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Aécio Neves

18/4/2005

"Tancredo dizia e eu repito: 'Presidência é muito mais destino do que projeto'. Eu tenho uma grande vantagem, eu não tenho essa obsessão, não vivo planejando isso", diz o governador de Minas Gerais

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[programa ao vivo]

Paulo Markun: Boa noite. [O] 21 de abril, dia de Tiradentes, marca também esta semana os vinte anos da morte de Tancredo Neves, primeiro presidente civil eleito indiretamente pelo Colégio Eleitoral [que elegeu Tancredo Neves à Presidência, derrotando Paulo Maluf, em 1985] do período militar. Tancredo morreu antes de tomar posse, deixando o país perplexo e com medo de um golpe. Mas a Nova República vingou e o Brasil seguiu o caminho que naquele momento se abria para e redemocratização. Nesses vinte anos de mudanças políticas, um rapaz que antes era apenas o neto, secretário de Tancredo, assumiu a herança política do avô e vem fazendo uma carreira bem parecida, só falta a Presidência da República. O Roda Viva entrevista esta noite Aécio Neves, governador de Minas Gerais, uma das lideranças nacionais do PSDB.

[inserção de vídeo]

Narração de Paulo Markun: Aos 45 anos, Aécio Neves da Cunha é uma das jovens lideranças políticas do país. Mineiro de Belo Horizonte, formado em economia, seu destino seria outro, não fosse o avô materno. Tancredo Neves estava começando a campanha para governador de Minas, na eleição de 1982, quando convocou o neto como secretário particular. Figura de peso na política nacional, habilidoso e conciliador, Tancredo elegeu-se e logo passou a lutar ao seu modo pelo fim do regime militar. Com a derrota da emenda das eleições diretas [Diretas Já], foi para o Colégio Eleitoral. Eleito, morreu sem tomar posse, num dos episódios mais dramáticos da história política do país. Aécio perdeu o avô, mas acabou assumindo parte de sua herança política, e com ela construiu uma carreira pública precoce. Aos 26 anos, em 1986, tornou-se deputado federal pelo PSDB de Minas Gerais com a maior votação no estado. Reelegeu-se outras três vezes e, em 2001, assumiu a presidência da Câmara Federal. No ano seguinte tornou-se governador. Influente, Aécio recolocou Minas num lugar de destaque na política nacional. Articulador e cauteloso como o avô, parece disposto a trilhar o caminho que já levou oito mineiros à Presidência da República.

[fim do vídeo]

Paulo Markun: Para entrevistar o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, nós convidamos Eliane Cantanhêde, colunista do jornal Folha de S.Paulo; Carlos Marchi, coordenador de política do jornal O Estado de S. Paulo; Tereza Cruvinel, colunista de política do jornal O Globo; Josemar Gimenez, diretor de redação dos jornais Estado de Minas e Correio Braziliense; Mauro Salles, publicitário, diretor da Consultoria Interamericana e publisher da Agência Salles Norton; Maurício Dias, diretor de redação adjunto da revista Carta Capital; e Alexandre Machado, editor de política da TV Cultura. E a partir de hoje temos também a participação do cartunista Paulo Caruso, que retorna ao Roda Viva com seus desenhos, flagrando e registrando com seus traços de humor os momentos da entrevista desta noite. O Roda Viva, como você sabe, é transmitido em rede nacional de TV para todo o Brasil. Boa noite, governador.

Aécio Neves: Boa noite, Paulo. É um prazer novamente estar aqui com vocês no Roda Viva.

Paulo Markun: O prazer é nosso. No Jornal Nacional [da TV Globo] agora há pouco, uma nota assinada pelos filhos do ex-presidente Tancredo, Inês Maria, Maria do Carmo e Tancredo Augusto Tolentino Neves, desmente a reportagem exibida ontem no programa Fantástico, da Rede Globo. A nota contesta a informação dada pela matéria de que o ex-presidente sofria de crises de bacteremia. Diz ainda ser mentirosa a afirmação do médico Jorge Washington da Cunha de que Tancredo estava doente havia cerca de um ano e que tomava seis medicamentos diariamente contra as crises, receitados por um balconista de São João del-Rei. A família afirma que essas informações beiram o ridículo. Lamenta também as informações do infectologista David Uip; diz que, enfim, os outros médicos citados, o cirurgião Pinheiro da Rocha e o patologista Hélcio Miziara, foram processados pelo Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal. Finalmente a nota diz que, vinte anos depois, os médicos continuam faltando com o elemento básico do exercício de sua profissão, que é o respeito ao paciente. Então, eu começo o programa perguntando: como o senhor encarou a reportagem e essa nota da família?

Aécio Neves: Na verdade, Paulo, eu vou me permitir nessa primeira etapa do programa, respondendo [não] como governador do estado, mas como alguém que viveu muito de perto todo esse episódio. Sempre para nós é muito doloroso voltar a isso. Confesso a você que eu preferiria que nesses vinte anos nós tivéssemos lembrando do legado, enfim, falando daquela que foi talvez a mais bem construída articulação política da história contemporânea...

Paulo Markun: Faremos isso no programa também.

Aécio Neves: ...do país, não é? Que possibilitou que o Brasil hoje escolha ele próprio seu destino, através das instituições democráticas absolutamente sólidas. Mas é natural que, já que esta não foi a abordagem feita ontem, domingo à noite, por um programa de grande audiência, nós voltemos a esse tema. Eu não sou médico, Paulo, como você sabe, então eu tenho um cuidado enorme em adentrar nas questões mais específicas, enfim, que devem ser discutidas pelos especialistas. E é por isso que eu fico, num primeiro momento, com a avaliação do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, que condenou, por procedimentos inadequados, dois dos médicos que ali trataram do presidente Tancredo. Não cabe a mim dizer se o desfecho, a morte do presidente Tancredo foi em função de um procedimento adequado em Brasília ou em São Paulo. Isso, eu continuo dizendo que prefiro deixar ao julgamento dos especialistas, o que já ocorreu. Mas é realmente para nós extremamente decepcionante ver que, num momento como esse, é dado espaço a algumas pessoas, alguns desses médicos, não os que você cita, mas alguns que apareceram na reportagem do Fantástico. Nenhum de nós da família do presidente Tancredo Neves teve com eles qualquer contato, sequer os conhecia de vista. Eu ali excluo o doutor [David] Uip, que nós conhecemos e o respeito como médico, que traz uma opinião diferente daquela que ouvimos durante todos os momentos, do início do tratamento do presidente Tancredo, de que ele se recuperaria. Eu próprio, após a cirurgia em Brasília, em uma reunião com os médicos, após o procedimento, transmiti à opinião pública, e isso foi inclusive trazido novamente por essas imagens, a posição dos médicos, de qual era o diagnóstico...

Paulo Markun: A informação do divertículo de Meckel [um divertículo congênito, pequena protuberância do intestino delgado].

Aécio Neves: Do divertículo de Meckel, e que o Tancredo poderia, inclusive, tomar posse no dia seguinte. Eu transmiti exatamente o que os médicos me disseram. Talvez esse tenha sido um pouco o nosso erro: nós confiamos todo o tempo, de forma absolutamente integral, no diagnóstico dos médicos. Em determinado momento em que sentíamos que, em Brasília, faltava um pouco de confiança nesse encaminhamento, os próprios médicos já abdicavam da continuidade do tratamento, nós transferimos o presidente Tancredo para São Paulo. Mas o que nos chamou a atenção e gerou essa reação absolutamente natural da nossa família, como geraria da sua, de qualquer um, é vermos pessoas com as quais nós não tivemos qualquer contato durante o todo o tratamento do presidente e ao longo da nossa vida afirmar que o Tancredo estava doente há um ano, que tomava seis medicamentos receitados por um balconista, um farmacêutico de São João del-Rei, algo absolutamente irresponsável, não é? E eu repito aquilo que está na nota assinado pelos filhos do presidente Tancredo, não por mim, mas representando toda a família, de que são informações absolutamente absurdas e irresponsáveis. Eu me lembro, eu me permito nesse episódio, de uma charge do Millôr [Fernandes], na época ainda do tratamento do presidente Tancredo, que me permita trazê-la aqui agora, que me parece, enfim, atual. O Millôr, no momento em que todos os jornais no Brasil deram como manchete que “Os médicos identificam bactéria oportunista no organismo do presidente Tancredo”, o Millôr repetiu esta manchete numa charge e colocou embaixo dizendo o seguinte: “Esta é a opinião dos médicos sobre as bactérias; resta saber qual a opinião das bactérias sobre os médicos”. Eu acho que é muito oportuna essa lembrança.

Josemar Gimenez: Governador, quando o senhor fala dos dois médicos, o [Hélcio] Miziara, que é o patologista, e o Rocha Pinheiro, essa questão do Distrito Federal, do Conselho de Medicina, eu pergunto ao senhor: essa questão da diverticulite exatamente, ela foi discutida na época, não falar que era um mioma, um tumor benigno, nada disso aconteceu? O que é que o levou... esse otimismo era passado o tempo todo para a família? Como a família encarou isso?

Aécio Neves: Conosco, em nenhum momento houve nenhuma reunião de discussão sobre o que escrevesse no laudo, não é? O que nós recebemos, logo após a cirurgia, era o diagnóstico anterior, que era um divertículo, era um tumor benigno no divertículo, chamado... o nome dado era divertículo de Meckel, se não me engano. Para nós, jamais foi colocado: não opte por essa ou por aquela expressão. Para nós, naquele momento, Josemar, nós já não estávamos mais vivendo aquela coisa do presidente que estava internado, para nós era o avô, era o pai, era o irmão, enfim, era o tio, era um familiar que estava ali, em um momento dramático, e que os médicos traziam em relação a ele um diagnóstico extremamente positivo. Nós ouvimos nessa mesma matéria do Fantástico, no depoimento do doutor [Henrique Walter] Pinoti, que foi quem assumiu a responsabilidade pelo tratamento, dizendo que o Tancredo em uma semana estaria em condição de tomar posse. Nós acompanhamos, enfim, colocamos o Tancredo nas mãos dos médicos que achávamos os mais capazes, jamais os culpamos pelo desfecho, mas nós temos que reagir com muito vigor, quando assistimos realmente a um oportunismo dessa natureza, repito, de médicos que não tiveram responsabilidade maior no tratamento, já que aqueles que tiveram essa responsabilidade, sobretudo em São Paulo, pela informação que eu tenho, se negaram, inclusive, a dar depoimentos a respeito daquele tratamento. [Charge de Caruso: com asas e faixa presidencial, Tancredo segura uma placa onde se lê: “Tô fora!”]

Maurício Dias: Eu reli agora uma entrevista que o senhor deu, logo depois da morte do doutor Tancredo, para o Jornal do Brasil. E o senhor dizia, naquela entrevista, que primeiro tinha anotações importantes sobre aquele episódio e que julgava ter havido incompetência dos médicos. O senhor estava ali no calor do impacto da emoção ou o senhor retocaria o adjetivo usado? O senhor pretende algum dia revelar alguma coisa nova sobre esse episódio?

Aécio Neves: Maurício, olha, eu não tenho nenhuma bomba nova para dizer. Essa questão tem um componente, inclusive, de alguma forma, um pouco folclórico. Eu ando por este país inteiro e, até hoje, eu encontro gente que quer saber se o Tancredo levou um tiro ou se foi uma facada. Isso entrou um pouco no...

Maurício Dias: No imaginário.

Aécio Neves: ...no imaginário popular. O que houve, e o que eu dizia naquele momento, a impressão que eu tinha naquele momento – eu não tenho por que fazer reparos a ela – é a mesma que se confirma, através do julgamento do Conselho Regional de Medicina, de que a sala cirúrgica foi invadida por cerca de... pelo menos 30 pessoas. O livro [Tancredo vivo, casos e acaso : revelações sobre a vida e a morte do político que mudou o Brasil (1995)] do Ronaldo Costa Couto diz isto, que a melhor das avaliações, pode-se dizer assim, é que tinha pelo menos 30 pessoas estranhas ao processo cirúrgico. O passeio do Tancredo pelo hospital foi algo trágico para todo mundo...

Paulo Markun: [interrompendo] O senhor estava lá no momento?

Aécio Neves: Eu estava lá, ao lado da maca. O sujeito chegou a querer levantar o lençol onde o Tancredo estava deitado, absolutamente consciente, e assustado, porque nos levaram para um local inadequado... O Hospital de Base de Brasília... Talvez pela surpresa do que estava acontecendo, e por ser um dia atípico em Brasília, Brasília estava ocupada por pessoas e autoridades do Brasil e do mundo inteiro.

Paulo Markun: Estava em festa.

Aécio Neves: E todos foram para o hospital, todos acharam que o local do encontro para ter notícias era o hospital. E o hospital não tinha nenhum sistema de segurança, sequer na sala cirúrgica. Então, eu repito: eu fico, por não ser médico, no diagnóstico, ou pelo menos no julgamento dos pares daqueles que fizeram esse tratamento. Certamente, o que eu posso lhes dizer como leigo, mas alguém que presenciou todo aquele episódio, é que o Hospital de Base não estava preparado para receber um paciente que vinha com toda aquela comoção em torno de si. Mas eu não quero, Maurício, vou tentar mais uma vez, nesse momento, transformar essa como a lembrança maior dos vinte anos. O Tancredo foi tão grande, o Tancredo conseguiu construir uma aliança sem radicalização, sem trauma, sem rancor, que possibilitou ao Brasil estar hoje – depois de ter passado até por alguns testes muito duros, com o impeachment [de Collor] e tudo mais – vivendo a plenitude democrática, com um operário assumindo a Presidência da República [refere-se à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002]. Então eu acho que esse é o legado fundamental, é esse que eu acho que ficará para as próximas gerações.

Teresa Cruvinel: Governador, muitos de nós aqui participamos da cobertura daqueles episódios e guardamos ainda muitas dúvidas também, que não conseguimos, como repórteres, descobrir, informar, registrar. Recentemente, fiz uma coluna com o senhor, em que o senhor fez a revelação sobre um exame que o doutor Tancredo fez poucos dias antes da posse. Para a caracterização histórica do doutor Tancredo, o fato de ele ter percebido a doença, não tomando remédios de farmacêutico há 10 meses, como disse esse médico, cuja declaração a família repele, mas a alguns dias antes da posse, temendo um golpe ou um desfecho que impedisse a consumação da transição, o doutor Tancredo de fato adiou providências. O senhor hoje tem assim a avaliação de que ele cometeu uma auto-imolação em nome da transição?

Aécio Neves: Eu estou cada dia mais convencido que sim, Teresa. O Tancredo trabalhou durante todo o processo eleitoral com absoluta e plena saúde, com uma preocupação fundamental, que era legitimar uma candidatura que haveria de ser, enfim, construída, ou pelo menos eleita, se vencesse as eleições no Colégio Eleitoral. Ele tinha uma grande preocupação em dar essa legitimidade, esse amparo, essa base popular, porque o Tancredo, eu não diria nem que havia um golpe preparado, mas Tancredo temeu sempre que se criasse um clima para alguma radicalização. Trabalhou, recebia informações espontâneas de amigos que tinha... Eu não digo que existia um bunker organizado, mas Tancredo recebia informações. Essa preocupação ele teve até o final. Ela se agrava, Teresa...

Tereza Cruvinel: [interrompendo] Deixe-me perguntar uma coisa que eu esqueci. Esse exame...

Aécio Neves: Eu vou chegar lá.

Teresa Cruvinel: ...feito um pouco antes apontou divertículo de Meckel e que era cirúrgico?

Aécio Neves: Então o Tancredo trabalhou sempre com essa preocupação de que ele era o grande fiador da aliança. Essa preocupação aumenta no momento em que se cria publicamente e é externada uma grande animosidade do então presidente João Figueiredo para com o vice do presidente Tancredo [José Sarney]. Então, até a eleição, a preocupação era a legitimação popular da candidatura, que ele tivesse força para conseguir ultrapassar o período entre a eleição, 15 de janeiro, e a posse em 15 de março. Terminada a eleição, Tancredo faz uma viagem de poucos dias, eu o acompanhei, à Europa, onde ele está com os principais chefes de Estado democráticos do mundo, buscando uma certa solidariedade, chamando um pouco a atenção desses chefes de Estado para o novo processo que se iniciava no Brasil, de alguma forma dizendo: “Olha, o Brasil inicia agora um processo democrático, mas é preciso que haja um acompanhamento até o final”. Por volta... na primeira semana, nos primeiros dias, eu não saberia aqui dizer exatamente qual dia de março, o Tancredo passa a sentir algumas dores abdominais, relutava, chamou o seu médico, o doutor Renault [Mattos Ribeiro], que aparece nessa reportagem. [Ele] relutava, enfim, em fazer um exame mais profundo, até que ele cede e fazemos esse exame numa noite em Brasília. E é diagnosticado exatamente isso: diverticulite. Em nenhum momento foi colocado, tanto para Tancredo ou mesmo para nós da família, que era imperativa, que era absolutamente urgente a cirurgia, senão ele correria risco de vida. Em nenhum momento. [...] ele passou a ser monitorado nesses poucos dias que faltavam à posse, e ele disse esta frase aos médicos, eu ouvi, e disse também a mim mais de uma vez: “Eu preciso concluir esse processo; depois da posse, façam comigo o que quiserem”. Esta frase, os próprios médicos já relataram que ele disse, mas em nenhum momento houve a imposição dos médicos para dizerem: “Olha, nós não nos responsabilizamos, o senhor precisa sofrer uma cirurgia agora”. Tanto que no dia...

Teresa Cruvinel: [interrompendo] Então aí pode ter sido negligência.

Aécio Neves: É, eu acho que também aí, porque no dia, eu relato um fato... sempre para mim é muito duro voltar a isso, Teresa, eu quero até passar para outros temas, mas eu vou relatar o fato concreto, pessoalmente eu acho que já tive a oportunidade de lhe dizer. Quando o Tancredo retorna da missa da Catedral Dom Bosco, no dia 14, na véspera da posse, ele se sente mal, vai para o quarto, sentindo-se mal. Nesse ínterim, chega ao Palácio [o político] José Hugo Castelo Branco [1926-1988], com os atos de nomeação do gabinete do ministério do presidente Tancredo, eu digo a ele: “Estou dispensando o José Hugo, [pedi a ele] que volte outra hora”. Enquanto isso eu tentava localizar os médicos, que estavam tão tranqüilos em relação à situação do presidente Tancredo – isso era na véspera da posse, poucas horas antes da posse, por volta de oito, nove horas da noite –, que eu demorei pelo menos uma hora e meia para localizá-los. Um estava na recepção em determinado local, o outro não sei exatamente onde, mas todos muito tranqüilos. Haviam feito exames pela manhã, disseram ao presidente Tancredo que achavam que a coisa estava controlada. Quando eles chegam, eu acho que eles se surpreendem com a gravidade do quadro. Eu disse a eles naquele instante que nós tínhamos ali um avião preparado para ir para São Paulo naquele instante – eu tinha um avião da Líder [Aviação] já há alguns dias, pelo menos há uns dois dias, no Aeroporto de Brasília. Eles disseram que não se responsabilizariam, sequer acompanhariam o Tancredo. Ele teria que ir imediatamente para o Hospital de Base, uma decisão dura que tínhamos que se tomar naquele instante, eu, minha avó, a minha mãe, o Tancredo Augusto, meu tio, e tomamos a decisão, que o Tancredo apoiou na hora, de acreditar, de confiar nos médicos. Fomos ao hospital e aí [há] o desfecho que todos nós conhecemos. Então, o que houve foi o Tancredo extremamente preocupado com a consolidação da transição, tanto que, no momento em que eu falo que vou dispensar o José Hugo, ele fala: “Dispense o José Hugo, mas traga os atos. Eu preciso assinar os atos de nomeação do ministério, porque eu não sei o que vai ser amanhã”. E esses atos, o Tancredo considerava como o último gesto de consolidação do processo. Com isso ele dava talvez, de alguma forma, ali, por concluído o processo de redemocratização.

Eliane Cantanhêde: Governador, o senador José Sarney contou aqui, no próprio Roda Viva, que o Tancredo só decidiu se operar e se entregar definitivamente aos médicos depois que ele teve a garantia de que o Sarney tomaria posse, e que esse diálogo definidor teria sido do Tancredo com o [político] Francisco Dornelles, que é da família e que também seria ministro e tal. Como foi esse diálogo, na sua versão?

Aécio Neves: Olha, Eliane, eu vi essa manifestação, o Dornelles estava realmente muito próximo ao Tancredo naquele instante, como todos nós. Eu não ouvi esse diálogo, mas o Tancredo relutava muito, até o final, pelas dúvidas que ele tinha: se a sua ausência não seria o pretexto para determinados setores, enfim, negarem posse ao presidente Sarney. Ele tinha dúvida sobre se o presidente Figueiredo passaria o governo ao presidente Sarney. Na verdade, passou o governo, não passou a faixa. Mas aceitou a transição. Mas é bem possível que esse diálogo, naquele momento, ocorresse, porque o Tancredo, quando se submete à cirurgia, vai de alguma forma conformado, ele vai um pouco tranqüilizado por todos nós de que estava tudo bem, de que o diagnóstico era tranqüilo, era uma cirurgia... E isso era o que os médicos nos passavam o tempo inteiro.

Teresa Cruvinel: O deputado Dornelles já confirmou esse diálogo, ele pessoalmente, no livro do ex-ministro Ronaldo Costa Couto.

Aécio Neves: Eu não presenciei, mas é bem possível que esse diálogo estaria no contexto daquilo, do momento em que nós estávamos vivendo: o Tancredo, relutando a se submeter à cirurgia, precisava de uma palavra tranqüilizadora. O que ocorreu, a meu ver, de forma inadequada foi o procedimento daí por diante.

Alexandre Machado: Governador, mudando um pouco de assunto, já que o senhor mencionou agora há pouco que o presidente Tancredo tinha preocupações com a segurança, com a transição, mas que ele não recebia informações de um bunker necessariamente, nós [nos] remetemos a outro veículo, que também tratou de fatos históricos, que foi a revista Veja, e que trata de uma criação de um grupo para dar sustentação, trazer informações, em suma, trazer as informações necessárias para que não houvesse alguma surpresa na transição. O senhor deve ter lido certamente essa reportagem, essa reportagem condiz com a sua lembrança e com a realidade?

Paulo Markun: Alexandre, nós vamos falar disso logo depois do intervalo, está certo? Deixamos essa pergunta aí. Nós vamos fazer um rápido intervalo e voltamos daqui a pouco com o Roda Viva, que tem na platéia Neiza [...], socióloga; Radlia Milan Elias, empresária e amiga da família Tancredo Neves; Josidete Gomes Consorte, antropóloga da PUC que analisou as manifestações populares em torno da morte de Tancredo; e o ator Renato Consorte. [Aparecem dois desenhos de Caruso: um retrata Aécio Neves, outro, a entrevistadora Eliane Cantanhêde]

[intervalo]

[inserção de vídeo]

[Cenas do filme Céu aberto, de João Batista de Andrade]

Paulo Markun: Essas imagens do filme Céu aberto, do cineasta João Batista de Andrade, que agora sai em DVD, resgata um pouco do que foi o clima da morte de Tancredo, que a bancada inteira aqui presente acompanhou certamente, a maior parte nós como jornalistas e repórteres cobrindo os acontecimentos, e é também um dos temas da nossa entrevista de hoje com o governador de Minas, Aécio Neves. Governador, recuperando aí a pergunta feita pelo Alexandre Machado no final do primeiro bloco, eu queria mostrar a reportagem sobre justamente essas revelações acerca da possibilidade de golpe que tentaria impedir Tancredo de assumir a Presidência. Vamos ver.

[inserção de vídeo]

Narrador: Ele foi sereno até na vitória no Colégio Eleitoral, mas hoje, sabe-se que naqueles dias nem Tancredo estava tranqüilo. A linha dura dos militares relutava em passar o poder aos civis; cogitava estender o mandato do presidente Figueiredo ou substituí-lo por outro general.

Ronaldo Costa Couto, ex-secretário de Tancredo Neves: Houve ameaças, e sempre dos radicais. O doutor Tancredo sempre dizia para gente: “Cuidado com os radicais, cuidado com os radicais, em tudo”.

Narrador: Os generais sabiam: o candidato do regime, Paulo Maluf, não tinha chance no Colégio Eleitoral. Muitos estavam dispostos a engolir Tancredo, um político moderado, conciliador, mas os aliados dele, de Ulysses Guimarães aos comunistas, eram temidos pelos militares. Em setembro de 1984, Tancredo fez o primeiro comício em Goiânia. A presença de bandeiras vermelhas reforçou os argumentos da linha dura.

Ronaldo Costa Couto: O Tancredo foi chamado de comunista.

Guilherme Menezes: Logo depois do comício, o general Figueiredo e os comandantes militares fizeram uma reunião de emergência. O ministro do Exército, Walter Pires [de Carvalho e Albuquerque], se referindo às bandeiras, teria dito: “Não podemos aturar coisa semelhante; se preciso, vamos virar a mesa para garantir a ordem e a disciplina no Brasil”. A ameaça era explícita; a transição democrática corria risco. As notícias chegaram a Tancredo Neves por meio de informantes; meses antes, o candidato montou uma equipe informal, com militares de alta patente, do exército, marinha e aeronáutica.

Octaciano Nogueira, cientista político da UnB: Ele teve encontros com os ministros militares; ele teve encontro, sabidamente, com o ministro da Marinha, com o ministro da Aeronáutica; ele teve articulação militar em torno dele. No dia em que ele foi eleito, essas resistências estavam praticamente vencidas.

Narrador: Da eleição à posse, faltavam dois meses. Tancredo já sentia os fortes sintomas da doença que o matou, mas os escondia.

José Sarney, senador pelo PMDB/AP: Tancredo disse que tem de chegar, concluir e tomar posse, porque ele achava que o governo não passaria a Presidência da República para o vice-presidente, que no caso era eu. Do Tancredo, pode-se dizer aquilo que Afonso Arinos disse: que muitos brasileiros deram a sua vida pelo país; o Tancredo deu a sua morte.

[fim do vídeo]

Paulo Markun: Governador, quanto da articulação era, digamos, arma exclusiva ou instrumento exclusivo do próprio Tancredo?

Aécio Neves: Ora, na verdade, o Tancredo foi sempre muito bem informado. Eu acho que, desde que foi ministro da Justiça de Getúlio Vargas [entre 1953-1954], ele sabia a importância da informação. Eu não diria... e aí é uma avaliação muito pessoal de alguém que viveu com Tancredo fisicamente, eu morava com ele num apartamento em Brasília, enfim, eu costumo dizer, Markun, que eu fui um privilegiado por ter tido, sem mérito algum, por uma questão meramente hereditária, o privilégio de acompanhar aquele processo. Tancredo jamais descuidou desse lado, de monitorar, de buscar informações. Eu não acredito que se tenha montado um bunker, de forma tão formalizada como essa, porque até não era devido para a atividade que se propunha. Mas ele tinha informações, ele tinha pessoas, enfim, legalistas e democratas, dentro das forças armadas, que passavam informações. Ele próprio triava essas informações e agia em razão dessas informações. Eu me lembro de um episódio, a meu ver ilustrativo, que, talvez no mês de outubro, nós fomos informados, no início da noite, de que haveria naquela madrugada um esforço de tomarem Brasília com cartazes, com panfletos, com o Tancredo com a foice e o martelo dizendo: “Nós, comunistas, chegaremos ao poder”, vinculando o Tancredo aos comunistas, para que isso pudesse vir seguido de uma reação desses setores, acredito eu, minoritários das Forças Armadas, mas que ainda resistiam à transição democrática. Nós fomos alertados, nos organizamos, acionamos a polícia de Brasília e conseguimos, na madrugada, prender pelo menos dois daqueles “militantes” do PCdoB, que na época era o partido que assinava aqueles panfletos, aquelas colagens em Brasília. E quando eles chegam à delegacia presos pela polícia de Brasília, identifica-se que eram soldados do Exército a serviço de um determinado comandante. [Charge de Caruso: no centro do programa, de costas, Aécio diz aos entrevistadores: “Vamos mudar de assunto?”]

Paulo Markun: Quer dizer, havia uma armação em andamento?

Aécio Neves: É, houve tentativas, e aí eu acho que foi... o Mauro acompanhou tão de perto todos aqueles episódios. Aí veio a maestria do Tancredo, porque sem abrir mão, Markun, em nenhum instante sequer, de seus compromissos, do programa que consolidou a aliança democrática, dos compromissos com a Assembléia Constituinte, dos compromissos com o futuro, Tancredo soube inibir, passo a passo, cada uma dessas manifestações. Em determinados momentos, ele teve contatos com altos, vamos chamar assim, altos comandantes militares para dizer uma simples palavra: “Não farei um governo de revanchismo, não farei um governo olhando para trás”. Essa era a personalidade do Tancredo. E é isso que ele faria, obviamente, a lei trataria de fazer o que precisasse ser feito. Eu acho que essas informações que essa revista, essa grande revista nacional trouxe partem de uma base realmente crível, de que realmente Tancredo recebia informações. Eu me recordei de alguns dos codinomes que ali foram citados na matéria, como realmente coisas que nós recebíamos; eu manuseei alguns desses documentos lá atrás. Eu não saberia lhe dizer: havia possibilidade real de um golpe? Eu sinceramente não acredito, porque eu acho que a maioria das forças armadas... E aí, fazendo justiça talvez até ao presidente Figueiredo, já estavam de uma forma, se não entusiasmados pela transição, conformados com ela. Mas que, durante todo o processo, alguns grupos radicais tentaram se movimentar, certamente...

Eliane Cantanhêde: [interrompendo] Pois é, governador, eu queria saber...

Paulo Markun: Só um minutinho: Mauro Salles, depois Eliane.

Mauro Salles: Queria primeiro lembrar uma coisa: o Aecinho [ri], meu governador... O Tancredo, no seu apartamento em Brasília, tinha um quarto de hóspede que tinha duas camas, uma era do seu secretário particular, que era o Aécio Neves, e a outra era minha. Nós dois nos revezávamos para agüentar a canseira que o doutor Tancredo [nos] dava pela quantidade de trabalho que ele estava... e só isso desmente essa história de doença antecipada. É bom lembrar que, uma semana antes da posse, o doutor Tancredo participou de uma feijoada e foi um dos que mais comeu, lá no sítio, você estava e eu estava. Na viagem que nós juntos fizemos à Europa, nós nos cansávamos antes do doutor Tancredo, quer dizer, é só lembrar isso para mostrar como é ridícula essa história de que ele estava com uma doença há tanto tempo, [porque] ele não tinha nenhum sinal disso. Estive hoje com o José Augusto Ribeiro, que era assessor de imprensa dele, que também tem exatamente o mesmo depoimento, e aqui [está] o Carlos Marchi, que também fazia parte da equipe direta de Tancredo.

Aécio Neves: E esse mesmo médico, Mauro, só para complementar, esse mesmo médico que ontem, no Fantástico, diz: “Não, o Tancredo estava doente há um ano, ele tomava remédios que eram receitados por um farmacêutico de São João del-Rei”. Tinha um ano, eu acho, que ele não ia a São João del-Rei, mas no dia de hoje, ele já desmente: “Eu ouvi isso de algumas pessoas”, enfim, é uma pena apenas que esse momento tão grandioso da lembrança dos vinte anos fique de alguma forma tomado por esse posicionamento absolutamente fora de sentido. [Charge de Caruso: sob o título “A ‘maestria' de Tancredo”, o presidente eleito aparece em Brasília com batuta na mão, vestido como um maestro, e diz: “Fala, Brasil!”]

Mauro Salles: O doutor Tancredo tomava muito pouco remédio, tomava vitaminas. Eu mesmo, mais de uma vez, em Brasília, fui à farmácia comprar vitamina para o doutor Tancredo. Ele só tinha um remédio que ele tomava que não era receitado, que era uma pílula de magnésio, porque ele tinha um amigo médico que dizia que magnésio lhe dava muita energia. Dessa, eu nunca vi a receita, era a única, e nós gozávamos o doutor Tancredo por causa disso. Eu queria lembrar isso, mas eu queria ao mesmo tempo contar uma pequena história sobre essa informação. O doutor Tancredo adorava informação, desde o tempo... Eu trabalhei com ele duas vezes: trabalhei no parlamentarismo, quando o meu companheiro de quarto era o Francisco Dornelles – eu também morava com o Tancredo nessa ocasião –, mas ele, em um desses episódios, 15 dias antes da posse, dez dias antes da posse, houve um boato de que ia haver uma movimentação militar e o doutor Tancredo... às sete horas da manhã tocou o telefone, o Aecinho estava preparando o café e eu atendi ao telefone, era um oficial, um coronel do Exército que dizia: “Mauro, eu preciso ir aí falar com o doutor Tancredo, trazer uma informação”. Como era uma das pessoas que tinham acesso ao doutor Tancredo, ele veio, 15 minutos depois ele estava lá, entrou, tanto eu como o Aecinho saímos da sala, era uma sala única, e a pessoa passou essa informação e se retirou. O doutor Tancredo disse: “Olha, é aquela história que contaram ontem à noite, ele veio contar”... Dez minutos depois, um outro oficial, nesse caso um general, telefonou dizendo que tinha acabado de chegar em Brasília e precisava trazer uma informação. E assim chegou um terceiro... no terceiro eu perdi um pouco a paciência, eu disse: “Doutor Tancredo, eles contaram a mesma história, que o senhor já sabe que está desmontada, era a história dos soldados, dos soldados que tinham sido presos. Por que o senhor não abreviou a conversa, o senhor tem tanta coisa para fazer?”. Ele disse: “Mauro, você acha que eu posso dar a impressão, a esses companheiros leais, que eles não são importantes?”. Esse era o estilo do doutor Tancredo. Era ao mesmo tempo a demonstração de que ele, mesmo sabendo que eles iam falar, sempre podia haver alguma coisa que eles falassem que ele não soubesse, e ele detestava não saber das coisas.

Josemar Gimenez: Governador, dentro dessa questão do gabinete do Rio, ainda voltando com o coronel lá, Antônio João Mendes, também de São João del-Rei, eu pergunto ao senhor duas questões: o doutor Tancredo temia realmente o [general] Newton Cruz [ver entrevista com Newton Cruz]? E existia esse plano de fuga mirabolante num caminhão de mudança, e depois num teco-teco para Uberlândia? Isso é folclore, isso realmente o senhor ouviu na época? Porque muita coisa o senhor já identificou aqui.

Aécio Neves: Josemar, na verdade, não contem comigo para revelações espetaculares sobre esse episódio, até porque eu acho que o episódio é espetacular em si pelo desfecho. Tancredo tinha receios de que pudesse haver um crescimento desse movimento ainda de inconformismo nos setores das Forças Armadas, mas nada alarmante. O coronel Antônio João, que você cita, realmente trazia informações a Tancredo, como outros traziam, e o Tancredo dispensava muitas dessas informações. Eu acho que muitas delas... aí cabia à sensibilidade dele avaliar o que era real e o que não era real. Havia uns mais alarmistas do que os outros, é o que eu quero dizer. Tancredo sempre teve uma serenidade muito grande, mas durante todo o processo não descuidou dessas ações. Teve, sim, em determinados momentos interlocução com figuras graduadas das Forças Armadas naquela direção a que eu me referi aqui, agora há pouco. Então, foi um processo em que, de um lado, se buscavam os votos do Colégio Eleitoral, simultaneamente se percorria o Brasil, tentando reeditar os comícios das eleições diretas, buscando portanto esse apoio parlamentar... esse apoio popular, me desculpem, e por outro lado, essa preocupação, que não tomava todo o tempo de Tancredo, mas ele considerava extremamente importante. Se você me perguntar: houve risco de um golpe? Eu não diria que chegou a tanto, mas não chegou a tanto certamente porque muitas dessas informações foram utilizadas de forma adequada. Quando nós sabíamos que determinada figura importante das Forças Armadas resistia nas reuniões internas, enfim, tinha grande dúvida sobre o que seria o governo de Tancredo, emissários falavam com essas pessoas. Era articulação: nós optamos em fazer essa transição pacificamente, não pegando em armas, então isso era necessário. Todas essas conversas foram feitas, repito, sem que se perdesse o norte, sem que se abrisse mão de um compromisso sequer do presidente Tancredo com a reconstrução democrática e com a própria Assembléia Nacional Constituinte, que na minha avaliação seria diferente do que foi. Eu acho que o Tancredo teria tido condições de construir a base de um projeto em que questões, por exemplo, como a reforma política, até hoje não tratadas, já tivessem sido resolvidas e ajudado o Brasil a encontrar um clima de estabilidade partidária, tão necessário hoje e tão urgente à melhoria das relações políticas e institucionais no país.

Eliane Cantanhêde: Governador, em uma resposta anterior o senhor falou que se temia que o Figueiredo não desse posse ao Sarney. Depois o senhor mesmo disse que o Figueiredo já tinha assimilado toda a dinâmica do processo e a possibilidade da transição. Na verdade, existe uma diferença de posição entre a linha dura, que era a do [general] Octávio [Aguiar de] Medeiros, [que foi chefe] do SNI [Serviço Nacional de Informações], tinha o Walter Pires, tinha o Newton Cruz, e eu queria saber qual a posição do Figueiredo, porque o Figueiredo podia ter outros defeitos, mas ele entra para a história como um cara que não apoiou [para candidato à Presidência pelo PDS em 1984] o Aureliano [Aureliano Chaves], não se empenhou na candidatura do [Mário] Andreazza, nem do [Octávio Aguiar de] Medeiros e nem mesmo do [Paulo] Maluf. Qual foi o papel do Figueiredo e até onde doutor Tancredo tinha medo do Figueiredo?

Aécio Neves: Nós tínhamos, Eliane, e eu tentei retratar isso agora há pouco, nós tínhamos informações durante todo o processo eleitoral, mas não tínhamos informações exatas em relação à posição do presidente Figueiredo, esse era o caso. Nós sabíamos que existia, em relação ao ministro do Exército [Walter Pires], uma dúvida grande sobre o seu apoio real à legalidade, mas após a eleição, em 15 de janeiro, nós recebemos – talvez seja a primeira vez que eu esteja falando isso em público –, nós recebemos sinalizações de alguma forma tranqüilizadoras em relação ao presidente Figueiredo, naquela transição de quase três meses, naquele ato de quase três meses, até a posse, em relação ao presidente Tancredo.

Paulo Markun: Informações de quem?

Aécio Neves: Informações de pessoas próximas, que tinham canais...

Paulo Markun: [interrompendo] Mas, vinte anos depois, dá para o governador falar, não é?

Aécio Neves: [Eram] políticos, eu nem lembraria exatamente, mas [eram] pessoas que tinham...

Eliane Cantanhêde: [O jurista João] Leitão de Abreu.

Aécio Neves: É um desses, que nos tranqüilizou, foi uma dessa figuras. Eu tenho sempre muito cuidado em personalizar, Markun, por mais que tenhamos tanto tempo, mas essa é uma coisa positiva, tranqüilizando, dizendo que o presidente Figueiredo daria posse ao presidente Tancredo Neves e que nós ficássemos absolutamente tranqüilos em relação a isso. Não havia a tranqüilidade em relação à hipótese, que nós não admitíamos ainda naquele mês de janeiro e fevereiro, da não posse do presidente Tancredo. Então, eu acho que o presidente Figueiredo teve um papel absolutamente correto nesse processo, de não estimular essas reações, porque se ele as houvesse estimulado, provavelmente nós teríamos tido muito mais dificuldades do que tivemos. Acho que, em determinados momentos, a palavra do presidente Figueiredo é que prevaleceu, tirando o gás, tirando o vigor dessas reações que você agora nomeou muito adequadamente. [Charge de Caruso: Eliane Cantanhêde diz: “...e o fígado do Figueiredo?”]

Carlos Marchi: Governador, entre outubro e novembro de 1984, houve três atentados que a gente poderia chamar de instalações Tancredo. Um comitê dele no Rio Grande do Sul, uma gráfica em Belém... ao contrário, primeiro na gráfica em Belém, depois em Porto Alegre, na véspera da chegada do Tancredo, e por último aquele atentado à sala do edifício Guanabara, no segundo andar, uma bomba incendiária. Bem, eu sei muito bem qual foi a ordem interna que foi dada para aquele assunto, e hoje eu tive o cuidado de perpassar os jornais do dia, a notícia saiu no dia seguinte, depois não saiu mais nada. Exatamente a ordem que a gente tinha, o Mauro há de se lembrar muito bem disso, era: “Não se fala no assunto”. Agora, evidentemente que esse assunto deve ter merecido apreciações superiores, não sei se com Figueiredo, com o ministro do Exército, ou com que tipo de força. Não sei se na época o general Leônidas [Pires Gonçalves, ministro do Exército entre 1985-1990] já estava próximo. O que é que foi tratado? O que significou aquele golpe, que talvez tenham sido os últimos três atentados da extrema direita no Brasil? Eu acho que, depois disso, não houve nada tão importante...

Aécio Neves: Na verdade, é claro que todos nós nos preocupamos. Até esse incêndio no Edifício Guanabara foi exatamente ao lado do gabinete em que eu trabalhava.

Carlos Marchi: Foi na sala onde eu trabalhava.

Aécio Neves: É, você.

Carlos Marchi: É, sobrou para mim [ri].

Aécio Neves: E nós, enfim, não estávamos lá...

Carlos Marchi: Ainda bem.

Aécio Neves: Mas o que houve logo depois – isso é tranqüilizador dizer, não houve dificuldade de me dizer – é que recebemos informações de que isso era uma coisa absolutamente sectária...

Carlos Marchi: Isolada.

Aécio Neves: ...isolada, e que não havia nenhum respaldo do comando militar em relação...

Carlos Marchi: [interrompendo] De onde vieram essas informações?

Aécio Neves: Dessas figuras que já estavam próximas a nós. Nesse momento, já estava o general Leônidas tendo um papel importante, não apenas ele, [mas também] o almirante [Henrique] Saboia e alguns outros que nos davam tranqüilidade nas três armas, de que naquele momento isso era uma provocação, e que nós não deveríamos tomar isso como uma movimentação, [não deveríamos] dar a esse episódio uma dimensão maior do que ele havia tido.

Carlos Marchi: Quer dizer, no fundo, então, o senhor está dizendo que nessa época, nesse momento, essas informações desses militares eram um esquema muito mais importante do que esse dito pela revista Veja.

Aécio Neves: Nesse momento, eu não me refiro mais a esse grupo. Nesse caso específico, sobretudo no que se diz respeito ao Edifício Guanabara, que era onde nós... o próprio Tancredo despacha e trabalhava, houve uma palavra muito tranqüilizadora de figuras como essas que eu estou lhe dizendo aqui, que não eram desse gabinete informal. Eram figuras com uma presença importante, em comandos importantes das forças armadas. Era uma coisa quase que oficial, porque houve deles a preocupação também com qual seria a nossa reação. Mobilizar as populações, íamos para as ruas protestar? Não, achamos, e aí foi uma decisão do presidente Tancredo, que deveríamos ter serenidade, obviamente atentos a qualquer outro desfecho ou conseqüência [que] houvesse, mas prevaleceu, eu acho, a intuição e a informação, que o presidente Tancredo tinha, de que aquele episódio do edifício Guanabara se encerrou nele próprio.

[inserção de vídeo]

Paulo Markun: Aécio Neves pensou em deixar a política depois que o avô Tancredo morreu. E logo no início do governo Sarney, foi indicado a diretor da Caixa Econômica Federal. Mas no ano seguinte, em 1986, mudou de idéia e resolveu ser deputado. A política já corria em suas veias desde menino, por influência da família. O avô paterno, Tristão da Cunha, foi quatro vezes deputado federal. O pai, Aécio [Ferreira da] Cunha, exerceu seis mandatos de deputado federal, mas foi o avô materno, Tancredo, quem tirou Aécio da boa vida de estudante e surfista para ser seu secretário particular aos 21 anos. O neto o acompanhou por todo canto. A experiência com o avô trouxe a Aécio lições que o ajudaram a ganhar quatro eleições para deputado federal. Na última, chegou à presidência da Câmara e dali foi para o governo de Minas, pilotando uma espécie de Arca de Noé. Sua candidatura teve o apoio formal de nove partidos, e informal de outros nove, além do aval de cinco ex-governadores. Tancredo deve ter aplaudido a performance do neto.

[fim do vídeo]

Paulo Markun: Diante disso, eu faço a pergunta de Eldon Machado, do Rio de Janeiro, jornalista, que diz o seguinte: “Que fator ou componente político poderá fazê-lo antecipar sua candidatura presidencial de 2010 para 2006?”.

Aécio Neves: Primeiro, já está afirmando que haverá uma candidatura [minha à Presidência] em 2010.

Paulo Markun: Talvez seja em 2006, é isso?

Aécio Neves: Deixe-me dizer, Markun, e mais uma vez de forma absolutamente clara. Nós estamos fazendo algo em Minas Gerais hoje – eu fico feliz de nós podermos entrar nessa agenda mais atual, que é a grande contribuição que a nossa geração, a minha geração, pelo menos de mineiros, está dando ao país. Nós estamos construindo em Minas um laboratório de gestão pública. Nós estamos colocando, ou pelo menos tentando colocar na pauta nacional, essa questão que está absolutamente, ao meu ver, na raiz de vários dos problemas que o Brasil vive hoje. Essa é a contribuição deste momento. Nós fizemos em Minas o que nós chamamos de choque de gestão, uma recuperação da capacidade de investimento do estado, num espaço extremamente curto, que tirou Minas da pior situação fiscal do país para ser hoje uma das melhores. Saímos de um déficit de 2,4 bilhões de reais, de dois anos atrás, para um superávit, até o final deste ano, de 1,7 bilhão de reais e quatro bilhões no ano que vem apenas do Tesouro. Eu faço apenas esse relato para dizer que esse é o meu objetivo, eu preciso estar absolutamente dedicado a isso. E vou um pouco mais a Tancredo, já que é o inspirador, talvez, deste nosso programa. Tancredo dizia e eu repito: “Presidência é muito mais destino do que projeto”. Eu tenho uma grande vantagem – aqueles que me conhecem mais de perto, muitos que estão aqui sabem disso –, eu não tenho essa obsessão, não vivo planejando isso. Tristes aqueles que vivem [planejando isso], porque vão sofrer muito. Nós vamos fazer em Minas algo como estamos fazendo já, mas até o final do mandato, absolutamente inovador. O que eu quero é que as pessoas superem aquela máxima – sobretudo as novas gerações –, com a qual muitos de nós aqui fomos criados, de que o setor público é ineficiente por natureza, ele é estruturalmente incapaz de apresentar resultados, seja pela burocracia que o envolve, pelos impedimentos legais, pelas pressões de segmentos da sociedade. Em Minas nós estamos mostrando que é absolutamente possível, se se tem disposição política, se se colocam nos cargos certos as pessoas certas, e não os amigos, apresentar resultados. Portanto, é essa a contribuição de Minas Gerais para este Brasil que nós queremos construir no futuro.

[...]: A candidatura presidencial...

Aécio Neves: Só para concluir: não depende da vontade de uma pessoa, é um ledo engano você achar que constrói individualmente a sua candidatura a partir da vontade pessoal. Ela tem que ser algo coletivo, que surja coletivamente. O que eu quero dizer é que o meu partido, o PSDB, deve se preparar durante este ano para disputar, e acredito que com boas chance de vitória, a Presidência da República.

Teresa Cruvinel: Governador, esse seu choque de gestão, em Minas, basicamente é um doloroso ajuste fiscal, que implicou inclusive demissões de funcionários, extinção de órgãos etc. Eu lhe perguntaria: primeiro, como foi possível fazer esse ajuste sem perda de popularidade? Agora, quanto ao seu partido, a sua eventual candidatura em 2010, e remetendo à pergunta do telespectador, o seu partido está enfrentando dificuldades tanto quanto o governo federal, e o candidato mais viável, que foi apontado como o mais natural, está absolutamente imobilizado, e o partido ainda marca só para o fim do ano para discutir a sucessão. O seu partido não está correndo o risco de chegar atrasado à corrida sucessória? [Charge de Caruso: sentado, Aécio pensa na faixa presidencial]

Aécio Neves: Vamos lá, Teresa, a primeira etapa: houve, a partir do momento da nossa eleição, um diagnóstico da situação do estado. O estado tinha, repito, a pior equação fiscal do país: faltavam 200 milhões de reais, todo final do mês, para pagar o pessoal, o serviço da dívida, a União – se nós não pagamos, nós ficamos com os nossos recursos bloqueados – e o custeio da máquina, que é o giz da escola, que é a gasolina do carro da polícia. Faltavam 200 milhões de reais todo mês para pagar essas contas, com zero de investimento. O passivo vencido [era] de cerca de quatro bilhões de reais, com credores de todas as áreas. Nós só tínhamos uma alternativa... talvez tenha sido exatamente isso, a falta de alternativa também, que nos levou a fazer o que era necessário no início do governo. Nos primeiros 30 dias nós fizemos na verdade o inverso do que nós estamos assistindo hoje no Brasil: enxugamos cargos: esses de livre nomeação eram três mil em Minas Gerais, esses em que você acomoda a sua turma, nós extinguimos. Eu os extingui antes que iniciassem as pressões para a sua ocupação. Eram 22 secretarias de estado, passei para 15 secretarias; fundimos empresas, racionalizamos a máquina. Pagamos o que nós devíamos. Eu repito, hoje Minas Gerais produz – no ano passado, no final do ano, anunciamos o déficit zero – hoje um superávit extremamente vigoroso, e com as nossa empresas, a Cemig, a empresa de energia, é a empresa de energia que mais investe em geração no Brasil hoje, administração profissionalizada. E a Copasa está investindo 2,7 bilhões de reais nesse período de quatro anos, o maior investimento da sua história em saneamento. Temos a mais avançada legislação de PPPs [Parcerias Público-Privadas] do país hoje, já trabalhando na área de presídios, na área de rodoviária, na construção do centro administrativo em Minas Gerais. O que é que houve? Decisão política na hora certa. Todo governante perde capital político a cada dia, uns com maior velocidade e outros com menor velocidade. Mas o que nós fizemos, e aí a minha, não digo surpresa, mas a minha grata recompensa foi ter tido um aumento da popularidade ao invés de perder popularidade. Fica aí um registro...

Eliane Cantanhêde: [interrompendo] Só um registro: a Teresa Cruvinel fez uma pergunta sobre o candidato do PSDB e se não vai chegar atrasado. E você subiu no palanque e está fazendo um discurso de candidato.

Aécio Neves: Não, não, eu não estou em campanha, fique tranqüila.

Eliane Cantanhêde: Pareceu, pareceu.

Eliane Cantanhêde: Você não tem razão para ficar intranqüila, mas que os outros que não estão aqui fiquem tranqüilos. Eu não estou em campanha. Mas eu acho tão importante, Eliane, e eu me empolgo mesmo em mostrar que a gestão pode dar certo, porque o que nós estamos assistindo hoje é a essa passividade de acharmos que o poder público não pode apresentar resultado, uma gastança absolutamente desenfreada. Mas para não fugir à pergunta, eu respondi à primeira, fizemos na hora certa o que precisava ser feito e estamos colhendo hoje os frutos. Em relação ao PSDB, eu discordo, Teresa, eu não acho que nós temos, porque outros partidos o fizeram, [que] lançar um candidato para popularizá-lo. O PSDB construiu, a partir dos resultados eleitorais das eleições municipais, novamente, uma polarização com o partido que está no governo. Nós somos hoje aquele partido, e essa é uma coisa natural, conquistada talvez pelas gestões nossas, mas sobretudo pelos resultados eleitorais, o PSDB se coloca como contraponto ao que está hoje ocorrendo no Brasil, sobretudo no que diz respeito à gestão. Eu acho muito mais importante nós mostrarmos o que nós estamos fazendo, e termos amanhã ou no momento adequado um candidato que incorpore essa proposta, porque não acho suficiente nós dizermos que o governo do presidente Lula é ineficiente na gestão, erra muito na articulação política, se nós não apresentarmos algo melhor para a sociedade. Nós não vamos ter, Teresa, na minha avaliação, pelos próximos 20 ou 30 anos no Brasil, mais eleições – e quem sabe ad aeternum – decididas pelo componente ideológico. A guinada que o PT deu, felizmente, acho eu, a nova compreensão macroeconômica que o PT está tendo, da necessidade de se honrar contratos, da necessidade da rigidez fiscal, tira da pauta essa questão de política econômica, ou daquelas projeções, ou propostas utópicas do PT. As questões – e acho que nas últimas eleições já aconteceu um pouco isso, nas municipais –, as questões daqui por diante, e as próximas eleições, vão ser decididas, na minha avaliação, pelo componente da eficiência. [Charge de Caruso: de costas, sentado, sendo filmado, Aécio diz: “Estou sendo observado!”]

Teresa Cruvinel: [interrompendo] Na questão da eficiência, quem se comunica em nome do PSDB está sendo muito mais o senhor do que o governador [de São Paulo] Geraldo Alckmin, que tem um governo bem avaliado, mas é um político essencialmente paulista, que não se articula com o país, não se apresenta ao país.

Aécio Neves: Mas se o candidato for o governador Geraldo Alckmin, ele vai ter o momento para fazer isso. O PSDB não deve ir buscar a receita nos outros. Nós temos que consolidar, mostrando o que nós estamos fazendo nas nossas gestões. A tese que é real, porque na política você só consolida o que é real, [é] de que nós somos mais eficientes para gerir. E o presidente Lula, que será sempre um candidato muito forte – faço também essa avaliação pessoal –, mais ou menos dependendo do que ocorrer daqui por diante, ele terá que ser um candidato Lula diferente do que foi o último Lula para ganhar as eleições. Ele vai ter que entrar nos problemas. Não há mais espaço também para o messiânico novamente, que propõe a solução de todos os nossos problemas apenas com boas intenções. Ele terá que comparar a sua gestão na área da saúde com a gestão que o PSDB fez, na área de segurança, enfim, terá que ser um Lula diferente para disputar com chances as eleições. Nós do PSDB vamos ganhar a eleições? Não sei. Mas nós teremos um candidato altamente competitivo, porque se nós não temos uma grande estrela, Maurício, nós vamos ter um candidato ancorado numa proposta de gestão mais eficiente.

Josemar Gimenez: Mas o PSDB não vai fazer no programa dele, em maio, o que o PFL fez com César Maia?

Aécio Neves: Não, essa receita pode servir ao PFL...

Josemar Gimenez: [interrompendo] Não vai ser em cima de um candidato? Não vai ser em cima de um governo ou de um candidato?

Aécio Neves: Não é a minha opinião, não deve ser, até porque essa questão não está madura dentro do partido. Felizmente o PSDB tem nomes altamente qualificados, obviamente tiro o meu dessa avaliação, mas tem nomes altamente qualificados para empunhar essa bandeira da eficiência da gestão. O que nós temos durante este ano é que mostrar à sociedade brasileira que nós temos melhores quadros e melhores condições de enfrentar os problemas do Brasil do que os que estão no poder, sem qualquer ataque pessoal...

Teresa Cruvinel: [interrompendo] Quais são os nomes que o senhor põe na lista?

Paulo Markun: Só um minutinho, Teresa. Maurício Dias.

Maurício Dias: O senhor fala da candidatura à Presidência da República como se fosse algo pecaminoso. E é perfeitamente compreensível que um político, principalmente do seu nível, ambicione isso. Eu faço uma pergunta muito mais modesta: o senhor pretende algum dia ser candidato a presidente da República?

Aécio Neves: Eu vou lhe responder de forma muito modesta: se as circunstâncias – o que eu acho difícil que ocorra – permitirem uma não aventura, como disse o doutor Tancredo, mas um risco calculado, pode ser que isso ocorra. Olha, e vou ser também mais uma vez muito sincero, como tenho sido o tempo inteiro: não é mau que o governador de Minas seja lembrado; tradicionalmente isso ocorre. Nós não temos – respondo a você e ao Josemar – é que buscar... porque alguns de nossos companheiros quiseram isso há alguns meses atrás, buscar na receita de um outro partido, do PFL, por exemplo, algo que é legitimo, serve ao PFL, é até interessante para o PFL se colocar no processo, tentar viabilizar um nome, mas nós temos que ter tranqüilidade, sabendo que nós governamos oito anos o país, temos uma grande experiência de gestão, governamos sete estados brasileiros, praticamente metade do PIB, metade de população brasileira, e temos o que mostrar. E vou aqui na Teresa, que já me fez uma provocação...

Teresa Cruvinel: O senhor falou que [o PSDB] tem muitos nomes. Eu não vejo tantos assim. Quais são os que o senhor coloca?

Aécio Neves: Pela ordem hierárquica, eu vou dizer.

Maurício Dias: Presidente Fernando Henrique Cardoso.

Aécio Neves: Fernando Henrique Cardoso... Está vendo, até o Maurício já está sabendo antes de mim. Presidente Fernando Henrique. É um nome altamente classificado...

Josemar Gimenez: [interrompendo] O senhor acha que ele vai ser candidato?

Aécio Neves: Olha, eu não o descartaria, até porque eu acho que ele próprio não descarta e é absolutamente legítimo que, dependendo das circunstâncias, ele seja um nome que o PSDB tenha para apresentar. O governador Alckmin certamente é um grande nome. [Charge de Caruso: Aécio aponta o dedo indicador direito para três tucanos que estão voando. Ele diz “Temos muitos nomes! É mister abatê-los!”]

[...]: Dois.

Aécio Neves: O prefeito José Serra, que vem me pegar daqui a pouco para jantar aqui em São Paulo, não sei se está em campanha, mas é também um nome que o partido tem.

Teresa Cruvinel: Tem problemas, não é?

Aécio Neves: Todos têm problemas, mas todos têm potencial. O senador Tasso Jereissati é um nome; temos aí o governador de Goiás, Marconi Perillo. O PSDB – é a minha opinião pessoal, não é unanimidade isso no PSDB –, eu acho que nós temos que construir uma proposta, um projeto para o país, que demonstre que nós temos melhores condições de governar do que os que estão no governo. A nossa questão não é pressa em lançar um nome, até porque nossos nomes são amplamente conhecidos.

Carlos Marchi: É verdade que o senhor outro dia estava conversando com o ex-presidente Fernando Henrique, daí ele saiu, de repente voltou, lembrou de alguma coisa e disse para o senhor: “Olha, Aécio, eu [mostra um dedo indicador] sou só quatro anos [mostra os dois dedos indicadores]”? [risos]

Aécio Neves: Mas o Fernando Henrique é um grande frasista...

Carlos Marchi: É verdade ou não é?

Aécio Neves: ...e muito bem humorado. Há uma outra coisa também, Marchi, que está fazendo um pouco de falta na política, voltando um pouco agora a Tancredo, mas do lado positivo: o bom humor, a estratégia, a política colocada na dimensão adequada dessa expressão. Eu sinto, talvez por eu ter convivido... vocês, acho que todos aqui convivemos de alguma forma naqueles momentos...

Carlos Marchi: O senhor já está apoiando o Fernando Henrique.

Aécio Neves: ...que falta faz aquele tempo em que Ulysses e Tancredo se amavam e se temiam mutuamente, em que o [Leonel] Brizola dava o recado achando que estava falando para o Sul, o Tancredo respondia, enfim, quase que por sinais lá de Minas Gerais. Falta isso um pouco, a política feita por sinais. As coisas estão hoje muito cruas, muito de peito aberto. Eu acho que está faltando um pouco de qualidade na articulação política no Brasil hoje.

Paulo Markun: Governador, o senhor mencionou os bons resultados da administração de Minas Gerais, e o maior número de perguntas que eu tenho aqui – são cinco perguntas de telespectadores – abordam um tema que o senhor não citou, que é a questão da educação. Andréia Gontijo Avelar, de Divinópolis, professora, pergunta: “Como é que senhor vê o profissional do magistério de hoje em dia, já que antigamente o salário correspondia a quase cinco mínimos e hoje não chega a dois e meio? Há políticas de valorização do magistério?”. Nilce Pereira Galvão, de Muriaé [MG], professora, [pergunta] se o senhor não concorda com a afirmação do apresentador da Globo Pedro Bial, que disse em rede nacional que três coisas podem consertar o Brasil: educação, educação, educação. “Assino embaixo do que o Pedro Bial disse”. E disse que os professores da rede estadual mineira sofrem uma verdadeira humilhação social, por conta dos salários baixos. Sandra de Castro, de Juiz de Fora, comerciante, pergunta: “Como é que o senhor faz tanta propaganda sobre educação, se há 11 anos o profissional dessa área não recebe aumento?”. Gleiserson Gonçalves da Silva, de Capim Branco, Minas Gerais, professor: “Qual a posição do governador em relação ao salário dos professores?”. E Adriana Gomes, de Belo Horizonte: “O que é que o senhor tem a dizer sobre educação, se as carteiras estão quebradas, faltam materiais e o salário dos professores é baixo?”

Eliane Cantanhêde: Markun, você esqueceu o Gamariel, que é o presidente do sindicato lá de Itajubá.

Paulo Markun: Ah, sim, é verdade.

Paulo Markun: Está aqui: Gamariel Cardoso dos Santos, coordenador-geral do sindicato dos professores de Itajubá: “Por que os professores não têm reajuste há mais de 10 anos, com vantagens reduzidas e sem poder gozar de férias?” [Charge de Caruso: com sorriso escancarado, Aécio diz: “Falta bom humor!”; “...e $$$!“]

Aécio Neves: Eu estou achando até amenas as manifestações, mas é uma oportunidade extremamente positiva para que eu diga que não tem fórmula mágica. Dar o aumento não é difícil para nenhum governante, [mas] muitas vezes é difícil pagar o aumento. Minas não cometerá nenhuma irresponsabilidade nessa área. Mas esses professores e professoras, companheiros nossos de Minas que se manifestam aqui, são testemunhas do processo que nós estamos vivendo em Minas, inclusive na educação. Minas Gerais, há muitos anos, não pagava o 13º salário em dia. Não dá para falar em aumento se você não consegue pagar o 13º salário. Hoje, em Minas Gerais, todos os servidores do estado, professores inclusive, recebem no dia 10 de dezembro, integralmente, o 13º salário. Existia um passivo enorme do estado com os professores, em especial, chamado verbas retidas, em cerca de 50 milhões de reais. Todas elas [foram] pagas nesses primeiros dois anos. Em Minas, se recebiam salários, Markun, até o dia 26 do mês seguinte ao mês trabalhado, praticamente com um mês de atraso. A Constituição, que jamais havia sido cumprida até aqui, estabelecia que esse pagamento deveria ser feito até o quinto dia útil do mês seguinte ao mês trabalhado. Hoje, em Minas Gerais, isso ocorre. Todos os servidores, de todos os níveis, sem escalas, recebem até o quinto dia útil. Mas a educação é a base do nosso esforço de transformação do estado. E a questão do reajuste, nos limites do que o estado poderá fazer, ocorrerá, até porque a educação é a prioridade também para reajustes agora. Mas, repito, isso será feito com grande responsabilidade. E os professores que participam do programa, eu agradeço a audiência, são testemunhas de que nós fizemos, já com os parcos recursos que temos, algumas questões absolutamente inéditas, e a meu ver também sinalizadoras para o país. Minas, Markun, é o único dos 27 estados brasileiros que recebe as crianças não com sete anos, como todos os outros estado, sem exceção, mas com seis anos no ensino fundamental. A alfabetização em Minas é feita agora com [duração de] dois anos. Achamos que vamos ter alunos mais capacitados no futuro. Minas foi o único dos estados brasileiros que ofereceu aos seus alunos do ensino médio, com recursos próprios, livros didáticos. Eu fiz essa entrega no início do ano para praticamente todos os estudantes da rede pública do ensino médio. Ano que vem, aumentaremos ainda mais essa oferta. Então, estamos fazendo investimentos tanto na parte de respeito ao servidor, de respeito ao professor, superando os passivos que nós tínhamos, para entrar agora na possibilidade de darmos algum reajuste, como estamos investindo na qualidade da educação para que Minas volte a ser referência nacional, o que já foi no passado e hoje deixou de ser.

[inserção de vídeo]

Paulo Markun: Há quem veja em Aécio Neves, governador de Minas, traços do temperamento de seu avô. Tancredo Neves teve uma carreira pública marcada mais pelo temperamento, pela capacidade de articular e negociar do que por capacidade administrativa. Tancredo soube dar tempo ao tempo e mudar quando o país mudava. Perseguido pelo regime autoritário do Estado Novo, em 1937, aproximou-se de Getúlio Vargas em 1953, assumindo o Ministério da Justiça. Na crise que antecedeu ao suicídio do presidente, pediu autorização para prender o ministro da Guerra. Horas antes de morrer, Getúlio deu a Tancredo a caneta de ouro que usou para assinar a carta testamento deixada à nação, e que hoje está com Aécio. Depois do golpe de 1964, Tancredo votou contra o nome do general Castelo Branco para presidente, ao contrário de JK [Juscelino Kubitschek], entre outros. Mas na luta pela abertura política, pregava a conciliação nacional sem radicalismos; pregava também a paciência e a moderação. Chegava a parecer frio e calculista, mas tinha bom humor e ironia fina. Era o estilo Tancredo, à moda mineira, que marcou sua presença em cada crise do poder.

[fim do vídeo]

Paulo Markun: Governador, eu conheci Tancredo Neves já no fim da vida dele, infelizmente, por circunstâncias da profissão. Então eu não sei como era o Tancredo jovem. Agora, fico pensando o seguinte: a atitude que o senhor tem em relação ao governo Lula, que é às vezes de crítica, às vezes de apoio, aproxima, afasta, tem a ver com o temperamento do Tancredo?

Aécio Neves: Quisera eu poder ter herdado as qualidades que Tancredo tinha no seu temperamento, no seu conhecimento sobre o país e na sua capacidade de articulação, não é? Estou longe disso, Markun. Mas eu sou um homem do meu tempo, se você me permite uma autodefinição. É claro que eu busco sempre estar me inspirando, sobretudo na questão comportamental, em Tancredo e tantos outros brasileiros, mas eu enfrento no dia-a-dia os desafios desse meu tempo.

Paulo Markun: Como é que o senhor enfrenta o governo Lula?

Aécio Neves: Então, eu sou oposição ao governo Lula, o que não quer dizer que eu não respeite o presidente. Eu acho que a história do presidente Lula é uma história pessoal absolutamente irretocável, e nós devemos, como democratas, compreender a importância da eleição do presidente Lula, e eu compreendo isso. Mas isso não me inibe de fazer críticas a ações do governo que eu considero absolutamente impróprias.

Paulo Markun: Por exemplo.

Aécio Neves: Eu vou a duas delas que são, a meu ver, fundamentais e na base dos problemas que o presidente vive. O governo foi montado na lógica equivocada, na lógica da solidariedade aos amigos. Não é possível, num tempo de dificuldade de gastos como o que nós temos hoje, assistir – essa matéria está nos jornais de ontem ou de hoje – quase dobrar o número de cargos de confiança no governo federal, à disposição da classe política ou dos seus aliados. Então, existe algo no governo do presidente Lula que me preocupa, porque ultrapassará o seu governo, e aí sim com prejuízos graves ao país, que é o aparelhamento da máquina estatal. A colocação de pessoas sem a qualificação adequada – eu não vou apenas a nível ministerial, porque isso já é cantado em verso e prosa pelo país inteiro, mas eu vou na máquina pública, naqueles que tocam a máquina. Um amigo meu me disse outro dia algo que é adequado. Ele disse: “Olha, o governo do PT tirou as pessoas que sabiam fazer, colocou as que não sabem, e as que saíram não ensinam as que sabem”. Eu sou até um pouco beneficiário disso, porque em tenho hoje em Minas algumas dezenas de técnicos de todos os níveis, altamente qualificados, que foram extirpados, que foram tirados dos seus cargos, porque havia aquela sombra de que pudessem ter alguma simpatia ao PSDB, e muitos deles eram técnicos altamente qualificados. Esse é o equívoco que eu acho que o presidente já reconhece hoje, e está numa camisa-de-força para diminuir esse estado gigante que ele montou. E do outro lado, é a articulação política, porque o presidente iniciou o governo, sobretudo a sua base, os seus articuladores, fragilizando os partidos. Eu diria até mesmo desmoralizando alguns dos partidos políticos, patrocinando uma dança de cadeiras, patrocinando uma movimentação artificial, que fez com que ele agora perdesse inclusive o controle sobre as bancadas. No momento em que o presidente tinha a autoridade e a condição de propor a reforma política, inclusive com o nosso apoio, ele preferiu ceder aos partidos, ou partes dos partidos aliados, construindo uma maioria artificial e está pagando hoje, infelizmente, um preço caro em relação a isso. Portanto, são críticas absolutamente, a meu ver, adequadas. Na base, Markun – me permita dizer isso aqui agora ao final –, na base de todos os problemas que nós temos hoje no Brasil está um outro, que é a apropriação absurda de receita tributária hoje nas mãos da União. O Brasil vive a maior concentração de receitas tributárias nas mãos da União da nossa história republicana. A federação é hoje apenas uma expressão vazia e sem correspondência na realidade de estados e municípios. [Charge de Caruso: Lula jovem, operário, está encostado no Lula mais velho, presidente. Ambos estão com expressão de desconfiança. O primeiro diz: “Quem me viu e quem te vê...”. O presidente fala: “...Estou de olho em você!”]

Teresa Cruvinel: Governador, o senhor desculpe, mas a carga tributária aumentou dez pontos percentuais na relação com o PIB foi no governo Fernando Henrique. É verdade que ela continuou subindo no governo Lula, mas um tucano precisa ressalvar isso. [Charge de Caruso: correndo, segurando uma grande caneta, Aécio diz: “Do Tancredo herdei só a caneta!”]

Aécio Neves: Olha, eu tenho feito, Teresa, quando faço essa crítica, você a conhece, porque eu tenho dito que a refundação da federação é a nossa grande prioridade, eu tenho dito sempre, por dever de justiça, que isso não se iniciou no governo do presidente Lula, acelerou-se. Eu vou lhe dar um dado: você sabe que o IPI e o Imposto de Renda são os impostos compartilhados com os estados e municípios, que constituem a cesta a ser repartida com estados e municípios. As contribuições são os impostos com outro nome que são apropriados exclusivamente pelo governo federal. [Charge de Caruso: é dia 21 de abril. Lula pensa: “Abril no vermelho outra vez!”]

Teresa Cruvinel: [interrompendo] Foram inventadas no governo passado e continuam na moda.

Aécio Neves: Vamos lá, eu vou lhe dar um dado que é a realidade de hoje e não faz injustiça com ninguém. Em 1988, a soma das contribuições representava 11%... as contribuições apropriadas exclusivamente pela União representavam 11% do total que era arrecadado, com a soma de Imposto de Renda e de IPI. Do governo Fernando Henrique, de 1994 ao ano de 2002, nós saímos... em 94, essa apropriação já era de 90%, na comparação geral, era de 90%: as contribuições significavam 90% da soma de IPI e de Imposto de Renda. No governo do presidente Fernando Henrique, em oito anos, com cinco grandes crises internacionais, essa participação subiu 10%. Em 2002, ao final do governo do presidente Fernando Henrique, a soma das contribuições era exatamente igual à soma de Imposto de Renda e de IPI. No governo do presidente Lula, em dois anos apenas, hoje a soma das contribuições representa 120% da soma do IPI e do Imposto de Renda. Eu posso fazer essa comparação também com o ICMS, arrecadado no país inteiro, onde o crescimento foi parecido. Então, esse processo se inicia a partir de 1988, agrava-se no governo Fernando Henrique, mas ele tem um salto absolutamente estrondoso nesses primeiros dois anos, e extremamente preocupante, Teresa, porque essa fragilização de estados e municípios vem também com uma conseqüência administrativa perversa, que é a submissão, principalmente de unidades federadas mais frágeis. Não é o caso de Minas Gerais, não é o caso de outros grandes estados, mas eu percebo hoje, você também percebe, você que acompanha tão atentamente a cena política, que já começa a haver alguma movimentação, inclusive partidária, de governadores, e mesmo de outras lideranças políticas de estados que estão fragilizados, para partidos da base do governo.

Teresa Cruvinel: Isso que eu queria perguntar. Há espaço, nesse período agora que se segue, para um acordo sobre a reforma tributária? Que é a parte que falta ser votada lá. É uma reforma que interessa aos estados e interessa ao governo Lula. Pode ser talvez o único objeto de convergência neste governo ainda.

Aécio Neves: Interessa ao país, Teresa, e eu volto rapidamente ao passado para lhe dizer que as principais matérias aprovadas neste governo, lá atrás, o início da reforma previdenciária, a reforma administrativa e o início da reforma tributária só passaram porque a oposição deu os votos necessários a essas matérias, porque eram importantes para o país. Voltará a ocorrer agora na reforma tributária. O presidente Lula tem uma grande vantagem, Teresa, sobre o presidente Fernando Henrique, pelo menos uma grande vantagem: que ele nos tem, nós do PSDB, na oposição, e não o PT, porque nós temos sabido cobrar as ações do governo...

Josemar Gimenez: [interrompendo] Mas o PT também continua fazendo oposição...

Aécio Neves: ...que precisamos cobrar, mas temos sabido não votar contra o país. Essas reformas que nós aprovamos agora, com o apoio do PT, eram as mesmas que eu, em quatro anos, como líder do PSDB, propus, em dois [anos] como presidente da Câmara tentei encaminhar, e o PT sequer aceitou discuti-las. A reforma tributária que está aí... reforma tributária é um certo exagero, a reforma do ICMS, talvez com uma solução para a questão da Lei Kandir. É algo que interessa ao país, e por isso mesmo terá o apoio dos governadores, porque se depender apenas da base de sustentação e do partido do presidente, certamente não será aprovada.

Teresa Cruvinel: Não sai.

Alexandre Machado: Eu gostaria de ouvi-lo a respeito do que está acontecendo na Câmara Federal. O senhor mencionou uma dificuldade na articulação política no governo atual, do governo federal, e eu gostaria que o senhor, como ex-presidente da Câmara, que viveu com certos problemas que existem mesmo nas relações políticas do Congresso, que o senhor analisasse o que é que está acontecendo, porque para muita gente, o que está acontecendo hoje é muito grave, em relação à postura que determinados deputados, determinadas lideranças têm tomado publicamente.

Aécio Neves: Na verdade, eu acho que existem dois fatores aí fundamentais, Alexandre. O primeiro deles: o governo e a sua base subestimaram a capacidade de articulação do Congresso. Escolheram um candidato, um homem correto, a meu ver, preparado para o cargo [Luís Eduardo Greenhalgh (PT-SP)], mas que atendia fundamentalmente a uma situação de São Paulo. Não houve a preocupação, naquele instante, de observar se esse nome era um nome palatável para a maioria do parlamento. Essa é uma questão que levou, a meu ver, ao resultado que nós chegamos [refere-se à eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) à presidência da Câmara dos Deputados]. A outra, que é anterior a essa, e eu a ela já me referi, Alexandre, foi o desprezo do governo para com os partidos políticos. Nunca houve... por mais que um partido esteja no governo e tenha ali as suas preferências, estimule um ou outro parlamentar, em função das suas dificuldades locais, a se movimentar para um partido da base, nunca houve um estímulo tão descarado, tão aberto, a que partidos oposicionistas perdessem parlamentares. O PSDB perdeu vinte, o PFL deve ter perdido vinte e poucos parlamentares no início do governo para partidos da base. Isso significou o quê? A desmoralização dessas lideranças. E o Congresso, a Câmara em especial, Alexandre, precisa ter referência, precisa se saber quem é aquele interlocutor que fala em nome do governo, quem é o homem com quem se negocia. O governo perdeu isso, está tentando se reorganizar agora a partir da perda da presidência da Câmara [anteriormente ocupada por João Paulo Cunha (PT-SP)]. Eu me lembro que, no nosso tempo, eu era presidente da Câmara, o Arnaldo Madeira, hoje secretário de governo de São Paulo, era o líder do governo. Os líderes aliados sabiam com quem conversar; a oposição sabia quem eram as pessoas que procuravam. Hoje, a impressão que eu tenho é que não há uma referência consolidada que tenha respaldo para encaminhar as negociações e para construir as votações. Eu prevejo um ano, daqui por diante, até o início do ano que vem, de muitas dificuldades para o presidente da República nessa articulação congressual. Todo governo, Alexandre, tem pelo menos dois momentos. O primeiro é o momento das atitudes, é o momento do planejamento, de tomar as medidas. O segundo é o de colher os frutos dessas medidas. Quem não tomou as medidas nos primeiros dois anos, agora talvez não tenha a mesma capacidade de tomar as medidas necessárias à organização inclusive da sua base parlamentar. A reforma política, tão propalada na campanha eleitoral, perdeu espaço por uma razão, a mesma razão pela qual nós não conseguimos votá-la lá atrás, e faço também aqui essa mea culpa, por quê? Porque os partidos aliados ao governo não têm interesse nessa reforma. O governo submete, portanto, algo absolutamente fundamental para o país, para a estabilidade do quadro partidário a sua conveniência política. E já estamos assistindo, desde já, a uma grande montagem do palanque para as próximas eleições, a meu ver, de forma absolutamente precipitada.

Teresa Cruvinel: Por parte do governo?

Aécio Neves: Por parte do governo federal, com indicações, com nomeações de figuras de Brasília, ou do Paraná, que ajudam a compor o palanque do presidente Lula.

Josemar Gimenez: O senhor fala em apadrinhamento e aparelhamento na questão da estrutura do governo, e a gente sabe que o ministro José Dirceu está conversando muito com o professor Vicente Falconi, que foi um dos ideólogos do choque de gestão lá em Minas, que é do Instituto de Desenvolvimento Gerencial.

Aécio Neves: E que teve no início uma grande oposição do PT de Minas Gerais.

Josemar Gimenez: Sem essa oposição light que o senhor faz aí, que tem toda uma necessidade em relação com o governo, principalmente com o ministro [da Fazenda, Antonio] Palocci, que é avalista de vários empréstimos, o senhor acha que o governo de PT não tem gestão, o governo federal?

Aécio Neves: Está longe de ter gestão, Josemar. Eu acho que a pouca crença do governo, pelo menos no início, da necessidade de se organizar, de enxugar a máquina, é também uma das raízes do problema que nós estamos vivendo hoje. Eu vejo com alegria o ministro José Dirceu incorporando no seu discurso o choque de gestão. Lamento que, por enquanto, esteja apenas no discurso; tomara que essas conversas com o professor Falconi, ou mesmo com membros do governo, mostrem ao governo federal que gestão é absolutamente essencial para se investir mais em saúde, para se investir mais em saneamento... Vou lhe dar um dado grave, Josemar: no ano de 2004, o que o governo gastou em cargos e funções públicos – claro que não foram todos criados pelo governo, eu estou me referindo à União, somados legislativo e executivo, mas obviamente a maior parcela é do governo federal –, o que gastou em cargos comissionados, em toda a estrutura de função e de cargos do governo foram 10 bilhões de reais, exatamente que o governo gastou em investimento. E nós assistimos aí, todos nós estamos lendo os jornais: o crescimento dos gastos do governo, seja com esses cargos comissionados, seja com custeio das viagens, seja com terceirização, é algo que vem na linha inversa ao que precisa ser feito hoje. E aí eu vou tomar liberdade de dizer o seguinte: Minas nisso está sim – sem modéstia alguma, porque não é uma construção individual, é coletiva –, está dando exemplos, nos quais seria bom, pelo menos nesse aspecto específico do enfrentamento da questão gerencial, que o governo federal buscasse inspiração.

Paulo Markun: Governador, última pergunta, [que é] de Leandro Sangio, sei que dá para responder rapidamente. Ele é aposentado, de Belo Horizonte, e diz o seguinte: “Em uma entrevista à Rede Minas, certa vez, o senhor disse que uma mulher e uma esposa não caberiam na sua vida política. O senhor ainda mantém essa posição?”

Aécio Neves: Não, eu nunca disse uma coisa dessas [risos]. Olha, o que eu posso ter dito é o seguinte: é que eu não submeteria a minha vida e a minha felicidade pessoal às circunstâncias políticas. E Minas me mostrou que é muito menos conservadora do que de fora alguns acham que pode ser. Eu venci essas últimas eleições, com nove candidatos, Markun, no primeiro turno, com cerca de 60% dos votos, solteiro. Se um dia acontecer, e tomara que ocorra, eu pretendo sim ter mais filhos, pretendo me casar, mas apenas não vou fazer disso um instrumento, enfim, por causa de outros vôos políticos. Se eu depender disso para ir a outro lugar, vocês vão me encontrar sempre em Minas Gerais.

Eliane Cantanhêde: Não, no Rio de Janeiro.

Aécio Neves: Também.

Eliane Cantanhêde: No Rio de Janeiro, governador.

Aécio Neves: E é uma outra bobagem, Eliane, é uma outra coisa que ainda persiste. Eu tenho minha filha, que mora no Rio, que é a maior alegria da minha vida; fui criado boa parte da minha vida lá e vou sempre que posso, menos até do que gostaria. Mas eu acho que o correto é sempre nós sermos cobrados pelos resultados. Eu acho que Minas... a Vox Populi diz que 90% da população está satisfeita com os resultados do governo mineiro.

Paulo Markun: Entre Minas e o Rio de Janeiro, uma paradinha no Roda Viva não é mau negócio. Agradeço a sua entrevista, aos nossos entrevistadores, a você que está em casa. Voltaremos na próxima segunda-feira com uma entrevista do rapper MV Bill. Uma ótima semana e até lá.
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