Memória Roda Viva

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Débora Bloch

30/1/1995

A atriz fala das suas experiências com o teatro, com o grupo Manhas e Manias e de impressões sobre o teatro brasileiro

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Milton Jung: Boa noite! Ex-roceira de Noites do sertão [filme baseado no livro de mesmo nome de João Guimarães Rosa, com direção de Carlos Alberto Prates (1984) com o qual Débora Bloch ganhou prêmios no festival de Cartagena e Gramado], ex-roqueira de Bete Balanço [1984, longa metragem musical escrito e dirigido por Lael Rodrigues e estrelado por Débora Bloch], ex-pirata [referência ao TV Pirata, programa de humor da TV Globo, transmitido entre 1988 e 1990, criado pelo diretor Guel Arraes e pelo roteirista Cláudio Paiva, foi um dos maiores sucessos do gênero no Brasil. Incluía ainda, na equipe de roteiristas Luís Fernando Veríssimo, os quadrinistas Laerte e Glauco e integrantes do Planeta Diário e da Casseta Popular] e agora rainha do SBT [Sistema Brasileiro de Televisão]. A entrevistada de hoje do programa Roda Viva é a atriz Débora Bloch, que está no palco desde os nove anos, ainda quando estudava numa escola aqui em São Paulo. A atriz Débora Bloch, além dessa experiência e da herança que adquiriu do próprio pai, Jonas Bloch, inclui também em seu currículo os cursos de canto, dança e música, pois considera que esses são recursos indispensáveis para representar. Débora Bloch estreou no teatro profissional com 16 anos substituindo Lucélia Santos na peça Rasga coração [escrita em 1972 por Oduvaldo Vianna Filho, foi vencedora do concurso de dramaturgia nacional do teatro em 1974, mas só estreou em 1979 devido à censura da ditadura militar]. Aos 19 anos já ganhava notoriedade e popularidade através de duas novelas da TV Globo, mas o sucesso não lhe subiu a cabeça, logo voltou ao teatro, participando de peças junto com um grupo alternativo. A carreira de Débora Bloch se projeta agora em três representações de altíssimo nível, nos seriados Veja esta canção [1994], de Cacá Diegues, uma co-produção da Rede Cultura, no papel de Guida na novela As pupilas do senhor reitor [exibida no SBT entre dezembro de 1994 a julho de 1995, baseada no romance homônimo de Júlio Dinis. Foi escrita por Lauro César Muniz e adaptada por Ismael Fernandes e Bosco Brasil, com direção de Nilton Travesso], do SBT e no palco também contracenando com Marco Nanini, na peça Kean [Kean ou o gênio da desordem (1995) retrata a vida de Edmundo Kean, interpretado or Marco Nanini, um ator inglês que viveu entre 1787 e 1833 e fundou sua própria companhia de teatro] que estreou no final de semana aqui em São Paulo, no Teatro de Cultura Artística. Para entrevistar a atriz Débora Bloch convidamos os jornalistas Alberto Guzik, crítico de teatro do Jornal da Tarde, Anete Shwartzmann, editora do suplemento "TV Folha" da Folha de S. Paulo, Neuza Sanches, sub-editora da revista Veja, Ricardo Porto, editor do programa Metrópolis da Rede Cultura, e Fernando Paiva, editor especial da revista Playboy. Este programa é transmitido ao vivo [...] Boa noite Débora!

Débora Bloch: Boa noite!

Milton Jung: Kean, que estreou no fim de semana, era um ator inglês, shakespeariano, que revolucionou o teatro, e durante a sua apresentação, a apresentação de Kean, ele chega a fazer uma crítica sobre o próprio autor dizendo: "não represento para ganhar a vida mas para mentir, para ser o que não posso ser, e para não ser o que sou". Você comunga com esse pensamento do Kean, já que você mesmo declarou ser uma apaixonada por ele?

Débora Bloch: É. Eu acho que eu comungo sim, porque eu acho que os atores representam para ser o que não podem ser e para não ser o que são. Eu acho que é lógico que não é só por isso que os atores representam, cada um pode escolher ser ator por um motivo pessoal diferente, mas principalmente pela paixão pelo ato de representar, e eu acho que o ator tem essa oportunidade de viver, por exemplo. Os atores, normalmente é difícil você ver um ator se casar numa igreja com véu e grinalda, porque é um ritual teatral. Outro dia eu fui no casamento de uma prima minha e há muito tempo eu não ia à um casamento, e o casamento é uma encenação, de uma  certa maneira, é um ritual, onde você veste um figurino, ensaia antes, como você vai fazer, por onde você entra, por onde você sai, o padre ou o rabino - no caso tinha um padre e um rabino - ele escreve o seu texto, o que ele vai dizer, então é uma representação. E, por exemplo, eu já fiz essa cena em uma novela, eu já fiz, os atores em geral eles tem essa oportunidade de viver em cenas que depois você não precisa realizá-las na vida real. Quer dizer, você tem essa chance de ser o que você não pode ser e também de não ser o que você é no momento que você está no palco, no momento que você faz personagens, você tem a oportunidade de viver coisas que você não é, que você não viveria na sua vida real.

Alberto Guzik: Débora, Kean é o maior desafio da sua carreira?

Débora Bloch: Olha. A gente sempre tem a sensação quando você vai fazer... quando está ensaiando uma peça, que aquele é o maior desafio, porque o outro você já venceu, o trabalho anterior você já venceu, mas você já passou esse processo. Então, quando você começa um trabalho, você tem a impressão que aquele você não vai conseguir, como é que você vai fazer, você fica inseguro, você fica estudando, para descobrir como fazer o personagem. Eu acho que o Kean ele tem um grande desafio, porque um trabalho, assim um texto diferente dos trabalhos que eu já tinha feito, um texto de época e que tem uma estrutura acadêmica, clássica e foi um desafio, mas eu acho que, eu não sei se ele foi maior, por exemplo, o Fica comigo esta noite [1990], que foi a peça que eu fiz antes, do Flávio de Souza, era muito difícil. Para mim foi muito difícil o processo, talvez um desafio maior, porque eu conduzia a peça toda junto com o Luiz Fernando. Eram só dois atores. Nesse caso quem conduz o espetáculo todo é o Nanini, que faz o papel do Kean, então eu acho que foi um processo diferente, não menos ou mais difícil um que o outro, mas eu acho que o Fica comigo, tinha esse desafio maior de conduzir o espetáculo todo, eu abria o espetáculo sozinha com a platéia, na direção do Jorginho, então tinha esse outro lado.

Neuza Sanches: Mas a sua personagem tem momentos de extremo humor na peça, inclusive me parece que o humor é fixado basicamente nessa personagem. Eu queria saber o seguinte: me pareceu que na peça, você tem uma certa herança da TV Pirata. A TV Pirata foi para você, é para você uma escola no humor e que deu para você aproveitar alguma coisa nessa nova personagem?

Débora Bloch: Olha, o personagem originalmente no texto, ela proporciona no texto momentos que você pode encaminhar para o humor. Mas você também pode fazer a opção de não fazer humor no personagem. Quando eu li o texto, era mais evidentemente a mocinha, a heroína romântica do texto, do que exatamente um personagem de humor. Eu acho que eu faço na peça é muito diferente do que eu fazia na TV Pirata, porque o TV Pirata era um trabalho mais caricato, era um trabalho que o principal era o humor, e eu acho que na peça, o principal do personagem não é só o humor, apesar de eu ter escolhido esse caminho para o personagem. Quando eu comecei a ensaiar com o Aderbal eu disse a ele que eu não queria fazer uma heroína romântica convencional, eu queria dar uma leitura diferente para esse papel, porque quando esse personagem foi escrito pelo Dumas ela era mais heroína ainda, ela era tísica, ela era um personagem frágil. Depois num estudo que a gente leu de uma montagem italiana, eles falam que o personagem é um personagem meio medíocre, uma burguesa que busca a vida burguesa e a mediocridade, e eu não vi o personagem dessa maneira, eu queria dar uma leitura diferente para ela, e o meu caminho foi esse no processo.

Neuza Sanches: Mas a TV Pirata, não foi basicamente uma escola para você, até para você optar pelo humor nesse personagem?

Débora Bloch: Não é assim, o que eu quero dizer é o seguinte, a TV Pirata foi sim uma escola para mim, foi uma grande escola para mim, eu aprendi muito com a TV Pirata, e eu acho que eu aprendi muito como se fazer humor e me desenvolvi, como comediante também no TV Pirata, eu acho que o TV Pirata é responsável  por isso.

Milton Jung: O humor de TV Pirata é diferente desse humor que você faz na peça, há muita diferença?

Débora Bloch: O que eu queria dizer é que eu não acho que eu sou, o que eu faço na peça é resultado, é soma de tudo o que eu já fiz, e de tudo o que eu aprendi, lógico, mas não que eu tenha pensado no TV Pirata ou no que eu fazia no TV Pirata para fazer o espetáculo. Mas que o TV Pirata me ensinou muito, em termos de humor, me ensinou, e é lógico que o que eu faço na peça é resultado de tudo o que eu aprendi, inclusive no TV Pirata, mas eu não acho que é a mesma coisa que eu faço na peça entendeu? É isso o que eu quero dizer, até porque o material que a gente trabalha na peça é completamente diferente do que a gente...

Neuza Sanches: Eu sei, eu quis dizer até em cima do seu exercício do humor, mesmo a sua personagem ela brinca com, ela atua de certa forma com o extremo do humor, com o exagero, dos gestos da forma como você apresenta, eu achei que tivesse algum "q" aí de TV Pirata que o que você exercitou bastante na época.

Débora Bloch: É, eu tenho a impressão que sim, mas eu tenho a sensação de que os cinco anos que eu fiz de Fica comigo esta noite, me ensinaram também muito, porque é uma linguagem muito diferente da televisão e do teatro. Então, o humor que se faz na televisão e que você, o tempo que você tem que dar, do humor que você faz na televisão, do humor que você faz no teatro, a relação que você tem com o público e tudo isso. Então eu tenho mais a sensação de que esse tempo de Fica comigo esta noite me ensinou muito nesse trabalho.

Milton Jung: Débora, o Ricardo Porto, tem uma pergunta para você.

Ricardo Porto: Débora, você não teme com tudo isso ser catalogada como uma atriz de humor?

Débora Bloch: Não, eu não temo isso por vários motivos. Primeiro porque eu acho um rótulo muito nobre ser uma atriz de humor. Eu acho muito difícil fazer humor, então, eu, sempre que me falam se eu sou uma atriz de humor, eu recebo como um elogio, porque eu acho realmente difícil. Eu trabalhei muito e como você falou, os anos de TV Pirata, por exemplo, foram muito importantes nesse sentido, e eu acho que eu desenvolvi, eu tive que aprender, inclusive isso, humor é como uma música, tem que aprender os tempos, tem silêncios é quase uma partitura é uma coisa precisa, não é você chegar e fazer. Então, eu acho um rótulo muito nobre. Eu sou convidada para fazer trabalhos também que não são só trabalhos de humor, que eu gosto de fazer.

Ricardo Porto: Você prefere o humor?

Débora Bloch: Não que eu prefira, porque isso depende do trabalho que você faz, mais eu tenho prazer em fazer.

Annette Schwartsman: Ainda na tecla do humor, você não acha que o público associa você a esse rótulo, por exemplo, não acontece, por exemplo, na peça o público rir, numa hora que você não espera que ele ria?

Débora Bloch: Não, o público não ri numa hora que eu não espero. Agora... Lógico que quando você está ensaiando a peça... Muitas vezes acontece do público não rir no momento que você esperava, uma coisa não funciona. Ou ri em momentos que você não achava que ele ia rir, mas isso acontece não porque o público me olha e me acha engraçada, independente de mim, você entende o que eu quero dizer? Por exemplo, como eu considero a Regina Casé uma comediante que eu tenho a maior admiração, e com quem eu aprendi muita coisa e humildemente já copiei até, já tentei copiar. Mas, o que eu quero dizer é assim, a Regina, ela é uma comediante em si, você senta numa mesa com a Regina e ela conta uma história que não ensaiou e ela é engraçada naturalmente. Eu não me considero uma comediante nesse sentido, assim, eu tenho que pensar o que eu vou fazer, elaborar.  Eu preciso do texto e, além disso, elaborar. É diferente. É um canal diferente. Então, eu não acho que as pessoas riem de mim independente de mim entendeu?

Milton Jung: Você tem que aprender a piada antes para depois contar, a Regina Casé conta e inventa a piada, seria mais ou menos isso?

Débora Bloch: É, quer dizer, a gente cria também, quer dizer como eu falei para ela, meu personagem ele me proporcionava momentos de humor que já estavam no texto e outros que eu, que a minha visão, que a minha leitura dele foi através do humor.

Milton Jung: Queria passar uma pergunta de telespectador, a Ana Paula Santana, da Penha, ligou aqui para o Roda Viva perguntando como está sendo trabalhar com o Marco Nanini e aproveitando para responder também a pergunta do Márcio Martins, da Vila Mariana, que ele queria saber a sua idade.

Débora Bloch: A minha idade é 31 anos.

Milton Jung: Trinta e um anos, e quanto ao trabalho com o Marco Nanini, você está contracenando agora na peça Kean?

Débora Bloch: Eu considero um privilégio, uma honra e além disso é um enorme prazer trabalhar com o Nanini, porque ele é um grande ator de teatro, uma pessoa de teatro com quem eu aprendo muito e além disso ele é uma pessoa muito divertida de trabalhar. Eu quis trabalhar com o Nanini nesse texto não só porque eu acho que o personagem Kean, é um personagem que combina com o temperamento do Nanini de ator e por ele ser um grande ator, mas também porque eu trabalhei com ele no TV Pirata e me divertia muito trabalhando com ele, então...

Milton Jung: Você contracenando com ele, o Nanini  parece que preenche todo palco, é difícil de encontrar espaço nesse palco também para o seu talento.

Débora Bloch: Não, porque o Nanini, ele é um ator que  joga em cena. Então, ele não representa sozinho, representa comigo, e é um prazer. A gente bate uma bola, e a bola não fica só na mão dele.

Milton Jung: É, e pelo que deu para ver no final de semana, uma bola com muito sucesso, principalmente nessa peça Kean. Fernando Paiva.

Fernando Paiva: Débora, é o seguinte, essa história de ficar marcada por TV Pirata fica um... Quer dizer, você não se considera uma atriz cômica? Eu queria saber, a Regina Casé como comediante full time, isso é uma questão de temperamento?

Débora Bloch: Não, o que eu quis dizer assim, não que a Regina também chegue lá e faça... É lógico que tem uma ciência dela nisso. Eu estou dizendo só que são maneiras, estilos diferentes, no sentido de que eu acho que isso está nela de uma maneira diferente do que está em mim, foi nesse sentido que eu quis dizer.

Fernando Paiva: E aí nesse caso você não acha que é uma questão de personalidade de você ser mais tímida que ela, alguma coisa assim ou não?

Débora Bloch: É uma questão de personalidade, uma questão de temperamento de atriz também, é diferente.

Milton Jung: Inclusive, o José Ricardo pergunta; se você tivesse uma proposta para voltar para a TV Pirata,  você voltaria à trabalhar lá? Você tem saudade daquele tempo?

Débora Bloch:  Foi muito bom trabalhar no TV Pirata, foi muito importante para mim como atriz, porque além de ter sido uma escola como a Neuza falou, eu trabalhei com atores que eu tenho a maior admiração e com quem eu aprendi muito. Mas, eu não tenho vontade de voltar a fazer o TV Pirata, porque o TV Pirata eu já fiz.

Milton Jung: Já passou?

Débora Bloch: Já passou, já passou.

Milton Jung: Já teve seu tempo, o Valter de Oliveira, você estava falando dessa sua formação no TV Pirata e nós no início falávamos que você fez cursos de canto, dança, uma série de trabalhos que você acaba usando por toda sua carreira. Valter de Oliveira, aqui de São Paulo pergunta; se você, como tem formação musical, você toca algum instrumento? Se toca, qual é? E o que acha da difusão da música clássica brasileira? E, dentro da mesma linha, a Débora Luiz Baldijão, de Campinas, fala se você conhece o movimento de sapateado no Brasil? E se passa pelos conhecimentos que você tem da dança, e todos esses recursos que você usa no teatro?

Débora Bloch: Nossa um monte de pergunta tudo ao mesmo tempo [risos]

Milton Jung: Primeiro sobre formação musical, você toca algum instrumento?

Débora Bloch: Não, eu já toquei, uma época eu tocava sax, eu tocava numa peça que eu fiz com o grupo Manhas e Manias, a gente tocava vários instrumentos na peça, era um grupo que a gente trabalhava com as habilidades de cada ator, e nessa época eu estudei um pouco de sax, mas há muito tempo que eu já parei.

Milton Jung: E na dança? ela fala sobre sapateado.

Débora Bloch: A dança? A minha irmã, por exemplo, a Deni Bloch, ela é professora de sapateado, e ela fez vários espetáculos de sapateado e tudo isso e eu conheço, muita gente que trabalha com sapateado e sei que tem bastante gente boa aqui no Brasil trabalhando com isso.

Milton Jung: Você se arriscaria?

Débora Bloch: Eu não sei, eu não sei fazer sapateado, aí é melhor chamar minha irmã para fazer.

Milton Jung: Você se arriscaria a tocar um sax, atualmente. E cantar?

Débora Bloch: Não. Porque o sax é um instrumento muito difícil, você tem que ter muita dedicação e nessa época eu já trabalhava como atriz, e eu faço dança desde pequena. Eu, quando fui morar com o meu pai ele era casado com uma bailarina e durante muito tempo da minha vida eu saía da escola e passava o dia inteiro fazendo aula de balé clássico, aulas de dança contemporânea, vários tipos de aula de dança, e isso virou um parte assim do meu cotidiano e é uma coisa que me ajuda muito no meu trabalho de atriz e eu gosto de trabalhar com o corpo, cada vez que eu faço um personagem eu acho que é instrumento do ator o seu corpo como as suas emoções e a sua cabeça, sua inteligência.

Milton Jung: Alberto Guzik.

Alberto Guzik: Débora, você tem uma trajetória muito específica de uma geração muito interessante que começou no Manhas e Manias o pessoal do Asdrúbal [Asdrúbal Trouxe o Trombone, grupo de teatro carioca, criado em 1974 quando estreou com a peça O inspetor geral, de Nikolai Gogol, dirigida por Hamilton Vaz Pereira, revelando os atores Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães] numa série de grupos em São Paulo e no Rio, no Teatro Ornitorrinco [um dos mais bem sucedidos grupos de teatro brasileiro, criado por Cacá Rosset, Luiz Galizia e Maria Alice Vergueiro, em São Paulo, fez 30 anos de atuação em 2007 e trabalha bastante o viés humorístico, assim como o Asdrúbal do Rio] mais ou menos ao mesmo tempo. Enfim, uma série de grupos da contra-cultura, quase num momento que eles começaram remando contra a maré, tentando impor talentos jovens, e a toda uma geração. Há uma boa parte dessa geração que conquistou um espaço muito expressivo no teatro, no cinema, na televisão. Você já parou para pensar nisso? Alguma vez você pensou no espaço que vocês conquistariam ou alguma vez você sonhou com isso?

Débora Bloch: Olha, foi super interessante o que você falou porque sempre que me perguntam sobre minha formação, sobre os meus modelos, assim eu acho que o meu modelo... Lógico que eu tenho um pai que é ator, e isso foi fundamental na minha formação porque desde que eu me entendo por gente, que eu vou assistir... Desde 09 anos de idade que eu vou a peças adultas e tudo isso. Então, isso aí é um universo sempre muito presente na minha vida, mas quando eu vi o Asdrúbal Trouxe o Trombone, para citar de novo Regina, Luís Fernando com quem eu fui trabalhar e tal, foi muito revelador para mim aquela maneira daquelas pessoas fazerem teatro e de se colocarem no palco, e de colocarem as suas, o seu pequeno universo e as suas emoções e a maneira de ser. Assim, foi muito diferente aquilo que eu vi no palco, e quando eu vi o Asdrúbal eu falei: "É esse teatro que eu quero fazer". E o Manhas e Manias era um pouco o filho do Asdrúbal, que foi o grupo que eu fui trabalhar, e eu sempre tive esse desejo de encontrar a minha turma, nesse sentido assim de ter um grupo de teatro e depois eu acho que isso eu realizei um pouco isso também no TV Pirata, porque eu estava com pessoas que todas eram pessoas de teatro, eram atores de teatro que apesar de serem de escolas até muito diferentes mas que tinham ali um denominador comum. Quer dizer, uma mesma linguagem. Então, ali encontrei minha turma assim, entende? Pessoas que pensavam parecido, digamos assim, apesar de virem de lugares diferentes e que falavam uma mesma língua. E eu sempre continuo com esse desejo. Eu acho que é por isso que eu também produzo as peças e pretendo continuar produzindo as peças, porque é uma maneira de você formar as suas pequenas turmas e dizer as mesmas coisas. É uma maneira das pessoas estarem dizendo a mesmas coisas.

Milton Jung: Você não se deslumbrou com as novelas para a televisão? Você... Inclusive, moça, a gente já falava no início, fez grande sucesso, mas virou de um lado para o outro, fez o caminho ao contrário, o inverso do que todo mundo faria. Preferiu esse caminho mais tortuoso, não visando já a próxima novela, isso é uma filosofia?

Débora Bloch: É engraçado porque, não é uma filosofia. Isso era verdadeiro em mim. Sabe, eu... É engraçado, porque eu quis ser atriz eu não sonhava com a televisão, eu sonhava...

Alberto Guzik: Quando você quis ser atriz, quando você parou e disse eu vou ser atriz você lembra disso? Você tem, mais ou menos isso na cabeça?

Débora Bloch: Quando eu estava perto de fazer o vestibular. Aquele problema do vestibular [risos]

Alberto Guzik: Sim, mas você queria se formar em quê?

Débora Bloch: Eu não sabia para que prestar [o vestibular]. O problema era esse. É muito cedo. Eu acho essa idade, para você ter que fazer sua opção, eu acho erradíssima essa idade que você tem que optar e entrar naquela, porque você sabe muito pouco o que você quer, como são as profissões e tal, e quando eu estava perto de fazer o vestibular, no auge da adolescência, todas as crises, as questões e as angústias que fazem parte da adolescência... Eu tinha essa possibilidade sempre na minha vida por causa do meu pai, e desde muito pequena eu fazia cursos de  teatro e tal, mas eu não tinha certeza se eu gostava muito de ir ao teatro de estar no teatro como espectadora. Eu não tinha certeza se eu ia gostar de trabalhar do outro lado do palco. E, conversando com o meu pai eu falei isso para ele, que eu não tinha certeza se era isso que eu queria, inclusive eu prestei vestibular para história e para comunicação, não prestei para teatro, e o meu pai que me deu um toque de um curso no Teatro Ipanema, com Rubens Corrêa [(1964-), ator, criador do Teatro Ipanema. Em 1971 dirigiu a peça Hoje é dia de rock que levou multidões ao teatro] e o Ivan de Albuquerque [(1932-2001), diretor e ator, trabalhava junto com Rubens Corrêa no Teatro Ipanema e no Teatro do Rio], onde, desse curso, eles iam selecionar as pessoas e criar um grupo bem experimental. Eu fui fazer esse curso, fui selecionada, na época teve um problema porque eu era muito jovem, eu tinha catorze anos, então, não podia uma menina de catorze anos...

Neuza Sanches: Mas Débora, por exemplo, nesse caso da opção pelo teatro, o seu pai também já era conhecido na televisão. A televisão já tinha uma força significativa na época, por que não a opção pela televisão em primeiro lugar? Como é que foi essa conversa? Essa decisão entre você e seu pai? Ou mesmo a sua decisão particularmente?

Débora Bloch: Pois é, eu vou só terminar o que eu estava falando. Então, eu fui fazer esse curso e desse curso eu fui chamada para fazer o Rasga coração e aí eu estreei. Depois da estréia eu falei; "acho que é isso que eu quero". Acontece que eu tinha uma... A minha formação, como é que eu vou te explicar isso. Eu não tinha muita admiração por fazer novela. Hoje em dia eu até tenho uma visão muito diferente do que a que eu tinha na época, mas eu, como eu estava falando para o Guzik, o meu modelo de atores e de teatro era o Asdrúbal, que não estava na televisão, você entende? Então, não que eu não tivesse respeito por aquilo, mas eu não almejava, eu não ambicionava aquilo, tanto que a televisão chegou em mim quase por acaso. Uma vez eu fui chamada para fazer um teste pelo Daniel Filho [(1937-), ator e diretor de cinema e de novelas da Rede Globo] para uma novela e eu não passei no teste. Quem estava nesse teste, aliás, era eu, Fernanda Torres, Carla Camuratti, Andréia Beltrão. Depois, o Daniel Filho falou: "Puxa, foi difícil resolver aquele teste", e quem fez a novela foi a Fernandinha [Fernando Torres]. Se eu não me engano era para  novela O Brilhante [novela exibida pela Rede Globo entre setembro de 1981 a março de 1982]. Eu não passei nesse teste, eu estava fazendo teatro na época e me chamaram e eu fui fazer e tal, e depois eu fui convidada pelo Roberto Talma [Diretor que produziu a novela Selva de pedra (1985) entre outras] para fazer o Jogo da vida [exibida pela Rede Globo entre outubro de 1981 a maio de 1982], e foi aí que eu entrei para a televisão. Mas eu, na época, estava trabalhando com o Manhas e Manias e, para mim, eu tinha um sentimento muito romântico de que aquele grupo para mim é que era importante. O principal na minha vida era aquele grupo de teatro e as peças que a gente ia fazer e tudo mais, uma visão romântica e que combinava inclusive, com a minha idade e com tudo o que eu queria fazer, e com a minha formação, está entendendo? Eu não tinha uma visão de carreira, que a televisão tinha uma importância para minha carreira, porque ela me dava popularidade, porque ela ia me projetar, por que aquilo ia me dar outros trabalhos. Eu não tinha essa visão naquela época, eu tinha uma visão de uma garota que queria estar no palco, fazendo aquele tipo de teatro. Então, a televisão era quase que um bico, por incrível que pareça, mas a televisão é muito forte. Aí eu fui fazer uma novela e aquilo foi avassalador na minha vida porque eu fiquei muito conhecida. Quando você aparece na televisão a sua vida muda radicalmente, e foi muito bom para mim porque me trouxe trabalhos maravilhosos. Daí, eu fui fazer cinema, que eu era apaixonada por cinema também e nesse sentido eu não pensava na televisão. Hoje em dia eu até penso diferente. Eu sei, tenho mais consciência da importância que a televisão tem na vida de um ator.

Neuza Sanches: Quer dizer, você não tem por princípio que um ator tem que começar pelo teatro? Hoje você mudou um pouco, esse tipo de ...[interrompida]

Débora Bloch: Não, eu não tenho isso por princípio, aquilo era verdadeiro em mim entendeu? É diferente, não era uma bandeira que eu levantava! Simplesmente aquilo era verdadeiro, minha formação me levou a dar mais importância ao meu grupo de teatro do que fazer uma novela.

Neuza Sanches: Mas hoje se você tivesse que aconselhar alguém que está querendo ser atriz, você aconselha a começar o teatro ou a televisão?

Débora Bloch: Eu acho que o teatro te prepara. Assim, se alguém vier para mim me perguntar o que a pessoa deve fazer? [silêncio] Eu não tinha... Eu tinha até um certo preconceito [risos]. A gente achava a televisão uma arte menor você entende? E era um preconceito juvenil e aquilo foi até que muito bom para mim. Foi muito bom, foi muito saudável esse preconceito. Então, eu não tinha esse deslumbramento, eu não almejava estar na novela das oito, como eu vejo hoje muitas pessoas querem ser ator para estar na televisão, e ser ator não é estar na televisão é outra coisa na minha visão. Mas eu acho, por exemplo, que existem atores só de televisão e para citar a mais óbvia que é a Glória Pires [1963, atriz, estreou na televisão com cinco anos de idade na novela A pequena órfã da extinta Tv Excelcior. Desde então, só trabalha em novelas e/ou filmes, nunca no teatro], que é uma grande atriz, assim como existem grandes atores só de cinema. Mas isso não no Brasil, porque no Brasil a gente infelizmente não tem esse mercado de cinema, e que são atores excelentes de cinema, que não tem nada a ver com ser ator de teatro, são duas coisas diferentes. Agora, sem dúvida, se alguém vier me perguntar por onde começar eu com certeza eu vou dizer pelo teatro, na televisão você exercita o que você aprendeu no teatro.

Milton Jung: Só para lembrar a vocês que está participando também do programa Roda Viva, o jornalista Luiz Zanin Oricchio que é crítico de cinema do jornal O Estado de S. Paulo, e que sofreu com a chuva hoje que caiu em São Paulo, teve problemas no trânsito e está chegando agora, seja bem vindo.

Luís Zanin Oricchio: Boa noite!

Milton Jung: Fernando, você tinha uma pergunta?

Fernando Paiva: Débora, é engraçado, para você estar na televisão é circunstancial?

Débora Bloch: Não, não atualmente, mas na época foi.

Fernando Paiva: Então quer dizer que o objetivo da rapaziada hoje é outro.

Débora Bloch: É, eu acho que a gente não pode generalizar. Acho que tem uma rapaziada que está mais interessada em fazer teatro e tem uma rapaziada que quer estar na televisão, e não exatamente para representar. Eu acho talvez para aparecer, tudo que a televisão te traz.

Neuza Sanches: Ou seja, a televisão encurta o caminho.

Débora Bloch: É depende para que, pode prolongar.

Milton Jung: Porque ela pode encurtar a carreira se for mau feita?

Débora Bloch: Não, eu acho que a televisão é assim, a televisão tem uma força muito grande, você não precisa nem estar bem para fazer sucesso, basta você aparecer que você já faz sucesso na televisão. Por que isso principalmente na TV Globo? Porque já tem, de cara, um Ibope garantido e milhões de pessoas que te vêem, então, é difícil você medir.

Milton Jung: Inclusive a dona Maris, moradora do bairro Bela Vista disse que você está ótima no papel de Guida, na novela que você está fazendo no SBT, e outras pessoas perguntando sobre sua participação na novela como o caso do Edson Canela, de Santa Cecília, quer saber se você está gostando de trabalhar no SBT nessa novela e se tem alguma possibilidade de voltar a trabalhar com a [atriz] Irene Ravache? Se houver, o quê você acha dessa possibilidade? Ele ainda está fazendo só mais uma pergunta sobre novela: como você está sentindo essa mudança? Ter feito novela na Globo e agora fazendo no SBT, se está sendo muito diferente para você?

Débora Bloch: Qual pergunta primeiro?

Milton Jung: Primeiro a da Irene Ravache.

Débora Bloch: Eu adoro a Irene Ravache, acho ela uma atriz maravilhosa e ela é uma pessoa maravilhosa de se trabalhar. A gente fez Sol de verão [novela exibida pela Rede Globo entre outubro de 1982 e março de 1983] juntas. Eu fazia a filha dela, e não existe esse projeto, mas se isso acontecer eu vou ficar muito feliz de trabalhar com a Irene de novo.

Milton Jung: Quanto à essa comparação de novela na Globo e no SBT?

Débora Bloch: Olha, para quem está ali atrás da câmera é absolutamente igual. Assim é o mesmo! Você trabalha muito quando você faz novela. Você trabalha muito. É uma carga muito grande e os profissionais do SBT são tão bons quanto os profissionais da Globo, eu estou gostando muito de trabalhar lá.

Milton Jung: O que é mais diferente, por ser novo, por estar começando?

Débora Bloch: O que é diferente? É que a Globo tem trinta anos de teledramaturgia e a Globo tem um esquema muito grande, é uma empresa muito grande. Dentro da teledramaturgia, ela produz três novelas ao mesmo tempo, ela produz as terças nobres, ela produz minisérie, produz muita coisa. Então, têm vários núcleos trabalhando, várias executivas, é uma empresa muito maior, enquanto que no SBT é quase artesanal, porque ainda é um núcleo só que faz. É uma novela só sendo feita a cada vez, é o mesma equipe que faz uma novela e que depois emenda e faz a outra. Então, é mais concentrado. Assim, você sente um... Existe um sentimento de equipe mais forte, eu sinto, porque o sucesso é mais batalhado você entende? Não que na Globo não seja, mas na Globo já existe um esquema muito grande montado e o SBT está começando isso.

Milton Jung: E esse é o início, que deve seguir adiante. Você vê pela estrutura do SBT. Pode seguir adiante, deve eu não sei, mas pode.

Débora Bloch: Acho que pode sim, eu acho que para quem está fazendo a segunda novela, eu acho o resultado do trabalho do SBT de uma competência surpreendente, e tomara que siga, porque é muito bom, eu acho bom para a gente que exista outras opções que não só a TV Globo, que a TV Globo continue e que outras emissoras também continuem cada vez melhor.

Milton Jung: Cada vez melhor, mas que outras produções também surjam. Ricardo Porto.

Ricardo Porto:  Pois é Débora, além do salário que foi maior, o quê é que o SBT te ofereceu para te conquistar?

Débora Bloch: Olha, como eu estava falando, o esquema, eu não me sinto muito à vontade de fazer comparações entre a Globo e o SBT por vários motivos. Primeiro porque eu trabalhei muitos anos na Globo. Quer dizer, eu fiz a minha primeira novela quando tinha dezoito anos, e até há dois anos atrás eu estava trabalhando, um ano eu acho, eu estava trabalhando na Globo. Acho que fiz trabalhos muito legais dentro da TV Globo. Sempre fui muito bem tratada, e não me sinto à vontade para fazer comparações, o mesmo acontece no SBT, eu fui recebida no SBT, assim, com muito carinho, e eu acho que justamente por isso, por ser um esquema ainda menor, uma equipe menor, a gente tem uma relação entre as pessoas mais afetiva no SBT. Não que não exista na Globo, só que é mais difícil na Globo, porque existe um esquema industrial muito forte. Nem todo mundo está envolvido na Globo com o resultado do trabalho, entende? Enquanto que no SBT, por ser um esquema menor, ser uma equipe menor e tudo mais, as relações são mais afetivas, e foi nesse clima de afetividade que eu fui convidada pelo Niltom Travesso [diretor, participou da fundação da TV Record, onde trabalhou durante 21 anos, também dirigiu o Teatro Cacilda Becker e as novelas de Ciro Bassini, Ivani Ribeiro, Roberto Freire] para fazer essa novela. Além deles, me oferecerem condições de trabalho muito boas, eu já vinha fazer a peça aqui em São Paulo. Então, existia também uma boa vontade em me ajudar nos ensaios, eu gravava só segunda, terça e quarta, para eu poder ensaiar, além disso eles me ofereceram chamadas na televisão para a minha peça. Eles são muito generosos e eu fui convidada com muita afetividade e muita generosidade, isso para mim foi, isso me seduziu muito.

Ricardo Porto: Agora, me diga uma coisa, no Kean, eu estava vendo, eu vi o espetáculo da platéia, platéia composta, na maioria, por senhores e senhoras. Você acha que a novela do SBT está levando mais público ou o seu público do TV Pirata não está querendo assistir a peça?

Débora Bloch: Não entendi!

Ricardo Porto: A novela do SBT me parece que está levando mais... Me parece que está levando um público maior para assistir a peça. O Kean, aquela moçada parece que não está indo.

Milton Jung: Porque o público seria mais velho do que o público do TV Pirata? Aquela moçada está indo ou não está indo?

Débora Bloch: Não, eu acho que isso aí não deu ainda para avaliar por vários motivos; primeiro a gente estreou sábado, tivemos duas noites por enquanto com muitos convidados. Porque o nosso convite valia para sábado e para domingo. Eu não acredito nessa sua teoria. Eu acho que a televisão ela leva o público ao teatro na medida em que, por exemplo, eu quando estou na televisão, eu ganho uma popularidade que faz com que as pessoas se interessem pela minha pessoa e pela pessoa do Nanini, agora, se eu estiver fazendo uma peça, eu posso estar na novela das oito, que dificilmente eu vou fazer sucesso.

Milton Jung: Oricchio.

Luiz Zanin Oricchio: Débora, você dizia que era interessante para você,, trabalhando no SBT, que essa oportunidade de trabalho numa emissora diferente da Globo, era interessante para você enquanto classe artística certamente também é interessante essa alternativa para os telespectadores. Eu gostaria que você analisasse, como você vê a questão dessa tendência monopolista dentro da televisão brasileira? Você acha que alguma coisa deveria ser mudada à nível de legislação? Por exemplo, algo que impedisse a verticalização de toda a produção ser feita dentro de casa como é feito no caso da Globo. Como é que você vê essa questão da televisão brasileira?

Débora Bloch: Eu acho que seria muito bom se houvesse uma legislação que ampliasse o mercado de trabalho. Eu não sou, acho, uma pessoa muito competente para falar sobre isso, porque eu não sei como que isso deveria se realizar, mas eu acho muito saudável que exista por exemplo, eu sei que agora a Manchete vai fazer uma novela também, que o SBT esteja investindo na teledramaturgia. Como você falou, não só porque os artistas, como os técnicos e profissionais de cinema e televisão tem mais opção de trabalho, como para o público é muito bom, porque isso cria uma competição entre as emissoras, e isso inevitavelmente resulta numa melhoria de qualidade nessa briga pela audiência. Eu acho que resulta numa coisa muito boa. Agora eu acho mais importante que isso tudo, eu tive uma experiência muito feliz aqui na TV Cultura com o filme do Cacá Diegues [refere-se ao filme Veja esta canção], que foi co-produzido pela TV Cultura, e eu acho mais importante que tudo é que se crie uma legislação para que a televisão seja obrigada a produzir cinema, a co-produzir, que seja cinema como é em todos os países, onde existe um cinema vivo, do mundo, porque eu acho que a saída para o cinema, e é um absurdo que um país como o Brasil do tamanho que ele é e com a capacidade criativa que existe no Brasil, não tenha um cinema ativo, um cinema importante, o filme mesmo que eu fiz para citar, para puxar a sardinha para a minha brasa, o filme esse que eu fiz com o Cacá, foi um filme que ganhou prêmios em um monte de festivais no mundo todo...

Luiz Zanin Oricchio: E está em cartaz até hoje.

Débora Bloch: Está em cartaz até hoje, e está enchendo as salas de cinema. Quer dizer, a gente tem competência para fazer, e esse filme só foi possível porque a TV Cultura co-produziu e foi muito bom para a TV Cultura também, não foi bom sá para quem fez o filme, para o Cacá, para os artistas. Então, eu acho que essa legislação, a meu ver é mais importante para a televisão participar do desenvolvimento do cinema nacional.

Luiz Zanin Oricchio: Você sabe que esse é um item que não está contemplado na Lei do Audiovisual [Lei Rouanet]?

Débora Bloch: Não, eu não sei, eu preciso me informar.

Neuza Sanches: Me diz uma coisa Débora, seguindo nessa linha do Zanin, eu queria saber o seguinte: É comum na Globo o ator ser contratado com exclusividade? Ou seja, ele é chamado esporadicamente, fica como um contrato com um período específico. Isso é bom para o ator? O que ocorre muitas vezes é que o ator fica meses sem fazer nada, e não podendo fazer outros trabalhos, como o teatro e ao mesmo tempo tem que voltar nuns trabalhos que ele não necessariamente quer fazer. Você acha isso bom para o ator? E outra coisa, você acha que esse tipo de coisa, do ator ter contrato de exclusividade e tal, como ocorre na Globo, isso é uma concorrência desleal?

Débora Bloch: Olha, eu acho que isso é uma opção muito pessoal de cada ator, porque  é muito difìcil sobreviver como ator no Brasil, não sei como é que é nos outros países, é difícil sobreviver no Brasil, é muito difícil sobreviver como ator. O que acontece é que um contrato à longo prazo pode ser muito importante para muita gente. Quer dizer, é um meio de sobrevivência, é bom que ele exista. Eu pessoalmente me sinto até privilegiada por isso. Porque eu nunca tive um contrato, assim, longo, algumas vezes me ofereceram até, mas eu sempre tive medo de não ficar livre, eu sempre tive medo de não poder optar, de ser obrigada a fazer de repente um trabalho que eu não tivesse à fim, ou de não poder fazer um trabalho que eu quisesse, não poder estar no teatro. Então, eu nunca tive um contrato longo por opção, por isso digo que sou privilegiada. Porque consegui sobreviver nessa linha, num determinado período do cinema, quando eu fiz a maior parte dos filmes. Quer dizer, quase todos os filmes que eu fiz, que eu fiz poucos nessa época... Eu sobrevivi do cinema e num outro período do teatro. Então, isso eu acho, considero um privilégio no Brasil.

Neuza Sanches: Você considera isso uma concorrência desleal, na medida em que a Globo, como você mesmo falou, é uma indústria na teledramaturgia e as outras não chegaram a esse nível?

Débora Bloch: Não, eu não acho não. Acho que isso é muito bom para os atores. O SBT agora está fazendo isso, está contratando pessoas com contratos de longo tempo, é uma maneira de valorizar o ator, entendeu? Então, eu quero aquele ator, eu pago para ter aquele ator à disposição da minha emissora. No SBT, por exemplo, você não está impedido de fazer teatro, se você tem um contrato, você está, lógico, obrigada a prestar um serviço. É muito bom para o ator, porque é muito angustiante você passar a sua vida inteira sem saber se, no mês que vem, você vai conseguir pagar suas contas você entende? Porque é uma profissâo muito instável, eu por exemplo, se eu for fazer agora uma peça de sucesso e ganhar dinheiro com aquela peça e na peça seguinte não ganhar dinheiro com aquela peça, você pode fazer agora uma novela e você ser a pessoa mais famosa do Brasil, naquele momento, porque você está na novela das oito, e no mês seguinte você estar desempregada.

Neuza Sanches: Economicamente confortável.

Débora Bloch: Economicamente confortável. A minha opção é até, foi uma opção mais arriscada. Quando eu estava grávida, por exemplo, eu estava sem contrato eu fiz minha peça até o quinto mês de gravidez porque eu precisava sobreviver, não porque eu estava à fim de ficar fazendo teatro até o quinto mês de gravidez. Então, é confortável sim para um ator ter um contrato. Saber que é uma segurança econômica. Agora ele também pode representar falta de liberdade. Então, eu sempre consegui optar por fazer contratos por obras certas, e tive sorte porque consegui sobreviver, apesar de não ter um contrato longo. Se eu tivesse um contrato, na época que eu estava grávida por exemplo, eu gostaria de estar com contrato e estar tranqüila na minha casa com a minha gravidez.

Milton Jung: Débora, eu vou pedir licença um minuto a todos você, e daqui a pouco nós voltamos com Roda Viva que hoje está entrevistando a atriz Débora Bloch.

[intervalo]

Milton Jung: Débora, no final do bloco anterior você falava sobre ser mãe, e quando você foi mãe você estava sem contrato, incertezas, e vários telespectadores entre eles a Fátima de Carvalho, de  Santos, e o Sidnei de Rio das Pedras, de São Paulo, perguntam: como você consegue coordenar a vida de mãe, como você consegue coordenar as atividades profissionais com a maternidade?

Débora Bloch: É difícil ser mãe e atriz, sabe? Muito difícil. Porque a vida de um ator é muito desregrada, você tem períodos que você tem todo o tempo do mundo para o seu filho e, por exemplo, esse último período de ensaios da peça é uma dedicação total, e a gente ainda produzia a peça eu e ele. Então, te toma mais tempo ainda. Então, eu acordava e ia para o teatro para ensaiar e saía do teatro duas, três horas da manhã, ia para casa dormia e acordava, então mal via minha filha nesses últimos dias, e agora, por exemplo, ela vai entrar numa escola, e aí você tem período de adaptação, você tem que fazer a adaptação da criança na escola e aí você não tem horário regrado. Aí você não consegue se planejar direito. Se o seu horário vai dar para você fazer adaptação, se não vai dar, nesse sentido é muito difícil de conciliar.

Milton Jung: Será que a Júlia vai ter que enfrentar tudo aquilo que você enfrentou quando pequena, tendo que ir ao teatro mesmo não querendo ir, por que o pai não tinha onde deixar?

Débora Bloch: Olha, talvez ela tenha que enfrentar sim. Apesar que eu, como eu já tenho essa experiência, como filha, eu armei um esquema assim, sempre pensando muito nela, para que eu sempre possa dar atenção para ela, eu sei que o período de ensaio é um período mais difícil, mas que depois que a peça estréia fica mais tranquilho, apesar de que agora eu estou gravando também a novela, então está num período mais difícil [risos]. Mas, uma vez, eu encontrei a Fernanda Montenegro num restaurante e perguntei para a Fernanda, eu estava fazendo uma turnê com Fica comigo essa noite, eu fiquei imaginando: "meu Deus se eu tivesse um filho nessa hora como é que eu ia fazer" [risos], porque a gente ficou um ano e meio viajando sem parar pelo Brasil. Você não vai para sua casa! Você pára dois dias e já está fazendo as malas de novo. E eu falei para a Fernanda, uma mulher de teatro e que passou a vida, e você como produtor de teatro, está incluído você fazer turnê no Brasil, por que faz parte de uma produção, como você fez com seus filhos para estar sempre fazendo teatro e viajando e tudo mais e com dois filhos e tudo mais. Então, aí, e eu fiz uma brincadeira com ela e a Fernanda disse: " É, eu sei como é, eu sei muito bem como é essa vida" um pouco se queixando, mas de brincadeira, ela falou: "Mas não tem problema, porque depois os filhos crescem, viram atores e aí elas compreendem a gente" [risos].

Milton Jung: E você compreendeu isso?

Débora Bloch: É, eu agora compreendo todas as  noites que eu fiquei sozinha em casa, que o meu pai foi para o teatro, e a vida da Júlia vai ser a vida da filha da Débora que é atriz, e ela vai se adaptar, mas eu também, quando eu fui fazer o filme com o Cacá Diegues, ela tinha dois meses e meio e o Cacá me ligou e fazia muito tempo que eu não fazia cinema, e fiquei assim contente de ser convidada pelo Cacá e estar sendo convidada para fazer um filme que eu não fazia à muito tempo, e aí ele me ligou, na hora eu falei: "Claro que eu quero fazer o filme eu topo e tudo!". Depois que eu desliguei, caiu a ficha, eu falei: "meu Deus, mas eu tenho uma filha de dois meses e meio, que amamento de três em três horas, como eu vou fazer esse filme com esse bebê de dois meses e meio, não dá!". E aí liguei angustiada para o Cacá e disse: "Quero muito fazer o filme, mas eu não sei como eu vou fazer e tal", e aí o Cacá me contou que ele também, quando ele foi casado com a Nara Leão [(1942-1989), importante cantora de bossa nova], com quem ele teve dois filhos, e que o Francisco tinha um mês, e que eles estavam filmando juntos e que ele já tinha tido experiência que o filho dele ia para o set de filmagem e a Nara parava a filmagem para dar de mamar e que a produção do filme, a prioridade do filme ia ser a Júlia. A gente, então, tinha um esquema dela ir para a filmagem e a gente parar, e foi assim que o filme foi feito.

Milton Jung: Você contracenou com a Júlia?[risos]

Débora Bloch: A estrela do filme foi a Júlia. Chegava a Júlia chorando na filmagem, parava todo mundo, ficavam esperando a Júlia mamar e tudo mais, e aí nesse dia que eu fiquei conversando com o Cacá, e ele falou para mim: "mas Débora, se você achar que não deve fazer o filme eu vou entender, porque eu acho que o cinema não é mais importante que a vida", quando ele falou essa frase eu falei: "então eu vou fazer o filme, porque eu também acho que o cinema não é mais importante que a vida e eu pretendo que a minha vida, minha prioridade seja também que a Júlia esteja bem", então é isso.

Alberto Guzik: Você estava falando antes da produção que você faz com o Nanini e eu queria voltar para a primeira pergunta, que eu te fiz no primeiro bloco, quando eu falei do desafio, você falou do desafio artístico, mas tem também o desafio da produção, tem o desafio do dinheiro investido, tem o teu último salário do SBT investido no palco do Teatro Cultura Artística. Como é isso? Você entende de produção? Você acompanha a produção nesses detalhes? Você chega a isso? Você mete a mão na massa desse jeito?

Débora Bloch: Sou assim, eu fui uma aluna muito aplicada no colégio e fui muito boa aluna de matemática inclusive e sempre fui muito responsável e muito organizada, eu lido bem com esse lado prático, apesar de eu achar um saco esse lado prático da vida. Com o Luís Fernando fiz a primeira produção desse jeito, e essa produção foi um grande desafio, porque a produção com o Fica comigo esta noite a gente era uma peça mais simples, no sentido de que eram dois atores e um cenário só, e eu me lembro que a gente tinha um texto que era o seguinte, se a gente não tiver patrocínio... porque o Fica comigo nós tivemos um patrocínio da Shell, mas até esse patrocínio sair, a gente pagou com dinheiro que a gente ganhava nos comerciais e com o nosso salário do TV Pirata. Então, era assim que a gente pagava a produção. E, eu me lembro que a gente tinha esse texto de que se a gente tivesse um patrocínio, a gente faria um cenário maravilhoso, cartazes, convites e tudo e tal. Tudo muito bonito. E, se a gente não tivesse, a gente faria a peça com uma cama e uma cadeira, e o nosso trabalho seria assim. Nessa peça era diferente, porque era uma produção muito grande, a gente se propôs a fazer os cenários, e eram muitos atores. Quer dizer foi um desafio muito grande como produção, e eu gosto de participar de tudo, eu gosto de ver o convite, eu gosto de conversar sobre o programa, eu sou um pouco assim. Eu não sou uma pessoa que fala "ah está bom",  ou "tudo bem" para qualquer coisa. Eu sou exigente, quero que as coisas saiam do jeito que eu quero que saia. É lógico que, quando você faz uma peça, há um trabalho coletivo do teatro. Então, você não faz nada sozinho, você delega e tudo mais, mas eu participo de tudo, eu gosto de participar de tudo, eu tenho esse...

Neuza Sanches: Agora me diz uma coisa, o teatro brasileiro, como você acha que ele está no momento?

Débora Bloch: Olha, desde que eu ouço falar de teatro existe essa questão sobre teatro vai acabar, se não vai acabar, se o teatro vai bem, se o teatro não vai bem e o teatro nunca morre, apesar da força da televisão, da força da mídia, e tudo mais. Acho que isso ocorre porque o teatro é a única arte que acontece naquele momento ao vivo, não tem nada que seja assim, que ou acontece naquela hora aconteceu. Quem participou daquele momento,  participou, quem não participou não participa mais.

Neuza Sanches: Eu pergunto mais pelo seguinte fato, o número de peças evidente que tem crescido ano a ano, o público voltou a frequentar o teatro e conversando com vários autores, adaptadores, mesmo diretores e atores. A maior dificuldade continua sendo patrocinador, aí eu pergunto o seguinte: o que acontece com o empresariado brasileiro? Na sua opinião, porque as grandes empresas não chegam com cash [dinheiro vivo] ou não bancam, como deveriam, o teatro brasileiro, ou como poderiam bancar?

Débora Bloch: Eu acho que é uma questão cultural essa, basicamente. Não é uma questão científica, no sentido econômico e tudo mais. Por exemplo, hoje em dia você tem o [banco] Bamerindus, que está investindo em teatro que por sinal é um dos nossos patrocinadores no espetáculo, a Davene [empresa de comésticos] também foi uma empresa que...

Neuza Sanches: Mas a dificuldade existe e é bastante significativa.

Débora Bloch: A dificuldade é muito grande, o Bamerindus nos dá a mídia toda do espetáculo e a gente teve alguns apoios culturais como a Transbrasil [empresa aérea], a Davene como eu já citei, o Hotel Brasilton e tal. São empresas que tem uma cabeça evoluída como a Shell, por exemplo, que tem uma política para patrocínio. Todo ano a Shell patrocina um determinado número de peças, e isso não é bom só para quem é patrocinado, é bom para a empresa que está patrocinando, porque eu sou muito mais simpática a um banco como o Bamerindus, que está ligado à cultura do país, que eu acho que está fazendo alguma coisa legal, do que a um banco que está só preocupado em lucro...

Neuza Sanches: Mas, de qualquer forma, é comum quando você pega uma peça, é comum ter um grande número de patrocinadores no apoio. Ou seja, dificilmente, raramente, você vê uma peça em que tem uma empresa que chega e banca, e tem várias empresas que tem condições de fazer isso, porque ocorre esse tipo de coisa na sua opinião, porque as empresas, mesmo as que bancam, elas bancam de uma forma tímida em relação ao potencial que poderiam bancar?

Débora Bloch: Porque as empresas não se convenceram ainda, não estão conscientes do retorno que elas podem ter com isso, eu acho.

Alberto Guzik: Quer dizer é uma questão cultural, então, se reduz à uma questão cultural no fundo.

Débora Bloch: E também porque eu acho que deveria existir, da parte do governo, esperamos que o Fernando Henrique Cardoso, como um homem culto, dê alguma sugestão nesse sentido. É a mesma história da televisão participar na co-produção do cinema, que as empresas tenham algum incentivo fiscal, por exemplo, como foi a tentativa da Lei Sarney [mudou para Lei Rouanet]. Mas, eu não sei direito, porque eu não sou economista, não entendo direito disso, enfin, mas que ela tenha, um incentivo, no caso fiscal, talvez seria uma saída. Além disso, tem a questão cultural sim. Você vê, o que projeta o país é sempre a música, o cinema e o teatro também pode ser uma projeção muito boa para as empresas, está aprovado não é a toa que a Shell está patrocinando, que o Bamerindus está patrocinando teatro, que são empresas que eu acho que já conseguiram ter na sua direção, na sua orientação de marketing, não sei que departamento que deve cuidar disso, essa visão que eu acho que é uma visão muito mais moderna.

Ricardo Porto: Me diz uma coisa Débora, essas empresas bancaram o seu espetáculo? A produção toda, os quinhentos mil dólares, ou você teve que por o seu lá?

Débora Bloch: Não, eu coloquei muito dinheiro e o Nanini também. Tudo o que precisou ser pago com dinheiro, foi a gente que pagou, com o dinheiro que a gente ganhou com outras produções, como eu estava...

Neuza Sanches: Você acha isso uma consequência, quer dizer, o ator que vira produtor, é consequência do mercado, de um sistema que vem desse meio, das empresas. As dificuldades para patrocínio, apoios, vem dessa cultura?

Débora Bloch: O ator que vira produtor ele vira produtor para estar no palco, eu acho pelo menos [risos] É exatamente por isso que eu gosto de participar do processo criativo, de chamar as pessoas com quem eu quero trabalhar e de participar da  discussão, como vai ser o programa, enfim, de tudo isso. Eu acho que, quando você produz um espetáculo, ele fica mais sua cara, basicamente porque você cria o seu trabalho, cria o seu espaço de trabalho. Então, é por isso que eu acho que os atores produzem, que é para estarem no palco. Inclusive, eu estava conversando outro dia sobre, acho que foi até um programa aqui da [TV] Cultura, uma entrevista que eu estava dando, a gente como produtor..

Milton Jung:  No Metrópolis? [programa de entreterimento dedicado às artes e espetáculos, é produzido pelaa TV Cultura desde abril de 1988].

Débora Bloch: Não sei, não me lembro o nome do programa, acho que era...

Milton Jung: Foi sobre a peça Kean?

Débora Bloch: É...

Milton Jung: Foi no programa Metrópolis, que foi ao ar, agora, na sexta-feira.

Débora Bloch: Isso, com o Cunha não é?

Milton Jung: Exatamente, com Cunha Júnior [apresentador do programa Metrópolis].

Débora Bloch: Isso! Eu estava falando para ele isso que a gente produz com a paixão, o sentimento que o produtor deve ter não é o sentimento da paixão, eu tenho um tio que disse para mim; "você, para fazer um bom negócio, você não pode ter desejo". E a gente como ator-produtor, o que a gente tem é o desejo [risos]

Alberto Guzik: Você corre atrás do sonho?

Débora Bloch: É, a gente vai atrás da paixão, a gente produz movido pela paixão de estar no palco, pelo desejo de estar no palco e de fazer nosso trabalho, e não ficar esperando ser convidado por alguma companhia ou algum produtor de teatro. Se você reparar bem, atualmente, são raros os produtores de teatro que não são os próprios atores que estão no palco, apesar do teatro ser um bom negócio. Enfim, o que eu quero dizer é isso, a gente produz para criar o nosso trabalho, e é um privilégio você poder produzir o seu trabalho, para você poder dizer o que você quer dizer no palco...

Milton Jung: Você tem melhor retorno financeiro no teatro ou na novela?

Débora Bloch: Tenho tido no teatro.

Milton Jung: Você parece falar isso com orgulho...[risos]

Milton Jung: Você chegou a levantar o queixo para dizer isso.

Débora Bloch: Com muito orgulho sim [risos] você imagina, quantos patrocinadores tem a televisão? Quanto dinheiro tem a televisão? E a gente faz com a nossa própria mão o teatro, você entende, é a gente que faz o teatro, ele só existe porque os atores estão fazendo ele existir, porque os seus artistas estão fazendo ele existir, entendeu? Pagando com dinheiro do seu próprio bolso a produção de uma peça de teatro. Por isso que o teatro existe, porque são os artistas que fazem e ele não morre só por causa disso, porque os Paulos Autrans, as Fernandas Montenegros, as Marílias Pêras, as Irenes Ravaches, entendeu, todos esses Kean do Brasil, estão produzindo suas peças, as Tônias Carreiros, as Bibis Ferreiras...

Alberto Guzik: Débora, como é fazer uma peça que fala de atores? Como é que é representar no palco uma candidata a atriz, uma mulher que quer ser atriz? Como é que é essa coisa de jogar... É um duplo espelho? Você pensa em você pensando em você?

Débora Bloch: Foi muito bonito o processo dessa peça, porque ao mesmo tempo que a peça fala, ela tem esse lado muito interessante para o público do folhetim, das tramas, das amantes, dos leques, dos tecidos e das passagens secretas. Ela tem uma estrutura muito divertida. A peça trata do universo do ator, quer dizer, para mim, um universo muito especial, porque o meu pai é ator, então, eu assisto meu pai ao longo da minha vida com tudo, com todos os conflitos, os sentimentos e as paixões de um ator. Assim como as dificuldades da vida de um ator, e ao mesmo tempo, eu também me tornei atriz, e é muito emocionante, cada vez que eu falo disso eu fico emocionada. [fala emocionada] É muito emocionante fazer uma peça sobre esse universo, e a peça fala das relações do artista com o poder, com a sociedade, de como o artista é usado e usa a sociedade, como ele é tratado na sociedade, uma relação de marginalidade e ao mesmo tempo de mitificação. Foi muito emocionante esse processo, porque a gente está falando da gente, e ao mesmo tempo, estamos falando de todo mundo.

Milton Jung: Sobre a peça ainda, o Gregório Martins, de São Paulo, pergunta que contribuições a peça poderia dar para elevar o nível da comédia de autores brasileiros contemporâneos a fim de que ela seja menos anedótica, escrachada, e seja mais profunda no sentido social e filosófico?

Débora Bloch: Eu não vou concordar com você.

Milton Jung: Comigo não com o Gregório! [risos]

Débora Bloch: Com o Gregório então. Eu acho que a gente tem autores brasileiros muito bons, que fazem peças de alto nível e concordo com ele que o texto que a gente está fazendo é um texto realmente muito bom. Não é à toa que há seis anos esse texto está na minha mão. Assim que eu comprei os direitos desse texto, e renovei já duas vezes, porque eu considero um texto muito bonito, muito bem escrito, muito divertido... Mas eu acho que a gente tem autores muito bons no Brasil, assim, e não acho que, não concordo com ele, de que o nível precisa ser elevado não.

Milton Jung: A peça Kean pode fazer com que esse nível fique melhor então?

Débora Bloch: A gente não está fazendo a peça Kean preocupados em elevar o nível de niguém! Eu acho que o nível dos autores brasileiros é muito alto.

Milton Jung: A sua chará Débora Escavone de São Paulo, até lhe parabeniza pela peça. Ela já deve ter visto também, parabeniza todos os atores e também a cenografia que é perfeita, isso quem já assistiu pode confirmar, e pergunta se o verdadeiro ator é aquele que interpreta qualquer tipo ou não necessariamente, não precisa ser aquele que interpreta qualquer tipo.

Débora Bloch: Eu acho que existem vários tipos de atores, e eu acho que não tem uma regra, não existe isso. O verdadeiro ator é aquele que te emociona, que te toca, independente do tipo que ele faz, do estilo que ele tem, e que te diverte, que te toque de alguma maneira, que te acrescente de alguma maneira na sua vida.

Milton Jung: O Oricchio tem uma pergunta para lhe fazer, Débora.

Luiz Zanin Oricchio: Débora, eu tenho uma pergunta para fazer sobre o texto, você comprou os direitos, é um texto de Alexandre Dumas [1802-1870, dramaturgo e escritor francês que fez inúmeras peças de teatro, sendo as mais famosas: Os três mosqueteiros, O conde de Monte Cristo e Ricardo D´Arlington. É pai de Alexandre Dumas Filho que escreveu A dama das camélias, clássico da dramaturgia mundial]] que foi retrabalhado por Satre [1905-1980, filósofo existencialista do início do século XX. Seu livro mais famoso é o Ser e o nada, escrito em 1943], e para essa versão que vocês estão apresentando foi feita simplesmente uma tradução ou uma adaptação? E, se foi feita uma adaptação, foi feita algum tipo de simplificação, ou alguma coisa que aclimatasse, vamos dizer, o texto, à nossa realidade, enfim, alguma coisa desse tipo, eu queria que você falasse um pouco.


Débora Bloch: Foi bom você perguntar isso porque o texto foi escrito pelo Alexandre Dumas, isso em 1836, três anos depois que o Kean, o ator, morreu, encomendado por um ator francês o Frédérich Lemaître [1800-1876], que queria fazer uma peça sobre a vida do Edmund Kean, ele encomendou com o Alexandre Dumas e já tem uma história de que esse texto, na verdade, o Dumas só reescreveu esse texto, de que ele foi escrito, por dois autores menos conhecidos na época [...], mas que não tinha uma dramaturgia muito boa, e que aí o Dumas reescreveu esse texto...

Luiz Zanin Oricchio: Já tem um jogo de espelhos aí.

Débora Bloch: Já tem um jogo, então já tem aí três autores, um século depois o Pierre Brasser, que é outro ator francês, encomendou uma adaptação desse texto do Dumas para o Sartre, aí o Sartre reescreveu. Nessa adaptação do Sartre ele já transformou, pouco, mas transformou o texto, tirando alguns personagens e tal, dando a sua leitura para espetáculo, e agora a gente encomendou com a Maria Adelaide Amaral [1942, dramaturga e romancista. Escreveu várias peças de teatro das quais se destacam Chiquinha Gonzaga (1982), De braços abertos (1984) e Querida mamãe (1994), todas vencedoras do Moliére de melhor autor nacional. Traduziu peças de dramaturgos estrangeiros, entre elas A última gravação, de Beckett, em 1988; Kean, de Jean-Paul Sartre, em 1994; e Cenas de um casamento, de Ingmar Bergman, em 1996] que eu considero mais uma autora dentro desse texto, não só uma tradutora mais também mais uma autora, porque ela fez uma tradução brilhante, super fluente e ao mesmo tempo quase que moderna, mas sem perder o estilo do texto e da época. Então, ela é muito fluente, a sensação de estar dizendo um texto numa linguagem que não se usa mais, ao mesmo tempo inteiramente dentro do estilo Dumas, do estilo Sartre e dos estilos século XIX. Então, eu acho assim, o trabalho da Maria Adelaide, brilhante. Além disso, a peça tinha cinco atos e ela transformou a peça em dois atos o que é um trabalho...

Neuza Sanches: E que já dura três horas?

Débora Bloch: Duas e meia, isso porque você viu na estréia, eu sou a favor de pouco tempo.

Neuza Sanches: Me diz uma coisa, já que a peça fala do próprio ator e da sua relação de amor e ódio com público, esse dilema que ele vive cotidianamete, é o seguinte. O ator hoje leva em consideração a crítica [de teatro]?

Débora Bloch: Todo ator leva em consideração a crítica.

Neuza Sanches: Ele trabalha com isso?

Débora Bloch: Todo ator leva em consideração a crítica porque faz parte até da nossa vaidade e a crítica é necessária. Mas, você não pode ficar escravo da crítica, porque se não, um crítico, no dia seguinte, fala mal de você, como é que você vai fazer o espetáculo no dia seguinte, se você achar que aquilo é uma verdade absoluta?

Neuza Sanches: Mas, abala?

Débora Bloch: Lógico! Você acha que você lê alguma coisa no jornal sobre você, que não fale bem de você, não te toca? Só se você for insensível, lógico que te toca! Até porque você quer melhorar, você quer melhorar! Agora eu acho que tem maneiras e maneiras de você... assim como tem bons e maus atores tem bons e maus críticos, tem bons e maus sapateiros, então, por exemplo, uma vez, uma crítica falou de mim, no Fica comigo logo que eu estreei. Porque você, quando estréia, você não está pronto, você vai ficando pronta ao longo da temporada, e ela falou sobre a minha projeção de voz, que eu estava gritando muito e realmente na estréia, eu estava nervosa, então, eu não tive o controle que eu deveria ter da minha voz, só que ela não me falou isso de uma maneira muito elegante, ela poderia ter sido positiva. Eu li aquela crítica, achei que ela tinha razão, por que eu achei que eu tinha perdido o controle da minha voz naquela estréia, eu realmente melhorei, não só por causa dela, mas também, ela ajudou a prestar atenção nisso. Porém, ela não foi elegante, ela foi agressiva comigo e não precisava ter sido agressiva eu fiquei chateada.

Neuza Sanches: Mas, de qualquer forma provocou um resultado positivo.

Débora Bloch: Provocou um resultado positivo sim, lógico. Porque eu melhorei, eu comecei a trabalhar melhor a minha voz, eu acho que a crítica deveria ser isso...

Luiz Zanin Oricchio: Mas, você acha que a crítica, vamos dizer, a crítica responsável informada, você percebe ela como fazendo parte da obra, no sentido assim, vamos dizer, pegando a obra assim do Sartre, por exemplo, Sartre é aquilo que o Sartre escreveu, mais aquilo que se chama fortuna crítica de Sartre. Ou seja, o que escreveram sobre Sartre, esse que chega até nós, você percebe o crítico assim, por exemplo como um parceiro possível.

Débora Bloch: Nem sempre, algumas vezes sim e algumas vezes não. Eu acho que tem determinados críticos que conseguem não se colocar pessoalmente, o que eu acho mais interessante, porque não adianta você ir ver um show da Cláudia Raia [1966, bailarina e atriz. Tabalhou no TV Pirata fazendo o personagem "Seu Tonhão"] querendo que ela esteja fazendo um texto psicológico, você tem que criticar a Cláudia Raia, entendendo o estilo da Cláudia Raia que ela faz muito bem, o que ela faz.

Débora Bloch: Agora se você vai para a Cláudia Raia querendo, exigindo, querendo que a Cláudia Raia esteja psicológica, você não vai fazer uma boa crítica dela, é nesse sentido que eu quero dizer, então eu acho que tem críticos bons e críticos que se colocam na frente da crítica.

Luiz Zanin Oricchio: A palavra crítica já tem uma conotação meio negativa?

Débora Bloch: Não acho que não deveria ter.

Neuza Sanches: Você acha que os críticos estão mais pelo bom ou pelo ruim? Como é que você vê os críticos brasileiros?

Milton Jung: Qual a sua crítica sobre a crítica brasileira?

Neuza Sanches: E até que ponto influencia mesmo no seu trabalho, por exemplo com a estréia da peça o que você muda, o que você, como que é esse retorno, imediato?

Débora Bloch: Eu não respondi já não?

Milton Jung: Você deu um exemplo de uma peça, nessa peça, por exemplo Kean, você já deve ter lido, mas ainda não deu a resposta, teve a resposta do público e pela resposta do público a princípio não precisaria mudar muita coisa a não ser aperfeiçoar, apenas afinar.

Neuza Sanches: Você deu um exemplo antigo quero saber agora que você está mais madura.

Débora Bloch: Olha, tem determinadas coisas que a gente nem precisa que o crítico diga, porque a gente até já sabe que tem que melhorar. Tem outras que não. Então, as vezes, você não tem a visão distanciada que você precisa ter para enxergar determinadas falhas, ou até o que não é falha. Por isso, às vezes o crítico, não só te diz o quê está ruim, mas ele te diz o quê está bom, ele mostra, não o lado negativo, mas o lado positivo, que às vezes você nem vê, por você estar envolvido em determinadas coisas que você nem percebeu, e isso é muito interessante também, não só pela crítica, que diz o quê está ruim, como a que diz o quê está bom. Agora, tem uma outra coisa que é o seguinte; você tem uma carreira, de um espetáculo, que você tem que estar lá todo dia fazendo aquele espetáculo, então, você pode usar aquela crítica para melhorar, como você também precisa ter o filtro pessoal do que você ouve. Quando você faz um trabalho, você se expõe inteiramente, você fica completamente a mercê de milhões de coisa que te dizem, não só a crítica, mas as pessoas que vão assistir, e que dão a sua opinião. Eu me lembro quando eu estreei em teatro meu pai falou para mim assim, vai ter sempre aquela pessoa que te diz que você é maravilhosa e aquela pessoa que te diz que você é a pior atriz do mundo. Você, não acredite em nenhuma das duas, porque senão, você está perdida, eu me lembro claramente dele me dizer isso. E, é verdade, porque se você acha que você é maravilhosa, você nos minutos seguintes, você está péssima, você entra em decadência. Se você achar que você é a pior atriz do mundo você, no dia seguinte, não sobe no palco. Às vezes o que a crítica te diz combina com uma reação do público, as vezes não combina, por exemplo, o Fica comigo esta noite teve uma crítica que não foi legal no Rio de Janeiro e nós chegamos em São Paulo tivemos uma crítica super legal aqui. Então, você tem que ir filtrando o que você escuta, porque senão, você fica também uma pessoa esquizofrênica.

Milton Jung: Você estava falando Débora, há três respostas atrás, sobre vaidade. Você se diz muito vaidosa. Eu estou recebendo uma série de perguntas  aqui de telespectadores, entre elas a Maria Aparecida, de Perdizes, a Carolina de Souza, de Santana, o Ciro César, do Alto da Boa Vista, a Lúcia Helena e o Marcelo Soares, de Limeira, interior de São Paulo, nessas perguntas duas coisas interessantes, todo mundo quer saber o seguinte, você fez plástica no nariz? E segundo, onde foram parar suas famosas sardinhas?

Débora Bloch: As minhas sardas estão aqui. [risos]

Milton Jung: Só a maquiagem que tira?

Débora Bloch: As minhas sardas estão aqui, é que quando eu tomo sol, eu fico mais sardenta, mas a minha dermatologista falou para eu não tomar sol que não é bom, quem tem sardas não deve tomar sol, então elas somem um pouquinho.

Milton Jung: E quanto ao nariz, você fez uma plástica?

Débora Bloch: Fiz uma plástica no nariz.

Milton Jung: Isso é porque você é muito vaidosa!

Débora Bloch: Isso porque eu sou muito vaidosa e fiquei com vontade de fazer. Faz muitos anos já. E é a primeira vez que me perguntam isso. Foi antes de eu ter minha filha, tem uns três anos já.

Milton Jung: O interessante é que desde o início do programa estão chegando várias perguntas sobre exatamente o seu nariz.

Débora Bloch: Gostaram gente, fiquei bem? [risos]

Milton Jung: Pelo jeito eles gostaram...

Alberto Guzik: Débora, eu queria te perguntar, sobre o cinema e como é que você prepara uma personagem? A coisa começa da cabeça ou começa do corpo, onde é que nasce o personagem? E segundo, o que é que você faz antes de entrar em cena, como é que você se concentra, já fora de ensaio, fora de espetáculo, o que é que você faz antes de entrar no palco?

Débora Bloch: Olha eu começo o personagem pela cabeça.

Milton Jung: E o texto?

Débora Bloch: É totalmente racional, intelectual. É entender o que aquele texto quer dizer, o que aquele personagem quer dizer, aí eu fico pesquisando. Cada personagem te dá um material diferente de pesquisa, eu fico pesquisando, mas num primeiro momento só racionalmente, intelectualmente e tal. Depois, quando isso me dá um material até inconsciente, que ele começa pelo seu consciente e aí é que ele vira um material inconsciente, porque você fica com um monte de informações e de coisas dentro de você sobre aquilo. E aí, quando você começa a ensaiar, quando você sai da mesa, sai desse trabalho racional, aí eu acho que entra, fortemente, a sua intuição e a sua emoção. Eu acho que entra também nesse material pessoal, entra o seu corpo, sua voz, técnica, por isso eu acho importante que o ator trabalhe com o corpo e com a voz, porque isso é material também. É o seu instrumento de trabalho, para você realizar tudo aquilo que você...

Milton Jung: Dentro do espírito da sua resposta, José Vitório Sanches, pergunta como é que você se preparou para fazer o papel de uma moça da roça no filme Noites do sertão, e em seguida interpretou uma personalidade bem oposta como a roqueira Bete Balanço.

Alberto Guzik: Não foi o oposto? Você não fez primeiro Bete Balanço, depois Noites do sertão?

Débora Bloch: Não, primeiro foi Noites do sertão. Mas, só terminando. Você me perguntou como eu me aqueço para entrar em cena eu faço aula de voz, sempre faço alguma aula de corpo, só que atualmente eu estou sem tempo. Antes de entrar em cena, eu faço um exercício de voz no camarim, uns exercícios que o meu professor me deu e faço um aquecimento corporal que me ajuda a me concentrar também, para eu entrar em cena.

Milton Jung: Dentro desses dois personagens, então, como você se preparou de uma forma até mais prática, tanto no Noites do sertão, como em Bete Balanço.

Débora Bloch: Foi assim, o Noites do sertão tinha um personagem com muito material para trabalhar, porque era um texto, era um roteiro baseado em um romance do Guimarães Rosa, que é um escritor riquíssimo, então, eu tinha um livro onde eu tinha todo o personagem pronto naquele livro. Eu tinha só que realizar. Então, eu usei o livro do Guimarães Rosa, que chamava "Buriti", na verdade, porque era um livro chamado Noites do sertão que tinha dois contos, um deles era o "Buriti" e eu me preparei trabalhando em cima desse livro. O Bete Balanço, eu trabalhava com o grupo Manhas e Manias, então, era uma época que a gente ouvia muito rock.

Milton Jung: Era mais você.

Débora Bloch: Tinha um material meu, assim de gostar de rock, de ser fã dos Rolling Stones que me ajudou a trabalhar o personagem.

Milton Jung: Fernando Paiva, você tem alguma pergunta? Débora, uma das perguntas, das várias que estão chegando aqui, fala sobre posar nua, como você encara essa função?

Débora Bloch: Olha, eu já fui convidada algumas vezes para posar nua, mas eu ainda não achei um bom motivo para posar nua, assim, a não ser o dinheiro, e esse dinheiro eu tenho conseguido ganhar sem precisar posar nua, graças a Deus.

Milton Jung: E, assim como o Kean, você não faz a arte para ganhar a vida? Então, você acha que não precisaria posar nua para ganhar a vida?

Débora Bloch: É, eu ainda não precisei posar nua para ganhar a vida, graças a Deus, eu tenho conseguido ganhar a vida de outras maneiras, mas  não sei eu não tenho preconceito, eu acho que é uma opção muito pessoal. Tem pessoas que conseguem fazer e se sentirem bem, mas eu acho assim, por exemplo, eu não tenho um preconceito moral com relação a posar nua, acho que não tem nada demais as pessoas ficarem nuas, é bonito dependendo da maneira como é feito e tudo mais, eu acho que você posar para uma revista masculina ela é um signo, que vai além do trabalho artístico, digamos, que você possa fazer, ela tem um objetivo assim, muito claro.

Milton Jung: Nós estamos chegando praticamente no final do nosso programa e um assunto que eu sei que lhe interessa muito está sendo questionado pelo Cosme Afanásio, de Santo André, ele pergunta como é que o meio artístico se solidariza e participa das campanhas de prevenção da aids?

Débora Bloch: Olha, eu mesmo já fiz duas vezes, já participei de duas campanhas de prevenção, uma que chegou a passar na televisão que eram vários artistas falando, até eu me lembro que mais ou menos o que eu falava era: "abraço não dá aids", era uma coisa assim, "solidariedade não dá aids", coisa assim, os artistas eles tem uma forte participação na campanha contra a aids, são sempre solicitados e estão sempre participando. Eu fiz uma outra campanha, em que explicava em escolas como usar camisinha, então, era uma coisa mais direcionado às escolas. Enfim, os artistas estão sempre se colocando à disposição para ajudar nessa campanha de prevenção a aids.

Milton Jung: Débora Bloch, eu gostaria de agradecer sua participação no programa Roda Viva de hoje, queria desejar boa sorte em seu trabalho.

Débora
Bloch: Eu é que agradeço, posso falar só mais uma coisa? Eu gostaria de falar dos atores que participam da minha peça, do diretor que é o Aderbal Freire [(1941-) fundador do Grêmio Dramático Brasileiro, em 1973, e do Centro de Demolição e Construção do Espetáculo, em 1989. Assina, entre outros, a peça Apareceu a Margarida; A morte de Danton e Tiradentes. Ele é reconhecido por aliar novas formas à uma encenação que prioriza o ator como agente principal da linguagem e da comunicação], que foi uma pessoa maravilhosa no processo desse espetáculo e a gente está trabalhando com um elenco maravilhoso, que apesar das pessoas não terem um nome de televisão, são grandes atores, que é o Luciano Quirolli, a Ângela Dipp, a Karina Cooper, o Adenor Simões, o Genésio de Barros, Marcos de Oliveira, não posso esquecer ninguém meu Deus do céu, e eu e o Marco Nanini.

Milton Jung: Bom, uma peça que com certeza já está nascendo com muito sucesso e que está no teatro de Culura Artística que é em São Paulo, Débora Bloch muito obrigado, muito obrigado aos jornalistas que participaram deste Roda Viva de hoje e agradecemos também ao telespectador lembrando que todas as perguntas que forem enviadas por telefone ou por fax, serão passadas agora, logo no final do programa, para a atriz Débora Bloch. Muito obrigado e o Roda Viva está de volta na segunda-feira, às 22:30 horas, uma boa noite.

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