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José Sergio Gabrielli

27/3/2007

Para a Petrobras, há claramente uma perspectiva mundial de crescimento dos biocombustíveis, diz o presidente da empresa que planeja investir na logística de distribuição do etanol

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Paulo Markun: Boa noite. Quem comprou achou que foi uma excelente oportunidade. Quem vendeu disse que foi uma oferta irrecusável. Assim, boa para os dois lados, foi realizada na semana passada uma das maiores operações empresariais já realizadas no Brasil: um consórcio formado pela Petrobras, grupo Ultra e Brasken comprou os negócios do grupo Ipiranga, um dos maiores e mais tradicionais do país no setor petrolífero. A operação teve o custo aproximado de US$ 4 bilhões. Para discutir os reflexos desse negócio no mercado e também o futuro do setor do petróleo no Brasil, o Roda Viva entrevista esta noite José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras, a empresa que capitaneou a compra da Ipiranga. José Sérgio Gabrielli, economista e doutor em economia, entrou na Petrobras em 2003 como diretor financeiro. De início, causou alguma desconfiança no mercado por conta da sua filiação ao PT [Partido dos Trabalhadores], mas aos poucos ganhou a credibilidade dos investidores. Em 2005 assumiu a presidência da empresa, que atingiu a auto-suficiência na produção de petróleo em 2006 e agora fortalece a sua presença no mercado com a compra da Ipiranga.

[Vídeo] [Imagens de refinarias, da Petrobras, de gráficos e de Sérgio Gabrielli] [Narração: Paulo Markun]

A mais antiga companhia de petróleo no Brasil, criada por comerciantes brasileiros, uruguaios e argentinos, montou a primeira refinaria de petróleo no país no Rio Grande do Sul, em 1937. A Petrobras surgiu 16 anos depois, em 1953, no calor da campanha “O petróleo é nosso” [frase pronunciada por ocasião da descoberta do petróleo baiano pelo então presidente da república Getúlio Vargas. Posteriormente, tornou-se lema da Campanha do Petróleo, patrocinada pelo Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e promovida por nacionalistas, que culminou na criação da petrolífera nacional Petrobras]. A essa altura, com decisão do governo Vargas de proibir a participação de estrangeiros no setor, a Ipiranga já tinha trocado sócios uruguaios e argentinos por novos investidores brasileiros. Mas o monopólio estatal não permitiu que ela ampliasse sua produção na refinaria e ela teve que diversificar os negócios para crescer. Nas décadas seguintes, através da petroquímica e da distribuição de combustíveis, a Ipiranga avançou. Em setenta anos de atividades, espalhou milhares de postos por todo o país, ocupando a segunda colocação nesse mercado, atrás apenas da BR. Considerada uma das marcas mais valiosas do país, mas com as dificuldades de uma empresa familiar com cerca de setenta herdeiros, a Ipiranga teve sua venda cogitada algumas vezes nos últimos anos. A espanhola Repsol e a venezuelana PDVSA [Petróleos de Venezuela], em suas investidas para entrar no Brasil, chegaram a ser apontadas como compradoras. A Petrobras também. Mas nenhuma negociação foi adiante, por falta de consenso entre os donos da Ipiranga. Só agora o negócio deu certo, através de uma engenharia financeira que exigiu sete meses para ser montada e da formação do consórcio encabeçado pela estatal brasileira do petróleo. A operação que agitou a Bolsa de Valores em São Paulo por suposto vazamento de informação teve seu custo de US$ 4 bilhões, divididos em US$ 1,1 bilhão para a Brasken, que pertence ao grupo Odebrecht, e US$ 1,3 bilhão para Petrobras, e US$ 1,6 bilhão para o grupo Ultra. As áreas de autuação da Ipiranga vão ser fatiadas entre os três compradores: o grupo Ultra fica com os postos entre o Sul e Sudeste, 75% do total, e mantém a marca Ipiranga; a Petrobras assume a rede de distribuição do Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país, com 25% do total de postos Ipiranga, que, depois de cinco anos, terão a marca trocada para BR nessas regiões. No setor de petroquímica a Brasken vai assumir a maior parte dos ativos da Ipiranga: 60%. A Petrobras fica com os restantes 40%. A refinaria Ipiranga no Sul será controlada em partes iguais pela Petrobras, Brasken e Ultra. Para compradores e vendedores o negócio teve significados diferentes, mas todos positivos. Os proprietários da Ipiranga se livram de um futuro incerto que a organização familiar representava e vão escolher cada um o seu caminho. O grupo Ultra, que tem 25% do mercado de gás de cozinha com a marca Ultragás, dá um salto em suas operações de distribuição de combustível. A Brasken, líder latino-americana de resinas termoplásticas, abre a perspectiva de se tornar uma das dez principais empresas petroquímicas no mundo. A gigante brasileira do petróleo, mais do que aumentar sua presença do setor de petroquímica e de distribuição de combustíveis, fecha bem mais a porta de entrada para concorrentes estrangeiros, especialmente a PDVSA da Venezuela, de Hugo Chávez, e José Gabrielli já mandou seu recado para os navegantes: "A Petrobras caminha para se tornar a empresa de energia líder na América Latina em 2015.".

[Fim do vídeo]

Paulo Markun: Para entrevistar o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, nós convidamos Guilherme Barros, editor da coluna Mercado Aberto do jornal Folha de S.Paulo; Cida Damasco, editora de economia do jornal O Estado de S.Paulo; Pedro Cafardo, editor executivo do jornal Valor Econômico; Cristina Alves, editora de economia do jornal O Globo; Luís Nassif, comentarista de economia da TV Cultura; e Ivan Martins, editor executivo da revista Época Negócios. Temos também a participação do cartunista Paulo Caruso, registrando em seus desenhos os momentos e flagrantes do programa. O Roda Viva é transmitido em rede nacional de TV para todo o Brasil. Para você fazer sua pergunta, sugestão e crítica, por favor, utilize o telefone 0xx11-3677-1310 ou 3677-1311, que é número do fax, mas você também pode usar a internet, acessando o site do programa. O endereço está aí na tela: www.tvcultura.com.br/rodaviva. E aí você manda seu e-mail. Boa noite, presidente.

José Sérgio Gabrielli: Boa noite.

Paulo Markun: Queria começar pelo seguinte: essa compra fantástica aí do grupo Ipiranga foi maculada nos últimos dias pela investigação a respeito do suposto vazamento de informações, cujo indício mais evidente foi o crescimento do valor das ações na antevéspera da compra. Eu sei que o senhor vai responder que isso está sob segredo de Justiça e o senhor, portanto, não tem muito como comentar, mas eu queria que fizesse uma avaliação um pouco mais abrangente. Qual é o mecanismo possível para se ter o controle desse tipo de vazamento, já que uma operação como essa envolve muita gente de muitas empresas? E, ao mesmo tempo, como é que o mercado não reage, digamos que quase que instantaneamente, quando isso se processa, quando algo desse tipo começa a pipocar?

José Sérgio Gabrielli: Olha, nós consideramos que essa eventualidade desse vazamento é uma coisa muito negativa para o mercado. Nós confiamos plenamente que a CVM [Companhia de Valores Mobiliários] vai penalizar e vai encontrar todas as maneiras de, exemplarmente, punir eventuais deslizes. Assim que nós fomos informados da eventualidade da possibilidade de participação de empregados da Petrobras - isso nós criamos uma comissão interna de apuração de fatos -, comunicamos imediatamente ao mercado isso, saímos com um comunicado na sexta-feira, e essa comissão que está em funcionamento... E mais do que isso não posso dizer até que a comissão se conclua.

Guilerme Barros: Presidente, nessa comissão afastou um gerente já...

José Sérgio Gabrielli: [Interrompendo] Não, esta comissão foi criada na sexta-feira à noite para apurar os fatos e nada mais do que isso, trabalhamos nesse sentido.

Guilerme Barros: Mas a Petrobras afastou um gerente...

José Sérgio Gabrielli: A comissão foi criada na sexta-feira à noite. Nada mais eu posso falar. Os processos estão em andamento e existe uma restrição do ponto de vista da CVM, que é um processo que corre em segredo de Justiça.

Cristina Alves: Qual é o prazo para ela concluir os seus trabalhos de investigação, presidente?

José Sérgio Gabrielli: A comissão interna da Petrobras tem o prazo de trinta dias para concluir os seus trabalhos.

Cristina Alves: E qual o trâmite depois, se for confirmado o benefício ilícito que esse gerente teria auferido?

José Sérgio Gabrielli: Olha, não estou confirmando nem...

Cristina Alves: [Interrompendo] Estou perguntando em tese.

José Sérgio Gabrielli: Se alguém da Petrobras está envolvido nisso, existem vários mecanismos de punição. Nós acreditamos que ele deve ser punido exemplarmente. Há um primeiro elemento que foge do âmbito da CVM, que é um problema de quebra de confiança e quebra do código de ética interno da companhia, que é motivo para demissão por justa causa. É uma possibilidade. A outra possibilidade é a situação da CVM, que é outra instância de avaliação, que é a avaliação interna dos impactos do comportamento eventual dessa pessoa no mercado financeiro.

Cida Damasco: Antes desses trinta dias...

José Sérgio Gabrielli: Objetivamente, do ponto de vista interno da Petrobras, nós temos que avaliar o comportamento em termos de ética e o comportamento em termos de confiança da empresa com seu funcionário.

Cida Damasco: Presidente, mas antes de trinta dias, nenhuma medida está sendo tomada? Será tomada?

José Sérgio Gabrielli: Não. A comissão foi criada, será criada na sexta-feira à noite...

Cida Damasco: Não houve esse afastamento desse gerente?

José Sérgio Gabrielli: Não posso comentar absolutamente nada.

Pedro Cafardo: Presidente, há alguma restrição a presidentes, diretores da Petrobras em ter ações? O senhor pode ter ações de qualquer empresa, inclusive da Petrobras?

José Sérgio Gabrielli: Não, nós temos... nossos gerentes são obrigados a comunicar mensalmente qualquer movimentação com ações à CVM. E gerentes e os diretores são, por razões da comissão de ética pública, proibidos de transacionar com ações da Petrobras. Os gerentes superiores. Nós temos três mil gerentes...

Pedro Cafardo: O senhor tem ação?

José Sérgio Gabrielli: Eu tenho uma ação da Petrobras.

Paulo Markun: Para poder participar... ?

José Sérgio Gabrielli: Para poder participar do conselho de administração, eu tenho uma ação.

Luis Nassif: Nesses sete meses, como é que foi feito esse... ? Esse grupo se juntou aí em sete meses?

Cida Damasco: Quantas pessoas da Petrobras tinham conhecimento dessa operação?

José Sérgio Gabrielli: [Interrompendo] Deve ter mais de cinqüenta pessoas da Petrobras, eu acredito, não tenho um número exato. Devem ser muitas pessoas, mas nós assinamos um acordo de confidencialidade, e cada empregado nosso é responsável por isso. Nós... portanto, isso é um elemento importante para manter a confidencialidade de uma operação complexa dessa, que envolve dezenas de pessoas.

Luis Nassif: Presidente, como é que foi feito... ? Porque os três grupos aí e a negociação com a Ipiranga... De que maneira foi montada a estratégia de divisão da Ipiranga? Quais as sinergias, quais os argumentos de cada lado para chegar àquele desfecho?

José Sérgio Gabrielli: Olha, nós... No que se refere à petroquímica e à Brasken, estamos dividindo: nós com 40% e Brasken com 60% da Petroquímica Ipiranga. Nós achamos que isso abre uma possibilidade de novos investimentos na área da petroquímica, isso cria um desembaraço de gargalos societários que existiam no Copesul [Companhia Petroquímica do Sul], onde a Ipiranga e a Brasken eram sócios majoritários e tinham um acordo de acionista dentro da Copesul, e a Petrobras era absolutamente minoritária na Copesul. Porém, esse acordo de acionistas tinha conflitos dos destinos a serem feitos na Copesul, e acreditamos agora que, com a parceria e a sociedade entre Petrobras e Brasken, a possibilidade expansão de investimentos na área da petroquímica é bem maior.

Luis Nassif: Só para entender um pouquinho, essa concentração no setor petroquímico que demorou doze anos para conseguir voltar abre espaço para ampliar a capacidade de investimento internamente ou eventualmente dá espaço também para vôos externos?

José Sérgio Gabrielli: Olha, acho que cada vez mais nós temos que analisar a petroquímica em sua dimensão, em primeiro lugar, regional. Não podemos ver a petroquímica somente dentro de cada nação e, com certeza, somente dentro de cada estado. Então, conseqüentemente, nós temos que analisar as possibilidades de comércio global e regional como elementos fundamentais na petroquímica. Temos uma clara tendência mundial hoje, na área da petroquímica, de um crescimento de capacidade de produção dentro dos próximos três, quatro anos, com base numa matéria-prima barata na região do Oriente Médio, que é o gás natural barato, que alguns países do Oriente Médio têm em abundância. Isso significa, portanto, que nós teremos uma ameaça competitiva importante de grandes players internacionais, com o custo de matéria-prima barato. Nós do Brasil temos, portanto, que aumentar a musculatura de nossas empresas, aumentar a capacidade de essas empresas enfrentarem essa competição, olhando para o mercado brasileiro, olhando para o sul-americano e olhando, de alguma maneira, em algum momento, para o mercado internacional.

Guilherme Barros: Presidente, logo depois da compra do negócio, o presidente da BR Distribuidora deu uma entrevista na qual declarava que um dos motivos pelos quais a Petrobras participou do negócio foi o receio da participação da PDVSA no Brasil, de aumentar a participação da PDVSA no Brasil. Queria que o senhor explicitasse um pouco mais esse receio [de] que ela falou, porque, ao mesmo tempo, o Brasil tem uma relação de amor e ódio com a Venezuela. Ao mesmo tempo [em] que vocês têm medo de a PDVSA aumentar participação, também estão fazendo refinaria no Nordeste com a PDVSA.

[...]: É uma parceria.

José Sérgio Gabrielli: Guilherme, a Graça não disse dessa forma. Você está colocando palavras na sua boca que ela não disse. O que há objetivamente é que nós temos uma parceria com a PDVSA, que é o desenvolvimento da refinaria Abreu e Lima no Nordeste [localizada em Ipojuca, região metropolitana de Recife (PE)], que é refinaria onde nós temos 60%, eles têm 40%. Ao mesmo tempo, nós temos uma parceria na Venezuela onde eles têm 60% e nós temos 40% da produção da bacia do Orinoco [principal rio da Venezuela, sua bacia abrange quatro quintos do território venezuelano e um quarto do colombiano]. Isso significa, portanto, que nós teremos uma integração na produção de matéria-prima, do que nós produziremos de matéria-prima brasileira e matéria-prima na Venezuela. Eles terão integração na matéria-prima e no refino. No que se refere ao Nordeste brasileiro, a aquisição dos postos Ipiranga... são 883 postos da Ipiranga no Norte, Nordeste e Centro-Oeste brasileiro. Esta é uma visão de aumento da pulverização de nossa presença no Nordeste, de aumento da sinergia entre o nosso refino e a área de distribuição no Nordeste, com uma potencialidade maior na nossa rede. Portanto, para levar o produto Petrobras e para levar os derivados particularmente para uma região [de] que nós estamos muito distantes neste momento, uma vez que a nossa refinaria mais ao Norte é na Bahia... e, portanto, nós achamos que a aquisição dos postos do Norte e Nordeste... são pontos que aumentam a sinergia de nossa rede, e evidentemente que aumentam a nossa capacidade de influir nesse mercado. A ameaça de competição internacional é um elemento comum numa análise de mercado aberto como é o mercado brasileiro, mas não é motivo principal de nossa...

Cristina Alves: [Interrompendo] Presidente, no ano passado as atuações na Venezuela e na Bolívia, com as nacionalizações, acabaram resultando numa perda de competitividade da Petrobras, quer dizer, o lucro foi menor cerca de R$ 1 bilhão, por conta das operações na Venezuela e na Bolívia. O que essa onda de nacionalização na região afeta os planos da Petrobras? Como vocês estão reavaliando isso e o impacto financeiro para o balanço da empresa?

José Sérgio Gabrielli: Olha, a indústria de petróleo, a indústria de gás natural, no mundo inteiro é uma indústria problemática do ponto de vista geopolítico. Nós temos problema de redistribuição da renda petrolífera no mundo inteiro. Nos Estados Unidos discute-se mudança tributária sobre petróleo, royalties, participações. A Inglaterra discute mudanças da forma de participação da renda petroleira. A França discute problemas referentes a como distribuir a renda petroleira.

Paulo Markun: Mas não tanto.

Cristina Alves: É.

José Sérgio Gabrielli: A Ásia e América do Sul [também]. Isso é um problema geral em todos os países. No que se refere à Venezuela, nós tivemos uma modificação no processo regulatório na Venezuela, modificamos os contratos na Venezuela, hoje somos sócios em empresas mistas onde nós temos 40% e a PDVSA tem 60%. Nós estamos ampliando nossa... nós estamos analisando a possibilidade de ampliar nossos investimentos na Venezuela no que se refere à produção na Bacia do Orinoco, no que se refere à produção de gás. Portanto, nós estamos analisando as possibilidades econômicas, dadas as novas regras venezuelanas. Na Bolívia também. Na Bolívia, o que acontece? Na Bolívia nós estamos esperando a finalização dos processos de legalização dos novos contratos de exploração e produção. Com esses novos contratos que foram negociados entre nós e a YPFB [Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos], em novembro, em outubro do ano passado... nós acreditamos que esses novos contratos possibilitam um retorno adequado para um investimento que fazemos na Bolívia e, portanto, dada a estabilidade que possa vir a se confirmar na Bolívia, nós estamos dispostos a discutir inclusive a possibilidade de ampliar nossos investimentos. Porém, é necessário ter, finalizar esse processo de regularização dos contratos. O problema, portanto, é essencialmente de que toda vez que você tem um longo processo de alta de preços do petróleo no mundo a distribuição e a discussão sobre quem fica com parcelas da renda crescente é no mundo inteiro.

Paulo Markun: Mas isso na Bolívia não é bem isso, né presidente?

José Sérgio Gabrielli: Como é?

Paulo Markun: Na Bolívia... não se pode reduzir o processo político [por] que passa a Bolívia, o processo de nacionalização de um bem, que é um dos poucos que eles têm, a essa questão específica de uma visão macroeconômica. Quer dizer, lá é um problema político local, uma determinação do presidente Evo Moralez [(1959-), líder do Movimento para o Socialismo, foi o primeiro presidente da Bolívia de origem indígena. Assumiu o cargo em janeiro de 2006. Ver entrevista com Evo Morales no Roda Viva], que apresentou isso em campanha política e que surpreendeu o Brasil, na medida em que ele cumpriu o que havia prometido. Não há um fato específico na Bolívia que torna aquilo mais agudo?

José Sérgio Gabrielli: A Bolívia tem uma particularidade que é muito importante. A Bolívia tem, do ponto de vista de fornecimento de gás natural, um papel extremamente importante para o Brasil. A Bolívia...

Paulo Markun: [Interrompendo] E o Brasil para a Bolívia, porque só dá para comprar lá...

José Sérgio Gabrielli: O Brasil hoje - é bom lembrar - o Brasil hoje tem metade do gás natural fornecido para o mercado brasileiro vindo da Bolívia. Nós construímos um gasoduto que tem capacidade de trazer até trinta milhões de metros cúbicos da Bolívia. Nós estamos trazendo 24, 25 milhões de metros cúbicos/dia. Isso significa, portanto, cerca de metade da oferta de gás natural neste momento. Nós não temos alternativa de fornecimento neste momento à Bolívia. Nosso plano estratégico até 2011... nós pretendemos aumentar a produção brasileira, chegando a uma produção brasileira de 71 milhões de metros cúbicos em 2011. Porém, esse aumento da nossa produção é inferior ao aumento que nós vamos ter no crescimento da demanda brasileira de gás natural. A nossa estimativa é que em 2011 estaremos consumindo 121 milhões de metros cúbicos/dia e, portanto, nós vamos continuar trazendo da Bolívia em torno de trinta milhões de metros cúbicos.

Cida Damasco: Presidente, na questão da Bolívia, essa última discussão em relação a preços, pareceu para a sociedade que houve quase um recuo da posição brasileira, principalmente porque o acerto foi feito politicamente, entre presidentes, e não entre as estatais envolvidas numa negociação comercial. Como é que o senhor vê... ?

José Sérgio Gabrielli: Não. Em nenhum momento a Bolívia questionou o contrato de venda de gás da Bolívia para o Brasil. Em nenhum momento o presidente Evo Moralez questionou esse contrato. Esse contrato existe e tem validade até 2019. Esse contrato diz que a YPFB, que é a empresa boliviana, vende à Petrobras um volume de gás. Esse volume tem um preço até 14 mil metros cúbicos, tem outro preço até 16 metros cúbicos, tem outro preço até 24 milhões de metros cúbicos.

Cida Damasco: Mas o preço foi rediscutido?

José Sérgio Gabrielli: E o preço é reajustado de acordo com a cesta de óleo combustível. Esse preço [se] mantém, da mesma maneira que o contrato original. Nada foi mudado nesse contrato referente a isso.

Ivan Martins: Mas o diretor internacional da Petrobras, nos jornais, hoje, dizendo o contrário...

José Sérgio Gabrielli: [Interrompendo] Não, o que houve é que nós...

Ivan Martins: A expressão literal dele é: “Eu chio, mas pago.”.

José Sérgio Gabrielli: Não. São duas coisas diferentes.

[...]: Pagaram 32 milhões extras.

José Sérgio Gabrielli: Existe um contrato de venda de gás. O contrato de venda de gás não foi alterado. Esse contrato de venda de gás... o que aconteceu? Nós reconhecemos que o gás que nós trazemos da Bolívia tem um componente nobre, propano, etano, C5+ [misturas líquidas de hidrocarbonetos com cinco ou mais átomos de carbono], GLP [gás liqüefeito de petróleo], que nós não estávamos pagando porque não estávamos utilizando...

Cida Damasco: Ou seja, presidente, houve questão técnica que justificou, no fundo, uma mudança de preço?

José Sérgio Gabrielli: Não. O fato é que estamos comprando um produto melhor do que nós pagamos, isso é verdade. Mas não estamos usando isso. Então, isso é uma questão. A outra questão é a que você mencionou: existe um contrato na Bolívia que é contrato de exploração e produção, que é outro contrato, que não tem nada a ver com contrato de venda de gás. Esse contrato de exploração e produção é um contrato entre a Petrobras Bolívia, a Total na Bolívia, a Repsol na Bolívia e a YPFB na Bolívia, para exploração e produção de gás. Esse contrato... foi feito um acordo, e um contrato que foi aprovado pela Petrobras YPFB, foi submetido ao governo boliviano, e esse contrato estabelecia um determinado volume de postos que, a nosso ver, estavam definidos no contrato. O que o diretor mencionou é que nós estamos pagando porque a Bolívia estendeu o decreto no Supremo. Nós estamos pagando porque respeitamos as leis bolivianas, mas estamos usando todos os mecanismos legais para contestar esse pagamento adicional que nós estamos vendo, pagando sobre o imposto na Bolívia, que não tem nada a ver com o preço...

Ivan Martins: [Interrompendo] O governo não tem sido muito passivo, presidente?

José Sérgio Gabrielli: Passivo?

Ivan Martins: Considerando o tamanho dos negócios da Petrobras na Bolívia, considerando a participação dela no PIB [Produto Interno Bruto], existe a sensação de que a Petrobras tem sido excessivamente condescendente por determinação do presidente da República [Luiz Inácio Lula da Silva].

José Sérgio Gabrielli: Não é verdade isso. Nós estamos fazendo, respeitando as leis do país. Nós não podemos desobedecer as leis do país. Em todos os países onde nós atuamos nós atuamos de acordo com a lei do país, não podemos desobedecer a lei do país, a menos que saiamos do país. E nós não podemos sair da Bolívia. Objetivamente, nós temos não somente investimentos... que queremos ser ressarcidos nosso investimento na Bolívia, como a Bolívia desempenha um papel muito importante no mercado brasileiro. Nossa responsabilidade é com o mercado brasileiro. Nós temos no mercado brasileiro um contrato de entrega de gás às distribuidoras estaduais. Portanto, nós temos uma responsabilidade empresarial com o mercado brasileiro, acima de tudo.

Luis Nassif: Mas, se fosse comparar a Petrobras com demais empresas que foram afetadas lá, qual a diferença de comportamento?

José Sérgio Gabrielli: Não há diferença de comportamento. Por isso que nós estamos dizendo que não há nada que leve a você dizer que nós estamos agindo diferente da Total, da Repsol, da BG [British Gas] e das empresas estrangeiras. Todas se comportaram da mesma maneira, da mesma forma que se comportaram na Venezuela. Não somos nós os únicos que estamos na Venezuela.

Cida Damasco: Agora, presidente, justifica ampliar investimento na Bolívia?

José Sérgio Gabrielli: Nós achamos que, se os contratos forem feitos na forma que nós concordamos, que nós contratamos, há possibilidade de se investigar a possibilidade de ampliar investimentos, porque o retorno é acima de 15% ao ano.

Paulo Markun: Presidente, nós vamos fazer um rápido intervalo e voltamos num instante com o Roda Viva, que tem hoje na platéia Raul Campos, gerente executivo de relacionamento com investidores da Petrobras; Alexandrino Alencar, vice-presidente da Brasken; Luciano Veronezi, músico e ilustrador; Carlos Alberto Shinader, diretor superintendente da Fundação Sert.

[intervalo]

Paulo Markun: A Petrobras vem se firmando em sua imagem, o peso político e econômico que sempre teve ao longo dos seus quase 74 anos de idade.

[Vídeo]

A Petrobras surgiu de uma causa política e econômica. Em 1953, na pressão da campanha "O petróleo é nosso", Getúlio Vargas criou a Petróleo Brasileira S/A – Petrobras – para explorar o monopólio do setor estabelecido na época. Correndo sozinho no mercado interno, a empresa passou a maior parte dos seus primeiros trinta anos administrada por militares, por sua importância estratégica e também econômica. A estatal sempre foi um instrumento de controle dos preços internos dos combustíveis. No auge do período militar, nos anos 1970, a crise do petróleo pressionou a procura de novas reservas. O resultado foi a descoberta do campo [petrolífero] de Garoupa, na Bacia de Campos, litoral fluminense, que mais tarde se revelou a mais produtiva bacia do país e uma das maiores do mundo. Concentrando cada vez mais a exploração no mar, a Petrobras se tornou a maior especialista do mundo em buscar petróleo em águas profundas. A tecnologia desenvolvida permitiu ao Brasil ano passado chegar a auto-suficiência e de lá para cá ter excedentes de óleo para exportar. A quebra do monopólio em 1997 tirou da Petrobras a exclusividade do mercado interno mas não afetou a petrolífera que se modernizou, diminuiu espaço para a entrada da concorrência estrangeira e se internacionalizou, atuando hoje em 18 países. Maior empresa brasileira, que responde por até 10% do PIB nacional, também já foi a maior poluidora do país, com vazamentos de óleo que provocaram sérios desastres ecológicos. Além da questão ambiental, a empresa tem agora pela frente o desafio da busca de energias alternativas, num mundo que procura reduzir não só a dependência mas também o uso dos combustíveis baseados no petróleo.

[Fim do vídeo]

Paulo Markun: Bem, eu dei um ano a mais para a Petrobras. O presidente estava me alertando aqui que ela, na verdade, tem quase 73 [anos de existência]...

José Sérgio Gabrielli: 53.

[...]: Uma criança!

[Risos]

Paulo Markun: É um ato falho de quem acha que a Petrobras deveria existir há mais tempo! Mas eu queria fazer uma pergunta para o senhor que também eu imagino qual seja a saída diplomática para a resposta, mas, de toda maneira, eu gostaria de fazer. Obviamente a notícia de descoberta de novos poços, novos campos de petróleo é uma notícia tão importante que ela é cercada de todo cuidado ao ser divulgada. Porque justamente mexe com a situação da empresa, com as suas ações etc e tal. Ainda mais agora recém anunciada essa compra de parte da Ipiranga, obviamente não é o momento de anunciar que achamos um poço, um campo novo, embora eu tenha lido alguma coisa nos jornais. Então, a minha saída é fazer uma pergunta genérica, que é a seguinte: que dimensão o senhor imagina que a gente alcançou já das reservas brasileiras? Dos potenciais brasileiros? Quer dizer, nós estamos ocupando tudo o que tem? Tem muita coisa pela frente, enfim?

José Sérgio Gabrielli: Olha, a legislação brasileira faz leilões anuais para áreas de concessão e que você faz a exploração nessas áreas. Nenhuma empresa pode fazer exploração fora dessas áreas de concessão. A Petrobras, nos últimos anos, últimos quatro anos, nós revertemos um processo de redução de áreas e ampliamos nossa participação em áreas exploratórias. Nós temos hoje um portfólio exploratório que vai da Bacia de Pelotas até o Norte do Amazonas, além de campos em terra. Portanto, nós temos hoje uma capacidade exploratória bastante grande, que permite ter um horizonte mais longo de exploração por parte da Petrobras. Além disso, você tem outros parceiros e outros concorrentes no Brasil que estão fazendo também atividades exploratórias. Do ponto de vista da legislação, nós somos obrigados a informar a Agência Nacional de Petróleo qualquer descoberta que nós tenhamos, imediatamente, assim que façamos... O problema todo é que você tem um...

Paulo Markun: E definir o que é uma descoberta?

José Sérgio Gabrielli: Não. O problema é que você tem uma dificuldade real de você avaliar tamanhos e prospectividade nessas análises. Então, isso faz com que esse processo leve tempo. A média mundial entre o primeiro óleo descoberto e o primeiro óleo produzido é de sete a oito anos. Então, isso é a média normal entre uma coisa e outra.

[Sobreposição de vozes]

Paulo Markun: Só um pouquinho...

Pedro Cafardo: Teria uma descoberta de uma grande reserva, um grande campo, no litoral fluminense, de petróleo leve. Isso que é importante...

José Sérgio Gabrielli: Se tiver uma descoberta dessa, ela tem que ser anunciada à ANP.

Paulo Markun: O senhor não respondeu [à] minha pergunta, desculpa. A questão é a seguinte: vamos supor que a gente tenha um volume... e claro que ninguém tem bola de cristal para saber exatamente isso, mas ainda assim, num país que já se disse que não havia petróleo suficiente, como aconteceu antes de a Petrobras surgir, que tamanho o senhor acha que é o espaço a explorar ainda?

José Sérgio Gabrielli: Olha, nós temos hoje cerca de 13 bilhões de barris de petróleo de reservas da Petrobras. Nós temos cerca de metade dessas reservas provadas não desenvolvidas hoje. Significa que nós temos as reservas e não desenvolvemos essas reservas. Nós temos uma projeção de crescimento de produção nossa, até 2011, atingindo 3,4 milhões de barris de produção/ano e essa produção vai continuar crescendo até atingir 4,5 milhões barris/ano em 2015, que é a produção atual da Shell, da Exxon, e que é metade da produção da Rússia e da Arábia Saudita. Nós vamos atingir essa produção em 2015. Essa produção é quase toda baseada em reservas já identificadas não desenvolvidas. Nós estamos com um portfólio exploratório bastante grande e a atividade de petróleo envolve novas descobertas para você continuar produzindo, porque o campo de petróleo se esgota. Então, você tem que acrescentar novos campos de petróleo para que ele continue produzindo ao longo do tempo. Nossa expectativa é que, após 2015, nós vamos estar com mais de quinze anos de razão reserva/produção com novas descobertas que serão incorporadas.

Luis Nassif: Presidente, em relação ao petróleo pesado... que aparentemente as reservas maiores, lá no Orinoc e por aqui seria petróleo pesado, dá para dar um panorama de tecnologia e custo hoje em relação oao petróleo leve?

José Sérgio Gabrielli: Sim. Hoje você tem um diferencial crescente entre preços de petróleo pesado e petróleo leve. A grande diferenciação não vem da tecnologia de produção de petróleo, mas vem da capacidade de refino. O que acontece é que houve um investimento na capacidade de refino de petróleo pesado. O crescimento da demanda de derivados que usam esse petróleo pesado cresceu muito. A capacidade de refino de petróleo pesado atingiu o limite...

Luis Nassif: Aqui no Brasil?

José Sérgio Gabrielli: No mundo inteiro.

Luis Nassif: Mundo inteiro?

José Sérgio Gabrielli: No mundo inteiro. No Brasil ainda não. Atingiu o limite, e isso fez com que a demanda crescente de derivados forçasse o aumento da demanda de petróleo leve. Esse aumento da demanda de petróleo leve fez com que o preço do petróleo leve crescesse mais que o preço do petróleo pesado, e a diferença entre eles passou a ser bastante grande, atingindo em alguns momentos, no final de 2005, início de 2006, US$ 19 por barril, diferença de preços entre leves e pesados. Hoje, no Brasil, 80% do nosso petróleo... nossas refinarias usam petróleo brasileiro, e pretendemos atingir em 2010 e 2011, 90% de petróleo brasileiro.

Luis Nassif: Em cima de petróleo pesado ou não?

José Sérgio Gabrielli: Em cima de petróleo pesado.

Cristina Alves: Presidente, há cerca de dois meses o governo federal anunciou com grande alarde, com pompa e circunstância, o programa de aceleração do crescimento [PAC]. A Petrobras tem um papel fundamental de carro-chefe desses investimentos, com quase 30% do total. Passados esses dois meses, qual a avaliação que o senhor faz... que o senhor, nesse período, o senhor criticou a burocracia, a questão regulatória... Em que pé estão esses investimentos?

José Sérgio Gabrielli: Olha, nós...

Cristina Alves: Pela Petrobras.

José Sérgio Gabrielli: Olha, nós, no PAC, nós tivemos uma série de investimentos acelerados, particularmente na área do gás. Nós estamos pretendendo aumentar a produção de gás no Espírito Santo: mais 24 milhões de metros cúbicos até 2008. Isso envolve um conjunto de novos gasodutos, envolve a construção de unidades de tratamento de gás, envolve a construção de unidades de armazenamento de GLP. Isso é um volume de investimento bastante elevado. Esse volume de investimentos, ao nosso ver, precisa ser acelerado para atingir esses objetivos do PAC.

Cristina Alves: Ainda não está no ritmo que o senhor gostaria, então?

José Sérgio Gabrielli: Eu acho que nós temos que acelerar mais ainda nosso ritmo. No entanto, eles têm melhorado bastante a situação regulatória da área ambiental, têm melhorado substantivamente. Nós estamos percebendo claramente uma mudança no sistema como um todo, na rapidez em licenciamento. Nós temos um desafio junto com a indústria de fornecedores, que é responder na velocidade que nós estamos crescendo os nossos investimentos a capacidade de oferta dos fornecedores da cadeia de petróleo e gás. Nós temos dificuldade hoje com os estaleiros, temos dificuldades com produção de sondas, temos dificuldade na produção de máquinas específicas para a área de petróleo. Esperamos que o nosso ritmo de crescimento provoque um aumento de investimentos acelerados nessa área, de tal maneira que nós podemos culminar o crescimento da nossa demanda com o crescimento da oferta.

Ivan Martins: Presidente, uma questão filosófica: qual é o limite para atuação da Petrobras?

José Sérgio Gabrielli: Eu acho que neste momento nós temos dois grandes limites. Nosso plano de investimentos até 2011 é um plano de investimentos de US$ 87,7 bilhões. Significa que estamos investindo aí alguma coisa em torno de US$ 17,5 bilhões por ano. Qual o limite que nós temos? Nosso principal limite não é financeiro. Temos dois limites importantes... que um limite é pessoal, nós precisamos treinar, nós precisamos atrair talentos, nós precisamos reter talentos importantes. Portanto, a questão de pessoal é elemento importante para manter o ritmo de crescimento da companhia. O outro limite é um limite de gestão de grandes projetos complexos. Nós temos esses projetos, essas refinarias, essas... nós estamos construindo duas refinarias no Brasil. Nós estamos construindo, ampliando uma refinaria nos Estados Unidos. Estamos fazendo 19 importantes sistemas de produção. Estamos construindo 4600 Km de gasodutos. Nós estamos fazendo o crescimento da produção e, portanto, isso envolve gestão de projetos complexos que exige um conjunto de elementos...

Ivan Martins: [Interrompendo] Já existe a sensação do setor petroquímico de que a Petrobras é grande demais. Agora, com essa compra, ela voltou para um setor de onde o governo havia saído nos anos 1990 e ela voltou agora em grande estilo. E a missão da Petroquisa [Petrobras Química SA] vem... na sua missão, a Petroquisa define a ambição de liderar o setor. Isso significa que, quando eu pergunto de limite, a Petrobras se vê como empresa estatal com atuação ilimitada no mercado nacional ou há algo que ela, de antemão, sabe que não vai fazer e não deseja fazer?

José Sérgio Gabrielli: Na Petroquímica a Petrobras é muito pequena. A Petrobras tem participação minoritária muito pequena hoje na maior parte das empresas de petroquímica. Com essa aquisição, com a Brasken...

[...]: [Interrompendo] Mas há uma retomada?

José Sérgio Gabrielli: ... junto com a Brasken, nós estamos retomando e vamos ser um minoritário relevante. Nós vamos crescer nossa presença na Petroquímica. Não vamos ser apenas fornecedor de matéria-prima, vamos participar do processo da petroquímica, como todas as grandes empresas de petróleo do mundo. Nós vamos... mas não queremos, ser dominantes na Petroquímica. Nós queremos ser minoritários relevantes na Petroquímica. E vamos ser. Na distribuição, nós saímos de um market share [participação de mercado] em torno de 33%, fomos para 38% com a aquisição dos postos da Ipiranga no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e isso, a nosso ver, não afeta significativamente a capacidade competitiva. Existem mais de 250 distribuidoras no Brasil. O mercado de distribuição no Brasil é um mercado extremamente competitivo e vai continuar competitivo. Na área de refino, é uma área que nós estamos bastante fortes, é verdade. É evidente que nós somos basicamente 100% do refino brasileiro, mas o mercado brasileiro é um mercado aberto. Qualquer empresa pode competir importando produtos e se instalando no Brasil. Nós estamos construindo uma refinaria conjuntamente com a PDVSA no Nordeste brasileiro. Temos um sócio, que é a Repsol, no Sul do Brasil e estamos dispostos a ter sócios que queiram participar do risco conosco.

Pedro Cafardo: Essa questão filosófica que o Ivan colocou aí, queria elaborar um pouco mais sobre isso, porque tem alguns empresários que acham que o setor de petróleo, petroquímico, é um setor estratégico da economia e que não pode ser entregue a capitais estrangeiros. Portanto, capital nacional, estatal ou privado tem que tomar conta disso. A pergunta é: se essa compra na semana passada tem a ver com essa estratégia, e também o que é que o senhor acha disso, sua opinião a esse respeito. E o que é que pensa a corporação Petrobras a respeito dessa questão, de se ter um setor estratégico sobre o domínio nacional, seja ele privado ou estatal?

José Sérgio Gabrielli: Eu acho que é muito importante o fato de sermos... o slogan que nós usamos no lançamento da aquisição foi: “O Brasil investindo no Brasil”. A Petrobras, o Grupo Ultra e a Brasken, que são três empresas nacionais importantes, juntos adquirimos uma empresa brasileira importante que é a Ipiranga. Isso significa, portanto, que a capacidade de geração e gestão administrativa e gestão estratégica nesse setor continua brasileira. Isso significa, portanto, que nós vamos aumentar a nossa capacidade de nos posicionarmos frente a competidores internacionais. Isso não quer dizer que o Brasil vai se fechar. Não é essa posição de que o Brasil vai se fechar. Na realidade nós estamos criando musculatura para enfrentar o processo de globalização que é inevitável. Então, desse ponto de vista, é uma forma de nos posicionarmos internacionalmente. A Petrobras é uma empresa hoje que cresce internacionalmente muito fortemente. Nós temos atuação hoje no Brasil, na Argentina, no Paraguai, no Uruguai...

Paulo Markun: Tem uma ávida atuação.

José Sérgio Gabrielli: No Peru, no Equador...

Pedro Cafardo: Mas aqui dentro não. Aqui dentro é Petrobras.

José Sérgio Gabrielli: Na Colômbia, na Venezuela, no México... nos Estados Unidos, na Líbia, na Nigéria, em Angola, no Senegal, Tanzânia, Moçambique...

[...]: Sabe de cor!

[Risos]

José Sérgio Gabrielli: Turquia, Irã...

Paulo Markun: Já decorou tudo isso!

[...]: Não é falta de memória.

José Sérgio Gabrielli: Presença na China, presença no Japão, em Londres... Somos uma empresa internacional.

Luis Nassif: Só para entender um pouquinho esse novo mercado que vem pela frente, com etanol e tudo mais, até agora a Petrobras tem o monopólio do refino. Em relação a petroquímica praticamente é a única fornecedora. Agora, com etanol você tem um novo combustível que vai ter presença cada vez maior aí, que não passa mais pelo monopólio de refino. E você tem álcool química que se fala muito que tem potencial. Então, eu queria saber do senhor aí como é que ficam esses dois mercados, o de distribuição e o de petroquímica, com o crescimento do álcool?

José Sérgio Gabrielli: Nassif, a sua pergunta é muito importante, porque nós temos mais de trinta anos de álcool no Brasil, não é? E nesses trinta anos, a Petrobras não entrou na produção de álcool. A Petrobras, enquanto Petrobras, inclusive não é nem compradora de álcool. Na verdade, nós compramos o álcool através da BR, que é uma distribuidora entre as 260 distribuidoras do Brasil. Agora nós estamos nos posicionando de outra forma. Como nós vislumbramos claramente uma perspectiva mundial de crescimento de biocombustíveis, e essa é uma posição estratégica e importante para um mercado futuro, e uma área importante que é a área de biocombustíveis, nosso posicionamento enquanto empresa grande no Brasil é de que nós temos um papel importante na logística de exportação de álcool. Então, nós estamos...

Cida Damasco: [Interrompendo] Posicionamento que já está...

José Sérgio Gabrielli: Que está bem claro. Estamos caminhando...

Cida Damasco: Mas que já está enfrentando uma certa resistência do pessoal do setor.

José Sérgio Gabrielli: Não acredito que esteja enfrentando resistência, pelo contrário, nós temos hoje acordos de confidencialidade em negociações com mais de cinqüenta diferentes grupos privados no Brasil. Portanto, nós não estamos... não podemos dizer que temos pouco mais de trezentos produtores de álcool no Brasil, mas mais de quarenta, com certeza mais de quarenta negociações neste momento em andamento.

Cida Damasco: Mas talvez os outros 260 estejam reclamando! [Risos]

José Sérgio Gabrielli: Mas estamos com uma grande parcela - não posso dizer para você quanto -, mas grande parcela da produção brasileira discutindo com a Petrobras, mas não estamos pretendendo entrar na produção [de álcool]. Estamos pretendendo entrar na logística de transporte. Estamos pensando em estudar. Temos um acordo junto com a Mitsuy e a Camargo Correia para estudar um alcoolduto vindo de Goiás para São Paulo, que vai viabilizar a expansão da exportação de álcool novo no Brasil. Temos um acordo... a Mitsuy discutindo quarenta empresas novas para criarem novas usinas na produção de álcool para exportação para o Japão. Temos um acordo hoje avançado em termos de vários modelos de negócios com diferentes etapas, com vários setores da área de produção de álcool. Portanto, nós estamos nos posicionando na logística e na capacidade de exportação. Nós não estamos pretendendo entrar na produção de álcool no Brasil para o mercado brasileiro. Temos uma empresa no Japão que é uma joint venture da Petrobras, que é uma empresa estatal que tem monopólio da importação do álcool químico e farmacêutico no Japão. Portanto, estamos posicionados em todas as etapas da cadeia produtiva do álcool. No que se refere aos Estados Unidos, estamos ampliando nossas negociações e conversas para viabilizar a entrada competitiva da cana-de-açúcar com o alcool do milho nos Estados Unidos que é muito mais caro e muito menos eficiente do que nosso álcool. Temos conversas e discussões com alguns outros países do mundo para discutir possibilidades de não somente comercialização de álcool mas de produção de álcool. E, na área de biodiesel, estamos ampliando nossa capacidade de produção de biodiesel no Brasil e estamos comprando praticamente 100% - nós e Refap [Refinaria Alberto Paqualini SA, do sistema Petrobas] - 100% da produção de biodiesel brasileiro. E deveremos, até o final deste ano, estar iniciando o processo de produção dentro da nossas refinarias do H-Bio, que é um processo desenvolvido com patentes da Petrobras que utiliza óleo vegetal para produzir um diesel de altíssima qualidade nas nossas refinarias. Portanto, nós estamos muito bem posicionados na cadeia, mas particularmente na logística, na nova tecnologia e nas novas usinas.

Paulo Markun: Presidente, para deixar registrado o ponto de vista do setor, nós temos uma pergunta que, em parte, o senhor já respondeu, mas eu faria questão de registrar aqui [a pergunta] do presidente da União da Indústria de Cana-de-açúcar, Eduardo Carvalho, justamente sobre a participação da Petrobras na produção de etanol. Vamos acompanhar, que pode ter ficado alguma coisa faltando.

[Vídeo]

Eduardo Carvalho: Presidente Gabrielli, recentemente o presidente Lula fez referência à Petrobras como o melhor cartão de crédito do Brasil. Nós brasileiros acreditamos nisso. Escutei o senhor falar durante uma hora em Houston, no Texas, um mês e pouco atrás, para dois mil petroleiros, sessenta minutos, de etanol e o que está sendo feito em biocombustível no Brasil. Quais são, senhor presidente, efetivamente seus planos para etanol? A Petrobras vai investir em quarenta usinas de produção de etanol no Brasil?

[Fim do vídeo]

Paulo Markun: Eles estão preocupados! [Risos]

José Sérgio Gabrielli: O Eduardo esteve comigo lá em Houston, no encontro de petroleiros, e eu fui talvez um dos únicos petroleiros a falar em etanol. E, na verdade, nossa visão não é uma visão de competir com a iniciativa privada brasileira na produção de etanol. Nossa iniciativa é de investir na infra-estrutura para viabilizar e ampliar a capacidade do setor brasileiro e participar mais na exportação do etanol, da mesma maneira que nós achamos que o mundo precisa crescer a produção mundialmente para criar um mercado que crie uma mercadoria etanol que não existe no mundo. O etanol do mundo hoje é essencialmente um etanol químico e farmacêutico. A utilização do etanol como combustível é muito limitada, mesmo nos Estados Unidos é muito limitada, apesar que os Estados Unidos são o maior produtor de etanol do mundo, mas eles têm dificuldades enormes na logística e na produção, de colocar o produto ao consumidor final, além do custo muito mais elevado nos Estados Unidos. Portanto, Eduardo, não se preocupe. Não estamos pretendendo competir com o setor privado.

Paulo Markun: Presidente, vamos fazer mais um rápido intervalo. Nós voltamos daqui a instantes com o Roda Viva que hoje é acompanhado na platéia por Armando Tripodi, chefe da gabinete da presidência da Petrobras; Orlando Simões, gerente geral da Regional Sul da Petrobras; Eugenio Palumbo, da área de operações e vendas da Sans Microsystems; e Renata Pacolla, advogada e escritora.

[intervalo]

Paulo Markun: O Presidente da Associação Brasileira de Infra-estrutura, Paulo Godoy, tem uma pergunta sobre os planos de investimento da empresa. Vamos ver.

[Vídeo]

Paulo Godoy: Presidente Gabrielli, falando um pouco dos planos estratégicos da Petrobras, quer dizer, todo esse movimento da preocupação do mundo com mudanças climáticas e emissão de carbono vai inevitavelmente levar a uma alteração substancial da matriz energética no mundo. Estima-se que nos próximos anos vamos ter uma redução de 1 a 1,5% na demanda do petróleo convencional, o que poderá tirar do mercado alguma coisa como oito bilhões a dez bilhões de barris de petróleo/dia. Como a Petrobras se prepara nesse novo ambiente e em que áreas estratégicas pretende a Petrobras atuar nesse movimento de alteração da matriz energética mundial?

[Fim do vídeo]

Paulo Markun: E queria emendar à sua, a pergunta de Adriano Leite Silva, técnico de contabilidade de Itabirito, Minas Gerais, que diz o seguinte: "Qual a perspectiva da Petrobras em relação aos combustíveis renováveis? A empresa poderá explorar essa atividade a longo prazo?".

José Sérgio Gabrielli: Olha, Paulo, e nosso amigo...

Paulo Markun: Adriano.

José Sérgio Gabrielli: Na nossa visão, nós vamos ter um certo deslocamento de combustíveis fósseis, mas esse deslocamento não vai ser nas dimensões que o Paulo mencionou. Nós achamos que a busca de alternativas basicamente na área de biocombustíveis vai ser muito importante no mundo, mas isso vai ficar no entorno dos 10 a 15% no máximo do mercado de combustíveis para transporte. O grande problema hoje do mundo não está, a nosso ver, no transporte, mas está na utilização da energia elétrica, e a utilização do carvão. A utilização do gás melhora características em termos de impactos sobre o aquecimento global, mas nós vamos ter que avançar muito na área de conservação e melhoria da eficiência do uso da energia elétrica, além de buscar novas técnicas, novas formas de fornecimento de energia elétrica. Isso para nós é a principal mudança que vamos enfrentar no que se refere ao aquecimento global. No se refere especificamente ao combustível, nós vamos ter uma situação em que a Petrobras está muito bem posicionada, porque, como eu disse, nós estamos com uma longa experiência em etanol no Brasil. Nós temos uma longa experiência de logística de etanol no Brasil. Nossa indústria automobilística tem hoje uma capacidade e tem uma produção de automóveis flex fuel que permite, que entrega ao consumidor a escolha entre gasolina e álcool à sua vontade, e isso vai fazer, portanto, com que quem esteja posicionado estrategicamente nessa área, vai estar com a situação mais fácil de enfrentar o novo mercado, onde vai haver um certo deslocamento do líquido para outros combustíveis.

Guilherme Barros: É sempre mais fácil, olhando o passado, o momento presente, né? Mas será que a Petrobras não errou um pouco ao ter exagerado, ao ter investido demais na auto-suficiência e ter esquecido de outras áreas, por exemplo como gás, e que hoje a gente... ? E será que Petrobras não está subestimando um pouco essa mudança na matriz energética agora?

José Sérgio Gabrielli: Não. Acredito que de jeito nenhum. Primeiro, não acho que a Petrobras subestimou o gás. A Petrobras não encontrou o volume de gás. As descobertas grandes de volumes possíveis potencialmente transformáveis em reservas são descobertas muito recentes. E a Petrobras estava, ao contrário, acelerando ao máximo possível para produção de gás. É evidente que não tivemos essas descobertas no passado. Nosso passado é passado de produção de gás associado ao petróleo. De agora em diante nós vamos abrir onze novos campos de produção de gás não associados, que é produção de gás, exclusivamente de gás. O primeiro grande campo é na Bahia, que já está produzindo, que deve até final do ano atingir seis milhões de metros cúbicos de produção. Então, não é que nós não tenhamos enfatizado o gás. É que nós não encontramos gás.

Luis Nassif: Um tempo atrás o gás que saia aí associado ao petróleo não era desperdiçado? Até poucos anos atrás?

José Sérgio Gabrielli: Não, o problema é que você tem hoje um movimento mundial de diminuição da capacidade de queima de gás, o chamado flare, que você não pode fazer mais. O problema do gás associado à produção isolada é um problema de logística para transportar o gás. O gás não é feito petróleo que se bota no navio e traz. Dependendo do volume, você vai ter que fazer uma reinjeção ou fazer o flare, então você tem limitações logísticas para transportar o gás. Nós estamos diminuindo enormemente o uso desse gás para queima. O volume de queima de gás é muito baixo hoje, comparativamente ao que era alguns anos atrás. Nossa tendência é caminhar o mais rápido possível para uma redução ainda mais profunda dessa queima...

Luis Nassif: O que é necessário? Tecnologia?

José Sérgio Gabrielli: É necessário tecnologia e logística.

Luis Nassif: Ah, tá.

José Sérgio Gabrielli: Objetivamente, nós temos que fazer gasodutos para trazer dos campos para a rede. O gás, diferentemente do petróleo, precisa da rede de redistribuição. Esse é um elemento chave. A indústria de gás é uma indústria de rede, não é uma indústria de produtos isolados que permitem fácil transportabilidade...

Guilherme Barros: Deveria ter investido mais em gasodutos?

José Sérgio Gabrielli: Gasodutos... Você também... não adianta investir em gasodutos se não tem gás. Tem que combinar o mercado final com o crescimento da rede de transportes e com a produção. Nós estamos investindo nessas três áreas. Nós vamos investir mais de US$ 22 bilhões nos próximos três, quatro anos, para desenvolver gasodutos, 4600 quilômetros de gasodutos, para aumentar a produção... Até 2008 vamos aumentar 24 milhões de metros cúbicos de produção para viabilizar o mercado. Então, nós temos hoje uma limitação institucional no Brasil, porque a parte final de distribuição do gás é monopólio das empresas estaduais. A Petrobras não pode entregar o gás diretamente ao consumidor final. Nós entregamos o gás aos distribuidores estaduais. Em alguns estados, como São Paulo, por exemplo, a Petrobras sequer participa societariamente das distribuidoras estaduais.

Ivo Martins: Presidente, uma questão: voltando à questão da produção do gás, quando o Brasil, a Petrobras, vão deixar de ser reféns da produção de gás boliviano?

José Sérgio Gabrielli: Reféns, eu não usaria essa palavra. Nós temos um contrato com a Bolívia até 2019...

Paulo Markun: Desculpe, presidente, o senhor não usou alguma coisa parecida no intervalo aqui?

José Sérgio Gabrielli: Não usei "refém". No intervalo eu não usei a palavra "refém". Eu disse a ele o seguinte: nós temos um contrato até 2019. Um contrato que nós queremos manter honrado. Nós estamos prevendo até 2015 manter trinta milhões de metros cúbicos sendo fornecidos para a Bolívia. No entanto, a demanda brasileira tende a crescer muito. Nós pretendemos aumentar a produção brasileira para que a proporção do gás que vem da Bolívia seja menor. Nós queremos crescer a independência do Brasil em relação à produção do gás da Bolívia.

Cida Damasco: [Interrompendo] Mas, ao mesmo tempo, queremos ampliar os investimentos na Bolívia, não queremos?

José Sérgio Gabrielli: Não. Ampliar os investimentos na Bolívia depende caso a caso. O que eu disse a você, Cida, foi que, do ponto de vista das condições do contrato que tivemos com a Bolívia, é possível analisar a rentabilidade adequada para o investimento na Bolívia. Se nós tivermos possibilidade de investir na Bolívia ganhando mais que 15% ao ano, nós vamos fazer.

Paulo Markun: Houve, no momento da crise com a Bolívia, uma discussão muito forte que o governo brasileiro anterior, o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, teria errado ao - digamos - fazer um investimento tão pesado, sabendo a instabilidade política da Bolívia. O senhor compartilha dessa idéia?

José Sérgio Gabrielli: Olha, eu acho que, em determinado momento, o investimento realizado na Bolívia foi um investimento... eu diria equivocado. Nós tivemos... quando o gasoduto foi feito não existia ainda reserva provada na Bolívia e não existia mercado brasileiro. No entanto, isso foi antes de nós chegarmos à Petrobras, antes de o Lula chegar ao governo. Mas, uma vez feito o investimento, você tem que otimizar o investimento realizado, um investimento de mais de dois bilhões. Não tem por que não utilizar...

[Sobreposição de vozes]

[...]: [Interrompendo] Já tiveram visão.

Cida Damasco: É.

José Sérgio Gabrielli: Em 2003 nós tínhamos um contrato com a Bolívia. Nós pagávamos 24 milhões de metros cúbicos, um contrato chamado take or pay, que você tem que pagar trazendo ou não trazendo o gás. Nós estávamos transportando para o Brasil nove, dez milhões de metros cúbicos, e pagando 24, em 2003. E em 2006 nós estamos trazendo 24 metros cúbicos, que é o limite nós tínhamos no contrato. Portanto, estamos pagando o que estamos trazendo.

José Sérgio Gabrielli: Presidente, um ponto que foi levantado recentemente, eu até levantei no meu blog, é que, num certo momento da negociação da Petrobras com a Bolívia, a área de gás da Petrobras teria se recusado a fazer pagamentos que constavam do contrato. Isso teria acirrado os ânimos...

José Sérgio Gabrielli: Não, isso não ocorreu nunca, não. Nunca existiu isso. A Petrobras, pelo contrário, preserva sempre a idéia que tem os contratos que tem que cumprir, e a história da Petrobras é pagamento de seus contratos. O que houve no início do ano foi, em 2003 ou 2004 - não lembro exatamente se foi final de 2004, 2003 no início, ou 2004 -, nós solicitamos formalmente dentro dos termos do contrato uma revisão do preço, porque achávamos que o preço estava muito alto, dentro dos termos do contrato existente, da mesma maneira que em 2006 a Bolívia requisitou aumento de preço. E, dentro dos termos do contrato, chegamos ao acordo que não tinha por que aumentar preço...

Luis Nassif: Deixa eu só entender. O senhor colocou aqui a visão da Petrobras em relação ao continente e tudo. Eu queria que o senhor ajudasse a gente a entender um pouquinho a visão do Hugo Chávez em relação a essa tentativa de montar o gasoduto e tudo mais aí. No ponto de vista de segurança, para ele seria melhor vender o gás liquefeito para os Estados Unidos, que é um mercado mais disperso, sem depender de um só comprador. A intenção dele, quando ele tenta fechar esse gasoduto, é o quê? É institucionalizar as relações entre e a Bolívia e os demais países?

José Sérgio Gabrielli: [Risos] Olha, é o seguinte: se nós olharmos um pouco mais longo no horizonte, lá para 2020, 2025, o mercado de gás sul-americano, qual é o desenho que nós podemos vislumbrar desse mercado de gás sul-americano? Um desenho semelhante ao mercado europeu de hoje. E o que caracteriza esse mercado europeu de hoje? Gasodutos troncais longos, que unificam diferentes fontes de suprimento, com diferentes países consumidores.

Luis Nassif: E que foram montados em plena Guerra Fria.

José Sérgio Gabrielli: Que foram montados em plena Guerra Fria, mas foram montados com instabilidade regulatória muito grande, mas que foram montados ao longo do tempo. O que nós estamos dizendo hoje é que, do ponto de vista de um horizonte de longo prazo, uma integração das diversas fontes de suprimento de gás da América do Sul é absolutamente fundamental. Hoje você tem gás... produzindo gás, com possibilidade de crescimento de produção de gás na Bolívia, no Peru, na Venezuela, na Argentina, no Brasil.

Luis Nassif: Ou seja, esse super gasoduto pode ser um fator de estabilização política?

José Sérgio Gabrielli: Então, conseqüentemente, pensar na integração de gasodutos que integram diversas fontes de suprimento com diversos mercados é pensar na integração energética sul-americana.

Cida Damasco: Esse super gasoduto está no planejamento estratégico da Petrobras?

José Sérgio Gabrielli: Eu vou lhe responder daqui a pouco. Então, portanto, isso é uma visão de longo prazo importante. Não é fácil chegar lá, é preciso resolver problemas regulatórios [enumera nos dedos], é preciso resolver problemas ambientais, é preciso resolver problemas econômicos, é preciso resolver problemas societários, é preciso resolver problemas de engenharia, é preciso resolver uma série de problemas. Nós temos hoje dezenas de técnicos trabalhando nessas questões, temos um memorando de entendimento entre nós e PDVSA até dezembro deste ano para terminar esses estudos. Esses estudos, portanto, estão em andamento para que no início do próximo ano nós possamos tomar decisões em função de uma análise mais precisa desse gasoduto. O primeiro traçado que nós temos é um traçado que vai de Guiria, no Norte da Venezuela, até Pecém, no Ceará, e nós estamos, portanto, estudando isso. Está no nosso plano estratégico? Não está no nosso plano estratégico, porque está em estudos neste momento e não tem ainda o grau de maturidade para entrar no nosso plano estratégico.

Paulo Markun: Presidente, tem pergunta aqui do deputado federal Alberto Camarinha, cuja base é no interior do estado de São Paulo. Ele diz que está indignado, em nome de toda a nação, com o preço do litro do óleo diesel na faixa de R$ 2, e que, segundo ele, o custo corresponde de 50 ou 60% da gasolina. E diz que óleo diesel é o sangue da economia, responsável pelo transporte coletivo, ônibus, van e pelo transporte rodoviário, e faz a seguinte pergunta: "Seria possível diminuir os encargos e impostos do óleo? Porque isso baixaria o preço das passagens do ônibus, do transporte coletivo, digamos, desatrelando o preço do óleo ao câmbio, que, aliás, é uma das questões que volta e meia se discute...

Pedro Cafardo: Posso emendar sobre o preço da gasolina?

Paulo Markun: Por favor.

Pedro Cafardo: Que aí você já fala sobre os dois preços.

José Sérgio Gabrielli: Olha...

Pedro Cafardo: Deixa eu falar. Eu encostei ontem o carro no posto, gastei R$ 107 para encher o tanque. Achei caro. As pessoas não conseguem entender - se o senhor puder explicar isso para gente ficaria legal - por que a gasolina no Brasil tem que ser mais cara que nos Estados Unidos? Na Venezuela, parece que é R$ 0,10. Nos Estados Unidos é ainda mais barato. Por quê? Nós não somos auto-suficientes?

José Sérgio Gabrielli: Deixa eu explicar um pouco isso.

Pedro Cafardo: Não esquece do diesel.

José Sérgio Gabrielli: Diesel e gasolina, dois produtos no Brasil que são produtos que um terço, um terço é o custo da matéria-prima, ou seja, um terço do preço da gasolina e um terço do preço do diesel é o da Petrobras. O restante é imposto. E o restante é margem de distribuição. Então, de cada litro de gasolina e cada litro de diesel, o que a Petrobras recebe é um terço desse valor, somente. Respondendo à sua pergunta: "Qual é a variação dos preços que nós temos?", nós temos hoje uma política de preços para gasolina e diesel que é não repassar para mercado brasileiro as mudanças e as variações do preço internacional. Quando o preço do petróleo chegou a 78, nós não alteramos o preço do...

Pedro Cafardo: A Petrobras foi criticada.

José Sérgio Gabrielli: Fortemente criticada...

Pedro Cafardo: Quando baixou, também não alterou. Foi criticada de novo.

José Sérgio Gabrielli: Então mantemos uma média estável. O mundo inteiro viveu uma crise profunda da variação de preços em 2006 e o Brasil não viveu esse problema. O preço ficou absolutamente estável, diesel e da gasolina.

Paulo Markun: Questão do diesel, a que o deputado se refere.

José Sérgio Gabrielli: No que se refere ao diesel, especificamente, como eu mencionei, um terço é o preço da Petrobras. O que o governo faz com imposto que ele recebe do diesel?

Pedro Cafardo: Não sei.

José Sérgio Gabrielli: [O valor de R$] 0,54 por litro da gasolina é CIDE [Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico]. Impostos de participações é outra parte importante na produção. Do valor adicional da Petrobras, 69% do valor adicional da Petrobras é imposto.

Cristina Alves: E a margem é alta também, né, presidente? A margem também é alta, né? A margem de lucro.

José Sérgio Gabrielli: Margem de lucro de quem?

Cristina Alves: Por que é tão alta? Da distribuição.

José Sérgio Gabrielli: Sim, margem de lucro da distribuição... São 270 distribuidoras. A Petrobras tem um terço do mercado. O governo vai chegar 38[%], mas dois terços não são da Petrobras.

Cristina Alves: Por que, mesmo pulverizada, a margem de lucro é tão alta? Não era para ser um mercado mais competitivo?

José Sérgio Gabrielli: É um mercado competitivo no limite do que existe. Se os preços são dados, eles são dados. Não têm se alterado. É importante lembrar que o preço internacional tem variado muito, e o preço no Brasil não tem se alterado. A grande vantagem na nossa política de preço é a estabilidade do preço do petróleo, do diesel e da gasolina.

Ivan Martins: Presidente, qual é o compromisso da Petrobras? É com seus acionistas ou com os consumidores brasileiros? É com o país ou com os donos das empresas?

José Sérgio Gabrielli: Nós temos uma dificuldade e uma fortaleza que é a combinação de diversos interesses. Nós temos compromissos com nossos acionistas, que incluem, entre nossos acionistas, o governo brasileiro. Nós temos responsabilidade muito forte com nossos trabalhadores. Nossas relações com os trabalhadores da Petrobras são muito importantes. Nós temos compromisso muito forte com a comunidade brasileira. Nós somos uma empresa reconhecidamente com grande volume de responsabilidade social. Nós temos um compromisso com a cultura brasileira. Nós somos reconhecidamente uma empresa muito importante e que desempenha papel muito importante...

Paulo Markun: E volta e meia não tem conflito?

José Sérgio Gabrielli: Nós temos um compromisso com o Brasil como um todo. Nossa política de expansão internacional é uma política perfeitamente adequada à expansão brasileira. Então, nós temos que equilibrar os diversos interesses, que são públicos e distintos, são públicos e de interesses distintos... que a sabedoria da Petrobras é exatamente saber equilibrar esses distintos interesses.

Paulo Markun: Presidente, vamos para mais um rápido intervalo e a gente volta logo com a entrevista de hoje que também é acompanhada em nossa platéia por Ingrid Miller, artista plástica; Ana Maria Rossi, assessora de imprensa da presidência Petrobras; Luiz Maluf, diretor de operações da Sun Microsystems; José Lima de Andrade Neto, presidente da Petroquisa; e Augusto Mendonça, vice-presidente do Sindicato da Indústria Naval.

[intervalo]

Paulo Markun: Pergunta de Jorge de Araújo, aposentado no Rio de Janeiro, diz o seguinte... não sei se consigo aqui ver: “A Petrobras sempre foi reconhecida como empresa de excelência no seu quadro gerencial. Por que o PT [Partido dos Trabalhadores, partido do governo] está aparelhando a empresa com pessoas de nível médio na sua gerência?”.

José Sérgio Gabrielli: Olha, Araújo... É Araújo?

Paulo Markun: Isso. Jorge Araújo.

José Sérgio Gabrielli: Nós fazemos todo ano uma pesquisa sobre índice de satisfação dos empregados. Uma pesquisa com o conjunto dos empregados da Petrobras para avaliar, de um lado, a satisfação em diferentes segmentos e, de outro lado, o compromisso com a empresa em diferentes critérios. Esses indicadores têm crescido de forma significativa nos últimos quatro anos. Nesse ano de 2006 nós estamos finalizando uma pesquisa de ambiência organizacional. Foi um número recorde de respostas e nós crescemos três pontos percentuais no índice de satisfação dos empregados. Por outro lado, do ponto de vista da negociação que nós fizemos em relação ao fundo de pensão, nós tivemos uma adesão individual de 72% dos trabalhadores do fundo de pensão. Tivemos 66%, dois terços dos... quase dois terços dos aposentados aderiram ao programa que a Petrobras apresentou. Portanto, do ponto de vista objetivo, há uma grande satisfação interna no público que nós mencionamos, que mencionamos anteriormente, que é o público interno de empregados da Petrobras. Do ponto de vista do relacionamento da empresa com o público em volta, que é, digamos, medido também por uma pesquisa que nós fazemos em várias capitais do país, que é a percepção que a sociedade tem da Petrobras, nos últimos quatro anos isso só tem aumentado. Todas as pesquisas mostram que a percepção da importância da Petrobras, que a percepção do caráter tecnológico da Petrobras, da responsabilidade social da Petrobras, tem aumentado. Do ponto de vista do mercado, os acionistas têm sido bastante satisfeitos, porque o valor de mercado da companhia em janeiro de 2003 era US$ 14 bilhões, atingiu US$ 107 bilhões, deve estar agora em torno de US$ 96 ou 97 bilhões. Portanto, os acionistas não têm por que, naquilo que é a manifestação explícita deles, que é mercado de ações, não têm por que reclamar. Do ponto de vista do governo, os relacionamentos da Petrobras com o governo são os melhores possíveis. Portanto, não vejo por que você estar mencionando uma visão de que a Petrobras está sendo ineficiente, que está sendo equivocada, e a escolha dos seus dirigentes é uma escolha fortemente baseada nos quadros internos da Petrobras e tem demonstrado competência e seriedade na sua atividade.

Pedro Cafardo: Mas por falar em PT, o senhor, além de técnico, é um petista histórico, né?

José Sérgio Gabrielli: Sim.

Pedro Cafardo: Continua petista. O senhor não se decepcionou com o PT nessa crise política que houve aí, a questão do Mensalão? Não ficou decepcionado?

José Sérgio Gabrielli: Olha, eu acho que o PT viveu momentos muito difíceis, mas, de novo, a sociedade teve algumas manifestações muito claras. É bom lembrar que a eleição interna, mais de trezentos mil militantes foram votar na eleição interna do partido, em pleno auge da crise. A eleição demonstrou que o PT não diminuiu sua representação política e o processo do Congresso está demonstrando uma vitalidade nas discussões internas muito intensas. É evidente que existiram dificuldades, evidente que rumos são alterados, mas, em linhas gerais, o PT é um PT... é um partido que consolida como alternativa de poder no país.

Guilherme Barros: Presidente, mas a Petrobras, durante a crise do Mensalão, foi alvo de uma série de denúncias e críticas. Enfim, queria saber se, diante dessas denúncias, a Petrobras criou alguns filtros ou algumas... implementou algumas mudanças para evitar aquela que se submeta a algumas...

José Sérgio Gabrielli: A Petrobras, permanentemente, Guilherme, ela tende a ter um processo decisório que é muito complexo. Quer dizer, nós temos limites de competências com gerentes, vários níveis de limites de competência. Os processos decisórios envolvem participações de, em alguns casos, centenas de pessoas. Há os critérios de avaliação de projetos, os critérios para aprovação de decisões. São critérios muito rígidos. Nós temos aperfeiçoado isso. Nós não temos nisso o ideal. Nesses últimos anos nós estamos aperfeiçoando ainda mais o mecanismo de governança interna, o funcionamento dos comitês internos da companhia, a criação de uma ouvidoria permanente que ouve e que encaminha denúncias, a criação de um comitê de auditoria nos moldes da lei Sarbanes-Oxley [lei estadunidense assinada em 2002 que visa garantir a criação de mecanismos de auditoria  e segurança confiáveis nas empresas, em nome da transparência em sua gestão] americana, ao qual nós também somos submetidos, a crescente presença de auditorias externas dentro de diversos processos da companhia, o atendimento de todos os requisitos da lei Sarbanes-Oxley para este ano, que é uma lei extremamente rígida no que se refere ao controle da informação, o combate à corrupção e o combate a qualquer desvio de comportamento, a aprovação e a implementação de um Código de Ética, a atitude exemplar de punição...

Pedro Cafardo: Teve punição? Punições?

José Sérgio Gabrielli: Tivemos várias punições. Várias punições, não foi uma só.

Ivan Martins: Presidente, em todas as grandes democracias no mundo inteiro existe uma tendência de relacionamento promíscuo entre empresas e partidos políticos na questão de financiamento de campanhas. O problema histórico é nos Estados Unidos. Aqui se revelou gravíssimo nessa última crise. A Petrobras está livre disso? Como a Petrobras administra isso?

José Sérgio Gabrielli: A Petrobras não pode fazer financiamento de campanha. É proibida por lei de fazer financiamento de campanha. A Petrobras não pode fazer isso.

Ivan Martins: Existem outros mecanismos [de] que as empresas se utilizam para favorecer grupos políticos, ou através de campanhas, através de verbas publicitárias ou... ?

José Sérgio Gabrielli: [Interrompendo] A Petrobras tem sido submetida à auditoria do TCU [Tribunal de Contas da União], CGU [Controladoria Geral da União], ANP [Agência Nacional de Petróleo], Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica], das delegacias regionais do trabalho, da CVM [Companhia de Valores Mobiliários], tem uma auditoria própria contratada externa, tem auditores internos, tem a imprensa toda. Diariamente, nós somos talvez a empresa mais coberta por vocês...

[...]: Com justa razão.

[...]: Muito justa razão.

[Risos]

José Sérgio Gabrielli: Portanto, nós estamos abertos. Estamos, em vários momentos, sendo reconhecidos por prêmios de transparência, prêmios de abertura. Portanto...

Paulo Markun: No passado a Petrobras teve alguns problemas da sua imagem, bastante boa no geral, em relação a desastres ambientais. O que é que mudou lá? E o que o senhor acha do risco de que isso aconteça novamente?

José Sérgio Gabrielli: Isso é um problema muito sério. A Petrobras investiu fortemente na mudança da sua... Em primeiro lugar, é um investimento muito pesado nos equipamentos, no hardware, para diminuir o risco de acidentes. Em segundo lugar, que é talvez mais importante na mudança da cultura, do valor que nós damos hoje ao que nós chamamos de SMS: segurança, meio ambiente e saúde. Hoje os indicadores mostram que a Petrobras convergiu de forma bastante rápida para indicadores internacionais tanto no que se refere a vazamentos, como no que se refere a incidentes ambientais, como no que se refere a acidentes do trabalho. Nós estamos, portanto, com uma experiência nos últimos cinco anos ou seis anos, que é uma experiência de grande resultado depois desses infelizes acidentes que tivemos.

Luis Nassif: Com a questão do bioetanol, a questão do biocombustível e tudo mais, que vai haver uma dispersão aí de refinarias, a Agência Nacional de Petróleo está preparada para fazer uma fiscalização adequada, se antes disso já tem graves problemas aí de mistura, de falsificação? Não é muito arriscado entrar agora na fase do biocombustível, que qualquer... que pode fazer refinarias, mini usinas aí e tudo mais, com essa estrutura de fiscalização com a Agência Nacional de Petróleo?

José Sérgio Gabrielli: É, Nassif, você levantou um problema importante. A ANP tem um desafio muito grande. Ela tem que se habilitar e criar condições, porque ela desempenha crescentemente um papel extremamente importante na fiscalização tanto no que se refere aos combustíveis tradicionais, como em relação aos biocombustíveis. Compete à ANP a fiscalização dos biscombustíveis e, como você mencionou, os biocombustíveis permitem alterações mais fáceis que os combustíveis tradicionais. E os testes são mais difíceis, e a especificação é mais complexa. E isso significa, portanto, que acreditamos que a ANP vai se habilitar adequadamente para isso.

Luis Nassif: Mas acreditamos?

José Sérgio Gabrielli: Acreditamos. Não somos a ANP. Nós somos fiscalizados pela ANP.

Cida Damasco: Presidente, nessa crise dos mercados globais, mercados financeiros, a Petrobras, assim como várias outras empresas, sofreu efeitos fortes naqueles dias de turbulência, em termos de redução do valor das ações. A Petrobras hoje tem uma presença muito forte de investidores estrangeiros e isso, obviamente, nesses momentos em que investidores estrangeiros parecem ser os mais rápidos a escapar de investimentos em outros países, isso pode significar uma certa vulnerabilidade. Como é que a Petrobras pensa em lidar com esse assunto? Quer ampliar a participação de investidores brasileiros? Como é que Petrobras está, diante desse cenário?

José Sérgio Gabrielli: Olha, a Petrobras hoje é a empresa com o maior volume de ações negociáveis na Bolsa de São Paulo, mas é também a empresa com maior volume de ações negociadas entre os ADRs [American Deposit Receipts], que são os depósitos americanos na Bolsa de Nova Iorque. Então, entre todas as quatrocentas empresas com ADRs em Nova Iorque, a Petrobras é a que tem maior volume de negócios. Portanto, ela é uma empresa muito grande no mercado de ações americano e brasileiro. Por isso, evidentemente que ela tende a ter uma volatilidade muito grande no valor das suas ações. Mas, mais ainda, o que é muito interessante é que há uma grande associação negativa entre o Risco Brasil [grau de instabilidade econômica do Brasil, medido por indicadores como o tamanho da dívida pública externa e interna, a capacidade de pagamento dessa dívida, o tamanho do déficit público, a magnitude das taxas de juros e da taxa de câmbio, entre outros indicadores] e o valor das ações da Petrobras. Toda vez que o Risco Brasil cai, o valor da Petrobras cresce. E toda vez que o Risco Brasil sobe, o valor da Petrobras cai. Há uma troca de posições entre investidores estrangeiros, entre aplicações em títulos do governo brasileiro e aplicações em ações da Petrobras. Porém, não é só esse movimento, porque também, no momento em que os títulos brasileiros estão com uma taxa de risco mais baixa, a Petrobras passa a se comportar em termos de mercado de ações muito vinculado ao preço do petróleo, muito mais vinculadas à empresa de petróleo. Portanto, o efeito é um efeito combinado do que acontece com o mercado de petróleo com o que acontece no mercado emergente, particularmente no mercado brasileiro. No que se refere particularmente a esse último soluço, essa última turbulência do mercado, isso foi simultâneo a uma queda do preço do petróleo. Então, essa simultaneidade entre essa flutuação das ações em relação aos países chamados emergentes e a queda da preço do petróleo acabou tendo uma certa penalização sobre as ações da Petrobras. Mas em outros momentos ocorre o contrário. Quando há uma modificação no mercado de ações e o preço do petróleo se eleva, os efeitos sobre a Petrobras são menores. Portanto, depende da combinação dessas duas coisas.

Paulo Markun: Presidente, o nosso tempo acabou. Eu vou fazer uma última pergunta, de uma questão interessante só que envolvendo aí a opinião de um telespectador, Manoel Mattos, do Rio de Janeiro. A Petrobras - é sabido - tem uma importância política de apoio e incentivo a ações culturais e a patrocínios. É uma grande patrocinadora. E o Manoel Mattos pergunta o seguinte – e acho que o senhor poderia abordar as duas coisas numa resposta rápida, obviamente -: "Por que a Petrobras, uma empresa de todos os brasileiros, decide patrocinar um clube de futebol único, no caso o Flamengo? Eu, como vascaino, não abasteço em postos da Petrobras há quinze anos.".

[Risos]

José Sérgio Gabrielli: A maior torcida brasileira é o Flamengo!

Paulo Markun: Como é que a Petrobras... ? Por que ela investe tanto nessas áreas?

Luis Nassif: A soma das demais torcidas é maior do que [a torcida] do Flamengo! [Risos]

José Sérgio Gabrielli: Aí não adianta. Poderíamos patrocinar a Seleção Brasileira nesse caso. Na verdade, nós temos uma política de longo tempo de patrocínio cultural e de patrocínio social. Nós fizemos um processo de seleção pública crescente. A maior parte dos nossos recursos hoje são selecionados através de um processo de seleção pública e isso envolve a participação de segmentos externos da companhia para avaliar os diversos projetos. Nós achamos que é um papel importante da Petrobras viabilizar e expandir um conjunto de ações culturais. Nós temos hoje uma aderência muito grande entre a política de patrocínio cultural da Petrobras e as diretrizes da política cultural do Ministério da Cultura, e, portanto, achamos que o papel nosso como grande empresa, uma grande empresa com uma responsabilidade social, uma responsabilidade corporativa importante e cidadania corporativa, ser um grande financiador da ciência, da cultura e das atividades sociais.

Paulo Markun: O senhor é flamenguista?

José Sérgio Gabrielli: Não.

Luis Nassif : Bahia, Esporte Clube Bahia.

José Sérgio Gabrielli: Sou Ipiranga!

[Risos]

Paulo Markun: Muito obrigado a todos. Nós agradecemos aos nossos entrevistadores, a você que está em casa, e voltaremos aqui na próxima segunda-feira, às 22h40, com mais um Roda Viva. Uma ótima semana e até segunda.

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