Memória Roda Viva

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Wanderley Luxemburgo

23/1/1995

Além de falar sobre sua então futura relação com Romário no Flamengo, Luxemburgo defende a polivalência dos jogadores em campo e a participação empresarial no futebol

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[programa ao vivo, permitindo a participação dos telespectadores]

Milton Jung: Boa noite. Nosso entrevistado de hoje é um apaixonado por automobilismo, conhecedor de mecânica, amante da velocidade. Chegou a pensar em correr na Fórmula 1, mas acabou correndo no Circuito de Jacarepaguá [atual Autódromo Internacional Nelson Piquet], no Rio [de Janeiro], com fuscas e DKWs envenenados. Mas o destino dele estava traçado e não era o automobilismo, era o futebol. No centro do Roda Viva de hoje, [está] o técnico de futebol Wanderley Luxemburgo. Com 42 anos de idade, ele é natural de Tinguá, no estado do Rio. Luxemburgo foi lateral-esquerdo e, em 1980, iniciou uma carreira de sucesso como técnico de futebol. Foi campeão brasileiro pelo Bragantino em 1990, bicampeão paulista e bicampeão brasileiro em 1993 e 1994 pelo Palmeiras. Logo após ganhar seu terceiro título de expressão nacional, há cerca de um mês, Luxemburgo se transferiu para o Flamengo do Rio de Janeiro. O time, que tem uma das maiores torcidas do país, se não [for] a maior, e que também completa cem anos em 1995, fez uma das maiores contratações do futebol brasileiro: o atacante Romário. Na próxima sexta-feira, o treinador faz sua primeira grande partida pelo Flamengo, que é contra a seleção do Uruguai, um amistoso que marca também a estréia de Romário com a camiseta rubro-negra. Para entrevistar o técnico Wanderley Luxemburgo, convidamos os jornalistas: Juca Kfouri, diretor da revista Placar e comentarista da Rede Cultura; Sérgio Baklanos, repórter especial da Gazeta Esportiva; Oldemário Touguinhó, repórter especial do Jornal do Brasil; Melchiades Filho, editor de esporte da Folha de S.Paulo; Luiz Antônio Prósperi, repórter especial do Jornal da Tarde; Odinei Edson, narrador esportivo da TV Manchete; Milton Neves, âncora do programa Terceiro Tempo, da rádio Jovem Pan; e Ubiratan Brasil, repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo. Este programa é transmitido para 27 emissoras do sul ao norte do país, em rede nacional. Você também pode participar do Roda Viva fazendo perguntas pelo telefone (11) 252-6525. A Cristina, a Alessandra e a Ana anotarão as perguntas. Wanderley, boa noite. Primeiro, o grande interesse de todos é saber o que leva um técnico de futebol a deixar uma equipe bicampeã brasileira, com a infra-estrutura do Palmeiras e com o dinheiro da multinacional Parmalat [então co-gestora do futebol do Palmeiras], para ir para o Flamengo do Rio de Janeiro que, até pouco tempo, tinha uma dívida de 22, 23, 25 milhões de dólares e um time que ainda tem que ser estruturado.

Wanderley Luxemburgo: Muito boa noite. É um prazer participar do programa Roda Viva e rever os amigos que estavam no nosso dia-a-dia aqui em São Paulo. O que leva um treinador a trocar de clube é a proposta de trabalho, acima de tudo, e as pessoas. Quando eu saí do Palmeiras, comentavam isso que você está falando, de trocar o Palmeiras pelo Flamengo, que o Flamengo está com uma estrutura ruim nesses dois últimos anos, que o Palmeiras tem a estrutura da Parmalat, com sucesso em nível de time, um time muito forte e dando toda a condição de você desenvolver um trabalho. Só que todo mundo esquece que o Flamengo é grande, é um dos maiores clubes do país, é um clube conhecido mundialmente. Dificilmente o Flamengo consegue ficar tanto tempo sem conquistar e sem realizar um grande trabalho. Eu nasci no Flamengo, iniciei minha carreira no Flamengo, conheço a força dele. Na conversa que eu tive com o Kléber Leite [presidente do Flamengo entre 1995 e 1998], após o Campeonato Brasileiro, senti que nós poderíamos realizar um grande trabalho, que ele estava muito esperançoso e confiante. O convite foi feito e eu, sendo flamenguista... Em 1991, saí do Flamengo de uma maneira muito ruim, sai brigado com o clube, porque eu não concordava com a estrutura do Flamengo na época. Na minha saída, coloquei para amigos e para minha família que eu voltaria ao Flamengo, porque eu tinha realizado um trabalho... vamos dizer, eu roí o osso e os outros comeram o filé. Então, eu queria voltar ao Flamengo para dar continuidade a esse trabalho e nada melhor que voltar ao Rio de Janeiro, que é minha cidade, e realizar um trabalho no Flamengo.

Milton Neves: Agora, Wanderley, há uma outra versão e fica aqui a primeira pergunta - daqui a pouco a gente vai falar muito de uma palavra de sete letras: Romário -, mas eu queria saber o seguinte: o que você tem a dizer a respeito da informação ou insinuação de que prometeram a CBF [Confederação Brasileira de Futebol] a você? Eu, particularmente, entendo que o Zagallo não chega respirando no futebol até 1998 [ano de ralização da Copa do Mundo da França]. Será que você não trocou o Palmeiras porque, além do amor e da importância do Flamengo, prometeram em curto prazo a Seleção [Brasileira] a você?

Wanderley Luxemburgo: Mas há quanto tempo você trabalha comigo em São Paulo?

Milton Neves: Três, quatro anos, não é?

Wanderley Luxemburgo: Três ou quatro anos. E você conhece minha conduta?

Milton Neves: Perfeito...

Wanderley Luxemburgo: Jamais eu faria um acordo desses, porque sou um profissional sério e respeito os treinadores que lá estão. Se você vir alguma linha minha de comentários sobre o Parreira [Carlos Alberto Parreira, técnico da Seleção Brasileira em 1983, 1984, 1991, e de 2003 a 2006] durante a Copa do Mundo, o Wanderley não é ético. Se você vir alguma linha minha de comentários sobre o Zagallo, o Wanderley não é ético. Não faria um acordo desses, eu acho que o cargo de treinador de Seleção Brasileira é de competência, não de acordo e experiência.

Milton Neves: Eu não falo da questão ética, que eu respeito. Estou falando da questão até matemática, a proximidade em relação ao que acontece no Rio e da Rua da Alfândega, número 70 [antiga sede da CBF, no centro do Rio de Janeiro], que é onde está a CBF...

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] Eu vou continuar te respondendo...

Milton Neves: ...Parreira, Zagallo, Flávio Costa, Edu, Evaristo [de Macedo] e até [Sebastião] Lazaroni, o pior da história, Antoninho, Ernesto Paulo, Wendell, Nielsen [Elias], Toledo [enumera técnicos, treinadores e jogadores integrantes da Seleção Brasileira ao longo da história]. Quer dizer, o carioca é eternamente 80%, 70% do pessoal da comissão técnica da Seleção, sempre mais próximo da Seleção. Não estou dizendo que você fez um acordo ilegal ou imoral, estou dizendo que fica mais próximo para você, que é um sonho seu.

Wanderley Luxemburgo: Não, mas você falou anteriormente que foi um acordo, que eu já havia conversado algo antecipadamente para que eu fosse para a Seleção Brasileira...

Milton Neves: Foi uma pergunta que eu te fiz.

Wanderley Luxemburgo: Uma pergunta, né? E eu estou te respondendo. Não sou homem de acordo, sou homem de trabalho. Acho que a competência do treinador o leva, o conduz à Seleção Brasileira, não pode ser diferente. E você mostra a competência no Palmeiras, no Flamengo, no Bragantino... Isso normalmente te coloca em nível de uma Seleção Brasileira. Eu sempre falo que eu vou ser treinador da Seleção Brasileira, não sei quando. Eu estou me preparando para isso. Se você pegar o crescimento da minha carreira, vai me colocar na Seleção Brasileira, mas nunca com esse tipo de comportamento de acordo ou então de estar no Rio de Janeiro por estar mais próximo à CBF. Pelo contrário, o que coloca um treinador na CBF é a realização de seu trabalho, aquilo que ele faz ao longo de um campeonato, ao longo de sua carreira.

Milton Jung: Seu Wanderley, o senhor acha que já tem trabalho suficiente para chegar à Seleção Brasileira? Porque quando você saiu do Bragantino, era campeão paulista e todos esperavam que pudesse chegar ao título brasileiro. O senhor deixou o Bragantino e foi para o Flamengo dizendo que pretendia pegar um clube maior para ter experiência e chegar à Seleção Brasileira. Vendo uma pesquisa de todas as suas entrevistas, é uma das coisas que o senhor mais fala: o sonho de chegar à Seleção. Hoje o senhor já tem esse trabalho?

Wanderley Luxemburgo: Preste bem atenção: não é um sonho, é uma coisa que acho que vai acontecer naturalmente. As pessoas estão acostumadas a se resguardar um pouco nesse sentido, de não falar aquilo que acham que vai acontecer. Eu acho que minha carreira na Seleção vai acontecer naturalmente. Em 1990, quando eu estava no Bragantino, eu saí de lá porque eu senti que poderia ser convidado naquela época. E eu não estava preparado para ser o treinador da Seleção naquela época. Para você ser treinador da Seleção Brasileira, você tem de ter respaldo nacional, você tem que realizar um trabalho. E o trabalho do Bragantino não me dava suporte para ser o treinador da Seleção Brasileira, eu não estava realmente preparado. Hoje, eu trabalhei no Flamengo, no Guarani, na Ponte Preta, no Palmeiras, eu acho que já tenho uma experiência muito maior. Ao longo do tempo, haverá mais campeonatos pela frente, mais essa passagem pelo Flamengo, outros clubes que eu possa dirigir, tudo isso vai me preparar muito mais para, se um dia for convidado, poder ser o treinador da Seleção. E se [isso] não acontecer, isso não vai mexer em nada na minha vida, não é uma obsessão, uma coisa extremamente...

Milton Jung: [interrompendo] Não é uma obsessão?

Wanderley Luxemburgo: Não, é algo que eu acho que vai acontecer. Eu falo aquilo que eu acho que vai acontecer, assim como eu falei que achava que ia dirigir o Palmeiras ou o São Paulo. Fiquei dois anos e meio no Bragantino, porque eu achava que isso ia acontecer naturalmente na minha carreira...

[sobreposição de vozes]

Juca Kfouri: Eu só queria pedir desculpas, antes de mais nada, que eu queria fazer uma pergunta, mas não é para você não... E pedir desculpas também a você, Milton, mas é porque aqui nos bastidores do Roda Viva a gente teve uma informação tão feliz e tão surpreendente! Eu queria que o Odinei Edson contasse isso a todos que estão preocupados com a saúde do Osmar Santos [Consagrado narrador esportivo brasileiro. Ficou conhecido por usar vários jargões na narração dos jogos, entre esses, "ripa na chulipa" e "pimba na gorduchinha". Em 1994, sofreu um acidente que deixou o lado direito do corpo paralisado]. O que aconteceu hoje é a grande notícia do dia para as pessoas que gostam dele.

Odinei Edson: É, a gente está em um clima bastante otimista, pelo menos hoje, porque a gente passa por um momento bastante delicado com o estado de saúde do Osmar. Osmar teve um acidente recentemente, no último dia 22 de dezembro, e vem numa luta pela vida muito grande, mas com o carinho e com essa força de vontade... Sei que é muita gente que gosta dele, a gente recebe ligações de toda parte do território brasileiro. A gente vem com essa luta, com essa batalha, com essa experiência de vida realmente bastante difícil. E hoje, a gente teve uma notícia bastante agradável. Recentemente, já vimos seu primeiro contato com os filhos, ele teve um reconhecimento. Mas hoje foi mais uma prova de que ele realmente está voltando para a gente, até me emociona muito quando eu lembro dele acariciando os filhos, beijando, mostrando que realmente está retornando pra gente...

Milton Jung: [interrompendo] Lembrando que Odinei Edson é irmão de Osmar Santos, narrador reconhecido nacionalmente que teve um acidente há pouco tempo. Mas...

Juca Kfouri: [interrompendo] Agora deixa eu pegar o Wanderlei aqui de jeito! Wanderley, você é uma pessoa que fala as coisas que sente, fala as coisas do jeito que você as vê. Recentemente, e não tão recentemente - os arquivos da TV Cultura são implacáveis - você deu uma entrevista para o Jornal do Brasil em outubro, em que você dizia que o Caixa D’Água, que vem a ser o presidente da Federação Carioca de Futebol, até hoje não fez nada pelo futebol e que estava na hora de começar a fazer. Essa birra do Caixa D’Água e do Eurico Miranda, que são frente e verso da mesma moeda... Você não teme que, vingativo como é o Caixa D’Água e apoiado pelo Eurico Miranda, dirigente do principal adversário do Flamengo [refere-se ao Vasco da Gama], você tenha problemas no Campeonato Carioca por causa de esquemas tão falados no Rio de Janeiro, com arbitragem e tudo mais?

Wanderley Luxemburgo: Eu acho que não posso ter nenhum problema, não é? Quem pode ter é o Flamengo, mas aí os dirigentes têm que tomar contar dessa parte. O que eu falo é o seguinte: o Eurico Miranda é uma pessoa que eu gosto muito, tenho um carinho muito grande por ele, ele é o melhor dirigente de clube, ninguém defende o clube como ele defende. Só que para o futebol brasileiro ele é ruim, porque prejudica o futebol por defender tanto o Vasco da Gama. Se ele colocasse esse conhecimento dele para defender o futebol em geral, o futebol brasileiro, ele poderia ser um grande dirigente, só que ele defende o Vasco e esquece que há outras coisas inerentes ao futebol que ele pode também participar. Quanto ao Caixa D’Água, eu sempre acho que ele é uma pessoa... Eu o chamo de "Doutor Silvana, o gênio do mal" [faz referência ao vilão dos quadrinhos do Capitão Marvel], porque ele é muito inteligente, mas só faz as coisas no sentindo de prejudicar o futebol carioca. Não o conheço pessoalmente, eu falo aquilo que eu vejo, mas nunca conversei com ele. A administração dele no futebol carioca dos últimos anos não foi boa.

Juca Kfouri: Você imagina a hipótese de ele mandar esburacar de novo o campo do Americano [Americano Futebol Clube] para o Romário não poder jogar futebol direito lá?

Wanderley Luxemburgo: Eu não sei.

Juca Kfouri: Ele já fez isso, não é?

Wanderley Luxemburgo: Já fez, quer dizer, essas coisas podem... Eu não acredito que isso vai acontecer, porque eu acho que o astral do Rio de Janeiro está tão bonito, não só de futebol, mas a cidade está esperançosa de crescimento em um todo. O povo carioca é muito sofrido com esses problemas sociais. É difícil você viver sua vida normalmente, e agora está tudo assim em um crescente... Acho que essas pessoas que possam prejudicar vão ser tão pequenas no processo, que não terão condições de fazer nada.

[sobreposição de vozes]

Oldemário Touguinhó: Wanderley, é bom deixar bem claro o seguinte: nós temos um bando de cartolas [dirigentes ou associados que financiam ou administram os times e que influem, por exemplo, nas decisões de contratação de jogadores] incompetentes nos clubes. Eles é que fazem toda a bagunça, toda a balbúrdia, toda a desorganização no futebol até hoje. É muito mais fácil debitar essa desordem ao presidente de Federação, porque ele, pelo menos no Rio de Janeiro, não manda absolutamente em nada, nunca mandou, tanto que o antigo Antonio do [...] era chamado de "vaquinha de presépio", porque concordava com tudo. Os dirigentes são irresponsáveis, incompetentes, aproveitadores. Grande parte deles vive às custas dos clubes de futebol, inclusive isso não é muito longe...

Milton Jung: [interrompendo] Oldemário, só para a gente agilizar, qual seria mesmo a sua pergunta?

Oldemário Touguinhó: Ele está citando o caso do Rio de Janeiro. Estou avisando que não há interferência do Caixa D’Água de mandar esburacar o campo do Americano, porque se ele mandasse esburacar, depois ele teria que mandar botar no lugar. O Americano não se classifica nunca.

Milton Jung: Wanderley, você pensa da mesma maneira?

Wanderley Luxemburgo: Não, eu acho que o dirigente do...

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Hoje, para você ter uma idéia, o Caixa D’Água está lá...

Milton Jung: [interrompendo] Oldemário...

Oldemário Touguinhó: Espera aí um instantinho, o Caixa D’Água está lá, o Eurico Miranda está lá, os dois no mesmo campo. Nós estamos com a previsão de um campeonato sensacional, por quê? Porque esses campeonatos são feitos pelos clubes, então eu sou contra se debitar uma irresponsabilidade a outras pessoas, quando o mesmo  Caixa D’Água está lá, o mesmo Eurico Miranda está lá; e o Romário, Manoel, José, João, Joaquim... Eles são cartas fora do baralho, os dirigentes não jogam culpa em Federação, eles é que são aproveitadores.

Wanderley Luxemburgo: Só que eu fui perguntado sobre o Eduardo Viana [cujo apelido é Caixa D'Água] e o Eurico Miranda, respondi sobre as duas pessoas. Se o Juca me perguntasse o que eu acho dos dirigentes do futebol brasileiro, responderia que não só existe um Caixa D’Água...

Juca Kfouri: [fala simultânea] É que eu queria complicar você só um pouquinho, não muito! Só [falar] do Campeonato Carioca, não do nacional...

[risos]

Wanderley Luxemburgo: ...mas existem outros dirigentes que ajudam e contribuem para que o futebol no todo seja ruim, não só o futebol carioca. O Eurico é uma pessoa que eu gosto, sinceramente, e eu acho que é o melhor dirigente de clube, o que ele defende o Vasco da Gama ninguém consegue. Uma vez, contra o Palmeiras, ele não botou o time em campo, nós ganhamos por W.O. [ou walkover, em inglês. É quando a vitória é atribuída a um time, cujo adversário não entrou em campo]. Depois, ele falou que ia haver o jogo. E houve o jogo, entendeu?

Milton Jung: Ubiratan Brasil tinha uma pergunta?

Ubiratan Brasil: Tenho. Ainda falando sobre dirigentes, como vai ser para você lidar com o Kléber Leite, que é uma pessoa que está demonstrando... Qual ego vai ser mais difícil lá no Rio: Romário ou Kléber Leite?

Milton Jung: Lembrando aos telespectadores que o Kléber Leite é o novo presidente do Flamengo.

Wanderley Luxemburgo: Olha, sem nenhum problema. No Palmeiras... A minha maneira de ser é dessa forma, não consigo ser diferente, nós discutíamos nossos problemas numa mesa, numa reunião. Não sou o dono da verdade, nós discutíamos. No primeiro contato que eu tive com o Kléber, um empresário bem sucedido - e eu o conheci também jovem, como jornalista, como repórter de campo - ele mostrou toda essa sensibilidade de ter que conversar para as coisas serem resolvidas. O Romário é um jogador que, inclusive, eu conheço não do futebol, mas há mais tempo, porque ele morava no mesmo bairro que eu. Ele é um ser humano, você tem que respeitar o ser humano. O atleta é outra coisa. O primeiro contato que eu tive com o atleta profissional Romário [foi] sem nenhum tipo de problema, então eu acho que só ao longo do tempo é que você vai dizer se vai haver problema ou não. Acredito que não, porque...

Odinei Edson: [interrompendo] Essa "escola" [refere-se à experiência por ter trabalhado com o jogador] do Edmundo [Conhecido por seu temperamento difícil. Ver entrevista do jogador Edmundo no Roda Viva] vai te deixar mais tranqüilo para trabalhar com o Romário?

Wanderley Luxemburgo: Não, se você buscar o passado, eu nunca puni o homem Edmundo, o ser humano Edmundo. O profissional Edmundo é que puniu o ser humano Edmundo. Eu puni o profissional Edmundo, porque minha função era essa. Tenho meus direitos e ele invadiu meus direitos como profissional...

Odinei Edson: A gente sabe que os dois, Edmundo e Romário, têm um pouco de indisciplina, não é? Como você diferencia essas indisciplinas?

Wanderley Lunxemburgo: Eu não vou mudar o meu comportamento, eu sou comandante.

Odinei Edson: [interrompendo] Não, do Romário e do Edmundo.

Wanderley Luxemburgo: Então, eu vou mudar meu comportamento, eles vão se encaixar na minha filosofia. Sou contratado pelo Flamengo para ser técnico, então eu tenho minha filosofia de trabalho, que o Flamengo acredita ser muito boa, por isso ele me contratou. Romário, Branco [Então lateral esquerdo do Flamengo. Estava na Seleção Brasileira de 1994, campeão da Copa do Mundo. Mais tarde, tornou-se dirigente], foram contratados como jogadores do Flamengo, então eles vão se encaixar naturalmente na minha filosofia, mas sem radicalismo, sem extremismo, simplesmente com profissionalismo.

Milton Neves: [interrompendo] Wanderley, eu estou com a [revista] Veja aqui, que traz uma entrevista belíssima, por sinal, com o Romário. Entre outras coisas, ele diz o seguinte: “A imprensa não entende de futebol, 60% dos jornalistas escrevem coisas que dão até pena”. Aí a Veja pergunta: “Romário, e a torcida entende de futebol?”, e ele responde: “De todos os envolvidos no mundo do futebol, a torcida é quem mais entende e a que mais sofre, porque ela paga para ver. O jogador tem que estar preparado tanto para ser vaiado como para ser cobrado. Eu, Romário, aceito mais a cobrança do torcedor do que do treinador”. Eu pergunto a você: o Romário, sete letras explosivas e talentosas, é muito mais jogador do que o Edmundo, mas nos maus momentos ele é mais explosivo do que o Edmundo. Você não teme, em eventuais maus momentos do Romário, você lembrar do Edmundo, que é um seminarista em relação ao Romário com seus problemas?

Wanderley Luxemburgo: Não posso responder isso hoje, sinceramente não dá para responder...

Juca Kfouri: [interrompendo] Wanderley...

Wanderley Luxemburgo: Não dá para te responder isso hoje, os problemas têm que acontecer para você dizer, não é? Você está antevendo alguma coisa que não tem como eu te responder agora. Quando acontecer o problema, você me pergunta e eu te responderei.

Milton Neves: Há algo concreto que ele fala para Veja: "Aceito mais a cobrança do torcedor do que do treinador”. O que você acha disso?

Wanderley Luxemburgo: É um pensamento dele.

Milton Jung: [interrompendo] Wanderley, vários telespectadores que estão em casa...

Wanderley Luxemburgo: Esse é um pensamento do Romário e não meu. Se eu tivesse falando isso, tudo bem, mas quem está falando é o Romário. No entender dele, o torcedor representa mais do que o treinador, mas isso é um pensamento dele, é o que ele pensa.

Milton Jung: Só para chamar a atenção [para os] telespectadores que estão ligando, a grande maioria dos fax e telefonemas é de torcedores que falam sobre como lidar com o Romário. É o caso do Paulo Barros, de Santana, e Paulo Moreira, de Limeira, que chega a dizer que gostaria de vê-lo dançando uma lambada, pois para se livrar do Edmundo e pegar o Romário tem que ter muito jogo de cintura...

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] Mas eu sou bom de lambada!

Milton Jung: E  também o Roberto, de Sorocaba; Rodrigo, de São Paulo; Antônio Carlos Ferrari, de Ibitinga; Gilson Santos, de Porto Alegre; o Edson Scarelli, do Jabaquara. A grande maioria das perguntas é exatamente sobre isso: como administrar o Romário, que é considerado um jogador explosivo e bastante polêmico.

Wanderley Luxemburgo: Sem problema nenhum. Já disse, vou tratar do meu lado profissional, não vou mudar a minha maneira de ser em função do Romário. Tenho certeza que o Romário vai se encaixar nessa filosofia, porque ele vai entender que é a filosofia do clube. Estamos antevendo algo que não dá para eu dizer agora. Nosso relacionamento vai ser com respeito recíproco, como sempre fiz na minha vida...

Juca Kfouri: [interrompendo] Você gostaria de dirigir um time cujo ataque tivesse...

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] Eu gostaria de ter o Edmundo no meu time agora!

Juca Kfouri: [interrompendo] Garrincha, Edmundo, Romário e Mário Sérgio, por exemplo?

Wanderley Luxemburgo: Gostaria de ter o Edmundo no meu time agora, com certeza eu gostaria de ter o Edmundo.

Luiz Antônio Prósperi: Wanderley, eu gostaria de voltar um pouquinho à questão do Flamengo. Você está assumindo agora e há uma postura de que o Flamengo representa a redenção do futebol carioca. Em algumas entrevistas, você chegou a afirmar estava indo também para o Rio para tentar ajudar nessa recuperação do futebol. Sua responsabilidade não aumenta nisso aí? Se, por acaso, acontecer um fracasso, quem vai sair perdendo mais não é você?

Wanderley Luxemburgo: Não, se todo mundo pensar dessa forma não vai haver crescimento em qualquer setor de atividade. O meu é o futebol, tenho que pensar em grandeza, senão fico em casa.

Sérgio Baklanos: Wanderley, deixa eu desenvolver a pergunta do Prósperi. O problema é o seguinte: os antecedentes do Rio é que chocam a gente. O Flamengo teve problemas, a acusação do Jorge [...], com os 15% do Zico [Arthur Antunes Coimbra, ex-jogador de futebol considerado um dos maiores meio-campos do mundo. Ajudou o Flamengo a conquistar a Taça Libertadores da América e fez parte das Seleções Brasileiras de 1982 e 1986] naquela transferência, o Márcio Braga, que foi presidente do Flamengo, foi acusado de viajar para o Rio...

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] O Palmeiras também tinha um presidente que deu calote em jogador...

Sérgio Baklanos: [interrompendo] Espere um pouquinho, eu vou dizer, estou descrevendo o perfil dos dirigentes. Ele [Márcio Braga] cobrava diária quando vinha de Brasília para o Rio, depois teve que devolver, uma série de problemas. O Flamengo deve 25 milhões de dólares, inclusive eu tenho informação de que você só foi para o Flamengo com a garantia de que seu salário seria respaldado pela [cervejaria] Brahma e pela Traffic [empresa brasileira de marketing esportivo que atua no Brasil, América Latina e Estados Unidos]. Gostaria que você também desenvolvesse esse tema, esse desafio do Rio de Janeiro, o problema futuro, pois até agora está tudo igual...

Wanderley Luxemburgo: Quem passou essa informação para você está errado, seu informante está bem equivocado. Eu não aceitaria um negócio desses...

Sérgio Baklanos: Qual?

Wanderley Luxemburgo: Meu salário ser pago pela Brahma ou por outra pessoa. Não tem nada a ver, eu sou contratado do Flamengo, assim como era contratado do Palmeiras. Quanto ao problema que você está falando do Flamengo ou do dirigente do carioca, no caso, o Palmeiras também teve um problema com um dirigente...

Luiz Antônio Prósperi: [interrompendo] O São Paulo também.

Wanderley Luxemburgo: O São Paulo também...

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] O presidente do São Paulo mais vitorioso dos últimos anos [José Eduardo Mesquita Pimenta] está afastado do clube! [por denúncias de recebimento ilegal originado da transferência de jogadores ao exterior]

Wanderley Luxemburgo: Oldemário, deixe-me concluir minha linha...

Sérgio Baklanos: [interrompendo] Mas é exatamente por isso que eu fiz a pergunta. Não estou dizendo que é privilégio do Rio...

Wanderley Luxemburgo: Deixa eu te responder, deixa eu te responder. Essas coisas pertencem ao clube, não é? Mas eu acho que estão acabando, porque está havendo uma valorização do profissional. As empresas estão chegando ao clube, porque elas entendem que, através do clube, pode haver um retorno. Então, essas coisas estão acabando, todos esses processos retrógrados, arcaicos, antigos do futebol estão inexistindo, vão acabar, está certo? E eu acho que é um grande momento para você estar no Rio de Janeiro. Eu sempre digo - quem me conhece há bastante tempo sabe - que minha proposta não é só tirar proveito do futebol, é construir alguma coisa para o futebol. E, quando você vai construir alguma coisa, você tem que se expor. Indo para o Rio de Janeiro, eu sei que eu estou me expondo... O Wanderley foi bicampeão brasileiro, bicampeão paulista, numa posição privilegiada, poderia estar disputando uma Libertadores [Copa Libertadores da América, principal competição entre clubes de países da América do Sul e México, realizada anualmente] e chegar a Tóquio [onde era realizado um torneio interclubes tido como campeonato mundial], que é o que todo treinador quer, mas eu acho que o desafio - não vamos falar desafio - o grande momento da minha carreira é poder dirigir o Flamengo e, com isso, ressurgirmos com um futebol carioca forte, para quê? Para a grandeza do futebol brasileiro, não só do carioca, porque se São Paulo está forte, Rio de Janeiro forte, o futebol brasileiro está crescendo com isso. Para você ter desafios, é preciso encarar isso e se expor, senão você fica em casa, você não vai trabalhar em um grande clube... Eu até cito uma frase muito boa para meus jogadores: “O medo de perder tira a vontade de ganhar”. Se eu tiver medo de sair de casa porque o carro vai passar por cima de mim, eu vou ficar dentro de casa.

Odinei Edson: Wanderley, na sua saída do Palmeiras, [ficou] alguma mágoa com algum dirigente do Palmeiras?

Wanderley Luxemburgo: Não, em absoluto, eu não guardo mágoa de ninguém. Eu aprendi na minha vida a não guardar mágoa.

Milton Neves: Nem com o presidente [Mustafá Contursi, presidente do clube entre 1993 e 2005], que teria dito que você não tem condição de dirigir a Seleção?

Wanderley Luxemburgo: Já respondi isso diversas vezes. O presidente do Palmeiras sempre me respeitou e eu o respeitei. Agora, a pessoa do Mustafá Contursi achou que eu não estou preparado para dirigir a Seleção Brasileira...

Odinei Edson: Ele nega isso, hein, Wanderley!

Wanderley Luxemburgo: Mas há pessoas ligadas a ele que... A gente sabe disso, vocês têm informantes, nós também temos. Essas pessoas ligadas a ele que falaram.  Só que ele nunca falou para mim e também não precisa falar, porque não é o caso, é um direito que ele tem de achar que eu não estou preparado. Mas, como treinador do Palmeiras, ele sempre me respeitou...

Milton Neves: [interrompendo] Mas quando ele falou isso?

Wanderley Luxemburgo: Mas me deixa concluir minha linha de raciocínio, depois você me pergunta. Então, todas as vezes que o Wanderley esteve ameaçado externamente - dentro do clube eu nunca estive ameaçado -, e que surgiu esse tipo de comentário, ele foi a primeira pessoa que veio conversar comigo e falou: “Olha, professor, não existe nada disso”. Respeito muito o presidente do Palmeiras, mas a opinião pessoal do Mustafá Contursi é dele, eu respeito também. Se ele acha que não estou preparado, é um direito que ele tem.

Milton Neves: Mas quando ele falou que você não tem condições?

Wanderley Luxemburgo: Na Copa do Mundo [1994].

Milton Neves: Durante a Copa, no meio do ano. Mas você ainda ficou mais seis meses no Palmeiras. Por que você não saiu do Palmeiras quando o presidente falou isso?

Wanderley Luxemburgo: Porque eu respeito os meus compromissos. Se você pegar o Bragantino, vai ver que eu respeitei os meus compromissos até o final. E tive proposta do São Paulo, do Palmeiras, do Corinthians, do Flamengo, do Vasco, e fiquei dois anos e meio no Bragantino. Todas as vezes que eu dirijo um clube, procuro respeitar meus compromissos para mudar o comportamento do treinador de futebol. Todo treinador reclama que não tem tempo para trabalhar ou que o dirigente o manda embora por três derrotas, mas ele esquece que, quando ele está dirigindo um time pequeno, mesmo com um planejamento, se receber uma proposta melhor, ele também larga o clube na mão. Acho que o respeito tem que ser recíproco, você tem um compromisso, você tem que ficar até o final. Não saí do Palmeiras tendo uma proposta para dirigir uma seleção do Oriente...

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Wanderley...

Wanderley Luxemburgo: Porque eu quero mudar, quero acrescentar alguma coisa ao futebol...

Milton Neves: [interrompendo] Não é crítica a você, mas foi mais um "sapo que você engoliu", e agora campeão, ganhou tudo...

Wanderley Luxemburgo: [demonstra exaltação] Não, mas "engoli sapo", Milton? Isso na tua ótica...

Milton Neves: Você disse para mim na [rádio] Jovem Pan que era você ou o Edmundo. Insinuou, em outras palavras, mas continuou...

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] Isso na sua ótica...

Milton Neves: Calma, não é crítica! Deixa só eu concluir minha pergunta, depois você responde...

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] Não, isso é crítica, é uma inverdade sua!

Milton Neves: Imagine o seguinte: para a Parmalat, o passe de um jogador é como teta de vaca, é uma questão de custo, então ela não aceitou que o Edmundo fosse colocado no ostracismo, porque ela teria prejuízo. É uma opinião minha.

Wanderley Luxemburgo: Isso é o que você pensa!

[sobreposições de vozes]

Wanderley Luxemburgo: [demonstra irritação] Você vai deixar eu falar? Você está falando uma inverdade, uma inverdade...

Milton Neves: Você "engoliu alguns sapos" e na hora certa, "vomitou um brejo" no Palestra Itália?

Wanderley Luxemburgo: Eu não "engoli sapo", eu "não engoli sapo"...

Milton Neves: É um elogio, não é crítica.

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] Eu não sou homem de "engolir sapo". Você não sabe como o Palmeiras foi administrado. Você fica na sua rádio lá em cima e não vai lá para conversar, então você não pode falar de um fato que você desconhece. Em momento algum eu "engoli sapo" no Palmeiras, nós discutimos com inteligência, quem sugeriu a reentrada do Edmundo no Palmeiras fui eu, se você quer saber, porque eu achava que ele já tinha sido punido.

Oldemário Touguinhó: Wanderley, só uma observação aqui, é o seguinte: você mesmo explica que não foi feito nenhum acordo com o Kléber sobre você estar com ele e, portanto, com meio caminho andado para a Seleção. Todo mundo sabe que hoje o Kléber Leite é o homem da maior influência junto ao presidente da CBF. O presidente da CBF não faz nada sem perguntar ao Kléber Leite se ele concorda ou não, ninguém tem dúvida disso. Você está dizendo [que] é uma seqüência de trabalho do treinador que faz com que ele chegue à Seleção automaticamente. Está claro que você indo para o Flamengo, fazendo um belo trabalho no Flamengo, que eu espero que aconteça - mesmo se puder perder para o Botafogo, que não seria nada demais, mas um belo trabalho - isso seria, de fato, um caminho para a Seleção, porque você já estando aqui, cada vez que trabalhar melhor, maior a oportunidade para você...

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] Mas isso não quer dizer que se eu tivesse...

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Você não admite que estando bem no Rio de Janeiro, fazendo um bom trabalho com o Flamengo... Quer dizer, o Kléber Leite é o dono do clube, de repente ele tem todo esse potencial, essa força toda. Você não acha que isso poderá ajudar a ter alguma influência no futuro para você?

Wanderley Luxemburgo: Claro que o Flamengo coloca um treinador na Seleção Brasileira, mas ninguém diz também que se eu tivesse saído do Palmeiras para o Corinthians, eu não adquiriria o mesmo direito. Essa que á a grande realidade.

Oldemário Touguinhó: E outra coisa: o Romário acabou de ser contratado, o Romário jogador e o Romário garoto-propaganda. Até agora nós estamos convivendo com um garoto-propaganda, porque ele ainda não entrou no campo para jogar, ele vai jogar com a camisa 1, 101, 17 mil, mas não há o Romário para entrar em campo. Como o treinador Wanderley Luxemburgo, que já quer armar o time para jogar o campeonato estadual, vê essa situação? Você gostaria já de ter o Romário para o primeiro jogo do campeonato ou até quando você vai aguardar essa liberação do Kléber para poder escalar o Romário no teu time?

Wanderley Luxemburgo: Preste bem atenção, é por isso que digo que futebol tem que ser discutido, conversado com inteligência. O Romário foi um custo altíssimo, então eu não posso impedir o dirigente do Flamengo de ganhar um milhão e duzentos [mil reais] ou um milhão e meio em um jogo que ele vai fazer na sexta-feira...

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Em um jogo, perfeito.

Wanderley Luxemburgo: E o dirigente do Flamengo sabe também que o Romário foi contratado para jogar, então essas coisas têm que ser conversadas com inteligência, o caminho do futebol é esse. Não adianta eu, com radicalismo, falar que quero que o Romário jogue amanhã e o clube deixar de faturar uma soma importante que vai aliviar na sua contratação...

Juca Kfouri: Para quem acabou de dizer que está otimista em relação ao futuro do nosso futebol com a entrada das empresas, você acha que faz ainda algum sentido obrigar um jogador, cujo investimento foi de quatro milhões e meio de dólares, a jogar na Rua Bariri [nome popular do Estádio Mourão Vieira Filho, que pertence ao Olaria Atlético Clube, do interior do Rio de Janeiro], em Campos, em Bauru, em Lajeado?

Wanderley Luxemburgo: Mas aí é o estado do Rio de Janeiro, é diferente de São Paulo. O palco do futebol carioca sempre foi o [Estádio do] Maracanã, não tem jeito, porque os clubes do interior são Campos, Itaperuna, agora saiu o Alagoana...

[sobreposição de vozes]

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] Como aqui havia o Catanduvense, Araçatuba, essas coisas...

Juca Kfouri: [interrompendo] A pergunta é a seguinte: você ainda acha que faz sentido o campeonato estadual?

Wanderley Luxemburgo: Eu acho que é a realidade do futebol carioca, o palco do futebol do Rio de Janeiro sempre foi [composto] pelos quatro grandes clubes [Botafogo, Vasco da Gama, Flamengo e Fluminense], mais o América. Os outros eram coadjuvantes. A decisão, os jogos finais sempre foram no Maracanã, não tem jeito, não vão conseguir mudar...

Juca Kfouri: [interrompendo] Quer dizer, tem razão o dirigente que quiser por o Romário no Maracanã.

Wanderley Luxemburgo: O estado do Rio de Janeiro é diferente do estado de São Paulo. O interior de São Paulo é muito forte, qualquer cidade consegue armar uma equipe forte e fazer um estádio muito bom para se jogar futebol. No Rio de Janeiro, hoje, a capital está ruim... imagine o interior do Rio de Janeiro como está!

Juca Kfouri: Então você concorda que o melhor é preservar o Romário e [colocá-lo] para jogar onde ele vá...

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] Ele não vai ser preservado não, acho que ele vai ter que jogar na Rua Bariri, vai ter que jogar na...

Oldemário Touguinhó: É isso que eu queria saber.

Wanderley Luxemburgo: Não, ele vai ter que jogar, não tem nenhuma preservação, Oldemário, não tem isso no futebol. Ele foi contratado para jogar no Flamengo e o Flamengo vai ter que jogar em [...], vai ter que jogar... Acho que as pessoas não estão querendo entender que existe hoje um processo mais inteligente, que é de conversar e trazer recursos para o clube, senão ninguém consegue sobreviver fazendo... Como se traria o Romário para o futebol brasileiro se não houvesse o recurso das empresas, se não pudessem usar a imagem do jogador? Nunca traria. Amanhã, outras empresas vão poder trazer o Bebeto, o Mauro Silva [jogadores da Seleção Brasileira tetracampeã em 1994], vão trazer os grandes jogadores de volta e você vai poder manter... Ninguém está analisando que essa contratação do Romário foi um benefício muito grande para o futebol brasileiro, porque mostrou às empresas que [é possível] investir no futebol. Com isso, você pode não deixar os jogadores saírem, você pode já mantê-los no Brasil...

[sobreposição de vozes]

Oldemário Touguinhó: Wanderley, só duas observações, um minutinho só...

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] Deixa só eu terminar a minha linha de raciocínio! Você vai entender que o futebol brasileiro vai ficar cada vez mais forte, porque hoje você está buscando esses jogadores fora do Brasil com recursos das empresas. Elas vão sentir que podem investir e esse investimento vai fazer com que... O clube sozinho, hoje, não consegue...

Milton Jung: [interrompendo] Essa privatização do futebol, entre aspas, é a solução para o futebol brasileiro?

Wanderley Luxemburgo: Claro, com certeza, senão você não consegue...

[sobreposição de vozes]

Milton Jung: Só lembrando que vários telespectadores estão ligando. Vários estão te elogiando, elogiando o seu trabalho no Palmeiras, dizendo que gostariam que o senhor voltasse. Lembrando ao José Figueiredo, de Batatais, que o Wanderley Luxemburgo já respondeu se ele teria vontade de ser técnico da Seleção Brasileira, ao Luiz Augusto Araújo, de Araraquara, que o Wanderley também já respondeu sobre seus problemas e soluções de relacionamento com os dirigentes do Palmeiras. Vários torcedores também querem saber se você continua com sua idéia de formar no Flamengo uma escolinha para jogadores entre 18 e 19 anos. Essa é a pergunta do Olavo Falavinha, do Brooklin, São Paulo. O Mário Classenco quer saber também se você poderá executar finalmente, no Flamengo, o trabalho nas equipes inferiores, como você queria no Palmeiras.

Wanderley Luxemburgo: Essa foi uma das coisas...

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Só para completar aquele raciocínio que foi interrompido, eu queria justamente falar o seguinte: eu acho que tem que se fazer tudo isso para o Romário, desde que não haja interferência no lado esportivo da competição. Se tu começar a achar que o Romário só pode jogar uma grande partida, que não [deve disputar] campeonato com time pequeno, aí eu defendo isso, então vamos fazer só com o [Campeonato] Brasileiro, porque só isso seria jogo importante...

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] Mas quem falou para você que vai ser dessa forma?

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Calma aí, só um instantinho! Sabe porque [tenho] medo? Porque no momento em que se começar a fazer o marketing, as promoções e a publicidade, minha preocupação é que se repita o que aconteceu na Copa do Mundo [1994, realizada nos Estados Unidos]: a necessidade de marketing e publicidade. A Fifa [Federação Internacional de Futebol] organizou um campeonato em um país onde não havia futebol, meu medo é daqui a pouco você transformar o esporte em uma competição de marketing. "Eu vou levar o meu atleta, se tu não levar o teu, eu não coloco meu time em campo"...

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] Oldemário, mas quem falou para você que o Romário não vai jogar na Rua Bariri?

Milton Jung: [interrompendo] Wanderley, Oldemário...

Oldemário Touguinhó: Cada dia tem um show para ele!

Wanderley Luxemburgo: O Romário vai jogar... Como é? Show de quê?

Oldemário Touguinhó: Agora vote aí para ver se ele vai jogar com a camisa 1 ou com a camisa 101! [ironizando]

Juca Kfouri: Fui eu que disse que é um absurdo ele jogar na Rua Bariri. Ele tem que jogar no Beira-Rio [estádio pertencente ao Sport Clube Internacional, de Porto Alegre], Pacaembu [estádio pertencente à Prefeitura de São Paulo], Maracanã...

Wanderley Luxemburgo: O Romário foi contratado para jogar pelo Flamengo e o Flamengo vai jogar...

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] E quando ele jogará no campeonato estadual? Pergunto eu agora!

Wanderley Luxemburgo: Posso te responder?

Oldemário Touguinhó: Pode.

Wanderley Luxemburgo: Posso te responder? O Romário vai jogar no Campeonato Carioca, vai jogar na Rua Bariri, onde tiver que...

Milton Jung: Oldemário, vamos só deixar o Wanderley terminar a pergunta para a gente agilizar, inclusive...

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Não, é porque não tem data para ele jogar no campeonato estadual, por isso que eu estou perguntando... tem data?

Wanderley Luxemburgo: Futebol é isso que eu estou falando, futebol está sendo usado hoje com inteligência. Nós conversamos internamente, dentro do Flamengo, que o Romário vai jogar e vai haver data para isso, só que são coisas internas que nós não podemos falar. Infelizmente, não vou poder te responder...

Oldemário Touguinhó: Isso é que me preocupa, isso é que me preocupa.

Wanderley Luxemburgo: Mas essa preocupação, com certeza, você não terá lá na frente.

Milton Jung: Só para não ficar devendo ao torcedor que está telefonando...

Luiz Antônio Prósperi: [interrompendo] Só para encerrar esse assunto, acho que temos que entender o seguinte...

Wanderley Luxemburgo: É que o Oldemário está preocupado, pois o Botafogo vai jogar...

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Eu estou preocupado com o excesso de publicidade que estão colocando em cima do jogador de futebol. O jogador de futebol é para jogar bola...

Milton Jung: [interrompendo] Oldemário, Luiz Antônio...

Oldemário Touguinhó: Eu me preocupo com excesso de publicidade, porque daqui a pouco você vai falar com ele, que diz que 60% da imprensa não entende de futebol, daqui a pouco você vai falar com ele, que dirá: "Olha, passa aqui depois de amanhã"!

[sobreposição de vozes]

Wanderley Luxemburgo: De onde vai vir o dinheiro? Você tem que entender que hoje nós estamos em um mundo diferente. Fui criticado por algumas pessoas porque eu lancei um software de futebol, a informática está no mundo todo. O futebol precisa se modernizar, mas não é se modernizar dentro do campo de futebol, a parte tática do futebol hoje é toda moderna no Brasil ou fora dele. Agora, o que está retrógrado e arcaico é a estrutura do futebol, porque as pessoas não querem deixar esse tipo de  investimento chegar ao futebol...

[sobreposição de vozes]

Milton Jung: Inclusive, Wanderley, o José Ricardo Monteiro, de Santana, mostra essa preocupação, que parece ser bastante evidente, tanto em relação à estrutura que você pretende apresentar no Flamengo, que foi perguntado anteriormente, como também sobre o que é moderno hoje no futebol.

Wanderley Luxemburgo: Está bom. A estrutura é o seguinte... O que mais me agradou na conversa que eu tive com o Kléber é que eu iria tomar conta de toda a parte de futebol do Flamengo, fazer um trabalho integrado. Nós iríamos administrar o futebol da maneira como eu entendo uma filosofia de futebol hoje, até porque acho que o Flamengo é pioneiro nisso, as categorias de base do Flamengo são excelentes, sempre deram frutos. A gente quer ter uma formação do atleta naquilo que eu penso, que é a formação do atleta em nível de modernidade. Todo mundo se preocupa hoje em falar o que é modernidade: "O que é moderno é 4-3-3, 4-5-2, 4-5-1, 3-5-2, 5-3-2 [esquemas táticos do futebol]". Isso tudo nós conhecemos, isso é número. Modernidade é você criar meios para extrair mais do atleta. Por exemplo, o voleibol deu um grande exemplo de modernidade, mas ninguém se ateve a isso, ninguém percebeu isso. Antigamente, na Seleção do Xandó, do William, do Bernard [jogadores brasileiros de vôlei da década de oitenta, medalhistas de pratá nas olimpíadas de 1984], daqueles jogadores famosos, tínhamos jogadores específicos para cada setor de quadra. O Zé Roberto [José Roberto Guimarães, ex-jogador de vôlei e um dos mais importantes técnicos brasileiros. Foi campeão olímpico como técnico da seleção masculina em Barcelona, 1992, e da seleção feminina, em Pequim, 2008. Desde 2003, dirigi a seleção feminina] conseguiu ter o atleta com múltiplas funções dentro da quadra, o atleta que bloqueava era o atleta que saía para o corte de fundo de quadra, era o atleta que tinha a bola de dois tempos, ele conseguiu ter o atleta mais participativo, mais polivalente. É disso que precisamos no futebol. Você hoje tem que ter um cabeça de área que não seja só volante, que ele possa ser um jogador de mais criatividade, que ele participe muito mais do jogo. O atacante - e vocês vão me perguntar daqui a pouco se o Romário vai conseguir fazer - tem que ser mais participativo. O [Ruud] Gullit e o [Marco] Van Basten [jogadores holandeses], que atuavam no grande time [italiano] do [Associazione Calcio] Milan, eram os jogadores que davam início à marcação. Eles marcavam a defesa adversária e, com isso, impediam a entrada rápida do adversário no seu campo. Modernidade não é mais dentro do campo de jogo...

Luiz Antônio Prósperi: [interrompendo] E o Romário vai fazer isso, Wanderley?

[risos]

Wanderley Luxemburgo: Na estrutura do futebol, nós temos que criar meios... Por exemplo, o psicólogo... agora isso está começando a se abrir, mas há uma resistência muito grande no futebol. Todo esporte coletivo já tem um psicólogo trabalhando para melhorar a performance do atleta. O Palmeiras tem um fisiologista, no Flamengo estamos montando um centro de fisiologia, por quê? O atleta tem que estar melhor condicionado para desenvolver múltiplas funções, senão ele não consegue...

Juca Kfouri: Mas cabem exceções, não é? Sem fazer nenhuma brincadeira com o Romário, também é função do treinador de futebol ter um jogador extraordinário como o Romário.

Wanderley Luxemburgo: Juca, o que eu disse é o seguinte: o Romário joga futebol há não sei quanto tempo, há uns 15 anos...

Juca Kfouri: E como joga!

Wanderley Luxemburgo: Dessa forma, não vou conseguir mudar o Romário da noite para o dia...

Juca Kfouri: Claro, isso é claro.

Wanderley Luxemburgo: O que eu vou conversar com o Romário é fazer com que ele entenda que pode dar um pouco mais para a equipe em nível de participação, mas isso não vai ser conseguido de imediato. Com certeza, nós vamos conversar, eu vou mostrar para ele que vai ser importante essa participação dele, agora se ele não resolver participar...

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Você bota o Romário para correr?

Milton Neves: [interrompendo] Aí você o coloca no banco!

Wanderley Luxemburgo: Não, sem radicalismo. Se ele não conseguir participar, está ótima a maneira como ele está... Ele conduziu o Brasil para a conquista de um campeonato mundial. Se eu achar que essa maneira de jogar está ruim, vão me chamar de maluco.

Juca Kfouri: Minha pergunta é exatamente essa: é também participar do time um jogador que a cada dez bolas que pega dentro da área, cinco ele "mete" no gol?

Wanderley Luxemburgo: Se ele não puder participar da maneira como eu penso, em andar um pouquinho mais, o que ele faz está ótimo. Isso o conduziu a ser o melhor jogador do mundo... Tudo isso tem que ser tratado com pura inteligência. Não adianta eu chegar para o Romário e bater de frente: "Romário, vai ter que fazer!", pois ele não vai fazer.

[sobreposição de vozes]

Milton Jung: Deixa só eu colocar na ordem, como o Luiz Antônio tinha pedido antes, primeiro ele e depois o Sérgio.

[sobreposição de vozes]

Milton Jung: Eu queria trocar, porque o Wanderley também está batendo bola só do lado direito [da roda], tem que bater bola do lado esquerdo, então vamos ao Luiz Antônio, depois nós passamos para o Sérgio.

Luiz Antônio Prósperi: Ainda em cima do tema Romário, tá? O Oldemário estava falando aqui a respeito do marketing e da publicidade. Você não teme que toda essa estrutura que está por trás da contratação do Romário possa te prejudicar mais tarde? Por exemplo, ele tem que cumprir um compromisso, não pode treinar naquele dia que você gostaria que ele estivesse, à noite ele não pode jogar porque é um jogo lá em Barreiros, e ele não pode ir porque tem que cumprir um compromisso de marketing. Você não acha que isso, aos poucos, vai crescendo e vai chegar um dia em que você não vai ter mais domínio sobre o Romário?

Wanderley Luxemburgo: Mas isso vai acabar.

Luiz Antônio Prósperi: Como?

Wanderley Luxemburgo: Você pode ter certeza que vai acabar, o presidente do Flamengo entende que tem que acabar, porque ele foi contratado para jogar. São conversas internas, em que nós discutimos o problema do Flamengo, os problemas inerentes ao Flamengo, não podemos externar. O presidente do Flamengo sabe que o Romário foi contratado para ser jogador de futebol do Flamengo, atleta profissional do Flamengo, e ele sabe que tem que explorar tudo isso, que é do momento, para ver se tira algum proveito e traz recursos para o Flamengo. Depois, ele sabe que tem que deixar o jogador jogar, porque também vai ser cobrado, assim como eu vou ser cobrado se não ganharmos os jogos. Se o Romário só ficar fazendo propaganda, todos nós vamos sofrer com isso...

[sobreposição de vozes]

Sérgio Baklanos: Wanderley, tudo isso que você falou de modernidade é a antítese do que o Brasil mostrou na Copa do Mundo. Você quer laterais que saibam defender, jogar no meio de campo e atacar. Nós não tínhamos. Tínhamos laterais lentos. Você quer volantes que saibam atacar, quer dizer, não é só defender, marcar, mas ir lá para frente e tentar o gol. Quer ter pontas-de-lança, como o Romário, que voltem para ajudar o meio de campo, criando espaço um para o outro, mas o Romário não fazia nada disso. O Parreira ganhou a Copa do Mundo com um futebol completamente desatualizado?

Wanderley Luxemburgo: Não, muito pelo contrário, ganhou por méritos, só que eu acho que poderia [ter ganho] com um pouco mais de facilidade.

Sérgio Baklanos: Como?

Wanderley Luxemburgo: Eu acho que, por exemplo, o Brasil, principalmente nesse último jogo contra a Itália, poderia ter passado muito menos sufoco.

Sérgio Baklanos: Demorou para mexer no time, é isso?

Wanderley Luxemburgo: Não, isso é um problema dele. Esta é a minha concepção, acho que poderíamos ter ganhado o futebol com um pouco mais de facilidade.

Sérgio Baklanos: Você pode ser mais específico?

Wanderley Luxemburgo: Eu escrevia para um jornal aqui de São Paulo, o Jornal da Tarde, em que eu sempre dizia que o Brasil iria ganhar a Copa do Mundo, porque não havia adversário para o Brasil.

Sérgio Baklanos: Ah bom, então você acha que faltou adversário, não é?

Melchiades Filho: Você construiu sua carreira aqui em São Paulo com essa imagem bastante sóbria, dura, transparente, até um pouco mal humorado, às vezes. Queria saber como você está se dando nesses trinta dias no Rio, no Flamengo. Aqui você é conhecido como Luxemburgo, no Rio, você é o Wanderley. É bastante curioso ler isso nos jornais e ver como a torcida se relaciona com você. Alguma coisa muda no seu estilo com isso? Você se sente mais à vontade no Rio?

Wanderley Luxemburgo: De jeito nenhum, até porque eu sou carioca.

Melchiades Filho: Eu sei, mas quando você trabalhou da outra vez, foi duramente criticado porque queria treinar em dois períodos, queria a bola... foi chamado de caipira.

Wanderley Luxemburgo: Não, muito pelo contrário! Eu só saí do Flamengo, porque eu não concordava com a estrutura que ele tinha no momento, senão teria ficado lá. Ninguém me mandou embora, só achei que aquilo estava ruim...

Milton Neves: [interrompendo] Era uma ausência de estrutura, na verdade.

Wanderley Luxemburgo: No caso, é isso aí. Nós tínhamos três meses de salários atrasados. Quem consegue trabalhar com três meses de salários atrasados? Não tinha bola, muitas vezes peguei dinheiro do meu bolso e emprestei para jogador...

Luiz Antônio Prósperi: [interrompendo] Wanderley, mas quando foi para lá, você não sabia disso tudo?

Wanderley Luxemburgo: A proposta era diferente. O Gaúcho [Luís Carlos Tóffoli, jogador brasileiro. Foi centroavante do Flamengo e do Palmeiras no final da década de oitenta e início dos anos noventa] chegou para mim e falou: “Professor, eu estou precisando resolver um problema sobre meu apartamento”. Mas eu falei: “que problema?”. E ele: “Não, é porque o clube fez um contrato comigo, mas não me pagou. Preciso pagar, senão vou perder o apartamento”. Eu tive que emprestar o dinheiro para ele poder pagar o apartamento, para depois ele... Quer dizer, como você vai conseguir montar uma filosofia, como você vai conseguir trabalhar com todos esses problemas? A estrutura do Flamengo estava ruim, eu não aceitei aquilo. Por que eu não aceitei? Porque eu acho que se eu aceitasse daquela forma eu estaria me prostituindo, não é aquilo que eu penso do futebol, eu acho que você tem que cobrar profissionalismo do atleta e não pedir ao atleta para, por favor, ganhar o jogo e receber. Isso não é profissionalismo. Não sabia que era daquela forma, não imaginava que fosse daquela forma...

Melchiades Filho: [interrompendo] Wanderley, você sente que hoje em dia já é um Flamengo diferente?

Wanderley Luxemburgo: Olha, sinceramente, em 15 dias que eu estou no Flamengo você sente que, dentro do nosso trabalho, já houve uma mudança, uma expectativa muito grande. Agora, a proposta, a promessa - e foi uma coisa que nós conversamos bastante - é que o Kléber Leite não deixaria atrasar o salário dos jogadores, não só dos jogadores, mas dos funcionários do Flamengo. Não adianta só os jogadores receberem e os funcionários não... Essa é a proposta do Kléber, não minha. Aceitei estar junto com ele nessa proposta, porque entendi que é uma proposta séria, uma proposta de um empresário que está chegando ao futebol na presidência de um clube importante como o Flamengo. Ele quer colocar o Flamengo dentro da grandeza que sempre foi, então eu acreditei nisso. Acredito e tenho certeza absoluta que o Kléber, em momento algum, vai deixar a coisa no Flamengo ser da maneira...

Melchiades Filho: [interrompendo] Se atrasar o salário você deixa o time?

Wanderley Luxemburgo: As coisas têm que ser tratadas sem radicalismo, eu não acredito que vai ser atrasado, porque o homem que está lá hoje me passou seriedade e confiança.

Milton Jung: Wanderley, eu só queria pedir um minuto, porque o primeiro tempo do Roda Viva está terminando. Nós vamos chamar um intervalo e depois voltamos para o segundo tempo, porque eu tenho certeza que ele vai ser mais quente ainda, todo mundo está com muita vontade de fazer gol. Daqui a pouquinho nós voltamos com o Wanderley Luxemburgo, hoje técnico do Flamengo.

[intervalo]

Milton Jung: Voltamos com o programa Roda Viva, que hoje entrevista o técnico do Flamengo, Wanderley Luxemburgo. No primeiro tempo do Roda Viva de hoje ele falou sobre sua saída do Palmeiras para o Flamengo, sobre sua relação com o jogador Romário, contratado pelo Flamengo neste ano, e também sobre sua relação com os dirigentes. O telespectador Arthur Menezes, de São José dos Campos, aqui no interior de São Paulo, pergunta o seguinte: "Na sua opinião, como será o futebol daqui a dez anos, já que você fala muito em modernidade? O grande ator será o jogador fora de série ou será o esquema tático refinado?".

Wanderley Luxemburgo: Eu acho que já não há mais nada a se desenvolver no esquema tático, os números estão todos aí para nós analisarmos. O futebol vai ser, daqui a dez anos, realmente mais participativo. O atleta vai ter que ter múltiplas funções dentro de campo, você não vai poder ter um atleta só de marcação, ele vai ter que participar muito mais do jogo, porque os espaços vão cada vez ficar mais diminuídos dentro do campo. Esse atleta vai ter que ser mais polivalente, mais participativo, senão não vai conseguir jogar.

Milton Jung: O futebol moderno passa também pelas mudanças cuja implantação está sendo tentada pelo Pelé [Pelé foi ministro dos Esportes entre 1995 e 1998. As mudanças propostas por ele culminaram na criação da Lei Pelé]?

Wanderley Luxemburgo: Olha, eu acho que, em termos de modernidade, esse é o ponto mais importante, é fora do campo que nós estamos precisando de mudanças realmente importantes e imediatas. Acho que o Pelé está dando o pontapé inicial, não sei se ele vai conseguir, mas é importante que essas mudanças aconteçam fora do campo.

Juca Kfouri: E regras?

Wanderley Luxemburgo: A regra é muito discutível, não é? Querer mudar a regra é muito complicado, porque sempre que você muda a regra, até haver a adaptação e fluir... As regras que existem para o futebol são boas. É que, às vezes, você não as coloca em jogo, não as coloca em prática, não sabe tirar proveito das regras que existem. O futebol paulista está mudando bastante agora nesse campeonato regional e eu não sei até onde as pessoas vão entender que isso é para o bem, que é uma coisa boa.

Oldemário Touguinhó: Às vezes acontece um gol e depois a televisão mostra que aquele ele foi ilegal. Até um árbitro do jogo do Botafogo assinou um papel dizendo que, de fato, ele tinha errado. Você é a favor de que a Fifa autorize que alguma decisão do árbitro seja feita por meio da televisão ou não? Hoje acontece um lance, ele passa dez vezes para quem está em casa assistindo e quem está no campo não vê. No final, você chega em casa e diz: “Aquele gol não foi legal, a televisão mostrou dez vezes". Você acha que vale a pena a televisão servir...

Wanderley Luxemburgo: Eu acho que não, eu acho que não. No caso de violência, de uma expulsão, para poder ser julgado o atleta... Mas essa é uma das grandes emoções do futebol, é o contato físico e, de repente, há um lance duvidoso que o juiz não deu, porque é muito rápido, frações de segundos para se tomar uma decisão. É muito complicado. Eu acho que essa parte da indisciplina, da violência, como foi na Copa do Mundo, quando o jogador da Itália deu uma cotovelada em um atleta da Espanha, aí o tape tem que mostrar e os jogadores serem punidos. [Em 1994, durante uma partida pela Copa, o jogador italiano Tassotti deu uma cotovelada no espanhol Luis Enrique, mas o árbitro não marcou o pênalti]

Odinei Edson: [interrompendo] E se o juiz, por exemplo, não vir um lance assim, um lance maldoso?

Wanderley Luxemburgo: Mas aí eu acho que através do VT, você pode punir...

Odinei Edson: Aí pode entrar?

Wanderley Luxemburgo: Pode.

Odinei Edson: Como você colocaria a informática no futebol hoje?

Wanderley Luxemburgo: Como assim?

Odinei Edson: Como você está implantando a informática no seu trabalho? O que você espera que aconteça no futuro?

Wanderley Luxemburgo: No meu trabalho, estou preocupado com o desenvolvimento do técnico, em melhorar a qualidade de trabalho do técnico. O que eu implantei foi um software em que você pode desenvolver esquema tático, armar um esquema tático. Todo mundo pode ter acesso a ele, montar o esquema que ele idealiza, que ele acha que é ideal. Eu peguei o jogo de botão e o coloquei na tela do computador projetando, animando como se fosse um jogo. Você vai pegar o adversário, manda filmar, aí sabe como ele joga e monta sua preleção, seu esquema tático e passa para o atleta. Com a animação, você tem uma noção exata daquilo que você quer. Isso é para melhorar a qualidade do trabalho do profissional, do técnico de futebol.

Sérgio Baklanos: Wanderley, em uma das suas respostas você falou que não guarda mágoa do Palmeiras. Posso te dizer que a recíproca não é verdadeira. Outro dia, fui em uma reunião de inauguração de um bingo e encontrei a diretoria do Palmeiras. O que eles "metiam o pau" em você não é brincadeira, eles estavam mordidos contigo!

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Mas você o defendeu ou não?

Sérgio Baklanos: Não, eu sou jornalista...

Oldemário Touguinhó: Mas ele foi bicampeão, você tinha que defendê-lo!

Sérgio Baklanos: Quem tem que se defender é ele, ele não precisa de advogado de defesa, ele sabe se defender muito bem... Bom, todo mundo estava "metendo o pau" em você e [perguntaram]: “Mas por que vocês detestam tanto o Wanderley? Ele é um sujeito competente, que deu todos os títulos para o Palmeiras”. E eles: “Ah não, ele era muito anti-social, a gente entrava no restaurante e ele nem olhava para a nossa cara, não dava bola”. Você fazia isso deliberadamente? Esse tipo de tratamento que você dispensava é verdade ou não? São pessoas da diretoria...

Wanderley Luxemburgo: Não é verdade. Jesus Cristo não foi unanimidade, como eu seria unanimidade no Palmeiras? É muito difícil...ainda mais as pessoas que não gostam de mim, menos ainda...

Milton Neves: Wanderley, eu queria voltar ao marketing rapidamente e até concordar com você, para que não fique essa imagem de que nós somos inimigos aqui...

Wanderley Luxemburgo: Não, em absoluto...

Milton Neves: A gente vem conversando há tanto tempo...

Wanderley Luxemburgo: Discutimos em nível de inteligência.

Milton Neves: Eu quero concordar com você a respeito do marketing, porque...Viu, Oldemário? O marketing é fundamental, não apenas para o futebol, mas para a vida. Quem move a economia é o marketing, que é criação de necessidade. Se não houvesse marketing, nós voltaríamos à Idade da Pedra [Pré-História], só beberíamos água e comeríamos arroz e feijão, só. Agora, eu quero falar de sorte com você, porque sorte é o encontro de capacidade e oportunidade. Quando ninguém conhecia Wanderley Luxemburgo, o Bragantino convidou René Simões [treinador brasileiro], que está hoje na Jamaica e é seu amigo e admirador. Ele não pôde atender o convite do Bragantino, porque tinha convite do exterior, mas disse: “Olha, um rapaz aqui está começando, um tal Wanderley Luxemburgo, mas vocês não conhecem”...

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] Na época, era só Wanderley...

Milton Neves: E ele:“Vocês querem o rapaz?”. Jesus [Jesus Adib Abi Chedid, foi presidente do clube e prefeito de Bragança Paulista] disse: “Pô, mas não tem outro? Eu nunca ouvi falar dele... Mas eu quero sim, vamos ver no que vai dar, traga esse mesmo”. Isso aconteceu ou é uma lenda do futebol?

Wanderley Luxemburgo: Aconteceu, mas não foi com o Jesus, não foi bem assim. Eu havia chegado da Arábia Saudita e encontrei com o René no Maracanã. Ele tinha recebido um convite do Nabi para dirigir o Bragantino, mas não acreditou que seria uma coisa boa e ele perguntou se eu estava interessado. Eu falei: "Estou voltando para o Brasil e me interessa, eu quero dirigir". E ele falou do estado de São Paulo, que era difícil de você chegar. Em uma conversa com o deputado Nabi Abi Chedid [(1932-2006) político, deputado estadual por São Paulo em dez mandatos. Foi diretor do Bragantino e da Federação Paulista de Futebol. É pai do político Marquinho Chedid e irmão de Jesus Chedid], e com o filho dele, o Marquinho. A proposta era eu ser treinador dos aspirantes do Bragantino.

Milton Neves: [interrompendo] O tal Wanderley Luxemburgo iria ser o técnico dos infantis, juvenis. Você ainda era desconhecido, foi a questão da sorte. Parabéns, foi a capacidade com a oportunidade!

Wanderley Luxemburgo: Deixe-me concluir, só um pouquinho. Eu falei para ele que o que ele me pagasse para ser treinador dos aspirantes, ele poderia colocar um outro mais barato, porque eu não era treinador de aspirantes. Acho que essa resposta que eu dei ao Nabi fez com que ele me contratasse para o Bragantino.

Milton Neves: O que mudou sua vida.

Wanderley Luxemburgo: Eu já tinha feito sucesso no Rio de Janeiro, tinha passado pelo Fluminense e Vasco da Gama como auxiliar técnico, já tinha disputado o Campeonato Brasileiro com o Campo Grande, tinha ganhado torneios internacionais com o Fluminense, mas só que em nível regional. Era uma carreira que ainda não tinha alçado vôo, mas já havia trabalhado em vários clubes do Rio de Janeiro, tinha trabalhado no Friburguense [clube da cidade de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro], já tinha sido bicampeão capixaba, já tinha trabalhado em Minas Gerais.

Luiz Antônio Prósperi: Wanderley, falando um pouquinho desse começo da sua carreira, eu lembro que na entrevista que eu fiz com você, você chegou a citar que, em determinada época, ia para Europa visitar alguns clubes, ver o que eles tinham de melhor, pesquisar para trazer e adotar aqui. Você continua fazendo isso ou acha que não tem mais nada o que aprender lá fora?

Wanderley Luxemburgo: Continuo, eu fui para a Copa do Mundo trabalhar...

Luiz Antônio Prósperi: Não, Copa do Mundo também, mas visitar, por exemplo, o Milan, os clubes da Alemanha, como você diz que foi.

Wanderley Luxemburgo: Sim, só que eu tinha mais tempo para fazer isso. Agora...

Luiz Antônio Prósperi: [interrompendo] Você acha que tem que aprender ainda lá fora ou que não precisa mais, que já sabe o suficiente?

Wanderley Luxemburgo: Não, sempre há o que aprender no futebol.

Luiz Antônio Prósperi: Se tiver um tempo você vai para lá?

Wanderley Luxemburgo: Sempre há alguma coisa para aprender.

Juca Kfouri: Quem é o melhor técnico de futebol do Brasil hoje, na sua opinião, Wanderley?

Wanderley Luxemburgo: Hoje?

Juca Kfouri: Hoje, eu sei que há três meses era o Telê [ver entrevista com o técnico Telê Santana (1931-2006) no Roda Viva]...

Wanderley Luxemburgo: Olha, não vou falar de um treinador, o Brasil tem grandes treinadores, não deve para ninguém em treinador de futebol, tem os melhores do mundo, que conhecem tudo de tática de futebol, conhecem futebol na sua essência...

Juca Kfouri: Eu sei, eu sei disso tudo. Na sua opinião, qual é o melhor? Não será o bicampeão brasileiro?

Wanderley Luxemburgo: O melhor treinador que eu tive até hoje foi o Zagallo.

Milton Neves: Quem é o melhor treinador do Brasil hoje?

Wanderley Luxemburgo: Eu não vou fazer, eu acho que isso seria...

[...]: O seu maior treinador foi o Zagallo?

Wanderley Luxemburgo: O meu melhor treinador foi o Zagallo.

Juca Kfouri: Eu vou mudar a pergunta. Quem é melhor treinador hoje no Brasil: Wanderley ou Luxemburgo?

Wanderley Luxemburgo: [risos] Wanderley ou Luxemburgo? Vamos colocar as duas pessoas. Eu acho que, nos últimos anos, o melhor treinador do Brasil foi o Telê.

Milton Neves: E hoje, qual é o melhor técnico, é você?

Wanderley Luxemburgo: Eu acho que eu estou entre os melhores.

[...]: Jogo de cintura!

[sobreposição de vozes]

Wanderley Luxemburgo: Eu acho que estou entre os melhores, são as conquistas que mostram isso. Agora, o Telê foi, nesses últimos anos, o melhor treinador do Brasil, porque conseguiu voltar de duas Copas [foi técnico da Seleção Brasileira em 1982 e 1986] - que não foi tão bem - e vir para o São Paulo ganhar campeonatos importantíssimos na vida do clube. Acho que também tive uma importância nos últimos anos, porque eu ganhei campeonatos importantes em nível nacional. Eu não tenho nenhuma falsa modéstia, eu me coloco entre os melhores do Brasil. Uma vez eu tive uma desavença muito grande com o Telê, quando ele disse que eu não era nada para o futebol, eu acho que havia um engano muito grande, ele foi uma pessoa muito importante para o futebol, eu também sei a importância que eu tenho hoje para o futebol. Tenho 42 anos e há uma geração toda chegando, a gente sabe o que pode construir ou não, então acho que a gente tem uma importância muito grande para o futebol.

Milton Jung: O senhor falou anteriormente que passou pela Arábia Saudita e já visitou vários outros clubes, inclusive para buscar experiência. Na Arábia Saudita, que experiência o senhor trouxe para o Brasil ou para sua carreira de técnico?

Wanderley Luxemburgo: Olha, experiência nenhuma...

Juca Kfouri: Mas quem não passa por lá não vai para Seleção Brasileira, hein...[risos]

Wanderley Luxemburgo: Não, o Zagallo foi antes de passar por lá.

Milton Jung: Então a sua passagem pela Arábia Saudita serviu para quê?

[sobreposição de vocês]

Wanderley Luxemburgo: Serviu, por exemplo, para eu poder praticar aquilo que eu penso de futebol, realmente melhorar a parte financeira, pois ninguém vai dizer “Vou para a Arábia para aprender futebol”, ele está falando bobagem, não é isso, você vai para Arábia para melhorar seu lado financeiro. E é tipo um laboratório para você pôr em prática algumas idéias. Não tem como ser diferente, você treina um camarada durante dois meses acreditando nele, daqui a pouco ele some, desaparece, vai para Bancoc [capital da Tailândia], vai passear...

Oldemário Touguinhó: Eu sou testemunha de que quando você chegou - estive no aeroporto - você [trazia] um baú de tapete persa! [risos] Mas é bom deixar claro também que, quando você foi para o Bragantino, o Bragantino também não era conhecido, ninguém sabia nada do Bragantino. Foi você que fez o Bragantino ser campeão dos jogos. Segundo, o Telê também foi sensacional para clube de futebol, porque para a Seleção... Eu fui a duas Copas com ele e voltei no meio do caminho.

Milton Jung: O Odinei tem uma pergunta.

Odinei Edson: Eu gostaria de saber de você quais são as dificuldades que você acha que o técnico Valdir Espinosa vai encontrar no Palmeiras, principalmente com a Libertadores. Enfim, você acha que é possível o Palmeiras disputar dois campeonatos e dar atenção para os dois ou ainda o Palmeiras não está nesse estágio?

Wanderley Luxemburgo: Eu acho que não só o Valdir como qualquer treinador que fosse para o Palmeiras iria encontrar dificuldades, porque temos a competição Libertadores, a Copa do Brasil, que é no primeiro semestre, e o campeonato regional, são três competições. Tenho certeza que eles vão tocando, mas na hora em que atropelar e tiverem que tomar um caminho, acho que será a Libertadores. A gente conhece futebol... Não saí do Palmeiras porque entendia que ele tinha um processo de parar de crescer. Não, acho que o Palmeiras continua forte, tem tudo para conquistar a Libertadores e chegar ao campeonato de Tóquio...

[sobreposição de vozes]

Wanderley Luxemburgo: Para as pessoas acabarem de entender que não há nenhum resíduo, eu falei que, se o Palmeiras conseguir chegar a Tóquio, é para ele mandar uma passagem porque eu quero ir junto, também dei uma contribuição.

Milton Neves: Wanderley, mudando o "braço da viola", existe homossexualismo no futebol? Você já dirigiu um jogador homossexual? Se um jogador disser que é homossexual, você o mantém no elenco?

Wanderley Luxemburgo: Olha, essa coisa é muito... Eu acredito que haja, qualquer setor da sociedade tem homossexualismo, não é? Agora...

Milton Neves: Você já dirigiu um jogador homossexual?

Wanderley Luxemburgo: Não, que eu saiba não.

[risos]

Wanderley Luxemburgo: Que eu saiba não.

Milton Neves: Algum dirigente, empresário, malandro, dizem que o malandro sabe em quem encosta. Algum empresário chegou a oferecer alguma coisa a você do tipo: “Wanderley, compre tal jogador que você ganha tanto”? Esse tipo de conversa a gente está ouvindo muito. Não envolve você, é claro, mas é por isso que eu estou perguntando. Você já teve esse tipo de proposta na sua carreira?

Wanderley Luxemburgo: Todo dirigente, todo bom malandro sabe onde chegar, nunca vão chegar perto de mim e me oferecer algo...

Odinei Edson: [interrompendo] Aí é que eu gostaria de entrar, Wanderley... dentro desse seu raciocínio de nunca fazer esquema e tal. Acho que, para chegar hoje à Seleção Brasileira, há alguns pontos básicos a serem preenchidos como capacidade, todo aquele caminho. Você acha que consegue chegar à Seleção Brasileira sem fazer esquema?

Wanderley Luxemburgo: É uma competência. Se não puder chegar dessa forma, outro caminho vai ficar difícil para eu chegar.

Sérgio Baklanos: Wanderley, fala um pouquinho sobre o seu guru. Dizem que você tem um guru que te recomenda o que fazer, como um astrólogo, sei lá, a roupa que você tem que vestir... É verdade? Qual é o nome dele?

Wanderley Luxemburgo: Não é verdade. Todo mundo conhece o Robério de Ogum [místico e vidente que trabalhou com Luxemburgo nos anos noventa], que é meu amigo...

Sérgio Baklanos: Até que ponto ele te influencia?

Wanderley Luxemburgo: É meu amigo e tem a crença dele, respeito e acredito na crença dele. Nós trocamos... conversamos. Tenho um carinho muito grande por ele. Eu acredito naquilo que ele faz, acredito piamente naquilo que ele faz, porque ele tem demonstrado isso às pessoas que pedem a ele, que estão junto dele...

Sérgio Baklanos: [interrompendo] E desinteressadamente?

Wanderley Luxemburgo: Desinteressadamente, não há nenhum outro interesse de ajudar o Wanderley...

Sérgio Baklanos: Você acredita?

Wanderley Luxemburgo: Eu acredito, porque eu acredito em toda religião, respeito toda religião.

[sobreposições de vozes]

Wanderley Luxemburgo: Mas acredito em Deus.

Juca Kfouri: Só para deixar claro para o telespectador, o que significa isso? Ele te dá sugestões...

Wanderley Luxemburgo: Não, nenhuma sugestão.

Juca Kfouri: Como é isso? Como é essa relação?

Wanderley Luxemburgo: Ele simplesmente ora por mim dentro da religião dele, dentro daquilo que ele faz. Não tenho uma idéia daquilo que ele faz, mas pede para que a minha vida seja repleta de felicidade, essas coisas.

Milton Neves: Mas ele disse que o Parreira cairia e que você iria para a Copa com a Seleção.

Wanderley Luxemburgo: Então, e não aconteceu, não é por isso que vou deixar de ser amigo dele.

Milton Jung: Wanderley, o Márcio, aqui de São Paulo, quer saber se você levou sua camisa da sorte, aquela que você usava no Palmeiras, para o Flamengo?

Wanderley Luxemburgo: Eu não sou uma pessoa que não troca de cueca, que não troca de meia, esse negócio, até porque fica ruim você usar uma cueca suja, do dia anterior do jogo, não é? Eu troco normal, só que nos jogos finais, na Arábia Saudita, nós não tínhamos conquistado nenhum campeonato lá, nunca tinha conquistado um campeonato pelo Al-Shabab. Eu passei por lá e nós conquistamos a Copa da Federação. Eu estava com uma camisa e eu passei a usá-la nos jogos finais e foi acontecendo, então é a única coisa que eu tenho de colocar nos jogos finais. Agora não está dando mais, porque na Arábia Saudita eu tinha 65, 66 quilos. Agora estou com 76 quilos, a camisa já está abrindo...

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Mas agora você também tem umas oitenta camisas! Outra coisa, o que ele [Robério de Ogum] disse a você sobre o Flamengo? O que ele falou?

Wanderley Luxemburgo: Não conversamos ainda, estamos começando a mexer...

Oldemário Touguinhó: Já começou a conversar com ele? Então é o seguinte, logo que você acabar de conversar com ele, você fala comigo ou com o Maurício, Gilmar para cobrirmos o Flamengo, porque nós queremos saber se homem costuma antecipar as coisas...

Wanderley Luxemburgo: Ele é uma pessoa que tem o coração muito bom, tem a religião dele. Eu acredito na religião dele, ele faz as coisas com o maior carinho para mim, não tem porque eu não aceitar, isso é uma coisa normal...

[sobreposição de vozes]

Juca Kfouri: Se fosse um padre seria igual?

Wanderley Luxemburgo: Se fosse um padre seria igual, eu tenho um carinho muito grande por ele...

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Qualquer coisa, leva o Romário também! Vai ajudar...

[sobreposições de vozes]

Luiz Antônio Prósperi: Wanderley, voltando um pouco à questão da empresa no futebol, você foi o primeiro técnico bem sucedido a trabalhar com um clube que teria uma parceria com uma empresa, foi o primeiro que conseguiu sucesso junto à empresa e ao clube. Eu queria saber o que isso tem de importante, o que você aprendeu e que pode ser bom para o futebol?

Wanderley Luxemburgo: Olha, o que eu aprendi no processo do Palmeiras é que o futebol é da maneira como eu penso realmente. Não adianta nós tratarmos o futebol com radicalismo, o futebol tem que ser discutido com inteligência. Por meio desse processo do Palmeiras e do Bragantino... Todo mundo fala do Palmeiras, mas esquece o Bragantino foi um processo igual...

Luiz Antônio Prósperi: [interrompendo] Mas não tinha uma parceria com uma empresa multinacional.

Wanderley Luxemburgo: Tinha, porque era a empresa do deputado, do Nabi...

Milton Neves: Tinha o Jesus, que é muito mais forte.

Luiz Antônio Prósperi: Mas não tinha os milhões de dólares que tem a Parmalat...

Wanderley Luxemburgo: Era um trabalho também em nível de empresa, porque eles eram os empresários que colocavam o seu dinheiro dentro da empresa chamada Bragantino.

Luiz Antônio Prósperi: Você acha que é a mesma coisa que a Parmalat?

Wanderley Luxemburgo: É a mesma coisa, só que a Parmalat colocou no Palmeiras... sendo que lá no Bragantino, o trabalho foi da mesma forma, nós íamos contratar um jogador, nós analisávamos o potencial do jogador para saber... A gente ia contratar um jogador de um milhão de dólares e vendê-lo por cem mil? Você estaria dando prejuízo de novecentos mil para a empresa.

Luiz Antônio Prósperi: [interrompendo] Mas aí a empresa era dona do clube, o Nabi era dono do clube, a Parmalat não é dona do Palmeiras.

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] É diferente, porque o contrato que eles têm é diferente. A Parmalat coloca os jogadores no clube, o clube administra...

Luiz Antônio Prósperi: Eu queria saber como você administrou tudo isso. Um jogador é da empresa, o outro é do clube...

Wanderley Luxemburgo: A parte de futebol, sem problema nenhum. Nunca houve nenhum tipo de interferência no trabalho.

Luiz Antônio Prósperi: Dá para passar essa experiência para mais tarde?

Wanderley Luxemburgo: Acho que dá, vai ser muito bom, nós vamos poder desenvolver isso aí. Você vai ver que as empresas vão ter que chegar realmente no clube, senão ele não consegue sobreviver...

Milton Neves: [interrompendo] Sem marketing, o mundo pára, pára tudo.

[sobreposição de vozes]

Wanderley Luxemburgo: Luiz, há quanto tempo você escuta falar que o futebol é deficitário?

Luiz Antônio Prósperi: Desde que eu comecei a trabalhar no jornalismo.

Wanderley Luxemburgo: De onde vem a receita do futebol? Da venda do jogador. Era o único meio de você ter receita no futebol. Você vendia o jogador para poder colocar no clube o dinheiro para se trabalhar por um ano, não é verdade? Era dessa forma. Hoje, as empresas chegando ao clube, essa necessidade de ter que vender o jogador para poder manter o clube vai acabar, porque ela vai ser parceira, vai ter o retorno do marketing da imagem dela...

Luiz Antônio Prósperi: Tudo bem, mas eu estou falando da questão técnica, de você trabalhar com os jogadores...

Wanderley Luxemburgo: A questão técnica não tem problema nenhum.

Luiz Antônio Prósperi: Por exemplo, essa experiência vai ser útil para o Flamengo ou uma coisa totalmente diferente?

Wanderley Luxemburgo: Vai ser bastante útil, porque não têm nada a ver a parte técnica, o campo de futebol, com essa parte administrativa.

Luiz Antônio Prósperi: Em algum momento você chegou a ser pressionado pela Parmalat para fazer isso?

Wanderley Luxemburgo: Em momento algum. Olha, também nunca fui arbitrário de chegar e “vou fazer isso”. Eu colocava na mesa e chegava no seguinte: “o jogador cometeu uma indisciplina. Qual punição nós vamos dar a ele? Minha idéia é essa e vamos discutir”. Todas as vezes que eu coloquei isso na mesa para ser discutido eles falavam: “Professor, o senhor faz aquilo que achar que deve fazer”.

[sobreposição de vozes]

Juca Kfouri: A experiência no Palmeiras mudou o seu padrão de exigência?

Wanderley Luxemburgo: Mudou. Há um tempo atrás, eu trataria direto de punir um atleta tirando-o de imediato, mas entendi que também estava errado, porque você não pode chegar e mandar o atleta embora. Você tem que discutir. Agora, a empresa tem que ter o discernimento e o equilíbrio de entender se você está fazendo uma coisa boa ou ruim. Vamos falar em números: você tem um atleta que custa quatro milhões de dólares, mas ele está pernicioso, prejudicando o grupo. O que você mantém: esse atleta de quatro milhões para prejudicar os seus outros quarenta, ou você tira esses quatro milhões de dólares para manter 36?

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Não é o caso do Romário?

Wanderley Luxemburgo: Não, não...

Oldemário Touguinhó: Nem do Edmundo, não é? Você falou quatro milhões...

Wanderley Luxemburgo: Eu falei em tese, em números, está certo? Você tem que entender que, para ter quarenta milhões, se quatro estão atrapalhando, você tem que tirar esses quatro, senão vai perder os seus quarenta.

Milton Jung: Ubiratan Brasil estava na fila para perguntar.

Ubiratan Brasil: Sobre esse marketing que você está falando, eu também concordo com o Milton, o marketing é importante. Mas você percebe que lá no Rio não vai ser uma coisa... Por exemplo, você falou nos melhores técnicos. Você ganhou dois títulos aqui com o Palmeiras e a Parmalat com uma estrutura, o Telê foi campeão de quase tudo com uma estrutura montada no São Paulo. Você não acha que esse marketing no Rio é um pouco fugaz? Quer dizer, acabou o Campeonato Carioca, as empresas que trouxeram o Romário fazem o seu balanço, liquidam com isso e ninguém mais investe. Você sente que há algum interesse em crescimento por lá ou é só para sugar?

Wanderley Luxemburgo: O contrato do Romário é de dois anos. Acabamos de renovar o contrato do Sávio para um ano e, em noventa dias, se o Flamengo quiser fazer dois anos de contrato, poderá prorrogar de um ano para dois.

[sobreposição de vozes]

Wanderley Luxemburgo: O Bira demorou tanto para perguntar, agora vocês não vão deixar eu responder ao Bira? Não é, Bira?

Sérgio Baklanos: É porque depois os outros atropelam e a gente não pergunta!

Milton Jung: Vamos pela ordem: depois do Ubiratan, o Sérgio.

Wanderley Luxemburgo: Acho que não vai haver nenhum tipo de problema, porque vai ser um trabalho crescente. Se não fosse um trabalho crescente, o clube não teria contratado o Romário, não teria feito com ele um contrato de dois anos, ele estaria lá por seis meses como empréstimo até acabar o campeonato regional. Eu acho que o processo é crescente, até porque nós entendemos que o campeonato regional é uma coisa muito regional, mas o Campeonato Brasileiro é o que te promove em nível nacional e internacional. Então, com certeza, para o Campeonato Brasileiro, a idéia é reforçar ainda mais a equipe.

Sérgio Baklanos: Wanderley, o problema é o seguinte: no Campeonato Carioca são 16 clubes divididos em chaves de oito, quer dizer, o Flamengo vai pegar uma chave que só tem o Fluminense. Só teremos o Fla-Flu [termo utilizado para se referir aos jogos em que disputam o Flamengo e o Fluminense, de grande rivalidade] por duas vezes. Temos um montão de estádios deficitários, o [estádio de] Volta Redonda [pertencente ao Volta Redonda Futebol Clube] não cabe nem vinte mil pessoas. Que dizer, fazer todo esse investimento em cima do Romário, chamar o marketing, as empresas que investem, para disputar um campeonato desses? Você acha que tem cabimento, que vai ter sustentação uma coisa dessas?

Wanderley Luxemburgo: Mas ele foi contratado para jogar no futebol carioca, não dá para mudar. Se ele tivesse ido para São Paulo seria diferente...

Sérgio Baklanos: [interrompendo] Mas vai fracassar, Wanderley. Que renda vai dar?

Wanderley Luxemburgo: Mas como você pode dizer que vai fracassar? Se o Zico jogou no futebol carioca e foi sempre um sucesso, o Maracanã estava com 170, 150 mil pessoas!

[sobreposições de vozes]

Sérgio Baklanos: É por isso que eu estou falando, só vão disputar dois clássicos...

Wanderley Luxemburgo: Mas sempre foi dessa forma, não dá para mudar...

Sérgio Baklanos: Antes não, antes jogavam o Vasco, o Botafogo, o Flamengo e o Fluminense na mesma chave.

[sobreposição de vozes]

Oldemário Touguinhó: Há uma pequena diferença! Essa primeira fase do campeonato é como você está falando...

Wanderley Luxemburgo: Deixe-me concluir, Oldemário...

Oldemário Touguinhó: Só para acrescentar um dado, eu também sou a favor de que tenha marketing, dinheiro, tanto que o Botafogo está com a Pepsi, recebeu três milhões de dólares e ela não investe nada em jogador. São três milhões de dólares para o clube, um investimento para o clube.

Wanderley Luxemburgo: O clube vai investir no clube, não é?

Oldemário Touguinhó: Para investir no clube...

Wanderley Luxemburgo: E o clube vai investir no jogador.

Oldemário Touguinhó: Não, quando quiser investir em jogador, a Pepsi paga por fora para comprar outro jogador...

Milton Jung: [interrompendo] Sobre a propaganda e o marketing, inclusive, temos várias perguntas. Oldemário...

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Sobre o caso do Kléber e do Flamengo, há uma pequena diferença nisso aí. O Flamengo vai ter cada vez mais investimentos, por quê? Porque o presidente do Flamengo, o nosso querido Kléber Leite, ex-jogador, é um homem de negociar eventos, negociar futebol, negociar promoções. Nada melhor do que ter um presidente que faz negócio com o futebol para poder investir mais no clube. Ele, associado à Traffic, [que] é quem faz a Copa América, as placas do Maracanã. Ele é um negociante do futebol. Acho que isso vai ajudar muito o Flamengo, mas é porque o presidente é profissional nisso.

Milton Jung: Oldemário, sobre essa questão de marketing e empresa, vários telespectadores estão ligando. É o caso do Valdemar Helena Júnior. O Eduardo Teixeira, inclusive, elogia sua posição sobre o futebol e a empresa. O Lúcio Calderon também acha interessante as empresas investirem em futebol. Todos eles gostariam de saber se isso acabaria com os problemas que existem hoje no futebol quanto à cartolagem, se os dirigentes se tornariam mais profissionais com essa privatização do futebol.

Wanderley Luxemburgo: Eu acho que o dirigente tem que ser profissional, estamos precisando de um dirigente profissional nos clubes, um dirigente remunerado, aquele que vai ter responsabilidade. Não adianta você ter o dirigente amador, aquele que não sabe quanto custa nada. Vamos colocar a coisa bem clara: quantos dirigentes, presidentes de clubes, contrataram jogador de um milhão de dólares e venderam por cem mil? Uma porção deles, porque não é o dinheiro deles. Agora, a partir do momento em que ele é assalariado, que ele tem responsabilidade, que se não fizer a coisa bem feita ele perde o emprego, a coisa muda de figura.

[sobreposição de vozes]

Milton Jung: O Brasil está longe de chegar a esse nível?

Wanderley Luxemburgo: Se você pegar esses dois últimos anos, o São Paulo foi o pioneiro com essa modernidade, com a chegada da TAM [Linhas Aéreas]. Não era a TAM, era uma outra empresa, mas não me lembro o nome...

Juca Kfouri: IBF [Indústria Brasileira de Formulários. Patrocinou o São Paulo Futebol Clube entre 1991 e 1992], que Deus a tenha! [O Grupo IBF foi acusado de envolvimento em casos de corrupção durante o governo Collor]

[risos]

Wanderley Luxemburgo: Isso. Ela começou a fazer esse tipo de investimento e a coisa começou a fluir. Acho que nós estamos próximos...Quando o Brasil foi campeão do mundo - posso falar isso porque eu fui o treinador de futebol que não comentou nada sobre a Seleção Brasileira. Achava que qualquer comentário que eu, o Telê, os treinadores de peso fizessem ia ter uma influência muito grande, poderia haver discussão e isso não seria benéfico - se o Brasil tirasse proveito da Copa do Mundo... Nós temos tudo para fazer o futebol brasileiro da forma como tem que ser feito e manter todos esses grandes jogadores no Brasil. Se você quer saber, hoje, o Brasil já é o país que melhor paga o treinador de futebol. Nós não temos necessidade de sair do Brasil para ganhar dinheiro. Até estou me expondo um pouco falando isso.

Milton Neves: [interrompendo] Wanderley, por falar em dinheiro...

Wanderley Luxemburgo: Nós temos que ficar aqui no Brasil, porque somos reconhecidos profissionalmente. E não é só treinador, mas é jogador de futebol. Ele também não está mais querendo sair do Brasil. Isso não acontece em todos os clubes, há exceções.

Milton Jung: O Laércio Pereira, de Campinas, no interior de São Paulo, pergunta se é importante a formação universitária específica para o treinador de futebol ou basta ter sido jogador.

Wanderley Luxemburgo: Não, não é que seja extremamente necessário. Se você puder unir as coisas, é muito importante você ter a prática de ter jogado futebol e ter um curso universitário. Claro que você aumenta seus conhecimentos, fica muito mais fácil para você poder trabalhar, desenvolver um trabalho, mas não quer dizer que seja necessário você ter sido jogador de futebol e ter que ser formado.

Milton Neves: Deixe-me falar com você um assunto delicioso, envolvendo a [Secretária da] Receita Federal. No meio do ano passado, eu conversei muito com você na [rádio] Jovem Pan. Você ficou meio assustado, mas respondeu tudo. O Palmeiras caiu um pouco na produção coincidentemente no momento em que o senhor Osiris [(1938-2009) Osiris Lopes Filho foi secretário da Receita Federal entre 1993 e 1994. No cargo, criticava o excesso de carga tributária no país, mas fiscalizava muitos milionários], secretário do governo Itamar Franco, estava pegando no pé dos milionários como você, como os jogadores do Palmeiras, porque o inteligente [jogador] Renato Gaúcho começou a dizer que ganhava por fora no Atlético Mineiro. Isso chamou a atenção dele e ele começou a fazer um levantamento. Depois, alguém pediu para que ele não fizesse isso antes da Copa, porque estava prejudicando a cabeça dos jogadores e, coincidentemente, o Palmeiras caiu de produção durante uns 15, vinte dias, na época em que se falava muito disso. Perguntei a você na Jovem Pan se era verdade que eles foram até à Parmalat e que estavam fazendo um levantamento a respeito de vocês, contratados do Palmeiras e da Parmalat. Chegaram até a fazer um levantamento das suas lojas de automóveis no Rio de Janeiro. O que houve realmente no meio do ano passado, antes da Copa do Mundo?

Wanderley Luxemburgo: Só conversa, só conversa... Acho que a Receita Federal se preocupa com as pessoas que fazem sucesso, vai investigar a minha vida, a sua, porque você também é um homem de sucesso, um homem bem sucedido financeiramente, através da sua rádio, daquilo que você faz, e essas coisas são as grandezas da gente. Nós temos que crescer, você é uma pessoa bem sucedida, então também pode ter problemas com a Receita amanhã pelo seu sucesso. Mas como você tem a vida como a minha, sossegada, a Receita pode chegar e investigar, porque eu acho que tudo isso é grandeza das pessoas. Se você nasceu pobre, isso não quer dizer que você não possa melhorar sua condição de vida. Você tem que procurar melhorar sua condição de vida. Eu melhorei a minha, mas ela está aberta para a Receita chegar como naquele momento...

Milton Neves: [interrompendo] Mas houve investigação mesmo?

Wanderley Luxemburgo: ...assim como a sua também vai estar aberta para investigação, porque...

Milton Neves: Eles têm tudo lá, não é?

Wanderley Luxemburgo: ...é o crescimento de cada um, isso é inerente a nós que estamos crescendo...

Milton Neves: [interrompendo] Mas mexeu com a cabeça dos seus jogadores?

Wanderley Luxemburgo: Não, como também não deve mexer com a sua, porque nós estamos preparados para isso.

[sobreposição de vozes]

Sérgio Baklanos: Wanderley, a respeito desse aspecto do fisco, o problema é que o Flamengo deve 25 milhões de cruzeiros na praça...

Oldemário Touguinhó: [corrigindo] Cruzeiros não, reais!

Sérgio Baklanos: Reais, isso. Pior ainda, pois deve muito mais...

Oldemário Touguinhó: Mas deve quem tem prestígio, "duro" não deve!

Sérgio Baklanos: Só que, desses 25 milhões, 80% se refere à dívidas previdenciárias e fisco, Imposto de Renda. Agora, o Kléber Leite fala: “A gente vai lá no governo e equaciona a dívida, isso é fácil. Os 20% de resto são serviços, a gente toca”, quer dizer, você acha que está certo isso? O Flamengo deve Imposto de Renda. Nós temos um país de miseráveis, que dependem do salário mínimo, quer dizer, prejudicar esse povo por causa de uma dívida do Flamengo, por melhor que seja o Flamengo, por melhores que sejam as intenções desse grande mecenas do futebol, que é o Kléber Leite?

Wanderley Luxemburgo: Acho que ninguém tem que dever a ninguém. Todo mundo deve, não é só o Flamengo, todos os clubes do Brasil devem, todos eles.

Milton Neves: Sempre deveram.

Wanderley Luxemburgo: Sempre deveram...

[...]: Mas vamos levar calote na Previdência Social por causa disso?

Wanderley Luxemburgo: Mas é o que eu estou falando, não tem que dar calote nenhum, mas todos os clubes do Brasil devem, todos eles, sem exceção...

[sobreposição de vozes]

Oldemário Touguinhó: Mas há aí uma pequena diferença: o Flamengo faz muito pelo futebol, faz muito pelo esporte, faz muito pelo povão, que tem alegria. Há muitos políticos que não fazem nada e roubam todo mundo!

[sobreposição de vozes]

Milton Jung: Mas essa é outra questão, Oldemário. Por favor, só um minuto. Oldemário, por favor.

Oldemário Touguinhó: O clube tem mais condições de pagar do que esses políticos que ficam com o dinheiro dos outros!

Milton Jung: Só um minuto! O Melchiades tem uma pergunta, por favor.

Melchiades Filho: Agora está ficando um pouco repetitivo...O Telê foi um jogador moderno e foi um técnico moderno, o Zagallo foi um jogador moderno e um técnico moderno. Você é um técnico moderno e muita gente tem curiosidade de saber como você foi como jogador. Eu, por exemplo, não vi...

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] O Oldemário pode te responder.

[risos]

Melchiades Filho: Não, eu não vou perguntar nada para o Oldemário! Você era um jogador moderno?

Wanderley Luxemburgo: Eu vou te dizer uma frase. Por eu buscar essa modernidade e sempre me aprimorar, o Coutinho [(1939-1981) Cláudio Coutinho foi treinador da Seleção Brasileira e do Flamengo na década de setenta], na época, dizia que eu era o atleta que melhor fazia overlapping [jogada de ataque em que o lateral entrega a bola a um companheiro e se desloca para recebê-la mais à frente, confundindo a marcação]. O Oldemário deve saber disso. Na época em que eu estava no Flamengo com o Coutinho eu tinha uma ultrapassagem muito boa, mas eu não era um bom jogador de futebol. Eu me machucava muito e na época em que eu jogava no Flamengo eu substituí o Paulo Henrique junto com o Rodrigues Neto, que era um excelente jogador. Depois veio o Júnior [um dos mais reconhecidos laterais da história do Flamengo] e aí não teve mais espaço.

Juca Kfouri: Ontem, no Cartão Verde [programa de jornalismo esportivo exibido pela TV Cultura], a gente perguntou ao Valdir Espinosa, que também é ex-lateral, se ele jogaria no time dele hoje. Ele disse que sim. Você jogaria no seu time hoje?

Wanderley Luxemburgo: Jogaria, com certeza. Eu teria potencial para jogar hoje.

Milton Jung: Nós estamos quase concluindo os noventa minutos deste jogo e não passamos por um ponto que eu considero importante na sua carreira, que é essa aplicação da neurolingüística. O senhor revolucionou algumas partes do futebol, trazendo um software de informática para dentro do vestiário e também a neurolingüística. Como isso funciona na conversa com os jogadores?

Melchiades Filho: Wanderley, fale sobre estatística também. Você é um técnico que usa muitos números.

Wanderley Luxemburgo: Isso aí é importante. Eu leio bastante sobre neurolingüística e procuro aplicar nos jogadores, mas é um outro trabalho que pertence mais ao grupo, ao nível do grupo. Faço muito esse trabalho. Eu tinha a Suzy Fleury, que é uma psicóloga e amiga que trabalha com neurolingüística em uma empresa de aviação, e nós conversávamos bastante a respeito disso. A neurolingüística é aquilo que você fala que "de um limão se faz uma limonada". Você tem que passar frases importantes para o atleta para que ele se sinta forte para buscar o resultado. É uma série de coisas, mas é um trabalho em nível de grupo.

Milton Jung: Dê um exemplo mais prático de como o atleta recebe essa conversa.

Wanderley Luxemburgo: Recebe muito bem, recebe muito bem, porque é motivante, estimulante, ele se estimula para jogar.

Melchiades Filho: E a questão matemática, estatística?

[sobreposição de vozes]

Wanderley Luxemburgo: A estatística é fundamental. Por exemplo, nós trabalhávamos com o Datafolha [instituto de pesquisas do Grupo Folha], que é muito importante porque te dá subsídios para você poder desenvolver com o atleta... Por exemplo, todo mundo falava do São Paulo, que era o clube que mais fazia faltas no futebol brasileiro. Nós tínhamos essa estatística. Era o clube que mais fazia falta. Por exemplo, você perder a bola no seu campo de jogo, numa saída de bola, o adversário [vai] estar muito mais próximo do seu gol... Então, se em um jogo você começava a errar muito na saída de bola, você via pelos dados que você precisava melhorar sua saída de bola. No caso, o Mazinho [lateral-direito e meia] e o Zinho [meia armador], que jogaram no Palmeiras, eram o termômetro da minha equipe. No dia em que eles erravam muitos passes eu sabia que a equipe não estava jogando bem, porque eram jogadores que tinham percentuais de passes fantásticos. O Mazinho errava três ou quatro passes por jogo.

Melchiades Filho: Você chegou a criar uma jogada especial a partir dos números?

Wanderley Luxemburgo: Não dá para fazer isso, jogada especial não dá. O número é só para você ver... Por exemplo, se o jogador está errando muito passe, você vai trabalhar a parte de passe do atleta, se ele está desarmando mal, ele está precisando trabalhar isso. Mas não dá para montar a jogada.

Juca Kfouri: Wanderley, vi outro dia uma estatística em relação ao Dunga na Copa de 1994, mostrando que ele foi o jogador de maior acerto de números de passes na Seleção, o que é aparentemente surpreendente para quem não gosta do Dunga. Agora me ocorre uma dúvida: se essa estatística é fria, ela não vai te revelar que passes foram esses, se foram laterais ou... quer dizer, como medir a diferença entre eficácia e eficiência?

Wanderley Luxemburgo: Olha, não é o passe lateral do Dunga. Se você vir as jogadas do Dunga, foram jogadas de gol. É por isso que o pessoal fala do Dunga. Nunca entrei no mérito porque achava que iria polemizar muito, não queria polemizar nada, mas o Dunga era um jogador importantíssimo para a Seleção Brasileira, porque além do desarme ele iniciava toda a jogada de contra-ataque. Quando o adversário estava no seu campo, todo fechado, ele deslumbrava uma jogada com uma enfiada de bola de trivela, um passe mais longo. Aí vem aquilo que eu estou falando sobre a modernidade. O Dunga hoje é um jogador moderno, que participa da parte defensiva e que vai à frente e desenvolve. O Palmeiras tinha isso com o Mazinho e com o César Sampaio. Quantos jogos o César Sampaio decidiu? Por quê? Porque hoje, quando você ataca o adversário, ele se protege pelo lado do campo, pelo meio do campo, congestiona...

Melchiades Filho: [interrompendo] O Dunga é técnico, Wanderley?

Wanderley Luxemburgo: Muito técnico, extremamente técnico, é um jogador de um percentual de acerto muito grande dentro do jogo. Você inicia a jogada por onde? Com seus dois volantes. Se você tiver aquele jogador sem criatividade, você não consegue jogar.

Juca Kfouri: Eu cometeria uma heresia se eu dissesse que a Copa não foi a Copa do Romário, mas foi a Copa do Dunga?

Wanderley Luxemburgo: Olha, eu acho que o Romário foi importantíssimo. Ele ganhou, fez os gols, mas o Dunga foi fundamental para o equilíbrio da equipe entre poder ofensivo e defensivo.

[sobreposições de vozes]

Milton Jung: Milton Neves, Oldemário, eu gostaria de pedir licença, pois nosso tempo está terminando e esse jogo não tem prorrogação.

Oldemário Touguinhó: [interrompendo] Só [quero] dizer o seguinte: de fato, acho que você está perto da Seleção, inclusive porque você é do Rio. Chegar à Seleção é fácil.

Milton Jung: Oldemário, muito obrigado. Nós estamos com o tempo praticamente encerrado. Wanderley, você falava do Dunga... O Dunga vai para o Flamengo?

Wanderley Luxemburgo: Em junho, se Deus quiser. Eu só gostaria de... Na hora das perguntas... é que o Milton é uma pessoa por quem eu tenho um carinho muito grande, nós conversamos, discutimos diversas vezes...

Milton Neves: [interrompendo] Você brigou comigo, Wanderley.

Wanderley Luxemburgo: É que eu mandei você descer lá da cabine, mas é que eu queria você mais perto de mim...

Milton Neves: Eu não vou estar lá, eu vou para a rádio!

Wanderley Luxemburgo: É para você chegar mais próximo de mim.

Milton Jung: Wanderley Luxemburgo, eu gostaria de agradecer sua presença aqui no Roda Viva e também lhe desejar boa sorte nessa tarefa junto ao Flamengo. Que você consiga realmente êxito e quem sabe chegar à Seleção Brasileira, que eu sei também que é um desejo seu. Agradeço a presença de todos os jornalistas e de vários telespectadores que nos ligaram fazendo inúmeras perguntas. O Roda Viva volta na próxima segunda-feira. às dez e meia da noite. Boa noite e boa semana para você.

 

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