Memória Roda Viva

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Mano Brown

24/9/2007

Em uma das poucas entrevistas que aceitou conceder para a mídia, o rapper afirma que é a comunidade das favelas que acaba com a violência e não a polícia. Fala também sobre drogas, política e rejeita o papel de exemplo para os jovens

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[Programa ao vivo permitindo a participação do telespectador]

Paulo Markun: Boa noite! Ele considera que o principal conflito de hoje no Brasil é, em primeiro lugar, o do rico com o pobre; em segundo, o do preto com o preto; e, em terceiro lugar, o do branco com o preto. À frente de um dos mais importantes grupos do rap brasileiro - o que mais público atrai para seus shows de rua e que já vendeu mais de um milhão de CDs - ele é considerado a voz da periferia pobre de São Paulo e faz da sua música um protesto e uma denúncia contra o racismo, o crescimento urbano caótico e a dura vida nos bolsões de pobreza da cidade. Numa rara aparição na TV, Mano Brown está hoje no centro do Roda Viva. Ele é líder e vocalista dos Racionais MC's, grupo de rap que surgiu há e mais de vinte anos no Capão Redondo - região de Campo Limpo - numa das áreas mais populosas e pobres da zona sul de São Paulo. Você acompanha a entrevista num instante.

[intervalo]

Paulo Markun: A música de Mano Brown e dos Racionais MC’s deixa claro o conflito entre o centro e a periferia. Entre o Brasil dos incluídos e dos excluídos. O grupo se transformou numa expressão das idéias sobre consciência negra no Brasil. E fez dessa percepção sua marca no rap brasileiro.

[Comentarista]: O rap surgiu na Jamaica na década de 1960. Fora dos Estados Unidos e muito antes de estrelas como Eminem, Snoop Dogg e Public Enemy [grupos e artistas de rap estadunidenses] ganharem prêmios. Com os aparelhos de sons nas ruas, líderes aproveitavam os intervalos das músicas para falar sobre a violência das favelas, racismo, drogas, sexo e a situação política. Com letras duras, o estilo do rap conquistou espaço e em pouco tempo estava presente em outros países como França, Japão e Brasil. O maior ícone do rap no país é Pedro Paulo Soares Pereira, pouco conhecido por esse nome, mas que não passa pela periferia sem ser reconhecido como Mano Brown. Líder do maior grupo de rap do Brasil, os Racionais MC’s, ele é um dos artistas mais ouvidos nas regiões mais pobres do país. O grupo - formado em São Paulo em 1988 - tem, além de Mano Brown, Ice Blue, Edy Rock e o DJ KL Jay. Naquele ano eles participaram com duas faixas na coletânea Consciência black. Dois anos depois, em 1990, saiu o primeiro disco do grupo: o Holocausto urbano, com denúncias de racismo e da miséria na periferia de São Paulo. Em 1997, com o disco Sobrevivendo no inferno, os Racionais MC’s venderam mais de 500 mil cópias sem uma grande rede de distribuição por trás e ganharam vários prêmios. O DVD Mil trutas, mil tretas, foi lançado em 2007 com shows, extras e um documentário sobre a história dos bailes black na periferia de São Paulo. O vocalista do grupo Racionais MC’s diz que a consciência de raça do líder negro americano Malcolm X o fez entender coisas que estavam ao seu lado e que ele não entendia. Já interrompeu shows para conter brigas na platéia e para fazer discurso contra o álcool após ver um jovem bêbado entre os espectadores. Avesso às tecnologias, não sabe mexer em computador e se considera uma pessoa rústica. O caráter durão herdou da mãe, que deixou a Bahia com 12 anos após brigar com o pai dela. Classifica o povo brasileiro como pacífico, mas já afirmou que pegaria em armas para fazer uma revolução. Mano Brown raramente concede entrevistas e quase nunca faz shows fora da periferia. Já declarou que o seu verdadeiro público está lá. Foi quem o colocou no topo e precisa ouvir o que ele tem a dizer. Atualmente atinge também a classe média, falando de drogas e marginalidade.

[Trecho de fala de Mano Brown durante um show]: “Ah, se a vida fosse sempre assim: o palco, o show... Ah, se a vida fosse sempre um show... Como seria bom...”

Paulo Markun: Para entrevistar o líder dos Racionais MC’s, Mano Brown, nós convidamos: Paulo Lins, escritor, professor de literatura e roteirista de cinema; convidamos Renato Lombardi, jornalista da TV Cultura; Maria Rita Kehl, psicanalista; Ricardo Franca Cruz, editor chefe da revista Rolling Stone Brasil; José Nêumanne, editorialista do Jornal da Tarde, comentarista da rádio Jovem Pan e do SBT; Paulo Lima, editor da [revista] Trip. Temos também a participação do cartunista Paulo Caruso registrando em seus desenhos os momentos e os flagrantes do programa. O Roda Viva é transmitido em rede nacional de TV pela rede pública para todo o Brasil e, também, por meio da rádio Cultura AM em 1200 kHz. Para você participar do programa, você pode fazer sua pergunta pelo telefone: (11) 3677 1310 ou pelo fax (11) 3677 1311. E pode, também, mandar a pergunta, sua crítica, sua sugestão pela Internet acessando o site do programa: www.tvcultura.com.br/rodaviva. E você manda o seu e mail. Boa noite, Mano Brown.

Mano Brown: Boa noite.

Paulo Markun: Numa das poucas entrevistas que você concedeu e que a gente acompanhou aqui pela pesquisa que foi feita para o Roda Viva, você se define como uma espécie de espelho: um espelho que retrata a realidade. Nesses quase vinte anos em que você está na estrada como artista, como compositor, o espelho Mano Brown registra alguma coisa de melhor ou a realidade piorou de lá para cá?

Mano Brown: Ah, diria diferente. Diferente. Se você disser que melhorou pode parecer assim... Melhorou um grão de areia, entendeu?

Paulo Markun: Sei.

Mano Brown: Dentro do que a gente vê como o que precisa ser melhorado, então, eu me recuso a dizer que melhorou, mas também não sou cego de perceber mudanças. Mudou. Mudar, mudou. Entendeu? Mudou para... Agora...
 
Paulo Markun: Menos do que deveria ser necessário?

Mano Brown: Bem menos do que deveria, bem menos do que poderia.

Paulo Markun: E na arte? Quer dizer, você começou fazendo música... Sim, na periferia, mas só era ouvido lá. Hoje você e o seu grupo têm um espaço na chamada grande mídia. Isso mudou?

Mano Brown: Eu não era ouvido nem lá.

Paulo Markun: Nem lá? [risos]

Mano Brown: Não era ouvido nem lá, entendeu? Periferia é onde tem mais critério, mais bom gosto para a música. É onde se analisa mais, se ouve mais e se dá mais atenção, eu acho. Então, quando não é, não é. Entendeu? Não tem meio termo: é, é; não é, não é. Periferia é assim. Então, quando a gente começou, simplesmente não existia [o rap]. As pessoas não entendiam o barato daquela roupa, as correntes grossas. Porque também no nosso bairro é... Justamente a gente começou numa época onde o nosso bairro estava numa transição também. Numa transição, vamos dizer assim, até violenta mesmo. Hoje em dia você usa um boné, usa uma roupa ou você anda numa banca de dez, quinze caras tranqüilo. Antigamente, você tinha que... Não vou dizer disfarçar, mas houve uma época em que.... Na nossa quebrada você era um alvo, né? Tipo assim, justiceiro, extermínio... E foi justamente quando nasceu o Racionais, nessa fase aí. Então, lá era mais difícil. Até do que nos outros lugares, mesmo. Lá na nossa quebrada era mais difícil.

Paulo Markun: Maria Rita.

Maria Rita Kehl: Eu queria saber, já que o Paulo Markun perguntou sobre melhorias, o que você acha de movimentos sociais que surgiram também nesse tempo em que os Racionais estão aí na estrada... Tem um movimento lá no Capão... Quer dizer, não é no Capão, é em São Paulo, mas que é muito expressivo no Capão que é o MTST, Movimento do Trabalhadores Sem Teto. Tem até uma ocupação lá que está brigando bastante. E o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra] mesmo. Eu gostaria de saber a sua opinião sobre esses dois movimentos sociais: se você é otimista com a presença deles no Brasil ou não.

Mano Brown: Sim, então... Junto com esses... Eu vou dizer os que eu acompanho mais, certo? Tem alguns movimentos que hoje são organizados dentro do Capão, que eu acompanho alguns de perto. Esses eu considero como mudança real. Tipo, tem o Capão Cidadão, que é uma organização dos próprios moradores pelos moradores. Tipo, nós por nós, tá ligado? Deles. Lá, de moradores de lá, pessoas que são criadas lá, nascidas lá. Para com a população deles. Os próprios parentes, filhos, afilhados. Família nossa que todo mundo tem lá. Então, a gente é... Eu acompanho de perto. As outras organizações talvez eu acompanhe de longe.

Maria Rita Kehl: E de longe o que você acha do MST? Perguntando de cara...

Mano Brown: O que eu acompanho de longe, eu acompanho que tem um cara preso, certo? Lutando que é por uma causa que não é só dele, que é de milhões e ele - pelo que eu estou vendo - vai pagar sozinho, é isso?

Maria Rita Kehl: Eu não sei, eu acho que não! Tem muita gente presa.

Mano Brown: Estão querendo por o cara preso sendo que está lutando por uma causa que é de muitos. Eu acho que... É José Rainha, é isso?

Maria Rita Kehl: Isso.

Mano Brown: Eu até tenho que dizer que eu sou um cara que lê pouco mesmo. Sou mal informado sobre muitas coisas. Mas [sobre] as coisas que me interessam, eu me informo, entendeu?

Paulo Lima: Brown, nessa linha, você... Por exemplo, o que está acontecendo em Brasília é um negócio que você presta atenção? Essa movimentação toda, esses escândalos de corrupção? Você se liga nisso? Acompanha de perto?

Mano Brown: Não de perto, mas eu acompanho.

Paulo Lima: O que você está achando, por exemplo, da forma como o presidente Lula tem se posicionado diante dessas confusões envolvendo o PT, dessas denúncias de corrupção e tal [refere-se ao escândalo conhecido como "mensalão"]? Eu vi numa dessas entrevistas suas aqui dizendo que talvez o Lula tivesse melhor fora daquela cadeira de presidente, que na tua opinião é a cadeira mais solitária do país. Queria que você falasse um pouquinho do Lula, especificamente.

Mano Brown: É... Eu gosto do Lula. Sou eleitor do Lula. Apóio o Lula. Falo bem do Lula em qualquer lugar. E não espero benefícios por isso. Não conto com nenhum benefício vindo do Lula ou de qualquer... Que venha do PT. Se vier, firmeza. Mas eu não espero por isso. Eu acho que o Lula é um cara que veio de baixo, certo? E ele sabe que dar a cabeça dos amigos dele para os inimigos ele não vai dar, entendeu? Ele vai esperar a justiça se fazer por conta própria. Eu acho que ele está posicionado certo. Acho que não é da índole dele entregar um amigo dele que deu mancada. Ele não faria isso. Eu acho que ele sabe o que é isso. Ele não faria isso. Agora, ele vai deixar descobrirem e se descobrirem é “pau no gato”. É lamentável.

Paulo Lins: Tem bandido no poder legislativo, tem ladrão no judiciário, tem ladrão no executivo. Tem empresário que rouba, que sonega impostos, que bota dinheiro para fora. Cartola de futebol, até o jogador está fazendo. Então a gente vive nisso há muitos anos. Todo mundo sabe disso. É muito difícil falar para um garoto - pobre, preto, que vive na periferia -que ele tem que ser honesto, diante desse exemplo? Por que eu falo isso? Porque você falou que é assim “ele se espelha em quem está mais perto”. Agora, o exemplo do Brasil - se a gente for ver de um modo geral - é muito maior do que está perto, tem muito ladrão no Brasil todo. Fica difícil você falar para uma criança sem pai, que passa fome e tal, que ele tem que ser honesto, que ele não pode roubar?

Mano Brown: Eu chego a dizer que eu nem considero eles desonestos, né? Dentro da realidade das armas que eles têm para lutar, do que eles aprenderam como meio de sobrevivência, eles são honestos. Eu tenho certeza de que com os parceiros deles eles são honestos. Com a família deles eles são honestos. Com os manos que estão presos eles são honestos. Tá ligado? Eles são honestos com quem é honesto com eles. Entendeu? Onde está a honestidade é nos valores, né? Quando você fala que um assaltante de banco é desonesto você tem que olhar para a sociedade, se a nossa sociedade é honesta... A nossa sociedade... Eu costumo falar para os manos, quando a gente está conversando, que a nossa sociedade é criminosa. É omissa. Ela é cega quando quer, surda quando quer. Omissão é crime, né? Não é? Então, acho que se você for da categoria de criminosos... Entendeu? Tá todo mundo na mesma, na igual.

Paulo Markun: Mas essa saída não seria a lei para todo mundo?

Mano Brown: Mas a lei não é para todo mundo. A lei não é pra todo mundo. Nunca vai ser para todo mundo. Nunca vai ser para todo mundo.

José Nêumanne: Mas, espera aí! A maioria do povo lá no Capão Redondo, na periferia de São Paulo, nos bairros pobres, é honesta. A maioria trabalha. A maioria caminha, vai a pé da sua casa... Esse é o verdadeiro herói brasileiro. O herói brasileiro não é o que delinqüe, não é o que se torna bandido para se dar bem. O herói brasileiro é aquele que trabalha. E lá no Capão Redondo, de onde você vem, você sabe disso. Quer dizer, o Brasil é um país de 140 milhões de honestos reféns de vinte milhões de desonestos. Nós não podemos considerar como regra o fato de haver políticos bandidos - e há muitos, vários bandidos. Não quer dizer que nós vivemos em uma sociedade... Ao contrário: o verdadeiro herói brasileiro é aquele que levanta às quatro da manhã e caminha à pé da sua casa lá em Capão Redondo até o trabalho dele. Às vezes, lutando com dificuldade para ser honesto.

Mano Brown: Parece letra de rap isso aí que você está falando [risos]. A utopia é igual! Infelizmente, na realidade a gente sabe que os heróis estão cada vez mais humilhados, né? Sem direito, sem escola, sem hospital... E os moleques passam a ver que ser herói não vale tanto à pena, entendeu? O garoto só apanha.

José Nêumanne: Mas o cara, também, que vai para o crime... A vida dele é curta. Ele tem um lucro ali imediato, mas a longo prazo ele também não tem um beneficio tão grande assim, não. Não é, Mano?

Paulo Lins: Mas é o seguinte, quando o sujeito está no inferno ele resolve dar um tapa na cara do Diabo. Porque periferia não é tudo igual. Nem todo mundo é igual. E quando a gente vê, quando uma pessoa vai para o crime... Quando você olha, quando você vive na favela, quando você vê a família, você já sabe quem é que vai entrar e quem é que não vai entrar. “O fulano ali não trabalha”. Mas tem outro ali que está em uma família em situação muito pior. A favela não é toda igual. Tem as famílias organizadas, tem as pessoas e tal. Mas tem gente que não... E geralmente quem entra para a criminalidade é aquele que está na pior situação. Disso eu tenho certeza!

Renato Lombardi: Mano Brown, você costuma dizer que você é um sobrevivente do inferno. Você citou aqui que você é do Capão Redondo e eu acompanhei há muitos anos o Capão Redondo. O Capão Redondo chegou a ser o bairro mais violento do Brasil, quem sabe senão um dos mais violentos do mundo. E você sobreviveu. O que mudou de Pedro Paulo Soares Pereira para Mano Brown?

Mano Brown: O Pedro Paulo não tinha uma casa, certo? Não tinha uma estrutura mínima, nem de... O mínimo do mínimo. Tínhamos o quê? A minha família, os irmãos, tá ligado? O amigos. Esses fortaleciam, eram a riqueza maior e é o que eu quero ter até enquanto eu tiver, assim, condições. Ter a minha maior riqueza que são os meus amigos. É o que eu tinha. Então, o que mudou hoje? Hoje eu tenho o meu carro, hoje a minha mãe mora numa casa que eu comprei com o meu dinheiro, certo? Com o rap. Comprei a casa. Pode até parecer: “Pô, o cara está falando que ganhou dinheiro”. Qual é? É melhor do que enterrar o meu dinheiro numa boate, entendeu, meu? Parece que todo preto cantor tem que acabar na boate, acabar no boteco, na sarjeta... E não vai ser assim, meu. Se depender de nós, mudou isso, vai... Tem que acabar, mano? Entendeu? Então a gente procura o quê? Fazer estrutura: comprar uma casa para morar, tá ligado? Dar uma condição mínima para... Uma condição mínima. Entendeu?

Renato Lombardi: Esse é o Mano Brown de hoje?

Mano Brown: É, tem uma condição razoável para poder dizer assim... Agora dá para dizer, para tentar criar um filho, pá. Antigamente não tinha condições.

Renato Lombardi: Qual a diferença do Mano Brown que no começo da carreira cantava... raps que falavam de amor e falavam dos próprios bailes e passou a dizer o seguinte... Eu tenho um trecho aqui que você diz o seguinte: “Você fuma o que vem, entope o nariz, bebe tudo o que vê, faça o Diabo feliz”. Como é que é essa mudança?

Mano Brown: É, isso aí... Bom, a gente chama... De onde a gente vem, a gente chama de “oreiada”. Dar conselhos. Uma espécie de conselho, não tem outra palavra a não ser isso. “Oreiada” é conselho. Tipo assim, conversando com o seu parceiro dando a “oreiada” [risos]. Dando uma dura, vamos dizer assim. Uma idéia mais séria.

Paulo Markun: Você acha que essas duras emplacam? Elas fazem a cabeça?

Mano Brown: Sim, costumo receber, assim, ouvir e também... Nos parceiros... Eu tenho o meus sócios, meus parceiros, certo? Que eles também cobram de mim e eu ouço deles, eu também falo para eles, e outros falam para mim e eu falo para outros... A gente tem o que falar. Tem o que falar.

Paulo Lima: Ô, Brown, na pergunta do Lombardi, na tua resposta, Pedro Paulo e Mano Brown não parecem ser a mesma pessoa, né? E lembrou um pouco essa história do Pelé que criou essa separação entre o Edson e o Pelé [Pelé, Edson Arantes do Nascimento, refere-se a si mesmo na terceira pessoa, distinguindo a pessoa física do "rei do futebol"] quase como uma defesa de uma persona publica. O Pedro Paulo e o Mano Brown são a mesma pessoa ou não são?

Mano Brown: São a mesma pessoa.

Maria Rita Kehl: Brown, eu quero te perguntar exatamente dessa questão dos amigos, dos manos, que é uma das coisas mais bonitas do rap dos Racionais e de outros grupos. Que é exatamente essa idéia de que não é um astro que quer se destacar, mas, ao contrário, quer estar cada vez mais junto dos amigos. Eu acho isso, como referência que você cria para o jovem, muito mais importante do que o cara que se põe acima de todo mundo e os outros têm que admirar... Agora, você disse agora há pouco que o honesto é aquele que não trai os amigos... Agora há pouco na outra pergunta, não é? E no “Jesus chorou” [música dos Racionais MC's] você está claramente falando de traição ali. “Nada como um dia após o outro dia”.

Mano Brown: Certo.

Maria Rita Kehl: Você pode dizer um pouquinho do seu meio e, com tudo o que você conquistou de amizade, de gente solidária a você, o que é que é traição atualmente?

Mano Brown: Traição...

Maria Rita Kehl: Aquela música é bem triste, mostra que está magoado.

Mano Brown: Nessa música em si não se trata nem de uma traição, porque a pessoa que fala, na verdade, ela não conhece. Ela tá falando de uma pessoa, ela não me conhece.

Maria Rita Kehl: Ela ouviu dizer, né?

Mano Brown: É, ela está passando a idéia ali... O que acontece ali? Não é traição... Traição é quando você menos espera, você... Mas não é um assunto tão... Que me... Esse assunto traição, esses problemas da vida que são um problema comum a todos e não só a mim - não sou diferente de ninguém -, não é um barato que me preocupa tanto, entendeu? Tem coisa, assim, mais... Que me preocupa mais do que isso. Hoje eu sou um cara que lida tranqüilo. Não tenho medo disso.

Maria Rita Kehl: E o lance da inveja das pessoas?

Mano Brown: Não tenho medo também de inveja.

Maria Rita Kehl: De estar melhor, de ter conquistados essas coisas e as pessoas...

Mano Brown: Não tenho medo mesmo, não tenho porque... Não pode ter medo.

Ricardo Franca Cruz: Você está falando dos parceiros agora. E você tem um selo, lançou alguns discos, agora tem a rapaziada do Rosana Bronx [Grupo formado no Jardim Rosana, bairro da zona sul de São Paulo, que apareceu no meio do rap após ser contratado pelo selo Cosa Nostra e contando com a produção de Mano Brown e  Ice Blue. Tem como influência o funk e o soul dos anos 1970] e tal... E ouvindo o disco e vendo os discos, percebe-se a sua mão ali, o seu dedo na produção executiva, [na forma] como você trabalha... O que você passa para eles, para esses seus amigos? Que tipo de direcionamento artístico você passa para eles?

Mano Brown: É... Para que eles nunca tenham vergonha de mostrar o que eles aprenderam, o que eles sabem fazer. Nunca terem receio de se expressar, de falar o que sentem. Não ter medo de arriscar, de ser novo, de ser diferente. A amar a música. Amar a música, amar o que eles fazem. E estudar o que eles fazem. Acho que eles são rappers, são músicos. E eles têm que ouvir a música e não só o rap. Ouvir a música para fazer melhor o rap. É o que eu falo para eles, é o que eu falo para o U-Time [banda de rap lançada pelo selo Cosa Nostra, que tem como influência ritmos jamaicanos e nomes do funk brasileiro como Tim Maia e Jorge Ben], que também é do grupo do Cosa Nostra [gravadora fundada pelos Racionais MC’s e que, além de gravar os próprios traballhos da banda, vem revelando diversos artistas], o Trutas e Quebradas. Eu falo para eles serem honestos, não falarem coisas que eles não viveram, não falar o que eles não são. Porque na verdade o rap é uma fronteira disso aí também, certo? O próprio rap americano nasceu com isso daí, fantasiando, misturando realidade com fantasia. Só que na cultura deles é lindo, na nossa é cobrança na rua. Se a gente falar alguma coisa que [a gente] não é, a gente é cobrado na rua. A gente canta a rua e a gente vive a rua, encontra as pessoas da rua... Então, para nós é uma profissão perigosa: tudo o que você fala, volta. E eu falo para eles: “[Por] Tudo o que você falar, você vai ser cobrado. Você tem que pensar, mas também tem que ser espontâneo. Também não pode ser tudo pensado, com receio, não. Seja espontâneo”.

Paulo Markun: Tem espaço para a poesia no rap? Quer dizer, a força do rap é a denúncia, a retratação de uma realidade que nem sempre aparece. Mas tem espaço para a poesia?

Mano Brown: Tem, tem grupos que tem esse lado poético forte. Acho que o Z'África Brasil [banda de rap que valoriza as raízes negras do Brasil e afirma que as injustiças sociais são decorrentes do fato de o negro nunca ter sido valorizado no país]... Tem alguns grupos que escrevem na linha, nesse jeito assim... Poética...

José Nêumanne: Você é ligado em algum poeta?

Mano Brown: Para falar a verdade não...

José Nêumanne: Em algum letrista de música popular?

Mano Brown: Não, eu admiro vários, né?

Paulo Lins: Qual a música que você ouve, assim? De compositores, cantores...

Mano Brown: Brasileiro?

Paulo Lins: É.

Mano Brown: Jorge Ben. O primeiro que vem na mente: Jorge Ben. Cassiano, Tim Maia, Bebeto, Banda Black Rio [banda carioca formada em 1976 que mistura o soul-funk estadunidense com ritmos brasileiros e jazz. Teve grande aceitação internacional, principalmente na Inglaterra]...

José Nêumanne: Isso tem influência sobre o que você faz? A música de Cassiano, por exemplo.

Mano Brown: Ah, sim. Com certeza!

José Nêumanne: Cassiano tem muito a ver com a coisa que você...

Mano Brown: Cada vez mais, né? Jorge Ben, desde o começo; Tim Maia, desde o começo; Cassiano também foi influenciando com o tempo. E outros músicos... Gilberto Gil também.

Paulo Lins: No Brasil o hip hop [movimento de cultura de rua que nasceu nos Estados Unidos no final da década de 1960 misturando a música - geralmente o rap -, grafite e o break com objetivo de protesto e crítica social] está unificado? Há uma comunicação entre o pessoal que faz rap, que faz hip hop no Sul, no Norte... Há uma comunicação entre o pessoal?

Mano Brown: Há comunicação.

Paulo Lins: Estão sempre trocando idéias.

Mano Brown: Não sempre com a mesma pessoa, mas existem outras pessoas, né? Se não está o Brown, tem outro. Se não está o outro, tem outro. Tipo, neste exato momento eu acho que os mano do Ceará estão ouvindo, ou estão vendo pela Internet, ou por algum meio... Eles estão vendo. O Zezé, os mano de Natal estão vendo! Os mano lá do Sul, eles são todos interligados. Eu já fui em encontro deles em que estava um de cada estado e se encontrou todo mundo no Sul. O caras [diziam]: “Pô, marca em São Paulo que é no meio. Que é neutro”. Tipo assim... É que é longe, o cara mora lá no alto, e marcaram no Sul. Mas é louco, os mano com sotaque diferente falando das mesmas coisas, dos mesmos problemas.

Paulo Lins: Agora, eu tive lá em Pelotas [RS] - inclusive com o Ferréz [escritor, lançou o livro Capão Pecado em 2000 onde fala sobre a violência no bairro do Capão Redondo, em São Paulo, onde vive. Ligado ao hip hop, é cronista da revista Caros Amigos], por sinal - e fomos ver um grupo de rap lá. E eu vi que... Assim... Que funciona, que as idéias, que as conversas são as mesmas do Nordeste, do Sul... Tudo igual. Nesses vinte anos de Racionais, como é que você avalia o movimento? Como é que o hip hop está no Brasil desde quando começou até hoje?

Paulo Markun: Aliás, Paulo, eu só queria emendar aqui a pergunta do rapper e colaborador do metrópolis, aqui da TV Cultura, Rappin' Hood [um dos grandes nomes do rap paulista e que formou o grupo Posse Mente Zulu na mesma época em que os Racionais MC's se formavam. Em sua carreira solo, mistura reggae e samba ao rap tradicional], que é mais ou menos nessa linha e a gente junta as duas. Vamos ver.

[Imagem gravada] Rappin' Hood: Salve, salve, toda a rapaziada do Roda Viva! [É uma] Satisfação estar aqui vendo o Mano Brown sendo entrevistado. Brown, satisfação estar falando contigo, parceiro! Você está ligado? "Miliano" [Há mil anos]. Para você que é um rapper da antiga que veio daqueles bons tempos do metrô São Bento, o começo, o início na Galeria 24 de Maio [também conhecida como Galeria do Rock, onde cada andar vende artigos de certa tribo urbana: rappers (no subsolo), roqueiros, skatistas etc], eu queria saber de você qual a principal mudança que você vê no rap, no hip hop, daquele tempo para hoje em dia. E queria saber se você acha que essa mudança é positiva ou negativa? Valeu!

Mano Brown: Beleza. Rappin' Hood é parceiro. A primeira coisa que eu acho positivo foi o número. Cresceu numericamente, isso aí se falar que é negativo, é positivo. Cresceu em números. Hoje a gente vai do norte ao sul do Brasil tem grupo de rap, tem posse, tem organização, tem uma ONG, tem um quartinho, tem um escritoriozinho ou o escritório é na esquina, mas os moleques estão fazendo as coisas. Então a gente... Pô, mano... Tem que ver que os números são a nosso favor, e eu falava isso há vinte anos, os números pesam para o nosso lado. Tem que saber trabalhar os números. Os números são nossos. Quem tem a maioria "é nóis", quem tem a massa somos nós. Tem que fazer esse peso virar para nós.

Maria Rita Kehl: Então, esse número... Queira ou não, os Racionais estão ganhando um número muito grande de ouvintes, de fãs na classe média. E tem uma mudança aí, talvez, na atitude do grupo, porque no Sobrevivendo no inferno tinha um rap que dizia que não adiantava o “boy” querer pôr o CD de rap no carro para se fazer de malandro; e no "Vida loka", tem uma hora que você disse... Está no... Não sei bem em qual faixa [A música “Vida Loka” está no disco Nada como um dia após o outro dia. No entanto, o trecho citado pela entrevistadora é da música "Negro Drama", do mesmo álbum]... Que você diz o seguinte: “Eu entrei pelo seu rádio, peguei o seu filho, o seu filho me imita”, como se estivesse percebendo que também interessa ganhar essa adesão de gente da classe média que gosta de rap e não está só querendo se bancar de malandro, “playboy” que quer bancar de malandro. Aquilo que vocês dizem, toca muita gente. Eu queria saber se houve, de fato, uma mudança e se interessa esse público de classe média que agora gosta de vocês, mesmo que vocês não queiram, não é?

Mano Brown: A finada classe média [risos]... A finada classe média que... Existem os emergentes e os decadentes, né? Os decadentes... A crise apertou a vários setores, inclusive os classe média, certo? Eles têm que entender o mundo que cerca eles. Eles têm que entender o que pensa o porteiro, a filha da cozinheira, a cozinheira, o jardineiro... Ele tem que entender as pessoas que cuidam deles. Tem que saber... Ele tem que ver o mundo, ele vai ter que sair pra fora do portão. Ele vai ter que pegar ônibus, ele vai ter que pegar o trânsito, ele vai ter que conviver com os motoboys... Ele vai ter que conviver com o que está ao redor dele. Então, não é que ele está... O Racionais e tal... Não! O Racionais é como se fosse a voz de alguns - existem outros, certo? Se ele achar que os Racionais vão resumir o mundo, ele tá errado, ele tá de chapéu. Ele vai se surpreender quando ele descobrir que além do Racionais existe muita coisa que nem foi falado em rap. Não foi falado em letra de música ainda. Então, ele tem que se informar sobre o mundo que cerca ele para ele poder sobreviver. Então, o Racionais, o rap, até o rap americano, todas essas coisas dessa cultura, é um meio do cara se integrar ao mundo e saber o que a rapaziada está pensando. Porque os cara se vestem desse jeito, o que a gíria fala, qual é que é, “pá”. É normal? É normal desde que música é música, todo mundo... Você não vai por um selo “proibido playboy comprar CD”, entendeu? Mas já existiram outros movimentos que os playboys curtiam também e nem por isso eles nos beneficiaram em nada.

Paulo Markun: Mano Brown, vamos fazer um rápido intervalo. Nós voltamos em um instante com o Roda Viva que hoje tem na platéia os parceiros de Mano Brown nos Racionais MC’s: Ice Blue, vocalista; KL Jay, o disk jockey, e Edy Rock, vocalista. Até já.

[intervalo]

[Trecho de show dos Racionais MC’s. Fala de Mano Brown]: Zona Leste, amo vocês! “Quantas vezes eu pensei em me jogar. Mas aí a minha área é tudo o que eu tenho.... A minha vida é aqui eu não consigo sair... É muito fácil fugir, mas eu não vou, não vou trair quem eu fui, quem eu sou...” 

Paulo Markun: Bem, esse é o trecho da música “Fórmula mágica da paz”, dos Racionais MC’s, grupo do qual faz parte Mano Brown, entrevistado de hoje no Roda Viva. Aliás, o programa completa, nessa próxima sexta feira, 21 anos. Mano Brown, a música fala que não dá para sair, que fugir não é a solução. Qual é a solução?

Mano Brown: Você vê, essa música foi feita em 1998, 96... Eu morava na Cohab [Companhia de Habitação Popular. Contrói conjuntos habitacionais para pessoas de baixa renda], já não moro mais. Pode parecer até contraditório. Aí, o que acontece? O problema de moradia na minha vida sempre foi muito constante, né? Sempre foi o que... O problema da minha vida foi moradia. Então, eu jurando lealdade a uma quebrada é até estranho, porque eu morei em trezentas quebradas! Morei de aluguel a vida toda. Na mesma rua eu morei em três casas, às vezes. Então, eu optei por ser leal. Entendeu?

[...]: E o que é que é ser leal na periferia?

Mano Brown: Ser leal é tentar investir, tentar participar, tentar... Tentar, pelo menos. Executar é pretensão. “Eu vou executar”, não é assim. Isso aí depende da opinião, que depende de mil pessoas. Mil mentes diferentes que são inteligentes igual a você e que pensam diferente. Você tem que negociar. Periferia não é “vamos fazer e tá feito”. Você tem que negociar, tem que explicar o porquê. O dinheiro é escasso, para investir tem que ter um porquê. Tem que investir certo. Não pode errar. Não tem espaço para errar. Não tem dinheiro sobrando para errar. Então, você convencer as pessoas que dá para investir no bairro é um... Era um barato que eu tinha na minha mente naquela época. Hoje eu acho que dá para você... Eu até entendo se as pessoas quiserem sair do bairro. Eu aprendi a entender isso. Porque existem lugares onde o problema é crônico, não vai resolver. Como você vai resolver uma situação de uma favela que é construída num terreno... Vamos dizer assim, uma palavra... Íngreme, vai... Que se usa, né? Íngreme...

Paulo Markun: Uma pirambeira...

Mano Brown: Barrancão. O cara constrói a casa dele, gastou o dinheiro dele, sei lá... De uma carreira numa empresa, para construir uma estrutura de uma casa, construir, fazer um sobrado, dar um acabamento legal. Fala: “Pô, tem gente que investiu a vida ali”, ele vai ter que melhorar aquilo ali. Ele vai viver ali. Mas quem não quiser, também tem o direito de sair. Você entendeu? Eu passei a ter essa visão depois dessa música. Quem quiser sair tem direito de sair. Tem direito de procurar um jeito de se situar melhor. Porque eu também fui obrigado a sair. Não saí por opção, fui obrigado a sair, procurar um jeito de morar...
 
Renato Lombardi: Independente das letras das suas músicas de orientação, o que mais o teu grupo faz para poder orientar, para poder abrir a cabeça das pessoas, dessa juventude toda que está aí com droga em tudo quanto é esquina, com violência em tudo quanto é esquina? O que mais vocês fazem, independente das letras e da mensagem que vocês passam?

Mano Brown: Eu vou te falar um negócio “cabuloso” agora. Por incrível que pareça, o lugar onde tem menos violência hoje é em uma favela. Entendeu? Onde tem menos violência hoje é em uma favela, você vai ver violência no asfalto. Dentro de uma favela tem controle.

Renato Lombardi: De quem, do traficante?

Mano Brown: Não. Da população, da opinião da maioria e da justiça. E do certo, o certo tem que prevalecer.

Maria Rita Kehl: E a violência da polícia?

Mano Brown: Não entendi...

Maria Rita Kehl: E a violência da polícia que você fala bastante nas letras?

Mano Brown: Sim, isso é um outro assunto longo, né?

Maria Rita Kehl: Não, a pergunta...

Mano Brown: Que faz parte. Se a comunidade não se une, se não tem alguém para unir a comunidade e ter uma organização mínima, vira alvo fácil para qualquer tipo de força exterior: polícia ou outras forças ruins, entendeu? A polícia é a maior delas. A favela tem como eleito [como] o inimigo número um a polícia. Por quê? Não foi o rap que decretou isso. O Mano Brown não inventou isso.

Maria Rita Kehl: Claro.

Mano Brown: Eu já nasci [e] as pessoas mais velhas falavam para mim: “Fica longe de polícia. Cuidado, eles não gostam de nós”.

Renato Lombardi: Mas as mensagens que vocês passam, me explica... Eu queria que você falasse um pouco disso. Essas mensagens que vocês passam... Você consegue entrar na cabeça de alguém e dizer: “É o seguinte, a letra é essa, o caminho é esse, eu vou cair fora das drogas, eu vou cair fora do roubo e vou seguir o meu caminho”? Você é um exemplo disso!

Mano Brown: Eu sou uma exceção. Eu não diria que eu sou um exemplo porque eu não sou um exemplo. Nem para o meu filho.

Renato Lombardi: Sim, mas você tem uma legião que acredita no que você canta, no que você passa...

Mano Brown: Não, assim... Tenho amigos, pessoas que gostam da música, como eu gosto de outros músicos. Mas eu não vou seguir a vida que outros músicos que eu gosto viveram. Eu gosto de Marvin Gaye [cantor, compositor e arranjador de soul. Foi o principal nome da Motown, gravadora de música negra de extrema importância nos EUA nos anos 1960 e 1970. Algumas de suas principais canções são "What's going on" e "Sexual healing". Foi morto pelo próprio pai aos 44 anos, após uma briga], eu vi a vida dele. É impossível viver o que ele viveu, entendeu? Então o que eu digo, qual é o meu exemplo? As pessoas que estão perto de mim me vêem, conhecem os meus defeitos, conhecem as minhas qualidades. Elas sabem até aonde a palavra vai ter efeito. Eu não posso achar que realmente eu estou cativando um exército de pessoas, porque isso aí vai me atrapalhar.

Renato Lombardi: Mas você sabe a responsabilidade que você tem?

Mano Brown: Não sei. E não quero ter.

Renato Lombardi: Não sabe?

Mano Brown: Não quero ter, entendeu? Eu quero ser livre. Eu sou um cara livre. Esses fardos eu não aceito, não pego.

Renato Lombardi: Tem... Você canta: “Nas ruas da [zona] Sul eles me chamam Brown. Maldito, vagabundo, mente criminal. O que toma uma taça de champagne e também curte tubaína. Fanático e melodramático, bon vivant, depósito de mágoa” [trecho da música “Da ponte pra cá”]. O que você quis dizer com isso?

Mano Brown: Sim... Nossa, é muita idéia, né? [risos]

Renato Lombardi: Mas é... Me chamou a atenção aqui, realmente é...

Mano Brown: Sim, a gente fala...

Renato Lombardi: Vamos lá, então! Vamos separar aqui: “Bas ruas da Sul me chamam Brown. Maldito, vagabundo, mente criminal”. Fala um pouco sobre isso?

Mano Brown: Antes de mais nada é uma rima, certo?

Renato Lombardi: Sim, mas é pesado.

Mano Brown: Para ficar legal, certo? Pra ficar bem pá mesmo... Você é de música, você tá ligado, certo? E também a realidade, explicitamente, é isso mesmo: as pessoas me chamam de Brown mesmo. Eu sou criminoso sem ser. Ou sou. Entendeu? Talvez eu seja, realmente. Na verdade nós somos. Todo mundo aqui é criminoso. Quando a gente aceita o Brasil que a gente vive e a gente tira onda, vai tomar cerveja, comer pizza, fazer samba: nós somos todos criminosos.

Renato Lombardi: Por isso eu te falei da responsabilidade. Porque, assim, eu sou jornalista. Então a gente denuncia, a gente critica, a gente investiga. É o que é o teu caso. Você passa a mensagem, a tua mensagem vai para muita gente: vai para do garoto de 12, 13 anos, até o adulto... Que está naquele barco, que está para ir e não vai. Isso que eu perguntei.

Mano Brown: Veja bem o mundo que a gente vive, né? Eu tenho que ter consciência, que é o seguinte: o Racionais é um grupo de rap. O rap é um gênero. Existem outros vários gêneros musicais que a juventude ouve. Não ouve só o rap. A periferia não ouve só rap. Dentro da música negra tem pelo menos uns outros oito ritmos que disputam a preferência das mesmas pessoas. Tá ligado? Dentro da periferia tem forró, forró “isso”, forró universitário, samba, samba “aquilo”... Reggae, reggae “não-sei-o-quê”, tá ligado? Tem várias divisões, todo mundo curte um som negro, algum som. Periferia curte um som negro mesmo. Forró, pá, certo? E o rap nacional é um. Daí tem o rap americano ainda.

Renato Lombardi: Quantas pessoas vão nos shows que vocês apresentam, em média?

Mano Brown: É relativo. Já cantei para vinte, já cantei para vinte mil.

[...]: 20 mil pessoas? [tom de espanto]

Paulo Markun: Uma coisa, aliás, em relação ao rap... André Fernandes - aqui de São Paulo - pergunta: “O que é diferente entre o rap americano e o brasileiro”?

Mano Brown: Eu acho que o rap americano é mais evoluído. Eles alcançaram um lugar onde eles deveriam estar mesmo. Hoje eles usam a mídia a favor deles. Eles usam a máquina, a máquina é podre e eles estão fazendo... Já que é podre e não vai melhorar, eles fazem o dinheiro vir para o lado deles. A gente sabe que...

Paulo Markun: Mas o discurso social lá não é tão forte quanto aqui, né?

Mano Brown: Eu não estou nessa fase de exigir do cantor de rap esse discurso social. Porquê? Porque o rapper é um músico. Acho que ele tem que falar para a sociedade o que ele sente. Se não sente, não tem que falar. Não é porque é rapper que tem que falar de problema crônico, sociedade e tal. Acho que o cara tem que ser livre. O compositor, o letrista... Você não pode chegar, pegar o moleque que está agora começando dentro da casa dele, num cômodo, e jogar: “Fala desses problemas aqui que é a sua cara”. Jogar um fardo de duzentos quilos nas costas do moleque sendo que dentro da casa dele mesmo ele não tem o mínimo para ele. Entendeu? Ele tem que lutar pela vida dele. E o rap é isso, também. É lutar pela sua própria vida também. Individual. Lutar pela sua sobrevivência. É isso.

José Nêumanne: Como é que você compõe? Como é o processo de composição para você? Como você “bola” uma letra dessa, como é que você chega nessas rimas? Como é que é a tua rotina nisso aí?

Mano Brown: Primeiramente, a necessidade. Se eu não cantar rap eu não como. Certo? Eu tenho um filho para criar. Eu preciso cantar para viver, né? Então eu preciso... De alguma forma eu ia fazer algum tipo de som, um tipo de música. Se fosse o que Deus me permitisse mesmo, de eu estar na rua, livre, trabalhando, eu ia tentar a música. Certo? E, geralmente, eu escrevo de dia. De noite eu não escrevo. Não tenho saúde para escrever à noite, não tenho resistência. De noite eu faço outras coisas, né? Vou pra rua... Para escrever o meu cérebro não funciona bem. Eu escrevo de dia, não precisa ser lugar tranqüilo, beira de praia... Essas pegada eu não curto.

José Nêumanne: É uma coisa que você se inspira ou que você trabalha, assim? É uma coisa que pinta, assim, a inspiração ou é uma coisa que você fica trabalhando, “Eu vou fazer, eu vou escrever...”

Mano Brown: A inspiração é assim: A inspiração são aqueles 10% que, quando está acabando o que você sabe, Deus manda aqueles 10% e ajuda você a terminar o som. Inspiração não vem toda a hora. Você tem que estar trabalhando o cérebro mesmo, tem que estar praticando.

Paulo Lima: Brown, por que você resolveu vir aqui hoje? Eu sei que você... Você acabou de falar que os americanos usam melhor a mídia etc. E a gente sabe que você controla bastante a sua exposição na mídia, o grupo inteiro etc. Por que você resolveu vir aqui hoje no Roda Viva?

Mano Brown: É um programa que eu já assisti várias vezes, certo? Mesmo sem ter muita noção de tudo do... Às vezes eu não tinha noção do assunto, as palavras são meio difíceis, mas eu ficava prestando atenção no comportamento do cara que estava sendo entrevistado. Já vi uns cara que tomou pancada aqui [risos]. Eu estou achando suave!

Paulo Markun: Hoje está light!

Mano Brown: Está suave. Não sei porquê... Tá suave, estou até estranhando!

Paulo Lins: Religião. Vamos falar um pouco de religião. Por exemplo... O samba, a questão do negro no Brasil... Desde que o negro chegou ao Brasil, foi perseguido, foi escravo e tal. E depois, após a escravatura, foi perseguido. A umbanda foi perseguida, o candomblé foi perseguido. E hoje... O negro ainda é perseguido. E hoje a periferia tem uma boa parte que é evangélica. E por que isso? Como você vê essa situação da periferia ter esse levante evangélico?

Mano Brown: Olha... Veja bem, né, meu... A nossa cultura sempre foi associada a muita coisa. Desde o rap, o samba, o candomblé... Todas as nossas coisas são relacionadas, de uma certa forma, a coisas negativas. E muitas vezes essas coisas realmente convencem as pessoas. Porque o massacre de informação... As pessoas vão se afastando, realmente. E isso, ao longo dos anos, você vai perdendo número. Aconteceu isso com o candomblé, entendeu? Eu acho que também essa... Eu sou um cara que vai em igreja evangélica, certo? Deixar aqui já bem... Gosto, admiro, mas nasci dentro do candomblé.

Maria Rita Kehl: Os evangélicos combatem o candomblé, né?

Mano Brown: Eu sou contra quem combate.

Maria Rita Kehl: Mas eles combatem...

Mano Brown: Eu acho que Jesus não pregava isso. Jesus não pregava opressão. [Não pregava] Que: "Eu estou certo, você está errado; eu estou salvo, você está perdido". Eu acho que é nesse posicionamento que os crentes erram. Não existe ninguém melhor do que ninguém, não existe ninguém salvo ainda. E nem condenado ainda. Isso que não...

José Nêumanne: Mas isso que a Maria Rita perguntou... Veja bem, o candomblé é a religião mais livre que existe. É uma religião que respeita muito as outras – não é isso, Maria Rita? -, enquanto que os evangélicos são exatamente o contrário. São aqueles que se juntam aos políticos para fechar as tendas de candomblé. Exatamente o contrário...

Mano Brown: É isso: o homem usa errado tudo aquilo em que põe a mão. Jesus não pregava isso: oprimir, fechar, bater, mandar prender. Usar o governo, usar o prefeito... Está errado!

Paulo Markun: E onde é que você acha que os evangélicos acertam? Porque, por alguma razão, você deve ter essa proximidade...

Mano Brown: Eles acertam... “Deus está sobre todas as coisas”, é o que eles fazem certo. “Adorar a Deus sobre todas as coisas”. A partir daí pode ter erros, né?

Paulo Markun: E os evangélicos te aceitam bem?

Mano Brown: Vamos dizer assim, é uma porta aberta, né? Onde aceitam pessoas que estão precisando, certo? De paz, que estão precisando de uma certa tranqüilidade, um lugar onde você acredita que você vai estar ambientado. E a igreja é um lugar onde você pode entrar, sentar e ficar lá.
 
Paulo Lima: Já que estamos falando de Igreja, vamos falar de casamento um pouco. Você é casado há muito tempo já, né? É um aspecto interessante da sua vida porque hoje você vê artistas e tal, dificilmente o cara tem um relacionamento estável por muito tempo. Eu queria saber a importância disso para você se manter inteiro, ter um casamento sólido e já com longo tempo. Eu queria saber, também, de onde vem esse tipo de idéia, por exemplo, em uma das suas músicas aqui tá dito o seguinte: “Fale o que quiser. O que é, é. Verme ou o sangue-bom, tanto faz para mulher. Não importa de onde vem nem para quê. Se o que ela quer mesmo é sensação de poder” [trecho da música “Estilo cachorro”]. Eu queria que você falasse um pouquinho da importância da mulher - da sua mulher - na sua vida e da mulher como um todo. Como é que o rap encara e trata a mulher?

Mano Brown: Então, eu vou deixar uma coisa bem clara, né? Esse rap, deixa ele de lado aqui... Agora vamos falar da minha mulher [risos]. Não tem nada a ver uma coisa com a outra, certo? São assuntos diferentes. Bom, no caso do rap, além da brincadeira - para mexer com as mulher - para trazer um pouco de mulher para o rap também, porque elas gostam da provocação. A realidade é essa. Elas gostam. A partir do momento que você trata, pelo menos você relata ela como um ser inteligente, que já em outras músicas já se retratam como animal mesmo, como objeto...

Paulo Lima: Como aquela história da loira burra [refere-se à música “Lôrabúrra” do rapper Gabriel, o Pensador - um dos primeiros rappers brasileiros a chegar à grande mídia, apesar de ser de família de classe alta da zona sul do Rio de Janeiro] , por exemplo...

Mano Brown: Não vou dizer nomes de música, eu nem pensei nessa música. Mas, por exemplo, assim... Nessa música do Racionais, a gente não põe a mulher como uma coisa desprezível. Ela usa a beleza dela, ela usa o charme, ela usa... Ela sabe usar também, tá ligado? E tem mulher, também, que nem precisa usar nada: usa a inteligência só e já era, né? É só música mesmo. Quanto à família - você me perguntou da família - uma coisa que eu não gosto é de falar sobre a minha família. Justamente para que dure mais [risos]. Quando menos expôr, mais dura.
 
Renato Lombardi: E o que te tira do sério? Futebol te tira do sério?

Mano Brown: Tira do sério!

Renato Lombardi: O Santos...

Mano Brown: Tira do sério! O Santos tira do sério demais! [risos] Rouba... Brisa vários domingos... Vários domingos tristes. [Brown torce pelo Santos]

Renato Lombardi: Mas te leva à discussão, te leva a...?

Mano Brown: Ah, discussão...

Renato Lombardi: Conta aí o último incidente que aconteceu com você...

Mano Brown: [risos] Não... Aquilo lá não foi... Besteira. Não tinha nada a ver, não!

[...]: Os corinthianos estavam...

Renato Lombardi: Você foi apartar, a história... ou como é que foi? Ou você se envolveu na história?

Mano Brown: Não. Na verdade... É todo mundo... É uma família só na Torcida Jovem [uma das torcidas organizadas do Santos]... Todo mundo é Torcida Jovem, é tudo uma família, certo? Teve uma discussão lá na hora que o Santos tomou gol do Corinthians e todo mundo ficou bravo. E começou todo mundo a se ofender mutuamente, entendeu? Os mais bravos já saíram se atracando e aí foram para a delegacia, entendeu? Os cara que estavam mais nervoso mesmo. Fanáticos! E eu fui um deles, né? Estava nervoso também, o outro mano estava nervoso também... Todo mundo nervoso ia dar no quê? Coisa de jogo... Nada a ver, não!

Paulo Lima: Ô, Brown, tem uma notícia muito engraçada aqui na... A manchete, na verdade, é engraçada. Ou curiosa. De 2004. Julho de 2004: “Mano Brown paga fiança, é solto e chora”. Não vou nem entrar nesse assunto aqui dessa notícia [Mano Brown foi preso acusado de desacato a autoridade], mas eu queria saber a última vez que você chorou. Se você se lembra e qual foi o motivo.

Mano Brown: Se alguém falar, foi mentira. Não chorei nada.

[risos]

José Nêumanne: Você nunca chorou, Mano?

Mano Brown: Não, lógico, já chorei! Quem nunca chorou?

Paulo Lima: Você se lembra porquê? Você se lembra da última vez?

Mano Brown: Que eu chorei?... Quando o Sabotage morreu. Eu lembro que eu chorei. Chorei assim, bem discretamente, né? Tem uns irmão que chorou muito mais. Mas eu chorei por dentro e cheguei a chorar também porque foi um dia muito triste para nós, né? Um dia, assim... Marcou muito. De lá para cá, graças a Deus, não. Não precisou, não careceu.

Maria Rita Kehl: Brown, deixa eu te perguntar uma coisa sobre a sua questão com as crianças... Às vezes dá a impressão que está todo mundo aqui achando que os Racionais poderiam resolver o problema da criminalidade. As perguntas são muito assim: se você pode dar exemplo, se você pode convencer... E eu acho que não é por aí mesmo. É a arte, você é um excelente poeta, eu acho que é por isso, também, que a sua música ultrapassa a questão da realidade local. Agora, tem uma música no Nada como um dia após o outro dia [de 2002] que se chama “12 de outubro”, que o tema é uma criança que está revoltada com o Dia das Crianças porque xingou a mãe, que não deu presente, e levou um tapa. Lembra dessa música?

Mano Brown: Sim.

Maria Rita Kehl: E aí você, na música... Não sei, ela é sua?

Mano Brown: Sim.

Maria Rita Kehl: E você começa a dizer que é por isso que pode nascer um criminoso aí, ele está revoltado porque levou um tapa... E eu fiquei pensando: bom, se essa cena é verdade ou não, não importa. Pode ser inventada. Mas essa mãe que deu o tapa pode estar também desesperada justamente porque não conseguiu comprar o presente, né? Então, eu penso se... O que levaria essa criança para o crime? Essa revolta porque levou um tapa? Essa criança inventada aí... Ou se é porque ela se vê numa sociedade em que tem tanta coisa sendo exibida para ela e que ela devia ter, e ela acha que não vale nada porque não tem? Isso me preocupa muito pela questão de como a gente... o valor das pessoas está ligado a isso.

Mano Brown: Certo.

Maria Rita Kehl: Às vezes o tapa da mãe não é tão grave para revoltar quanto esse sentimento de não valer nada.

Mano Brown: Olha, essa música é minha em parceria com o Silveira, né? É o homem que toca o violão. A música é mais dele do que minha, né?

Maria Rita Kehl: Aham...

Mano Brown: Pelo certo. E só fui narrando uma coisa que tinha acontecido no caminho. Nós estávamos indo para gravar mesmo e, no caminho, era 12 de Outubro, aconteceu isso. Eu já cheguei pensando e ele estava com o violão tocando e eu já saí falando... Foi meio assim [estala os dedos]. Aconteceu rápido, né? E quanto à realidade do que estava acontecendo naquele momento, o que eu também... O que ali... De uma certa forma, os maninho que estavam jogando bola com ele, não estavam na revolta que ele tava. Ele tava. Os outros mano já falaram: “Ele tomou o tapa na cara, xingou a mãe dele!”. Eles, os moleques que falaram pra mim. Eu chamei ele e falei: “Ô, mano, você brigou com a sua mãe?”. [Ele falou]: “É, me bateu, pá, não sei o quê”... Contou a história, meio “assim” [receoso] também, não quis também se expôr muito. Eu falei: “Pô, mano, toma um tapa na cara no Dia das Crianças, que presentão, né, meu?”. Embaçado, né? É melhor não ganhar nada, mas, sei lá... Um tapa na cara marca, né, meu? Seja da mãe, né? A minha mãe mesmo nunca bateu na minha cara. Bateu, quebrava, mas não batia na cara, entendeu? Então, eu acho que certas coisas humilham, assim, marca... E pode ser também um caso... Esse caso não é que “Vamos explorar esse caso porque foi um caso...”. Não é todo mundo que é assim, mas existem pessoas que vivem assim.

Paulo Markun: Você fala muito da sua mãe e fala do seu pai com mágoa. Por quê?

Mano Brown: Não, na verdade eu não tive um pai, né? Teve um pai mas eu não conheci, não conheço. Também não quero conhecer. Certo? Não faço questão. Poucas coisas... Eu não tenho muita coisa para falar sobre pai, meu...

Paulo Markun: E você como pai?

Mano Brown: Quando o pai parece com a gente, né? Torce para o mesmo time, assim, tipo... É “da hora”. Eu não tive isso. Mas não tem problema, entendeu? Não tive problema relacionado à falta do meu pai.

Paulo Markun: E você hoje tenta suprir isso com os seus filhos? Ser um pai presente...

Mano Brown: Não...

Paulo Markun: Não?

Mano Brown: Sou ausente. Infelizmente, eu sou ausente.

Paulo Markun: Por causa do trabalho, por causa da música? Ou é mesmo porque não está sempre perto?

Mano Brown: Por causa do instinto, talvez, de ficar longe. E o trabalho, né?

Paulo Markun: Como do instinto?

Mano Brown: Não sei, talvez eu não saiba lidar com essa história. Eu não sei ser presente. Eu não sei ser presente [fala cada palavra separadamente, enfatizando]. Eu acho que eu sou um cara que, aonde quer que eu esteja, tira a paz do lugar, entendeu? [sorri] E a minha casa tem que ter um ritmo. Eu sou outro ritmo. Eu não quero que eles vivam em minha função, em função do que eu estou vivendo agora. Porque eles têm a vida deles. Meu filho tem a vida dele. Eu não quero que ele seja um "Brownzinho"! Ele não é!

Paulo Lima: Ô Brown, e o que é amor para você? Pegando o gancho nessa história de filho, família etc. O que é amor? Como você define isso? O que isso representa na tua vida?

Mano Brown: Amor é lealdade, compromisso, seriedade, responsabilidade com o seu irmão, com sua mulher, com seu filho, pá...

Paulo Markun: Quer dizer, não é um negócio muito divertido?

Mano Brown: É divertido quando você gosta [risos]. É divertido quando você gosta. Quando você não gosta, passa a ser trabalhoso, né? Quando você gosta, você faz por amor. Então, acho que amor é isso. Eu amo meu filho, amo minha mulher, amo minha mãe e amo meus amigos também, entendeu? Não tem como você [dizer] “ah, eu gosto do meu amigo e amo a minha esposa”. Você gosta do seu amigo, um dia você separa da sua mulher e o seu amigo fica. Ou vice-versa, entendeu? [risos] Você tem que... Ah, mas o que é amor, né? Você vai falar: “Você eu gosto. Você eu amo” [aponta para duas direções como se apontasse para duas pessoas diferentes]. Acho que você gosta, né? Você gosta, você gosta. Você ama. Gostar e amar, para mim, é a mesma coisa.

Paulo Markun: A propósito da cultura da periferia, o Ferréz, que é esse que é autor de livros sobre o cotidiano violento do Capão Redondo, em São Paulo, tem uma pergunta, vamos ver.

[VT] Ferréz: Ô Brown, queria te fazer a seguinte pergunta: de uns tempos para cá a periferia vem fazendo a sua própria arte, tá ligado? A gente está fazendo os próprios CDs, as próprias roupas e as próprias músicas. E eu queria saber se esse é o caminho certo, realmente, se a gente está fazendo a coisa certa, se esse é o caminho viável para a periferia.

Mano Brown: Sim. Ferréz é um cara importante hoje. Ele tem uma loja no Capão que é um fenômeno de venda, na minha opinião. De coisas relacionadas à marca dele, né? 1DASUL. Boné, camisa, moletom... Foi uma coisa que deu certo e é um exemplo. Porque outras grifes nasceram a partir dessa, também. Apesar que a primeira grife foi a nossa, certo? Nós lançamos a Vida Loka. Que a gente não vende, não tem [nenhuma] loja que comercialize nada da Vida Loka, mas foi a primeira grife. A partir dessa vieram outras, né? Outras com fins lucrativos, o que é justo.

José Nêumanne: Esse boné tem alguma coisa a ver com a grife? Esse negócio de usar boné...

Mano Brown: Não. [Tira o boné e mostra para a câmera] Esse boné é de uma família da Zona Leste. DRR. É uma posse, né? Que inclui vários grupos de rap de movimento cultural do bairro. E DRR [Posse DRR é uma confecção, gravadora e produtora de eventos ligados a conscientizaçao para as causas sociais], aí um “salve” para os mano, é Consciência Humana, U. Negro... [grupos de rap] E outros irmão... De Menos Crime [grupo de rap surgido no bairro de São Mateus, na capital paulista]... Irmãos de São Mateus. Uso aqui para homenagear os cara mesmo.

Paulo Lins:  E a questão da criminalidade dos bandidos, realmente, que estão ali de frente, estão armados e tal? A gente vê... Eu vou fazer cinquenta anos e [tenho] trinta de favela. E vi que mudou bastante, né? E sobretudo pela questão das armas. Antigamente o pessoal resolvia com [calibre] 38, 32... 38 era uma arma pesada. Como você vê nesse tempo que você começou a analisar a vida... A malandragem mudou muito? O traficante mudou muito? O ladrão mudou muito? Como é que está hoje?

Mano Brown: Ô, mano. Vou te falar... Falar de traficante é foda. Mesmo porque é como se a gente tivesse falando até dos nossos, entendeu? Os nossos amigos, da nossa família, do nosso parceiro, dos cara que está lado a lado, muitas vezes é do traficante que nóis tá falando.

Paulo Lins: Eu estou falando de sofrimento. Por exemplo, hoje em dia... São mais novos, são mais velhos? Essa é a questão, não é falar do traficante, mas da dificuldade...

Mano Brown: Os mais sábios conseguiram ficar mais velhos, e os que conseguiram se manter pegaram uma fase diferente. Eles, com certeza, acham mais fácil hoje. Os mais velhos. Eles acham mais fácil. Hoje. Você está falando sobre favela, né? Sobre vida dentro da favela...

Paulo Lins: É.

Mano Brown: Sim. O que é que é uma favela? Como é que é uma organização de uma favela? A gente sabe que a favela precisa da organização. Como é a organização da favela hoje? Quem é que sabe dos problemas da favela? O governo sabe? Não sabe. O assistente social sabe setenta por cento, cinqüenta por cento. O cara da ONG sabe oitenta por cento.

Renato Lombardi: E quem é que sabe?

Mano Brown: Quem está ela dentro, quem mora lá dentro, quem conhece todo mundo, conhece quem nasceu, quem sabe dos problemas... Sabe quem está preso, sabe quem está precisando de uma ajuda, o filho de quem está precisando...

Renato Lombardi: O traficante entra nessa fatia aí?

Mano Brown: Eu não falo só o traficante mas, vamos dizer assim, a favela tem a sua organização. Certo? A gente fala “o traficante”, vamos falar “comerciante”. Vamos trocar esse termo - o “traficante” - e usar “comerciante”.
 
Paulo Markun: Tudo bem, mas não tem favela em que você tem confronto entre quem é organização da favela - os moradores, a associação dos moradores - e os comerciantes, como você chama?

Mano Brown: Por exemplo, quem dá segurança para os comerciantes da favela? Quem protege a favela?... A polícia protege?... São perguntas... Perguntas geram outras, né? Eu estou perguntando. Quem protege?

Paulo Markun: Você vê a coisa como se fosse uma guerra?

Mano Brown: Não vejo como guerra. Eu vejo como uma situação.

Maria Rita Kehl: Mas o traficante protege de quem, protege dele mesmo?

Mano Brown: Não, ele protege do sistema.

Maria Rita Kehl: Porque você fala muito nas suas letras...

Mano Brown: O - entre aspas - que vocês chamam de traficante, eu chamo de comerciante. O cara que comercializa cocaína - vamos dizer assim já abertamente - ou a maconha, ou qualquer outro tipo de droga, é um comerciante. Como qualquer outro.

Maria Rita Kehl: Sim, mas eles têm um sistema assim de...

Renato Lombardi: Que leva as pessoas para a cadeia ou para o cemitério, né?

Mano Brown: Agora, o dono da [cachaça] 51 não tira cadeia pelos litros que ele vende. Na AmBev [Companhia de Bebidas da América, fruto da fusão das cervejarias Brahma e Antarctica. Atualmente subsidiária da gigante internacional de bebidas InBev] ninguém vai para a cadeia. Bebe quatro latas de cerveja, vê se você não bate o carro! Você vira o Super-Homem na Marginal [Tietê], meu. Ele não vai tirar uma cadeia. O filho dele não vai ficar manchado como o “filho de presidiário”... O que faz mais mal, uma dose de 51 ou o cigarro de maconha?

Maria Rita Kehl: Mas aí tem uma discussão de se você...

Mano Brown: Não estou perguntando se você usa. O que faz mais mal? Teria que ter um médico aqui. Para se falar de droga tem que ter um médico.

Paulo Lima: Não precisa usar para saber, isso dá para responder! É o 51, disparado.

Mano Brown: Certo. Esses caras não vão presos! Porque eles não são preto, não são... Certo? Não são moradores de favela, não são moradores de periferia... Eles não vão presos. Agora, um comerciante de maconha vai preso. Um usuário, ele vai preso - agora não vai mais. Porque a injustiça é flagrante...

José Nêumanne: Você é a favor da legalização?

Mano Brown: Se é para negar todas as drogas, nega todas. Entendeu? Para acabar a hipocrisia.

José Nêumanne: Você é a favor de legalizar?

Mano Brown: Eu não sou a favor de nada. Vamos dizer assim, eu sou a favor de que todo mundo vivesse bem e não precisasse de droga nenhuma para entender nada. Que você conseguisse entender o mundo em que você vive sem usar nada. Eu sou a favor disso. Mas quando você passa a não entender o mundo em que você vive e você recorre a alguma coisa, quem sou eu para dizer que você é isso, é aquilo, é B, é C, é traficante, é usuário?... Eu não sou ninguém, meu. São situações. Você vive numa situação hoje que você está bem. Você é jornalista, você opina, você fala, forma opinião. Amanhã você não sabe, mano. A vida é assim. Então a gente aprendeu isso. A vida é assim. Você está legal, amanhã você não sabe. Você pode estar no beco dos tristes [sorri] lá. Tá ligado? Você pode estar lá! Então, [se] os tristes estão lá no beco, vamos ver o que é que eles estão pensando em vez de recriminar, falar que eles são o lixo ou falar que... né? Vamos lá ouvir o que eles... Vamos ver por que é que eles não se adaptam a nada, eles não gostam de nada? Por que é que eles preferem esse caminho e não o outro, que vocês insistem que [ele] tem que ir.

Paulo Markun: Mano, eu queria só pedir licença para a gente fazer um rápido intervalo. Nós vamos continuar tratando desses e outros assuntos no Roda Viva, que é acompanhado na platéia por integrantes de bandas produzidas por Mano Brown: Dom Pixote do grupo U-Time; Nego Wando, que é também do U-Time; Du Bronks e Negreta, ambos do grupo Rosana Bronks. A gente volta já, já.

[intervalo]

Paulo Markun: Estamos de volta com o Roda Viva que hoje entrevista Mano Brown do grupo Racionais MC’s. Mano, a pergunta é de Marcelo Mirisola. Ele pergunta o seguinte: “Você já cogitou que preto pode pensar como branco e branco pode pensar como preto e que as idéias podem acontecer independentemente da cor de quem pensa?”

Mano Brown: Na verdade é isso mesmo. Agora, são culturas diferentes, né? Com exceção dos maninho que é branco e que mora lá dentro da quebrada, mora dentro da favela ali no cotidiano, que ouve samba, curte rap, já anda igual, usa camisa “listadinha”, “bombetinha”... Já é preto também. Fora do nosso mundo, você pode... Aí você fala assim: “O resto é branco”.

Paulo Markun: Você é preto ou branco?

Mano Brown: Não tem branco [...]... Eu tenho um amigo que é branco do olho verde que eu falo: “Não, você é negão”. Porquê? Ele anda igual, ele fala tal como, ele se veste, ele curte, ele é. E é o mundo que ele vive.

Paulo Markun: É uma questão de classe social, então, se é branco ou preto?

Mano Brown: Convívio, cultura... Não basta ser pobre, também. Você pode estar lá convivendo e não gostar. Você pode estar vivendo lá e não gostar. Tem cara que mora lá dentro e vira polícia justamente porque ele não gosta do que ele está vendo, ele não gosta dos cara que ele vê na rua. Ele não gosta, entendeu? Você pode viver lá dentro e não gostar. Na verdade, periferia é isso: é mil pessoas e mil universos diferentes, mil mentes diferentes, mil inteligências.

Paulo Lima: Brown, falando em pobreza e em convívio social - que você está dizendo agora -, tem uma entrevista sua de 2001 aqui que tem uma fala que é a seguinte: “Dar condição para as pessoas ganharem o seu dinheiro. O povo não quer ganhar nada de graça. Ninguém quer ser filho de assistência social”...

Mano Brown: Isso.

Paulo Lima: “Favelado tem orgulho. Se o PT ganhar a eleição e começar a doar salário para as famílias que estão desempregadas, com o tempo não vai mais dar mais resultado. O cara que vive do seguro do governo é a parte mais baixa da sociedade”. E o que você está achando dessa Bolsa Família [criado como parte da estratégia Fome Zero, de combate à fome, é um programa de auxílio às famílias em situação de pobreza e extrema pobreza] e dessa política do governo atual? Quer dizer, o PT ganhou a eleição e está fazendo exatamente isso que você falou. Como é que é a sua análise, hoje, dessa história de Bolsa Família, por exemplo?

Mano Brown: Bom... Está ruim, mas tá bom, né? Ou, ao invés... Está bom, mas está ruim. Vamos dizer assim, não é a solução ideal. Eu acho que o trabalhador, o pai de família, ele tem orgulho próprio, ele quer manter a família dele independente da ajuda do governo. Não é uma coisa que ele vai se orgulhar e, pelo contrário, ele vai procurar até deixar... Ser discretamente. Se ele for um usuário desse benefício, ele vai ser discreto ao máximo.

Paulo Lima: Isso balança o orgulho?

Mano Brown: É, vamos dizer assim... Não é uma coisa que humilhe a pessoa, porque o governo tem certas obrigações com o seu povo. E dar o mínimo de estrutura de escola, de ensino básico ou de um hospital decente, uma creche decente, uma escola decente, é o mínimo. E uma renda mínima para você poder por seus filhos na escola, ter o material, uma roupa de escola e eles poderem ter a alimentação que uma criança precisa para poder aprender... Uma coisa é você comer, outra coisa é você comer e poder se desenvolver com o que você come. Tem certos tipos de comida que você... Mano, você come e daqui a pouco você já está com fome e você não aprende nada porque a concentração é... O básico da escola é concentração! Se você está com fome e só aquela comida que você comeu não fez a diferença, você não se concentra. Então você não aprende.

Paulo Lima: E essas ONGs todas que estão entrando nas periferias do Brasil inteiro, né? Aparentemente, o lado rico da sociedade está entrando através das organizações não governamentais etc... Primeiro, eu queria saber se você está vendo êxito nas ações delas. Segundo, eu queria saber se você acha que a motivação é deliberada, é uma tomada de consciência, ou é mais culpa e medo...

Mano Brown: Não. Eu tenho, por exemplo, assim... Por exemplo, lá no Capão tem a Casa do Zezinho, certo? Que eu já visitei, conheci, conheço a tia Dáli. É uma pessoa que a gente vê o trabalho. A gente vê que ali não tem porque estar fingindo, porque estar querendo... O mundo dela é aquele ali mesmo, ela quer aquilo ali mesmo, os troféus dela estão ali mesmo e a gente vê. Eu não vou lá todo dia. Eu sei [enfatiza] que é assim. Então, eu acredito que existem pessoas realmente que estão a fim de mudar, de participar e fazer a mudança. Entendeu? Existe. No Capão... Se eu falar que o Capão é um lugar desassistido, eu vou estar mentindo. É o lugar talvez, hoje, dentro das periferias de São Paulo um dos lugares mais assistidos por ONG, tá ligado? Por movimento... De vez em quando estão com câmera no Capão falando francês, falando inglês e eu falo: “O que está acontecendo aqui?”

Renato Lombardi: E a criminalidade caiu lá completamente?

Mano Brown: Sim, pergunta por quê?

Renato Lombardi: Porque a comunidade também ajudou, né?

Mano Brown: A comunidade é que faz acabar a violência. A polícia não faz.

Paulo Lins: Assim, e o CEU [Centro Educational Unificado, escola com diversas outras atividades culturais e de lazer integradas], aquele projeto da Marta - aquela escola? Eu visitei a escola e gostei muito, na época. Como é que está o CEU hoje?  O que é que você acha daquele projeto?

Mano Brown: O CEU é um castelo, né? É o sonho do rapper. Acho que quando eu comecei a fazer letra de rap eu imaginava um lugar que nem o CEU. “Pô, não tem isso, não tem aquilo”. Você pegar [a música] “Fim de semana no parque”, fala daquilo ali. E... Pô, quando a Marta perdeu a eleição... Eu cheguei desacreditar até de mim mesmo! Eu falei: “Pô não, é possível, meu. A mulher fez esse monte de escola aí para nóis, para os nossos pivete, nossos moleque e ela perdeu a eleição”. Aí eu percebi o quê? Que a nossa classe é desunida. E a classe rica é unida. A classe média - a finada classe média já, que ainda se julga ser - e as classes B e A, fizeram a Marta perder a eleição. E a nossa classe, que tinha que ter elegido ela, estava dividida.

Paulo Markun: Mas o CEU continua, não é?

Mano Brown: No momento da eleição eu encontrei os amigos divididos na boca da urna.

Maria Rita Kehl: O que dividiu, tipo...

Paulo Markun: Mas o CEU continua...

Mano Brown: Valores diferentes, valores que não deveriam nem ter vindo à tona. Tipo assim: “A mulher separou do marido e está com outro cara, um argentino...”. Umas pegadas que... Tá ligado? [risos] Foi juntando uma coisa com outra e foi gerando... Não vou dizer uma antipatia, mas - vamos dizer assim - um desafeto, assim, tá ligado? Falar: “Não, prefiro aquele outro lá, com cara de.... Que não está com nada mesmo e vou votar nele mesmo”. Mas, todo mundo sabia que a Marta ia fazer a diferença, mas votou contra. Tá ligado? É um tipo de revolta que eu não entendo. Eu falei, eu cheguei a discutir com os cara na boca da urna e falar: “Como assim você vai votar no Serra [fala com voz de bravo], mano? [risos] Como assim?”.

Renato Lombardi: Fechou o CEU lá?

Mano Brown: Não! [Faz gestos e sons de negação] Meu filho é usuário do CEU. Meu filho vai no CEU, meus sobrinhos vão no CEU, meus priminhos vão no CEU.

Paulo Lins: O CEU hoje funciona do jeito que quando começou? Ou está...

Mano Brown: Na verdade, o jeito que teria que funcionar realmente, eu não sei como que teria que ser 100%. Mas [pelo] o que eu vi lá, eu acho que só de você estar lá dentro convivendo com aquelas coisas, tendo aquele universo para você viver ali dentro, explorar aquilo ali, já é uma glória. Agora, se vai dar resultado... Daqui a vinte anos nós vamos ver se vai sair um [Ludwig van] Beethoven [Ludwig van Beethoven, 1770-1827, compositor erudito alemão da transição do Classicismo para o Romantismo. É considerado o músico mais influente do século XIX] lá do Capão ou um...

Paulo Markun: Quando você disse que leu a biografia do Malcolm X – aquele líder negro americano... Quer dizer, numa das poucas entrevistas suas que li você mencionava que queria sair de lá fazendo a revolução. O discurso que você faz hoje não é exatamente o da revolução, não é? O que é que mudou?

Mano Brown: Na verdade hoje eu me nego até a dizer que eu tenho um discurso. Acho que discurso é corda para se enforcar, entendeu? Eu sou... Eu procuro ser livre, eu opino como cidadão. Não como político ou... líder de nada. Eu sou um cidadão. Eu opino, eu falo o que eu acho. E então eu já não me julgo: “Não, eu estou dando o discurso”. Porque, na verdade, eu estou falando uma coisa que eu sinto. Pode soar como discurso para outras pessoas, para mim não é discurso, entendeu? Então, eu nunca disse que eu tenho um discurso ou que eu vou mudar o meu discurso. Eu não tenho discurso.

Ricardo Franca Cruz: Você conseguiu, Brown, fazer uma revolução interna no seu jeito de ser, de pensar? Você conseguiu lutar contra suas próprias contradições, seus próprios medos...? Você consegue isso, hoje?

Mano Brown: Na verdade, as contradições só acabam quando morre, né? Tipo, eu era um cara que... Hoje eu estou de [tênis] Nike no pé, mas eu já xinguei muito a Nike por aí. Entendeu? Mas eu também descobri que a Adidas não me dá nada se ficar falando mal da Nike, entendeu? [risos] Eu derrubo uma e levanto a outra, a Adidas é dos alemão lá, não são nada meu também. Estou de Nike. O KL Jay não usa Nike. Ah, mas vai ver o Nike que o [Ice] Blue tá no pé! Entendeu? [risos] É contradição! Racionais é isso: é quatro caras, quatro mentes, quatro idéia, entendeu, meu? E eu sou o mais confuso dos quatro. Sou eu mesmo!

Ricardo Franca Cruz: Como você vê a pirataria hoje, Brown? Eu queria saber, essa... Tem uma história de que na época do Sobrevivendo no inferno houve um acordo entre Racionais e os camelôs - ou quem fazia disco - para vocês não perderem com essa venda dos piratas... E parece que isso... Um boato, né? Um rumor... E agora, na época do DVD, também houve isso. Eu queria saber se isso é verdade e como você vê a pirataria. Como você se protege da pirataria porque, afinal, você é um artista.

Mano Brown: Não tem como se proteger na pirataria... Eu sou um cara que tem vários amigos que trabalham no ramo, né?
 
Paulo Markun: Comerciantes!

[risos]

Mano Brown: Conheço os irmãos que estão na rua vendendo e eles falam: “Ô Brown, assina aí!”. E eu falo: “Pô, pirata eu não assino, irmão!”. “Pô, mas é sobrevivência”. “Eu entendo, cara”. Na verdade quem fica rico é o chinês [que, em tese, produziria os discos] mas é o ganha-pão do irmão também. Então, como eu não sou polícia e também não vou andar com polícia prendendo pirateiro - que não é a minha - eu uso aquele slogan: “Vocês são a minha rádio, né? Tocam o dia inteiro a minha música lá no centro da cidade, divulga aí e me ajuda”. O que eu não ganho em venda eu ganho com outras coisas que eles me dão. A pirataria me dá notoriedade, põe a minha música na rua.

Ricardo Franca Cruz: Esse papo de acordo é "xaveco"?

Mano Brown: Não, não existe acordo. Tem um respeito, certo? É uma classe, também; são trabalhadores também. Se tivesse um meio melhor para trabalhar, eles, com certeza, estariam lá. Não iam estar correndo da GCM [Guarda Civil Metropolitana] no centro, certo?

Paulo Markun: Vamos fazer mais um intervalo lembrando que a entrevista de hoje é acompanhada por Sérgio Ricardo Souza Silva, bancário; Caroline Zeferine, estudante de jornalismo; Pedro Calado, estudante de economia da PUC [Pontifícia Universidade Católica]; Fausto Eike, bancário; e Caio Blat, ator. Até já.

[intervalo]

Paulo Markun: Estamos de volta com o último bloco do Roda Viva, hoje entrevistando Mano Brown, do Racionais MC’s. Pergunta de Elza da Silva Carlos, de Ribeirão Pires: “O que você acha das cotas para negros?”.

Mano Brown: Acho importante. Acho que o movimento negro está na vanguarda porque o ensino deveria ser realmente gratuito para todos; e os negros estão na linha de frente nessa parte aí. Eu acho que politicamente nós estamos mais adiantados. Porque, na verdade, o ensino é... A faculdade, esse ensino superior, deveria ser gratuito na minha visão. Porque há países que... Cuba deixou de ser Nova Iorque para ser, pelo menos, Cuba. Brasil não, quer ser Nova Iorque. Então, a gente esquece de fazer as coisas mais simples como dar condições para as pessoas serem o máximo que elas puderem ser. E não tentar ser francês. Tipo assim, se você dá condição para o brasileiro ser um homem no mundo - não digo só dentro do Brasil, não -, dá condições de um homem comum brasileiro ter uma faculdade e ele ter um ensino superior, um ensino decente... Não precisa ser superior, eu digo um ensino, uma cultura que faça ele poder concorrer no mundo, né? No mercado do mundo pelo emprego dele. [Aí] você vai ter um país forte. Você vai ter um país bom. Se todas as pessoas tiverem o ensino. A partir do momento que você renega o ensino para a grande maioria e deixa uma minoria no poder perpétuo - trocando de pai para filho na mesma cadeira, só trocando as pessoas, [mas] a família continua a mesma, os donos - eu acho que isso faz o Brasil perder. Quando todos tiverem condições de ter um ensino, vai crescer o Brasil todo [enfatiza]. Entendeu? Então, a cota para negro, eu acho que deveria mudar esse termo, porque na verdade o movimento negro lançou um desafio cabuloso para o governo, porque o Brasil deve para os negros. Muito. Deve muito. Mas não deve só a faculdade, deve muito mais. A faculdade é só um detalhe. O ensino, para que os negros possam competir de igual no mercado mundial. Não digo nem brasileiro, mundial. Por que não disputar um emprego com um cara lá em Paris, porque não? Os ricos mandam os filhos estudar fora, né? Entendeu? Não mandam? E por que também a gente não poderia disputar um emprego fora, ou dentro, ou qualquer lugar? Desde que você tenha condições. Você tenha condições de disputar. Quando você não tem condições, aí você se torna um problema. Entendeu? Então, a cota para negro é o mínimo.

José Nêumanne: Só que Cuba não é bom exemplo para isso, não! Cuba tem um ditador lá há 47 anos e não é propriamente um exemplo de prosperidade nem de competição, né?

Mano Brown: Sim. Depois que todo mundo ajudou a afundar Cuba, é fácil. Mas, por exemplo, eu usei no exemplo assim: Cuba valorizou mais as pessoas e menos as máquinas. Então, você tem lá médicos, você tem os atletas, você tem as pessoas, e o mundo tratou de boicotar Cuba para que isso acabasse, né? Certo? De uma certa forma... Isso, infelizmente, vai acabar e Cuba vai ser um exemplo de fracasso. Mas não é fracasso. Tá ligado? Não é um fracasso. Deu errado porque foi embargado. Ou o contrário, boicote.

Paulo Markun: Você é socialista? Você acha que todo mundo tinha que ser igual, trabalhar igual, ganhar igual?

Mano Brown: Deveria ser igual, lógico. Deveria ser igual, mas eu não vou falar: “Eu sou isso, eu sou socialista”... Eu sou eu. Por exemplo, eu penso assim: não deveria faltar comida para uns e sobrar para outros. Tipo, eu fui para o exterior. Já viajei para fora. Eu vi os caras jogando prato de comida fora assim [faz movimento com a mão como se jogasse fora e faz um barulho com a boca]. Duas colheradas e joga fora. Eu falei para o cara: “Pô, no Brasil isso alimenta duas famílias”. E ele falou: “Irmão, aqui é Nova Iorque”. Tá ligado?

Maria Rita Kehl: Mas aqui também se desperdiça muito.

Mano Brown: Tem! Mas tem gente que pensa que está em Nova Iorque. É o que eu falo: eu acho que o grande problema do Brasil é que a gente nunca se aceitou nem como Brasil direito.

Maria Rita Kehl: Eu queria te perguntar, quando você falou que não tem um discurso, fiquei meio confusa. Porque eu acho, tenho a impressão - como ouvinte -, que os Racionais têm um discurso. Não o discurso de botar regra para o mundo inteiro, mas quando você fala: “Pensar a gente como a gente, ou o negro se identificar com a sua cultura”... Queria que você falasse um pouco de uma coisa que sempre achei muito coerente nas letras que é a cobrança de atitude do negro. O que é isso, cobrança de atitude?

Mano Brown: Eu não cobro atitude. Mesmo porque eu não tenho condições de cobrar nada. Certo? Eu sou cobrado.

Maria Rita Kehl: O que você chama de atitude? Tem aquela coisa irracional, por exemplo, de que o negro é julgado, né?

Mano Brown: Atitude vem de ato; agir. Agir! Atitude nem sempre tem que ser da forma que eu faço. Não é isso que é atitude. Atitude é agir. Simplesmente agir. Atitude. Você vê um saco de lixo, certo? Está na frente da sua casa. Você sabe que o carro vai passar em cima e vai acabar com a sua rua, você vai lá, simplesmente, troca o saco de lugar. Isso é atitude. Tá ligado? 

Maria Rita Kehl: É uma responsabilidade pelo seu lugar?

Mano Brown: Cuidar de você, meu! Cuidar da sua família, cuidar dos que estão perto de você. É atitude!

Renato Lombardi: Brown, qual o seu grau de instrução, hein?

Mano Brown: Oitava série.

Renato Lombardi: Você não teve a oportunidade mais de continuar estudando ou...

Mano Brown: Tive, mas não gostei. Tive, assim... Eu estava empregado e resolvi pagar o primeiro ano colegial. Colegial?... Colegial, né?

Renato Lombardi: É.

Mano Brown: E não gostei da escola. Não me adaptei, não gostei do convívio. Eu saí fora.

Renato Lombardi: E você acha que até onde você estudou foi suficiente para você continuar a sua vida?

Mano Brown: Não, não foi suficiente [Faz negativa com a cabeça, quieto]. Insuficiente.

Renato Lombardi: Que tipo de mensagem você passa quando você visita os seus manos nos presídios e nas unidades da Febem [Atual Fundação Casa, Centro de Atendimento Sócio-educativo a Adolescentes, é uma instituição do governo estadual de São Paulo voltada para ressocialização de menores infratores (de 12 a 21 anos) ]? Que tipo de mensagem você...

Mano Brown: Olha, por incrível que pareça, você encontra muita sabedoria dentro desses lugar aí. Dentro de presídio, dentro de cadeia. Você encontra sabedoria. Você encontra inteligência acima do normal, até porque é naqueles momentos que o homem, ele realmente se descobre. Tá ligado? Ele descobre, acho que ele descobre o... Aquele lado que na rua era adormecido - ou distraído, né? -, um lado distraído que ele tem na rua. Lá dentro você ouve coisas impressionantes. Entendeu? “Como você está preso com essa inteligência, cara?”. Então, que idéia que eu levo? Eu levo companhia. Quando eu vou... Eu também não sou freqüentador de cadeia que nem parece, eu já fui em várias cadeias, eu tenho amigos presos. Certo? Eu tenho o Dexter [rapper. Junto com Afro-X formou o grupo 509-E enquanto cumpria pena] que é um amigo meu que está preso. Eu tenho o Abraão, que é rapper. Os dois são rapper, são artistas e estão presos. É gente que estaria fazendo muito melhor para a sociedade na rua, lá dentro eles estão inutilizados. O sistema inutilizou eles. O Dexter, o Abraão e outros irmão que são músicos ou não, são artistas de alguma forma...
 
Paulo Lins: Para melhorar o Brasil, para a gente conseguir melhorar essa desigualdade,  a gente deveria começar por onde? Qual seria o primeiro ponto, quando você pensa: “Não, isso aqui deveria mudar. A gente deveria começar por aqui”. Qual seria a primeira atitude?

Mano Brown: Eu não estou nesse grau de sabedoria para saber como é que a gente vai resolver. Eu estou no olho do furacão, tá ligado? Do problema. Na verdade eu faço parte do problema, né? Eu estou igual você, eu estou como todo mundo procurando uma solução, procurando qual é a melhor solução para mim e para os que estão perto de mim. Aí vai ampliando, né? Aí os que estão perto... Vai ficando mais longe. Você vai tentando ampliar as coisas que você sonha para você e fazer as pessoas sonharem junto com você. Tá ligado? Mas, aí, você tem aquele é... Por exemplo, eu não posso aceitar um negócio assim, de que eu sou um cara que é um exemplo. Porque fazendo o que eu fiz [refere-se a seguir a carreira de rapper] dificilmente a pessoa conseguiria as coisas que ela precisaria. Tá ligado?

Ricardo Franca Cruz: Mas já era, não é Brown? Você é um exemplo, querendo ou não. Apesar do fardo te incomodar de alguma maneira, sei lá, você pega no seu disco mais recente, tem um encarte lá, a foto da molecadinha, tal e está você lá...

Mano Brown: Em que sentido?

Ricardo Franca Cruz: Não tem muito como... Não, assim, o cara se espelha em você de alguma maneira. O cara ou quer se vestir como você, ter a atitude que você tem, ou quer fazer o som...

Renato Lombardi: Por isso que eu falei da responsabilidade você tem. Você tem uma grande responsabilidade.

Mano Brown: Esse tipo de espelho é profundo porque é coração, certo? O cara, quando ele gosta de você e quer usar uma roupa que parece a sua, é profundo. Mas é superficial quando o cara só quer parecer com você. Isso não é bom para ele. Eu acho que eu sou eu, você é você, o mano é o mano. Ele vai descobrir aonde está o talento dele. E ele não é o Mano Brown, mas ele também não precisa ser o Mano Brown. Ele pode ser ele e descobrir quem é... O verdadeiro lado dele. Como eu fui buscar o meu e estou buscando.

Ricardo Franca Cruz: Quando você leu Malcolm X, quando você – sei lá - ouviu o Tupac [(1971-1996) Rapper que vendeu 75 milhões de discos. Ativista, denunciava a desigualdade social e a violência. Foi morto em Las Vegas com cinco tiros mas o crime nunca foi solucionado], essas coisas, você se viu ali de alguma maneira?

Mano Brown: Quando eu li o Malcolm X [Pronuncia Malcom "xis" enquanto os entrevistadores falam em Malcom "ex", usando a pronúncia inglesa] eu me vi. Vi e vi tudo. Vi tudo. Pelo menos o mundo, o universo em que eu vivia estava ali naquele livro.

Ricardo Franca Cruz: Para você quem são os grandes líderes brasileiros de todos os tempos?

Mano Brown: Sim... Eu vou te falar, eu sou um cara até ignorante. Se eu citar nomes, eu vou ser leviano. O Jair, que está aqui presente, ele vai te dar uma lista. Se você perguntar para ele, o Jair te dá uma lista de líderes “nervoso” que vieram pelo menos cem anos antes do Brown, antes do [MV] Bill [rapper carioca. Foi entrevistado pelo Roda Viva em 25/04/2005], antes do Thaíde [Um dos principais nomes e precursor do rap nacional. Fazia grupo com DJ Hum], antes do Facção Central, Realidade Cruel, Mister Catra e outros mano que vêm dessa geração de músico, falando dessas coisas, né? Existiram outras pessoas antes que não gravaram disco. Vieram antes do videoclipe, vieram antes da MTV [Music Television, rede de TV voltada para o universo da música], vieram antes dessas coisas e lutaram.

Ricardo Franca Cruz: Fala se muito do papel que o tráfico, os traficantes, ocupam. Um papel que deveria ser do Estado, né? Você acha que a música ocupa isso também de alguma maneira?

Mano Brown: Sim, a música é presente, né? A música é aquele... Quando ela tem que ser pelo menos companheira do cara. Ela não precisa ser o pai, nem o psicólogo, mas tem que ser pelo menos companheiro. Muitas vezes você quer ter do seu lado um companheiro. Não um psicólogo e nem um pai, nem um padre, nem um pastor. Você quer ter um companheiro que, pelo menos, viva as mesmas coisas e vá trocar idéia com você à altura. Não de cima para baixo. Então, eu falo para os mano do rap: “O nosso rap não tem que ser professor, nem exemplo, nem líder. Nós tem que ser pelo menos companheiros dos mano, companheiro das pessoas, de igual pra igual, de ombro a ombro entendendo os mano e eles entender as nossas falhas também”. Porque o rapper, de tanto as pessoas falarem: “Ele é o exemplo, ele é o líder”, ele é cobrado [enfatiza] ferozmente. Cobrado ferozmente pela a atitude que ele deveria ter e que ninguém tem, também. Então não pode cobrar dele...

Paulo Markun: Brown, o nosso tempo está acabando, eu queria fazer uma última pergunta. Já que você diz que ninguém te provocou, eu vou te provocar de leve aqui! A essa altura do campeonato, só de leve.  Quando eu era jovem, a onda era o movimento de paz e amor, festival de Woodstock [marco do movimento hippie e de contra-cultura realizado em uma fazenda em Bethel, Nova Iorque, em 1969 , que durou um final de semana. Os maiores músicos da época - tais como Santana, Janis Joplin, Creedance Clearwater Revival, The Who, Joe Cocker e Jimi Hendrix - se apresentaram e se manifestaram contra a Guerra do Vietnã e a favor da liberdade], rock para todo mundo, né? Todo mundo numa boa. Você é um cara paz e amor?

Mano Brown: [Pensa] Não.

Paulo Markun: Você é um cara que tipo?

Mano Brown: Eu sonho com paz e amor, mas a vida não é isso.

Paulo Lima: Você sorriu oito vezes aqui no programa hoje, isso te incomoda?

Mano Brown: Já foi a fase de eu me preocupar com sorrir ou não. Talvez a gente vá ficando mais velho, vai vendo que os monstros não são tão feios e nem tão fortes que nem parece.

Paulo Markun: Nem o Mano Brown?

Mano Brown: Ninguém. Ninguém. Ninguém, ué. Mano Brown é um ser humano, meu. Mano Brown é um rótulo. Eu, quando eu comecei, era Brown do Capão. Aí, numa caminhada me apelidaram de Mano, porque mano é irmão, entendeu?

Renato Lombardi: O Pedro Paulo Soares Pereira ficou no caminho, então?

Mano Brown: Não. O Pedro Paulo vai assumir o cargo dele daqui a alguns anos. Ele vai voltar ao posto dele de novo, vai tomar o rumo da vida dele de novo.

Paulo Markun: Mano Brown, muito obrigado pela sua entrevista. Obrigado aos nossos entrevistadores. Lembro que o Roda Viva completará, no próximo dia 28 [de setembro], 21 anos no ar. Sempre trazendo entrevistas, as mais diversas, nessa condição absolutamente livre em que nem sempre a gente concorda com tudo o que é dito ali, [mas] sempre a gente garante que tudo o que seja dito no centro do Roda Viva chegue até o público que acompanha a TV pública no Brasil. Uma ótima semana! E até a próxima segunda, com o ministro da Defesa Nelson Jobim. Até lá!

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