Memória Roda Viva

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Mário Covas

22/6/1998

Reeleição, alianças partidárias, projetos de governo e funcionalismo público, foram alguns dos temas da entrevista do então governador do estado de São Paulo

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Matinas Suzuki: Boa Noite! Ele já foi deputado, senador, prefeito, candidato a presidente da República. Disputou duas eleições para governador, ganhou uma e busca, agora, a reeleição. No centro do Roda Viva desta noite, o governador do estado de São Paulo, Mário Covas.

[Comentarista]: Voz de barítono e fama de temperamental, o engenheiro civil Mário Covas Junior chega aos 68 anos de idade já acumulando quase 38 anos de carreira política. Disputou sua primeira eleição em 1961, como candidato a prefeito de Santos, sua cidade natal. Perdeu, mas continuou na política e se elegeu 2 vezes deputado federal por São Paulo. Em 1962 pelo minúsculo PST, Partido Social Trabalhista e em 1966 pelo MDB [Movimento Democrático Brasileiro. Partido criado em 1966], partido de oposição ao regime militar. Depois do AI5, em 1968, foi preso duas vezes e teve seus direitos políticos cassados por 10 anos. Com a redemocratização, voltou à política e foi eleito outra vez deputado federal, em 1982, pelo PMDB [Partido do Movimento Democrático Brasileiro]. Em 1983, retornou a São Paulo para trabalhar como secretário estadual dos Transportes e, em seguida, foi nomeado prefeito da capital paulista pelo então governador Franco Montoro [1916 – 1999. Governador de São Paulo entre 1993 e 1987. Foi vereador, deputado estadual, e 3 vezes deputado federal. Foi ministro da Previdência Social entre 1971 e 1983. Ingressou no PMDB em 1980 e foi um dos fundadores do PSDB] Em 1986, foi eleito senador por São Paulo com quase 8 milhões de votos tornando-se, assim, [na época] o político mais votado do Brasil em todos os tempos. Foi durante a campanha para senador que Mário Covas sofreu um infarto que o levou a implantar pontes de safena e a cortar os 4 maços de cigarro que fumava por dia. Em 1989, já no recém criado PSDB, concorreu à presidência da República e, no ano seguinte, ao governo de São Paulo. Voltou à disputa paulista em 1994 e ganhou. Assumiu o governo com 36 mil reais no caixa e uma folha de pagamento de quase 900 milhões vencendo em uma semana. Foi um período de crises, com cortes de verbas e um enxugamento que levou a mais de 100 mil demissões no funcionalismo. Passados 2 anos, o déficit estadual foi zerado. A dívida paulista, tida como impagável, foi renegociada com o Banespa e a Fepasa [empresa de  estradas de ferro brasileira que pertencia ao estado de São Paulo. Foi extinta ao ser incorporada à Rede Ferroviária Federal, em 29 de maio de 1998] passando para o governo federal como parte do pagamento. Veio, então, o programa estadual de desestatização, para transferir à iniciativa privada as estatais do setor energético, Ceasas, [Centrais de abastecimento] rodovias, entre outras. Ainda com dificuldade nas áreas de segurança, educação e moradia, com superávit no caixa, mas com o tesouro paulista registrando queda na arrecadação por conta das altas taxas de juros, o governador Mário Covas chega ao final de seu governo disposto a um novo mandato. Candidato à reeleição, ele retoma a disputa política para enfrentar velhos adversários de quem já perdeu ou já ganhou eleições em outras campanhas.

 

Matinas Suzuki Jr.: Bem, para entrevistar o governador Mário Covas, nós convidamos, essa noite, os jornalistas: Luís Costa Pinto, editor da revista Época; a Cristiana Lobo, colunista do jornal O Estado de S. Paulo; a Eleonora de Lucena que é secretaria de redação da Folha de S. Paulo; o Alexandre Polesi, diretor de redação do Diário do Grande ABC e o Mário Simas Filho, repórter da revista Isto É. O Roda Viva é transmitido em rede nacional para todos os estados brasileiros e também para Brasília. Boa noite, governador Mário Covas!

 

Mário Covas: Boa Noite!

 

Matinas Suzuki Jr.: Muito obrigado pela sua presença. Governador, eu tenho um assunto que o senhor não gosta muito que é pesquisa. Eu sei que o senhor não gosta de pesquisa, mas o noticiário tem dado, aí, as pesquisas e eu gostaria de ouvir a opinião do senhor e, possivelmente as criticas do senhor às pesquisas, que têm apontado que a sua candidatura à reeleição ao governo do estado de São Paulo estaria em terceiro lugar, atrás dos candidatos Francisco Rossi [foi eleito duas vezes prefeito de Osasco. Foi candidato ao governo de São Paulo 3 vezes, mas perdeu. Em 1994, disputou o segundo turno com Mário Covas, mas não foi eleito. Foi eleito deputado federal pelo PMDB em 2006] e Paulo Maluf.

 

Mário Covas: Olha, eu não contesto nenhuma pesquisa. Eu acho que as pesquisas foram feitas corretamente, elas representam uma matéria que eu até estudei na escola que se chama estatística. Se o universo for razoavelmente representado, se a massa for boa, a pesquisa normalmente está correta. Embora, semanalmente, você veja a pesquisa em diferentes órgãos com resultados diferentes. Acho que a pesquisa, a gente analisa, recebe os resultados e toma providencias em função daquilo. Na realidade, você tem que buscar... estando em primeiro ou em último lugar. Você tem que procurar melhorar sempre, de forma que, se a pesquisa me coloca em terceiro lugar, está indicando que precisa trabalhar mais, alguma coisa adicional precisa ser feita. Tudo o que foi feito precisa ser contado com mais profundidade, enfim. Não vejo nada de extraordinário nisso.

 

Matinas Suzuki Jr.: E a famosa frase do "charuto em boca de bêbado"? [risos] [Em entrevista anterior, perguntado sobre seu desempenho nas pesquisas, o governador respondeu "Estou trabalhando como um louco, me virando feito charuto em boca de bêbado"]

 

Mário Covas: Eu sou da beira do cais, eu sou de Santos. De forma que o sabor dessas frases resulta exatamente desse ambiente, um ambiente em que as pessoas são muito alegres, muito divertidas etc. E, volta e meia, adotam esse tipo de linguajar, esse tipo de... E você acaba incorporando esse conceito [leva as mãos ao peito]. Quando você faz alguma coisa na qual o esforço é muito grande, lá se usa dizer: “Estás me virando que nem charuto de boca de bêbado”. Não sei se reparou que o bêbado fica com o charuto virando na boca. Portanto, é uma expressão chula, mas de qualquer maneira é uma expressão que vem à cabeça da gente em circunstâncias como estas em que a gente está vivendo nesse momento.

 

Matinas Suzuki Jr.: Com licença, está aqui, também, conosco essa noite o jornalista Luis Nassif que vai colaborar nessa entrevista. Alexandre...

 

Alexandre Polesi: A grande marca da sua administração é a austeridade financeira, o saneamento das finanças do estado. O senhor tem dito, em algumas recentes entrevistas, que tem feito o máximo em todas as áreas e tem se esforçado ao máximo para atender as necessidades do estado. Mas, até agora, o eleitorado não se sensibilizou com esse trabalho que o senhor tem feito. O senhor está chegando à conclusão que a austeridade é um predicado que o eleitor não gosta? O senhor acha que tem condição de ganhar uma eleição tendo apenas como mensagem, uma mensagem de austeridade econômica, de rigor com o dinheiro público?

 

Mário Covas: Não. A austeridade não é um fim, é um meio. A austeridade é uma obrigação. Quem governa em foro austero, seja sua família, seja um clube, seja o estado é porque não tem responsabilidade. A austeridade é um meio para você poder realizar. Eu estou disposto a discutir, com quer que seja. Dou a você o direito de escolher o terreno. Eu estou disposto a discutir o meu governo em comparação com qualquer governo anterior. Eu deixo você escolher o terreno.

 

Alexandre Polesi: Por que razão o eleitorado até agora não percebeu o seu trabalho?

 

Mário Covas: O analista é você, eu sou governador. A resposta é você quem tem que dar, não sou eu. Eu acho que alguma coisa deve ter de errado, na minha capacidade de me comunicar. Muito provavelmente, eu não fui capaz de transmitir isso com a devida necessidade e é por isso que estou dizendo: eu ponho em discussão aqui, em torno da mesa, qual é o terreno que vocês querem discutir. Discutir a austeridade, discutir a recuperação do estado essa é um pouco covardia. Mas discutir quem mais fez habitação, quem mais fez saneamento básico, quem mais fez estrada, quem mais fez energia elétrica, quem mais fez hospitais, quem mais fez segurança pública, enfim... pode escolher o terreno que quiser que eu estou disposto a comparar com qualquer governo anterior.

 

Cristina Lobo: [interrompendo] O senhor, então, que falou que é da beira do cais onde as pessoas são divertidas. O senhor se acha zangado demais... O senhor tem a fama de zangado... Para ser compreendido ou o senhor acha que é um processo pelo qual todos os tucanos estão passando, inclusive o presidente Fernando Henrique [Fernando Henrique Cardoso, presidente de 1995 a 2002. É do PSDB, assim como Covas] passou agora, não é? Quer dizer, o presidente Fernando Henrique também caiu nas pesquisas. Os tucanos em geral, quer dizer, em geral não, em maioria, só no estado do Ceará não está em segundo. O que está acontecendo? Eu repito um pouco da pergunta do Polesi: Então é assim, essa seriedade tucana é que não está sendo compreendida genericamente ou o que é?

 

Mário Covas: Não creio, não. Seriedade é uma coisa que se compreende sempre, embora nem sempre se tenha tido, mas se compreende. Eu acho que isso é uma aspiração coletiva, aspiração da seriedade. Eu nem quis colocar isso em discussão, pois esse é um terreno em que, afinal, a vantagem seria demasiada, mas na realidade, eu não acho que os tucanos estejam passando por um problema especial [sendo interrompido]. Quem passa por um problema especial é quem está no cargo. Ao contrário do que sempre se disse, quem está no cargo não leva vantagem no processo de eleição. Nós temos um eleitorado que é muito jovem e você incorpora, em cada eleição, um número de pessoas muito grande que na eleição anterior tinha 12 anos de idade e que tem uma memória apenas do período recente. Portanto, quem está no cargo está sob uma margem de julgamento muito grande.

 

Luís Nassif: Governador, como é que se explica o seguinte, vamos pegar um fato muito recente que tem a gestão do Paulo Maluf na prefeitura de São Paulo. É um fato público notório que saiu com dificuldades financeiras, fez obras em cima de orçamentos futuros. O sucessor, a sua prefeitura, não consegue levar adiante as obras, o sucessor é impopular [referindo-se ao sucessor de Maluf na prefeitura de São Paulo, Celso Pitta, que assumiu a prefeitura em 1997]... O Maluf é popular! Como é que se explica essa equação?

 

Mário Covas: Já não é tão popular assim. Até o limite em que as pessoas começarem a identificar que o problema que o atual prefeito tem é em decorrência do prefeito anterior. E me parece que isto, paulatinamente, está ocorrendo. No primeiro instante, as pessoas preferiam fazer um julgamento absoluto do prefeito. Eu não estou nem em condições de dizer se ele vai ser um bom ou mau prefeito. Eu acho que, até agora, ele não teve chance de ser nem bom nem mau.

 

Luís Nassif: Mas, seguramente, foi mau secretário das Finanças.

 

Mário Covas: Pode até ter sido mau secretário das Finanças e pode ser um bom prefeito. O que eu estou dizendo é que, até agora, ele não teve sequer condição de ser examinado como prefeito, pois as condições que ele herdou não permitiram fazer coisa diferente do que está acontecendo. Olha, se alguém pensa que eu preciso me explicar do que está acontecendo, não preciso, não. Eu preciso é lutar. Eu preciso correr atrás daquilo... Por isso que para mim...

 

Matinas Suzuki Jr.: [interrompendo] Agora, houve uma falha de comunicação? O senhor acha isso?

 

Mário Covas: Eu não sei se é falha de comunicação. Falha de propaganda, provavelmente. Afinal, eu acho que o governo do estado devia 22 milhões de propaganda não paga. E, naquela circunstância, pagar esses 22 milhões me exigiu negociar para pagar 1 milhão por mês. Portanto, durante 22 meses eu não pude sequer dar notícia daquilo que estava sendo feito. Eu sou muito contra a publicidade. Eu não sou contra é o governo fornecer informações sobre o que ele está formando. Claro que são coisas bastante distintas. A publicidade tem uma certa dose de auto-estima. Afinal, a informação é uma obrigação que você tem até em função das próprias dívidas que você tem com o próprio eleitor, portanto... Todavia, ainda para a informação tem um certo preço. Eu estou lhe contando que, ao assumir, em circunstâncias que nem vou repetir aqui... [gesticulando e girando a cadeira de um lado para o outro] Para você ter uma idéia, no primeiro dia de governo, me entrou [no gabinete] o secretário de Segurança para dizer que, no dia seguinte, os carros de policia não andavam na rua, pois a Petrobras não queria mais fornecer [combustível]. Às 5 horas da tarde me entrou o secretário de Energia para dizer: “Olha acaba de vencer uma divida da Cesp [Companhia Energética de São Paulo] de 70 milhões de dólares que não era do nosso conhecimento”. De forma que, diante desse quadro, até que você tomasse conhecimento de todas as dívidas e, portanto, equacionasse cada uma delas, até as mais urgentes, você acabou sendo obrigado a sacrificar de imediato certas atividades [sendo interrompido]. Eu nunca parei o governo para fazer balanço, pois, se no primeiro dia o governo não começasse a atuar, ele não poderia ter tido os resultados que conseguiu. A recuperação não foi a recuperação meramente orçamentária. A recuperação, desde o primeiro dia, foi uma recuperação de cada empresa pública, de cada setor de atividade. Eu poderia citar aqui para vocês. A austeridade não significa não fazer. A austeridade significa criar os mecanismos que te permitam fazer o mais rápido possível. E fazer o máximo possível, mas fazer pelo menor preço. Quando a gente comparar, aqui nesse programa, começar a comparar preços pagos hoje com preços pagos no passado, você vai ver como ainda é possível, pagando dívida, como ainda é possível fazer mais.

 

Eleonora de Lucena: Sobre esse aspecto que o senhor estava comentando agora de ter um resultado melhor na  negociação. Há quem diga que a negociação do Banespa, que se arrastou por três anos, acabou gerando uma perda para o estado avaliada em 15 bilhões. Quer dizer, a sua insistência em manter o Banespa acabou custando para os cofres do estado 15 bilhões. Como o senhor responde a essa crítica?

 

Mário Covas: A senhora está enganada. Eu não tive nenhuma insistência de ficar com o Banespa, até porque o Banespa não esteve na minha mão nunca. O Banespa foi subtraído ao estado no dia 30 de dezembro de 1994, dois antes de eu assumir. E durante todo o meu período de governo, o estado não teve ingerência do Banespa. A tal ponto que eu sequer... [sendo interrompido] É muito fácil dizer isso só que uma negociação exige dualidade de vontades. A negociação, você faz quando as condições da negociação são razoáveis.

 

Eleonora de Lucena: O senhor atribui ao governo federal, ao governo Fernando Henrique, a demora da definição do Banespa que custou esse valor?

 

Mário Covas: Em primeiro lugar, a definição do Banespa foi muito antes de três anos. Três anos levaram para aprovar no Senado. Isso não é da minha lavra, eu aprovei na Assembléia Legislativa um ano antes. Por outro lado, se eu pudesse ter ficado com o Banespa, se o estado pudesse ter ficado com o Banespa... O Banespa é um banco, voltamos a esse assunto, que pagou o preço de ter um grande crédito, todavia o crédito não podia ser pago. O Banespa, simplesmente, entrou em crise porque o estado entrou em crise. E o estado, que era o seu maior devedor, não tinha condições de pagar a dívida que possuía. Daí porque em determinado instante ele entrou em crise. E em crise irrevogável porque a dívida não podia ser paga mesmo.

 

Alexandre Polesi: [todos falam ao mesmo tempo] Mas o senhor tentou durante um bom tempo recuperar o Banespa do estado. Esse atraso não foi fatal?

 

Mário Covas: Eu tentei recuperar o Banespa pelo estado? Não. Eu tinha que resolver o problema. Eu tinha que resolver o problema [mexendo as mãos de um lado para o outro]. A dívida não desaparece.

 

Eleonora de Lacerda: A dívida só cresceu, não é?

 

[...]: O tempo, nesse caso, conspirou.

 

Mário Covas: Se eles quisessem fazer a proposta que me fizeram mais adiante, em um primeiro instante, muito provavelmente eu teria feito.

 

Eleonora de Lacerda: Então, a responsabilidade é do governo Fernando Henrique por essa...

 

Mário Covas: [interrompendo] Uma negociação não tem responsável. Ela só se viabiliza na hora em que as partes chegam a um acordo. E o acordo só é feito quando a negociação interessa às duas partes.

 

Luís Costa Pinto: Governador, incomoda ao senhor entrar na campanha tendo que explicar a sua administração?  Tendo que explicar a negociação do Banespa e olhar para o lado e ver que o seu principal adversário que, em alguns momentos, o senhor responsabiliza, em todo ou em parte, pela situação de São Paulo, estar ao lado daqueles que foram aliados do senhor historicamente, quer dizer, está o Maluf ao lado do Fernando Henrique... em outros estados, é o Fernando Henrique ao lado do Antônio Carlos Magalhães [1927 – 2007. Governou a Bahia por 3 vezes. Foi eleito senador pelo estado em 1994 e 2002], na Bahia; por exemplo, é o Fernando Henrique ao lado do Marco Maciel [foi deputado, governador de Pernambuco e vice-presidente da República entre os anos de 1995 a 2002. Foi eleito senador em 2003], em Pernambuco, ou seja, os adversários históricos de vocês... O que irrita mais o senhor, incomoda mais o senhor na campanha, aqui em São Paulo? É explicar isso, a matemática da sua gestão, ou é explicar para o eleitor as alianças que foram feitas e porque o senhor não está integralmente, não tem um apoio integral do presidente que estava ao lado do senhor?

 

Mário Covas: Eu não tenho explicações a dar. Eu não estou na defesa. Eu tenho como atacar! [ri] Eu estou oferecendo para vocês uma oportunidade de escolher o terreno, qualquer que seja, para a gente discutir administrativamente quem fez mais. No plano político, podemos discutir também. No plano moral podemos discutir também. Eu não vou me colocar na defesa. Não tenho explicações a dar. Eu posso justificar cada uma das minhas atitudes, até porque tenho o dever de fazer isso. Mas eu não estou na defesa, não.

 

Luís Costa Pinto: O senhor acha que o presidente tem explicações a dar em relação à divisão de palanques dele em São Paulo?

 

Mário Covas: O presidente Fernando Henrique? O presidente Fernando Henrique tem toda a liberdade de ter o apoio que acha que deve ter. Acho até que é uma coisa boa que o Maluf está fazendo. A única coisa que eu concordo com o Maluf é no fato de estar apoiando o Fernando Henrique. Pela primeira vez ele está escolhendo o melhor candidato. Não é comum o Maluf fazer isso. Por outro lado, eu sei que o presidente sofre [abre as mãos], tem que receber até o Maluf. Ele está em um partido, o partido apóia muito bem, ele o recebe. É evidente que o período de receber o Maluf reside no fato de que, se você o recebe sozinho, quando ele sai, conta a versão que ele quiser. Não importa se ela é verdade ou não...

 

Luís Nassif: O senhor receberia o [...] sozinho ou não?

 

Mário Covas: Recebo. Recebo [todos falam ao mesmo tempo]. Eu o receberia sozinho e receberia uma porção de gente sozinho. Mas nas duas vezes que o Maluf foi comer comigo lá no Palácio tinha mais gente, viu [risos].

 

Matinas Suzuki Jr.: A propósito, tem dois eleitores que dizem aqui que eram eleitores do Paulo Maluf, e que votaram no senhor graças ao apoio que o Maluf deu ao senhor na eleição passada. E se o senhor não teme que esses votos façam falta agora nessa eleição?

 

Mário Covas: Não creio. Eu tive, praticamente, os mesmos votos no primeiro turno e no segundo turno. Um pouco mais de votos. Se o capital que o Maluf tem para transferir é apenas aquele, não faz falta.

 

Luís Nassif: No começo do seu governo ainda, o senhor, em uma entrevista dada na Bandeirantes [Rede Bandeirantes de Televisão], onde um ponto que era colocado, era essa questão da profissionalização das empresas estatais. Por exemplo, o Banespa. O senhor queria provar que podia recuperar o Banespa e a questão posta foi a seguinte: mas de que maneira o governador pode colocar uma empresa estatal a salvo de, eventualmente, intervenções políticas? E o senhor achava que fazia parte do jogo democrático. Qual é a sua versão hoje e de que maneira que essa profissionalização das empresas estatais pode ser permanente?

 

Mário Covas: Pode fazer. Está provado na Caixa [banco Caixa Econômica Estadual], na Sabesp, na Cesp [Companhia Energética de São Paulo]. Todas elas estavam em situação igual, permaneceram na mão do governo e foram resgatadas. Se o Banespa... [sendo interrompido] Eu tive que criar condições para que, na sua ausência, [tenha] a sua certeza de que a empresa pode ser bem conduzida seja substituída por mecanismos que garantam isso!

 

Luís Nassif: E que tipo de mecanismo que...

 

Mário Covas: [interrompendo] Por exemplo, na Sabesp nós estamos pensando em arranjar um sócio privilegiado que, com 5% do capital,  tenha garantia de, por exemplo, ter o cargo de diretor financeiro. E, portanto, isso garante a não ingerência política dentro da empresa. Você atende aos requisitos da Constituição, que manda que a maioria seja do Estado, a empresa seja majoritariamente do Estado e, ao mesmo tempo, você garante a não ingerência de natureza política dentro da empresa. Você pode levantar... Até porque... Eu vou demonstrar até que ponto [mexendo as mãos de um lado para o outro] é errado dizer que tudo que é privado é bom e tudo que é estatal não presta. Isso não é verdadeiro. A decisão sobre privatizar ou estatizar é uma decisão que depende do que, em cada momento, interessa ao povo. Pode dizer. Quando eu assumi, as ações da Sabesp valiam 17 reais. Ano passado, nós vendemos na bolsa por 314 reais. É uma valorização de 6.000%. A empresa hoje é a melhor empresa de saneamento das Américas. A empresa teve, antes de eu assumir no ano anterior, um balanço com prejuízo de 360 milhões, devia 600 milhões em caixa. Em agosto de 1995, ela já não devia em caixa. De uma programação, feita no ano anterior, para investir 30 milhões, em 1995, investiu 300 e terminou o ano ganhando 50. No ano subseqüente, ela investiu 780 e terminou o ano com 240 de lucro.

 

Cristiana Lobo: Quantos paulistas são atendidos com saneamento básico?

 

Mário Covas: Até o fim do ano [de 1998], 100% de água em todas as cidades onde a Sabesp trabalha, 85% de esgoto coletado e 60% de esgoto tratado. Aqui na região metropolitana, onde a Sabesp trabalha, havia 6 milhões de pessoas em rodízio de água, quando nós assumimos. No começo do ano, agora, estavam reduzidas a 200 mil. No fim do ano, não vai faltar água em uma casa e não vai ter mais nenhum rodízio. Aliás, lá no ABC, já acabou.

 

Eleonora de Lucena: Governador, sobre a questão das estatais. Na sua gestão, houve privatização da parte metropolitana da Eletropaulo [foi uma empresa paulista, estatal, de distribuição de energia elétrica. Em 1990, foi dividida em outras empresas de tamanho menor e que foram privatizadas] e as demais não conseguiram ser privatizadas e o preço...

 

Mário Covas: [interrompendo] As demais? Perdão, as demais é uma só.

 

Eleonora de Lucena: Sim, é uma só, mas a fração metropolitana da Eletropaulo foi privatizada.

 

Mário Covas: Mas só foram duas postas em leilão. As outras frações, não. É uma fração!

 

Eleonora de Lucena: Não conseguiu ser vendida e, na fração metropolitana, o preço de venda foi o preço mínimo, apesar dos resultados que o senhor está colocando, de bons resultados administrativos. O que está dando errado na privatização de São Paulo?

 

Mário Covas: Nada!  A CPFL [empresa paulista distribuidora de energia elétrica] foi vendida com ágio de 78%.

 

Eleonora de Lucena: Isso antes da crise asiática [período de crise financeira que atingiu grande parte dos países da Ásia. Começou em 1997 na Tailândia depois da decisão do governo tailandês de tornar o câmbio flutuante. A medida gerou uma grande dívida externa e deixou o país falido. A crise se espalhou pelo sudeste asiático e também pelo Japão. Esta foi chamada de “a primeira grande crise dos mercados globalizados”].

 

Mário Covas: É possível que, de lá para cá, as circunstâncias de mercado internacional tenham se modificado. Se você tomar como referência as outras privatizações ocorridas no Brasil, elas também caíram muito de valor.

 

Eleonora de Lucena: É um momento de continuar a privatização nesse quadro, o senhor acha?

 

Mário Covas: Depende. Eu acho que a Elektro [companhia de distribuição de energia elétrica para 223 municípios do estado de São Paulo e 5 do Mato Grosso do Sul], por exemplo, pode ter um bom sucesso! Temos pelo menos 6 empresas muito interessadas na compra da Elektro.

 

Eleonora de Lucena: O senhor ficou insatisfeito na venda da Metropolitana [EMTU- Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo. Empresa de sociedade anônima e economia mista que é controlada pelo governo do estado e que planeja e fiscaliza o transporte intermunicipal nas regiões metropolitanas do estado de São Paulo]? Nas entrevistas que o senhor deu, naquela época, o senhor demonstrou uma certa contrariedade com o preço mínimo.

 

Mário Covas: [ri] Não tem contrariedade nenhuma. As pessoas acham que eu tenho mau humor. [risos e todos falam ao mesmo tempo] Agora, eu não tive contrariedade nenhuma. Se você tem um preço mínimo e a venda é feita por esse preço mínimo, você alcançou o preço mínimo. Ou seja, você diz: a partir desse preço, qualquer que seja o preço me interessa. Portanto, eu preferia que vendesse pelo dobro, com ágio de 100%. Mas só houve um comprador, um interessado, ou seja, o volume de empresas dessa natureza que têm sido colocadas no país inteiro e o número de compradores, que no final são menores do que a gente pensava no começo, acabaram limitando essas possibilidades.

 

Eleonora de Lucena: O senhor acha que está correta a condição desse processo de privatização nesse momento no Brasil?

 

Mário Covas: Eu acho que está correto, sim. Eu acho que está correto. No meu caso, por exemplo, não compreendo privatizar a Sabesp. No entanto, a Cesp se não for privatizada, em 10 anos, a sua dívida cobre o patrimônio líquido. A Cesp tinha 10 bilhões de dívida. Ou você a privatiza, e ao privatizar evidentemente se leva em conta a dívida e, portanto, isso é deduzido do preço de venda, mais do que isso. Você vende aquilo que você tem, não é a empresa como todo. Você vende a parcela que pertence ao Estado. São empresas que são negociadas em bolsa, portanto há certas parcelas que estão com terceiros. O que você vende, que em geral corresponde ao controle da empresa mais aquilo que está na mão do estado. Por isso há divergências entre o preço global da empresa e o preço de venda, o preço mínimo que é estabelecido em cima daquilo que você está vendendo, [gesticulando] realmente. Eu acho que, realmente, você encontrou muito pior do que isso é a situação do mercado internacional. Essa situação se agravou por uma série de circunstâncias e, portanto, você passou a ter muito mais dificuldades de encontrar financiamentos para que os compradores pudessem fazer acordo.

 

Eleonora de Lucena: Por que essa urgência em vender, já que o quadro internacional não favorece?

 

Mário Covas: [interrompendo] Eu não tenho nenhuma urgência em vender. Nenhuma urgência. Eu tenho uma programação feita. Não vendi a outra empresa, a Bandeirantes [empresa de distribuição de energia elétrica]. Todavia, a Elektro não foi vendida não é porque não apareceu comprador, é porque a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) achou que a mecânica feita através de subsidiário integral teoricamente prejudicaria os acionistas majoritários. Portanto, mudamos o critério, embora mantendo a subsidiária integral, mas estamos recolocando e o leilão ocorrerá dia 27. Eu quero crer, com bastante sucesso. Pois nós temos um grupo muito grande de interessados, que se mostraram interessados, e há razões para eles se mostrarem. Eles já compraram coisas que ficam contíguas à área de influência da Elektro.

 

Luís Costa Pinto: O senhor vai tranqüilo às ruas de São Paulo, falando de segurança? O senhor confia na polícia paulistana?

 

Mário Covas: Primeiro, vamos distinguir coisas. Vamos distinguir três conceitos: um conceito é segurança, outro conceito é polícia, outro conceito é violência. Paradoxalmente, segurança e polícia são conceitos que se opõem à violência. Mas você pode ter aumento de violência e melhoria da polícia. A polícia, no meu governo, melhorou.

 

Eleonora de Lucena: Mas a violência está batendo recorde.

 

Mário Covas: Meu Deus do Céu! Eu acabo de ler que na Suíça, um homem dentro da cadeia, um carcereiro, rompeu a coluna de um brasileiro que estava preso! Na Suíça. Eu vejo nos Estados Unidos [sendo interrompido] ... O quê?

 

Alexandre Polesi: Mas chacinas nas periferias são uma outra história! Como podemos explicar esses números todos?

 

Mário Covas: Acidentes de carro matam mais gente em São Paulo. Lá não tem certos problemas, por isso é que eu distingo polícia de violência. A polícia de São Paulo, hoje, é melhor do que ontem e melhora a cada dia. A violência aumenta e esse fato não é incoerente não! [todos falam ao mesmo tempo]. Não tem incoerência não.

 

Matinas Suzuki Jr.: Um de cada vez!

 

Mário Covas: O que faz a violência ou o que evita a violência não é a ação da polícia, apenas, é ação de segurança que é uma ação que extravasa os limites da polícia. Meu Deus do céu, nós já procuramos as razões de violência. O que faz um menino aqui, de repente, entrar na escola e matar outro menino? A não ser o exemplo que ele viu acontecer em uma mesma escola nos Estados Unidos. Vocês já repararam que a gente vê em programa de televisão... Eu tenho muito costume de fazer isso. Eu fico com aquele negocinho que muda de canal, variando os canais sistematicamente. De cada dez filmes que eu vejo, 9 são sobre violência [todos falam ao mesmo tempo]. E, em geral, o mocinho é o cara que mais comete violência. No instante em que você vulgariza a violência a esse ponto, banaliza a violência a esse ponto, a violência sobe, mas não sobe só aqui, sobe no mundo inteiro.

 

Alexandre Polesi: Polícia ostensiva ou seja, polícia na rua, não resolve mais esse tipo de problema numa megacidade como São Paulo, na região metropolitana?

 

Mário Covas: Também resolve!

 

Alexandre Polesi: O senhor não acha que faltou, ou que está faltando, investimento na área de segurança? Muito mais nas ações preventivas, ou seja, na polícia civil, naquelas ações que permitam o desbaratar as quadrilhas de tráfico, as quadrilhas de drogas do que colocar as viaturas na rua com a sirene ligada?

 

Mário Covas: Faltou muito investimento na área de penitenciárias. No entanto, o governo está fazendo, nesse instante, 21 penitenciárias. São 17 mil vagas novas, que é o maior esforço já feito no mundo, em um período curto, de oferta de vagas em penitenciárias. O maior volume que eu conheço aconteceu na França, quando a França fez a reforma do seu regime penitenciário entre 1986 e 1992 e em 6 anos fez 13 mil vagas. Nós estamos fazendo, do ano passado até o fim do ano [1998], 17 mil vagas. Bom, quando eu tiver 17 mil vagas, eu posso tirar os excedentes das outras penitenciárias, os excedentes das cadeias e os excedentes nas delegacias. Bem, mas ninguém lembra que isso não foi feito no passado e se deixou acumular. No lugar onde a polícia funciona mais e prende mais gente e se mantêm mais tempo presa e, portanto... Eu não estou aqui para dizer que os problemas de segurança estão resolvidos. Eu estou aqui tentando estabelecer um paralelo [todos falam ao mesmo tempo]. A polícia de hoje é melhor que a polícia de ontem, embora eu reconheça que a violência, hoje, levantou um grau maior do que a de ontem.

 

Eleonora de Lucena: O desemprego tem a ver com o aumento da violência?

 

Mário Covas: É óbvio que tem a ver. Um outro dia, fui inaugurar uma escola, uma linda escola na periferia de Carapicuíba. Se algum de vocês conhece Carapicuíba, pode pensar o que é a periferia de Carapicuíba. É, realmente, uma população extremamente carenciada. Uma escola igualzinha às melhores escolas das regiões mais ricas de São Paulo. E, no entanto, quando eu cheguei lá, havia um grupo de crianças, um grupo de jovens, que começaram a gritar. Primeiro começaram a gritar com a diretora. Entravam, gritavam, vaiavam, faziam barulho etc. Depois, foram vaiando, sucessivamente, todo mundo. Mas eles não tinham nada politicamente contra quem estava discursando etc. Eles, no final, estavam reagindo a um tipo de vida que eles são obrigados a ter. E reagiram da única maneira explosiva e contestadora que eles tinham para fazer. Ora, quando a gente passa e vê gente debaixo de uma ponte, isso não é uma banalização da violência? A falta de perspectiva do jovem... Olha, se há uma coisa que eu tenho como programa, como segundo pedido de governo, é criar uma Secretaria da Juventude, tal qual como em Portugal se fez com o Ministério da Juventude. Pois o jovem hoje fica como horizonte do futuro. O Blair [referindo-se à Tony Blair. Político britânico do Partido Trabalhista. Primeiro ministro do Reino Unido de 1997 a 2007], agora mesmo, no seu programa trabalhista, no seu programa de governo, ele centrou em três coisas: educação, educação e educação. Começando por fixar a eliminação de qualquer ineficiência, para que o jovem possa resgatar sua vontade de viver, os seus projetos de futuro que hoje ele não faz mais. Bem, é óbvio que tudo isso contribui para um acréscimo de violência. E esse fenômeno, gente, nem é um fenômeno nacional. Ele se torna um fenômeno maior na medida em que você soma isso à urbanização, pior, soma isso à metropolização. Na medida em que você tem uma série de fatores que fazem com que cada um viva em uma enorme intimidade com a violência sob todas as formas. Sob a forma de desemprego, sob a forma de miséria...

 

Alexandre Polesi: [interrompendo] O governador isso requereria uma nova política de segurança.

 

Mário Covas: E tem uma nova política de segurança. Estrutural. Se há alguém que propôs uma nova política de segurança foi o meu governo. Propôs uma mudança estrutural, enfrentando contrariedades de natureza corporativa [todos falam ao mesmo tempo].

 

Matinas Suzuki Jr.: Governador, o senhor quer terminar, por favor?

 

Mário Covas: Lógico que pode se falar na polícia de Nova Iorque. A polícia de Nova Iorque tem algumas características. A primeira característica dela é querer uma política civil que contém dentro dela um corpo uniformizado. A polícia aqui de São Paulo tinha a chamada guarda civil junto com a polícia civil. Eu não digo que a polícia civil seja melhor que a militar, nem que a polícia militar seja melhor do que a civil. Mas eu acho que é muito difícil você manter um sistema de segurança com pulverização de comandos. Daí porquê eu propus uma polícia única. Porque o que se faz nos Estados Unidos, Nova Iorque, em especial, é que você regionaliza a polícia e, portanto, você tem comandos específicos e planejamentos específicos como em São Paulo. Se eu for na zona oeste de São Paulo, o crime predominante é roubo de carro. Se você for à zona leste ou zona sul, o crime predominante é roubo e crime de morte. Portanto, eu preciso organizar a polícia e planejar sua ação fixando parâmetros ligados ao crime básico de cada região. Procurando fixar metas a serem conseguidas. Bom, eu não posso fazer isso com polícias que têm o comando diferente, áreas de influência diferentes e atividades diferentes.

 

Matinas Suzuki Jr.: Essa é a pergunta do nosso telespectador, Carlos Bignado: "Por que que o senhor não conseguiu a unificação da polícia"?

 

Mário Covas: É questão de atuação profissional. Eu adotei o caminho que eu podia adotar. Eu encaminhei ao governo federal, pedindo que encaminhasse ao Congresso. E o governo federal, através do ministro da Justiça, preferiu fazer outra proposta ao Congresso, o que eles chamam de desconstitucionalização da polícia. Retirar os artigos que têm na Constituição e deferir a cada estado a solução...

 

Matinas Suzuki Jr.: [interrompendo] O senhor acha que essa solução é boa, daquelas propostas do ministro da Justiça?

 

Mário Covas: Não acho a melhor, não! Ainda está em curso, ainda não foi votado, há uma comissão. A relatora da comissão da Câmara é até a deputada Zulaiê [referindo-se a deputada do PSDB, Zulaiê Cobra]. Eu sei que ela já apresentou relatório, mas ainda não foi votado.

 

Luís Nassif: Governador, o senhor é um engenheiro, e um engenheiro tem uma cabeça mais administrativa que intelectual. O senhor sabe que o desafio de um governo é muito a parte de gestão e de administração. O senhor colocou à frente de algumas secretarias relevantes alguns intelectuais da mais alta respeitabilidade, e provavelmente são bons intelectuais, mas sem nenhuma aptidão gerencial.

 

Mário Covas: Me diga um.

 

Luís Nassif: A Secretaria da Saúde, a Secretaria da Segurança...

 

Mário Covas: Secretaria da Saúde é um profissional de saúde.

           

Luís Nassif: É um belo intelectual...

 

Mário Covas: Não é nada disso, é um profissional da saúde. Talvez você tenha citado o exemplo menos indicado.

 

Luís Nassif: Não. De acordo com a avaliação do Ministério da Saúde, São Paulo foi um dos estados que não desempenhou o programa de controle e de qualidade...

 

Mário Covas: [interrompendo] Quando isso saiu no jornal, eu reclamei com o Ministério da Saúde e eles me mandaram um documento dizendo o contrário.

 

Luís Nassif: Ué, porque o senhor não o enviou pra mim? Fui eu quem escreveu essa matéria. E vocês me encaminharam um documento dizendo o contrário [risos].

 

Mário Covas: Eu vou te encaminhar.

 

Luís Nassif: É um problema de comunicação, então.

 

Mário Covas: Essa denúncia foi generalizada, saiu em vários jornais. Agora, você pode ter feito considerações específicas a respeito disso, mas ela saiu em mais de um jornal como resultado de um documento que teria sido exarado, quando era ministro da Saúde o ministro anterior e imediatamente fiz uma carta. Fiz o secretário ir lá, pois eu queria explicações a respeito disso. E as explicações foram que o relatório não correspondia à verdade. Houve enganos e, portanto, deveriam fazer alterações.

 

Alexandre Polesi: Essa pergunta do Nassif é válida para o caso do secretário Zé Afonso da Silva [secretário de Segurança Pública durante o governo Covas]. O fato de ele não ter conseguido definir uma linha de atuação...

 

Mário Covas: [interrompendo] Como não tem? A polícia tem uma linha absolutamente...

 

Alexandre Polesi: [interrompendo] Poderia gerar frutos em longo prazo, mas nesse momento de crise social...

 

Mário Covas: [interrompendo] É uma barbaridade isso. A idéia que a gente faz de um secretário da Segurança é sempre a idéia... Não sei porque isso se incorporou em cada um de nós. Mas a idéia que a gente faz é de uma pessoa agressiva, violenta quando, na realidade, não há nenhuma razão para ser assim. O secretário de Segurança é um formulador de política!

 

Alexandre Polesi: Mas os números estão provando que a segurança tem crescido dessa forma. Esse é problema.

 

Mário Covas: Os números estão provando isso há 30 anos. Se você pegar a curva de crescimento da violência, ela cresce há 30 anos. Vou lhe dizer mais, está crescendo hoje a uma taxa menor do que crescia antes.

 

Alexandre Polesi: Quantos anos esperaremos, então, para que caia? Mais 30?

 

Mário Covas: Eu não sei. Eu estou estranhando é que você debite isso ao meu governo.

 

Eleonora de Lucena: Não. Mas se pegar o dado de chacinas, por exemplo, neste ano, o número de chacinas cresceu 156% em relação ao ano passado. Então é uma linha...

 

Mário Covas: [interrompendo] Está bem. É possível que ano que vem tenha menos, cresça em uma proporção menor. O que eu lhe digo é que o índice de crescimento é menor hoje do que era antes.

 

Eleonora de Lucena: Bom, em março bateu todos os recordes históricos...

 

Mário Covas: Mas o recorde histórico em número absoluto. Você tem, todo ano, um crescimento da violência. Historicamente, tem tido isso. Há 30 anos isso acontece! Só que acontece em uma taxa...

 

Eleonora de Lucena: [interrompendo] Está reduzindo a violência em São Paulo? Em termos de ritmo de crescimento está menor, o senhor diria?

 

Mário Covas: Não. Está reduzindo a violência.

 

Eleonora de Lucena: O ritmo de crescimento está menor.

 

Mário Covas: É isso que eu estou dizendo [gesticulando e sendo interrompido]. A taxa de crescimento. A violência continua crescendo. A taxa de crescimento é menor hoje.

 

Eleonora de Lucena: No estado de São Paulo?

 

Mário Covas: É [todos falam ao mesmo tempo]. Aliás, nem mesmo comparado ao Rio [referindo-se ao estado do Rio de Janeiro]. No Rio, se mata mais por 100 mil habitantes do que se mata em São Paulo. Washington [referindo-se a um dos 50 estados norte-americanos] se mata muito mais que São Paulo, o que não é nenhum mérito. Isso não significa que você não deva lutar tanto. Mas, na realidade, essa avaliação... Por isso é que eu digo: Também a violência não é apenas uma questão social. A questão social tem uma enorme influência. Uma série de outros valores...

 

Eleonora de Lucena: [interrompendo]  No caso de chacina, então, crescia em um ritmo maior do que 150%?

 

Mário Covas: Olha, eu vou deixar bem claro isso. Eu não estou sustentando, aqui, que o problema da violência está resolvido e que a polícia daqui não tem defeitos. Estou dizendo é que a polícia, relativamente, está melhor e que a violência, embora aumentando, está aumentando em um ritmo menor do que aumentava antes.

 

Eleonora de Lucena: No caso da chacina não é isso? 156%. Qual foi o ritmo anterior de crescimento?

 

Mário Covas: A senhora está pegando um dado de um instante. Se a senhora pegar em um período inteiro, não vai encontrar essa mesma relação.

 

Mário Simas Filho: O senhor diz que não tem como o senhor fazer a polícia que o senhor queria no estado, não é? Independe do governador, independe do governo do estado fazer uma polícia...

 

Mário Covas: [interrompendo] O meu governo depende do governador. Se tiverem que fazer crítica, façam a mim não façam a ninguém.

 

Mário Simas Filho: Mas o senhor disse que não dá para fazer essa política de segurança que o senhor queria com esse comando de polícia...

 

Mário Covas: Ah, bom. No que se refere à unificação, também tem coisas que ultrapassam os seus limites. Não depende da sua capacidade de decidir.

 

Mário Simas Filho: Mas como enfrentar, então, com essa polícia que a gente tem, com esse limite de comando? Como se enfrenta a violência?

 

Mário Covas: Isso de forma indireta, na medida da possibilidade. Hoje, as duas polícias se articulam de uma maneira que não se articulava, por exemplo. Hoje, elas já se integram no seu sistema de informações que era absolutamente díspar. A polícia civil tinha um e a polícia militar tinha outro. Hoje elas estão informatizadas. Hoje têm grupos de planejamento comuns da polícia civil e militar. Hoje se reintegraram áreas nas quais a polícia civil e polícia militar atuam em um único grupo nesses locais. Hoje se trabalha com polícia comunitária, envolvendo civil e militar. Então, aquilo que a lei não garantiu, através de uma única polícia, na prática, se opera na possibilidade, na medida da possibilidade.

 

Mário Simas Filho: O secretário de Segurança controla a polícia? O governador e o secretário têm pleno controle das polícias civil e militar?

 

Mário Covas: O governador e o secretário da Habitação têm pleno controle sobre cada passo que se dá na Secretaria da Habitação. O governador e o secretário da Saúde controlam cada passo que se dá na saúde. Não, controla a política. A política de segurança do secretário é a política de segurança do governo.

 

[...] A polícia, as corporações...

 

Mário Covas: Você é crucificado porque, de repente, a polícia comete a violência que cometeu na favela Naval. E, no final, na consciência, no íntimo, no substrato, no pensamento de muita gente que não explicita isso, dá a idéia que a polícia tem mesmo é que ser violenta. Qualquer polícia científica no mundo, qualquer polícia bem organizada no mundo, quando há uma morte em que o policial está envolvido, retira o policial e dá a ele uma cobertura de natureza psicológica. Tem sentido isso? Tem, porque ninguém nasce criminoso, sobretudo quem é polícia. O policial pode matar alguém em um tiroteio, em uma situação de perigo eminente onde não houver alternativa. Mas, na realidade, o policial, ao matar alguém, ele não vai festejar o fato. Ele, seguramente, tem um problema psicológico qualquer que deve afetá-lo, a não ser que ele mate com facilidade, mas eu suponho que quem mata com facilidade é bandido [sendo interrompido]. E, portanto, de repente, você criou um programa pelo qual, quando há um evento dessa natureza, você afasta o cidadão e, durante 6 meses, você dá a ele uma assistência psicológica etc. E um espaço de recuperação dessa ordem. E não se critica isso que é coisa que qualquer polícia organizada no mundo faz.

 

Matinas Suzuki Jr.: Governador...

 

Mário Covas: [interrompendo] Aqui em São Paulo isso parece uma concessão aos bandidos. Porque nós já nos acostumamos com aquele tipo de frase: "bandido bom é bandido morto". Sabe? E grande parte das pessoas aceita esse argumento como um argumento natural. Não é natural. O papel da polícia é prender gente, é afastar da sociedade quem comete crime contra ela. A polícia só mata em circunstâncias em que ela seja obrigada. Hoje, o treinamento da Polícia Militar, mesmo o treinamento de tiro, é feito de tal maneira que o cidadão pode atirar em partes do corpo que não afetam a vida do cidadão. Para que ele decida, em cada caso, como agir!

 

Matinas Suzuki Jr.: [interrompendo] Governador...

 

Mário Covas: E, portanto, só ocorre uma morte em circunstâncias delimitáveis.

 

Matinas Suzuki Jr.: O senhor desculpe a minha insistência, mas a gente precisa fazer um intervalo e a gente volta daqui a pouco com a segunda parte da entrevista com o governador do estado de São Paulo, Mário Covas. Até já!

 

[intervalo]

 

Matinas Suzuki Jr.: Bem, nós voltamos com o Roda Viva que entrevista, essa noite, o governador de São Paulo, Mário Covas. Governador, eu acho que, depois do tema da violência, um tema que sensibiliza muita gente, eu quero julgar pelo número de fax que eu recebi, é o tema da educação. Eu tenho aqui 15 fax especificamente sobre a questão da educação. Eu vou tentar ler rapidamente para o senhor ter uma idéia das perguntas e, enfim, o senhor comentá-las e respondê-las: “Por que a situação do ensino paulista está tão lamentável? Por que o salário do professor está uma miséria?” Professor Daniel Mambeta. Antônio Marcos Duarte: “Gostaria de saber do plano de carreira do quadro de apoio escolar na área de educação, conforme o próprio governador publicou no Diário Oficial”. Marcelo Chargas de Perdizes, que é jornalista: “Por que o senhor publicou no Diário Oficial dizendo que iria fazer a carreira do funcionalismo administrativo da educação e não fez? Qual o balanço que o senhor faz do seu governo, em relação à educação do estado de São Paulo?”, João Pedro da Fonseca professor da Faculdade de Educação da USP [Universidade de São Paulo]. “Senhor Mário Covas, sou secretário de escola há 17 anos e gostaria de saber se há uma possibilidade de reajuste salarial ainda este ano”, Humberto Farias, de São José dos Campos. “Há cerca de 9 meses, o governo do estado não implantou o plano de carreira e dos funcionários de educação, conforme o calendário publicado no Diário Oficial". "É humilhante recebermos piso salarial de 13,72, vale refeição de 2 reais, com 20 anos de serviço”. Essa foi Cláudia Tereza Bolsas, de Santos. “Gostaria de saber se o senhor tem conhecimento do descontentamento da rede pública com a política educacional implantada em seu governo, que oferece um ensino de baixíssima qualidade e desvaloriza o professor?” A Cleide Martins, professora em Campinas.

 

Mário Covas: [interrompendo] Acho que você não precisa ler todas.

 

Matinas Suzuki Jr.: Temos 15...

 

Mário Covas: Acho que a gente pode começar pelos salários. É que os salários do magistério... Se você quiser ler todas. É que me parece que, no geral, elas ficaram um pouco repetitivas, então, eu acho que a gente pode começar pelo salário. Não há relato na história de São Paulo que os salários dos professores tivessem o nível que tem hoje.

 

Matinas Suzuki Jr.: Mas 14.48, governador? 14.48, piso salarial por 20 anos de serviço.

 

Mário Covas: Isto é o salário base, mas ninguém ganha menos do que 220 reais. A base do estado é de 220 reais, ninguém ganha menos que isso. Eram 100 reais quando eu assumi, hoje são 220 reais. Na educação, desde que eu assumi até agora, não tem ninguém, no magistério muito mais, mas na área de apoio à educação, quer dizer serventes etc, não tem ninguém que tenha tido menos de 120% de aumento. Ninguém. Agora, 120% de aumento você não teve [aponta para os entrevistadores], ele não teve, o cameraman não teve. De 1995 para cá eu não conheço uma categoria no Brasil que tenha tido esse aumento. O piso salarial do magistério, quando eu assumi, o ganho era 287 reais por 40 horas de trabalho. Hoje são 650 reais, por 30 horas.

 

Matinas Suzuki Jr.: Governador, deixa eu colocar um ponto. Eu estou aqui com várias... Vários mandaram aqui o recibo de pagamento deles: 340 reais, 270 reais, 280 reais. Tudo bem... Aqui têm 340 reais, 325 reais.

 

Mário Covas: Professor, não. Faz favor de olhar se é professor.

 

Matinas Suzuki Jr.: Aqui tem departamento da Secretaria da Educação... Oficial administrativo: 343 reais. Eu não tive tempo de ver todos esses aqui, mas de qualquer maneira...

 

Mário Covas: [interrompendo] Eu não tenho porque mentir. As coisas que eu falo, eu tenho como comprovar.

 

Matinas Suzuki Jr.: Eu não estou dizendo que o senhor está mentindo. Eu estou querendo uma questão em tese, o salário...

 

Mário Covas: [interrompendo] Eu quero que o senhor me diga se tem algum de professor?

 

Matinas Suzuki Jr.: Não. Governador, eu não estou querendo discutir isso. Eu estou querendo dizer o seguinte, o salário...

 

Mário Covas: [interrompendo] Você acabou de dizer coisas que passaram para o telespectador.

 

Matinas Suzuki Jr.: São coisas que chegaram aqui relativas aos salários.

 

Mário Covas: Tudo bem, só que você disse que os professores ganhavam isso. Eu estou dizendo que não!

 

Matinas Suzuki Jr.: Eu não disse que os professores ganhavam isso. Eu disse que tenho aqui um recibo de pagamento. O senhor está dizendo que não é professor. Eu não pude ler todos, pois eu não tive tempo de ler. Agora, eu quero saber o seguinte, o que interessa... A minha pergunta, na realidade, é a seguinte: Os salários na educação estão no nível que o senhor acha que é bom? O que pode ser feito nessa área? Isso é o que eu quero colocar. O que eu quero colocar é a idéia de que o senhor tenha feito investimentos, eu não estou questionando isso. O que eu queria, em tese, colocar para o senhor é o seguinte: situação da educação, há o que ser feito? Como pode ser feito? Como pode se melhorar?

 

Mário Covas: Que é isso? Eu vou lhe citar 50 pontos, a começar pelo salário. Eu quis começar pelo salário. Estou em condição de demonstrar a você, começo pelo salário piso. O piso salarial, quando eu assumi, era 287 reais por 40 horas. Piso. Professor P1 que é o primeiro nível.

 

Matinas Suzuki Jr.: Como é que veio com 240 reais?

 

Mário Covas: Oh meu Deus do céu! Era 287 reais hoje é 650 reais por 30 horas. Se fossem as mesmas 40 horas, 650 reais para 30 horas então dá 860 reais para 40 horas. Portanto, o cidadão que ganhava 280 reais como piso salarial, hoje ganha 850 reais. E, se você me mostrar uma categoria no Brasil que teve esse aumento [apontando com os dedos], eu dou, em percentagem, o mesmo aumento para os professores. A reestruturação não ficou só no piso, se estendeu a toda carreira. Meu Deus do céu! Está tão ruim o salário que, no meu governo, ao contrário do que sempre aconteceu em São Paulo, só teve uma greve do magistério, com 3 meses de governo. De lá para cá, não teve nenhuma. Nenhuma. E, aliás, recentemente, quiseram fazer uma greve e a greve não existiu. Se os salários estivessem tão ruins... Eles não são os melhores do mundo, mas devem ser os melhores do Brasil. E, pela primeira vez, eu li no seu jornal, que o salário do estado do professorado é maior do que os da prefeitura de São Paulo. Coisa que era diferente quando eu fui prefeito. Os da prefeitura de São Paulo eram muito maiores do que o do estado. Os do estado são maiores do que a prefeitura de São Paulo, pela primeira vez. Bem, então com relação a salário, não tem o que discutir. Agora, não dá para você dizer, o que faz com os 650 reais. Bem, eu só posso comparar com o que tinha antes. Por que assim...

 

Matinas Suzuki Jr.: [interrompendo] Bom, mas o senhor pode, o senhor tem metas. A minha questão é, em tese, filosófica. Não são exatamente os números.

 

Mário Covas: Quando estava falando do número não serve, o número...

 

Matinas Suzuki Jr.: [interrompendo] Governador, eu respeito os números que o senhor está dando. Mas São Paulo, como estado tem que... A minha questão...

 

Mário Covas: Como você testa isso? Você testa com resultados. No estado, hoje, se faz uma coisa que se chama Saresp [Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo]. O Saresp é uma coisa feita por pessoas que não pertencem ao estado e que é  uma avaliação do rendimento escolar no estado de São Paulo. O que se faz? No começo de 1996 nós fizemos exames de avaliação de todos os alunos que estavam no terceiro ano e de todos os alunos que estavam no sétimo ano. No começo de 1997 nós fizemos de todos os alunos que estavam no quarto ano e na oitava série, ou seja, no mesmo agrupamento que tinha sido feito no ano anterior. No começo desse ano, fizemos outra vez. Ainda não temos o resultado desse ano, mas não houve setor que não tivesse 25% de aumento adicional em relação ao que tinha no ano anterior para o mesmo grupo de alunos. Os alunos examinados na terceira série apresentaram um grau de habilidades que cresceu, pelo menos, em 25%, quando estavam na quarta série. E que deve, com o resultado desse ano, ter crescido de novo. Ora, isso não acontece se você não melhora a qualidade do ensino. A Secretaria de Educação ganhou prêmio do Unicef  [Fundo das Nações Unidas para a Infância] pelas chamadas classes de aceleração. O que é isso? É o fato de você poder dar ao aluno que defasou, em relação a sua turma, que fica dois, três anos atrasado, esse aluno poder receber maciçamente ensino de tal maneira que ele possa voltar para sua faixa etária e acompanhar a turma que ele estava. Até porque, na escola pública, a criança predominante perde a sua auto-estima com grande facilidade. Voltou-se a uma prática que não existia na escola pública de São Paulo e eu nunca entendi o por quê. No meu tempo de estudante, como no seu, certamente, o aluno que não passava em primeira época tinha o direito à segunda época. Aqui no estado não tinha. Foi uma tremenda dificuldade para se fazer exames de férias. Fazer com que, no final do ano, aqueles que tinham sido reprovados tivessem um curso adicional para poder fazer um segundo exame. Isto aprovou quase 50% dos que tinham sido reprovados. Agora diz: “Facilitou-se tudo”. Não, espera aí. Estamos falando de um assunto sério e vocês vão me deixar falar. Nesse assunto, eu tenho uma porção de coisas para contar. Daí, eu vou contar. Porque a coisa que eu tenho mais orgulho, no meu governo, é a educação. É onde foi feita a maior das revoluções, é onde os resultados foram os mais eficientes. Nós chegamos, neste ano, a níveis de evasão escolar baixíssimos, 4,5% no segundo grau. A evasão baixou 13,7% no meu governo. Por que o aluno está ficando mais na escola? Hoje, as crianças, 4 milhões de crianças, que tinham entre 3,5 a 4 horas de aula por dia, passaram a ter 05 horas de aula por dia. Isso fornece mais um ano em 4 anos.

 

Alexandre Polesi: Mas essa revolução não foi um tanto sangrenta? Ou seja, o novo governo não tenha sido justamente a aplicação das regras...

 

Mário Covas: [interrompendo] Sabe por quê? A municipalização não foi criação nossa. A municipalização veio de uma lei federal. É um resultado de uma lei federal ao qual o município não está obrigado, ele municipaliza se quer. É que a lei federal mandou redistribuir o dinheiro do ensino de primeiro grau de tal maneira que quem dá ensino de primeiro grau, recebe, quem não dá paga. Por isso, os municípios estão querendo municipalizar, mas isso não é compulsório, não são obrigados. Ninguém foi obrigado a engolir a municipalização nem ninguém vai acusar o estado por uma lei que é federal. Foi a lei federal que fez isso, não o estado.

 

Alexandre Polesi: Agora o senhor faria o processo exatamente...

 

Mário Covas: [interrompendo] Sim, senhor. Porque o que está sendo feito é rigorosamente o que eu disse em campanha que eu fazer. Olha, o que a gente precisa ter presente é que há que ter respeito pela opinião pública. Quem faz a política da educação é o povo quando vota. O que eu falei que eu ia fazer na educação é rigorosamente o que eu estou fazendo. A volta do grupo e do ginásio, a valorização do professor, as 5 horas de aula para a criança, as classes de aceleração, as classes de acompanhamento, a flexibilização do currículo noturno que o aluno hoje pode fazer por matéria, a melhoria do salário do professor...

 

Luís Costa Pinto: [interrompendo] Por que o ministro da Educação, que é do seu partido, que também acompanhou a campanha do senhor, assim como o senhor acompanhou a campanha do presidente da República, critica ou criticou, até pouco tempo atrás, a política de educação de São Paulo? Por que a relação dele com o governo na área de educação é tão desgastada?

 

Mário Covas: Não, não é verdade isso aí, ele não criticou não. Não criticou a política de educação de São Paulo. Pelo contrário, todas as vezes que eu o vi manifestar, se manifestou muito simpaticamente à política de São Paulo.  Tivemos um problema porque ele... Aqui em São Paulo acontece uma coisa, o governo federal dá 0,13 centavos por criança para merenda escolar, no Brasil inteiro. Aqui em São Paulo, onde as coisas são mais caras, o Estado dá mais 0,06 centavos. Então, o município recebe por criança 0,19 ao invés de 0,13 [centavos]. De repente, o ministro soube que nós dávamos mais 0,06 e cortou 0,06 dos 0,13 que ele dava. Então, você que está contribuíndo adicionalmente acaba sendo penalizado. E aí foi um ponto de choque entre a Secretaria e o ministro, com o qual eu estou inteiramente de acordo.

 

Luís Nassif: As universidades vêm respondendo adequadamente a autonomia financeira que elas têm? Elas prestam contas de produtividade se enquadram nos critérios tecnológicos do estado?

 

Mário Covas: [interrompendo] As universidades ganharam autonomia em São Paulo porque autonomia das universidades é uma questão absolutamente consagrada constitucionalmente. E elas ganharam no tempo do [Orestes] Quércia [governador de São Paulo entre 1987 e 1990] e  ganharam segundo uma modalidade que me pareceu interessante. Elas têm uma participação na receita do Estado que começou com 8% e foi fomentada para 8,4%. O Quércia, quando saiu, empurrou 9,0% para o [Luiz Antônio] Fleury Filho [governador de São Paulo entre 1991 e 1995. Foi vice-governador de Quércia e seu sucessor, eleito pelo mesmo partido, o PMDB. Foi sucedido por Covas], e o Fleury, quando saiu, empurrou 9,57% para mim. Na medida em que, hoje, de cada 100 reais que o Estado recebe, 9,57 reais vão para as universidades, que têm inteira autonomia na distribuição desse dinheiro. Esse dinheiro é entregue ao conselho de reitores, que sabem como é que cada universidade recebe, eles é que fixam salários etc, ou seja, uma autonomia respeitada. O Estado cumpre e dá aquele valor. Há anos que eles vêm pedindo para aumentar esse valor e eu tenho rejeitado isso, pois não tem lógica. Se a arrecadação do Estado aumentar, a universidade...

 

Luís Nassif: Mas, não seria o caso de se exigir metas de produtividade ou um conselho externo composto por representantes da sociedade como um todo para pudesse, pelo menos, ter uma interface para ter um retorno?

 

Mário Covas: Eu acho que até se pode caminhar nessa direção. Eu não vejo problema. Até onde isso não invada a chamada autonomia da universidade.

 

Luís Nassif: A autonomia da universidade deve ser em relação a questões políticas de pensamento. Em relação ao que ela devolve para a sociedade se não tiver nenhuma forma externa de ela definir a sua própria prioridade...

 

Mário Covas: Eu acho que isso vale para o poder judiciário, isso vale para uma porção de coisas. Parece-me que, nessa história, o único que recebe uma medida permanente é o poder executivo e o legislativo. Pois, afinal, nós, a cada quatro anos temos que fazer um novo vestibular.

 

Luís Nassif: Eu queria falar um pouquinho sobre o poder judiciário. É um problema que vem afetando todos os governantes, prefeituras, governadores, que é a questão da indústria da desapropriação judicial. Aqui deixamos o parque Villa Lobos, temos coisas na Ilha Bela... O que o senhor tem a dizer sobre isso aí? Qual o passivo que está sendo criado em cima das futuras gerações por conta dessas sentenças?

 

Mário Covas: Até agora, isso era pouco perceptível, pois em regime fracionário, a mecânica das desapropriações, ou dos precatórios de natureza judicial, era a seguinte: alguém ganha uma questão na Justiça, mediante um processo no qual se nomeia perito de parte a parte etc, o juiz nomeia o perito... Finalmente, o juiz emite um precatório, diz ao estado que tem que pagar “x” para esse cidadão. Se esse precatório chegar até o dia 30 de junho de um determinado mês de um determinado ano ele, necessariamente, tem que ser incluído no orçamento do ano subseqüente. Então, ele chegando entre primeiro de julho de 1993 e 30 de julho de 1994, todos os precatórios que chegarem nesse período são incluídos no orçamento de 1995, certo? No passado, em épocas de grande inflação, na hora que você ia pagar, que é um ano e meio depois que você foi condenado, você paga uma parcela, do ponto de vista real, muito menor do que efetivamente era. E se entrava em uma corrente da felicidade, pois o cidadão vai à justiça pede a atualização, entre a data de administração do precatório e a data do pagamento e vem outro precatório. Agora, você entrou em um processo de moeda estável, então chegou nesse período. Quando você vai pagar, tem o mesmo valor. Isso, quer dizer... Eu sempre achei que os dois maiores beneficiados nessa inflação são os bancos e o poder público. Os casos dos precatórios são típicos, hoje você paga o valor real, então... Eu vou te dar um exemplo concreto de como isso é paradoxal. Já nem digo os absurdos que decorrem de erros, ou de erros por violência mesmo, erros deliberados. Por exemplo: quando o tribunal entende que o prefeito não paga o precatório, ele me determina que eu faça intervenção no município. Bem, em um determinado instante, eu me vi constrangido a fazer intervenção no município de Lindóia. Aí, politicamente, se cria um problema para você. Se você nomear alguém, o vice-prefeito, parece que está desacatando a ordem judicial. Se você nomear alguém que é ligado ao partido parece que você está se aproveitando do fato. Eu pensei e nomeei o presidente da Ordem dos Advogados [Ordem dos Advogados do Brasil]. Qual era o problema da dívida de Lindóia? Era o seguinte: há alguns anos atrás, eles apropriaram um terreno, para que lá o estado concluísse o balneário. Bom, o estado construiu o balneário. Agora, nós vendemos o balneário e o terreno por 250 mil. Eles têm 1 milhão e 600 mil para pagar as prestações.

 

Luís Nassif: O senhor colocou um advogado como interventor?

 

Mário Covas: Eu coloquei o presidente da Ordem dos Advogados [refere-se ao presidente da OAB local], que foi o que eu pude achar de  mais representativo e menos político.

 

Cristiana Lobo: O caso do parque Villa Lobos... No Supremo [Supremo Tribunal Federal] chegou-se à conclusão que essa forma de cálculo, estava equivocada e que aconteceriam coisas desse tipo. E, naquela época, ficou-se de estudar uma forma de que esses juros fossem menores. Isso não chegou em lugar algum?

 

Mário Covas: Não chegou. A melhor aplicação de dinheiro que tem no Brasil é comprar precatórios porque sobre eles incidem juros moratórios, juros remuneratórios, os honorários advocatícios...

 

Cristiana Lobo: [interrompendo] E por que isso não andou para frente se 27 governadores sofrem o mesmo problema?

 

Mário Covas: Porque conforme se estabilizou a moeda em contrapartida você não...

 

Cristiana Lobo: Mas são 27 governadores com o mesmo problema.

 

Luís Nassif: Mas não é uma questão só de inflação. São erros financeiros grotescos.

 

Mário Covas: Não. Isso é outra coisa. Pois então, lá na Serra do Mar, como aquilo é hoje reserva natural e, portanto não passível de uso, ou pelo menos não passível de uso para determinadas finalidades, o cidadão que é dono daquilo pede uma desapropriação indireta. Essa desapropriação indireta, em certos casos aqui, tem sido calculada como se a terra onde só tem água fosse Barão de Itapetininga. O cidadão comprou uma terra e um ano depois foi desapropriado por um valor 100 vezes maior do que aquilo. Tanto que nós conseguimos um fato virgem, que o Supremo Tribunal Federal nos concedesse uma liminar sob fatos julgados.

 

[...] Mas não se juntaram governadores e prefeitos?

 

Mário Covas: Já se juntaram. Já aconteceu uma Constituição, em 1988, que deu um passo nessa direção. Qual foi o passo que se deu em 1988? Se diz: as dívidas até hoje, de desapropriação aos precatórios, vão ser paralisadas a partir de hoje e serão pagas em 8 parcelas. Para o pagamento dessas parcelas os estados e municípios poderão emitir títulos da dívida pública que não incidirão para cálculo do seu grau de endividamento. Em cima disso...

 

Eleonora de Lucena: [interrompendo] O senhor citou, aqui, o entrevero com a questão da educação. Eu lembrei logo de um outro que foi do ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] das exportações com o ministro Kandir [Antônio Kandir. Ministro do Planejamento durante o governo Fernando Henrique Cardoso]. E lembrei, também, da sua crítica quando da indicação do ministro [Renan] Calheiros . Eu pergunto: “Hoje, qual é a sua avaliação sobre a condução da política econômica do governo Fernando Henrique? E, do ponto de vista político, como o senhor está vendo essa aliança PFL [Partido da Frente Liberal. Tornou-se Democratas em 2007] – PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira] em nível nacional e porque que ela não funcionou aqui? O senhor acha que essa aliança continua sendo boa para o PSDB? Quer dizer, do ponto de vista econômico, como é que o senhor avalia? São Paulo está sendo prejudicado pela condução da política mais geral, do ponto de vista político as alianças feitas no plano nacional que afetem aqui? Como é que o senhor avalia desses dois pontos de vista o governo federal?

 

Mário Covas: Primeiro de tudo: eu fiquei inteiramente em desacordo não com a Lei Kandir [lei que promoveu a exoneração do ICMS nas operações que destinassem mercadorias para o exterior]. O não cumprimento do que o presidente da República assumiu com os governadores pela equipe econômica, no que se refere ao ressarcimento da perda dos estados.

 

Eleonora de Lucena: Ele não cumpriu o que tinha acertado com o senhor?

 

Mário Covas: Quando o presidente nos convidou, isso ainda no primeiro ano de governo, em uma reunião em Belo Horizonte, depois em uma reunião em Brasília, o presidente da República nos propôs essa modificação que, no ponto de vista da economia nacional, era altamente defensável. Que você não pague imposto, ICMS, na exportação e que você não pague em produtos primários. Que você não pague ICMS nos investimentos, me parece inteiramente correto, do ponto de vista da economia nacional. Só que, quando isso foi tratado, o presidente disse: “Isto vai ser uma equação de resultado zero”, em outras palavras: em 5 anos, nós devolveremos integral no primeiro ano, 80% no segundo ano, 60% no terceiro ano de tal maneira que se possa permitir, durante esse período, que o crescimento econômico decorrente da isenção possa recompor a receita dos estados.

 

Eleonora de Lucena: Mas não foi isso que aconteceu?

 

Mário Covas: A isso se chamava zero. O Ministério do Planejamento encontrou, para cumprir isso, uma forma que ele chamou de seguro e montou uma equação e, através dessa equação São Paulo, que perdeu 1 bilhão no ano passado, não recebeu nada. Mas, acrescentou-se um fenômeno adicional. É que, no final do ano passado, em novembro, aumentaram demais as taxas de juros para se defender o país, até com lógica naquele instante, para defender o país da violência que se tentava cometer contra o real, a especulação. Bem, no primeiro instante, eu até defendi a medida. Achei que ela era adequada e se mostrou uma resposta eficiente. Mas era óbvio que havia contrapartida nisso, é que ela iria influir na vida econômica, já nem digo na arrecadação. A arrecadação é conseqüência. Influía na arrecadação, pois influía na vida econômica. Por duas razões: porque caiu a atividade econômica e porque aumentou a inadimplência. Não digo sonegação e sim inadimplência. A diferença entre sonegação e inadimplência é que sonegação é o camarada que não conta e não paga [mexendo as mãos de um lado para o outro], já a inadimplência é aquele que diz: “Eu devo tanto”, mas não paga aquilo, portanto, ele é inadimplente. A nossa inadimplência variou, entre outubro e dezembro, de 3,5% para 7%, ou seja, mesmo o que não caiu em atividade econômica, aumentou a inadimplência, pois, para o cidadão que opera com capital de giro de terceiros, o custo do dinheiro fica maior do que não pagar o imposto.

 

Eleonora de Lucena: O senhor está a favor dessa política que está provocando esse desastre no estado de São Paulo?

 

Mário Covas: Mas não tenho dúvida, eu digo isso com muita tranqüilidade, já disse ao presidente, já disse ao...

 

Eleonora de Lucena: [interrompendo] O senhor está contra a essa política?

 

Mário Covas: Posteriormente, cansei de dizer, depois que a taxa de juro chegou naquele ponto, que o retorno deveria ser feito muito mais rápido do que foi feito, a tal ponto que, de novembro até fevereiro, em quatro meses, nós arrecadamos menos 425 milhões que a previsão excluída a lei Kandir.

 

Eleonora de Lucena: Além?

 

Mário Covas: Além do prejuízo da lei Kandir. E, a partir daí, ao se aplicar a fórmula, nós não ganhamos nada nesse ano também.

 

Eleonora de Lucena: Isso não está prejudicando o seu desempenho eleitoral? Pela avaliação, o seu governo está piorando. Isso não está batendo também nas pesquisas?

 

Mário Covas: Não. As pessoas não perceberam isso!

 

Eleonora de Lucena: As pessoas não percebem essa ligação econômica e...

 

Mário Covas: [interrompendo] Não percebem isso. Nem o estado deixou de se conduzir adequadamente em função disso.

 

Eleonora de Lucena: Por que a avaliação do...?

 

Mário Covas: [interrompendo] Se eu tivesse isso, provavelmente dava para fazer muito mais. Se eu recebesse esse dinheiro...

 

Luís Costa Pinto: No caso do governo federal, o governo Fernando Henrique, é um bom governo um mau governo?

 

Mário Covas: O governo Fernando Henrique é um bom governo, é um mau governo?

 

Eleonora de Lucena: Mas mesmo com esse quadro que o senhor acabou de descrever?

 

Mário Covas: Eu não posso, pelo fato de que São Paulo especificamente... Eu sei, por exemplo, que nesse período ele recebeu uma carta do secretário da Fazenda da Bahia, dizendo que não era verdade, que São Paulo não tinha perdido nada.

 

Eleonora de Lucena: Bom, mas aí entramos na segunda parte da pergunta que é a aliança PSDB-PFL, como é que o senhor está enxergando essa articulação...

 

Mário Covas: [interrompendo] Essa aliança não é de hoje, já veio com a outra eleição [todos falam ao mesmo tempo]. A eleição, quando ela se fez, eu cansei de dizer: “Essa aliança vai trazer dor de cabeça para os dois lados. Vai ter gente dentro do PSDB que vai ficar em desacordo com ela e vai ter gente dentro do PFL que vai ficar em desacordo com ela”. Todavia, se elas fizeram no plano nacional, eu tento reproduzí-la em São Paulo até para mostrar que eu não estou em desacordo com o que está sendo feito. E fiz isso. Fiz isso declarando claramente antes da eleição que, como o PFL me apoiou no primeiro turno, que teria participação no meu governo e teve. Teve um secretário da Agricultura, secretário da Habitação... Eu não tenho do que me queixar dos seus desempenhos durante o período em que foram secretários. Só que, quando chegou a eleição de prefeito, eu chamei e disse ao PFL: “Olha, se os senhores tiverem candidatos a prefeito, eu entendo perfeitamente, mesmo que seja concorrendo com o meu partido. Onde tiver concorrência com o meu partido, eu fico com o meu partido, mas os senhores têm todo o direito de lançar. Nós não desfaremos a nossa aliança pelo fato dos senhores lançarem um candidato”. Se lançassem candidatos aqui em São Paulo, eu teria compreendido. O que eu não compreendi foi que fossem apoiar o candidato adversário.

 

Eleonora de Lucena: Por que o senhor acha que foi feito isso?

 

Mário Covas: Por que eu acho? O partido é maior de idade, faz o que ele acha que deve fazer! Provavelmente, porque tem mais identidade com o outro...

 

Eleonora de Lucena: O presidente Fernando Henrique interferiu, de alguma maneira, nessa ida do PFL para o PPB [Partido Progressista Brasileiro] do Maluf? Ou lavado as mãos, digamos, na ida do PFL para o Maluf?

 

Mário Covas: Interferido, eu acho difícil que ele tenha interferido, não creio que foi assim. Influído para que o PFL fosse para o lado do Maluf, não acredito que ele tenha pedido para o PFL vir para o meu lado.

 

Luís Costa Pinto: Seria natural que ele pedisse ao PFL que apoiasse o senhor ou o ex-ministro e, novamente, o ministro [da Saúde] José Serra, que precisava do tempo do PFL na eleição de prefeito?

 

Mário Covas: Tudo bem, eu tentei fazer isso no que se referia à campanha do Serra, e foi por isso que rompi com o PFL. No dia seguinte, os dois secretários deixaram de ser secretários. É que tem que escolher um novo caminho...

 

Luís Costa Pinto: [interrompendo] Não ter o PFL hoje, não ter os minutos que o PFL detêm na televisão, atrapalha a campanha do senhor?

 

Mário Covas: Depende. Eu acho que isso aí, o tempo da televisão depende muito do candidato.

 

Luís Costa Pinto: O senhor tem muito que falar?

 

Mário Covas: Existe muita gente que faz programa onde o tamanho do programa é desvantajoso, pois o candidato tem que ser escondido. [todos falam ao mesmo tempo]. Mas a candidatura da gente não está dependendo do PFL.

 

Luís Costa Pinto: O senhor crê na lealdade do senador Antônio Carlos Magalhães ao presidente Fernando Henrique? Ou na lealdade do senador ao projeto do poder no PFL?

 

Mário Covas: Eu acho que ele, nesse instante, faz as duas coisas concomitantemente. E se ele tiver que decidir entre uma delas, evidente que ele decida pelo projeto de... Até agora, eu não vi nenhuma contradição entre as duas coisas.

 

Luís Costa Pinto: Mas se há na próxima eleição?

 

Mário Covas: Isso é muito possível, pode acontecer. Provável que possa acontecer isso, isso nunca foi escondido [sendo interrompido]. Bem, mas até agora eles acharam que, pelo menos durante esse período, por mais um período de governo Fernando Henrique, compensava manter a aliança e trabalhar pela eleição do Fernando Henrique. Eu não vejo nenhum mal nisso. Isso não os obriga em relação a mim.

 

Mário Simas Filho: O senhor não se sente mais à vontade no palanque sem o PFL? Não é mais coerente com a sua história política?

 

Mário Covas: Não entendi.

 

Mário Simas Filho: O fato do senhor estar sem o PFL o deixa mais confortável num palanque?

 

Mário Covas: Eu disse ao PFL que eu gostaria que eles estivessem conosco. Não me torna mais ou menos confortável estar ou não estar. Eu vou disputar a eleição da mesma maneira, com o mesmo empenho. Apenas não dou a eles o direito de dizer que foram para o outro lado porque eu não quis. Manifestei, claramente, que preferiria que eles estivessem no meu lado ou estar ao lado do presidente, mas eles preferiram ir para outro lado.

 

Eleonora de Lucena: Se o senhor não estiver no segundo turno, para que lado o senhor acha que PSDB vai pender? Por que olhando...

 

Mário Covas: [interrompendo] No segundo turno vai para o lado do PSDB.

 

Eleonora de Lucena: Mas, olhando de hoje, já não está no segundo turno.

 

Mário Covas: Eu não olho hoje! Não olho hoje. [todos falam ao mesmo tempo] É uma coisa desagradável falar, parece presunção, mas eu vou ganhar a eleição. Quem vai ganhar a eleição é o PSDB, não tenho dúvidas disso!

 

Alexandre Polesi: Com qual discurso, governador? Há anos, o PSDB tinha o plano real e uma miragem que, com a medida, se confirmou, de estabilidade econômica de muitos anos. Qual vai ser o discurso do PSDB para oferecer ao eleitor agora nesse cenário difícil?

 

Mário Covas: Eu não tenho nenhuma dificuldade de fazer o discurso. Eu acho que fiz um governo excelente do ponto de vista administrativo. Tenho obras comparáveis com qualquer outro, com toda a dificuldade que tive. Resgatei o estado [pontuando com os dedos], tenho um comportamento, como político, absolutamente transparente que pode ser comparado com cada um. Se você acha que isso não são insumos...

 

Alexandre Polesi: Eu me refiro à estratégia nacional do PSDB. Qual vai ser a o mote da campanha, na sua opinião, do PSDB na eleição presidencial?

 

Mário Covas: A eleição presidencial vai girar o problema de emprego. Eu acho que...

 

Alexandre Polesi: [interrompendo] O governo federal tem condições de dizer algo de concreto nessa matéria?

 

Mário Covas: Sim, senhor. O governo estadual também. Durante o meu governo, os 31 bilhões de investimento na área privada, representam 1 milhão de empregos. As 120 mil casas, das quais, 85 mil já foram entregues, representam 88 mil empregos. Os 3 bilhões e 300 milhões de dólares aplicados em saneamento básico representam 300 mil empregos. Você tem quase 1 milhão e meio de empregos que não foram permanentes, a não ser os dos investimentos diretos, oferecidos nesse período. O Estado, talvez, seja individualmente o maior empregador. Não é empregador com funcionário, pois eu tenho 180 mil funcionários menos que tinha quando assumi.

 

Alexandre Polesi: Mas a política econômica do governo federal é geradora de empregos?

 

Mário Covas: A política econômica do governo federal...

 

Alexandre Polesi: O senhor tem condições de sustentar que a política econômica do governo federal tem condições de oferecer empregos?

 

Mário Covas: [interrompendo] A estabilidade é geradora de empregos, sim. [todos falam ao mesmo tempo]. Meu Deus do céu. A circunstância, que no meu entender foi operada vagarosamente, eu estou perfeitamente de acordo acabei de dizer isso, pois eu defendi o aumento da taxa de juro no instante em que ele foi feito. Como resposta àquela tentativa de especulação em cima do real. Todavia, um mês depois, eu estava dizendo: “Precisa reduzir isso rápido. Acho que os níveis de juros aqui ainda são extraordinariamente altos”. Outro dia, um dos jornais aqui de São Paulo publicava uma relação de 31 países, ele dizia o seguinte: “Desses 31 países, 13 deles têm inflação abaixo de 6%”, entre eles está o Brasil, que aparecia com 3,6% de inflação. Não era nem o décimo terceiro, no entanto só 3 que tinham dois dígitos de juros, eram a Indonésia, com 10% ou 12%, e o Brasil que estava com 38.

 

Alexandre Polesi: O senhor não acha que se abaixar a taxa de juro, que o senhor defende para aumentar emprego,o senhor não coloca o Brasil em uma situação de extrema vulnerabilidade no cenário externo, por exemplo, com a história da Rússia acabou a política da...

 

Mário Covas: [interrompendo] Mas essa questão de emprego precisa ser analisada corretamente. Eu acabei de ler um artigo de uma moça, na revista Exame, que analisa com alguns dados novos esse problema. Ela diz com muita clareza o seguinte: “O IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] calcula a taxa de desemprego apenas levando em consideração o que acontece em 6 regiões metropolitanas: a região de Recife, a região de Belo Horizonte, do Rio de Janeiro, de São Paulo”...

 

Luís Nassif: [interrompendo] São regiões que têm muito peso e onde a crise dos estados é grande, também! São regiões onde o papel do estado é muito grande.

 

Mário Covas: Aqui em São Paulo, no período de 1992 a 1996, a taxa de desemprego na região metropolitana, o número de oferta de emprego na região metropolitana, diminuiu 98 mil, no interior aumentou 79 mil. Quer dizer, é um fenômeno que, em São Paulo, é evidente nas estatísticas [todos falam ao mesmo tempo]. O ABC é um caso típico a esse respeito, tanto que as lideranças políticas, empresariais, tiveram o bom senso de se reunir em um fórum para reestudar o modelo de desenvolvimento do ABC. Porque o problema lá é muito mais estrutural. Isso afastando a idéia de que a indústria não é mais a grande fornecedora de emprego e não será no futuro. A mim surpreende que nós, no Brasil, estejamos aceitando com uma certa passividade os problemas decorrentes da globalização. Nós somos homens de dizer que: “a globalização está ali, é inevitável e, portanto, vamos ver como é que nós a vencemos ela”. Mas nenhum de nós se atem para ver como é que nós nos defendemos dos problemas que ela traz.

 

[...] E o que o senhor propõe?

 

Mário Covas: Eu acho que você tem que buscar alternativas. Você vai ter que trabalhar mais na área do primário, na área da agricultura, no terciário, na área de serviços, é uma coisa normal. A globalização está trazendo uma tal diminuição do volume de emprego na área industrial que esse fato vai se acentuar. Eu vejo investimentos em uma montadora da ordem 200 milhões de dólares e 100 empregos e vejo investimentos em um parque temático...

 

Luís Nassif: [interrompendo] Mas o senhor está dizendo que está havendo geração de empregos. Não é uma redefinição do desenho industrial do país?

 

Matinas Suzuki Jr.: Por favor, rapidinho que a gente está chegando no último minuto do programa.

 

Luís Nassif: Os partidos de São Paulo não são muito melhores que os partidos federais. Partidos programáticos de São Paulo, ideológicos e tudo. Como é que o senhor fez para garantir maioria na Assembléia Legislativa?

 

Mário Covas: Olha, não tive grande problema. Participaram do meu governo, durante um certo tempo, dois secretários do PFL, posteriormente saíram e o secretário do...

 

Luís Nassif: [interrompendo] Que tipo de demanda que o político estadual faz ao governador?

 

Mário Covas: Eventualmente, solicita obras, reivindica para suas regiões, nada a mais. Cargos não têm. Cargos a mim, nunca reivindicaram. E eu nunca dei. Nunca nomeei ninguém por conta de pedido. Volto a insistir, eu comecei o governo, que hoje tem 185 mil funcionários a menos que tinha quando eu assumi. É bem verdade que um bloco desse saiu para Fepasa, um bloco saiu com a Metropolitan, mas na realidade há uma diminuição muito significativa em relação ao número de pessoas. Para acabar com essa idéia de que o estado representa o fornecedor de emprego e o empregador direto. Pois não é isso, ele é um estimulador de emprego.

 

Matinas Suzuki Jr.: Governador, infelizmente nós estamos chegando ao final do programa, teriam muito mais assuntos, aqui ainda, para a gente abordar. Eu gostaria de fazer duas perguntas, rapidinho, se o senhor puder responder rapidamente. Uma é do Dalmo Almeida. O Dráusio Tido e o Caio César perguntam: “O que o senhor achou do trote do senhor Paulo Maluf ao tentar testar a eficiência da polícia militar?”

 

Mário Covas: O que é que eu achei? É o retrato do Paulo Maluf é digno dele, ele fez isso. Agora, vocês estão tão preocupados com a polícia? A minha polícia tem atestado de qualidade até pelo Maluf. Quer coisa melhor do que isso? Ele foi à polícia, aliás, foi depor na delegacia de polícia na hora do jogo do Brasil, para não ter imprensa nenhuma, e lá declarou que testou a polícia e achou a polícia muito boa. Funcionou extraordinariamente bem. Agora, no meu governo é diferente, o meu governo não dá trote.

 

Matinas Suzuki Jr.: E a parte em que o senhor falou que ele foi no horário do jogo do Brasil, o senhor como um homem que gosta de futebol, qual o seu palpite para amanhã [referindo-se aos jogos da Copa do Mundo de 1998]? [risos]

 

Mário Covas: O palpite é a vitória do Brasil! Eu acho que o Brasil vai jogar com uma certa tranqüilidade, já ganhou os dois jogos, está classificado em primeiro lugar e, portanto, vai ganhar. O peso todo... nessa cidade ele ganha, está do outro lado o Brasil, vai ganhar, não vejo grande dificuldade para que isso aconteça. O problema do Brasil, vai acontecer duas rodadas depois, quando ele jogar com a Nigéria.

 

Matinas Suzuki Jr.: Governador, mantendo, aqui, uma política de respeito tradicional à solicitação dos nossos telespectadores, eu gostaria de dizer que o senhor recebeu elogios ao longo do programa pela administração que o senhor vem fazendo do Davi Correa, de Santo Amaro; do Edson, de São Paulo; da Tânia Matos; da Maria Regina Celino Correa; do Nonato Prazeres, de Salvador da Bahia; do Getúlio Ribeiro; da Ivonete Lúcia e Guilherme; do Paulo Roberto daqui de São Paulo; do Luis Guilherme, daqui de São Paulo; do Lizandro de Almeida; do Antônio Vitor todos de São Paulo; do Paulo Tadeu Moura, de São Paulo; do Gerson Gomes; do Henrique Donini; do professor Marcelo Barão; do professor Manuel Ferreira e do Marcelo Reis, estudante de 21 anos. Eles são repetitivos mais eu li a lista inteira [risos].

 

Mário Covas: Mas foi por uma razão especial, pois eu não identifico nenhum deles como sendo militantes do PSDB nem meu parente.

 

Matinas Suzuki Jr.: Pois é, são todos telespectadores que nos honram muito! Muito obrigado pela presença do senhor aqui nesta noite! Muito obrigado pela nossa bancada de entrevistadores, muito obrigado pela sua participação. Eu lembro que o Roda Viva volta na próxima segunda feira às 10:30 da noite. Até lá. Uma boa semana para todos e uma boa noite.

 

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