Memória Roda Viva

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Adélia Prado

5/9/1994

"Para mim, a inspiração é exatamente o desejo de expressar algo que pede expressão, porque senão é como fazer tijolo sem barro, não é?" - explica a poeta mineira

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[programa ao vivo]

Heródoto Barbeiro: Muito boa noite. Em 1976, o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu em uma crônica que São Francisco estava ditando poesias para uma dona de casa de uma pequena cidade mineira, a cidade de Divinópolis. E dava, assim, a bênção definitiva para que o editor lançasse prontamente o primeiro livro da tal dona de casa. Era o Bagagem, uma coletânea de poesias. Depois disso, ainda acompanhada do rótulo de “uma dona de casa que escrevia”, a poetisa lançou mais oito livros. O último deles é o romance O homem da mão seca [Heródoto mostra a capa do livro], que foi lançado recentemente aqui na Bienal do Livro de São Paulo. No centro do Roda Viva, que começa agora pela Rede Cultura, a escritora Adélia Prado. Professora da rede pública de ensino, mãe de cinco filhos, Adélia Prado foi muito além da sua pequena Divinópolis, impulsionada pela força da sua prosa e poesia, mas jamais saiu de lá. É da sua vida ordinariamente cotidiana, segundo suas próprias palavras, que ela tira a religiosidade, o brejeiro e o poético que marcam a sua obra. E de mais longe, de uma inspiração universal, veio o profano, o erótico e a angústia, que são o tempero áspero de seus livros. Este é um dos raros momentos em que Adélia Prado deixa a sua terra para falar de sua obra. Mas fez isso à maneira de Adélia Prado. A escritora, que não anda de avião, viajou 600 quilômetros de Divinópolis até São Paulo em um ônibus [Adélia sorri]. Para entrevistar a escritora Adélia Prado, nós convidamos o Humberto Werneck, que é o redator-chefe da revista Playboy; o Augusto Massi, editor de livros do caderno Mais!, da Folha de S.Paulo; o Fábio Lucas, que é crítico de literatura e presidente da União Brasileira de Escritores; a Marta Góes, redatora-chefe da revista Cláudia; o José Castello, que é cronista do jornal O Estado de S. Paulo; o Hamilton dos Santos, editor de livros da editora Geração; a Luciana Villas-Boas, editora do caderno Idéias & Livros do Jornal do Brasil . O Roda Viva é transmitido e retransmitido por mais 23 emissoras que cobrem todo o território brasileiro. Adélia, boa noite.

Adélia Prado: Boa noite.

Heródoto Barbeiro: Adélia, conte-nos o seguinte: como você conheceu o poeta Carlos Drummond de Andrade e qual foi a importância que ele teve para lançar você como poetisa?

Adélia Prado: Em 73, mais ou menos, eu tinha já bastante, talvez quase metade do meu livro Bagagem, e eu desejei, necessitava de um aval, quer dizer, eu tinha uma necessidade de saber se eu era poeta. O [escritor] Affonso Romano de Sant'Anna fazia uma coluna de crítica literária na Veja, e eu mandei para ele. E ele mostrou ao Drummond, que fez aquela... Todo mundo conhece a história, já que tão repetida está. Ele fez um comentário generoso na coluna dele do Jornal do Brasil e, a partir daí, uma editora se interessou, exatamente através do [editor] Pedro Paulo de Sena Madureira, e quis ver os poemas, quis me conhecer, toda aquela história: namoro, noivado e casamento.

Humberto Werneck: Você chegou a conhecer Carlos Drummond de Andrade pessoalmente?

Adélia Prado: Conheci.

Humberto Werneck: Como é que foi isso, conte para a gente.

Adélia Prado: Ele desejou me conhecer, não é? E me fez um convite que o visitasse, que gostaria de me conhecer, e foi assim, eu fui a casa dele, e a gente conversou de tudo, menos de literatura, e foi muito, muito bom. Quer dizer, foi um aval definitivo. A editora se interessou, através de Pedro Paulo de Sena Madureira, e os livros se seguiram, então; eu tive essa sorte, essa felicidade de ter esse apoio, essa aprovação inicial do Carlos Drummond.

Fábio Lucas: Adélia, existe uma personagem onipresente na sua poesia e na sua prosa, Jonathan. Que personagem é essa?

Adélia Prado: Jonathan é o masculino, aquilo que eu não sou, aquilo que me falta e aquilo que eu desejo para a minha completude. Ele é exatamente um fato poético desde sempre [...], hora em que tudo mais desce à desimportância. Isso é Jonathan para mim.

Fábio Lucas: Na sua poesia, encontra-se quase sempre uma faixa muito grande de misticismo e uma faixa muito grande de erotismo. Agora, eu fico pensando, quando analiso a sua produção, se por detrás disso tudo há uma tradição católica muito forte, contra-reformista, autoritária e, de certa forma, dogmática. Você não usa, de certo ponto de vista, o erotismo e o próprio misticismo como formas de libertação desse dogma sob o qual você foi criada?

Adélia Prado: Não, usar, não, jamais. Eu sou devedora de uma educação rígida, sob esse aspecto religioso, de uma educação católica, rígida, tradicional, mas que, junto com essa rigidez, ela me ofereceu também um espaço que foi o meu primeiro espaço de experimento poético, foi exatamente a beleza do culto, da liturgia e da palavra divina. Então, a Igreja, vamos dizer assim, a Igreja, a instituição, era repressora. A minha educação foi repressora, mas o culto é belo. Quer dizer, Deus era melhor que sua igreja, enfim, foi a grande descoberta. Então, é por aí. Eu descubro que as coisas não se hostilizavam, não se hostilizam, e até antes de se hostilizar, elas são comuns, elas têm uma origem comum. Isso para mim é muito tranquilo.

Heródoto Barbeiro: Adélia, você acabou de responder também à pergunta do senhor João Antônio, que está assistindo a você, ele é de São Paulo, e do senhor José Guilherme, também de São Paulo. Ele diz que adora as suas obras e diz o seguinte, já que você tem medo de avião: “Você tem vontade de conhecer a Europa ou não?”.

Adélia Prado: [Risos] Não [é bem assim], eu até já fui. Eu não tenho medo de avião assim; em último caso, eu entro. Eu até vou e já fui, mas prefiro o ônibus: [de] Divinópolis [a] São Paulo, eu prefiro.

Augusto Massi: Eu queria perguntar o seguinte: você demorou muito tempo para publicar O homem da mão seca, quer dizer, você vinha num ritmo de publicação muito intenso. Depois desse episódio que você relatou do Carlos Drummond de Andrade, da publicação de Bagagem, foram se sucedendo vários livros. [Sobre] o penúltimo livro, Faca no peito, você chegou a fazer uma autocrítica nos jornais e chegou a excluir alguns poemas. Eu notei, neste livro [O homem da mão seca], um aspecto de alguém que estivesse saindo de uma crise. Isso é real?

Adélia Prado: É, é real, sim. Porque, imagine que a coisa mais prazerosa que tem para quem escreve, para qualquer criador de qualquer natureza, quem compõe, quem pinta, a coisa mais prazerosa que tem é exercer isso, não é? É escrever, é pintar. Então, o que eu mais queria era escrever o romance, que começou em 87, mas a despeito do meu desejo, houve uma paralisação nisso aí, de naturezas várias... E eu só pude retomar agora e terminei o romance.

José Castello: Adélia, eu queria saber o seguinte: você falou que no seu encontro com Drummond você conversou sobre tudo, menos sobre literatura.

Adélia Prado: Sim.

José Castello: Você mora também em Divinópolis, quer dizer, fora do eixo Rio-São Paulo. Eu queria saber que interlocutores você tem na área literária mesmo. Você tem escritores amigos com quem você conversa sobre literatura? Você mostra os seus originais antes ou não? Ou você trabalha isolada e por quê?

Adélia Prado: Eu nunca me coloquei a questão assim, sabe? Que devo ou não devo ter... Pelo fato de morar em Divinópolis, talvez, longe dessa situação que congrega mais escritores, talvez discussões mais acadêmicas, cursos, encontros, nunca me ocorreu que pudesse ser diferente.

José Castello: Mas quem lê os seus originais antes de ir para a editora? Alguém lê ou só você lê e manda?

Adélia Prado: Eu, às vezes familiares que me ajudam a fazer, datilografar, essas coisas.

Hamilton dos Santos: Adélia, nas suas entrevistas, normalmente, você reluta contra os formalistas e diz que poesia é basicamente inspiração. Se a gente pegar, por exemplo, um poema seu, o “Objeto de amor” [poema do livro O pelicano, publicado em 1987], tem uma sucessão de pequenos versos líricos, e de repente você quase que conclui com uma conversa quase escatológica: o “cu é lindo”. Eu queria lhe perguntar o seguinte: até que ponto você não trai essa inspiração com uma certa celebração, uma certa maquinação dessas intervenções escatológicas na sua lírica?

Adélia Prado: Mas isso não é intervenção, não, isso cai [risos] com o mesmo lirismo, como se eu estivesse falando de um belo pôr de sol. É isso que me dá tranqüilidade. Alguém me perguntou: “Mas...”, até queria que eu lesse o poema. Eu falei: “Não, acho impertinente eu ler o poema numa situação tal aí”. “Mas por quê?”. E eu falei: “Eu demorei 50 anos para escrevê-lo”. Mas eu não tenho nenhuma... não há uma intenção: agora vai acontecer. O poema vem.

José Castello: Mas vem de onde, Adélia?

Adélia Prado: Ah, eu sabia [que perguntariam isso] [risos].

José Castello: Porque parece espírita falando. Os espíritas que recebem, psicografam.

Adélia Prado: Mas não é psicografado, não.

José Castello: Pois é.

Adélia Prado: É claro.

Hamilton dos Santos: Mas, por exemplo, no “Objeto de amor”, não lhe parecia, assim, uma sucessão muito lírica que, de repente, esse verso...

Adélia Prado: Mas o que o poema quer dizer?

Hamilton dos Santos: ...porque é a inspiração que te faz, te força a deixar o verso lá? Ou você...

Adélia Prado: Não, exatamente, porque, exatamente, se trata disso, aquela determinada coisa ali é lírica, senão o poema não existiria como tal. É porque é lírico que está dito. Essa é a única razão que explica o poema tal qual ele é.

Heródoto Barbeiro: Adélia, vamos à pergunta agora da Luciana.

Adélia Prado: Eu não respondi a do Castello, não é?

José Castello: Oi?

Adélia Prado: Você fez uma pergunta, que eu não respondi.

José Castello: Eu interrompi para perguntar de onde vinha a poesia.

Adélia Prado: É, é aquela velha discussão: é inspiração, é transpiração, não existe inspiração... Eu acredito em inspiração. Para mim, a inspiração é exatamente o desejo de expressar algo que pede expressão, porque senão é como fazer tijolo sem barro, não é? Você vai ao seu escritório... Eu trouxe um poema exatamente porque eu sabia que essa pergunta ia ser... Eu falei: em caso de chuva, eu tenho... Eu posso ler o poema? [Ele] responde o que eu penso de inspiração.

Fábio Lucas: Será [o poema] “A formalística”?

Adélia Prado: “A formalística”, exatamente.

Fábio Lucas: Pois é, porque [neste poema] você disse que “O poeta cerebral...

Adélia Prado: “tomou café sem açúcar”.

Fábio Lucas: ...tomou café sem açúcar/ e foi pro gabinete concentrar-se”.

Adélia Prado: [lê o poema] “O poeta cerebral tomou café sem açúcar/ e foi pro gabinete concentrar-se./ Seu lápis é um bisturi/ que ele afia na pedra,/ na pedra calcinada das palavras,/ imagem que elegeu porque ama a dificuldade,/ o efeito respeitoso que produz/ seu trato com o dicionário./ Faz três horas já que estuma as musas./ O dia arde. Seu prepúcio coça./ Daqui a pouco começam a fosforescer coisas no mato./ A serva de Deus sai de sua cela à noite/ e caminha na estrada,/ passeia porque Deus quis passear/ e ela caminha./ O jovem poeta,/ fedendo a suicídio e glória,/ rouba de todos nós e nem assina:/ ‘Deus é impecável'./ As rãs pulam sobressaltadas/ e o pelejador não entende,/ quer escrever as coisas com as palavras” [poema do livro A faca no peito, publicado em 1988]. É a melhor resposta que eu tenho sobre essa questão. O que é? De onde vem esse poema? Eu jamais daria conta de dar uma resposta assim para a questão, se essa própria coisa não for um poema. Eu acredito que esse poema é inspirado, acredito firmemente. Então, é a melhor resposta que eu tenho.

Luciana Villas-Boas: Adélia, você recentemente causou polêmica na imprensa do Rio de Janeiro, dizendo que o ato criativo é essencialmente masculino. Eu queria saber se você sabia da reação que ia provocar – se estava esperando por ela – de outras autoras. E o que quer dizer realmente isso?

Adélia Prado: Sim, claro, sabia [sorri]. A pacata senhora mineira não é tão ingênua assim, não é? [risos]. Eu sabia exatamente. Mas é muito simples. Se você volta à entrevista, eu disse que o ato criador é masculino, [mas] ele não é um ato do macho, é tão simples isso, é um ato masculino, que é comum ao homem e à mulher. É isso que eu disse. O ato criador é masculino para mim. Quer dizer, eu não tenho uma teoria, eu não tenho um tratado filosófico sobre o assunto, mas é uma coisa que eu sinto, e nem sou original falando isso. Se você olha livros antigos, por exemplo, o próprio I Ching [um dos mais antigos livros chineses; pode ser lido como um oráculo ou como um livro de sabedoria], na cultura oriental você vê isso demais, porque a natureza está – não é que eu queira – dividida em masculino e feminino. Tudo, tudo tem um gênero. E está lá, é como uma intuição, não é um tratado filosófico, são tratados poéticos que dizem: o princípio criador é masculino. Então, é isso que eu estou dizendo, não é do macho, é masculino, que também está na mulher. Quer dizer, eu sou homem quando eu escrevo. Se eu fosse compositora, eu seria homem na hora em que eu estivesse compondo.

Marta Góes: Tem uma outra declaração que eu...

Adélia Prado: É isso que eu quis... que eu disse, exatamente, é só olhar a entrevista, está lá. Não é um ato do macho, é um ato masculino, o ato criador, é uma coisa poderosa demais.

Marta Góes: Tem uma outra declaração sua que também me deixa intrigada. Quando você elogia a vocação da mulher para servir...

Adélia Prado: Sim.

Marta Góes: ...isso me assusta um pouco, porque eu tenho medo de que isso legitime alguns comportamentos assim autoritários e prepotentes. Então, eu queria que você explicasse...

Adélia Prado: Eu acho que a glória do feminino, continuo achando, é uma discussão complicada, porque mexe nos afetos, não é? Toda vez que você cuida disso, você não dá conta de ficar só no acadêmico ou na filosofia. Você mexe nos afetos, nas minorias espoliadas, aí vem tudo junto e ninguém pensa mais, começa: “Ah, um absurdo”. Mas eu acho exatamente isso. O feminino... assim como o ato criador é masculino, para mim, eu sinto as coisas assim, o papel do feminino é o papel do segundo lugar, é o do segundo, é o do serviço, do anonimato mais perfeito. É isso que para mim é o feminino. É a permissão para que o homem aconteça. É que, no caso, num sentido muito profundo mesmo. Sem isso, se nós, mulheres, aqui no caso, que somos até aparentemente, externamente mulheres, se esse feminino não se realizar em nós, da ordem espiritual e psicológica, o homem que está do meu lado não acontece. Porque há uma – como é que se fala? –, uma diluição dos papéis. Eu acredito que há um papel feminino, sim, e que é o papel do serviço. Agora, é muito fácil confundir o papel do serviço com escrava, doméstica etc, como confundir aquilo que eu disse, que o ato criador é masculino, [achando que] é macho. É a mesma confusão que se faz.

Hamilton dos Santos: Adélia, você disse também, em entrevistas recentes, que teria findado, digamos assim, a era de Jesus e que teria chegado agora então a era de Maria. Ou seja, que esse segundo lugar... a gente estaria entrando agora num momento em que esse segundo lugar, da mulher, viveria uma espécie de irrupção. Que espécie de irrupção é essa? Essa irrupção não seria uma contradição porque, então, a mulher passaria para o primeiro lugar, ou esse segundo lugar...

Adélia Prado: Não, não.

Hamilton dos Santos: ...seria simplesmente...?

Adélia Prado: Não é isso. E também não sou só eu que estou dizendo isso. Há uma percepção muito grande. Você vê movimentos que estão irrompendo. Eu vou citar um exemplo que está mais próximo de mim, todo mundo deve conhecer outros exemplos. Movimentos religiosos de igreja, dos carismáticos, por exemplo, que estão sob a égide do Espírito Santo, e toda uma teologia também que descobre o feminino em Deus. E esse feminino é Maria, é o Espírito Santo, para mim. Então, quer dizer, nós já vivemos, isso eu estou falando agora grossamente, de maneira muito grosseira: a era do Pai, a era do Filho. Então, eu acho que a era do Espírito Santo, para mim, é a era do feminino. E não é exatamente o poder, não, é exatamente o contrário: a mulher descobriu o serviço, descobriu o segundo lugar, o seu anonimato. Esse anonimato que é a glória do feminino.

José Castello: Adélia, Paulo Coelho fala mais ou menos disso no seu último livro [Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei]. E falou disso aqui no programa há um mês [refere-se à entrevista do escritor no Roda Viva em 8/8/1994].

Heródoto Barbeiro: É verdade.

José Castello: Queria saber se você já leu Paulo Coelho, o que você acha, se você leu esse último livro.

Adélia Prado: Não, o último livro, não. O que eu li do Paulo Coelho, e gostei, foi o primeiro.

José Castello: O alquimista .

Adélia Prado: O alquimista . O que eu tenho a dizer é o seguinte: o que o Paulo Coelho ofereceu naquela fábula que tem esse sucesso absurdo é uma comida para uma fome espiritual muito grande. Aquela fábula é uma fábula sobre todo o trabalho da individuação, sobre o processo de individuação humana: busque o seu caminho, conheça a si mesmo, essas coisas que todo mundo já sabe. Ele criou uma fábula e é agradável de ler, é bom, há coisas boas ali, é isso. Não tem nenhum mistério. Ele ofereceu na hora de uma fome muito grande que a gente está vivendo, a fome do espiritual. Você liga [à fome do espiritual] o livro do Paulo Coelho; você liga salões de poesia, onde você fica lendo poesia até 11 horas da noite, e as pessoas [dizem]: “lê mais, lê mais, lê mais”. Isso não é literatura, não, isso não é literário, não.

Hamilton dos Santos: Você está dizendo que, de uma certa forma, o ser humano precisa de uma certa confirmação, de uma certa ratificação do óbvio. A gente poderia até pegar a conversa do [ex-ministro da Fazenda Rubens] Ricupero, por exemplo [refere-se ao chamado “escândalo da parabólica”, causado pelo vazamento de uma conversa, em setembro de 1994, entre o jornalista Carlos Monforte e o então ministro Ricupero, que disse: “Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. O episódio provocou a renúncia de Ricupero]. Todo mundo sabia aquilo, mas, de repente, todo mundo se choca, como todo mundo sabia da fábula do Paulo Coelho.

Adélia Prado: Não é [que] a gente sabe. Mas o papel do escritor, do artista, é exatamente revelar, e às vezes é o óbvio mesmo. Você tem uma fome, você não sabe de quê. Aí você lê um poema, ou um livro, ou vê um filme e você fala: “É isso aí que eu quero”. E essa fome não é acadêmica, não é filosófica. Ela é de natureza mais profunda, ela é espiritual. E quem dá isso para as pessoas está dando comida de primeira qualidade.

Heródoto Barbeiro: Adélia, antes de passar para o Werneck, queria que você respondesse a dois telespectadores. Um é de São Paulo e o outro é de Porto Alegre. Eles querem saber qual é a sua opinião sobre a entrevista do ministro Rubens Ricupero e se você acredita que ele estivesse falando a verdade mesmo.

Adélia Prado: Sei. É para responder agora?

Heródoto Barbeiro: Isso.

Adélia Prado: Olha, eu fiquei, como todo mundo, chocada, tudo, não preciso falar isso, não é? Mas quando eu vi o mea-culpa dele na televisão, sabe o que eu queria? Que ele continuasse ministro da Fazenda, porque eu prefiro um pecador arrependido do que um jovem aí que ainda vai pecar e nem sabe que peca ainda [risos], que nem sabe de sua própria vaidade.

Heródoto Barbeiro: Quer dizer que você o está absolvendo do pecado que porventura ele possa ter cometido. É isso?

Adélia Prado: Estou, claro. Por exemplo, eu acredito em tudo o que ele fizer a partir de agora. Eu achei que ele não perdeu, de jeito nenhum, a dignidade. Eu acho que o comportamento dele foi de grandeza mesmo, sabe? Agora, quem é que pode atirar pedras nele? [alusão à passagem bíblica em que Jesus diz aos que pretendiam apedrejar uma adúltera: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!”]?

Heródoto Barbeiro: Quer dizer que você entregaria as suas economias para ele administrar?

Adélia Prado: Ah, direitinho, direitinho. Acho que ele é de extrema confiança, principalmente agora. [...] o Brasil é o país das trapalhadas; nós somos diferentes em tudo, nosso socialismo é diferente, a nossa democracia... Acho que seria tão singular a gente permitir que o ministro ficasse, sabe? Imagina, ele teria toda condição agora de falar: “Gente, o plano ou vai dar certo ou não vai...”, mas, quer dizer, ele estava liberto já daquela carga de não falar o que pensa, não é? Para mim, é um homem de extrema confiança para conduzir os destinos da realidade [ri].

Humberto Werneck: Adélia, eu queria voltar um pouquinho à inspiração. Me intriga saber como é, no seu cotidiano, essa descida do poema. Tem alguma circunstância em especial que favorece a chegada do poema? Como é que você recebe esse foguinho aí na sua cabeça?

Adélia Prado: É igual para o poeta cerebral. A diferença é que eu não chamo isso de trabalho, eu não acho que isso é um labor, sabe? [O poeta cerebral alega:] “Eu estou me esforçando, trabalhando o meu livro”. Eu acho que isso é um prazer tão grande. Agora, tem que se fazer a ressalva: são processos diferentes de criação. Há pessoas que eu acho que devem criar com angústia, porque muita gente fala isso, que é uma angústia, que é um suor, que é um labor muito grande.

Humberto Werneck: Seu poema chega pronto?

Adélia Prado: Geralmente sim. Às vezes, a única coisa que eu tenho de fazer depois é limpá-lo, escoimá-lo das gorduras, dos excessos do momento da escrita.

Marta Góes: Mas nesses sete anos desse livro, você não perseguiu o seu livro? Quer dizer, você apenas esperou?

Adélia Prado: Não, não persegui, não. Era uma dor, porque o que eu quero... era o que eu mais queria.

Luciana Villas-Boas: Você dizia que não faria ficção. Durante muito tempo você disse isso. Como foi?

Adélia Prado: Não, eu falava que eu não sabia fazer ficção.

Luciana Villas-Boas: Que não sabia e achava que não ia fazer. E aí já fez dois romances.

Adélia Prado: Sim.

Luciana Villas-Boas: E como é que foi, como decidiu?

Adélia Prado: Pois é, acho que até responde à pergunta dele. É uma coisa que eu também tenho dito, respondendo a perguntas dessa natureza. Eu acho que a matéria traz a sua forma. Não há modo, por exemplo, de eu transformar [o romance] O homem da mão seca em poesia. Imagina se eu não quero isso, porque a poesia é a forma de dicção por excelência. Você fala num poema assim desse tamanho [indica com os dedos um tamanho pequeno] o que você gasta num texto discursivo [que é muito maior]. Mas eu acho que a coisa veio de forma discursiva e de romance. Agora, espero que tenha poesia ali dentro, senão eu estou perdida, não é?

Augusto Massi: Não houve uma interferência...? De alguma maneira eu sinto isso assim, até aqui no Roda Viva ... quando você apareceu, houve uma unanimidade em torno da sua pessoa e da sua poesia. Houve um espanto, e isso iluminou um pouco assim uma área de que a poesia brasileira parece que necessitava, alguém que falasse um pouco da vida, da vida comum, com uma certa humildade, que tivesse um discurso, vamos dizer, assimilável. Eu acho que isso foi muito importante, abriu um espaço novo para a poesia brasileira, exatamente contra uma linha que vinha da poesia cerebral. Mas passados assim uns quatro ou cinco livros, eu senti que houve uma resistência muito grande, e essas questões começaram a aparecer.

Adélia Prado: Sim, verdade.

Augusto Massi: Questões do feminismo...

Adélia Prado: Verdade.

Augusto Massi: ...a questão do cristianismo. E eu sinto que isso, que você tenta explicar a todo o momento, que parece uma coisa que escapa, fala do masculino...

Adélia Prado: Porque sempre perguntam.

Augusto Massi: Sempre perguntam. Então, eu fico pensando se você também não fez um esforço no seu trabalho, quer dizer, o que isso alterou no seu trabalho a partir desse momento, que você tinha aí um público leitor, você não escrevia mais como uma pessoa que não tinha um público num primeiro momento. Você passou a escrever sabendo que você tinha um leitor, e em alguns momentos eu sinto que você dá resposta para esse leitor. Isso é uma preocupação hoje para você?

Adélia Prado: Não. Eu nunca, eu nunca, jamais pensei no leitor, sabe? Eu acho que a coisa deve ser feita tal qual ela pede para ser feita. Isso acontece. Agora, acredito que os livros posteriores ao início dos primeiros livros de poesia acompanharam também o registro da minha experiência humana. Quer dizer, é muito fácil você falar de flores, de passarinhos. Agora, você falou uma coisa aí, quer dizer, uma poesia mais assimilável. Eu quero dizer uma coisa: uma vez eu li um poema, aquele poema “Casamento” [poema do livro Terra de Santa Cruz, publicado em 1981], na televisão, e, em Divinópolis, uma senhora simples, uma dona Maria, uma mulher do povo, falou comigo assim: “Gostei demais daquele jeito que você falou como que arruma peixe, na televisão”. Quer dizer, é um discurso assimilável. Em Divinópolis, alguém falou comigo assim: ”Olha, menina, gostei muito, você escreveu um negócio sobre a seca agora, não é [referia-se ao romance O homem da mão seca]?” [risos] Agora, eu espero que a hora em que eu esteja falando sobre como abrir e retalhar peixe, essa coisa de feira, de tomate, de batatinhas... eu acredito que o poema que está falando sobre isso, essa pessoa que lê esse poema entende esses registros: “Ah, eu também sou dona de casa, eu também faço biscoito, eu também sei limpar peixe”. Ela entende esses registros, mas a alegria dela é sobre aquilo que ela vê atrás disso, senão não era poesia. Sabe como é a poesia para mim? Sabe esse livro que está sendo muito vendido, o Olho mágico ? Para mim, é isso: você pega o texto e começa [gesticula, indicando que o livro está próximo dos seus olhos], você fica zarolho ali, não é? [risos] De repente, emergem daquelas palavras, daquele texto ou daquele poema, dos registros mais simplórios: [fecha os olhos e declama o poema “Casamento”] “[Há mulheres que dizem:]/ Meu marido, se quiser pescar, pesque,/ mas que limpe os peixes./ Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,/ ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar./ É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,/ de vez em quando os cotovelos se esbarram,/ ele fala coisas como ‘este foi difícil'/ ‘prateou no ar dando rabanadas'/ e faz o gesto com a mão./ O silêncio de quando nos vimos a primeira vez/ atravessa a cozinha como um rio profundo./ Por fim, os peixes na travessa,/ vamos dormir./ Coisas prateadas espocam:/ somos noivo e noiva”. Essa mulher entendeu não foi isso de abrir o peixe, ela entendeu quando um silêncio profundo como um rio passou na cozinha. E essa mulher não tem nem escolaridade nenhuma, e ela entendeu isso. Então, eu não tenho que me preocupar se estou falando de sexo, de religião, de batatas e de cozinha. Quer dizer, isso é a minha experiência doméstica, eu sou mulher e sou doméstica. Eu sou primeiramente uma doméstica. Então a minha poesia tem esses registros, ela é assimilável por esse aspecto. Mas eu tenho certeza de que não é só isso, senão vocês não estariam aqui me chateando tanto [risos].

Fábio Lucas: Eu acho interessante que, desde quando você surgiu, com Bagagem, a crítica acolheu muito bem esse modo inusitado com que você combina, por exemplo, a linguagem erudita com a popular, o sagrado com o profano, ou o sublime com o escatológico. Há uma mistura permanente, e eu acho curioso, por exemplo, que você, usando uma linguagem a mais simples possível, e louvando nos livros principalmente os livros sagrados, os livros religiosos, você não usa sempre uma simbologia, digamos, telúrica, mas põe a modernidade, assim, o avião, por exemplo, o avião que você evita na vida prática está muitas vezes nos seus poemas, não é? Eu até me lembrei que um poema se inicia assim: "A glória de Deus é maior que este avião no céu" [do poema "O demônio tenaz que não existe”], não é?

Adélia Prado: Porque avião é bonito demais [ri].

Fábio Lucas: Ou então, há um trecho também lírico, que eu vou encontrar no [livro] Faca no peito, que diz: “O que me leva a Jonathan?/ A bicicleta do sonho,/ mais veloz que avião” [do poema “O mais leve que o ar”].

Adélia Prado: “Mais veloz que avião”.

Fábio Lucas: Pois é. Agora, essas coisas, a gente pensa na velha idéia de que os poetas do seu estilo se entregam com espontaneidade muito grande. Mas ao mesmo tempo em que você cultiva espontaneidade, você muitas vezes joga farpas para aqueles que não usam esse critério e esse método. E eu encontro, por exemplo, num poema seu, como “Fieira” [do livro A faca no peito], essa afirmativa: “Detesto escrita elegante”. Por que isso?

Adélia Prado: “Detesto escrita elegante” significa: detesto escrita elaborada, a coisa elaborada, em que você vê o andaime, é ruim demais, não é? [risos] É muito ruim ler um texto assim. Você vê o andaime, você vê a preocupação, a preocupação... a coisa que dá mais pista é um texto, gente, não é? A coisa que dá mais pista do autor é o texto. E principalmente quando ele não quer dar pista; quando ele fica maquiando a coisa, aí ele se entrega inteiro.

Fábio Lucas: Agora, ultimamente a sua poesia repete... tematicamente, a simbologia se repete muito. Seria por isso que você está buscando na prosa uma saída, talvez?

Adélia Prado: Mas eu não estou buscando, é a prosa que está me pegando, está me pegando de prosa [risos]. Não, eu não busco isso, não.

Marta Góes: Você acha que o intencional é ruim?

Adélia Prado: Em arte, sim; o intencional é na filosofia. Eu faço um ensaio, eu argumento, eu faço uma tese, maravilhoso, adoro ler ensaios. Mas é outro espaço, é outra categoria. A arte não vem da razão, ela não vem da lógica, ela vem do espírito.

Augusto Massi: Falando desse tempo de trabalho, você falou assim: “Mas eu levei 50 anos para dizer isso”, quando você respondeu à pergunta do Hamilton. Você trabalha como? Por exemplo, você tem cadernos, você anota? Qual a sua sistemática para produzir?

Adélia Prado: Caderno e lápis.

Augusto Massi: Você fica com versos na cabeça? Sonhos, tem poemas que são sonhos?

Adélia Prado: Sonhos inteiros, inteiros.

Augusto Massi: E você consegue acordar e registrar?

Adélia Prado: Ah, beleza. Um sonho poético, só se eu for muito boba [para não registrar], [é preciso] pegá-lo depressa [risos]. Tem sonhos que têm uma carga poética – não é? –, às vezes sonhos até angustiantes demais; outros não, felizes. A poesia não recusa tema, ela não recusa nada, nadinha.

Augusto Massi: Você bate à máquina?

Adélia Prado: Não, eu escrevo à mão.

Augusto Massi: E batem para você?

Adélia Prado: Batem para mim. E batem em mim também [risos].

Hamilton dos Santos: O que na sua poesia teria sido, similarmente a esse romance, O homem da mão seca, tão difícil o parto, assim tão demorado, tão problemático como esse romance? Que poema, que livro? Mais precisamente, que poema?

Adélia Prado: Não, eu tenho uns poemas enguiçados. Quer ver, antigos até, de quando eu era adolescente, eu adorava aquela idéia, [mas] ela jamais se resolveu literariamente. De repente, você às vezes ganha uma idéia muito boa, mas aquilo não se resolve. Então, você fica com aquele verso encruado, você guarda, beleza, um pedaço de uma jóia quebrada, mas não se resolve. E, às vezes, ele cai generosamente inteiro, tão generosamente que você depois tem que desbastá-lo, podar o poema. Que dó, está tão bonitinho, mas está sobrando, você vai fazendo assim.

Heródoto Barbeiro: Adélia, tem uma porção de perguntas de telespectadores aqui que querem que você fale um pouco mais de religião. Por exemplo, tem uma pergunta aqui da dona Cláudia, que é de São Paulo, do senhor Velfe, que é de Salvador, na Bahia, e tem também a do senhor João Batista, que é de São Carlos, interior de São Paulo. Querem que você fale um pouco a respeito de religião. Adélia, você, na religião católica, está para o lado mais conservador ou está mais chegada aos conceitos da teologia da libertação?

Adélia Prado: Sabe uma coisa maravilhosa que eu descobri na Igreja Católica? Os dogmas. Tudo isso que é colocado como coisa de opressão, dogmas etc, os dogmas são intuições profundas de natureza psicológica que projetam o espiritual. Então, às vezes, aquilo vem... Por exemplo, acho que eu estou respondendo já à pessoa, não é? Por exemplo, o dogma da Trindade. As pessoas dizem: “Que bobagem, bobagem, Deus é um, não é?”. E a gente aprende no catecismo da doutrina cristã Deus em três pessoas. E à medida que você amadurece, e à medida que você vive, e à medida que você se nutre da arte, o que você descobre é que era impossível Deus ser sozinho. Outra vez, estou falando de coisas minhas que não posso provar, mas é o modo que tenho de responder. Você descobre que Deus tinha que ser trindade mesmo. Aí, quando você fala: ah, aquele dogma que me ensinaram não é nada mais do que uma descoberta maravilhosa...

Heródoto Barbeiro: Isso vale para o dogma da infalibilidade do Papa?

Adélia Prado: Não, não, isso é outra coisa.

Heródoto Barbeiro: É um dogma da Igreja.

Adélia Prado: Não, não vale, não, de jeito nenhum.

Heródoto Barbeiro: É isso que coloca você mais perto do pessoal da teologia da libertação do que dos conservadores da Igreja?

Adélia Prado: [pensativa] Se se pode dizer assim, sim, é. Mas os dogmas são fantásticos.

Heródoto Barbeiro: Mas um deles você já não quis.

Adélia Prado: Mas isso aí não é dogma, não. Colaram que isso aí é dogma.

Fábio Lucas: Uma coisa que eu tenho observado na sua obra é que, em vários livros, os primeiros livros, a presença de Guimarães Rosa é muito grande, nas citações, nas epígrafes etc. Agora, neste último livro, O homem da mão seca, surge uma outra personagem muito importante para a nossa literatura, que é a Clarice Lispector, a quem você chama "Clareza "Lispector em determinado momento. Isso se trata de uma aproximação nova ou você já a trazia naquele tempo?

Adélia Prado: Não, quando eu falei isso, eu estava simplesmente dizendo que eu gosto muito do texto poético, que tem uma ambiguidade essencial, é da natureza da arte ser ambígua. E eu falei que prefiro, a essas clarezas lógicas, eu prefiro a "Clareza" Lispector, uma brincadeira quase, não é?

José Castello: Adélia, você estava falando agora de masculino, feminino, depois você falou de psicologia. Você anda lendo Jung sem parar, não? Ou é impressão minha?

Adélia Prado: Estou. Eu só não li, como eu disse outro dia, o que ele não escreveu [risos].

José Castello: Pois é, você já se analisou? Qual é a sua relação com... por que você foi ler Jung?

Adélia Prado: Porque foi uma descoberta, sabe? Caiu na minha mão aquele livro O homem e seus símbolos, e falei: opa, é por aqui. E aí eu li toda a obra dele e fiquei encantada e sou uma pessoa encantada com ele. Agora, ele não é meu guru, ele é um sábio, e os sábios não atrapalham a gente, não, eles só ajudam.

Hamilton dos Santos: Adélia, com que outros sábios que você entrou em contato e talvez tenha se apaixonado? Me parece que você estudou filosofia. Quais os seus outros filósofos, se podemos chamar Jung de filósofo?

Adélia Prado: Eu achava [o filósofo grego] Aristóteles [384 a.C.–322 a.C.] muito bom, [mas] depois eu vi que Platão é melhor, sabe? [risos] Eu gosto mais de Platão. Gosto de Platão, gosto dos pré-socráticos, gosto muito, essa coisa do ser, o ser, esse rio que passa, aqueles primeiros contatos que a gente tem com filosofia.

Hamilton dos Santos: Por que Platão é melhor?

Adélia Prado: Porque Platão, quando ele fala do mundo das idéias... quando a gente é muito bobinho e começa a estudar filosofia, diz: que bobagem... Mas, depois, o que a gente descobre é exatamente a descoberta, a grande coisa que ele faz é a descoberta do reino espiritual, o mundo das idéias. Quer dizer, a hora em que Santo Agostinho batiza Platão tem toda essa linguagem cristã para explicar isso, não é? Mas então ele responde muito mais a minha própria expectativa e ao meu próprio desejo, a minha própria necessidade humana de um mundo das idéias onde as coisas preexistem e existem de forma perfeita. Então, saber que existe uma Adélia perfeita na idéia divina é muito consolador, melhor...

Humberto Werneck: Adélia, e quais são os seus poetas?

Adélia Prado: Meus poetas? Eu gosto, mas eu gosto imensamente destes: Murilo Mendes [1901-1975], Drummond, Jorge de Lima [1893-1953] eu li muito, li Alphonsus de Guimaraens [1870-1921], na adolescência. E, claro que eu estou esquecendo, mas são poetas... Manuel Bandeira [1886-1968], Cecília Meireles são poetas [gesticula, indicando que são fortes]...

Hamilton dos Santos: Do [escritor francês] Paul Claudel [1868-1955] você gosta, não é?

Adélia Prado: Eu não conheço, eu conheço assim excertos, aqui, acolá. Eu não conheço a obra, sabe?

Luciana Villas-Boas: Além da literatura, quais são as outras formas de arte que você aprecia?

Adélia Prado: Cinema, adoro cinema.

Luciana Villas-Boas: E em Divinópolis dá para ter o bastante para...?

Adélia Prado: Não, a gente não tem agora mais. A gente tinha até um cinema que fazia sessões de arte. Então, esses bons filmes todos chegavam, [mas] agora a gente não tem mais isso. Tem as locadoras, que não são a mesma coisa.

Luciana Villas-Boas: Você vê muito vídeo?

Adélia Prado: Mas eu aproveito quando venho aqui [em São Paulo].

Luciana Villas-Boas: Aí vê tudo.

Adélia Prado: Faço supermercado do cinema.

Luciana Villas-Boas: Artes plásticas...

Adélia Prado: Também, pintura.

José Castello: Mas você já trabalhou como atriz, não trabalhou?

Adélia Prado: É, quando eu era jovem e...

José Castello: Queria que você falasse sobre isso.

Adélia Prado: ...atrevida, eu era atriz [ri].

José Castello: Até que idade você fez teatro?

Adélia Prado: Ah, dezoito anos, talvez, assim.

José Castello: Desistiu por quê? Achou que não tinha vocação?

Adélia Prado: O teatro acabou lá [ri]. Fizeram uma crítica muito boa para mim, foi uma pena eu desistir, na época, com dezoito anos.

José Castello: Estava no auge.

Adélia Prado: É, estava no auge, está doido... Tinha um rapaz lá que escrevia muito bem nos nossos jornais. E eu fiz uma peça lá. Eu, com dezoito anos, eu fiz a velha da peça, quer dizer, eu teria que fazer o papel agora que eu fiz aos dezoito anos [ri]. Então ele escreveu na crítica que a “Adélia Prado mostrou na sua atuação a calma subseqüente às grandes tragédias”. Eu jamais esqueci essa frase, porque foi a glória. Não é bonito? [risos]. “A calma subseqüente às grandes tragédias” eu consegui passar para o nosso público lá. Então a minha glória de atriz parou aí. Mas a minha filha é atriz, a Ana Beatriz.

Heródoto Barbeiro: Adélia, queria dizer que você acabou de responder à pergunta do senhor Emerson Rinaldi, de Itápolis, interior de São Paulo. E tem duas perguntas aqui interessantes, entre tantas outras interessantes, mas essas são duas curtinhas. Do Recife, a dona Maria Raquel diz para você o seguinte: “Adélia, não precisa explicar nada, e sorria, o seu sorriso é muito bonito”.

Adélia Prado: Opa [ri].

Heródoto Barbeiro: E uma pergunta inevitável – esta aqui vem de Poços de Caldas, Minas Gerais –; pergunta para você o seguinte: “O que é ser mineira?”

Adélia Prado: Ih, olha, [ser mineira] é não responder a essa pergunta [risos]. Quem já disse tudo sobre mineiridade é João Guimarães Rosa. É insuperável o texto dele sobre mineiridade.

Marta Góes: Queria te perguntar uma coisa: você que tem um olho tão sensível assim para miudeza, para o delicado, o que o seu olho capta quando você vem a São Paulo, assim, o que te atrai a observação quando você muda de cenário para um lugar assim?

Adélia Prado: Olha, a coisa que mais me atrai em São Paulo são as pessoas na rua. Eu gosto muito de ir ali na Praça da Sé, Praça da República e ver multidão, sabe? Aquilo me dá um consolo, um conforto. É uma coisa assim de rebanho, sabe? Eu não estou sozinha, as pessoas estão sofrendo tanto quanto. Está todo mundo na peleja. Isso me dá um conforto, sabe? Então, eu acho que é bom vir a São Paulo de vez em quando. Mas é para ver gente.

Luciana Villas-Boas: Você nunca pensou em sair definitivamente, ou por um período longo, de Divinópolis?

Adélia Prado: Eu penso em sair, até de vez em quando penso, mas para um lugar menor, sabe? [risos] Divinópolis já está uma metrópole. Vocês estão rindo porque não conhecem Divinópolis.

José Castello: Eu conheço.

Adélia Prado: Há muito tempo.

Luciana Villas-Boas: Quantos habitantes?

Adélia Prado: São 250 mil, Zé? Mais ou menos 250 mil. Já está grandinha, de médio porte.

José Castello: Já tem avião direto de São Paulo a Divinópolis.

Adélia Prado: É, olha aí, propaganda do avião.

Augusto Massi: Adélia, dos filmes que você assistiu ultimamente... você falou que você gostava muito de cinema. Dos diretores, o que você realmente acha que é uma marca, que marcou você?

Adélia Prado: Olha, o que me marcou... primeiro eu gostava demais do Bergman, sabe? Depois, quando eu vi Andrei Tarkovski [(1932-1986) cineasta russo, dirigiu Solaris; Nostalgia; O sacrifício, entre outros], eu esqueci do Bergman [ri]. Andrei Tarkovski é poesia pura, em estado maravilhoso. Eu gosto demais de um diretor espanhol, [além] do [Pedro] Almodóvar [ver entrevista com Almodóvar no Roda Viva], o Bigas Luna, que eu acho muito bom, sabe? Gosto do [cineasta franco-polonês Roman] Polanski. [Tenta lembrar-se de outros] Ih, é chato esquecer, mas esses...

Hamilton dos Santos: [brincando] Polanski é um pecador... [ri].

Adélia Prado: Um grande pecador. Mas eu gosto imensamente. Hoje eu vi um filme maravilhoso, Quatro casamentos e um funeral ... aquelas comédias inglesas que não derramam, que coisa boa, muito bom.

Heródoto Barbeiro: Adélia, nós vamos fazer um intervalo e aí a gente volta com perguntas mais difíceis do que nesta primeira parte.

Adélia Prado: Mais ainda?

Heródoto Barbeiro: Mais ainda. Nós voltamos daqui a pouquinho no Roda Viva, hoje entrevistando a escritora Adélia Prado. Até já.

[intervalo]

Heródoto Barbeiro: Nós voltamos ao Roda Viva, hoje entrevistando a escritora Adélia Prado. Adélia, na pesquisa que eu recebi aqui a respeito do seu trabalho, como você já falou agora há pouco a respeito de política, falou aí do ministro Ricupero, que você até gostaria que continuasse, tem uma frase atribuída a você que diz o seguinte: “Os nossos políticos não nos merecem”. O que significa exatamente isso?

Adélia Prado: Exatamente isso [risos], eles não nos merecem. O povo... nós estamos mais adiantados, nós somos melhores que os nossos políticos.

Heródoto Barbeiro: Quando você disse isso, estava pensando em alguém em particular ou não?

Adélia Prado: Eu acho que isso foi dito há bem uns anos atrás, acho que foi até em uma troca de ministros, como estão trocando até hoje, não é? Eu acho isso, há uma incompetência, uma sede tão grande por se locupletar, enquanto os reais problemas do país, que são entregues aos nossos legisladores, a gente sabe como que estão. Um Congresso que legisla em causa própria, que não vai ao trabalho. Eu acho que é uma coisa terrível mesmo, é muito triste.

Heródoto Barbeiro: Adélia, você acha que, de certa forma, isso é responsável pela decadência da escola pública? Nós dissemos no começo aqui que você foi professora durante alguns anos na escola pública, e hoje a escola pública, me parece, está numa situação não muito boa. Quer dizer, é isso também que é responsável por essa decadência da escola pública? Como está a escola, hoje, na sua visão?

Adélia Prado: Eu acho que a escola é das piores instituições que nós temos. Ela realmente é uma instituição decadente, com currículos completamente desatualizados. Eu vejo a escola como um supermercado de pequenas informações acadêmicas. Só. E a burocracia da escola sufoca, quer dizer, eu fui professora primária, de 1º e 2º grau... os livros escolares são feitos com o maior... sabe? As escritas das escolas, é isso que funciona, aquela coisa direitinha, arrumadinha. Mas o ponto de vista da educação, uma filosofia da educação está perdida. Não se educa para; o primeiro ano é para fazer o segundo; o segundo é para fazer o terceiro; o primário é para fazer o secundário; e o outro é para fazer universidade, que é para arranjar um bom emprego. Quer dizer, aquele descanso, aquela coisa peripatética do mestre tendo prazer em que seu aluno cresça, é muito difícil ver isso hoje. Agora, a pergunta que você fez, a questão da escola, ela não é tanto metodológica nem pedagógica, não, ela é política mesmo. É uma política de educação falaciosa que permite isso. Aí vem toda essa história: baixos salários etc, que todo mundo já sabe.

Humberto Werneck: Adélia, imagino que você, como uma escritora importante, seja procurada por jovens autores para levar originais e pedir opinião. Isso acontece muito? Como é o seu trato com essas pessoas?

Adélia Prado: Olha, assim que eu lancei o primeiro livro, eu comecei a receber cartas e originais. Então, eu, empolgada com o meu primeiro livro, e as pessoas querendo de mim um aval, como eu mesma tive e tudo, comecei a responder. Depois ficou uma coisa assim absolutamente impossível. Então, o meu único procedimento, no caso, que eu tenho assim como uma regra, é que quando eu acho um original que me comove, que me transtorna pela sua...

Humberto Werneck: Mas você lê tudo?

Adélia Prado: Ah, é só dar uma olhada e a gente vê, não é? Se você lê um poema, você fala: está equivocado, não é? Então, eu não dou conta de responder, não dou conta, é impossível fazer isso. E fazê-lo seria uma sobrecarga, e eu não tenho também uma vocação para isso, para administrar essa correspondência, sabe? Eu fico, às vezes, pesarosa porque eu vejo nos olhos das pessoas o mesmo desejo que eu tinha também. Mas eu acredito numa coisa: na força da própria obra, ela aparece. Os autores inéditos que fiquem tranqüilos; ninguém que é bom vai ficar escondido.

Heródoto Barbeiro: Adélia, pela oportunidade, tem várias correspondências aqui, ou por fax...

Adélia Prado: Eu devo falar mais depressa?

Heródoto Barbeiro: Não, não, está ótimo. [Tem gente] até dizendo como entrar em contato com você. Mas você falou que já havia uma situação difícil, é isso ou não? Essas pessoas podem entrar em contato com você? Ou através da editora...

Adélia Prado: Podem. O que eu não prometo é ler e fazer um arrazoado sobre os textos das pessoas.

Heródoto Barbeiro: Inclusive, avaliação; tem uma porção de gente aqui falando de poemas, que gostariam de lhe mostrar...

Adélia Prado: Pois é, [mas] é de verdade, é impossível fazer isso, é impossível. Às vezes, até receber as pessoas mesmo, é até uma tradição mineira receber as pessoas, e às vezes fica difícil. Porque há autores ansiosos demais, ansiosos demais, e que não estão preparados para uma crítica. E ficam inimigos da gente para o resto da vida. Agora, tem uma coisa...

[...]: Já lhe aconteceu isso?

Adélia Prado: Já, demais. Mas acontece uma coisa: quando eu vejo um texto que de fato é bom, até eticamente eu tenho que pegar aquilo e mandar para uma editora e falar: “Dá uma olhada aí, que esse moço é bom; que essa menina tem talento”. Mas às vezes as pessoas já mandam os livros já editados e querem forçosamente uma opinião. É muito difícil. Para mim, é como carregar uma montanha nas costas. E eu já aprendi que a gente precisa ser feliz, não deve colocar pesos sobressalentes... [ri] Basta o peso de cada dia, não é? Mas é com o maior amor para os autores todos. Tem mais é que escrever mesmo, ir escrevendo, e quem for bom chega.

José Castello: Eu queria que você falasse um pouco mais da sua relação com a crítica. Eu nem falo nem... quer dizer, nós aqui somos jornalistas, mas, enfim, com a crítica literária mesmo, por uma razão: eu já fui editor de um suplemento de livros, como você sabe, e eu estava me lembrando aqui de uma situação, não me lembro qual era o seu livro e também não vou citar nomes, mas, procurando um resenhista no meio acadêmico para resenhar um livro seu, eu dei meia dúzia de telefonemas e escorregaram sempre com: “Não, não estou com tempo, não...”.

Adélia Prado: Sei.

José Castello: Eu ouvi isso de alguns. E um foi muito claro ao me dizer: “Não, ela é até uma mulher muito interessante, escreve umas coisas muito interessantes, mas ela não é poeta, o que ela escreve não é poesia”.

Adélia Prado: [com espanto] Oh! Oh, Deus!

José Castello: Oh, Deus [risos].

Adélia Prado: Isso é muito triste.

José Castello: Você fala de coisas como inspiração, por exemplo, e isso está completamente em desuso no meio acadêmico...

Adélia Prado: É muito antigo falar de inspiração.

José Castello: O que você pensa da crítica literária hoje? Você lê crítica literária? O que você acha dos críticos literários brasileiros?

Adélia Prado: Sei. Eu não posso dizer pra você o que eu acho dos críticos brasileiros, porque eu não tenho essa competência e nem conheço todos. E, [sussurra] o que eu acho? O que eu acho? Bom, eu acho que a crítica procede. O autor precisa de elementos formais, acadêmicos para falar: “Olha, você se equivocou, é um livro menor, é um livro isso, é um livro aquilo”. Agora, a minha relação é uma relação realmente humana demais. Quer dizer, uma crítica boa é uma maravilha. Quando o crítico está atirando em você e manifestando o desagrado dele com certos poemas, eu tenho esse tipo de comportamento: primeiro sofrer aquilo, ele não gostou de jeito nenhum. Depois, eu olho de novo o meu próprio texto e falo assim: vou ver se eu continuo gostando. Aí eu leio e falo assim: opa, ele está enganado, ele não viu, ele não viu nada, ele não entendeu nada. Ou então eu penso: não, realmente ele tem razão aqui ou acolá, ou não tem razão nenhuma. Então, eu não tenho dificuldades com isso, não. Eu não estou falando que é prazeroso uma crítica má.

José Castello: Mas você se sente bem tratada ou mal tratada pela crítica?

Adélia Prado: Eu me sinto bem tratada pelos que pegam o meu texto até para não gostar. Agora, eu acho que é um texto que muita gente nem quer ler. Eu tenho plena consciência disso, sabe? [Imita um gesto de aversão] É uma coisa assim.

Fábio Lucas: Você tem uma coleção de trabalhos críticos sobre sua obra? Você chegou a organizar isso?

Adélia Prado: Não, está tudo em uma mala lá, não está organizado.

Marta Góes: Adélia, eu queria saber que transformações a carreira de escritora trouxe à sua vida, quer dizer, eu sei que avião você só toma em último caso. Mas você já dá uma entrevista na televisão, coisa que há alguns anos você dizia que detestava e tal. O que o ofício de escrever te obrigou a fazer que é novo para você?

Adélia Prado: Olha, a diferença que apareceu desde 76 foi um tipo de assédio; primeiro, por causa disso, não sei se foi o Castello que falou isso, alguém falou isso: “Tem uma senhora mineira escrevendo versos. Então, vamos ver como é a senhora mineira, vamos ver como são os versos”. Então, é uma curiosidade que não tinha nada de literária, uma curiosidade bem profana mesmo, sabe? Quer dizer: vamos conferir essa senhora. E depois começaram a aparecer convites para esse tipo de coisa de televisões, entrevistas, de tudo. Então, a mudança é essa. Agora, isso não me perturba no meu dia-a-dia, porque a única coisa que eu tenho é o dia-a-dia, então ele é sagrado. E isso fica como uma coisa prazerosa, que eu aceito. Agora aceitei com prazer vir aqui, porque era esse o tipo de espaço que a gente pode falar de verdade, não é aquele cansaço, [como um] debate em que você fala cinco minutos, você não completou o pensamento, o outro... Então, foi uma coisa descansada. Mas não mudou nada, não, não mudou mesmo.

Luciana Villas-Boas: Como é o seu dia-a-dia? Você lê jornal todo dia, vê televisão?

Adélia Prado: Todo dia.

Luciana Villas-Boas: Não vê televisão, vê noticiário...?

Adélia Prado: Claro.

Luciana Villas-Boas: Quer dizer, faz política dentro da sua atividade de ensino, não faz?

Adélia Prado: Faço... não.... Eu sou uma cidadã que participo das agruras e prazeres do povo brasileiro. Entro em fila, faço protesto, “Fora Collor” [movimento político de 1992 que pedia a saída de Fernando Collor de Mello do poder], tudo isso, mas, como qualquer pessoa e, às vezes, de um modo especial como escritora. Por exemplo, uma vez fui a Belo Horizonte para esse tipo de movimento; tinha mulheres sendo assassinadas lá; não gostaram muito porque eu falei: “Se fosse um homem assassinado por suas mulheres, eu também viria”. Aí volta naquela história de feminismo...

Humberto Werneck: Adélia, você ainda vai à cozinha ou não?

Adélia Prado: Só todo dia [ri].

Humberto Werneck E lá, qual é o seu best-seller no fogão?

Adélia Prado: O trivial mineiro. O trivial bom, viu?

Hamilton dos Santos: Adélia, como você gosta muito de pecadores, os meios de comunicação de massa, hoje, e até por isso talvez tenham esse lado meio demoníaco, mas adorável enquanto pecadores, eles praticamente assassinam a língua portuguesa pelas generalizações muito amplas. Os políticos, por exemplo, fazem muito isso no horário político. Eu queria lhe perguntar como você vê essas generalizações, essa decadência do português falado no dia-a-dia, e se você, enquanto escritora, se sente confortável com a língua portuguesa...

Adélia Prado: De jeito nenhum.

Hamilton dos Santos: ...ou se você tem algum trauma, já tentou escrever em inglês...

Adélia Prado: É um trauma no ouvido aqui, quando o ex-presidente [José] Sarney começou uma moda que chegou até às igrejas, é um inferno: “brasileiros e brasileiras”. Os ministros religiosos, hoje, falam: “meus irmãos e minhas irmãs”, não é? [risos]. Eu acho que eu sou brasileiro. Você, em um discurso, assim, você não tem que falar “brasileiros e brasileiras”. Isso empobrece, isso é o barateamento da língua já. Eu acho que é uma culpa, é uma necessidade... é um barateamento mesmo. Isso nos políticos... são os que mais barateiam... a única coisa barata é a língua, no caso, não é?

Hamilton dos Santos: Mas você, enquanto poeta, se sente confortável com a língua portuguesa?

Adélia Prado: Ah, com a língua? Demais, demais. Língua maravilhosa! Que língua bonita, a nossa!

Fábio Lucas: Em Divinópolis, você encontrou uma pessoa que falava “embosteiro” [em vez de embusteiro] [risos].

Adélia Prado: Sim, mas há muita gente que fala isso.

Fábio Lucas: E tira partido disso.

Adélia Prado: E tira partido, é.

Heródoto Barbeiro: Os meios de comunicação têm alguma responsabilidade nessa vulgarização da língua que você colocou?

Adélia Prado: Tem sim.

Heródoto Barbeiro: A televisão especialmente ou não?

Adélia Prado: Tem, sim. Acho que a televisão especialmente. Me parece que é o lugar mais explícito onde a língua é tratada assim. E não é por causa do coloquial, não; coloquial é o coloquial mesmo. Mas é por causa de um... a palavra mais perfeita que eu encontro é um barateamento da língua. Porque a língua começa a não dizer mais, ela começa a ficar um grunhido.

Fábio Lucas: Adélia, voltando ao problema de autores, de poesia, você disse que gosta e que leu durante tempos Alphonsus de Guimaraens, Murilo e Jorge de Lima. Eu entendo, são três pessoas com grande afeição pelo tema do misticismo e da religiosidade etc. Mas eles são muito diferentes. Você explorou essa diferença? Ou você se aproximou mais de um desses três poetas?

Adélia Prado: Se houve essa aproximação, eu não sei, nem até de qual. Mas eu acho somos pessoas interessadas no mesmo assunto, talvez.

Fábio Lucas: Mas não há uma certa influência de uns mais do que de outros? Ou uma reiteração de leituras maiores? Eu acho que o Jorge de Lima talvez seja aquele a quem você esteja mais afeiçoada.

Adélia Prado: É, talvez, mas o Murilo também, não é?

Augusto Massi: Até pela carga de erotismo, religiosidade...

Adélia Prado: O Murilo fez até uma poesia engraçada: “Restauração da poesia em Cristo”, não é? [ri]

Fábio Lucas: Mas ele tinha aquele pendor surrealista.

Adélia Prado: É, exatamente.

Augusto Massi: Adélia, depois da Dona Doida [:um interlúdio, espetáculo com Fernanda Montenegro baseado em textos de Adélia Prado estreado em 1987], eu comecei a reparar num aspecto da sua poesia... quando eu quis dizer assim [poesia] assimilável, eu disse até no bom sentido, porque eu acho uma coisa importante.

Adélia Prado: Sei.

Augusto Massi: Então, voltando a esse tema, eu acho que é uma poesia que facilita, vamos dizer, inclusive para ser declamada, ser lida. E você lê muito bem. Eu acho que você consegue transmitir uma carga de emotividade, você consegue reviver o poema quando você lê. Eu já tive várias vezes oportunidades [de presenciar] com grande público, e você consegue criar um momento de intimidade seu e do texto, entre você e o texto. Agora, eu me pergunto como você reagiu diante, exatamente, dessa ida para o teatro com a [atriz] Fernanda Montenegro, por exemplo, com seu poema dito por uma outra pessoa?

Adélia Prado: Eu tive enorme prazer por um detalhe que eu considerei importante. Ela pegou os textos e ela não fez, a partir do texto, uma coisa, não... Ela os disse até com as vírgulas, sabe? Então, o que eu descobri, e que me parece que ficou confirmado pela peça, foi que o texto, aqueles pelo menos que nós escolhemos, tem uma carga dramática que possibilita o palco, possibilita o teatro. Agora, eu tenho um amor tão profundo pelo teatro, eu gosto da palavra falada, eu gosto do gesto, eu gosto do corpo, eu gosto quando o verbo se faz carne; então eu acho que é por isso que funcionou.

Augusto Massi: Você dirigiu algumas peças ou coordenou trabalhos em Divinópolis, não foi?

Adélia Prado: Você vai falar disso? [ri] Tudo bem. Eu tinha lá um grupinho que se chamava Cara e Coragem, e a gente fez o Auto da Compadecida [peça de 1955 escrita por Ariano Suassuna], e eu era a diretora, imagina. E nós fizemos alguns textos litúrgicos, textos assim com uma intenção puramente catequética, nos momentos litúrgicos, por exemplo, de Natal, Semana Santa. Eu escrevia, às vezes, sozinha, escrevia alguns com Lázaro Barreto, Irene Amaral. A gente escrevia esses textos e montava nas igrejas, nos bairros e tudo. Nós fizemos um, eu e Lázaro Barreto, chamado O clarão . A nossa intenção era didática, catequética de mostrar Jesus nascendo em uma fila do INPS... do Inamps. Mas a coisa foi tão empolgante de fazer, que, de repente, aquilo virou um teatro, extrapolou a nossa intenção catequética e virou teatrinho mesmo. Foi a melhor peça que eu já escrevi [ri], em parceria com esse poeta nosso, Lázaro Barreto.

Augusto Massi: Nisso você não deposita uma carga literária? Você pensa em publicar, por exemplo?

Adélia Prado: Não, de jeito nenhum, não. Eu tenho... de jeito nenhum. Acho que foi um acontecimento feliz demais; nós levamos essa pecinha em todas as igrejas de Divinópolis e nas cidades ao redor. Era um sucesso; você precisava ver; eu como diretora e a nossa peça.

Heródoto Barbeiro: Adélia, você respondeu aqui à dona Clarice Alcântara, de Morro Grande, no Rio Grande do Sul, que está vendo você. E, olha, uma coisa inusitada: a quantidade de declarações de amor que você está recebendo aqui.

Adélia Prado: Declaração de amor, isso é bom, pode vir bastante.

Heródoto Barbeiro: Dona Tarcisa Evilano, aqui de São Paulo, diz assim: “Suas palavras são abençoadas; me farto com a sua Santa Ceia”, e manda um beijo para você.

Adélia Prado: Obrigada.

Heródoto Barbeiro: A Carla, que é apresentadora do Jornal da Noite, da Bandeirantes, estava vendo você até agora, e ela vai entrar no ar diz que vai deixar gravando no vídeo para continuar vendo você. O senhor Ronaldo, de Porto Alegre, diz o seguinte: “Você é toda poesia, não só na escrita, mas na fala, nos gestos, nesse impecável olhar de humanidade atroz”.

Adélia Prado: [Ri e repete] Humanidade atroz...

Heródoto Barbeiro: E quero que você, por favor, que você responda ao seu Hélio Jagger, que está vendo você também em Porto Alegre. Ele quer saber o seguinte: “Qual é a sua opinião sobre o uso de droga?”

Adélia Prado: Uso de droga? A minha opinião sobre o uso de droga é a minha opinião sobre qualquer coisa que afaste a pessoa do seu processo pessoal de individuação. Aquilo que significa fuga e um descaminho da pessoa em se encontrar com ela mesma – é essa a minha opinião – é uma coisa lesiva, é isso. A gente não vê, não é?

Luciana Villas-Boas: Adélia, em uma entrevista de há cerca de dez anos, você dizia que tinha muito medo de envelhecer e que achava que talvez só os netos que viessem é que iam aplacar isso. Você já tem neto?

Adélia Prado: Tenho.

Luciana Villas-Boas: Eles tiveram mesmo esse papel?

Adélia Prado: Tenho um neto agora, o primeiro, filho do segundo filho meu, do Rubem, o Dudu. Tem seis meses agora, e realmente é uma pacificação. Eu acho que quando a gente vê o neto, o sentimento que eu tive não foi de estar mais velha, é de estar começando, recomeçando, é um experimentar a juventude. Agora, então, está mais fácil envelhecer com o neto do que sem ele.

Luciana Villas-Boas: Mas ainda está difícil?

Adélia Prado: Ah, não é muito gostoso, não. Eu acho que o processo vai ter um momento em que a gente realmente fica pacificada. Quando eu falo “está difícil”, deve ser porque eu estou, talvez, numa fase de acomodação ainda com a velhice, não é? Estou me acomodando, ainda está um pouco incômodo, mas se Deus quiser vai ficar bom, tem que ficar, tem que ficar bom [ri].

Marta Góes: Adélia, para quem manifesta esse incômodo que você diz ter com a velhice, é engraçado pensar que você não resiste, você não disfarça nada, não pinta o cabelo, não luta contra. Você acha que é uma coisa que tem que ser aceita assim?

Adélia Prado: Olha, eu sigo aí uma máxima de sabedoria: “Não resistais ao mal”. Eu acho que a não resistência me pacifica com aquilo que me perturba, sabe? Agora, não pintar os cabelos pode ser também uma forma muito refinada de vaidade, [mas] eu não vou entrar muito aí, não preciso descobrir. Por enquanto, é mais cômodo para mim, é cômodo.

Marta Góes: E o resultado é ótimo também.

Adélia Prado: Ah... [ri]

Humberto Werneck: Adélia, queria que você falasse um pouquinho dos seus filhos. Tem algum que é escritor, que está virado para esse lado? Tem uma que é atriz.

Adélia Prado: Tem, a Ana Beatriz, é a minha filha caçula. Ela está fazendo... vou contar para todo mundo: ela está fazendo uma peça no Rio; é uma peça de Botho Strauss [(1944-) escritor alemão], Eternamente até breve, [que ela] está fazendo lá. Já fez algumas peças. Essa é atriz. Tem dois bancários, uma outra moça, que é bancária, tem um rapaz que também é bancário.

Humberto Werneck: Qual é aquele que recomendou a você largar esse "trem" de poesia? [risos]. Não tem uma história assim?

Adélia Prado: Isso é ficção, isso é ficção. E tem um que é psicólogo, o mais velho, e tem um que trabalha com computação. São todos adultos já, mas, pelo menos, que eu saiba, eu acho que não escrevem ainda. Talvez secretamente, e eu ainda não saiba, não é? Mas eu comecei aos 40 anos, então eles têm tempo demais.

Heródoto Barbeiro: Adélia, eu tenho aqui várias perguntas de telespectadores, como a do senhor Léo Manieiro Filho, de São Paulo, e vários telespectadores que querem saber o seguinte: “O que você pensa da poesia de Cora Coralina [(1889-1985) escritora brasileira]?”. Eles querem que você fale alguma coisa sobre Cora Coralina.

Adélia Prado: Olha, o que eu penso da Cora é muito mais da pessoa dela do que da obra, sabe? Então, é uma pessoa fascinante, a Cora Coralina. Eu a conheci em um congresso de mulheres... [corrige-se] em um encontro de escritoras aqui em São Paulo, e ela tomou conta da festa, foi a estrela da festa. E alguns poemas que eu conheço dela, quer dizer, eu não tenho, não teria mais...

Heródoto Barbeiro: Já que você citou São Paulo, o senhor Sebastião Maciel, de Belo Horizonte, quer saber se você se sente policiada por não morar nem em São Paulo, nem no Rio, mas em Divinópolis.

Adélia Prado: Não, eu me sinto é livre mesmo. Pelo contrário.

Fábio Lucas: Adélia, você teve ou tem alguma relação com as poetas mineiras, digamos, a Laís Corrêa de Araújo, a Yeda Prates, a Sônia Queiroz ou a Elza Beatriz e mesmo com a Henriqueta Lisboa? Você teve algum conhecimento com elas?

Adélia Prado: Não, eu conheço alguns livros dessas autoras, mas a gente não tem assim um contato permanente, uma troca de conversa, nem mesmo de livros. Só no começo mesmo, eu conheci mais a Elza Beatriz.

Fábio Lucas: Elza Beatriz?

Adélia Prado: É.

Hamilton dos Santos: Eu queria pegar uma carona na pergunta dele para lhe perguntar o seguinte: eu devo confessar que não li toda a sua obra, mas pelo pouco que eu li, eu pude perceber uma voz – até porque a voz dele era um pouco feminina – do [escritor brasileiro] Lúcio Cardoso [1912-1968]. Só que ele levava essa relação entre sagrado e profano muito mais a fundo, digamos assim, ele chegava aos extremos com isso...

Adélia Prado: Sei.

Hamilton dos Santos: ...mas há uma certa voz dele, assim, meio latente na sua obra. Eu queria saber se você o leu, se você conhece, se você concordaria com isso.

Adélia Prado: O que eu li de Lúcio Cardoso foi o diário dele [Diário completo], que me encantou; eu não conhecia nada de Lúcio Cardoso. E depois eu comecei [a ler] um romance que eu não consegui acabar... esqueci o nome do romance. Mas a pessoa dele me fascina, a pessoa, a pessoa dos pecadores, é o meu exemplo ideal.

Hamilton dos Santos: Você fala muito disso: às vezes, você esquece a obra e fala que a pessoa te fascina. Dos grandes poetas, ou dos grandes escritores, quem nessa linha você também citaria, assim, que a pessoa te fascina, mas a obra, de certa forma, não te chega muito próximo, ou você não leu, mas continua encantada com a pessoa?

Adélia Prado: Não sei, não sei responder isso para você agora, não me lembro assim. Desculpe, não sei responder.

Humberto Werneck: Adélia, algumas escritoras ficam muito irritadas quando são colocadas numa categoria da literatura feminina. Com você, como é isso? Isso te chateia?

Adélia Prado: Chateia. Eu não quero escrever para mulheres. Eu não acho que tem literatura feminina. Tem literatura escrita por mulheres, não é? Porque isso aí dá sempre a impressão de literatura feminina. Literatura feminina? Eu vejo isso assim – sabe? –, como uma coisa [gesticula, indicando uma coisa pequena]... Quase que a diferença entre poeta e poetisa, sabe? Não gosto da palavra.

José Castello: Você disse em uma entrevista: “A poesia é hermafrodita”. Explique o que é isso, a poesia hermafrodita.

Adélia Prado: Que ela é comum do homem e da mulher. Ela é comum ao homem e à mulher. Ela não é masculina... Olha aí, vem de novo aquela história. Ela não é masculina nem feminina. O ato criador é masculino, para mim, mas a poesia não, a poesia é hermafrodita, ela é comum aos dois sexos.

Humberto Werneck: Você disse também: “Se uma mulher escreve igual a um homem, ela tem espaço”. O que você estava querendo dizer exatamente com isso?

Adélia Prado: É exatamente aquilo que eu disse: se ela escreve igual a um homem, quer dizer, se ela não faz literatura para mulheres; se ela, realmente, quando está escrevendo...

Humberto Werneck: Você escreve como um homem?

Adélia Prado: Eu espero [que sim], senão eu estou perdida [risos].

Fábio Lucas: Se chegar para você um leitor e disser: “Qual o livro que eu devo ler? Dos seus livros, qual o mais interessante?”. Qual você indicaria?

Adélia Prado: Ô pergunta cruel, não é? Eu ia perguntar para ele assim: você gosta de poesia ou de prosa? A primeira pergunta que eu ia fazer.

Fábio Lucas: E se ele dissesse: “Poesia”?

Adélia Prado: Olha como eu estou importante: “Comece por Bagagem, meu primeiro livro [risos].

Hamilton dos Santos: Adélia, você disse: eu escrevo como homem, se não o fizesse estaria perdida...

Adélia Prado: Espero.

Hamilton dos Santos: O que você acha que o homem deve fazer como a mulher, para o caso de ele não estar perdido?

Adélia Prado: Você diz quanto a escrever?

Hamilton dos Santos: Não, quanto a qualquer coisa na vida.

Adélia Prado: Ele tem que ser feminino; é o contrário. O homem que não está com o seu feminino resolvido, aquilo nele, que é a capacidade de perdão, de escuta, de voltar atrás, ele também está perdido, tanto quanto a mulher que nega em si esse poder criador. Mas é uma tão... que exige tanto tempo, é fascinante até, mas a gente não pode...

Augusto Massi: Você se identifica com alguém em outra expressão artística? Pode ser cinema, teatro... Eu sinto assim que tem um lado no seu trabalho, hoje, até um clima um pouco inclassificável. Você diz algumas coisas que parece que nós estamos em um ambiente, assim, sempre viciado de certas oposições, e você, curiosamente, vai na contracorrente, um pouco por afirmar esse momento de encontro. Quer dizer, o poema que você falou aqui, “Casamento”, é um momento de encontro; essa procura do masculino e do feminino, você coloca muito isso. Você encontra isso em termos de arte, pensando em outros escritores? Você tem alguma afinidade com alguém hoje, mesmo fora, alguma coisa que você já leu?

Adélia Prado: Minhas leituras estão...

Augusto Massi: Ou você acha que é um caso particular o seu caso?

Adélia Prado: Não, não.

Augusto Massi: Você se sente individualizada nesse aspecto?

Adélia Prado: Não, de jeito nenhum. Eu percebo, às vezes, até pela leitura. Sabe um autor que me fascina, que eu acho que tem isso também, que eu gostaria de saber inglês para conversar com ele, para falar a respeito? É o Philip Roth [(1933-) escritor norte-americano], [autor de] O complexo de Portnoy, e J. D. Salinger [1919-2010 - autor do clássico O apanhador no campo de centeio], eu adoro este escritor [norte-americano]! Mas eu queria escrever assim, sabe? Eu leio aquilo e falo: isso aqui sou eu, sou eu, tenho essas identidades. Eu gosto tanto, que isso pode perturbar minha antena crítica. Mas eu acho que são autores assim, que a arte para eles geralmente é comunhão, não está dividindo nada, é comunhão.

Luciana Villas-Boas: Na literatura européia, tem alguma coisa de que você goste?

Adélia Prado: Européia? Eu gosto muito de Marguerite Duras, gosto muito. Eu acho que é um fenômeno, aquela escrita, aquela mulher. Deixe eu ver mais quem. Minhas citações são precárias.

Augusto Massi: Não, estão ótimas. Eu acho, assim, que você acompanha com freqüência, então. Pelo que eu estou vendo, você tem...

Adélia Prado: Com baixa frequência, mas...

Augusto Massi: É?

Adélia Prado: ...acompanho. Eu gosto muito de um autor também... eu não terminei o livro. Sabe, às vezes a gente começa a ler o livro e fala assim: está tão ruim que eu não leio mais, e tem outros assim: está tão bom que nem precisa [continuar lendo] [risos]. É uma tal identidade, que você fala: é isso mesmo, eu já sei, é isso mesmo! Hermann Broch [(1886-1951) escritor austríaco], estou falando certo?

[...]: É, Hermann Broch.

Adélia Prado: A morte de Virgílio [romance de Hermann Broch], meu Deus do céu, que maravilha! Que é aquilo?! Eu não acabei de ler, não, mas não preciso, sabe? [risos] Eu penso: qualquer hora eu recomeço. Então, essas identidades. Ah, quer ver outro que eu adoro? [James] Joyce [(1882-1941) escritor irlandês, autor do clássico Ulysses].

Hamilton dos Santos: [De T. S.] Elliot [(1888-1965) poeta, crítico e dramaturgo norte-americano], você gosta?

Adélia Prado: Gosto, [mas] não conheço tudo, não. Eu dei conta de ler [o romance Ulysses, de] Joyce traduzido pelo...

Hamilton dos Santos: Antônio Houaiss?[ver entrevista com Houaiss no Roda Viva]

Adélia Prado: Antônio Houaiss. Sabe aquela coisa que você fala assim: não estou entendendo, não, mas eu estou sacando tudo, sabe? [risos] Mais ou menos aquela leitura assim. Você fala: opa, tem uma coisa aqui, tem uma coisa que você vai perseguindo e, de repente, o quadro se forma e você entende. É a coisa do olho mágico, não é?

Hamilton dos Santos: Agora, diante desse livro, por exemplo, você não teve essa percepção de que é tão bom que não precisa ser lido. De uma certa forma, ele exigia que você fosse até o fim. Ou não?

Adélia Prado: Nada.

Hamilton dos Santos: Você também não terminou a leitura?

Adélia Prado: Não. É aquela coisa assim: é bom, eu sei que é bom; qualquer hora eu pego, sabe? É uma garantia de qualidade e tal, de permanência que a obra te oferece; é obra que você retoma, relê... essas obras fundamentais.

Marta Góes: Adélia, você lê revistas femininas?

Adélia Prado: Ocasionalmente. Às vezes eu olho assim: “Como cuidar bem da sua pele”, como... [risos]. Aí eu penso: às vezes tem uma receitinha nova aqui. Aí eu pego, mas eu não sou leitora de revista feminina, não.

Heródoto Barbeiro: Adélia, eu tenho mais uma série de perguntas de telespectadores, e eles estão pedindo a você que fale um pouco mais a respeito de religião e religiosidade. Por exemplo, senhor Daniel, de São José dos Campos, interior de São Paulo; o senhor Luiz Carlos e a dona Maria Cecília, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul; a senhora Edília Madeira, de Porto Alegre; e também a professora Marlene, de Ribeirão Pires, uma cidade aqui da Grande São Paulo, entre outras coisas, eles gostariam que você dissesse o seguinte: você acha que o ensino religioso deve voltar para as escolas novamente ou não?

Adélia Prado: Não, de jeito nenhum. Não acho, não. Eu fui professora de educação religiosa e eu achei toda a experiência muito equivocada. Tal qual educação, acho que deveria tirar das escolas: educação artística, ensino religioso, moral e cívica. Você vê, por exemplo, a precariedade dessas disciplinas. Moral e cívica, por exemplo, é para ensinar a cidadania, não é? E eu aprendi, acredito que aprendi, absorvi as primeiras noções de moral e cívica, foi lendo os poemas de Olavo Bilac: “Criança, ama com fé e orgulho a terra em que nasceste”. A gente olhava, decorava a poesia e falava, quer dizer, aquilo era passado de uma forma tão prazerosa. Agora, você ter uma disciplina para ensinar moral e cívica ou religião? Eu acho que todo currículo escolar deve permitir o despertar da sensibilidade religiosa, artística e civil etc, mas isso em um conjunto. É como dar aula de futebol na escola, ou aula de samba, essas idiotices... não tem... Eu acho que é muito equivocado o ensino religioso.

Heródoto Barbeiro: Adélia, como é que as feministas convivem com você, ou você convive com as feministas?

Adélia Prado: Nós não convivemos [risos].

Heródoto Barbeiro: Principalmente quando você coloca a mulher numa posição secundária, numa posição assim de anonimato, e é exatamente o contrário. Como é que é isso?

Adélia Prado: O “secundário”, quando eu falo secundário, é no mesmo sentido que dois fios elétricos: um é positivo, outro é negativo.

Heródoto Barbeiro: Mas tem subordinação nisso, submissão ou não?

Adélia Prado: Submissão, no sentido de poder, não, jamais. Não é o poder do masculino sobre o feminino, não. É o exercício de papéis, papéis próprios, a meu ver, ontológicos; não é à toa que existe o homem e a mulher. Há uma diferença, eu queira ou não. Vão falar: complexo de castração. Claro, evidente, há um complexo mesmo! Agora, o feminino se resolve na aceitação dessa falta; é uma ausência que nós temos; e é aí que é a nossa glória, essa ausência, esse segundo, essa permissão. Ah, mas eu fico tão cansada de falar isso, já de novo, meu Deus.

José Castello: Adélia, em relação às suas diferenças com o catolicismo oficial, por exemplo, aborto: você é a favor ou contra o aborto?

Adélia Prado: Contra!

José Castello: Mas por quê? Por questão de dogma ou... queria que você explicasse.

Adélia Prado: Não, é um dogma interno, é um sentimento interno contra o aborto. Eu acho que a Igreja [Católica] explicita essa coisa natural, a meu ver, natural. E eu acho que toda a luta para a descriminalização do aborto começa pelos fundos, ela começa de uma maneira errada. Quer dizer, os argumentos são tão precários: “Tem tanta mulher fazendo aborto, então vamos colocar clínicas maravilhosas para elas fazerem aborto”. “O poder público tem que ajudar a mulher a fazer aborto”. Ninguém imagina que, então, o poder público tem que ajudar essas mulheres a terem seus filhos, a cuidarem dos seus filhos. Quer dizer, eu acho um raciocínio tão primário, tão desumano.

Marta Góes: Mas você não imagina que outras pessoas pensem diferente em relação ao aborto?

Adélia Prado: Ah, perfeitamente! Mas espero argumentos convincentes. Até agora, não os vi.

Marta Góes: Porque a lei é só para quem pensa assim, quer dizer...

Humberto Werneck: Você, como católica, como você vê esse avanço dos pentecostais?

Adélia Prado: O avanço dos pentecostais? Na Igreja?

Humberto Werneck: Não, no Brasil inteiro.

Adélia Prado: No catolicismo, não é?

Humberto Werneck: Exato.

Adélia Prado: Eu acho maravilhoso. Porque, para mim, os pentecostais, os carismáticos, vamos falar assim, eles estão representando exatamente essa sintonia nova com o feminino. Porque os carismáticos...

Humberto Werneck: Eu acho que nós não estamos falando da mesma coisa.

José Castello: Você se refere aos crentes, não é isso?

Humberto Werneck: Aos crentes, aos evangélicos.

Adélia Prado: Ah, tudo bem, os crentes, de confissão não católica.

Humberto Werneck: Exato.

Adélia Prado: Certo. O que eu acho é o seguinte: há nos crentes, nas confissões evangélicas, de um modo geral, uma tristeza... eles pecam menos do que nós, sabe? Eu vejo muita tristeza naquele segmento, uma rigidez muito grande, maior que em nós católicos com relação à alegria, ao prazer, à celebração da vida. Os cultos, eu acho muito tristes. Eles não têm os sacramentais que nós temos. Vamos dizer: a paisagem litúrgica deles, a meu ver, é pobre, não satisfaz. Então, é isso que eu vejo. Eu acho que eles poderiam ter mais, sabe? O rito é uma exigência humana. Eu acho seco, eu acho duro. E essa secura se manifesta no relacionamento com eles. Eles são mais fechados que nós para essas aberturas ecumênicas a fazer... Claro, hoje está muito mudado. Tem confissões que permitem isso, já fazem isso. Mas eu estou generalizando para o assunto andar. Eu os acho tristes.

Augusto Massi: Adélia, aliás, de alguma forma, essa questão religiosa aparece em sua literatura aqui neste livro: O homem da mão seca .

Adélia Prado: Aparece, sim.

Augusto Massi: Tem um momento em que você fala, você discute exatamente essa questão do pecado. Você fala dessa alegria de viver e que o pecado até teria uma função...

Adélia Prado: Ah, eu acho que o pecado é importantíssimo, sabe? Por isso que eu falei que o Ricupero tinha que ficar. Porque o pecado é exatamente a condição para que se aflore, para que a consciência aflore. A consciência da minha condição, a consciência de que o mal me habita. Eu não faço o mal, não, [mas] o mal está em mim, eu sou o mal, ele me habita tal qual o bem. Então, não pecar é uma grande desgraça. Por isso que os grandes pecadores têm esse papel e são também – se você olha numa ordem religiosa, puramente religiosa, teológica – os maiores santos. [Os maiores santos] são os que se crêem de verdade os maiores pecadores. É porque há uma consciência muito nítida da própria condição. Eles estão mais perto da luz. Então, eles vêem mais o próprio negrume, a própria sombra. Então, é essencial; eu acho que o pecado tem essa função.

Hamilton dos Santos: Você acha que o pecado material, então, não existiria? Porque nesse sentido, por exemplo, a droga não seria um pecado, como você a condenou?

Adélia Prado: Deixe ver se eu entendo. Como foi que você disse?

Hamilton dos Santos: Você condenou, por exemplo, o uso de droga, dizendo que ela desvia a...

Adélia Prado: Ah, mas eu não estou falando de pecado assim, não. Tem gente que está tomando droga aí na maior inocência. Pecado, quer dizer, o pecado... coisa difícil, não é? Que pecado, hein? Espera aí.

Hamilton dos Santos: É muito simples, assim, para você não existe o pecado material?

Adélia Prado: [pensativa] Existem atos pecaminosos, mas a noção de pecado, o sentimento de pecado é uma revelação interna. Há grandes pecadores inocentes.

Augusto Massi: Aqui você se aproximaria um pouco da psicanálise? Eu senti no livro...

Adélia Prado: Sim, verdade.

Augusto Massi: ...um momento em que você coloca essa tomada de consciência.

Adélia Prado: Perfeito, perfeito. E a tomada de consciência na psicanálise, o que é? É a tomada de consciência da sua sombra. O analista devolve você a você mesmo... o bom analista, não é? [É] a sua sombra que fala; ela é inarredável de você. A sua condição é essa, a minha condição. Então, ir ao analista para tirar culpa é tempo perdido. A culpa me pertence, porque eu existo e existo como tal. Então, tomar consciência disso é tomar consciência de que eu não faço o pecado, eu sou, eu sou. Então, não é tomar ou não tomar droga, não é matar ou deixar de matar; a minha condição é que é pecadora. Então, eu tenho que tomar consciência disso para que eu comece a me libertar, a me individuar, a me salvar, enfim. Há propostas religiosas para isso, há propostas filosóficas e tal, a gente escolhe o caminho. Eu respondi para você?

[...]: Respondeu.

Heródoto Barbeiro: Adélia, o nosso Roda Viva de hoje está se encerrando, e eu gostaria de agradecer a sua gentileza.

Adélia Prado: Eu que agradeço demais o carinho de todo mundo.

Heródoto Barbeiro: Muito obrigado pela sua presença aqui, Adélia Prado.

Adélia Prado: Agradeço a vocês e aos telespectadores que fizeram perguntas.

Heródoto Barbeiro: Ok. Muito obrigado também às pessoas que ligaram para cá, através do fax ou através do nosso telefone. Muito obrigado aqui aos jornalistas e aos nossos convidados de hoje. O programa Roda Viva volta na próxima segunda-feira, às onze horas da noite. Tenham uma excelente semana. Boa noite.
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