Memória Roda Viva

Listar por: Entrevistas | Temas | Data

Dunga

9/3/2009

Além de curiosidades históricas e método de trabalho, Dunga aponta características de importantes jogadores brasileiros que podem estar entre os atletas da Copa de 2010

Baixe o player Flash para assistir esse vídeo.

     
     

[programa ao vivo, permitindo a paticipação dos telespectadores]

Heródoto Barbeiro: Olá, boa noite. Ele marcou uma era no futebol brasileiro com um estilo de jogar considerado feio, defensivo demais e ainda por cima, perdedor. Foi muito criticado por isso e o pior: acabou acusado como o principal responsável da derrota na Copa do Mundo de 1990. Mas ele também marcou, mais tarde, um dos momentos mais alegres do futebol brasileiro ao erguer a taça de tetracampeão do mundo [Copa do Mundo de 1994]. Foi uma virada no futebol da Seleção e na própria história desse meio campista gaúcho que passou de vilão para herói e de jogador a treinador. O Roda Viva entrevista hoje o capitão Dunga, técnico da Seleção Brasileira de Futebol. A entrevista começa já, já.

[intervalo]

Heródoto Barbeiro: O que é dirigir uma seleção de futebol em um país onde os jogadores são duramente cobrados não só para ganhar o jogo, mas também para fazer um grande espetáculo e um verdadeiro show de bola? A tarefa está colocada nas mãos do Dunga.

[Comentarista]: Nome: Carlos Caetano Bledorn Verri; apelido: Dunga, referência a um dos sete anões [do conto de fadas Branca de Neve e os sete anões] por conta da pequena estatura quando criança. Gaúcho de Ijuí, nasceu no dia 31 de outubro de 1963. Com ascendência alemã e italiana, tem 45 anos [de idade]. No futebol, são trinta anos de carreira, iniciada no Internacional de Porto Alegre, onde jogou de 1978 a 1984. De 1984 a 1985, suou a camisa no Corinthians; em 1986, no Santos; em 1987, no Vasco da Gama. Voltou ao Inter em 1999, depois de uma temporada de 12 anos no exterior, a maior parte na Itália. Jogou no Piza de 1987 a 1988, na Fiorentina até 1992 e no Pescara até 1993. Na Alemanha, passou pelo Stuttgart, de 1993 a 1994 até ir para o outro lado do mundo e se transformar em um ídolo do futebol japonês no Jubilo Iwata, de 1994 a 1998. Jogando no exterior, foi convocado para disputar três mundiais defendendo a camisa da Seleção Brasileira. A primeira foi só tristeza. Dunga carregou o fardo da derrota do Brasil para a Argentina, em 1990. Seu estilo duro e de jogar na retranca deu origem à chamada  "era Dunga de futebol". Mas, em 1994, veio a volta por cima: o capitão Dunga foi quem levantou a taça do tetracampeonato mundial do Brasil. Começou ali a "era Dunga de sucesso", que durou só até 1998, quando o Brasil deixou a Copa nas mãos da França, ficando com o título de vice. Em 1999, deixou o Japão e retornou de vez para o Brasil, já pensando em terminar a carreira de jogador e começar a de técnico, o que aconteceu só em 2006, quando foi para a Seleção Brasileira. Nos 36 jogos que já comandou, deu um susto de 3 a 0 na Argentina, vencendo a Copa América de 2007, mas levou o troco no Mineirão [Estádio Governador Magalhães Pinto, em Belo Horizonte] em 2008. Foi vaiado pelo 0 a 0 com os argentinos [vídeo mostra a reação dos torcedores]. Houve outras compensações como o último amistoso [2009], vencendo a Itália, atual campeã do mundo [O Brasil venceu por 2 a 0]. É o Dunga de olho em 2010 [Copa da África do Sul]!

Heródoto Barbeiro: Para entrevistar o treinador da Seleção Brasileira de Futebol, Dunga, estão aqui conosco: a jornalista Soninha Francine, que é apresentadora e comentarista da ESPN Brasil; José Silvério, narrador da Rádio Bandeirantes de São Paulo; o ex-jogador Raí, tetracampeão do mundo junto com Dunga; o ator Nuno Leal Maia, que também é diretor-presidente da Fundação Gol de Letra e já se aventurou como treinador de futebol. O cartunista Paulo Caruso registra aqui, com seus desenhos, os momentos mais importantes do nosso programa. Está aqui conosco também a repórter Luiza Moraes, que apresenta as perguntas que os telespectadores enviam para o programa. No nosso site, você se informa sobre os próximos programas que teremos e manda e-mails para a gente. Você pode fazer perguntas, críticas, sugestões e o que você achar importante para a condução do programa. Nós também temos aqui três usuários do comunicador Twitter, que vão colocar na internet as impressões sobre a entrevista de hoje. Para você ver o que eles estão escrevendo, basta acessar os endereços que vamos mostrar aqui na tela. O Roda Viva é um programa transmitido toda segunda-feira, ao vivo, na íntegra, pela internet às seis e meia da tarde e apresentado também na íntegra, sem edição e sem corte, às dez e dez da noite, pela TV Cultura. Quem estiver acompanhando a entrevista pela televisão, também pode enviar sugestões, observações, críticas e perguntas para o nosso entrevistado. Basta você entrar na nossa página, que é tvcultura.com.br/rodaviva. Dunga, boa noite e muito obrigado pela sua participação.

Dunga: Boa noite, é um prazer estar aqui. Eu acho que é uma ótima oportunidade para eu ter mais espaço e mais tempo de responder as perguntas de vocês e de quem está nos assistindo, para as pessoas terem mais clareza de como é minha personalidade, de como eu sou no dia-a-dia.

Heródoto Barbeiro: Dunga, todo mundo diz que nós somos milhões de técnicos de futebol ao seu lado. Eu acho que hoje nós temos milhões de perguntadores do Roda Viva que estariam ao nosso lado para te fazer a seguinte pergunta: como foi a atuação do Ronaldo [Ronaldo Fenômeno] ontem na sua volta estreando pelo Corinthians e jogando 31 minutos [após complicadas lesões e um longo tempo de recuperação, o jogador voltou ao campo em uma partida contra o Palmeiras pelo Campeonato  Paulista. O gol que fez de cabeça garantiu o empate em 1 a 1]? Eu acho que todo mundo gostaria de fazer essa pergunta...

Dunga: Eu achei muito bom. O Ronaldo jogou conosco em 1994, é um amigo tanto meu como do Raí. O futebol brasileiro precisava do retorno de um grande ídolo. Depois da cirurgia que ele teve, voltar depois de um ano e meio, fazer gol, e ainda com uma torcida como a do Corinthians...Quem gosta de futebol estava torcendo para ele voltar a jogar e fazer gols para a alegria do torcedor.

Heródoto Barbeiro: E te surpreendeu ele fazer um gol aos 47 [minutos] do segundo tempo, quando a torcida do Palmeiras já gritava?

Dunga: Não é que tenha sido uma surpresa pela qualidade técnica dele, pela habilidade, mas talvez pela forma como foi, de cabeça, porque ele fez pouco uso de cabeça na sua vida. Talvez esteja se aprimorando agora...

Heródoto Barbeiro: Soninha, sua pergunta.

Soninha Francine: Dunga, é um prazer estar aqui com você! Eu me lembro vivamente de uma matéria a seu respeito de quando você tinha vinte anos e veio para o Corinthians, que falava desse garoto muito talentoso, muito habilidoso. Parece que só eu me lembro disso! Eu procurei no [site de buscas] Google pois queria muito recuperar essa matéria! Foi um momento em que você foi saudado como mais um talento tipicamente brasileiro que despontava ali no cenário. Depois, ao longo da sua carreira,  sua reputação enquanto jogador foi totalmente diferente, quer dizer, com altos e baixos mas com uma eficiência, sem muito enfeite, muita ginga, muito drible, coisa e tal. Você se lembra desse momento em que foi saudado como um jogador tipicamente brasileiro? E até me surpreendeu uma entrevista mais recente, em maio do ano passado, em que você fala o seguinte: “De tanto ouvir, eu acreditei que eu só sabia defender”. Quer dizer, você também identifica nessa história o momento em que a reputação até ajudou a moldar o jogador que você veio a ser ou a minha memória me trai?

Dunga: É que quando eu comecei a jogar, eu não jogava como volante, eu jogava mais avançado como meia. Cheguei a jogar algumas vezes como atacante, mas o drible não era uma grande qualidade minha. As maiores qualidades eram o passe, a visão de jogo, o posicionamento, o bom chute, porque eu treinava muito nas categorias de base do Internacional. Com o passar do tempo, me colocaram em uma função mais de marcação. Como é normal no futebol, as pessoas colocam uma etiqueta no jogador e fica por aquilo mesmo. Ninguém foi procurar meus passes certos, as bolas roubadas em 1990, 1994, 1998. Pegaram mais uma visão de quando eu errava, davam mais enfoque àquele erro ou falta que eu fazia, mas jamais quando eu fazia um lançamento. Se eu pegar as minhas jogadas de 1994, 1998, e compará-las com as dos jogadores do passado, haverá alguma coisa que as pessoas vão olhar com olhos diferentes. Mas, infelizmente, no futebol isso não é permitido. E, sem dúvida nenhuma, em algum momento, como falavam que eu sabia marcar muito, tu acabas: “Não, meu companheiro sabe passar, sabe lançar mais do que eu, então eu vou dar a bola para ele”. Você acaba, de alguma forma, descarregando a responsabilidade em cima do outro. Já em 1994, eu vim com outro tipo de pensamento porque eu jogava diferente na Itália. Às vezes, quando eu dou uma resposta mais dura, as pessoas ficam chocadas, ficam todas sensíveis: “O Dunga foi muito duro em responder”. Mas ele têm que assistir aos jogos! Eu nunca joguei de marcador na Itália, eu sempre joguei como armador. E as pessoas diziam: “Não, na Itália ele joga como marcador”. E isso acontece hoje como treinador. Eu convoco o jogador e eles dão uma idéia daquele jogador quando ele jogava no Brasil. Eles têm que assistir aos jogos, têm que prestar atenção. E depois, não podem ficar muito sensíveis quando eu falo porque eu assisto. Seguramente alguém fala: “Está vendo? Ele está replicando, está sendo duro!”, mas não é, é a realidade. Em 1994, já mudei; em 1998, também mudei mais um pouco, joguei mais na frente. Mas é a situação...No decorrer da carreira, o jogador vai mudando sua característica, sua forma de ser e vai se aprimorando também.

Heródoto Barbeiro: Nuno, sua pergunta.

Nuno Leal Maia: Em primeiro lugar, parabéns pelo tetra, pela sua carreira e pela Copa América! Aquela vitória sobre a Argentina foi maravilhosa. Sobre essa Copa, eu queria fazer minha primeira pergunta. Você, mais do que eu, está lembrado que a gente começou com dificuldades, perdendo para o México [o placar foi de 2 a 0]. Aí o time foi se formando, acertou um, foi lá, todo mundo estava criticando e tal, mas o time foi se formando. Ele chegou na final contra a Argentina e foi aquele banho! Eu queria saber porque alguns daqueles jogadores não são mais titulares, já que aquele time foi uma consagração. Você usa alguns daqueles jogadores mas há um, por exemplo, que você nunca mais chamou. Eu queria saber o porquê. Ele te dá uma opção muito boa de ataque porque joga como centroavante. Ele joga mais ou menos como o Tostão...Naquele jogo [contra a Argentina] ele foi fundamental. Estou falando do Vágner [Vágner Love, atacante brasileiro, atuou em clubes como Palmeiras, CSKA Moscou e Flamengo].

Dunga: Na Seleção, as posições e situações são muito disputadas. Cada campeonato é um campeonato. Você, como treinador, não pode definir uma coisa e ela ser definitiva. Em italiano se usa mai dire mai, ou seja, nunca se pode dizer que algo acabou. A gente teve dificuldade no início mas foi acertando, a equipe se acertou para aqueles jogos. No futebol, queira ou não, o centroavante vive de gols. O Vágner joga muito bem, com movimento...

Nuno Leal Maia: [interrompendo] Eu estou falando especificamente de três jogadores que, naquele jogo, foram fundamentais: o Daniel [Alves], na lateral, o Vágner e o Júlio Baptista. Você ainda usa esses dois, mas...

Dunga: [interrompendo] O Daniel jogou em uma posição um pouco diferente, porque ele já tinha jogado na Espanha, jogava com o Michael, era o segundo homem à frente do Michael. A gente iniciou com o Elano, que se machucou. E aí eu pensei no banco: "tenho que continuar com um jogador que tem característica ofensiva mas que preencha o meio de campo, saindo com velocidade no ponto onde eu considerava que a equipe adversária era mais lenta". E esse jogador era o Daniel. Mas ele não partiu como lateral, ele partiu como o segundo homem à frente. Esses jogadores vão tendo oportunidades. Vão surgindo novos jogadores, a gente vai os encaixando, vai mudando a equipe...Às vezes é por lesão, por cartão, mas você tem que dar oportunidades para chegarmos à Copa do Mundo com um time definido.

Nuno Leal Maia: Ali nós conseguimos ter uma equipe formada, bacana. Eu também não acreditava naquele time, mas aquela vitória foi tão marcante, em minha opinião, que eu acho que você deveria ter segurado mais aquilo, partido mais daquele ponto para frente. No entanto, você mudou tudo. Eu não entendi.

Dunga: Nós mudamos depois de um certo tempo. A gente deu oportunidade, os jogadores vieram, fizeram vários jogos nas Eliminatórias, mas a gente não conseguiu ter o mesmo rendimento. A gente teve um bom rendimento porque tivemos 15 dias de trabalho, de treinamento, deu para repetir algumas jogadas, posicionamento, movimentação [refere-se à Copa América]. Durante as Eliminatórias, a gente não teve muito tempo. Depois, outros jogadores também retornaram, como o Kaká e Ronaldinho [Gaúcho], que estiveram na Seleção. A gente tem que dar oportunidade a eles.

Nuno Leal Maia: Os outros que estão chegando têm que esperar um pouco...

Dunga: Mas eles esperaram, ficaram um tempo fora e depois entraram. Tiveram um bom rendimento e ficaram.

Nuno Leal Maia: Eu falo mais por causa do Vágner Love...Eu não gostava dele, mas ele te dá uma opção, ele joga tipo o Tostão, como o Tostão fazia na Copa de 1970. Eu acho que é uma opção, já que você tem dois centroavantes muito grandes, que são o Adriano e o Luís Fabiano. Eles são mais ou menos parecidos e você teria mais uma. É só por isso!

Dunga: Então, o [Alexandre] Pato está indo com a gente, é um jogador de velocidade, assim como o Robinho, que é um jogador de maior movimentação. O Vágner, sem dúvida nenhuma, esteve bem na Copa América, depois teve uma caída e agora voltou a jogar bem de novo no CSKA. Ele é goleador da Copa Uefa [Liga Europa da Uefa] e está nos nossos planos, a gente está observando.

Nuno Leal Maia: Está bem.

Heródoto Barbeiro: Raí, por favor.

Raí: Dunga, boa noite. Bom, é uma pergunta pessoal. Eu me lembro que, quando nós começamos juntos na Seleção Brasileira, a gente estava no ônibus e via aquele tumulto em volta do treinador, aquela pressão. Eu, pessoalmente, falava assim: “se um dia eu for treinador da Seleção Brasileira, me pega que eu estou louco!”. E a gente viveu isso como jogador e imaginava isso como treinador. Eu queria saber o que passou pela sua cabeça quando teve o convite. Você já respondeu isso naquela época, mas hoje, com dois anos, o que passou na sua cabeça? Você já pensava em ser treinador? Quais foram as dúvidas?

Dunga: É lógico que eu não pensava em ser treinador tão rapidamente e isso nem era previsto na minha vida. Quando o presidente me chamou para conversar, eu pensei que ele ia me dar algum cargo de diretoria ou assessoria, alguma coisa perto do treinador. Mas, quando ele fez o convite, eu coloquei minhas ponderações, o que eu achava e como eu gostaria de trabalhar. Ele também colocou suas ponderações. Não hesitei em aceitar porque quando fui jogador e campeão em 1994, quando fui chamado em 1998, todo mundo achou: “Não, ele é louco, já conseguiu o máximo que poderia e agora tem que ficar quieto!". Eu acho que não é por aí, pois você está a serviço do seu país na Seleção, é como ser chamado para o Exército. Seu país vai para uma “guerra” e se você for chamado, precisa dar sua colaboração. Não é só nos momentos bons, só nas boas oportunidades...Aquele era um momento em que eu achava que poderia contribuir com minha experiência para aquilo que eu pensava de futebol. Como presidente, ele me deu total liberdade. Fiz as perguntas que vocês, jornalistas, fazem e comentam a respeito da Seleção Brasileira. Ele foi bem claro que não era nada daquilo, que o trabalho na Seleção ia ser feito como a gente gostaria.

Soninha Francine: O quê, por exemplo? Que perguntas foram essas?

Dunga: Se eu teria que convocar alguns jogadores em certos amistosos, se haveria alguma influência...mas não há nada! Todos os contratos são feitos com a Seleção Brasileira independentemente de qualquer outra situação. O que está acontecendo na Seleção até aqui tem demonstrado isso. Muitos jogadores vieram, outros ficaram, não jogaram ou jogaram quando estiveram bem. Ele está sendo bem claro e transparente.

Raí: E ele já te conhecia, conhece seu estilo, seu perfil, né?

Dunga: Já conhecia meu estilo, sabe dos meus defeitos, sabe das minhas virtudes. Mas, o mais importante é saber dos meus defeitos [risos], como é minha forma de ser. E quanto à família, é lógico que há pressão, esse negócio de jornal falar a todo instante, cada um dando a sua opinião como um telefone sem fio. O cara não te conhece mas fica dando opinião. A família sente, mas é o momento de dar contribuição para aquilo que eu mais gostei de fazer até hoje, que é o futebol. Eu não caí de pára-quedas no futebol, a gente nasceu e sobrevive do futebol. Então, o que a gente mais ama é o futebol!

Heródoto Barbeiro: Dunga, nós vamos passar a próxima pergunta para o José Silvério, mas depois do intervalo. Antes eu quero lembrar o seguinte: nós estamos sendo acompanhados também no nosso programa por dois twitteiros, que estão colocando na internet seus comentários sobre o programa ao vivo. São eles: Thiago Agostini, que é jornalista, e Bruno Bernardo, que é publicitário. Para nos seguir no Twitter, é só você clicar na palavra "follow" no endereço twitter.com/rodaviva. A gente volta daqui a um instante. Nosso convidado de hoje é o técnico da Seleção Brasileira de futebol, Dunga. Até já!

[intervalo]

Heródoto Barbeiro: Bem, agora são exatamente sete horas e quatro minutos deste dia 9 de março. Nós estamos entrevistando o técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Dunga. O Roda Viva é transmitido toda segunda-feira ao vivo pela internet, a partir das seis e meia da tarde, e é apresentado também, na íntegra, sem cortes e sem edição na TV Cultura, a partir das dez e dez da noite. Sua pergunta, José Silvério.

José Silvério: Boa noite, Heródoto! Boa noite, Dunga! São dois brilhantes ex-companheiros de trabalho. Sinto falta do nosso tempo nessas duas últimas Copas...[dirige-se ao Dunga] Nós ficamos tanto tempo juntos e quando nos despedimos na Alemanha [sede da Copa do Mundo de 2006], nós conversamos tanto sobre o seu sonho de ser técnico de futebol! De repente, você foi para a Seleção Brasileira, foi um pulo muito rápido. Como você se sentiu passando imediatamente de comentarista para técnico da Seleção Brasileira? Quando você tomou contato com os jogadores, alguns que você nem conhecia direito pessoalmente, como você se sentiu para travar esse contato?

Dunga: Eu acho muito tranquilo. Em princípio, você tem que falar aquilo que você sabe. Eu não poderia chegar para os jogadores e querer demonstrar uma experiência, uma segurança como treinador já de muito tempo. O que eu tinha que transmitir era o que eu sabia como jogador, como observador, como jornalista que fui na Copa do Mundo, o que eu observei, ser muito objetivo, ser curto, sem querer exagerar nas explicações ou ser um filósofo na frente dos jogadores. Eu tinha que demonstrar que sou conhecedor de futebol como ninguém, tinha que ser muito objetivo. E foi o que eu fiz com o trabalho. Passei para eles a forma que eu gosto de trabalhar. Gosto que todo mundo tenha responsabilidade, tenha atitude, assuma seus erros, assuma todas as situações. Se assumir os erros, eu vou assumir junto, se não assumir os erros, eu não vou assumir junto. Cada um tem que ter essa dinâmica, ter liberdade de jogar, ter responsabilidade, saber que é o Brasil, saber que a gente representa um país, uma nação, que o futebol não mudou dentro de campo, ele mudou fora. Essa exposição do jogador em todas as situações, hoje ele é um pop star...O jogador tem que ter noção disso, saber dessas complicações que acontecem. O mais importante é ele entrar em campo e jogar da melhor maneira possível aquilo que sabe jogar.

José Silvério: Antes da final da Copa do Mundo de 2006, naquela sexta-feira em Munique, nós ficamos quase o dia inteiro conversando e passeando pela cidade. Você me contou muita coisa que acontecia na Seleção Brasileira de 2006 e eu te contei outras coisas que eu sabia e tinha visto, principalmente, na primeira etapa. Depois, você encarou alguns desses jogadores de perto, outros você não chamou mais para a Seleção Brasileira. Eu tive contato com você em 2002 e 2006, a gente trocou muitas idéias a respeito dos jogadores de futebol e da Seleção. Você não concordava com muita coisa que aconteceu. A [Copa] de 2002 foi mais tranquila até pela distância das informações. Como você encarou esses jogadores e como você pensou - eu não vou citar aqui, porque não importa mais...até porque, três anos depois, muitos daqueles problemas vieram a público e foram mais do que comprovados - mas como você encarou esses problemas no seu convívio com o jogador? Você pensa mais ou menos como eu penso: não dá para separar muito o ser humano do profissional.

Dunga: O que eu conversei com eles é aquilo que nós sabíamos de fora, o que era passado. Não tínhamos o conhecimento do que acontecia lá com os jogadores. Eu não queria saber se era verdade ou se era mentira, eu queria passar para eles que uma boa parte da opinião pública e dos jornalistas sabia de algumas situações. Eles não sabiam se eram verdadeiras ou não, que nós não poderíamos...

José Silvério: [interrompendo] Mas o tempo mostrou que muitas eram verdadeiras.

Dunga: ...e que no nosso trabalho isso não poderia acontecer de nenhuma forma, que nós tínhamos que ser um grupo fechado. Depois, quando as coisas acontecem e o resultado não vem, tudo toma uma dimensão ainda maior do que é. A gente tinha que ter responsabilidade, uma confiança mútua entre a comissão técnica e os jogadores. O período que a gente tem na Seleção Brasileira parece longo e difícil, mas é um período muito curto, passa muito rápido e é muito prazeiroso. Por mais que haja críticas, o ambiente dentro da Seleção - e o Raí está aí, ele pode falar - é muito saudável, alegre, muito bom. Os jogadores se sentem bem. Basta ver que alguns jogadores, quando estão nas suas equipes, não rendem bem, mas quando vão para a Seleção se tornam outros jogadores pela atmosfera, pela brincadeira. Mas tem que ser uma brincadeira com responsabilidade! A gente tentou passar a eles a nossa forma de trabalhar, como a gente gosta, sobre comportamento. Hora livre é livre, hora de trabalhar é de trabalhar. Cada um fica dentro do seu espaço, sem ocupar o espaço do companheiro, as coisas vão sendo naturais. Dou liberdade, tenho livre acesso de comunicação, a decisão é minha, mas eu ouço todos. Para quem tiver razão, vou dar razão e, para quem não tiver, a gente vai cobrar normalmente.

José Silvério: Você levou o Adriano [atacante brasileiro conhecido por seu vigor físico, habilidade em campo e polêmicas na vida pessoal. Atuou em times como Flamengo, São Paulo e nos italianos Internazionale, Parma e Fiorentina. Ficou conhecido como o "Imperador da Itália"] para a Seleção. Todo mundo sabe que ele teve problemas pessoais muito sérios. Você convive com ele. Antes de convocá-lo, você conversou com ele ou conversou na Seleção a respeito da vida dele?

Dunga: Nós conversamos com o Adriano na Seleção. Eu tenho um princípio que – o Nuno está aqui e já foi treinador, o Raí também - que você não ensina ninguém a jogar futebol. Colocar o cara no trilho é mais fácil. Sabendo o potencial, sabendo abrir os olhos dele para o potencial que ele tem, para o que ele está perdendo na vida de ser um dos maiores ídolos do futebol do mundo, a gente colocou...Ele é o Adriano, o "Imperador da Itália", não é de um dia para o outro que ele esqueceu de jogar futebol. O que nós demos para ele foi confiança. Alguns jogadores precisam ser tratados...As regras são iguais para todos, mas alguns precisam ser tratados de uma forma diferente, abrir os olhos, conversar mais, ficar mais perto e dar essa confiança. Ele não pode ter esquecido como jogar futebol de um dia para o outro. Todas as vezes que veio para a Seleção, ele foi um cara super disciplinado, cumpriu tudo que os outros fizeram e fez muito mais que do ele fazia anteriormente na Seleção. Ele correu muito mais, teve uma entrega, está com vontade, é isso que a gente quer em um jogador. Ensinar a jogar futebol, ninguém ensina. Colocar disciplina é mais fácil.

José Silvério: E o Robinho [habilidoso atacante brasileiro. Já passou por clubes como Real Madrid, Manchester City e Santos]? Você vai "colocá-lo no seu colo" também, conversar com ele na Seleção?

Dunga: A gente conversa sempre com o Robinho porque ele é um cara super dinâmico, super aberto, fala de tudo. A gente tem liberdade de expressão mas não pode dar a sentença antes da justiça, antes do que foi decretado. Colocamos o cara como se ele já estivesse condenado. Calma, devagar! Vamos ver a situação, vamos ver os acontecimentos, os fatos. Eu acredito mais no Robinho, dou mais credibilidade primeiro por ele ser brasileiro, segundo por conhecê-lo como o menino que é, pelo que ele sempre fez pelo Brasil, pelo comportamento. Eu acredito mais no Robinho antes de qualquer outra definição.

José Silvério: Dunga, nós temos perguntas dos telespectadores que falam até de técnicos. Quais são, Luiza?

Luiza Moraes: [Os telespectadores] estão loucos para entrar em campo! Falam sobre milhões de técnicos brasileiros, mas eu vou passar a pergunta do Neto Juca, de Natal, no Rio Grande do Norte: "Até quando você pretende estar à frente da Seleção? Existe muita pressão pela sua saída?". O Paulo Jandaia, de Goiás, faz uma pergunta sobre o Felipão [Luiz Felipe Scolari, técnico da Seleção entre 2001 e 2003. Foi o técnico que conquistou o pentacampeonato em 2002. Ver entrevista com Luiz Felipe Scolari no Roda Viva]: "O fato de ele estar à disposição não ameaça sua posição, não influi na condição do seu trabalho?".

Dunga: Eu espero e estou trabalhando para isso. Minha proposta desde o início é chegar até a Copa do Mundo. Eu acho que um treinador tem que ficar quatro anos pelo desgaste, pela situação e depois tem que dar lugar a outro. A pressão e a cobrança vão ser sempre as mesmas. Se nossos telespectadores estão atentos, o que acontece comigo também aconteceu com o Felipão, com o Zagallo [ver entrevista com Zagallo no Roda Viva], com todos os treinadores que tivemos. É preciso ter confiança no seu trabalho, na sua capacidade, fazer o seu trabalho, ter coerência naquilo que se faz e colocar em prática. Se vai continuar, o resultado é que comanda tudo. Não adianta as pessoas ficarem exaltadas, nervosas e falarem. O Felipão passou pela mesma situação em 2002 e foi até pior do que a minha.

Soninha Francine: Dunga, quando o presidente Lula elogiou o [jogador argentino] Messi e disse que faltava para o jogador brasileiro aquela disposição argentina de perder a bola e sair correndo atrás para recuperá-la, o grupo reagiu muito mal [Lula deu essa declaração em setembro de 2008 ao jornal Folha de S.Paulo]. O Júlio César [goleiro titular da Seleção Brasileira] deu uma declaração muito dura, a Seleção não gostou. Mas esse anseio do Lula - do Lula torcedor e não do Lula presidente - não foi exatamente a razão que levou você a ser técnico da Seleção Brasileira? Quer dizer, ele não estava expressando exatamente aquele senso comum de que foram buscar o Dunga para ele ser o técnico da Seleção e fazer o brasileiro ter mais esse estilo brigador? Por que o grupo se ofendeu tanto com isso?

Dunga: [O grupo] se ofendeu porque tem jogadores renomados e amados no mundo todo. Basta ver a última oferta pelo [atacante brasileiro] Kaká, que já demonstra tudo isso. Estão representando o país. O Brasil é reconhecido no mundo todo pelo futebol da Seleção Brasileira e por aquilo que os jogadores fizeram. Não é por nenhuma outra pessoa, é pelos jogadores, por aquilo que fizeram em campo, pelos títulos que ganharam, pela forma como eles jogam e se comportam não só na Europa, mas em todos os países. Agora, são seres humanos, tem a viagem, fuso horário, o time adversário...Nem sempre podem render ao máximo. É lógico que ninguém gosta de ter uma crítica do nosso presidente e da forma como foi feita. Mas ele também tem direito de falar, é torcedor. E o jogador também tem o direito de se pronunciar e falar o que pensa.

Soninha Francine: Quando as pessoas cobram uma Seleção com mais gingado, isso te irrita mais, não é?

Dunga: Não. Eu quero a Seleção objetiva, fazendo gols, com drible, buscando o resultado. Agora, tem que haver uma dinâmica, marcação, roubar a bola e correr. Agora, como eu falei, os jogadores, às vezes, vêm de férias, estão em situações...não estão bem fisicamente, bem preparados, vêm de lesão, têm dois ou três dias para treinar, vêm de fuso horário, nem sempre podem render ao máximo. Nos jogos em que eles têm um tempo de recuperação maior eles fazem uma boa apresentação, sem dúvida nenhuma! Quant às Eliminatórias, desde que eu me conheço por gente, o Brasil sempre teve dificuldade, sempre teve problema, sempre teve situações. É lógico que ele se sente um pouco, eu não digo ofendido, mas menosprezado, porque é a mesma coisa eu falar que gosto do presidente da Argentina. Há uma rivalidade muito forte entre Brasil e Argentina. É a mesma situação.

Raí: Dunga, aproveitando que você tocou em um aspecto importante, a gente sabe que a evolução do futebol é a maneira com que as pessoas tratam...Os atletas estão mudando. Nos anos 70 e na época do meu irmão, o Sócrates [jogador de futebol brasileiro das décadas de 70 e 80], a gente vê o aspecto financeiro, a cobertura da mídia. Você citou que hoje [os jogadores] são super estrelas, mais do que nessa época, do que em gerações passadas. E a gente sabe que sempre há uma expectativa muito grande em cima desses craques, a gente sabe que tem cansaço, tem estresse, mas ninguém quer saber, pois há cobrança, eles têm que ser 100%. Mas, com essa vida de tanto assédio e até pela questão financeira, que hoje é outro universo, às vezes há a tendência de a  pessoa dar uma relaxada até para sair daquele estresse. Você tem uma estratégia para, não digo motivar, mas de cutucar um ou outro dizendo que você precisa daquele atleta que não está no melhor momento? Você tem uma estratégia para lidar com esse assédio todo ou para dizer ao atleta para ele não se entregar a isso ou não tirar de foco sua atividade principal?

Dunga: Cada jogador tem uma característica ou uma forma de ser. Eu, quando jogava como capitão, tratava todo mundo igual. Fui aprender com o tempo que há jogadores que precisam ser tratados de formas diferentes. Há uns que dá para cutucar mais forte, outros precisam ser preservados. Isso a gente já fazia em 1994, quando o Romário estava meio... a gente fazia ele sair do outro lado, saía todo mundo dali para dar entrevista e deixava o Romário passar. Isso depende de jogador para jogador. As pessoas têm que tirar essa idéia de que o jogador não tem prazer em jogar. Ele sente um prazer imenso. A alegria que eles sentem quando chegam na Seleção, na hora do jantar, de se reunir, de cada um conversar, colocar suas experiências do seu clube, as dificuldades, os problemas, é um prazer imenso! Então, mais do que ninguém, eles querem jogar bem na Seleção e ganhar sempre. Eles não vão fazer uma viagem de 12 horas, sendo jogadores famosíssimos e ganhando super bem na Europa, para virem jogar mal no Brasil. Eles vêm com a melhor intenção de jogar bem, estão sempre à disposição. Na Copa América, o Júlio César estava machucado mas queria vir, um ou dois também estavam machucados e me ligaram porque queriam vir de todas as formas. Aí entrou esse acordo com a equipe e com os médicos de que não tinha condição. Isso demonstra a vontade de jogar.

Raí: Só aproveitando que você falou da comissão técnica e indo um pouquinho para outro assunto, eu queria que você falasse qual é o papel do Jorginho e quem são os outros membros de comissão técnica. Há outras pessoas de confiança que te ajudam no lado técnico?

Dunga: A parte técnica é mais eu e o Jorginho. A gente conversa e busca opiniões. Com a parte física, principalmente, a gente tem que buscar a opinião do preparador: como o jogador rende, se ele está bem, se dá para ele suportar 90 minutos, se tem um bom índice, se tem alguma dor, quem suporta mais ou menos. Tudo isso é conversado. Estou com o Jorginho diariamente, a gente observa, faz relatórios, passa um para o outro, troca idéias.

Raí: Trocam tudo, desde a convocação até a parte tática?

Dunga: A parte tática já é definida. A gente conversa com o Jorginho sobre as opções durante o jogo, como joga o time adversário, o que fazer em caso de problemas ou modificações, as funções de cada jogador. A gente conversa  tudo isso e tem uma visão maior. A decisão é minha, mas eu busco idéias e soluções com o [Paulo] Paixão [preparador físico], com o [José Luiz] Runco [médico da Seleção], com o [Luís] Rosan [fisioterapeuta], com o próprio [supervisor] Américo Faria. A decisão é minha, depois eu me retiro e penso naquilo que eu vou fazer. Mas eu acho que quanto mais a gente ouvir as pessoas, melhor para se tomar uma decisão.

Heródoto Barbeiro: Ok. O Nuno quer fazer uma pergunta.

Nuno Leal Maia: Depois da Copa de 1974, quando a Alemanha destroçou a Holanda, jogadores como você começaram a ter importância fundamental, depois que a Argentina ganhou da Holanda, o futebol mudou um pouco e as características de jogadores como você começaram a fazer falta no futebol. Você, Chicão, Teodoro, Batista...aliás, em 1982, se o Batista fosse escalado talvez não tivesse acontecido aquilo [o Brasil, então favorito ao título, foi desclassificado pela Itália]. Então, acho que jogadores como você estão em falta hoje em dia no futebol. Não tem aparecido aqui, pelo menos agora, nenhum jogador com suas características, eu não tenho visto. Eu te pergunto: você acredita no Gilberto Silva até 2010? Você acha que ele vai aguentar até a Copa? Você pensa em outra substituição, algum outro jogador com suas características para suprir a falta do Gilberto que não está mais com aquele gás todo que ele tinha? Ele foi campeão em 2002.

Dunga: Todas as vezes que o Gilberto jogou bem, nosso time jogou bem. E aí as pessoas falam: “Mas o Gilberto não lança, não vai lá na frente”, mas isso é função de outro. Era a mesma coisa comigo quando eu era jogador. As pessoas queriam que eu roubasse a bola, armasse, chutasse a gol e fizesse gol. E o armador e o atacante, onde estão? Cada um tem uma função! A gente trabalha sempre na Seleção com três ou quatro opções em cada posição...

Nuno Leal Maia: [interrompendo] Eu estou perguntando se você ainda aposta nele para a Copa. Eu acho ele um ótimo jogador, não estou criticando...

Dunga: Não, não. Vai depender dele. A gente aposta nele, mas vai depender dele. Agora, em todas as posições a gente tem...

Nuno Leal Maia: [interrompendo] É isso que eu queria saber, se você tem outra idéia de jogador.

Dunga: Não, em todas as posições a gente tem outras opções. A gente tem a primeira, a segunda, a terceira, a quarta opção e aí vai dependendo da experiência, da idade, do rendimento no momento, a gente tem essas opções. O que acontece muito é que quando a gente está de fora, a gente quer que se jogue com dez atacantes. Até vou contar uma história que é bem interessante. Depois de 1994, a gente foi na Fifa [Federação Internacional de Futebol] com o professor Parreira e todos os treinadores colocaram sua equipe em campo. Ninguém jogava com volante mas com quatro ou cinco atacantes. Aí o Parreira...

Nuno Leal Maia: [interrompendo] Vocês jogaram em 1994 com o Mazinho e o Mauro Silva. O Mauro Silva e você eram uma ignorância!

Dunga: ...perguntou: “Escuta, vocês querem que essa Seleção jogue com quatro ou cinco atacantes? Por que a seleção de vocês só joga com um volante?”. As pessoas acham que não temos que jogar com ninguém marcando no meio de campo, que tem que ser todo mundo para frente. É lógico que tem que ser todo mundo para frente, é lógico que os laterais têm que aparecer, mas tem que haver surpresa. No momento em que o lateral deixa de ser surpresa, ele já começa a deixar espaço nas suas costas. O time adversário já sabe disso.

Nuno Leal Maia: Outro dia, eu estava vendo o jogo do Santos com esse time...Eu não sei qual foi, foi o último jogo...O Roni [atacante] foi entrevistado no meio do jogo e o repórter perguntou: “Você não acha que o Santos está sendo muito defensivo jogando com três zagueiros e todo mundo no meio do campo?”. Ele falou: “Não, não, não tem problema nenhum isso, é só você adiantar o time”. É evidente, é só todo mundo chegar para frente que você...o importante é você jogar para frente. É isso que eu estou te falando.

Dunga: Independentemente da forma, as pessoas se prendem muito ao sistema. A função de cada um, se sabem voltar, se preenchem, tudo isso depende dos jogadores.

Nuno Leal Maia: O que eu acho é que um time para ter força tem que ter jogadores com muita personalidade na sua posição. Eu gostava muito do Chicão, apesar de ele ser criticado por bater muito. Teodoro também era um jogador que eu gostava, o Mauro Silva também. Eu acho que dois jogadores ali com muita personalidade garantem, seguram qualquer problema.

Dunga: É, porque são tipos de jogadores que têm a postura de levar a equipe para frente, de marcar mais, não é de ser defensivo. Se tu roubar a bola aqui no teu campo, aqui atrás, você tem que fazer setenta metros até chegar lá e encontrar a equipe arrumada. Se você coloca jogadores com uma marcação muito forte, uma pegada muito forte, você rola a bola no meio de campo, você tem trinta metros para chegar ao gol adversário e pega tudo desarrumado. Agora, é lógico: tem que ser um jogador que saiba marcar e que dê continuidade na jogada com a bola mais rápida para chegar ao atacante o mais rápido possível.

Heródoto Barbeiro: Dunga, nós vamos fazer mais um intervalo. Eu queria lembrar a você que toda a memória do programa Roda Viva está à disposição na internet. É só você entrar no nosso site que é o tvcultura.com.br/rodaviva, onde você pode, inclusive, pesquisar o conteúdo do nosso arquivo e também mandar seus e-mails com críticas, sugestões e o que você achar relevante aqui no programa. A gente volta em um instante.

[intervalo]

Heródoto Barbeiro: Nós voltamos com o Roda Viva. Conosco está aqui o técnico da Seleção Brasileira de Futebol, que é o Dunga. Dunga, nós temos aí uma convocação da Seleção Brasileira para disputar a Copa América na quinta-feira, é isso? Você poderia nos adiantar alguns nomes que você vai anunciar na próxima quinta-feira?

Dunga: Raí...

[risos]

Heródoto Barbeiro: Mas você convocaria o Ronaldo [Fenômeno] ou não?

Dunga: Se ele voltar a ser o Ronaldo que ele era...

Heródoto Barbeiro: Ele ainda não é o Ronaldo que ele era?

Dunga: Não, ele tem que voltar, faz um ano e meio que está parado. Ele jogou 25 minutos, né? A vida do ídolo é difícil, é dura. Se nós observarmos o que se falava há duas semanas sobre o Ronaldo e o que se fala hoje...Isso é o bom do futebol: aquele campo, aquele gramado é que fala a verdade. Tudo o que se fala aqui fora conta pouco. Lá dentro é que é a verdade!

Heródoto Barbeiro: E o que esse campo te mostrou nesses minutos que o Ronaldo jogou?

Dunga: A vontade de ele voltar a ser o grande jogador que ele é e sempre foi, a qualidade que ele tem e o prazer de jogar futebol. Se nós tivéssemos menos idade, tanto eu quanto o Raí voltaríamos a treinar para jogar ali também.

[risos]

Heródoto Barbeiro: Agora, Dunga, é incomum o esforço que ele está fazendo para voltar a jogar, para voltar a fazer parte de um time de futebol. É incomum isso?

Dunga: Isso é comum em todos aqueles que jogaram futebol e que realmente gostam de jogar futebol, que tiveram esse prazer, esse sabor de jogar. Ele mesmo falou que quando viu a torcida se transformou. Essa torcida e essa atmosfera fazem com que quando você não está bem fisicamente e tecnicamente, você consiga se superar, sair fora de si e jogar como se estivesse no melhor da sua forma.

Heródoto Barbeiro: Agora, quando acontece uma torção como essa que nós estamos mostrando aí, que foi aquela que girou o Ronaldo [exibição do vídeo em que o jogador sofre a lesão], era de se imaginar que ele pudesse um dia ter essa força que ele está tendo para voltar? Aliás, ele até comemorou subindo no alambrado. Estão dizendo que ele está muito gordo. Você acha que ele está muito gordo mesmo?

[risos]

Dunga: Bom, tenho que vê-lo pessoalmente. Eu acho que o Ronaldo já deu demonstrações de sua capacidade, da sua força de vontade depois não só dessa lesão, mas da segunda. Só ele acreditava nele. Por mais que as pessoas falassem que acreditavam, somente ele acreditou. Foi por isso que ele retornou.

Heródoto Barbeiro: Mas ele ainda está muito gordo ou não?

Dunga: Não, eu acredito que não. Por aquilo que os médicos e os preparadores físicos do Corinthians estão dizendo e por ter jogado dessa forma, ele está bem.

Heródoto Barbeiro: Ok, tem mais Seleção ainda? [dirige-se à jornalista Luiza Moraes]

Luiza Moraes: Vamos fazer justiça aos palmeirenses também nessa última partida. A gente tem várias perguntas aqui a respeito. Continuamos na escalação, o brasileiro adora! A pergunta que...

Heródoto Barbeiro: [interrompendo] Além do Raí, você vai convidar mais alguém para a Seleção?

[risos]

Luiza Moraes: Não? O Ricardo Azevedo, de Mauá, São Paulo, faz a pergunta: "Por que jogadores brasileiros como o [atacante] Kléber Pereira, o [atacante] Keirrison e o [zagueiro] Miranda não têm chance enquanto alguns europeus com menos destaque são sempre convocados?". O Leonardo Gonçalves, de São Paulo, volta a perguntar a respeito do Keirrison, se ele merece uma chance e se o Neymar, do Santos, pode ser uma revelação?

Dunga: O Keirrison esteve conosco antes das Olimpíadas [Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008], depois teve uma lesão e não pôde ir. Eu acho que jogadores como o Luís Fabiano, chuteira de ouro da Europa, não é um jogador sem expressão. O Adriano, goleador da Copa América [2004] e da Copa das Confederações [2005], esteve bem na Copa do Mundo, é o "Imperador de Roma".

Luiza Moraes: A velha história de que tem que tirar para por...

Dunga: Não são jogadores desconhecidos. O [Alexandre] Pato [atacante brasileiro] é uma grande promessa, é um jogador de velocidade, está fazendo bem este ano. Então, não são jogadores desconhecidos, são jogadores que já têm um nome. Quando eu fui convocado para a Seleção Brasileira para fazer uma renovação gradual,  me foi colocado que eu tinha que buscar jogadores em todas as partes do mundo, que eu tinha que garimpar jogadores. Para você formar uma seleção, você tem que buscar alguns jogadores que vão dar certo, outros menos, mas você tem que dar oportunidade em um momento oportuno. Agora, eu não posso tirar um jogador que comigo tem feito sete ou oito gols seguidos em jogos decisivos para colocar outro jogador que está fazendo bem também no Brasil só para contentar algumas pessoas. Ele tem que esperar sua oportunidade. O que acontece na Seleção Brasileira é que, às vezes, você tem um jogador na Seleção muito bem e outro que não está na Seleção, que está fora e que está muito bem também. Não tem como você tentar encaixar...É como um trabalho, é como na televisão: se tenho três cinegrafistas ótimos e só pode ser um, não posso colocar todos para entrevistar senão vou desestruturar a equipe. Há uma estrutura, uma lógica para fazer as coisas.

Heródoto Barbeiro: Dunga, é mais fácil por gente na Seleção ou tirar gente da Seleção?

Dunga: É mais difícil tirar.

Heródoto Barbeiro: É mais difícil tirar?

Dunga: Sim, porque a gente foi jogador, são jogadores de nome...

Heródoto Barbeiro: Tem a torcida.

Dunga: Tem a torcida, tem o histórico. Você vai tirar um, botar outro, sempre alguém vai ter alguma coisa para falar, para dizer, mas é normal. O importante é ter convicção e fazer as coisas com lógica e transparência, ser honesto com todos.

Raí: Dunga, falando da rivalidade como Corinthians e Palmeiras, do torcedor, o povo gaúcho sempre foi muito orgulhoso da região em que nasceu, da cultura gaúcha e tudo mais. Uma pergunta: o orgulho de o treinador da Seleção Brasileira ser um gaúcho é maior do que a rivalidade entre Grêmio e Internacional? A torcida do Grêmio gosta do Dunga hoje?

[risos]

Dunga: Ela me respeita não por eu ser treinador mas pelo meu histórico como jogador. Mas, há uma rivalidade forte. Lá é o "bicho"! Aliás, você não é nem do Grêmio, você é contra o Grêmio, você não é do Inter, você é contra o Inter. Primeiro você é contra para depois ser a favor do outro time...

Raí: Mas você não sente ninguém do Grêmio torcendo contra você?

Dunga: Não, eu tive um pequeno acidente - como há bons profissionais e maus profissionais em todas as áreas - com um rapaz. Talvez ele não tivesse o espaço que ele desejava, a importância que ele desejava, mas ele colocou algumas coisas na minha boca que não eram verdade. Até hoje estou esperando a fita e não me deram...

Soninha Francine: Dunga, voltando ao tema "declarações que magoam o grupo", em 1989 você deu uma entrevista para o jornal O Globo sobre a preparação para a Copa de 1990. Você disse: “O Brasil de agora não é mais aquele time que só jogava futebol fantasia, voltado quase que exclusivamente para o espetáculo visual do toque de bola. Antes nós jogávamos um futebol muito bonito, requintado e aplaudido, mas no final quem ganhava eram os adversários. Agora nos conscientizamos da importância da vitória”. Esse juízo só podia ser das Seleções Brasileiras que disputaram as duas Copas anteriores, que ficaram mesmo muito conhecidas pelo estilo de jogar bola. Você mantém essa visão daquela época de que aquela Seleção estava mais interessada no espetáculo do que na vitória e no resultado?

Dunga: Eu acho que toda Seleção entra em campo para vencer, cada uma da sua forma, da sua qualidade. Eu acho que o drible tem que ser feito com objetivo. O toque tem que ser feito para buscar o objetivo. Então, de uma certa forma, alguns comentários acabam acomodando as pessoas. Se você fala "Jogam bonito, mas perdem", é melhor jogar bonito e não ganhar? Não, você tem as duas coisas juntas. Você tem que jogar bonito e ganhar. Você tem que buscar sempre o resultado. Quando você joga bem, você ganha. Às vezes, as pessoas não gostam...A gente discutia na Copa do Mundo o fato de a Alemanha ter ganhado de 7 a 0. Os “caras” diziam: “Não, mas joga feio!”. Não, a Alemanha joga bonito. Esse é o jogo da Alemanha: o triângulo, o cruzamento e o gol de cabeça. “Ah, mas não jogam como nós”. Aí não é como eu quero, é a característica daquele time, daquela Seleção. “Ah, eu não gosto da Itália. A Itália ganhou, mas não foi bem”. Foi bem, foi a melhor Seleção porque futebol é uma coisa: não tomar gol e fazer. Eles foram eficientes em não tomar e fizeram, jogaram dentro da qualidade deles. Isso nós temos que observar. Nós ganhamos as Copas do Mundo quando fomos bons tecnicamente, humildes de correr atrás do adversário, de marcar, de se doar para a equipe, de jogar coletivamente e nossa qualidade técnica fazer a diferença. Quando nós conseguimos empatar com os europeus em termos de humildade, de correr atrás, de fechar os espaços, nossa qualidade sobressai. Buscando um pouco o histórico agora, a primeira vez que o Brasil ganhou o Mundial de Juniores foi em 1983, foi a nossa geração; a primeira medalha do Brasil foi em 1984, foi a nossa geração; a Copa América, depois de cinquenta anos [na verdade são quarenta anos - ganhou em 1949 e depois em 1989], foi a nossa geração; a Copa do Mundo, depois de 24 anos, foi a nossa geração; duas Copas do Mundo na final foi com a nossa geração. Então você tem que ser eficiente...

Soninha Francine: Mas não é cruel dizer que faltou objetividade na Seleção por causa de uma derrota? Faltou objetividade em 1982?

Dunga: Não é objetividade. Não sei se você conseguiu entender o que eu falei...Passamos 24 anos sem ganhar, não foi uma partida. Nós ganhamos a Copa América depois de cinquenta anos e não perdemos uma partida. Eu estou te falando de um histórico, de uma geração com qualidade e capacidade, para se ver o quanto é difícil ganhar. Muitas vezes a gente não valoriza isso. Tivemos que esperar 24 anos para ganhar a Copa do Mundo. Veja como é difícil mesmo tendo jogadores excepcionais, jogadores de uma qualidade fantástica, jogadores exuberantes. Só isso não é suficiente, é importantíssimo, mas não é o suficiente. Você tem que ter humildade de, no momento certo, ver uma grande equipe quando ela está em dificuldade e não quando está ganhando.

José Silvério: Dunga, falando nisso, o Raí tocou em um ponto - ele começou a falar mas não se aprofundou muito - da mudança do futebol. O Nuno conhece melhor do que eu. É como se fosse um espetáculo, uma novela: maquiagem, tudo pronto, hoje tem até contra-regra, os times vão entrar em campo e entram de mãos dadas, todos bonitinhos, todos juntos, tem o hino, todo mundo perfilado, dá uma parada no intervalo para os comerciais, volta...O futebol no campo tem sessenta, setenta mil pessoas, mas no mundo inteiro são dois bilhões de telespectadores esperando o jogo. Formou-se um espetáculo e os jogadores se transformaram em grandes estrelas do futebol mundial, são mais estrelas do que os de Hollywood. Os jogadores, hoje, têm salários maiores do que dos grandes atores do cinema. Eu me lembro que, quando menino, a gente acompanhava o cinema e ficava invejando aquelas mulheres bonitas, aqueles atores que ganhavam muito, a gente queria ser um daqueles para estar lá naquele mundo. Hoje, os jovens do mundo inteiro querem estar em um campo de futebol e ganhando esse dinheiro. Com tudo isso, com essas mudanças todas como médico, assistência...Eles não precisam mais de dentistas porque os jogadores já vão quase que como um super-homem, um super atleta, os uniformes são maravilhosos, bonitos, a camisa toma um pouquinho de chuva e daqui a pouquinho já está seca, as chuteiras são quase como sapatilhas, tudo é diferente! Mas, uma coisa não mudou no futebol: a necessidade de vitória. Como conviver com isso?

Dunga: É interessante. Acho que tu falou coisas boas, só que a gente tem que ver que 1%, 3% dos atletas realmente ganha lá em cima. A realidade do futebol melhorou, mas...

José Silvério: [interrompendo] Estou falando da Seleção.

Dunga: Da Seleção Brasileira, né?

José Silvério: Até que a estatística é mais dura do que essa que você diz no futebol brasileiro.

Dunga: A importância de vencer aumentou.

José Silvério: Exatamente, é por isso que eu queria seguir a minha pergunta. Você falou que, às vezes, o jogador não pode ser criticado porque ele é um ser humano e erra. É claro que isso também é verdade, mas é muito relativa porque você não pode perder certos jogos. Pode perder, mas vai ficar marcado a vida inteira por essa derrota, exatamente por causa dessa festa, por causa desse dinheiro todo. Você não vai provar para ninguém que jogador no Brasil ganha na média um salário mínimo, dois salários mínimos. Isso você não vai provar para ninguém porque todo mundo só acompanha esses que ganham muito, como o Neymar, que assinou contrato com o Santos aos 17 anos para ganhar quase uma fortuna. Isso você não vai provar. Então, é só a necessidade de vitória que todo mundo vê e esse negócio de não poder jogar mal. Como conviver com isso e passar isso para o seu jogador?

Dunga: É difícil, é super complicado, porque toda essa festa que se cria não são os jogadores que criam, os jogadores não querem.

José Silvério: Perfeito, mas é o fato.

Dunga: Ela existe.

José Silvério: Não dá para discutir com o fato.

Dunga: Às vezes, as pessoas que criam essa festa cobram como se nós quiséssemos essa festa.

José Silvério: É o patrão cobrando do empregado, é mais ou menos por aí.

Dunga: O cara fica o dia todo na televisão, olha isso, olha aquilo, faz todo esse circo, e depois o jogador tem que entrar em campo, jogar, não ter dor, não ter situação difícil, não ter viagem.

José Silvério: Escorregar não pode...

Dunga: Não ter nada! Eu acho que a maior coisa é a conscientização do atleta.

José Silvério: E como você pode fazer isso com os seus jogadores?

Dunga: Conversando com eles, mostrando esse lado.

José Silvério: Mas eles têm essa consciência? Eles pensam o mesmo?

Dunga: Têm, têm.

José Silvério: Ou eles pensam que só são astros?

Dunga: Não, eles têm consciência. Eles sofrem mais do que qualquer um. Talvez não demonstrem muito fora, mas internamente eles conversam muito, sentem necessidade de fazer um bom jogo. Contra Portugal, a gente conversava, a gente via nos olhos que eles queriam fazer uma grande apresentação dentro do Brasil. Não sei porque esse atrito de achar que o cara joga na Europa porque não gosta do Brasil. É o que eles mais gostam! Eles não vêem a hora de jogarem aqui para virem para o Brasil, verem os amigos e os parentes. Onde eles querem jogar bem? No país deles! É aqui que eles têm os pais, os amigos, os amigos de infância. É aqui que eles querem ser considerados ídolos e amados como ídolos.

José Silvério: Mas, nesse ponto, eu não penso assim. Eu acho que o jogador quer vir jogar na Seleção Brasileira até porque, de uma forma geral, ele também precisa disso, não é tão imbecil de não querer jogar na Seleção. Toda essa festa passa pela Seleção.

Dunga: A gente conversa com eles sobre essa necessidade, essa cobrança. Por que isso não vai acabar nunca?

José Silvério: Não, a cobrança vai existir.

Dunga: Vai existir sempre! Fiz algumas experiências contra a Venezuela e a gente perdeu o jogo. E aí: “Poxa, perdeu o jogo contra a Venezuela!”. Eu vou jogar contra Portugal e não mudei: “Ah, tem que mudar, o importante não é o resultado”. Então, as pessoas que fazem as críticas também têm que ter uma coerência, não podem mudar a cada instante, a cada segundo. Como brasileiro, independentemente se o treinador sou eu ou não, é a Seleção Brasileira. A gente tem que torcer para as coisas darem certo. É a mesma coisa na política: não interessa quem está lá, a gente tem que torcer para o Brasil. A gente vai continuar morando aqui neste país, que é um dos maiores países do mundo. A gente tem que torcer para as coisas darem certo. Do que a gente mais gosta? Do futebol. Então vamos torcer para que o Brasil vá bem! Não importa quem está lá, se sou eu, A, B ou C ou tal jogador, não interessa. O que interessa é que a Seleção vá bem, que represente bem o nosso país e que a gente consiga ganhar o máximo possível. Cada vez vai ser mais difícil porque as outras equipes também se prepararam. Antes, só nós tínhamos jogadores na Europa. Hoje, todos eles têm jogadores na Europa, todos os jogadores estão saindo com 15, 16 anos desses países. A concorrência aumentou, eles se preparam mais para jogar contra o Brasil porque antigamente eles não se preparavam. Eu me lembro que a gente jogou contra a Venezuela...O Raí também estava nas Eliminatórias, havia um zagueiro que era amador. A gente ganhou no sufoco, mas ele era um amador. Hoje não, hoje os caras são profissionais. A dificuldade está aumentando e os jogadores têm plena consciência disso.

José Silvério: [interrompendo] O futebol melhorou no mundo inteiro. Essa festa não é só no Brasil, é no mundo inteiro.

Dunga: Só ganhava o vôlei americano. Hoje já não ganha mais.

José Silvério: Basquete também.

Dunga: É bom para o futebol que ele mude e se aprimore mais.

Heródoto Barbeiro: Nuno, você está ensaiando uma pergunta?

Nuno Leal Maia: Você acredita que há pessoas e jogadores que vibram melhor do que os outros em determinados momentos? O que aconteceu ontem foi um negócio muito estranho...Como aquela bola foi cair na cabeça do Ronaldo aos 47 [minutos]? Não foi uma atração? Você não acredita que a pessoa atraia isso?

[risos]

Dunga: Atração é o talento e o trabalho dele.

Nuno Leal Maia: Sim, mas como a bola foi parar na cabeça dele? Quem bateu aquela bola? Quem cruzou? Ninguém falou do cara que bateu o escanteio, que foi sensacional.

Soninha Francine: Foi o Douglas...

Nuno Leal Maia: A bola caiu na cabeça dele, foi um negócio impressionante, de vibração! Ele atraiu aquele gol, ele estava precisando fazer aquele gol. Você acredita que um jogador possa vibrar melhor do que o outro dentro de campo?

Dunga: Cada um tem sua vibração pessoal. O goleiro Júlio César está fazendo cada defesa na Inter! Os "caras" falam que o atacante que fez o gol, só que ele salvou três vezes. O cara que faz gol é diferenciado, é mais bem pago do que todos os outros. Todo mundo procura porque botar a bola ali dentro é difícil, o cara tem que ter uma frieza...

Nuno Leal Maia: A pessoa que está procurando o gol, o cara não está bem, o zagueiro que não está bem, ele falha, é impressionante! A bola passa em baixo dele e ele não vê a bola. É um negócio incrível!

Dunga: Mas ele sabe onde a bola vai passar.

José Silvério: Aliás, o Júlio César é hoje um dos maiores goleiros do mundo.

Nuno Leal Maia: Ontem, eu estava vendo o jogo e eu sentia que a bola ia caindo..."O Ronaldo vai fazer um gol agora porque está tudo contribuindo para isso. Não é possível!".

Dunga: Fui muito criticado por ter trazido o Júlio César.

José Silvério: Você foi criticado só em um determinado setor porque a maioria conhecia o Júlio César, ele é um goleiro excepcional. Na Copa América de 2004, quando o Parreira ainda estava na Seleção, o Júlio César foi um fenômeno. Aliás, aquela Seleção da Copa América de 2004 deu muitos frutos, você está aproveitando também.

Dunga: É o estudo que a gente faz. São jogadores que passaram pela...

José Silvério: [interrompendo] Na final, foi quase um milagre.

Dunga: ...pela Seleção, que tiveram histórico, que estão bem, que têm uma estrutura, que sabem jogar sob pressão. Tudo isso a gente analisa para depois fazermos a convocação.

José Silvério: Acho o Júlio César brilhante!

Soninha Francine: Logo no começo do programa, você disse para o Raí que quando o Ricardo Teixeira [presidente da CBF] te convidou para ser o técnico da Seleção ele já conhecia muito bem suas qualidades e seus defeitos. Você ainda brincou e falou: “Principalmente os defeitos!”. Quais são?

Dunga: [risos] Tenho muitos defeitos: minha forma de ser, de responder, não sou muito maleável, eu sei dos meus defeitos. Agora, ele também sabe das minhas virtudes, que são as seguintes: estou lá para a Seleção. O clube em que eu estiver eu vou defender com unhas e dentes, vou fazer o melhor para aquele trabalho, o resto não me interessa. Podem me bater, podem falar que eu sou ranzinza, que eu sou duro. Na hora de marcar a entrevista, eu estou lá. Na hora de marcar a coletiva, eu estou lá. Fora isso, não é minha obrigação.

José Silvério: Você tem uma coisa ótima, você é bom de ser comandado. Você ouve bem o que a gente fala.

Heródoto Barbeiro: Dunga, nós vamos fazer mais um intervalo e voltamos em instantes. Até já.

[intervalo]

Heródoto Barbeiro: Nosso entrevistado de hoje é o técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Dunga. Agora há pouco você falou em renovação da Seleção. Você não acha que deveria haver também uma renovação dos dirigentes do futebol? Se a gente pega a CBF, por exemplo, ela está sendo dirigida pelas mesmas pessoas há muito tempo. Você não acha que seria interessante que houvesse uma nova geração de dirigentes com outra cabeça, com outro entendimento, diferente dos dirigentes que estão lá há tanto tempo?

Dunga: Mas é uma direção que ganhou tudo na Seleção Brasileira. Foram três finais seguidas, ganhou todos os campeonatos, montou uma estrutura no futebol brasileiro. Se a gente começar a renovar por renovar...Temos que renovar com qualidade, porque aí os jogadores e os técnicos vão dizer: “Mas tem que renovar a imprensa também!” e os caras vão ficar ofendidos.

Heródoto Barbeiro: Mas a imprensa se renova. Você tem sempre colegas novos fazendo perguntas para você. Você não acha que os dirigentes também deveriam ser renovados para mudar um pouco a mentalidade, arejar um pouco mais o futebol?

Dunga: Eu acho que tudo teria que ser renovado. Eu acho que tudo teria que ser repensado.

Heródoto Barbeiro: Inclusive a CBF?

Dunga: Depende. Se houver idéias novas, gente com capacidade nova...Às vezes, o que a gente tem que ter é uma crítica, uma percepção: “Eu não gosto do Dunga, ele é muito chato”. Não estamos falando se gosta do Dunga como pessoa, tem que se analisar o trabalho dele. E, às vezes, as pessoas se deixam envolver...

Heródoto Barbeiro: [interrompendo] Então, pelo trabalho feito pela CBF, a atual direção deve continuar lá ad aeternum?

Dunga: Não, eles foram eleitos, é uma democracia. A gente tem que buscar resultados.

Heródoto Barbeiro: [interrompendo] Você acha que o termo “cartola” é inadequado para o dirigente do futebol brasileiro? É ofensivo?

Dunga: É ofensivo.

Heródoto Barbeiro: É ofensivo?

Dunga: Eu acho que tem que ser menos, é um diretor. A gente tem que buscar um resultado tanto financeiro quanto de organizações. A gente fala muito do Brasil mas sabe quantos campeonatos a gente tem no Brasil? O horário é certo, a televisão é certa. É que a gente busca muitas coisas para...alguma coisa errada. É lógico que vai ter uma coisa errada. Comigo mesmo também há uma coisa errada, mas há muita coisa boa! A gente dá muita ênfase a alguma coisa que não dá certo. Mas busque a diretriz toda: quantos campeonatos ganharam? Qual foi a estrutura que deram no futebol brasileiro? É lógico, tem que melhorar? Tem, mas quantas coisas boas foram feitas!

Heródoto Barbeiro: Dunga, quem é o seu patrão?

Dunga: Quem me chamou para a Seleção foi o presidente Ricardo Teixeira. E, desde o primeiro minuto, ele me colocou que qualquer dificuldade ou problema que eu tiver, a ligação é direto com ele e ele comigo. Qualquer coisa que ele achar que eu estiver errando ou falhando, ele me liga e eu da mesma forma.

Heródoto Barbeiro: Então ele é seu patrão?

Dunga: Ele é o diretor de CBF, é o representante da Seleção.

José Silvério: Ele já deu palpite na escalação da Seleção alguma vez?

Dunga: Nunca, nunca!

Soninha Francine: E aquele episódio famoso no intervalo do jogo da Seleção em que ele falou sobre a volta do Ronaldinho Gaúcho?

Dunga: Não foi no intervalo, foi antes do jogo.

Soninha Francine: Verdade! Foi antes do jogo.

Dunga: Ele perguntou o que eu pensava a respeito do Ronaldinho, se eu gostaria de contar com ele para a Seleção principal. E eu falei para ele que sim, que contava com o Ronaldinho, que ele tinha que voltar a jogar e a treinar, que ele era um jogador excepcional, que a gente não pode de nenhuma forma deixá-lo abandonado, temos que dar o suporte a ele. E ele me perguntou da idéia de já o trazermos para as Olimpíadas. Eu falei: "Não, perfeito!". Agora, temos que colocar tudo o que vai acontecer nas Olimpíadas para o jogador. Se ele aceitar tudo sobre treinamentos, viagem, hotel, todas as situações, não há problema nenhum, a gente vai recuperá-lo para a Seleção principal. Tudo o que se trabalha na Seleção, desde a categoria de base, tem que ser visando a principal. É importante ganhar em baixa, mas se não ganhar a principal...É igual a um clube de futebol: se não ganhar o titulo de campeão brasileiro...ganhar os [campeonatos] júnior e juvenil é importante, mas não...

Soninha Francine: [interrompendo] Nesse episódio - você que tem essa personalidade tão forte - o presidente não se precipitou? Antes de você ter acertado isso com o Ronaldinho Gaúcho, ele já foi praticamente convocado pelo presidente. Nesse momento, você procurou seu patrão e disse: “Não é assim que eu trabalho”?

Dunga: Não, nós já tínhamos conversado com ele sobre tudo o que eu pensava. Antes de fazermos qualquer coisa tínhamos que conversar com o Ronaldo, explicar, colocar todas as situações, como seriam as Olimpíadas, como iríamos trabalhar...

Soninha Francine: E em nenhum outro momento você e o Ricardo Teixeira tiveram visões diferentes e se desentenderam?

Dunga: Não, porque eu cuido da parte técnica e ele, da parte administrativa.

José Silvério: E com o Ronaldinho Gaúcho, você teve alguma decepção até agora na Seleção em termos técnicos?

Dunga: O Ronaldo é um jogador excepcional, passou por um momento de dificuldade na carreira, mas está melhorando, está crescendo. No último jogo contra a Itália ele melhorou muito, jogou, deu passe. Não é o Ronaldo que foi duas vezes o melhor do mundo mas a gente ainda tem um ano e meio [para a Copa do Mundo de 2010].

José Silvério: Dá para recuperá-lo?

Dunga: Em um ano e meio dá. Ele querendo, não tem como não voltar. É aquilo que eu falei...

José Silvério: [interrompendo] Até porque, um dia desses na Itália, falaram que se ele não voltar a treinar, ele não vai voltar a jogar.

Dunga: Mas aí também falaram que o Beckham [David Beckham, meio campista inglês, é considerado um dos melhores jogadores do mundo de todos os tempos] é melhor do que o Kaká. Não dá para a gente acreditar em tudo, não é?

Luiza Moraes: Dunga, uma pergunta que vem dos telespectadores, dos internautas...Agora há pouco, o José Silvério falava em estrelas de Hollywood, falava em cinema, em futebol espetáculo, que o futebol deixou de ser o que era, enfim, "22  [homens] correndo atrás de uma bola", aquela coisa mais simplificada, uma visão sempre das mulheres ou da maioria delas. Uma pergunta aqui me deixou bastante curiosa para saber sua opinião. Ricardo Costa, de Belo Horizonte, Minas Gerais, pergunta qual seria o seu filme perfeito sobre a Seleção: comédia, documentário, drama ou suspense. E qual seria o seu papel?

[risos]

Soninha Francine: Terror não, né?

[risos]

Dunga: Terror não! Eu acho que tem que ser documentário porque a Seleção tem que contar toda a sua história, sua trajetória e suas vitórias. Tem que ser um documentário!

Luiza Moraes: Suspense neste momento?

Dunga: Não, não tem suspense.

Heródoto Barbeiro: Dunga, como o Brasil vai sediar a Copa do Mundo se nenhum estádio brasileiro até agora, segundo a Fifa, tem condições de sediá-la? Como nós vamos fazer?

José Silvério: Há uma coisa importante, só para acrescentar: a maior cidade do país, a cidade mais importante do estado mais rico, não tem nenhum estádio para um grande jogo. [refere-se à cidade de São Paulo]

Dunga: Eu acho que a gente tem tempo. Eu acho que a gente tem que acreditar no Brasil. Se a gente for ver os problemas da África do Sul...Eu tenho uma visão um pouco diferente: a gente não tem que estar preocupado com o estádio que vai ser construído para a Copa do Mundo, mas preocupado com a infra-estrutura que vai ficar para o país, para o nosso desenvolvimento. Eu acho que essa é a grande vantagem da Copa do Mundo. Todo mundo está preocupado com estádio, em construir, em fazer, mas...

Heródoto Barbeiro: [interrompendo] Mas antes de deixarmos a infra-estrutura, temos que construir primeiro, não é, Dunga?

Dunga: Sim, mas as coisas vão acontecer porque a Copa do Mundo vai acontecer em 2014. Outros países também tiveram a mesma dificuldade. O que a gente tem que ter é cobrança, persistência, incentivar a Copa do Mundo no Brasil. Se fosse em trâmite legal, quando as coisas iam acontecer aqui? Seria muito difícil, vinte, trinta anos para acontecer uma rodovia, um aeroporto novo. Agora vai ter que ser em quatro anos. A segurança vai ter que ser melhorada para a Copa de Mundo, isso tudo vai ficar, isso é ganho para o nosso país, melhorar os hospitais, as telecomunicações, a educação, isso vai ficar para as novas gerações. É nisso que a gente tem que apostar.

Heródoto Barbeiro: Você acredita que nós temos condições de ter toda essa infra-estrutura para 2014, quando o Brasil vai sediar a Copa?

Dunga: Eu acredito que sim. Se nós fizermos, nos unirmos, se todas as pessoas buscarem o mesmo objetivo, a gente terá condições.

Heródoto Barbeiro: Mas todas as pessoas não, porque isso é do governo ou da iniciativa privada.

Dunga: Eu acho que todo o Brasil tem que se unir para cobrar daqueles que têm que tomar as decisões...

José Silvério: [interrompendo] Só que há um detalhe: a gente está falando que há muito tempo ainda, mas se você fizer uma conta em termos de construção, em termos de organização, são quatro anos. Em quatro anos não é tão fácil fazer um estádio, principalmente em um país que não tem dinheiro. Nós não precisamos fazer um, Dunga, precisamos fazer vários!

Soninha Francine: Mais metrôs, mais segurança...

José Silvério: Mais metrôs, mais aeroportos...

Dunga: Isso vai acontecer...Eu sou muito crítico. O novo estádio da Alemanha está pronto, eles estão quinhentos anos na nossa frente.

José Silvério: Perfeito, mas nós não estamos. Esse é o problema!

Soninha Francine: Por falar em Alemanha, Dunga...

Dunga: [interrompendo] Se nós não nos dermos uma chance para crescermos...

José Silvério: Aqui em São Paulo, por exemplo, ontem tivemos Palmeiras e Corinthians. O jogo foi para Presidente Prudente porque nós não temos hoje um estádio em São Paulo. O estádio que nós temos é do [time do] São Paulo [refere-se ao Morumbi]. E aí tem a rivalidade do Corinthians com o Palmeiras e com o São Paulo. O estádio do São Paulo também é limitado em termos de construção. Então, como é que nós vamos fazer? Ninguém imagina que o Morumbi possa ser derrubado e construído um outro estádio. E para remendar o Morumbi não dá mais, ele já é cheio de “puxadinhos”. O Pacaembu, que poderia ser um ótimo estádio, é tombado pelo patrimônio. Até hoje eu não entendi porque o Pacaembu é tombado, ele não tem nada de diferente em termos arquitetônicos, é só pelo tempo e pela vaidade da Câmara Municipal de São Paulo. Então, nós não temos como começar tudo de novo! O Mineirão balança, o Morumbi balança, o Pacaembu não tem condição, o Maracanã balança, o Beira-Rio [estádio do Internacional] balança, o Olímpico [estádio do Grêmio] balança. Todos esses estádios não têm saída, não têm entrada, não têm escada, não têm elevador. Isso aí, Dunga, não se faz de um dia para o outro. Não adianta falar que dá tempo porque o tempo, enquanto nós estamos falando aqui, já passou. Além de tudo, não é só o tempo físico, é que nós não temos nem projeto! Aqui em São Paulo, por exemplo, ainda existe a briga política para saber se a abertura da Copa do Mundo vai acontecer em São Paulo ou não. A final é quase certeza que será no Maracanã, que vai ser derrubado ou quase derrubado no começo de 2010 para depois começar a fazer...pelo menos existe um projeto encaminhado! Os outros nem encaminhados estão. Aqui em São Paulo, você não sabe se o governo do estado, a prefeitura de São Paulo ou aquele grupo do Palmeiras que fala de um estádio...Então, esse é o grande problema. Se você fizer a conta - eu já falei isso outras vezes, pode parecer incoerente, mas não é - até o estado de São Paulo poderia fazer uma Copa do Mundo, mas é preciso sentar, planejar e fazer, e não ficar todo mundo discutindo e empurrando para frente. Nós não estamos planejando a obra.

Dunga: Agora tu falaste bem. A maior cidade do Brasil, com a maior renda per capita, os maiores pensadores, não chega a um... Temos que repensar o Brasil, não só a Copa do Mundo. Se não houver essa capacidade de fazer, de tomar uma decisão aqui em São Paulo, então a gente tem que refazer o Brasil todinho do zero.

José Silvério: Mas esse é o dilema. Nós não vamos resolver isso conversando sobre esse problema.

Soninha Francine: Voltando também para um tema que já surgiu aqui. Durante a Copa da Alemanha, a imprensa esportiva criticava primeiro aquela etapa na Suíça, em que os treinos eram abertos, havia festas, caipirinhas, mulatas. Depois, a forma física de alguns jogadores parecia muito fora do ideal. A Seleção e a comissão técnica resistiam muito a essas críticas. O  Parreira foi se sentindo cada vez mais à vontade para dizer que aquela preparação na Suíça, para ele, não serviu como preparação e, muito pelo contrário, que ele teve que receber jogadores que realmente não estavam na forma física ideal. Claro que é fácil dizer agora como ele aceitou um negócio desses, mas ele estava ali à beira de uma Copa do Mundo. O que ele faria? Ele pediria para sair? O que você faria em uma situação como essa? Chegando à conclusão de que as coisas não estão absolutamente saindo como você gostaria, você pede para sair?

Dunga: Eu acho que antes de pedir para sair, você tem que tentar solucionar antes dos fatos acontecerem. Não é de um dia para o outro que o jogador engordou, ficou fora de forma. Você vem o acompanhando. E aí você tocou em um ponto-chave: quem fez esse circo lá? Se houver um treinamento fechado, vocês são os primeiros a bater na Seleção! [refere-se à imprensa]

Soninha Francine: [interrompendo] Mas o público e a imprensa são...

Dunga: Ah, têm que fazer parte?

Soninha Francine: Não, ao contrário! São decisões completamente diferentes. Se você cobra ingresso de um treino para cinco mil pessoas ou se você admite duzentos jornalistas, são decisões bem diferentes.

Dunga: Eu acho que a Seleção...

Soninha Francine: [interrompendo] Não defendendo uma ou outra, mas...

Dunga: Eu acho que a Seleção, quando se reúne para uma Copa de Mundo, tem que ter um tempo. Não é fazer treino secreto, mas tem que haver o treino privado. O que é treino privado? É repetir jogadas que não dão certo, que dão errado...Se  o jogador ficar muito exposto...

Soninha Francine: E se você abrir o treino só porque a imprensa pressiona também é uma decisão errada, certo?

Dunga: Também é uma decisão errada. Eu acho que você tem que ter firmeza nas suas convicções e tem que ser planejado antes do que vai ser feito e de que forma vai ser feito. Falar do passado é difícil. Eu falo diretamente com o presidente aquilo que eu penso. É lógico que tanto ele quanto eu, quando não estivermos satisfeitos um com o outro, vamos falar. Mas eu acho que tem que haver uma dinâmica de trabalho, uma organização, ver os erros cometidos anteriormente e se a gente é suficientemente adulto para não cometer aquilo novamente lá na frente.

José Silvério: E você leva uma vantagem dentro desse assunto que a Soninha tocou: a Copa vai ser na África. Na Europa, havia aquele monte de familiares dos jogadores na concentração e nas proximidades das concentrações, o que foi um dos gravíssimos problemas da Seleção Brasileira, desde a Suíça até a participação final do Brasil na Copa do Mundo. Você permitiria isso?

Dunga: Eu acho que a família é um pouco como o torcedor: ela tem direito até um limite mas também tem que entender que [o jogador] está jogando uma Copa do Mundo de quatro em quatro anos. Alguns jogadores vão jogar duas, alguns vão jogar uma, então aquele é um tempo...

José Silvério: [interrompendo] É que a palavra aqui é difícil, porque quando a gente fala em família, a gente sempre fala em agregação. Eu troco a palavra: aquele tanto de gente dos jogadores, parentes, amigos, parentes de quinto grau, amigo que passou e falou “Boa tarde” e já se achou amigo, todo mundo nas proximidades da concentração e dando palpite...

Dunga: Nós temos uma forma de trabalhar em que a gente deixa a família se aproximar. Criamos um local antes dos jogos, um ou dois dias antes, que reúne por meia hora realmente os familiares, como esposa, filho, pai, mãe, e já paramos por aí. Há algumas coisas boas no futebol que também trouxeram algumas dificuldades, como assessoria, blog, internet. Tudo isso aí acrescenta, mas ao mesmo tempo cria um pouco de dificuldades. Não tem como você investir em um blog e em um assessor, não tem como você controlá-los. Então, a gente tenta conversar com o jogador. Eu acho que tem que ser mais na base da explicação mesmo, tentar convencê-los a apresentar o outro lado, o que é bom, o que não é. O período em que estão na Seleção é quando precisam estar na Seleção! Tudo o que a gente pode ganhar em dois meses você pode levar uma vida toda para ganhar. Então, na Seleção, você tem que ter a cabeça focada. A gente está conseguindo isso na base da conversa. O jogador, quando tem alguma dificuldade ou problema, vem e fala: “Olha, eu preciso resolver esse problema”.

José Silvério: Mas que é uma "barra" é, não é?

Dunga: É uma situação que você tem que ir limitando ao máximo, principalmente em uma Copa do Mundo.

Heródoto Barbeiro: Dunga, nós estamos chegando ao final do programa Roda Viva. Queremos agradecer a gentileza da sua participação conosco, você respondeu todas as perguntas. Eu queria agradecer também a presença da nossa bancada. Queríamos lembrar que pelo menos 180 comunicações foram feitas através do Twitter, recebemos uma média de 120 e-mails e pelo menos duzentas pessoas participaram do chat enquanto você respondia as perguntas. Quero agradecer sua participação e sua audiência. Muito obrigado e tenham uma boa semana!

Sobre o projeto | Quem somos | Fale Conosco