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Caio Luiz de Carvalho

19/3/2001

Parcerias com grupos estrangeiros, aumento de linhas de crédito para empresários e uma ampla campanha de marketing seriam as principais medidas para estimular o turismo dentro do país, segundo o então presidente da Embratur

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[programa ao vivo, permitindo a participação dos telespectadores]

Paulo Markun: Boa noite. Ele comanda a política de um setor que promete criar quinhentos mil empregos e aumentar sua participação do PIB [Produto Interno Bruto] de 3,4% para 4,1% até 2003. O Roda Viva entrevista, esta noite, o homem que administra o turismo brasileiro: Caio Luiz de Carvalho, presidente da Embratur [Instituto Brasileiro do Turismo, autarquia especial do Ministério do Turismo responsável pela execução da Política Nacional de Turismo].

[Comentarista]: A gente sempre aprendeu: o Brasil tem mais de oito mil quilômetros de praia, a maior floresta tropical do mundo, mais de mil cavernas, centenas de cachoeiras, muita história e um importante patrimônio cultural. Mas, no exterior, pouca gente sabe disso e mesmo aqui, quem sabe nem sempre conhece o que há para ver e desfrutar no país. Com tradição fraca em turismo, só nos últimos anos o Brasil despertou e começou a dar passos importantes para melhorar seu potencial. O Brasil descobriu turismo e investidores. Caio Luiz de Carvalho há anos acompanha e comanda mudanças no setor. Advogado, ele trabalha na área de turismo desde 1983 e há oito anos preside a Embratur, órgão oficial do turismo brasileiro. Em sua gestão, foi discutido e arquitetado o pacote Brasil Empreendedor Turismo, que será anunciado no mês que vem pelo governo federal. São 32 medidas e uma verba de quase 3,5 bilhões de reais para incentivar o turismo no Brasil. A principal medida do pacote será o plano de marketing no exterior com propaganda sobre o Brasil nas principais televisões e revistas do mundo como principal ação para atrair o turista estrangeiro. Também estão previstos investimentos em cursos de capacitação para formar quinhentos mil profissionais e melhorar o atendimento direto a turistas em todo o país. A construção de pequenos hotéis e pousadas terá um financiamento especial, créditos de vinte a duzentos mil reais para pagamento em até 12 anos, com carência de dois anos. Pequenas viagens nacionais terão também linha de crédito especial, com juros baixos e prazos de pagamento de até dois anos. É um estímulo para que o brasileiro também faça mais turismo interno.

Paulo Markun: Para entrevistar o presidente da Embratur, Caio Luiz de Carvalho, nós convidamos: a jornalista Nely Caixeta, editora da revista Exame; o educador Fábio Cascino, doutorando da PUC-SP [Pontifícia Universidade Católica de São Paulo], professor de pós-graduação em educação ambiental do Senac [Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial]; o geógrafo Sidnei Raimundo, do Instituto Florestal e professor de geografia do turismo da [Universidade] Anhembi Morumbi, Senac e Domus; a jornalista Viviane Kulczynski, editora assistente do jornal O Estado de S. Paulo; a  professora Doris Ruchmann, doutora em turismo pela Universidade de São Paulo [USP] e coordenadora dos cursos de mestrado e doutorado  da Universidade do Vale do Itajaí; o  consultor hoteleiro José Ernesto Marinho Neto, professor da BSC International, [professor] visitante da USP, Fundação Getúlio Vargas, Universidade de Nova Iorque e Senac. O Roda Viva é transmitido em rede nacional para todos os estados brasileiros e também para Brasília. Boa noite, presidente.

Caio Luiz de Carvalho: Boa noite, Paulo. É um prazer estar aqui!

Paulo Markun: Igualmente. Eu sei que o senhor tem nas mãos alguns dados referentes à temporada que acaba de terminar em termos de pesquisa do turismo no Brasil, dos estrangeiros no Brasil. Queria que o senhor antecipasse alguns dados para a gente.

Caio Luiz de Carvalho: Sem dúvida, Paulo. Alguns deles eu posso dar. A pesquisa foi fechada no mês passado e contabilizou 5,38 milhões de turistas estrangeiros em 2000, [o que significa um] crescimento de 5% a 6% em relação a 1999. Eu acho que é um crescimento interessante, pois a média mundial está em torno de 4,5%. Nós já esperávamos que não haveria um crescimento muito grande, pois tivemos alguns problemas com falta de assentos em vôos e em mercados como a Europa e a Argentina. Depois isso acabou sendo superado. Há alguns dados curiosos do perfil do turista que nos visita. Os portões de entrada são: São Paulo em primeiro lugar, Rio de Janeiro em segundo, Foz do Iguaçu em terceiro. Nós temos visitas de turistas analisadas por regiões. Em primeiro lugar está o Sudeste com 51% de estrangeiros, o Sul recebe 41%, o Nordeste está com 5%, ou seja, temos muito o que fazer com a região Nordeste, que tem cenários extraordinários para receber turistas. Há algumas curiosidades: 71% dos turistas são homens, 29% são mulheres. Quanto à idade, 45% [dos turistas] têm 25 a 39 anos, 38% estão na faixa de 40 a 59 anos.

Paulo Markun: [interrompendo] Quer dizer, só para a gente refletir, a diferença entre homens e mulheres é ainda muito grande...

Caio Luiz de Carvalho: Muito grande.

Paulo Markun: E a maioria dos turistas é jovem, de 25 a 39 [anos]?

Caio Luiz de Carvalho: Exatamente. É interessante essa idade ser a grande maioria. 

Paulo Markun: Não coincide com a médias mundiais.

Caio Luiz de Carvalho: Não, é um pouco diferente, a média mundial de turistas vai de 35 a 45 anos. Há outras coisas curiosas: 51% dos que nos visitaram [têm] nível superior, o turismo ainda é o motivo principal - muita gente acha que é negócios, mas não é. Nós temos 57% das pessoas que vêm a turismo e 23% a negócios. É lógico que em São Paulo os que viajam a negócios somam 49%. Além disso, as pessoas têm um tempo para organizar as viagens. No caso do Brasil, elas levam 48 dias para virem, o que também é muito curioso, sendo que 63% delas vêm ao Brasil sem qualquer interferência de agências de viagens e 37% com agências. Temos que reverter isso, fazer com que as pessoas venham mais por agências, porque elas são um fator multiplicador de turistas. Em 2000, as cidades mais visitadas foram: Rio de Janeiro com 26%; São Paulo com 22%; Foz [do Iguaçu] com 18%; seguidos de Florianópolis, Salvador e [Balneário] Camboriú. Vemos que Santa Catarina começa a decolar e, quando se trata especificamente do fluxo de argentinos, Florianópolis ocupa o segundo lugar. Um outro dado: ao contrário de todo mundo, que "mete o pau" nos nossos hotéis, 89% consideram que em questão de higiene, limpeza e atendimento, a qualidade dos hotéis é boa e excelente. Quanto à questão de preço, [esse número] já cai um pouco, pois apenas 67% acham que o preço praticado pelos hotéis aqui é bom. Há outro dado interessante: a renda média anual gira em torno de 33 mil dólares. No caso de um norte-americano, ele tem renda anual de oitenta mil dólares, já um turista argentino tem renda em torno de 28 mil dólares. Acho que tudo isso é muito importante, mas o principal é que 97% deles demonstraram intenção de voltar ao Brasil. Essas pesquisas sinalizam  para o setor privado, pois essa a que me refiro abrangeu 11,5 mil questionários aplicados em 24 portões de entrada. Seguindo a metodologia da OMT [Organização Mundial do Turismo, vinculada às Nações Unidas], embora nós tenhamos alguns conceitos que certamente serão debatidos aqui, temos muito o que fazer para aumentar esse fluxo de turismo internacional. Porém, nós temos que entender que o Brasil tem certas tipicidades que merecem reflexões. Não vamos ter quarenta milhões de turistas estrangeiros em um passe de mágica. Gostaríamos de saber de onde eles vêm... Na hora em que analisamos os fluxos internacionais, percebemos que 80% das viagens no mundo são de curta distância. Então, quando se fala em 47 milhões de turistas que visitam a Espanha...

Paulo Markun: [interrompendo] É porque a vizinhança da Espanha é boa?

Caio Luiz de Carvalho: Há outro exemplo: o México tem três mil quilômetros de fronteira com os Estados Unidos e isso faz com que ele receba 18 milhões de turistas, sendo que 92% deles são norte-americanos. Muitos deles até cruzam a fronteira! Portanto, nós temos que analisar o Brasil como um todo, entender que hoje nós estamos beirando os 45 milhões de turistas internamente. Só vamos ser um grande centro turístico internacional se, primeiro, formos um centro turístico para os brasileiros. Se o brasileiro não curtir seu país, por que o estrangeiro vai curtir? O turismo hoje tem o momento de virar a página, muita coisa boa aconteceu, como o Plano Real e a estabilidade econômica, que criaram cenários para o surgimento de investimentos privados. Os governos estaduais e federal também [investiram] em infra-estrutura básica. Então, nós estamos extremamente esperançosos. É um instrumento maior para reduzir as desigualdades regionais sociais no nosso país. Os ministros estão cuidando disso, o presidente Fernando Henrique também entende o turismo como uma atividade estratégica. Temos aí o nosso Ministério de Esporte e Turismo [Entre 1992 e o início do segundo governo do presidente Fernando Henrique, em 1999, o ministério era denominado Ministério de Indústria, Comércio e Turismo. A partir de então foi denominado Ministério do Esporte e Turismo até o início do primeiro mandato do presidente Lula, em janeiro de 2003, quando as áreas foram divididas em Ministério do Turismo e Ministério do Esporte], onde o ministro Carlos Melles [exerceu o cargo entre 2000 e 2002] está cuidando da divulgação desse plano Brasil Empreendedor Turismo.

Sidnei Raimundo: Bom, eu quero começar com uma questão relativamente polêmica. Esses números todos são bastante interessantes, mas meu foco de pesquisa e de interesse, particularmente, é o pano de fundo, aonde esses turistas vão, quais os atrativos pelos quais eles se interessam. Nem precisamos discutir a diversidade de paisagens do Brasil. Acontece que as políticas de uso e ocupação do solo neste país são extremamente tímidas para não dizer inexistentes, o que acaba gerando um contra-senso na medida em que todos esses turistas têm que se alojar em algum canto. Esses lugares não estão tão equipados para absorver esse fluxo de visitantes. A gente observa algumas políticas, principalmente na incrementação da infra-estrutura para tentar absorver isso, como melhoria de estradas...Só para te dar um exemplo, temos no Nordeste o que chamamos curiosamente de "Transoxente", uma estrada que passa por todas as capitais nordestinas, exceto Teresina [capital do Piauí], que não é  litorânea. Ela tem o intuito de incrementar o turismo regional, mas passa por série de áreas delicadas, frágeis, com sérios impactos ambientais. Como a Embratur fica nessa situação de querer incentivar o turismo, absorver todos esses visitantes, mas tendo que estar nessas áreas extremamente delicadas?

Caio Luiz de Carvalho: Sidnei, a primeira definição mais moderna de turismo é: indústria que processa recursos naturais e culturais sem desgastá-los. Você não pode matar a "galinha dos ovos de ouro", né?

Sidnei Raimundo: Mas isso não está acontecendo lá...

Caio Luiz de Carvalho: Acho que você não pode exagerar. Hoje nós temos os planos de desenvolvimento integrado como por exemplo, no Nordeste. A função principal para que o Banco Interamericano de Desenvolvimento [BID, fonte de financiamento multilateral e de conhecimentos para o desenvolvimento econômico, social e institucional sustentável na América Latina e no Caribe] liberasse os recursos de 670 milhões [de dólares] para a primeira fase foi justamente a questão ambiental, a questão do uso e ocupação do solo. Já o caso das estradas foi justamente a questão pela qual foram excluídos 670 milhões de dólares do BID, pois havia um número excessivo de estradas previstas, principalmente aquelas do passado, como a [Rodovia] Rio-Santos [trecho da BR-101, compreendido entre Santos e Rio de Janeiro, com quinhentos quilômetros beirando o litoral]. Jamais vamos repetir esse erro de fazer uma estrada beirando o litoral! Hoje a consciência é diferente do passado... Agora, se existem ainda algumas questões que deturpam esse uso e ocupação do solo, eu gostaria de dizer que quem quer trabalhar sério com turismo e fazer dele um instrumento de desenvolvimento sustentável local não vai seguir esse caminho porque é burrice. As próprias capitais do Nordeste cometeram o erro de construir hotel com asfalto na frente. Hoje isso já não existe. O modelo de Natal, por exemplo, é muito mais interessante com aquelas dunas [principais atrações turísticas de Natal, são montanhas de areia formadas pela ação dos ventos] atrás. Nós temos que virar a página dos erros passados. Sorte que aqueles estados que estão se desenvolvendo vão poder errar menos do que os outros erraram! Nós temos aí parcerias com entidades ambientalistas de Primeiro Mundo, a própria [Fundação] SOS Mata Atlântica [organização não-governamental, criada em 1986, com a missão defender os remanescentes da Mata Atlântica, valorizar a identidade física e cultural das comunidades humanas que os habitam e conservar os ricos patrimônios natural, histórico e cultural dessas regiões], estamos desenvolvendo um projeto no Vale do Ribeira, o Lagamar [Projeto Pólo Ecoturístico do Lagamar, proposto para planejamento ecoturístico e para fomentar práticas sustentáveis da atividade em municípios do Vale do Ribeira], que é considerado um dos melhores projetos de ecoturismo no mundo. Agora, a questão do ecoturismo é muito retórica também, é bonito falar de ecoturismo, mas a viabilização é complexa. E mais, a questão do ecoturismo não é quantitativa, é qualitativa. Ele nos serve como âncora para que possamos desenvolver outros segmentos. Sidnei, é claro que sua preocupação é importante, porque se nós matarmos o que temos de mais belo, nossa matéria-prima, nossos recursos naturais e culturais...Fernando de Noronha teve esse problema por um erro de ambientalistas. Eles não queriam um grande projeto Fernando de Noronha, mas um monte de projetos e um monte de pousadas, o que fez proliferar pousadas e um esgoto a céu aberto. Agora estamos em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, com a administração local e com o governo de Pernambuco para tentar recuperar o que foi feito de errado.

José Ernesto Marino Neto: Caio, em primeiro lugar, eu gostaria de te dar os parabéns publicamente pela eleição na Secretaria da Comissão Executiva do OMT. Isso é motivo de orgulho para todos os brasileiros que trabalham com turismo e que são apaixonados.

Caio Luiz de Carvalho: Muito obrigado!

José Ernesto Marino Neto: Nos últimos anos, o Brasil deu um salto fenomenal. O  investimento em turismo pressupõe estabilidade política, monetária e econômica. Isso nós conquistamos a partir de 1994. O governo federal tem deixado muito claro que o turismo é uma prioridade. Hoje existem 330 hotéis em construção no Brasil, sendo que 280 são apart hotéis ou hotéis em condomínios. A grande fonte de financiamento é nosso velho BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], que por mais que esteja se adaptando às necessidades...

Caio Luiz de Carvalho: [interrompendo] E os fundos de pensão.

José Ernesto Marino Neto: Mas os fundos de pensão cada vez menos... O BNDES, por mais que tente acompanhar as necessidades do setor, ainda não está adequado. Como ele pode efetivamente se adequar às necessidades do setor se internamente sequer possui uma área dedicada ao turismo? A área que cuida do turismo reúne comércio, serviços e, por acaso, o turismo. Ela também não tem relacionamento interno com outras coisas de turismo importantes como o Prodetur [Programa de Desenvolvimento do Turismo, criado pelo BNDES em 1995 para expandir o setor de forma sistêmica e planejada]. O Prodetur é tratado por diretorias da área social. Como o Banco pode estar interessado em turismo se não tem nenhuma área dedicada a isso? Quando a gente conversa com os técnicos do BNDES, eles têm muita dificuldade em entender a atividade. Você não acha que falta afinar isso dentro do governo federal?

Caio Luiz de Carvalho: Acho que essa questão do BNDES está melhorando muito. Os prazos melhoraram, embora não sejam ideais. Não nos esqueçamos que, em 1995, tínhamos cinco anos para financiamento de hotel, mas hoje são dez anos! Em algumas regiões, como o Nordeste e a Amazônia, são 12 anos. Temos uma taxa de juros de 14% ao ano, um pouco alta, mas era muito maior.

José Ernesto Marino Neto:  É.

Caio Luiz de Carvalho: Temos a notícia que, do dinheiro disponibilizado pelo BNDES, cerca de 490 milhões foram tomados. Você é especialista nessa área, mas nós temos lá hoje uma técnica de ótima qualidade, que é a Tânia Rennó. Ela está justamente trabalhando dentro do Banco para entender o custo-benefício do investimento em turismo. Quarenta mil reais dados pelo BNDES para construção de um quarto de hotel que está gerando um emprego. Essa mudança está começando a acontecer também no BNDES. O presidente [do BNDES] Francisco Gros hoje, em  contato com o ministro Carlos Melles, tem demonstrado interesse em ampliar essa linha de crédito. Agora, uma notícia para você e para os companheiros aqui: estou muito animado com os espanhóis e os portugueses, é um caso único. Muita gente vem aqui e quer dar a marca, a bandeira, quer administrar, mas ninguém quer colocar dinheiro. No caso dos espanhóis e dos portugueses, isso é uma realidade. O grupo português Pestana [rede de hotéis] investiu cem milhões de dólares neste ano e eu soube que ele tem mais dinheiro para investir. O banco espanhol Bilbao Viscaya Argentaria [BBVA] também demonstrou interesse em apoiar empresários espanhóis que queiram investir no Brasil, com juros de 8% a 10% ao ano.

Nely Caixeta: Mas é justamente quanto a isso que os empresários brasileiros se queixam! Eles acham que não há como ser competitivo se os espanhóis e portugueses podem obter recursos baixíssimos da Comunidade Européia [União Européia], se aqui no Brasil o que existe é pouco e muito caro.

Caio Luiz de Carvalho: Eu concordo, mas esse número é impressionante porque, ao contrário do que a gente imagina, são pouquíssimos os investimentos estrangeiros. Desses seis bilhões ou 330 hotéis a que ele se referiu, a  maior parte é de brasileiros. De uma maneira criativa, eles estão criando  corporações, viabilizando o projeto. Agora, é claro que estamos avançando. Como eu disse, nós  tínhamos financiamento do BNDES para cinco anos, hoje podemos pagar em dez, 12 anos, melhorou muito. Mas, ainda não dá para competir com juros lá fora. Acho que isso é uma evolução natural. Nós não estamos com problemas, graças a Deus, de falta de dinheiro para a construção de hotéis aqui, o empresário está se virando. Temos o exemplo do Grupo Accor, que tem anunciado para a imprensa tudo o que pretende fazer. Ele vai entrar com um hotel econômico que interessa muito à população brasileira: é o Formule 1 [F1], com diárias de cinquenta reais. Lá na Europa, esses hotéis não têm banheiro no quarto, mas aqui haverá banheiros nos quartos. Nós temos o Grupo Barceló, da Espanha, que está chegando... O Grupo Accor conta com empresários brasileiros, que estão tendo retorno. Eu sei que você não  ficou satisfeita com a resposta, mas não dá para mexer nisso agora. Nós avançamos, mas o pessoal quer 15 anos [prazo de financiamento]. Acho que nós vamos chegar lá. Na Espanha, o BBVA me informou que os juros são de 8% a 10% ao ano, mas o prazo é de cinco anos.

Nely Caixeta: Agora, uma coisa que eu queria entender também é que o senhor disse que a prioridade, pelo jeito, é para o turista interno.

Caio Luiz de Carvalho: Isso, democratizar o acesso da população ao turismo interno.

Nely Caixeta: Isso. Agora, as novidades dos últimos tempos em termos de grandes empreendimentos no Brasil são para a classe A e B, além de turistas estrangeiros. Por exemplo, esses grupos espanhóis e portugueses estão atrás do turista que vem de fora. O que vai ser feito verdadeiramente para que o turismo exploda no Brasil? As tarifas aéreas ainda são muito altas, não temos essa fartura de hotéis três ou quatro estrelas...

Caio Luiz de Carvalho: Nós temos três caminhos para o Brasil. Primeiro, precisamos sim desses resorts com campos de golfe para que o Brasil esteja no mercado internacional. Por outro lado, em relação ao público interno, esses pequenos e grandes hotéis estão começando...O Ibis [pertencente ao Grupo Accor] é um projeto nessa linha, o Formule 1 também é um projeto, há um grupo de Santa Catarina que também está começando a fazer módulos e espalhá-los pelo Brasil. Além disso, temos o fenômeno do turismo rural com as fazendas, onde pousadas estão sendo construídas. Já temos quatro mil [pousadas] catalogadas em todo o país. Em 1995 nós tínhamos 13,5 milhões de desembarques aéreos nacionais, mas em 2000 esse número está em 28 milhões. Isso não aconteceu por acaso...Não nos esqueçamos que, em 1998, um milhão de brasileiros viajaram de avião pela primeira vez, mas depois a guerra tarifária acabou abalando a saúde financeira das companhias aéreas. E agora uma novidade para você e para o público consumidor: fui procurado esta semana pela companhia aérea Varig [Viação Aérea Rio Grandense], que vai soltar mil e quinhentos assentos por dia com 40% de desconto. A TAM [Linhas Aéreas] está fazendo a mesma coisa, a Transbrasil [companhia aérea brasileira fundada em 1955 e extinta em 2001, após passar por prejuízos com os planos econômicos da década de 90 e com falecimento de seu fundador, Omar Fontana, em 2000] também. Vamos ter descontos de 40% a 60% até junho. A companhia Gol [Linhas Aéreas] está fazendo tarifas como a EasyJet faz na Inglaterra e em toda a Europa. É lógico que [a classe] executiva é cara mas se você planejar, existe desconto hoje. Acho que falta ainda um planejamento para seduzir o consumidor e uma inteligência comercial para que ele descubra que agora é época de baixa estação e que ele pode planejar sua viagem se não tiver filhos em idade escolar. Temos muitas opções hoje para o turismo. A [viagem entre] São Paulo e Porto Seguro [um dos principais destinos turísticos brasileiros, localizado na Bahia] pode ser feita com trezentos reais, incluindo passagem aérea e hotel.

José Ernesto Marino Neto: Mas é por isso que os hoteleiros estão morrendo lá, pois não conseguem remunerar o capital deles.

Caio Luiz de Carvalho: É fantástico, né? Como governo, nós temos que defender o consumidor mas os empresários ficam muito bravos quando a gente faz isso. Seria importante que tivéssemos caminhos alternativos... A Gol, por exemplo, diz que está ganhando muito dinheiro com tarifa barata.

Fábio Cascino: Caio, eu achei interessante o paradoxo de alguns hotéis, como o Ibis. Você pode viajar o mundo inteiro, mas nunca sair do lugar pois eles são todos iguais, é interessante. Isso me incomoda um pouco porque sou da área de educação e estou ligado ao ecoturismo. Na verdade, gosto de viajar para lugares que tenham sabores e cores diferentes, gosto de sentir o prazer da mudança, é para isso que serve o turismo. No seu livro, que é antigo...

Caio Luiz de Carvalho: Isso aí já virou lenda! Eu trouxe de lembrança...

Fábio Cascino: Mas eu, "rato de livros" que sou, o folheei e achei uma coisa dos anos 90. Você fala a respeito do turismo ecológico e diz: “A conscientização em torno do turismo ecológico deve começar na escola com a inclusão da ecologia como matéria obrigatória etc”, depois você diz: “Como essa meta no Brasil é um sonho, pois nossa população não tem a mesma formação educacional dos outros povos, e em razão do estado embrionário do nosso ecoturismo, certas etapas têm que ser pensadas e solucionadas”. Dez anos depois - pois o texto é da década de 90 - não cumprimos nenhuma etapa ainda, não temos investimentos na área de ecoturismo. Não é isso?

Caio Luiz de Carvalho: Temos. Curiosamente, quando imaginávamos que o ecoturismo necessitaria de grandes resorts para a Amazônia ou o Pantanal, o modelo de Lajes, em Santa Catarina, foi importado, é a questão do turismo rural. Os grandes proprietários de fazendas da Amazônia e do Pantanal acabaram criando pousadas que estão se transformando em sucesso turístico. Existe uma novidade aí: parece que vamos ter um grande resort no Mato Grosso do Sul, também temos o hotel do Sesc lá no Pantanal [Estância Ecológica Sesc Pantanal]. Mas o que aconteceu? Nós criamos, juntamente com as câmaras setoriais, as diretrizes estratégicas para uma política nacional de ecoturismo. Não é do governo, pois tivemos envolvimento de todas as entidades em  1994. Foram realizadas cerca de quarenta oficinas de ecoturismo em diversas regiões brasileiras, onde foi feita uma simulação do que seria a presença do turista naqueles locais. Foi constatado que essa operação só poderia ser realizada com a integração da população local na operação do ecoturismo. Tivemos grandes polêmicas com os guias, que queriam exclusividade para operar. Quem conhece melhor a Chapada dos Veadeiros [região de cerrado no nordeste do estado de Goiás, que abriga o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, reconhecido como patrimônio natural mundial pela Unesco - United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, e a Área de Proteção Ambiental de Pouso Alto, onde está o ponto mais alto do Planalto Central]? O guia local, aqueles nativos. E o guia tinha carteirinha, tinha se formado aqui em São Paulo e queria operar o ecoturismo na Chapada dos Veadeiros... Então, todas essas questões estão sendo trabalhadas. Agora, o que é um tabu e que eu espero resolver é a questão dos parques nacionais, porque nos Estados Unidos o ecoturismo se faz a partir deles. No Brasil nós temos quarenta parques. Cerca de 19 estão sendo liberados para isso, mas falta interesse do empresário, do agente de viagens e uma certa infra-estrutura.

Fábio Cascino: Quando você fala de investimento e eu vejo aqui [no livro] o marketing exterior, há uma questão seríssima, que é a competição desleal entre o turismo sexual e o ecoturismo.

Caio Luiz de Carvalho: Não. Aliás, quanto ao turismo sexual, nós somos modelo para o mundo hoje mesmo com todos os problemas que temos. Existe o Disque Turismo Sexual, cujo número é 0800-990500. "Cuidado, o Brasil está de olho" é uma campanha lançada corajosamente de maneira inédita pelo governo federal, pelo presidente Fernando Henrique e sua mulher Ruth Cardoso [ver entrevista de Ruth Cardoso no Roda Viva], com todos os empresários. Isso antes era considerado um tabu, porque acabava prejudicando o negócio deles, mas a hotelaria se engajou a ponto de nós termos até bilhete de passagem aérea com o dizer "Cuidado, o Brasil está de olho". Essa campanha tem apoio da Andi [Agência de Notícias dos Direitos da Infância] e da Abrap, ONG do Rio de Janeiro que trata da questão da prostituição. Temos tido muitas prisões. O Ministério da Justiça fez alguns acordos com outros países, como a Inglaterra, a Itália e a Alemanha, e o turista que for pego aqui hoje responde processos aqui e lá. Agora, há uma constatação, para nossa tristeza, tabulando as pesquisas, a maior parte [dos que praticam turismo sexual] é de brasileiros. O turista estrangeiro é "traço" nessa questão. Você vai pensar em alemão ou...

Fábio Cascino: [interrompendo] É interessante.

Caio Luiz de Carvalho: Hoje é "traço", no passado poderia ter sido alguma coisa em evolução. Hoje as penas lá e aqui são poderosas. Então, "Cuidado, o Brasil está de olho"!

Paulo Markun: Nós vamos fazer um rápido intervalo e voltamos em instantes.

[intervalo]

Paulo Markun: Estamos de volta com o Roda Viva. A discussão aqui durante o intervalo parecia mais animada do que durante o programa, assim não dá! [risos] Hoje estamos entrevistando o presidente da Embratur, Caio Luiz de Carvalho. Presidente, as afirmações que o senhor fez sobre a questão do turismo sexual não satisfizeram alguns telespectadores. José Luís, de Itaquera, que é microempresário, diz: "Pelo menos há vinte anos, ouço a Embratur dizer que vai fazer marketing no exterior, mas o que se percebe é apenas a depreciação da mulher brasileira, do Carnaval etc. O que vai ser feito dessa vez?". Luiz Teixeira, de Belém, diz: "O Carnaval e as praias do Brasil são a maior atração de turismo sexual do mundo”. José Carlos Pereira, de Osasco, afirma: “Os turistas vêm ao Brasil pela propaganda em torno da mulher brasileira”. E há outros que dizem, inclusive, que esse é o ponto que mais atrai os estrangeiros. O senhor diz que isso não é verdade?

Caio Luiz de Carvalho:  Não é verdade! Até os anos 90, isso era verdade... A própria Embratur e os operadores turísticos iam para o exterior e colocavam a mulher usando biquíni, exploravam o samba e a mulata. Isso foi abolido. Somos até criticados por isso, porque fomos radicais em excesso no sentido de preservar a figura da mulher e para acabar com a história de que o Brasil é o país do samba, do Carnaval e do futebol. Hoje nós vendemos o ecoturismo, o turismo cultural... Isso acontece desde 1994. Desafio qualquer pessoa a pegar qualquer folheto onde você insinue a presença do Carnaval! Acho que isso aí é uma bobagem, é história de passado, estão desatualizados. Agora, você tem que estar atento, o problema é dramático no que diz respeito à violação dos direitos humanos, à exploração de menores. Há brasileiros em regiões portuárias pegando menores para a prostituição. Temos que estar atentos! Isso também é problema da polícia local, que sabe muito bem quem são os bandidos e tem a obrigação de pegá-los. O governo de Tasso Jereissati [governador do Ceará por três gestões: 1987 a 1990, 1995 a 1998, 1999 a 2002], quando nós lançamos a campanha, efetuou mais de 19 prisões no Ceará para resolver essa questão. Não resolveu, mas o combate existe. A vantagem é que os problemas não são mais colocados "debaixo do tapete", temos que enfrentá-los com otimismo.

Doris Ruchmann: Pois é, eu atuo nas áreas de educação em turismo, na qualificação de recursos humanos e em planejamento dos destinos turísticos. Apesar do esforço na capacitação de recursos humanos em nível superior, sinto muita falta do nível técnico nos destinos. Com tantos hotéis chegando, com o plano Brasil Empreendedor Turismo querendo formar quinhentos mil profissionais, como você, enquanto Embratur ou pessoa tão presente no turismo nacional, pode avaliar isso? Estamos lançando hoje no mercado cinquenta formados por dia, que multiplicados por quatrocentas escolas [faculdades de turismo], dá quinze mil [profissionais] por ano.

Caio Luiz de Carvalho: É verdade.

Doris Ruchmann: Onde estão os cursos técnicos? Talvez eu nem devesse falar isso, mas sim defender a universidade...

Caio Luiz de Carvalho: Eu também falo isso, existe um grupo de professores de turismo que discute esse assunto no Ministério da Educação.

Doris Ruchmann: Eu estou preparando o mestrado e o doutorado dos profissionais do futuro, mas onde estão os [profissionais] de nível técnico, que são 70% da mão-de-obra no turismo?

Caio Luiz de Carvalho: O Senac faz um trabalho bom na área.

Doris Ruchmann:  Faz. É pouco, você não acha?

Caio Luiz de Carvalho: Acho que é pouco, mas é com os pés no chão que digo que vamos ter, com esses empreendimentos, no mínimo, 420 mil empregos gerados até 2002 no turismo.

Doris Ruchmann:  Como vamos abastecer o mercado?

Caio Luiz de Carvalho: Temos que qualificar e capacitar essas pessoas. E eu concordo plenamente que é muito bom que tenha ocorrido essa proliferação de faculdades, porque nós precisávamos disso. É muito importante que os professores continuem cobrando dos alunos que, além do português, eles aprendam no mínimo um idioma a mais. É fundamental também que comecem a estagiar no primeiro ou no segundo ano para conhecerem o mercado, que é extremamente complexo e competitivo. Agora, nós temos que investir na questão dos cursos técnicos. Eu acho que o Programa Nacional de Municipalização do Turismo [O PNMT nasceu em 1994 como um programa de gestão do turismo para conscientização, estímulo e capacitação dos vários monitores municipais, para que despertem e reconheçam a importância e a dimensão do turismo como gerador de emprego e renda, conciliando crescimento econômico com preservação e manutenção dos patrimônios ambiental, histórico e cultural das cidades], de certa forma, não forma técnicos, mas está fomentando junto às comunidades dos 1680 municípios com potencial turístico a necessidade do surgimento desses técnicos.

Doris Ruchmann: Sem dúvida. Você tem alguma notícia sobre o direcionamento do recurso do FAT [Fundo de Amparo ao Trabalhador], que está indo para o nível profissionalizante básico?

Caio Luiz de Carvalho:  Foi lançada agora, junto com a Fundação Roberto Marinho, uma série de vídeos com artistas globais [TV Globo]. Estamos trabalhando com ensino a distância no Brasil inteiro. Esses vídeos vão sensibilizar justamente aquele que tem potencial para o curso técnico, pegando desde o porteiro até o balconista de um hotel, um taxista. Agora, quanto ao curso técnico, acho que caberia uma discussão com os nossos representantes do Ministério da Educação que representam as faculdades de turismo, porque nós falamos sempre sobre isso. Neste momento as faculdades estão muito bem, os cursos de pós-graduação começam a surgir na Fundação Getúlio Vargas, na USP, na Universidade de Brasília. Isso também é fundamental porque nós estamos desenvolvendo um pensamento estratégico fundamental no país. Agora, temos que cuidar dos técnicos.

Nely Caixeta: Eu tenho uma questão que, de certa forma, diz respeito à educação. Você costuma dizer que um país só é bom para o turista estrangeiro se ele for bom para o cidadão que mora nele.

Caio Luiz de Carvalho: [interrompendo] Sim, a cidade só é boa para o turista se for boa para a sociedade que nela vive. Isso é verdade, é a maior bandeira nossa!

Nely Caixeta: Sim, mas você vê ruas sujas pelas cidades brasileiras...

Caio Luiz de Carvalho: [interrompendo] Onde tem lixo não tem turista! Aí eu ia voltar ao assunto, ou seja, nosso maior problema hoje é lixo e poluição das águas. Também desafio todos esses ambientalistas: acho que é importante brigarmos pela Amazônia e pelo Pantanal, mas temos que brigar também pelos lixos das nossas cidades, é uma questão de saúde para a juventude.

Sidnei Raimundo: Qual é o papel da Embratur nisso?

Caio Luiz de Carvalho:  É uma campanha grande, é fundamental que a Embratur entre nisso. Se os turistas apontam a questão da limpeza como queixa número um, estamos em um programa brasileiro de qualidade e de produtividade, trabalhando com o Ministério do Planejamento no sentido de diminuir a questão. Nós temos cerca de duzentas cidades que já estão com coleta de lixo seletiva, estamos trabalhando com nossos jingles [mensagem publicitária musicalizada] nas ruas. Existem até casos curiosos de cidades pequenas no Nordeste onde os lixeiros saem com o trio elétrico limpando a rua...

Nely Caixeta: Mas o senhor não vê isso no Rio de Janeiro...

Caio Luiz de Carvalho: Não, nem em São Paulo. É uma vergonha, é uma vergonha!

Nely Caixeta: Essa mudança de mentalidade...Você tem que educar as pessoas para o turismo.

Caio Luiz de Carvalho: É uma questão de punir também. Não sei se vocês viram, mas saiu uma reportagem no [jornal] O Estado de S. Paulo nesta semana sobre um rapaz que andou o Nordeste inteiro coletando lixo pelas praias, lixo de estrangeiros. O estrangeiro não faz lá mas faz aqui, porque lá ele é punido, aqui ele não é. Então, temos que ter legislação municipal, temos trabalhado com a Câmara dos Vereadores. Só vai receber o selo de município turístico aqueles municípios que começarem a criar legislação para punir quem suja e tudo mais. O problema de lixo é dramático, mas é um problema cultural também. Em algumas praias, nós temos o problema do pescador que vai para o alto mar, pesca, volta à tarde e limpa o peixe na praia, deixando as tripas lá. Aí, vem o urubu... Por que ele faz isso? Ele tem a consciência de que a areia faz com que o peixe não escorregue. Então, é muito complexo...

Paulo Markun: [interrompendo] Em defesa dos pescadores, isso é menos absurdo do que deixar um monte de garrafa plástica, saquinho de sorvete, fralda de criança...

Caio Luiz de Carvalho: Lógico, lógico!

Sidnei Raimundo: Caio, eu insisto... Você fechou um círculo que achei interessante. Você voltou à questão do local, da relação com local, do turismo não como uma decorrência linear...

[sobreposição de vozes]

Caio Luiz de Carvalho: Não, é o contrário do que se pensa: "não se faz turismo lá porque não está sujo". Não é isso...

Sidnei Raimundo: É a questão da localidade como ponto de partida efetivo para se pensar a relação com esse mundo que está aí. É a percepção da localidade como ponto de partida da consciência do que sou, do que somos. Esse é o grande eixo teórico e conceitual do turismo.

Caio Luiz de Carvalho: É por isso que estamos trabalhando isso agora com a escola de primeiro grau, em situação escolar.

Sidnei Raimundo: Desculpe minha insistência talvez excessiva aqui, mas verba para projetos de ecoturismo, de formação de mão-de-obra para o ecoturismo, que tenha essa perspectiva - na política nacional e estadual de ecoturismo - de relação com o local, não apenas na defesa dos parques ou áreas naturais, mas com as pequenas comunidades e pousadas... Quanto de verba nós temos nesse projeto hoje?

Caio Luiz de Carvalho: Temos algo em torno de dois milhões [de reais] e isso dá tranqüilo. Para você ter uma idéia, essa experiência com a Fundação SOS Mata Atlântica, a que eu me referi no início do programa [projeto Largamar], é premiada lá no exterior. Não adianta o governo querer fazer, ele tem que encontrar parceiros competentes, porque ele não é competente para fazer certas coisas. Na questão do ecoturismo, temos que nos associar com entidades com credibilidade...

Sidnei Raimundo: [interrompendo] Na ponta do lápis, não temos verba para o ecoturismo hoje no projeto?

Caio Luiz de Carvalho: Não tem aí, mas já tem no meu orçamento. E mais uma novidade: nós devemos lançar nos próximos trinta dias uma publicação extraordinária feita pelo Instituto de Ecoturismo do Brasil [instituição privada, sem fins lucrativos, com o objetivo de fomentar e orientar o empreendedor de Ecoturismo a desenvolver produtos e serviços segundo os princípios do desenvolvimento sustentável]. Nós pegamos os cinco maiores pólos de ecoturismo em cada estado, fizemos um mapeamento disso e estamos trabalhando com diretrizes para transformar essa matéria-prima em produto de qualidade.

Viviane Kulczynski: Você estava falando de turismo interno e tocou no ponto das companhias aéreas. Há agora uma guerra tarifária e o surgimento de algumas empresas que estão fazendo um favor ao bolso do consumidor. Mas, não se vê uma maior lotação. Houve, na verdade, uma distribuição entre as empresas. Um vôo que fiz de São Paulo a Salvador não tinha mais que quarenta pessoas em uma sexta-feira, quando o fluxo deveria ser maior. Nunca se fala em vôo charter [fretado]... Hoje ele corresponde a apenas 7% do mercado. Por que não se incentiva o vôo charter, já que ele é  favorável ao bolso do passageiro e às empresas?

Caio Luiz de Carvalho: Maravilha! Pois é, eu passei para produção do Roda Viva dados sobre o vôo charter. Primeiro, você está corretíssima, é a nossa bandeira. O turismo se faz com vôo charter, 56% do movimento de transporte aéreo na Europa é charter.

Viviane Kulczynski: Nós temos apenas 7%.

Caio Luiz de Carvalho: Sim, mas tínhamos 3% em 1995. Trabalhar com estruturas demora mais tempo. A novidade é que não existe mais limitação nenhuma para isso, precisamos incentivar mais. Não nos esqueçamos que em 1999, nós tivemos 1080 vôos charters do exterior para o Brasil. Nesta temporada, tivemos 2200 vôos charters, ou seja, dobrou.

Viviane Kulczynski: Esses resorts da Bahia, por exemplo, vão fazer vários vôos charters.

Caio Luiz de Carvalho: Vão ajudar. Quais os dois cases de turismo de massa no Brasil? Porto Seguro e Caldas Novas, que acontecem como? Com charter, com fretamento.

José Ernesto Marino Neto: Caio, deixa eu pegar esse exemplo para falar de gargalos...

Caio Luiz de Carvalho: [interrompendo] Esse negócio da Viviane é muito interessante. A solução para o Brasil é vôo charter, não é transporte regular.

José Ernesto Marino Neto: Com certeza. Agora, vamos falar de um fato recente. Um grande resort na Bahia resolveu traçar como meta, plano de marketing, ao invés de competir com outros empreendimentos na baixa estação pelo mesmo brasileiro, gerar nova demanda. Falou o seguinte: “Vou trazer um público que ainda não vem ao Brasil porque não há produtos como os que estou oferecendo agora”. Criou um vôo charter com uma companhia canadense. O contrato era dois anos, em um Boeing 767, para 250 pessoas, uma vez por semana, de maio a outubro, ou seja, exatamente no período de baixa estação. Um mês antes de vir para cá com seu primeiro charter, essa companhia canadense falou o seguinte: “Não vou mais para o Brasil porque o consulado brasileiro em Toronto não conseguiu assegurar que poderia emitir 250 vistos adicionais por semana”. Não vou falar do absurdo do fato em si...

Caio Luiz de Carvalho: Claro.

José Ernesto Marino Neto: ...mas independentemente da Lei de Reciprocidade [Lei 6.815/1980], que é uma lei federal em que o Brasil exige vistos dos países que também exigem visto do Brasil, se nós adotássemos um sistema como é, por exemplo, na Jamaica... Você chega na Jamaica e na imigração perguntam quantos dias você vai ficar lá. Você diz "Sete dias", mostra o bilhete e na hora eles te dão um visto de oito dias, não permitem trabalho no local. Você não paga nada pelo visto na entrada. Quando você está saindo, no check in da companhia aérea, você paga pelo visto. Isso não seria muito mais lógico para a gente?

Caio Luiz de Carvalho: Seria, isso está sendo estudado, começou a ser estudado nas Câmaras Setoriais. Agora, não fiquei sabendo desse caso do Canadá. Essas coisas a gente resolve, quando acontecem essas barbaridades... Mas isso é legislação...

José Ernesto Marino Neto: [interrompendo] Na época, isso chegou ao ministro [de Relações Exteriores do governo FHC] Luiz Felipe Lampreia.

Caio Luiz de Carvalho: É um caso muito difícil, porque o Canadá é um dos poucos países, hoje, em que nós temos essa questão do visto. Com a França já não existe mais, nos Estados Unidos agora são cinco anos [período de validade do visto]...

José Ernesto Marino Neto: Agora a mesma companhia hoteleira está trazendo um charter de Londres.

Caio Luiz de Carvalho: Pelo amor de Deus, me avisem! Vamos atrás agora porque nos interessa. Isso que a Viviane colocou é importantíssimo. Nossa política é: 2001 é o ano do charter. Agora, nós temos que enfrentar também barbaridades, porque o Caribe chega a pagar por passageiro para captar vôos charter para a Europa. O  risco é do Caribe, do governo do Caribe, e nós ainda não estamos nessa...

Doris Ruchmann: [interrompendo] A gente fala do charter e no Estadão hoje saiu [o artigo] “Como não se vende o Brasil”.

Caio Luiz de Carvalho: Sim, eu li, mas o Brasil não começou a ser vendido.

Doris Ruchmann: Eu lembro que você fala isso sempre, que o Brasil não tem imagem lá fora...

Caio Luiz de Carvalho: Não.

Doris Ruchmann: Então como nós ficamos com todos esses resorts que vamos ter? Vamos ter uma oferta muito boa, vamos até ser competitivos, com uma mão-de-obra qualificada, bem treinada, bons resorts e, de repente, temos imagens deseperadoras.

Caio Luiz de Carvalho: Essa é a maior missão.

Viviane Kulczynski: Só posso complementar?

Caio Luiz de Carvalho: Pode.

Viviane Kulczynski: Por exemplo, somos [o Brasil] escolhidos como os melhores estandes nessas feiras mundiais...

Caio Luiz de Carvalho: Não, melhorou! Antes se vendia aquilo que foi colocado aqui: samba, futebol e Carnaval. Agora não, o Brasil compete com o que há de melhor.

Viviane Kulczynski: Mas há a questão de como vender. Não faltam escritórios brasileiros como determinados emissores...

Caio Luiz de Carvalho: [interrompendo] Falta, falta!

Viviane Kulczynski: Nós temos no Brasil a Maison de la France [escritório oficial de turismo da França no Brasil], a gente tem escritórios de turismo da Espanha... Não falta um escritório brasileiro - não digo um consulado - mas um escritório presente?

Caio Luiz de Carvalho: Falta, mas no passado esses escritórios eram motivo de apadrinhamento político, de orgias e tudo mais. Nós estamos agora tentando dar credibilidade a isso e aí precisamos de um formato. Isso é missão maior do nosso ministro de Esporte e Turismo, que está negociando com o Itamaraty [Ministério das Relações Exteriores]. Nós queremos ter um escritório. Na Inglaterra, isso funciona muito bem, só que começou a funcionar há um ano. Trata-se de um profissional de alto nível, um ex-funcionário da British Airways. O que esses escritórios têm que fazer? Detectar as tendências do mercado local e passar para os brasileiros para venderem competência lá fora. Além da Inglaterra, [devem estar] na Alemanha, nos Estados Unidos, na Argentina e provavelmente na França, Itália e Portugal, não mais do que isso. Sou contra, senão vai virar loucura. E não nos esqueçamos que meu sonho é fazer da Embratur o Maison de la France, mas lá são 70 milhões de dólares aportados anualmente, sendo 35 milhões do governo e 35 milhões do setor privado. Nosso setor privado ainda não está maduro para colocar dinheiro nesse negócio, infelizmente. Mas eu espero que "vire"!

Paulo Markun: Os dados que o senhor nos apresentou no início do programa me levam a pensar que há alguma coisa estranha, na medida em que São Paulo é a principal porta de entrada dos turistas estrangeiros. Se a gente olhar o mapa do mundo, vamos ver que há pontos do território brasileiro muito mais próximos da Europa e dos Estados Unidos, como as cidades nordestinas, Belém do Pará, até Manaus é mais próximo...

Caio Luiz de Carvalho: Aliás, Manaus e Pará têm uma novidade: um vôo da TAM, que parte de Miami e que será feito em três horas. Acho que é muito saudável.

Paulo Markun: Para reverter isso, [seria necessária a] instalação de vôos regulares ou charters?

Caio Luiz de Carvalho: Sabe por que vôo regular? Porque a companhia regular não quer perder para a congênere de bandeira estrangeira. Eu te explico: se um executivo da Suiça quiser vir para o eixo Rio-São Paulo e a companhia brasileira parar no Nordeste primeiro e vier para cá, sendo que ele tem horário para chegar, ele não quer escala e vem com outra companhia. Como São Paulo é a maior capital econômica da América latina, é o maior portão de entrada mas não é a cidade mais visitada turisticamente.

Paulo Markun: E para que os charters pousem, por exemplo, em Natal, nessas cidades...

Caio Luiz de Carvalho: Isso está acontecendo. O Estadão constatou a presença dos escandinavos, a Nely também os viu lá no Rio Grande do Norte. Foi um trabalho do governador Garibaldi Alves Filho [governou o estado entre 1995 e 2002], do  setor privado inteiro, dos hoteleiros, que baixaram os preços. Eles foram à Dinamarca, conseguiram captar e esse vôo está sendo um sucesso. O mesmo está acontecendo com o Ceará, a Paraíba também está recebendo vôos charters de Portugal. Nós estamos vivendo uma revolução nessa questão do charter, que começa a surgir no Brasil graças à decisão democrática do DAC [Departamento de Aviação Civil] de acabar com qualquer proibição para que o charter venha para o Brasil.

Nely Caixeta: Mas aí há outra pergunta: que imagem nós vamos vender lá fora então? Se não é Carnaval, se não é mulher bonita, é só praia?

Caio Luiz de Carvalho: Não, samba e praia estão condenados. Olha, foram feitos estudos estratégicos na Organização Mundial do Turismo, que [apontam] quais são as tendências do turismo nos próximos vinte anos. Elas não vão se alterar quanto ao turismo de curta e longa distância: 24% será de larga distância e o restante, 76%, é de curta distância. Há outros dados curiosos. Existe um projeto de um avião japonês três vezes maior que o Concorde, que faria Tóquio-Europa em três horas. Existe o projeto da Airbus de fazer um avião com 1,3 mil lugares. Mas as distâncias continuarão as mesmas, entende? E vamos ter que investir em sol e praia mais ecoturismo, sol e praia mais turismo cultural. O turista vai querer se sentir um personagem...

Sidnei Raimundo: Parece que a natureza volta à cena...

Caio Luiz de Carvalho: Natureza! A tendência se preocupa com isso, o estudo mostra como você conciliar demanda com conservação.

Sidnei Raimundo: Pois é, mas a gente se encontra hoje em uma encruzilhada porque não é só o público ecoturista. Na verdade, definir ecoturista no Brasil e em qualquer lugar do mundo é muito difícil. Qual é o perfil do ecoturista? Na verdade, são pessoas querendo se religar à natureza e que vão para algum canto deste país com essa natureza toda, com os parques nacionais. Eu percebo um distanciamento entre a Embratur e o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis]. Eles levaram pelo menos uns três ou quatro anos para definirem o que é ecoturismo. E não necessariamente é o que se pratica em parques nacionais como o Iguaçu [Parque Nacional do Iguaçu, localizado no Paraná. É lá que estão as Cataratas do Iguaçu, conhecidas mundialmente], por exemplo. Ali é simplesmente uma contemplação da natureza, é um pouco diferente do ecoturismo. O Ibama e a Embratur levaram três, quatro anos para se juntarem e fazerem uma definição conjunta de ecoturismo. Depois disso, novamente há um distanciamento. Eu percebo nas reuniões de que tenho participado que, quando há técnicos do Ibama, já é um grande avanço, mas é raro observar [técnicos] da Embratur...

Caio Luiz de Carvalho: Veja bem, a Embratur trabalha com a comercialização, seu papel é incentivar o operador a montar um pacote para que o consumidor possa usufruir. O papel do Ibama é criar um cenário para o turista freqüentar, um cenário ambientalmente correto. É que "ecoturismo" é muito bonito de se falar, costumo que dizer que é a coisa mais bonita de se falar, mas que, na prática, é complexa. Isso porque ele é dirigido, educativo. Não podemos pensar em ecoturismo como um milhão de turistas invadindo os parques brasileiros, isso não existe. Agora, eu acho que nós estamos no caminho certo, estamos trabalhando com entidades que têm credibilidade. E eu prefiro trabalhar com essas entidades porque são elas que vão sensibilizar o setor privado a fazer pacotes. A TAM até já lançou pacotes de vôos para ecoturismo no Brasil, são vôos para certos parques nacionais.

Nely Caixeta: Sobre essa diversidade de atrativos aqui no Brasil, recentemente vi escandinavos no Nordeste usando chapéu de couro, andando atrás das pegadas dos dinossauros e comendo carne de bode. 

Caio Luiz de Carvalho: Contentes?

Nely Caixeta: Felicíssimos, achando aquilo absolutamente diferente e dizendo que vão voltar. Vi também crianças de outros estados aprendendo biologia marinha em uma praia em Alagoas e uma operadora local felicíssima porque tinha conseguido um acordo, um contrato com uma escola do Rio de Janeiro para trazer centenas de alunos para Alagoas. Eles aprenderiam na prática algumas aulas. Em vez da sala de aula, iriam de fato ver a biologia marinha na beira da praia. Parece que há na nova lei da educação [LDB, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional do Brasil] uma parte das aulas sendo dada na prática. Isso não é um filão para o turismo que nós deveríamos explorar mais?

Caio Luiz de Carvalho: É, esse trabalho com a criança é importante. Pouca gente sabe, mas nós temos um trabalho feito com patrocínio da Fiat, em que três milhões de escolas da Europa estão recebendo fitas para conhecerem melhor o Brasil sob os aspectos turístico e cultural. Estamos começando a fazer o mesmo com o Ministério da Educação, a iniciação escolar ao turismo. Há um trabalho que a academia de viagens da American Express fez, é muito interessante também, em que você trabalha com o garoto no sentido de mostrar a ele a nossa diversidade cultural, o nosso potencial de recursos naturais e tudo mais. Eu acho que o caminho da parceria com educação, assim como com a universidade, é fundamental para que a gente possa consolidar o produto nacional. Para ser competitivo, você tem que ter estratégias. O que está acontecendo hoje surgiu nas Câmaras Setoriais em 1993, em que quatro macro-estratégias foram definidas. Primeiro, investimentos em estruturas básicas em regiões turísticas que criassem cenários para a vinda de investimentos privados e melhorassem a qualidade de vida para o cidadão local. Segundo, capacitar e qualificar pessoas, descentralizando a gestão turística por meio dos 1680 municípios turísticos brasileiros. A coisa mais difícil no nosso país é você conscientizar, esse trabalho merece medalha. O terceiro ponto é modernizar a legislação existente para que nós possamos competir e que não aconteçam casos como esse do Canadá ou que inviabilizem a vinda dos cruzeiros marítimos para o Brasil, por exemplo. Os cruzeiros foram um sucesso nessa temporada, com mais de 94. Até 1994, isso era proibido, porque na época de Dom João VI [(1767-1826) rei de Portugal, veio para o Brasil em 1808 com toda a corte portuguesa e tomou diversas medidas político-econômicas no território] era proibido navio de bandeira estrangeira fazer cabotagem [navegação entre portos do mesmo país pelo litoral] pela costa brasileira. Por último, marketing em promoção, priorizando o mercado interno e o de curta distância, que é o Mercosul. Europa e Estados Unidos seriam uma terceira opção. Essas quatro macro-estratégias acabaram dando margem à dezenas de ações estratégicas: desenvolvimento de pensamento estratégico na universidade, inserção do Brasil no cenário internacional - hoje nós estamos na Organização Mundial de Turismo, era importante o Brasil estar lá para trazer metodologia e conceitos para se avançar no país em termos de estratégia - a questão de você educar a criança, trabalhar com a criança... Nós estamos até tentando falar com o Maurício de Sousa [desenhista e empresário brasileiro, criador de personagens famosos dos gibis como Mônica e Cebolinha. Ver entrevista de Maurício de Sousa no Roda Viva] para voltarmos a fazer um trabalho feito no passado de distribuir gibis da Mônica, do Cebolinha, colocando os aspectos ambientais. Há um monte de coisa para fazer no turismo! Nós estamos começando, mas já sabemos o que fazer. O importante agora é a gente se unir. O setor privado tem que estar junto com o governo nisso, porque isso não é só papel do governo federal e dos governos estaduais.

Paulo Markun: Nós vamos para mais um rápido intervalo e a gente volta já, já.

[intervalo]

Paulo Markun: Estamos de volta com o Roda Viva, esta noite entrevistando o presidente da Embratur, Caio Luiz de Carvalho. Presidente, eu vou começar aqui por umas perguntas dos telespectadores. Jaldair Francisco de Souza, comerciante de Itanhaém, diz o seguinte: “Sobre os balneários e geografias degradadas, o que se pode fazer para preservar nossas belezas naturais?”.

Caio Luiz de Carvalho: Isso é o que "mata a galinha dos ovos de ouro"! Acho que é uma questão de conscientização da comunidade local. Nós tivemos problemas como aquele da Lagoa Rodrigo de Freitas [lagoa situada no sul do Rio de Janeiro, sendo um dos principais pontos turísticos da cidade. A proliferação de algas é responsável pela intensa mortalidade de peixes na lagoa]: como você pode motivar o turista que chega na Lagoa Rodrigo de Freitas e vê aqueles peixes lá, uma lâmina de peixes? Eu acho que nós temos que evitar isso. A Praia Grande [cidade da região da Baixada Santista, em São Paulo, que é uma das mais movimentadas no Brasil na época do verão. A partir de 1993, o município passou por amplas melhorias em esgoto, pavimentação e transportes] deve servir de  exemplo, pois era o "patinho feio" e fez um trabalho excepcional, hoje é modelo. 

Paulo Markun: O juiz de direito Caetano, de Higienópolis, pergunta qual é a perspectiva de turismo para a Embratur em relação à terceira idade.

Caio Luiz de Carvalho: Bom, esse é o grande filão. Hoje são mais de 23 milhões de potenciais turistas. Volto a dizer: durante muito tempo se pensou em terceira idade como social, levar os turistas para Águas de Lindóia ou Poços de Caldas [cidades turísticas de São Paulo e Minas Gerais, respectivamente]. Isso é importante também, mas o público da terceira idade lá na Espanha resolve os problemas da baixa estação. Aqui no Brasil, não existe uma sofisticação, uma criatividade, para fazermos pacotes criativos para conquistar a terceira idade com alto poder aquisitivo. Tem gente que quer ir para Costa do Sauípe [complexo de resorts no litoral da Bahia],  para um resort, e o empresário não percebeu isso. Nós temos na  Embratur o Clube da Melhor Idade - é proibido falar terceira idade, era o Clube da Terceira Idade, depois passou para Clube da Maioridade, aí eles fizeram uma revolução e hoje é o Clube da Melhor Idade - e existem mais de cem mil sócios em todo o Brasil, é um sucesso, eles viajam muito pelo Brasil.

Paulo Markun: Eles têm informação privilegiada ou...

Caio Luiz de Carvalho: Eles têm descontos, a maioria tem carteirinha. Muitos desses clubes que existem nos estados acabam fazendo convênios com hotéis, agências de viagens, operadoras, companhias aéreas. Esse é o grande filão...Tem muita coisa acontecendo mas o empresário não percebeu que pode potencializar ainda mais.

Paulo Markun: Há vários telespectadores como Fernando Blas, de Botucatu; André Veloso, que não diz de onde é; Ana Maria Freitas, do Butantã, que perguntam... Aliás, a Ana Maria, que é médica, faz uma pergunta diferente, vou começar pela dela: “Existe algum controle de preços dos pacotes turísticos? Como isso é feito? As operadoras têm preços altíssimos e os pacotes nacionais acabam saindo pelo mesmo preço dos internacionais, o que acaba fazendo o brasileiro optar pelo exterior”.

Caio Luiz de Carvalho: Ana, eu te juro: isso era verdade até 1998. Com a desregulamentação, isso deixou de ser verdade. Se você analisar os pacotes, nós tivemos uma inversão de 1998 para cá. Em 2000, tivemos 60% de pacotes nacionais vendidos e 40% internacionais. Era o oposto até 1998.

Paulo Markun: A desvalorização [da moeda real] também pesou, evidentemente.

Caio Luiz de Carvalho: E digo mais: de 1999 para 2000, nós tivemos queda de 10% a 11% no preço dos pacotes. O consumidor não é bobo. Ele compra se o preço for honesto, se o produto tiver qualidade, se for criativo, se tiver diferenciais agregados e se tiver uma identidade que o seduza. É isso que o consumidor quer hoje. E, hoje, o Código de Defesa do Consumidor protege muito bem aquele que é lesado por qualquer prestador de serviço turístico. As multas hoje vão até três milhões de Ufirs [Unidade Fiscal de Referência, extinta em 2000].

Paulo Markun: Agora sim, o André Veloso e o Fernando Blas querem saber como se consegue financiamento para as pequenas empresas do ramo hoteleiro, como pousadas, pergunta o André. O Fernando diz o seguinte: “Tenho uma área ideal para implementação de um projeto de ecoturismo e quero saber onde encontrar parceiro ou interessados, em que órgão cadastrar a área para que esses interessados apareçam”.

Caio Luiz de Carvalho: Bom, nós temos alguma coisa no Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar. Destina-se ao apoio financeiro das atividades agropecuárias e não-agropecuárias exploradas mediante emprego direto da força de trabalho do produtor rural e de sua família], do Ministério da Reforma Agrária. Nós temos um convênio onde, se for um financiamento pequeno, é possível obter recursos a preços...

Paulo Markun: [interrompendo] O BNDES não prefere grandes projetos? 

Caio Luiz de Carvalho: Exatamente, o BNDES é para grandes projetos. É por isso que estamos contando com o Banco do Brasil,  com o Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas] e com o Pronaf para projetos menores. Nossa expectativa é que, nestes estudos que os ministérios estão fazendo para o Brasil Empreendedor Turismo, que será levado ao presidente Fernando Henrique Cardoso, o micro e o pequeno sejam privilegiados, pois 70% dos que trabalham no setor de turismo são micro e pequeno.

José Ernesto Marino Neto: Caio, eu queria fazer outra pergunta, mais uma vez um gargalo. Na alta estação, o bilhete aéreo é mais caro, o hotel cobra a tarifa mais alta, as estradas ficam lotadas, em cidades como Búzios, por exemplo, você tem dificuldade e até problema de [falta de] água. Ou seja, todo mundo sai no mesmo momento. Por quê? Porque a pirâmide socioeconômica brasileira é muito clara: a grande maioria das pessoas que viaja tem filhos.

Caio Luiz de Carvalho: Isso.

José Ernesto Marino Neto: As férias escolares acabam determinando o momento em que eles saem, então sai todo mundo ao mesmo tempo. A Alemanha, que você conhece, acabou criando um período mais longo de viagens. As pessoas começaram a se dividir. E existe uma proposta, que tem mais de um ano, que é uma espécie de rodízio de férias. As férias escolares poderiam acontecer ao longo do ano no país todo, em regiões diferentes, dividindo a demanda de uma maneira mais equânime no ano todo. O investimento público valeria mais porque estaria sendo usado o ano todo...

Caio Luiz de Carvalho: Os empregos temporários também...

José Ernesto Marino Neto: [interrompendo] Sim, iriam embora.

Caio Luiz de Carvalho: Seriam permanentes.

José Ernesto Marino Neto: Os preços dos produtos turísticos seriam mais razoáveis. Você não teria, na baixa estação, o preço "de banana" e, na alta estação, uma fortuna. Mais uma vez, se o turismo é prioridade do governo federal, por que uma proposta desse tipo está há mais de ano caminhando e não acontece?

Caio Luiz de Carvalho: Porque o governo federal não é culpado de tudo, isso é uma questão que envolve os estados. A  subcomissão de turismo da Câmara dos Deputados levantou essa bandeira. Foi o deputado Rubens Bueno, do Paraná, que é atuante e competente.  A idéia é ótima, é uma homenagem ao nosso estadista e grande homem, que é o governador Mário Covas. Ele se interessou em estudar o assunto. Nossa tese é a seguinte: se o estado de São Paulo, que é o estado emissor maior, mudar, isso melhora o Brasil inteiro. Mas é complicado porque envolve pais e mestres, é uma decisão de cada estado...

José Ernesto Marino Neto: [interrompendo] Sim, mas você não poderia aproveitar esse momento público e  fazer um convite aos governadores que eventualmente estejam te assistindo?

Caio Luiz de Carvalho: Todos não! Se  todos fizerem, será um caos. Precisamos de dois que sejam os pólos emissores, no caso, São Paulo e Paraná. Acho que esse assunto vai entrar em pauta de novo...

José Ernesto Marino Neto: Que bom!

Caio Luiz de Carvalho: Férias repartidas!

Sidnei Raimundo: Pelas nossas conclusões do bloco passado e das conversas de bastidores que o telespectador não teve a oportunidade de presenciar, a gente definiu que o grande mote do turismo é contemplar a diversidade cultural, e não o turismo sexual ou apenas o sol e a praia. É a natureza mas com morador local lá dentro! É essa a idéia de diversidade cultural, que é o caboclo na Amazônia, o sertanejo nordestino, o caipira de Minas Gerais e de São Paulo, o caiçara do litoral brasileiro. Só que, curiosamente, a gente começa a focar nessas comunidades e percebe uma certa contradição, na medida em que esses empreendimentos turísticos que se instalam lá - e não é só aquilo que o Fábio estava falando sobre verbas para o ecoturismo, que teoricamente seriam para as comunidades mais distantes; estamos falando também de comunidades mais próximas a grandes e médios centros - e o que acontece? Essas comunidades são alijadas do processo. A professora Doris costuma dizer que alguns desses resorts são guetos de luxo. E quando a gente tenta observar alguma incorporação dessas comunidades nesses empreendimentos, a gente observa que é basicamente no artesanato. Inclusive, na revista Exame deste mês, saiu que um dos resorts agora está importando artesões de Bali e da Colômbia para ensinarem aos moradores como fazer artesanato.

Caio Luiz de Carvalho: Você sabe que o Comunidade Solidária [um dos principais programas sociais do governo FHC, criado por sua mulher Ruth Cardoso (1930-2008)] tem um trabalho excepcional no sentido de auxiliar o artesão...

Sidnei Raimundo: [interrompendo] Não estou discutindo isso, mas aí não tem, então "a vaca vai para o brejo", né?

Caio Luiz de Carvalho: Acho que isso está descaracterizando a cultura. Não sei qual é o resort, mas te garanto uma coisa...

Sidnei Raimundo: Sauípe!

Caio Luiz de Carvalho: Tem muito baiano contente porque são quatro mil empregos para eles.

Sidnei Raimundo: Essa discussão é bastante interessante porque o que acontece? Eles vão deixar de ser pescadores, agricultores, enfim, a atividade profissional deles, para serem serviçais como faxineiros, camareiros...

Paulo Markun: Só para acrescentar, Alenir de Castro, de Salvador, diz que nesse complexo de Costa do Sauípe, construído pela Odebrecht a um custo de 340 milhões de dólares, foi criado um instituto que preparou 2,7 mil moradores das cinco pequenas cidades em torno de Sauípe, é um programa de capacitação, sendo que muitos deles mal sabiam escrever ou nunca tinham visto um banheiro completo na vida. Diz que hoje 70% dos participantes do programa são recepcionistas, cozinheiros, porteiros e jardineiros do hotel.

Caio Luiz de Carvalho: Isso é verdade. Parabéns!

Paulo Markun: A pergunta dele é: "Você não acha que esse programa deve ser seguido pela Embratur, incentivando os pólos a tomarem a mesma iniciativa?".

Sidnei Raimundo: [interrompendo] Minha pergunta é diferente, só para complementar...

Caio Luiz de Carvalho: E mais: essas três  mil pessoas, quando chegarem nas suas casas, vão introduzir noções de saúde e educação em seus lares. O turismo tem essa mágica.

Sidnei Raimundo: Isso é inegável. Só que quando a pessoa deixa de ser artesão ou pescador e passa a ser faxineiro ou camareiro, há um salto qualitativo mas, ao mesmo tempo, ela deixa de praticar suas atividades tradicionais.

Doris Ruchmann: Descaracteriza, né?

Sidnei Raimundo: Essa discussão é extremamente ampla, a gente não vai conseguir esgotá-la aqui. Como a gente estava colocando no início, é a diversidade cultural que a gente tem, então acaba ocorrendo uma contradição...

Caio Luiz de Carvalho: Eu vou te contar uma coisa. Se eu conheço esse pessoal que está entrando agora, eles são profissionais, não há mais espaço para aquele louco amador ou romântico, entende? Esse cara vai sair do artesanato e vai ser porteiro de hotel, mas na hora em que o gerente descobrir que ele é um grande artesão, ele vai deixar de ser porteiro e vai ficar no hotel fazendo artesanato. É isso que tem que ser entendido. Na minha opinião, quem quiser ganhar dinheiro honesto hoje tem que investir em cultura neste país. Temos tudo para explorar, a cultura é o diferencial do Brasil. "Sol e praia" vai ser sempre vendido, mas isso existe no Caribe, na Europa, na Austrália, em todo lugar. Mas nós temos sol, praia e mais essa cultura única, mais essa natureza extraordinária. E é nisso que temos que trabalhar bem.

Doris Ruchmann: [dirigi-se a Sidnei Raimundo] Tenho que te dizer que a frase do "gueto de luxo" não é minha...Tenho que transmitir a autoria à professora Sara [...], que você conhece.

[risos]

Caio Luiz de Carvalho: Eu aprendi com você, Doris. Desculpe!

Doris Ruchmann: Guetos de luxo, na verdade, são complexos onde você viaja e... [não completa a frase] Bom, independentemente disso, eu gostaria de puxar o assunto do envolvimento da comunidade. Isso me leva ao PNMT.

Caio Luiz de Carvalho: [interrompendo] Que é o divisor de águas, pouca gente sabe disso.

Paulo Markun: Só para [informar a] quem não é do ramo, o que quer dizer?

Doris Ruchmann:  É o Programa... Desculpe, é você quem fala!

Caio Luiz de Carvalho: Não, dito por você é melhor.

Doris Ruchmann: É o Programa Nacional de Municipalização do Turismo, da Embratur, onde Anna Marcondes Machado [então coordenadora do programa] é uma grande guerreira. É um trabalho muito bonito, você sabe disso, eu sou uma grande defensora do PNMT. Eu sinto, Caio, uma série de problemas no PNMT. Agora, a continuidade dele me preocupa....

Paulo Markun: É também a pergunta de Cíntia Regina Cabral, de [Balneário] Camboriú.

Doris Ruchmann: Como vamos evoluir nisso? Nós temos comunidades sensibilizadas, nós fizemos as três fases do PNMT, há cidades com conselho, com fundo, e agora começam... [não completa a frase] A Anna sempre falava: “Esse programa não tem dinheiro, não esperem dinheiro dele!”.

Caio Luiz de Carvalho: Sim, pois se você der o dinheiro, você mata o programa. Você tem que ensinar a pescar e não dar o dinheiro, o peixe.

Doris Ruchmann: Mas como você pensa em consolidar esse programa? Ele está na fase de implantação e agora precisa se consolidar.

Caio Luiz de Carvalho: O PNMT, como a Doris falou, é o divisor de águas no turismo brasileiro. Ele é uma parceria com a Organização Mundial de Turismo. Os 36 moderadores foram indicados pela Agência de Desenvolvimento da Alemanha e foram treinados para motivar comunidades locais. Eles formaram 380 agentes multiplicadores, que hoje formaram quatro mil monitores municipais. Todos eles sabem o que é inventário da oferta turística, o que é estudo da demanda, como montar um conselho, como sensibilizar a comunidade e como trabalhar a questão de motivação local. Pois bem, isso está acontecendo em 1680 municípios, sendo que nós temos mil que já estão com planos diretores elaborados. O que a Doris e essa telespectadora colocam e que também é a minha preocupação? Uma vez ordenada a questão, uma vez que o município tem o selo turístico, tem o plano diretor, tem o inventário, o que eles têm que fazer? Eles têm que, de alguma forma, transformar tudo para produto que o empresário possa vender. Em alguns lugares, isso está acontecendo, como é o caso de São Martinho, em Santa Catarina, você sabe disso. O que acontecia? Os turistas passavam por São Martinho e iam para Gravatal. Aquelas senhoras ficavam vendo aqueles turistas todos irem para Gravatal e ninguém parava em São Martinho. Só que lá em Gravatal todo mundo queria comer os doces das donas de casa de São Martinho. Aí aconteceu o fenômeno que tem que acontecer em todo lugar, que é a criatividade. O governo não pode fazer tudo mas os ajudou a entender que o turismo é melhor para mudar a qualidade de vida. Eles têm que usar o que têm de melhor, que pode ser o artesanato, que podem ser os doces caseiros, como fez São Martinho. Cinco mil turistas hoje param em São Martinho para comprar os doces das donas de casa. Então, eu acho que o PNMT tem também a função de receber brigadas de qualidade. Esse é um sonho antigo, quero pegar os estudantes de turismo e os professores das faculdades e criar brigadas de qualidade, umas vinte em cada estado. O que serão as brigadas de qualidade? Elas vão servir ao micro e ao pequeno empresário, para que eles ganhem competitividade, e vão servir aos municípios, para que cuidem da coleta de lixo, não destruam o que eles têm de melhor, valorizem seus patrimônio cultural. Se Deus quiser, pretendo usar os quatro mil monitores do PNMT e os estudantes para que a gente possa invadir o Brasil neste ano. Eu já apresentei isso ao nosso ministro e ele também concorda.

Fabio Cascino: Caio, deixa eu fazer constatação antes de fazer duas perguntas. Uma delas é à queima-roupa, daquelas...

Paulo Markun: Não é tanto à queima-roupa porque você já fez um preâmbulo.

[risos]

Fabio Cascino: Tem razão! Acho que se trata de postura política do governo, e aí não é apenas o Caio, mas é uma questão ética. Quando você tem uma clareza e uma atenção às questões locais, que é realmente um rumo consistente do turismo e não o atendimento apenas ao turismo empresarial, de grandes cifras, a gente tem que atender a uma possível mudança da realidade social e econômica, a médio e longo prazo. O problema é realmente tratar as questões a médio e longo prazo em um país onde as questões políticas ainda são tratadas quase em segundos. Fica a minha pergunta: por que não se investe nessa realidade? É a constatação dos militantes, ou seja, o investimento no local, no ecoturismo...

Caio Luiz de Carvalho: Só para vocês terem uma idéia, vocês sabem quanto foi investido pelo governo Fernando Henrique e pelos governos estaduais nos últimos quatro anos em regiões turísticas? Dez bilhões de dólares! Mas não pelo setor privado...

Fábio Cascino: [interrompendo] Eu vou te dar um case, é um caso, o meu caso pessoal. Até agora não recebi... Eu dei cursos em parceria com o Instituto de Ecoturismo do Brasil...

Caio Luiz de Carvalho: Mas não recebeu porque ele não te pagou. [risos]

Fábio Cascino: Mas é uma coisa interessante porque é o Lagamar, que tem problemas de investimento, a gente sabe, estamos a par disso.

Caio Luiz de Carvalho: Que problemas?

Fábio Cascino: Enfim, não circula...

Caio Luiz de Carvalho: Mas tem esse negócio também... A gente tem que, além de administrar egos da vida pública, administrar os problemas dos conflitos das ONGs, porque uma ONG não se dá com a outra.

Fábio Cascino: Na verdade, percebemos claramente que existe uma opção política.

[sobreposição de vozes]

Fábio Cascino: E quando vocês colocaram que o BNDES investe em grandes empreendimentos, há uma realidade nacional que não é feita de grandes empreendimentos...

Caio Luiz de Carvalho: Respeito o que você colocou, só acho uma coisa: precisa ver se alguém não te deu calote. [risos]

Fábio Cascino: Não, mas são duas perguntas. Primeiro, existe algum projeto educativo voltado à população brasileira em parceria com o MEC [Ministério da Educação] ou com as secretarias de estado para a formação de uma reflexão sobre ecoturismo? É a questão que ela levantou sobre receber o turista, enfim...

Caio Luiz de Carvalho: Não, turista bem tratado volta acompanhado! Trate bem que ele volta!

Fábio Cascino: Eu não tenho uma notícia consistente a respeito. A segunda é sobre o que o homem Caio sonha. Em sonho vale tudo? Você sonha, por exemplo, em transformar o Brasil em uma Veneza, que é invadida por todos no verão, as pessoas vão dormir no chão, sem hotel, sem nada? Você sonha com isso? Como é teu sonho de turismo? Se você pudesse hoje criar um país, como seria a história?

Caio Luiz de Carvalho: Primeiro, acho que meu sonho é que as pessoas míopes descubram que o turismo é um meio para resolver os problemas da miséria, os problemas sociais profundos, o turismo é o caminho. Segundo, eu sonho que as pessoas também entendam que a grande exportação brasileira é a importação do turista estrangeiro. Para isso, a gente precisa de recursos. Mais, eu sonho que pessoas da comunidade, da sociedade, entendam que não é o governo que tem que fazer turismo. E eu sonho em ver o Brasil... Não digo 47 milhões de turistas estrangeiros, a não ser que tenhamos um fenômeno econômico na América do Sul, mas eu sonho em ver o brasileiro viajando pelo seu país com dignidade, os grandes centros sem lixo e sem povo mal educado. Nesse caso, a Embratur e o MEC têm uma função a desempenhar, as ONGs também. Que essas ONGs defendam as baleias, mas que se preocupem com os ratos das grandes cidades também! E que nós tenhamos, se Deus quiser, os brasileiros contentes com seu país, porque na hora em que eles estiverem contentes, o turista vem cada vez mais para cá.

Nely Caixeta: Eu gostaria de fazer uma pergunta, mas, na verdade, é manifestar uma certa perplexidade. Você vê que, em 1999, no mundo inteiro a atividade do turismo gerou divisas no valor de quatrocentos bilhões de dólares. O Brasil pegou menos de 1% disso. Ao dizer que o nosso turismo prioritariamente vai focar no viajante interno, a gente não está abrindo mão desse instrumento super importante para ajudar o Brasil a fechar suas contas e deixar todo mundo mais feliz?

Caio Luiz de Carvalho: Não, a prioridade é o mercado interno, mas você está corretíssima. Eu disse que nós temos que democratizar mas temos que fazer do turismo um instrumento para melhorar a questão da balança comercial. Nesse ponto, tenho tido conversas ótimas, inclusive tive o privilégio de ter uma conversa maravilhosa com um homem que eu admiro demais: o presidente do Banco Central, Armínio Fraga [presidiu o Banco entre 1999 e 2003]. Ele também pensa como a gente, acha que turismo é o grande caminho para isso, ele é um parceiro nosso também. Por exemplo, a  Embratur e o governo Fernando Henrique têm uma meta até 2002: nós queremos chegar a 5,7 bilhões de dólares em ingressos. Isso vai colocar o turismo entre os três primeiros itens da balança comercial. Agora, o  que eu quero é colocar os pés no chão porque tem gente que fala em dez bilhões de dólares de divisas. Eu não vejo de onde esses turistas virão, a não ser que tenhamos uma mudança profunda na economia da América do Sul, porque o turismo intra-regional é uma realidade. Nós temos hoje trezentos mil alemães nos visitando e uma ótima notícia que vai acontecer: nós vamos ter cem mil nos próximos 12 meses por causa da oferta de vôos e porque as operadoras resolveram vender o Brasil e o Caribe. Além do mais, nós temos uma nova companhia, a TAM, voando para lá também. Agora, nós não vamos ter um milhão de alemães, porque dos europeus que viajam, apenas 5% chegam às Américas. Temos que trabalhar com essa realidade, que é aumentar o fluxo da Europa e dos Estados Unidos, mas não vai ser um aumento de dez milhões de turistas estrangeiros.

José Ernesto Marino Neto: Mas, Caio, há um ditado: "Não colocar todos os ovos em uma mesma cesta". Cuba é um país que não recebe turistas norte-americanos e está tão próximo do mercado norte-americano como o México... No ano passado, Cuba recebeu mais de dois milhões de turistas, dos quais mais de 70% são europeus que, para chegarem lá, demoram duas ou três horas a mais do que o vôo até o Nordeste...

Caio Luiz de Carvalho:  É o charter...

José Ernesto Marino Neto: Exatamente, é o charter.

Caio Luiz de Carvalho: ...e são vôos de quatrocentos dólares, ida e volta, com pacote de uma semana.

José Ernesto Marino Neto: Mas qual é o turista que a gente quer? A gente fala que no Rio Grande do Norte tem escandinavo, que em Pernambuco tem.... Mas eles deixam trinta dólares por dia! Nós fizemos um trabalho recentemente no governo da Bahia e, em Porto Seguro, os turistas deixam em média 26 reais por dia! O investimento público não pode ser remunerado, o investimento privado não pode ser remunerado. Vale a pena você ter um milhão de pessoas indo para um determinado destino que vai ser destruído?

Caio Luiz de Carvalho: O caso de Porto Seguro é complicado...

José Ernesto Marino Neto: Complicado!

Caio Luiz de Carvalho: Mas eu questiono muito esse caso de Porto Seguro, embora ela seja hoje uma referência. Ilhéus, por exemplo...

Paulo Markun: [interrompendo] Presidente, nosso tempo está acabando mas eu queria que o senhor fizesse um último comentário. O senhor sabe, eu moro na cidade privilegiada do ponto de vista não apenas do turismo mas do meio ambiente, que é Florianópolis.

Caio Luiz de Carvalho: Que maravilha!

Paulo Markun: E, para quem mora em Florianópolis, o turismo é ao mesmo tempo uma grande esperança e uma enorme preocupação. Grande esperança porque gera empregos, traz renda para a cidade e uma enorme preocupação porque a vida das pessoas que vivem nessas cidades durante a temporada - no mês de março, agora, é maravilhoso - é difícil e complicada. Como que se resolve essa equação? O senhor é otimista em relação a isso?

Caio Luiz de Carvalho: Eu acho que sim. Na hora em que as pessoas começarem a entender que o turista vai trazer não somente a bagunça, a quebra da tranqüilidade, mas a melhora da qualidade de vida de toda a comunidade, elas serão as primeiras que vão recebê-lo, até desejando que ele volte. O primeiro impacto é complicado. Nós tivemos problemas na própria Santa Catarina, durante a Oktoberfest [tradicional festa alemã realizada anualmente na cidade de Blumenau]. Quando os paulistas começaram a invadi-la com bebedeiras, a criar problemas familiares, eles mudaram o conceito da festa, que voltou a ser uma festa para o catarinense, ainda que isso tenha gerado prejuízo. Eu acho que, no caso de Florianópolis, os números estão aí. Florianópolis é uma cidade que economicamente está muito bem. O problema de lá é o aeroporto, que é pequeno e tem que ser mudado. Nessa última temporada, houve até briga no aeroporto porque chegavam cinco, seis vôos charters e na esteira cabiam apenas cinquenta ou sessenta malas. Eu acho que é possível essa convivência. Sempre digo a definição que eu falei no início do programa: turismo é a indústria que processa recursos naturais e culturais sem desgastá-los. O turismo tem que ser visto assim, não pode ser visto como um inimigo da sociedade, tem que ser visto como aquele que vai fazer um bem, ajudar a melhorar a qualidade vida. E em um país onde temos tanto o que fazer para melhorar a qualidade de vida, em regiões como a Amazônia, o Nordeste e o Pantanal, o turismo é a solução de mais curto prazo. O problema é que nós temos que dar uma volta muito grande para resolver tudo isso, o turismo é complexo. O fato de o Roda Viva ter colocado aqui hoje a questão do turismo é inédito. Durante muito tempo, turismo era concurso de miss, festa de aniversário de cidade do interior e banda de fanfarra. Hoje nós temos a revista Exame que faz vinte páginas, o Estadão com dois cadernos seguidos, editoriais do Estadão, a imprensa econômica se interessando pelo assunto. O caminho é longo, a democracia também exige hoje que você acabe se violentando muitas vezes para chegar a um objetivo... Eu acho que nós estamos no caminho certo. Hoje estamos sofrendo muito porque não criamos mais os factóides e estamos preocupados em deixar alguma coisa para o futuro, sem demagogia, é verdade!

Paulo Markun: Muito obrigado pela sua entrevista, obrigado aos nossos entrevistadores e a você que está em casa. O Roda Viva volta na próxima segunda-feira, sempre às dez e meia da noite. Uma ótima semana e até lá!

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