Memória Roda Viva

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Armando Nogueira

3/9/1990

Jornalista responsável pela criação da Central Globo de Jornalismo, pelo nascimento do Jornal Nacional e do Globo Repórter revive sua trajetória profissional e dá uma aula bem humorada de história sobre os grandes personagens do jornalismo esportivo

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Rodolfo Konder: Boa noite. Estamos começando mais um Roda Viva. O convidado desta noite é o jornalista Armando Nogueira. Para entrevistar Armando Nogueira estão conosco: Woile Guimarães, diretor-executivo da produtora TV Um; Tonico Duarte, repórter de esporte do jornal O Estado de S. Paulo; Carlos Eduardo Lins da Silva, diretor de planejamento da Folha de S.Paulo; Moacir Japiassu, diretor de redação da revista Elle; Zuenir Ventura, repórter especial do Jornal do Brasil; Dante Matiussi, diretor de operações da Rede Record; Vera Golik, editora da revista Nova; Luciano do Valle, superintendente de esportes da Rede Bandeirantes. Armando Nogueira nasceu no Acre, tem 63 anos, estudou no Rio de Janeiro e se formou em direito. Jornalista por vocação, começou sua carreira na década de 1940, na editoria de esporte do Diário Carioca. Foi cronista da revista Manchete, trabalhou no Jornal do Brasil. Sua estreia na TV aconteceu na antiga TV Rio, nos anos 60. Foi para a TV Globo para dirigir o Jornal Nacional. Em abril passado, após 24 anos na emissora, deixou o cargo de diretor da Central Globo de Jornalismo. Armando Nogueira, além de cronista de jornais e  revistas, também é escritor. Quantos livros publicados, Armando?

Armando Nogueira: Cinco.

Rodolfo Konder: Cinco livros publicados. Também entre eles, Bola de cristal, que fala da sua grande paixão: o futebol. Boa noite, Armando.

Armando Nogueira: Boa noite.

Rodolfo Konder: Armando, o poder ou a liberdade? Você se sentia melhor como diretor de jornalismo da Globo? Ou você se sente mais feliz agora como um freelancer?

Armando Nogueira: Bom, é fácil dizer que eu me sinto mais feliz agora, depois de ter vivido a experiência também venturosa de fazer telejornalismo. Eu sou oriundo de jornal, mas curti demais, curti muito a experiência de televisão, trocando a unidade de espaço pela unidade de tempo. E eu quase diria trocando a palavra pela imagem. Mas ao longo deste programa, eu vou esclarecer que realmente um dos pecados que a gente comete no telejornalismo é exatamente supervalorizar a imagem em detrimento da palavra. De forma que o meu compromisso com a felicidade é anterior e posterior à Rede Globo. Eu sempre batalhei para ser um profissional feliz.

Woile Guimarães: Armando, falando em liberdade, eu gostaria que você esclarecesse a opinião pública sobre o episódio que marcou muito o telejornalismo da Globo. É sobre as Diretas Já! Todo mundo se recorda de que a Globo entrou tardiamente na cobertura das Diretas Já. Quem é que censurou a cobertura? Foi o Armando Nogueira? Foi o doutor Roberto Marinho? Ou foi o doutor [João] Leitão de Abreu [chefe do Gabinete Civil da Presidência da República do governo Figueiredo (1979-1985)]?

Armando Nogueira: Curta e grossa! Olha, eu poderia ficar defendendo uma tese aqui a respeito de quem é que exerce a pressão, qual o papel da sociedade, qual o papel da televisão. Objetivamente, aquele episódio... e é sabido historicamente que a Rede Globo entrou na cobertura das Diretas, com um atraso de pelo menos duas semanas. Evidentemente que a Rede Globo estava debaixo de uma pressão política do Palácio do Planalto. No meu caso particular, como fui citado por você, poderia lhe dizer, invocando o seu testemunho de que não fui eu o censor; aliás frustrado porque a Rede Globo acabou transmitindo o comício da Candelária. E aí eu gostaria de convidar vocês a fazer uma reflexão comigo. É que a televisão não é um veículo revolucionário, a televisão não é um veículo de vanguarda. Ela é de vanguarda tecnologicamente falando, mas politicamente, por ser uma entidade de direito público, por estar presa ao Estado, a televisão não tem a desenvoltura, do ponto de vista da liberdade, que tem um jornal, que é uma entidade de direito privado. Sobretudo em países como o nosso, em que a democracia continua a ser aquela planta tenra do doutor Otávio Mangabeira [(1886-1960), líder liberal, foi ministro das Relações Exteriores e governador da Bahia, autor da frase: “No Brasil, a democracia é uma planta muito tenra e exige todos os cuidados para não fenecer”.]. Então havia uma pressão do Palácio do Planalto para que a Rede Globo ignorasse o comício da Sé. No caso do doutor Roberto Marinho, eu imagino que ele tenha sofrido uma pressão muito maior do que aquela que nós sofremos. Porque os telefonemas eram diretos para ele. Não sei nem se era do doutor Leitão de Abreu, não sei de quem era, sinceramente, mas era do Palácio do Planalto. Acontece o seguinte: a reflexão que eu quero que vocês façam comigo é que no momento em que o Estado – e era um Estado arbitrário – exercia uma pressão sobre a televisão, a sociedade começou a se mobilizar. Ela, a sociedade, [começou] a tomar consciência cívica do seu momento; e a sociedade, através de todos os meios que estavam ao seu alcance, encostou o governo na parede, encostou a Rede Globo na parede, e nós pudemos transmitir o comício da Candelária na sua integridade. Um espetáculo maravilhoso, ao qual a Rede Globo deu uma dimensão maior, ainda considerando a grande audiência da Rede Globo. Houve realmente uma tentativa de impedir que a Rede Globo transmitisse o acontecimento. Mas quando a sociedade toma consciência do seu papel, ela consegue se sobrepor ao Estado. E foi o que aconteceu. E como a televisão é um veículo sempre solidário com o poder dominante, no momento quem dominava a consciência nacional era a sociedade. Eu acho que foi aí um dos raros momentos em que a sociedade brasileira se exprimiu e se exprimiu na sua plenitude, foi nas Diretas.

Carlos Eduardo Lins da Silva: Armando, continuando um pouco a linha do Woile. Durante todo esse período do regime militar uma boa parte dos jornalistas e da sociedade fez uma espécie de condenação às pessoas que trabalhavam na Rede Globo. Queria que você contasse um pouco para a gente como é que foi a sua convivência com o patrulhamento ideológico daquele período. Como é que você encara hoje o seu papel e o papel dos seus colegas na Rede Globo? E se você, agora que está fora da Rede Globo, tem intenção de fazer alguma reflexão mais meditada e por escrito a respeito desse período.

Armando Nogueira:
Espero que eu tenha a oportunidade de me manifestar, talvez num livro com depoimento. E eu acho que é cedo ainda para fazer isso. Porque a minha saída da Globo foi um tanto traumática, e eu não gostaria que nenhum sentimento e muito menos um ressentimento interferisse no meu depoimento. Desculpem a rima, foi involuntária. A minha experiência como jornalista no período autoritário pode ser resumida como uma experiência muito proveitosa do ponto de vista da forma, do aprendizado da forma da televisão, e simplesmente deplorável do ponto de vista do conteúdo. Porque havia sempre dois coronéis lá dentro da Globo e eu tinha que conviver com eles, como a gente convive com certas moléstias que impingem, por exemplo, brotoeja, essas doenças de pele, eu tinha que conviver com isso. Mas o que era que me prendia? Era exatamente a consciência que eu tinha de que aquilo era mais transitório, mais passageiro do que os militares imaginavam. Meu relacionamento com os militares era sempre por interposta pessoa. Eu nunca tive contato direto, a não ser uma única vez, em que fui instado a divulgar uma notícia que envolvia um deputado do MDB [Movimento Democrático Brasileiro, foi um partido de oposição ao regime militar de 1964, contra o partido governista da Aliança Renovadora Nacional (Arena)] de Goiás. Era a história do filho de um deputado que tinha sido preso em Brasília, com um pacotinho de maconha no porta-luvas do carro. Então queriam que eu desse a notícia, mas com a condição de que esclarecesse que o garoto maconheiro era filho de um deputado do MDB de Goiás. E eu achava que isso era irrelevante do ponto de vista da notícia. Eu acho que o interesse do SNI [Serviço Nacional de Informações], nesse momento, era só que se desse isso, para prejudicar o candidato, o político. Na realidade, eu imaginei que o pai do garoto já sofresse com o escândalo e achei que aquilo não era notícia para dar. E fui muito pressionado e resisti. Até parece que estou falando de um momento de bravura, mas não foi não! Eu resisti com a maior naturalidade. E no outro dia fui convidado a conhecer o SNI, a conhecer os chefes do SNI. Vocês me desculpem se eu me alongo um pouco, mas a história tem um desfecho pelo menos insólito. E eu fui depois de resistir muito, mas o diretor da Rede, que era o Walter Clark, me pediu que fosse, que não era uma intimação, era um convite. Eu acabei indo ao Ministério da Fazenda e lá encontrei uns cinco oficiais que me trataram da maneira mais polida possível. Eu até diria que cinicamente polida. E me fizeram uma série de perguntas estapafúrdias. Chegou ao final e eles faziam uma pressão muito grande em cima do Evandro Carlos de Andrade [(1931-2001), foi diretor do jornal O Globo e posteriormente da Central Globo de Jornalismo], o qual eles diziam que era um perigoso membro do tripé de comunistas infiltrados na imprensa brasileira. E eu sabia, eu conhecia as posições políticas do Evandro, e contestei. E a certa altura, eu perguntei: “Ô, coronel. O senhor acha que o doutor Roberto Marinho ia ter na direção da redação do [jornal] Globo um comunista?” E falou então, interveio o coronel Gomes Ribeiro e fez o seguinte comentário: “E por que não? Esse Roberto Marinho não é lá muito católico!” [risos] Achavam que o Roberto Marinho também era comunista. Para mim, a visita encerrou aí, evidentemente! Porque eu não tinha mais o que fazer naquele encontro.

Zuenir Ventura: Armando, uma das coisas boas da última Copa, aliás poucas, foi a sua volta ao campo. Os seus leitores mais antigos puderam matar saudade daquelas metáforas machadianas [ao estilo do escritor Machado de Assis] tão surpreendentes quanto o drible do Garrincha [um dos maiores jogadores de todos os tempos que, apesar das pernas tortas, tinha seus dribles desconcertantes, velocidade em campo e jogadas divertidas e belas], ou então aquelas folhas secas que você mandava, o adjetivo para aquele lugar certinho, onde só cabia ele. Enfim, tudo isso para perguntar o seguinte: quando é que você vai voltar, se é que vai voltar, para os braços de [Johannes] Gutenberg [alemão considerado o criador do processo de impressão com tipos móveis, a tipografia, ou seja, o inventor da imprensa]? Depois dessa experiência da televisão que privou o jornalismo – enfim, se teve outra contribuição – pelo menos, privou o jornalismo escrito da excelência do seu texto.

Armando Nogueira:
Olha, o negócio é o seguinte. É que o futebol brasileiro anda tão ruim, que como... Eu não sou ficcionista, eu não sou escritor, eu sou um jornalista e vivo de fatos. Eu nunca inventei um personagem na minha vida. Os meus personagens eram reais: era o Didi, era o Pelé, era o Garrincha, era o Gerson, era o Tostão, era o Jairzinho, o Carlos Alberto; esses eram os meus personagens. Que eram os nossos personagens, os nossos ídolos. E eu acho que nós temos que melhorar muito os personagens para eu voltar, porque senão eu afundo com eles.

Zuenir Ventura:
Mas você já está escrevendo de novo sobre esporte?

Armando Nogueira: Pois é! Mas aí, eu consegui do Juca Kfouri [importante jornalista esportivo brasileiro] uma abertura, para não ficar falando só sobre futebol. Eu quero ver se saio um pouco para o tênis... Aliás, como eu estou desempregado, já me candidatei ao Luciano do Valle para trabalhar na Bandeirantes, comentando tênis.

Tonico Duarte: Para quem escreveu sobre Didi é duro escrever sobre Dunga, né, Armando?

Rodolfo Konder:
A era Dunga. [Em 1990, o Brasil foi desclassificado na Copa nas oitavas de final. A Seleção, dirigida por Sebastião Lazaroni, foi criticada por ser defensivista. O volante Dunga acabou sendo tomado como símbolo desse time]

Vera Golik: Armando, você falou em felicidade, que você pensava em felicidade antes e depois de Globo também. E falando nisso, eu queria lhe perguntar uma coisa. Eu soube, assim, por fontes riquíssimas, até presentes aqui hoje, que você foi piloto de avião e gostaria de ter seguido essa carreira, e só não pôde por um problema físico, inclusive. Se você tivesse assim uma lista de coisas para colocar daqui para frente na sua vida como sonhos para realizar, quais seriam os que você teria mais vontade de enumerar de um a três, assim, dos seus principais sonhos, mesmo que sejam os mais malucos possíveis?

Rodolfo Konder: Armando, eu até vou entrar de carona na pergunta dela para perguntar sobre esse desastre que você, como piloto, sofreu recentemente, um desastre com um ultraleve, que a imprensa andou noticiando.

Armando Nogueira: Eu queria logo dizer que houve uma perversidade de quem disse a ela que eu fui piloto. Eu sou piloto. [risos]

Vera Golik: Desculpa. Foram meus ouvidos que... 

Armando Nogueira: Isso é uma maldade! [risos] Evidentemente que eu gostaria de ser um piloto mais completo. Sou piloto de ultraleve.

[...]: Você já até morreu como piloto, né, Armando?

Armando Nogueira:
Na aviação a sério, eu até já morri, eu já contei essa história. Mas como piloto de ultraleve eu também não tenho uma carreira muito brilhante. Por isso que disseram que eu fui piloto. Porque eu já tive uma meia dúzia de desditas aéreas. E há pouco tempo eu perguntei ao comandante da Varig, que aliás morreu há poucos dias. Mas era muito meu amigo, comandante Lili Pinto, piloto mais antigo da Varig. E eu perguntei: “comandante, o que é ser um bom piloto?” Ele olhou para mim – ele fumava cachimbo – e disse: “Olha, um bom piloto é aquele que consegue ter sempre o mesmo número de pousos e decolagens”. [risos] Eu disse: “Eu devo seis pousos”. [risos] Eu fiquei devendo seis pousos. Eu achei a definição dele maravilhosa! E confessei a ele que, realmente, eu já tinha, em seis oportunidades, frustrado os pousos. Não aprendi, não levei muito a sério um conselho que um amigo me deu quando eu comecei a pilotar ultraleve. Ele me disse: “Olha, Armando, não esqueça nunca que esse negócio de voar é o seguinte: a decolagem é facultativa, mas o pouso é obrigatório.” [risos] Realmente, decola quem quer! Agora, pousar! Eu peço a você só para refrescar a minha memória...

Vera Golik: Dos seus sonhos, o que você deseja fazer daqui para frente?

Woile Guimarães:
Armando, antes do sonho, como é que é esta história de que você acabou com a frota aérea do Acre?

Armando Nogueira:
Deixe eu responder a ela primeiro. Antes de mais nada, eu estou decidido a me entregar ao ócio...

Vera Golik: Ah, que delícia!

Armando Nogueira:
Realmente, depois de ter trabalhado quarenta anos, eu não quero mais ter patrão. Só isso. Não tenho nada contra os patrões, mas prefiro não ter mais patrão.

Rodolfo Konder: Nem contra o Luciano do Valle?

Armando Nogueira: Mas aí eu terei um vínculo especial com ele. Até para a alegria dele, eu vou dizer que faria amadoristicamente. [risos]

Luciano do Valle:
Que maravilha! Isso é um presente!

Armando Nogueira:
Não vai ter remuneração...

Luciano do Valle:
Tudo bem! Mas nós vamos tomar um vinho juntos.

Armando Nogueira:
Eu lhe confesso que é sem culpa nenhuma, que eu vou trabalhar em casa, vou ficar escrevendo meus textos em casa. E eu vou me reencontrar com a palavra, que sempre foi um dos meus encantamentos. Foi a palavra! E a imagem se sobrepôs de tal maneira que eu quase traí a palavra nesses anos todos. Acabei de escrever para o nosso querido Dante [apontando para o entrevistador], para a revista Imprensa, um artigo em que eu digo que existe um provérbio chinês, conhecido por todos os companheiros, segundo o qual “uma boa imagem vale mais do que mil palavras”. Se o chinês do provérbio entrasse numa redação de televisão ele ia ver o estrago que essa frase dele causou na cabeça dos telejornalistas. [risos] Porque todo mundo abandonou a palavra. Apaixonado pela imagem, como se a imagem não precisasse viver casada com a palavra na televisão. Eu até me permito retocar esse provérbio, esse adágio do nosso chinês, para dizer que o conselho que eu daria aos jovens telejornalistas é que não acreditem nesse provérbio. Fiquem com o meu provérbio: “Uma boa imagem vale mais com uma boa palavra”. Se ela vem com uma boa palavra. Qual a sua pergunta?

Woile Guimarães: Sobre a destruição da frota aérea do Acre.

[risos]

Armando Nogueira: Era uma modesta frota de dois aviões, como eu já contei, e que se chocaram a 15 metros de altura; e eu não podia nem dizer que o tráfego estava congestionado. [risos] E não havia torre, é evidente, estava chovendo muito e vocês conhecem o peso das chuvas torrenciais na Amazônia; e nós, imprudentemente, continuamos voando. E os dois aviões se chocaram. Morreram dois companheiros do outro avião, se salvaram os do PPR AFIS [tipo de ultraleve], entre os quais estava eu. E depois ficou provado na Aeronáutica que eu tinha sido uns dos culpados pelo acidente. E, por isso, eu preferi não corrigir uma falha do inquérito em que eu aparecia como morto. Porque se eles reconhecessem que eu estava vivo eu teria que pagar multa e juros de mora. Palavra que me horrorizava, porque eu não tinha nem o capital, quanto mais o valor dos juros de mora. Então eu preferi, como eu já disse uma vez, continuar morto na Aeronáutica.

Luciano do Valle: Armando, a gente trabalhou junto. Eu tive essa honra e sempre senti... E me recordo aqui, uma vez conversando com você, mais particularmente em Moscou, durante os jogos olímpicos, que você tinha uma certa frustração em não poder desenvolver, dentro da Rede Globo, o departamento de esportes, quer dizer, a Central Globo de Esportes. Então, é isso que eu queria colocar. Você não conseguiu por quê, Armando? Você não quis? Você achou mais importante o cargo de diretor da Central Globo de Jornalismo? Ou, realmente, você não pôde? Porque você veio do esporte. Eu queria saber isso. Só curiosidade que eu tenho.

Armando Nogueira:
Olha, essa resposta é complexa. Primeiro: o telejornalismo, em si, me absorvia muito. Então, eu dedicava ao esporte um tempo, a meu ver, insuficiente para eu pressionar no sentido de desenvolver o esporte. Eu tinha consciência de que a televisão nasceu para casar com o esporte. Esse casamento, você está realizando na Bandeirantes. Mas na Rede Globo, isso sempre foi particularmente difícil. Porque a Rede Globo é uma rede chamada macropública. Seu compromisso de massa não permite à Rede Globo – sua filosofia, sua estratégia – trabalhar com índices de audiência baixos. E o esporte, a não ser o espetáculo ao vivo, não é um bom fator de audiência, por que no Brasil o esporte é muito desorganizado, os dirigentes são muito despreparados. De tal maneira que os calendários são subvertidos; o telespectador fica sempre desorientado sem saber quando vem o espetáculo, em que condições vem o espetáculo. E a televisão cada vez se profissionaliza mais. Enquanto a televisão não puder interferir diretamente na produção do espetáculo... Eu imagino o seu sofrimento na Bandeirantes para conciliar a sua estratégia de programador com o espetáculo absolutamente improvisado que é o futebol, que é o basquete, que é o vôlei, que são todos os esportes no Brasil. Então, a Rede Globo que sempre teve, na pessoa do Boni, uma preocupação muito grande com o controle do produto, sempre receou entrar no esporte. Essa foi uma das razões pelas quais, no que me diz respeito, eu fracassei na implantação do esporte na Rede Globo. Mas eu gosto tanto de esportes que eu ligo a Bandeirantes e vou ver, sobretudo domingo de tarde, eu acompanho na Bandeirantes.

Luciano do Valle: Eu queria, só para completar, antes de passar para o Dante, dizer o seguinte. O que está acontecendo, isso é um fato que você coloca, que pela primeira vez na história do mundo, um homem chamado Ted Turner fez exatamente isto. Quer dizer, ele criou as olimpíadas dos sonhos dos homens de televisão, onde só participam as superpotências. E foi agora, o que nós vimos em Seattle. Quer dizer, você tem profunda razão.

Armando Nogueira: Esse, por exemplo, é um idealista que, há uns 15 anos atrás, todo mundo achava maluco. Ele hoje tem a CNN, ele hoje tem a ESPN, ele tem...

Luciano do Valle: Redline News, que é um derivado da CNN, o TNT, quer dizer... Superstation.

Armando Nogueira: A Superstation. E aí ele foi absolvido de uma frase genial que ele disse, há coisa de uns oito anos atrás, numa entrevista que ele deu à revista Time. O pessoal reclamava dele, que ele era muito show off [exibido]. Ele disse: “Olha, se eu tivesse um pingo de humildade, eu seria perfeito!”

[risos]

Dante Matiussi: Só completando essa história do Goodwill Games [Os Jogos da Boa Vontade foram uma competição esportiva internacional organizada por Ted Turner para diminuir a tensão da Guerra Fria e dos boicotes olímpicos de 1980 e 1984. Realizados pela primeira vez em 1986, em Moscou, foram uma espécie de mini-olímpiada, da qual participaram 3500 atletas de 79 países], a gente vê também que os americanos não são tão perfeitos, nem o Ted Turner. Porque na primeira versão, ele teve um prejuízo, parece, de vinte milhões de dólares. E este ano parece que outro tanto, também.

[...]: Mas vai insistir até dar certo.

Luciano do Valle: Mas aí é que está o detalhe. O primeiro evento foi disputado em Moscou, né? E o segundo nos Estados Unidos.

Dante Matiussi:
Os recursos dele foram reduzidos.

Luciano do Valle: Exatamente.

Dante Matiussi: Mas sonhar é próprio de quem faz televisão. Mas eu queria me permitir aqui, Armando, pegando um gancho que você mesmo me ofereceu, quando numa resposta anterior aí, falou sobre a sua saída traumática da Globo. Saídas traumáticas parecem ser um fenômeno muito próprio da Globo. Talvez um fenômeno patológico da Globo.

Armando Nogueira: Patológico é ótimo! [risos]

Dante Matiussi: Eu mesmo fui vítima disso; várias pessoas, vários diretores saíram, depois com acusações descabidas. No meu caso, você sabe muito bem, quanto descabidas foram. E a sua saída, como a da Alice Maria, também foi traumática. Eu queria que você me falasse sobre isso. Como você explica que isso aconteça no maior veículo de comunicação do país? Uma coisa que é um testemunho que nós ex-globais aqui – estamos aqui em peso hoje – podemos oferecer em princípio é o seguinte. A possibilidade de trabalhar na Globo como jornalista é fascinante, não é? Quando você entra, é sedutor estar lá dentro. Agora, quando você começa a trabalhar, sente realmente um certo desconforto, talvez pela cobrança, porque a Globo é muito profissional. Inegavelmente, ela faz a melhor televisão do país. Agora, por que isso? Que tipo de fenômeno causa esse tipo de saída traumática da Globo? Ele vem de cima, ele vem debaixo? Que tipo de relacionamento neurótico causa isso?

Rodolfo Konder: Armando, eu vou me permitir, entrando de carona na pergunta do Dante, porque nós temos várias perguntas aqui e eu gosto sempre de dar espaço aos telespectadores. Hamilton Barione, de Campinas, São Paulo; Iara Moreira, de Pirajuí, São Paulo; Margarete, de Campinas; Fernando Ferreira, de Diadema, São Paulo; Pedro Rodrigues, de Osasco, São Paulo; João Carlos Abdu, de Catanduva, São Paulo. Todos eles fazem perguntas na linha do Dante: perguntando sobre a sua saída, essa saída da TV Globo.

Armando Nogueira: A pergunta dele é por que as pessoas saem da Globo de uma maneira...

[...]: Traumática?

Dante Matiussi: Quase sempre traumática.

Armando Nogueira: Eu acho que, no caso da Globo, as pessoas entram e saem de maneira traumática porque a Globo é um trombone. Tudo o que acontece na Globo tem uma repercussão muito grande. Aliás, tem uma definição de um companheiro da Globo, cujo nome não vou revelar, porque ele pode até ter uma saída traumática. [risos] Ele disse o seguinte: que a Rede Globo é a única pessoa jurídica neurótica que ele conhece. [risos] Dito isso, eu acho que está um pouco respondida a sua pergunta. Mas de qualquer maneira, eu acho que no nível dos executivos, que é o meu nível, por exemplo, é uma coisa favorável à Globo que eu tenha passado lá 24 anos, e eu não fui obrigado a ficar 24 anos. A maioria dos profissionais de cargo de direção ou então as personalidades como Luciano do Valle, que está aqui, essas pessoas trabalharam sempre mais de dez anos na Rede Globo. Eu acho que a repercussão de cada saída na imprensa é magnificada, é um pouco exagerada. De qualquer modo, eu acho ainda um primarismo na livre empresa brasileira que você tenha empresas como a Globo que não tem, por exemplo, fundo de pensão para assegurar a aposentadoria à velhice de um profissional que trabalhou lá vinte, 25 anos. Esse despreparo da empresa, essa falha de recursos humanos agrava também a saída, porque no meu caso, por exemplo, a minha saída teria sido bem natural se tivesse ocorrido uns dois ou três anos atrás, quando eu já pretendia ter parado. Mas, embora se diga que eu ganhei três milhões de dólares, não sei o quê, eu já li em jornal até cinco milhões de dólares! Quase contratei um segurança para mim, [risos] por causa de negócio de [...] e sequestro...

[...]: Foram dois só?

Armando Nogueira:
Também não! Foi em cruzeiros.

Carlos Eduardo Lins Silva: Armando, no jornalismo brasileiro há uma certa tradição de que pessoas de seu nível, que chegam ao seu nível de executivo, quando deixam a empresa é sempre de uma forma mais ou menos negociada. No seu caso, pelo que constou no noticiário, ainda lhe ofereceram uma posição lá. Agora, o que me chocou particularmente foi a saída da Alice. Como é que você explica que uma pessoa com o nível de direção e de confiança que a Alice teve possa ser simplesmente despedida, como parece que foi. Gostaria que você confirmasse se foi mesmo. E como você explica isso havendo a tradição que existe no jornalismo brasileiro de que quem chega a um cargo de confiança desses não sai de uma maneira dessas, mandado embora. Isso é raríssimo no jornalismo brasileiro.

Amando Nogueira: Meu destino profissional naquele episódio estava tão intimamente ligado ao destino da Alice Maria que eu já não posso distinguir para ti onde é que foi deselegante a saída da Alice e onde é que foi deselegante a minha saída, onde é que foi deselegante o convite para eu assumir outras posições. Eu até nem digo deselegante, porque eu não quero nem de leve passar para o público a impressão de que eu sou uma viúva da Rede Globo. Até porque de passagem eu mencionei aqui que, há três ou quatro anos, eu estava pensando em sair da Rede Globo. Porque quando eu saí da Rede Globo era certamente porque a Globo já tinha saído de mim há alguns anos. Então, a saída foi traumática no ponto de vista da repercussão e sobretudo do que aconteceu com a Alice Maria. Aí isso caracterizou realmente um trauma, que a mim magoou muito. Mas pela Alice Maria e não por mim, não pelo meu caso. Mas o meu destino estava de tal maneira ligado ao dela que não havia hipótese para eu conciliar uma situação para ficar na Rede Globo, saindo a Alice Maria. Eu não consegui responder à pergunta do Carlos Eduardo, porque eu nunca consegui, não havia clima para eu saber onde é que nasceu a idiossincrasia da Rede Globo contra a Alice Maria. Isso eu não consegui descobrir.  A Alice Maria pode ter sido vítima de um sentimento machista, coisa que parece que aconteceu na trajetória dela o tempo todo. Porque eu tentava explicar aqui, ali, de sala em sala, de quando em quando, que a Alice era uma tremenda profissional. E eu acho que por ser uma empresa com algumas características neuróticas, a Alice Maria era muito entendida como uma profissional, mas como se fosse uma assessora minha. Na realidade, várias vezes eu disse em pronunciamentos que Alice Maria era o verdadeiro Armando Nogueira.

Dante Matiussi: Só para complementar, antes de passar a bola para o Japi aqui, para que quem esteja em casa saiba, se você continuasse na Globo e saísse para fazer o que você queria, que talvez era esporte, dirigir a Central Globo de Esporte, a Alice Maria seria hoje a diretora de jornalismo da Globo. É isso? Se você pudesse fazer o seu sucessor?

Armando Nogueira: Ah, bom! Há coisa de três ou quatro anos que eu comecei a me preparar. Eu quis convencer a alta direção da empresa que Alice era a pessoa, a meu ver, qualificada para ficar no meu lugar. Mas não foi. Enfim, isso é uma decisão da empresa, do empresário, que todos nós profissionais temos que respeitar. Quando eu falei de fundo de pensão, você disse: “O profissional sai, quando chega ao nosso nível, sai em uma situação negociada”. Eu também saí. Houve uma negociação, entendeste? Até para minha indenização. A minha saída acabou sendo uma coisa civilizada, houve entendimento; mesmo com o doutor Roberto Marinho, eu tive um almoço com ele muito cordial. Apenas eu não queria continuar nas circunstâncias em que se apresentaram naquele momento. Mas o que eu lastimo é que outros profissionais... Porque eu era um profissional privilegiado na Rede Globo, do ponto de vista de remuneração. Houve um determinado momento na Rede Globo, em que um americano chamado de Joseph [Joe] Wallach, que foi trazido para cá quando a Globo fez um acordo de assistência técnica com Time Life, o Joe Wallach assumiu a direção financeira da Rede Globo e tomou uma decisão que a mim beneficiou muito. A todos os diretores ele deu uma participação pequena, mas deu uma participação na lucratividade da empresa. Isso é que deu expressão ao meu salário na Rede Globo. Mas ainda assim acho que as empresas com esse porte deviam tratar os executivos de uma maneira mais humana, preparando um pouco melhor a aposentadoria do profissional.

[...]: Mais capitalista e menos selvagem.

Armando Nogueira: Exatamente. Essa idéia do fundo de pensão me parece que já existe em algumas empresas. A Globo poderia adotar. Enfim, simpaticamente, a gente diz que a Globo é surpreendente, porque é uma pessoa jurídica sabidamente neurótica.

Moacir Japiassu:
Vou fazer uma pergunta um pouco menos traumática para o Armando Nogueira. É que eu conheci o Armando em 1964, na redação do Jornal do Brasil, quando ele aparecia aí no meio das tardes trazendo a sua coluna, e a gente corria para ser o primeiro a ler. Eu sempre notei que nós estamos diante do perfeccionista absoluto total. Ele vinha com aquelas laudas muito bem datilografadas e invariavelmente corrigidas numa letra miudinha e a lápis. De vez em quando, o editor Marcos de Castro brincava com alguém que passasse, dizendo que ele tinha reescrito o Armando. Então, o Armando é este perfeccionista que acabou de dizer aqui para a gente que a grande paixão dele é a palavra. E nós, Armando, vivemos num momento do jornalismo escrito, que chamam de mídia impressa, não é? [risos] Em um momento tão delicado, né? Eu queria saber a sua opinião, de perfeccionista jornalista brilhante, sobre o nosso momento da mídia impressa, com perdão da expressão. Nós estamos num bom momento? Como é que você lê os jornais hoje? Com muita tristeza? Aliás, eu queria fazer duas perguntas em uma só. Nós estávamos conversando antes do programa terminar sobre um profissional que nem sequer sabia quem era José Medeiros, o grande fotógrafo da imprensa brasileira. Então a coisa também entra por aí na base da ignorância mesmo?

Armando Nogueira: Essa história é ótima. Eu estava lá em casa no sábado de manhã, com Thiago de Mello [escritor e poeta amazonense, era amigo íntimo de Armando Nogueira], e estávamos na cozinha preparando um lanche, e ele disse assim: “Eu vou ligar para uma redação...”. Eu não vou mencionar a redação, não pretendo mencionar. Se vocês me pressionarem, é capaz até de eu mencionar. [risos] Ligou o telefone e atendeu uma moça na redação. Ele disse: “Minha filha, aqui quem está falando é o Thiago de Mello, eu sou companheiro de vocês. Queria que você me informasse se já chegou da Itália o corpo do Zé Medeiros?” Aí a voz do lado de lá: “Quem?” “Zé Medeiros!” “Quem é Zé Medeiros?” “Minha filha, Zé Medeiros é um dos maiores fotógrafos do Brasil, que morreu na Itália quando participava da um seminário sobre ecologia, sobre meio ambiente”. “Mas ele é fotógrafo?” “É, era fotógrafo da revista Cruzeiro, durante vinte anos, depois fotografou os filmes do Glauber Rocha [(1939-1981), uma das grandes referências do cinema brasileiro, é o nome mais famoso do movimento conhecido como Cinema Novo], do Nelson Pereira dos Santos [(1928-), célebre  cineasta brasileiro, conhecido também por grandes adaptações de obras da literatura brasileira para o cinema. Ver entrevista em www.rodaviva.fapesp.br/materia_busca/105/Nelson/entrevistados/nelson_pereira_dos_santos_1999.htm]!” “Ah, não sabemos!” “Mas olha, saiu na primeira página do Jornal do Brasil anteontem!” Ela disse assim: “Bom, então eu vou passar o senhor para a seção de apuração”. Ele disse: “Bom, agora, o apurador sabe!” O apurador é quem apura. Ligou para o apurador. E aí a moça que atendeu... Eu não tenho nenhuma prevenção contra as moças, mas eram duas moças: na redação e na apuração. E ele repetiu toda a história e disse: “A senhora sabia que o Zé Medeiros morreu?” Ela disse assim: “Ficamos sabendo pelo senhor, há dez minutos atrás”. “Minha filha, o Zé Medeiros é um dos maiores fotógrafos do Brasil! E saiu na primeira página do Jornal do Brasil! Você não é apuradora, minha filha! Você não está apurando? Você não lê os jornais?” “Eu não sabia, soube pelo senhor há dez minutos”. Ele perguntou: “Vocês vão cobrir o enterro?” Ela disse: “Não. Não está na pauta. Nós não vamos cobrir o enterro”. “Vocês sabem que estão dando uma tremenda barriga? Porque o Zé Medeiros é um homem importante. Todo mundo gostaria de saber informações sobre o que aconteceu com ele”. Ela falou: “Mas nós não vamos cobrir, não, porque não está na pauta”. Essa história eu contei para o Japiassu e até acrescentei uma pequena piada para humanizar essa história. Que a moça então virou para ele, e ele disse: “Mas, minha filha, ele é seu colega!” “Meu colega não, que eu não sou defunto!” [risos] Só faltou a moça dizer isso: “Não, ele não é meu colega não, porque eu não sou defunto”.

Dante Matiussi: Armando, para dizer o nome da redação nós temos que pressionar o Thiago ou você?

Moacir Japiassu: Ele vai dizer as iniciais só...  [risos]

Armando Nogueira: Eu não digo pelo seguinte... Eu não vou dizer pelo seguinte: se eu deixar no ar generaliza, e fica todo mundo torcendo como se fossem todas as redações.

Moacir Japiassu: Mas aí, se o Armando deixou no ar, só pode ter sido a Globo. [risos] É uma hipótese, né? Armando, me diz uma coisa... [risos] Essa aí é a mídia eletrônica. Ele fez a primeira pergunta, na primeira parte, era sobre a mídia impressa. Como é que você lê jornais hoje? É com muita tristeza?

Armando Nogueira: Olha aqui, eu leio jornais com uma certa alegria. Porque eu venho de uma experiência de televisão em que o texto é mais indigente do que o jornal. E a grande verdade é a seguinte: a culpa não é do veículo, é da má interpretação do veículo e da formação dos profissionais, eu acho. Eu não quero dizer que quem trabalha em televisão escreve mal e quem trabalha no jornal escreve bem. Até porque o texto mais saboroso, nesse sentido, que me caiu nas mãos há alguns anos atrás, não foi em televisão, foi em jornal. Era de um repórter esportivo que chefiava uma redação de esportes, uma editoria de esportes, e eu não resisti ao ler o texto. Começava assim: “O gramado do Maracanã estava praticamente impraticável para a prática do futebol”. [risos] Isso é uma obra-prima! De forma que eu quero absolver a televisão. Não é? Praticamente impraticável para a prática do futebol. Mas o texto na televisão, no telejornalismo, ficou indigente, porque meteram na cabeça da garotada que chega das faculdades que o importante é a imagem, que a palavra não tem importância. Quando na realidade, o texto... Isto aqui não é uma aula de telejornalismo. Deus me livre! Não penso nisso, mas o texto na televisão exatamente corresponde ao texto-legenda em jornal. Nós todos somos de jornal e sabemos que o texto mais trabalhado numa redação de jornal é exatamente o texto-legenda. É o texto-legenda em que a gente até apura a língua, porque você se permite até usar certas palavras mais preciosas, porque a imagem está falando um pouco...

Dante Matiussi: E por ser tão reduzido, ele exige um trabalho de criação muito maior, porque você tem menos palavras para gastar. Tem que escolher as palavras certas.

Armando Nogueira: O que é dramático no telejornalismo é que apareceu uma palavra que chama coloquial. O Woile, o Dante sabem disso. Aí os redatores e os repórteres acham que o coloquial é o vulgar, porque acham que eles não podem usar uma palavra bonita com medo de que o telespectador não entenda a palavra. Isso é um pressuposto insultuoso, porque na realidade a imagem está falando, então não custa nada usar uma palavra mais bonita. E quantas palavras bonitas há que não são usadas na televisão por preconceito, por causa do coloquial, o coloquial chulo! Na televisão, o coloquial é o chulo! Eu não quero dizer que todo mundo escreva mal! Eu até, nesse artigo que eu escrevi para o Dante, cito alguns profissionais de texto de televisão, de texto exemplar: a Ilze Scamparini, o Lucas Mendes são pessoas que têm texto primoroso, que sabem escrever para a televisão. A Lilian Witte Fibe, enfim, são nomes. Esses é que deviam ser as referências para os garotos da nova geração e não o provérbio do chinês.

Tonico Duarte:
Armando, assistindo a um treino da seleção brasileira, aqueles fascinantes treinos da seleção brasileira em haste, vou voltar à história da TV Globo. Você disse uma vez: “Troquei uma cadeira elétrica por uma poltrona confortável!” Como é que é isso?

Armando Nogueira: Isso é metáfora! [risos] Pura metáfora! Não, a realidade... Imagine: ficar sentado durante tantos anos numa cadeira espinhosa como a de diretor de telejornalismo de uma rede poderosa como a Globo realmente cansa. E depois, passando por períodos dolorosos... A minha experiência no período autoritário foi uma experiência muito dolorosa, muito dolorosa! Você ter que conviver com uns coronéis que nem ideologia tinham. Porque quando eles têm ideologia, você mais ou menos sabe como é que você vai discutir com eles. Mas não tinham ideologia. Então era uma coisa penosa o diálogo com os militares. Depois nós ingressamos de uma maneira muito tímida nas liberdades democráticas. E no governo Sarney [1985-1990] se exercia muita pressão política sobre o trabalho da gente. Para mim é muito mais confortável... Quando eu digo numa poltrona, a rigor, hoje, é até uma cadeira espartana que tem no meu escritório, onde estou escrevendo os meus textos. E estou muito mais à vontade. Eu não quero nem dizer que era só eu que sofria pressões, porque a empresa toda sofria pressões. Essa é que é a verdade. Eu me orgulho de uma coisa, sabe? É que eu nunca sofri diretamente as pressões. Elas eram sempre interpostas a pessoas da empresa. Porque uma coisa eu quis sempre preservar na minha carreira profissional: eu nunca tive um amigo no poder! Nunca tive um amigo no poder! Eu sempre tive fontes no poder! Como jornalista, quando eu comecei a minha carreira, graças a Deus, eu criei para mim uma máxima, segundo a qual o jornalista só tem prestígio enquanto não usa. E isso me preservou a vida inteira do contato com o poder. Porque é promíscuo para nós profissionais. É promíscuo.

Rodolfo Konder: Armando, nós vamos ter que fazer agora um intervalo. E voltamos em seguida com o programa Roda Viva.

[intervalo]

Rodolfo Konder: Voltamos ao estúdio da TV Cultura, com mais um programa Roda Viva, hoje entrevistando o jornalista Armando Nogueira. Vamos dar um espaço para os telespectadores. Tem aqui algumas perguntas, muitas perguntas, aliás, e algumas na área de esportes. Helena Dalde, do Jardim Paulista, São Paulo, pergunta se você acha que faltam personagens na crônica esportiva, como João Saldanha [(1917-1990), foi jornalista, comentarista esportivo e como treinador de futebol levou a Seleção Brasileira a classificar-se para a Copa do Mundo de 1970], Antonio Maria [Araújo de Morais (1921-1964), comentarista esportivo, poeta e compositor brasileiro] e Sandro Moreira [(1918-1987), jornalista esportivo carioca, torcedor fanático do Botafogo, na revista Placar assinava a coluna “Histórias de Sandro Moreira”, onde escrevia contos cujos personagens principais eram o goleiro Manga e Mané Garrincha]. Você acha que estão faltando personagens?

Armando Nogueira: Já é a pergunta? Já posso responder? Evidentemente que ele citou um elenco aí, eu até acrescentaria mais alguns nomes. Eu acrescentaria o nome do Nelson Rodrigues [(1912-1980), importante e polêmico dramaturgo, jornalista e escritor brasileiro], que não entendia nada de futebol e talvez por isso fosse o mais fascinante de todos. O Nelson não só não enxergava fisicamente... Porque a gente costuma dizer: fulano não enxerga futebol! Ele não enxergava fisicamente. Ele não distinguia um branco de um preto no campo. Não é um beque de um ponta, não! Era um branco de preto. E até ele dizia que a pessoa que menos entendida de futebol depois dele, antes dele, era o Otto Lara Resende [(1922-1992), cronista, contista e jornalista mineiro], a quem ele um dia levou ao estádio e disse: “Otto, antes que você cometa uma gafe, eu vou dizer. Aquela coisa redonda que está no centro do campo é a bola”. [risos] E quando terminava um jogo, nós fazíamos uma mesa-redonda na TV Rio: Nelson Rodrigues, João Saldanha, eu, Mário [Gonçalves] Vianna [(1902-1989), foi árbitro de futebol e comentarista de arbitragem das rádios Globo e Tupi do Rio de Janeiro] e o José Maria Scassa [(1920-1975), torcedor fanático do Flamengo, foi considerado um dos melhores comentaristas esportivos]; estamos falando de quatro mortos e um sobrevivente [apontando para si mesmo]. Os quatro já morreram. E o Nelson saía do estádio, inseguro, para saber o que ele ia dizer na televisão; ele batia no meu ombro e dizia assim: “Ô, Armando Nogueira, o que é que nós dois achamos desse jogo?” [risos] Esses cronistas todos fazem falta. O Sandro Moreira foi o primeiro cronista que eu li. O Sandro Moreira é seguramente o mais inventivo cronista esportivo que eu conheci. Ele atribuía a jogadores frases de espírito. O Neném Prancha [(1906-1976), pseudônimo de Antônio Franco de Oliveira, fanático torcedor do Botafogo, foi jogador e técnico de futebol, ficou famoso pelas frases que criava para se referir ao futebol e jogadores] é uma ficção. Quer dizer, ele existia na realidade. Eu o conheci, o entrevistei, conversei com ele. Mas as grandes máximas do Neném Prancha eram do Sandro Moreira...

Rodolfo Konder: A Joana Duarte, de Sumaré, São Paulo, pergunta: “E atualmente qual é o melhor jornalista esportivo, na sua opinião?

Armando Nogueira: O melhor jornalista esportivo em minha opinião... [fica pensativo] Ah, tem muitos! Tem muitos! O melhor?

Rodolfo Konder: Quem você destaca desses muitos a que você se referiu?

Armando Nogueira: Ela quer mesmo saber o nome? [risos]

Rodolfo Konder: Parece que sim.

Armando Nogueira: São tantos, que eu não lembro... Aquela resposta convencional: “São tantos que eu não gostaria de cometer injustiça, deixar de fora alguns”. É cronista que escreve em jornal?

Rodolfo Konder: Deve ser...

Armando Nogueira: Que senta e escreve com redação própria?

[risos]

[...]: O que é difícil em redação atualmente...

Armando Nogueira: Um dia entrou um contínuo na TV Globo, o Otto Lara Rezende estava escrevendo, ele escrevia de costa para a porta, numa máquina assim. E o Otto é uma metralhadora, ele tem uma capacidade de escrever e escrever corretamente, não só do ponto de vista linguístico, mas também datilograficamente falando. Ele não bate x. E era aquela metralhadora! E ele não percebeu que tinha um contínuo na porta. E o contínuo olhando aquele espetáculo. De repente, o contínuo [fala]: “Senhor!” Aí o Otto olhou e o contínuo não resistiu e disse: “E o senhor tem redação própria?” [risos] Geralmente, a gente confunde um pouco isso; às vezes, o sujeito não tem redação própria. Tem alguns cronistas que são reescritos na redação.

Rodolfo Konder: Guilherme Rocha, da Aclimação, São Paulo, pede para você falar um pouco do Botafogo e da desorganização da Federação Carioca de Futebol.

Armando Nogueira: Falar um pouco do Botafogo?

Rodolfo Konder: Como é que está a situação do Botafogo? Você acha que está bem?

Armando Nogueira: O Botafogo está exagerando. Bastava ele ganhar um título. Ele ganhou um e aí foi um acontecimento nacional. Todo mundo, por compaixão, achou que ele mereceu ganhar aquele título. Aí ele ganhou o segundo, e já ficou um abuso. Ninguém quer que o Botafogo tenha... Aliás, no futebol tem esse negócio que é cruel, mas é verdade. O torcedor de futebol cumpre mais ou menos uma máxima do [...], que diz o seguinte: “Não basta ser feliz, é preciso que os outros não sejam!” Não basta o Corinthians ganhar, é preciso que o Palmeiras não ganhe, Santos não ganhe. Porque se o Corinthians ganhar no domingo, mas o Palmeiras ganhar também, a felicidade não é completa. De forma que o torcedor é um pouco perverso. Como o Botafogo não é a maioria, ninguém está suportando esse bicampeonato do Botafogo. O Botafogo tem um tradição de ser um time sofredor. O Santiago Dantas [(1911-1964), jornalista, advogado, professor, deputado federal e ministro] dizia para o [Augusto Frederico] Schmidt [(1906 – 1965), foi poeta da segunda geração do Modernismo e presidente do Botafogo Futebol e Regatas], que era um grande botafoguense: “Você tem a vocação do erro. Escolheu o time errado!” Porque o Botafogo não ganhava, era um time perdedor. Ganhava aqui ou ali; ganhava um título assim, bissextamente. Quanto à desorganização da federação carioca, isso é uma coisa simbólica do dirigente brasileiro. Você imagina que todo mundo fica escandalizado com o baixo nível dos dirigentes brasileiros. O presidente da federação carioca se chama Caixa D’Água [risos]. Não precisa dizer mais nada! Ora, em 1950 – e a maioria daqui deste coliseu nem tinha nascido ainda – Flávio Costa [(1906-1999)], que era o treinador da Seleção Brasileira, já dizia uma frase que me parecia exemplar: “O futebol brasileiro só evolui do túnel para o campo. Do túnel para fora, ele involui sempre, cada vez mais”. Hoje em dia, você vê quem domina os clubes de futebol é quase sempre ou um cafajeste ou um bicheiro, ou então as duas coisas no mesmo cafajeste [risos]. O futebol brasileiro está vivendo uma crise, nós sabemos que ele está vivendo uma crise. É decorrência de problemas econômicos, os jogadores estão todos indo embora para jogar no exterior, mas é também decorrência do despreparo, da indigência dos cartolas, dos dirigentes.

Moacir Japiassu: Armando, eu queria antes pedir licença para uma informaçãozinha que é a seguinte. Você se referiu há pouco aí a uma frase de Santiago Dantas para um certo Schmidt. Eu queria que aquele apurador lá da Rede Globo soubesse que é o Augusto Frederico que...

Armando Nogueira: Você está seguro que era da Rede Globo...

[sobreposição de vozes]

Moacir Japiassu:
É o Augusto Frederico Schmidt, o grande poeta e tal, por aí. Mas, Armando, me diga uma coisa...

Armando Nogueira: O poeta maravilhoso! E que um dia, imaginem só! Ele era botafoguense, é sabido, mas ele não escrevia sobre futebol. E ele telefonou para o Prudente Moraes Neto [jornalista e cronista esportivo, assinava seus textos com o pseudônimo de Pedro Dantas, foi chefe de redação do Diário Carioca], que é um personagem glorioso da nossa carreira, da nossa profissão, para ler o último poema dele para o Prudente. O Prudente ouviu no telefone, virou-se para o Pompeu na redação do Diário Carioca e disse: “O Schmidt está ficando doido! Acabou de me ler um poema agora, que começa... Ele meteu futebol no meio!” E reproduziu para o Pompeu: “Se entrasse e batesse à minha porta o time do Olaria...” E o Pompeu disse: “Mas por que o poema começa: ‘se batesse à minha porta o time do Olaria...’ Era um time modesto do Rio de Janeiro que disputava o campeonato. Ele disse assim: “O Schmidt está exagerando nessa paixão dele! Vamos convidar o Schmidt para jantar”. E convidaram o Schmidt para jantar. E com muito jeito, colocaram o problema: “Mas o que é que te levou a escrever esse poema e abrir o poema com esse verso insólito?” E repetiram para ele. Ele disse: “Não! Se batesse à minha porta, eu, tímido, olharia!”

[risos]

Moacir Japiassu: Tá bom! Esclareceram para o apurador. Armando, dentro do mesmo tema, quer dizer, essa ignorância que assola a nação e rima com redação, e segue por aí em frente. Nós temos todos experiência com jovens jornalistas, os meninos que saem das faculdades, tentam estágio... O estágio é proibido, mas sempre se arranja um jeito, tem que fazer um curso e tal! E os meninos vêm mostrar se tem talento ou não. Invariavelmente, os meninos não têm talento algum, não nasceram para aquilo, apenas achou bonito, aquela coisa toda. Mas parece que o erro, a coisa ruim começa na faculdade. Os professores, Armando, como é que a gente pode estudar essa questão rapidamente? Como é que a gente vê esse círculo, que começa com o despreparo do mestre, entre aspas, e vai desaguar nesse horror que acontece diariamente nas redações? Nós recebemos uma matéria-prima bruta, uma coisa horrível, que não dá nem para lapidar! Como é que você vê isso? Nós temos futuro pela frente? Nas redações, logicamente.

Vera Golik: Emendando na pergunta dele, eu gostaria de saber se a profissão de jornalista não acaba afastando a gente ou isolando a gente tanto que a gente não se sente à vontade em ser um mestre, não querer formar pessoas para que elas cresçam, não querer dar uma força para as pessoas crescerem. E a gente acaba escrevendo ou trabalhando apenas para encher o nosso próprio ego de que a gente é um ótimo jornalista. Até que ponto a gente começa realmente a investir em criar pessoas?

Tonico Duarte: Eu vou a reboque também. Eu queria que você falasse sobre a questão do diploma nessa pergunta.

Armando Nogueira: Bom, ficando com Japiassu. O jornalista sempre foi um especialista em idéias gerais, como define o Otto Lara Resende. Ou seja, ele fala sobre tudo e não sabe nada de tudo. Evidentemente, até conversei com Carlos Eduardo antes de começar o programa, sobre a necessidade que a gente sente de se questionar, de questionar a nossa profissão, que tem sido de certa maneira tão estuprada por sucessivas interrupções do processo de liberdade no Brasil. Liberdades de toda natureza: de pensamento, de ir e vir. Eu acho que a especialização no jornalismo, até pelo espectro das editorias, a necessidade de cobrir uma gama muito ampla de assuntos; as editorias são tantas, e os profissionais acabaram se especializando demais, de tal maneira que o especialista de idéias gerais já não existe mais. A meu ver, o problema mais grave está na ignorância da língua, no desamor à língua portuguesa. Eu estou convencido disso, e no entanto não tem nada mais fascinante, como eu dizia, do que... E eu não estou falando de gramatiquice, estou falando da língua que se fala; um pouco mais de carinho, um pouco mais de leitura. Eu não sei se os nossos companheiros que começam a profissão são preparados para o gosto da leitura, a felicidade de ler...

Moacir Japiassu: É que eles começam lendo jornal, Armando!

Armando Nogueira: Nem todos, porque aquele apurador não leu. [risos] Eu acho que a coisa é por aí. Eu não estou querendo dizer que a pessoa domine a língua, seja um filólogo! Mas é preciso falar melhor a nossa língua. Você vê repórteres... a categoria dos repórteres, por exemplo, são aí um outro problema da nossa profissão. Quantos repórteres carecas nós temos na nossa profissão? Só o Zuenir. [risos] Porque tudo é mocinho! Queimam-se as etapas da nossa profissão, e quando chega à idade do Zuenir, do Woile Guimarães, do Carlos Eduardo, quando chega à idade deles, na sua idade, que está na hora de se afirmar como repórter, você é atraído para exercer um cargo na direção, ou vai ser secretário de redação, ou vai ser editor-chefe, ou vai ser... Enfim, vai resolver o problema de salário, para resolver problema de hierarquia profissional, e os repórteres ficam sendo os garotos que deviam ser aprendizes de repórter com os velhos repórteres. Isso é uma crítica, uma autocrítica que nós devemos fazer, porque se você... Na televisão isso é mais grave. Porque como nós não tivemos um recrutamento profissional ao longo do tempo, e a televisão é um veículo jovem, o que aconteceu com a paisagem humana dos profissionais da televisão? É tudo garoto! Porque você não tem um maduro com microfone fazendo um stand up [termo em inglês para o repórter que faz uma gravação no local do acontecimento para transmitir informações do fato] na porta de um ministério, ou fazendo uma reportagem no Acre sobre o martírio do Chico Mendes [seringueiro e líder sindical, lutou intensamente pela preservação da Amazônia e contra a transformação da floresta em pasto para criação de gado. Foi assassinado em 1988 com um tiro de espingarda na porta de sua casa]. O nosso Zuenir foi, mas foi para as “pretinhas” [referindo-se ao texto escrito, faz gesto de quem está digitando]. Quando na realidade, se a televisão já tivesse amadurecido, o Zuenir tinha que ter feito a série que ele fez sobre o Chico Mendes na televisão também. Porque é absolutamente compatível. O assunto podia ser documentado para o jornal e para televisão. Mas não, nós ficamos sempre com os garotos, os garotos muito moços. Eu não tenho nada contra a juventude, pelo contrário, até porque eu já fui jovem. E eu tenho que reconhecer que aí é que está a força renovadora. Mas eles precisam ter referências. E eles não têm referências no mercado profissional. A não ser que eles – e é o que deveriam fazer –, todos eles deviam ler o Zuenir Ventura.

Dante Matiussi: Esse problema, na minha opinião, tem duas explicações até aparentemente óbvias. Uma é a questão do salário, realmente. Para adquirir uma posição mais confortável na vida, na nossa profissão, você precisa passar a ser chefe. Porque é uma coisa cruel, desagradável; só abandonando as suas funções, até uma vocação inata de quem nasceu para ser repórter, por exemplo. E outra é a mitificação, quer dizer, ficou mitificado na imprensa, no telejornalismo, que o repórter, para ser de televisão, precisa ser bonito, jovem e falar direitinho. Falar direitinho, até que tudo bem, porque ele se expressa através da voz. Mas essa mitificação atingiu um outro problema grave, que eu gostaria de saber a sua opinião, que é também o fenômeno do anchorman [palavra em inglês que significa homem-âncora]. Para o telespectador que não está acostumado com essa expressão, essa expressão é americana, que explica a função de um telejornalista, normalmente editor-chefe de um jornal, que também apresenta, ou seja, ele tem um talento, uma experiência maior além do locutor convencional. E na imprensa brasileira ficou mitificada uma versão errada de que o anchorman é aquele que comenta a notícia. Porque ninguém teve o trabalho, se deu ao trabalho de ir e ouvir o telejornalismo americano, em que realmente essa explicação cai por terra. Então, eu gostaria que você falasse sobre isto: o fenômeno do anchorman, o que é realmente um anchorman de um noticiário de televisão?

Carlos Eduardo Lins Silva: Dante, com licença. Armando, dentro do conceito de âncora do jornalismo americano, dentro da racionalidade da Globo, por que a Globo nunca quis ter – e acho que você pode responder isso – um âncora? Não no estilo Boris Casoy [como âncora do TJ Brasil (SBT) popularizou a ideia de apresentador que comenta as notícias], por exemplo, que é um âncora abrasileirado, mas o âncora no estilo americano, o editor-chefe que liga as notícias, que dá uma certa coerência às notícias. Por que a Globo sempre preferiu ter um locutor no Jornal Nacional e não um jornalista?

Armando Nogueira:
Historicamente, eu lhe dou uma explicação, que eu dei ao Alberto Dines [jornalista e escritor brasileiro, é criador do primeiro periódico de acompanhamento da mídia no Brasil, chamado Observatório da Imprensa], há uns 15 anos atrás. O Alberto Dines me fez essa pergunta depois de escrever um artigo em que ele criticava a participação do Cid Moreira e do Sérgio Chapelin no Jornal Nacional. Ele disse assim: “Ô, Armando, por que você não põe um jornalista para apresentar o Jornal Nacional?” Aliás, nessa época, quando ele me fez essa pergunta, era só o Cid Moreira que fazia, não era nem o Chapelin, ele não fazia ainda. Eu ponderei para ele que um jornalista com uma formação ética dificilmente aceitaria botar a cara dele no vídeo para ler um noticiário suspeito, porque vinha de uma fonte só. Nós vivíamos um regime autoritário, numa época em que não só nós vínhamos de um regime discricionário como nós também tínhamos um veículo sem credibilidade, que era a televisão. Não foi fácil para mim, quando fui convidado para dirigir o jornalismo da Rede Globo, como não foi fácil convencer os profissionais de jornal a trabalhar em televisão nos bastidores. Já não falava nem no vídeo, digo nos bastidores. Eu só consegui um, que foi o Zé Ramos Tinhorão. E eu acho que foi por pena de mim, porque eu queria que alguém me ajudasse a escrever o telejornal, e o Tinhorão concordou. Mais tarde, só mais tarde é que foi possível, com um pouco de credibilidade e com a perspectiva mais duradoura do telejornalismo, é que os profissionais começaram a acreditar que aquilo era pra valer. E então eles aderiram ao telejornalismo. E foi a contribuição dos profissionais de jornais, sem dúvida nenhuma, nos bastidores, que deu credibilidade ao telejornalismo e que ajudou a criar o que hoje é uma coisa indiscutível, que é o mercado de trabalho. Que está aí, seja na Globo, na Bandeirantes, na Manchete, na Record, na TVS. É o mercado de trabalho. Para os profissionais que, indiscriminadamente, venham de jornal, de revista, de rádio, a televisão entra no rodízio, no intercâmbio de profissionais com um peso muito grande no mercado profissional.

Carlos Eduardo Lins Silva: Você acha que hoje também o jornalista que fosse o ético não aceitaria ser o âncora da Globo?

Armando Nogueira: Mas hoje aceita. Nós temos, no caso da Globo, o Carlos Nascimento está ancorando.

Carlos Eduardo Lins Silva: Não, eu digo no Jornal Nacional?

Armando Nogueira:
Ah, no Jornal Nacional, mas aí é que está! Eu tenho a impressão de que ocorre na Rede Globo, neste momento, o que ocorria comigo também: em time que está ganhando ninguém mexe! É muito difícil você substituir da noite para o dia dois profissionais como Cid Moreira e o Chapelin, na plenitude da sua capacidade profissional. Eles têm hoje uma credibilidade que não é fácil pôr em risco a credibilidade deles. Eu conto muito uma história de um motorista de táxi que me levava para a Globo. E à certa altura, ele me disse: “O senhor trabalha na Globo?” Digo: “Trabalho”. “O que o senhor faz lá?” Eu digo: “Eu cuido lá do jornalismo da Globo”. Ele diz assim: “Eu vejo sempre o Jornal Nacional. Eu vejo sempre o Cid. Eu gosto muito do Cid e do Chapelin. Você sabe que eu chego em casa por volta das sete horas, sete e meia. A minha mulher está vendo novela. E aí, nós vamos ver o jornal. E eu não tenho ciúmes deles”. Quando ele me disse “Eu não tenho ciúmes deles”, eu concluí: está aí a credibilidade do Cid e do Chapelin. Eles não são galãs, eles não são o adjetivo que é o galã da novela, que provoca ciúmes no motorista de táxi. Eles são dois substantivos exemplares, que têm, inclusive, uma vida pessoal inatacável! E do ponto de vista profissional, são insubstituíveis! Eu, pelo menos, se estivesse na Globo, não mexeria nos dois.

[sobreposição de vozes]

Rodolfo Konder: Armando... Só um minutinho, nós falamos da Globo, falamos de jornalismo, falamos de esporte e não entramos ainda numa área interessante. E já tem algumas perguntas aqui que também poderiam ser agora motivo para uma discussão nossa, que é a área política. A Mariângela Contreras, de Moema, São Paulo, por exemplo, pergunta: “Quem é o seu candidato a governador do Rio de Janeiro?” E o Jaime de Souza Marcos, do Jardim Bonfiglioli, também de São Paulo, pede para você comentar as próximas eleições do Rio de Janeiro, e se possível também de São Paulo.

Armando Nogueira: Como é o nome da moça?

Rodolfo Konder: Mariângela Contreras.

Armando Nogueira: Eu ligo para ela amanhã e digo o meu candidato, e ela aproveita e me diz o dela. [risos] Porque o voto é secreto. Eu vou ligar para ela amanhã, para falar o meu candidato. Quanto à sucessão no Rio de Janeiro, o Rio de Janeiro é um estado martirizado pela política brasileira. Ele foi a capital da República, soprava lá a brisa do poder, levaram a capital para Brasília. O Rio de Janeiro se transformou em estado da Guanabara, era um estado pequeno, porém decente, simpático, uma cidade agradabilíssima, com uma arrecadação que permitia manter o Rio como a cidade maravilhosa. Veio a fusão e nivelou por baixo. O estado da Guanabara se transformou em estado do Rio. Nivelou por baixo. E desde então o processo político do Rio de Janeiro vem, a meu ver, se deteriorando por falta de uma unidade no pensamento político das correntes que lideram. O Carlos Lacerda [(1914-1977), jornalista e político brasileiro, foi empossado como primeiro governador da Guanabara no dia 5 de dezembro de 1960], por exemplo, tinha uma média de 35% do eleitorado carioca. Ele foi substituído pelo [Leonel] Brizola [(1922-2004), influente político gaúcho, foi deputado federal pelo extinto estado da Guanabara e foi o único eleito pelo povo para governar dois estados diferentes – Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro], que hoje tem até acho que 50%, que representa exatamente o oposto do Carlos Lacerda em matéria de pensamento ideológico, se é que ainda a gente pode fazer essa colocação a essa altura dos acontecimentos. Mas a grande verdade é que o Carlos Lacerda era um político conservador, e o Brizola é tido como um político populista. O que aconteceu no Rio de Janeiro? No Rio de Janeiro, empobreceu-se politicamente. Aliás, ele não só empobreceu politicamente mas também empobreceu economicamente. E o carioca que era... E eu falo isso porque eu me considero carioca, embora tenha nascido no Acre sou carioca por adoção. O carioca, que era um ser bem humorado, hoje não pode mais dizer que o paulista é mal humorado, porque o carioca é seguramente mais mal humorado do que o paulista. Até porque é muito mais pobre do que o paulista. O paulista está vivendo um esplendor.

Dante Matiussi: Eu queria só completar aquela... porque eu não fiquei satisfeito com a resposta do âncora. Eu gostaria que você sepultasse, de uma vez por todas, definitivamente, essa versão errada que existe. Porque isso está fazendo muito mal para a imprensa, para o telejornalista; eu que trabalho em redação, sei disso. Quer dizer, é a figura do âncora. Então vamos aqui, nós dois, dizer o seguinte. Hoje em dia todo mundo quer ser âncora, porque quer comentar as notícias, porque acham que o âncora é aquele que comenta. Então, nós voltamos àquela resposta que você deu, como se fosse possível um ser humano normal, comum, o jornalista comum ter a competência, a capacidade de fazer comentários sobre tudo. Quando, na verdade, você sabe que o âncora, normalmente, é o chefe de um jornal que faz a ligação naquele jornal, baseado na experiência americana em que o comentário muitas vezes não ultrapassa o gesto. O Cronkite [Walter Cornkite (1916-2009), âncora do CBS Evening News de 1962 a 1981], na CBS [A CBS Broadcasting Inc. é uma das maiores redes de televisão  e rádio dos Estados Unidos] fazia os maiores editoriais da emissora com o levantar de sobrancelhas. Então, eu gostaria que você falasse isso para os estudantes de jornalismo, este programa é muito visto. Para os profissionais de imprensa, o que é um anchorman, a figura de um âncora no telejornal?

Armando Nogueira: Um âncora é exatamente isso que o Dante acabou de dizer...

[risos]

Dante Matiussi: Parece que nós fizemos um trato aqui. E que está sepultada a versão...

[sobreposição de vozes]


Armando Nogueira: Eu subscrevo tudo que você disse. Eu não vou responder porque você já respondeu, você já sabia antes o que é um âncora. É exatamente isso. Aliás, a palavra deveria ser arquivada e a gente chamar apresentador. Esse é que é o papel... O americano falou anchor porque é o sujeito que ancora. Dizer que o fulano de tal ancora o jornal da Bandeirantes, ou que ancora tal jornal, ninguém vai entender! É o que apresenta o jornal, ou seja, chama as matérias, chama as matérias do repórter. O comentarista é outra coisa, é outro papel. Não existe convivendo na mesma personalidade na televisão americana, nem na televisão inglesa, para citar duas televisões que eu conheço, não existe essa figura do apresentador que comenta. Aliás, o comentário na televisão é opinativo; é uma coisa na televisão americana, então é uma coisa muito delicada. Porque a pessoa invoca o direito de resposta e vai pessoalmente com a sua própria cara, com sua própria voz e usa o tempo. Então a televisão prefere não correr o risco de opinar em questões polêmicas. Eu até também sou de opinião que a televisão, por ser um veículo com um poder muito grande, deve ser equidistante, sobretudo nos casos polêmicos. Eu costumava dizer para os repórteres e para os editores lá na Globo o seguinte: “olha aqui: em matéria polêmica no telejornalismo a verdade está sempre dos dois lados, no mínimo!” Sai da redação achando que vai trazer a verdade, a verdade está dos dois lados, se o caso é polêmico. De forma que nunca é bom a televisão, por ser um veículo de mão única, ficar opinando. Eu acho, é a minha opinião.

Woile Guimarães: Armando, quando você chegou à Globo, há 24 anos atrás, na mesa do principal telejornal tinha um botijãozinho de gás [refere-se ao patrocínio no telejornal]. E parece, você pode até confirmar, que o script do jornal passava pela agência, era rubricado pela agência, o anunciante que patrocinava o jornal. Você enfrentou pressões e tirou esse botijão de gás da mesa. Você sofreu pressões? Você falou em pressões políticas aqui. Você sofreu pressões do comercial durante esses anos? E como você poderia ilustrar isso?

Armando Nogueira: É quase inacreditável, quando eu conto, quando eu dou esse depoimento em faculdades, onde eu faço palestras; eu vejo um certo ar de incredulidade da platéia quando eu digo que o poder econômico nunca me constrangeu na Rede Globo. Graças a um estágio de profissionalismo do pessoal do Departamento Comercial da Rede Globo. Pelo contrário, eu tive duas ou três situações, uma vivida com a Coca-Cola. Havia um jornal aqui em São Paulo e outro no Rio que resolveram anunciar, não sei com que fontes, que tinha caído um operário da Coca-Cola dentro de um daqueles tanques da Coca-Cola. Vocês devem ter acompanhado isso, há uns dez, 15 anos atrás...

Woile Guimarães: Foi no pré-lançamento da Pepsi.

[risos]

Armando Nogueira:
Eu nem sabia disso. Bom, o Woile entrou com a chamada “pausa que refresca”! De repente, um dia me aparece lá uma pessoa da empresa objeto da notícia me dizendo que tinha havido um inquérito na polícia carioca, e tinham concluído que não houve o episódio, que não caiu nenhum operário no tanque. Eu disse: “mas nós nunca noticiamos que caiu um operário! Então por que nós vamos dizer que não caiu ninguém no tanque?” Mas o pessoal da Coca-Cola queria usar o Jornal Nacional para sepultar definitivamente aquela versão injuriosa à sua empresa. E o Departamento Comercial da Globo foi absolutamente solidário comigo, e eu empurrei o assunto para uma matéria paga fora do jornal, fora do miolo do conteúdo do jornal, o Departamento Comercial me prestigiou. Eu tive outro episódio também da Varig. Nós precisamos mostrar uma foto do acidente de Orly [Em 11 de julho de 1973, um Boeing 707 da Varig, que fazia a rota entre o Rio de Janeiro e Paris, devido a um incêndio no banheiro da aeronave teve que fazer um pouso forçado sobre uma plantação próxima ao aeroporto de Orly, na França. Das 134 pessoas no avião, apenas 11 sobreviveram – dez tripulantes e um passageiro], aquele célebre acidente em que morreu Filinto Muller [senador], morreu o Agostinho dos Santos [cantor], morreu a Regina Rosemburgo [socialite brasileira]. E o chefe de relações públicas da Varig, um sujeito chamado Adoniram não sei o quê, me mandou um telex de uma agressividade porque, segundo ele, era um assunto morto e enterrado; e, segundo ele, a gente não podia ressuscitar aquele assunto. E eu respondi no mesmo tom do telex dele, estabeleceu-se um clinch [momento no boxe em que os dois oponentes se imobilizam, isto é, encerrou-se o assunto] e o Departamento Comercial da Globo me prestigiou integralmente. O Yves Alves, que era o diretor comercial, disse assim: “Vai cortar as verbas? Pode cortar todas as verbas, mas o Departamento de Jornalismo tem toda a razão em ter posto essa imagem no ar!” Foi uma atitude legítima do profissional. De forma que essas experiências que eu tive de Coca-Cola, de Varig... E tive uma também com a Vasp que foi engraçadíssima, porque o pessoal da Vasp queria patrocinar um dos jornais da TV Globo, que eu dirigia, mas com a condição de que eu não noticiasse desastre de avião! [risos] Eu disse: “então, está bem, vamos assinar um papel em que vocês se comprometem a não derrubar avião e eu me comprometo a não noticiar!” [risos] Mas aí eles não quiseram e o Departamento Comercial me prestigiou. Do ponto de vista do poder econômico, eu não consigo escrever nada condenando o poder econômico. O Departamento Comercial da Rede Globo foi impecável comigo. O Palácio do Planalto nem tanto!

Dante Matiussi: De uma a gente não escapou – só completando aqui. Quando na censura... eu me lembro muito bem disso, no governo militar a gente estava junto, na Globo, com o Woile, por exemplo, a gente não podia dizer o banco que foi assaltado. Você se lembra disso?

Armando Nogueira: Bom, mas isso não era... Isso era coisa da... Porque esse negócio de censura política começa no Palácio do Planalto e depois acaba na delegacia de polícia. E de repente a gente chegava à redação e tinha um telex assinado pelo inspetor Leão! Em nome da segurança nacional não pode noticiar o acidente com um Volkswagen do capitão fulano de tal que caiu no Canal do Mangue. A gente ficava sabendo da notícia: “ah, já houve isso? Bom!” Agora não pode noticiar em nome da Segurança Nacional! Baixa o nível. Ele vai a um nível tão rasteiro...

[...]: Do ofício ao boletim de ocorrência.

Armando Nogueira: É. Uma coisa...

Tonico Duarte: Armando, em uma entrevista à Folha de S.Paulo, em julho de 1988, você disse o seguinte [lendo]: “A idéia do furo não é tão prezada hoje quanto no início da minha carreira. A idéia do furo ficou um pouco ultrapassada. O que se pretende hoje na redação dos jornais não é nem furar, é esgotar o fato”. Você acha mesmo que o furo está ultrapassado? Ou isso daí é, vamos dizer, uma forma de diminuir a reportagem?

Armando Nogueira:
Não, eu acho o seguinte. Antes de mais nada, quando se diz “o furo”, há uma vigilância tão grande de todos os veículos, seja a mídia impressa – com perdão do nosso Japiassu – seja a mídia eletrônica, eles estão de tal maneira voltados para tudo e para todos, e estão aí os satélites de comunicação, estão aí as câmeras, esse olho de lince espalhado pelo mundo, que é muito difícil um furo. O que ocorre é que os jornais sofreram um impacto muito violento da televisão. A televisão, com a instantaneidade, com a agilidade do veículo, trouxe a notícia em primeira mão, e cabe ao jornal desenvolver a notícia. Eu acho que os jornais deviam se dedicar mais, ir a fundo para valer no jornalismo investigativo. Eu cito mais uma vez o nosso Zuenir Ventura, que se mandou para o Acre, para a minha terra, e de lá trouxe uma matéria investigativa. Campo no qual a televisão não pode atuar, porque a televisão quando chega, chega com a câmera, chega com um grid de iluminação, com um palco de iluminação, chega com um gravador, com quatro pessoas, dizendo “Cheguei”! E no que chega, o fato...

[...]: Muda tudo, né?!

Armando Nogueira: Não só ela adultera a realidade... Um repórter de jornal chega em uma passeata, em um comício, em uma reunião, se infiltra e passa a ser um dos participantes; observa tudo e depois, com a sua capacidade de contar, ele conta. Agora, televisão é um veículo demonstrativo, ela tem que mostrar. E o que ela tem que mostrar, chega com uma câmera. Enquanto não fizerem uma câmera do tamanho de um lápis, de uma caneta, a televisão não vai competir com o jornal no campo da reportagem investigativa. E eu acho que os jornais deviam aprofundar mais esse campo, levantar mais assuntos nesse campo investigativo.

Tonico Duarte:
Então o furo é uma coisa saudável?

Armando Nogueira: É claro que é uma coisa saudável! Mas é difícil haver o furo. Ele ficou mais difícil.

Rodolfo Konder: Moacir, é a última pergunta, porque nós já estamos chegando ao fim do programa.

Moacir Japiassu: Essa aqui é a última mesmo. Porque o Armando estava falando agora há pouco sobre as pressões; perguntaram sobre pressões econômicas, dos patrocinadores. Eu queria saber, Armando, e as pressões religiosas? Por exemplo, segundo consta, o cardeal Dom Eugenio Sales [arcebispo emérito do Rio de Janeiro] tem lá um aparelho de TV, que não pega outro canal, só pega a Globo. Dizem que o cardeal deixou até de rezar missa para ficar de olho na Globo! Isso não constitui uma pressão, às vezes intolerável?

Armando Nogueira: Eu não sei se é uma pressão intolerável, mas evidentemente a Igreja exerce uma fiscalização muito grande, sobretudo no campo do entretenimento, no campo das novelas. Evidente. E como Dom Eugenio, no caso particular de Dom Eugenio, ele é muito ligado ao doutor Roberto, evidentemente que ele exerce uma pressão sobre o doutor Roberto, e que deve ser bem-vinda, porque os dois rezam na mesma missa, do ponto de vista da crença em Deus, do ponto de vista da vocação celestial, todos os dois pertencem à mesma religião. Aliás, uma vez a Globo ia botar no ar uma minissérie e, lá pelas tantas, aparecia uma cena um pouco ousada e o doutor Roberto mandou atenuar. E foi atenuada a cena da minissérie. O Boni mandou atenuar. E era uma cena erótica, mais que erótica! [risos] E foi para o ar! Mas foi para o ar atenuada. O cardeal ligou para o doutor Roberto, ainda insatisfeito, achando que a Globo tinha abusado. O doutor Roberto, defendendo, disse: “Não, isso é uma coisa humana e tal!” A certa altura, o cardeal disse uma coisa muito cordial entre os dois: “Doutor Roberto, o corpo da moça, por baixo do lençol, não precisava ficar mexendo as pernas!” E disse o doutor Roberto: “Mas, ô, Dom Eugenio, como é que a espécie se reproduz?” Eu achei até bem-humorado da parte do doutor Roberto. E existe realmente esse tipo de patrulhamento; e até se compreende, porque a televisão, de um modo geral, às vezes abusa. Eu já disse certa vez em uma entrevista que o limite ideal para a televisão excitar a nossa fantasia é o limite do sensualismo. A sensualidade é o limite. Mas, às vezes, a televisão exacerba e vai para sexualidade. Eu acho aí que é de fazer tremer os cardeais.

Rodolfo Konder: Armando, infelizmente o nosso tempo chegou ao fim. 

Armando Nogueira: Infelizmente digo eu. Eu me preparei aqui para ser massacrado, já tinha até duas frases prontas. Uma era dizer que entrevista não é linchamento nem curra, e microfone não é arma de fogo. Mas reconheço que fui muito bem tratado aqui neste coliseu.

Rodolfo Konder: Em nome da TV Cultura, eu agradeço muito à sua presença aqui, agradeço aos nossos convidados, aos convidados da produção, à Bernadete, à Cristina e à Carla que atenderam aqui os telefones. E agradeço também aos telespectadores que nos enviaram as suas perguntas, nos fizeram suas perguntas pelo telefone.

[No dia 29 de março de 2010, aos 83 anos, Armando Nogueira morreu em casa, em decorrência de um câncer no cérebro. Ele foi velado no estádio do Maracanã.]

 

 

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