Memória Roda Viva

Listar por: Entrevistas | Temas | Data

Daniela Mercury

1/1/1996

A cantora, uma das precursoras do axé music e do samba reggae, além da falar sobre música e Carnaval, enfatiza a necessidade de envolvimento dos artistas com os problemas sociais

Baixe o player Flash para assistir esse vídeo.

     
     

[programa gravado, não permitindo a participação dos telespectadores]

Matinas Suzuki: Boa noite, o canto do Roda Viva esta noite é de Daniela Mercury.

[Comentarista]: Unindo samba ao pop, eletrizando a axé music, Daniela Mercury é perita em arrebanhar multidões com suas músicas. Bailarina desde os oito anos de idade, aos 16, ela já cantava na noite baiana, e um ano depois, começava a atravessar os carnavais sobre trios elétricos. Cantando por horas a fio, justifica os apelidos de infância "pinga-fogo" e "furacão". O carnaval de Daniela se projetou para além dos trios elétricos. Com três discos, ela conquistou uma coleção de troféus e se tornou a primeira brasileira a receber um disco de diamante, o que equivale a um milhão e duzentas mil cópias vendidas do álbum O Canto da Cidade [1992]. Na Argentina, ela ganhou disco de ouro antes de fazer qualquer apresentação, e nos Estados Unidos o jornal The New York Times celebrou sua música como uma peça legítima da cultura pop internacional. Daniela Mercury conquistou o mundo sem se descuidar de sua vida pessoal. Filha de um corretor de imóveis e de uma socióloga, casada e mãe de dois filhos, a cantora conta com um esquema familiar de assessoria que contrasta com sua imagem frenética no palco. Contratada por cinco anos pela gravadora Sony, ela acha que algumas de suas músicas podem ser traduzidas para o espanhol e até para o inglês. Seria mais uma etapa na carreira da moça, capaz de fazer sucesso em qualquer lugar do planeta, sempre mantendo a magia de esquentar a multidão onde quer que se apresente.

Matinas Suzuki: Para entrevistar Daniela Mercury esta noite, nós convidamos o produtor musical, músico e compositor João Marcelo Bôscoli; o poeta e animador cultural Waly Salomão; Soraia Yoshida, que é editora-chefe da revista Áudio News; a Vera Souto, que é repórter da TV Cultura; Paulo Lima, editor da revista Trip; Okky de Souza, editor da revista Veja; Nizan Guanaes, diretor de criação da DM9 Publicidade. Eu lembro a vocês que o Roda Viva é transmitido em rede nacional por 48 outras emissoras, em 17 estados brasileiros. Hoje não estamos citando perguntas dos telespectadores porque este programa foi gravado no ano passado. Bom, parece que temos novidade este ano no Carnaval da Bahia, que já se aproxima. Parece que você vai mudar de trio, mudar de percurso, como é que é? Como vai ser seu Carnaval esse ano lá?

Daniela Mercury: É interessante falar disso no Brasil. Porque é um universo que, apesar de já ser conhecido hoje inclusive pela minha música, é uma troca que tem muito a ver com a Bahia, com os blocos, com a minha história em cima dos trios, especificamente lá no Nordeste, que acolhe muito, que tem acolhido, que tem se "carnavalizado". Eu, este ano, estou passando para o Crocodilo [bloco tradicional do Carnaval baiano], é meu primeiro ano. Eu, que desfilei no bloco Internacionais, o bloco mais tradicional de Salvador, durante três anos...Estou mudando, é um bloco jovem, um bloco que também já tem dez anos de Carnaval, porque eu estou completando, este ano, dez anos de Carnaval em Salvador. E escolhi o percurso da Barra, que já tem sido festejado pelo público há muitos anos, que já tem conseguido reunir um público enorme. Neste ano, eu resolvi assumir o desafio de desfilar todos os dias, de domingo a terça, na beira do mar, e fazer com que esse trajeto, que a Bahia já consagrou, possa ser mais um espaço para a música da Bahia de uma forma mais forte, quem sabe.

Matinas Suzuki: Daniela, de vez em quando, o Carnaval da Bahia dá uma virada. Você vê ritmos novos, vê aparecer...o Carnaval hoje mudou bastante. Você acha que ainda teremos novidades aí? Há um novo período, porque também tem o lado do axé que ficou conhecido no Brasil inteiro etc, mas tem um lado, andou se questionando um pouco, falando que o axé estava um pouco repetitivo, essa coisa toda. Essa nova geração que veio, que apareceu mais ou menos na música contemporânea, com Olodum, com Carlinhos Brown [músico, compositor, produtor cultural baiano. Compôs músicas famosas como "Rapunzel" e "Arrepio", gravadas por várias cantoras do Brasil. Também participa de projetos socioeducacionais em Salvador], com você, que o Brasil inteiro conheceu...Você acha que já tem os frutos dessa geração? O Carnaval vai dar uma mexida? Como você está vendo o ambiente do Carnaval da Bahia?

Daniela Mercury: Olhe, esse mercado que o Carnaval criou é muito especial, de Salvador, do interior da Bahia, ele tem revelado, todos os anos, novos artistas. A Bahia, eu acho que até pelo consumo de massa de sua própria música,  tem uma necessidade muito grande de se reciclar todos os anos, de que os artistas locais tragam novos trabalhos. As músicas são tocadas por todas as bandas, são extremamente massificadas, e talvez por isso haja essa impressão de que a música é repetitiva, mas eu tenho sempre a sensação de que o Carnaval não pede muitos outros temas. Eu estava refletindo sobre isso...Quando a gente está no Carnaval, a vontade que temos é de não pensar em nada, é pensar no verão, nas coisas gostosas, no amor, na bebida, nas coisas mais carnais possíveis, para que esses cinco dias sejam de liberdade, de "lavar a alma". Temos cinco dias para fazer tudo que não conseguimos fazer nos outros dias do ano. Mas, mesmo assim, mesmo com esses temas sempre muito presentes, o Carnaval da Bahia consegue, a partir desse universo musical extremamente rico ritmicamente, criar outras referências na música universal, coisas que vão além daqueles cinco dias.

Matinas Suzuki: Você vai, este ano, mudar de horário também. Você costumava sair no começo da tarde, ao meio-dia.

Daniela Mercury: Saía ao meio-dia, eu abria o Carnaval. Esse ano, eu vou sair às seis horas da tarde, no Farol da Barra, saio sexta-feira com um bloco alternativo, e saio domingo, segunda e terça, também no grupo Crocodilo, às seis da tarde.

Matinas Suzuki: E para você, essas mudanças são interessantes?

Daniela Mercury: São, porque é um desafio abrir um circuito novo e fazer com que ele seja também importante, mais importante do que ele é no Carnaval.

Matinas Suzuki: Daniela, chegou a ser publicado que os artistas ganham muito dinheiro no Carnaval, isso é verdade? Ganha–se muito dinheiro no Carnaval da Bahia ou não?

Daniela Mercury: [risos] Eu sei que cansa muito, são sete horas puxando trio elétrico, e especificamente para mim...

Matinas Suzuki: Há contratos milionários, por exemplo, para mudar de um bloco para outro? Ganha-se muito dinheiro?

Daniela Mercury: Sabe o que tem acontecido em Salvador? Os artistas estão fazendo seus próprios blocos, porque quase todas as bandas importantes, artistas importantes de Salvador, já têm muitos anos fazendo Carnaval, são consagrados e conseguiram fazer seus próprios blocos. Posso citar, nesse caso: Chiclete com Banana, Asa de Águia, Banda Cheiro de Amor. Às vezes, cantam em blocos como artistas contratados, mas quase todos eles também têm um bloco alternativo, que é deles. Então isso faz com que essa questão econômica não aflija ninguém, nem seja o mais importante. Não sei se eu respondi o que você queria. [risos]

Vera Souto: Em relação ao ano passado, você mudou o percurso, mudou o horário, e ainda tem uma pequena diferença: você tinha um disco novo para apresentar no Carnaval, tinha um sucesso novo. Esse ano, não tem...o disco novo sai depois do Carnaval?

Daniela Mercury: É.

Vera Souto: Por quê?

Daniela Mercury: Eu estou, desde o começo do ano, pensando em um disco novo, mas como "Música de rua" [grande sucesso de Daniela Mercury] me envolveu muito, me deixou um pouco esvaziada depois do trabalho, fui respeitando um pouco meu tempo. Em princípio, tinha vontade de fazer um disco este ano ainda e fui tentando escolher o repertório, mas não aconteceu. Tenho muitas músicas escolhidas, foi importantíssimo para eu chegar a muitas conclusões  e esse repertório foi modificado.

Matinas Suzuki: Por que não aconteceu e quais foram as conclusões?

Daniela Mercury: Eu ficava me cobrando muito, fico pensando muito, e já mudei esse repertório desde que eu comecei a escolher. Eu acho que não está no meu tempo mesmo, exige uma energia muito grande fazer um disco, uma dedicação profunda, uma certeza também do que eu quero fazer, então, como eu não tinha absoluta certeza que as canções eram aquelas que estavam nas minhas mãos, preferi esperar.

Vera Souto: Você acha que o impacto deve ser o mesmo, mesmo depois do Carnaval? A aceitação do público...

Matinas Suzuki: Bom, vai ser um disco com músicas de Carnaval? Essa é a segunda pergunta...

Waly Salomão: O que é interessante marcar que está havendo aqui é o seguinte: a respiração de bailarina, a coisa de um jogo e de plenitude e vazio, porque quando Daniela surgiu como um furacão, muitos críticos musicais viam aquilo como uma carreira meteórica, não é verdade? Muitos jornalistas atuam como corvos, mostrando a finitude da carreira, e, no entanto a gente vê o contrário: o jogo entre plenitude e saber ficar vazio, respirar de novo e vir à tona. Quanto ao Carnaval, falo de cátedra, porque fui coordenador do Carnaval da Bahia e abri um círculo onde veio o Olodum, um bloco afro...

Daniela Mercury: Antes era um circuito de classe média alta.

Waly Salomão: De classe média alta.

Daniela Mercury: E que, há alguns anos, vem se popularizando.

Waly Salomão: Popularizando, deixando de ser proteção, não é?

Daniela Mercury: Isso. É um circuito lindo, na beira do mar, na verdade o circuito principal do Carnaval de Salvador, há muitos anos se questiona como o Carnaval ia crescer em um espaço tão pequeno...

Vera Souto: Que já estava super congestionado.

Daniela Mercury: Há muito tempo, a gente pensa em uma solução para os blocos desfilarem. Vamos dizer assim: se eu fosse desfilar, este ano, no bloco Crocodilo na avenida, eu teria que sair no fim da fila, tipo, oito, nove horas da noite. Aí fica um desfile extremamente cansativo para os artistas, porque além de a gente cantar sete horas, de percurso normal - eu, por exemplo, saía meio-dia e chegava sete horas da noite, era um circuito no tempo agradável para todos os foliões, para que as pessoas aproveitassem - se você sai no fim, você faz dez, doze horas de desfile. Isso é desumano com as pessoas que estão embaixo, é desumano com os artistas, com os músicos, porque é extremamente cansativo. Então eu preferi criar um novo desafio para a minha carreira, e um desafio que não é tão grande assim, porque a população já aprovou aquele espaço. É simplesmente ocupar um outro espaço maravilhoso de Salvador e fazer com que o Carnaval vá se expandindo, naturalmente. Todos esses processos são extremamente vivos, não somos nós que determinamos, é uma coisa que a própria população, que a arte tem determinado na Bahia, até pela sua expansão, pelo que ela tem representado para a cultural local e brasileira. O Matinas fala: "Quanto as pessoas ganham?". Eu vou te dizer: se eu quisesse viver do Carnaval de Salvador, eu não precisaria nem fazer sucesso no Brasil, porque eu já vivia bem. Fiz, por exemplo, setenta shows, entre Salvador e interior da Bahia, antes de lançar "Swing da cor" [primeiro hit de sucesso de Daniela Mercury]. Inclusive, as pessoas já conheciam a música em Salvador antes de tocar no rádio. Fiz muitos shows terminando o Carnaval, de março a abril. É um mercado fortíssimo.

Nizan Guanaes: Quantos shows você faz hoje, Daniela?

Daniela Mercury: Eu não sei, depende do meu fôlego. [risos]

Nizan Guanaes: O seu fôlego é imenso!

Daniela Mercury: Depende, eu tenho feito em torno de cento e cinquenta shows...Agora que completou um ano do lançamento do meu disco, fiz mais ou menos cento e sessenta.

Vera Souto: Agora, em algum momento, você teve que diminuir um pouco esse ritmo para respirar um pouco mais ou pelo cansaço?

Daniela Mercury: Esse ano, eu já respirei, eu já fiz mais shows do que isso. Talvez, pelo fato de estar fazendo anteriormente esses shows de trio-elétrico, eu fazia...

Nizan Guanaes: [interrompendo] Agora, cento e sessenta shows por ano, mais discos em dois anos do que a maioria das cantoras brasileiras vendem em duas décadas, o maior cachê de show que eu saiba, e que eu pague [risos]! É o maior cachê publicitário do Brasil. No país da "fracassomania", quer dizer, do mar da vaidade, que é o mundo artístico e publicitário também, como é que fica isso?

Daniela Mercury: Olhe, vim construindo determinadas coisas. Não sei, não me importa muito, eu nunca me preocupei exatamente com o dinheiro, com a parte financeira da minha carreira.

Waly Salomão: "Eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus". [verso da música "Vapor barato" de Jards Macalé e Waly Salomão]

[risos]

Daniela Mercury: Não, todos nós precisamos de dinheiro. Mas o artista tem ambições...

Paulo Lima: Você gosta de dinheiro, Daniela? Porque nesse calhamaço aqui que a gente recebe da produção...

Daniela Mercury: Eu compro um pouquinho.

Matinas Suzuki: Calhamaço não, uma grande pesquisa bem feita da produção, para que possamos entrevistar a Dani.

Paulo Lima: Você gosta de dinheiro?

Daniela Mercury: Eu gosto de dinheiro para produzir, para realizar os meus sonhos.

Soraia Yashida: Comprar roupa, comprar sapatos?

Daniela Mercury: Não, meus sonhos maiores não são esses. Eu adoro roupa, adoro sapato, adoro, curto isso mesmo.

Matinas Suzuki: Comprar cento e trinta CDs numa tarde, por exemplo.

Daniela Mercury: Exato! Não só porque é chique, mas porque comprar CD é importante na minha carreira, isso é um investimento no meu prazer, no meu trabalho também, mas é lógico que eu gosto de dinheiro, só que tem um objetivo muito claro para mim, o dinheiro ele só vem como conseqüência de algo que seja mais importante. Por exemplo, as campanhas publicitárias que eu fiz até hoje.

Matinas Suzuki: Você vai continuar fazendo o da cerveja [refere-se à campanha publicitária da Antárctica]?

Daniela Mercury: Pode ser que eu continue fazendo. Essas produções eram campanhas lindas, porque tinham a ver com a minha imagem, porque eu estava naquele momento colocando a minha música também ali no comercial, naquela propaganda. Podia ser inteira naquele comercial, dançar, e de alguma forma tentar fortalecer tudo o que eu faço na minha vida, então não foi gratuito.

[risos]

Daniela Mercury: Eu acho que o cachê é o retorno que nós daremos, não é? Você sabe muito bem que o cachê é diretamente proporcional ao que o artista possa proporcionar de mídia, de retorno ao produto, então ele paga porque quer. Se não quiser pagar também não tem problema, não sou eu que peço, ele que oferece.

Vera Souto: Mas vai dar para realizar seus sonhos?

Daniela Mercury: Exatamente pelos meus shows serem concorridos, eles sobem de preço porque eu tenho poucas datas. Então é natural que isso aconteça. Eu faço cada show como se fosse o único e o último da minha vida. Seja onde for, há qualidade, há entrega absoluta, disso eu não abro mão em hipótese alguma, mesmo estando até um pouco debilitada fisicamente pelas viagens. Eu não escondo nada, eu não guardo nada, eu sou completamente intensa na minha relação com o palco. Isso que eu acho que é a única coisa que eu tenho de concreto e é o que eu senti nesse último disco, porque no momento em que a imprensa questionou se eu ia continuar, lógico que eu senti uma certa angústia. Todos os artistas sentem essa angústia. Aliás, essa insegurança é extremamente importante, porque imagine se nós nos sentíssemos seguros todo o tempo? Nossas carreiras terminariam de imediato, porque exatamente a inquietação, a insegurança, tudo o que nos faz mexer com o nosso íntimo faz com que também o processo criativo ganhe infinitamente com isso, e a gente possa também se sentir desafiado por um novo momento, por um novo disco, e trazer um novo trabalho com garra e força.

Soraia Yoshida: Daniela, até por conta dessa entrega que você falou, dessa sinceridade que você tem no palco, talvez por isso que você se sinta um pouco incomodada com as críticas. Isso te abala um pouco?

Daniela Mercury: Não me abala um pouco não, mas muito. Eu fico chateada, eu guardo tudo, guardo frases, guardo palavras, não vou repeti-las, porque não vai adiantar de nada.

Matinas Suzuki: Repete!

Daniela Mercury: Não, porque ressentimento não adianta mesmo, não é? Eu sou muito assim, eu digo, eu encontro com as pessoas que falaram as coisas, eu pergunto: "por que você disse isso? Você acha isso mesmo?"

Matinas Suzuki: Você acha que há uma incompreensão grande do seu trabalho por parte da mídia mais elitizada?

Daniela Mercury: Eu não sei se o meu trabalho é compreendido totalmente...As críticas, eu acho que até vocês viram pelo material que tem aí, que eu até reli para relembrar da receptividade dos jornais, do que havia sido dito especificamente, porque no fundo, vão ficando as imagens mais gerais assim...Vou dizer, de uma maneira geral, que o surgimento do meu trabalho foi recebido de braços abertos pelo país, pela mídia, pelos repórteres, pelos formadores de opinião, porque já tinha sido recebido pelo público. Quer dizer, eu não vi nenhum tipo de incompreensão maior no meu trabalho, é um trabalho claro, simples, popular, sou uma pessoa clara no palco. Ali eu sempre disse muito sobre mim, sobre o trabalho. Expliquei, por exemplo, ao Okky de Souza todo o contexto em que aquela música tinha nascido, para que o Brasil também pudesse participar e compreender. As pessoas podem curtir esse trabalho não só dançando, não só curtindo a alegria que eu trago comigo, mas entendendo como o processo criativo se dá, porque é uma coisa que me interessa. Interessava-me saber o que vocês iam dizer, se vocês estavam compreendendo como eu mesclava os ritmos, com que seriedade eu estava fazendo aquilo, o que significava...

Okky de Souza: Vendo sua carreira até agora, fazendo uma retrospectiva disso, como você acha que se encaixa na música brasileira hoje? Você inventou o axé music, um novo gênero na música brasileira. Como você se enxerga?    

Daniela Mercury: Eu não concordo que eu tenha inventado o axé music. Para mim, já existia. Na verdade, eu lutei contra esse rótulo porque isso surgiu em Salvador por causa de um repórter que tentou desmerecer a música local, que não compreendeu o que tinha ali da vida cultural, das manifestações culturais e até folclóricas, e o que é que surgiu a partir dessa movimentação em Salvador. Ele não conseguiu perceber essa passagem, se fechou em criticar a música carnavalesca, a música repetitiva, a música que buscava animar os carnavais com simplicidade todos os anos, sem maiores cuidados. Eu não sei, não vou nem falar "cuidado", todo mundo tem cuidado no seu trabalho, sem buscar romper fronteiras, tem gente que faz uma música especificamente para aquele momento e eu acho maravilhoso, eu acho que tem música para tudo, você ouve em casa, você quer ouvir uma música no Carnaval...Eu não consegui fechar a minha contribuição naquela música carnavalesca, que já era interessantíssima, mas eu quis expandir. Quis colocar outras coisas ali e foi isso que deu a possibilidade de levar esse trabalho para o Brasil.

Matinas Suzuki: Daniela, em que momento você sentiu que esse trabalho podia ter um alto-falante tocando para o Brasil? Porque o Brasil fala do "furacão", vê você explodindo de uma hora para outra, mas você, até chegar à explosão, teve um chão, teve um trabalho, fez uma série de coisas. Quando você sentiu que isso podia dar uma virada no Brasil? Qual foi a cidade? Qual foi o marco? Você tem um momento que representa isso?

Daniela Mercury: Foi aqui em São Paulo, sem dúvida, quando aconteceu o show do Masp [Museu de Arte de São Paulo], que eu tive a noção do que poderia acontecer. Agora, antes disso, quando eu gravei "Swing da cor", que foi samba reggae...O que aconteceu foi o seguinte, eu vou contar rapidamente. Vamos ver se o público lembra disso...Dez anos, oito anos antes de eu ter lançado o "Swing da cor", havia surgido em Salvador, havia se popularizado a música do Olodum, que foi a mistura do negro, do samba, essa síntese, a batida pop. Ela rompeu os limites daquele gueto negro, da liberdade, dos desfiles de bloco afro, que não era uma coisa que a população toda participava nem conhecia com profundidade. Algumas poucas pessoas conheciam na Bahia, e a partir dali, daquele momento, a cidade toda acolheu o lado trio elétrico, acolheu aquela música negra, aquela batida. Então, todos os artistas da Bahia começaram a fazer essa música. "Faraó" [refere-se à "Faraó, divindade do Egito", do Olodum], por exemplo, foi um fenônomeno, uma das músicas mais interessantes que surgiram em Salvador. Por muitos anos, a Bahia explorou esses ritmos e ficou trabalhando em cima disso. Os artista todos gravando música, gravando discos...

Matinas Suzuki: Isso em que ano?

Daniela Mercury: A partir de 1986, de 1986 para 1987. Foi no Carnaval de 1987, mas já vinha acontecendo antes...

Waly Salomão: De 1986, mais ou menos.

Daniela Mercury: Exato. Eu me lembro bem: eu estava em cima do trio elétrico em 1987, e aquela coisa absurda, que você fazia assim, cantando: "Faraó!". E todo mundo: "Eee Faraó!". E foi realmente um absurdo! E a partir dali, a Bahia ficou vivendo do que tinha acontecido com o Olodum, aquela novidade. Passaram-se oito anos, aí a Bahia resolveu fazer o fricote, o deboche, surgiram outras coisas.

Waly Salomão: Sim, mas uma cantora não surge também assim numa tábua rasa, uma cantora tem sempre introjetada uma outra cantora. Um canto não vem sozinho, não é um galo sozinho cantando que faz a manhã, sabemos disso. Qual é a cantora que preside a sua escolha?

Daniela Mercury: Elis Regina.

Waly Salomão: Sim, qual era o show de Elis?

Daniela Mercury: Eu só vi um show de Elis, em Salvador, no Teatro Odisséia. Eu tinha 13 anos, foi Transversal do Tempo. E eu assisti da cadeira, acompanhando as letras, com o encarte na mão, ávida por ver aquela artista em palco e para ver se ela era tudo o que eu sentia nos discos. E eu não sabia nem exatamente o porquê aquilo me envolvia. Eu sempre curti muita fossa, sempre fui meio melancólica...

Matinas Suzuki: Cantou na noite...

Daniela Mercury: Mas eu não era cantora ainda! Eu era meio melancólica, gostava daquela coisa densa, aquela coisa chorosa de Elis: "Quando olhastes bem nos olhos bem e o teu olhar era de adeus, juro que não acreditei... até eu te estranhei, me debrucei sobre o teu corpo e duvidei" [cantando]. E cantei muito o repertório de Elis, porque ela cantava muito samba, eu adorava.

Waly Salomão: Vá, puxe uma! O cachê não envolve isso também?

Nizan Guanaes: Ah, eu estou aqui como convidada.

[risos]

Daniela Mercury: Então canto: "Aqui foi lembrar dos olhos dele, jabuticaba madura, coração, cabeça dura, tem uma parte até que cura... desse olhar, que arrepia, até que a falta com ar...meu coração que bate no calcanhar" [canta a música "Calcanhar de Aquiles", de Elis Regina]

Matinas Suzuki: Por falar em Elis, João, faça uma pergunta para a Daniela. [João Marcelo Bôscoli é filho de Elis Regina]

João Marcelo Bôscoli: Daniela, é o seguinte: qualquer artista americano, quando arrebenta, a primeira providência é construir um estúdio, é ganhar aula de dança, aula de canto, etc. Você tem todos esses dotes. Você acha que a classe artística brasileira investe o suficiente em si? Antes de falar dos patrocinadores, antes de falar de tudo, os artistas mesmo, entre idas e vindas...Eu vejo que você é muito ética, estou falando de uma maneira geral, não falando especificamente com cada um. Eu sinto que os artistas americanos investem muito em si, muito mesmo, às vezes o cara não tem profundidade nenhuma, nenhuma carga dramática, mas a parte estética é muito bem resolvida. No Brasil, você acha que a classe artística investe em si? Você acha que o show business, de uma maneira geral, e até saindo um pouco dos artistas, mas os empresários, as casas noturnas, casas de espetáculos, investem à altura?

Matinas Suzuki: Aliás, só para completar: uma das coisas que chamou atenção na crítica feito ao seu trabalho nos Estados Unidos pelo [jornal] The New York Times é justamente porque ele apontava a competência, não só ritmo, etc, exotismo, mas a competência técnica, a qualidade técnica que você apresentou nos Estados Unidos. É uma pergunta oportuna por isso.

Daniela Mercury: Sabe o que eu acho? Eu acho que essa dimensão do show business, de você fazer um show, um espetáculo para que as pessoas possam ver o todo do artista, que possam curtir a voz, o trabalho, as canções, e que vejam a beleza do todo, da parte plástica, é um cuidado que alguns artistas brasileiros têm, mas não é a tônica, sem dúvida. Sinto que as pessoas investem pouco, às vezes eu fico me perguntando: "será que o público é que não dá o valor devido a isso? A gente trabalha tanto para fazer uma produção e a pessoa não consegue discernir o que é o esforço de você montar um espetáculo e ter uma cenografia". Isso não só pelas coisas materiais, mas pelo que foi pensado, pelo que você quer proporcionar naquele momento, você vai criar todo aquele ambiente para favorecer a música que você está fazendo, a iluminação...

Okky de Souza: Valorizar o arranjo também.

Daniela Mercury: São várias artes que estão ali juntas, são várias expressões, no momento em que eu junto dança e música. Eu tenho a dança como um outro elemento de comunicação com o público, muito claramente. Eu não uso ela só como um enfeite. Algumas pessoas podem até usar, isso é bonito. O movimento é bonito por si só também. Ele também pode ser um movimento espontâneo do artista e também ter um sentido, ser belo. Tem várias cantoras que, apesar de não serem bailarinas, têm uma movimentação extremamente agradável no palco. Eu vi Marisa Monte [cantora e compositora de MPB - Música Popular Brasileira] agora no último show, eu adorei, eu acho que é maravilhoso ela dançar daquele jeito. Gal Costa [ver entrevista da cantora brasileira Gal Costa no Roda Viva], no último show, O sorriso do gato de Alice, estava uma bailarina no palco, o movimento é maravilhoso.

Paulo Lima: Esse lado físico do seu trabalho é muito importante. As pessoas gostam muito de ver você dançando. Como que é o seu preparo? O que você investe no seu tempo e em dinheiro, no lado físico? Você dança todo dia, como é o seu preparo para conseguir fazer esses cento e tantos shows em boa forma, dançando bem?

Daniela Mercury: Lógico que eu venho fazendo manutenção, tenho um preparador físico que me acompanha, uma alimentação cuidadosa, porque isso interfere na minha energia, principalmente, mas eu tenho um condicionamento físico também adquirido pelo tempo. Eu danço desde pequena, profissionalmente, então faço um condicionamento, às vezes, de alongamento, de quase descanso da temporada de show também. Porque é como um cantor: se você faz muito shows, não sinto necessidade de fazer aula de cantos, porque você está ali usando as suas cordas vocais, se desgastando. É importante o descanso, é importante retomar também. Então, hoje, de acordo com a minha carga de trabalho, eu acrescento o que é necessário: seja o descanso, sejam os condicionamentos mais intensos.

Paulo Lima: Como é sua alimentação? O que pode e o que não pode na sua dieta?

Daniela Mercury: Eu faço tudo, eu como tudo, eu tomo a minha cervejinha, eu faço tudo que eu tenho direito.

[...]: Baião de dois.

Soraia Yoshida: Mas tem a gemada?

Daniela Mercury: Arrumadinho.

[risos]

Daniela Mercury: Eu me permito tudo...

Nizan Guanaes: Ray Charles é cego mesmo?

Matinas Suzuki: Ou ele adivinhou? Ou ele sentiu o cheiro?

Nizan Guanaes: Porque eu ouço, alguém já me contou que aquele seu convívio com o Ray Charles...ele deu provas de que ele não é tão cego assim. Conta essa história para a gente. [refere-se à visita de Ray Charles ao Brasil, na ocasião da gravação do comercial da Antárctica, em 1994. Ray Charles encantou-se com Daniela Mercury]

Matinas Suzuki: Ele se empolgou?

Daniela Mercury: Olha, eu soube da história. Estive lá perguntando para as outras pessoas, ele já teve sete esposas, então eu não acho que ele seja tão cego assim, mas está por aí, realmente você tem toda razão.

Nizan Guanaes: Mas e a admiração que ele nutriu por você, além da parte musical?

Daniela Mercury: Eu entendi sua pergunta. As pessoas me perguntam muito como foi. O que achou? Foi extremamente agradável, foi muito simpático comigo, mas me paquerou, literalmente me paquerou.

Nizan Guanaes: Azarou?

[risos]

Daniela Mercury: Ficou brincando comigo, nós fomos tirar fotos juntos para fazer o comercial, era difícil tirá-lo da minha cintura. E foi super paquerador comigo, eu fui driblando aquela avidez tão grande para tudo.

Vera Souto: Com que artista internacional você teria vontade de fazer uma parceria? A gente sabe que você esteve, há pouco tempo, com o Jon Secada [um dos maiores cantores de pop dos anos 90. Nasceu em Cuba, mas é radicado nos Estados Unidos] para fazer aquela música para a Disney [Daniela e Jon gravaram a música "Se eu não te encontrasse", que compôs o clip do filme Pocahontas, da Disney, em 1995]. O Ray Charles foi nessa experiência do comercial. Se você pudesse escolher ou convidar alguém para uma música, para um disco, para um show em Salvador, de fora do Brasil, quem você convidaria?

Daniela Mercury: Muitas pessoas. Eu vou falar de uma pessoa que eu encontrei agora, que está totalmente prometida a parceria, é uma mulher que eu admiro muito: Mercedes Sosa [(1935-2009) cantora argentina de grande apelo popular na América Latina, famosa também pelo ativismo político de esquerda e canções de protesto - verdadeiros hinos libertários latinoamericanos - nos anos 1960/70 e cuja gravação mais conhecida é "Gracias a la vida" de Violeta Parra]. Eu a encontrei em Belo Horizonte e nós combinamos de nos encontrar em Buenos Aires para, quem sabe, gravarmos alguma coisa juntas. A música de muitas pessoas me interessa, eu vou falar de Sting, de grandes cantoras de jazz, minhas musas, como Ella Fitzgerald [(1917-1996], Sarah Vaughan [(1923-1990)], Jennifer Holiday [(1960-)]. Eu sempre gostei de cantores que cantavam para fora, com vozeirões, inclusive na noite, eu acho que por isso tem uma coisa muito forte com a Elis Regina. Apesar de adorar bossa nova, eu sempre gostei muito dessa coisa. Eu acho que porque tinha a ver com a minha personalidade também, meu jeito de ser. Na noite, eu cantava assim, por exemplo: "De noite, eu rondo a cidade a te procurar, sem encontrar, no meio de olhares espio, em todos os bares você não está..." [cantando com uma voz forte]. Tento cantar de outra forma. E agora eu tive a oportunidade de curtir isso, essa canção do tema de Pocahontas, que foi um desafio e uma grande curtição para mim, aquela abertura de voz, aquele jogo, uma canção extremamente norte-americana, que eu sempre tive uma vontade enorme de cantar.

Vera Souto: Quer cantar um pouquinho? Canta um pouquinho.

Waly Salomão: Canta um pouquinho, o cachê ele desconta!

Daniela Mercury: "Se eu não te conhecesse, e não fosse esse amor, eu jamais iria supor que a vida é o maior bem". É uma coisa assim engraçada, porque o produtor americano falou: "Eu queria que você colocasse uma coisa bem brasileira". Aí trouxe a música montada, com arranjo pronto, tom pronto, ele viu mais ou menos a extensão da minha voz.

[...]: Quem é?

Daniela Mercury: É o Renato, ele é produtor de Walt Disney. Ele conversou comigo e chegou no estúdio e disse: "Eu queria que você colocasse alguma coisa bem sua, bem brasileira". Eu disse: "Vou colocar, mas vamos ver". Aí comecei. As canções brasileiras, normalmente, pode ser bossa nova, têm um despojamento. As cantoras brasileiras...

Matinas Suzuki: Uma coisa mais natural.

Daniela Mercury: Todos nós cantamos assim, mesmo eu, que canto para a multidão. Eu canto para fora, mas eu canto sem grandes preocupações, sem respeitar muito as coisas. E lá fui eu: "Se eu não te conhecesse, como eu fiz só para te mostrar...". Mas não combinava, aí ele fica pálido e eu disse assim: "Renato, não está gostando muito?". E eu também não estava gostando. Aliás, a grande graça para mim era cantar igual às cantoras americanas. Para mim, a graça era essa. Aí eu comecei: "Se eu não te conhecesse, se não fosse esse amor, eu jamais iria supor...". Aí ele disse: "Maravilhoso, ótimo!". Aí eu disse: "Está certo". Foi super gostoso, mas eu cantei mais parecido com elas.

[risos]

Matinas Suzuki: Vamos agora fazer um intervalinho e voltamos já.

[intervalo]

Matinas Suzuki: Daniela, tem um lado da sua carreira - a gente falou pouco no primeiro bloco - que, há algum tempo, você vem cuidando dele. Eu acho que tem até um pouco a ver com a sua história, sua vida, sua família, que é o trabalho social que você faz, a preocupação com as crianças, essa coisa toda. Como você começou esse trabalho? Como você se tornou embaixadora [Em 1995, Daniela recebeu o título de embaixadora da Unicef - Fundo das Nações Unidas para a Infância, agência que luta pelos direitos das crianças]? Como é que foi isso?

Daniela Mercury: Isso foi acontecendo naturalmente. Eu acho que todos os artistas brasileiros necessitam de solidariedade. Eles devem participar da vida social do país fazendo doações para instituições, shows, ajudando do jeito que cada um pode. Fui requisitada algumas vezes pelo Unicef no Brasil para participar de programas como Criança Esperança [programa anual produzido e exibido pela Rede Globo de Televisão, que surgiu em 1986, com o objetivo de arrecadar fundos e doações para projetos sociais, ligados à crianças. Até 2003, o programa foi produzido em parceria com a Unicef. No ano seguinte, é a Unesco - Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura - que assume parte da organização], para fazer a campanha  do soro caseiro, que era importante. Eu sou mãe, eles achavam que a minha imagem, por ser de uma artista popular, ia contribuir para isso. Foi superagradável participar da campanha, inclusive, já tem frutos: a diminuição da mortalidade infantil no Brasil por causa das campanhas do soro caseiro. Eu vim me envolvendo aos pouquinhos, isso já acontece desde menina nos grupos de igreja, sempre tenho uma preocupação com isso.

Matinas Suzuki: Você participou, também, de grupos católicos. Como é esse lado? Seria interessante você contar um pouco sobre isso, eu não sei se todo mundo conhece.

Daniela Mercury: A Igreja Católica sempre foi comprometida com as pastorais, das crianças e tudo. Eu, por fazer parte de grupos, catequese para adolescentes, escaladas, encontros que têm no Brasil inteiro hoje, me envolvi  com esse tipo de trabalho. Eram organizações de jovens que também saíam para ajudar, para fazer caridade ou para terem atitudes importantes, participando da comunidade. Eu vim trabalhando desde lá, as portas da minha casa sempre estiveram abertas para as pessoas que precisavam, não quero ser piegas, mas o que acontecia era que a minha mãe é assistente social, então essa preocupação política e social sempre houve dentro da minha casa: dividir, estar atento para essas questões, então isso é uma coisa que faz parte de mim, da minha necessidade pessoal.

Vera Souto: Daniela, como embaixadora da Unicef, quais são suas atribuições principais? E o que você pretende cobrar de forma mais urgente e mais rápido do governo federal? Já pensou em alguma coisa nesse sentido?

Daniela Mercury: Eu, na verdade, não estou lá para cobrar nada do governo, especificamente, de ninguém. Sou mais uma nessa história toda, tem muitas pessoas que trabalham no país, a sociedade civil está extremamente viva para a questão social. Isso tem modificado muito a qualidade de vida dos brasileiros. Então, eu sou mais uma pessoa a colaborar.

Vera Souto: O que você faz como embaixadora?

Daniela Mercury: Eu fui convidada pelo Unicef para trabalhar como embaixadora porque sou artista, e os artistas têm o poder com comunicação maior com o público. São pessoas que conseguem mobilizar pessoas, suas palavras são ouvidas, então a minha função principal é usar a minha imagem, as minhas palavras em favor das campanhas do Unicef, as campanhas que o Unicef apóia. Uma campanha que eu estou trabalhando agora é contra a exploração sexual de crianças e adolescentes, que nasceu da mobilização de várias instituições na Bahia, o Centro de Defesa do Adolescente, instituições ligadas à defesa da criança, defesa da mulher, os conceitos de segurança alimentar. O meu papel é reforçar, chamar atenção da sociedade para projetos, divulgá-los para que eles possam ser exemplo para outros estados. Eu, obviamente, viajo e extrapolo essa função de embaixadora especial, de representante do Unicef, e entro um pouco na questão técnica porque me aflige, eu convivi com isso a minha vida inteira, a minha irmã também é assistente social, então eu quero interferir em outras coisas, quero conhecer um pouco mais como o processo acontece, para ver como posso ajudar nos bastidores, não só através das campanhas.

Matinas Suzuki: Daniela, independente da embaixadora Daniela, você acha que tem havido mais investimento do governo na área social? Você está satisfeita? Você acha que o governo deveria ter avançado mais nessa área? Qual é sua análise, como cidadã?

Daniela Mercury: A análise que eu faço é que, por exemplo, a gente fica o tempo todo pensando, exigindo que a sociedade seja solidária, a gente fica com essa cobrança, inclusive perguntando toda hora: "Quanto é que você dá? Você ajuda quem? Você faz o quê? Você ajuda que instituições, especificamente?". E, na verdade, a questão não é essa, nós todos fazemos porque é quase como se o Brasil estivesse em situação de emergência, é quase um pós-guerra que a gente vive há muitos anos, é isso que eu sinto. Seria extremamente agradável que nossa contribuição não precisasse ser essa, que a nossa contribuição pudesse ser para a plenitude do ser humano cultural, que a gente ajudasse o que estivesse ali ao nosso alcance, porque eu acho que sempre o mundo vai precisar de solidariedade, independente de estar no estado de emergência ou não. Agora, nós temos que exigir do governo o tempo inteiro é a função para que ele existe, que é do bem-estar social, ele tem que cumprir com o estatuto, com as leis do país, que é de suprir as necessidades básicas do cidadão. É isso que todos nós esperamos: que o ser humano seja prioridade no país. Hoje, a gente está vendo tantas coisas acontecerem e sabe-se que o investimento tem que ser no ser humano, para que se consiga reverter esse quadro e até minorizar isso, posteriormente no país, para que a gente não precise viver tudo o que outros países estão vivendo, já que a gente é caçula nessa história toda. A gente está pagando um preço muito alto por sermos caçulas em vários aspectos, subdesenvolvidos...Mas não é um país tão subdesenvolvido assim, porque nossa produção cultural, essa vontade do povo brasileiro de reverter isso, isso não tem quem impeça, não tem governo, não tem nada, isso vai acontecer de alguma forma, que eu não sei como é, porque é um processo tão vivo! Antes, pensava que o governo tinha que ser mudado, que iam chegar pessoas ideais para se mudar a estrutura, para que todos tivessem bem-estar, uma divisão de renda mais justa, a gente quer um monte de coisas. No entanto, isso está se conseguindo pouco a pouco, com esse movimento de fogo que os brasileiros têm diante da dificuldade, é a questão da sobrevivência. Só sobrevivem os mais fortes.

Vera Souto: Você tem chamado muito a atenção para essa questão de política da não-aceitação das coisas como elas são. Nos seus shows, principalmente em O Canto da Cidade, você chamava a revolução através da alegria. "Geração perdida", acho, é uma música que vem um pouco nesse sentido. Você vem de uma geração que não foi tão atuante politicamente, mas aproveitou o tempo e pintou o rosto na época do impeachment de Collor, foi ao Reage Rio [Em novembro de 1995,cerca de trezentas mil pessoas promoveram, vestidas de branco, uma caminhada pela paz na cidade do Rio de Janeiro. Liderada por entidades civis e pela organização Viva Rio, o objetivo da manifestação foi mobilizar a sociedade contra a violência urbana], quer dizer, você vem tentando trazer uma mensagem por meio dos shows.

Daniela Mercury: Eu lavei a alma um pouquinho pelos anos 60. Nessas duas manifestações, estava felicíssima de poder participar, de estar ali no meio da rua, de ser mais uma, de colaborar com tudo isso, participar daquele momento lindo da vida brasileira. A ligação que há entre isso e a minha música acontece naturalmente, até pelas composições, pelas canções que fazem parte do meu repertório. São composições de meninos populares, de meninos do povo, de artista do povo, que têm um discurso simples e visceral. O contraponto da alegria e da tristeza da Bahia são temas dos reggaes, da música negra  que se manteve em Salvador. Então, quando eu falava aquele texto: "Enquanto um de nós dança é bonito de se ver, mas quando todos dançam, o chão balança e assim se faz uma revolução. Hoje a revolução é para alegria, quem ainda não foi à Bahia, vá". Aí, em função desse texto, eu fiz: "Alegria agora, agora e amanhã, alegria agora e depois, e depois, e depois de amanhã" [canta a consagrada "Música de rua"]. Por quê? O Nizan falou que essa coisa do Brasil, da gente não se entregar, essa imagem  de ficar de coitadinho, o país que não tem nada, o país de pobre, eu disse: "Vamos acreditar!". A gente, aliás, está aqui porque acredita neste país.

Nizan Guanaes: Daniela, você vem de uma família de italianos...

Daniela Mercury: Português e italiano.

[...]: Uma mãe linda...

Nizan Guanaes: Eu já vi, tive a oportunidade de acompanhar você em Buenos Aires, vi a loucura, a receptividade, sei o quanto o presidente e o vice-presidente americanos ficaram empolgadões, até mais do que as relações Estados Unidos e Brasil poderiam suportar, então é visível...

Matinas Suzuki: O presidente do Uruguai também.

Nizan Guanaes: É, é uma coisa como você consegue fazer com que os países gostem da gente.

[risos]

Matinas Suzuki: Pelo menos, os poderes constituídos.

Nizan Guanaes: Eu acho até compreensível. Por que não, então, uma carreira internacional?

Waly Salomão: Eu queria falar uma coisa, eu acho engraçado. É sobre algo ela estava dizendo sobre esse lado "formiguinha" do movimento comunitário social. Eu estava pensando em um ditado que diz: "Quando formiga quer se perder, cria asa". Pois é, antes da paixão nacional e até da paixão internacional, há a paixão local de Salvador por Daniela. No entanto, Daniela já tinha uma qualidade que eu gostaria de saber direito como é que foi vindo isso, como é que isso foi sendo construído. Por exemplo,  depois daquele show [refere-se ao show no Masp], aquele furacão, o público todo inflamado, você entrava no camarim, era uma pessoa absolutamente segura, uma altivez serena e calma que só tinha visto um exemplo antes: Maria Bethânia [consagrada cantora de MPB]. Só que Maria Bethânia já tinha uma carreira bem desenvolvida, assentada, e você ainda não era nem contratada da [gravadora] Sony. Como isso foi vindo na sua biografia?

Matinas Suzuki: O telespectador já viu que o programa hoje é metade baiano.

Daniela Mercury: É. Aqui, brincando com o Nizan, dizendo que a mulher brasileira é paixão nacional, internacional, eu acho que, como cantora brasileira que se propõe a dançar no palco, o mínimo que eu podia trazer comigo era sensualidade, esse charme despretensioso.

Nizan Guanaes: Mas eu falo da música, o apelo musical. Você não sente que há aí uma vertente, um caminho muito grande para a sua carreira, do ponto de vista internacional?

Daniela Mercury: Muito, muito! Mas eu acho que é muito popular no Brasil. Eu achei desde o começo que o que era popular na Bahia, podia ser popular no Brasil, e o que era popular no Brasil, podia ser popular no mundo.

Vera Souto: Mas quando você percebeu que sua carreira podia decolar no exterior? No Brasil, foi em São Paulo, no Masp. Foi no show de Nova Iorque?

Daniela Mercury: Eu nunca pensei muito exatamente como as coisas iam acontecer, eu fui perseguindo cada momento, aproveitei todas as oportunidades que surgiram na minha vida, sou muito trabalhadora mesmo. As coisas iam surgindo, eu não tinha medo dos desafios. Não é que eu não tivesse medo no meu íntimo, eu tive muito medo também, na hora H, tem horas que eu olho a multidão e falo: "meus Deus, o que eu estou fazendo aqui? Quem vai fazer esse show?". Lógico que, de vez em quando, bate uma sensação esquisita, de você não saber se você vai ser capaz de fazer aquilo tudo. Aí tudo começa, e acontece...Quando eu cheguei no Rio de Janeiro e fui fazer o show no Canecão, para mim simbolizou a aceitação da classe artística brasileira, os formadores de opinião, o Rio de Janeiro, que sempre foi considerado um manancial mais criativo do Brasil, a metrópole artística do país, junto com a Bahia. Eu tinha um show dirigido por mim, quer dizer, não tinha segurança de nada e sabia que eu estava ali, não importava a minha canção, importava o meu canto, o que tinha funcionado até ali, eu também não sabia de nada que ia acontecer, eu fui fazendo.

Matinas Suzuki: Daniela, mas...

Daniela Mercury: Quer que eu responda a pergunta de como começou tudo isso?

Matinas Suzuki: É, mas eu acho que tem a ver também. Você, pelo que sei, teve um período que ralou mesmo, você teve que fazer shows grávida, em condições e lugares que você falou: "Aqui, eu não fico". Quer dizer, foi um lado muito...

Daniela Mercury: Foi um lado de muita dureza de enfrentar, de estar grávida com oito meses, em cima do trio elétrico, fazer alvorada na cidade do interior, às cinco horas da manhã, cantar muitas horas por dia, dormir em creche, dormir em casa de prefeito, dormir em lugares super complicados, mas eu ia viajando. Isso não é problema para mim, fazia parte do processo, foi o que me criou a tolerância. Fui também amadurecendo com tudo aquilo, o que importava era estar ali me apresentando, estar no palco e tudo o que eu tivesse que fazer para estar ali ia ser feito naturalmente, não tinha muito drama, não tinha muita agonia com isso. Obviamente, isso me deu um back ground para muitas coisas na minha vida e que nem eu mesma sabia o que tinha. Canto desde os 16 anos na noite, e cantava três horas por dia, de terça a domingo, durante muitos anos seguidos. Passei dez anos em cima de um trio elétrico, danço desde os oito anos de idade, dirigi espetáculo de dança, coreografei, fiz iluminação, fiz várias coisas na minha vida, produzi arte desde muito pequena, desenvolvi a minha criatividade através de trabalho com dança, uma coisa do meu íntimo mesmo, que me puxava. Eu me lembro de uma situação com carnaval...Porque que eu gosto tanto de carnaval, porque que eu sou assim tão foliã, sou tão alegre, gosto tanto de dançar? Lembrei que, eu com uns 12 anos, a minha mãe sempre ia passar o Carnaval na ilha, eu ficava indignada com aquilo, eu queria ver o Carnaval da cidade! Um dia, na varanda da minha casa da ilha de Itaparica, olhando a cidade de Salvador, procurando festa, toda vestida de bruxa, e todo mundo resolveu dormir, ninguém queria ir para a festa. E eu dizia: "meu Deus! Eu estou longe disso, eu estou longe dessa efervescência!". No outro ano, exigi ir para Salvador e pular o Carnaval. Eu disse: "Mãe, eu tenho que estar lá, de alguma forma". Tive que estar também no bar cantando, tive que estar na sala de aula fazendo dança, tive que estar no palco dançando. Por isso, pelo fato de cantar muitas horas por muitos dias, um repertório vasto de música popular brasileira, comecei a ter uma referência grande do universo dos maiores compositores brasileiros. Quando eu vou fazer os meus discos, está tudo isso muito presente, muito vivo. O Nizan acabou de me perguntar por que eu não fazia um disco diferente. Eu tenho vontade. Um show com outras músicas, de outros compositores, que não sejam esse universo meu de Carnaval, mas dos compositores populares.

Vera Souto: Agora, dentro dessas dificuldades que você enfrentou, quando você cantava na noite, é verdade que as pessoas nem sempre prestavam atenção na cantora?

Daniela Mercury: Nem sempre, não. Não prestavam atenção.

Vera Souto: É verdade que quando as pessoas começavam a falar e se distrair, você abaixava o tom da voz até que todo mundo se tocasse que tinha uma cantora?

Daniela Mercury: Eu fazia muito isso.

Vera Souto: E aí você começava a cantar? Como é que você aprendeu a chamar atenção das pessoas?

Daniela Mercury: Aliás, eu estou mentindo quando eu digo que as pessoas não prestavam atenção. Elas prestavam atenção. Agora, sabe o que eu fazia para elas prestarem atenção? Eu também fazia um show popular. Então o que eu fazia? Eu sempre cantava as coisas mais - os meus caprichos maiores, eu cantava na noite, cantava tudo o que me desse vontade - as coisas mais densas, tristes ou sofisticadas. Cantava uma música que todos conheciam, que não necessariamente eram músicas de pouca qualidade, eu cantava "Chega de saudade" [sucesso de João Gilberto, marco inicial da bossa nova], que era uma música conhecida do público, extremamente popular, todos cantavam comigo, eu fazia com que as pessoas participassem do meu show, que elas interagissem comigo. Essa dimensão de espetáculo eu já tinha, porque eu já dançava, já sabia o que era estar ali prestando um serviço, cantando para as pessoas curtirem, para as pessoas se sentirem bem, então eu queria que elas curtissem de verdade aquilo. Não fazia uma arte aleatória, não cantava aleatoriamente, eu cantava fazendo com que eles estivessem junto comigo.

Paulo Lima: Daniela, eu queria mudar um pouquinho de assunto. Para uma artista como você, que é popular; o rádio é muito importante, multiplica o teu trabalho. Eu conversei, recentemente, com a diretora de uma rede grande de rádio, ela estava muito preocupada com a ação da Igreja Universal, que está comprando muitas emissoras. Qual é a tua opinião sobre uma figura como Edir Macedo [religioso e empresário brasileiro, fundou a Igreja Universal do Reino de Deus e é dono da Rede Record de televisão]?

Daniela Mercury: Olhe, a liberdade é possível, todos podem fazer o que querem. Graças a Deus! Não existe...

Matinas Suzuki: Graças a Deus!

Daniela Mercury: Graças a Deus! Não me interessa falar sobre esse assunto. A religião, às vezes, age como terapia mesmo, num país que vive dificuldades, no mundo todo. Cada um tem seu jeito de viver suas tristezas, suas angústias, a vida é muito dura mesmo, cada um busca se segurar no que é possível, no que está ao alcance. A grande população se apega à religião, é algo maior do que isso, obviamente. Eu acredito em Deus, tenho uma formação católica, isso é importantíssimo, a minha vida espiritual é importantíssima, eu respeito profundamente. Acho o que tem que acontecer é outras pessoas comprarem outras rádios, quem está preocupado com a vida cultural do país, que não haja somente rádios evangélicas tocando músicas ligadas à igreja, que é uma coisa específica, isso não tem a ver com o resto da música popular brasileira.

Nizan Guanaes: Daniela, já que nós estamos falando de Edir Macedo, você é santa? [risos] Olhando suas entrevistas, a grosso modo, é uma vida muito menos atribulada do que se pode esperar de uma artista da Bahia, de descendência italiana. Onde estão as drogas, sexo e rock'n'roll?

[risos]

Daniela Mercury: As drogas são muitas, as drogas são muitas, a gente se alimenta de muitas drogas no dia-a-dia.

Nizan Guanaes: Mas como foi a sua adolescência?

Daniela Mercury: Eu estou viajando aqui! Eu estou viajando aqui! Como foi a minha vida? Eu sempre fui muito louca, eu acho que eu não preciso de droga nenhuma para ficar louca, eu já sou muito louca, eu tenho uma loucura minha, o meu imaginário, já me permito as loucuras maiores no palco mesmo, e sou ali, o que tiver que ser. Eu sou assim mesmo. É porque eu fui ler as entrevistas para ver se eu era assim mesmo do jeito que as pessoas estão falando. Mas será que eu sou? Sou mãe, eu me casei cedo, agora, nem por isso sou certinha, não gosto muito dessa imagem de certinha, não sei o que isso significa, exatamente.

Soraia Yoshida: Daniela, desde o começo da sua carreira, você sempre colocou a família como algo que você dá muito valor.

Daniela Mercury: É verdade, mas eu não sou certinha por causa disso. Tenho um monte de defeitos, sou uma pessoa normal, tenho as minhas inseguranças, tenho as minhas coisas legais, eu tenho uma força, tenho uma vontade de viver muito grande que ultrapassa muitas dificuldades. Tenho essa verdade minha, que é a minha família, meus filhos, meu marido, que caiu do céu por descuido. O meu caiu, o meu caiu, é uma pessoa super legal, tenho um convívio maravilhoso, a gente se conhece desde menino, eu o amo, tenho a maior atração, é a minha verdade de todo dia. [Refere-se a Zalther Portela Laborda Póvoas, de quem se separou em 1996]

Matinas Suzuki: Daniela, por que você escolheu ficar em Salvador?

Daniela Mercury: Eu escolhi de pirraça. Eu quis continuar em Salvador no outro momento da música popular brasileira também, e quis tentar fazer a minha vida a partir de lá, primeiro porque eu me alimento, continuo fazendo Carnaval, é uma coisa específica de Salvador, eu preciso conviver com isso durante todo o ano. É a minha música principal, o principal trabalho que me move, que produzo. Tem a ver com esta música alegre e não necessariamente só do Carnaval, mas os ritmos. Quero continuar convivendo com uma cidade extremamente fértil. Na cidade, por ser menor, tenho uma qualidade de vida melhor, como cidadã, como mulher, como ser humano e os meus filhos têm uma vida mais tranqüila, com menos violência, um pouco mais de tranqüilidade, com minha família presente, que isso é essencial para mim. Eu acho que a vida é curta, e eu tive que escolher algumas coisas, uma delas foi escolher morar na Bahia. Porque eu quero conviver com a minha família enquanto der.

Matinas Suzuki: Mas fazendo cento e sessenta shows por ano, não ficou muito complicado morar na Bahia? Quer dizer, eu imagino que maior parte desse tempo...

Soraia Yoshida: A minha ponte aérea é um pouco mais longa, são duas horas a mais para São Paulo, uma hora e meia, mas eu prefiro pagar esse preço, gastar essas horas da minha vida para ter a minha família perto e ter essa curtição de fazer música e continuar sendo uma artista nacional, a partir da Bahia.

João Marcelo Bôscoli: Daniela, regravar música não é uma coisa recente, isso já existe há muito tempo. Eu queria te fazer duas perguntas em uma: primeiro, você não acha que ultimamente ficou um pouco prostituído isso, as gravadoras resolvem fazer um disco dos melhores sucessos, não por um critério único e exclusivamente artístico? Parece que é para que as rádios comecem a tocar antes...E, em segundo, uma música brasileira cantada em inglês, continua sendo uma música brasileira? São essas duas perguntas.

Daniela Mercury: Eu acho que continua, porque a música não é só a letra. Quando você transforma uma música, passa de um idioma para outro, você também perde outras coisas que estão implícitas, como a rítmica, a sonoridade das palavras. A letra é algo que o Brasil valoriza muito, e é maravilhoso porque a gente tem uma terra de grandes poetas, então eu acho isso válido nesse sentido da comunicação. Eu acho que para se comunicar...

João Marcelo Bôscoli: Você acha que vale a pena?

Daniela Mercury: Para se comunicar, muitas coisas valem a pena. Não acho que se corrompe, não, eu acho que tem que ser feito com um critério ainda maior, com um cuidado muito grande, até se for possível, compor já em inglês, porque o discurso, o que a gente vai levar da mensagem já vai ser muito brasileiro, já vai estar juntando muitas coisas; a melodia, o ritmo, o arranjo, e a alma vai continuar brasileira.

Soraia Yoshida: Depois de tanto tempo, você fazendo música, aparecendo, tendo super exposição, você está pensando em fazer TV, cinema? Quais são seus projetos novos?

Daniela Mercury: Olha, na verdade, se esses projetos surgirem de acordo com a minha agenda, eu tenho a maior vontade de fazer. Neste momento, acho que eu vou ter que ir escolhendo algumas coisas...Estou ávida pelo meu novo disco, é o que me interessa neste momento, são as canções, o repertório, é o processo criativo, que é fascinante, que é extraordinário.

Soraia Yoshida: Como dançarina, você compõe quadrilha, é verdade?

Daniela Mercury: Também, desde menina eu descobri que a música, a dança. Eu testo determinadas coisas, eu gosto de me movimentar para cantar um samba porque o meu corpo vai junto e ajuda a ter o domínio do tempo, tenho o apoio no meu corpo para fazer as variações na minha voz. E não é só isso: às vezes, eu tento entender como as pessoas vão receber aquele ritmo. Então, eu levanto e danço mesmo, bato com o pé, determinando um desenho rítmico, uma célula rítmica.

Okky de Souza: Como você escolhe o repertório, ouve centenas de músicas? Elas chegam até você? Como é  a montagem?

Daniela Mercury: Eu ouço muitas músicas, a grande maioria das músicas chegam a mim. Algumas músicas, eu peço para compositores que já conheço,  que já contribuem para o meu trabalho. Às vezes, pego eles e os levo para o estúdio, tento compor com eles, a gente dialoga, eu falo sobre o projeto de disco, digo o que está acontecendo na minha cabeça e tudo para que eles também componham sintonizados comigo. E eu ouço tudo que chega a mim de qualquer compositor, do mais novo ao mais conhecido, com os ouvidos mais abertos possíveis, sem me preocupar se é uma música baiana ou não. A única coisa que eu consigo ainda ter como critério, diante de tanta interferência, por ser uma cantora tão híbrida, por ser de uma geração com tantas influências nacionais e internacionais, é a beleza, é deixar acontecer, ouvir a canção, e se ela ficar em mim, eu vou e canto, e descubro como é que ela vai acontecer na minha voz, na minha interpretação, no meu coração, no meu sentimento, no ritmo que eu quero para ela, tudo. E aí vou fazendo, vou colocando os detalhes junto com os músicos, eu determino muito. Tenho muitas idéias, e trabalho isso com os músicos, que são super importantes nesse processo.

Matinas Suzuki: Você, pelo que disse, está pesquisando bastante para esse disco. Você também grava muitas pessoas novas. Dos novos aí que você ouviu, não necessariamente que você vai gravar, mas o que tem de interessante?

Daniela Mercury: Eu vou cantar: "Quando não tinha nada, eu quis. Quando tudo era ausência, esperei. Quando tive frio, tremi. Quando tive coragem, liguei. Quando chegou carta, abri. Quando ouvi Prince, dancei. Quando o olho brilhou, entendi. Quando criei asas, voei" [canta trecho da música "À primeira vista", de Chico César, que foi, de fato, um dos maiores sucessos do seu álbum posterior]. A pessoa que mais me emocionou nessas últimas fitas foi o Chico César, um cantor paraibano que mora aqui em São Paulo. Ele é muito consistente, tem canções belíssimas, melodias arrebatadoras, fiquei encantada, e ele me fez chorar. Eu adoro chorar de felicidade!

Matinas Suzuki: Aliás, o Roda Viva recomenda o disco, é maravilhoso.

Daniela Mercury: Inclusive é um disco independente do Chico César, é um pessoa que, com certeza, vai estar presente nesse novo trabalho.

Matinas Suzuki: Tem mais alguém que você gostaria de falar, dos novos?

Daniela Mercury: Dos novos?

Matinas Suzuki: Que você ouviu?

Daniela Mercury: Não, não tem. Tem um menino chamado Márcio Mello, que tem uma composição linda que está nesse disco, que vocês vão conhecer quando ele chegar, é um talento novo. Fora os meninos que eu gravo, que são artistas novos, são compositores que continuam novos, que continuam ainda com poucas canções conhecidas pelo grande público do Brasil, ainda tenho muito a dar para a música popular brasileira.

Matinas Suzuki: Daniela, você tem também uma irmã que é cantora, que está lançando um disco.

Daniela Mercury: Vânia Abreu.

Matinas Suzuki: Como é você ter uma irmã? Como é para ela fazer uma carreira tendo a Daniela Mercury como irmã? Como é administrado isso?

João Marcelo Bôscoli: Se precisar de alguma ajuda, eu posso...

[risos]

Matinas Suzuki: Lá vem ele, Phd nessa canção...

Daniela Mercury: Gostaria de ouvir, gostaria...

João Marcelo Bôscoli: Não é mole, não deve ser fácil. Você chama muita atenção, mas as pessoas acham que isso vai sustentar a terceira, quarta, quinta audição, eu acho que depois da primeira audição, serve exatamente para chamar a atenção: a primeira vez: “Pô, é a irmã da Daniela, legal, vamos ouvir". A partir desse momento, é muito democrático, não vai adiantar. Você não acha?

Daniela Mercury: Mas eu acho que se utilizar disso, não é nem se utilizar, deixar que isso aconteça naturalmente, eu não vejo nada demais, porque quando a gente tem talento, não precisa se preocupar. Como é um processo democrático, as pessoas vão ter a oportunidade de ouvir o disco, de conhecer essa cantora nova, mais uma cantora para o Brasil, uma cantora que tem quase o mesmo back-ground que eu, a mesma experiência, cantou na noite muitos anos, uma pessoa talentosíssima. Eu sou fã, e eu espero que as pessoas ouçam e que ela encontre o público dela, já que ela faz uma música mais lenta, porque ela sempre foi assim mais tranqüila, ela sempre foi mais tímida, ela é a caçulinha, dois anos mais nova do que eu, mas batalhou muito na vida também. Por isso, adora cantar, eu acho que isso vai dar a chave para ela, esse amor à música, ela levar a música adiante.

Paulo Lima: Daniela, li algo aqui na entrevista que é intrigante, você disse que desde pequena, tem impressão de que vai morrer cedo, é isso mesmo?

Daniela Mercury: É, talvez por isso é que eu tenha tanta ansiedade de viver. Tem um texto meu que diz assim: "não sei bem o que sinto, sei que o tempo é faminto e me engole com todos os dentes". Eu tenho uma relação com o tempo muito ansiosa, e eu não sei, nem tomando chá de [Dorival] Caymmi [risos], tentando ficar mais calma, nem com todo esse vazio, eu não vou conseguir... Eu estou completamente indignada com esse tempo, e de repente, a morte é o limite e ela, na verdade, dá o sentido à vida. Por que o que seria de nós sem a morte, sem esse limite? Isso faz com que todos os dias sejam mais intensos, eu já não tenho dificuldade de ser intensa.

[risos]

Vera Souto: Nesse sentido, você recebeu uma proposta de fazer uma minissérie onde você interpretaria uma mulher que convive com essa idéia de morte. Ela esperaria o marido pescador voltar do mar e tentaria...

Daniela Mercury: Eu comentei isso numa entrevista: por que o mar é misterioso? Porque eu fiquei instigada com a história, e eu disse assim: "Puxa, por que o mar é tão misterioso para os pescadores? Por que eles não conseguem sair dali? Porque eles têm um mistério total que é aquele mar, eles não sabem o que vai ser, cada dia é um dia diferente, isso é tudo o que o ser humano quer, é a aventura todos os dias, é o inusitado todos os dias, então aquele mar maravilhoso, ao mesmo tempo, é o perigo, o medo da morte, o limite". Então todos os dias tinham que ser bem vividos, então eles voltavam e as mulheres os recebiam como se eles estivessem voltado de um limite de muito próximo da morte, elas faziam sexo com eles com a intensidade de um dia muito especial, e é maravilhoso, é tudo o que o ser humano quer: plenitude, intensidade em todos os sentidos.

Waly Salomão: Ela está se negando como baiana, porque isso, na verdade, é bem italiano, até o verso: "É doce morrer no mar" vem da poesia italiana.

Daniela Mercury: Engraçado né? Uma vez, eu perguntei a um diretor artístico: "Mas você é vidente? Você consegue perceber o que vai acontecer no mercado adiante, o que vai acontecer com o trabalho? Porque eu não sei o que vai acontecer. Eu estou ali sempre em transformação, uma "metamorfose ambulante". Acho que a música é linda, e que pode fazer sucesso, mas não tenho a menor certeza, absolutamente não tenho". Aí ele disse assim: "Mas eu sou vidente. Engraçado, eu não sabia que dinheiro nem cargo dava esse poder". Mas, nós produtores de arte não sabemos o que vai acontecer com ela, onde ela vai parar depois que ela passa por nós, isso é maravilhoso, é sempre um desafio, é sempre o mar que está diante, na nossa frente, que é maravilhoso, um mistério eterno e inusitado.

Matinas Suzuki: Por falar em mar, no Brasil, o rito de passagem de um ano para o outro se dá no mar. O que vai mudar na Daniela em 1996?

Daniela Mercury: Já está mudando. Eu estou em um processo muito gostoso de ficar um pouco mais tranqüila, de poder usufruir do meu trabalho artístico de outra forma, e eu espero que o Brasil este ano possa vivenciar também coisas que vem construindo há muito tempo, coisas que nós falamos aqui, de toda esta modificação que a gente espera no íntimo de cada um de nós para que o país se transforme. Mas isso com certeza vai ser um processo lento, como é dentro de cada um de nós e como está sendo dentro de mim. Graças a Deus, vou mudando aos pouquinhos, mas continuo a mesma.

Matinas Suzuki: Daniela, eu queria agradecer muito a sua presença no Roda Viva esta noite. E queria agradecer a presença dos nossos convidados. Gostaria de desejar a você, em casa, um ótimo 1996, e lembrar que o Roda Viva volta na próxima semana, às dez e meia da noite. Até lá, um bom ano para todos.

[O poeta baiano Waly Salomão, um dos entrevistadores deste programa, faleceu em 2003, vítima de um câncer no fígado]

Sobre o projeto | Quem somos | Fale Conosco