Memória Roda Viva

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Herbert Vianna

15/5/1995

Músico, cantor e compositor relembra a carreira, as histórias sobre amigos e sobre sua família, além de comentar sobre o mercado musical

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Matinas Suzuki Jr.: Boa noite. Ele pegou a sua moto para fazer sucesso na capital. Depois, tirou os óculos, a carreira convencional de um ídolo de rock e entrou de gaiato no navio para fazer a América Latina. No palco do Roda Viva está o paraibano Herbert Lemos de Souza Vianna. Lançando um novo disco com seus velhos companheiros, Bi Ribeiro e João Barone, do Paralamas do Sucesso, ele segue abrindo mais um dos novos caminhos para a música brasileira. Para entrevistar o Herbert Vianna nós convidamos Regina Echeverria, repórter especial da revista Caras; Nando Reis, da banda Titãs; a diretora de jornalismo da MTV, Astrid Fontenelle; Marcos Augusto Gonçalves, que é editor de domingo da Folha de S. Paulo; a crítica de música e editora executiva do programa Metrópoles, da rede Cultura, Maria Amélia Rocha Lopes; Washington Olivetto, publicitário; e o repórter do Caderno Dois do jornal O Estado de S. Paulo, J.B. Medeiros. Boa noite, Herbert Vianna. Você está lançando um novo disco. O Paralamas está lançando um novo disco. Você poderia contar para nós como é o novo disco e um pouco do que ele vai ser?

 

Herbert Vianna: Boa noite. Boa noite para quem está assistindo. Boa noite para todo mundo que veio. Obrigado. Fiquei bastante honrado de ter essas pessoas aqui para este programa. A gente está lançando um novo disco. Eu não lembro mais qual é o número. Eu não sei mais quantos são.

 

Matinas Suzuki Jr.: Seriam uns 15?

 

Herbert Vianna: Contando com todas compilações, que saíram dentro e fora do Brasil, talvez seja alguma coisa em torno 15. E esse disco [Vamo batê lata, de 1995] é um disco híbrido. Ele é metade ao vivo. Na verdade, é um disco ao vivo com um disco bônus. Dois CDs na mesma caixa e nesse disco bônus tem 4 músicas novas gravadas em estúdio. A gente queria há algum tempo ter um disco ao vivo, porque o único registro que a gente tinha da banda ao vivo era de 87, quando o João Fera mal tinha entrado. Então, era basicamente o trio ainda e a gente queria retratar esse momento, as coisas que a gente tem feito com os outros músicos. Nós temos um naipe de sopros, percussão e teclados. Um pouco porque existe quase um consenso de que os Paralamas funcionam melhor no palco do que no estúdio. Então, a gente queria registrar, tivemos uma temporada muito legal no final do ano passado.

 

Matinas Suzuki Jr.: Você acha que vocês funcionam melhor no palco do que no estúdio? Você também tem essa avaliação, como é que é?

 

Herbert Vianna: Eu acho que a gente é bom no palco. Acho que no estúdio a gente já teve coisas boas, mas a gente já cometeu alguns erros também.  Eu não sei, é mais frio o estúdio, é sempre uma negociação, o resultado de um disco é um mínimo múltiplo comum dessa negociação que é feita ali. E no palco não, as músicas que a gente grava, eu vejo que elas mudam muito, assim acaba virando outra coisa, porque a gente vai ao primeiro show e fala: “Hum, isso aqui não funciona”. Então, vamos subir o tom, vamos esticar essa parte, vamos não sei... Então, você vai dando uma forma orgânica para música, como a gente chama, que é ir tendo a resposta direto da platéia. Eu acho que no fundo no fundo a gente funciona melhor no palco.

 

Matinas Suzuki Jr.: Herbert, o disco anterior [Severino, de 1994] a esse vocês lançaram com uma semana de antecedência na Argentina do que no Brasil, se eu estou correto. Vocês têm feito muito sucesso, o Paralamas tem feito muito sucesso na Argentina e muito sucesso no México, na América Latina. Vocês estão num momento que vão voltar a investir na carreira do Brasil ou vão continuar com essa estratégia de crescer pelo mundo afora?

 

Herbert Vianna: A gente vai tentar, ambiciosamente, fazer as duas coisas ao mesmo tempo, porque a gente sente pela quantidade de pessoas que chegam: “Pô, o que houve? Acabou a tua banda?” Eu falo: “Meu Deus, eu nunca trabalhei tanto na minha vida”. Então, alguma coisa está errada. Mas a gente viu uma oportunidade na nossa frente, que eu acredito que nenhuma banda brasileira até hoje teve essa mesma oportunidade, por uma série de fatores. Pelo tipo de música que a gente estava fazendo, ou que a gente vem fazendo, pelo momento, pelas relações de amizades que a gente tem com músicos de outros países e tal. Os padrinhos que introduziram a gente, especialmente no caso da Argentina. A coisa tomou uma proporção muito grande. Então, a gente pensou: ou a gente investe todo o nosso tempo nisso e conquista uma coisa que é difícil e que sei lá, poucas pessoas... Hoje em dia, realmente, na América Latina eu diria que Roberto Carlos é um ícone. A Xuxa é uma campeoníssima.

 

Marcos Augusto Gonçalves: Nelson Ned.

 

Herbert Vianna: É, o Nelson Ned é um caso mais específico do México.

 

[Alguém cita Daniela Mercury]

 

Herbert Vianna: Daniela Mercury é muito grande. Ela é muito grande. Na Argentina, ela vende mais discos do que a gente, sem cantar em espanhol, sem esforço e sem tanto tempo, porque a gente toca na Argentina desde 86.

 

Maria Amélia Rocha Lopes: Há uma compreensão maior do trabalho do Paralamas nesses países latinos do que no Brasil? A crítica tem alguma coisa a ver com isso? Como que é a crítica aos discos do Paralamas fora daqui?

 

Herbert Vianna: Em geral é bastante boa. Agora, sabe que é curioso. Esse último disco da gente [Severino], por exemplo, ele foi visto no Brasil como um disco difícil um pouco comercial, experimental e tal. Na Argentina, virou piada isso. Falam: “Não é possível que você fala ‘eu quero beber duas margaritas’ e as pessoas acham isso hermético?” É platina na Argentina, ouro no Chile e na Venezuela. Está indo super bem em vários lugares.

 

Maria Amélia Rocha Lopes: Onde é que está o erro?

 

Herbert Vianna: Eu não sei. É uma questão de momento mesmo.

 

Nando Reis: Mas por outro lado...Assim, se há essa coisa da vendagem ou da relação com a crítica, da crítica com o trabalho de vocês... Eu vi o show de onde foi extraído esse álbum, no Palace, né? E fazia algum tempo que eu não via um show de vocês. A faixa etária do público era muito jovem. Então, é curioso, porque é uma maneira... As pessoas que eu vi ali tinham uma média de idade de 16, 17 anos.

 

Herbert Vianna: Tinham três anos de idade quando de "Vital e sua moto"...[cita primeiro sucesso da banda]

 

Nando Reis: Quando de "Vital e sua moto". Então, como você entende isso?

 

Herbert Vianna: Eu não sei. Falou-se muito disso no Rio, porque, recentemente, a gente tocou com o Barão [referindo-se à banda Barão Vermelho] no Metropolitan e a gente encheu duas noites. Assim, com 11 mil pessoas, sabe?

 

Nando Reis: Não é pouca coisa.

 

Herbert Vianna: É, para uma banda que não está....Cujo último disco foi, em termos relativos, um fracasso comercial, não tocou nada no rádio e que está, praticamente o tempo inteiro, fora do Brasil, é um feito. E a média de idade era muito baixa. As matérias nos jornais davam mais ênfase a isso até do que ao próprio show.

 

Washington Olivetto: Isso é curioso Herbert. Eu uma vez estava conversando com o André Milani. Ele me disse uma coisa que me chamou muito a atenção. Me falou um negócio da música. Uma primeira pergunta, que eu faço para qualquer grupo ou para qualquer cantor que vai se lançar, diz assim: “O que você faz é diferente dos outros? E o que você faz interessa pra gente de 11 a 18 anos de idade?” Se tiver esses dois componentes, você vai fazer sucesso. É curioso o caso de vocês. Uma coisa que eu tenho uma certa curiosidade. Em um determinado momento, certamente, vocês e o Lulu Santos, bem possivelmente, foram os artistas que melhor personificaram a coisa do pop, no sentido de fazer música de muito boa qualidade e extremamente popular.  E vocês, de um tempo para cá, realmente, se distanciaram disso, em termos do mercado brasileiro. Eu sinto que vocês mexeram no trabalho, mas, curiosamente, esse trabalho foi muito bem aceito fora, onde, bem possivelmente, a compreensão fosse mais complicada. O Paralamas talvez seja, hoje, o produto brasileiro, em qualquer categoria de produto, de maior sucesso no Mercosul.

 

Regina Echeverria: Herbert, deixa eu te perguntar uma coisa? A gente costuma dizer que o Brasil é o país mais distante da América Latina. Existe até um preconceito contra a cultura latina e tudo. Como foi para vocês entrarem nesse mercado e se depararem com essa outra cultura, que a gente mal conhece?

 

Herbert Vianna: Olha, isso acho que conecta com o que o Washington estava falando. Porque, para você chegar, essa coisa da mexida no trabalho, de chegar e interessar... Existe, hoje, quando a gente vê o lance geopolítico daqui. De onde vêm as bandas que cruzam fronteiras? Na nossa raia mesmo tem algumas bandas, tem duas bandas Argentinas excelentes, Cadillacs e Los Pericos. Tem uma banda mexicana que chama Café Tacuba e tem alguns outros exemplos. Mas, basicamente, incluindo os Paralamas, são essas quatro bandas que transitam na mesma raia, assim, com elementos de reggae, com elementos de não sei quê, com coisas regionais também. É aquela coisa de pinta na tua aldeia e pinta internacional também, ou que seja, eu acho que a gente tem alguma coisa para eles que é diferente. Existe na Bolívia a versão local dos Rolling Stones, do U2 [banda irlandesa, surgida nos anos 80], como a gente tem no Brasil bandas que, de uma certa maneira, reverenciam esse tipo de coisa e que é legal. Se você gosta do Led Zeppelin [banda de rock britânica, sucesso na década de 70] e quer tocar Led Zeppelin para o resto da sua vida está ótimo e maravilhoso para mim.

 

Matinas Suzuki Jr.: Herbert, foi a partir do momento que vocês começaram a usar naipe de metal, absorveram mais a percussão, ritmos do Caribe e tal. Foi esse momento que permitiu que vocês saíssem? Ou já havia sinais anteriores para seguir esse caminho?

 

Herbert Vianna: Havia um sinal muito claro. Quando a gente gravou Selvagem [álbum de 1986], "Alagados" [principal sucesso do álbum Selvagem] estourou em português em vários lugares e a gente quase ganhou, sem nunca ter ido ao Chile, sem fazer nenhuma promoção, sem vídeo, sem nada, a gente quase ganhou, em português, um disco de ouro no Chile. Chegou bem próximo. E eu lembro de ler num caderno de esportes de um jornal, quando estava tendo a Copa América lá, na sessão de esportes o cara falava: “É incrível a popularidade aqui no Chile da banda Paralamas do Sucesso. Onde a gente chega está tocando 'Alagados'. Em todos os lugares.” Então, isso foi o que levou a gente a ir tocar nos subúrbios de Buenos Aires pela primeira vez, em 86, em uma época em que a gente tinha um disco que no Brasil que vendeu 750 mil cópias, que foi o Selvagem. E a gente ia para Buenos Aires, não tinha dinheiro para levar roadie, não tinha nada. A gente tocava como era na época do Rose Bombom [uma das principais casas noturnas de São Paulo nos anos 80].

 

Astrid Fontenelle: Mas isso foi uma opção de investimento em trabalho? Tem várias bandas que eu conheço que já viajam para o exterior, tocam em Londres, vários brasileiros, que pensam que estão tocando para um público estrangeiro e estão querendo fazer o mercado lá.  Vocês são uma banda que tem uma consciência, a gente viu agora, recentemente, que vocês foram para Londres. Você tem uma consciência de que não adianta investir nesse mercado. Você foi tocar no (...) [incompreensível] , você falou que foi lá para se divertir.  Você vai fazer uma turnê no Japão e você vai lá, certamente, para se divertir, ganhar um dinheiro, mas você investe, você não investe nesses outros mercados, vocês concentram muito o trabalho na América Latina. Então, você não foi tocar nesse barzinho capenga de Buenos Aires à toa?

 

Herbert Vianna: Não, a gente sabia, a gente sabia.

 

Marcos Augusto Gonçalves: Na verdade, acho que o Paralamas faz um trabalho na América Latina com vistas ao México e com vistas à área latina dos EUA, está certo?

 

Astrid Fontenelle: É isso?

 

Herbert Vianna: É, mas, basicamente, se a gente se intitula...

 

Matinas Suzuki Jr.: Nós ainda vamos ver o Paralamas naquele canal Espanhol.....[risos]

 

Herbert Vianna: A mais forte. Como chama? A Televisa mexicana? Já ligou amigo da Filadélfia: “Pô, estou te vendo aqui”.

 

Astrid Fontenelle: Por ser uma emissora mundial, a única banda que a MTV latina conversa com a gente, hoje, sobre a qual ela tem interesse absoluto é o Paralamas. Hoje em dia, não é?

 

Herbert Vianna: Pois é, para gente não perder o fio. Se acontecer alguma coisa nos EUA, a gente fez uma turnê no final do ano passado, a nossa melhor turnê, tocando em um lugar legal em Nova Iorque. A maioria, obviamente, era de brasileiros, mas a gente não...O nosso lance é aqui mesmo. A América do Sul, a América Central, no máximo, é o nosso lance. A gente sabia disso desde o começo. Agora, se alguém me dá uma passagem para eu ir tocar no Japão, eu quero ir, eu sou louco para conhecer o Japão.

 

Washington Olivetto: Agora, tem uma lógica profunda no que você coloca, sobre o sentido que os grupos [da América Latina] que você citou, que andam na mesma praia do Paralamas, e que fazem sucesso hoje nesses países. No Brasil, não estão acontecendo.

 

Herbert Vianna: Mas, no Brasil, não acontece praticamente nada.

 

Washington Olivetto: Não acontece Fito Paez [músico argentino], por exemplo, no Brasil.

 

Herbert Vianna: Não acontece. E Fito, na Argentina, durante uma época, era visto como um tangueiro, era visto com preconceito. É justamente essa virtude que as pessoas de fora vêem nele. Muita gente fala: “Ah, eu gostava do Paralamas quando era rock”. Para gente não interessava isso. Tudo que a gente, que as nossas limitações permitiam fazer dentro de rock já tinha sido feito. Depois do punk, na Inglaterra, uma dezena de bandas fizeram muito melhor do que a gente. O que a gente conseguiu fazer com propriedade e com uma certa originalidade é o que a gente está tentando fazer hoje.

 

Washington Olivetto: É, eu acho que vocês foram os que melhor misturaram tudo isso. O Gil fez isso um pouco.


JB Medeiros:
E você acha que é preconceito o fato, por exemplo, do jovem brasileiro não gostar de "Dos Margaritas" [música do álbum Severino, 1994], que é sucesso na Argentina, é um preconceito do brasileiro?

 

Herbert Vianna: Olha, visto de fora. O Brasil é visto pelos latinos assim...No mundo onde eu transito, o que eu ouço o tempo inteiro é que o Brasil é arrogante, o Brasil é extremamente reverente aos EUA, que nada que não seja em inglês ou português vai funcionar aqui, que trata muito mal e que os turistas brasileiro deixam... Assim, como a gente tem imagem do turista Argentino aqui. O Nando [Reis] sabe disso, eles [referindo-se a banda Titãs, da qual Nando Reis era componente] tocaram com a gente na Argentina. É um público extremamente carinhoso, de uma fidelidade...O Marquinhos sabe também. É incrível, se na Argentina você mata um leão, você não mata dois leões. No Brasil, se você não mata um leão todo o dia você não é nada. É incrível. É até excessivamente condescendente, no caso da Argentina, a adoração deles, não digo por nós, mas pelos músicos, ou por Guillermo Villas [tenista argentino] ou por Gardel [Carlos Gardel é o mais famoso cantor de tango argentino. Ele viveu entre 1890 e 1935], que é o exemplo mais claro.

 

[Alguém cita Diego Maradona, jogador de futebol]

 

Herbert Vianna: O Maradona, os caras vão buscar qualquer teoria que... . Charly Garcia [músico, cantor e compositor argentino] uma vez colocou fogo na cortina de um hotel em que estava tendo uma convenção peronista. É, às vezes, excessivamente condescendente. No dia seguinte estava no jornal: “A Charly todo se perdona”. É, às vezes, excessivamente, mas é um tipo de carinho que é exatamente o oposto da imagem que a gente tem dos argentinos. Então, é errôneo o brasileiro pensar que lá fora as pessoas vêem os brasileiros como a gente imagina que os brasileiros são: alegres, samba, descontraídos, não sei o que lá. Não é assim. É visto com preconceituoso, fechado, arrogante e que se acredita como melhor do mundo. Melhor do mundo no futebol. Eles até falam de uma forma errada: "Brasil mais grande do mundo", tentando imitar o brasileiro, eles falam assim.

 

Matinas Suzuki Jr.: Você falou que "Alagados" foi um ponto de partida, nós estamos com o clipe do "Alagados" no ponto vamos dar uma olhadinha nele? Para rememorar.

 

[passa trecho do clipe de "Alagados"]

 

Matinas Suzuki Jr.: Herbert, esse clipe, você tem alguma lembrança especial dele ou não? Foi um clipe que você... Porque antes do programa você estava dizendo que tinha clipes que você não gostava, dos que vocês fizeram. Esse é um dos que você não gosta?

 

Herbert Vianna: Não...

 

Astrid Fontenelle: A gente estava comentando aqui que os primeiros clipes eram um lixo. Eu queria saber se você tem interferência, hoje em dia, no trabalho? Pelo que você falou, vocês não tinham interferência nenhuma, vocês iam lá e gravavam.

 

Herbert Vianna: Não, na época que o Fantástico [programa da Rede Globo] produzia seus próprios clipes, se você quisesse um outro clipe, para passar em outra emissora, você tinha que fazer outro. Você não podia usar aquele e eles faziam com diretores deles, de acordo com uma certa estética e era de moda na época. Essa coisa da historinha, de atuar, de não sei quê. Pô, a gente é péssimo, péssimo, nunca pode esperar isso da gente. Então, foram alguns dos clipes horrorosos. Esse não, foi dirigido pelo Roberto Muller, que é um cara que está fazendo um home vídeo que vai sair. Aliás, vai sair o primeiro vídeo-laser brasileiro desse concerto, que é o disco ao vivo da gente.

 

Matinas Suzuki Jr.: Como é que é a sua relação com vídeo clipe? Quer dizer, você acha que é uma coisa, você acha obrigatório fazer e, então, você faz? Você gosta de fazer? Você acha importante?

 

Herbert Vianna: É importante, mas eu não tenho nenhum prazer especial em fazer e não tenho nenhum prazer especial em ter. Eu não sou muito...eu não gosto muito de televisão, eu não gosto muito de entrevista. Eu gosto é de fazer, é de tocar, é só o que eu gosto mesmo.

 

Washington Olivetto: Vocês, por terem esse espaço maior em diversos países, os clipes de vocês tem investimento maior? Vocês podem gastar mais?

 

Herbert Vianna: Hoje, sim, porque os clipes... Por exemplo, o clipe "Dos margaritas" chegou em segundo lugar na MTV latina, que é gerada em Miami e que chega em todos os lugares. Uma coisa muito engraçada. Teve um outro clipe, de uma versão de "Carro velho", em espanhol "Coche viejo", que foi gravado um pouco depois da partida Brasil e Holanda, que Bebeto fez aquilo depois do gol [faz gesto de embalar uma criança, imitando o jogador Bebeto em sua comemoração ao gol que dedicou ao filho recém nascido]. E eu fazia isso e fiz assim com a mão de tetra não sei quê. A gente foi tocar numa cidade na Venezuela, um lugar chamado Barquisimeto, fomos os primeiros artistas brasileiros a tocar nessa cidade. E quando a gente chegou lá, que a gente tocou "Carro velho", a platéia inteira fazia isso e levantava os quatro dedos. A MTV latina tem muita força.

 

Washington Olivetto: "Carro velho", na Venezuela, estava se sentindo em casa, né? [risos]

 

Herbert Vianna: E a gente tocou perto da fronteira. Ali, onde tem os garimpeiros, era um Texas amazônico, maravilhoso.

 

Nando Reis: Vou te perguntar uma coisa, assim... A gente está diante de uma situação aqui no Brasil sobre o rádio. O que toca no rádio, o que não toca, nós estávamos falando de duas maneiras. Em primeiro lugar, eu queria saber se o sucesso de vocês lá fora, como ele se dá nas rádios locais das cidades? E o que você entende sobre, a sua opinião sobre o panorama do rádio hoje, que é uma coisa instransponível? E quanto isso é prejudicial aos artistas novos. Tem-se um playlist, que está fechado em 30, ou menos artistas, a maioria deles tocando pagode, no atual momento, e a impossibilidade de um artista novo adentrar esse...

 

Herbert Vianna: Ou um artista velho como eu. [risos]

 

Nando Reis: É, então, queria que você respondesse sobre vocês no rádio lá fora e vocês no rádio aqui dentro.

 

Herbert Vianna: Não, no rádio lá fora é muito bom, é muito. Já houve momentos de eu chegar a achar que a gente tem, que o nível de sucesso que a gente tem na Argentina é proporcionalmente maior ao máximo do que a gente já teve no Brasil. De não poder andar na rua, esse tipo de coisa, e toca muito no rádio. E o que eu gostaria que acontecesse com o rádio no Brasil é mais ou menos o que está acontecendo com o mercado de discos, de setorizar, terem selos, rádios independentes, esse tipo de coisa, porque é meio ovo e galinha. Eu não sei se a rádio determina o gosto das pessoas ou se o gosto das pessoas é que faz a rádio. E as rádios que apostam em determinadas coisas crescem subitamente de audiência. Então, daqui a pouco estão todas iguais. Aí, uma tenta mudar, a audiência cai. Ou, então, faz uma revolução. Eu não compreendo, também não ouço muito, porque senão eu fico angustiado, porque não ouço nenhuma música da gente. Então, eu realmente, eu não tenho opinião sobre isso. Não consigo formar opinião.

 

Maria Amélia Rocha Lopes: Agora, Herbert, no começo você ligava para algumas rádios pedindo para tocar aquela música do Paralamas. Pedia para a sua empregada ligar falando que queria ouvir. Nos últimos tempos, você ficou tentado a fazer alguma coisa, quando não tocou o disco seu?

 

Herbert Vianna: Atualmente, acho que talvez eu esteja um pouco ocupado para ficar ouvindo rádio e ligando. Mas eu acho que não, eu sou tentado a deixar para ver até onde vai dar.  Porque eu tenho consciência de que existe um paradoxo muito grande numa banda que... Isso é um fato interessante de mencionar. O nosso último disco [Severino] vendeu muito menos do que normalmente a gente vendia até então. Ele vendeu 55 mil cópias até agora. E pelo relativo fracasso desse disco, um outro disco que tinha 30 mil cópias parado, que era uma compilação que a gente lançou 4 anos atrás, começou a vender nos últimos oito meses. E agora ele tem 280 mil cópias vendidas. É um disco de platina. Então, 280 mil pessoas saíram de casa e compraram um disco que não tem nenhuma propaganda, não tem um single, não tem nada.  E todos os shows da gente, a gente está fazendo muitos shows e sempre tem muita gente. Então, tem algum paradoxo, mas eu nem gasto o meu tempo pensando nisso.

 

Astrid Fontenelle: Ou seja, o que alavanca o Paralamas são os shows ao vivo?

 

Herbert Vianna: São os shows, eu acho.

Astrid Fontenelle: Por isso você se rende ao fato de que são melhores no palco do que no estúdio?

 

Herbert Vianna: Eu me rendo pelas evidências.

 

Matinas Suzuki Jr.: Agora, Herbert, tem mais gente aplaudindo...Vendo você e conhecendo você há algum tempo... Isso não é para você, eu acho que você programou um modo de ser artista, um modo de atuar, um modo de fazer o seu trabalho, que ele não oscila com as verdades. Quer dizer, em determinado momento você não mudou o trabalho ou vocês não procuraram mudar, porque aquele caminho estava dando certo etc e tal. Quer dizer, eu acho que há uma trajetória própria natural. Essa trajetória própria, que tem que passar por esses altos e baixos de sintonia com o mercado. Você não pensa?

 

Herbert Vianna: Eu me consolo vendo algumas pessoas que eu gosto muito. Por exemplo, eu adoro o Tom Verlaine [guitarrista americano, líder da banda Television], acho que ele é um monstro, que é inacreditável, que tem uma banda que eu gosto. Já o Sting [músico britânico, vocalista e baixista do The Police] não, porque vem de... Mas, enfim, várias coisas que eu gosto muito. E Jeff Beck [guitarrista americano, tocou em várias bandas nos anos 60] nunca vendeu muito disco e para mim é um, é uma coisa importantíssima. E, então, eu me consolo com isso. Eu falo: “É, tem gente que é assim. O Tom Verlaine nunca vai vender e nunca vai deixar de ser maravilhoso”.

 

Astrid Fontenelle: Mas como que a gravadora se consola com isso, porque imagino que role uma pressão?

 

Herbert Vianna: A gravadora se consola com as nossas vendas de fora. E eu acho que, hoje, pelo fato dessa compilação da gente no Brasil, que é antiga, começou a vender e vendeu bem; colocou a gente numa posição de força de novo para dizer.

 

Astrid Fontenelle: A gente sente isso que existe uma força.

 

Herbert Vianna: A gente vai negociar, sabe?

 

Astrid Fontenelle: Em outras bases.

 

Nando Reis: Até parece que a gente está falando, o tom que está caminhando essa conversa, como se você fosse um artista que não vendesse discos [risos]. Estamos diante de um fenômeno.

 

Washington Olivetto: Ao contrário, o Paralamas, como alguns artistas brasileiros, ele tem um público que, em princípio, compra disco do Paralamas. Agora, realmente, a coisa do rádio, eu acho que nesse momento ela faz falta. Eu acabei de ler esta semana um livro fascinante, sobre a vida de Orlando Silva [um dos maiores nomes da música brasileira da primeira metade do século XX. Carioca, ele viveu entre 1915 e 1978]. O livro é muito interessante. Inclusive, quem está vendo este programa fatalmente se interessa por música e o livro é legal, o livro é chamado Nada além. Interessante, uma história que, em 1938, não existia televisão, não existia nada. Só com o rádio o Orlando Silva botou 15% da população de São Paulo na rua, ouvindo o concerto dele na rua, que é um fenômeno, assim, ensandecido. E, hoje, realmente, eu acho que falta essa coisa que o Herbert tinha falado, de diversificação, de ter o trabalho. Agora, coisa de ídolo Herbert, tem uma coisa que é muito curiosa. Inclusive, nesse teu público fixo, você exerce um monte de influências. Um dia você fez uma música que diz assim: que você não gostava dos óculos. Um monte de rapazes tinha o mesmo problema. Aí, você operou os olhos, você foi pioneiro nisso. Você teve conhecimento de gente que operou os olhos por sua causa?

 

Herbert Vianna: Ah, sim, em um círculo próximo, sim. Várias pessoas, o Léo, por exemplo, Léo Jaime [cantor e compositor], o irmão do João Barone, a esposa do pai do Bi [Ribeiro].

 

Washington Olivetto: Eu vi um garoto de dezenove anos, por isso que te perguntei. Ele me falou, ele operou porque você tinha operado.

 

Matinas Suzuki Jr.: Como um, míope, como o míope que se identificava muito com você, a operação deu certo? Foi um sucesso, você não regrediu, você não precisou operar outra vez?

 

Herbert Vianna: Não, eu fiz no final de 85 e foi super bem. Mas eu encontrei pessoas que vinham falar comigo: “Pô, eu soube da sua operação, sei que mais um amigo meu fez, pegou infecção e perdeu a vista". Eu já ouvi.

 

Washington Olivetto: Bom, eu operei o menisco porque o Wlamir Marques [atleta da Seleção Brasileira de Basquete, foi vice-campeão do Mundial de Basquetede 1954] tinha operado [risos].

 

Herbert Vianna: É mesmo. Então, eu falava : “Eu não tenho nenhuma responsabilidade sobre esse tipo de cirurgia, pelo amor de Deus”. [Risos]

 

Regina Echeverria: E por que você está de óculos? Você podia tirar.

 

Herbert Vianna: Não, mas esse óculo não tem grau, esse óculos é de onda.

 

Marcos Augusto Gonçalves: Posso te fazer uma pergunta sobre você fora dos Paralamas? Você teve um disco solo [Ê Batumaré, de 1992], e você teve uma ameaça de trabalho com Gilberto Gil. Você poderia me falar um pouco, que dizer, você pensou em um determinado momento, em definitivamente, fazer uma carreira solo ou aquilo foi só uma experiência? Gostaria que você me falasse como foi a relação do  Gil, que teve problemas ali, e enfim...

 

Herbert Vianna: Sobre carreira solo não, eu sou gregário. Eu não consigo, eu não conseguiria, são os meus melhores amigos. Bi é o meu maior amigo desde pequeno, a gente, o nosso sonho era comprar uma Kombi, viajar pelo interior do Rio, pegar tomada e tocar.  Então, a gente, hoje, está fazendo a mesma coisa numa escala maior, com o mesmo espírito, e eu não saberia fazer, e acho que não teria nenhum prazer de fazer. Eu vejo muitas pessoas que vieram de bandas, e que a banda acabou, e o cara reclama de tudo, fala: “Não, porque isso é um saco”. Eu realmente não tenho a menor curiosidade de fazer isso.

 

Marcos Augusto Gonçalves: Mas você fez um disco?

 

Herbert Vianna: Fiz um disco solo, que foi feito entre duas turnês, entre o estouro do primeiro disco da Argentina, em espanhol, e a turnê de os Grãos [Os grãos, álbum de 1991], que a gente estava fazendo no Brasil. A gente não tinha tempo para encontrar. Então, eu tinha um gravador de 8 canais em casa e eu adoro tecnologias, fui o primeiro que conheço a comprar um gravador de 4 canais, bateria eletrônica, não sei quê, pela possibilidade de fazer uma maquete da música em casa sozinho. É um prazer para mim muito grande. Então, eu comecei a brincar com esse gravador. Em um determinado momento, eu achei que aquilo tinha uma certa cara e que para aquilo se tornar um disco do Paralamas, ele teria que passar, inevitavelmente, por aquela tradicional negociação. De que aqui precisa isso, aqui precisa aquilo, e eu pensei: não, ele tem uma cara boa e eu quero que ele seja assim. E lancei. Bem nessa época estava começando a se falar em selos no Brasil. Eu achei que era uma forma boa de dizer como é possível, e como é fácil, e como pode ser, em termos relativos, barato gravar disco. E como o equipamento, hoje, é muito mais acessível para se gravar. Porque você pode ter, hoje, em casa, por muito pouco dinheiro, em termos relativos, mais tecnologia do que os Beatles tiveram para gravar.

 

Marcos Augusto Gonçalves: O caso do Gil, aliás, houve teve um estouro de uma música sua com ele, "A novidade", e como foi a sua tentativa de trabalho com o Gil? Você produziu um disco, não é isso?

 

Herbert Vianna: Eu produzi um disco do Gil e até a gente falou...Uma vez eu falei sobre isso, naquela matéria da Folha, e o Gil ficou chateado, porque ele disse que não lembrava que a coisa tivesse sido daquela maneira, que ele não... Aí, a gente conversou, não sei o quê...Eu amo, eu me sinto muito próximo do Gil, a gente tem alguns momentos sensacionais. Eu até ilustraria essa história com um momento extremamente emocional, uma vez que o Gil estava tocando em Londres e eu fui em um ensaio falar com ele. E ele falou: “Eu gostaria que você tocasse hoje de noite”. Aí, eu fiquei surpreso e falei: “Claro, eu sei todas as músicas suas”. E ele falou: “Eu vou tocar três sambas antes. Depois, eu vou tocar todos os reggaes, todas as coisas. Aí, você pode entrar, liga a guitarra e toca até o final”. Então, eu falei: “Ótimo!” Quando eu fui chegando no show, era em Leicester Square [quadra tradicional de Londres, com cinemas, bares e restaurantes], e estava, do lado, tendo um preview de Back to the future 3 [filme, De volta para o futuro 3]. E a princesa Diana [Diana Frances, princesa da Inglaterra, morta em 1997] estava. E não sabia, eu vi aquela multidão e falei: “Caramba, o Gil é um estouro na Inglaterra!” [risos] E no momento que eu estava entrando no lugar, a Diana estava saindo. E estava, inclusive, o carro, parado na porta do cinema. Bom, enfim, eu entrei, o Gil tocou os três sambas e ele me chamou: “Eu gostaria de ter um filho, hoje, tocando comigo no palco, porque Londres é a cidade onde nasceu o meu filho Pedro, morto no Rio de Janeiro”. O peso de uma declaração de um pai, falando de um filho nascido em Londres, morto no Rio de Janeiro, e de me chamar para tocar guitarra, que ele queria ter um filho no palco, foi um dos momentos mais... E eu vi que ele estava muito emocionado. Aí, ele contou: 1, 2, 3,4 e começou a tocar "Palco". Foi uma, para mim, aquilo foi uma coisa. Eu nunca vou ser grato o suficiente pelo Gil ter me deixado participar desse momento, enfim. Aí, fui trabalhar com o Gil algumas coisas e o Gil tem um ritmo de trabalho muito diferente. Eu cheguei muito ansioso, com a responsabilidade e a vontade de fazer, e estava começando a surgir. Quer dizer, começando a aparecer. Já existe há muitos anos, mas estavam começando a aparecer esses ritmos, que acabaram se tornando um estouro da nova música baiana. Eu falava: “Gil, você tem uma responsabilidade de informação musical muito grande, você traz o bojo do trabalho”. Ele traz muita informação o Caetano [referindo-se a Caetano Veloso], está muito no texto, e do Gil, tem uma coisa musical muito forte, além. E, aí, entro e não. "Pois é, mas não, eu tenho preguiça, não quero ir lá".

 

Washington Olivetto: Só um detalhe nesse seu comentário.

 

Matinas Suzuki Jr.: Só um minutinho Washington, por favor, enquanto você contava essa história do Gil, nós vimos cenas do clipe da música "A novidade", que foi a música que vocês fizeram.  Você poderia falar um pouquinho dessa música, como ela foi feita?

 

Herbert Vianna: Ela foi feita...A gente compôs a música com a melodia. Eu falei: “Ah, não consigo mais espremer o cérebro para sair letra pro Selvagem”. Eu falei: “Vamos mandar pro Gil”. Ele estava em Florianópolis e a gente mandou a fita, que chegou para ele 10 da manhã. Duas da tarde ele ligou: “Ah, tenho um negocinho aqui!” Leu a letra e, aí, foi....

 

Astrid Fontenelle: Existe a possibilidade de você trabalhar de novo com o Gil, de fazer um trabalho com ele?

 

Herbert Vianna: Sempre, a gente é um namoro e o Gil tem essa coisa... Ele é como um, é aquela pessoa que você se sente bem em estar perto, porque ele emana bondade, tranqüilidade, sabedoria, carinho. Sabe isso? Você se aquece ao sol da grandeza dele, é uma...

 

Washington Olivetto: A sensação que eu tenho, Herbert, talvez até influenciado pela oportunidade que eu tive de te pedir um negócio. Uma vez, eu pedi para o Herbert fazer o "País tropical" do Jorge [cantor e compositor Jorge Ben Jor] com o Paralamas. Eu disse: “Olha, é para um comercial e isso tem uma versão de 2 minutos, tem uma versão de 1 minuto e tem uma versão de 30 segundos”. E o Herbert me mandou as fitas cronometradas no tempo, começo, meio e fim. Assim: 2 minutos, 1 minuto, 30 segundos e feito na casa dele. Eu tenho a sensação que você trabalha muito fácil e trabalha muito bem com tecnologia. O seu trabalho é sempre muito prático assim?

 

Herbert Vianna: Eu não trabalho nem fácil nem sou um expert em tecnologia. Eu gosto, mas eu trabalho muito. Eu vou todo dia, saio de casa, atravesso a horta e vou para o lugar onde estão os meus equipamentos. E fico ali, todos os dias. E a minha mulher fala isso para mim: “Eu não consigo acreditar na ..."

 

Washington Olivetto: Tenho a impressão que você não sofre com o trabalho.

 

Herbert Vianna: Não sofro. Eu tenho um prazer inacreditável. Eu me sinto, desde que eu comecei a tocar, só tocar, porque antes eu fiz arquitetura, eu trabalhei com urbanismo, e tocava ao mesmo tempo. Desde que eu comecei só a tocar que eu me sinto de férias. Eu não preciso de férias, porque eu estou sempre de férias. Eu tenho um prazer incrível de fazer isso, o tempo inteiro para mim.

 

Astrid Fontenelle: Herbert, nessa categoria de projetos paralelos, os Titãs tem um selo super bem sucedido, que é o Banguela [selo lançado em 1994, Banguela Records, que revelou outras bandas como Raimundos]. Você não tem vontade de ter um?

 

Herbert Vianna: Eu acho que a gente não tem competência. Eu admiro muito os Titãs em vários aspectos. Primeiro, admiro porque acho que a média é incrível, pegar 8 brasileiros com a mesma média de inteligência e de senso de humor. Eu realmente...

 

Matinas Suzuki Jr.: Quebraram a estatística [risos].

 

Herbert Vianna: Quebraram, é inacreditável, mas eu tenho muito prazer de estar com o Titãs e o Titãs afetou a nossa convivência, que cresceu muito nos últimos anos. Eles afetaram até o meu modo de falar, eu falo “meu”, por causa deles, porque eu não falava antes. Comecei a ficar assim por causa do Titãs. O senso de humor deles me afeta e me excita muito. E eu admiro muito como eles conseguem uma.... Agora são sete, eu falei oito [risos]. Mas eu admiro muito a organização interna do Titãs, admiro muito a distribuição e como eles conseguem. Acho até que levou muito tempo para que os Titãs fizessem discos solos, porque são muitas pessoas que contribuem para fazer um disco só. Eu acho que o disco do Nando, que está saindo agora, é estupendo. Acho que o disco do Paulo [Paulo Miklos, componente da banda Titãs] é muito legal também. Eu tenho uma admiração muito grande pelo Titãs, uma espécie de inveja positiva. E, dentro disso, inclui essa capacidade prática, organizacional, de fazer um selo. Sabe, de ter banda de abertura em show. A gente não tem por preguiça ou por excesso de complicação nos equipamentos. A gente é um pouco desleixado nisso e os Titãs não, fazem questão, mesmo com cenário, com equipamento complicado, botam lá uma banda abrindo, sabe. Ouve a banda local mais interessante e bota. Eu admiro muito isso neles. Eu acho que eles são uma coisa estupenda.

 

Matinas Suzuki Jr.: O Nando que agradecer em nome da família [risos].

 

Nando Reis: Sim, claro. Eu queria te perguntar: porque esse ponto de vista?

 

Washington Olivetto: Afora que a Banguela está comprando a Warner e a Sony [citando grandes gravadoras].[Risos]

 

Herbert Vianna: Vou falar em off, porque eu tenho uma sugestão [risos]. Não, eu soube que estavam propondo para o Banguela comprar o Raimundos e passar não sei, talvez para a Warner. Eu acho que o Banguela tinha que vender e ganhar muito dinheiro, vender por muito caro.

 

Nando Reis: Esse é um assunto tão complicado que não cabe aqui [risos]. Mas o que eu queria que ... Nesse ponto de vista, que a Astrid falou, e que a gente está falando, é que nós vamos classificar Titãs, Paralamas, Barão como uma geração que surgiu no começo de 80, veio até aqui e no quanto a gente se relaciona. E a geração sucessora, que pode ser exemplificada com o Raimundos, esse tipo de acesso que a gente está dando e tal. Eu queria ouvir de você, o seu ponto de vista, embora você tenha citado a sua relação com o Gil, no que você enxerga da contribuição dessa geração, do que a gente praticou nesses 10 anos, para aqueles que vieram antes da gente, que eram tidos como a seleção canarinho. Então, eu falo Caetano, Gil, Chico Buarque, como para o público, não exatamente para mim. Que você dissesse o que você acha da contribuição para maneira como a música popular se tratava até o surgimento dessas bandas e o que isso significa e tem de relevante?

 

Herbert Vianna: Olha, eu acho que, entre alguns aspectos, um muito interessante...Primeiro, a presença e a instabilidade que criou, os mais inteligentes foram para as danceterias da época com suas bandas e disputavam o mesmo espaço que a gente. Isso era espetacular. O caso mais notório foi do Caetano e do Gil, que nunca, em nenhum momento, para nada de novo, eles viraram e disseram não. E como foi na época. Porque muita gente disse isso, não sei o quê, não vai durar, isso é sub música, não sei o quê lá. Mas isso é uma bobagem, que não deve ser discutida por pessoas inteligentes. O lance, eu acho que a música brasileira se tratava muito mal tecnologicamente. Brasil era muito distante, bandas como as nossas obrigaram que as pessoas tomassem consciência de que a luz é uma parte interessante do show, de que a qualidade da produção de discos, a melhoria dos estúdios, a exigência dos equipamentos até o limite...E isso obrigou, na época que a gente não tinha acesso aqui, que cada pessoa que viajasse trazia escondido de baixo do braço um equipamento que melhorava sei lá o quê. E eu acho que, hoje em dia, o fato do Caetano e de Gil, que são os eternos exemplos de adaptação ao futuro sem se alterar estruturalmente, trazem fulano e ciclano, trocam a banda, músicos novos, sensacionais e não sei quê. Eu acho que essa é a forma mais saudável de ser, porque, da mesma época, tinha pessoas nas suas coberturas, nas suas Mercedes, e não sei o quê, reclamando de tomar o espaço, como cheias de pretensão de que não... "Como é que vocês não estão contentes com o que eu dou para vocês? Porque vocês não precisam disso". Eu acho super bacana você sempre duvidar da qualidade do que você faz, dizendo: Não, pode ser que o que eu faço, não está falando para mais ninguém. Por isso que eu duvido muito quando vejo que não toca no rádio. Eu acho que é justo, vai ver que o que a gente está falando não interessa para mais ninguém.

 

Maria Amélia Rocha Lopes: Herbert, dá licença, só um pouquinho, é uma coisa rapidinha. Voltando um pedacinho. Se vocês tivessem organização suficiente, você estava falando disso um pouco antes dessa resposta, quem é que vocês acham, entre as bandas novas, que seria legal para abrir um show dos Paralamas?

 

Herbert Vianna: Pô, tem muitas coisas das que não são conhecidas. Eu acho que a gente tem um filão, assim. Acho que, sei lá, algumas coisas que a gente fez no nosso trabalho, no decorrer desse tempo, apontaram para direções que, hoje, são confirmadas pelo Skank, Chico Science, Mundo Livre s/a e até um pouquinho pelo Raimundos. Eu vejo um certo “desenvergonhamento” de assumir um puteiro em João Pessoa, sei lá o quê. Só de se falar esse tipo de coisa... Cachorro na feira, coisa que a gente fazia, assim, o que a gente faz. Então, eu acho que essas bandas são bandas que já têm uma vida própria e tal. No Rio, tem várias coisas legais que, recentemente, no Metropolitan, a gente convidou uma banda muito legal. Eu produzo demos, eu não tenho capacidade de fazer isso num selo, não sei o quê, mas eu sempre produzi discos de várias pessoas e em casa, no meu estúdio, eu sempre estou trazendo gente para gravar, para fazer demos. Levo demos e sabe, quando Nelson Motta era da Warner, várias vezes eu fui encher o saco dele. Tinha um cara que achava que eu era a versão nova do Orlando Silva, um amigo meu que era um grande poeta e canta assim [solta a voz como se cantasse ópera] ... Não sei. Eu queria, mas ninguém se interessou [risos].

 

Washington Olivetto: O que você ouve em casa? Que tipo de música você ouve?

 

Herbert Vianna: O que eu ouço em casa? Eu ouço muito, eu sou muito mau comprador de discos. Então, eu venho basicamente recomprando.

 

Matinas Suzuki Jr.: Mau comprador porque você compra pouco ou porque você seleciona mal mesmo?

 

Herbert Vianna: Eu compro pouco.

 

Nando Reis: Ou por que ganha muito? [Risos]

 

Herbert Vianna: As possibilidades são tantas e eu fico meio perdido acabo tendo preguiça de entrar em loja de disco. Então, o que eu tenho feito é recomprar os clássicos, ou os que mais me marcaram a vida, em CD. Mas eu ouço, esses que eu falei no começo, ouço muita música brasileira. Agora, os dois discos que mais tenho ouvido ultimamente, que eu acho que são impressionantemente bons, são: Clube da esquina e Gerais. Esses discos em casa não param de tocar.

 

Astrid Fontenelle: Você ouve as músicas do Paralamas em casa?

 

Herbert Vianna: Eu ouço muito o Ê Batumaré. Eu tenho muito prazer em ouvir aquele disco e ouço muito Os grãos , que eu acho que é o disco mais legal que a gente já fez.

 

Matinas Suzuki Jr.: Herbert, você falou, nós falamos aqui, de Caetano, de Gil, das bandas novas, da contribuição de todas elas. Deveria estar aqui entrevistando você e teve um problema não pode vir, o Waly Salomão, que foi o seu parceiro e que você homenageia em uma música. Você poderia falar um pouco sobre o Waly Salomão, que é uma figura que meio que tem uma trajetória peculiar na música [risos].

 

Herbert Vianna: É, bom, no caso da homenagem da música, ele me mandou... Teve um dia que ele me ligou, por nada assim, e falou: “Pô, eu estou ouvindo muito o seu disco solo e gostei muito”. E, aí, ficou aquela, o Waly inflamado, [risos], teve até um negócio na Casseta, na revista da Casseta popular: “Onde está o Waly Salomão?” Que era ele, no meio de uma praça, falando [agita os braços] e todo mundo correndo, se afastando [risos]. E ele falou, falou e falou: “Vou te mandar meu livro, Armarinho de miudezas”. Ele me mandou o livro, eu estava indo para Buenos Aires, para fazer umas versões em castelhano com o Fito. E eu li, comecei a ler o livro no avião, e li o livro, devorei o livro entre Rio e Buenos Aires. Fiquei muito impressionado, porque eu me considero uma pessoa com a mente muito ordinária, no sentido de que minha mente não é muito criativa, embora eu seja um culminante, que pega as coisas e vai burilando os detalhes. Mas acho que o Waly, assim como outras pessoas muito inteligentes, que às vezes não conseguem ter a mesma consistência, por isso funciona bem a combinação, que acho que não é o caso do Waly, que ele é extremamente realizador. Mas ele tem a capacidade de circular, dar um 360 em torno dos objetos e ver as coisas de um ângulo que pessoas como eu não vêem. Então, quando uma pessoa como essa te dá um input desse, você começa a pensar em outras possibilidades sobre um monte de coisas. Eu fiquei realmente boquiaberto. Acho que é um livro maravilhoso. É sobre várias coisas que, realmente, eu era ignorante. Fiquei muito entusiasmado e, na música, o que eu falo é isso. “Seguiu adiante deixando os pedaços, como a poesia de Waly Salomão”.[Cita trecho da música "Cagaço", do álbum Severino, de 1994] Porque é caco para tudo quanto é lado, mas são coisas que aparentemente são desconexas, mas é como um vitral. Você se afasta e você vê o painel que ele está tentando traçar. É um pouco como letra de música também, porque às vezes você pode escrever: “Eu quis dizer, você não quis me escutar, então, não me peça”. [Cita trecho da música "Meu erro", do álbum O passo do Lui, de 1984] Com aquela coisa linear. E às vezes você pode fazer um caco, sabe? Arremessar um monte de imagens diferentes e com aquilo você forma uma imagem. E você é capaz de descrever sentimentos ou sensações abstratas que levariam a uma Bíblia descrita de uma forma linear.

 

Matinas Suzuki Jr.: Você compõe muito em cima do que você está vendo, daquele momento, das coisas que você está lendo? Ou compõe também a margem disso e, depois, reaproveita? Você tem um sistema de trabalho?

 

Herbert Vianna: Não. Se eu não fosse taurino e obstinado, eu iria produzir um disco e nunca mais iria fazer nada, porque as idéias não me vêm com muita facilidade. Eu preciso me esforçar muito e ir até as idéias.

 

[Alguém pergunta se ele começa pela música]

 

Herbert Vianna: Não, tenho...Às vezes uma frase boa, às vezes um acorde inusitado, começa um colorido ali e tal. Mas eu preciso muito de ler, e eu leio muito, ouvir música, determinado tipo de música. Fito Paes é uma coisa que eu ouço muito e me inspira muito. O disco novo do Nando é uma coisa que me motivou muito para eu começar a escrever algumas coisas. E cinema também. Várias letras no disco Bora bora [1998] tem referência meio cinematográficas.

 

Matinas Suzuki Jr.: Nós vamos fazer um ligeiro intervalinho e voltamos com o Roda Viva, que hoje entrevista Herbert Vianna. Até daqui a pouco.

 

[Intervalo]

 

Matinas Suzuki Jr.: Voltamos com o Roda Viva, que hoje entrevista o cantor e compositor Herbert Vianna, do Paralamas do Sucesso. Hoje, nós não estamos recebendo perguntas, porque este programa foi gravado. Herbert, eu queria mudar um pouco o tom da nossa conversa. Eu queria perguntar o seguinte: você é filho de militar. Provavelmente, você cresceu numa época em que os militares tinham uma presença muito forte no cenário político brasileiro. Hoje, o que você vê dos militares no jornal é uma coisa quase que patética, porque o militar aparece no jornal para reclamar de salário, para reclamar das péssimas condições em que eles estão etc. Como é que você vive isso? Como é que é isso na sua casa? Como é essa transformação do ambiente militar chegou até você?

 

Herbert Vianna: Bom, o meu pai, ele é uma pessoa muito importante para mim, é uma referência muito grande na minha vida, é um ser humano espetacular. Um cara com senso de justiça, que tem uma capacidade de trabalho, de ajudar as outras pessoas, impressionante. Eu até hoje só vi coisas, exemplos, assim, extraordinários, de gente muito humilde que meu pai, em várias ocasiões, fez, às vezes, muito em sacrifício próprio ou do tempo dele para ajudar. Ele é uma pessoa extraordinária. Eu tenho por ele, assim, o maior amor do mundo e uma admiração crescente. A nossa relação não pára de melhorar. Eu tenho a sorte de ter uma família muito legal. E ele é um aviador. Antes de ser militar, ele é um piloto, um cara que tem, como eu tenho também no sangue, o amor pela aviação e o fascínio por um objeto voando. Um piloto muito bom. Depois de muito tempo, agora ele não está mais na Força Aérea mas, no final, ele, escondido, me levava, porque em aviões militares você não pode fazer isso. Mas ele algumas vezes me levou para ensinar a voar, ensinar a fazer acrobacias. E eu vi o último vôo dele. O último vôo oficial foi uma coisa muito emocional para gente. Então, eu sempre vi o meu pai como uma pessoa muito boa e um amante da aviação. Eu nunca consegui ver, até porque a gente morava em Brasília na época da revolução. Teve a época da revolução dos sargentos, em que o meu pai foi preso. Foram dois oficiais presos só, porque Brasília começou a revolução antes. Eles tinham cortado as comunicações com o resto do Brasil.  Eles começaram lá e o resto do Brasil eles cancelaram. Então, só aconteceu em Brasília. Ele foi preso. Eu lembro dos tanques na rua, a minha mãe desesperada, não sei quê. Mas nunca chegou dentro de casa a imagem de um militar, ou de uma pessoa que fosse participante de um regime, ou de uma coisa que existiu no Brasil. Para mim, ele sempre foi um ser humano... Eu tenho a mais absoluta certeza que os valores humanos do meu pai e o código moral dele são a prova de qualquer coisa.

 

Matinas Suzuki Jr.: Só para... Hoje, por exemplo...

 

Herbert Vianna: É que eu falo demais, eu vou chegar lá. Hoje, o que eu vejo é que o que a gente tinha, sendo o meu pai um capitão da Força Aérea, hoje, um capitão não tem. Então, a quantidade de pessoas intelectualmente preparadas que estão saindo ou que não estão mais optando por uma carreira como oficial é muito grande. Então, o nível vai caindo. Você vê por como são as bases aéreas, pelos aviões da Força Aérea, por praticamente não ter mais combustível para voar, por um monte de coisas. Então, o padrão do oficial, do militar, eu vejo assim, até onde eu tive convívio com a coisa, foi caindo. Então, eu acho que não teria, assim, nem ameaça de um golpe militar no Brasil. Eu acho que hoje em dia não teria mais, até por falta de preparo. Eu não digo que os anteriores...Não vou dizer que o Burnier [Referindo-se a João Paulo Penido Burnier, que ficou conhecido como torturador do Regime Militar] foi uma pessoa genial, era, sei lá... a história já fez o juízo dele.

 

Regina Echeverria: Herbert, eu li uma declaração sua, é de 91 essa declaração, dizendo que a única coisa que te tirava do sério era a situação do Brasil. Eu queria saber, exatamente, a que você estava se referindo e se ela vale hoje? A situação do Brasil te tira do sério?

 

Herbert Vianna: Bom, eu sou... Hoje eu sou otimista, quero acreditar que..Mas eu tenho muito medo, assim. Eu acho que, eu moro no Rio, e agora tenho um filho, e a minha perspectiva, que em 91 eu não tinha, a minha perspectiva mudou muito. Eu tenho muito medo, eu vivo com medo. Todo o dia que eu saio de casa, eu comecei a rezar muito de manhã. Agora, assim, pelo medo, para mim eu não peço nada. Eu tenho dois braços, duas pernas, eu posso, a minha carreira pode cair, pode acontecer tudo, só não gostaria, porque eu acho que eu não tenho preparação para isso, de ver esse braço da violência, que é tão evidente, tocar as pessoas. Eu não gosto de ver, ponto final, mas não suportaria, nem teria estrutura, se tocasse as pessoas que me são mais queridas. Então, é isso que peço, só. Eu sou apavorado com isso, em vários momentos eu considerei seriamente a possibilidade de não morar mais no Brasil.

 

Regina Echeverria: O que te preocupa é a violência?

 

Herbert Vianna: É a violência.

 

Regina Echeverria: Ou algo mais?

 

Herbert Vianna: A coisa, hoje em dia...Quem mora no Rio não tem espaço para nada mais, porque é muito violento. Eu acho que um país, quando existe uma área dentro daquele país e que está claramente fora do controle do governo federal, isso caracteriza um estado de guerra civil. Alguma coisa precisa ser feita e nada é feito. Sabe? Essas operações...Não está acontecendo nada. Há um recrudescimento incrível da violência e você não está protegido de nada. É incrível. É Líbano.

 

Matinas Suzuki Jr.: Herbert, você vai muito à Argentina. Brasil e Argentina adotaram planos econômicos parecidos. Como é que você vê a situação de um e de outro diante dessas?

 

Herbert Vianna: Olha, Argentina tem 7% de analfabetismo. É o país que mais lê na América do Sul. São 33 milhões de habitantes. Então, é óbvio que é muito mais fácil de controlar. Agora, o Buenos Aires é uma coisa e o resto da Argentina, o interior, é outra coisa. Você tem uma sensação de atraso muito grande, porque, no Brasil, a gente tem uma quantidade muito grande de cidades, onde você tem essa sensação cosmopolita que você tem em Buenos Aires. Então, é muito mais fácil para eles manter ou controlar as coisas e Buenos Aires é uma excelente vitrine para isso. Então, eu acho que eles têm mais estrutura nesse aspecto. Agora, eles não têm a capacidade de produção que o Brasil tem. Então, eu acho, em longo prazo, que se o Brasil atacasse o problema da educação com seriedade acho que, em longo prazo, não iria ter comparação. O Brasil iria muito mais longe. Eu acho que há sensação de segurança na Argentina, mesmo que o tempo inteiro eles estejam na borda do precipício. A sensação de segurança e a confiança das pessoas é maior.

 

Matinas Suzuki Jr.: O que você acha do Menem? [Carlos Menem, presidente da Argentina entre 1989 e 1999]

 

Herbert Vianna: Eu acho ele horroroso. Eu acho horroroso.

 

Astrid Fontenelle: E dos políticos brasileiros? Você tem essa música nova aí, Lula. [Referindo-se à música "Luis Inácio (300 picaretas)", do álbum Vamo batê lata, de 1995]

 

Herbert Vianna: "Luis Inácio". É uma letra quilométrica. Eu falei a letra pro Nando. Não, eu acho que o Congresso Brasileiro é uma palhaçada.

 

Astrid Fontenelle: Letra quilométrica e teria mais para falar. Isso também te tira do sério? Por que você fez uma “letraça”.

 

Herbert Vianna: Me inspira, mas é... Eu acho que enquanto você obrigar... Na letra, basicamente, não basicamente, mas em um momento fala isso, que enquanto você trocar um pé de sapato por um voto num país como o Brasil, que tem uma taxa de analfabetismo tão grande, você nunca vai acreditar na seriedade daquelas pessoas que estão ali. E todo mundo sabe da podridão que é. E eu morei em Brasília muitos anos, sabe?  Então, eu sei, porque eu via meus amigos de escola chegando de carro oficial na escola e tudo que era feito era com dinheiro das pessoas que pagam imposto. Então, Brasília é uma ilha mesmo e está fora do alcance. Eu queria que o Congresso fosse na Cinelândia, ou na Praça da República, porque com ovo e tomate as pessoas iriam poder expressar aquilo que elas pensam. Porque ninguém pode expressar nada, está fora sabe? Chega ali e está protegido. É horroroso.

 

Astrid Fontenelle: O ovo e o tomate iriam sair do mercado.

 

Herbert Vianna: Iria sair do mercado. Mário Covas iria ter um.

 

Jotabê Medeiros: Você é de João Pessoa, não é? Paraibano. E só mais recentemente que esse, pelo menos as referências, são mais diretas a sua cultura nordestina que é o Ê Batumaré, seu disco solo, e o Severino. Você chegou a crescer na Paraíba?

 

Herbert Vianna: Não, eu ia te dizer isso. É exatamente por causa disso. Eu nasci lá por casualidade. O meu pai, sendo piloto da Força Aérea, ele estava sempre mudando, sendo transferido e calhou dele viver os anos na Paraíba onde nós três nascemos, nós somos três irmãos. Nascemos com um ano de intervalo de um para o outro. Hermano, mais velho, Élder o mais novo, e eu, no meio, temos um ano de intervalo. E a gente foi para Brasília. Eu cheguei em Brasília com dois anos de idade, ou dois anos e pouquinho. Mas eu tenho a minha mãe que é Paraibana. Meu pai é Paraibano também. Foi uma coincidência muito grande da gente ter nascido lá. E a gente sempre ia de férias e tal. Eu tenho dentro de mim, pelo meu sangue e pela minha vivência lá, muito da cultura nordestina. Tenho uma admiração, sou absolutamente fanático por João Cabral de Melo Neto [diplomata e poeta pernambucano, viveu entre 1920 e 1999, é membro da Academia Brasileira de Letras] e foi lendo fora do Brasil Morte e vida Severina, que eu tive um negócio, que me fez ficar uma semana praticamente sem dormir, escrevendo, escrevendo. Desses textos, eu extraí o que resultou como as letras do Ê Batumaré.

 

Jotabê Medeiros: Você fez uma coisa que só o Caetano [Veloso] se dava o luxo. Às vezes resgatar pessoas que não são bem vistas, assim, no meio musical. Tipo o Zé Ramalho, por exemplo, você gravou uma música dele que é até um libelo assim.

 

Maria Amélia Rocha Lopes: É paz e amor ao Zé Ramalho.

 

Herbert Vianna: Para mim, marcou muito os dois primeiros discos dele. Eu acho que são absolutamente fantástico mesmo. Eu acho que ele é um grande músico. Eu adoro aquela música e acho aquela música maravilhosa.

 

Washington Olivetto: Herbert, fora da música, quem são os seus ídolos? Literatura, futebol, em tudo, cinema.

 

Herbert Vianna: Eu vou te dizer, o maior ídolo, acho que como 300 milhões de pessoas em volta do mundo ou mais, o maior ídolo que eu tive na vida foi o Ayrton Senna. [tricampeão brasileiro de Fórmula 1, morto em 1994, em um acidente, durante uma corrida em Bolonha, na Itália]. Maior, maior. Eu compro tudo que sai. Guardei todos os jornais, tenho tudo, porque um dia eu quero falar para meu filho: olha, eu quero que você leia isso aqui para você saber quem foi o maior ídolo do seu pai. Eu sou fanático, chorei como nunca não sei quê. Tenho todos os modelos de carro, tenho tudo do que se refira a Senna.

 

Regina Echeverria: O que você admira no Senna? O que você admirava no Senna?

 

Herbert Vianna: Eu não vou ser muito original no que eu vou falar. Eu acho que, eu até escrevi uma coisa, que está saindo na Folha ou já saiu. É um pouco como eu via, porque eu vi muito, na época que o meu filho nasceu, ele nasceu na Inglaterra, minha mulher é inglesa. Eu estava na Inglaterra e o Senna, ele era muito mal visto por alguns setores da imprensa inglesa. Então, saiam barbaridades que era completamente o oposto do que a gente pensava dele e de como a gente via, ou falando das mesmas coisas de um ponto de vista diferente. Então, eu escrevia para o Auto Sport [revista inglesa]. “Querido Nigel Roebuck [jornalista inglês] você é um idiota”. Não sei, não sei quê... [risos] Eu achava que a compreensão do Senna do Brasil, ou o amor, ou a dedicação, ou a noção que ele tinha da alegria que ele podia proporcionar, ou a responsabilidade da qual ele se investia, era muito bacana e um peso tremendo. E muito mais, assim, foram as coisas que apareceram depois da morte dele, a quantidade de trabalhos de ajuda para as pessoas. Mas a obstinação dele. Ser um brasileiro no exterior...É difícil para caramba.


Jotabê Medeiros: Nisso você se identifica com ele? Herbert, você, como ele, é um tipo popular que é considerado, talvez, um bom exemplo, porque você nunca foi pego no aeroporto com um pedaço de baseado, por exemplo. E você nunca botou fogo nas cortinas de hotéis. Isso é parte da sua natureza ou você nunca foi apanhado?

 

Herbert Vianna: Cara, eu não sei. Eu sou exatamente isso que eu sou 24 horas por dia. Eu sou assim. Não sei.

 

Astrid Fontanelle: Incluindo quando está em turnê, assim, no quarto de hotel? Só com aqueles amigos?

 

Herbert Vianna: Sim. Não, sério, eu acho as coisas que eu gosto são muito claras assim.

 

Regina Echeverria: Por que o Cazuza [cantor e compositor, que viveu entre 1958 e 1990. No incício da carreira foi vocalista do Barão Vermelho. Depois, seguiu carreira solo.] te chamava de primeiro da turma?

 

Herbert Vianna: Por causa disso mesmo. Agora, coincidentemente, com ele, que no começo, é um bom exemplo esse, que no começo, eu acho que a gente projetava, ou eu projetava para ele essa imagem. Depois, a gente foi se aproximando e, no final, teve momentos de muita intensidade na relação da gente. Uma vez eu ajudei a carregar ele para fora de um lugar, numa época que ele não podia mais andar. E essa música que está tocando no fundo do Cazuza, que ele regravou [toca ao fundo a canção "Quase um segundo", de Herbert Vianna], ele falava: “Essa música era para ter saído da minha cabeça e saiu na sua por acaso”. Me chamaram em casa para escutar os discos que ele estava fazendo. A gente teve uma amizade muito legal por um período, assim, no final da vida dele, relativamente curto, mas bastante intensa e muito legal.

 

Regina Echeverria: Você era o primeiro da turma?

 

Herbert Vianna: Eu fui o primeiro de tudo o tempo inteiro [risos].

 

Regina Echeverria: Em Brasília, você morava perto ou longe do Renato Russo? [cantor e compositor, viveu entre 1960 e 1996, quando era o líder da banda Legião Urbana.]

 

Herbert Vianna: Eu morava muito próximo. Era engraçado, ele morava na 303 Sul e eu morava na 104 Sul. Muito próximo. Ele foi uma vez na minha casa e a gente se conheceu muito pouco. O Renato era um cara muito tímido, muito retraído e a gente tinha um amigo em comum muito inteligente, que tinha o Renato quase que como um escravo. Eles tinham uma rádio fictícia, onde o Renato era um repórter de campo. Gelson Jorge, era o nome dele. Gelson faz isso, Gelson...[risos].

 

Astrid Fontanelle: Você estava naquela festa em Brasília....

 

Herbert Vianna: Não, eu já não morava mais em Brasília. Quando essas bandas, que vieram depois do Paralamas, como bandas de Brasília: Legião [Urbana], Capital [Inicial], Plebe Rude, não sei quê. Quando essas bandas aconteceram, eu não morava mais lá e meu contato com eles era através do irmão do Bi. Mas a gente ouvia e via. Eu lembro a primeira vez que eu ouvi um cassete do Renato numa festa cantando "Faroeste caboclo" [música da Legião Urbana]. Eu falei: “É inacreditável que isso exista e que seja desconhecido”.

 

Maria Amélia Rocha Lopes: Agora, Herbert, você acha que a sua imagem de bom moço, no melhor sentido, interfere?

 

Matinas Suzuki Jr.: Qual é o pior sentido? [Risos]

 

Maria Amélia Rocha Lopes: Interfere na maneira como o fato da crítica ver a sua música? Quer dizer, teria uma certa mistura, digamos, esse bom moço fazendo rock? Não, alguma coisa soa falsa. Será que existe esse tipo de mistura?

 

Herbert Vianna: Eu teria que achar que a crítica é muito pouco inteligente para que isso interferisse, mas isso seria acreditar que o velho estereótipo do roqueiro ainda fosse uma coisa válida.

 

Maria Amélia Rocha Lopes: E será que não pensam assim?

 

Herbert Vianna: Bom, os que pensam acho que nem contam no catálogo.

 

Nando Reis: Pegando uma carona nessa sua pergunta, sem querer reprisar o episódio que já foi comentado, você respondeu uma carta de um jornalista que fez uma crítica ao seu disco. Isso revelou uma intolerância, que ultrapassou o limite do que era tolerável da sua parte. O que você pensa da crítica?

 

Matinas Suzuki Jr.: Você chegou a dizer em um show, aqui em São Paulo, que a crítica de música estava querendo acabar com o rock brasileiro mas não conseguiria acabar, em uma espécie de desabafo.

 

Herbert Vianna: A coisa que me incomodava, e pelo qual eu já sai em defesa e sairia mais vezes, é porque se consagrou um tipo... Existe um extirpe de jornalistas, que data da era Tinhorônica [referência ao polêmico crítico musical José Ramos Tinhorão - ver entrevista com Tinhorão no Roda Viva] ou Pré-Escobárica, não sei, que celebra esse tipo de coisa, onde o cara precisa dizer. Eu já escrevi para os jornais muitas vezes em defesa, já escrevi por causa do Djavan, já escrevi porque...Uma vez para o cara falar mal do disco do Lulu [referindo-se ao cantor Lulu Santos], ele chamou o Lulu de cachorro. Isso pra mim é uma coisa inadmissível. Isso realmente me deixa indignado. Então, eu não admito isso, eu não admito que o cara, para falar mal do meu disco, diga que eu queira ser Judy Garland deitada, sabe [Judy Garland, atriz americana]. A coisa extrapola. O que eu acho que é aceitável, educado, acho que a coisa que eu mais prezo nas pessoas é educação e a generosidade. Quando vem a público para fazer isso comigo, ou com as pessoas que eu gosto, eu não admito.

 

Nando Reis: Eu queria te perguntar o seguinte: você tem em relação à crítica um otimismo? Você espera que alguém tenha um ponto de vista sobre o seu trabalho que seja superior ao seu próprio?

 

Herbert Vianna: Não, eu acho que seria arrogante, porque eu acho, obviamente, acho que o que eu faço tem um valor. Agora, se 90%, que não é até o caso, que tem gente que escreveu até sobre os discos, mas...

 

Matinas Suzuki Jr.: Essa briga entre a música brasileira e a crítica não é uma espécie de covardia? Porque a música brasileira é tão superior à crítica e isso vem sendo mostrado flagrantemente durante a historia. Quer dizer, eu não estou desmerecendo o trabalho dos críticos aqui, eu trabalhei durante muito tempo como crítico de música, mas você tem uma dimensão da música, de atuação, de força na cultura brasileira e um poder de influência tão grande que a crítica é quase como um exercício auto-insuficiente. Eu não acredito, sendo um homem de imprensa, uma pessoa que trabalha na imprensa, não acredito no poder, que muitas vezes me parece que os artistas tomam esse poder de uma maneira muito mais forte do que ele realmente é. Porque a música, no Brasil, é muito mais forte e os melhores críticos de música no Brasil foram os próprios músicos.

 

Herbert Vianna: Eu acho que você está absolutamente correto nisso, mas eu acho que dentro de um certo universo, a formação de opinião passa pela crítica, obviamente. Eu acho que tem pessoas...

 

Marcos Augusto Gonçalves: Venda de discos, essas coisas, show?

 

Herbert Vianna: Não, eu não acho, se você pegar os números de vendas dos jornais, isso representa muito pouco em termos proporcionais. Agora, eu duvido. Eu não conheci até agora uma pessoa que tenha tranqüilidade, ou segurança interior, para se ver atacado no jornal de uma forma covarde ou grosseira e isso não incomodar. Eu duvido. Incomoda, bate, dói, sabe? Pô, machuca mesmo e eu não nego isso. Não vou fingir que sou superior ao que eu sou. Eu não tenho esse tipo de grandeza. Gostaria de ter, de ser completamente superior e ignorar e passar. Mas isso precisaria, primeiro, da óbvia grandeza da qual eu estou falando. E, segundo, uma autoconfiança que eu não tenho. Eu não tenho confiança em mim para acreditar piamente na qualidade do meu trabalho ou do que eu vá conseguir fazer. Tanto que, pode pedir música pra mim que eu vou rir e vou dizer não sei. Se eu sentar para fazer uma música eu não consigo fazer. Às vezes me cai um raio na cabeça e eu consigo fazer alguma coisa. Eu não produzo tanto assim e não tenho essa confiança em mim para desafiar quem quer que seja, sabe. Fale mal que daqui a pouco você vai se ver. Eu poderia chegar na redação de um jornal com uma pilha de discos de ouro e de platina e dizer: "olha, isso aqui é o que eu fiz até agora e o que é que você fez?” Mas, ainda assim isso, não é o ...Até aprendi muito com algumas coisas que achei extremamente pertinentes mesmo e me ensinaram. Acho que isso poderia ser muito mais construtivo se fosse falado de outra forma.

 

Marcos Augusto Gonçalves: Você seria um bom crítico, Herbert?

 

Herbert Vianna: Não, eu seria péssimo.

 

Marcos Augusto Gonçalves: Você escreve bem.

 

Herbert Vianna: Mas eu gosto de croniquinhas, assim, de ilustrar. Eu acho que aquela do México, que eu falo até no Branco, não sei o quê [Cláudio Leal, ex-jogador da seleção brasileira, conhecido como Branco]. Acho que aquela, eu tenho um prazer nisso, tenho, gosto de escrever e faço isso regularmente.

 

Matinas Suzuki Jr.: Você lê jornal freqüentemente?

 

Herbert Vianna: Lei, leio, eu leio. Uma manhã boa pra mim começa com tempo para ler quatro jornais. Aí eu estou feliz.

 

Marcos Augusto Gonçalves: Sobre sua família. Como foi a sua recepção na família da sua mulher? Seja na família britânica, que é tão tradicional?

 

Astrid Fontenelle: Eu queria ampliar um pouco. Como foi a recepção da banda inteira na família britânica, já que o casamento foi lá?

 

Herbert Vianna: É verdade. Os pais da minha mulher são sensacionais também. Vêm de uma família muito legal. Eles são do campo. O pai dela é fazendeiro, são de uma família muito tradicional. E os ingleses, eles tem essa coisa estranha de tradicional, mas é tudo muito racional. Eles consideram todos os lados da questão antes. Mas eu imagino...

 

Marcos Augusto Gonçalves: No seu caso, considerar vários lados...

 

Herbert Vianna: Vários, vários lados, pois é. Eu imagino que se eu tivesse uma filha que desaparecesse para o Paquistão e voltasse: “Eu vou casar com um roqueiro paquistanês”. Eu iria pensar e iria falar: caramba, e agora? Iria ficar preocupado.

 

Washington Olivetto: Será que as moças inglesas que casaram com roqueiros ingleses foram, por exemplo, não foram tão mal sucedidas. [Risos]

 

Herbert Vianna: É verdade. Bom teve uma que casou, que... Mas enfim, eles foram extremamente receptivos e abertos. Foi muito legal e levou um certo tempo, por exemplo, para a Lucy me ver tocando a primeira vez, levou nove meses. Então... desde que a gente se conheceu até o primeiro show. Então, a gente teve um tempo fora daquele universo. E para eles também, quando eles vieram para o Brasil e viram pela primeira vez. Aliás, a primeira vez que eles viram foi no casamento, que a gente, com uma bandinha, lá pelas tantas, eu e o Bi, juntos, entramos e a gente tocou um monte de ska [estilo musical jamaicano], classic, algumas músicas dos Beatles, Paralamas e tal. O negócio explodiu de uma maneira...Ninguém acreditava que a gente era realmente músico. Eu tenho um cunhado, essa foi uma boa história no final, um cunhado que é advogado e que não é exatamente feliz por ser advogado. Ele se empolgou, bebeu demais, subiu no palco, começou a dar cambalhota e meu sogro, no final, falou: “Tudo bem, Herbert, agora todo mundo acredita que você é músico, mas ninguém mais acredita que o (?) é advogado”. [Risos] Mas eles foram sensacionais e, hoje em dia, eles adoram. Curiosamente, depois do casamento, algumas coisas começaram a atrair a gente para a Inglaterra. A turnê com o Brian May [guitarrista da banda inglesa Queen], a gente fez 12 shows na Grã-Bretanha com ele, foram 15 no total da turnê, dois na Holanda, 1 em Paris e 12 na Grã-Bretanha. Então, eles viram em vários lugares. Viram os dois concertos de Londres. Estava todo mundo, o meu sogro com bandeira do Brasil no ombro, sabe? E depois teve a gravação, a gente passou três meses na Inglaterra. Agora a gente tocou numa aqui. Então, é assim, pequenas informações começaram a chegar para eles de que era uma coisa legal.

 

Marcos Augusto Gonçalves: Seu filho já está tocando bateria ou não?

 

Herbert Vianna: Quem? O Luca? Não, o Luca gosta de enforcar gatos [risos].

 

Matinas Suzuki Jr.: Você, nós falamos aqui de várias gerações, você falou da família, está casado, tem filho etc e tal. Como é o envelhecimento para você? Quer dizer, nós vimos vários clipes em que você tinha mais cabelo, coisa e tal, essa coisa toda.

 

Herbert Vianna: Hoje, eu me preocupei. Um amigo meu, do Nenhum de Nós [banda gaúcha], ele falou, eu falei: não é uma entrevista. Então, vamos completamente não persona. E ele falou: “Tem uma câmera terrível, que vem lá de cima e fica rodando na direção”. [Risos] Aí, eu falei: então, reformulação dos planos [risos]. Lembrei de você sempre elegante [aponta para o Matinas Suzuki] e pensei: então, vamos ir...

 

Astrid Fontenelle: Mas você está mais elegante no palco também. Teve uma...Não sei se foi a Lucy, uma inglesa, se está casado com ela, mas está mais elegante.

 

Matinas Suzuki Jr.: Mas isso, eu imagino, é uma questão...Eu acho, para um roqueiro, quer dizer: como conduzir essa questão?

 

Herbert Vianna: Mas eu acho que é isso. A história do rock é uma história ainda em movimento. Os cânones não estão tão estabelecidos como... O Sting falou isso para mim, quando eu vim no lançamento da Anistia [Anistia Internacional, organização de direitos humanos], a gente teve, eu tive uma oportunidade raríssima de ficar numa sala pequena no Hilton com o Sting e o Peter Gabriel [músico britânco, ex-vocalista da banda Gênesis] conversando. Eles estavam indo para a Argentina e eles estavam muito curiosos. E fiquei falando: ah, fala que você gosta de Fito Paes que você vai bem [risos]. Enfim, ele falou esse negócio, que quando Elvis estava fazendo as coisas, a história estava sendo escrita naquele momento. Hoje, tem alguns erros clássicos ou acertos clássicos ou cânones que estão sendo quebrados ou reformulados. E um deles é...Acho que os Rolling Stones são o exemplo mais...

 

Washington Olivetto: Herbert, eu vi o Keith Richards [guitarrista da banda Rolling Stones] em Nova York. Não existe mais roqueiro velho no mundo. E olha que ele não é uma pessoa da vida mais regrada.

 

Herbert Vianna: De forma nenhuma. O André tem uma frase maravilhosa. Você citou o André antes. Ele falou pra mim, recentemente, ele foi ao show do Titãs: “Os Rolling Stones são a prova viva do que você pode ser... Você pode ter raiva, ser profissional e ser magro aos 50 anos”. [Risos] Maravilhoso isso. Então, acho que nesse aspecto profissional não tenho problema. Acho que qualquer pessoa que produza boa música vai... No aspecto pessoal, eu acho que qualquer pessoa que comece a sentir... Eu vou fazer 34 anos agora e não sinto em nenhum momento sinais de decadência física que me impeçam de fazer bem o que eu faço. Então, não tenho problema e espero, como dizem os ingleses, envelhecer com graça. Acho bacana cabelo branco. Acho bacana careca. Acho bacana continuar magro. Acho bacana, sabe, ser indiferente ao tempo. Eu acho isso, acho bonito, acho bonito ser velho, acho bonito um casal de velho, acho sensacional.

 

Matinas Suzuki Jr.: Está virando um britânico [risos].

 

Astrid Fontenelle: Eu queria falar um lance de trabalho de novo, porque você me falou que você fez a trilha do primeiro filme da Sandra Kogut [cineasta brasileira].  Então, assim, você não é tão péssimo trabalhador para os outros assim como você falou de si mesmo.

 

Herbert Vianna: É eu...

 

Astrid Fontenelle: É, eu queria que você contasse desse trabalho, porque trilha de filme...

 

Herbert Vianna: Isso é uma coisa legal. Há dois anos, um cara que chama Ennio Torresan, que trabalha para o Spielberg [cineasta Steven Spielberg], um brasileiro que trabalhava no estúdio em Londres, agora ele está no estúdio de Los Angeles. Inclusive, tem um desenho novo de animação do Spielberg, que é uma história de dinossauros. Ele é um dos animadores desse filme.  Ele fez um filme de 10 minutos que se chama El macho e ele me convidou para fazer a trilha sonora. Não tinha uma palavra no filme. Era só o desenho e a música. Então, era uma responsabilidade muito grande de dar as nuances do negócio. E eu fiz, achei que era legal, mas ganhei um Kikito [prêmio concedido no Festival de Cinema de Gramado], em Gramado, por causa disso, inesperadamente. E ele veio, eu nem sabia, ele veio um dia, no Canecão: “Olha aqui o teu Kikito”. Eu falei: que diabo é isso? Aí, ele me convidou, porque ele tinha escutado o Ê Batumaré e tinha gostado muito. Sabia que tinha feito em casa e citou também o anúncio da W [citando a agência de propaganda de Washington Olivetto] que também foi feito em casa. E, então, a Sandra me convidou para fazer. Eu já conhecia a Sandra há muito tempo. Ela trabalha esse clipe do "Alagados", da "A novidade", ela foi co-diretora. Ele também estava ouvindo muito Ê Batumaré, gostou e me chamou. E, aí, é um filme, o primeiro filme dela é um dos elementos de ponta dessa linguagem de vídeo no Brasil. Hoje, talvez um dos nomes mais bem projetados no mundo, bancada pelos franceses. Aquele projeto do Parabolic People foi uma coisa sensacional e rodou o mundo inteiro e tal. Então, quando ela falou: “Vou fazer o meu primeiro filme”. Eu falei: isso é uma coisa que eu acho que vai ser legal e eu gostaria realmente de participar. E é um filme que chama Lá e cá [1995], com a Regina Casé no papel principal. Se passa nos subúrbios do Rio, falando de uma pessoa que chama Raimunda, que agora está morando na zona zul e trocou o nome para Betsy, que vive ligando para ela em um orelhão, dizendo: “Pô, você tem que vir pra cá”. Ela vive falando: “Pô, lá é muito melhor, lá é não sei o que lá”. Então, como é tudo sobre um lugar remoto, eu fiz todas as músicas em castelhano ou inglês e algumas músicas instrumentais também. Estou super contente, fiquei tão empolgado, comecei a ouvir no carro e comecei a gostar e mostrei a alguns amigos, o pessoal gostou. Eu sei que comercialmente não tem nenhuma possibilidade, mas eu gostaria de lançar, porque pra mim deu prazer fazer, me dá prazer de escutar, então, eu vou lançar, vou tentar lançar em disco.

 

Matinas Suzuki Jr.: Herbert, você concorda com a tese do que o eixo da pop music, hoje, no Brasil, está no nordeste? Chico Science? [cantor e compositor, viveu entre 1966 e 1997, líder da banda Chico Sciense & Nação Zumbi, lançou apenas dois discos, tendo a carreira interrompida por um acidente de carro]

 

Herbert Vianna: Não, eu discordo que o Brasil tenha eixo. Acho que qualquer lugar onde o nego for dar um pouco de atenção e onde as pessoas locais tiverem um mínimo de acesso à tecnologia vai sair coisa boa. Porque tem tanta coisa legal no Brasil. A gente viaja, fica louco, a gente fala: precisamos usar mais. Hoje em dia, o ragga, esse tipo de reggae moderno, que é basicamente o baião, que é a música que incendeia qualquer pista no mundo hoje. É uma coisa que existe com outro nome no Brasil há muito tempo. Então, tem milhares de outras formas musicais no Brasil para serem exploradas. Então, eu não acho que o eixo...Acho que o foco está no nordeste, hoje. Botaram um spotlight lá, como teve na Bahia há pouco tempo. Mas, se em algum momento no Mato Grosso, sabe...Qualquer lugar vai sair música boa.

 

J.B Medeiros: Vocês tocaram no Marquee [Marquee Club, casa de shows de Nova Iorque] tem a ver com isso, e você disse, acho que na MTV, você acha que não há possibilidade é só uma curtição. Não há menor possibilidade de vocês emplacarem no mercado de língua inglesa, por exemplo. Por que você vê isso? Aquilo era só um diletantismo, tocar?

 

Herbert Vianna: Eu, realmente, não acho. Eu acho que esse tipo de mercado, eu também falei isso na MTV, ela pode ver o Paralamas como uma coisa exótica e as coisas exóticas elas tem.

 

Matinas Suzuki Jr.: Mas o Youssou N'Dour não era meio exótico também, não é uma coisa?

 

Herbert Vianna: Ah, mas ele grava em inglês  com a Neneh Cherry.

 

Washington Olivetto: Eu tenho impressão que esse pessoal, na verdade, eles usam palavras da língua de origem africanas e eles fazem música em inglês.

 

Herbert Vianna: Mas o Youssou N'Dour, essa é uma canção, mas não tem antes um exemplo que seja consistente de um sucesso na parada normal de uma coisa exótica. Tanto que o reggae é uma forma de música normalmente cantada em inglês e a primeira canção de reggae a chegar no primeiro lugar da Inglaterra foi "Dont turn around", do Aswad [gruipo britânico de reggae], que foi em 1988. O Bob Marley [cantor e compositor jamaicano, viveu entre 1945 e 1981.] nunca teve uma música que chegasse em primeiro lugar. Então, o exotismo é um problema e eu não acho que o que a gente faz é exótico, nem acho que a cultura que a gente representa, entre aspas, seja exótica. Então, não vejo possibilidades. É divertido ir lá, não sei quê, mas não vale a perda de tempo, que acho que não vai muito adiante. E acho que aqui a gente não toca... Lá, a gente vai e toca, os brasileiros saudosos... Agora, no Japão, eu imagino que vai ser assim também. Agora, os brasileiros saudosos vão lá, cantam e ficam alegres, tomam a suas cervejas e vão para casa. Agora, na Argentina, já houve casos da gente fazer concerto para 90 mil pessoas, 90 mil argentinos, em La Plata, capital da província de Buenos Aires. Isso é realmente uma conquista.

 

Nando Reis:  Vocês cantam em português?

 

Herbert Vianna: A gente vai misturando. Na hora, eu tenho preguiça de cantar tudo em castelhano. E as pessoas que conhecem o Paralamas antes falavam: “Ah, eu gosto muito mais em português”. Algumas músicas ficaram horrorosas em castelhano. Outras ficaram melhores do que elas eram originalmente. No caso, "Lanterna dos afogados", em castelhano, é muito bonita, ficou muito bonita, o som das palavras

 

Matinas Suzuki Jr.: Eu conheci uma pessoa de Barcelona que dizia: “Pôxa, ele vai cantar em espanhol, mas Espanhol da Argentina”. Essa era uma reclamação. [risos]

 

Washington Olivetto: Em Buenos Aires, há um fascínio com o português do Brasil. A expressão tudo bem é uma expressão que eles são fascinados por essa expressão.

 

Herbert Vianna: É verdade, é verdade. Mas nesse universo a gente era conhecido antes e era cultuado. Como os Titãs são conhecidos, como a Legião é conhecida, como, sabe? No universo pequeno, antes já existia em português. Agora, só passou a vender e a gente só passou a tocar em lugares grandes depois que veio...

 

Washington Olivetto: Traduzindo até o nome.

 

Herbert Vianna: Exatamente.

 

Nando Reis: Você sente com domínio suficiente e confortável para compor em castelhano atualmente?

 

Herbert Vianna: Eu estou começando sim. Eu, para falar, assim. Hoje em dia, eu consigo falar tudo que eu queira e tenho facilidade, modéstia a parte, facilidade para língua, porque eu gosto muito. Eu gosto, admiro as pessoas que vem no Brasil e fazem um esforço para se comunicar bem e falar o idioma local e tal. Falo bem castelhano e estou começando a compor, mas ainda não é o suficiente. Inglês, por exemplo, também. Eu vivo perfeitamente bem na Inglaterra, sem problemas com língua, mas poesia, eu adoro W. B. Yates [William Butler Yates, poeta e dramaturgo irlandêsmas] tem muita coisa que passa longe, eu não consigo. Aí é Lucy.. [referência à mulher inglesa]

 

 

Marcos Augusto Gonçalves: Herbert, me diz uma coisa, o fato de vocês terem estourado na Argentina, enfim, de ter essa carreira na América Latina, de alguma maneira, isso influencia a música de vocês está certo? Vocês compõem pensando também nesse mercado de alguma maneira. Uma vez, a gente conversando, você me disse até de um comentário de alguém de uma gravadora sobre a necessidade de que alguns discos, alguns arranjos, fossem para o mercado latino, de uma maneira diferente do que viriam para o Brasil. ["É verdade", diz Vianna]  Mas, enfim, com os backs, coisas desse tipo. Como é que é essa, como é que você transita nessa dobradinha, América Latina e Brasil, dentro da composição?

 

Herbert Vianna: É um pouco complicado, não só na composição, porque eu tento...

 

Marcos Augusto Gonçalves: E o arranjo? Como é que é o arranjo na música?

 

Herbert Vianna: O esforço que tem que fazer, eu acho, para não deixar essa coisa tocar o cerne da questão, que é a criação em si.Você criou, tem que ser uma criação genuína, uma emoção, ou um sentimento, ou um pensamento, um ponto de vista verdadeiro. Você faz, você gosta daquilo, ok. Agora, como é que a gente vai usar isso? E você começa a transitar nesse negócio. E eu gostaria de ter não só isso unificado como ter também o trabalho da gente unificado. Que a gente está trabalhando, sei lá, na Colômbia, uma compilação de 3 anos atrás. No México, está "Dos margaritas", agora o México afundou e não está mais nada, mas estava, e na Argentina eles estão na expectativa do disco que vai sair agora no Brasil. Então, às vezes, a gente vai para um lugar para fazer um programa de televisão, a gente chega lá e os caras: “Muito bem! Agora, a nova: 'Alagados'”. A gente voltou 3 anos, mas você vai e canta.

 

Washington Olivetto: O preço dos ingressos, por exemplo, Brasil, Argentina e Chile, é o mesmo?

 

Herbert Vianna: O preço do?

 

Washington Olivetto: O preço dos ingressos. O show do Paralamas.

 

Herbert Vianna: Não. Na verdade, na Argentina, dependendo do lugar é mais caro, porque tudo na Argentina é bem mais caro. Agora, o Brasil está chegando próximo. No Chile, não, é mais barato. No Chile, a economia regula um pouco mais com a economia mundial. A Argentina está ficando um pouco como Tóquio em termos de preços.

 

Maria Amélia Rocha: Os Argentinos falam Paralamas do Sucesso ou..?

 

Herbert Vianna: Los Paralamas. Eles chamam Los Guardabarros del Éxito, assim, de brincadeira. Mas cada lugar tem uma palavra para o objeto paralamas. Tem guardabarros, tapabarros e, no México, tem uma palavra que eu acho maravilhosa: salpicadeira. Aí, eu falei: a gente devia mudar o nome para Los Hermanos Salpicadeira.

 

Matinas Suzuki Jr.: Herbert, você tem visto jogo de futebol ou não?

 

Herbert Vianna: Eu vejo muito futebol.

 

Matinas Suzuki Jr.: O que você está achando dos novos jogadores do Brasil?

 

Herbert Vianna: Eu acho que a gente está bacana. Eu acho que o Brasil depois da...

 

Matinas Suzuki Jr.: Jogadores novos, Giovanni...

 

Herbert Vianna: Ah, o Bentinho do São Paulo, maravilhoso jogador. O Amoroso, do Guarani, é extraordinário. Sávio é um cracasso. Tem um jogador novo que quase acabou com a vida do Flamengo, Humberto, do Volta Redonda, muito bom jogador. Talvez o Flamengo contrate, tem gente...O futebol paulista é uma potência hoje, não é? Mas o Rio tem dado uma melhorada, o Botafogo tem bons jogadores também. Acho que vai bem, acho que a gente não tem muito que se preocupar não.

 

Matinas Suzuki Jr.: E o Romário, como é que você tem...

 

Astrid Fontenelle: Morador do Rio de Janeiro que você é, como você convive com a figura do Romário?

 

Herbert Vianna: Eu li uma entrevista do Romário na Playboy que me deixou muito comovido com a infância do cara e lendo aquilo, eu falei: está explicado tudo. E acho que é muito difícil ser Romário e ser um ídolo daquele calibre no Brasil. O Brasil lida muito mal com pessoas que vem muito de baixo e se fazem. Eu acho que é muito difícil. Senna era um príncipe, nasceu na classe abastada de São Paulo. Romário nasceu na favela do Jacarezinho, meu, é muito difícil.

 

Maria Amélia Rocha: Não ficou humilde, não é? Tem esse lado também, permaneceu humilde, tudo bem, não tem problema nenhum, é bem aceito.

 

Herbert Vianna: Mas, às vezes essa arrogância nesse nível, de tanta pancada que o cara leva, às vezes a arrogância é a única defesa que o cara tem.

 

Maria Amélia Rocha: Mas o brasileiro não aceita, em geral, o sujeito humilde que se dá bem.

 

Herbert Vianna: Bate tanto que o cara acaba se tornando... Mas se o país não deu para esse cara educação, se o país não deu para esse cara o mínimo, não dava um pão com mortadela no dia que ele ia treinar com o irmão dele.

 

Marcos Augusto Gonçalves: O cara deu o tetra [referindo-se tetracampeonato da Copa do Mundo de futebol] para o Brasil.

 

Herbert Vianna: É, o pai dele não tinha dinheiro, os dois treinavam no Vasco, o pai dele dava dinheiro para o ônibus, só tinha dinheiro para o ônibus, um pão com mortadela e uma coca cola.  Então, só podia ir um. Então, se tinha um jogo importante em que tinha que ir os dois, os dois iam de ônibus, mas não podiam comer um pão com mortadela e uma coca cola. Ele falou isso na entrevista. Alguém que está lendo isso aqui sabe o que é entrar numa padaria e olhar um sonho ou uma mortadela e não poder comer? Esse cara deu o tetra para o Brasil. O que é que o Brasil deu? O que é que o Brasil dá para os milhares de Romários que existem? Não dá nada, é um país muito cruel esse, as pessoas morrem no Brasil, o preço da vida é muito baixo. As pessoas morrem o tempo inteiro de formas absurdas, sabe. O irmão da Paula Toller [vocalista da banda Kid Abelha] morreu agora num acidente absurdo. A quantidade de causas que levam um acidente daquele leva a estrutura do país, sabe? O Brasil não tem ferrovia, o Brasil na época que tentou se instalar as bitolas era diferentes nos estados, o único transporte de carga é por caminhão, que é um transporte burro, que gasta muito, os caras são obrigados... ganham pouco e são obrigados a trabalhar muito. Tomam rebite para ficarem acordados, dorme bate e não sei quê, o cara estaciona do lado errado vem outro em alta velocidade atropela as pessoas que estão fora do ônibus. Quando você desestrutura um acidente como esse você vai ver um monte de coisas que poderiam ser evitadas. Então, o Brasil não dá nada para milhões de Romários. Romário vai lá e dá o tetra e chora sacou? Meu, valeu Romário!

 

Matinas Suzuki Jr.: Na Argentina você acompanha futebol, torce para algum time, vê jogos?

 

Herbert Vianna: Não, eu sou cortejado por vários. Porque eles cantam muito as músicas. É lindíssimo, cantam muito. Tem uma música do Fito que é linda e diz: “E dá-lhe alegria mi coraçón”. Cantavam muito uma versão de "Alagados" nos estádios de futebol. É muito bacana.

 

Matinas Suzuki Jr.: Todas as torcidas?

 

Herbert Vianna: Todas as torcidas. Então, a primeira coisa, um músico amigo meu me deu uma camisa do Boca, aí eu fui numa estação de rádio me deram uma camisa do Newell's Old Boys, aí não sei quê, me chamaram para assistir um jogo do River. Então, ficou... é assim.

 

Washington Olivetto: Só que no Rio você é Flamengo e em Buenos Aires também [risos].

 

Herbert Vianna: Exatamente. Comigo não tem essa diferença. Eu sou Flamengo.

 

Astrid Fontenelle: Até na Argentina.

 

Herbert Vianna: Até no Pólo Norte.

 

Matinas Suzuki Jr.: Bom Herbert, nós estamos chegando ao final do programa. Antes eu gostaria... nós já falamos de toda a sua vida, praticamente, e eu gostaria de perguntar para você sobre uma outra pessoa que eu gosto muito, que é seu irmão, o Hermano [Vianna, antropólogo], que é um intelectual, que eu admiro muito, e um interneteiro. Como é sua relação com ele? Como é que você vê o Hermano, porque eu já vi muito o Hermano falando de você em público e você falando.

 

Herbert Vianna: A minha relação com o Hermano não é via Internet, porque Hermano está sempre vários passos na minha frente e eu comprei, agora, em Nova York, para mim dois livros que são de uma série sensacional. É o guia para o idiota, Internet em CD-ROM. Então, eu estou lendo para ver se eu consigo falar um pouco com ele, que ele é bastante ocupado e os horários dele, eu acordo cedo por causa do Luca. Mas ele é um irmão extraordinário, o Hermano, das pessoas... Eu nunca tive a sensação tão clara da inteligência diante de uma pessoa como eu tenho diante do Hermano. É uma pessoa extremamente inteligente e com a capacidade incrível de buscar informações nas áreas mais estranhas e aparentemente desconectadas e juntar em teorias interessantes.  Ele é uma potência mesmo. Eu admiro muito ele, amo muito ele como irmão. Por eu ser naturalmente taurino, lento, não vou atrás das novidades do jeito que o Hermano vai, ele me alimenta muito, assim como o Bi também. O Bi é muito parecido nesse aspecto com Hermano, nessa busca do novo.  Ele sempre está me mandando, ele é muito didático comigo, escuta isso, olha isso, aqui não sei o quê. Há muito tempo atrás, Araketu, Chico Science, todas as coisas que acontecem no Brasil, o Hermano já me falou há muito tempo. E um exemplo cristalino desse negócio é que hoje a rádio do Rio de Janeiro é completamente dominada pelo funk. E existem todos os tipos de discussão sobre como o funk pode fazer parte da sociedade carioca de uma forma pacífica. Tem revista de funk, o Marlboro [DJ Marlboro] que é o cérebro do mundo funk, agora tem quatro estúdios digitais que funcionam 24 horas por dia. A produção é muito grande, a quantidade de coisa é muito grande. E o Hermano, há muitos anos atrás, detectou esse mundo e escreveu um livro. E quando a coisa estourou, na época dos arrastões e tal, a gente via o chefe de polícia, o prefeito do Rio com o livro do Hermano na mão. Lê aqui e depois sabe. Hermano é um.. Ele é tudo que você falou.

 

Matinas Suzuki Jr.: Herbert, eu queria te agradecer muito. Foi um programa delicioso de fazer, eu queria agradecer a sua atenção e lembrar que o Roda Viva volta na próxima semana, segunda-feira, às dez e meia da noite. Até lá,  uma boa noite para todos e uma boa semana.

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