós condições de sermos ainda os melhores do mundo, mas com trabalho, humildade e dedicação.

Rodolpho Gamberini: Porque que caiu o futebol brasileiro, Dadá?

Dadá Maravilha: Em primeiro lugar, é a opinião do Dadá. O futebol brasileiro tá fazendo musculação demais, o jogador brasileiro tá ruborizado, entendeu? O jogo de cintura que o brasileiro tinha, aquela ginga, acabou. Então nós nos igualamos aos gringos no preparo físico. Eu lembro muito bem, eu já comi cenoura, chuchu, aqui no Brasil e já comi lá na Alemanha, de lá é bem melhor do que a de cá. É mais nutritiva, é mais proteína. Então eles são mais fortes do que a gente, a alimentação deles é mais sadia. Então no preparo físico, nós não vamos superar os gringos, nos superávamos na arte que nos tínhamos de melhor. Então, eu lembro no Internacional, eu fazia 500 abdominais, eu pegava a bola pela esquerda em diagonal, gingava e deixava o beque no chão. Hoje eu tenho quarenta anos, eu jogo com esses meninos aí, eu gingo e passo, porque os meninos estão com as pernas dessa grossura, com o braço desse tamanho, tão com o corpo bonito, pras menininhas ver, e chega no campo tão sem mobilidade. Então o futebol brasileiro hoje tá sem criatividade, tá sem mobilidade, você não vê mais jogadas em que o jogador dribla dois ou três, com exceção de um Pita e também lembrar agora de momento vai ser difícil, um Careca, um Bebeto.. Então fica difícil você encontrar jogadores que estão surgindo, porque tão tudo duro, entendeu? Inclusive quando você pega um jogador que ele vai virar, invés de ele fazer esse movimento, ele faz assim ó [mostra como faz o jogador]

Rodolpho Gamberini: Vai batendo o pé...

Dadá Maravilha: Entendeu? Vai batendo o pé, porque é uma situação que precisa fazer mais abdominal, fazer mais corda, fazer mais corrida, ficar parando nesse negócio só de gladiador. Depois que entrou gladiador no Brasil, o Brasil não jogou mais nada, nada, nada, desde 70...

José Carlos Cicarelli: Dentro desse tema, mais ou menos, qual o seu entendimento a influência que tem o treinador numa equipe, em termos aqui de porcentagem, que influência teria o treinador? Que aqui no Brasil se discute três anos, quem vai ser o técnico, não vai ser esse, vai ser aquele, tem problemas, um diretor é pró um, o outro diretor é pró outro e tal... Quem é o treinador, é um homem que pode resolver o jogo?

Dadá Maravilha: Pode. O treinador pode ser 100% como pode ser 0%. Porque se você botar um bom treinador no São Cristóvão, ele não vai ser campeão nacional, não tem condições, e se você pegar o São Paulo hoje e botar o pior treinador do mundo, com a filosofia que o São Paulo tem, ele poderá continuar e ser até campeão do mundo. Como aquela seleção de 70, o Zagallo foi um homem inteligente, ele não entrou em polêmica, ele foi um cara que conversava, porque ele não ia ensinar um Pelé a jogar bola, ele não ia ensinar um Gerson, mas ele chegava para o Gerson e dizia: “Qual o problema que você tá sentindo no campo”? Eu, por exemplo, como treinador, eu nunca vou usar o verbo no presente do indicativo, eu vou usar na primeira pessoa do plural, “que nós fazemos”, “nós vamos fazer”, “nós vamos ganhar”, eu não ganho e eu não perco. Então eu acho que, por exemplo, eu tô no campo eu tô sentindo uma coisa, o treinador tá fora e tá sentindo outra. Então ele chega e : “Ô, Dadá você tem que cair pela direita, porque o quarto zagueiro não tá bem”. Mas eu tô vendo que o beque central tá mal, tem menos velocidade, o quarto zagueiro corre mais, pula mais, então eu quero cair pelo outro lado. Então, às vezes, o treinador, ele vai de encontro, aliás, saí de encontro da verdade, e nós, jogadores que estamos dentro do campo, estamos sentindo outra coisa. E tem muitos treinadores que não têm o diálogo e acaba prejudicando a equipe, porque ele quer ser o dono da verdade, então manda você fazer aquilo que tá errado. Então o treinador inteligente é aquele que primeiro escuta o jogador, porque dentro de campo a gente sente uma coisa e quem tá fora tá vendo outra, é igual jogo de damas, duas pessoas tão jogando, o que tá fora tá vendo e começa a dar palpite, quando entra lá faz os mesmos erros.

Rodolpho Gamberini: O Avallone...

Juarez Soares: [...] então em dezesseis clubes que você jogou em vinte anos, qual é o maior treinador do Brasil?

Dadá Maravilha: Bem, o treinador que me impressionou bastante, é o melhor, por ter me impressionado, o Telê Santana que eu conheci no Atlético, depois ele mudou muito, o Telê mudou muito, porque na minha época eu posso falar ele mandava pedindo. E o Telê que tem hoje ele pede mandando, então...

Regiane Ritter: Ele mudou para pior?

Dadá Maravilha: É mudou para pior, mudou para pior, porque eu acho que o sucesso fez mal a ele, entendeu? E o Minelli também foi um bom treinador, também, que eu tive, e eu tive bons treinadores...Mas esses foram... O Zagallo foi muito bom treinador, inclusive eu achei o Zagallo até o momento que eu conheci, super inteligente...

João Carlos Albuquerque: E quem deveria ser o técnico, o futuro técnico da seleção, Dario, na sua concepção?

Dadá Maravilha: Hoje?

João Carlos Albuquerque: Hoje.

Dadá Maravilha: O treinador do São Paulo...

Valdir Zuet: O Cilinho, ex-treinador, né...

Dadá Maravilha: Não, é o Pepe, hoje é o Pepe...

Roberto Avallone: Aproveitando o gancho...

Rodolfo Gamberini: Aproveita Avallone...

Roberto Avallone: Aproveitando a franqueza do Dario, falou tanto sobre doping, o futebol brasileiro em geral, eu falaria sobre um outro doping, o “doping do amor”, do amor à camisa. Eu tava ouvindo o Dario falar, ele se lembra com detalhes, com riqueza de detalhes de um gol que ele fez em 78, depois o “gol independência”. O Pelé também tem isso porque fazia os gols com amor. Você que conviveu, Dario, com várias gerações de jogadores, o que inspira no jogador de hoje, e aqui nós temos vários juvenis, essa apatia, quer dizer, essa robotização, parece que eles fazem um exercício, é a profissão, tem que jogar, mas sem amor, sem amor à camisa, por que Dario?

Dadá Maravilha: Não, na realidade, os meninos hoje estão temerosos. Porque eles vêem muitos exemplos de jogadores do passado que hoje tão na miséria, então a tendência primeira é falar para o jogador: “aproveite, você tem que ganhar dinheiro, você tem que ficar rico”. Então ele fica puramente profissional e ele perde a essência maior do futebol que é aquele amador de espírito, de coração, então ele perde a essência maior, que vem de encontro ao torcedor, que é o amor à camisa...

Juarez Soares: Dadá, você depois de vinte e tantos anos, quase mil gols, ficou rico com o futebol?

Dadá Maravilha: Eu, rico não estou, por que...

Juarez Soares: Uma casinha aqui...

Dadá Maravilha: Eu deixei de sair do Brasil, eu tive várias chances de sair do Brasil, porque ficar rico com o cruzado [nome da moeda brasileira na época], é difícil. [risos] O cara pra ficar rico, ele primeiro tem que botar dólar e eu reneguei o dólar. Eu não posso reclamar porque eu tenho uma vida modesta, boa, decente, e eu não vou dizer que eu sou milionário porque o que eu tenho, eu tenho que dividir com sete pessoas e para dividir uma fortuna entre sete, aí fica pouco...

José Maria de Aquino: Você, uma vez Dadá, disse que tinha um filho que ia jogar tanto ou mais que você, e quem que fosse inteligente devia comprar o passe dele quando ele tinha quatro ou cinco anos. Já vendeu o passe dele, ou não?

Dadá Maravilha: Não, ele inclusive, ele tá com sete anos hoje, eu fiquei impressionado a semana passada, eu treinando, e levei ele para treinar comigo e ele deu um drible, ele tá com sete anos, e ele deu um drible, que não existe hoje, de levar a bola com o pé direito, toca o corpo pra lá e com o próprio pé direito, ele toca para cá, pega o beque sempre indo pro outro lado. Eu fiquei impressionado com aquilo. Primeiro que eu não ensinei a ele, eu não ensinei porque eu não sei, né... [risos] Foi uma coisa pura, uma coisa de Deus, que eu fiquei impressionado com ele. Vai ser um craque.

Regiane Ritter: Dadá, eu vou fazer duas coisas para você que as feras estão pressionando, tão fechando o cerco e eu não tô conseguindo penetrar, agora eu vou fazer duas de uma vez. Eu desafio alguém a me interromper. Primeiro, esse folclore, toda essa poesia, você fez do seu mundo uma poesia, com os pés bem no chão, a gente percebe que você tem a cabeça no lugar e dá uma lição de vida a muita gente que cursou não uma, mais duas ou três faculdades. Não é um elogio, eu tenho um medo enorme de cair no exagero, é a necessidade de sentir uma admiração muito grande por você, porque um homem que diz, que não pode dar o pão, dá o circo, que o divino distribui o pão, e na pior das hipóteses, vai sobrar migalha para a gente, tá dando uma lição de vida em muita gente. A primeira pergunta: dentro desse folclore todo, dessa poesia toda, você acredita em azar no futebol, em pé frio no futebol, em alguém que possa dar azar, ou ter azar, eu vou citar como exemplo um dos maiores goleiros do Brasil, talvez o melhor no momento, que não ganhou um título, e dificilmente conseguirá levar esse estigma, essa cruz de pé frio, o goleiro Carlos, do Corinthians. Você acredita em pé frio, você tinha algum ritual, você tinha alguma coisa que te protegesse de um possível azar?

Dadá Maravilha: Falando no Carlos, em primeiro lugar ele é quatro de março, como o Dadá também é quatro de março...

Regiane Ritter: Quatro de março...

Dadá Maravilha: Quatro de março, nascemos em quatro de março. O Carlos, realmente, ele deu azar de pegar uma geração perdedora, perdedora pelos próprios princípios, não que esses jogadores não fossem tão bons quanto o Pelé, o Gerson, o Rivelino, muito pelo contrário, é, porque estudaram na mesma faculdade e se formaram também. Tão somente pela filosofia, porque o Brasil depois de ser tricampeão do mundo, ficou como o dono da verdade, e achou que deveria modificar. Então os treinadores que chegaram não queriam imitar setenta, queriam fazer coisas diferentes, para inovar, para dizer que tavam fazendo, modificando. Eu sinceramente não modifico o certo.

Regiane Ritter: Mas você que dizia agora há pouco, que correu atrás da sorte, então não acredita no azar, num possível...

Dadá Maravilha: Eu não acredito no azar. Eu não acredito no fracasso, eu acredito em derrotas temporais.

Regiane Ritter: Segunda e talvez a última pergunta que eles estão me secando aqui. Quem é, na sua opinião, no momento, o melhor centroavante brasileiro e qual deles se aproxima mais de você no comportamento? No comportamento alegre, fazendo do futebol uma festa?

Dadá Maravilha: O Careca, meu ídolo.

Rodolpho Gamberini: Todo mundo aqui certamente tem muitas perguntas ainda para você Dadá, mas tem uma pessoa que não está aqui e gravou uma pergunta para você, que é o Wladimir, que é presidente do sindicato dos atletas profissionais e jogador de futebol e a pergunta entra por aquele monitores, por favor.

Wladimir: Eu gostaria de saber de você Dadá, qual a sua receita para essa geração  que está chegando, quer dizer, eu acho muito importante que de repente o atleta profissional de futebol consiga dar essa longevidade na carreira, e isso eu tenho certeza que você tem uma receita muito sua.

Dadá Maravilha: Bem, tá na Bíblia, né, honrar pai e mãe. Porque começa do lar né, a gente tem que respeitar os pais, porque ninguém quer mais o bem da gente que os pais. E é normal, o atleta quando começa a vencer, a primeira pessoa que ele entra em polêmica são os pais, porque eles acham que os pais, pela proteção que querem dar começam a ser chatos, então ele acha que já é hora de sair da saia da mãe, então eu sou dono do meu nariz. É a pior coisa que tem no atleta que tá iniciando. Continue obedecendo os seus pais, porque ninguém mais do que eles sofre nas tristezas e ficam alegres nas alegrias. E levar o futebol a sério. E usar uma palavra que eu uso, eu sou cansativo em falar, amor no que faz, porque a pessoa que ama o que faz, que faz com alegria, que tem confiança no seu poder, todo mundo tem um poder de recuperação, tem um poder sobrenatural. Porque se eu quero, eu consigo. A própria Bíblia diz “a fé remove montanhas”.  E eu, por exemplo, não tenho nenhum vício, não bebo e não fumo, eu recomendo também a esses atletas não ter esse vício e se tiverem também fazer com moderação, entendeu? Principalmente no dia do esporte evitar fumar 24 horas, ou 48 horas, antes do esporte, evitar beber, evitar fumar, se não conseguirem parar por completo do vício. E é aquilo que eu te falei, o principal é obedecer os pais, porque os vícios, eles saem de casa.

João Carlos Albuquerque: Agora esse negócio de concentração, tirar o jogador, principalmente o jogador casado antes de uma partida e tal. Isso aí acho que não tem problema não, não é, Dario? Acho que você segue aquela receita do Monsieur Binot deu à cantora Joice, né. Não fumar, não beber, mas fazer muito amor que amor não faz mal. Então esse negócio de confinar o atleta, tirar dele, inclusive o sexo antes de um grande jogo, você também acha que é bobagem ou não, você acha que...

Dadá Maravilha: Inclusive o sexo, ele não faz tanto mal quanto namorar, né. Porque namorar o cara fica sustentando o corpo e tal realmente ele arrebenta com os amigos. [risos] E o sexo você, realmente fica até mais leve, para o Beija-Flor é até bom o sexo...

Marcos Ferman: Dario, qual é a seleção brasileira de todos os tempos, todo guri que faz isso aí, pensa, um grande goleiro, grandes zagueiros, grandes ponteiros, centroavantes... A seleção brasileira de todos os tempos de Dadá Maravilha.

Dadá Maravilha: Olha, vou te contar... Eu sei que vai ficar difícil para mim porque eu peguei uma geração mais de 58 para cá...

Marcos Ferman: De cá, do seu tempo então...

Dadá Maravilha: É, do meu tempo para cá, então eu ficaria com o Gilmar né, aí é uma briga boa o Carlos Alberto e o Djalma Santos, é...

Marcos Ferman: Escolhe um Dadá...

Dadá Maravilha: Vocês me ajudam aí... Porque é difícil, são dois craques fora de série, Djalma Santos e... então pronto, eu vou ficar com o Djalma Santos. Agora, o meu beque central é o Luis Pereira, sou fã desse Luis Pereira...

Marcos Ferman: Ele te marcava bem?

Dadá Maravilha: Ele já ganhou uns quinze motoradios às minhas custas. [risos] Sempre acabava comigo, sempre acabava, me arrebentava. Você diz seleção ou os melhores jogadores que eu vi jogar?

Marcos Ferman: Os melhores jogadores em cada posição...

Dadá Maravilha: O melhor em cada posição, porque, por exemplo, o Leônidas, para mim, no Botafogo, foi o melhor quarto zagueiro que eu vi jogar, que era do América, do Botafogo, uma categoria incrível, mas, realmente, não foi um jogador que jogou tudo o que sabia na seleção brasileira...

Marcos Ferman: E o lateral esquerdo?

Dadá Maravilha: Lateral....[fica pensativo]

Roberto Avallone: Nilton Santos?

Dadá Maravilha: É, tem que ser enciclopédia, a enciclopédia, já diz tudo...

Marcos Ferman: E teu meio de campo?

Dadá Maravilha: Meio de campo? Tem que ter Gerson né, tem que ter Gerson, é obrigado...

Marcos Ferman: E o volante?

Dadá Maravilha: O volante? Oh, meu Deus do céu, vou botar o Gerson de volante para poder colocar mais craques no time. [risos]

Juarez Soares: E você precisa tomar um certo cuidado com esse meio de campo, porque do jeito que a gente tá fazendo agora, todo mundo tá vendo aí onde é que você vai botar o Pelé, se vai botar lá na frente ou no meio de campo.

Dadá Maravilha: É, porque vai ficar o Zito, Pelé e o Gerson, né. O Rivelino tem que jogar, porque o Rivelino, pelo amor de Deus, para mim...

Marcos Ferman: Então coloca ele na ponta-esquerda, tem um lugarzinho lá...

Dadá Maravilha: Eu ponho ele na ponta esquerda então. Me desculpe, Rivelino, para mim você é um dos maiores craques de todos os tempos do Brasil, mas você pega a ponta-esquerda aí [risos] apesar de que... Ponta-direita é Garrincha, né...

Rodolpho Gamberini: Você tem alguma coisa contra...

Dadá Maravilha: O centroavante...

 [?] : O centroavante é o Dadá.

Dadá Maravilha: Não, é o Tostão.

[?]: O Tostão foi centro-avante mesmo, ou ele foi mais meia?

Dadá Maravilha: Não, foi centro-avante.

Valdir Zuet: Dadá, eu queria perguntar uma coisa para você, a gente já tocou aqui, você já tocou em alguns assuntos que são tabus: o homossexualismo, doping, drogas, eu te pergunto sobre suborno. Alguém já tentou pagar o Dadá para não fazer gol?

Dadá Maravilha: Já.

Valdir Zuet: Conta para nós.

Dadá Maravilha: Em 1971, nós íamos jogar contra o Botafogo do Rio, e um cara de São Paulo chegou com uma mala preta perto de mim, brincando: “Olha, Dadá, só quem faz gol é você mesmo e você não vai fazer gol, se você não fizer gol, quanto que você vai ganhar? Eram dez mil cruzados, dez mil cruzeiros na época...

Juarez Soares: Ao contrário, acho que eram dez milhões...

Dadá Maravilha: Dez milhões, isso mesmo. E era o prêmio da gente. E ele falou assim: “Eu te dou vinte para você não fazer gol”. Aí eu peguei brincando com ele, falei: “Mas vinte é pouco, vinte é muito pouco”.

Rodolpho Gamberini: Você não tava acreditando na história?

Dadá Maravilha: Eu, brincando com o cara, eu falei:  “Se você me der quarenta, a zaga lá não faz nenhum gol”. Aí ele falou: “Tá fechado”. Pô, mais quarenta milhões era dinheiro demais, dava pra comprar um apartamento de quatro quartos. E eu era muito amigo do Normandes, ainda sou, o Normandes que jogou no Atlético Mineiro, e cheguei com ele e falei: “Normandes, tá tendo um cara aí com a mala preta, chegou me dizendo pra mim não fazer nenhum gol, ele me dá quarenta milhões de cruzeiros”. “Pô, Dario, é brincadeira sua, é gozação, você tá brincando”. Aí eu falei: “É, ele vai no portão dezoito, quando nós chegarmos, ele vai chegar com o dinheiro lá”. Eu falei para ele chegar com o dinheiro. E contei pro Vantoir e contei para os jogadores todos né, ficaram todo mundo rindo. E eu sempre gosto de tirar uma pestana antes do jogo. Isso é coisa de rei né, Pelé também gosta. [risos]

Rodolpho Gamberini: Você dorme antes do jogo, é isso?

Dadá Maravilha: É, eu durmo, gosto de tirar uma pestaninha, tô vindo no ônibus tirando uma pestana, tal, aí quando eu saí, quando os jogadores saíram, eu saí por último, o cara tava me esperando, e o Normandes me esperando, o cara veio com a mala e falou: “Olha, Dario, eu tô com a mala aqui cheia de dinheiro”. Falei: “Amigão, você pode guardar que o Atlético vai ser campeão e vai ser gol meu”. E realmente o Atlético foi o campeão e eu fiz o gol e quando acabou o jogo, naquela festa todinha, eu não sei como esse cara entrou no vestiário, bateu na minha cabeça e falou: “Olha, Dadá, você é muito honesto”. E foi embora e eu fiquei rindo.

Valdir Zuet: Você tem uma memória prodigiosa, você lembraria o nome dele, ou não?

Dadá Maravilha: Não lembro. [risos] Eu só sei que não era João, nem Joaquim. [risos]

Juarez Soares: Dadá, você tá pra iniciar uma nova carreira, que é a carreira de técnico de futebol, então eu vou te perguntar: você abordou aqui realmente assuntos que outros jogadores não teriam coragem de abordar, como o homossexualismo quando o garoto que está começando, o problema do doping. Você não tem medo que os seus colegas de profissão que estão atuando, ou que os dirigentes, os presidentes dos clubes, interpretem mal  o que você está falando?

Dadá Maravilha: Não, não...

Juarez Suares: E bloqueiem a sua carreira de técnico?

Dadá Maravilha: Não, eu não tenho problema, porque eu tenho muita consciência do que eu tô falando, porque para eles eu falei a mesma coisa, que não adiantava nada daquilo, entendeu? Então, é um alerta para o futebol brasileiro. Inclusive eu prefiro não citar os nomes para não feri-los, não só pela ética profissional, mas porque eu acho que todo mundo tem direito a se recuperar, entendeu? Então de modo que eu não estou aqui criticando aqueles que fizeram isso para acabar com a carreira deles, tão somente para alertar que essas pessoas não venham a fazer. Pelo menos, se o Dadá servir como exemplo, né, eu que joguei vinte anos né, e estou inteiro, enxuto, um corpo lindo desse, se servir de exemplo, eu fico feliz...

Rodolpho Gamberini: Você se acha bonito, Dadá? Você se acha bonito?

Dadá Maravilha: Bem, quando eu saio de shortinho amarelo e eu vou à praia, as meninas dizem que eu sou gostoso. [risos].

Rodolpho Gamberini: Ah é? Mas você tava me contando aquela história do seu filho, como é que foi, você rezou, como é que é o negócio?

Dadá Maravilha: Não, eu gastei o meu pagamento em vela rezando para que as minhas filhas não saíssem com a minha cara, né. [risos] E graças a Deus, elas saíram parecidas com a fisionomia da minha mulher que é muito bonita.

Regiane Ritter: Dadá, você alguma vez teve problemas com elementos da crônica, com a imprensa em geral, com um determinado repórter, de rádio, televisão, jornal, teve problemas, discussão, alguma coisa que desagradasse você?

Dadá Maravilha: Não, eu realmente já fui muito criticado né, mas eu sempre respeito o repórter como um profissional, ele tá na sua profissão. E depois, eu sempre tive uma mentalidade: se uma pessoa critica Dadá, eu treino mais e faço bastante gols para provar àquela pessoa que aquelas críticas não eram válidas para o Dadá.

Regiane Ritter: Nessa última Copa do Mundo, a imprensa criticou demais o Telê Santana, a comissão técnica, o chefe da delegação. A imprensa do Rio queria estraçalhar o Telê Santana, a de São Paulo tentava ajudar, se dividiram em grupos, e ficou uma coisa realmente muito ruim, em termos de trabalho até, porque as coisas eram dificultadas para a imprensa lá no México. De repente, você acha que a imprensa pode ter atrapalhado em alguma coisa?

Dadá Maravilha: Não, a imprensa, ela tem as suas virtudes como tem os seus defeitos, entendeu? Ela ajuda como atrapalha também. Atrapalha no sentido desse regionalismo, esse regionalismo que eu digo mais do Rio - São Paulo, porque um quer papar o outro né. Um quer ser mais bamba, quer ter mais prestígio nacional, quer ser a melhor imprensa. Então há uma competição, e depois se não houvesse também, o futebol seria prejudicado com isso. Eu acho válido, agora tudo tem o seu limite.

[?]: Tem diferença, o futebol do Rio e de São Paulo para você?

Dadá Maravilha: Tem, o futebol carioca é um futebol mais arte, um futebol mais solto; o futebol paulista é um futebol mais competitivo, é um futebol mais forte, mais difícil.

José Carlos Cicarelli: Dadá, você tem muitas idéias e está provando isso aqui, nesta mesa e eu pergunto: as eleições foram organizadas agora, você, constituinte e tudo mais, por que você não foi candidato?

Dadá Maravilha: Olha, eu já, inclusive a minha mulher quis me bater, eu fui convidado para ser candidato em Belo Horizonte, com tudo pago, dos partidos, ganharia fácil porque eu sou ídolo lá, mas eu faria uma coisa que eu não gosto. Eu não sou escravo de dinheiro, minha mulher brigou comigo, mas são sessenta e quatro mil cruzados. Eu falei: “Mas eu vou ganhar um dinheiro que eu não quero”.

José Carlos Cicarelli: Sessenta e quatro pra quê, deputado?

Dadá Maravilha: Para deputado, eu ganharia, tenho certeza que eu ganharia. Mas eu não entro, primeiro: porque eu seria uma vaquinha de presépio, diria amém para os outros porque eu não teria condições de ajudar o povo. Então eu acho que eu tenho que ser honesto comigo mesmo. Então preferi não entrar. Agora, daqui a quatro anos, oito anos, que agora eu já tô entendendo um pouco de política, já estou ouvindo, já estou lendo, tô tendo uma noção mais ampla do nosso querido Brasil adormecido né, gigante adormecido. Então eu acho que daqui a quatro anos eu terei condições de ajudar o meu próximo, porque no futebol eu ajudei.

João Carlos Albuquerque: O Cicarelli falou em política, Dadá, digamos que você tivesse se candidatado e fosse hoje um deputado constituinte, o que você sugeriria para a nova constituição que vem aí, o que você acha fundamental, hoje, para a gente alterar politicamente nesse país e que você lutaria para ver incluído na nova constituição?

Dadá Maravilha: Acabar com o negócio de padrinho. É filho de não sei quem, é secretário de não sei quem, então seria na base do concurso, porque você vê muitos casos aí de preto, inclusive, concursado, e não entrar por ser preto. Eu conheço um que inclusive, foi concursado e não entrou - entendeu? - por ser preto. E tantos casos assim, as diversas regalias que os próprios políticos têm, porque não é possível um político fazer uma fortuna em quatro, oito anos. Porque eu não acredito que um cara com sessenta e quatro mil cruzados no quarto ano vai ficar milionário. Ele vai viver bem, mas milionário não fica.

Rodolpho Gamberini: O Adilson por favor, o Adilson que tá na frente aí das perguntas...

Adilson Monteiro Alves: Doping, suborno, homossexualismo, bairrismo, eu acho que são conseqüências dessa estrutura do futebol que é paternalista, que é autoritário, poderia até falar um pouco mais as causas. Mas o que a gente pensa é que há uma hipocrisia muito grande na hora de se tratar desses assuntos. O Dario vem aqui com franqueza, com sinceridade, com honestidade, com lucidez principalmente, e coloca esses assuntos todos que nós todos conhecemos também, sabemos que existe, a gente até conversava aqui com o Avallone, tem que ser levantado, porque quem tá no futebol sabe que isso existe, e eu tenho a coragem de colocar, coragem que você tem, mas o telespectador não conhece, não sabe que a coisa é realmente assim, existe esse lado muito sujo do esporte. Então eu gostaria muitíssimo hoje de estar em algum clube para levar o Dadá para lá, para aproveitar exatamente esse aspecto educador, de mestre mesmo, político, do Dario. Então com essa bagagem toda, como é o Dadá pai, com o Dadazinho? E você não pode esquecer que o Dadazinho tem o passe contratado, comprado já pelo [?], eu recebo muito Dadazinho lá na Bahia há uns três anos atrás. Como é que é o Dario com o Dadazinho?

Dadá Maravilha: Olha, em primeiro lugar, eu fui um cara que não tive carinho. Minha mãe, quando eu tinha cinco anos, doente mental, tacou querosene no corpo e se suicidou. Meu pai, analfabeto, morreu com vinte e um anos. Eu fiz sexo a primeira vez com vinte anos, então eu não tive infância, sofri demais. Quando eu casei, casei com a primeira namorada, com o primeiro beijo, e tenho dezoito anos de casado, sou muito feliz. E não tive amor, me desdobro para dar para os meus filhos que são quatro, três meninas e um menino. Tento ser um bom pai, acredito que seja porque, antes de ser pai, eu sou amigo deles.

Rodolpho Gamberini: Avallone...

Roberto Avallone: Dario, eu queria voltar a um tema que você tocou aqui: racismo. Você já foi vítima, ou viu vítimas do racismo no nosso futebol?

Dadá Maravilha: Bem, eu sinceramente, não vi dentro do futebol assim um racismo. Agora, fora do futebol já, inclusive eu já saí de clube por ser preto, tive problemas em moradia no próprio Rio de Janeiro, por ser preto.

Roberto Avallone: Qual clube, por exemplo, você foi lá  e não te aceitaram, coisa  assim?

Dadá Maravilha: Não, eu não tive assim problema de racismo, é porque eu era ruim mesmo. [risos]

Rodolpho Gamberini: Deixa eu só fazer um aviso para o pessoal que está assistindo o Roda Viva essa noite em casa que hoje infelizmente o programa foi gravado com certa antecedência e por isso vocês que estão vendo o Roda Viva não podem fazer perguntas pelo telefone para o Dadá. Por favor, Albuquerque.

João Carlos Albuquerque: O Marcos disse que muita gente já sofreu aqui com você, e isso porque quase todo mundo aqui é paulista e você à exceção da Ponte Preta, do XV de Piracicaba, você não jogou em São Paulo, você não jogou no Santos, no Palmeiras, no Corinthians, no São Paulo, na Portuguesa de Desportos, quer dizer brilhou durante tanto tempo em Minas, no Rio, em toda a parte nesse país...

Marcos Ferman: Infelizmente no Rio Grande do Sul...

João Carlos Albuquerque: E não jogou aqui, é no Rio Grande do Sul, e não jogou aqui. Por que Dario? Existe uma coisa de que você não jogou no Corinthians, que o Corinthians teve chance de te contratar, o Adílson até brincou com isso aí, que se fosse na época dele, ele teria te contratado. Mas porque também nos outros grandes clubes de São Paulo, e eu me lembro agora, fazendo essa pergunta para você, do caso do Reinaldo, que foi o centroavante que te sucedeu no Atlético Mineiro, ele só veio jogar aqui em São Paulo, no Palmeiras, quando já estava com o joelho totalmente estourado pela, segundo ele, incompetência de muitos médicos que passaram pelo Atlético e tal. Por que isso, Dario?

Dadá Maravilha: Olha, eu tive pra vir pro Santos em 73, entre o Santos e o Flamengo. E na escolha, eu deixei a minha esposa, ela escolheu o Flamengo, e eu fui para o Flamengo. Então eu teria condições de vir para o Santos. No Corinthians, em 77, o Vicente Matheus [(1908—1997), empresário espanhol naturalizado brasileiro, tornou-se nacionalmente conhecido como presidente do Sport Club Corinthians Paulista, dirigindo-o por oito mandatos] foi para me comprar e no jogo contra o Nacional do Equador, o Inter ganhou de dois a zero, eu fiz os dois gols do Beija-Flor e ganhei todos os prêmios como melhor em c ampo. E na saída, o Vicente Matheus já estava conversando com a minha esposa, inclusive eu achei estranho, porque minha mulher sempre me dava um beijinho do lado, e ela correu e me deu um beijo na boca de satisfação. Eu falei:  “Olha, filhinha, mas gol eu faço sempre, pra quê esse beijo”? Ela falou: “Olha quem está atrás da gente”. Eu olhei, vi o Vicente Matheus. Ele falou: “Dadá, amanhã você vai pro Corinthians”. Meu coração quase parou de alegria, mas aí deu no rádio, logo quando acabou o jogo, que eu ia pro Corinthians, que eu já tava contratado. A torcida tacou fogo nas bandeiras,  começaram a telefonar pro presidente dizendo que iam quebrar a casa dele, seqüestrar o filho, e desfizeram a transação.

José Maria de Aquino: Dadá, eu tenho até impressão que foi no seu apartamento, em Guadalajara, quando alguns jogadores da seleção em 70 convidaram o Zagallo para um papo mais descontraído  e pediram a ele que fizessem algumas modificações no time, é verdade essa história, não?

Dadá Maravilha: Eu tenho conhecimento das coisas porque praticamente a gente era uma família só e tomava conhecimento das coisas. Eu defendo o Zagallo, porque o Zagallo para mim foi uma pessoa inteligente, porque o Rivelino não poderia ficar no banco, de maneira alguma...

José Maria de Aquino: Daí ele aceitou a...

Dadá Maravilha: Foi um consenso e a turma achava que o Rivelino tinha que jogar, e ele cedeu às pressões e colocou o Rivelino no time, porque era uma coisa lógica, o Rivelino jogou e foi a maravilha que todos nós conhecemos.

José Maria de Aquino: Mas foi só o Rivelino?

Dadá Maravilha: Não, o Rivelino porque o Jairzinho também tava na reserva, o Rogério tava jogando, mas o Rogério machucou, o Jairzinho entrou e jogou, para mim foi o melhor jogador do Brasil.

João Carlos Albuquerque: Tem o Tostão também que o Zagallo não queria colocar ao lado do Pelé...

Dadá Maravilha: O Tostão e também a turma achava que ele tinha que jogar. Então eu achei que o Zagallo foi inteligente, ele não foi o dono da palavra, ele tinha diálogo.

Marcos Ferman: Você como treinador ouviria assim os seus jogadores?

Dadá Maravilha: Primeiramente, eu vou ouvir todos os meus atletas, todos eles terão oportunidade de dizer o que estão sentindo porque fora do campo a gente sente, vê um ângulo, e eles dentro tão vendo de outro ângulo.

Marcos Ferman: Você teve algum treinador muito autoritário, Dario, que atrapalhava o time?

Dadá Maravilha: Ah, tive bastante...

Roberto Avallone: Yustrich [Dorival Knippel, ex-técnico e ex-goleiro]?

Dadá Maravilha: Não, o Yustrich para mim foi um pai, foi o homem que me deu chance, eu pelo menos, se eu falar mal do Yustrich eu seria um ingrato, foi um pai pra mim, um homem que me ajudou.

Roberto Avallone: Mas era autoritário.

Dadá Maravilha:Tenho o maior carinho... Não, o Yustrich ele tem um coração grande, ele é divino, é um homem que chora. Eu aprecio muito homem que chora.

Marcos Ferman: Treinador, às vezes, perde a partida assim, quer dizer, atrapalha o time, perde um jogo, você viu algum treinador perder um jogo porque atrapalhou o time?

Dadá Maravilha: Ah, várias vezes, treinador perde, como ganha, ele perde como ganha, muitas vezes ele faz substituições incríveis, e tira jogadores que estão bem. E muitas vezes, ele tira um jogador porque brigou durante a semana para castigar o jogador e acaba castigando o time.

Juarez Soares: Dadá, você acha que existe lugar no futebol de hoje para um centroavante como você foi, um centroavante rompedor. Você disse, inclusive no começo do programa, que até hoje você não domina bem uma bola, quer dizer, existirá sempre um lugar para o centroavante rompedor ou o futebol está marcando uma época em que o centroavante tem que ser mais ou menos o estilo Careca, um jogador que tenha realmente mais habilidade, pela violência até que está imperando um pouco no futebol?

Dadá Maravilha: Você falou tudo. Hoje o centroavante trombador, ele está entrando em extinção, porque ele tem pouca habilidade, precisa de alguém para auxiliá-lo, ele precisa sempre de um SOS, não tem, acaba se perdendo. Então o campo hoje tá mais para os jogadores técnicos, porque ele tá jogando isolado, então fica difícil para o trombador jogar hoje.

Rodolpho Gamberini: O nosso tempo do Roda Viva está se esgotando, mas ainda há tempo suficiente para o Tunico Duarte, da revista Placar, te fazer a última pergunta, por favor, Dadá.

Antonio Carlos Duarte: Eu queria te perguntar o seguinte: falando aí de ouvir jogadores, filosofia de trabalho, aproveitando a presença do Adilson aqui, nós tivemos aqui no futebol paulista a democracia corintiana. Ela criou muitos inimigos, na minha opinião ela tentou virar o futebol brasileiro de cabeça para cima. Eu queria saber se você se inclui entre esses inimigos da democracia corintiana ou você acha que ela apontou o caminho da luz?

Dadá Maravilha: Bem, eu não me considero inimigo, eu apenas acho que foi uma situação até inusitada , porque ninguém podia esperar que de repente acontecesse isso, principalmente no Corinthians, que tudo que o Corinthians faz é novidade, é notícia. Se fosse uma Portuguesa talvez não tivesse essas especulações, mas Corinthians é Corinthians, um Flamengo, um Atlético Mineiro, um Internacional, então nessas equipes, tudo o que eles fazem, a dimensão é maior. E realmente o Corinthians fez uma coisa e deslumbrou o mundo, mas foi uma coisa bonita, as intenções foram válidas, entendeu? Agora é lógico que tiveram os seus defeitos e o próprio Adilson pode dizer por mim que tem uma experiência maior no caso.

Valdir Zuet: Dadá, para encerrar, já que o Rodolpho quer que encerre, qual o time que você gostaria de ter jogado e não jogou?

Dadá Maravilha: Corinthians. Inclusive foi a minha tristeza porque eu joguei no Internacional, no Atlético, Flamengo e das quatro grandes forças de torcida do futebol brasileiro ficou faltando o Corinthians. Mas eu tenho certeza que serei treinador do Corinthians, porque o Corinthians precisa ser campeão nacional.

Rodolpho Gamberini: Promete que é bem curtinha...

Regiane Ritter: Prometo. Aqui, sem sentir o gramado, sem a bola por perto, sem o gol à frente, pisando no carpete com essas feras todas à volta e os meninos te observando, quantos gols você acha que fez aqui? Quantos dribles você teria dado?

Dadá Maravilha: Mil, mil dribles, porque eu só encontrei fera pela frente.

Rodolpho Gamberini: Dadá, você disse que quando você deixar de jogar futebol, vai desaparecer dos estádios o único palhaço do futebol brasileiro. Por que você falou isso?

Dadá Maravilha: Eu quis dizer que o futebol brasileiro iria perder a alegria, técnica não perdeu em nada, entendeu? Vai perder o artista, aquela arte de alegrar o povo, do povo ir pro campo sabendo que ele ia ver a coisa, ou melhor, coisa não fica bem, a essência do futebol que é o gol, porque o Dadá era uma confirmação do gol, e talvez isso não tenha em outro jogador.

Rodolpho Gamberini: Tá bem, Dadá, muito obrigado pela sua entrevista, eu gostei muito, acho que todos os nossos convidados gostaram também. [aplausos] Agradeço. Muito obrigado, então, a todos que participaram da entrevista e principalmente a você, Dadá, muito obrigado. E o Roda Viva volta segunda que vem, às nove e vinte da noite, até lá.

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