Memória Roda Viva

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César Maia

29/4/1996

Combate à violência, educação, planos para chegar ao governo do Rio, são alguns dos assuntos desta entrevista

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Matinas Suzuki Jr.: Boa Noite. Ele dirige os destinos da cidade maravilhosa. No centro do Roda Viva está o prefeito do Rio de Janeiro, César Epitácio Maia.

[Comentarista]: A trajetória do carioca César Maia não é, exatamente, o exemplo de coerência política. Ele está, hoje, no PFL [Partido da Frente Liberal. Tornou-se Democratas em 2007]. Depois de ter sido preso 3 vezes como militante de um grupo marxista clandestino e se refugiado no Chile no fim dos anos de 1960. César Maia voltou do exílio com um diploma de economia, casado e com 2 filhos. Filiou-se ao PDT [Partido Democrático Trabalhista] e assumiu a secretaria de governo do Rio no governo de Leonel Brizola em 1993. Elegeu-se deputado federal em 1986 e 1990 e em 1991, rompeu com Brizola e entrou no PMDB. Disputou a prefeitura do Rio e prometeu que, se eleito, convocaria até o exército para conter a violência na cidade que, segundo César Maia, vivia uma guerra civil. Com esse discurso, derrotou Benedita da Silva, do PT [Partido dos Trabalhadores] no segundo turno.  Em 1995, trocou o PMDB pelo PFL e admitiu, pela primeira vez, que pode ser candidato a governador em 1998. César Maia ficou conhecido, também, por uma série de atitudes polêmicas, como a de querer manter o horário de verão só no Rio e obrigar motoristas de táxis a usar gravata e também por enfrentar problemas sérios, como a escalada da violência do Rio e, em 1993, atos que horrorizaram o mundo, como a chacina da Candelária e a tragédia provocada pelas chuvas em fevereiro último, quando os deslizamentos nos morros deixaram quase 70 mortos e quase 2 mil desabrigados.

Matinas Suzuki Jr.: Bem, para entrevistar o prefeito César Maia, nós convidamos, esta noite, o diretor de redação do jornal O Globo, Merval Pereira; Luciano Suassuna que é editor-chefe da revista Isto é; o diretor da revista Veja, no Rio de Janeiro, Alfredo Ribeiro; a Cláudia de Souza, chefe da Sucursal do Jornal do Brasil em São Paulo; o secretário de redação do Jornal da Tarde, Marcelo Mendonça e o Maurício Styger que é carioca e repórter da Folha de S. Paulo. Boa noite prefeito. Como está o Rio de Janeiro?

César Maia: Bem, graças a Deus, vivendo as nossas dificuldades. Claramente, o Rio vive um momento de transição, enfrentou uma crise quase terminal, aí, no final dos anos de 1980 e início dos anos de 1990. Agora passa por um processo de reversão de expectativas, de intervenções profundas na área urbana, de reconquista de espaços econômicos, representação política nacional. Eu estou muito otimista.

Matinas Suzuki Jr. : Prefeito, hoje o Rio volta a ser o centro de atrações de boa parte do noticiário não só nacional como internacional. Iniciou-se o julgamento dos acusados pela chacina da Candelária, em 1993. Como o senhor avalia esse julgamento, como o senhor está vendo este julgamento?

César Maia: Bem, é um momento importantíssimo não só para a cidade do Rio de Janeiro, mas para todas as grandes cidades, principalmente. Enfrentar uma questão absurda, grave, como a questão do menor abandonado, hoje chamado de menino de rua. Quando eu assumi a prefeitura, a prefeitura tinha inaugurado, em dezembro de 1992, uma casa de acolhida. Hoje, talvez até produto e seqüela dessa chacina... hoje, a prefeitura conta com 18 casas de acolhida e abrigos, conta com um programa para ressocializar as crianças que estão na rua, tem uma ação contundente em relação às crianças mais pobres, sistema de creches, pré-escola e, infelizmente, isso foi produto de uma reação nossa a uma situação quase de barbárie, que nós temos vivido nestes anos. Os homicídios de crianças têm lançado nosso país ao noticiário internacional, um noticiário que nos entristece, que nos magoa, mas que é verdadeiro e que nós temos que responder com solução e não com desculpas. É o que procuramos fazer neste momento.

Cláudia de Souza: Agora, prefeito, se eu pudesse complementar a pergunta, a sua prefeitura é conhecida como detentora de bons recursos, em termos de caixa. No entanto, é claramente insuficiente esse programa que o senhor mencionou. Nós também estamos às vésperas...

César Maia: [interrompendo] No que é que é claramente insuficiente?

Cláudia de Souza: O programa que o senhor mencionou.

César Maia: Por que é claramente insuficiente?

Cláudia de Souza: Eu já complemento a minha pergunta. No entanto, hoje, às vésperas, como contribuinte a entregar o meu imposto de renda, e sendo mãe, eu lhe faço a seguinte pergunta: “Não é possível divisar alguma coisa um pouco mais ampla e um pouco mais abrangente para retirar, de fato, essas crianças e esses jovens da rua”? Não só na sua cidade, mas em todas as cidades do país, o problema não vem diminuindo, ele vem crescendo. Ainda houve assassinatos, enfim, de crianças ainda agora nos últimos dias. Então, eu gostaria de saber se não é possível... Ao longo dos últimos anos, as populações das cidades brasileiras viram governos de todos os partidos se sucederem e o problema do menor abandonado  nas cidades continuou. Então, eu gostaria de saber, com toda a experiência que o senhor tem, e enfim, com essa tradição de técnico, além de político, o que afinal é possível fazer de mais abrangente e de mais eficaz?

César Maia: Olha, a questão anterior, retirar as crianças das ruas é não deixar as crianças irem para as ruas. A cidade do Rio de Janeiro é a única cidade do Brasil que tem responsabilidades completas sobre o sistema de primeiro grau. Nós temos praticamente 700 mil crianças na rede escolar, que durante o que se chamava no meu tempo de curso primário, nessa fase de 1a. à 4a. série, elas permanecem nas escolas. Mas a partir da 2a. fase, chamada anteriormente de ginásio, elas começam a sair. Se nós temos 100% de crianças no curso primário até 4a. série, nós terminamos o curso ginasial, 8a. série, com 35% das crianças que entraram [mexendo as mãos de um lado para o outro]. E, principalmente, os meninos saem muito mais das escolas em função das suas necessidades econômicas e de suas famílias.

Cláudia de Souza: Então, não está na hora de agir em cima dos pais dessas crianças?

César Maia: Exatamente. Então, a intervenção tem que ser, principalmente, na escola pública. Nós estamos tratando de uma quantidade talvez de 1200 ou 1300 crianças nas ruas e estamos tratando de cada fração de idade no Rio Janeiro. São cem mil crianças. E, aí, tem que ser concentrados os nossos esforços de manter a criança dentro da escola [fecha as duas mãos]. Nós temos um programa combinado, de ressocialização das crianças que estão nas ruas, já citei alguns números de abrigos e casas de acolhida e temos um programa direcionado à mãe, principalmente a mãe chefe de família, a mãe carente. No Rio de Janeiro, 26% das mulheres são chefes de família. Mas, entre as famílias mais pobres, mais de 50% delas são chefes de família. Nós temos um programa de bolsa de alimentação que é voltado para essas mães, para estimulá-las, junto com a prefeitura, a manter suas crianças em sala de aula.

Cláudia de Souza:  Que proporção de mães esse programa atende, em relação ao universo total? O senhor tem números?

César Maia: Nós começamos com 10 mil mães e estamos chegando, nos próximos dois ou três meses, a 40 mil mães. É um número importante se você imagina que, na pré-escola, a prefeitura do Rio de Janeiro tem um efetivo de crianças de, mais ou menos, 40 mil mães. Então, quando nós falamos 40 mil mães, nós queremos falar em, talvez, 120 mil crianças. Porque essas mães mais pobres, infelizmente, têm uma prole numerosa. E o atendimento a elas tem uma repercussão muito maior [abre os braços] do que o número delas. Então, um trabalho intenso tem sido realizado. O Rio de Janeiro aplica, para você ter uma idéia, eu estou falando do balanço de 1994 porque eu não conheço, ainda, o balanço das capitais de 1995, conheço da cidade do Rio de Janeiro, mas nós aplicamos per capta, 80 reais em educação. As cidades que mais aplicam em educação não aplicam 70 reais per capta ficam em 60, 65, 62 [reais] e nós estamos aumentando esses investimentos nossos em educação, que é onde se retém a criança e se impede que se vá para outro lado, que é o lado muito mais difícil, que é recuperar crianças que, muitas vezes, foram deformadas, brutalizadas pelo convívio com o crime, com a rua.

Matinas Suzuki Jr.: Prefeito, a Arlete Nogueira, lá da sua cidade, do Rio de Janeiro, pergunta se seria justo o piso do salário do professor ser de 400 reais quando, no real, o piso salarial é de 480. Segundo ela, as escolas estão fechando, não tem professor para dar aula. Como o senhor vê essa situação?

César Maia: É completamente insuficiente. O piso no Rio de Janeiro, para meio expediente, são 400 reais. No estado do Rio de Janeiro são 215, no estado de São Paulo são 205, no estado do Paraná são 194. Quer dizer, nós estamos, praticamente, com o dobro do piso das redes massivas que existem no Brasil. A única rede que se compara, salarialmente, redes massivas, insisto, com o Rio de Janeiro, é a prefeitura de São Paulo, que tem numa faixa o professor de primário. O Rio está um pouco superior a São Paulo e, no professor de ginásio, São Paulo está um pouco superior ao Rio. Mas fora do Rio e São Paulo, que pagam mais ou menos de piso 400 reais, as redes pagam pessimamente. Isso precisa ser revertido. E nós precisamos alocar recursos crescentes em educação. Eu recebi a prefeitura, então os balanços, aplicando 16% das receitas correntes em educação. Portanto, muito abaixo do que dispõe a constituição federal. Num truque que os estados e municípios usaram, na medida que a lei caracteriza a correção monetária das aplicações financeiras como receita patrimonial e não como receita tributária. Se nós entendêssemos a correção monetária, como seria o correto, como receita tributária, nós teríamos números muito baixos. O Rio de Janeiro aplicava 16%, já está aplicando comigo, neste momento, 26%.

Matinas Suzuki Jr.: Prefeito, ainda a respeito de números, ontem no jornal O Globo, o governador do estado do senhor [referindo-se a Marcello Alencar, governador do Rio de 1995 a 1999. Também foi prefeito da cidade do Rio de Janeiro 2 vezes] disse uma polêmica sobre os números ou como o senhor usava os números, disse o seguinte: “Depois de César Maia, nenhum número é mais confiável”. Como é que o senhor recebeu essa declaração do governador?

César Maia: O governador nunca foi muito à vontade com os números. Quer dizer, quando se cita cifras para ele, aquilo ali é grego [abre os braços]. É um advogado, um advogado ilustre, mas que nunca entendeu muito bem os números. E estão os números, aí, para comprovar. Eu recebi a administração dele com 16% das receitas correntes em educação. Hoje, aplico mais de 26% das receitas correntes em educação.

Merval Pereira: Prefeito, como é que o senhor vê as críticas de que o senhor está gastando mais dinheiro no Rio cidade, em obras que seriam cosméticas, necessárias mas cosméticas, e não em saúde e educação, que seriam realmente os grandes problemas do Rio?

César Maia: Olha, rede de esgoto não é cosmético, é investimento em saúde. O estado está falido. Eu tenho aplicado, pelo estado, na recuperação das redes de esgoto, nos principais centros comerciais da cidade do Rio de Janeiro. A recuperação da rede de drenagem também não é cosmético. E gerar conforto para a população também não é cosmético. É uma necessidade. O quintal do rico é quadra de tênis, é piscina, é Angra dos Reis [município do litoral do Rio de Janeiro]. O quintal do pobre é a rua, é a praça. Ele quer conforto aí. Agora, há uma diferença entre os recursos que são aplicados. Eu, como economista, durante o Plano Real, consegui que a prefeitura do Rio de Janeiro tivesse um extraordinário ganho com um plano que me parece muito importante para o país. De julho de 1994 a final de 1995, eu tive de recursos, de juros... Juros são despesas para os estados, municípios e para o governo federal. Para a prefeitura do Rio, ainda são receitas. Eu tive de receita de juros 500 milhões de reais. Eu não posso aplicar as receitas de juros em programas contínuos porque eu quebro a prefeitura na próxima administração. Quer dizer, os juros foram todos aplicados em programas descontínuos. Portanto, em investimentos. Se eu lanço receita de juros em custeio e, no final da administração, a dívida pública, ao invés de gerar receita volta, que voltará, daqui a três ou quatro meses, a gerar despesas, a próxima administração fica inviável. Essa é a razão.

Merval Pereira: O senhor não teria perdido a batalha da informação para explicar melhor que as obras que o senhor está fazendo são necessárias e não são apenas cosméticas, como se tem a impressão?

César Maia: Merval, eu acho, francamente, que eu estou ganhando a batalha da informação. É um processo, é um método.

Maurício Styger: Mas, prefeito, se o senhor está ganhando a batalha da informação, como se explica o senhor ser, hoje, um dos prefeitos mais impopulares do país? A pesquisa do Datafolha [instituto de pesquisa] publicada hoje, feita nas doze maiores cidades do país, aponta o senhor como o 11º. prefeito mais popular, ou o penúltimo prefeito em termos de popularidade, só atrás da prefeita de Salvador?

César Maia: Olha, se você têm 70% de avaliação regular, ótimo e bom, você pode achar que essa performance é uma performance ruim numa cidade tão difícil, tão polêmica?

Maurício Styger: Você pode interpretar que é 70% de regular, péssimo e ruim também.

César Maia: Não, regular é regular. Nota 5 você passa de ano.

Matinas Suzuki Jr.: Agora, prefeito, uma coisa a ser considerada é, por exemplo: em dezembro de 1994, o senhor deu uma decolada grande na avaliação de ótimo e bom. Subiu de 13% para 26%. E houve uma queda violenta de ruim e péssimo. E, agora, esse gráfico, embora relativamente estável, começa a apontar na direção contrária. Quer dizer, volta a subir o péssimo e cai o ótimo e bom. A que o senhor atribui essa avaliação?

César Maia: A Folha de S. Paulo publicou bem o gráfico, ela publica dentro de quadradinhos. Se você colorir aquele quadradinho, você vai verificar que está oscilando [mexe as mãos de cima para baixo] dentro da mesma faixa. Porque a pesquisa de opinião não tem a precisão milimétrica do 25 ou do 26%. Então, desde junho de 1995, quando mudou completamente a expectativa da população do Rio em relação à minha administração, você sair de 54% de ruim e péssimo e vir para a faixa de 25%, é uma recuperação notável. E, nessa faixa, a prefeitura, o prefeito, se encontram a um ano. Agora, é uma prefeitura polêmica, que atua na contramão de tudo que se fez nos últimos dez anos no Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro, na década de 1980, foi o palco da desordem. Foi o palco da bagunça. Foi o palco em que o discurso da desordem e da bagunça provocaram vitórias do governador Leonel Brizola de 54, 55%, maioria absoluta. Tirar camelô da rua, como nós tiramos, de todos os corredores comerciais, reprimir a indústria da invasão no subsolo urbano, reprimir a anarquia da falsa mendicância, da pivetagem abusiva, restituir à cidade, ao cidadão [sendo interrompido], a cidade que é sua, os corredores, as calçadas, as ruas e as praças... isso tudo é impopular numa cidade que nem metade da população tem carteira assinada. Agora, ser impopular, ter coragem pra ser impopular, enfrentar as maiorias anteriores, e construir progressivamente novas maiorias, é um ato político que me parece além daquilo que eu imaginava que pudesse fazer, num período tão curto de administração.

Marcelo Mendonça: Prefeito, dizem que o senhor aprendeu do prefeito de São Paulo, o Paulo Maluf, que a obra boa é a obra polêmica. Aparentemente, polêmica é o que não falta na sua administração no Rio. A população reclama que a cidade está esburacada, que as obras do Rio cidade... O senhor realmente teve esse papo com ele?

César Maia: Isso foi num almoço no estado de São Paulo. O prefeito se dirigia a uma repórter que reclamava de uma obra polêmica. Ele contava de um conjunto habitacional que ele fez e perguntou se ela conhecia aquele conjunto habitacional. Ela disse que não. Ele disse que foi a maior obra habitacional da América Latina: “Você não conhece porque não foi polêmica. Eu nunca mais na minha vida faço uma obra que não seja polêmica”. Então, isso eu acho interessante, a sacada do... Por quê? Porque as intervenções polêmicas, elas geram, na base da sociedade, a discussão no botequim, na oficina de trabalho, na esquina. Essa polêmica gera opinião e essa opinião gera participação.

Marcelo Mendonça: E lhe garante maior espaço na mídia.

César Maia: Bem, a mídia não é um problema nosso. É um problema de vocês. Nós, no máximo, produzimos fatos. Vocês é que produzem notícia, senão não temos oportunidade de...

Marcelo Mendonça: [interrompendo] Ou factóides, como o senhor.

César Maia: Quando é carregado de imagem, mas sempre isso precisa ter clareza. Eu não produzo notícia. Eu produzo fatos. Vocês é que transformam o fato em notícia.

Matinas Suzuki Jr. : Tudo bem, mas existem fatos que o senhor possa provocar que o senhor já sabe que gerarão notícia.

César Maia: Não, você não pode imaginar que os meios de comunicação sejam tão ingênuos, que um político sem grande experiência, como é o meu caso, técnico, um tecnolítico [técnico e político], através de dois ou três fatos, vai conseguir a primeira página dos jornais. Ou o fato é relevante ou a imprensa é ingênua.

Matinas Suzuki Jr.: [todos falam ao mesmo tempo] O caso do horário de verão, por exemplo. É um fato que seria noticiado de qualquer maneira.

César Maia: Sim, mas o horário é de verão ou é de fevereiro? O fato ridículo é o horário de verão terminar no mês de fevereiro. Quer dizer, a notícia não é eu reclamar pelo horário de verão. O ridículo é o governo federal dizer que o horário é de [gesticulando e girando a cadeira] verão e terminar em 15 de fevereiro.

Matinas Suzuki Jr.: Sim, mas é uma convenção e não adianta um estado querer ficar sozinho porque não resolve a grande questão.

César Maia: Por que não? Como é que é na Europa?

Matinas Suzuki Jr.: Há países, mas no caso, há um complicação de...

César Maia: Não há nenhuma complicação. Só há uma complicação, as redes de televisão.

Matinas Suzuki Jr.: Exato.

César Maia: Mas, pelo amor de Deus. Quer dizer, você interrompe o verão de uma cidade com as características turísticas do Rio de Janeiro em função dos noticiários...

Matinas Suzuki Jr.: [interrompendo] Vôos, compromissos, uma série de coisas que necessitam de uma adaptação.

César Maia: [interrompendo] Não. Vai na Europa. Isso se encaixa através do computador. Há 20 anos atrás havia alguma complexidade. Hoje, pelo amor de Deus. Você sai às oito, chega às sete, você se organiza. Você sai de Paris para Luxemburgo ou sai para Londres ou vai para Frankfurt, pelo amor de Deus. Duas, três horas de viagem [gesticulando]. O ridículo é o governo federal não garantir às cidades litorâneas do Brasil, que são cidades de forte impacto turísticos, que geram receitas e divisas para o país, um horário de verão que tenha a abrangência do horário de verão dos Estados Unidos.

Merval Pereira: Eu acho que uma das grandes qualidades suas é esse entendimento do que é o Rio de Janeiro e essa coisa do Rio de Janeiro ser uma cidade turística, de serviço. Isso eu acho que o senhor entende muito bem. Agora, o senhor tem um lado moderno que eu acho muito interessante. E tem, aí, uma raiz populista que o senhor não abandona. Quando o senhor diz que estreitou as ruas para provocar engarrafamento e provocar as pessoas a não andarem de carro, teoricamente, o senhor está certo. Agora, a decisão não é muito autoritária? Não era melhor o senhor ajudar a fazer um serviço de transporte coletivo melhor na cidade? Ajudar o metrô e depois provocar um engarrafamento?

César Maia: Olha, Merval, eu não disse isso. Eu tenho aquela máxima do Antônio Balbino [(1912-1992), governador da Bahia de 1955 a 1959 e senador da República]: “Eu nunca desminto a imprensa, eu faço uma nova afirmação”. Muito bem, o que eu disse é que a minha preocupação era com a senhora de 65 anos, que precisa andar na calçada com conforto, era com a mãe que quer andar na calçada com o seu carrinho de bebê. A minha preocupação é com o velocípede que desapareceu das calçadas do Rio de Janeiro, substituído pelos camelôs, por aqueles plásticos azuis horrorosos. A minha preocupação é com os namorados. Então, eu estava ampliando as calçadas, gerando conforto para eles. Como compensação, você tem a faixa de rolamento estreitada, mas não diminuída. Por quê? Porque nós, nos pontos de ônibus, colocamos a área  de estacionamento de ônibus e tiramos o estacionamento do meio das ruas. Do ponto de vista da faixa de rolamento, nós mantemos a mesma coisa, embora a faixa de asfalto tenha sido diminuída. A nossa primeira prioridade, de longe, é o pedestre. Essa que é a grande questão. A cidade contemporânea não vive sem espaços públicos generosos. É aí o espaço da mobilidade do trabalho, da mobilidade social. É o espaço em que o povo se organiza, em que a sociedade se organiza. O Rio de Janeiro voltou, Merval, a ser uma cidade do séc. XVIII, debaixo do comando do Brizola, em que as ruas de espaço público, viraram pontos de passagem. Em que as pessoas fugiam das ruas para os seus condomínios, engradeados. Fugiam para as suas ruas fechadas. Fugiam das ruas, como quem tem medo da convivência com outras pessoas. A iluminação das praias, no Rio de Janeiro, construiu espaços públicos, quase que dobrando a oferta anteriormente existente.

Cláudia de Souza: Prefeito, mas com essa preocupação toda com a ordem, em fevereiro deste ano, no verão, o senhor se viu novamente diante do caos com as inundações. Agora que se passaram várias semanas, gostaria que fizesse uma avaliação, hoje, sobre a sua atuação naquela ocasião e me dissesse se o Rio está preparado para as enchentes do ano que vem?

César Maia: Olha, hoje tivemos uma catástrofe em Recife. Há uma semana atrás, uma catástrofe em Salvador. Hoje morreram mais de trinta pessoas em Recife. Recife está preparada para a chuva? O prefeito Jarbas Vasconcelos [foi eleito prefeito do Recife em 1985 e governador de Pernambuco de 1999 a 2006. Eleito senador por Pernambuco em 2006], que é o mais popular do Brasil, segundo a Folha de S. Paulo de hoje, não está trabalhando corretamente? Agora, é um processo. Quer dizer, uma cidade que teve, por décadas e décadas, a ocupação caótica que teve o Rio de Janeiro, uma cidade com a topografia do Rio de Janeiro, com as suas encostas ocupadas da forma mais caótica e absurda e que apenas nestes três anos e quatro meses da minha administração é que a ordem começa a ser restabelecida. Quantas favelas foram assentadas na minha administração? Quantos viadutos... Amanhã de manhã, o viaduto Noel Rosa vai ter as famílias reassentadas em outro local. E assim por diante. Nós estamos enfrentando a bagunça, a desordem, que produziu votos, que produziu apoio político no Rio de Janeiro por muitos anos.

Matinas Suzuki Jr. : Mas o senhor mesmo não é fruto desse momento político, da desordem? O senhor, inclusive, é tido como uma pessoa que arrumava o caixa da desordem.

César Maia: Não, com consciência. Ninguém é obrigado, ninguém está condenado a errar a vida inteira. Quando a pessoa erra e depois corrige seus erros, faz uma autocrítica e busca caminhos novos e melhores, eu acho que deve ser elogiada. Eu não sou condenado a estar errando e continuar errando. Então eu vi de dentro, eu vi da cozinha o sindicato da desordem. Eu vi de dentro da cozinha o que significa usar como lastro para ação política o limpezinato urbano. Eu vi o que significa a cumplicidade com o crime. E eu não podia ficar parado ali dizendo: “Já que eu entrei pela porta errada, vou ficar nessa sala a vida inteira”. Não. Saí pela porta que entrei e saí de forma aberta. E fui para as urnas, disputar majoritariamente a opinião do povo do Rio de Janeiro contra o candidato, que de longe, era o candidato mais forte, que era a deputada Cidinha Campos. Deputada de 350 mil votos. Derrotei a deputada Cidinha Campos, a atual senadora Benedita da Silva e todos os governadores que foram para o vídeo. Foi para o vídeo o Requião [Roberto Requião. Governador do Paraná de 1991 a 1994. Voltou ao governo do estado em 2002 e foi reeleito em 2006], foi para o vídeo o Albino Azeredo, foi para o vídeo o Brizola, e foi para o vídeo também o Lula [Luiz Inácio Lula da Silva. Ex-representante sindical, co-fundador do Partido dos Trabalhadores. Elegeu-se presidente do Brasil em 2002 e foi reeleito em 2006]. E, de outro lado, um tecnolítico, um economista de plantão. E a população, ela buscou em algum lugar, sinais para me eleger, porque foi uma vitória surpreendente, até para mim.

Alfredo Ribeiro: Prefeito, o senhor já citou duas vezes e meia a sua louvável luta contra a ocupação das calçadas pelos camelôs. Eu queria lembrar que também faz parte do seu currículo, como paladino da ordem, o apoio à candidatura do general Newton Cruz [em 1994] ao governo do estado, o clamor pela reintegração do delegado Hélio Vigio [ex- titular da delegacia anti-seqüestro e da delegacia de repressão a entorpecentes do Rio de Janeiro. Foi afastado da polícia civil em 1994 por suspeitas de corrupção depois que seu nome foi encontrado em listas de bicheiros do Rio. Em 1998, foi absolvido das acusações] aos quadros de comando da Polícia Militar e a escolha de um coronel listado pelo Movimento “Tortura Nunca Mais” na cúpula da guarda civil. Desordem se resolve no cacete?

César Maia: Não, vamos aí pegar cada caso. O meu voto no general Newton Cruz, que não tinha chance de se eleger governador...

Alfredo Ribeiro [interrompendo]: O senhor deu apoio ao general Newton Cruz.

César Maia: O meu voto no general Newton Cruz foi um voto de protesto contra dois candidatos que se negavam a discutir segurança pública numa cidade onde a violência continua sendo a questão e a ordem do dia. Muito bem. Então, é um voto de protesto, onde eu sinalizava que, daquele jeito, nada seria resolvido. Nós estamos vendo aí. Embora a política de segurança pública não seja mais acumpliciada como era anteriormente, ela é frouxa, ela é insuficiente. Então, tem o voto de protesto e fiz muito bem. Essa simbologia me deu autoridade para criticar como critico hoje. O delegado Hélio Vigio, eu convidei para ser candidato a vereador pelo PFL nessas eleições. Está um delegado de grande currículo na Polícia Civil, acho que é muito melhor que o delegado Hélio Nunes, não teria dúvidas em trabalhar com ele numa administração como a minha. O coronel Amêndola [coronel Paulo César Amêndola], o depoimento de pessoas que combateram na luta armada, é que ele foi um combatente de um lado, que nunca entrou numa sala para tocar a mão em ninguém. Depoimento do Alfredo Cerquiz, que era combatente do outro lado. Numa luta armada, você tem que combater de um lado e de outro, é muito diferente da covardia de se entrar numa sala para torturar. E o coronel Amêndola tem realizado um trabalho no Rio de Janeiro excepcional. Muito dificilmente vai se encontrar um oficial da Polícia Militar... Ele criou o BOPE [Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro] no Rio de Janeiro, que é a melhor força especial do Brasil. Digo mais, de longe, só o nosso BOPE, é uma força de elite que criou como major. Acho que muito dificilmente se encontraria um oficial da Polícia Militar com o gabarito, com a competência do coronel Amêndola.

Mauricio Styger: Prefeito, já compararam o senhor, ou ao menos o personagem que o senhor criou no Rio de Janeiro, ao prefeito Jânio Quadros [(1917-1992), governador de São Paulo de 1955 a 1959, prefeito de São Paulo de 1953 a 1954 e 1986 a 1989, presidente da República de janeiro de 1961 a agosto de 1961]. Tem alguma relação com... O senhor vê alguma verdade nessa comparação? E queria saber se têm alguma inspiração janista a criação dessa comissão municipal de aconselhamento familiar sobre a programação de TV que o senhor criou no Rio?

Matinas Suzuki Jr.: [interrompendo] A esse propósito, desculpe prefeito, o Jorge Ara Camilo, de Piedade,  no Rio de Janeiro pergunta de que maneira irá funcionar a comissão formada pela prefeitura para classificar a faixa etária dos programas exibidos na televisão? O senhor tem competência, ou a prefeitura teria competência, para montar um órgão desse tipo?

César Maia: Até fiquei perplexo de ver a reação contra algo que é aconselhado pela Unesco [Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura] no seu último relatório, agora em 1996. A Unesco vai muito mais longe na comissão que tratou da mídia. Ela quer que as famílias tenham acesso a bloqueadores, ela quer que as emissoras de televisão possam marcar com uma bolinha, um triângulo, um quadrado, o tipo de programação que vai ser levada naquele momento. Se tem conteúdo, de violência, enfim, então o que eu propus, nas minhas responsabilidades educativas, educativas [gesticulando], não foi tratar dos meios de comunicação. Ao contrário. Para mim, o que vale é a máxima de D. Pedro II: “Contra os excessos dos meios de comunicação”, desculpe: “Contra os excessos da imprensa, mais imprensa”. Eu não quero tratar dos meios de comunicação. Liberdade absoluta e total. Eu quero tratar do consumidor. Eu quero ir para as escolas, na reunião dos conselhos de pais...

Alfredo Ribeiro: Prefeito, o senhor está de bem ou brigado com a imprensa, ainda não entendi bem isso.

César Maia: O que é que você acha?

Alfredo Ribeiro: Eu não sei, eu estou perguntando ao senhor

César Maia: Pra mim, eu estou de bem. Estou de bem. Eu tenho sempre insistido que um político que nada gasta em publicidade, como é o meu caso, só em campanhas de interesse público...

Marcelo Mendonça [interrompendo]: Só provocando fatos... [risos]

César Maia: Que tem os espaços que a imprensa tem me dado, francamente. Pra quem entende um pouco esse processo de contaminação de opinião pública, sabe que a imprensa do Rio de Janeiro tem sido de uma imensa generosidade comigo. Eu estava conversando, há pouco tempo, com a Ágatha, que é minha assessora de imprensa, dizendo isso. Na hora que nós pegamos o noticiário em bloco, recolhemos assim, [mexe as mãos da esquerda para a direita] clipping de dois, três meses seguidos, é que se vê que a reclamação que muitas vezes se faz do governo no tratamento da imprensa é justificado. Eu acho que o tratamento tem sido um tratamento muito generoso. Agora, essa é a ação, a ação de defesa do consumidor. É ir aos conselhos de pais em dizer: “Esse programa aqui, ele é carregado de violência”. Não é admissível que um desenho animado aliene a criança para ela imaginar que precise de um super-herói para resolver todas as questões de...

Merval Pereira: Mas, prefeito, para o senhor fazer isso, o senhor tem que ter autoridade da lei. Pela Constituição federal, o senhor não tem essa autoridade. A Unesco está sugerindo isso, mas isso tem que ter uma lei para...

César Maia: [interrompendo] Isso, Merval, foi muito bem estudado. Eu não estou entrando nos meios de comunicação, eu estou entrando na escola. O decreto, ele só diz isso. Eu vou informar os pais de alunos, nos conselhos das escolas. Só isso. Eu não vou olhar para os meios de comunicação. Eu vou conversar com a mãe de uma criança e vou dizer: “É  um absurdo colocar um filme pornográfico numa televisão às nove e meia da noite. É um absurdo que esse filme seja colocado sem nenhuma sinalização, sem nenhuma informação permanente”. E sem colocar no vídeo: Proibido para menores de 16 anos, ou que seja. É um absurdo que se coloque desenhos animados, que fazem propaganda da violência como se fossem desenhos para as crianças. As famílias têm que ser informadas. O consumidor tem que ser informado. Apenas isso. O meio de comunicação, liberdade total, absoluta.

Luciano Suassuna: Prefeito, por favor. O senhor está aí... faz 40 minutos que o senhor apresenta um discurso de uma extrema coerência. E, no entanto, por vários fatos que o senhor criou, entrou quase como um samurai num restaurante japonês, varreu rua no sambódromo... O senhor criou, diz-se no Rio que o senhor tem uma fama de maluco. Por que o senhor acha que tem esse tipo de comentário?

César Maia: Olha, francamente, a isso, eu devolvo a pergunta. Porque eu sempre tenho dito que os políticos, governando estados com grande visibilidade, têm lá sempre uma alcunha. Dizem que um é bêbado, dizem que outro é ladrão, dizem que outro é corno [abre os braços], que é bicha. Pra mim, sobrou maluco. Francamente, eu acho que, nesse quadro de epítetos, eu estou até com um adjetivo positivo.

Luciano Suassuna: O senhor gosta dele? [risos]

César Maia: Não, se comparar com os outros.

Alfredo Ribeiro: O senhor é maluco por múltipla escolha, prefeito?

César Maia: Sabe que eu estava lendo um artigo do Gabriel Targa... O Gabriel Targa é um sociólogo francês do final do século passado, e é o papa da micro-sociologia. Ele dizia uma coisa muito interessante. Ele dizia, num artigo: “Multidão e público”, ele dizia que criar objetos de ódio para uso do público, ainda... é interessante, em 1898... Ainda é a melhor maneira de se fazer reis do jornalismo. Então, isso é um jogo. Em 1898, o Gabriel Targa dizia isso. Nós estamos quase em 1998, e o jogo é o mesmo.  É natural, você busca ali um político em evidência e você procura carregar, você procura fantasia-lo de alguma maneira, pra que ele tenha visibilidade negativa, que a comunicação é mais fácil de ser feita...

Merval Pereira: Mas o senhor vestiu a fantasia.

Luciano Suassuna: Pois é, o senhor usou... o senhor vestiu a fantasia.

César Maia: Mas aí é uma questão de método. Se você atua na contramão da fantasia que procuram te colocar, aquela fantasia vai te caber direitinho. Se você absorve a fantasia, ela cabe com suavidade. Por exemplo, a pesquisa que eu fiz em dezembro...

Luciano Suassuna: [interrompendo] Por favor, antes de o senhor dar o dado da pesquisa, eu só queria ver se o senhor confirmava um histórico que mostra que o senhor vestiu a fantasia, que eu li outro dia no jornal. O senhor teria encontrado um maluco no centro do Rio de Janeiro que se dizia o compositor da música “Lady Laura”, do Roberto Carlos. E, depois de um certo tempo, o senhor falou: “Não, de maluco eu entendo”. Conversou com ele e falou: “Não, só se você for compositor da letra, porque a música fui eu que fiz”. É verdade?

César Maia: Você ficou triste ou achou engraçado?

Luciano Suassuna: Eu achei engraçado.

César Maia: Eu também. [risos].

Alfredo Ribeiro: Mas prefeito, se a imprensa o trata como louco e o senhor se comporta como tal, e diz: “O que eu vou fazer?”, imagina se a imprensa o tratasse como bicha, corno, como o senhor costuma dizer, ou como... O senhor também se comportaria como tal?

César Maia: Eu absorvi esse adjetivo porque ...

Alfredo Ribeiro: [interrompendo] Absorveria também o de ladrão, bicha, corno...

César Maia: Não, absorvi porque foi esse aí que foi colocado...

Alfredo Ribeiro: [interrompendo] Deu sorte, então?

César Maia: Claro. Graças a vocês. Agora, o que a população do Rio de Janeiro diz é uma coisa que, a mim, me impressiona muito. Ela diz assim na rua... Pode fazer a qualitativa que vocês quiserem no Rio de Janeiro, se não disser isso eu pago a qualitativa. Se não der isso, eu pago a qualitativa. [risos]. Elas dizem assim: “Pra enfrentar a bagunça do Rio de Janeiro, pra enfrentar a desordem, só mesmo sendo maluco”. [risos]. “Pra enfrentar camelô, pra enfrentar falso mendigo, tráfico de tóxico...” [todos falam ao mesmo tempo]

Alfredo Ribeiro: Mas a qualitativa... Eu diria que essa é uma imagem que o senhor fez da população e não resta à população alternativa senão vestir essa imagem a esta altura do jogo.

César Maia: Se eu disser assim: “Você é burro pra cachorro”. Ninguém vai imaginar que é burro pra cachorro. Você é muito ignorante. Então, quando a população usa esse termo: "Maluco", ela usa substituindo o termo coragem [abre os braços]. Me acha corajoso, audacioso, enfim.

Matinas Suzuki Jr.: [Todos falam ao mesmo tempo] Só um minuto... o telespectador Paulo Aparecido de Oliveira, que é de São João da Boa Vista, aqui no estado de São Paulo,  pergunta o que que o senhor acha dos chargistas do jornal O Globo.

César Maia: Magníficos. Eu tenho, na parede da minha sala, eu tenho uma coleção de charges. Até a Vejinha [parte integrante da revista Veja que traz, semanalmente, para cada grande cidade brasileira, um suplemento com informações sobre cultura, política, economia e outros assuntos daquele município] vai fazer uma matéria sobre charges esta semana, que é uma matéria até boa para ser discutida. Eu tenho duas paredes com quadros emoldurados, com as charges que fazem de mim... A pessoa que é chargeada...

Maurício Styger: [interrompendo] O senhor vai sair da prefeitura e vai ser um ombudsman [profissional contratado por uma empresa para receber críticas, sugestões e reclamações. Deve agir em defesa da comunidade de maneira imparcial], não é? O senhor vai sair da prefeitura e vai ser um ombudsman da imprensa, está querendo discutir...

César Maia: [interrompendo] O que eu posso dizer é o seguinte: A pessoa quando é destacada por um chargista do O Globo, e é colocada na primeira página, é uma pessoa que deve ter alguma importância, certo? É assim que eu me coloco. Não é uma questão de vaidade, mas é uma realidade.

Luciano Suassuna: Acompanhando esse raciocínio aí do senhor, quer dizer, o senhor veio com o Rio cidade, fez várias obras, tirou camelô de rua, enfim, tem toda uma série, aí. E estamos em véspera de eleição, eu perguntaria assim: “O senhor planeja alguma maluquice para essa época de eleição”? Maluquice nesse sentido que o senhor...

César Maia: Se houver oportunidade, por que não, não é? [risos] A maluquice maior que eu planejo para essa eleição é ganhar a eleição [risos]. Ganhar a eleição sem partido, sem candidato, como eu ganhei a eleição de 1992.

Merval Pereira: Agora, por falar nisso, por que é que o senhor não consegue chegar a um acordo com o governador Marcello Alencar para ter um candidato mais viável do que candidatos separados?

César Maia: Merval, porque o governador tem que oferecer um nome do tamanho da cidade do Rio de Janeiro. Ele não pode fazer uma experiência. Outro dia, um conhecido meu gravou imagens de uma pré-convenção do PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira] em que ele dizia para um candidato, colocando a mão em cima dele, que um candidato jovem, deputado, pessoalmente tenho a maior admiração, como tenho por você. Mas, não gostaria que você fosse prefeito da cidade do Rio de Janeiro, como não gostaria que ele fosse prefeito da cidade do Rio de Janeiro...

Merval Pereira:  Eu ia dar um bom prefeito...

César Maia: Não, eu estou falando o seguinte: Eu estou dizendo que você não está preparado para isso, que você não está na carreira política. Ele está, mas não tem a experiência necessária. Então, por que é que o governador não apresenta o nome do presidente do PSDB, o senador Artur da Távola [Deputado federal de 1985 a 1995 e senador de 1995 a 2003. Concorreu à prefeitura do Rio de Janeiro em 1988, mas não foi eleito]?

Merval Pereira: Mas o que o senhor ia dizendo, botou a mão no...

César Maia [interrompendo]: Ele botou a mão e disse: “Eu vou impor ao candidato o programa que ele terá que subscrever...” Eu tenho o vídeo, te empresto para você ver. Quer dizer, esse é o tratamento que ele dá. Afinal de contas, o Rio de Janeiro, Merval, é uma cidade que foi capital da República por quase 200 anos. Capital cultural do país. A cidade que expressa a própria cara do Brasil no exterior. Como é que vai ter um pau mandado prefeito dessa cidade? Não pode não. A cidade tem que ser defendida [aponta para o chão]. O prefeito dessa cidade tem que saber qual é a história da cidade, a sua força, a sua energia. Não pode submeter a ser prefeito como secretário do governador. A única questão que o prefeito, eu peço, o PFL pede, é isso: Que escolha um nome da dimensão da cidade do Rio de Janeiro, não improvise um garoto.

Merval Pereira: Mas ter um prefeito bem relacionado com o governador não é melhor?

César Maia: Você já viu com o Brizola e com o Marcello Alencar. Ora, o Brizola foi governador lá [no Rio de Janeiro] duas vezes. E os prefeitos do PDT [Partido Democrata Trabalhista] sempre bem relacionados com o Brizola. Deu certo? O que nós precisamos...

Merval Pereira [interrompendo]: Mas aí o erro era de origem...

César Maia: Bem, então a fórmula não está boa. A fórmula também não funciona, às vezes. Eu não posso admitir é que a cidade do Rio de Janeiro seja espoliada pelo governo do estado como vem sendo esses anos todos, em que não há transferência de um centavo de salário educação. Um centavo de salário educação. Um centavo. Em que o IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados] de exportação só foi transferido a partir de janeiro de 1995, quando eu pedi a intervenção no estado do Rio de Janeiro. O governador teve que transferir. E são 150 milhões de dólares, ou de reais, de recursos que não foram transferidos. O prefeito Paulo Maluf, ou o prefeito Tarso Genro [prefeito de Porto Alegre de 1993 a 1997 e de 2001 a 2002. Ex-ministro da Educação, das Relações Institucionais e, em 2007, da Justiça] têm gerência sobre a polícia de trânsito. E eu não posso ter gerência sobre a polícia de trânsito, que os recursos da multa tem que ficar com o governo do estado? Não quero os recursos da multa, eu quero a gerência sobre a polícia de trânsito. Então, defender a cidade do Rio de Janeiro exige um pouquinho mais do que uma pessoa com qualidades pessoais, exige experiência.

Matinas Suzuki Jr.: Prefeito, a Sandra Cavalcanti parece que é a candidata com mais popularidade dentro do seu partido. Como o senhor avalia a candidatura dela?

César Maia: É um dos nomes. Ontem de noite eu estive com três pré-candidatos, o Luis Paulo Conde [que sucedeu César Maia na prefeitura, de 1997 a 2001], que é o secretário de urbanismo, os deputados Solange Amaral e Eder Dantas [mexe as mãos de um lado para o outro], e os três estão em pré-campanha. Eu, para o meu gosto, eu acho a Sandra Cavalcanti madura, que ofereceria todas as garantias. Para o meu gosto, eu acho que a gente deve aí enfrentar essa eleição com a cara da prefeitura. A gente tem que colocar no vídeo [olha diretamente para a câmera], tem que dizer no vídeo: “Se você quer que continue o que está aí, vota com o nosso candidato. Se você quer que volte atrás, ou quer que mude, vota com outro”. Nós temos que ser sibilinos. Temos que ser transparentes. Quem quer que volte a desordem, quem quer que volte a bagunça, quem quer que volte o camelô como padrão de ocupação das calçadas, quem quer que volte a desorganização financeira, quem quer que volte a pivetagem, a falsa mendicância, a indústria da invasão do solo urbano, a ocupação desordenada da terra na cidade do Rio de Janeiro, que vote com eles. Quem não quer, que vote com a gente.

Claudia de Souza: Mas não seria eficaz uma aliança do PSDB com o PFL para...

César Maia: [interrompendo] Eu defendo isso. Eu defendo que a primeira prioridade nacional hoje é o fortalecimento político do presidente da República. Acho que essa é uma questão das questões. Nós vivemos num perigoso processo em direção a anomia. Para usar uma expressão do Ralf Dahrendorf [sociólogo alemão]. “Anomia é um estado em que as leis, as regras, as normas, cada vez funcionam menos”.

Cláudia de Souza: [interrompendo] É isso que está por trás do seu percurso para a direita?

César Maia:  Nós, deixa eu completar. Nós, há 15 dias atrás, saltamos, caminhamos da barbárie à anarquia em uma semana. De um lado, a barbárie contra os lavradores, os sem-terra. E depois, a anarquia quando os garimpeiros pararam a produção da Vale do Rio Doce [É a maior empresa brasileira do ramo da mineração. Foi criada no governo Getúlio Vargas. É uma empresa privada e de capital aberto, privatizada em 1997] . Isso é inadmissível. E o governo não deu sinais de normalização dessa situação, de restabelecimento da lei, da autoridade e da ordem. E esse caminho em direção a anomia é um perigoso caminho. E nós precisamos fortalecer politicamente o presidente da República [Na época, Fernando Henrique Cardoso, do PSDB]. Nesse sentido, eu priorizo o fortalecimento. Acho que seria bom para o  presidente da República que tivesse um candidato de forças que lhe dão sustentação nacional, tanto no Rio como em São Paulo. Se nós conseguíssemos isso, e o PFL e eu estamos absolutamente abertos, e isso a direção nacional do PFL disse ao senhor presidente, através do nosso presidente, o doutor Jorge Bornhausen [gesticulando], que nós queremos que o presidente tenha tranqüilidade no Rio de Janeiro. Nós abrimos mão, embora numa situação muito mais confortável que o governador neste momento. Estão aí as pesquisas de opinião para dizer isso, prefeito e governador. Mas nós abrimos mão dessa situação para que venha um nome do PSDB, mas francamente, um nome do tamanho do Rio.

Matinas Suzuki Jr.: Prefeito, nós precisamos fazer agora um breve intervalinho, e a gente volta daqui a pouco com o segundo tempo da entrevista com o prefeito César Maia. Até já.

[intervalo]

Matinas Suzuki Jr.: Bem, nós voltamos com o Roda Viva, que esta noite entrevista o prefeito do Rio de Janeiro César Maia. Prefeito, o Rio de Janeiro está vivendo um processo, até onde se sabe, inédito no Brasil, que é uma administração especial no seu banco estadual, que é o Banerj [Banco fundado na década de 1960 e incorporado pelo banco Itaú em 2004]. O senhor esteve à frente das finanças do Rio de Janeiro e conhece  bem o Banerj. O que o senhor está achando desse modelo de gestão do Banerj?

César Maia: Olha, eu acho que o modelo é criativo. Embora o contrato seja criticável porque é fácil ganhar dinheiro com aquele contrato. Quem dera a mim, economista, filho de classe-média, classe média baixa, poder ser gestor de um contrato desses e ficar multimilionário. Mas acho que o Banerj é inviável. Conheço o Banerj de trás para frente. Se tornando um banco privado, não terá mais direitos exclusivos sobre os depósitos judiciais. Isso vai fragilizar duramente a situação do banco. O problema do banco é operacional, não são dívidas com o setor público, tenho insistido nisto. Quem acha que o problema do Banerj são dívidas com o setor público está redondamente enganado, acho muito difícil recuperação do banco em mercado.

Marcelo Mendonça: Prefeito, o senhor era um homem de esquerda, precisou se exilar, e disse que aprendeu com os erros do passado e. por isso, foi guinando para onde o senhor está hoje. Agora que o senhor está no PFL, o senhor se considera finalmente em boa companhia?

César Maia: Olha, eu não sei, sabe. Porque o que caracteriza o Brasil não é exatamente a existência de partidos orgânicos. Eu acho que nenhum partido no Brasil é orgânico. E partidos que não tenham um programa rígido, partidos que não servem de referência automática à população, o que permite esse bambolê que acontece na política brasileira. Necessário que sejam construídos partidos. Eu acho que o PFL é um núcleo consistente para formação de um partido político. E uma vez formado um partido político com teses lastreadas no pensamento social liberal, como prefere o vice-presidente Marco Maciel [Um dos fundadores do PFL. Foi deputado, governador de Pernambuco e vice-presidente da República de 1995 a 2002. Senador eleito pelo estado de Pernambuco em 2003], humanista liberal, eu me sentiria muito bem dentro do PFL como estou me sentindo hoje

Cláudia de Souza: Mas como se o senhor  se acha um neoliberal? O que é que é isso? Como que o senhor se vê politicamente? E como projeto para o Brasil?

César Maia: Bem, eu sou um liberal na medida que imagino que as questões básicas vão ser resolvidas num regime de liberdade, de livre iniciativa e de economias razoavelmente abertas. Mas eu vivo no Terceiro Mundo. E por isso eu sou um social liberal. Não é admissível, num país de Terceiro Mundo, que não se tenha uma presença contundente do Estado em funções que só o Estado pode responder, num país dual como o nosso. Por exemplo, a prefeitura do Rio de Janeiro, ela foi privatizando alguns segmentos. Dois terços dos equipamentos da Comlub [Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro], hoje, são terceirizados. Antes, nós tínhamos 100% de equipamentos estatais. Mas foi estatizante em outros setores. Eu criei uma empresa para desenvolver e estimular o mercado de software, a Rio Soft, que é uma parceria do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] com a prefeitura do Rio de Janeiro. Criei uma rede de sete teatros municipais. Aumentei a participação do setor público na educação pública em 30%. Saí de 8% do atendimento da demanda de saúde pública e hoje eu ofereço à demanda 30%. Enfim, nós estamos avançando com o Estado muito e profundamente, em funções que são típicas do Estado em um país de Terceiro Mundo. Questão da ciência e tecnologia, questão cultural [pontuando com os dedos]. Eu invisto em política cultural porque o ministro Weffort [Francisco Weffort. Ministro da Cultura no governo Fernando Henrique Cardoso] informou que gostaria de ter investido no ano passado. Ano passado, investi em política cultural 75 milhões de reais, era a ambição do ministro Weffort. Foi o que o prefeito Guiliani [Rudolph Giuliani. Prefeito de Nova Iorque, nos Estados Unidos, de 1994 a 2002. Tornou-se famoso por implementar uma política de “tolerância zero” contra criminosos da cidade.] investiu em bibliotecas, e investirá em 1996 em Nova Iorque. E essas são funções que não eram exercidas pelo Estado, da prefeitura do Rio de Janeiro, em governos anteriores.

Matinas Suzuki Jr.: Agora, prefeito, como o senhor avalia a política econômica do governo federal? Basicamente a questão dos investimentos nos chamados setores sociais? Uma vez que o senhor acha que o Estado tem que ter algumas obrigações...

César Maia [interrompendo]: Olha, é uma questão que nós temos que tratar com muita responsabilidade. Porque nada de mais importante aconteceu no Brasil que o presidente Fernando Henrique Cardoso [Presidente da República de 1995 a 2002]. Me preocupa o fato do governo, com exceção da área fazendária, não ter começado ainda. Me preocupa que com um ano e quatro meses, o déficit público tenha crescido tanto. E muito mais do que os números que os jornais informam. Se você levar em consideração que as receitas aumentaram 30%, você vai verificar que a perda de posição fiscal não foi de cinco pontos do PIB [Produto Interno Bruto], talvez tenha sido do dobro. Que é uma situação delicadíssima. Nós precisamos analisar com cuidado, porque nós vivemos uma situação de expansão do crédito e do aumento do déficit público que foi a fórmula mexicana. Então, é necessário que esse quadro seja revertido imediatamente. Se você tomar o último ano, os meses de pagamento cresceram a taxas muito importantes, próximas a 40%. Enfim, nós temos uma questão delicada na esfera econômica. Acredito que a liderança do ministro Malan [Pedro Malan. Foi ministro da Fazenda de 1995 a 2002. Foi um dos responsáveis pela elaboração do Plano Real] nos dá grande tranqüilidade e conforto, e nós precisamos que o governo exista nas outras áreas. Eu não vejo o governo existir na área de transporte.

Cláudia de Souza: Mas isso não depende das prefeituras mais do que do governo federal, prefeito?

César Maia: O quê?

Cláudia de Souza: Gastos sociais. Há de haver um... O que sempre se disse é que esse... Se está em déficit, não sairá dos recursos que o contribuinte dá para a União, os recursos para resolver os problemas, mas sim das prefeituras. Como a sua, que está bem de caixa...

Matinas Suzuki Jr.: Além do que o governo federal freqüentemente responsabiliza estados e municípios pelo déficit.

Claudia de Souza: O que o senhor acha disso?

César Maia: Eu acho que o governo federal vai acabar não servindo mais de referência para a população. Porque o presidente dos Estados Unidos vai a uma escola. Vai a um asilo. O presidente dos Estados Unidos parou o país discutindo o orçamento na área social. Eu estou falando dos Estados Unidos da América do Norte. Estavam discutindo saúde e educação e o orçamento ficou meses para ser aprovado. O presidente da França e seu primeiro ministro, estão discutindo a questão da educação e da saúde. As compensações sociais. Para onde que nós vamos? Nós vamos para um governo federal que vai tratar de política de estabilização e política externa? Bem, se a gente vai nesse caminho, daqui a alguns anos o povo não vai saber qual o nome do presidente da República. Ele tem que entrar de cabeça na questão social em parceria com estados e municípios. Se a cidade do Rio de Janeiro tem recursos para responder às demandas sociais, e o está fazendo, não é a mesma situação de municípios pobres e pequenos, que perdem a sua população, que migram para as grandes cidades, porque não tem recursos para dar respostas à aflição do povo.

Cláudia de Souza: E onde o senhor vê o governo federal, então, contendo gastos para que ele possa gastar com despesas sociais? Como é que o senhor imagina e desenha uma real contenção de gastos no setor público?

César Maia: Olha, eu não conheço as contas do governo federal por dentro. Mas eu vou lhe fazer uma afirmação aqui que você vai achar que é uma afirmação exagerada. Eu termino com esse déficit do governo federal em 6 meses, 8 meses. Entregue as contas fiscais do governo federal, eu acabo com o déficit como eu acabei no estado do Rio, como eu acabei na prefeitura do Rio de Janeiro, e acabo a nível federal. Agora...

[...] O senhor é candidato a ministro, no ano que vem?

César Maia: Eu não sou candidato a nada. Eu sou candidato a terminar bem a prefeitura. Eu te afirmo que a minha experiência de especialista em finanças públicas me permite asseverar que o gasto cai. As receitas sobem. Porque eu trato essa questão de forma rigorosamente técnica. Não há qualquer tipo de concessão a contribuinte. Não há nenhum tipo de abertura em relação à cobrança de impostos, à fiscalização. Eu, por exemplo, vou dar um número para vocês. Testem. Perguntem aos empreiteiros brasileiros, que eu tenho empreiteiros no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, empreiteiros no nordeste, empreiteiros em São Paulo... pergunte se eles não fazem obras públicas no Rio de Janeiro 30% mais baratas do que fazem em qualquer lugar do Brasil?

Matinas Suzuki Jr: Inclusive São Paulo?

César Maia: Inclusive São Paulo. Desafio. Eu desafio comparar através de qualquer órgão da imprensa...

Matinas Suzuki Jr: Eu pergunto porque o prefeito Paulo Maluf também costuma dizer isso que o senhor disse.

César Maia: Muito bem, eu desafio a comparar através... [sendo interrompido] Pega as licitações... Como é que a licitação é feita? É feita através de preços de serviços. São tabelas. Você vê os preços das licitações e compara. Vê os preços dos meus medicamentos, da minha merenda escolar. Eu conto centavos. Eu conto centavos de aluguel. Eu conto centavo do custo de qualquer serviço. Eu apago a luz quando saio do meu gabinete. Para mim, centavo é centavo.  É como se fosse um bilhão. Então, é claro que os recursos aparecem. Eu trato a questão do funcionalismo com o ônus que eu tratei. Estão aí os governadores dizendo que precisam de reforma administrativa. Pra poder demitir funcionários. Eu pergunto: Eles não têm administração indireta? Eles não têm celetistas? Será que eles só têm gordura na administração direta? Eles não têm gordura nas empresas? E por que não demitem nas empresas? Estão querendo ganhar tempo e pedir dinheiro do governo federal, que de forma irresponsável, através do BNDES [Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social] e da Caixa Econômica [Caixa Econômica Federal], vêm suprindo a administração financeira deficiente que os governadores tiveram no ano de 1995. Todos eles receberam os estados com superávit. Um superávit ilusório em função do Plano Real. Agora, eu te digo uma coisa: Eu apliquei a medida provisória do Plano Real até o último artigo. Eu fiz o deságio de todos os contratos, de todos os fornecedores de empreiteiros [gesticulando]. Que estado que fez isso? O governo federal, que baixou a medida provisória, não fez. Foi tudo na campanha eleitoral. Não faziam os deságios e iam lá acertar com os fornecedores e empreiteiros. A prefeitura do Rio de Janeiro refez, um a um, centenas de contratos. Por isso que nós temos dinheiro. Na prefeitura do Rio de Janeiro, não se rouba e não se deixa roubar. E quando eu falo em roubar, não falo apenas em honestidade pessoal ou não. Porque para mim, pegar o dinheiro da população e comprar um copo mais caro, um centavo, é roubar o dinheiro do povo. O dinheiro não é meu. Então, essas questões são observadas com displicência na administração pública brasileira. Por isso está todo mundo quebrado.

Cláudia de Souza: Prefeito, houve alegações de que nas suas obras, no Rio de Janeiro, houve uma coincidência de interesses entre o percurso da prefeitura nas obras e o de uma empresa de telecomunicações, a NET [empresa de TV por assinatura e banda larga cujo sócio majoritário, na época, era a Rede Globo]. Como é que o senhor responde a essas alegações que apareceram?

César Maia: Olha, vamos admitir que tivesse havido essa coincidência que você usou. É bom para o Rio de Janeiro. Uma empresa do Rio de Janeiro, da importância da NET, estar aumentando a sua oferta de serviços à cidade do Rio de Janeiro, diversos bairros...

Cláudia de Souza [interrompendo]: Ela não deveria pagar por isso?

César Maia: Pagou. Ela pagou direitinho. Ela paga pelo serviço, ela paga pelo serviço da obra pública [pontuando com os dedos], ela pagou todas as taxas direitinho. E o Rio de Janeiro teve uma ampliação de taxa de oferta de serviço. Olha, se por acaso a NET tivesse me procurado para tratar dessa questão, eu teria respondido positivamente. Um governador dá subsídios e impostos, diz que a empresa só vai pagar daqui a seis meses para atrair uma empresa para o seu estado. Ora, quando uma empresa se expande, uma empresa de serviço, ela cria emprego também.

Cláudia de Souza: E o senhor aceitaria uma concorrência, se beneficiando da mesma maneira?

César Maia:  Evidentemente. Você está tratando da TVA [empresa de TV a cabo, na época de propriedade do Grupo Abril]. O que aconteceu com a TVA é que ela não conseguiu me trazer a concessão de serviço público do ministério das Comunicações. Eu tive na minha sala com o superintendente da TVA, eu disse: “Preciso da concessão. Você não é um concessionário". E a TVA fazia propaganda nos jornais do Rio de Janeiro dizendo: “Essa não precisa de cabo, essa vai através de satélite”. Acho que a TVA está certa. Eu acho que quem vai para cabo vai ficar obsoleto em pouco tempo. Tanto acho que, aí nessa questão de mercado, a TVA está até na frente. Agora, eu não posso deixar de oferecer as melhores condições de investimento para uma empresa na minha cidade.

Matinas Suzuki Jr.: Prefeito, o pessoal aqui de São Paulo está preocupado com a questão da violência, da criminalidade no Rio. A Carla, daqui de São Paulo, o Eliberto Reinaldo, daqui de Limeira, no estado de São Paulo, a Ana Lúcia, que é produtora aqui em São Paulo e o Vicente também aqui de São Paulo encaminham questões relativas à questão da violência. Eu vou tentar resumir todas as perguntas na pergunta do Vicente: “Qual o resultado do trabalho que o exército fez no combate à violência no Rio de Janeiro e como o senhor avalia hoje a questão da violência? Ela está melhor, pior, está sendo contida, não está sendo contida”?

César Maia: Bem, ela está pior. Estaria muito pior se a não-política da administração Brizola tivesse continuado. Os atuais dirigentes da área de segurança pública não se acumpliciam com a marginalidade. E, portanto, a esperança que ainda se tem neles... bem, existe porque não existia anteriormente. A intervenção do exército, ela fracassou por duas razões. Primeiro, ela não teve uma ação coordenada com as forças de segurança pública. Segundo, não teve continuidade. E depois, quando o governador Marcello Alencar assumiu, ele assumiu despreparado na área de segurança pública e já tem seis diretores da delegacia anti-seqüestro até hoje, já tem três delegados de Polícia Civil, já é o segundo secretário de Segurança, enfim, você teve um grande improviso nesses meses todos. Mas, de outra maneira, você tem uma atitude muito mais coerente hoje do que se tinha antes. Não estou satisfeito, continuo criticando, acho que se pode ir muito além do que se está indo. Os recursos que o governo do estado contou até agora para segurança pública, novos, foram recursos emprestados pela prefeitura do Rio de Janeiro [aponta para si] ao governo do estado. Coisa inusitada no mundo todo.  Eu emprestei 50 milhões de dólares. Quando li, no The New York Times [jornal americano de circulação diária. Um dos jornais mais influentes do mundo], anteontem, ou quinta feira, ou quarta, que o governo dos Estados Unidos está emprestando para Israel, em função dos problemas que está tendo para equipamentos etc, 70 milhões de dólares, eu achei que emprestei até muito dinheiro. 50 milhões de dólares foram entregues ao governo do estado, para reequipamento da segurança pública no Rio de Janeiro, e se precisarem de mais, empresto mais.

Matinas Suzuki Jr.: O senhor acha que a questão da repressão à violência é uma questão de polícia, só? Falta no Rio de Janeiro... O senhor insiste muito na questão da ordem. Não há outras questões que precisam ser tentadas conjuntamente?

César Maia: Olha, se eu achasse isso...

Matinas Suzuki Jr.: [interrompendo] Por exemplo, o que o senhor pensa das teses de descriminalização de uma parte dos chamados tóxicos...

César Maia: Eu vou primeiro responder à questão inicial. Se eu pensasse isso, eu não estaria liderando o maior programa de integração de favelas, que hoje é realizado no mundo todo, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento [BID], que é o favela-bairro. Um programa de 300 milhões de dólares na primeira fase e que depois dobra para 600 milhões de dólares. Que na primeira fase atenderá 350 mil pessoas. Não estou falando de três ou quatro mil, 350 mil e, na segunda fase, dobrará. Um programa que já pode ser visto no Rio de Janeiro, em algumas comunidades, que atua de forma complexa, porque atua nos equipamentos sociais, atua na geração de renda, atua na urbanização, no saneamento e na acessibilidade, que é uma questão de fundo, para áreas da cidade que foram guetizadas através da ocupação desordenada e da demagogia nestes anos todos. Esse programa é um programa de integração e de ocupação social das favelas. Você pode ver hoje, no Caju [bairro do Rio de Janeiro], na Ladeira dos Funcionários [favela-bairro], é um nome apenas, você pode ver no morro da União, no morro da Fé [também são consideradas favelas-bairros], como esse programa avança. E hoje, o BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento] utiliza esse programa como referência para análise dos demais. A própria prefeitura de São Paulo, neste momento, está com dificuldades de aprovação do projeto Cingapura [projeto da prefeitura de São Paulo para construção de prédios no território de favelas], porque ele foge muito dos padrões do favela-bairro, que é a referência hoje do BID.

Luciano Suassuna: Prefeito, por favor, queria ver se o senhor me explicava, me parece uma contradição, não consegui entender direito. O senhor disse que gastou mais em educação, está fazendo um programa de integração das favelas... O senhor, teoricamente, estaria resolvendo um pedaço da parte social e, ao mesmo tempo, o senhor diz que aumentou a violência no Rio de Janeiro. Se o senhor resolveu a parte social, por que aumentou a violência?

Merval Pereira: Essa coisa, eu também não entendi. Pelo que eu entendi, o senhor acha que melhorou a situação. O senhor acha que não está boa ainda? O senhor disse que está pior, mas estaria muito pior. Isso quer dizer que melhorou.

César Maia: É claro que sim. Só você tem autoridades, na área de segurança pública, que não se acumpliciam objetivamente, não estou nem dizendo que seja a intenção, com a marginalidade, é claro que melhorou. Agora, você não vai imaginar que um programa de reversão da crise do Rio do Janeiro, do quadro de abandono, da dualidade social, da dualidade legal, da violência, é reversível em um par de meses. Isso é um processo. É um processo que começou, que já está andando e que vai, essa reversão, se ver progressivamente. Agora, de nada adianta se nós, ao lado dos serviços sociais, não tivermos serviços de defesa do cidadão. De segurança pública.

Luciano Suassuna: Não, perfeito. Agora, pelo que eu entendi do senhor foi o seguinte: “Eu fiz a minha parte como prefeito, ou estou fazendo a minha parte como prefeito, melhorei os gastos sociais e tal. Bom, mas o governo do estado, que eu quero que seja meu aliado na campanha eleitoral deste ano, não está fazendo a parte dele”. Dá para o senhor explicar como é que o senhor quer um aliado que acha que está fazendo um péssimo trabalho na questão principal do Rio, que é a segurança?

César Maia: Vai ver que é por isso. Se o governo do estado, depois de dezesseis meses de administração, praticamente ainda não começou também, está aí parada a rede ferroviária, parados os investimentos, parada a área de educação, de saúde, onde nada funciona no governo do estado, a área de segurança pública, o único salto que deu foram com os recursos da prefeitura... Eu acho que essa associação é boa para ele. Afinal de contas, a prefeitura tem aí os seus projetos andando...

Luciano Suassuna: Sim, mas por que o senhor quer? Se é boa só para eles?

César Maia: Eu quero para fortalecer politicamente aquilo que é mais importante, que é o quadro nacional. O PFL tem a vice-presidência da República. A nível nacional, o PFL coloca como primeira prioridade, eu concordo plenamente, é o fortalecimento do presidente da República de um governo que não apenas o PFL participa, mas em alguma medida lidera também.

Luciano Suassuna: Para isso, o senhor disse que queria um nome do PSDB, mas não disse qual. Quem é o nome?

César Maia: O Artur da Távola. Eu disse aqui. Um senador que foi presidente do PSDB há pouco tempo, nos dá enorme tranqüilidade...

Luciano Suassuna: Desde que ele não precise cumprir a cartilha do governador, é isso?

César Maia: Não. O que eu quero, nessa coligação...

Luciano Suassuna [interrompendo]: Que ele cumpra a cartilha do senhor.

César Maia: Não. Eu quero, nessa coligação, que uma questão não haja qualquer tipo de dúvida. É a permanência e a continuidade da política de restabelecimento da lei, da autoridade e da ordem na cidade do Rio de Janeiro, de defesa dos espaços públicos, de combate à invasão do solo urbano, de combate à falsa mendicância, de repressão à pivetagem abusiva. E por aí vai. Então, essas questões não são transáveis. Todas as outras questões políticas estão em aberto [abre os braços].

Claudia de Souza: Prefeito, o senhor aprendeu, nestes meses de administração do Rio, a lidar com a corrupção? Descobriu alguma maneira eficaz de combatê-la?

César Maia: Agora você vê, eu estou aí há três anos e quatro meses. Um governo sem escândalos. Um governo em que não há qualquer tipo de insinuação por parte dos meios de comunicação, que estão sempre de plantão, para questões tão graves em matéria de interesse público, sobre as ações da prefeitura. Quer dizer, isso me dá conforto. Eu criei a primeira controladoria independente da área fazendária do Brasil, regulamentando a constituição federal. A prefeitura do Rio de Janeiro tem uma controladoria gerida profissionalmente, sem interveniência política. A procuradoria, que fazia advocacia para fora [aponta para trás], hoje compõe o sistema de controle jurídico. Também de caráter estritamente profissional. A área fazendária é dirigida de forma absolutamente profissional. Eu divido as ações da prefeitura em funções de Estado, que são essas profissionais e contínuas, citei três: A fazendária, a controladoria e o controle jurídico, e do outro lado, as funções de governo. Que essas sim, são funções descontínuas e que dependem da política. E, por isso, nós temos aí o resultado que estamos tendo.

Alfredo Ribeiro: Prefeito, o senhor foi eleito, na verdade, na reta final da eleição, pelo grupo do governador Marcello Alencar. E o senhor está aí há três anos e quatro meses e há três anos e quatro meses o senhor e o governador Marcello Alencar estão brigando. Estão brigando o tempo todo, porque o dinheiro não saiu daqui, não parou ali. O senhor não acha que o desagrado maior nessa história toda é de quem o elegeu?

César Maia: Olha, as pesquisas, Alfredo, de opinião pública, todas, sem nenhuma exceção, até o dia que eu recebi o apoio do filho do governador, me davam uma vantagem folgada, de sete, oito pontos.

Alfredo Ribeiro: O senhor reconheceu várias vezes que foi eleito pelo apoio do grupo do Marcello Alencar.

César Maia: Nunca reconheci isso. Nunca disse isso. E mais, eu ouvi do governador, na casa dele, quando fui conversar com ele sobre o segundo turno, de que o coração dele batia para a Benedita da Silva [Eleita vereadora do Rio de Janeiro em 1982. Em 1994, foi eleita a primeira senadora negra do Brasil. Em 1998, foi vice-governadora do estado do Rio e assume o cargo em 2002. Ministra da Ação Social de 2003 a 2004. Em 2007,assumiu a secretaria da Ação Social e Direitos Humanos do estado do Rio de Janeiro]. Ele me disse isso, na varanda da casa que eu moro hoje, como prefeito. E que o filho dele, Marco Antônio, é que estava me apoiando. Eu posso dizer o seguinte: Que eu sou grato ao apoio que foi feito, mas não mudaria a eleição, o que não me levaria, mesmo sabendo isso, a querer o apoio dele. Porque aumenta a margem de segurança. Agora, eu devo a minha eleição ao descortínio, à sabedoria do povo do Rio de Janeiro, que naquele momento disse um basta para a bagunça e para a desordem. Que juntou do outro lado todo mundo, Lula, Azeredo, Requião, Brizola, todo mundo, e do outro lado um tecnolítico, um economista, um técnico e que obteve uma vitória sobre todas essas forças. Isso é ou não é descortínio da população? Quer dizer, eu nem imaginava que ela pudesse estar sinalizando e reforçando a minha intervenção, como o fez. Por isso eu tenho essa margem de intervenção, essa autonomia para atuar na prefeitura, que eu tenho.

Matinas Suzuki Jr.: Prefeito, gostaria que o senhor me desse aqui um espacinho, de pedir licença também para os nossos entrevistadores, para ler algumas perguntas dos nossos telespectadores. O Marcos Rosendo, do Butantã, pergunta: “O senhor que já transitou por vários partidos, aceitaria formar uma chapa com o Paulo Maluf para as eleições presidenciais em 1998”?

César Maia: Por que não? Não é esse o objetivo do PFL?, é o fortalecimento do partido no sudeste. E para isso eu fui convocado. E eu vou procurar cumprir a minha missão.

Matinas Suzuki Jr.: Esse fortalecimento passaria, por exemplo, para uma eventual candidatura do senhor para governador?

César Maia: Provavelmente. E se, no final de 1997, a avaliação do meu governo, de longe, for positiva, esse seria o caminho natural que fortaleceria, no sudeste, o PFL. Se tivesse candidato nacional a presidente da República, se poderia ter aí uma lincagem positiva para o partido. Se o partido decidisse outro caminho, por exemplo uma coligação com o PPB [Partido Progressista Brasileiro], e essa fosse a minha tarefa, eu cumpriria de bom grado.

Matinas Suzuki Jr.: O Álvaro de Melo, lá do bairro de Botafogo no Rio de Janeiro, pergunta se o senhor considera o Antônio Carlos Magalhães [(1927-2007), governou o estado da Bahia 3 vezes e foi eleito senador da República em 1994 e 2002, considerado um dos políticos mais influentes do estado da Bahia e também do país], do PFL como político liberal e moderno?

César Maia: Por que não? Eu, o Gilberto Gil, o Caetano Veloso, agora parece que tem um problema com o Dorival Caymmi [cantor e compositor], o Jorge Amado [escritor]. Eu acho que... eu não cobro, não quero cobrar de mim, um rigor em relação a erros do passado. Não posso cobrar de ninguém. Ele está na frente, liderando, no Congresso Nacional, as reformas e, portanto, acho que temos que avaliar sua atuação política no dia de hoje, que é muito positiva.

Matinas Suzuki Jr.: Fernando Salgado, que é daqui de São Paulo, diz o seguinte: “O senhor está gesticulando da mesma forma que o ex-governador Brizola. Isso é algum tipo de recaída”?   

César Maia: [risos]. Não, isso é uma gesticulação italiana, não é? Enfim, isso aí a gente vai adquirindo o hábito de professor. Agora, uma coisa é o governador Brizola na sua ação política. Outra coisa é na sua sabedoria política. Eu convivi com ele dez anos e muita coisa aprendi da sua sabedoria política.

Matinas Suzuki Jr.: Pelo jeito aprendeu rápido, o senhor como tecnolítico aprendeu rápido a política.

César Maia: Dez anos. Dez anos é muito tempo. A gente vai aprendendo, vendo com cuidado. Enfim...

Cláudia de Souza: Se o senhor pudesse fazer um comentário sobre a elite no Brasil, já se alegou várias vezes que o governo Fernando Henrique é um governo dos ricos. Também já se disse que o seu governo, a sua prefeitura no Rio de Janeiro, é mais voltada para áreas de... enfim, mais privilégios. Como vê essas visões, e como vê o papel da elite, agora que faz parte de um partido que se identifica com ela, no Brasil, hoje?

César Maia: Bem, isso são as suas observações. Não são as minhas. Exatamente a faixa da população em que a avaliação da prefeitura é mais positiva no Rio de Janeiro são as favelas. Pegue todos os ibopes, dos últimos quinze meses, em todos que aparece uma coluna favela, é onde eu estou acima da média. Portanto, é uma avaliação de fora. Não é uma avaliação de dentro. Acho que as elites brasileiras são responsáveis diretamente pela situação que vive o país. Acho que...

Cláudia de Souza [interrompendo]: Onde elas estão, então, prefeito? Se elas não estão no PFL, se elas não são... se o ACM [referindo-se a Antônio Carlos Magalhães] não é um representante delas, onde estão essas elites?

César Maia: Elas estão em todos os partidos. Em que partidos não estão? Não tem empresário no PT aqui em São Paulo? Eu vejo nos jornais, na Folha [referindo-se ao jornal Folha de S.Paulo] , [...], não sei o nome direito, é um empresário do PT. Enfim, elas estão em todos os lugares. E cuidado com o termo elite porque isso pode, por exemplo, sublinhar a ação mais liberal e perniciosa que existe numa sociedade democrática que é o corporativismo. Felipe González [Político espanhol. Secretário geral do Partido Socialista Operário Espanhol de 1974 a 1997 e primeiro-ministro de 1982 a 1996], ele tem uma expressão que é muito boa, ele diz que a soberania popular é que define quem são os liberais, quem são os socialistas. E os socialistas acham que a soberania popular, em última instância, se encontra no poder político. E os liberais acham, segundo ele, que a soberania popular se encontra no mercado. E ele diz: “E o corporativismo também. Que acha que a soberania popular se encontra no mercado de trabalho”. Isso é uma visão elitista e ultra-liberal, segundo Felipe González. Portanto, as esquerdas fazem parte dessas elites também.

Cláudia de Souza: E o que o senhor acha? Quer dizer, onde estão... complementando o que o senhor disse, o seu raciocínio qual é?

César Maia: O meu raciocínio é que os governos precisam ter um grau altíssimo de autonomia em relação às elites empresariais, em relação às elites das corporações, para poder produzir as transformações que o país exige. Não pense que as reformas não passam no Congresso porque ali estão presentes os comunistas e socialistas. As reformas não passam no Congresso porque o Congresso majoritariamente representa essas elites empresariais, que não querem as reformas. Ou o governo tem a autonomia em relação a essas elites empresariais e força, do ponto de vista político, com o apoio popular, uma reversão desse quadro e conquista as reformas, ou elas não sairão. Que as elites empresariais não as querem. Eu ouvi, eu fui relator da reforma do sistema financeiro onde preparei o projeto completo, está acabado, do Banco Central independente. Muito bem. A Febraban [Federação Brasileira de Bancos] foi para dentro do Congresso nacional, está gravado, em notas taquigráficas, introduzidas no Diário Oficial, foi lá para dentro, para dizer que não queria um Banco Central independente, que queria um ministro da Fazenda político. Imagino, para eles poderem influenciar o ministro. O deputado José Serra, na época, estava a favor dessa posição, contra o Banco Central independente, e a favor das teses da Febraban. Ora, então nós temos, em relação a uma questão tão grave como essa questão da autonomia na gestão da moeda, para que o poder político e para que as elites não possam transformar a inflação em tributos, como fizeram aqui nesse Brasil nesses anos todos [gesticulando], nós temos um impedimento que não vem das classes populares. Vem dessas elites que...

Cláudia de Souza: O senhor se sente mesmo à vontade no PFL? Porque me parece que as elites industriais que o senhor critica se identificam com partidos como esse.

César Maia: O PFL não existe em São Paulo [sendo interrompido]. As elites em São Paulo, eu ouvi do deputado Fernando Bezerra Coelho, anos atrás, quando o governado Fleury [referindo-se a Luiz Antônio Fleury Filho, governador de São Paulo de 1991 a 1995] assumiu o governo aqui, e criou o fórum de desenvolvimento, o governador Fleury era coqueluche de São Paulo naquele tempo. Eu ouvi o Fernando Bezerra Coelho dizer... Estou falando do ano de 1991, eu ouvi ele dizer: “Nada disso vai dar certo. Porque o PMDB é um partido de classe média em São Paulo e está tentando disputar um espaço e não é um espaço dele. É um espaço muito mais do PDS [Partido Democrático Social] na época, do prefeito Paulo Maluf e do PSDB. O PSDB, aqui em São Paulo, está muito mais próximo do empresariado do que o PFL. O PFL está muito mais próximo, aqui em São Paulo. Estou falando de metade do país, um estado desta importância, estratégico, fundamental para o progresso do nosso país, PFL está muito mais perto de setores médios”.

Marcelo Mendonça: Prefeito, uma pergunta ficou sem resposta, o que o senhor acha da descriminalização de parte das drogas que é um dos piores problemas hoje no Rio?

César Maia: Essa é uma discussão que não acontece em praticamente nenhum lugar do mundo. Hoje...

Matinas Suzuki Jr.: [interrompendo] É uma tese liberal, prefeito. Defendida pela revista The Economist [referindo-se à revista britânica sobre economia e investimentos], que diz que o dinheiro investido na repressão é ineficiente.

César Maia: É, mas às vezes você tem um liberalismo selvagem e que não é defendido, do ponto de vista institucional, em nenhum pais do mundo, hoje. As experiências na Holanda e na Suíça fracassaram redondamente. O que se discute hoje na Europa, porque nos Estados Unidos a posição é radicalmente contra qualquer tipo de descriminação, o que se discute hoje é o acesso controlado pelo poder público ao viciado orgânico à droga. Porque o viciado orgânico se transforma em meio traficante. Ele vai para o crime para poder abastecer o vício dele. Então, há uma experiência que está sendo feita hoje em Manchester [cidade do Reino Unido] conduzida por um grupo da comunidade econômica européia, então essa é a discussão. Essa discussão, eu acho que é própria. No Brasil, que você não tem capacidade sequer para identificar traficantezinho de quinta categoria, nesse momento, discutir a descriminação seria um ato de grave responsabilidade. Se nós tivéssemos uma situação distinta de hoje, o Brasil hoje é um boulevard da cocaína, que sai da Colômbia. Sai e passeia pelo Brasil à vontade. Festeja-se aqui no Brasil e sai por onde quer. Entra de contêiner. E sai de contêiner. Um país que tem uma polícia federal desestruturada como a nossa, que não tem força de segurança pública e estaduais eficientes. Esse país, neste momento, pode se dar ao luxo de correr esse risco? Eu acho que não.

Matinas Suzuki Jr.: Prefeito, o Manoel Alves de Souza, de Campos Elíseos pergunta: “O que o senhor acha do Rio de Janeiro sediar as Olimpíadas”?

César Maia: Bem, esse é o nosso sonho. Tarefa difícil, mas possível. Possível porque, certamente, um país do hemisfério sul, stricto senso, África e América do Sul, estará na final. E se imagina é que na final, lá para... Vão ser quatro cidades escolhidas em abril de 1997, se imagina que no mínimo duas serão da América do Sul, desculpe, do hemisfério sul. Entre entre Buenos Aires e Rio. E a quarta seria Estocolmo. Então, o Rio tem todas as condições de sediar a Olimpíada. Para o Rio seria fantástico, por todas as razões...

Matinas Suzuki Jr.: Há recursos para investimentos necessários? Há cidades como, por exemplo, Barcelona, que ainda não conseguiu pagar as dívidas ou os investimentos, sei lá, como preferem...

César Maia: [interrompendo] O sistema de financiamento das Olimpíadas mudou completamente. Exatamente pelo caso Barcelona. Hoje, a cidade, no momento que ela recebe a credencial de sediar as Olimpíadas, junto com a credencial vêm dois bilhões e meio, no ato. As Olimpíadas, em 2004, que seriam o nosso caso, já venderam à televisão, por praticamente 800 milhões de dólares. E assim por diante. Deixou de ser um problema, o financiamento das Olimpíadas. Hoje é tratado de forma comercial, profissional e a cidade que sedia as Olimpíadas tem todas as vantagens de antes e mais essa vantagem de hoje.

Matinas Suzuki Jr.: Prefeito, duas teses sobre o Rio de Janeiro que freqüentemente reaparecem no noticiário: Uma é a volta da capital federal para o Rio de Janeiro. O que o senhor pensa disso? E outra: A emancipação do município novamente do Rio de Janeiro, voltando a ser como era o estado da Guanabara até que fosse integrado ao estado do Rio de Janeiro?

César Maia: Isso é delírio [abre os braços]. Acho que perder tempo com algo que você não têm condição...

Matinas Suzuki Jr.: [interrompendo] As duas coisas o senhor acha delírio?

César Maia: Delírio. Claro, completo delírio. Você dizer: “Qual é a sua vontade?” Bem, a minha vontade é uma coisa. Outra coisa é a realidade. Quer dizer, um homem público não pode ficar delirando em relações a questões que não têm nenhuma condição de serem efetivadas. Nem a volta da capital federal nem o desmembramento da capital. A confusão seria completa. Porque o próprio funcionariado, você não saberia onde ele vai ser localizado, se na Guanabara ou no antigo estado do Rio de Janeiro. Você entraria numa transição crítica por mais de dez anos.

Alfredo Ribeiro: Prefeito, o senhor diz que homem público não pode delirar? O senhor é o homem público que mais delira no Brasil. O senhor disse que os Beatles vêm aqui, que o Mike Tyson [pugilista norte-americano] vai entrar no Maracanã [sendo interrompido], mas eu não estou lhe censurando o direito de delírio. Estou só estranhando que o senhor diga que homem público não pode delirar.

César Maia: Não, o que eu me lembro é que uma vez você me entrevistou, quando surgiu a expressão factóide, e que eu criei e você divulgou. Nós temos aí uma parceria com o “Lady Laura” [risos], música do Alfredo [referindo-se ao entrevistador] e César Maia. Mas eu sublinhei para você que existiam algumas ações que caracterizavam realismo delirante. É diferente do delírio. O realismo delirante é alguma coisa difícil de ser conseguida, mas que pode ser conseguida. Por exemplo, eu tive a oferta dos três Beatles para cantar no Rio de Janeiro. Olha que coisa curiosa. O Ringo, um cacho de bananas. O George, dois cachos de bananas, e o Paul MacCartney, um milhão de dólares. Então, agora, na hora que você junta os três e propõe que alguém venham compor os Beatles, vira 100 milhões de dólares. Então, eu tentei ver se conseguia fazer esse ordenamento por muito dinheiro. Mas eles não aceitavam tratar essa questão a menos que fosse por uma quantia extravagante, que a cidade do Rio de Janeiro não tinha condição de bancar. Foi um ato de realismo delirante.

Merval Pereira: Igual àquele reveillon que até hoje...

Matinas Suzuki Jr.: Aquele show do reveillon prejudicou a imagem do Rio de Janeiro, na sua avaliação?

César Maia: Não, isso só para a província. Para a província brasileira, aí tem cachê de um, cachê de outro, para aqueles cento e cinqüenta e tantos países que viram, no mundo todo, o reveillon, e que você está passando ali, na televisão, encontra o reveillon e pergunta: “O que é isso?” E ouve a música do Tom Jobim [(1927-1994), cantor, maestro, pianista e compositor brasileiro. É considerado um dos nomes que mais representam a música brasileira. Um dos criadores do movimento da Bossa Nova], que gera memória mundial e não apenas local. Três milhões de pessoas nas praias e nenhuma pessoa bateu carteira. Paz, alegria... enfim, acho que a cidade do Rio de Janeiro teve um momento excepcional, teve um momento de glória naquele momento. Depois, você tem ali aqueles percalços provincianos, um doou cinco mil dólares, outro dez mil dólares, que fazem parte aí da fantasia nacional.

Matinas Suzuki Jr.: Prefeito, dizem que o senhor virou um botafoguense enrustido depois que virou prefeito. É verdade isso?

César Maia: Enrustido? Eu tenho dupla personalidade no caso do futebol. Eu, como prefeito, sou Flamengo [risos]. Posso ser maluco mas não sou burro [risos]. Como cidadão, sou botafoguense [risos]. Botafoguense fanático. Estou ali, ligando, vendo, reclamando, com o Montenegro: “Não é possível, trocou errado, o técnico não vai bem”, enfim...

Alfredo Ribeiro: Como flamenguista, o que o senhor achou da comemoração do Romário no FlaFlu?

César Maia: Olha, eu achei que pior do que a comemoração do Romário, foi a discussão sobre a comemoração do Romário. Quer dizer, a minha catedral, a página 11 do Jornal do Brasil...

Matinas Suzuki Jr.: [interrompendo] O senhor, como acha que um bom fato que gera notícia sempre está certo...

César Maia [interrompendo]: Cheio demais, por isso que eu disse... pior do que o gesto, foi o noticiário. Transformar o gesto do Romário, um momento de gol, de alegria, ele que vinha de baixo, agora recupera a forma dele para a alegria de nós todos, cariocas, e ele faz um gesto ali, um pouco na emoção, que isso se transforma em grande debate, no jornal, artigos... Teve uma parte que teve três artigos... artigos de gente ali que imaginou ali que levaram... Qual foi o jornal? O Globo, imagine...

Alfredo Ribeiro: Mas é que está duro de debater a reforma, enfim...

César Maia: Então aí está certo. A explicação é essa.

Maurício Styger: O senhor falou em dupla personalidade, realismo delirante, a gente falou aqui muito da sua imagem de maluco, o senhor já fez análise?

César Maia: Ora, não, e poderia fazer. Eu não tenho tido tempo para isso. A gente trabalha muito, eu acordo muito cedo, eu acordo 5:15h, apesar da melotonina, eu acordo 5:15, 5:20, e aí leio os jornais, para ficar desinformado [risos]. Depois tomo meu café, vou trabalhar, e gosto de trabalhar, isso aí é uma mania, é um vício, e não tenho tido tempo. A ponto de agora, saindo em janeiro [referindo-se ao fim do mandato], se você me arranjar um emprego razoável, porque esses analistas estão caríssimos [risos], mas se me arranjar um emprego razoável, eu posso fazer análise. Eu acho que para mim seria... eu conheço muita gente que fez análise e, em geral, esse negócio de análise, as pessoas ficam muito iguaizinhas [fazendo um gesto retilíneo com as mãos], usando a mesma terminologia, ficamos todas verdes ou roxas, elas repetem as mesmas cores, introjetam, [risos] se abrem, interagem, enfim... Eu gostaria de participar desse grupo também. Então, eu chego lá [risos].

Cláudia de Souza: Prefeito, que catedral é essa que o senhor ia mencionando?

César Maia: Catedral. São as catedrais dos artigos dos jornais e que debateram o gesto do Romário. Fase que, francamente, eu acho que aquele factóide merecia uma exposição daquele nível. E não uma discussão teórica, aonde vai o gesto.

Alfredo Ribeiro: Prefeito, quanto é 13 vezes 28?

César Maia: Eu não me lembro mais. Eu, quando era garoto, me pai me treinou em multiplicar dois algarismo por três, dois por dois. As visitas chegavam em casa e ele dizia: “Diz qualquer dois números de dois algarismos” [risos]. “31 e 44”. “Multiplica César”. E eu... pá, dava a resposta. Agora, cabeça não dá mais. O cabelo caiu.

Cláudia de Souza: Prefeito, como vê a economia do Rio de Janeiro evoluindo nos próximos meses? Quer dizer, fala-se tanto em recessão, em desemprego... e na sua experiência, como vê o Rio de Janeiro agora nos próximos meses? Esses projetos todos de investimento, ainda prometidos, não concretizados? Como acha que vai evoluir a economia?

César Maia: É ainda com preocupação. Porque você pega um PIB [Produto Interno Bruto] como o do Rio de Janeiro, o PIB próximo a 60 bilhões de dólares, você imagina que para o crescimento na casa de 5%, ou 6%, você precisaria ter uma formação bruta de capital fixo, próximo de 20%, então você precisaria ter aí investimentos brutos na casa de 12 bilhões de dólares...

Cláudia de Souza: Isso para o Rio de Janeiro?

César Maia: Claro. Pra ter um crescimento de 5%, 6%. Na hora que a gente vê esses números que aparecem no jornais: “Conquistamos uma fábrica por 300 milhões de dólares”, então o quadro, o ambiente de investimento precisa mudar para que o dono do botequim mude o seu frigorífico. Para que o dono daquela lanchonete mude o seu balcão. Para que se compre uma máquina nova. E esses números não são contabilizáveis pela imprensa. Ou você tem um ambiente favorável para investimento, e isso acontece de forma impessoal e invisível, ou não adianta você somar...

Cláudia de Souza [interrompendo]: O senhor vê o Rio como favorável para investimentos hoje?

César Maia: É o que eu procuro fazer. Pra mim, a questão das questões, no Rio de Janeiro, era  e continua sendo, num grau muito menor, depois destes três anos e quatro meses, a questão das deseconomias externas. É uma expressão que os economistas usam para caracterizar tudo aquilo que acontece fora da sua residência ou fora da sua empresa. E que geram custos para sua empresa e revertem suas decisões de viver ou de investir. E essa deseconomia externa no Rio de Janeiro ela é fantástica. A cidade da desordem, a cidade da bagunça. A cidade da anarquia. Esse quadro está sendo revertido [gesticulando]. Do outro lado, eu tenho feito investimentos poderosos nos serviços e, principalmente, nos serviços superiores. Bem, desde já a cultura. Cultura mais e permanente, serviço qualificado com que a humanidade conta para se construir. E em serviços superiores, como o caso do teleporto, nós estamos buscando oferecer ao Rio de Janeiro condições diferenciadas que permitam que as empresas do [setor] terciário superior decidam prioritariamente a sua localização pelo Rio de Janeiro.

Matinas Suzuki Jr.: Prefeito, nós infelizmente chegamos ao final do nosso programa. Eu só gostaria de fazer uma pergunta, que eu estou muito curioso. Eu nunca vi um político ser submetido a uma quantidade tal de provocações e manter o discurso, manter... não se desviar da propositura do que tem que falar, não se deixa levar em nenhum momento por essas provocações. O senhor faz algum preparo especial para isso, aprendeu isso com alguém, como é que o senhor chegou a esse grau tão grande autocontrole?

César Maia: Olha, eu estou estudando jornalismo [risos]. E a minha ambição é poder, depois de sair aqui da prefeitura do Rio de Janeiro, fazer um curso com o Marvin Kalb, nos Estados Unidos sobre políticas públicas e meios de comunicação. Então, eu tenho aí estudado jornalismo e, daqui a alguns anos, eu vou ter a condição que vocês têm, de fazer esse diálogo de forma impessoal, não se apaixonar por esse diálogo, não deixar as idéias na frente da pessoa. Mas estou longe ainda.

Matinas Suzuki Jr.: Está bom. Muito obrigado pela sua entrevista, ter deixado o Rio de Janeiro e ter vindo aqui até o nosso estúdio na TV Cultura para participar do Roda Viva. Agradeço também a presença dos nossos entrevistadores, a participação e atenção do telespectador, e lembrar a você que o Roda Viva volta na próxima segunda feira, sempre às 10:30 da noite. Até lá. Boa noite.

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