Memória Roda Viva

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Cecílio do Rego Almeida

6/12/1993

Nesta polêmica entrevista, o presidente da CR Almeida acusa empreiteiras concorrentes e políticos de corrupção e se defende de acusações à atuação de sua empresa

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[programa ao vivo]

Jorge Escosteguy: Boa noite. O diretor em Brasília da empreiteira Norberto Odebrecht disse hoje, na CPI do Orçamento, que a empresa reservou 12 milhões de dólares para ajudar políticos nas eleições do ano que vem. Ailton Reis, diretor da Odebrecht, assumiu toda a responsabilidade pelos papéis e documentos encontrados pela Polícia Federal em sua casa. Ele disse que eram anotações pessoais e que a empresa não tinha conhecimento desses documentos. Os documentos, aliás, indicariam a existência de um cartel de empreiteiras para manipular verbas e obras do governo. O diretor da Odebrecht também se recusou a identificar as pessoas mencionadas nos documentos com apelidos ou codinomes. Uma dessas pessoas era chamada de Tio e seria o responsável pelo trabalho de liberação de verbas no governo. O depoimento de Ailton Reis à Polícia Federal, que deveria ter sido hoje também, foi adiado para a semana que vem. Ao mesmo tempo, a CPI do Orçamento descobriu que, nos últimos cinco anos, foram liberados, irregularmente, cerca de 650 milhões de dólares que seriam usados em obras sociais no país. O escândalo do orçamento e o envolvimento de empreiteiras em corrupção são os assuntos de hoje do Roda Viva que começa agora pela TV Cultura de São Paulo. No centro da roda, o nosso convidado desta noite é o empresário Cecílio do Rego Almeida, dono da CR Almeida, uma das quatro maiores empreiteiras do país. Há pouco menos de um mês, Cecílio do Rego Almeida deu uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, denunciando casos de corrupção no país envolvendo políticos e empreiteiras. Ele contou muitas histórias, muitos milagres, mas quase não deu "nome aos santos" responsáveis por eles. Para entrevistar o empresário Cecílio do Rego Almeida esta noite no Roda Viva, nós convidamos Ricardo Noblat, repórter especial do jornal O Globo; Florestan Fernandes Jr., repórter da Rede Cultura de São Paulo; Marco Antonio Antunes, editor de economia do Jornal da Tarde; jornalista Ottoni Fernandes; Sônia Racy, colunista do jornal O Estado de S. Paulo; Marcelo Beraba, secretário de redação do jornal Folha de S.Paulo; Milton Coelho da Graça, jornalista da TVE do Rio de Janeiro; e Marcelo Pontes, colunista do Jornal do Brasil. Na platéia, assistem ao programa convidados da produção. Boa noite, doutor Cecílio.

Cecílio do Rego Almeida: Boa noite.

Jorge Escosteguy: Antes de mais nada, uma curiosidade. Em geral, principalmente nessa época de muitas denúncias envolvendo empreiteiras etc, principalmente as empreiteiras estão na moita, todas quietinhas, e o senhor de repente resolveu falar, deu uma longa entrevista à Folha de S. Paulo, está aqui hoje no Roda Viva para conversar conosco durante uma hora e meia e amanhã deverá ir ao programa de entrevistas do Jô Soares. Por que, de repente, essa vontade de falar e dizer coisas?

Cecílio do Rego Almeida: Não é de repente. Isso começou há muitos anos. Em 1971, em plena revolução, os governadores eram indicados pelo governo militar; eu morava no Paraná e coube ao Paraná, a um cidadão, Haroldo Leon Peres, e esse cidadão, nomeado governador de um regime militar duro, julgou-se impune. É aí que reside o mal da questão, a impunidade. Eu tinha naquela época... era muito dinheiro, compare a inflação de 71 para cá, a inflação americana; [eram] 26 milhões de dólares e ele quis oito milhões de dólares...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] De comissão?

Cecílio do Rego Almeida: De comissão... “Começão” devia ser, porque era tão grande que não era nem comissão. Chamado ao Palácio, ele, como um imperador, exigiu os oito milhões de dólares. Eu disse que oito milhões de dólares eram mais do que 30%. Ele disse que não entendia de percentagem, ele queria oito milhões de dólares. Enquanto isso, o irmão dele passava por trás de mim como um maluco, e eu disse a ele que eu não pagaria os oito milhões de dólares nunca.

Jorge Escosteguy: Mas disse que pagaria 4%?

Cecílio do Rego Almeida: Não, isso é o senhor que está dizendo.

Jorge Escosteguy: Eu gostaria de pedir ao engenheiro que voltasse e fizesse uma síntese da sua proposta que foi entregue à CPI e que o senhor pretende que seja entregue ao presidente Itamar Franco, por favor.

Cecílio do Rego Almeida: Esta semana eu vou levar uma pessoa que o presidente Itamar Franco me indicou no almoço com o presidente da China. Em síntese, como vocês querem, é simples, é uma medida provisória, ou uma lei encaminhada pelo poder executivo ao legislativo, que anula todas as concorrências que feriram o Decreto-Lei 2300. Como são cinco mil municípios que nós temos no Brasil, dá um prazo de 60 dias ou 90 dias, isso os técnicos do governo, se tiverem competência, farão, para que o prefeito, que foi o que mais sofreu nisso tudo, porque quis fazer a água para a cidade, abra nova concorrência. Isso faz com que os preços caiam 50% – isto é o número um. Número 2: com parte desse dinheiro, o procurador-geral da República contrata dois mil promotores públicos, jovens que estão desempregados, e todas as prefeituras são obrigadas a mandar para a Procuradoria Geral da República esses processos para serem examinados. Quem feriu, perdeu seu contrato e vai devolver seu dinheiro. Mas o mais importante é que cessa, estanca esse esgoto em que sai o dinheiro do trabalhador brasileiro, do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço [FGTS]. Até o senhor que era eleitor do presidente Sarney, até o governo de Sarney, ele não permitiu um centavo desse dinheiro do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, que é um dinheiro altamente inflacionário e altamente roubado... Essa invenção cabe à OAS [construtora OAS] do senhor César [de Araújo] Mata Pires e senhor Carlos Suarez [dois dos três fundadores da OAS].

[sobreposição de vozes]

Ricardo Noblat: Doutor Cecílio, a sua empresa, em algum momento, para ganhar alguma concorrência, pagou ou não algum tipo de comissão?

Cecílio do Rego Almeida: Eu não paguei.

Ricardo Noblat: Sua empresa nunca pagou?

Jorge Escosteguy: Desculpe, essa pergunta também é feita pelos telespectadores Sandra Ferreira, aqui de São Paulo, Nelson de Souza Bom, também de São Paulo, e Eduardo Carreira, também de São Paulo.

Ricardo Noblat: Nunca pagou?

Cecílio do Rego Almeida: Não.

Ricardo Noblat: Sempre ganhou limpamente todas as concorrências?

Cecílio do Rego Almeida: Em dois anos, eu ganhei quatro.

Ricardo Noblat: Não, eu falo para trás, eu não falo dos últimos dois anos.

Ottoni Fernandes: No período anterior à OAS.

Cecílio do Rego Almeida: Não é necessário isso. Eu lhe dou um exemplo. Uma pessoa que vende banana e fatura por ano – vamos pôr em dólar para facilitar – 10 mil dólares ou 20 mil dólares, ele tem um lucro de 12%, ele vai ter 2,4 mil dólares. Uma pessoa que faturar, por ano, um bilhão de dólares terá de lucro 120 milhões de dólares. É que o negócio é muito grande.

Sônia Racy: Doutor Cecílio, a impressão que dá, o senhor conversando aqui, é que desde a criação da OAS o esquema das empreiteiras foi desestabilizado, certo? Ela entrou com uma concorrência agressiva e...

Ottoni Fernandes: Impôs uma nova ordem.

Sônia Racy: Impôs uma nova ordem...

[...]: Uma nova percentagem?

Cecílio do Rego Almeida: Não, não, tem dois fazendo a pergunta.

Jorge Escosteguy: A Sônia tem a pergunta.

Sônia Racy: É a mesma pergunta. Parece que ela atrapalhou tanto, que o senhor está publicamente atacando a OAS. Sem querer ser contra nem a favor...

Cecílio do Rego Almeida: [interrompendo] Não, eu sei disso.

Sônia Racy: ...eu estou querendo saber se a entrada da OAS desestabilizou a ordem antes existente.

Cecílio do Rego Almeida: Eu acho que a senhora comete um erro brutal em dizer isso, porque o único empreiteiro que vem fazendo isso sou eu. Se tivesse desestabilizado esse... a senhora chamou de sistema, depende como a senhora está empregando a palavra sistema...

Sônia Racy: [interrompendo] Eu não preciso falar, o senhor já está falando.

Cecílio do Rego Almeida: Não, eu não sou criado de ninguém. Eu respondo pela minha empresa, eu respondo por minha pessoa, certo? Só esse senador que [...], pisou na bola...

Sônia Racy: [interrompendo] Eu não estou falando que o senhor é porta-voz...

Cecílio do Rego Almeida: ...que achou que os empreiteiros tinham, como seu guia, o senhor Emílio Odebrecht.

Sônia Racy: Sim, mas eu não estou dizendo que o senhor é porta-voz. Eu não estou dizendo isso. Eu estou dizendo que o senhor já atacou a OAS por todos, certo? Não é que os outros também estão combinados, mas estou falando que o senhor já abriu a frente.

Cecílio do Rego Almeida: É desnecessária esta pergunta, porque com os outros ou sem os outros eu ataquei, ataco e atacarei essa empresa, que é um balcão de corrupção.

Sônia Racy: Antes do aparecimento da OAS, qual a porcentagem que a CR Almeida tinha do mercado?

Cecílio do Rego Almeida: Eu tenho esses documentos no meu escritório...

Sônia Racy: Mas o senhor não tem mais ou menos de cabeça?

Cecílio do Rego Almeida: [Tinha] 9%, 10%, 8%, dependendo...

Sônia Racy: E suas concorrentes?

Cecílio do Rego Almeida: Ah, têm mais. Alguns têm bem mais.

Sônia Racy: [...] tinha 10%, a outra tinha 15%, a outra tinha 11%, era mais ou menos assim? Quanto a OAS tem do mercado, nesses últimos dois anos?

Cecílio do Rego Almeida: Ela pegou de 800 a mil obras.

Sônia Racy: De quantas obras?

Cecílio do Rego Almeida: Não sei dizer, realmente eu não sei dizer quantas obras. É uma pergunta que vale... No próximo programa, eu trago isso anotado.

Sônia Racy: Pensei que o senhor soubesse, [porque] é do seu setor.

Cecílio do Rego Almeida: Eu não sei se você sabe o que representa o setor público. É uma miríade de obras públicas. O povo entrega o dinheiro, o governo faz um grande projeto de construção nacional, simplesmente com o dinheiro do povo, e o empreiteiro constrói. Mas são milhares e milhares de obras. Eu não estou respondendo a sua pergunta não por vontade de não responder, porque a partir de um nível de obras, minha empresa não olha.

Ottoni Fernandes: Doutor Cecílio, então vamos falar das grandes obras. O senhor está fazendo uma proposta que foi encaminhada à CPI e que, em essência, corta a possibilidade da nota técnica na concorrência.

Cecílio do Rego Almeida: Sim.

Ottoni Fernandes: No entanto, por informações que eu tenho, esse não é o único esquema que leva as empreiteiras a aliviar um pouco do "dinheiro da viúva" [refere-se ao Estado], que no fim é o dinheiro dos contribuintes. Porque outro esquema que me consta é o esquema da cartelização das obras, em que as grandes empreiteiras acertam, na hora da concorrência, quem vai ganhar aquela concorrência. Por exemplo, eu ouvi falar muito em Brasília que tem o comitê dos construtores de barragem, de que a C. R. Almeida faz parte, que era o filé mignon do mercado...

Cecílio do Rego Almeida: Faz parte. Associação das Construtoras de Centrais Energéticas [ACCE].

Ottoni Fernandes: ...e que nessa associação existia um critério [para definir] quem vai ganhar tal concorrência. Por exemplo, em Xingó, que foi a última grande obra licitada, se não me engano... [A Usina Hidrelétrica de Xingó, no rio São Francisco, localiza-se entre os estados de Alagoas e Sergipe]

Cecílio do Rego Almeida: Em que ano foi isso?

Ottoni Fernandes: Xingó quando foi? Foi no governo Sarney ou foi antes? [A usina começou a ser construída em 1987, durante o governo Sarney]

Cecílio do Rego Almeida: Não sei, o senhor que está falando.

Ottoni Fernandes: Não, isso é o que eu sei, que na Xingó a CBPO, Mendes Júnior e Constran ganharam...

Cecílio do Rego Almeida: Sim.

Ottoni Fernandes: ...e segundo consta, tem muita gente falando isso em Brasília, cada uma das grandes outras empresas que participam da associação ganharam, no início, 20 milhões de dólares por mês por ter cedido a vaga, certo? Aqui em São Paulo...

Cecílio do Rego Almeida: [interrompendo] Por quantos meses o senhor acha que seriam esses 20 milhões?

Ottoni Fernandes: Não sei por quantos meses. Estou lhe perguntando se existe um esquema...

Cecílio do Rego Almeida: [interrompendo] E quantas empresas seriam? Veja o absurdo que o senhor está dizendo...

Ottoni Fernandes: Isso que eu quero perguntar ao senhor.

Cecílio do Rego Almeida: Vinte milhões de dólares por mês, a ACCE, se não me engano, tem dez empresas, [portanto] são 200 milhões. Se essa obra está há quatro anos [sendo feita], são 50 meses. O senhor estaria pagando, ou a viúva, como o senhor disse, um bilhão de dólares. Acho que...

Ottoni Fernandes: Doutor Cecílio, fato concreto: existe uma cartelização nas concorrências? Porque existem outros casos: aqui em São Paulo, por exemplo, a administração [Luiza] Erundina acabou... havia uma cartelização na pavimentação de estradas. Tem uma usina de asfalto aqui em São Paulo, coisa pequena, ali era varejão... e conseguiu reduzir em 30%: abriram a concorrência a outras empresas de outras cidades. Então eu pergunto: existe uma cartelização? Só o fato de acabar com a nota técnica resolve o problema para que os preços sejam concorrenciais? Ou também existe uma cartelização das grandes empreiteiras?

Cecílio do Rego Almeida: Eu não estou no cartel, número um.

Ottoni Fernandes: Mas existe um cartel?

Cecílio do Rego Almeida: Não tenho conhecimento. Agora, eu posso lhe dar a resposta que facilitaria muito isso tudo. Eu proporia que empresas estrangeiras... em vez de ficarem os petistas a dizer que americano não presta, que quer roubar o Brasil, eu abriria as concorrências a todos os países que fizessem parte do Banco Mundial, e vamos ver o preço.

Milton Coelho da Graça: Doutor Cecílio, quando eu vou fazer uma casa, ou qualquer um desses pobres mortais aqui – tem uma revistinha chamada Construtor, Construção Civil –, a gente vai ali, sabe exatamente... quer dizer, eu sei que uma casa hoje no Brasil custa 250 dólares por metro quadrado a construção básica.

Cecílio do Rego Almeida: Sim, senhor.

Milton Coelho da Graça: Por que o poder público não pode fazer a mesma coisa que nós fazemos? [Suponha que] tem um lugarzinho em que está lá escrito assim: barragem por metro cúbico de concreto é tanto, rodovia por quilômetro por tantos metros de largura é tanto. Por que o preço é essa coisa fantástica que tem 30%, 40%, 50%... que a OAS pode ganhar, repassar para outra. Por quê?

Cecílio do Rego Almeida: Eu respondo. O senhor tem total razão. E me permita...

Milton Coelho da Graça: [interrompendo] Por que o senhor nunca sugeriu isso, se eu tenho razão?

Cecílio do Rego Almeida: Eu não trabalho no sistema habitacional brasileiro.

Milton Coelho da Graça: Não, eu estou falando de barragem, de estrada.

Cecílio do Rego Almeida: O senhor falou habitação.

Milton Coelho da Graça: Não, não, eu, para a minha habitação, eu vejo o preço, e o governo podia fazer o mesmo para rodovia, para barragem, para tudo que ele faz. Ter preços básicos.

Cecílio do Rego Almeida: Quando fez, veja bem, quando fez e deu como preço base, com acréscimos e decréscimos, a tal nota técnica levou a essa corrupção. Foi o governo que fez.

Milton Coelho da Graça: Sim, mas sem nota técnica.

Cecílio do Rego Almeida: Sem nota técnica hoje, e sendo o preço mínimo livre, está dando concorrências baratíssimas. Isso já aconteceu, eu li no jornal de ontem: na [rodovia] Fernão Dias, houve uma economia média de 50%.

Sônia Racy: Mas aqui em São Miguel, ganhou a OAS, com 50% a menos do preço base.

Cecílio do Rego Almeida: Eu não sei o que é São Miguel. É obra do quê?

Sônia Racy: É obra estadual.

Cecílio do Rego Almeida: Do quê?

Sônia Racy: É o Terminal de São Miguel [terminal de ônibus da cidade de São Paulo]. Eu li no jornal isso também.

Cecílio do Rego Almeida: Eu não sei o que é isso.

Sônia Racy: É ligado à Sabesp; deve ser de água e esgoto.

Cecílio do Rego Almeida: Ligado à Sabesp é saneamento.

Sônia Racy: Saneamento.

Milton Coelho da Graça: Voltando à pergunta: por que essa associação de empreiteiras, essas dez empreiteiras, elas teriam uma maneira fácil de não deixar que a OAS pirateasse nem fizesse corrupção. Elas proporiam ao governo: “Está aqui: essa é a tabela de preços básicos para as obras públicas, tantos dólares por quilômetro de rodovia”. Por que isso nunca foi proposto pelas empreiteiras? Por que elas sempre aceitaram esse sistema complicado de concorrência com nota técnica? Nunca falaram disso. A Lei 2300 está em vigor esse tempo todo e ninguém falou.

Cecílio do Rego Almeida: O senhor já conversou com parlamentares?

Milton Coelho da Graça: Não, o governo gosta de conversar com empreiteiros.

Cecílio do Rego Almeida: Sim, mas deixa eu lhe responder. Eu estou fazendo a pergunta por isso: cada um é um professor de Deus, e não cabe ao empreiteiro isso, realmente não é assim. Eu corri, senhor, dois anos, mesmo sendo machucado na coluna, dois anos com malas que pesam 25 quilos, demonstrando em gabinetes ministeriais, demonstrando mesmo no Congresso, entregando... não vou citar nomes, não é meu costume...

Milton Coelho da Graça: [interrompendo] Cite, cite, porque é bom quando o senhor cita nomes.

Cecílio do Rego Almeida: Entregando este documento que eu quero entregar ao senhor, que vale mais do que entregar a certas pessoas [entrega o documento a Jorge Escosteguy].

Jorge Escosteguy: E que resposta o senhor tinha quando levava este documento e falava sobre isso?

Cecílio do Rego Almeida: Olhe, [eram] pessoas probas, porque eu só procurava os melhores. Eu não sei se é falta de tempo, se é falta de uma infra-estrutura que estude melhor, não ia à frente. E se você perguntar a uma autoridade por que não foi à frente, você pode receber uma mentira, como eu recebi do ministro mentiroso, Jutahy Magalhães Júnior [ministro da Ação Social entre 1992-1993]. Eu procurei o ministro, já [era o] governo Itamar, e levei essa proposta e queria fazer uma comprovação a ele – nós não trabalhamos com habitação popular – que era criminosa a atitude dessa empresa em relação à habitação popular. E pedi a ele que, como ministro da Ação Social e dono da chave do cofre da Caixa Econômica, que pedisse a relação das obras da OAS. Esse ministro mentiroso, chamado Jutahy Magalhães Júnior, me disse que era impossível conseguir isso, o ministro do governo Itamar. [Eu disse] “Mas como é impossível, ministro, conseguir isso? O senhor que autoriza”. [Ele respondeu] “É muito demorado, não é possível”. Eu saí com a pessoa que me acompanha, uma rapaz de 30 anos, em Brasília. Encontramos um colega, eu contei a história e ele disse: “Cecílio, não seja anjo, o irmão do ministro Jutahy Magalhães Júnior trabalha na OAS. Ele não dará nunca essa lista para você”. Eu ainda consegui inúmeros documentos, também não vou citar o nome da moça, ela é PT roxa, roxíssima, até o negócio [dela] de ginástica é roxo, porque ela usa vermelho, não é roxo, vermelho, retifiquem, mas é uma moça inteligentíssima, é a melhor técnica em computação do Brasil, trabalha no gabinete do senador [Eduardo] Suplicy. [Ela é] casada. Lá eu consegui inúmeros dados. Esses dados... e olha que eu não sou PT...

Milton Coelho da Graça: [interrompendo] Pois é, estou vendo a sua aproximação agora.

Cecílio do Rego Almeida: Com esses dados eu consegui caminhar bastante, graças ao senador Suplicy. Eu dou um exemplo para os senhores: foi nesse gabinete do PT, com o senador Suplicy... você lembra de um episódio do jet ski do ministro [da Ação Social Ricardo] Fiuza? O jet ski custava 15 mil dólares, e a OAS enfiou um sobrepreço de 62 milhões de dólares. [Veja a entrevista de Ricardo Fiúza ao Roda Viva, na qual ele dá sua versão ao caso do jet ski : http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/708/entrevistados/ricardo_fiuza_1992.htm]

[...]: O senhor tem como provar isso aí?

Cecílio do Rego Almeida: Eu lhe dou o jornal.

[sobreposição de vozes]

Marcelo Beraba: Que obra era essa?

Cecílio do Rego Almeida: Tenho tudo aqui [levanta-se e entrega mais documentos a Jorge Escosteguy]. Tem a obra, a emenda, tem tudo.

Jorge Escosteguy: Mas como ninguém pode ler em casa, o senhor pode dizer qual é a obra?

Cecílio do Rego Almeida: A obra é a BR-101 em Santa Catarina.

Jorge Escosteguy: Houve um sobrepreço de 62 milhões de dólares?

Cecílio do Rego Almeida: Só no trecho da OAS, nos outros eu não olhei.

Marcelo Pontes: Qual é o maior foco de corrupção dentro do governo, doutor Cecílio? O senhor citou o ministério do Jutahy. É lá?

Cecílio do Rego Almeida: É, é lá. É lá por um motivo: em outros ministérios... o dinheiro brasileiro é escasso, o grande dinheiro é o dinheiro do trabalhador, do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço...

Marcelo Pontes: [interrompendo] Que outros setores do governo o senhor apontaria como focos de corrupção?

Cecílio do Rego Almeida: Eu não entendi a sua pergunta. O que o senhor quer dizer com isso?

Marcelo Pontes: Em que outros setores do governo há corrupção?

Cecílio do Rego Almeida: O que eu freqüentei e ganhei uma nota... [corrige-se] uma obra era no Incra. Agora, eu vou fazer...

Ricardo Noblat: [interrompendo] Uma obra e uma nota também, porque o senhor reconheceu que poderia ter feito [...].

Cecílio do Rego Almeida: Não, porque não pagaram. O governo era caloteiro. Eu propus nessa CPI que se meu preço fosse mais alto, pagassem o preço que era justo.

Milton Coelho da Graça: Mas o senhor está falando em governo caloteiro e tem a outra cara. Agora mesmo, há dois dias, eu passei em uma estrada, que segundo o Ministério da Ação Social, no tempo da dona Margarida [Procópio, ministra no governo Collor], a estrada foi asfaltada, já está constando nos mapas de Alagoas como estrada asfaltada, e nunca botaram asfalto nessa estrada.

Cecílio do Rego Almeida: Sim, senhor.

Milton Coelho da Graça: Como é essa trampa entre a empreiteira e o ministro para contratar uma obra que não se realiza? Quer dizer, nem sequer é mais cara, ela simplesmente não se realiza.

Cecílio do Rego Almeida: O senhor olhou o nome da empresa?

Milton Coelho da Graça: Não, infelizmente ninguém soube me informar.

Cecílio do Rego Almeida: O nome da empresa é OAS, e a obra é no Piauí, certo?

Milton Coelho da Graça: Não, essa que eu vi é em Alagoas, uma estrada não asfaltada. Como é que faz isso?

Cecílio do Rego Almeida: Ah, senhor...

Milton Coelho da Graça: Como se faz uma estrada que não existe?

Cecílio do Rego Almeida: É roubo! É a mesma coisa que o senhor me perguntar: como é que aquele ladrão pulou aquela janela e roubou tanto daquela pobre viúva?

Milton Coelho da Graça: Mas quem é que mete a mão ali no dinheiro do asfalto? Foi a ministra que botou tudo no bolso ou foi a empreiteira vai lá...?

Cecílio do Rego Almeida: Isso você tem que perguntar para a ministra, mas eu posso lhe dizer em tese...

Milton Coelho da Graça: Sim, como é que é.

Cecílio do Rego Almeida: ...porque eu não estava ao lado da ministra.

Sônia Racy: [interrompendo] Mas talvez isso explique por que o governo federal deve tanto às empreiteiras e elas não quebram, não é?

Cecílio do Rego Almeida: Eu quebrei... não quebrei, eu pedi concordata.

Sônia Racy: O senhor pediu concordata, mas está aqui registrado... Quanto o governo deve ao senhor?

Cecílio do Rego Almeida: [Deve] 917 milhões de dólares.

Sônia Racy: E como é que só agora o senhor pede concordata?

Cecílio do Rego Almeida: Por causa de uma petista chamada Suely Caldas, que pôs que eu devia 590 milhões de dólares por caixa dois, fraude...

Sônia Racy: [interrompendo] São autuações, ela colocou, autuações.

Cecílio do Rego Almeida: Autuações é o mesmo, por nota fria, fraude fiscal...

Sônia Racy: Mas isso foi uma informação passada a ela pela Receita Federal.

Cecílio do Rego Almeida: Devia ser preso o funcionário, isso é crime. Ela não teria coragem de me dar o nome desse funcionário. Isso é orquestrado.

Sônia Racy: Mas isso é verdade ou mentira, doutor Cecílio?

Cecílio do Rego Almeida: Mentira! Claro que é mentira! [...]

Milton Coelho da Graça: O senhor ia explicar como é o negócio do asfalto que não existe.

Sônia Racy: Mas se ela não tivesse colocado essa informação, o senhor não teria pedido concordata?

Cecílio do Rego Almeida: Não, porque houve uma corrida...

Sônia Racy: [interrompendo] Então o governo poderia estar devendo 917 milhões de dólares ao senhor e o senhor, mesmo assim, estaria bem?

Cecílio do Rego Almeida: Sim, porque nós temos crédito. Como nós temos as contas a receber do governo, nós damos em garantia para bancos e tiramos dinheiro dos bancos...

Sônia Racy: [interrompendo] Há quanto tempo o governo não paga o senhor?

Cecílio do Rego Almeida: Genericamente? É difícil...

Sônia Racy: Vamos dizer em média, uma média.

Cecílio do Rego Almeida: O governo Itamar pagou quase zero...

Ricardo Noblat: E o [ex-presidente Fernando] Collor [de Mello], pagou direitinho?

Sônia Racy: Como é que [sua empresa] sobrevive?

Cecílio do Rego Almeida: Assim não dá. Ou a senhora pergunta ou ele pergunta.

Milton Coelho da Graça: Sem contar que eu estou em primeiro lugar.

Jorge Escosteguy: A questão da autuação dos 500 milhões de dólares, até porque um telespectador, logo no começo, perguntou sobre isso.

Cecílio do Rego Almeida: Aqui está a revista [pega um exemplar do Jornal da Tarde]: “Devassa começa na CR Almeida. Empreiteira leva multa de 590 milhões de dólares”. E essa senhora diz...

Sônia Racy: [interrompendo] Essa senhora é uma profissional muito competente e respeitada no meio [jornalístico], trabalha no jornal em que eu trabalho.

Cecílio do Rego Almeida: Eu não estou ofendendo. Essa senhora mente, então...

Sônia Racy: Como mente, doutor Cecílio?

Cecílio do Rego Almeida: Mente porque ela diz aqui...

Sônia Racy: O senhor a está processando?

Cecílio do Rego Almeida: Vou processá-la, vou processá-la.

Sônia Racy: Então vamos ver se ela está mentindo.

Cecílio do Rego Almeida: Lê: “A empreiteira CR Almeida terá de recolher 590 milhões de dólares” – daí dá o valor em cruzeiros – “aos cofres públicos por emissão de notas frias, sonegação fiscal, prática de caixa dois, entre outras fraudes”. Então, quem tinha razão era eu, não a senhora. Não é possível que a imprensa, [que] quer o quarto poder, quer ocupar o terceiro, quer ocupar o segundo e o primeiro. E essa moça faz uma coisa dessa, sendo uma mentira?

Sônia Racy: Mas se era uma mentira, ela não levaria o senhor à concordata.

Cecílio do Rego Almeida: Ah, você pegue uma multa de 590 milhões na Fiesp, você quebra as empresas de São Paulo. Vai para o Guinness Book.

Sônia Racy: Mas o senhor foi multado ou não foi multado?

Cecílio do Rego Almeida: Claro que não fui.

Jorge Escosteguy: O que aconteceu então?

Sônia Racy: O que aconteceu?

Cecílio do Rego Almeida: Peça para o rapaz pegar, por favor, o meu... [recebe mais papéis de um assessor]. O que aconteceu é que ela mentiu nesse jornal, orquestradamente.

Sônia Racy: Orquestradamente com quem?

Cecílio do Rego Almeida: [...] na China, e houve uma corrida de bancos. A única maneira de salvar a empresa, que tem um patrimônio de 1,08 bilhão de dólares, era pedir uma concordata. Sabe de quanto? De 35 milhões de dólares, [o que representa] 3,7%. Foi isso o que essa senhora causou. Hoje ela está causando um mal maior junto com um deputado [federal] do PT de nome [Luiz] Gushiken.

Milton Coelho da Graça: Mas esse é um jornal respeitável; se o senhor [...] certamente eles publicarão.

[sobreposição de vozes]

Cecílio do Rego Almeida: Adianta? [...]

Sônia Racy: Cadê o documento?

Cecílio do Rego Almeida: O documento, eu dei a ele.

Sônia Racy: Quanto o senhor deve?

Cecílio do Rego Almeida: O documento, eu dei a ele, minha senhora.

Jorge Escosteguy: O que aconteceu realmente com a sua empresa, então?

Cecílio do Rego Almeida: Eu dei a ele o documento. Eu estou regular com o Imposto de Renda.

Sônia Racy: Doutor Cecílio, eu acho que tanto O Estado de S.Paulo como a Suely Caldas são dois...

Cecílio do Rego Almeida: [interrompendo] Ah, são dois oráculos? A senhora está brincando...

Sônia Racy: Não, não são oráculos, mas são...

Marco Antonio Antunes: Doutor Cecílio, eu sou do Jornal da Tarde [e posso dizer que] ela obteve essa informação junto a fontes credenciadas.

Cecílio do Rego Almeida: O senhor se compromete comigo em dar o nome da fonte?

Milton Coelho da Graça: Não, é a fonte dela.

Cecílio do Rego Almeida: Ou ela daria o nome da fonte?

Milton Coelho da Graça: Aí o senhor tem que conversar com ela.

Jorge Escosteguy: Desculpem. Há um problema. Aconteceu realmente o que com a sua empresa para a gente poder seguir adiante com a entrevista, por favor? O senhor foi autuado, foi multado?

Cecílio do Rego Almeida: Não, esses 590 [milhões] não.

Jorge Escosteguy: O que aconteceu?

Cecílio do Rego Almeida: Não fui multado. Uma pessoa é autuada, a pessoa jurídica é autuada. E tem direito à defesa; não é como na imprensa...

Sônia Racy: [interrompendo] Mas o senhor foi autuado, então, nesse montante?

Cecílio do Rego Almeida: Não senhora...

Jorge Escosteguy: Um minutinho, por favor. O empresário vai explicar o que aconteceu realmente, para que nós possamos continuar. Foi dada uma versão, o senhor diga por favor, o que aconteceu. O senhor foi autuado...

Cecílio do Rego Almeida: Eu fui autuado em 169 milhões de dólares.

Jorge Escosteguy: Por causa do quê? Por quê?

Cecílio do Rego Almeida: Você vai dar risada. [Fui] autuado por um dinheiro que eu não recebi do próprio governo. E, por lei, o regime tributário fiscal é o regime de caixa: o empreiteiro recebe do governo e paga o seu imposto de renda. E eu fui multado sem ter recebido o dinheiro, por causa desse clima que está sendo criado sem necessidade, sem mais aprofundamento das coisas.

[sobreposição de vozes]

Marcelo Beraba: Vamos supor que realmente a OAS seja exatamente tal como o senhor está descrevendo e tenha esse papel nefasto que o senhor descreveu. Ela, evidentemente, não teria conseguido fazer isso durante o governo Collor, que foi quando ela mais cresceu, sem alguma parceria, sem alguma cumplicidade ali dentro. Como foi montado isso? E outra coisa: por que ela foi a escolhida, se o senhor também ajudou o Collor na campanha, se outros ajudaram, por que foi ela a escolhida?

Cecílio do Rego Almeida: Eu respondo totalmente a sua pergunta. É totalmente válida a sua curiosidade. A minha empresa deu 700 mil dólares para uma campanha ao PRN [Partido da Reconstrução Nacional]. Eu tive uma obra desse tipo na base desse gordinho suado...

Milton Coelho da Graça: Que se chama Gilberto Daud. O senhor não quer dar o nome, eu vou dar: Gilberto Daud.

Cecílio do Rego Almeida: Ele se apresentou... ele que se apresentou. Exatamente, o senhor tem razão, esse é o nome. E as obras eram dadas à OAS.

Marcelo Beraba: Mas por quê? Qual foi a lógica? Como se montou isso?

Cecílio do Rego Almeida: Mas como é que eu posso saber por quê?

Marcelo Beraba: É que o senhor é bem informado.

Cecílio do Rego Almeida: Veja, como é que eu posso saber por quê? Porque talvez ele tenha feito algum acerto.

Milton Coelho da Graça: Maior que 700 mil, então?

Cecílio do Rego Almeida: Não, o meu dinheiro foi dado...

Milton Coelho da Graça: [interrompendo] Teria que ser maior do que o seu para ter essa...

Cecílio do Rego Almeida: Não senhor. O senhor está sendo capcioso, o senhor está sendo capcioso. Eu dei 700 mil dólares ao PRN...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] E o cheque foi parar na conta da empresa do Paulo César Farias, foi isso? A EPC [Empresa de Participações e Construções, de PC Farias].

Cecílio do Rego Almeida: Sim. Eu ouvi isso na Polícia Federal. Foi parar na conta da EPC. O senhor, que é um homem inteligente, me responda: eu tenho carimbo da EPC?

Jorge Escosteguy: Não sei [ri].

Cecílio do Rego Almeida: Claro que eu não posso ter, a empresa não é minha. O dinheiro foi entregue ao PRN.

Ricardo Noblat: O senhor tem provas disso, naturalmente.

Cecílio do Rego Almeida: Claro, pois está o cheque na Polícia Federal. Não só eu tenho, o Brasil tem.

Ricardo Noblat: Não, eu digo, [prova] de que entregou ao PRN. De que não entregou à IPC e entregou ao PRN.

Milton Coelho da Graça: O cheque era nominal ao partido?

Cecílio do Rego Almeida: Não. A lei permitia que o cheque fosse de empresa para empresa, endossado pela empresa. Para se tornar...

Milton Coelho da Graça: [interrompendo] O nominal era para quem? Não era para o PRN?

Cecílio do Rego Almeida: Não, [era] nominal para mim. É permitido por lei.

Milton Coelho da Graça: Quer dizer, a empresa deu um cheque nominal para o senhor e o senhor...

Cecílio do Rego Almeida: Não. Para a própria empresa, e endossou atrás, passou a ser dinheiro.

Jorge Escosteguy: Passou a ser dinheiro e foi entregue ao PRN.

Cecílio do Rego Almeida: Foi entregue ao PRN, registrado na contabilidade como dinheiro entregue na campanha, [e foi] pago o imposto de renda.

Florestan Fernandes Jr.: O senhor sempre financiou campanhas? Paulo Maluf, por exemplo, o senhor deu dinheiro para a campanha dele?

Cecílio do Rego Almeida: Não. Não acharam nada, porque eu não dei.

Jorge Escosteguy: Não acharam ou o senhor não deu?

Cecílio do Rego Almeida: Eu não dei.

Ottoni Fernandes: A sua empresa, em algum momento... nós estamos vendo aí na CPI várias emendas com dotações orçamentárias encomendadas, já carimbadas obras para determinadas empreiteiras. A sua empresa encomendou alguma dessas emendas para obras... no nome da CR Almeida?

Cecílio do Rego Almeida: No ano passado, nós começamos a lutar para ver se conseguíamos, [mas] não conseguimos.

Ottoni Fernandes: É que tem uma matéria que eu estou vendo, uma matéria do Estado de S. Paulo, que fala em 28 milhões de dólares...

Cecílio do Rego Almeida: [interrompendo] Eu sei o que o senhor vai dizer. Faça a pergunta direta. Qual é a pergunta?

Ottoni Fernandes: Aqui diz o seguinte: que a Comissão de Orçamento aprovou créditos suplementares no valor equivalente a 28 milhões de dólares para construção de usinas hidrelétricas, expansão de linhas de transmissão que vão favorecer a empreiteira CR Almeida. A aprovação ocorreu no dia 5 de outubro, uma semana antes das denúncias de corrupção feitas pela [...].

Cecílio do Rego Almeida: Eu lhe respondo com o maior prazer. Que jornal é [esse]?

Ottoni Fernandes: Está no Estado de S. Paulo do dia 18 de [...].

Cecílio do Rego Almeida: [interrompendo] Pois é, esse jornal vem há algum tempo pondo mentiras para o povo. Eu não sei se foram 28 milhões, ou 58 milhões, ou 258 milhões. O que eu sei é que eu não tenho nenhuma hidrelétrica no Amapá. Deve haver um erro.

Sônia Racy: Mas, doutor Cecílio, eu não sou autorizada a falar pelo Estado, mas trabalho, tenho uma coluna lá, e o jornal certamente não é mentiroso.

Cecílio do Rego Almeida: Essa notícia que está no Estado de S. Paulo é uma notícia mentirosa. Eu não tenho obras hidrelétricas no Amapá. Sai dessa maneira e eu sou obrigado a aceitar?

Sônia Racy: Não, o senhor tem todo o direito de contestar.

Cecílio do Rego Almeida: Aí vão sair três linhazinhas [como contestação]...

[sobreposição de vozes]

Cecílio do Rego Almeida: Prefiro juntar e processar [o jornal] de uma vez.

Ricardo Noblat: Doutor Cecílio, o senador Henrique [do Rego] Almeida é parente seu?

Cecílio do Rego Almeida: É meu irmão.

Ricardo Noblat: Ele apresentou alguma emenda ao orçamento no ano passado?

Cecílio do Rego Almeida: Sim, apresentou.

Ricardo Noblat: Alguma emenda no orçamento do ano passado contemplando alguma obra da construtora do senhor no Norte do país?

Cecílio do Rego Almeida: Sim. Vou explicar para o senhor. Eu tenho que lhe dar a primeira resposta: sim.

Ricardo Noblat: Apresentou quantas?

Cecílio do Rego Almeida: Agora cabe a explicação. O senhor me permite a explicação?

Ricardo Noblat: Claro, com toda a razão. Aliás, o senhor está aí para isso.

Cecílio do Rego Almeida: O meu irmão é um homem que goza do melhor conceito como senador, tanto no Amapá, quanto em Brasília, quanto no Paraná. Ele é senador pelo Amapá porque nós somos de uma família do Pará, e o Amapá fazia parte do Pará. Existem os deputados, que representam o povo, e cada estado brasileiro tem três senadores, que representam o estado. Meu irmão [eleito em 1990] é senador pelo PFL. O governo do Amapá está nas mãos de um governador do PFL [o governador Annibal Barcellos]. O senhor sabe o que é emenda de apoiamento? É por força de ofício: o senador dá apoio a todas as emendas que o estado tenha – isso é o número um. Número dois: nós estamos no Amapá há quase 20 anos e temos inúmeras obras no Amapá, na sua maioria paradas. Não são possíveis 500 emendas de apoiamento que o meu irmão tenha dado a seus colegas do PT...

Ricardo Noblat: [interrompendo] Nenhuma originalmente era dele, doutor Cecílio? Todas, ele apenas assinou apoiando?

Cecílio do Rego Almeida: Talvez exista uma, uma pequena emenda de um vilarejo que teve um problema de doença. Como nós estávamos na BR-156, que liga Macapá ao Oiapoque, foi a ligação dessa estrada – uma estrada muito pequenininha, não é estrada, é um caminho vicinal de uns doze quilômetros.

[sobreposição de vozes]

Ricardo Noblat: A CPI tem informações de apoiamento, eu não sei bem, que o senador Henrique Almeida assinou, apoiou ou apresentou 14 emendas ao orçamento do ano passado, das quais 11, coincidentemente ou não, contemplavam obras da sua empreiteira.

Cecílio do Rego Almeida: O senhor tem esses dados da CPI ou de jornais?

Ricardo Noblat: Não, eu tenho esse dado da CPI, lá de dentro. Eu não tenho esse documento oficial, eu tenho essa informação de elementos da CPI.

Cecílio do Rego Almeida: A hora em que eu tiver o documento, eu posso lhe responder exatamente.

Ricardo Noblat: Mas o senhor poderia dizer se essa informação procede ou não.

Cecílio do Rego Almeida: Não procede. O meu irmão assinou emendas de apoiamento e, por lei, o senador ou o deputado têm direito a 50 emendas. Se a lei é errada...

Ricardo Noblat: Sim, mas de 14 que ele teria apoiado ou assinado...

Cecílio do Rego Almeida: Ele tem direito a 50.

Ricardo Noblat: Certo. De 14, 11 contemplavam obras da CR Almeida.

Cecílio do Rego Almeida: Isso é o senhor que está dizendo.

Ricardo Noblat: Exatamente.

Cecílio do Rego Almeida: O senhor tem que comprovar.

Ricardo Noblat: Sim, [mas] eu agora não posso comprovar. Eu ouvi isso de um elemento...

Cecílio do Rego Almeida: [interrompendo] O senhor comprovar é do jornal...

Ricardo Noblat: O Globo.

Cecílio do Rego Almeida: O Globo, um bom jornal.

Ricardo Noblat: O senhor gosta?

Cecílio do Rego Almeida: Eu leio...

Ricardo Noblat: Eu também. Mas o senhor nega que, das 14 emendas que eventualmente ele assinou, 11 tenham contemplado obras da CR Almeida?

Cecílio do Rego Almeida: Eu nego.

Ricardo Noblat: Certo.

Cecílio do Rego Almeida: Eu nego.

Milton Coelho da Graça: Doutor Cecílio, por gentileza, eu fiz uma pergunta ao senhor há 40 minutos e não estou conseguindo...

Cecílio do Rego Almeida: Pois não.

Milton Coelho da Graça: Eu queria saber como é o esquema de ter uma estrada... sai uma verba para fazer uma estrada e a estrada não aparece. Quer dizer, não é nem de comissão para sair o dinheiro, nada disso. Simplesmente a estrada não aparece. Saiu o dinheiro, o governo pagou e a estrada não aparece. Como é isso?

Cecílio do Rego Almeida: É roubo puro e corrupção...

Milton Coelho da Graça: Mas como é que se faz?

Cecílio do Rego Almeida: ...de mãos dadas com a incompetência, certo? Eu posso lhe descrever o esquema todo...

Milton Coelho da Graça: Isso. É para isso que a gente está aqui, para saber como é.

Cecílio do Rego Almeida: Para chegar nesse ponto da estrada...

Milton Coelho da Graça: Pois é, como é que se chega a isso?

Cecílio do Rego Almeida: Eu lhe digo: a OAS procede da seguinte maneira...

Milton Coelho da Graça: A OAS ou qualquer um que queira fazer, não é?

Cecílio do Rego Almeida: Não, que eu saiba é a OAS. Os outros, o senhor tem de perguntar a cada um deles. Já disse isso oito vezes.

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Desculpe, uma curiosidade. Por que o senhor só conhece coisas da OAS?

Cecílio do Rego Almeida: A OAS é o paradigma da corrupção. Não são empreiteiros, não têm o equipamento necessário para fazer suas obras, subempreitam essas obras por 50%. Se o senhor pegar os meus colegas, nenhum deles faz isso, nem eu faço.

Milton Coelho da Graça: Agora a resposta, para o senhor explicar.

Cecílio do Rego Almeida: A resposta. A coisa é muito grave. Nós temos alguns ralos no país. Um deles é o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, que eu já entreguei a documentação ao mediador; o outro é o fundo de pensão, de que nós falaremos depois; e o terceiro é o orçamento propriamente dito, que se interliga às emendas, certo? Então, a OAS tinha o que eu chamo de kit de corrupção. Com esse kit de corrupção, ele procura um pequeno prefeito do Maranhão, de Goiás ou do Amazonas. No kit de corrupção – isso é fácil de comprovar, [há] um convênio entre a Caixa Econômica e a prefeitura –, ele leva um documento que [assegura que] aquela prefeitura, que não tinha aquele grau de endividamento, vamos dizer, não podia se endividar em 100 mil dólares, só podia se endividar em 20 mil dólares... esse documento é falsificado...

Milton Coelho da Graça: [interrompendo] Eu estou falando de rodovia, doutor Cecílio, não estou falando de obrinha, não.

Cecílio do Rego Almeida: Não, qualquer obra, eu já chego lá, por favor. Eu chego a sua pergunta. Leva um projeto daquela obra – pode ser uma estrada vicinal, pode também, mas as estradas, em geral, são [feitas pela] OAS com o estado...

Milton Coelho da Graça: Isso.

Cecílio do Rego Almeida: ...e não com o município. Como são cinco mil municípios e eles puseram isso nos cinco mil municípios, é mais fácil dar esse exemplo e [depois] retorno ao exemplo que o senhor está me perguntado, certo?

Milton Coelho da Graça: Certo.

Cecílio do Rego Almeida: Muito bem... e a lista de preços para aquele projeto. E diz ao prefeito: se o senhor assinar o contrato comigo, abrir a concorrência, eu consigo o dinheiro. Feita a concorrência, isso nós fizemos... eu tenho 120 processos, ações judiciais, desde quase o início do governo Collor, contra a OAS, por isso que eu estou lhe contando agora. O prefeito faz o edital... é interior do Brasil, em geral escondem o edital das outras empreiteiras, dos empreiteiros, porque a OAS não é empreiteira, e quando você consegue comprar o edital... ah, e não publicam no Diário Oficial daquele estado, que é um outro grande erro, não dão publicidade àquela obra. A OAS ganha, pelo preço estipulado por ela para o prefeito, por causa da nota técnica. Isso que o senhor está falando pode também ter sido feito – não sei, aí eu quero que fique claro que eu não tenho conhecimento de qual é o ministério...

Milton Coelho da Graça: É o da Ação Social, [...] do ministro Jutahy.

Cecílio do Rego Almeida: Então encaixa totalmente o que eu estou dizendo. É dinheiro do povo novamente, do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço...

Milton Coelho da Graça: [interrompendo] Sempre é do povo, sempre.

Cecílio do Rego Almeida: Não, não, mas espere aí. Esse é direto, esse é tirado do operário, 8% do bolso do operário, para o operário ser roubado...

Marcelo Pontes: Mas a obra superfaturada também é tirada do bolso do contribuinte.

Cecílio do Rego Almeida: Sim, eu não estou dizendo que não seja.

[sobreposição de vozes]

Cecílio do Rego Almeida: A mesma coisa houve... o senhor disse que era em que estado?

Milton Coelho da Graça: Foi em Alagoas, por sinal.

Cecílio do Rego Almeida: Com o DER [Departamento de Estradas de Rodagem] de Alagoas. Conversou com dona [...], foi feito o edital, o diretor do DER desapareceu, foi para alguma praia ou foi andar de jangada de plástico, e os outros empreiteiros não conseguiram o edital e ganhou a OAS, da mesma maneira. Então, ele fez um estoque de contratos; daí, a cada ano, ele vem à Comissão de Orçamento e consegue uma emenda, igual a essa que o senhor [dirige-se a Ottoni Fernandes] vê nesse jornalzinho que eu lhe dei. E consegue a emenda para a sua obra. Muito bem, como deve estar o governo de Alagoas no bolso da OAS, é medida a obra que ele não fez. Isso é uma anarquia, isso é um roubo. Eu respondi sua pergunta?

Milton Coelho da Graça: Maravilha.

Jorge Escosteguy: Doutor Cecílio, nós precisamos fazer um rápido intervalo.

Cecílio do Rego Almeida: Antes, senhor, eu queria lhe dar a minha certidão de Imposto de Renda, que eu nada devo. Nada devo não, estou regular com o Imposto de Renda.

Jorge Escosteguy: Obrigado.

Cecílio do Rego Almeida: Veja a data, por favor.

Jorge Escosteguy: [A data é] 30 do 11 de 1993.

[intervalo]

Jorge Escosteguy: Doutor Cecílio, o senhor falou no começo do programa que foi obrigado a fazer uma obra pelo preço mais alto do que seria necessário gastar por questões de preço dadas pelo governo. Então, eu gostaria de fazer uma pergunta em relação ao contrário. O ex- governador do Paraná, Álvaro Dias, disse que conseguiu quebrar o cartel das grandes empreiteiras construindo a [Usina] Hidrelétrica de Segredo [no rio Iguaçu, no Paraná] pela metade do preço [Álvaro Dias governou o Paraná entre 1987-1991]. Ele disse que fez um consórcio de três pequenas construtoras, economizando 103 milhões de dólares em relação ao preço cobrado pela CR Almeida.

Cecílio do Rego Almeida: Três coisas. Primeiro, senhor mediador, eu queria entregar também, porque houve uma notícia no Estado de S. Paulo de que minha empresa havia falsificado o INSS. Aqui [mostra um documento] tem uma certidão negativa do INSS da minha empresa... isso foi o jornal O Estado de S. Paulo que fez com essa senhora, dona Suely Caldas. O senhor veja a data [passa o papel para Jorge Escosteguy]. Segunda coisa, antes de entrar na sua [pergunta], eu pensei que eu viesse ao programa Roda Viva e que pudéssemos, além de discutir assim, da forma como estamos discutindo, que nós pudéssemos, via o seu programa, dar ao povo brasileiro uma satisfação, dar saída ao povo brasileiro. Não é possível que esse povo, de 150 milhões de habitantes, sofrido, por causa de meia dúzia de OASs da vida, que não enxergam o futuro... Eles terão no futuro seus palácios no meio de favelas e não estão percebendo isso. Eu, há mais tempo, sem ser sábio, eu sou um simples engenheiro, venho percebendo isso. [São] 40 anos de trabalho como empreiteiro, levando asfalto permanente a Rio Branco – é um exemplo para você [refere-se a Sônia Racy], não vai mal nenhum. Um ano e meio atrás, saiu uma reportagem no Estado de S. Paulo dizendo que era um absurdo não ligarem a capital de Rondônia, Porto Velho, ao Acre. O Estado de S. Paulo diz isso, nós temos ali a cópia do jornal.

Sônia Racy: A matéria?

Cecílio do Rego Almeida: A matéria, sim. É um absurdo.

Sônia Racy: E quem dizia isso na matéria?

Cecílio do Rego Almeida: E agora nós terminamos a obra, levando asfalto permanente a Rio Branco. O Brasil só tem essa extensão territorial porque existem acreanos também. Então eu tive a honra, cumprindo o meu dever e ganhando algum dinheiro com isso, é claro, de levar esse asfalto permanente a um povo que não tinha luz, eletricidade, porque, por incrível que pareça, não existe hidrelétrica para aquela região, são geradores com combustível. O combustível é levado por caminhão. Na época de chuvas – seis meses – não passa caminhão; e o povo iniciava a ter fome. Houve um acerto com o governo, que nos pagou o atrasado... eu tinha 60% da obra e outras quatro empresas e o Exército tinham 40% da obra, e conseguimos chegar a Rio Branco. Eu pensei que eu estivesse neste programa para descrever algumas coisas do que é o empreiteiro. Isso nós podemos deixar para um outro...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Não, podemos descrever tudo, para o bem e para o mal, as dúvidas e as certezas.

Cecílio do Rego Almeida: Para o bem e para o mal, certo, claro. Eu posso dar resposta a isso... A pergunta...

Jorge Escosteguy: O ex-governador do Paraná, Álvaro Dias, diz que quebrou o cartel das grandes empreiteiras construindo a hidrelétrica de Segredo pela metade do preço. Ele disse que conseguiu 103 milhões de dólares mais barato em relação ao preço da CR Almeida.

Cecílio do Rego Almeida: [Recebe documentos de seu assessor]. Eu lhe respondo. Agora, eu pediria ao senhor mediador que me fosse permitido... os caros jornalistas anotam, fazem as perguntas, eu responderei a todas.

Jorge Escosteguy: Então vamos a esta que eu lhe fiz, por favor.

Cecílio do Rego Almeida: O senhor Álvaro Dias é um mentiroso. Aqui tem dois trabalhos feitos pela minha empresa [distribui jornais aos jornalistas]: “O que se oculta em segredo”. Um [trabalho] em que nós demonstramos que o nosso preço não é esse preço que o senhor Álvaro Dias disse. Eu passo ao senhor. Esse mentiroso também diz, dessas três pequenas empresas, que está na Justiça... e aqui está um parecer de um perito documentoscópico [folheia um documento]... eu estou processando, aqui dentro [tem] a cópia do processo. A concorrência foi falsificada, não houve concorrência. Ele, Álvaro Dias – não é bem um homem, é um semi-homem –, entregou a um amiguinho essa obra. O dono da empresa que pegou essa obra, DM Engenharia de Obras, era lixeiro de uma hidrelétrica feita pela Camargo Corrêa. Aqui vai o documento, senhor mediador, que demonstra o que eu estou dizendo [entrega mais um documento a Jorge Escosteguy]...

Ottoni Fernandes: Doutor Cecílio, só para colocar o contexto...

Cecílio do Rego Almeida: Agora, se o senhor me permitir eu continuo.

Jorge Escosteguy: Pois não. Em seguida, o Ottoni faz a pergunta.

[sobreposição de vozes]

Cecílio do Rego Almeida: [a Ottoni Fernandes] Se o senhor deixar terminar, depois o senhor faz a pergunta.

Ottoni Fernandes: É que vocês haviam ganho a concorrência na primeira parte.

Cecílio do Rego Almeida: Sim, sim.

Ottoni Fernandes: Era isso que eu queria que o espectador [soubesse]. E foi anulada a concorrência, é isso?

Cecílio do Rego Almeida: Foi anulada. Houve uma segunda, foi anulada. Não houve uma terceira, ele deu a obra aos amigos. Aqui está, também no meu estado, um governador que é probo, o governador Roberto Requião [que governou o Paraná entre 1991-1994]. No jornal O Estado de S. Paulo...

Sônia Racy: [brincando] Eu vou achar que é perseguição, doutor Cecílio.

Cecílio do Rego Almeida: ...de sábado, 4 de dezembro, na página A6... Depois eu vou falar da sua amiga, da Suely Caldas, está aqui também... [Sônia Racy sorri]. [O jornal] fez um apelo ao Brasil, [em texto] intitulado “Passar o Brasil a limpo”. Isso eu já ouvia tempos atrás no [telejornal do] senhor Boris Casoy, e ontem, também no Estado de S. Paulo, o ACM, Antônio Carlos Magalhães, deu uma entrevista para "passar o Brasil a limpo". Então eu queria fazer algo aqui, o seguinte: é uma ótima proposta que dois governadores venham a público pedindo isso, e eu me parabenizo com o governador do estado em que eu morava, porque agora eu sou paulistano. Ele [Roberto Requião] pede o seguinte... [olha para uma folha de jornal]: falta de transparência na CPI... mas com o que ele está preocupado é com o seguinte: “Quebrar o sigilo bancário de todos que detenham cargos públicos nos três poderes...”.

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Por favor, se o senhor puder ser mais breve...

Cecílio do Rego Almeida: Sim. Isso ele amplia a todos os homens dos três poderes e mais aos dirigentes partidários, e também recua no tempo necessário para demonstrar há quanto tempo existe corrupção. É uma proposta de primeiríssima do governador Roberto Requião.

[sobreposição de vozes]

Sônia Racy: E isso não é mentira [do jornal], não é, doutor Cecílio?

Cecílio do Rego Almeida: Não, isso não é mentira.

Milton Coelho da Graça: Mas o que isso tem a ver com a Hidrelétrica de Segredo?

Cecílio do Rego Almeida: Tem a ver com a Hidrelétrica de Segredo, é por isso que eu estou falando.

Milton Coelho da Graça: Tudo bem.

Cecílio do Rego Almeida: Seria ótimo que isso ocorresse. Minha empresa, minha pessoa e minha família abrem as suas contas bancárias de livre e espontânea vontade. Desde que o senhor Álvaro... tem a ver com Segredo, desde que o senhor Álvaro Dias faça o mesmo com dois amiguinhos, um chamado Lucio Cioni e um segundo [chamado], é um turco, Nacib [...]. Aqui eu tenho, povo do Paraná, recibos que equivalem a um milhão de dólares, aceitos por dona Débora Dias, esposa do Álvaro Dias, que deveria ter ido para a Provopar [Programa do Voluntariado Paranaense] e para a Secretaria de Esportes do Paraná...

Ricardo Noblat: E não foram? Esse dinheiro não foi?

Cecílio do Rego Almeida: Aparentemente... eu estou usando esta palavra porque isto me foi entregue hoje. Não foram.

Ricardo Noblat: Aparentemente?

Cecílio do Rego Almeida: Sim.

Milton Coelho da Graça: E quem deu esse dinheiro?

Cecílio do Rego Almeida: Quem deu o dinheiro? Boa pergunta. Foi a Federação Paranaense de Futebol.

Ricardo Noblat: Veja. No mínimo, doutor Cecílio, não é precipitação da sua parte, sugerir...

Cecílio do Rego Almeida: [interrompendo] Não, não é.

Ricardo Noblat: Deixe-me concluir: sugerir que houve um desvio de recursos dados para essa federação...

Cecílio do Rego Almeida: [interrompendo] [...] direito ao processo...

Ricardo Noblat: [interrompendo] Se o senhor me deixar concluir, do mesmo jeito que o senhor gosta...

Cecílio do Rego Almeida: Pois não.

Ricardo Noblat: Não há, no mínimo, precipitação de sua parte, ao sugerir, com base em indícios ou... o senhor acabou de receber, aparentemente, que teria havido desvios de recursos para a ex-primeira-dama do Paraná?

Cecílio do Rego Almeida: Não, o que eu estou pedindo... houve uma má interpretação sua.

Ricardo Noblat: Não.

Cecílio do Rego Almeida: Ele pede aqui [mostra um jornal] transparência. Se ele pede, ele deve começar a limpeza do Brasil pelo Paraná. Então, ele, como governador, poderia abrir a contabilidade da Provopar e da Secretaria da Agricultura para verificar isso. Tem outros documentos que eu poderia mostrar, mas o programa é curto...

Milton Coelho da Graça: E a Segredo?

Cecílio do Rego Almeida: Já respondi [sobre a] Segredo.

Milton Coelho da Graça: Ah, é?

Jorge Escosteguy: O senhor mencionou o governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães; o senhor se diz um admirador do governador; disse inclusive que, se ele fosse candidato à Presidência da República, o senhor o ajudaria na campanha...

Cecílio do Rego Almeida: Sim.

Jorge Escosteguy: E ele, ao mesmo tempo, tem um genro que é diretor, ou proprietário, ou trabalha na OAS, que o senhor tanto critica [trata-se de César de Araújo Mata Pires, genro de Antônio Carlos Magalhães e um dos fundadores da OAS]. Então, alguns telespectadores telefonaram perguntando se não há alguma ligação entre os dois. Um inclusive chega a dizer: “A OAS poderia significar ‘Obrigado Amigo Sogro'”. Os telespectadores são Dirceu Alves Ribeiro, de Avaré; Luis Fernando Costa, aqui de São Paulo; Roberto Fogalhe, de São Paulo; Amandio Costa, também de São Paulo; Antonio Carlos Muller, de Sorocaba; Ricardo Camargo, de São Paulo; e Roberto Figueiredo, também de São Paulo. Eles perguntam se o senhor sabe de algum envolvimento do governador Antônio Carlos Magalhães com a OAS ou, no mínimo, eu lhe perguntaria, já que o senhor admira tanto o governador, se o senhor tem acesso a ele, se no mínimo o senhor não comentou as barbaridades que o senhor acha que a empresa onde o genro dele trabalha ou é proprietário, na sua opinião, no seu ponto de vista, tem feito.

Cecílio do Rego Almeida: Eu não tenho acesso ao governador Antônio Carlos Magalhães, mas todas as atitudes desse homem têm sido atitudes, pelo menos, dignas. Você não vê outro tipo de atitude. Não tenho acesso nenhum; eu tive um pouco de acesso quando ele era presidente da Eletrobrás [entre 1975-1978]. Com relação ao relacionamento entre ele [e o genro], o senhor é casado, senhor mediador?

Jorge Escosteguy: Sou.

Cecílio do Rego Almeida: O senhor tem filhas?

Jorge Escosteguy: Tenho duas filhas.

Cecílio do Rego Almeida: Que idade?

Jorge Escosteguy: Dezessete e doze [anos].

Cecílio do Rego Almeida: Pois é, daqui a três anos, elas vão escolher os seus maridos. Não vai ser você quem vai escolher.

Ricardo Noblat: Talvez demore mais um pouco ainda.

Cecílio do Rego Almeida: É.

Jorge Escosteguy: Talvez demore mais um pouco.

Cecílio do Rego Almeida: Talvez demore mais um pouco.

Jorge Escosteguy: [Elas] podem escolher um [marido um] pouco melhor ou um pouco pior, nunca se sabe.

Cecílio do Rego Almeida: Sim, sim. Mas a escolha caberá a elas. O senhor Antônio Carlos Magalhães não tem nada a ver com a escolha do casamento de sua filha com esse senhor...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Não, mas não é isso que está em discussão. A discussão é se eventualmente haveria ou não alguma ligação.

Cecílio do Rego Almeida: Não deve haver. Eu estou falando da OAS.

Milton Coelho da Graça: O senhor estabeleceu a ligação entre o ministro Jutahy Magalhães e o irmão dele que trabalha na OAS.

Cecílio do Rego Almeida: Sim.

Milton Coelho da Graça: O senhor estabeleceu essa ligação.

Jorge Escosteguy: Assim como não se escolhe o genro, não se escolhe o irmão.

Cecílio do Rego Almeida: Estabeleci porque ele mentiu para mim.

Milton Coelho da Graça: Ele escolhe o irmão? Da mesma maneira que não se escolhe o genro, não se escolhe o irmão.

Cecílio do Rego Almeida: Não, não. Isso não é pergunta. A resposta é outra. O que eu disse ao senhor, aqui no Roda Viva, é que o ministro mentiu para mim, e o senhor Antônio Carlos Magalhães não mentiu para mim. Não me cabe o direito de agredi-lo se ele nada fez comigo. Agora, o relacionamento dele com o sogro, dele com a filha, isso é um problema da família dele.

[sobreposição de vozes]

Ottoni Fernandes: Doutor Cecílio, eu queria um pouco colocar contexto nessa questão de Segredo, dessa usina hidrelétrica que, pelo que eu li aqui no material, essa usina foi a Companhia Paranaense de Energia [Copel] que abriu a concorrência. A CR Almeida ganhou a primeira concorrência...

Cecílio do Rego Almeida: Sim.

Ottoni Fernandes: ...foi vencedora. E a Copel anulou a concorrência...

Cecílio do Rego Almeida: Sim senhor.

Ottoni Fernandes: A CR Almeida entrou com uma ação na Justiça...

Cecílio do Rego Almeida: Não, na segunda.

Ottoni Fernandes: Na segunda. Depois ela abriu a concorrência para pequenas empreiteiras, que não tinham, inclusive, tradição de construção...

Cecílio do Rego Almeida: Não abriu concorrência, senhor jornalista.

Ottoni Fernandes: Não abriu?

Cecílio do Rego Almeida: Entregou de mão dada a concorrência...

Ottoni Fernandes: Agora, o fato...

Cecílio do Rego Almeida: Deixe-me terminar, por favor. Entregou de mão dada a concorrência a três pequenas empresas, que não fizeram a obra. Quem fez a obra foi a Copel, que não tinha o equipamento. Quem comprou o equipamento foi o governo do estado do Paraná. Não há maneira de comparar: os melhores técnicos foram contratados, não eram técnicos dessas pequenas empresas; a empresa era uma empresa de lixo. Então, o que tem que comparar – e eu fui à Justiça por causa disso – é o meu preço, incluindo todos os insumos para fazer essa obra, o equipamento, o pessoal, porque minha empresa entrava com tudo. Nesse caso...

Ottoni Fernandes: Qual foi o preço que a Copel...

Cecílio do Rego Almeida: O meu preço foi de 163 milhões de dólares.

Ottoni Fernandes: O preço por quilowatt, quanto que dava em dólar?

Cecílio do Rego Almeida: O senhor vai entrar numa fria.

Ottoni Fernandes: Não, eu estou lhe perguntando, estou perguntando ao senhor.

Jorge Escosteguy: O Ottoni não constrói hidrelétricas [risos].

Cecílio do Rego Almeida: [Era de] 750 dólares o quilowatt instalado.

Ottoni Fernandes: Esse [custo] é no preço final a obra?

Cecílio do Rego Almeida: Eu não entro nessa, jornalista, o senhor vai perder.

Ottoni Fernandes: Qual o preço que o senhor acha que custou para o estado?

Cecílio do Rego Almeida: O senhor me permita, o senhor está fazendo uma comparação...

Ottoni Fernandes: Porque eles estão dizendo que o preço é de setecentos e...

Cecílio do Rego Almeida: [interrompendo] Como o senhor não é engenheiro, o senhor está cometendo um erro totalmente absurdo. Quem faz o preço do quilowatt instalado é Deus. Deus cria um tipo de rio, um tipo de quantidade, a vazão de água, a forma que está localizado, tanto topograficamente como geograficamente, topologimante, geologicamente... aquela obra, que dá 750 dólares. Se eu lhe disser que o quilowatt instalado em Xingó é 690 dólares, o senhor vai ver que é um absurdo. O que tem que comparar é preço de metro cúbico de concreto, aquilo que o senhor [refere-se a Milton Coelho da Graça] disse...

Milton Coelho da Graça: Eu também não sou engenheiro, não.

Cecílio do Rego Almeida: Mas parece...

Ottoni Fernandes: Mas qual é o critério de comparação?

Cecílio do Rego Almeida: Metro cúbico de concreto daquele tipo com metro cúbico de concreto, porque só tipos de rocha, você tem sete, oito tipos de maneira de extraí-las: um por um, e põe em duas colunas, e vê quanto custou a obra.

Ottoni Fernandes: Quer dizer que a obra não saiu mais barata? O senhor está dizendo isso? A obra feita por essa empresa.

Cecílio do Rego Almeida: Não, não houve a diferença de 100 milhões de dólares.

Ottoni Fernandes: Não houve.

Cecílio do Rego Almeida: Pode até [ser que] meu preço, de 163 milhões de dólares, tenha sido oito ou nove milhões mais caro, mas é normal no Brasil, como em outros países do mundo, o governo, depois de aberta a concorrência, até negociar com o empreiteiro. Onde não é normal é com aquela firma de corrupção chamada OAS, em que o governo obriga a fazer por um preço mais alto.

Ottoni Fernandes: Doutor Cecílio, eu queria emendar essa pergunta: por que as empresas estrangeiras não podem participar de concorrências no Brasil?

Cecílio do Rego Almeida: Por causa de pessoas que pensam como as pessoas do PT.

Ottoni Fernandes: Mas há uma lei que proíba isso?

Milton Coelho da Graça: [interrompendo] No governo militar também não podia. O PT não existia. O governo militar que o senhor apoiava.

Ottoni Fernandes: Só isso que eu queria saber, há uma lei?

Cecílio do Rego Almeida: Para quem que eu falo?

Ottoni Fernandes: Não, o senhor responde a mim, eu estou com a palavra. Há uma lei? É um decreto? Isso que eu queria saber. [O que] está proibindo a participação de empreiteiras estrangeiras?

Cecílio do Rego Almeida: Dá vantagens à empresa nacional.

Ottoni Fernandes: O seu irmão não poderia fazer uma proposta de uma mudança nessa legislação?

Cecílio do Rego Almeida: Eu posso falar com ele, para fazer essa...

Ottoni Fernandes: No sentido de abrir a concorrência totalmente.

Cecílio do Rego Almeida: Sim, mas eu acho que cabe muito mais ao Itamar. Com uma simples mensagem do poder executivo, o Congresso apoiaria.

Milton Coelho da Graça: Mas, doutor Cecílio, por que os governos militares, que não precisavam nem do Congresso, não fizeram essa lei?

Cecílio do Rego Almeida: O senhor tem que perguntar à alma do Artur da Costa e Silva e à alma do Garrastazu Médici [que presidiram o Brasil, respectivamente, entre 1967-1969 e 1969-1974]. E se tiver coragem, vá perguntar para o [João] Figueiredo [presidente do Brasil entre 1979-1985], não para mim. Eu não tenho nada a ver com militar.

Milton Coelho da Graça: Não, eu estou dizendo que a sugestão poderia ter sido feita a eles também.

Cecílio do Rego Almeida: Mas isso é um assunto que não cabe aqui. O senhor está discutindo o passado, com um civil igual ao senhor, um assunto militar.

Milton Coelho da Graça: Não, eu não estou discutindo. [...] que a responsabilidade da não participação de empresas estrangeiras em grandes projetos nacionais seja atribuída exclusivamente a este governo, porque essa proibição existe há décadas. [É anterior] a este, ou ao anterior, ou ao PT, porque essa proibição da participação das empresas estrangeiras é muito antiga no Brasil.

Cecílio do Rego Almeida: A resposta a quem me perguntou isso primeiro: essa xenofobia é petista. Agora, respondendo ao que o senhor está me dizendo, eu não lhe dou a resposta porque realmente – e tem muita gente aqui que estava fora do Brasil, fugida – não cabia a mim pedir ao senhor Costa e Silva ou o anterior a ele, que foi o grande presidente Castelo Branco, ou depois do Castelo Branco, o Garrastazu Médici, ou depois, o imperial Ernesto Geisel, ou depois, aquele outro presidente que gostava mais de cavalo do que cheiro de povo [refere-se ao presidente João Figueiredo], não me cabia isso. Era impossível o acesso, não existia esse acesso.

Marco Antonio Antunes: Eu queria fazer uma pergunta ao senhor em cima de uma declaração não muito antiga do deputado Luís Roberto Ponte, mais ou menos em meados do governo do presidente Collor, dizendo que o nível de corrupção tinha chegado a tal ponto que nenhuma grande obra, grande, média, pequena obra pública no Brasil, estava sendo tocada sem uma comissão de 30%. E os jornais na época noticiaram isso e foi mais ou menos provado que era isso. O senhor sentiu isso...?

Cecílio do Rego Almeida: “Mais ou menos” é como “mais ou menos virgem”. Foi provado ou não foi provado. Eu não entendo.

Marco Antonio Antunes: Alguém lhe pediu 30% em alguma obra?

Cecílio do Rego Almeida: Não, ninguém.

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Nunca lhe pediram uma comissão para aprovar uma obra?

Cecílio do Rego Almeida: [...] ele atrapalhando, o mediador atrapalhando a sua pergunta.

Marco Antonio Antunes: Não, ele está complementado a pergunta.

Jorge Escosteguy: Eu estou complementando a pergunta.

Cecílio do Rego Almeida: Espere aí. Senhor mediador, primeiro eu vou responder à pergunta daquele jornalista, depois a sua.

Jorge Escosteguy: Pois não.

Cecílio do Rego Almeida: Não, nunca pediram.

Marco Antonio Antunes: Nunca lhe pediram?

Cecílio do Rego Almeida: Nunca. Não têm coragem. Olhe a minha cara. Você acha que têm coragem de pedir 30%?

Ricardo Noblat: O senhor sempre teve essa cara?

Cecílio do Rego Almeida: Sempre.

Florestan Fernandes Jr.: Como é que o senhor acha que sente um político depois de eleito...

Cecílio do Rego Almeida: [interrompendo] Agora é a vez dele, senhor.

Jorge Escosteguy: Se nunca lhe pediram, era a minha pergunta.

Cecílio do Rego Almeida: Ah, então [já foi respondida].

Florestan Fernandes Jr.: Eu quero saber o seguinte: como o senhor se sente, e como um presidente da República pode se sentir tendo que negociar com um empreiteiro que ajudou na campanha dele? O senhor acha que isso não interfere na relação entre o político e o empreiteiro que ajudou na campanha?

Cecílio do Rego Almeida: Aquele que tiver acesso deve interferir. Eu vi o Collor como o senhor... talvez o senhor tenha visto mais do que eu. Eu só vi o Collor, de camisas as mais diversas, por televisão, fazendo jogging aos domingos ou andado numa lancha. Eu não tive acesso.

Florestan Fernandes Jr.: O senhor não teve nenhum lobista trabalhando no Congresso?

Cecílio do Rego Almeida: Incrível, não é? Eu tenho uma empresa em Brasília, uma empresa não, um escritório, e temos pessoas que vão ao Congresso...

Florestan Fernandes Jr.: O senhor emprestou um apartamento para uma festa para José Carlos.

Cecílio do Rego Almeida: Foi muito bom o senhor fazer essa pergunta. Foi ótimo. O senhor está me ajudando...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] O senhor, complementando, foi a outra festa com o deputado João Alves.

Cecílio do Rego Almeida: Sim, sim. Nós temos uma casa em Brasília. Meu irmão, quando foi exercer seu mandato de senador, e nossa família se dá com a família de um outro senador, não preciso dizer o nome, ficou nessa [rotina de] automóvel, motorista, secretária, que esse senador deixou em seu gabinete. E essa senhora deve ter de Congresso uns 30 anos, que é a chefe de gabinete do meu irmão. Um colega dela, que era considerado um gênio em matéria de orçamento, pelo menos todo mundo diz isso... esse senhor, José Carlos Santos, foi promovido para um dos cargos mais altos da República, diretor do Orçamento Geral da União. Muito bem, [por] 25 anos os dois [trabalharam] juntos no Congresso. Ainda não tinha aparecido nada disso que depois todos nós soubemos. Ela pediu a um diretor de Brasília a casa para fazer uma festa em homenagem a esse senhor José Carlos Santos. A festa foi feita. Eu só pediria para não saber quantas empadinhas um ganhou, se beberam guaraná...

Milton Coelho da Graça: Sim, mas quem pagou a festa, senhor?

Cecílio do Rego Almeida: Nossa empresa pagou a festa. Eu não entro nesse tipo de detalhe, certo?

Milton Coelho da Graça: Tudo bem.

Cecílio do Rego Almeida: Mas eu posso lhe responder, eu respondi a sua pergunta. Foi nossa empresa, e a lei não proíbe que se faça isso. O direito de ir e vir, o direito de fazer festa, [isso] não é proibido por lei.

Sônia Racy: E a ética?

Cecílio do Rego Almeida: Que ética? O homem era diretor do Orçamento Geral da União; 25 anos [como] funcionário do Senado. Onde está a falta de ética?

Florestan Fernandes Jr.: A falta de ética está em dar uma festa justamente para alguém que vai poder liberar recursos para as empreiteiras. O senhor acha normal uma relação dessas?

Cecílio do Rego Almeida: Não tinha relação. Tinha relação entre ele e essa senhora.

Florestan Fernandes Jr.: Mas essa senhora trabalha para o seu irmão e trabalhou para a sua empresa.

Marcelo Beraba: E [foi] a empresa que pagou.

Cecílio do Rego Almeida: Não, não trabalhou para minha empresa. Você está dizendo errado. Ela trabalha no gabinete do meu irmão.

Marcelo Beraba: Sim, mas foi a empresa do senhor que pagou.

Cecílio do Rego Almeida: E daí?

Marcelo Beraba: Essa que é a questão.

Cecílio do Rego Almeida: Sim, e daí? É Julgamento de Nuremberg? [Refere-se ao Tribunal Militar Internacional onde foram julgados os primeiros criminosos de guerra da Segunda Guerra Mundial, em novembro de 1945, na cidade alemã de Nuremberg]. Quatro garrafas de guaraná, duas garrafas de uísque...

Marcelo Beraba: Olha, não é Julgamento de Nuremberg, nós estamos tentando entrevistá-lo.

Cecílio do Rego Almeida: Mas é tão absurdo, é tão pequeno isso.

[sobreposição de vozes]

Marcelo Beraba: Pequeno não, é o critério de cada um de nós querer perguntar, por favor.

Cecílio do Rego Almeida: Eu não posso entrar em assunto do que comer em festa.

Jorge Escosteguy: Por favor, um minutinho. Há pessoas que acham um absurdo e há pessoas que acham que não é absurdo. Mas, enfim, antes da última pergunta – nós estamos chegando ao final do programa –, chegou uma notícia aqui de Brasília dizendo que terminou empatada a votação do mandato de segurança apresentado pelo ex-presidente Fernando Collor no Supremo, quatro a quatro. Portanto, a decisão fica adiada porque o processo será submetido à deliberação do presidente do Superior Tribunal de Justiça, STJ, ministro William Patterson. Eu gostaria de fazer uma última pergunta, o nosso tempo está esgotado, perdemos algum tempo com os nossos problemas técnicos. O senhor deve estar informado a respeito das notícias sobre o suposto cartel de empreiteiras, denunciado na CPI do Orçamento, através de uns documentos encontrados na casa de um diretor da Norberto Odebrecht em Brasília.

Cecílio do Rego Almeida: Sim.

Jorge Escosteguy: Esse cartel faria, entre outras coisas, políticas de preço, condições de operação, diretrizes políticas etc, e somaria 36% aos preços de obras públicas para distribuir entre os políticos que faziam parte dessa operação, dessa maracutaia, enfim. Seria quase uma espécie de governo paralelo. Segundo informações da própria CPI, entre as empresas identificadas como participantes desse colegiado está a CR Almeida. Então, eu lhe pergunto se isso é verdade; se não é verdade, se o senhor tinha conhecimento disso ou não.

Cecílio do Rego Almeida: Eu posso lhe dizer rapidamente: é mentira. Eu estive na CPI e a sua informação está totalmente errada.

Jorge Escosteguy: Bom, a informação vem da CPI.

Cecílio do Rego Almeida: Não, não é informação da CPI. Vá me desculpar, eu estive lá...

Jorge Escosteguy: Mas foi depois que o senhor esteve lá.

Cecílio do Rego Almeida: [Durante] cinco horas. Não, cinco horas e meia eu estive lá e tive... é um senador de oposição, mas eu não vou dizer o nome. O senador me procurou com a documentação, e quando eu estava saindo de casa para ir ao Senado, me mostraram A Folha de S.Paulo. eu, lendo, [pensei]: ah, isso aqui é organograma da Norberto Odebrecht, e consta um livro escrito pelo doutor Norberto Odebrecht, já há 15 anos, em que tem a mesma coisa. É um absurdo, isso está errado. Chegando à comissão, no horário exato, esse senador veio com uma documentação que tinha sido preparada à noite inteira e fez essa pergunta que o senhor está fazendo. Aí me mostrou isso, [sobre a suposta] sociedade secreta, [e eu respondi]: “Senador, o senhor não entra em fria. Isso é um simples organograma da empresa Norberto Odebrecht”. Daí ele puxou uma outra folha, com o nome de dez empresas, 15 empresas, na qual estava o nome de minha empresa, um papel em branco com o nome da minha empresa, o fax, não era telefone, e o nome de contato de uma pessoa de minha empresa. Eu disse: “Senador, em que caixa estava isso? Estava na primeira, na oitava?”. Porque não diz nada, um papel em branco com o nome de 15 empresas, sem uma assinatura, sem um percentual, sem nada. “Senador, isso não vale absolutamente nada”. E terceiro, daí era o grand finale, ele me mostra uma ata. [Respondi] “Senador, fica muito ruim para o senhor, ata não é esse papelucho que o senhor está me dando, isso é um papel apócrifo”. Porque eram uma ou duas páginas datilografadas sem nenhuma assinatura, sem nada. Como é que pode dizer que isso é uma ata?

Milton Coelho da Graça: Mas por que um diretor da Odebrecht teria um papel apócrifo na casa dele?

Cecílio do Rego Almeida: Eu vou lhe responder. O senhor tem que perguntar ao senhor Emílio Odebrecht, isso é um. Dois, eu não sei quantos canais de televisão filmaram esse senhor Emílio Odebrecht, ontem ou anteontem, respondendo a todas as perguntas. Se o senhor assistir ao vídeo dele, o senhor sabe tudo.

Jorge Escosteguy: O senhor diz o senhor Ailton Reis, o diretor da Norberto Odebrecht em Brasília?

Cecílio do Rego Almeida: Não, o dono.

Jorge Escosteguy: O dono... A coletiva.

Cecílio do Rego Almeida: A coletiva.

Jorge Escosteguy: Agora, o senhor não tinha nem conhecimento desse cartel?

Cecílio do Rego Almeida: Não é cartel. É um organograma.

Jorge Escosteguy: Não, eu digo, houve a denúncia de um cartel. Eu queria saber se o senhor tem conhecimento de alguma coisa.

Cecílio do Rego Almeida: Não, não tenho conhecimento.

Jorge Escosteguy: O senhor diria que, fora a OAS, tudo azul na América do Sul em relação às empreiteiras?

Cecílio do Rego Almeida: Isso é o senhor que está dizendo.

Jorge Escosteguy: Não, eu estou lhe perguntando.

Cecílio do Rego Almeida: A minha obrigação cabe acusar uma empresa, que é um balcão de corrupção, com dois gângsteres baianos chamados César Mata Pires e Carlos Suarez.

Sônia Racy: Por que obrigação, doutor Cecílio?

Cecílio do Rego Almeida: Com relação aos meus colegas, o senhor tem um programa tão agradável, o senhor os chama aqui e pergunta.

Jorge Escosteguy: Vou chamá-los, sem dúvida.

Sônia Racy: Por que obrigação? O senhor falou que o senhor tem obrigação [de acusar a OAS]. Obrigação ante quem?

Cecílio do Rego Almeida: É minha. É minha. Eu acho um absurdo o que vem sendo feito. Eles são o paradigma da corrupção. Descoberto isso, é possível limpar o país. Poderão encontrar outras coisas. Esse é o caminho de descobrir a verdade. É uma pena...

Sônia Racy: [interrompendo] O senhor nunca fez nada errado?

Cecílio do Rego Almeida: Como?

Sônia Racy: O senhor nunca fez nada errado? O senhor não tem nenhuma falha nesses anos de vida?

Cecílio do Rego Almeida: Em certos campos eu fiz, mas nas empreitadas não.

Jorge Escosteguy: Em que campos o senhor fez, já que o senhor mencionou?

Cecílio do Rego Almeida: Nos mesmos em que o senhor faz.

Jorge Escosteguy: Não, que eu saiba, eu não faço em nenhum.

Cecílio do Rego Almeida: [ri]

Jorge Escosteguy: Bom, já que esta é a sua última resposta, nós agradecemos então a presença esta noite...

Cecílio do Rego Almeida: Muito obrigado e me perdoem pela forma um tanto dura de responder.

Jorge Escosteguy: ...aqui no Roda Viva do doutor Cecílio do Rego Almeida. Agradecemos também aos companheiros jornalistas e aos telespectadores. O Roda Viva fica por aqui e volta na próxima segunda-feira às 9 horas da noite. Muito obrigado a todos, uma boa noite e uma boa semana.

O empresário Cecílio do Rego Almeida, nascido em Óbidos (PA) e residente no Paraná desde os 7 anos, morreu de infarto em Curitiba (PR), aos 78 anos, em 22 de março de 2008.

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