Memória Roda Viva

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Newton Cruz

27/3/2000

Um dos nomes mais conhecidos da ditadura militar, o general diz que ele também foi perseguido pela linha-dura do regime e se defende de acusações de participação em atentados

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[Programa ao vivo]

Paulo Markun: Ele está de volta com um livro de memórias e um novo processo para enfrentar na Justiça sobre um dos mais simbólicos casos que marcaram a história recente do Brasil. O Roda Viva entrevista esta noite o general Newton Cruz, ex-chefe do Sistema Nacional de Informação e o mais polêmico dos generais do regime militar.

[Comentarista]: Figura chave do serviço de informação durante o período revolucionário, o general Newton Cruz é personagem vivo de um dos mais conturbados períodos da história do Brasil das últimas três décadas. Trabalhando no Serviço Nacional de Informação [SNI] desde o início dos anos 1960, Newton Cruz assumiu a chefia do SNI em 1976 e, depois, pela segunda vez, em 1980. Eram anos de manifestações, de enfrentamentos de rua e de repressão política. Promovido ao cargo de comandante militar do Planalto pelo presidente Figueiredo, o general foi o executor das medidas de emergência que proibiram reuniões em locais públicos e que levaram ao uso de tropas para cercar o Congresso nos momentos mais delicados das relações entre o governo e os congressistas. Foram anos em que o general também teve o seu nome envolvido em episódios polêmicos. Em 1982, o jornalista Alexandre Von Baumgarten [(1930-1982) ex-diretor da revista O Cruzeiro, veículo que usava para defender teses favoráveis à ditadura militar, tido como colaborador do SNI em troca de apoio para  arrecadar fundos de publicidade] apareceu morto em uma praia do Rio de Janeiro depois de tornar público um dossiê que alertava que o general planejava matá-lo. Newton Cruz foi julgado por isso e acabou inocentado por falta de provas. O caso de maior repercussão foi o atentado a bomba na noite de um show de música popular brasileira no Riocentro [atentado Riocentro]. A explosão matou um sargento e deixou um tenente gravemente ferido. Os dois militares foram dados como vítimas do controvertido inquérito que investigou o atentado. No ano passado, dezoito anos depois, a Justiça Militar reabriu o caso, apontando erros no inquérito da época, e iniciou novas investigações sobre a participação de outros militares no episódio, além do sargento e do tenente que estavam no [carro] Puma. O caso agora está no Superior Tribunal Militar, que aceitou denúncia contra o general Newton Cruz pelo fato de não ter revelado os nomes de dois militares que, supostamente, sabiam com antecedência do atentado. O novo processo trouxe o general de volta ao noticiário, juntamente com o anúncio do seu livro, em reportagem à revista Manchete. [O livro] Caçado e cassado por defender a pátria está para ser lançado e, nele, Newton Cruz fala dos interesses de quem o acusou e revela as memórias que cultivou nesses quase quinze anos em que teve que deixar a farda e ir para casa como general aposentado.

Paulo Markun: Para entrevistar o general Newton Cruz nós convidamos: os jornalistas Paulo Motta, editor de Cidades, do jornal O Globo; Bob Fernandes, redator chefe da revista Carta Capital, Zevi Ghivelder, diretor editorial do Grupo Bloch; Fritz Utzeri, editor de redação do Jornal do Brasil; Mônica Teixeira, apresentadora do programa Opinião, da TV Cultura; e Luiz Caversan, repórter especial do jornal Folha de S.Paulo. O Roda Viva é transmitido em rede nacional para todos os estados brasileiros e também para Brasília. Boa noite, general.

Newton Cruz: Boa noite.

Paulo Markun: Agora, no dia 12 de abril, foi determinado que o senhor compareça ao Superior Tribunal Militar para ser interrogado. Isso foi determinado pelo ministro Flávio Bierrenbach, aceitando uma denúncia e determinando abertura de processo contra o senhor. Segundo a notícia que nós temos, se quer saber exatamente isso: se o senhor tem informações que outras pessoas sabiam, previamente, do atentado Riocentro e, enfim, quais as informações que o senhor pode fornecer. Então, gostaria de saber o que o senhor vai falar lá no Superior Tribunal Militar.

Newton Cruz: Sabe de uma coisa? Isso tudo está parecendo o “samba do crioulo doido” do nosso amigo Stanislaw Ponte Preta [pseudônimo de Sérgio Porto (1923-1968) cronista, escritor, radialista e compositor brasileiro]. A opinião pública não está tomando conhecimento, absolutamente, do que está se passando. E, lamentavelmente, me perdoem, [mas] os jornalistas também não estão sabendo o que está se passando. Então, vamos ao caso: foi aceitar uma denúncia contra mim por um relator no Superior Tribunal Militar. Ele aceitou a denúncia. Eu estou entrando com habeas corpus para sustar essa ação.

Paulo Markun: Por quê?

Newton Cruz: Porque eu não cometi crime nenhum. Então, eu vou mostrar, eu vou provar o que está acontecendo, falando na denúncia e falando na aceitação da denúncia, está certo. Quem denunciou? O ex-procurador geral da Justiça Militar, o doutor Coêlho.

Paulo Markun: Kleber de Carvalho Coêlho.

Newton Cruz: É, Coêlho com acento circunflexo no “e” porque é um coelho diferente dos outros, já que tem acento circunflexo na letra “e”. Uma foi essa denúncia. Depois foi a aceitação. Se me permitem, eu vou pegar a denúncia que eu tenho aqui, vou pegar a aceitação da denúncia e vou comentar as duas. Está bem assim?

Paulo Markun: Por favor.

Newton Cruz: Me perdoem, porque eu sei que é horrível puxar papel, mas facilita. Aqui, por exemplo, vamos ver a denúncia. A denúncia está assinada pelo procurador geral da Justiça Militar. Vamos ver a aceitação da denúncia, feita pelo ministro Flávio Bierrenbach. Por falar no ministro, ele é ex-deputado e até, no meu livro, há uma pequena referência a ele, uma pequena. Porque o tio dele, o almirante Bierrenbach, que fez tudo o que podia fazer para que esse problema do Riocentro fosse encaminhado de outra forma, manteve uma conversa em sua casa, aqui em São Paulo, com Tancredo Neves. E a opinião do Tancredo Neves é que eu queria dar um golpe contra ele.

[interrompido]

Paulo Markun: ...Só não queria que o general fugisse da pergunta. A pergunta, especificamente, é o que você vai responder no Superior Tribunal Militar em relação ao processo.

Newton Cruz: Então, aqui está. Então, vamos..

Paulo Markun: Depois vamos falar do golpe.

Newton Cruz: Estava falando só da pessoa, de quem aceitou.

Paulo Markun: Perfeito. Mas trata-se do ministro do Superior Tribunal Militar em pleno gozo dos seus direitos, imagino eu.

Newton Cruz: É claro. Eu não estou contestando isso. Eu estou levantando apenas o conhecimento que eu tenho. Agora, muito bem, vamos à denúncia. A denúncia tem, a rigor, um, dois, três, quatro parágrafos que são precedidos de declarações que eu prestei no IPM [Inquérito Policial Militar]. E eu vou analisar cada um dos parágrafos rapidamente. O primeiro parágrafo incorpora uma mentira, uma inverdade. Diz o primeiro parágrafo que, segundo as minhas próprias declarações, as duas pessoas com quem eu me encontrei no Rio de Janeiro, em 1981, que eram um tenente e um sargento, segundo as minhas próprias declarações, eles teriam participado do episódio do Riocentro. É uma falsidade. Eu não declarei isso. Eu nunca disse que esses dois rapazes tinham participado do episódio do Riocentro. Então, já estão vendo como a coisa está completamente distorcida. [Diz no inquérito] que eu estaria recusando falar os nomes dos envolvidos, [mas] eu me encontrei com esses dois militares um mês depois do atentado do Riocentro. Não tem nada a ver com aquela história do Medeiros [general Octávio Medeiros (1922-2005), chefe do SNI na época do atentado] não tem nada a ver. [Foi] um mês depois e não fui tratar com eles de episódio de Riocentro, nada disso. Então, isso aqui é uma inverdade, porque eu não declarei. Acontece que, nas minhas declarações, eu digo o seguinte: “mas, será que esse tenente não participou?” Eu falei: “é possível”. “Será que o sargento”? “É possível”. Eu falei em termos de possibilidades. Não afirmei, porque eu não tenho o menor conhecimento sobre isso e não perguntei a eles. Então, primeira falsidade. O segundo parágrafo é apenas uma conjectura. [Abre o documento e começa a ler] “Evidentemente, a deliberada vontade do denunciado em calar a verdade nessas circunstâncias, não deixou de comprometer, enfatize-se, o bom andamento das investigações”. Quem é que investiga? É o encarregado do IPM. Ele é que investiga. Pois, muito bem. A denúncia é diferente do indiciamento. Para o indiciamento, não há ninguém do DOI-CODI [Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna. Órgão repressivo do regime ditatorial que se instalou em 1964], ninguém. A não ser lá, na bomba do estacionamento, a não ser naquela bomba, quem? O capitão e o sargento. Só. Mais ninguém. Muito bem, é uma conjectura. Então, prejudicou as investigações em quê?

[...]: denuncia também o [coronel Freddie] Perdigão [Pereira (1937-1997) membro do SNI na época].

Newton Cruz: O Perdigão está morto. O Perdigão é outro problema. Depois eu vou cuidar do Perdigão. O Perdigão... Isso tudo é uma farsa que estão... [dirige-se ao mediador] Posso me virar um pouquinho para cá, para atender essa [pergunta] ou continuo no meu raciocínio?

Paulo Markun: Não. O senhor pode deixar que eu vou voltar ao assunto. Eu vou voltar à pergunta. Eu só quero que o senhor explique o seguinte: o senhor não vai ao...

Newton Cruz: Está bom. Então, a conjectura, está bem? Não tem nada. O que infringe a investigação, se a conclusão do encarregado é diferente do que diz o procurador geral? Vamos à terceira. A terceira afirma que eu, para negar, invoquei a lei que criou o SNI. Só fala isso. É uma restrição mental. Eu invoquei sim a lei que criou o SNI e bastava, se quisesse, eu invocar a lei mesmo. Porque eu não disse e não vou dizer nunca a identidade desses dois rapazes. Por que eu não vou dizer? Porque eles vieram ao meu encontro sabendo que eu era chefe da Agência Central do SNI e, vieram ao meu encontro, seguros de que a identidade seria preservada.

Paulo Markun: Em que pesam eles terem cometido um crime, o senhor acha..

Newton Cruz: Mas eles não cometeram nenhum crime.

Paulo Markun: Não cometeram?

Newton Cruz: Esse “em que pese” não existe. Não cometeram crime nenhum. Esses dois não cometeram crime nenhum.

Mônica Teixeira: E eles o procuraram, então, por que, general?

Newton Cruz: Não me procuraram... Isso já é outro problema. Vou dizer por que eu estive com eles. Um mês depois do Riocentro, eu recebi um informe de que havia um clima de descontentamento ainda entre alguns integrantes do DOI do Primeiro Exército. Muito bem. Eu fiquei revoltado. Por quê? Estava sendo investigado o negócio do Riocentro, um problema muito sério. Como existe clima de descontentamento ainda? Então, eu resolvi que irira processar esse informe. E tinha o direito de fazer, porque eu era chefe da Agência Central do SNI. Eu é que supervisionava as informações, tecnicamente, então, se eu tenho que processar o informe, eu posso ir pessoalmente.

Mônica Teixeira: Então, o senhor foi lá saber por que havia um clima de revolta?

Newton Cruz: ...Eu fui tratar desse assunto, só. Porque havia essa intranqüilidade e gente dizendo: “Não, porque nós vamos fazer também um protesto.” Então, eu fui. Eu estive lá, não é novidade. Tem aqui a revista Veja que publica esse encontro anos atrás. Eu não estou inventando isso agora não, está aqui na revista Veja. Com licença, que eu vou pegar papel...

Zevi Ghivelder: General, antes de o senhor pegar a Veja, deixa eu lhe fazer uma pergunta: estávamos discutindo, o tempo todo, se o senhor sabia ou não sabia do atentado fora de hora. Eu quero saber o seguinte: qual foi a sua reação pessoal quanto ao atentado do Riocentro? Como o senhor reagiu?

Newton Cruz: De revolta, de indignidade. Eu não sabia. Aquela bomba, aquela bomba, a tal bomba do estacionamento, eu tomei conhecimento pela televisão. Não sabia dela...

[Sobreposição de vozes]

Paulo Motta: O senhor já tinha sido chefe da Agência Central do SNI. Havia uma série de atentados no Brasil. O senhor não sabia quem estava cometendo esses atentados?

Newton Cruz: Olha, o que a Agência tinha processado em torno disso, em termos de informações, porque a Agência não era órgão de polícia...

[sobreposição de vozes]

Newton Cruz: ...é órgão de informação.

Paulo Motta: O senhor sabia quem eram os autores do atentado à OAB, ao Riocentro, a uma série de atentados que houve...

Newton Cruz: Contra a OAB não tenho a menor idéia. Quem apurou foi a Polícia Federal, que não tem nada com o SNI.

Paulo Motta: Mas como [não sabia], se é área de informação?

Newton Cruz: A área de informação recebe informe. Eu sabia tudo, eu sabia tudo. E quero dizer mais o seguinte: o que eu tenha sabido, eventualmente, pela cadeia de informação, eu moralmente não posso revelar.

[sobreposição de vozes]

Paulo Motta: O que nos parece é que a Agência Central do SNI seria como a Agência Central da CIA. Quando há uma série de atentados no país, se o chefe da Agência Central do SNI não está informado, ou esse SNI é incompetente ou é conivente.

Newton Cruz: Mas, muito bem, então, você tire a conclusão que quiser! Era incompetente, mas não tinha nada com isso, pronto. E tem mais, o SNI processava informações. E mais o seguinte: a obrigação da SNI era apenas processar informação e transmitir a quem de direito.

[sobreposição de vozes]

Paulo Motta: Então, o senhor sabe quem foram os autores desses atentados?

Newton Cruz: Eu não sei e se soubesse não diria, por quê? Porque eu estou protegido pela lei. Não devo dizer. Se eu disser aquilo que eu sabia através do funcionamento do SNI, eu passaria a ser um homem sem caráter. Como você também, sendo jornalista, se alguma fonte disser a você alguma coisa em off, você não diz. De que jornal você é?

Paulo Motta: Eu sou do Globo.

Newton Cruz: Então, eu vou contar uma história do [jornal] O Globo. Em 1995, o diretor de redação do O Globo, que hoje é diretor de jornalismo da TV, me ofendeu brutalmente. Ele escreveu um artigo no Globo [cujo] nome era “Folha corrida” e ele me envolvia no atentado do Riocentro. Muito bem, eu processei esse senhor, Evandro Carlos de Andrade [(1931-2001)], eu processei o jornal, eles não publicaram nada e eu mandei: “publica que vocês estão dizendo uma inverdade.” Não publicaram, eu os processei e, dez meses depois, eu escrevi a resposta no O Globo. Porque aquilo não tinha prova nenhuma. Ele tinha dito uma inverdade, baseado em uma fonte e não havia declarado qual era. Não declarou, está bem? O seu jornal, ele não declarou a fonte e foi condenado, tendo que pagar R$ 6.500,00 das custas do processo. E eu digo: se soubesse não revelaria. Pronto. Acabou.

Paulo Markun: Eu só queria esclarecer, antes de passar a bola para...

Newton Cruz: Porque, pelo jeito, todo mundo está em cima de mim. Eu não tenho culpa de nada.

[sobreposição de vozes]

Paulo Markun: O senhor tem certeza? Essa cadeira é exatamente para isso. Ela tem uma grande vantagem...

Newton Cruz: [interrompendo] A cadeira é para quem sentar aqui dizer a verdade. Agora, é preciso que tenha fundamento.

Paulo Markun: Essa cadeira é mansinha, não é igual a “cadeira do dragão” que eu conheci bem [instrumento de tortura usado durante o regime militar, constituída por um assento de zinco coberto de fios de tensão elétrica que provocavam choques na vítima]. Essa cadeira é mansinha.

Newton Cruz: É mansinha? Eu também sou mansinho.

Paulo Markun: Então, vamos lá, general, o senhor disse que havia duas bombas...

Newton Cruz: Havia a minha palavra. Agora, a minha veemência é a minha, e é em função da pergunta que é feita.

Paulo Markun: Então, eu vou fazer uma outra pergunta para o senhor: o senhor disse que havia bombas no... Disse não, havia duas bombas no Riocentro...

Newton Cruz: Eu não disse que havia duas bombas.

Paulo Markun: O inquérito apurou que havia duas bombas.

Newton Cruz: O inquérito não apurou nada de duas bombas lá no Riocentro.

Paulo Markun: Não havia duas bombas?

Newton Cruz: Onde? Lá no estacionamento?

Paulo Markun: Não havia duas? Uma na casa de forças?

Newton Cruz: Não. Está diferente, é completamente diferente.

Paulo Markun: Mas havia uma outra?

Newton Cruz: Era possível que houvesse duas bombas, por quê? Porque havia um grupo descontente no DOI, o Perdigão tinha ido lá. Você sabe que eu nem conhecia o Perdigão? Nem conhecia. Sabe que, ao longo de toda a minha vida, eu tive, talvez, cinco minutos com ele? Se eu encontrasse o Perdigão na rua eu nem saberia quem era. Não foi ao SNI por meu intermédio, nunca teve ligação nenhuma. Entretanto, o encarregado do inquérito diz que, desde 1970, ele era ligado a mim. O encarregado do inquérito mentiu. Basta pegar as alterações do Perdigão e a minha. A história do Perdigão é a seguinte – embora a pessoa dele eu não conhecesse – descobriram num livro, o encarregado do inquérito e o procurador descobriram num livro, um tal A direita explosiva no Brasil [publicado em 1996 pelos autores José Argolo, Kátia Ribeiro e Luiz Alberto Fortunato] que, por sinal, não é um bom livro, mas descobriram lá o nome do Perdigão e outros em um tal “*grupo secreto”. Descobriram o nome do Perdigão e os nomes de outras pessoas. Nesse livro, aparece o nome do Perdigão e outros nomes. O que fez o encarregado do inquérito? O que fez o procurador? Como apareceu o nome do Perdigão, agora, em 1981, ele foi pegar o Perdigão lá, que era em 1968, quando pertencia ao CIE [Centro de Informações do Exército], que não tinha nada a ver com o SNI. Foi pegar aqueles nomes lá e jogou em 1981. Entre 1970 e 1981, não existe nada sobre Perdigão, que eu saiba, relacionado com atentado algum. Nada. E eles pegaram aquele lá e pegaram esse tal “grupo secreto” e jogaram, agora, em 1981. Agora, por que o encarregado do inquérito jogou o tal “grupo secreto”, por quê? Porque ele queria tirar o DOI da garupa. Ele mesmo disse: “não tem ninguém do DOI.” Ele disse isso. Se não há ninguém do DOI, aqueles dois que estavam comigo não têm nada com o problema.

Paulo Markun: Mas, pelo que eu entendi, o senhor acha que havia... Tanto que essa outra bomba teria sido colocada pelos descontentes do DOI.

Newton Cruz: ...Deixa eu contar a história, como chegou a mim. O coronel Perdigão, lá do Rio de Janeiro, telefonou para um amigo dele na Agência Central dizendo: “Olha, eu estou aqui no DOI.” Agora, por que ele estava lá? Porque ele foi buscar informes. É natural isso. É trabalho dele. Não precisava nem o chefe mandar, [isso se chama] busca sistemática. Então, ele estava lá e falou: “Há um grupo aqui descontente, estão falando em jogar uma bomba lá no estacionamento para meter medo, o pessoal lá... Não é para matar ninguém não. Para meter medo, jogar no estacionamento.” Muito bem, o Perdigão viu aquilo... [Inclusive], ele procedeu muito bem, fez o que podia fazer. Nessa altura, ele, com aquele pessoal, falou: “Não, lá no estacionamento não fica bem porque, afinal de contas, há carros perto”. Não, vamos jogar essa bomba mais afastada, pelo menos, já que ele não podia tirar... Não podia devolver...

Paulo Markun: O Perdigão que recomendou isso?

Newton Cruz: O Perdigão comentou para o interlocutor dele aqui.

Bob Fernandes: Sim, mas ele disse: “não vamos jogar essa bomba aqui, vamos jogar essa bomba lá...”

Newton Cruz: Não, não, se tem que jogá-la, então, vamos jogar em um local afastado...

[Sobreposição de vozes]

Mônica Teixeira: Então, ele concordou com a bomba? O Perdigão, então, concordou com o lançamento da bomba?

Newton Cruz: Não se podia fazer nada naquele momento...

Mônica Teixeira: Mas espera aí, general...

[Sobreposição de vozes]

Paulo Motta: Então, o senhor foi avisado uma hora antes?

Newton Cruz: Eu fui avisado por telefone através de um coronel da minha Agência que o Perdigão dissera isso, porém, já tinha desviado para um lugar mais afastado. E que ele, Perdigão, estava obrigado, moralmente, com essa gente. O Perdigão nem sabia onde era.

Paulo Motta: O senhor acabou de dizer que o senhor soube do suposto atentado pela televisão...

Newton Cruz: Eu soube da bomba que explodiu no estacionamento, que era outra. Não é possível que você não entenda isso.

[Sobreposição de vozes]

Newton Cruz: Mas, meu Deus do céu, mas nem se falou da outra. Essa outra bomba que explodiu foi de brincadeirinha, como o Perdigão disse.

Bob Fernandes: Desculpe general, mas o senhor soube do episódio “bombas”...

Newton Cruz: Não, não. Não soube do episódio bombas não. Você está fazendo uma má colocação.

Bob Fernandes: Mas não foram duas?

Newton Cruz: Meu Deus do céu, eu soube que havia uma turma descontente...

Mônica Teixeira [interrompendo]: Uma hora antes?

[Sobreposição de vozes]

[Risos]

Newton Cruz: Posso falar?

Paulo Markun: Estamos aqui para isso.

Newton Cruz: Eu sei muito bem que vocês não estão aqui para isso, não. Eu conheço muito bem vocês.

[Risos]

Newton Cruz: Eu sei, eu sei sim. Conheço vocês como a palma da minha mão. Não acabei de contar a história d'O Globo? Acabei de falar sobre o que eu conheço d'O Globo. Hoje, está lá: é diretor de jornalismo da Rede Globo. Olha aqui: O Globo, pelo menos... Existem três cartas minhas que não foram publicadas, se publicasse uma carta que eu mandei para lá... tudo o que eu estou dizendo está nas cartas que eu mandei para lá.

Paulo Motta: Tudo o que o senhor falou n'O Globo foi publicado contra o senhor várias vezes...

Bob Fernandes: General, as pessoas querem te ouvir, o senhor está fazendo história...

Newton Cruz: Então, como eu falei, eu não sabia nada sobre o Riocentro. Mais ou menos uma hora antes houve esse episódio do telefonema, e eu fiquei revoltado. O Perdigão disse ao seu interlocutor, não a mim...

Bob Fernandes: Não jogue aqui, joga lá, porque se jogar aqui pode ter mais problemas... Isso é uma coisa

Newton Cruz: E acabou que não ia haver bomba nenhuma porque os outros dois, o capitão e o sargento, apareceram lá e ninguém sabia deles...

[Sobreposição de vozes]

Paulo Markun: General, espera aí, só um minutinho, por favor.

Luiz Caversan: O senhor disse que está aqui para se defender e dizer a verdade. Então, eu vou perguntar...

Newton Cruz: Eu só quero dizer que não falo nenhuma mentira...

Luiz Caversan: Sim, mentira é pecado...

Newton Cruz: Se fosse pecado, não haveria jornalista no mundo...

[Risos]

Luiz Caversan: Bom, então, quem está mentindo nessa história? O general Octavio Medeiros disse...

Newton Cruz: É outro problema. É outro problema, não tem nada...

Luiz Caversan: ...Posso perguntar ou não?

Newton Cruz: Espera, espera. Eu vou contar para vocês sobre o general Medeiros. Eu vou contar, inclusive, como foi a acareação que tive com o Medeiros. Muito bem, o Medeiros prestou depoimento e eu nem sabia o que o Medeiros havia dito. Eu fui convocado, convocado não, solicitaram minha presença... Uma espécie de solicitação, onde o assunto era: solicitação de comparecimento. E eu teria uma acareação com o Medeiros. Isso [ocorreu] no dia 17 de setembro de 1999. Bom, entregaram para mim o documento e, na mesma hora, eu respondi ao encarregado do intento por escrito: “lamento, mas não poderei comparecer na acareação”. Por quê? O outro acareado era o meu chefe da SNI... Ficam falando aí, chefe do SNI, eu nunca fui chefe da SNI, façam o favor de mudar tudo o que vocês disseram aí. Mas muito bem, o outro era chefe do SNI e, evidentemente, uma acareação entre nós seria uma acareação para tratar de assuntos relacionados com o SNI e a lei nos obrigava a não depor sobre isso. Então, eu lamentava, mas não iria comparecer. Muito bem, eu nem sabia o que o Medeiros tinha dito, não sabia nada. Não compareci. O que fez o general Conforto [então responsável pelas investigações]? Diante da minha resposta, ele me indiciou por desobediência. Isso aí só saiu agora, por quê? Porque mais tarde, eu fui à acareação. E vou dizer por que eu fui. Muito bem, [mas] e na outra convocação que ele fez, ele desmente a convocação anterior, e que se eu não fosse seria preso e não sei mais o quê. Isso tudo [já] desmente que ele errou quando me indiciou por desobediência. Muito bem, quando eu recebi o relatório do IPM... Para eu obter esse relatório... Eu obtive um mês e tanto depois de vazar para O Globo, vazar para O Globo. O relatório vazou só para o jornal O Globo, quando estava em segredo na Justiça. Vazou no dia 19 de outubro de 1999 só para o jornal O Globo. [Fala apontado para o jornalista Paulo Motta, do jornal O Globo]

Bob Fernandes: Mas é assim mesmo, general, jornalistas vivem disso...

Newton Cruz: ...E eu vou tratar disso na Justiça. Porque vazou para a imprensa, a minha casa ficou cheia de repórteres... E ninguém está preocupado com falso testemunho, não estava nada. Falso testemunho e desobediência. A preocupação era a condescendência criminosa e a prevaricação, crimes os quais já tinham sido considerados prescritos, entendeu? [Refere-se aos crimes pelos quais foi indiciado no primeiro Inquérito Policial Militar, aberto logo após o atentado Riocentro, em 1981. Segundo consta do Código Penal Militar, o processo para apurar esses crimes precisaria ter sido aberto até abril de 1989, oito anos depois do atentado, como não foi aberto, esses crimes foram prescritos]

Mônica Teixeira [interrompendo]: General!

Newton Cruz: Deixa-me terminar. Assim não dá. Eu estou respondendo a ele...

Mônica Teixeira: Está bem, desculpe.

Newton Cruz: ... Ou vocês não querem que eu explique?

Paulo Markun [e outros entrevistadores]: Não. Pode responder.

Newton Cruz: Quando eu recebi os autos... E olha, para obter esses autos, eu fiz um ofício para o general comandante do Exército, eu fiz um requerimento para o procurador geral. Ele faltou com o cumprimento da lei [fala apontado para o jornalista Paulo Motta, do jornal O Globo]. Porque nessa ocasião, os autos estavam com ele, que não me deu os autos. Muito bem, fiz um requerimento porque os autos já tinham voltado para ele. E nesses autos que voltaram para o [general Sérgio] Conforto, o procurador pedia de novo a acareação. Mas antes do procurador pedir, quando eu soube que o Medeiros tinha comparecido, eu mandei um ofício, porque agora não tinha mais razão nenhuma em não ir. Por quê? Porque o meu chefe foi. Agora, estou disposto a ser acareado com o Medeiros e com quem mais quiser. Porque aquela parte funcional não subsistia mais. Então, houve a acareação e eu vou contar exatamente como foi a acareação. Eu e o Medeiros, eu repeti exatamente [aquilo que já havia dito]: estava no meu gabinete, nove horas, telefonema de “a”, recebe “b”, me disseram isso. E aconteceu isso, assim e assim, exatamente o que eu contei em todo o lugar: na imprensa, aqui, em todo o lugar. Aí o Medeiros disse: “não”. Não confirmou aquilo que eu disse, então, eu falei: “Medeiros, vamos encarar. Agora, eu vou dizer exatamente o que aconteceu”

Bob Fernandes: Para o telespectador que não sabe, você poderia dizer exatamente o que aconteceu?    

Newton Cruz: O que o Medeiros dissera, veja bem, é que cerca de um mês antes, eu teria falado com ele – veja bem, não há nada de bomba, nada parecido com bomba – e havia a possibilidade de uma ação no Riocentro de duas pessoas, mas que essa ação não iria mais ocorrer. O que o Medeiros disse foi isso. Acontece que eu nunca disse nada para o Medeiros

Bob Fernandes: Então, quer dizer que o general Medeiros mentiu.

Newton Cruz: Espera aí, me deixa acabar o raciocínio! Você quer falar por mim? Espera que ele, agora, vai falar [e aponta para o Bob Fernandes]

Bob Fernandes: Não. Estou só perguntando...

Newton Cruz: E eu vou concluir agora, você não me deixa falar. Então, muito bem, eu disse para ele naquela ocasião: “Medeiros, veja bem, você deve estar fazendo alguma confusão. Isso só pode ser uma confusão mental da sua parte. Medeiros, você foi o meu maior amigo na vida militar. Você foi meu amigo desde quando nossas camas eram coladas lá na Escola Militar do Realengo”. Até de madruga ficávamos nós dois conversando, trocando confidências. Ao longo da vida, toda a vez que o Medeiros precisou indicar alguém, indicou meu nome. Eu fui para o SNI por indicação do Medeiros.

Zevi Ghivelder: Mas general, ao que o senhor atribui, então, essa confusão mental?

Newton Cruz: Tem que perguntar ao Medeiros, não a mim. Eu atribuo a isso: ele mentiu. Eu disse isso para ele. Falei: “Medeiros, você foi um excelente chefe do SNI; você foi um excelente militar; você é um excelente homem público. Mas, Medeiros, você mentiu”.

Luiz Caversan: Mas, pelo o que o senhor contou, além de uma mentira, foi uma traição a uma amizade de anos...

Newton Cruz: Não, não. Porque ele não falou pensando em mim. Ele nem sabia de mim. Mas o Medeiros disse o seguinte também: “eu não sei por que o Newton está sendo indiciado? A obrigação dele seria dizer a mim, como ele disse”. E, realmente, deveria dizer a alguém e só podia ser ao Medeiros, a mais ninguém. Isso está na doutrina da informação...

Paulo Markun: General, desculpe, mas a doutrina da televisão nos obriga a fazer três intervalos, nós passamos cinco minutos só do primeiro intervalo

Newton Cruz: A doutrina da televisão é mais obrigação de vocês do que minha, não é?

Paulo Markun: Mas, então, exatamente. Logo depois do intervalo.

Newton Cruz: Eu estou botando as coisas em pratos limpos.

[intervalo]

Paulo Markun: General, o senhor disse que ainda não terminou de responder aquilo. Só que eu queria pedir um favor ao senhor. A regra deste programa, o funcionamento deste programa é esse. E imagino que o senhor já tenha assistido...

Newton Cruz: Mas, então, estou aceitando a regra. Estou debatendo com todo o mundo, só que eu faço à minha moda...

Paulo Markun: Exatamente. E eu conduzo o programa à minha moda, então, nós vamos tentar estabelecer uma meta conjunta.

Newton Cruz: Claro, claro. Você fez uma pergunta inicial. Eu estou no meio da sua resposta. Agora, eu quero acabar aqui para depois voltar para você, se vocês deixarem. Eu vou voltar a falar, primeiramente, do Medeiros porque isso é importantíssimo. Muito bem, então, o Medeiros falou aquilo de um mês antes, e eu disse que não era verdade. Agora, o mais importante não é isso. Porque isso que ele disse não tem nada a ver com o meu indiciamento agora. Esse problema do Medeiros estaria equacionado com a prevaricação e com aquela outra parte, que foi considerada prescrita. Isso não tem nada a ver com o que está acontecendo agora que é com o meu encontro um mês depois, vale dizer dois meses depois, pelo que conta o Medeiros e que estaria lá na revista Veja...

Mônica Teixeira: Posso perguntar agora? O senhor acabou de falar essa parte do Medeiros?

Newton Cruz: Não acabei ainda.

Mônica Teixeira: É por que o senhor voltou a falar de uma coisa e eu vou perguntar...

Newton Cruz: Não, não. Porque o seguinte: aí é que foi a coisa mais grave de tudo o que existiu. Como o encarregado do inquérito teve um conhecimento antecipado que o Medeiros teria tido por meu intermédio? Sabe como ele fez o indiciamento de, aliás, um crime que seria prescrito? Por que, segundo o inquérito, eu teria negado... Teria desmentido declarações do Medeiros, [mas] eu não podia desmentir porque eu não as conhecia. Não conhecia as declarações do Medeiros sobre – atenção – um plano para colocar uma bomba no sistema elétrico do Riocentro. Isso foi colocado no inquérito, [mas] isso é mentira porque não está no depoimento do Medeiros. [Segundo o inquérito], como eles queriam levar tudo para a casa de força, morreram. Aquela [bomba] do estacionamento não existe. [Mas] isso é mentira. O Medeiros desmentiu isso. Ele fez consignar que era mentira.

Mônica Teixeira: General, eu queria perguntar uma coisa, posso perguntar?

[...]: E por que essa manipulação no inquérito?

Newton Cruz: Ah, boa pergunta. Vá fazer para eles, não para mim.

Mônica Teixeira: Mas, general, o senhor falou várias vezes isso e estou aqui com “a pulga atrás da orelha”, por que havia esse descontentamento no DOI do Rio de Janeiro?

Newton Cruz: Isso é muito fácil de explicar. Eu disse isso... Eu escrevi. Porque é o seguinte – essa é a verdade – durante muito tempo, esses rapazes...

Mônica Teixeira: [interrompendo] Quais rapazes? Os do DOI do Rio de Janeiro?

Newton Cruz: ...Que trabalhavam no DOI, não sei mais o quê...

Mônica Teixeira: ...Eles faziam as mesmas funções do DOI aqui de São Paulo?

Newton Cruz: Não, o DOI é regional, tem o DOI de São Paulo, tem o de lá...

Mônica Teixeira: [interrompendo] Mas no caso do DOI daqui, eu só queria que aqui, no de São Paulo, por exemplo, morreu o jornalista Vladimir Herzog.

Newton Cruz: Durante algum tempo, essa gente aprendeu que essa era uma forma de trabalhar contra os comunistas.

Mônica Teixeira: Pela tortura?

Newton Cruz: Muito bem... Não falei tortura! Mas eu não estou lá, não está tortura... Ah, meu Deus do céu! Você está misturando aqui com Vladimir Herzog, não sei mais o quê. Não tem nada de tortura. Tortura ninguém apoiou tortura. Tortura é por sua conta.

Paulo Markun: Ela acontecia por conta própria. Ninguém...

[sobreposição de vozes]

Newton Cruz: [gritando] Eu estou falando do DOI do Rio de Janeiro, pô! Não estou falando do DOI aqui de São Paulo! [sobreposição de vozes] Muito bem, tortura, vamos falar disso então: e o soldado que morreu aqui em São Paulo com a bomba que jogaram nele? E o sargento no Rio que morreu com um tiro aqui também? [leva a mão direita à nuca]

Luis Caversan: Então, é "olho por olho, dente por dente"?

Newton Cruz: Não, errado. Os dois lados estão errados! Os dois lados, errado! Agora, me deixa continuar. Eu só quero é que tire a tortura no fato que eu estou falando.

[...]: Tortura é só em São Paulo...

Newton Cruz: Não é só São Paulo, podia até haver lá, mas eu não tinha conhecimento.

[...]: Certo

Mônica Teixeira: Tá bom.

Newton Cruz: Aqui em São Paulo foi claro e notório. Lá não houve, que eu saiba. Nunca houve.

Mônica Teixeira: O senhor estava dizendo que eles tinham uma outra forma de trabalhar.

Newton Cruz: Isto, outra forma de trabalhar. Talvez, quem sabe, [colocavam] bombas debaixo de banca de jornal, isso eu admito. Mas, nunca, nessas ações, a verdade é uma: nunca houve uma morte sequer.

Paulo Motta: E dona Lyda? O senhor exclui dona Lyda? [Lyda Monteiro da Silva era secretária da OAB-RJ, morreu ao abrir correspondência contendo explosivos em 1980]

Newton Cruz: Lá, nesses atentados... O que está no livro aqui à direita, eu tenho todos eles apontados comigo aqui, não houve uma única morte.

[sobreposição de vozes]

Paulo Markun: Eu não entendi o descontentamento, eu queria entender.

Newton Cruz: Muito bem. Então, eles entendiam que era assim, que defender o país era isso. Muito bem. De repente, as coisas mudaram, não é possível mais fazer isso. Hoje, essa regra não pode subsistir, isso é um absurdo. E não houve aquele trabalho...

[...]: Uma reciclagem profissional.

Newton Cruz: Uma reciclagem, não houve. Então, eles ficavam praticamente abandonados. Eles [ficavam] lá jogando futebol de salão, não sei mais o quê e tal...

Mônica Teixeira: Sem função no governo Figueiredo. Depois do fim do...

Fritz Utzeri: O senhor está dizendo com isso que tinha uma regra que num determinado ponto valia? A partir de um determinado ponto podia jogar bomba?

Newton Cruz: Eu não estou dizendo que valia. Eu estou constatando um fato, eu não estou defendendo... Sempre que eu informei, informei contrariamente a isso, sempre.

Fritz Utzeri: Mas é muito esquisito, general. O senhor vai me desculpar, mas o seu Serviço...

[interrompido]

Fritz Utzeri: Deixa eu falar. O senhor vai me desculpar, mas o seu serviço... O senhor disse que soube uma hora antes que iam botar uma bomba num lugar longe do Riocentro.

Newton Cruz: Longe não, afastada!

Fritz Utzeri: Afastada. Longe, afastada, enfim. O general Medeiros declarou que o senhor disse para ele uma semana antes...

Newton Cruz: Não, não, um mês antes!

Fritz Utzeri: Um mês antes, exatamente, perfeito.

Newton Cruz: [interrompendo] O Medeiros disse outra coisa... Ô meu Deus, o que o Medeiros disse não tem nada a ver com isso!

Fritz Utzeri: Tudo bem. O senhor não sabia de nada, o SNI não tinha localizado absolutamente nada...

Newton Cruz: [interrompendo] A Agência Central do SNI não sabia de nada. A Agência Central está em Brasília, isso tudo está acontecendo no Rio de Janeiro.

Fritz Utzeri: Não importa. A agência central da CIA é em Washington e sabe do que está acontecendo no outro lado do mundo...

Newton Cruz: Ah, sabe, e a Baía dos Porcos [invasão Baía dos Porcos]  foi assim, né? Eles sabem de tudo mesmo. Foi a coisa mais furada que já houve...

Fritz Utzeri: De vez em quando eles se dão mal também. Mas quero saber que serviço é esse que depois do inquérito, depois da explosão... Explodem a bomba, o senhor fica horrorizado e o SNI continua sem saber de nada? O senhor vai me dizer que ninguém do SNI foi deslocado...

Newton Cruz: [interrompendo] Não foi nada disso, nada disso. Quem ficou encarregado de apurar foi o Exército, era crime militar. O SNI não tinha que se meter e não se meteu!

Fritz Utzeri: Mas o senhor era serviço de informação... Como não se meteu?  O SNI se metia em tudo, era serviço de informação?

Newton Cruz: É o que você está dizendo, você não sabe de nada!

Fritz Utzeri: Vocês tinham a ficha de tudo! Eu garanto que eu tenho ficha no SNI...

Newton Cruz: Ora, não me lembro não, não me lembro ainda não. Porque não tenho conhecimento disso.

Fritz Utzeri: O senhor não deve ter lido, mas boa parte da turma aqui tinha ficha.

[sobreposição de vozes, risos]

Newton Cruz: Mas, alguma vez alguém usou essa ficha contra você?

Fritz Utzeri: Eu fui processado.

Newton Cruz: Foi processado por quê?

Fritz Utzeri: Ah, eu queria dividir as Forças Armadas brasileiras, para o senhor ter uma idéia do absurdo.

Newton Cruz: E você não queria?

Fritz Utzeri: Olha, até poderia querer. Mas, eu podia?

Newton Cruz: Você queria ou não queria? Fala! Queria sim! Queria!

Fritz Utzeri: Mas eu podia?

[sobreposição de vozes acaloradas]

Newton Cruz: Queria, aí é que está. E se você foi processado, trabalharam com você na forma da lei. Você foi absolvido?

Fritz Utzeri: Fui absolvido porque eu devo dizer uma coisa: a Justiça Militar, apesar de tudo, e não por conta dos conselhos, [mas] por conta dos juízes que tinha lá dentro, apesar de ser uma justiça de exceção, ainda agiu bem numa porção de casos.

Newton Cruz: [interrompendo] Agiu? Então, ótimo...

Fritz Utzeri: Ao contrário dos serviços de informação do DOI. 

[sobreposição de vozes acaloradas]

Newton Cruz: Deixa eu falar! Você foi subversivo!

[sobreposição de vozes acaloradas]

Fritz Utzeri: O senhor também foi subversivo.

Newton Cruz: O meu caso não foi. O meu não foi. Eu fui absolvido...

Fritz Utzeri: Como não foi subversão? O senhor está sendo incluído num crime em que o pessoal botou uma bomba dentro do Riocentro e o outro é de assassinato.

Newton Cruz: Eu não sou acusado de nada disso. É falso testemunho. Olha, se passar isso que estão dizendo aí, o falso testemunho meu, de não dizer a fonte, vocês todos estão perdidos...

Fritz Utzeri: General, o senhor é pessoa fácil...

[sobreposição de vozes acaloradas]

Newton Cruz: Eu não sou fácil não!

Fritz Utzeri: É fácil acusar. Não tem dúvida nenhuma.

Newton Cruz: Vocês passaram dez anos me caçando e não conseguiram nada!

Fritz Utzeri: É porque naquela época o senhor punha em cana.

Newton Cruz: Dez anos, Von Baumgarten. Ainda há pouco foi lido que no dossiê eu seria o assassino. Dossiê não dizia isso não. Não é verdade. O primeiro parágrafo do dossiê dizia que a morte [do jornalista] deveria ser atribuída: ou a mim ou ao general Medeiros. Não é o que você disse não. Só existe uma pessoa quenecessariamente não foi: eu. E fui absolvido. E eu processo você.

Zevi Ghivelder: Tem uma coisa histórica aqui, que eu acho importante, e eu gostaria que o senhor esclarecesse e acho que vai interessar a todo mundo. A Mônica levantou aqui a questão do DOI de São Paulo. No manuscrito do seu livro, o senhor investe vigorosamente contra o comportamento do presidente Geisel naquele episódio do DOI aqui de São Paulo, do Vladimir Herzog, e daquele operário o Manuel Fiel Filho. Por que o senhor investe tão vigorosamente contra o Geisel?

Newton Cruz: Pelo seguinte. Houve primeiro o episódio do Herzog. Foi feito o inquérito e acabou o episódio...

Paulo Markun: [interrompendo] Inquérito feito para não apurar nada, general. O senhor pode ter certeza disso.

Newton Cruz: Foi feito o inquérito, me deixa continuar? Foi feito o inquérito que não apurou...

Zevi Ghivelder: É, o senhor escreve isso no livro: o Geisel não apurou.

Newton Cruz: Eu também sou dessa opinião, o Geisel não apurou. Ele era presidente da República e ficou uma fera. Mas, não foi além de ficar uma fera. Deixou o barco correr. Depois, houve o episódio do Manuel Filho. Aí, como foi o governador de São Paulo que deu a notícia para ele, do episódio do Manuel Filho, ele ficou uma fera. E como ele já tinha feito recomendações que não queria e não sei mais o quê, pronto, demitiu o Ednardo D’Ávilla [comandante do 2º Exército na época dos episódios]

[...]: Mas isso não é correto?

Newton Cruz: Não é isso. Ele podia demitir, mas tinha que levar o inquérito até o fim. Ele demitiu e não deu bola para o inquérito. Ele foi incorreto. O problema do Ednardo é um aspecto...

Luis Caversan: O que ele tinha de fazer, ele tinha que mandar prender o torturador que matou o Herzog, é isso?

Newton Cruz: Não. Ele tinha que apurar.

Luiz Caversan: O senhor é uma pessoa altamente preparada, um oficial do exército de altíssima patente, o senhor viu a fotografia clássica do Vladimir Herzog morto.

Newton Cruz: Sim. [interrompendo] Tem mais, eu recebi! Agora eu vou dizer uma coisa que é novidade pra vocês! Em 1975, eu recebi um panfleto no SNI, que era o mesmo que tinha sido mandado para o Golbery [Golbery do Couto e Silva (1911-1978) ministro chefe da Casa Civil durante o governo Geisel], está entendendo? O mesmo. O Golbery sendo enforcado, parecido com o Herzog, caolha para mostrar que era o Golbery. Então, mandaram esse panfleto para o Golbery: “esse vai ser o seu fim”. Mandaram para o Golbery. Eu recebi o panfleto. Vai ser também o seu fim. Eu recebi...

Luiz Caversan: [interrompendo] Não, mas não era disso que eu estava perguntando para o senhor. Era outra coisa. O senhor viu a foto do Herzog?

Newton Cruz: Vi.

Luiz Caversan: O senhor acha que, tecnicamente, ali houve o suicídio, com o pé no chão?

Newton Cruz: Eu acho que não, mas, por isso que eu estou dizendo: tem que apurar. O que não podia era tirar o Ednardo e dar o caso por encerrado.

Paulo Markun: Quer dizer que o general Geisel, então, não foi tão...

Newton Cruz: Ele “jogou para a arquibancada”. E ganhou todos vocês, porque tirou o Ednardo, [mas] não levou até o fim o episódio.

Fritz Utzeri: Ué, mas se o Figueiredo fizesse a mesma coisa, ele tiraria o comandante do primeiro exército, por exemplo.

Newton Cruz: Negativo. O Figueiredo foi diferente, completamente diferente...

*Bob Fernandes: O general Golbery deixou o governo por quê, então?

Newton Cruz: O Golbery? [Ele] deixou o governo apenas...

Bob Fernandes: Não concordou com a condução do inquérito.

Newton Cruz: Espera aí. Eu já estive com o Golbery, e tinha uma opinião fabulosa dele. Desde o início do SNI, eu tive contato funcional, não pessoal, nunca tive contato pessoal com ele. Eu nunca pertenci à turma nenhuma, nem à do Figueiredo. Eu fui sempre pela minha consciência, sozinho. Pois muito bem. Então, eu tinha profundo respeito pelo Golbery, profundo respeito. Ele era um homem que nasceu para viver nos bastidores.

Bob Fernandes: Ele percebeu que aquele governo, com a não apuração daquele episódio, se encerrava.

Newton Cruz: Ele adorava manobrar e quando chegou o governo Figueiredo... O Geisel e o Golbery fizeram o Figueiredo presidente na certeza de que iriam manobrá-lo como presidente. Mas eles esqueceram de contar isso ao Figueiredo, eles não contaram ao Figueiredo isso. Então, aconteceu o seguinte: o Golbery, que era chefe da Casa Civil do Figueiredo começou a perder prestígio dentro do governo. E quem começou a ganhar prestígio foi o Medeiros. Então, o Figueiredo se alicerçava nas informações do Medeiros.

Bob Fernandes: Nós estávamos falando do episódio Riocentro, quando não apurou...

Newton Cruz: O Riocentro foi pretexto. Ele aproveitou esse pretexto. Estava na cabeça dele sair do SNI, isso foi apenas pretexto. Essa é a verdade histórica.

Zevi Ghivelder: General, já que está falando do Golbery, me deixa pinçar mais uma frase do seu livro, do seu manuscrito que eu peguei. O senhor diz assim: “A dupla Geisel-Golbery jamais deixou de ser solidária. Manteve-se unida até na maledicência.” O que é isso?

Newton Cruz: Na maledicência. Porque eles falavam mal do Figueiredo. Metiam o cacete... Isso que eu disse foi baseado no livro que o Geisel escreveu. Ele “meteu o pau” no Figueiredo. E eu escrevi um artigo defendendo o Figueiredo de todas as alusões que o Geisel fez. E nisso, quando eles falaram em Golbery não sei o quê, eu falei que eles foram maledicentes, os dois, até contra o Figueiredo.

Zevi Ghivelder: Foram solidários contra o Figueiredo, é isso?

Newton Cruz: Falaram mal do Figueiredo, os dois. Até o fim, o Geisel ficou falando mal.

Bob Fernandes: General, o senhor disse que nunca foi de turma nenhuma. E eu acho que é perceptível isso, até porque o senhor está praticamente sozinho hoje...

Newton Cruz: Com uma diferença. Desculpe, posso interromper? Uma diferença. Quando eu fui massacrado no caso Baumgarten, foi um massacre que durou dez anos. Evidente que, do Exército instituição, eu não tive apoio nenhum.

Bob Fernandes: É sobre isso que eu quero falar...

Newton Cruz: [interrompendo] Espera aí. Do Exército instituição, eu não tive apoio nenhum. Mas também eu não tive incriminação, eles se omitiram.

Bob Fernandes: É sobre isso que eu quero falar.

Newton Cruz: É o Exército do general Leônidas. Muito bem. [Hoje], é diferente. Agora, a pedrada está sendo lançada por um general, o encarregado do inquérito.

Bob Fernandes: Eu quero falar disso. O senhor falou, há pouco, do almirante Bierrenbach que foi dizer ao Tancredo, ou o Tancredo esteve com ele, dizendo que havia um golpe em marcha, na época da campanha do Tancredo. O senhor disse que o almirante Bierrembach chegou a conversar com o Tancredo sobre isso. O senhor deve ter conhecimento que existe um conjunto de documentos confidenciais, que deve estar em poder da família do Tancredo Neves...

Newton Cruz: [interrompendo] Qual é o seu nome?

Bob Fernandes: É Bob Fernandes.

Newton Cruz: Pois muito bem, você faz parte do meu livro...

Bob Fernandes: Agradeço, mas deixe-me completar...

Newton Cruz: Aquele artigo seu é um monte de bobagem, está bom. É um monte de bobagens!

[sobreposição de vozes entre o general e o jornalista. O mediador chama inúmeras vezes o general sem sucesso: “general, general Newton Cruz”]

Newton Cruz: Aquele artigo seu é um monte de bobagem.

Bob Fernandes: Está aqui, eu tenho os documentos comigo até hoje.

Newton Cruz: É um monte de bobagem!

Bob Fernandes: Eu sou Bob Fernandes.

Newton Cruz: Não sabia que era ele, não.

Bob Fernandes: O senhor está acostumado, como general, a dar ordens. E eu, como repórter...

Paulo Markun: [gritando] Um minuto! Um minuto ou eu vou chamar o comercial! Um minutinho. General, eu gostaria que o senhor ouvisse a pergunta do jornalista e respondesse. E não, no meio do caminho, achasse uma forma de não responder à pergunta.

Newton Cruz: Eu não estou achando forma de não responder, não.

Paulo Markun: Então, Bob, por favor, faça a pergunta...

[sobreposição de vozes acaloradas]

Newton Cruz: Se você acha isso, então, eu vou embora...

Bob Fenandes: Não general, a pergunta, para ficar mais fácil...

Newton Cruz: Eu não dou o direito de você dizer de mim que eu estou debatendo a minha moda e que não estou respondendo às perguntas.

Paulo Markun: O senhor não tem que me dar direito de coisa nenhuma, general! O senhor não tem que me dar direito de coisa nenhuma!

Newton Cruz: E eu não vou tolerar isso, nem de você e nem de ninguém!

Paulo Markun: Sim... Claro... É a minha opinião. A democracia tem disso, a gente pode dar opinião. É diferente do tempo que o senhor está acostumado. Por favor, Bob Fernandes.

Newton Cruz: Olha a má vontade, olha aí, olha aí... 

Paulo Markun: A minha consciência está tranqüila.

Bob Fernandes: General, para ficar mais fácil. Eu peço que o senhor não pessoalize porque eu não estou pessoalizando. O senhor, como general, evidentemente, passou a vida inteira sendo obrigado a dar ordens e nós repórteres temos que perguntar. Eu estou fazendo uma pergunta para o senhor. Existe um conjunto de documentos, aos quais eu tive acesso e que pertencem...

Newton Cruz: Posso falar?

Bob Fernandes: Não, me deixa acabar a pergunta!

Newton Cruz: Porque não é verdade isso!

Bob Fernandes: Documentos que eu tive acesso, que estão na mão da família do senhor Tancredo Neves que diziam... São documentos produzidos por ministros militares do governo João Figueiredo, cujos codinomes estão todos aqui, eu tenho cópia de todos os documentos que eles remetiam para o senhor Tancredo Neves. São informações... Se são ou não verdadeiras o senhor dirá agora. Mas essas informações remetiam a uma tentativa de golpe a caminho. Eu vou fazer duas questões, uma é a seguinte: o senhor vai me dizer se é verdade ou se não é verdade. E a outra é: como o senhor via os seus companheiros de farda, aos quais o senhor foi tão leal, em uma operação como essa?

Newton Cruz: Qual?

Bob Fernandes: Os ministros militares. O ministro Karam [ministro da Marinha no governo Figueiredo (1984-1985)], por exemplo, confirmou [essa operação], produzindo documentos para o senhor Tancredo Neves.

Newton Cruz: No seu artigo, no seu artigo... O próprio Karam está desmentido.

Bob Fernandes: O Karam diz aqui o seguinte: houve uma reunião na granja do Torto, presentes fulano, sicrano, beltrano...

Newton Cruz: E qual foi a conclusão da reunião?

Bob Fernandes: “Eu não vou nessa. Porque eu não vou nessa de golpe”, disse ele.

Newton Cruz: Não, não, não, não. Ele falou o seguinte... Ficou resolvido, na reunião que você diz, que o Karam diz... Está no seu artigo... Eu tenho certeza, tenho certeza, ficou resolvido que as Forças Armadas não queriam golpe nenhum.

Paulo Markun: O senhor nunca esteve envolvido em golpe nenhum contra o presidente Tancredo Neves?

Newton Cruz: Absolutamente não!

Bob Fernandes: Castor, Castor era o general... Este é um documento confidencial, o senhor pode ver depois. Almirante de esquadra Ortiz. Polux Richard da Costa e o ministro Henrique Sabóia era o senhor Júpiter. Todos eram...

Newton Cruz: Muito bem, muito bem. Você sabe como eu chamava essa gente? Grupo de militares frustrados e fofoqueiros. Porque eu analisei o seu artigo, tirando as contradições dentro do próprio artigo. E as conclusões que você tira, tem conclusões suas no artigo. Você diz que as provas estão aqui, não tem uma prova sequer. Você pegou documentos sem carimbo confidencial.

Bob Fernandes: Eu conversava com muita gente. Como qualquer jornalista, eu conversava, eu conversava com os seus colegas militares que nos contavam com detalhes.

Newton Cruz: Mas você tinha que ver o que eles diziam e você tirava conclusões falsas

Bob Fernandes: O senhor não atendia telefone para responder.

Newton Cruz: Olha aqui, se você quiser saber, eu analiso linha por linha esse seu artigo...

Bob Fernandes: O meu artigo é feito com base em documentos que o senhor Tancredo Neves recebeu.

Newton Cruz: Documentos, carimbo confidencial, então eu pergunto: quem é que fazia aqueles documentos?

Bob Fernandes: Ministros militares.

Newton Cruz: Mentira! Não tinha nenhum ministro militar.

Bob Fernandes: Eu conversei com pelo menos um.

Newton Cruz: Quem?

Bob Fernandes: Não vou dizer o nome, assim como o senhor não disse. Claro.

Newton Cruz: Você falou com o [Almirante] Maximiano [Eduardo Fonseca (1919-1998). Foi ministro da Marinha entre 1979 e 1984].

Bob Fernandes: Não, não foi com o Maximiano.

[sobreposição de vozes acaloradas]

Bob Fernandes: O Maximiano foi ele que falou.

[...]: Eu falei com o Maximiano.

Newton Cruz: Pois é. Eu digo que você é um jornalista que tira conclusões falsas.

Bob Fernandes: Eu não tiro conclusões falsas, eu recebo informações.

Newton Cruz: Eu tiro as conclusões do seu próprio artigo, diabo!

Zevi Ghivelder: Tem um assunto aqui do Tancredo, que eu, realmente, veio bem a propósito, eu tinha até preparado, foi ótimo que se tenha levantado isso aqui. Vou ler um trechinho, general, do seu livro. O senhor diz o seguinte: “Lamentei a triste sina da Revolução de 1964 que se via, após vinte anos no poder, obrigada a empossar na presidência o senhor Tancredo Neves, lídimo representante de uma falsa democracia.” Por que falsa democracia?

Newton Cruz: Você não colocou o que eu coloquei. [Eu escrevi]: por ser demasiadamente permissiva. Você não [colocou] esse trecho.

Zevi Ghivelder: Mas quem era permissivo?

Newton Cruz: É mais ou menos isso, essa democracia desse jeito aí: é pá, pá, pá, pá, pá, tudo conversa de comadre. Acerta aqui, acerta ali...

[sobreposição de vozes acaloradas]

Luiz Caversan: Em sua opinião, devia ser como? A democracia deveria ser de que maneira?

Newton Cruz: Mais séria, mais honesta.

[sobreposição de vozes acaloradas]

Paulo Motta: No seu livro, o senhor vai dizer que o Maluf lhe convidou para fazer um golpe contra o Tancredo?

Newton Cruz: Vou dizer.

Paulo Motta: E quando foi esse caso?

Newton Cruz: Compra o livro.

[risos, sobreposição de vozes]

Paulo Markun: General, desculpa, eu tenho que fazer mais uma intervenção...

Newton Cruz: Ele foi à minha casa, apareceu lá. E tem mais, e eu ia ser o chefe do SNI dele.

Bob Fernandes: Então, o que o senhor está dizendo, pelo menos em parte, confirma que havia gente tramando um golpe. O Maluf sozinho não ia fazer um golpe.

Newton Cruz: Não havia. Porque todo aquele golpe que estava na cabeça daquela gente, eu é que seria responsável. Eu, eu. É o que você diz...

Bob Fernandes: Eu não, os documentos...

Newton Cruz: E tem mais. O “espectro da revolução”, não sei mais o quê, era eu. Eu conheço o artigo.

Fritz Utzeri: O almirante Maximiano disse que tinha um esquema na Marinha preparado pra resistir a um golpe.

Newton Cruz: E qual foi o esquema dele? Qual foi o esquema que ele diz? Ele diz o seguinte: que os fuzileiros navais iam ocupar as pontes, os fuzileiros navais que não tinham nem dinheiro pra comer aqui, os navios de guerra não sei o quê mais...

Luiz Caversan: O esquema do golpe era melhor do que esse?

Newton Cruz: Agora você está agindo de má fé. Porque eu estou dizendo que não havia golpe nenhum.

Luiz Caversan: Mas o senhor falou que o Maluf convidou o senhor pra fazer o golpe!

Newton Cruz: O Maluf! Tanto não havia esquema que ele foi falar para mim, ora bolas!

Bob Fernandes: General, quando eu digo que o senhor pessoaliza é o seguinte: uma coisa são documentos oficiais...

Newton Cruz: Aqueles documentos não são oficiais, não são válidos!

Bob Fernandes: Eram os que eu recebia, o Tancredo trabalhava com...

Newton Cruz: De onde?

Bob Fernandes: Saía dos ministros militares, pelo menos um confirma...

Newton Cruz: Quais ministros militares?

Bob Fernandes: Eu não vou dizer! Assim como o senhor...

Newton Cruz: E vou dizer mais: [gritando] são da Marinha! Saía tudo da Marinha! Diz que é mentira minha! Saía da Marinha! Diz que é mentira!

Bob Fernandes: É mentira. É mentira. Eu não recebi nada da Marinha..

Newton Cruz: Saía da Marinha.

Bob Fernandes: Não saía.

Newton Cruz: Saía da Marinha.

Bob Fernandes: Não!

Newton Cruz: Saía sim!

Bob Fernandes: Não saía.

Paulo Markun: [interrompendo] General Newton Cruz...

Newton Cruz: Até porque, o Exército não chama general "gal.", general para o Exército é "ge" e "ene".

Bob Fernandes: O senhor Tancredo recebia esses documentos, os seus colegas de farda...

Newton Cruz: Por isso que ele era mal informado!

[sobreposição de vozes acaloradas entre o general e o jornalista Bob Fernandes]

Newton Cruz: Era mal informado. E você contribuiu para isso...

Paulo Markun: [interrompendo] General Newton Cruz, Bob Fernandes...

[intervalo]

Paulo Markun: É pela internet que vem a pergunta de Antonio Vicente, funcionário público do Rio de Janeiro. E acho que a pergunta remete a um outro episódio sobre o qual o senhor já falou e, tenho certeza, vai mencionar no seu livro. “O que o senhor acha daquela cena de um general fardado batendo com uma varinha nos carros que faziam 'buzinaço' em Brasília contra a carestia e a ditadura e a favor da democracia. Essa democracia que o senhor reivindica tanto, para ter espaço para se defender de acusações que lhe são imputadas, constrangendo a farda do Exército brasileiro de tantas glórias. Mudou a correlação de forças ou mudou o general?” Pergunta do Antonio Vicente.

Newton Cruz: Não foi nada disso, não houve nada disso.

Bob Fernandes: General, eu estava lá nessa noite. Perdão...

Newton Cruz: Mas me deixa contar o que houve?

Bob Fernandes: Mas eu assisti.

Newton Cruz: Você assistiu, mas você me assistiu no meio dos carros?

Bob Fernandes: Dando ordens, como tinha de ser, evidentemente...

Newton Cruz: Espera, deixe-me contar e, se tiver alguma mentira, você diz.

Bob Fernandes: Pois não.

Newton Cruz: Naquela noite, eu estava no meu gabinete, tomando plenas medidas de emergência.

Paulo Markun: Noite de votação da Emenda das Diretas [campanha Diretas Já].

Newton Cruz: É. Plenas medidas de emergência. Eu no meu gabinete, à tardinha, eu via o Palácio [do Planalto] e, à frente do palácio, tiraram a bandeira do Brasil e a jogaram no chão, pisaram na bandeira do Brasil, aquela gente que estava lá. E eu [estava] vendo tudo aquilo. Muito bem. Aí começou a escurecer... Sabe de uma coisa? Não tem nada aí, vou embora.

Paulo Markun: Não...

Newton Cruz: Quando eu olho da janela do meu gabinete, na frente do meu gabinete, os automóveis estavam ali, todos de faróis acesos em linha, pegando desde o meu quartel-general até o Congresso. Todos de farol aceso e buzinando, buzinando. Muito bem. Isso o que era? Isso é um ato que estava proibido por mim, constitucionalmente, proibido dentro das atribuições que eu tinha como encarregado...

Paulo Markun: Proibido por que, general? Por que se proibia isso?

Newton Cruz: Porque... Eu tinha o direito de proibir passeatas contestadoras.

Paulo Markun: Não... mas, por quê?

Newton Cruz: [exaltado] Porque é direito meu, porque eu tinha a obrigação...

Paulo Markun: Por que se proibia? Qual era o intuito disso?

Newton Cruz: O intuito é aquele que me permitia a Constituição, está escrito: proíbe isso, proibia aquilo. E todo mundo sabia que estava proibido.

Bob Fernandes: Por isso que estava lá, para desafiar, evidentemente.

Newton Cruz: Mas estava proibido! Proibido legalmente, estava proibido. Muito bem. A minha obrigação era [garantir que] o Congresso votasse livremente, como ele votou livremente, ninguém perturbou o Congresso.

Paulo Markun: Livremente sem transmissão de televisão. Porque a televisão foi censurada...

Newton Cruz: Isso não teve nada comigo, não fui eu que proibi... Isso foi coisa do próprio Congresso!

Paulo Markun: Mas houve essa cena da varinha nos carros?

Newton Cruz: Quando eu vi aquilo eu falei: essa passeata não pode sair. Não pode sair porque, se sair, eu estou desmoralizado. Eu proibi. Vai sair na porta do meu quartel-general?

Paulo Markun: O senhor perde o emprego.

Newton Cruz: Perder o emprego não. Eu estou falando de um problema de ordem moral. Eu não estou visando emprego, não. Por favor, não leve para esse terreno não...

Paulo Markun: Não, general, porque a contestação pode ser vista de outra maneira.

Newton Cruz: Não, não é perder emprego...

Paulo Markun: Se o senhor aderisse, por exemplo, o senhor passaria a ser um dos defensores da democracia que acabou sendo instalada.

Newton Cruz: Em sua opinião! Eu tinha uma missão a cumprir. Eu estava cumprindo a minha missão. Você pense como quiser. Se você é condutor do programa, você não pode tomar partido. Já tomou, já tomou, tomou sim.

Paulo Markun: Então está bom. Um partido bom esse.

Newton Cruz: Péssimo! Porque eu tinha obrigação a cumprir. Não tenho que dar satisfação a você nesse particular.

Paulo Markun: Então vamos lá... Ainda bem que o senhor não tem... Ainda bem que o senhor não tem, general, porque se o senhor tivesse, o senhor faria o que o senhor já fez com outros jornalistas no passado. Mas vamos em frente.

Newton Cruz: Não é verdade o que contaram. Esse jornalista é meu amigo hoje! Esse jornalista mandou duas cartas pra mim, que ia até no Rio para votar em mim! Esse jornalista, quando eu fui julgado no Rio, ele foi lá pra me dar apoio! Esse jornalista me deu uma santa! Esse jornalista que vocês quiseram meter na cabeça dele, está entendendo? Agora, não é esse o episódio.

Paulo Markun: A varinha.

Newton Cruz: A varinha. Muito bem. Então, eu fiz o seguinte...

[...]: Como chama a varinha, general?

Newton Cruz: Não é varinha, é bastão de comando, faz parte do uniforme! Você é analfabeto, nesse particular, estou explicando a você. Quem sou eu para ofender você? Você é analfabeto nesse particular, eu sei mais do que você. Uniforme do exército, eu sei mais do que você. Quando eu vi aquilo disse: “não pode sair porque eu vou ficar desmoralizado”. Sou eu, perante a minha consciência, não tem nada de ganhar ou perder emprego. Sou eu perante a minha consciência.

Paulo Markun: O que é que o senhor fez?

Newton Cruz: Eu só usei, na medida de emergência, tropa da Polícia Militar. Eu não usei um soldado do Exército! Desafio a quem tenha visto um soldado do Exército na rua! Desafio...

Paulo Markun: Mas, e o bastão de comando?

Bob Fernandes: As tropas estavam lá. Não do Exército, [mas] tinha tropas, soldados armados.

Newton Cruz: Não, eu estava usando a Polícia Militar. E eu tinha o pelotão da Polícia Militar a minha disposição. Eu estava praticamente só, [então] falei: “não pode sair”. Aí, o que eu fiz? Eu desci, tinha uns dois ou três oficiais comigo, eu desci, falei: “o que eu vou fazer, meu Deus, essa passeata não pode sair. Eu não tenho nem tropa aqui. Eu, desarmado! Desarmado! Uniforme de passeio, com bastão de comando. Aí eu vi o sargento, comando a guarda, e disse: “olha aqui, pega o ônibus e põe na frente dessa passeata”. Tinha um ônibus ali, eles pegaram o ônibus e puseram. Os carros não podiam passar porque tinha o ônibus na frente. Aí, o que é que eu fiz? É o que você deve ter visto. Eu sozinho, sozinho...

Bob Fernandes: Mas tinha tropa, não do Exército, mas tinha tropa.

Newton Cruz: Não tinha tropa nenhuma!

Bob Fernandes: Teve gás lacrimogênio, teve bomba, teve prisão...

Newton Cruz: Não teve nada disso!

Bob Fernandes: Teve!

Newton Cruz: Esse é outro episódio!

Bob Fernandes: O fotógrafo Luciano Andrade, do Jornal do Brasil, foi preso essa noite...

Newton Cruz: Foi passeata a pé, não foi essa motorizada...  Do outro lado, eu estou falando dessa motorizada!

Bob Fernandes: Mas eu estava lá, eu vi!

Paulo Markun: O que o senhor fez com o bastão de comando? Que eu não consegui saber ainda.

Newton Cruz: Eu parei na frente dos carros, quando eu parei, não sei por que, eles apagaram o farol. Eles me viram, apagaram o farol.

Paulo Markun: Só o senhor, com o bastão de comando, não bateu em carro nenhum, não fez nada?

Newton Cruz: Não. Aí eu fui... É verdade que eu estava com o bastão de comando e eu ia andando e realmente eu batia no capô.

Paulo Markun: Batia no capô do carro e eles apagavam...

Newton Cruz: Não, não... Você é engraçado...

Paulo Markun: Uai! Eu estou perguntando, general. O senhor disse que apagaram o farol...

Newton Cruz: Batia e recriminava o que eles estavam fazendo, batia pra chamar a atenção. Ninguém contestou.

Bob Fernandes: Era um buzinaço, general, me desculpa, mas era um buzinaço em torno de toda a Esplanada dos Ministérios, um barulho insuportável

Newton Cruz: [gritando] Apagou até a ponta! Apagou até a ponta, eu juro por Deus!

Bob Fernandes: Eu estava lá.

Newton Cruz: Você está mentindo, então! Eu fui do princípio até o fim, me deixa contar o que aconteceu. Eu fui do princípio até o fim, apagou tudo, ficou tudo em silêncio. Eu voltei e não sabia o que ia fazer. Falei: “e agora meu Deus, o que é que eu vou fazer?” Aí eu falei: “faz o seguinte: deixa, abre [para os carros passarem]” E o comandante da guarda deixou passar, carro a carro, e [ele] tomou nota [dos veículos que passavam]. Saíram todos os carros. Acabou aquilo eu mandei rasgar tudo que tinha tomado nota.

Paulo Markun: O senhor se orgulha de ter feito isso? O senhor acha que o senhor agiu bem?

Newton Cruz: Absolutamente, me orgulho.

Paulo Markun: O senhor acha que o senhor ajudou o Brasil?

Newton Cruz: Acho que ajudei. E se o Brasil fosse o que eu imaginava, não seria o Brasil que é hoje, não.

Paulo Markun: Isso eu tenho certeza.

Paulo Motta: General, o senhor disse, no caso do Riocentro e nos outros atentados, que era um grupo de descontentes do DOI. Eram os bolsões, na época chamavam bolsões sinceros, mas radicais. E o senhor disse que não houve nenhuma morte. O senhor disse: “essas pessoas jogaram uma bomba aqui, em uma banca de jornal”.

Newton Cruz: Não sei se era esse, estou dizendo: era o pessoal que fazia isso.

Paulo Motta: Mas aconteceram pelo menos dois atentados com mortes. A da dona Lyda, do atentado à OAB e da Câmara de Vereadores, que não houve morte, mas houve mutilação.

Newton Cruz: Isso foi depois...

Paulo Motta: Não é o mesmo grupo?

Newton Cruz: Espera aí. Esses, eu fiquei com ódio. Por quê? Porque eu acho um crime inominável. Agora, eu tenho idéia de quem poderia ser. Mas quem investigou não fui eu.

Paulo Motta: O caso OAB foi reaberto. Ele vai prescrever, acho, agora no final do ano. Eu quero perguntar para o senhor: não é o mesmo grupo? O mesmo grupo não fez uma série de atentados?

Newton Cruz: Esse grupo, o modo de agir, não é esse da bomba.

Paulo Motta: Então, qual é o grupo que fez, general?

Newton Cruz: Procure quem mandava manifesto. Procure quem estava acostumado. Procure. Procure quem, aqui em Brasília, estava acostumado a mandar carta. Que também era gente que, no passado, tinha pertencido àquilo lá. E essa gente tinha ódio de mim. Tanto tinha ódio que escreveram, às vésperas de eu ser promovido, um panfleto contra mim com tudo o que você imagina. Essa gente dizia para mim isso

Paulo Motta: O general Coelho Neto tem alguma coisa a ver com esses atentados no Rio?

Newton Cruz: O que é que tem?

Paulo Motta: Eu estou perguntando se o general Coelho Neto, se o senhor tem conhecimento se ele teve algum envolvimento com isso?

Newton Cruz: Não. Nada a ver. Com o atentado Riocentro não tem nada a ver.

Paulo Motta: Riocentro, OAB, Câmara...

Newton Cruz: Eu não tinha contato com Coelho Neto.

Fritz Utzeri: General, deixa eu lhe fazer uma pergunta com toda a tranqüilidade. Houve dois inquéritos para tentar elucidar o que aconteceu no caso Riocentro. [No] primeiro, o coronel Job Lorena de Sant’Anna chegou à conclusão que o sargento e o capitão foram vítimas de um atentado. Ou seja, houve uma bomba que foi jogada lá dentro e matou o sargento e feriu gravemente o capitão. Muito bem. Ninguém ficou convencido com esse caso...

Newton Cruz: Nem eu.

Fritz Utzeri: Pois é, nem o senhor. O senhor mesmo já declarou que tinha sido coisa de “milico” [militar] em um programa que nós fizemos...

Newton Cruz: Coisa de quê?

Fritz Utzeri: De “milico”.

Newton Cruz: Eu não sei dizer... Milico eram os dois.

Fritz Utzeri: Não, não, tudo bem, perfeito, mas não os dois porque o seguinte, aí vem o segundo IPM e o segundo IPM chega à conclusão que o capitão é que matou o sargento...

Newton Cruz: Uma estupidez.

Fritz Utzeri: E o senhor é o homem que prestou falso testemunho.

Newton Cruz: Isso é besteira.

Fritz Utzeri: Eu quero saber o seguinte: por que o Exército brasileiro montou uma operação, duas operações de acobertamento tão grandes para esconder uma ação que está sendo atribuída a dois capitães e a um sargento? Isso não faz sentido!

Newton Cruz: O primeiro caso... aliás, a resposta você tem que pedir aos responsáveis pelo Exército brasileiro, não é minha.

Fritz Utzeri: O senhor era do SNI!

Newton Cruz: Mas, meu Deus do céu, eu não acompanhei isso. Primeiro: quem apurou foi o Exército [por] um inquérito mal feito, não tem nada com o SNI. Era proibido o SNI entrar nessa área, não tinha que entrar não.

Fritz Utzeri: Mas, então, na sua experiência de homem de informação, o que levou o Exército a montar essas duas operações...

Newton Cruz: Agora, não houve do Exército...

Fritz Utzeri: O general Conforto, o senhor vai me desculpar, mas o segundo IPM é tão fantasioso quanto o primeiro.

Newton Cruz: Demais fantasioso, mas não é por conta do Exército.

Fritz Utzeri: Por que [estão fazendo isso] se não para esconder gente grande?

Newton Cruz: O Exército é o Gleuber [refere-se ao general Gleuber Vieira, comandante do Exército à época do segundo inquérito] que está quieto, não falou nada. Para mim, quem montou a fantasia foram duas pessoas macomunadas: o general Conforto e o procurador da Justiça Militar [Kleber Coêlho].

Fritz Utzeri: Agora. E, naquela época, general?

Newton Cruz: Naquela época, eu não sei. Eu não vou especular e não tenho o direito de especular. Porque qualquer especulação que eu faça, vocês vão tomar como palavra oficial do chefe da Agência Central do SNI.

Fritz Utzeri: Mas o senhor, certamente, como o senhor é um homem de informação e o senhor foi diretamente atingido por isso...

Newton Cruz: Agora, agora...

Fritz Utzeri: Perfeito, agora. Mas o senhor deve ter pensado no caso.

Newton Cruz: Nunca ninguém falou nisso, agora que inventaram...

Luiz Caversan: Por que inventaram?

Fritz Utzeri: Por que que surgiu esse negócio?

Luiz Caversan: Do jeito que o senhor está falando, dá a impressão que o senhor está sendo vítima de um... O Exército resolveu colocar toda a culpa...

Newton Cruz: Boa pergunta: por quê? Porque eu resolvi falar o que eu sabia.

Bob Fernandes: Mas o senhor está falando que o senhor sabia... O senhor diz que não pode falar?

Newton Cruz: Eu não disse que sabia! Eu sabia que telefonaram para mim uma hora antes, não disse isso? Foi isso que eu declarei.

Bob Fernandes: Certo.

Newton Cruz: Então, quando eu achei que as coisas estavam encaminhando, agora, de tal forma que teria que ser dada a verdade, até porque o crime está prescrito, muito bem, na minha opinião... Então, eu vou dizer a verdade, eu conheço, a minha parte... Então eu disse à imprensa, ao seu jornal, isso o que eu vou dizer agora, e isso eu repeti lá na Comissão de Direitos Humanos, isso eu repeti lá para o encarregado do inquérito, o que eu disse foi exatamente isto: estava no meu gabinete, cerca de uma hora antes, telefonou um... eu não disquei depois, acabei dizendo porque estava lá meu nome e eu confirmei, alguém me telefonou e disse que tinha ido até o DOI, que encontrou alguns lá que queriam fazer um ato de protesto...

Luiz Caversan: Que falta de disciplina, hein? Porque o cara vai lá...

Newton Cruz: Eu também acho. Mas não vamos discutir isso, vá discutir com o Exército.

Fritz Utzeri: Mas no Exército há uma regra. Se acontece alguma coisa ... Foi a regra, aliás, que o Geisel aplicou no Ednardo. Se acontece alguma coisa

Newton Cruz: Não é nada! Não é não senhor! Primeiro apura! Negativo! Não é não, não é não, não é não...

Fritz Utzeri: Ou por ação ou por omissão, ele é responsável!

Newton Cruz: Se essa regra valesse, você me desculpe, se essa regra valesse, de um chefe ser responsável por tudo... hoje, no Brasil, nós temos um chefe máximo que é responsável por tanta coisa e está aí, continua.

Fritz Utzeri: Não, mas aí não é militar. Estou dizendo de regra militar.

Newton Cruz: É o comandante supremo das Forças Armadas.

Fritz Utzeri: Perfeito, militarmente pode até ser, na vida civil é um pouco mais complicado, general.

Bob Fernandes: O senhor está fazendo história, hoje aqui e no seu livro. É por isso...

Newton Cruz: Eu estou repetindo o que eu cansei de dizer. Eu resolvi entrar e disse isso. Que uma hora antes eu soube isso assim, assim, assim. O meu convencimento é que o quê eu estava dizendo até ia reforçar a minha tese de que aquele outro fato era só dos dois... Ah, não adianta...

Fritz Utzeri: O senhor passou essa informação para o general Medeiros?

Newton Cruz: Isso eu disse, essa parte eu disse.

Fritz Utzeri: E, curiosamente, no gabinete do general Medeiros estava quem? Estava o Nilton Cerqueira [comandante da Polícia Militar do Rio de Janeiro que suspendeu o policiamento militar no dia do atentado ao Riocentro]

Newton Cruz: Que Nilton Cerqueira? Você está maluco?

Fritz Utzeri: Ué? Onde que estava o Nilton Cerqueira?

Newton Cruz: Enlouqueceu! Você é muito mal informado.

Fritz Utzeri: O Nilton Cerqueira mandou retirar o policiamento do Riocentro.

Newton Cruz: Ele mandou porque quis, eu sei lá porque ele mandou!

Paulo Motta: E o general Waldir Muniz, que era secretário da Segurança, passou pelo SNI antes?

Newton Cruz: E daí? Fui eu que nomeei o Muniz?

Paulo Motta: O Perdigão também passou pelo SNI ou não?

Newton Cruz: O Perdigão pertencia ao SNI nessa ocasião. E eu disse que ele informou que tinha ido buscar informações e que encontrou aquele descontentamento e resolveu desviar aquele pessoal... Resolveu levar aquele pessoal [para um local] mais afastado e que ele não tinha alternativa. E tem mais, o Código dá razão a ele: quem comete crime em estado de necessidade – está escrito lá – [é] admitir um mal menor para que não haja um mal maior. Está escrito no Código Penal [Militar].

[...]: Quer dizer que pode botar uma bomba?

Newton Cruz: Não é não [poder] botar uma bomba, é [realizar] um mal menor. Uma bomba que ia para o estacionamento [foi desviada] para um lugar afastado para não fazer mal nenhum. Isso é um mal menor.

Fritz Utzeri: Não, não, mas explodiu uma outra bomba, essa bomba tinha alto poder explosivo porque ela estava, inclusive, embrulhada em [esponja de palha de aço] Bom-Bril e era uma bomba feita de...

Paulo Motta: E como o próprio IPM descobriu aqui, havia uma granada também.

[Sobreposição de vozes]

Newton Cruz: A granada estava com o sargento! Mas isso não quer dizer nada! Porque são dois episódios diferentes. Um é daquela bomba dos dois lá...

Fritz Utzeri: Foi coincidência, então?

Newton Cruz: E tem mais: o encarregado do inquérito concluiu que uma equipe não sabia da outra.

Bob Fernandes: É uma coincidência extraordinária! Na mesma noite, três equipes...

Fritz Utzeri: O [...] falou conosco, eu e [o jornalista] Caco Barcelos, num programa que a gente fez há três anos na Globo, e disse que tinha dentro, em cima do ar refrigerado havia uma terceira bomba.

Newton Cruz: E é mentira porque... Então, o inquérito está errado! Nem o procurador diz isso.

Fritz Utzeri: Mas isso porque os dois inquéritos são absolutamente fajutos

Newton Cruz: Isso eu já não sei. Para mim, só existiu a bomba do coronel, do capitão e do sargento por conta deles. E houve uma outra, inexpressiva, que foi aquela...

Fritz Utzeri: Ela não foi inexpressiva, general. Ela não foi inexpressiva, apenas foi mal colocada. A bomba foi jogada perto de um poste, um poste que tinha aproximadamente 15 centímetros de largura. Pode ser a bomba mais poderosa do mundo... Não houve resistência, era uma bomba igualzinha a que tinha o capitão Wilson e o sargento Pereira Guilherme!

Newton Cruz: Mentira sua! Eu vou provar

Fritz Utzeri: Eu cobri o fato na época.

Newton Cruz: E eu vou provar agora. Sobre a bomba, opinião do general Conforto, folhas 219 do inquérito [lendo]: “É possível afirmar que o objetivo  [da bomba colocada na casa de força] era realmente chamar a atenção, fazer um protesto, causar intimidação. Caso a intenção fosse realmente apagar as luzes, muito fácil e seguro seria atuar na posteação que conduzia energia desde Jacarepaguá, em locais ermos e sem qualquer ajudante". General Conforto. Outra opinião do general Conforto, folhas 219: “Os diversos peritos que foram à casa de força não constataram nada mais que uma cratera de dimensões relativamente reduzidas e nenhum dano aos equipamentos.” Outra opinião, do engenheiro responsável pela energia elétrica, Luis Eduardo de Almeida Fontes: “Mesmo que a energia elétrica fornecida pela concessionária fosse cortada, não haveria interrupção do show face à existência de geradores já em funcionamento. Era comum faltar energia e sem prejuízo dos eventos, os assistentes nem percebiam.” Outra opinião, folha 114...

Fritz Utzeri: Para quê isso, general?

Newton Cruz: Para destruir você... Do engenheiro Luis César da Veiga, perito do Instituto Carlos Eboli, do mesmo engenheiro Veiga Brito, do outro perito, do outro perito...

[Sobreposição de vozes]

Paulo Markun: O senhor acha que o fato da bomba não ser muito potente e o fato de ser colocada longe salva a pátria? Tudo bem, era para colocar uma bomba mesmo.

Newton Cruz: Não, não. Deixe-me colocar nos devidos termos. Acho que era um crime

Paulo Markun: Que o senhor não impediu.

Newton Cruz: Eu não tinha como impedir! As milícias já tinham saído. Como eu ia impedir? Quando eu soube já tinham ido! Como eu vou impedir? Nem celular tinha naquela época, já tinham saído para cumprir. Engraçado...

Fritz Utzeri: Sim, mas o inquérito ia começar porque é a visão do senhor, para saber os autores desse negócio.

Paulo Motta: Mas o governador do estado, o secretário da segurança não poderiam ser avisados por telefone?

Newton Cruz: Avisar governador, quando não tinha tempo nem nada... Ia adiantar alguma coisa, eu avisar? Eu não tinha que avisar nada!

Paulo Markun: Isso não caracterizava um poder paralelo?

Newton Cruz: Tinha que avisar o chefe do SNI. Foi o quê eu fiz. Naquelas condições não podia fazer nada. E a bomba foi inexpressiva mesmo. Tanto foi inexpressiva que a bomba explodiu e, praticamente, ninguém ouviu sua explosão, ninguém ouviu! E mais: o show foi prorrogado até três horas e quinze da manhã.

Zevi Ghivelder: Mas general, dá licença um instantinho, se tudo foi como o senhor coloca, inexpressivo e não teve o alcance que o senhor esperava, por que, no seu entendimento, essa bomba do Riocentro, as bombas do Riocentro continuam explodindo até hoje e comovem de tal maneira, tanto a mídia como a opinião pública?  Estamos aqui há uma hora e meia aqui...

Newton Cruz: Estão discutindo com a pessoa errada, porque o que eu disse eu já disse. Eu estou repetindo o que eu disse, só. E vocês estão discutindo com alguém que não teve absolutamente nada a ver com essa porcaria desse Riocentro, essa é a verdade. Eu não tive absolutamente nada a ver com essa porcaria e fiquei repugnado com o que aconteceu.

Paulo Markun: E por que o senhor foi envolvido?

Newton Cruz: Mas eu estou contando, estou contando e você não deixa. Eu contei essa história, aí eles pegaram: olha aí, bomba na casa de força! É essa! Esqueceram a outra. Como foi o general Newton Cruz que contou, jogaram tudo como se essa fosse a grande bomba, a da casa de força e esqueceram a outra.

[...]: É um complô então.

Newton Cruz: Contra mim.

Fritz Utzeri: Quer dizer, o senhor é a vítima do Riocentro [atentado Riocentro].

Newton Cruz: Não, não meu filho. Eu sou o bode expiatório da Revolução de 1964. Porque eu me transformei num alvo compensador. Por que eu sou um alvo compensador? Porque houve o caso Baumgarten comigo, porque eu fui encarregado das medidas de emergência, então, eu virei o alvo...

Bob Fernandes: General, eu queria saber, uma última pergunta. Passado todo esse tempo, o senhor está sempre sozinho na cena. O senhor não se sente absolutamente abandonado pelos seus companheiros de farda?

Newton Cruz: Não. Acho que cada um faz o que quer, [isso] não é problema meu. Eu sou um homem que, quando olho para o espelho, eu me vejo como eu sou. Não me interessa o resto. Eu nunca perguntei a ninguém o que eu devo fazer. Eu entrei, por exemplo, na Revolução de 1964 sem nunca ter conspirado. Nunca eu conspirei. E, até hoje, nunca eu conspirei na minha vida.

Bob Fernandes: E saiu pagando a conta, praticamente, sozinho...

Newton Cruz: Não, não senhor. Nunca ninguém ouviu falar no general Newton Cruz. Embora eu já tivesse anos no SNI, nunca. Só ouviram falar em mim depois do caso Baumgarten. E a partir daí, pau no general Newton Cruz. Então, foi o fim da minha vida

Bob Fernandes: E os seus colegas o deixam sozinho...

Newton Cruz: Eu não posso cobrar, eu vivo na minha casa com a minha mulher, que é uma mulher doente, eu estou com ela lá... Eu estou aqui, falo como eu gosto de falar, digo a verdade porque é a verdade, muito bem, eu ponho pra fora. A minha mulher não! A minha mulher não! A minha mulher não! A minha mulher sofre, sofre calada. Por isso que está lá, acamada. É por isso! [gritando, dedo em riste] E vocês ajudaram a botar a minha mulher como ela está!

Paulo Markun: Essa acusação, o senhor desculpe, mas eu não posso aceitar, general.

Newton Cruz: A imprensa ajudou! Quando eu falo vocês é a imprensa.

Paulo Markun: Ah, bom, talvez aí melhor.

Newton Cruz: A imprensa. Você também.

[risos]

Paulo Markun: Vamos só esclarecer, general, o nosso tempo acabou. Eu só queria, antes de fazer a última pergunta, dizer que, como sempre acontece no programa Roda Viva, todas as mensagens dos telespectadores, de crítica, de elogio e as perguntas que não puderam ser formuladas, muitas perguntas foram feitas, serão encaminhadas ao senhor, general. Eu queria voltar à primeira pergunta, porque eu acho que eu não entendi o que o senhor explicou. No dia 12 de abril, o senhor não pretende ir ao STM, o senhor pretende entrar com alguma medida para não declarar?

Newton Cruz: Não. Amanhã ou depois, o meu advogado estará entrando com habeas corpus. Eu estou com habeas corpus comigo no hotel, porque recebi hoje à tarde. E o melhor advogado criminalista do Brasil vai entrar com o pedido. É o doutor Clóvis Sahione. E vou dizer uma coisa, o doutor Clóvis Sahione é, hoje, mais que advogado. É como se fosse meu irmão. Porque desde o início, ele me apóia. Nunca me cobrou um centavo, um tostão, nunca. Ao contrário, ele gasta dinheiro comigo, que eu não tenho dinheiro para pagar advogado. Ele gasta dinheiro comigo, o dinheiro do bolso dele. E tem mais. Esse Clóvis Sahione que está aí, na mocidade foi até comunista. É um homem de bem. Negócio de comunista, para mim, eu nunca liguei para isso. Eu, na verdade, não liguei. E porque eu não ligava, mandavam manifestos contra mim. Porque eu nunca fui linha dura. Nunca na minha vida. Esse pessoal de linha dura tinha ódio de mim. E esse pessoal todo que está aí ,que aparece, é linha dura. Eles mandava até escritos contra mim. Eu tenho escritos de 1975 que mandaram, escritos que vão sair no livro, escritos onde eles dizem tudo sobre mim. Eles dizem até que eu sou viado! Nem a imprensa acredita, não é?

[...]: No seu livro o senhor dá nomes?

[...]: Esses são os canalhas que o senhor chama no livro, general?

Newton Cruz: É. É isso. E cada acusação que eles fazem eu rebato.

[...]: E o senhor dá nomes?

Newton Cruz: Nomes eu não tenho. Eu rebato o fato de me acusaram. E me acusam de tudo. Que eu vivia ébrio, embriagado. Dizem mais: que eu era aliado dos comunistas, que eu estava no SNI para proteger os subversivos. Entretanto, eu estou sendo indiciado, supostamente, de acordo com o que apurou o general, sobre um tal grupo secreto. Pois esse grupo secreto é essa mesma gente. E eu hoje estaria protegendo essa gente. Quer dizer, então, eu sou um desclassificado. Essa gente diz tudo sobre mim. E eu, agora, estaria protegendo. Olha, eu vou morrer de cabeça erguida. Nunca na minha vida, eu traí, nunca. E vou dizer mais, de vez em quando... Ah, porque não diz quem foi? Eu prefiro morrer, morrer, do que dizer ... aquele tenente, aquele sargento que não tinham nada a ver com o Riocentro, nada, absolutamente nada com o Riocentro, do que dizer quem foi. E, mais ainda: é um absurdo, eu fui indiciado por um fato e fui denunciado por um fato diferente. Eu fui indiciado porque o Perdigão estaria com tal grupo secreto e não havia ninguém do DOI. O indiciamento foi esse. E eu não dei o nome daqueles dois que eram do DOI. E, para o procurador, não, era gente do DOI. Então, eles que se entendam lá.

Paulo Markun: General Newton Cruz, muito obrigado pela sua entrevista. Eu só queria deixar claro que eu procuro seguir a norma de um jornalista que eu admiro muito chamado Roberto Pompeu de Toledo, que escreveu, num livro publicado por ele [sobre] uma entrevista do presidente, e diz que o jornalista, o entrevistador, não deve ser nem debatedor nem escada para o entrevistado. É evidente que, em certas ocasiões, a gente acaba caindo para um lado ou para outro. Mas, o que me alegra, general, é poder saber que nós estamos vivendo numa democracia onde a pessoa que senta aí tem todo o direito de expor o seu ponto de vista e ser visto por todos os telespectadores. E lembrar que no passado não era assim. Obrigado a você que está em casa.

Newton Cruz: Eu participei de um programa deste uma vez, anos atrás, e não era assim, não.

Paulo Markun: Não estou falando do Roda Viva, estou falando lá atrás, no tempo da ditadura. Uma boa noite a você, uma boa semana e até lá.

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