Memória Roda Viva

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Carlos Rocha

27/4/1992

Reserva de mercado com restrições à importação, produtos caros e de baixa qualidade, impostos altos constituiam o cenário do setor de informática no Brasil no início da década de 90

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[Programa gravado, permitindo a participação de telespectadores por telefone e fax]

Jorge Escosteguy: Boa noite. Certamente um dos produtos mais criticados da indústria brasileira é o computador. O computador brasileiro é muito mais caro e razoavelmente pior que seus similares estrangeiros. Carroça por carroça, alguns chegam a dizer que aquelas produzidas pela indústria automobilística são movidas a cavalos, enquanto as das indústrias da informática ainda são movidas a carro de boi. No Roda Viva que começa agora pela TV Cultura de São Paulo, nós vamos falar do computador, da indústria de informática e de uma notícia cujas consequências podem esvaziar os ônibus brasileiros que transportam muambeiros ao Paraguai e os aviões que transportam a Miami: o fim próximo da reserva de mercado da informática brasileira. No centro do Roda Viva, está sentado hoje o senhor Carlos Rocha, presidente da Abicomp, Associação Brasileira da Indústria de Computadores e Periféricos. Carlos Rocha tem 37 anos, é formado em engenharia eletrônica pelo ITA, está na área de informática desde 1977, tendo passado pela Sisco e pela SID. Desde 1981, é sócio controlador do grupo TDA, que no ano passado faturou 42 milhões de dólares. É membro do Conin, Conselho Nacional de Informática. Em março de 1991, foi eleito presidente da Abicomp. Para entrevistar Carlos Rocha no Roda Viva, nós convidamos Almyr Gajardoni, diretor de redação da revista Super Interessante; Wilson Moherdaui, editor e chefe do jornal Informática Hoje; Leda Beck, editora do Caderno de Informática do Jornal O Estado de S. Paulo; Stephen Kanitz, professor da Universidade de São Paulo; Ethevaldo Siqueira, diretor de redação da RNT, Revista Nacional de Telecomunicações; Flávio de Carvalho, editor da revista Exame Informática; Frederico Vasconcellos, editor do Painel S.A. do jornal Folha de S. Paulo e Marco Antônio Antunes, editor de economia do Jornal da Tarde. Boa noite, senhor Carlos Rocha.

Carlos Rocha: Boa noite. Boa noite a todos, e é um prazer estar aqui com vocês.

Jorge Escosteguy: Depois de 16 anos de reserva de mercado, o computador brasileiro ainda custa de duas a três vezes mais que o similar estrangeiro. Cálculos feitos inclusive pela própria indústria de informática indicam que 60% das vendas no país são feitas por contrabando, ou seja, são produtos contrabandeados. Esse fim próximo da reserva de mercado, acertado aí com o governo, com a secretária ou Dorothea Werneck [foi ministra do Trabalho (1989-1990) e ministra da Indústria e Comércio (1995-1996) - ver entrevista com Werneck no Roda Viva], vai melhorar? Ou seja, os brasileiros vão ter acesso a computadores melhores e mais baratos? E os muambeiros e as linhas de ônibus para o Paraguai vão falir?

Carlos Rocha: Olha, Jorge, na realidade não é o contrabando que vai fazer com que os preços mudem e nem o fim da reserva de mercado que vai fazer com que os preços caiam. Na realidade, os preços vão cair pela negociação que nós estamos fazendo com o governo. Se nós queremos ter produto de Primeiro Mundo, nós temos que ter impostos de Primeiro Mundo, e vai ser a redução dos impostos que vai fazer com que os preços caiam.

Jorge Escosteguy: O que levou a essa mudança na indústria da informática? Afinal, essa reserva de mercado subsistiu durante 16 anos em função do interesse da indústria de informática. Não por acaso, parece que ele teve resultados muito ruins no ano passado?

Carlos Rocha: Na realidade, o Brasil vive uma grande reserva de mercado nos últimos trinta anos, para todos os setores da economia. A reserva da informática teve resultados, extremamente positivos, ela gerou uma competência no setor, gerou uma indústria de mais de sete bilhões de dólares. E hoje nós podemos dizer que o Brasil tem a segunda maior indústria do continente americano. Houve erro, sem dúvida alguma. Eu acho que nesse processo de transformação para abertura, o setor de informática é um dos setores que mais rapidamente estão se integrando ao novo ambiente da nova política industrial de comércio exterior.

Jorge Escosteguy: Quais o senhor acredita que serão as primeiras consequências do fim dessa reserva para o consumidor? Ou seja, o cidadão, o telespectador que está em casa, está querendo comprar um computador, mas não consegue porque é muito caro, e todo mundo diz que o computador brasileiro não funciona, que é uma porcaria, aquela coisa toda. Quais são as primeiras consequências para ele, o consumidor?

Carlos Rocha: Olha, eu acho que é uma ilusão se imaginar que com o fim da reserva vá haver uma transformação muito grande. E essa idéia de que o computador não funciona não existe mais por uma razão muito simples. No nosso setor foram feitas mais de dez joint ventures [modelo estratégico de parceria empresarial para alcançar objetivos comuns, em que há união legal entre duas empresas sem que haja necessariamente subordinação societária] com as empresas líderes mundiais. Hoje não há nenhum grande nome da informática mundial, que já não esteja presente no mercado brasileiro. Então, na prática, a reserva já acabou. A grande transformação é realmente a redução dos impostos, que no Brasil são altíssimos; e o cidadão começa a tomar consciência de que esses impostos oneram não só os computadores, mas os automóveis, a roupa, a comida, enfim, todos os produtos que ele hoje tem que comprar no mercado.

Jorge Escosteguy: Mas esses impostos eram uma proteção até então, da indústria?

Carlos Rocha: Não. Os impostos do dia a dia, não. A única...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Não, eu digo de importação.

Carlos Rocha: O imposto de importação, sim, mas nós não estamos falando de imposto de importação. Hoje se você compra qualquer produto importado, um exemplo mais próximo de nós é o automóvel. Você pega um automóvel de última geração – japonês, coreano, seja de onde ele venha – vai custar aqui três vezes mais caro do que custa lá fora, por quê? Não porque os automóveis brasileiros sejam ruins, mas porque os impostos são muito elevados.

Wilson Moherdaui: Bom, primeiro existe uma diferença muito grande entre o computador importado e o computador contrabandeado. Eu queria saber de você o seguinte. Uma cena que se repete com frequência com a gente que costuma lidar com assuntos ligados a computador é a de um amigo que sempre liga e diz: “eu quero comprar um micro, e o que você acha que eu devo fazer? Um micro nacional, o modelo que eu quero comprar custa quatro mil dólares, mas eu tenho o meu contrabandista de confiança que me arruma por 2,5 mil dólares”. Eu sempre fico embaraçado diante dessa pergunta, porque não é muito fácil você...

Jorge Escosteguy: Em geral [...] assistência técnica.

Wilson Moherdaui: Em geral mais eficiente até do que a do fabricante nacional. Quer dizer, o senhor compra do contrabandista, se ele for realmente de confiança, quando o seu micro tem um problema, ele vai lá e troca. No mínimo ele troca a placa principal, a placa-mãe do micro, ou troca o próprio micro inteiro. Fica muito difícil para a gente recomendar ao sujeito que vá ao contrabandista, mas fica mais difícil ainda dizer para o cara ir comprar na indústria, na loja ou direto do fabricante, um equipamento nacional que ele vai pagar, praticamente, o dobro do preço. Claro que eu fiz aquela ressalva no começo de que não é a mesma coisa o preço de um micro contrabandeado e o preço de um micro importado por causa dos impostos de importação. O que você diz para os seus amigos quando eles lhe telefonam e dizem que querem comprar um micro?

Carlos Rocha: Essa pergunta é ótima. Eu digo a eles o seguinte: “você tem escolha: você quer ser um contrabandista ou que ser um cidadão de primeira classe”. Quer dizer, é a questão da opção. A vergonha de nós termos um país em que o contrabando virou uma ação normal é algo que nós estamos tentando mudar. Agora, não adianta querer mudar, colocando a polícia atrás do cidadão comum. Primeiro nós temos que ter um ambiente econômico que leve à competitividade, pagando impostos cinco, seis, oito, dez vezes mais alto do que qualquer país de Primeiro Mundo, nós estamos estimulando o cidadão a ser um sonegador. Então a primeira medida que nós tomamos, antes de pedir uma repressão forte ao contrabando, foi de impostos compatíveis com aqueles de Primeiro Mundo. E isso na câmara setorial da semana passada, nós já conseguimos. O governo federal assumiu o compromisso de reduzir os impostos federais e de negociar com os governos estaduais, também a redução dos impostos. Porque o bem de informática, o computador, não é um produto de consumo e ele também não é um bem de produção. Ele é muito mais sério do que isso: é um bem de produtividade. Se nós queremos, efetivamente, ser um país com chance de chegar ao primeiro mundo, o computador tem que ter um preço acessível ao cidadão comum, e isso só se fará se nós também tivermos impostos compatíveis de primeiro mundo.

Stephen Kanitz: Aí isso é válido para o caminhão, para uma série de outras...

Carlos Rocha: [interrompendo] Sem dúvida.

Stephen Kanitz: Outros bens em que nós estamos atrasando nossa economia, colocando impostos enormes em meios de produção e em meios de consumo.

Carlos Rocha: É verdade.

Stephen Kanitz: Como é que tem sido a reação do governo para essa coisa - que é até legítima, sem dúvida - até agora?

Carlos Rocha: Bom, na realidade, o governo tem a sua arrecadação baseada em meia dúzia de produtos, entre os quais, os automóveis. Então, efetivamente, o governo está resistindo muito em reduzir os tributos sobre os automóveis. Na realidade, a arrecadação que o governo tinha e tem sobre os bens de informática é bem menor; aliás, este governo tomou medidas eficazes já no ano passado, de redução do IPI sobre mais da metade do mercado. Isso fez com que, só no ano passado, o preço dos microcomputadores brasileiros caísse em nível real, ou seja, em dólar, mais de 50%, diferentemente de outros setores da economia, que tiveram os seus impostos reduzidos, mais ainda assim em função de oligopólios, aumentaram os seus preços. Então isso mostra que o setor é um setor que repassa essa redução de impostos. Eu acho que isso é uma consciência do cidadão. Em um mercado fechado, infelizmente, o cidadão não tinha consciência da dimensão de impostos que ele pagava. Eu acho que a grande vantagem da abertura é que expôs as feridas, e agora nós vamos ter que curá-las.

Jorge Escosteguy: Antes de passar ao Flávio, só completando a pergunta do Wilson. Ligou o telespectador, Luiz Antônio, aqui de São Paulo, ele queria saber justamente isto. Ele quer comprar um computador e pergunta qual a diferença no preço - coisa mais simples - e a qualidade do produto nacional e do estrangeiro, porque o que se critica muito  também é a qualidade do produto, do computador brasileiro.

Carlos Rocha: Eu diria o seguinte.

Leda Beck: [interrompendo] Eu queria completar essa pergunta.

Carlos Rocha: Sim.

Leda Beck: Queria saber. Ele afirmou no começo que o computador brasileiro é caro e ruim. Em contraposição, os computadores estrangeiros que estão chegando agora no mercado, particularmente, os que vieram por conta das joint ventures, os da NEC, MAC [Apple Macintosh], os da Digital, da IBM, são expressivamente melhores e mais baratos do que o que estava disponível no mercado até agora?

Carlos Rocha: Não. Os computadores que vêm chegando das joint ventures, como são produtos de primeira linha, são mais caros do que os produtos que aqui estavam. Por quê? Porque empresas mundiais, de grande porte, necessitam de margens maiores para operar, então elas cobram preços mais caros. Não é a entrada de um produto internacional que vai fazer com que o preço caia. Efetivamente o preço vai cair com os impostos se reduzindo e com o aumento da competição no mercado. O exemplo do ano passado é um exemplo eficaz, os preços caíram mais de 50%. Eles vão cair este ano, ao longo do ano, não agora por causa da abertura, mas eles vão cair por causa dessas transformações de tarifas de impostos. A grande expectativa que nós temos é a reforma tributária que vem aí, com toda a reestruturação da base de arrecadação. Aí nós imaginamos que, efetivamente, os preços vão cair.

Leda Beck: Você disse que os importados são mais caros. Eles são, pelo menos, muito melhores?

Carlos Rocha: Não são não. Eu diria que hoje, já há alguns anos, que o computador brasileiro é um produto de primeira linha em nível de qualidade; efetivamente, são mais caros sim. E o seu preço vai cair e vem caindo cada vez mais.

Jorge Escosteguy: O senhor diria que a indústria brasileira hoje produz computadores no mesmo nível que os melhores computadores estrangeiros?

Carlos Rocha: Olha, eu digo que sim e lhe explico por quê. Todas as empresas líderes mundiais do setor de informática fizeram joint ventures com empresas brasileiras. E qualquer cidadão pensaria...

Flavio de Carvalho: E a Apple, a Apple já fez ou não?

Carlos Rocha: A Apple foi uma que não fez.

Jorge Escosteguy: Mas parece que está por fazer, está procurando...

Carlos Rocha: Não sei, aí depende da estratégia individual, mas eu vou citar algumas. A IBM fez; a Digital, que é o segundo maior fabricante mundial, fez; a Compac já fez três parcerias aqui no Brasil; a Acer, que é o maior fabricante de Taiwan, fatura mais de que um bilhão de dólares, fez uma parceria. Enfim, existem diversas. A NCR fez; a HP fez. E eu diria: você acha que uma empresa com um nome a zelar, com porte internacional, vai se associar minoritariamente com um sócio incompetente? É claro que não!

Leda Beck: Ela não foi forçada a isso, Carlos Rocha? Pela legislação, ela não foi forçada a fazer joint venture ou ficar fora do mercado?

Carlos Rocha: Não, eu diria que esse é um processo de transição. Havia restrições à participação do capital estrangeiro. É importante que se diga: a minha visão pessoal é de que essa transição gradual para uma participação maior do capital estrangeiro no setor é uma tese que eu pessoalmente defendo já há mais de seis anos. Vocês que me conhecem sabem disso, não é? Eu acho até que essa ruptura...

[...]: [interrompendo e falando muito baixo, impossibilitando a compreensão da 1ª parte da pergunta] (...) que setor é? E gradual para o senhor, o que é?

Carlos Rocha: Eu imaginava que nós deveríamos ter começado isso cinco, seis anos atrás. Aliás, eu me candidatei duas vezes a Abicomp e perdi no passado; lideranças mais defensoras do ambiente que havia levaram a maioria dos votos. Eu só assumi no ano passado. Já era a visão minha de que nós estávamos já em um estágio de competência local que nos permitiria trazer mais investimentos estrangeiros para se associar com as empresas brasileiras. Isso foi evidente, não houve a necessidade de que se passasse mais do que um ano para que todas as empresas importantes do mercado brasileiro se associassem com líderes mundiais. É claro que o acesso ao mercado...

Marco Antônio Antunes: Qual será o futuro das outras empresas? As empresas brasileiras que não se associarem? Você acha que elas têm futuro?

Carlos Rocha: Acho que sim e lhe dou o exemplo da minha empresa, que até agora não se associou com ninguém. Nós não pretendemos fazer uma associação no ramo de atividade em que nós atuamos. Temos uma indústria, estamos investindo, estamos ampliando a nossa capacidade produtiva, e vendemos tecnologia de produção para a maioria dos grandes fabricantes brasileiros, com qualidade e com competência.

[sobreposição de vozes]

Jorge Escosteguy: [Interrompendo] Desculpe, um minutinho, por favor, um de cada vez.  Antes de passar para o Flávio, que está querendo fazer uma pergunta, eu só queria insistir um pouquinho nesta questão da joint venture. Não pode haver um outro tipo de leitura também da vinda das multinacionais? Ou seja, “vamos para lá porque lá eles não sabem fazer. Então nós vamos lá fazer e vamos ganhar dinheiro”?

Carlos Rocha: É verdade, é verdade. Você pode ter a leitura que você quiser ter. Eu diria que só o futuro dirá. É importante...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Mas o senhor deu como um dado pacífico que eles vieram pela qualidade.

Carlos Rocha: Mas na minha avaliação... Não, eu digo o seguinte. Eu não quero orientar a sua maneira de avaliar geral a joint venture.

[risos]

Jorge Escosteguy: Eu só fiz uma pergunta, eu não quero nenhuma avaliação.

Carlos Rocha: Como empresário eu jamais me associaria minoritariamente com um sócio que eu julgasse incompetente, jamais. Para mim é uma clara definição de competência dos empresários brasileiros que se associaram com empresas líderes mundiais, essa vontade do capital estrangeiro se associar minoritariamente. Jamais uma empresa líder internacional iria fazer uma joint venture para durar seis meses, isso não faz sentido.

Ethevaldo Siqueira: Competência e tecnologia podem se associar, professor.

Carlos Rocha: É, sem dúvida! Nós temos que ter em mente o seguinte. Nós gostamos de olhar para o segmento de informática isolá-lo do Brasil e falar como se o Brasil fosse a Suíça ou se fosse a Califórnia, e comparar o segmento de informática com os segmentos mais modernos do mundo, no país mais desenvolvido do mundo. Seria mais justo se nós comparássemos o nosso setor com os setores que estão no Brasil, fabricando outros bens manufaturados. E é bom a gente lembrar que quando o presidente [Fernando Collor de Mello] chamou de carroça, ele não chamou de carroça o computador. Ou seja, o primeiro produto que ele chamou de carroça foi o automóvel que é fabricado por empresas líderes mundiais...

Ethevaldo Siqueira: Que é protegido, tem reserva de mercado.

Carlos Rocha: ... que mostra... Que é protegido, que tem reserva de mercado, não falta tecnologia.

Marco Antônio Antunes: Por isso virou carroça.

Carlos Rocha: Nós temos que ter em mente que o Brasil viveu fechado desde 1950 e não viveu fechado só para a informática. Só para dar um exemplo interessante para vocês. Eu fabrico os terminais de vídeo, os monitores de vídeo, que são os produtos com quem você conversa quando fala com o computador. Você vê o computador falando através do vídeo. Durante dez anos, a nossa empresa foi obrigada, pela lei do similar nacional, a comprar um tubo de televisão adaptado, porque nos era proibido importar esse componente, porque havia o similar nacional. Então a reserva não é uma reserva da informática. A reserva era uma reserva do Brasil. Então eu, fabricante da informática, tinha que usar a infra-estrutura do Brasil para fazer produtos de informática. E a gente há de convir que a infra-estrutura do Brasil não era das mais evoluídas em todos os ramos.

Leda Beck: Esse tubo – se não me engano  – era um monopólio, não era?

Jorge Escosteguy: Desculpe, deixe só o Flávio, faz tempo que ele pediu para fazer uma pergunta, e depois a gente volta para você.

Flávio de Carvalho: Você, como presidente da Abicomp, negociou na semana passada com a ministra Dorothea Werneck, um acordo semelhante ao realizado com a indústria automobilística, de redução de impostos, que seriam transferidos para o preço final do produto. E isso levantou então a perspectiva do prazo fatal, do término aí da reserva de mercado, de 29 de outubro, ser antecipado. Então eu queria saber como foram essas negociações? Que vantagem isso traria tanto para o consumidor como para o fabricante nacional de micro?

Carlos Rocha: Em primeiro lugar, Flávio, a vontade de antecipar o fim da reserva, ou seja, trazer o fim da reserva o quanto antes para o presente, é uma vontade que nós da Abicomp temos, já desde o ano passado. Nós nunca quisemos, apesar de críticas, desde a época da votação da lei no Congresso, prorrogar a reserva, nós sempre quisemos antecipar a reserva. Ocorre que para você terminar com a reserva, para o setor, precisava ser feito o que já havia sido feito para outros setores. Ou seja, primeiro estruturar os impostos de importação de forma a fomentar a produção local. E segundo, reduzir os impostos diretos sobre a venda de tal sorte a oferecer um ambiente de Primeiro Mundo. Agora, eu peço a você que não compare a nossa câmara com a da automobilística, por uma razão muito simples: são setores que negociaram de formas completamente diferentes. Primeiro porque nós, no ano passado, reduzimos os preços de todos os nossos produtos, e nosso setor tem um ambiente de ampla competição. Então os nossos preços caíram de 35 a 40%, real, em dólar no ano passado, tendo produtos de micro-informática que são os mais sensíveis para o consumidor, reduzindo preços até 53% em relação ao dólar. Isso antes de nós sentarmos à mesa para negociar. E quando sentamos à mesa, dissemos o seguinte: “se vocês, governo, nos fornecerem impostos de primeiro mundo, nós vamos competir com o contrabando”. Ponto. No caso da automobilística, eles brincaram de bode na sala. Primeiro eles subiram os preços muito acima da inflação e depois sentaram à mesa para negociar. Então são situações completamente diferentes.

Frederico Vasconcelos: Carlos, deixa eu lhe fazer uma pergunta, por gentileza? Eu queria retomar um pouco, pegar carona na pergunta do Wilson, sobre a questão de que equipamento nós, brasileiros, devemos utilizar, e perguntar. Você como usuário, como consumidor e não como produtor, qual é o grau de nacionalização dos produtos que você usa? Porque recentemente, acho que o deputado Aloizio Mercadante flagrou uma vez, em um avião, você usando um equipamento importado, um laptop.

Carlos Rocha: Foi, sem dúvida, isso.

Frederico Vasconcelos: Um microcomputador pessoal...

Carlos Rocha: Um notebook.

Frederico Vasconcelos: Não era nacional.

Carlos Rocha: É verdade.

Frederico Vasconcelos: E como é que você explica? Naquela hora o senhor era um cidadão de Primeiro Mundo?

Carlos Rocha: Bom, sem dúvida, quer dizer, a gente sempre pretende ser um cidadão de Primeiro Mundo, embora a infra-estrutura do Brasil não permita. Não, na realidade... Primeiro que ele não me flagrou, porque eu não escondi de ninguém o produto que eu estava usando. Segundo, eu estava usando aquele produto exatamente porque nós estávamos conversando com a empresa que fabrica o produto para analisar a sua fabricação, e naquele momento ainda não havia a fabricação daquele tipo de produto no mercado local. Hoje já existem mais de dez fabricantes fabricando os últimos notebooks do mercado internacional. Então hoje nós já temos na empresa produtos adquiridos dessas empresas que aqui fabricam. Aliás, eu acho que não se deve ter vergonha de comprar produtos importados ou comprar produtos fabricados aqui, dependendo do nosso interesse no momento. Naquele momento eu estava fazendo um teste de um produto e resolvi comprar, aliás, aquele me foi cedido pela empresa. Enfim, não vejo nenhum problema.

Frederico Vasconcelos: E em outras linhas, que tipo de produto...

Carlos Rocha: Hoje, para você ter uma idéia, dependendo da empresa, as empresas complementam a sua linha com produtos importados, distribuem alguns produtos e fabricam outros produtos aqui. Essa vai ser a tônica do ambiente aberto. Os produtos de maior volume, que forem viáveis de fabricação local, serão produzidos aqui; os produtos de menor volume, ou onde ainda está se iniciando, digamos assim, um teste de mercado, sentindo o usuário, para ver se exatamente aquele produto é o que lhe agrada mais, esse produto vai ser provavelmente importado.

Ethevaldo Siqueira: Carlos, você disse que nós somos exigentes demais com relação ao Brasil se comparado com o Primeiro Mundo. Não é salutar do lado do usuário ele exigir entre o vinho de São Roque e o Château Lafite francês? Você acha que nós devemos aceitar qualquer vinho, porque é similar nacional, e patrioticamente pagar por ele, às vezes até o mesmo preço? Eu estou dizendo o computador, aí no caso.

Carlos Rocha: Não, quer dizer, eu concordo com você.

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Aliás, desculpe, Carlos, só para complementar. O telespectador Vicente Bianchi, aqui de São Paulo, gostou muito, inclusive, da resposta que você deu para o Wilson, sobre se você indicaria um contrabandeado ou um nacional, se alguém lhe telefonasse, e falou que tinha que ser cidadão de primeira classe, de Primeiro Mundo e tal. Ele ficou irritado. Ele pergunta: “Ser cidadão de primeira classe ou de Primeiro Mundo é poder contribuir para o caviar e uísque dos fabricantes nacionais? [risos]

Carlos Rocha: Olha, estamos aí no mercado para analisar os investidores que queiram investir, mas enfim. Quando eu disse cidadão de primeira classe, respondendo de trás para frente, o que eu quis dizer é o seguinte. O cidadão brasileiro não tem consciência dos impostos que paga, desde o imposto que ele paga no pãozinho, no leite, na carne que ele come, até os impostos que ele paga nos bens manufaturados. Ele não tem essa consciência, até porque os impostos não são destacados no preço da venda. Então o cidadão brasileiro tem que optar por pagar impostos e ser um cidadão de primeira classe, não de Primeiro Mundo, mas um cidadão consciente da sua contribuição para o Estado, e se ele julga que os impostos são elevados, ele tem que brigar, politicamente, democraticamente, para que esses impostos caiam. E eu acho que é isso que está na hora de a sociedade começar a fazer.

Jorge Escosteguy: E agora o vinho de São Roque e o Château Lafite. Com todo respeito a São Roque.

Carlos Rocha: Em relação ao vinho de São Roque, eu não acho que o cidadão deva ser tolhido na sua liberdade de acesso, desde que o país tenha atingido o estágio de industrialização e de desenvolvimento econômico que permita ao cidadão ter essa liberdade de escolha. A gente fala da proteção à industrialização brasileira, como se os Estados Unidos, o Japão, a Coréia, a França, a Itália, enfim, todos os países industrializados não tivessem se utilizado do mesmo mecanismo de proteção da sua indústria, para criar uma economia mais consolidada que gerasse empregos. Nós não temos a opção como o Brasil de...

Ethevaldo Siqueira: [interrompendo] Outros tempos.

Carlos Rocha: Em outros tempos, sim. 

Ethevaldo Siqueira: No século passado, no começo do século...

Carlos Rocha: Se você disser que o Japão é uma economia aberta hoje, você está sendo muito bonzinho; se você disser que a Coréia já se tornou uma economia liberal, você está desconhecendo uma realidade na prática. Isso vale para Taiwan.

Etevaldo Siqueira: Isso são modelos de sociedade aberta.

Carlos Rocha: Se você for à Itália e verificar as restrições que existem na Itália para importação de veículos japoneses, se você for à Alemanha e verificar a resistência que existe na Alemanha, as restrições para importação de manufaturados brasileiros exportados para lá, isso sem contar subsídios à soja, ao suco de laranja... O neoliberalismo não existe mais, já se desestruturou, isso aí é um sonho de uma noite de verão. Nós estamos vivendo isso na rodada do [...]. 

Etevaldo Siqueira: Isso é dá uma liberdade de consumir. Dá uma liberdade...

Flávio de Carvalho: [interrompendo] Você está dizendo então que a reserva de mercado foi branda no Brasil, esse é que foi o problema?

Carlos Rocha: Não.

Flávio de Carvalho: Por exemplo, se a gente tivesse agido com a Coréia ou Taiwan...

Carlos Rocha: Não.

Flávio de Carvalho: A gente estaria melhor?

Carlos Rocha: Bom, eu acho que se tivéssemos agido como Taiwan, certamente estaríamos melhor, sem dúvida alguma, mas não porque a reserva foi mais ou menos branda, porque eles tiveram governos competentes com planejamento de longo prazo.

Leda Beck: Havia um projeto nacional, nesse caso?

Carlos Rocha: Havia um projeto nacional de longo prazo. Taiwan não chegou aonde chegou, Coréia não chegou aonde chegou, nem...

Flávio de Carvalho: [interrompendo] Cingapura.

Carlos Rocha: ... Japão, por exemplo, destruindo as universidades. Eles investiram em educação, e a participação do investimento em educação no PIB era elevadíssima. Nós nos governos militares, durante trinta anos, nós destroçamos a universidade brasileira.

Almyr Gajardoni: Essa questão ficou no ar aqui, mas eu confesso que não ouvi a sua opinião ainda. Os impostos estão baixando, e os grandes fabricantes internacionais estão se instalando aqui no Brasil associados aos fabricantes brasileiros. Então a situação começa a mudar radicalmente ou está mudando radicalmente. Quando é que o senhor acha que a gente pode aconselhar ao nosso amigo: “vá à loja, compre e não se esqueça de pedir nota fiscal”.

Carlos Rocha: Eu acho que a gente deve aconselhar sempre. Eu acho que nós fugirmos a consciência de cidadão é que está errado. Se você não pode dizer ao sujeito o seguinte: “se você ganha o salário mínimo, que é um salário mínimo miserável, vá ao supermercado e roube comida”. Nós não podemos dizer isso ao cidadão. Nós temos que dizer: “você tem que atuar politicamente para subir o salário mínimo”. Eu acho que com o preço do computador, como o preço de qualquer outro bem, é igual. Você não pode dizer: “seja um contrabandista juramentado”. Não, mas você pode dizer: “atue politicamente para reduzir os impostos”. E o cidadão começa a perceber que o preço do computador é alto, mas o preço do automóvel é alto, o preço da roupa é alto, o preço da passagem de avião é alto, enfim, o preço de tudo é alto. Então o que eu estava dizendo é o seguinte...

Ethevaldo Siqueira: [interrompendo] Isso não é um bom consolo.

Carlos Rocha: Não é um consolo. É uma avaliação real de que o Brasil tem problemas estruturais, e você não julgar a informática isoladamente, e dizer: “como os computadores são caros, a informática é um setor mau”. Se você disser “os computadores são caros, mas todos os outros produtos manufaturados são baratinhos”, aí o nosso setor está errado.

Almyr Gajardoni: Não vamos discutir aqui a questão moral, quer dizer, evidentemente ela está fora de discussão.

Carlos Rocha: Não, é um mau setor economicamente.

Almyr Gajardoni: A gente tem que aconselhar. Evidentemente, temos de viver sempre de acordo com...

 Jorge Escosteguy: [interrompendo] Com a lei.

Almyr Gajardoni: Com as regras legais.

Carlos Rocha: Espero que sim.

Almyr Gajardoni: Agora, eu quero saber quando é que na prática será possível fazer isso? Quer dizer, eu estou querendo ter uma previsão...

Carlos Rocha: Olha, a resposta é muito simples para você.

Almyr Gajardoni: Quando é que a situação do mercado real vai acompanhar essas modificações que estão acontecendo lá?

Carlos Rocha: É muito simples. Quando o Brasil tiver uma inflação de Primeiro Mundo, a inflação for 5% ao ano; quando o juro no banco for juro de Primeiro Mundo e não for juro de 3%, 4% real, ao mês.

Flávio de Carvalho: A Bolívia chegou lá.

Carlos Rocha: Olha, é interessante... Eu vou dar um outro exemplo para vocês.

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Quer dizer que essa mudança da lei da informática para o consumidor não resolveu nada? Porque o senhor continua citandos problemas que são genéricos, gerais da economia.

Carlos Rocha: Na realidade eu volto a dizer. É uma ilusão se imaginar que o fim da reserva de mercado vai provocar uma queda de preço brutal. Isso não vai acontecer! Não é esse o problema. Vai ficar evidente para o usuário que não é a reserva de mercado que faz com que o preço seja alto. O que faz com que o preço seja alto é a estrutura econômica brasileira do momento. Aliás – Leda lembrou bem – quando se abriu a política para a formação de joint ventures, havia esta ilusão: o computador brasileiro é caro porque não tem tecnologia. Então nós vamos fazer joint ventures com as lideranças mundiais do setor e nós vamos ter produtos maravilhosos e muito baratos. E a realidade se mostrou outra, hoje...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Por quê?

Carlos Rocha: Porque o problema não é do setor, o problema é do país. O problema é estrutural do país. O país vai ter produtos baratos, quando o país tiver uma economia que forneça ao setor produtivo um ambiente de competitividade.

Marco Antônio Antunes: Quer dizer então que o contrabando, o ritmo do contrabando vai ser mantido até...

Carlos Rocha: Olha, contrabando é caso de polícia.

Marco Antônio Antunes: Mas ele existe, é uma realidade.

Carlos Rocha: Ele existe, mas é importante comparar. Então vamos comparar, e eu volto ao Ethevaldo. Você tem que comparar similares. Não sei se vocês sabem que, na Argentina, a alíquota hoje para importação de computadores é zero. O imposto de importação de microcomputadores é zero. Então seria de se supor que na Argentina não haja contrabando. É uma ilusão. Na Argentina há um contrabando significativo, por quê? Porque a burocracia de importação, impostos internos e a impunidade fazem com que também haja contrabando, e assim ocorre em outros países, inclusive da Europa.

Wilson Moherdaui: Você não acha que algumas indústrias que você representa na Abicomp contribuíram muito para dar esse mau exemplo para o cidadão comum? Promovendo ostensivamente contrabando de partes e peças, componentes, para elas próprias fabricarem os micros?

Carlos Rocha: Olha, eu acho que vocês estão querendo...

Wilson Moherdaui: Desculpe o mau jeito...

[risos]

Carlos Rocha: Não, eu acho saudável, eu tenho até um espaço bom no programa. E eu na realidade estou mais gordo do que devia, acho que vou poder absorver as pancadas aí que vocês vão me dar ao longo do programa, com bastante galhardia.

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Sempre no bom sentido, por favor.

Carlos Rocha: No bom sentido, sem dúvida alguma. Olha, eu digo a você: há empresas que contrabandeiam e há empresas que não contrabandeiam. E volto a dizer a você: afirmo com convicção. As empresas relevantes no mercado, as empresas que têm espaço importante, que têm nome forte, que têm imagem, que se associaram e fizeram joint ventures com empresas líderes mundiais não são empresas que contrabandeiam. Se fossem, venderiam baratinho. Uma empresa que contrabandeia vende baratinho. Se o sujeito se sujeita a vender...

Wilson Moherdaui: [interrompendo] Pior ainda.

Carlos Rocha: ... um produto a preço compatível com os impostos existentes, ele não está fazendo contrabando, ele não vai ter essa imagem negativa e fazer contrabando.

Wilson Moherdaui: Então agora vamos nos referir também às empresas relevantes, como você disse. Recentemente uma resolução do Conin, Conselho de Informática e Automação, autorizou as empresas, os fabricantes nacionais, a importarem uma certa quantidade de equipamentos, proporcional ao volume de produtos fabricados no país.

Carlos Rocha: É verdade.

Wilson Moherdaui: E o que aconteceu foi uma grande correria dessas empresas para internalizar produto, ou seja, trazer para o Brasil, importar essas cotas a que eles tinham direito, a ponto de hoje, eles já terem superado metade da cota que eles teriam direito a importar até outubro, quando vai terminar a reserva de mercado. Você não acha que isso também é um mau exemplo no fundo e é um sinal de que não há muito compromisso com o desenvolvimento tecnológico da indústria nacional?

Carlos Rocha: Não. Eu não acho nada disso. Não, não acho em hipótese alguma. Aliás, uma coisa que vocês não vão conseguir é tentar fazer com que eu diga que o setor é ruim, que o setor não serve, não vou dizer isso para vocês, podem desistir. Eu acho que a gente pode desenvolver esse tema em discussões...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Mas o setor tem os seus pecados.

Carlos Rocha: Todos os setores têm os seus pecados. Então a sua resposta. Na realidade, o que foi feito, e é importante que se diga que essa proposta partiu da Abicomp. Eu sou membro do Conin desde que o Conin no novo governo se reuniu, e essa proposta partiu de nós. Qual era a idéia? O que o país espera do setor? O país espera que o setor saia de uma situação extremamente, protegida, para uma situação completamente aberta à competição internacional. Nós queremos acabar com essa reserva no menor prazo possível. Então se jogou um desafio para as empresas. Empresários, vocês têm que trazer para o país os produtos mais atualizados do ponto de vista tecnológico, que estejam disponíveis no mundo. E vocês têm que fazer isso em um prazo extremamente curto, e nós vamos orientar a política para que esses produtos sejam produzidos no país. Ou seja, o governo vai colocar impostos de importação mais baixos para os componentes e mais altos para os produtos acabados, de tal sorte que seja mais negócio, seja melhor economicamente fabricar no país. Esse foi o recado que o governo deu. Então nós propusemos uma política. Nós queremos, então, trazer a última geração de produtos que pela política anterior nós também, industriais do setor, éramos impedidos de importar componentes, como eu citei o caso dos tubos de televisão. E como é que se faz isso? Fazem-se acordos de transferência de tecnologia e se trazem quantidades pequenas de produtos, se oferecem esses produtos ao mercado, e aqueles produtos que são bem sucedidos se industrializem no país. E foi isso que foi feito. Então, essa sua colocação dá a impressão de que foi feito muito rápido, se usou muito rápido a cota, que se importou muito e que isso é ruim. Eu digo a você: isso é bom. Isso mostra que os empresários do setor rapidamente se conscientizaram de que o governo mudou a postura, porque o mercado – volto a insistir – não era fechado só para o produto final, era fechado para componentes e insumos para a indústria, nós éramos obrigados a fazer com a infra-estrutura industrial que havia no país. E nós, rapidamente, os empresários, fomos lá fora, trouxemos a última tecnologia, oferecemos ao usuário essa última tecnologia e começamos a industrializar os produtos que deram certo, no país.

Wilson Moherdaui: Mas isso significa que a indústria realmente tem grande chance de sobreviver, agindo dessa forma. Eu quero saber o seguinte: e o desenvolvimento tecnológico nacional?

Carlos Rocha: Bom, isso é uma pergunta central.

Frederico Vasconcelos: Posso acrescentar uma pergunta, por favor.

[sobreposição de vozes]

Jorge Escosteguy: Um de cada vez, por favor.

Leda Beck: Eu ia perguntar isso. A política de informática tinha uma proposta de ter capacitação tecnológica local.

Carlos Rocha: Perfeitamente.

Leda Beck: Com esses acordos agora, o que está ocorrendo é uma transferência talvez de tecnologia de processo, não de produto.

Carlos Rocha: É verdade.

Leda Beck: Eu não sei nem se está havendo transferência de tecnologia de processo, porque em muitos casos a gente sabe que o que está havendo é montagem de kit. Não tem nem o segredo de compreender como é que as coisas funcionam por dentro do produto.

Jorge Escosteguy: Deixa o Frederico completar.

Frederico Vasconcelos: Só completando, porque eu acho que não sairia também do mesmo tema. Na sua primeira intervenção, você tinha falado que a política de informática tinha gerado competência, não é?

Carlos Rocha: É verdade.

Frederico Vasconcelos: Mas há o risco dessa competência realmente ser desmontada. Então tem um exemplo muito claro, na última feira da Sucesu [Associação de Usuários de Informática e Telecomunicações], sociedade que reúne os usuários, ela não pode manter o que mantinha nos anos anteriores, que era um pavilhão onde mostrava um exemplo de desenvolvimento tecnológico brasileiro, porque não tinha nenhum exemplo para mostrar.

Leda Beck: O pavilhão das universidades, você diz?

Jorge Escosteguy: Desculpe, Leda, só um pouquinho. Os telespectadores também fazem perguntas em relação a isso. O Adalberto Perez aqui de São Paulo diz: “Já que os nossos micros estão com bom preço e qualidade competitiva, para que países nós exportamos”? Ana Maria, de São Paulo: “Cite três avanços ou fatos salientáveis no plano técnico que foram gerados dentro da reserva de mercado. Então juntando os avanços com a questão tecnológica, Ivite Carlos, de Suzano, pergunta: “Em média, quanto por cento uma empresa investe em pesquisa e desenvolvimento? Carlos Joel, aqui de São Paulo: “Em uma projeção de cinco anos, qual é a importância da informática na modernização da indústria”? Marcelo Jacinto, de Campinas, pergunta se a empresa nacional não corre o risco de se tornar simples montadoras e quando nós brasileiros vamos ter um equipamento com tecnologia brasileira e qualidade dos equipamentos estrangeiros. Maurício Carvalho, de Santo André: “Qual será o futuro da pesquisa e desenvolvimento na área da eletrônica e informática no Brasil”? No fundo tudo farinha do mesmo saco, tratando pesquisa e tecnologia.

[sobreposição de vozes]

Carlos Rocha: Eu só contei 15 perguntas, alguém quer fazer mais alguma ou não?

[risos]

Jorge Escosteguy: Não, estão todas ligadas a pesquisa e desenvolvimento, ou seja, ...

Wilson Moherdaui: Nós podemos ir embora.

[risos]

Jorge Escosteguy: ... quais são as perspectivas nessa área de pesquisa e desenvolvimento. E o que o Fred levantou junto com o telespectador para o senhor dizer que avanços foram obtidos dentro dessa reserva do mercado?

Carlos Rocha: Eu vou tentar e respondo em 15 segundos. Na realidade, Leda disse bem: havia toda uma política tecnológica por trás da política de informática. Aliás, essa foi a grande diferença da política industrial para o setor de informática em relação à política do similar nacional para o resto da indústria. E por essa razão o setor da informática era o único setor industrial brasileiro que vinha investindo o mesmo padrão mundial de investimento em tecnologia. Ou seja, o setor investia 10% do seu faturamento em tecnologia no país. O resto da média da indústria brasileira era de 0,7% enquanto a média do setor industrial em nível mundial é da ordem de 3%, entre 2,5 e 3,5%. Mostra que a política de informática no aspecto tecnológico deu resultado. Por outro lado, ela empregava um terço dos seus profissionais, os quais eram de nível superior. É o maior índice, é o índice mais alto de todo o setor industrial. Então, essa política deu certo no que tange a investimento em tecnologia. Você pergunta: isso vai continuar existindo com a nova política?

Leda Beck: Ele pergunta?

Carlos Rocha: Você perguntou e alguém perguntou aqui também, o Wilson perguntou. Eu digo a você: por enquanto eu digo que não. Porque a opção deste governo em relação à tecnologia ainda não aconteceu. Este governo apresentou uma nova política industrial que pretende ser competitiva, sem investir em tecnologia.

Leda Beck: Você acha que ele apresentou um novo modelo? Ele acabou com o outro e apresentou um novo modelo...

Carlos Rocha: Não, eu acho que o governo... Na realidade o governo não apresentou modelo. É importante que se diga que, com relação à política de informática, a proposta do governo foi extinguir a antiga sem propor nada no lugar.

Wilson Moherdaui: Você tem alguma proposta concreta, Carlos, no sentido de o governo ajudar a preservar...

Carlos Rocha: [interrompendo] Eu tinha mais quinze perguntas, eu posso tentar responder, mas...

Marco Antônio Antunes: Eu queria complementar essa pergunta.

Wilson Moherdaui: Eu vou entrar já nessa, porque eu acho que está faltando alguma coisa mais concreta, senão nós vamos ficar discutindo aqui coisas muito...

Marco Antônio Antunes: Eu queria complementar a pergunta do Wilson...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Só um pouquinho, um minutinho. Só [faltou] responder o que faltou ali do Frederico e do telespectador, quer dizer, os avanços. Ele disse que de repente não tinha avanços...

Carlos Rocha: Bom, você quer que eu cite três avanços, pediu três avanços. O Brasil tem a indústria de automação bancária mais desenvolvida do mundo. O sistema bancário brasileiro é o único sistema do mundo em que você deposita em qualquer lugar do Brasil, e segundos depois o dinheiro está na sua conta também disponível em qualquer lugar do Brasil. E isso não existe em nenhum lugar do mundo, no sistema...

Marco Antônio Antunes: O duro é esperar na fila duas horas.

Frederico Vasconcelos: Com mais filas também.

Carlos Rocha: Isso é outro problema. O problema da fila é que o governo brasileiro... bom, a gente pode discutir isso longamente, mas objetivamente aqueles... O problema do atendimento na agência é um outro problema gerado pelo fato de o governo usar a agência para cobrar tudo o que você possa imaginar na vida. O Brasil também é o único país no mundo onde se paga tudo na agência bancária. O sistema, para quem conhece, e nós estamos exportando esse sistema, estamos exportando sistema de automação bancária e automação comercial para a Europa. Hoje já existem empresas que exportam e ganham de empresas internacionais, a exportação de sistema de automação comercial na Europa.

Marco Antônio Antunes: É um avanço.

Carlos Rocha: Um avanço. Outro exemplo que eu vou dar a vocês. A automação do forno número três da Usiminas, que foi feita em 1987, onde a empresa tem sócios japoneses, então ela fez uma análise. Ela pediu uma oferta de automação, de reforma do seu alto-forno para o Japão. Só para fazer o projeto, a empresa japonesa pediu quatro milhões de dólares. A Usiminas conseguiu fazer essa automação desse alto-forno, com tecnologia de última geração desenvolvida no país, em parceria com alguns fornecedores de equipamentos japoneses, por dois milhões de dólares. Isso demonstra que nesse setor, o país atingiu um grau de competência muito bom. Existem diversas empresas de papel e celulose, área em que o país é exportador, tem tecnologias automatizadas inteiramente com tecnologia nacional e com parcerias em nível internacional. Dou-lhe um terceiro exemplo. A Ford tem duas linhas automatizadas. A linha do Escort foi automatizada por uma empresa japonesa, integralmente. E aí as automobilísticas dizem que não podem importar; importa sim, o governo aprovou a linha totalmente automatizada com robôs japoneses. Teve problemas seriíssimos, porque como não tinha engenharia aqui, como não tinha manutenção aqui, como não tinha suporte aqui, apanhou pra burro para colocar a linha para funcionar. Ela tem uma outra linha do caminhão cargo, que foi automatizada por produtos brasileiros, com engenharia brasileira, também em parceria com fornecedores de equipamentos da linha em nível internacional, e está satisfeitíssima. Teve um custo menor e teve um desempenho muito melhor, está funcionando até hoje. Terceiro exemplo para você: nós temos loteria esportiva. Loteria esportiva é um sistema antigo, extremamente competente, toda semana arrecada milhões aí de apostadores, e funciona tudo direitinho; é tecnologia integralmente brasileira, já exportamos para diversos países da América Latina, já exportamos muito para países da Europa, tecnologia industrial nossa. Eu poderia citar mais alguns.

Frederico Vasconcelos: Deixa eu lhe pedir mais um quarto exemplo que tem a ver mais com a questão estrutural da pergunta, é sobre a manutenção dessa capacidade. Quais são os dados que a Abicomp tem, por exemplo, sobre o desempenho dos engenheiros ou a transformação de engenheiros para a área comercial ou com a vocação diferente para trabalhar...

Carlos Rocha: Com a nova política?

Frederico Vasconcelos: Com a nova política, mas eu quero ver contestando a tendência...

Carlos Rocha: Bom, volto a dizer para você o seguinte: o Brasil ainda não tem uma política industrial de longo prazo para setor nenhum. Para o setor da informática, como nós levamos esse debate para o Congresso, eu acho que o central da política de informática, que tanto a primeira Lei de Informática quanto agora a nova Lei de Informática emanou de uma ampla discussão no Congresso. Porque o governo não mandou para o Congresso uma proposta estruturada, ele mandou – eu volto a insistir – uma lei, um projeto de lei de três artigos revogando a lei anterior. Aí discutimos amplamente no Congresso, negociamos com todos os setores da sociedade, com deputados e com o próprio governo, e conseguimos construir uma lei que minimamente mostra uma vontade. Se o governo vai usar esse instrumento adequadamente ou não ainda é uma questão por vir, mas essa é a única política industrial estruturada em lei. E essa política tem, para acesso aos incentivos, compromisso de investimentos em tecnologia. As empresas têm que investir 5% do seu faturamento em tecnologia no país; 2% necessariamente com universidades e institutos de pesquisa. Então é a única política setorial hoje no país que tem algo a ver com os países de Primeiro Mundo. Eu não sei se vocês leram uma matéria que saiu na [revista] Business Week, agora de 6 de abril, que traz lá “Política Industrial”, e os americanos falando de política industrial, e dizendo o seguinte. Não é uma política industrial que vai escolher perdedores e vencedores, que vai intervir, mas é uma política industrial que vai ter em mente que o conhecimento é a única saída para o sucesso no século que vem. Não há outra alternativa para países vencedores que não seja investir no conhecimento. Não vai ser capital, não vão ser recursos naturais que vão diferenciar os países, mas será o conhecimento. E o Brasil não investe em educação.

Jorge Escosteguy: Nós vamos ainda voltar a esse assunto, até porque é uma pergunta do telespectador, sobre os avanços da indústria de informática e do conhecimento, mas precisamos fazer um rápido intervalo. E lembrar aos telespectadores Marcelo Travain, aqui de São Paulo, que já foi respondida a pergunta sobre associação com empresas multinacionais; e Mateus Baralde, de Pirales, cuja pergunta sobre a qualidade do computador brasileiro já foi respondida pelo senhor Carlos Rocha. O Roda Viva volta daqui a pouco, entrevistando hoje o senhor Carlos Rocha, presidente da Abicomp, Associação Brasileira da Indústria de Computadores e Periféricos. Até já.

[intervalo]

Jorge Escosteguy: Voltamos com o Roda Viva, que hoje está entrevistando o senhor Carlos Rocha, presidente da Abicomp. Senhor Rocha, no primeiro bloco do programa, o senhor falou, insistiu muito no fato de que os preços dos computadores nacionais caíram muito no ano passado. Mas ao mesmo tempo, esses preços também caíram nos computadores estrangeiros ou nos equipamentos estrangeiros. Eu até tenho um exemplo pessoal, o senhor falou que chegaram à redução até de 53%. Eu, por exemplo, há pouco mais de um ano, comprei em um free shop [loja presente em aeroportos onde se pode comprar produtos isentos de taxação], uma daquelas agendas pequenas, de bolso, Casio, se não me engano, custou 120 dólares, há um ano e pouco. Agora há poucos dias, eu passei de novo por um free shop e vi a mesma agenda que eu comprei para o meu filho, exatamente igual, o mesmo modelo, do mesmo tamanho, por 63 dólares. Isso não é uma coisa que é inerente ao desenvolvimento da indústria brasileira, mas ela foi levada por essa concorrência estrangeira, ou seja, com a qualidade e preço mais baixo, principalmente em um ano em que a indústria nacional, nos anos anteriores, teve quedas violentas de faturamento?

Carlos Rocha: São diversos fatores, não resta dúvida de que a tecnologia em nível internacional leva o preço a cair, mas no Brasil houve uma aproximação do preço do produto vendido em nível internacional com o preço vendido no mercado brasileiro. Essa análise, inclusive, foi feita na Folha de S. Paulo, há menos de 15 dias, eles publicaram essa avaliação. Então, há aproximação do preço do produto brasileiro com o preço do produto vendido em nível internacional. Hoje, diversos produtos, se forem importados com os impostos pagos, chegam aqui mais caro do que os preços dos produtos vendidos no mercado interno.

Jorge Escosteguy: O que o senhor teria a dizer ao Marcelo Moraes, de Ribeirão Pires. Ele é engenheiro elétrico e telefonou para discordar de três itens. Primeiro, existe sim, muito contrabando nas empresas; segundo, há quatro anos trabalha com prestação de serviços e não existem componentes no mercado; terceiro, o preço do computador é sempre mais alto e a qualidade do computador é péssima.

Carlos Rocha: Olha, Marcelo, possivelmente você trabalhou com os parceiros errados. Eu acho que você generalizar e dizer que a qualidade é péssima não é uma generalização correta. Só para lhe dar um exemplo, a Sucesu, que é entidade nacional dos usuários, faz pesquisas com todos os usuários em nível nacional, faz essa pesquisa uma vez por ano. E na última pesquisa, as empresas fabricantes de microcomputadores, líderes do mercado, tiveram índices de satisfação muito próximos àqueles de empresas líderes mundiais. Então você via ao lado da IBM, da Digital, você via a Microtec, a Monydata, que são empresas que fazem microcomputadores. Então os usuários, em especial os usuários institucionais, têm produtos de qualidade. O preço é alto, e é alto porque o imposto é alto. O preço vai ser baixo quando o imposto for baixo.

Stephen Kanitz: Mas, Carlos, você não está dando muita ênfase...

Jorge Escosteguy: Desculpe, Stephen, só um minutinho, por favor. Ele falou contrabando e que não existem componentes no mercado.

Carlos Rocha: Eu diria que existem componentes no mercado em grandes centros. O problema do serviço é um problema muito sério. Se o país não investe em educação, se você sai e vai para o Centro-Oeste, para o Nordeste, e você não tem profissionais formados em escolas boas, você tem dificuldade, inclusive, de recrutar pessoas para ter um grau de assistência técnica bom. Mas a pesquisa de satisfação da Sucesu mede também serviços, e volto a dizer: no Brasil os serviços oferecidos pelas empresas líderes de mercado são similares em qualidade aos serviços oferecidos pelas empresas estrangeiras que atuam no país.

Almyr Gajardoni: O senhor está apresentando aí uma situação mais ou menos radiosa para a informática brasileira. Mas ao longo da conversa, eu ouvi o senhor fazer algumas restrições veladas assim à atuação do governo brasileiro. O que falta fazer para que a gente passe a viver no melhor dos mundos possíveis, quer dizer, naturalmente botando de lado aí, a questão da inflação, de arrumação da economia, e tal? Que providências o senhor esperaria do governo brasileiro, para que se acertasse tudo no reino da informática?

Carlos Rocha: Olha, o que a gente espera do governo é que ele nos ouça. Toda vez que o governo é menos prepotente e ouve mais, ele acerta mais, porque é impossível para o governo saber o que é bom para todos os setores da economia, e quanto mais...

Almyr Gajardoni: [interrompendo] Este governo é menos prepotente do que os anteriores?

Carlos Rocha: Eu diria que esta fase do governo Collor é muito menos prepotente do que a fase Zélia [Cardoso de Mello, ministra da Fazenda do governo Collor, no período de 1990 a 1991]. Na fase Zélia, o governo entendeu que o empresário era bandido e não ouvia os empresários, agredia os empresários; não entendia que o empresário investe e gera emprego. Esta fase do governo, em especial a figura que tem sido o nosso interlocutor principal, que é a secretária Dorothea, eu digo que tem uma postura extremamente positiva. A secretária Dorothea ouve, nem sempre concorda, é uma negociadora difícil, mas ela ouve, ela está preocupada em acertar e tem consciência de que a parceria com diversos setores é que vai fazer com que se formulem políticas mais eficazes para os diversos setores. Então essa é uma fase, sem dúvida, muito mais construtiva do que a fase inicial do governo Collor, sob todos os aspectos.

Wilson Moherdaui: Carlos, você acha que o governo usa adequadamente o poder de compra que ele tem para estimular a indústria nacional a dar volume para a produção da indústria nacional?

Carlos Rocha: Olha, o poder de compra...

Wilson Moherdaui: [interrompendo] Essa foi uma arma importante usada pelos países, pelos Tigres Asiáticos, quer dizer, Taiwan, Coréia, Cingapura. Esses países todos fizeram da política de compra do governo uma arma decisiva para consolidar a indústria local. Você acha que o governo brasileiro, em algum momento, usou adequadamente a política de compra?

Carlos Rocha: Na informática, não. Na informática ele nunca usou, aliás, não foram só os países asiáticos; Estados Unidos também usa o poder de compra, a Europa também usa, a Alemanha usa, a Itália usa, todo mundo usa. O Brasil precisa aprender a usar. Agora, não é o Brasil como um todo, por que o Brasil? Porque a gente sabe que não existe um governo no Brasil, aqui se tem diversos governos. O governo telecomunicações – o Ethevaldo acompanha bem isso, você acompanha bem isso – usou e usou bem o poder de compra do Estado, durante muitos anos, e agora começa a querer estruturar novamente o poder de compra nesse setor, fomentando a industrialização e a tecnologia no país. Na informática, o governo nunca usou o poder de compra de maneira estruturada. Existe agora uma legislação de informática que veio do Congresso, que oferece esse instrumento. O governo pode usá-lo, se usá-lo vai gerar resultados positivos. Então o poder de compra existe, regulamentado por uma lei, existem outros instrumentos. Você perguntou que outras sugestões a gente dá. Em primeiro lugar, eu digo o seguinte. A Lei de Informática nova acaba com a reserva de mercado e dá alguns instrumentos: o poder de compra, incentivos para a fabricação e compromissos para investimento em tecnologia. Inclusive tem um outro incentivo de capitalização. Então a lei é a lei ideal? Não! Mas é uma lei boa, porque ela foi gerada no Congresso, democraticamente. Se o governo quiser fazer uma política séria, no setor de informática, ele tem uma lei estruturada; não é o mecanismo ideal, mas é um mecanismo bom e que saiu do Congresso de maneira extremamente democrática.

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Desculpe, o que o senhor quis dizer quando afirmou que existem vários governos no país? Eu peguei en passant [expressão francesa que significa “de passagem”] quando o senhor estava falando sobre isso.

Carlos Rocha: Eu quero dizer o seguinte. Em diversos momentos, você negocia, por exemplo, com uma área do governo, a estruturação do poder de compra em uma legislação, e as outras áreas do governo se recusam a seguir aquela legislação.

Jorge Escosteguy: Por quê? Eles dizem o quê?

Carlos Rocha: Não dizem, simplesmente se recusam a sentar à mesa para negociar, isso é muito comum. Para lhe dar um exemplo, depois que foi aprovado a Lei de Informática, o Conin, que é o órgão regulamentador da política de informática, parou de se reunir. E existem áreas dentro do governo que não se entendem sobre qual é a melhor forma legal de fazer o Conin funcionar novamente.

Jorge Escosteguy: Que áreas seriam essas?

Carlos Rocha: Por exemplo, a Consultoria Geral da República ainda não entrou num acordo com a Secretaria da Ciência e Tecnologia, para colocar o Conin em funcionamento. Todos desejam que o Conin volte a funcionar. O próprio presidente da República nos disse em uma reunião ministerial de que participamos, agora no dia 9 de março, que ele entendia que esse era um problema que precisava ser equacionado rapidamente.

Leda Beck: O problema é definir a composição do Conin, não é?

Carlos Rocha: Enfim, o problema é de entendimento entre as diversas áreas do governo. Aliás, acho que foi por isso que o presidente resolveu mudar o ministério, para ver se entendem um pouco melhor.

Flávio de Carvalho: Bom, é uma pergunta que pode parecer assim, prosaica, mas é uma curiosidade que eu tenho. As pessoas que lidam com publicações estrangeiras, vêem ali uma profusão enorme da concorrência de preço de equipamento, cada um oferecendo um preço mais baixo para equipamento semelhante, e esse é o motor do capitalismo, que se materializa ali na oferta final de preço menor. Agora, no Brasil, os chamados produtores relevantes não fornecem preços de seus equipamentos. Por exemplo, a Exame Informática está tentando há tempo montar uma seção que dê todo mês, preço de equipamentos. E parece que há um conluio entre os produtores relevantes, porque eles não fornecem preço de equipamentos. A Folha Informática e talvez a Leda Beck também possa dar o testemunho, que quem fornece preços são os produtores e os fabricantes não relevantes. Então eu quero saber o seguinte: o que explica esse comportamento esquisito dos fabricantes brasileiros de não aderirem à política capitalista de concorrência de preço?

[...]: Há uma certa reserva, não é?

[sobreposição de vozes]

Flávio de Carvalho: Haveria aí uma esperança de se manter até outubro uma política de preço administrada? O que significa? Eu realmente não entendo, por que não dão preços?

Carlos Rocha: Você sabe que a minha sorte, Flávio, é o seguinte: sendo presidente da associação, eu respondo por todos os problemas de todas as empresas do setor [risos]. Mas acho que a pergunta é procedente. Na realidade...

Flávio de Carvalho: [interrompendo] Porque não é uma coisa isolada, a gente telefona para todos os fabricantes...

Leda Beck: É verdade, as grandes fabricantes se recusam...

Flávio de Carvalho: Parece uma coisa combinada.

Leda Beck: Sistematicamente. Agora, você obtém os preços para as revendas, a gente publica uma tabela de preços...

Flávio de Carvalho: [falando ao mesmo tempo em que Leda Beck] A gente tem que usar um truque desses de mandar um repórter fingir que é um comprador para obter o preço de alguma coisa.

Carlos Rocha: Na realidade, você está se referindo, provavelmente, Flávio, aos preços de micro-informática e seus periféricos, que são normalmente os preços que vocês divulgam, o [jornal O] Estado [de S. Paulo] também, a [revista] Exame também, enfim. Nesse ramo de atividade, é comum a comercialização indireta. Então o preço, na realidade, da ponta do usuário é o preço da revenda; não é o preço que o fabricante vende para a revenda.

Flávio de Carvalho: Isso acontece nos Estados Unidos também.

Carlos Rocha: Mas nos Estados Unidos...

Flávio de Carvalho: Tem o preço de fábrica e tem o preço de rua.

Leda Beck: O fabricante nos Estados Unidos lhe dá uma sugestão de preço para revenda.

Carlos Rocha: Exatamente. Ele dá uma sugestão de preço, mas na realidade o preço que você vê na revista é preço de pesquisa de órgãos independentes, que é pesquisado na ponta da venda. Então você vê realmente muito nas revistas de divulgação...

Flávio de Carvalho: Sim, mas o anunciante usa esse preço mais baixo para vender mais.

Carlos Rocha: É verdade. Eu acho que no momento em que nós tivermos uma inflação um pouco mais estável, os fabricantes vão passar a divulgar preços de maneira mais natural. Talvez seja, na minha visão, o problema de que a inflação muda com uma velocidade muito grande, e na própria revenda, como os produtos têm conteúdo importado relevante, os preços evoluem rapidamente com a inflação. Então um preço que é valido hoje já não é válido dali a 15 dias, porque na realidade o dólar passa a ter valor diferente. Não sei lhe dizer exatamente qual é a razão específica nesse setor do porquê de não haver divulgação de preço. Normalmente não costuma ser uma prática usual.

Flávio de Carvalho: Mas o fato de isso ser uma coisa coletiva; não é uma coisa de um ou de outro fabricante.

Carlos Rocha: Eu diria que é prática comercial de mercado, em função da inflação, não é uma coisa das empresas...

Leda Beck: Elas não combinaram?

Carlos Rocha: ... nacionais ou internacionais, não. É uma coisa normal nesse mercado a não divulgação de preço.

Flávio de Carvalho: No brasileiro.

Carlos Rocha: No mercado brasileiro.

Flávio de Carvalho: No exterior a prática normal é justamente a concorrência de preço. O fabricante está interessado em dar o seu preço mais barato e deixar isso bem claro, e no Brasil parece que é o contrário. Parece que é algo...

Carlos Rocha: Eu não diria isso. Para você ter uma idéia, o nosso diretor da Abicomp, Rui Campos, faz um trabalho de análises de preços de diversos produtos e divulga mensalmente em uma coluna que nós temos no Estado de S. Paulo, são os preços médios...

Leda Beck: Mas ele não dá as marcas, né?

Carlos Rocha: Ele não dá as marcas, isso fica a critério de cada empresa.

Leda Beck: Ele, como fabricante, conversa com os outros fabricantes, compara os seus preços e chega a um...

Carlos Rocha: Enfim, não sei lhe responder. Eu acho que é uma prática de mercado. Se fosse, exclusivamente, de empresas brasileiras fabricantes de micro, eu diria a você: “isso é um problema específico”? Eu diria que não é. Que eu saiba no mercado hoje, nesse setor, nenhuma empresa, seja nacional, seja internacional, seja fabricante aqui, seja importador – porque já existem empresas que estão começando a importar – nesse mercado não há divulgação de preços, é uma cultura.

Flávio de Carvalho: Ainda nessa questão de mercado, por exemplo, o Brasil, a Ilha Formosa [Taiwan], eles partiram mais ou menos do mesmo patamar e hoje estão em posições completamente diferentes. O Brasil fracassou completamente em administrar o seu mercado interno enquanto os Tigres Asiáticos conseguiram ter sucesso? Você vê um...

Carlos Rocha: Eu acho que o Brasil é extremamente bem sucedido se comparado com os asiáticos, em especial com a Coréia e Taiwan, visto que ele teve objetivos diferentes e alcançou sucesso desses objetivos. Você tem que comparar o Brasil com os outros países da América Latina. O Brasil tem uma indústria de informática hoje maior que a indústria de informática da Coréia. Ela é maior, como um todo, ela é maior que a indústria de informática de Taiwan, mais abrangente. O Brasil fabrica desde microcomputadores até mainframes [computador de grande porte utilizado para o processamento de um amplo volume de informações], com sucesso e com investimento externo. A política de informática brasileira fez com que o setor de informática fosse o único onde o investimento estrangeiro se manteve contínuo e crescente, ao longo de toda a década de 80, que foi a chamada década perdida. Talvez o Stephen aqui já queira me cutucar aí. Foi o único setor onde houve investimento efetivo de capitais estrangeiros, que no Brasil tiveram um desempenho, extremamente bom. Se você comparar com México, Argentina, Chile, Uruguai, todos os outros países da América Latina que tiveram políticas diferentes, você percebe o seguinte. No Brasil, o faturamento do setor, a dimensão do mercado atingiu números muito próximos dos países desenvolvidos, ou seja, a penetração dos bens de informática na sociedade, no Brasil, chegou a atingir 2% do PIB, um pouco mais de 2% do PIB. No México ficou inferior a 1% do PIB, está entre 0,6%, 0,7% do PIB; na Argentina, 0,4% do PIB. Isso  mostra que a nossa política treinou pessoas, gerou competência, estimulou o usuário a usar o computador, mesmo com o preço mais elevado, com as restrições, com todos os problemas. Eu não quero passar uma imagem para o nosso telespectador de que nós não tivemos problema; nós tivemos inúmeros problemas.

Stephen Kanitz: Mas, Carlos Rocha, eu acho que em toda esta discussão, nós estamos cometendo um grande erro e você também: achar que o setor de informática é hardware, e não é! O setor de informática é software. Para cada um cruzeiro que se gasta com o computador, hoje em dia se gastam três em software. Então toda essa discussão está em cima do dinheiro, de equipamentos baratos etc, e o software não se discute, não há política brasileira de software. Nós estamos comprando software estrangeiro, nossos filhos têm que aprender inglês para poder programar computador, o que é um vexame. Todos os jornalistas aqui estão escrevendo em Word-5 ou em Word Perfect, o texto... O poeta futuro brasileiro vai escrever em software americano. Então eu não acho isso bom para o futuro do país. Segunda pergunta que eu queria lhe fazer é a seguinte. Você falou várias vezes em política industrial, que nós temos uma política industrial. Como é possível – você, que é da Abicomp, sabe disso – ter uma política industrial se a maior empresa brasileira, a IBM, é uma empresa limitada, não presta contas do lucro. Qual é o lucro da IBM? Você não sabe. Qual é o faturamento da IBM? Você não sabe. Ela é uma limitada que não presta conta, você não tem dados sobre ela. E o mesmo acontece exatamente com a Unisys e outras empresas, não somente multinacionais. Quer dizer, nós não temos informações para ter uma política industrial. E a terceira pergunta, só para finalizar: se nós iremos para a famosa abertura da economia, que setores vão exportar para a gente poder importar todos os equipamentos, e que setores, no setor de informática, serão competitivos em nível internacional? A Índia, por exemplo, é ótima em software, como é que fica o Brasil?

Carlos Rocha: Duas perguntas muito boas, Stephen. Em primeiro lugar é o seguinte. Você tem toda razão de que não existe uma política estruturada para o software, sem dúvida alguma. Isso não faz com que nós não tenhamos produtores de software competentes. Você citou aí os processadores de texto, eu vou citar dois brasileiros. Um processador fácil, já na versão 6.0, ganhou o prêmio da revista PC Magazine aí. O outro é o Carta Certa [editor de texto simples, com poucos recursos] que também é muito bem sucedido. Quero citar dois exemplos de software que estão sendo exportados. A Lantek, uma empresa pequena em São Paulo, faz um correio eletrônico e está sendo exportado para o Japão, em parceria com a Novell. E a Datasul, que é uma empresa de Joinville, está exportando para a Europa, software de controle de manufatura. Então aí a gente poderia citar outros exemplos. Além do software embutido em solução de sistemas; eu lembrei exportação de automação comercial para a Europa, a exportação de loteria para diversos países, tudo isso tem software embutido. Agora, não resta dúvida de que não existe uma política de investimento em conhecimento; e software é fruto de investimento em conhecimento. Então eu concordo...

Stephen Kanitz: [interrompendo] Que podia ser o nosso forte.

Carlos Rocha: Que poderia ser um dos pontos importantes em uma política. Todos os países que têm uma indústria consolidada investem em hardware bastante, sem dúvida alguma, em todos os setores. Temos uma área de software muito boa também, na área de automação industrial, onde temos engenharia nacional, como já citei. Todas essas automações, papel celulose, petroquímica, siderurgia, automobilística, tudo é feito com software nacional. Então, a geração de engenharia competente nacional é que leva a soluções de geração de software. Mas não existe uma política que precise ser implementada. Aliás, existe uma nova lei do software, que está lá no Congresso já há algum tempo, que não prevê estímulos ao investimento local, só prevê a abertura de mercado. Estamos de acordo. Tem a outra pergunta. Repete, por favor.

Stephen Kanitz: A minha preocupação com a IBM, por exemplo.

Carlos Rocha: Ah, o problema da abertura.

Stephen Kanitz: Como fazer uma política industrial com...

Carlos Rocha: O problema da existência de empresas de grande porte limitadas, sejam nacionais ou internacionais, que não divulgam seus números, também não é uma característica do setor. Então, eu peço a vocês que não coloquem como crítica ao setor algo que é uma realidade brasileira. Eu concordo com você: qualquer empresa acima de um certo tamanho deveria divulgar os seus números. A minha empresa, a TDA , que é uma S.A de capital fechado, divulga balanço e é auditada por auditores independentes, reconhecidos, isso é uma filosofia própria. Eu acho que as empresas deveriam divulgar. Agora, não é um problema do setor.

Marco Antônio Antunes: No começo do programa, nós fizemos aqui um paralelo entre a indústria de computadores e a indústria automobilística no Brasil. Eu queria saber do senhor, se é possível responder ou não, em que medida essa política de abertura, que de qualquer maneira está caminhando na área de informática, pode transformar o carro brasileiro em um produto melhor, já que atualmente os carros estrangeiros têm muitos componentes eletrônicos etc, até computadores. Isso depende apenas das montadoras de automóveis ou a indústria autônoma de computadores, de eletrônicos, também pode contribuir para isso, nesse processo de abertura?

Wilson Moherdaui: Aliás, Marco, os representantes da indústria automobilística que estiveram aqui neste programa elegeram a informática como a grande vilã e a grande responsável pelo fato de os carros nacionais serem carroças.

Carlos Rocha: Está certo, aliás é ótimo. É ótimo que eles tenham feito isso, eu fico extremamente satisfeito, porque... Aliás, é uma das razões pelas quais eu estou propondo antecipação do fim da reserva, porque assim eles não vão poder mais ter essa desculpa. Os meus amigos da indústria automobilística vão ter que se virar sozinhos, porque essa não vai poder ser mais a desculpa pela qual os carros são ou não são competitivos. É importante a gente lembrar que a Autolatina exportava o Fox para os Estados Unidos e importava o que queria importar, aliás, eram mais de dois mil itens importados para se atualizar o automóvel fabricado no Brasil para o mercado americano. Apesar disso, deixou de ser competitivo, por quê? Porque não tem tecnologia? Não. Porque a infra-estrutura econômica brasileira não permitiu que ela continuasse sendo competitiva. Então, essa história de dizer que a indústria automobilística brasileira não exportava e não tinha produtos atualizados, porque a reserva de mercado atrapalhava e era a única causa da sua não evolução, era uma falácia. Você não fica fabricando um Opala [modelo de automóvel] durante trinta anos e diz que ele não ficou atualizado, porque a culpa é da informática. Tinha uma reserva de mercado que foi um privilégio no primeiro momento para a industrialização e fez com que os investimentos se acomodassem, não só nesse setor. Hoje em dia, todos os carros de faixa alta já vêm com injeção eletrônica, já vêm com computador de bordo, vêm com painel eletrônico. Enfim, já não é mais a reserva de mercado que impede a utilização de produtos de informática nos automóveis. Também não é mais a informática que impede a automação das linhas, já citei dois casos, e poderia citar diversos casos, onde a indústria automobilística se automatizou. A grande dúvida será o seguinte: será que nós temos uma política industrial competente para que a indústria automobilística brasileira se torne competitiva em nível internacional? Eu diria a você que ainda não temos, até porque não temos política industrial alguma, apesar de serem empresas líderes mundiais. Não vão ser competitivas em nível internacional, se não tiverem um ambiente econômico voltado à competitividade. Só para terminar esse bloco. É interessante comparar. Eu estou aqui discutindo com vocês o fim da reserva de mercado proposto pela Abicomp. Eu sugiro a vocês que em breve chamem de novo o pessoal aqui para explicar essa nova reserva que eles estão tentando negociar aí, com um acordo de exportação e a limitação de importação de carros estrangeiros dentro de um certo percentual. Não é uma certa...

Marco Antônio Antunes: [interrompendo] Por falar nisso, tem uma outra entidade dentro da área eletroeletrônica, a Abinee [Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica], que parece que não gostou muito dessa negociação que vocês fizeram aí, para acabar progressivamente com os impostos.

Carlos Rocha: Não, ao contrário, gostou sim.

Leda Beck: Só para completar a sua pergunta, já que ele falou na Abinee, o que aconteceu com a proposta da política para o complexo eletrônico? Fale-me um pouco da Zona Franca também, que era uma das suas divergências com as diretorias anteriores da Abicomp.

Carlos Rocha: Respondendo as duas coisas. Em relação à Abinee. Há sete ou oito setores dentro da Abinee, são diversos setores eletrônicos dentro dela. O setor de informática dentro da Abinee, o setor de automação industrial e o setor de componentes participaram conosco dessa ampla negociação na câmara setorial, e fizemos uma proposta de consenso. E eu não interpretei aquelas declarações das lideranças da Abinee como estando em desacordo, ao contrário. O que eu entendi é que eles pretendem também para os demais setores – de imagem e som, de eletroeletrônica e telecomunicações – negociar com o governo soluções similares àquelas que nós negociamos, ou seja, redução de preços e estruturação da cadeia de impostos de importação. Foi isso que eu entendi das declarações, e nós estamos muito afinados. Aliás, o novo presidente da Abinee, o Nelson Freire, tem sido importante articulador dessa atuação em parceria entre a Abinee e a Abicomp.

Marco Antônio Antunes: Então a crítica talvez não tenha sido dos setores que participaram da reunião, que engrossaram esse consenso. Mas houve até alguns empresários do setor, ligados à Abinee, que observaram que se as coisas continuarem assim, várias empresas do setor poderão até deixar de existir, não é?   

Carlos Rocha: Na realidade o que está havendo... Eu acho que nós estamos juntando duas coisas aí. Uma coisa é a redução de impostos para que as fábricas possam oferecer produtos mais baratos para o consumidor. Esse é o objetivo central da negociação e não me parece que haja ninguém que possa achar ruim que o governo aceite uma negociação com o setor produtivo, de reduzir impostos, para que as fábricas possam oferecer produtos mais baratos. Acho que nisso todos devemos concordar. A reclamação tem a ver com que ela está falando, da situação da Zona Franca de Manaus. A Zona Franca de Manaus é um pólo industrial, artificial, criado com objetivo geopolítico, ou seja, de ocupação regional, e para oferecer àquela região uma melhoria do ambiente social. Isso foi feito em um ambiente de Brasil fechado, de impostos elevados e de importação proibida. No momento em que você reduz os impostos e abre a importação, as vantagens de se operar uma indústria como a nossa, que é uma indústria dinâmica, a indústria de eletrônicos em geral, em que os produtos são leves. Caso se queira instalá-la completamente fora do mercado, numa região inóspita e que não tenha, inclusive, infra-estrutura de pessoal, de transporte, enfim, infra-estrutura básica, que torne aquela região competitiva para fabricar produtos eletrônicos, as empresas começam a não conseguir mais serem viáveis operando lá. Aí surge uma crítica, que é uma crítica de sobrevivência, mas o que ocorre é o seguinte. No nosso setor de informática, nós não afetamos Manaus, porque o grosso do que está instalado em Manaus, na área eletrônica, é imagem e som; televisão, rádio, enfim, é o que estão instalados lá.

Leda Beck: Eletrônica de consumo?

Carlos Rocha: Eletrônica de consumo. Nós não mexemos nisso.

Jorge Escosteguy: Por favor, eu gostaria de voltar aqui a uma questão que surgiu, inclusive, no começo do programa, em relação às mudanças na Lei de Informática. Foram feitas várias perguntas e todas no sentido do que vai acontecer com a mudança da Lei de Informática. Então lhe perguntei: para o consumidor, o telespectador que está em casa. Aí o senhor disse: “ah, não vai acontecer nada”. Aí o Almir perguntou alguma coisa, o senhor disse: “nada”. Aí o Marco perguntou agora para o senhor sobre a indústria automobilística, o senhor disse: “não, não vai acontecer nada, a indústria automobilística que é inoperante, ineficiente etc”. Então a gente fica sem saber, e o telespectador fica sem saber o que realmente vai acontecer. E aí eles começam a discutir, eu tenho aqui quatro perguntas. O senhor citou sempre a questão do imposto, ou seja, não é a questão do estrangeiro, não é a questão da importação, é a questão dos impostos no Brasil. Agora os impostos existem há muitos anos, a reserva existe há 16 anos, e nunca se reclamou dos impostos, ou seja, com essa ênfase. Aí pergunta o Milton Munhoz, aqui de São Paulo: “Eu gostaria de saber por que anteriormente os fabricantes não reclamavam tanto em relação aos impostos, como se fosse a solução para a questão da informática, e defendiam a reserva de mercado”. Guilherme Himel, aqui de São Paulo, também disse: “Se a queda da reserva de mercado tivesse ocorrido há dez anos, será que toda a indústria não estaria muito mais avançada, inclusive a automobilística”? Paulo Francisco dos Santos, de Lorena, também diz que discorda quando o senhor disse que os impostos é que oneram os preços da indústria da informática brasileira, porque os importados também têm imposto, e ele acha que a questão é qualidade e quantidade. E o João Silva, de São Roque, já mais agitado, não com a comparação do vinho feita pessoa pelo Ethevaldo, mas ele acha que o senhor faz o seu lobby para manter o imposto de importação alto, e pergunta por que o senhor insiste em confundir – na opinião dele – interesse da indústria nacional com interesse nacional?

Carlos Rocha: É importante que se diga o seguinte: eu não estou defendendo o interesse da indústria nacional, de capital nacional. Uma das primeiras atitudes que eu tomei na Abicomp, foi abrir a Abicomp para participação de todas as empresas, independente da origem de capital, e tenho a satisfação de que todas as empresas importantes em nível internacional que atuam no Brasil são sócias da Abicomp hoje. Então não existe restrição ao capital nacional ou estrangeiro. Eu estou defendendo o investimento no país, um investimento que gere emprego e que gere tecnologia, porque é disso que nós precisamos para o desenvolvimento social. Aqueles ouvintes que discordam da nossa avaliação de que o preço elevado é fruto dos impostos, que discordam de que os produtos sejam melhores, cada vez mais, e que as associações com capital estrangeiro sejam sinais positivos em uma integração do setor ao meio de abertura, eu só posso dizer que é uma questão de tempo. Alguém falou “a indústria vai sobreviver”? A indústria já sobreviveu, a indústria de informática está consolidada, já se adaptou, não está pedindo reserva de mercado, ao contrário, está pedindo antecipação do fim da reserva, desde que o governo mude o ambiente de tributos. Aqueles que não acreditam vão ter surpresas positivas.  

Jorge Escosteguy: Então, além da indústria de informática, as consequências dessa mudança não afetarão ninguém de imediato? O consumidor? A indústria automobilística?

Carlos Rocha: A abertura, na realidade, aconteceu no momento em que o governo Collor assumiu e decidiu que o país teria um novo perfil industrial. Foi aí que a mudança ocorreu, e foi aí que os empresários passaram a fazer joint ventures e passaram a reestruturar a sua atividade produtiva, inclusive reduzindo muito os investimentos em tecnologia, porque no momento a política tecnológica ainda não está implantada. Se ela passar a ser implantada, nós vamos ter de novo investimentos em tecnologia. O que eu quero dizer é que não vai acontecer nenhum milagre no dia em que a reserva acabar, e que o preço não vai despencar. É isso que eu estou dizendo.

Ethevaldo Siqueira: O senhor está dizendo é que eu vou poder importar?

Carlos Rocha: Sem dúvida.

Ethevaldo Siqueira: Sim, isso é uma coisa que afeta o usuário, acabou a reserva.

Carlos Rocha: Mas você pode importar hoje.

Ethevaldo Siqueira: Sim, mas em condições tão escandalosas... Eu conheço caso de se levar a SEI [Secretaria Especial de Informática] um pedido de importação, e eles fixaram: “o senhor tem que importar no mínimo 26 mil dólares”. Lembra desse caso?

Carlos Rocha: Eu sei. Enfim, isso é passado. Eu estou dizendo hoje, hoje, hoje. Então o que eu estou dizendo é o seguinte: a reserva já acabou!

Ethevaldo Siqueira: É burocrático, o sistema é extremamente lento, nós precisamos ter um sistema mais dinâmico. Mas eu queria voltar à questão do imposto, que você diz. É muito mais, o Stephen mostrou, por exemplo, que há vários outros fatores que intervêm na eficiência geral da indústria brasileira e da informática em particular.

Carlos Rocha: Claro.

Ethevaldo Siqueira: É mais do que a inflação, é mais do que imposto; é educação, é ciência, é tecnologia, é pesquisa, é microeletrônica que nós não temos. É software, que ele mencionou como coisa importante; é serviço, é escala, que não se menciona. Veja só. Eu entrevistei o presidente dos Laboratório Bells, há dez dias, o presidente emérito Ian Ross, que é membro de um comitê que se chama Comitê Construtivo de Semicondutores, que aconselha o governo dos Estados Unidos para uma política industrial. Ele disse: “Os Estados Unidos detêm hoje 40% do mercado mundial de semicondutores, muita gente acha que é excelente, quando o Japão tem 50%, e o resto do mundo fica com os 10% restantes”. Veja só. Coréia, Taiwan, toda a Europa: todos ficam com 10%. Será que o Brasil tem vez no mercado de semicondutores? Nós estamos esquecendo essa questão. Quando esse mesmo Ian Ross disse que em 8 anos, portanto no ano 2000 – o ano 2000 está ali na esquina – um chip vai ter dez bilhões de componentes. E nós não estamos fazendo nada em ciência, pesquisa, formação de recursos humanos na universidade. Porque esta era a grande política de capacitação brasileira que deveríamos ter tido e que ficou limitada à reserva.

Carlos Rocha: Você tem toda a razão, Ethevaldo. Nós sempre dissemos ao governo que era fundamental que se estruturasse a universidade brasileira, e que para isso era necessária uma política de educação mais ampla. Não é a empresa de informática que vai subsidiar a universidade. Nós temos que integrar a empresa à universidade, mas a universidade tem que ter um recurso mínimo para operar. Não temos nada a discordar. Aliás, só aprimorando os números do Ross, os Estados Unidos têm hoje 35% do mercado mundial de semicondutores, o Japão tem 52%. O Japão, na realidade, tinha 27%.

Ethevaldo Siqueira: E vem crescendo.

Carlos Rocha: E os Estados Unidos tinham 57. Na década de 80, os Estados Unidos caíram de 57 para 35, caíram 22 pontos.

Ethevaldo Siqueira: E não investem tanto quanto o Japão, em ciência e tecnologia, em pesquisa.

Carlos Rocha: É verdade, é verdade.

Jorge Escosteguy: Senhor Carlos Rocha, antes de passar para o Wilson Moherdaui, eu tenho aqui um telefonema iradíssimo da senhora Alba Prado, aqui de São Paulo. Ela diz o seguinte: “Eu sou do consulado argentino e estou me sentindo injuriada. Estou me dirigindo a TV Cultura. Me aguarde o senhor Carlos Rocha”. [risos] O senhor fez um comentário sobre contrabando na Argentina. [risos]

Carlos Rocha: Não tive, aliás, nenhuma intenção de ofender a Argentina. Eu fiz uma constatação de informações que nós temos de órgãos que analisam fenômenos comerciais, nos diversos países. Aliás, a Argentina será um importante parceiro do Mercosul, não tivemos aqui oportunidade de discutir o Mercosul. Já tivemos uma realização muito importante em relação ao Mercosul, que foi construir com empresários argentinos e uruguaios, uma proposta integrada de diretrizes para uma política industrial de informática no Mercosul, baseada essencialmente em um investimento em tecnologia, em educação dos países, utilizando o poder de compra como instrumento, transparência, planejamento de longo prazo. Enfim, eu vejo que nós temos aqui um universo de diversos concorrentes.

Jorge Escosteguy: Para amenizar a irritação da dona Alba, o senhor diria que o brasileiro ainda faz mais contrabando que o argentino?

Carlos Rocha: Eu diria que faz muito mais. [risos] Eu diria que faz muito mais sim! Se uma autocrítica a deixa mais tranqüila, eu espero que eu não tenha...

[risos e sobreposição de vozes]

Jorge Escosteguy: Gostaria de lembrar aos telespectadores João Camilo Filho, de São Paulo, que já foi respondido a pergunta sobre contrabando, que é uma questão de polícia, e Edson Luiz Fernandes, também de São Paulo, sobre o Mercosul, que ele acabou de responder. Wilson Moherdaui, por favor.

Wilson Moherdaui: Provavelmente o brasileiro faz com muito mais talento também, não é?

Jorge Escosteguy: Bom, ela vai criar outro [...].               

[risos]

Wilson Moherdaui: Você anunciou publicamente, inclusive na entrevista à [revista] Informática Hoje, o seu apoio a um dos candidatos na eleição da Fiesp [Federação  das Indústrias do Estado de São Paulo], o empresário Emerson Kapaz. Essa é uma posição pessoal sua ou você está falando em nome da Abicomp e, portanto, da indústria da informática? Seja qual for a sua resposta, eu queria saber o que você espera da Fiesp? Que tipo de atuação a Fiesp pode ter em favor da indústria de informática?

Jorge Escosteguy: Essa pergunta é feita também pelo Cláudio Perez, telespectador aqui de São Paulo.

Carlos Rocha: Eu apoio Emerson Kapaz e apoio como empresário. Na realidade, a Abicomp é uma associação, ela não tem um sindicato filiado à Fiesp, portanto nós não temos uma posição de voto na Fiesp. Mas eu conheço o Emerson já há algum tempo...

[...] : Nem no Ciesp [Centro das Indústrias do Estado de São Paulo]?

Carlos Rocha: Como entidade não. Como existem diversas empresas da Abicomp que são filiadas ao Ciesp. E a nossa visão é que claramente as representações dos empresários têm sido muito mal conduzidas nos últimos anos. Essa carga tributária da qual eu reclamei subiu violentamente na última constituição e as lideranças empresariais não tiveram uma atuação competente para evitar que isso acontecesse. Outro ponto central é que o Emerson é uma pessoa compatível com a suas propostas, ou seja, ele tem um programa aberto, democrático, de participação do empresariado, que é totalmente ligado a sua história como empresário. O outro candidato, que é hoje o vice-presidente da Fiesp e do Ciesp, está lá há seis anos e nunca abriu as portas à participação dos empresários. Então eu não consigo ver como é que ele possa trazer modernização e maior participação do empresariado, se ele não fez isso nos últimos seis anos, e podia tê-lo feito. Por essa razão, eu apoio Emerson Capaz. 

Jorge Escosteguy: Senhor Carlos Rocha, nós estamos chegando ao final do nosso programa. Eu ainda tenho uma pergunta para lhe fazer, mas antes queria apenar ler quatro telefonemas de telespectadores que dão mais ou menos o perfil da reação deles ao programa; alguns irritados como o da dona Alba, outro irritado como o da Adauta Marinone, aqui de São Paulo, que diz que pegou muito mal o senhor dizer que cidadão de segunda classe é aquele que usa o computador estrangeiro. Paulo Coutinho, de Araraquara, telefonou para dizer que há oito meses comprou um monitor codec tailandês, que quebrou, a loja trocou por um Samsung coreano, que também quebrou, e vai ser trocado de novo. Portanto ele acha que o tailandês e o coreano não merecem ou merecem o mesmo crédito que o brasileiro. E aí duas moças, a Ângela Souza, de Campinas, e a Tereza Soares, do Cambuci, dizem que o senhor é muito jovem e gostariam de saber se o senhor é casado?

[risos]

Carlos Rocha: Vamos começando do fim então, que é mais fácil. Eu sou casado pela segunda vez e tenho quatro filhos: dois do primeiro casamento e dois do segundo casamento. Estou muito feliz casado, enfim...

Leda Beck: Quer dizer, não tem chance para uma terceira.

Carlos Rocha: No momento, não. Espero que não. Ela deve estar me assistindo, a minha esposa, pode ficar tranquila.

Jorge Escosteguy: Uma última pergunta. Então o senhor falou ainda no primeiro bloco, depois voltou a tocar nessa questão, sobre o conhecimento. Ou seja, o grande capital da humanidade, principalmente neste final de século, de milênio, é o conhecimento. Mais que matérias-primas, uma série de coisas, quem dominar o conhecimento, quem tiver informação vai ter melhores condições de desenvolvimento e progresso. Eu perguntaria ao senhor: até que ponto o Brasil ou a própria indústria de informática brasileira – o Stephen levantou a questão do software – está preparada ou está se preparando para essa disputa em torno do conhecimento? O senhor falou em educação, em investimento em educação etc.

Carlos Rocha: Sem dúvida alguma, Jorge, o conhecimento vai ser a chave do sucesso dos países. Quem investir em educação, quem investir em tecnologia vai ter uma chance de estar melhor posicionado no próximo século. O Brasil ainda não percebeu isso, isso está muito no discurso do governo e ainda muito pouco na prática. Setores de alta tecnologia como o setor de informática são setores que geram treinamento, que geram formação de pessoal, que geram tecnologia, se a política industrial para esse setores for bem conduzida. Foi assim que países como o Japão, como Coréia, como Taiwan, chegaram – e como os Estados Unidos – aonde chegaram. Se o Brasil quiser ter uma posição econômico-social positiva nos próximos anos, ele tem que ter uma política voltada para o investimento em educação e para o investimento em tecnologia.

Jorge Escosteguy: Nós agradecemos então a presença esta noite aqui no Roda Viva, do senhor Carlos Rocha, presidente da Abicomp, Associação Brasileira da Indústria de Computadores e Periféricos. Agradecemos também os companheiros jornalistas e os telespectadores. Lembrando mais uma vez que as perguntas que não puderam ser feitas ao vivo serão entregues ao nosso entrevistado após o programa.

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