Memória Roda Viva

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Regina Casé

17/10/1988

Inquieta, espontânea e despojada, a atriz fala de sua carreira no teatro e na televisão

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Ricardo Soares: Boa noite! Estamos começando mais um programa Roda Viva. O Roda Viva é transmitido ao vivo pela Rádio Cultura AM, pelas TVs educativas da Bahia, Piauí e Porto Alegre e pela TV Cultura de Curitiba. Ainda é retransmitida pelas TVs educativas do Maranhão, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo. A convidada do Roda Viva desta noite é a atriz Regina Casé. Os telespectadores não poderão fazer perguntas porque esse programa foi gravado. Para entrevistar Regina Casé, esta noite, nós convidamos os seguintes jornalistas: Paula Dipp, jornalista e apresentadora do programa Paulista 900, da TV Gazeta de São Paulo; Hamilton Vaz Pereira, diretor e autor de teatro; Celso Cury, jornalista e empresário; Ricardo Kotscho, repórter do Jornal do Brasil; Maria Amélia Rocha Lopes, jornalista do programa Metrópolis da TV Cultura; Mario Prata, escritor, roteirista e autor de teatro; Alberto Guzik, crítico de teatro do Jornal da Tarde e do programa Metrópolis da TV Cultura. Para registrar os melhores momentos desse Roda Viva, está conosco o cartunista Paulo Caruso. Na platéia assistem ao programa alunos do Conservatório de Artes Dramáticas Emilio Fontana.

Ricardo Soares: Regina Casé tem 34 anos, é carioca e vem de uma família de artista. Seu pai Geraldo Casé foi um dos criadores do Sítio do Pica Pau Amarelo. Na década de 1970, ajudou renovar o teatro brasileiro com a criação do grupo “Asdrúbal trouxe o trombone” [grupo de teatro carioca, criado em 1974, quando estreou com a peça O inspetor geral, de Nikolai Gogol. dirigida por Hamilton Vaz Pereira, revelou um grupo de atores como Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães, Perfeito Fortuna, Evandro Mesquita, Nina de Pádua e Patrícia Travassos, que fariam sucesso também no cinema e na televisão. A montagem da peça Trate-me Leão, em 1977, criação coletiva do grupo, fez do Asdrúbal o representante do que se passava nos corações e mentes da juventude dos anos 1970 e influenciou toda uma geração de jovens atores], depois participou de várias peças, filmes e novelas de televisão. Atualmente, uma das principais atrizes do programa TV Pirata da Rede Globo. Está em cartaz em São Paulo com a peça Nardja Zulpério, do Hamilton Vaz Pereira, que também participa como entrevistador. Regina, você tem sido apontada, no Brasil, como um dos poucos talentos cômicos que apareceu neste país nos últimos anos. Eu queria saber o seguinte: como é que você percebeu que você era engraçada?

Regina Casé: É...Quer dizer, profissionalmente eu percebi por... Quer dizer, trabalhando junto com as outras pessoas, eu vi que elas riam de mim [risos] e tal... e quer dizer, já comecei a perceber quando a gente começou a trabalhar no Asdrúbal, mas eu já tinha percebido antes, quando eu era pequena....

Ricardo Soares:: Aquelas coisas de criança, esquetes familiares.

Regina Casé: Eu era a mais engraçada no colégio, na família e etc e tal. Foi normal, não teve, assim, nenhuma surpresa: um dia eu fiquei engraçada. Acho que foi sempre. É que tá começando, tá um pouco assim, né? [olha ao redor e sorri]

Ricardo Kotscho: Regina, se você não fosse uma artista assim, engraçada, o que você gostaria de ser?

Regina Casé: Várias coisas, sabia? Toda hora eu penso nisso, eu tenho uma sensação assim de que... É claro que quando eu penso em mim, eu penso que sou atriz, porque eu também não sou louca, já há tempão que eu trabalho com isso e tudo. Já acostumei com a idéia, mas eu tenho muita vontade de ser outras coisas. Eu acho que é fantasia, que eu nem vou chegar a ser, entendeu?

Ricardo Kotscho: Por exemplo...

Regina Casé: Professora. Eu tenho uma enorme vontade de ser professora. Toda hora eu falo isso. Assim... Tanto faz, pode ser desde professora primária até universitária ou professora de outras coisas. Até as vezes que eu dei aula de teatro, eu também gostei muito. Eu gosto muito da sensação de uma pessoa me perguntar uma coisa ou querer saber alguma coisa e perguntar a mim se por acaso eu souber um pouco daquele assunto que tá interessando a pessoa, eu explicar pra ela... Eu acho que eu tenho uma didática legal, tenho, assim, uma maneira de comunicar alguma coisa que eu sei para a outra pessoa independente da didática também, de fazer a pessoa se interessar por aquilo que eu estou contando ou que eu estou explicando... Eu adoro, eu adoraria ser professora. Adoraria ser cientista também, trabalhar com química ou mesmo física se eu pudesse estudar. Eu adoraria fazer outras coisas, mas eu acho difícil.

Ricardo Kotscho: Você é moça, ainda tem tempo.

Regina Casé: Não, é, eu sei que tem tempo. A mãe do Ricardo [aponta para Kotscho], outro dia mesmo, se formou, eu fiquei animada quando ele me contou isso, em direito, na semana passada. Achei bacanérrimo, é que a coisa de ser atriz foi dando certo e você vai acabando... fazendo uma porção de coisas ali naquela área e tal. Aí, para sair, também, nenhuma dessas coisas me atrai tanto, para ter um rompimento. Eu, por exemplo, gosto de pintar e desenhar, sou casada com artista plástico. Adoraria poder deixar isso acontecer mais livremente na minha vida, mas aí, não: vai ser uma exposição de pintura da Regina Casé, que é atriz, então isso acaba sempre ficando meio um pouco confuso.

Ricardo Soares: Como é a convivência da humorista com o artístico plástico? O que um interfere no trabalho do outro?

Regina Casé: Já vou aí, tá? [diz, apontando para um dos entrevistadores; risos] É legal. Eu acho que é uma medida bem legal, porque a gente não faz exatamente a mesma coisa, o mesmo trabalho, a gente eventualmente trabalha junto. Nessa peça e em outras, o Luís trabalha como cenógrafo, quer dizer, cria o espaço que eu vou trabalhar, o que é ótimo. Ao mesmo tempo é uma pessoa que tem uma sensibilidade próxima e que está atenta às mesmas coisas e que é um pouco diferente. Então, não são os mesmos amigos, a mesma panelinha, a mesma cabeça, a mesma maneira de ver o mundo. É diferente. Ele trabalha sozinho, eu trabalho com muita gente. Ao mesmo tempo, não é aquela coisa, assim, díspar totalmente, que eu falo grego e ele nem sabe o que é. Ele conhece as pessoas, é amigo. Então eu acho que é uma medida muito boa, até me surpreendeu. Eu nunca tinha casado com artista plástico, eu adorei. Aconselho a todas as atrizes que experimentem [risos].

Mario Prata: Regina, é o seguinte: você, Hamilton, Patrícia [Travassos], Perfeito Fortuna, Evandro [Mesquita] e Luís Fernando [Guimarães] formaram o grupo Asdrúbal trouxe o trombone alguns anos atrás, né? A Regina tá aqui, ela é uma das maiores atrizes do país. O Hamilton é o autor e diretor dos mais consagrados hoje. Patrícia é redatora da TV Globo, do Armação Ilimitada e uma atriz. Perfeito Fortuna criou o Circo Voador, o Evandro fez a Blitz e é compositor e Luís Fernando é um grande ator. Eu queria te perguntar: vocês, há 13 ou 14 anos, quando formaram esse grupo, como é que juntou-se esses talentos todos? Como é que... sabe? Era o pessoal da praia? Era de escola? Vocês tinham todos em torno de 18, 19, 20 anos, e todos deram certo, é difícil isso. Além do grupo dar certo, historicamente, até, vocês deram certo solo. Como é que juntou tanto talento de uma vez assim?

Regina Casé: Eu não sei nem se foi isso. Não tô querendo dizer que as pessoas não tenham talento. Mas acho que todas têm muito talento e isso está comprovado e tal, mas eu acho que é mais que isso. Outro dia eu estava pensando sobre isso. Não sei se é certo, foi uma coisa que me ocorreu para explicar isso. Por exemplo, essas pessoas não se reuniram todas simultaneamente. No Asdrúbal, dá muita impressão de que é esse elenco ou essa escalação que você deu agora. Essa foi a que mais ficou famosa, mais conhecida por causa do Trate-me Leão [nome do terceiro espetáculo do Asdrúbal trouxe o trombone], foi o nosso espetáculo de maior sucesso e que viajou mais, quer dizer, teve mais alcance. Agora, outras pessoas, até, antes, passaram pelo Asdrúbal e depois passaram pelo Asdrúbal e tal. Mas esse elenco que ficou muito tempo junto e depois trabalhou e fez o Trate-me e fez aquela coisa toda, é... Eu sinto que a gente teve uma disponibilidade, um tempo junto e a gente viveu uma experiência tão rica e com tamanha intensidade. Eu sinto assim, que isso é mais forte do que o talento pessoal de cada um. Eu acho que se outras pessoas tivessem a oportunidade de viver, durante tanto tempo, uma coisa tão intensa e com tanta dedicação e com tanta... Eu acho que a gente tinha um grau de exigência um com o outro, um grau de exigência de vida, entendeu? A vida da gente era muito legal e tinha que ser muito legal o tempo todo. Você nunca podia pisar na bola, você tinha que ser legal e a gente... acho que se cobrava muito e trabalhava muitas horas por dia. Então, eu acho que é meio como se você tenha passado assim um tempo, uma pessoa que quer se espiritualizar passa um tempo grande... Sumiu de circulação, foi para um mosteiro, sei lá, no Tibet e voltou. Aí todo mundo fala: “Nossa, aquele cara está com um olhar diferente ou não sei o quê”. Eu acho, a sensação que eu tenho de um certo período do Asdrúbal, era quase de um recolhimento em relação às outras coisas. Apesar de você estar vivendo muito intensamente na sociedade, a gente tinha assim, pelo menos 8 horas por dia de uma convivência muito intensa e muito bacana de trabalho. Acho que isso tinha que resultar de alguma maneira na vida, na história pessoal de cada um, independente do talento.

Alberto Guzik: Vocês tinham noção, naquele momento, que vocês estavam causando uma revolução na interpretação brasileira? Vocês tinham noção da importância que o trabalho de vocês ia ter, no sentido de tornar a interpretação mais informal, mais solta, mais cotidiana, mais acessível? Tanto a pessoas da idade de vocês quanto a pessoas de outras gerações? Vocês tinham noção do que estavam fazendo?

Regina Casé: Acho que a gente foi tendo conforme foi acontecendo, não foi uma coisa pensada e intencional, assim, a gente quer mexer com isso, a gente quer experimentar nessa área ou a gente quer revolucionar essa coisa da... Não, porque às vezes, até, você pode. Eu vejo gente que se reúne e quer trabalhar e quer... Quero fazer uma pesquisa de espaço, quero fazer uma pesquisa disso. Tem gente que se reúne e que quer mesmo. Eu não sinto uma coisa muito intencional nessa área assim. Agora, é claro que a gente percebia que isso estava acontecendo, contrastando com as outras coisas que estavam em cartaz e mesmo antes da gente trabalhar profissionalmente, quando eu já trabalhava com o Hamilton há uns dois anos, não profissionalmente. A gente chegou a fazer várias coisas...

Alberto Guzik: Vocês começaram com o Inspetor geral, né? Primeira montagem profissional foi Inspetor geral, né?

Regina Casé: Mas a gente já trabalhava mais ou menos desde 1971, não é, Hamilton? Por aí. [Olha para Hamilton que confirma a data, dizendo: “Setenta e um”] Uns três anos a gente trabalhava juntos com coisas que pouca gente viu e que não eram profissionais e tal. Mas, mesmo aí, mesmo em cursos, a gente fez diversos cursos de teatro e eu já sentia que não era uma coisa pensada, vamos dizer assim, acontecia. Porque eu também não pensava em fazer teatro, talvez o Hamilton mais, é melhor ele responder. Mas como eu ia me expressar, era aquela coisa adolescente que você sente, que você quer se comunicar com as pessoas, com o mundo, você quer se expressar, mas podia... se os meus amigos tocassem rock, eu poderia ter formado uma banda, ainda estava uma coisa assim meio indefinida, né, que foi acabando... indo para esse lado e tal. Daí, eu sinto que a gente foi percebendo que estava acontecendo isso e logo percebendo, também não era fazendo e nem sabia, você percebia e ao mesmo tempo era engraçado, porque eu não sentia como uma revolução, uma coisa assim que estava mexendo na maneira das outras pessoas interpretarem e que realmente eu não acho que mexeu em quem já interpretava antes. Eu acho que veio a mexer em quem veio e achou que era impossível vir a interpretar alguma coisa, ou seja: novos grupos, novas pessoas, um novo público que veio ao teatro. Então eu não acho que a gente não mexeu  muito no público que já existia ou nos atores que já existiam, nos grupos que já existiam. A gente só acho que deu coragem para todo mundo que estava de fora da roda para entrar.

Maria Amélia Rocha Lopes: Logo que você começou a ganhar os seus primeiros prêmios de atriz e tudo isso, as pessoas acabavam sempre se remetendo a Dercy Gonçalves [atriz e comediante centenária, famosa por seu comportamento irreverente], falavam que tinha um certo escracho, no melhor sentido, comum entre o seu jeito de interpretar e o dela. Você via este ponto comum? Você acha que existe ainda?

Regina Casé: Acho que, de alguma maneira, deve existir porque é... A gente não tem muitas comediantes, né? São poucas, se você comparar principalmente com o temperamento do brasileiro em geral. Acho que, na vida da gente, as pessoas têm uma tendência a ver as coisas com humor, mais do que um alemão, digamos [risos]. Quando você vai ver um filme alemão, você espera alguma coisa, não é? Mesmo que esteja escrito, comédia alemã, você já sabe mais ou menos o que é aquilo [risos]. Agora, se você vai ver uma peça de teatro de revista brasileiro ou, mesmo, o filme nacional, a expectativa que tenha algum momento de humor, acho que isso é meio assim. E, apesar disso, é uma coisa curiosa e que eu, volta e meia, penso e tento descobrir por quê. Eu acho que nós temos poucas comediantes mulheres. Você pode ver que é uma coisa preconceituosa, que o humor é uma coisa masculina, que o humor você cospe, senta de perna aberta, fica feio, coisas que normalmente não ficam bem para uma mulher. Mas acho uma explicação um pouco rala assim pra... Então, como a Dercy é uma comediante extraordinária e não surgem muitas toda hora, acabam me comparando com a Dercy. Se for procurar, deve ter alguma coisa. 

Maria Amélia Rocha Lopes: Você vê alguma coisa?

Regina Casé: Mais no início da carreira era engraçado, porque todo mundo dizia não só que eu parecia, como eu imitava e tal. E a primeira vez que eu vi a Dercy, por exemplo, você estava falando de prêmios, eu já tinha ganhado o Moliére [prêmio teatral, trazido pela empresa Air France, em 1963], já tinha feito o Trate-me Leão. A primeira vez que eu assisti à Dercy, eu já tinha acabado a temporada até do Trate-me, quer dizer, eu já tinha feito três ou quatro espetáculos e não conhecia o trabalho dela.

Mario Prata: Regina, o que você achou dela?

Regina Casé: Fiquei emocionadíssima. Eu chorei do começo até o final do espetáculo, mas que nem uma louca. Eu vi uma peça que, por acaso, também era muito boa, depois eu vi outras coisas que nem eram tão... talvez não tivessem me emocionado tanto. Essa peça que eu vi, ela fazia uma garotinha vestida de marinheira, que o pai era um grande cientista e que ela resolve ter um filho com um cara, que ela achava que ia ser o filho o cara mais inteligente. Porque o pai era o Prêmio Nobel e esse cara também e o cara era casado e tinha uma família e tudo e era bárbaro o jeito que ela falava. Ela falava para a mulher do cara e tal: "Não! Eu só quero ter um filho com ele, só quero trepar com ele, eu não quero casar". E com o vestidinho de marinheiro. E a uma certa altura, ela tirava a roupa e ficava de peitos de fora. Porque ele não queria comer ela nunca. O tempo todo ela ficava insistindo e fazia assim [abre os braços e levanta o pescoço], ele nem beijava nem fazia nada, aí ela ficava impaciente e levantava a saia, tirava a roupa assim [faz gesto como se estivesse levantando a saia]  [risos], ficava pulando na frente dele, para ver se ele ficava com tesão e tal. Eu nunca tinha visto uma coisa tão livre assim, tão forte, e o jeito que ela fazia. Ela tinha 70 e tantos anos e ela ficou pelada pulando na frente e falava assim: "Me beija, eu adoro você, eu sou louca por você!" [risos] Eu chorei para caramba! Fiquei louca, achei a coisa mais linda do mundo.

Celso Cury: Regina, na divulgação do Nardja Zulpério, você insistiu em dizer que não era uma comédia, ficou muito claro tudo isso e eu fui à estréia. Mas nem tinha aberto a cortina ainda, estava começando a abrir, tinha uma mulher na primeira fila que ria às gargalhadas. Essa ligação tem que ser engraçada, você está no palco é engraçado. Como é que é esse negócio? Não te enche um pouco o saco isso, não?

Regina Casé: Enche [risos]. Particularmente, nesse dia da estréia. Ao mesmo tempo, é uma coisa que você não pode cobrar das pessoas. Da mesma maneira que eu vou ver um filme alemão pensando o que eu penso, é natural que a pessoa pense. Mas eu tenho um pouco de pena porque, nesse espetáculo, eu agora estou conseguindo, na segunda semana, eu consegui impor o ritmo do espetáculo, mas com uma relação com a platéia bem assim, entendeu? Que você segura aqui, dá um pouquinho dali, segura daqui e dá um pouquinho dali. Na estréia foi um dia muito difícil, já no dia seguinte melhorou. Toda estréia acontece isso, mesmo que não seja comigo. Depois outra coisa que eu acho que prejudicou foi que eu avisei muito que não era uma comédia, eu no ensaio quase não trabalhei o humor. De vez em quando, acontecia alguma coisa que a gente ria, mas era muito raro. As coisas que eu trabalhei mais, que a gente foi mais a fundo eram outras emoções. Muitas vezes, no ensaio, eu me emocionava e ficava triste. Quer dizer, pendeu muito mais para esse lado. Eu já sabia que quando eu fosse confrontar isso com a platéia, não ia ter a intensidade que estava tendo quando era só eu e o Hamilton. Isso eu já contava e já sabia que era uma coisa que eu ia ter que trabalhar com isso, mas foi mais difícil do que eu pensava no dia da estréia, bem mais. Principalmente porque... Você diz que a divulgação dizia que era, mas não era. A divulgação muito anterior, ou seja, matérias que eu dei durante o ensaio diziam que não era uma comédia. Mas toda a divulgação de estréia, apesar da gente não ter colocado isso, eu me lembro que assim, na capa do roteiro da Veja dizia: O craque do "besteirol", Hamilton Vaz Pereira, apresenta a comédia hilariante com a gozadíssima Regina Casé [risos]. E aí olhava em outro jornal e cada um só dizia isso e foi me apavorando. Mas você ia fazer o quê? Escrever para cada jornal ou para cada revista: “Corrija antes da estréia!" Mas dava um pouco de pena isso.

Ricardo Soares: Regina, por que o rótulo “besteirol” te incomoda tanto?

Regina Casé: Eu acho que ele é ruim até para o... Para mim, eu identifico o besteirol como uma fase da produção do Mauro [Rasi] e do Vicente [Paulo Pereira, um dos autores e fundadores do chamado teatro besteirol], do [Miguel] Falabella, uma coisa por aí. Eu identifico que a imprensa chamou de besteirol, que surgiu esse nome aí.

Ricardo Soares: Você acha que é pejorativo a imprensa dar um tratamento pejorativo ao termo besteirol? Por isso que te incomoda?

Regina Casé: É, eu acho chato, acho até o nome antipático. Não sei por quê. O nome não me é simpático, não por ser besteira. Agora, por exemplo, ligar o Hamilton com besteirol eu acho uma coisa tão absurda! Não, nem no sentido de ser pejorativo, mas de erro da imprensa, de equívoco, uma coisa equivocada mesmo. Não tem nada, nenhum compromisso com esse teatro que foi chamado de besteirol, que eu já não sei nem se é justo esse teatro ser chamado de besteirol, isso é uma outra discussão. Mas, depois disso, qualquer coisa que eles achavam engraçado ou assim, teoricamente falando, “muito louco”, era besteirol, entendeu? Toda essa coisa, esse invólucro todo que junta aí nessa confusão.

Ricardo Soares: Por que você acha que surgiu a confusão do seu trabalho com o besteirol? De que ponto se originou essa confusão?

Regina Casé: Comigo foi a primeira vez!

Ricardo Soares: Agora, com o Nardja Zulpério, aqui em São Paulo?

Regina Casé: É. Mesmo porque eu acho que, desde que surgiu o besteirol, eu não fiz. Eu não fazia teatro há quatro anos. O besteirol deve ter até menos que isso, quer dizer, eu não tinha tido feito nenhuma peça. Então eu não podia ter feito nenhum besteirol. A primeira que eu fiz virou besteirol. Mas não é um besteirol, eu não falo nenhuma besteira.

Maria Amélia Rocha Lopes: Agora, Regina, você não acha que a palavra já tem outro sentido? Já não tem o sentido pejorativo mais? Estou falando especificamente do caso de São Paulo, que tem a Mira, Mira Haar, Patrícia Gaspar, Carlos Moreno que há muitos anos faz esse tipo de teatro, né? Aqui já não tem esse sentido muito pejorativo, eu acho, a palavra besteirol.

Alberto Guzik: Acho que nunca se usou o termo em São Paulo, né?

Regina Casé: Eu acho que era uma coisa muito carioca. Eu ligo muito a isso o Falabella, Vicente Pereira. Eram esquetes onde assuntos muito superficiais eram colocados de uma maneira muito engraçada, era meio isso. Se você falar: duas mulheres no cabeleireiro discutindo o tamanho dos bobes. E aí tem uma esquete sobre isso. Imagino que isso seja besteirol, sem nenhum preconceito em relação, nem eu acho pejorativo, fui ver inúmeros espetáculos disso, que eu gosto. O Vicente é uma pessoa que eu admiro muito, adoro. Só acho que é totalmente absurdo colocar Nardja... ou mesmo o Ataliba [Ataliba, a gata safira, espetáculo de Hamilton Vaz Pereira do ano de 1988] já foi colocado e outros trabalhos do Hamilton e de outras pessoas como besteirol, porque realmente não é que é besteira ou não é, ou que um é melhor que o outro. Não tem nada a ver uma coisa com a outra.

Ricardo Kotscho: Regina, por falar em besteirol, só para não perder o fio da meada aí. A perspectiva de mais um ano do governo Sarney ajuda ou atrapalha fazer graça?

Regina Casé: Eu acho que, pra todo mundo, dá uma desanimada... não seja nem para fazer graça, entendeu? Não fica mais engraçado porque aí você vai curtir mais em cima daquilo. Eu estou louca para a gente entrar em outra, sabe?

Ricardo Kotscho: Você também?[risos]

Regina Casé: Todo mundo, né? Mas eu acho que vai ser bom para todo mundo, por mais que você se lasque... Eu estava comparando esse meu momento de estréia com outros. Por exemplo, eu estou fazendo um trabalho que está me dando uma alegria enorme, mesmo em relação... Você vai dizer: “Todo trabalho que você estréia, você fica animada”. Mesmo em relação a outros, poucas vezes para mim foi uma coisa tão nova no sentido assim: eu vou todo dia sem saber o que vai acontecer. Pode um dia ser um dramalhão ou ser uma comédia. Mas eu não sinto uma alegria no geral das coisas. Por exemplo, você estrear um espetáculo em outras épocas... podia ser uma coisa que dava uma comoção entre os amigos e socialmente, tudo. Uma festa de uma maneira... Agora, a gente está chapado, está cansado, está todo mundo assim... Então, dá um pouco de pena, porque, por mais que você consiga criar um oásis para você se trancar, trabalhar, trabalhar, tentar produzir alguma coisa melhor, né? Porque a vida está exigente, está exigindo invenção cada vez mais recente, que é o que a Nardjia fala. Por mais que você fique inventando para melhorar a porcaria que está a realidade, o tempo todo você fica inventando, inventando, inventando... Você inventa para você, para as pessoas que estão perto e não sei quê, não sei quê! Mas parece que isso não se espraia, que tem sempre uma coisa assim morna, uma coisa brochante. Eu tenho muita pena da gente estar vivendo esses tempos e estou louca para que a gente consiga reagir mais e sair disso logo.

Paula Dipp: Falando da tua luta, né? Do trabalho, provar as coisas, tentar continuar apesar de tudo isso. Eu tenho muita pena de trabalhar em uma emissora de televisão onde eu não posso te entrevistar. Eu acho lamentável que os contratados da Globo, a gente tem uma espécie de norma... Eu não posso convidar você, por exemplo, para bater um papo. Fiquei superfeliz, aliás, com o convite da Cultura, de poder vir aqui falar com você. Como é que você vê isso? De a Rede Globo impedir que seus contratados apareçam em outras televisões que não sejam educativas. Aqui na Cultura, por exemplo, você pode aparecer, mas em outros lugares você não pode. Isso acontece com todos os contratados da Globo. Eles reclamam disso, "Ai, a Globo trata a gente mal, mas tem que ser assim." Como é que você vê isso? Você está fazendo um trabalho em São Paulo de teatro, que deveria ser divulgado da melhor forma possível e isso não pode ser feito. Como é que você se sente neste aspecto?

Regina Casé: É, eu acho que era bom que a gente pudesse fazer. Mas isso é uma coisa que quando você assina um contrato vem escrito e que você... Para a gente vem claramente que isso vai acontecer. E eventualmente você consegue... Eu até estava conversando com a Pat [Patrícia Travassos], talvez eu consiga ir ao seu programa. Você pedindo e tal, explicando uma coisa e outra. Eu acho que é chato, muito chato. Eu acho que não atrapalha em nada. Era bom que a gente pudesse fazer, mas eu acho que houve algum tipo de problema, que agora não me ocorre. Mas que é difícil, a coisa do que é jornalístico e do que não é. Tem tipos de programas de entrevistas que é mais como um show e esses limites eram muito maleáveis e acabava tendo uma discussão do artista com a emissora, a cada semana, em cima disso. Aí acho que acabou dando tanto problema que ficou meio assim e até os artistas se sentiram desestimulados de batalhar, porque era meio complicado a margem do que era o programa de variedades e o que era só uma coisa jornalística de te entrevistar. Mas eu acho que mesmo um ou outro poderia se fazer. Acho que não me atrapalha em nada.

Ricardo Soares: Regina, aproveitando o gancho da pergunta da Paula. O fato de, no TV Pirata, vocês fazerem sátira e ironia com o próprio pessoal da TV Globo, tipo imitação da Leda Nagle, da Leila Cordeiro, diz, ela... até que a Leila Cordeiro mudou o corte de cabelo por causa da tua sátira? Eu queria saber se isso, de alguma forma, trouxe uma espécie de constrangimento para você. Como é que funciona isso dentro da Globo?

Regina Casé: Eu não sei, eu não encontrei, eu sou superfã da Leila Cordeiro, já era antes de fazer, assim, gostava dela. Mas eu não encontrei ainda, depois, nem com ela nem com a Leda Nagle, porque eu não freqüento muito a Globo. Eu só vou lá mesmo... E eu gravo no Renato Aragão, que é na Barra. Então, eu nunca vou à emissora, assim, nem no prédio nem lá nos estúdios. Então, eu não vejo, não freqüento os corredores. Eu vou direto onde eu gravo, gravo e vou embora para minha casa. Então eu não tenho uma vivência, assim, “global”, o que é que eles estão falando. Nem é muito do meu feitio nem eu gosto.

Ricardo Soares: Então, você não sabe se a Leila Cordeiro cortou o cabelo por sua causa, né?

Regina Casé: Eu achei que ela cortou muito e muito, assim, foi fogo para seguir [risos]. Às vezes, eu já tava pronta para ir gravar e eu olhava, assim, na TV, passava pela sala da técnica, ela tinha feito um permanente e estava tudo enrolado. Daí eu voltava para a maquiagem e enrolava também. Ia perseguindo e cortando... Eles tiraram o quadro do ar. Eu acho que é porque não tinha mais uma peruca tão curtinha [risos].

Mario Prata: Regina, mantendo ainda a TV Pirata, esse programa, para sair, foi um parto porque a Globo tinha um medo do projeto inicial, então alguém cedeu daqui, alguém cedeu dali, o programa acabou saindo. Hoje que o programa tá dando 47 de Ibope [Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística], maior sucesso de humor do Brasil. Como é que está essa relação entre vocês que fazem o programa e a Globo? Vocês estão fazendo o que vocês querem? Ou ainda tem um... Não é a nível de censura, não, a nível de idéias mesmo, de linguagem, de avançar, de criar?

Ricardo Kotscho: Deixa eu pegar uma carona na pergunta do Prata. É o seguinte: toda semana sai nos jornais que a TV Pirata vai acabar, né? Eu queria saber de você: quem é que está a fim de matar a TV Pirata?

Regina Casé: Eu não sei. O TV Pirata, eu acho que é... No início, a gente ainda não sabia bem o que era e tinha várias tendências dentro. Uns queriam puxar para um lado, acabou que essa tendência... Tinha tanta gente de fora dizendo que era uma droga e que ia acabar, que não ia vingar, que não ia ficar uma semana no ar, que a empregada não ia entender, que não era popular, que era uma coisa elitista, que não ia dar Ibope.

Mario Prata: Mas tá provado que deu certo.

Regina Casé: Todos os humoristas falaram mal.

Mario Prata: O Chico Anísio falou supermal, o que você achou da...?

Regina Casé: Todos falaram, né? Eu achei isso uma maluquice. Porque é... Eles falaram mal, e o programa nem tinha estreado, era que juntar aquelas pessoas para fazer humor já significava uma coisa elitista e que a empregada não ia entender. Eu acho essa conversa toda muito maluca, entendeu? Eu enjoei, fiquei de saco cheio dessa conversa de quem vai entender, quem não vai entender, o povo, a empregada, esse negócio. Acho uma coisa tão careta e chata, sabe? A gente já aturou tanto. No Trate-me Leão era zona sul, não era nem elitista nem carioca o humor. Era zona sul e, se a gente fosse para a zona norte, ninguém ia entender. Se fosse para Caruaru... a gente fazia um edital naquela época, não era nem... era CNT, né? Para você conseguir, eles darem passagem, você tinha que fazer para cada capital, três cidades do interior. Você vê: tem estados no Brasil que, para você conseguir três cidades do interior para levar o espetáculo... Não! É verdade. Então, a gente fazia em uma escolinha não sei onde, a gente viajou realmente do Oiapoque ao Chuí e com espetáculos maravilhosos do Trate-me Leão, com a resposta onde a gente tinha que voltar depois, entendeu? E onde as coisas aconteceram, não era só um espetáculo que vinha, que nem o ET falando uma outra linguagem que você não entendia nada e gostava. Lugares onde a gente fazia cursos, oficinas e aí surgiram grupos. Teve uma resposta enorme. E o tempo todo era uma coisa que só falava do umbigo e que era só zona sul e que a empregada não ia entender. Quer dizer, o mesmo discurso que eu ouço agora, de novo, na TV Pirata. Então, para mim é uma coisa que eu já ouvi e na minha orelha já encheu o saco.

Mario Prata: Regina, você não respondeu a minha pergunta. Eu queria saber como é que a equipe de criação da TV Pirata hoje está trabalhando? Está trabalhando 100%, a 90%?

Regina Casé: Eu não posso dizer, que eu não sou da equipe de criação. Agora, isso também é uma coisa que confunde muito. Como é um elenco com muita personalidade e que dá entrevistas e que fala, não sei quê, parece que a gente responde pela TV Pirata. Isso é até um equívoco do programa, que a gente vai procurar sanar para o ano que vem. Acho que agora a gente vai começar a ter algumas reuniões que a gente não teve, infelizmente, esse ano. Eu me bati muito por isso, consegui fazer algumas subversivas na minha casa. Convidava uns autores, umas pessoas para bater um papo sobre o programa, porque me dava a maior aflição a gente não conversar. Eu não sabia nem quem era que escrevia. Eu conhecia um cara do Planeta [Planeta Diário, tablóide de humor publicado entre 1984 e 1992]. E a imagem que a gente vendia era outra, de que aquilo que a gente estava dizendo era a gente que estava inventando, quando não era. Eu recebo um texto, vem o roteiro na sexta-feira, eu vou lá e gravo. Eu não sei nem quem escreveu, não vem nem escrito o nome do autor. Então eu não tenho nenhuma ligação com a criação. E acaba, muitas vezes, alguém te xingando na rua, porque fala “vocês sacanearam”, não sei o quê, alguma coisa, entendeu? Você nem sabe quem escreveu aquilo. Então, eu acho que isso é uma coisa que a TV Pirata, pelo elenco que tem, com a experiência e tal, podia contribuir muito mais, eu acho, se o elenco tivesse uma participação mais efetiva na criação. Isso eu sinto que é uma vontade de nós dez e que todos vão colocar meio como condição para o ano que vem, que é uma coisa que a gente quer e que tomara que aconteça. Mas, ainda assim, eu acho que a pressão externa, que poderia ter sido uma coisa que enfraquecesse o programa, acabou atenuando essas divergências internas da gente e acabou a gente virando realmente um grupo e ficando animado e até com... muito mais do que o normal. Ficando a favor da TV Pirata, que era tudo tão contra do lado de fora.

Maria Amélia Rocha Lopes: Regina, você diz que os humoristas da própria Globo falaram mal da TV Pirata antes mesmo dele estrear. Você percebe nesses humoristas ou nos programas que eles fazem algum sinal de TV Pirata? Vocês influenciando do lado de lá, que falou mal?

Regina Casé: É, eu estou em uma época difícil. Eu ensaiei muito tempo e agora estou em cartaz de noite e não tenho gravado os outros programas de humor. Então, eu já ouvi comentários. Alguém falando assim: eu vi uma cena do programa ou do Jô ou do Chico, não sei quê, que tinha outros tipos de linguagem ou que estava procurando isso. Eu já ouvi gente falar, mas não sei nem se é verdade, eu não assisti a isso, não. Não tenho visto nenhum desses programas. Eu não quero falar assim, né, porque sem ver é chato.

Paula Dipp: Regina, vou mudar completamente de assunto. Mas eu estou superimpressionada com a sua beleza. Eu quero falar um pouco da sua beleza. Você não tem uma beleza clássica, se a gente olhar para a Regina, a gente não vai dizer: “Ela não tem aquele narizinho, aquela boquinha”. Mas você tem uma coisa muito forte. Como é que você lidou com isso? Com a não-beleza e a beleza na sua adolescência? Quando você começou a ser atriz, quando você era pequenininha? Você tinha o dente um pouco para frente, o nariz assim um pouco assim ou assado? Como é que é isso pra você?

Regina Casé: Eu não era feia quando eu era pequena, nem no colégio, nem nada [risos]. Eu sempre arrumei namorado. Tive namorados maravilhosos e lindos. Até hoje, entendeu? Superlegal, nunca foi aquela infeliz que ninguém tira para dançar, nem que alguém acha feia ou no colégio. Eu só fiquei feia quando eu virei artista e, aí, eu não era a Bruna [Lombardi], não era a Maitê [Proença] e tal. Não tinha aquele olho azul, não era loura. Principalmente loura de olho azul, é o que complica mais, né? A não ser que você seja a Sônia Braga para superar o fato de você não ser loura de olho azul no Brasil.

Paula Dipp: Mas você é a musa, né, musa de Caetano [Veloso] e tudo?

Regina Casé: Aí acho que vêem outros lados, entendeu? Todo mundo me achava legal, eu também me achava legal, entendeu? Bonita, gostosa [risos]. Aí começou sair um monte de matéria assim: feiosa, magricela, dentuça. Aí vai saindo tanto, tanto, tanto, que todo mundo fica achando que você é assim, mas apesar disso, ela é tão engraçada, tão inteligente! [risos] Ela supera isso tudo e não sei o quê e tal. Aí, eu fiquei ocupando esse papel, porque não tinha muito outra... Não ia escrever cartas para os jornais: “Gente, vamos reparar, eu tenho um lado legal, tenho meu charme, no fundo eu sou sexy”! [risos] Não dava para eu fazer uma campanha para ficar bonita. Mas, quer dizer, eu também não era bonita quando eu era pequena, isso é verdade. Eu era muito magra, tinha aquele "joelho de biafra" que faz assim [une os joelhos]. Mas logo que eu cresci assim, fiquei adolescente, era legal. Não era bonita nem feia, era normal, entendeu? Mas acho que uma medida que você tem muito para isso, quando a pessoa é gordinha, ou quando é feinha, ou muito dentuça ou não sei quê, é coisa de namorado, né? E comigo era ótimo, eu sempre falava isso quando dava entrevista. Eu falava assim: “Puxa, mas eu tenho cada namorado tão bacana, o cara mais legal aqui do meu curso ou da minha rua ou do meu bairro ou do meu prédio e tal”. Eu falei: “Puxa, mas será que... Como eu consigo se eu sou feia?

Hamilton Vaz Pereira: Voltando ao Nardja Zulpério. A gente trouxe o espetáculo e a gente nem conversou muito depois do dia da estréia [risos].

Regina Casé: Não pintou uma oportunidade. O que você achou da peça?

Hamilton Vaz Pereira: E eu fico pensando assim: a gente tem dado sessões com a platéia lotada, não é? E a gente começa ouvir o que o público está achando do espetáculo. Qual é o momento, no espetáculo, que você gosta? Você fica uma hora e meia no palco, uma hora e quarenta. Qual é a hora, assim, que você sente que está reinando no palco? Ou a hora que você sente que a platéia.. você pegou de jeito a platéia, ou seja, um público que te conhece de televisão, indo assistir a Nardja Zulpério, qual o momento que você acha que é o grande lance do espetáculo?

Regina Casé: Eu sei logo. São alguns momentos semelhantes assim. Esse espetáculo tem para mim uma coisa que em outros espetáculos se esboçava, mas que nesse, assim, esse clima, que eu vou te dizer que é o que eu mais gosto, vem e se instaura e, quando ele se instaura, eu sinto uma felicidade, uma plenitude, uma coisa tão boa como atriz, me emociona. É assim, por exemplo, são momentos onde... eu acho muito careta, por ser comediante, você ter um momento sério, um momento dramático, um momento triste que você se emociona e você dá mais importância a ele do que ao teu momento de comédia, como se aquilo fosse uma coisa melhor. Sempre detestei isso em comediantes, eu sempre falava que achava muito chato no programa do Chico Anísio, no final ter um profeta ou não sei o quê. Esse tipo de linguagem em que você faz rir tem... Ou mesmo peças, eu via muitas comédias que tinham isso. Eu acho que o maior trunfo, que eu acho mais lindo no seu texto, na sua direção e no que eu estou conseguindo como atriz, é que tem muitos momentos, eu vou te citar alguns. No momento do limite, é um momento que ela está fazendo um jantar, que ela telefona para falar com você e que fico triste, triste, triste, me emociono, me emociono e aí vou dar o recado e vejo que as pessoas riem de eu ter contado aquilo tudo para a telefonista e depois ter que fazer um resumo. Quer dizer, é um momento onde todo o humor está presente. Eu sinto que eu estou sendo engraçada e ao mesmo tempo eu estou mais triste que eu possa estar, que as emoções são as mais diversas, as mais complexas e estão convivendo juntas, sem uma hierarquia de valores do que... “Ah! Que lindo, ela está triste, hein, gente, nesse momento”.

Ricardo Soares: A quem não pode assistir à peça, eu queria que você contasse o que é Nardja Zulpério.

Regina Casé: Esse momento eu sinto. É um grande momento. Só para responder a pergunta. Esse momento do limite, que eu sinto que ela é engraçada e ao mesmo tempo é triste e tem um outro que eu adoro. Quando o Eros vai embora também é um momento que eu gosto muito. Que ela vai procurar ele, tira a calcinha para ver onde ele está e fica andando por ali. Ali também eu acho que é bem engraçado e é bem triste igual, na mesma medida. Tem gente que eu olho na platéia e está fazendo assim: “Ai!” Outros dão umas gargalhadas e junto. Eu acho isso para mim o mais rico.

Ricardo Soares: Para não ficar um pouco no ar, essas cenas que você estava descrevendo, eu queria que você explicasse, fizesse um resuminho do que é Nardja Zulpério. O programa também não vai só para São Paulo, quem não pode ver, queria que você desse um resumo. A mulher que tem que cumprir quatro tarefas exaustivas num único dia, né? Então eu queria que você fizesse...

Regina Casé: Numa noite.

Ricardo Soares: Numa noite.

Regina Casé: Ela já teve um dia exaustivo e o espetáculo começa com ela entrando em casa, com a carga, com a bagagem desse dia que ela já viveu. Então ela mal tem tempo de desmanchar essa mala, que vem com essas coisas todas que ela viveu durante o dia, que foi foram difíceis e pesadas. Ela entra sobrecarregada. Então, ela está tirando as cinzas desse dia que está acabando, abrindo uma outra mala para começar se organizar e arrumar a bagagem para o dia que vai vir daqui a pouco, porque ela está chegando em casa de noite, tarde. Então, ela tem esse período de noite para fazer as necessidades básicas de quase sempre. Tomar banho, comer, dormir e, ao mesmo tempo, ela tem, entre outras tarefas miudinhas, quatro grandes tarefas. Uma é fazer a letra de uma música, outra é preparar um projeto do Zaratustra, um espetáculo para todos e para ninguém, que ela tem que entregar no dia seguinte, ela tem que ter na cabeça bem claro o mito do Eros e Psique, porque ela vai fazer um comercial no dia seguinte, vai tentar ser escolhida a garota Psique e ela tem que ser fluente e saber como é. E tem que bolar um show que ela vai fazer em Belo Horizonte, que ela prometeu há um mês atrás que ia pra inaugurar uma casa noturna de um amigo dela mineiro.

Ricardo Soares: Que chama? Se chama?

Regina Casé: Paquiderme Voador. Muito antes do Aeroanta, uma visão profética do Hamilton. Nem existia o Aeroanta e já existia o Paquiderme Voador. E ela não tem a menor idéia do que ela vai fazer. Aquelas coisas que você disse na secretária há um mês atrás que ia e vai chegando o dia, chegando o dia, chegando o dia! Chegou a hora e ela não tem a menor idéia do que ela vai fazer. Então o espetáculo é essa noite onde ela tem que preparar essas coisas, se livrar do que já aconteceu no outro dia e ao mesmo tempo partir para o outro dia com animação, apesar de tudo estar um pouco adverso.

Ricardo Soares: Regina, só um minutinho. Eu vou chamar um pequeno intervalo e a gente volta daqui a pouquinho.

[intervalo]

Ricardo Soares: Nós apresentamos o programa Roda Viva esta noite com a presença da atriz Regina Casé. Antes do intervalo o Guzik estava fazendo uma pergunta.

Alberto Guzik: Regina, como é que é fazer, de repente, um monólogo para você? Porque você sempre trabalhou com espetáculos com muita gente e você sempre participou de criações coletivas, de uma maneira muito intensa, e de repente você está, é você sozinha e o público. Como é que é isso?

Regina Casé: Eu estou adorando, achando maravilhoso. No ensaio tinha um lado assim, que dava uma apreensão que você... Qualquer espetáculo que você está ensaiando, quando você está trancada naquela sala ensaiando, você já acha que aquele assunto não interessa a ninguém, que aquilo não é nada, que você ficou maluco e tal. Eu já tenho essa tendência. Agora, só eu e o Hamilton ainda por cima, né, eu achei mais isso e, quando estreou, me deu uma sensação maravilhosa. Eu detestava em outros espetáculos, por exemplo, assim. Um dia, eu achava que estava lento e você fica querendo puxar o espetáculo, que ele vá depressa. Outro dia você está achando de um outro jeito e essa coisa assim. Tem um lado que é maravilhoso que é estar tudo na tua mão e você poder levar ele para um lado que você quiser, um espetáculo não manda tanto em você. Você manda nele também, isso é uma sensação que eu nunca tinha... Eu não sonhava fazer um monólogo, não planejei fazer um monólogo, fiz sem querer um solo, um espetáculo, um texto que o Hamilton tinha, que não necessariamente era para uma pessoa só, ele adaptou. Adorei, adorei essa sensação de você poder mexer. Cada dia tem sido um espetáculo inteiramente diferente para mim. Não é aquela maluquice de ator, você vai, a peça está igualzinha e ele fala completamente diferente, todo dia muda. Foram coisas internas que se processaram com ele. Não, muda mesmo, porque você sozinho muda mesmo. Tem horas que você passa... Tem dias que você passa por um assunto, assim... Outro dia, aquilo na hora vira a hora principal do espetáculo e esse lado é ótimo.

Alberto Guzik: E é assim com a platéia, muda muito no monólogo, né?

Regina Casé: Muito. Isso é maravilhoso, se eu soubesse, eu já tinha feito antes. Estou adorando. Agora, um lado que é ruim, eu estava dizendo, assim: parece que eu nem estreei por um lado. O Hamilton, eu e ele, a gente estava muito sobrecarregado de trabalho, tem entrevistas e coisas... e coisas dele, pessoais, em mente. Então, a gente quase não se vê nos horários fora de trabalho, não tem dado tempo. Então, como não tem um elenco, você sai e vai jantar com um amigo de outras áreas, pessoas que nem viram a peça e quando você está trabalhando com um elenco grande, todo dia você discute a peça, você vê aquela hora que não deu certo, aquilo não deu. “Por que você não faz assim?" Ninguém nunca me disse nada [risos]. A não ser vocês, críticos, os três que escreveram ou me disseram: “Adorei a sua peça” ou nada. Então eu estou muito ainda carente de ouvir, acho que eu devo estar até chata com os amigos, perguntando: “Mas o que você acha disso ou daquilo?" Porque não espraia uma coisa que em outras peças na estréia dá, que é diariamente você está conversando sobre aquilo. Isso... eu sinto uma falta do elenco para me dizer o que rolou.

Ricardo Soares: Deixa eu só... A Paula Dipp está na fila.

Paula Dipp: Ainda no Nardja Zulpério... Aliás, o Hamilton tem um talento único para inventar esses nomes meio absurdos que eu adoro. Qualquer semelhança é mera coincidência? Quer dizer, a história dessa mulher superocupada, que tem quatro coisas para fazer entre meia-noite e seis. A Regina Casé é uma pessoa muito ocupada que tem pouco tempo para a sua vida pessoal?

Regina Casé: Agora ela está que nem uma louca. Não é sempre. Eu luto muito e organizo a minha vida para que não seja assim e consigo. Às vezes, eu passo um tempão sem trabalhar ou trabalhando pouco, que é o meu ideal. Mas tem horas que você não consegue, ao mesmo tempo eu não podia ficar pro resto da vida só fazendo TV Pirata. Eu estava louca para fazer esse trabalho, estava morrendo de saudades do Hamilton. A gente começou a se encontrar e queria fazer alguma coisa. Aí eu vou fazer o quê? Vou esperar acabar a TV Pirata? Ele estava em São Paulo com o Ataliba. Luis também, o meu marido estava trabalhando aqui. Então isso acabou me trazendo para São Paulo e me colocou nessa Roda Viva [risos]. Não é sempre assim, eu não quero que seja, nem eu acho demais essa vida moderna. Acho ruim.

Ricardo Kotscho: Uma outra peça tua, Regina, Doce de leite, né? Você fez um personagem... eram vários personagens, mas um que eu me lembro bem era a Pentélia, né? Queria saber no que você se inspirou para fazer a Pentélia?

Regina Casé: Em quem que eu me inspirei? A gente conhecia bem aquele tipo na época, né? Só em debates assim, que a gente ia no Asdrúbal, não era, Hamilton? Tinha tanto aquelas garotas, bastante, assim, na universidade, a gente ia demais em debate ou divulgar a peça na universidade e sempre tinha uma daquelas que...

Ricardo Kotscho: Faz um pedacinho para lembrar.

Regina Casé: Ah, nem eu lembro disso, de dez isso, quantos anos... Só me lembro que ela era, assim, universitária.

Ricardo Soares: Me dá licença, um minutinho, vou fazer uma pergunta da Shirlei Mota, que é do Conservatório de Artes Dramáticas Emílio Fontana, que vai em cima também do que o Ricardo estava perguntando. Se você se identificou com algum personagem que você já tenha feito? Seja no teatro ou na televisão?

Regina Casé: Com todos. Você sempre acha uma coisa que é parecida. Mesmo quando... Por exemplo, eu já fiz um juiz, não é? [...?], inspetor geral, mesmo a Ana, [...?]. Quando a gente não trabalhava ainda com textos do Hamilton, porque aí era claro que é muito mais próximo e você vai identificando e achando assim. Essa identificação é tão tranqüila, que não é nem pelo caminho assim: “No fundo sou eu”. Eu não sinto que a Nardja, no fundo, sou eu, nem que é autobiográfico, nem nada. Mas eu acho que qualquer pessoa tem alguma coisa de qualquer personagem. É só você trabalhar. Você passa um tempo ensaiando, justamente para isso.

Celso Cury: Regina, você escolheu o Aeroanta para estrear, né? Era uma casa que foi se transformando em teatro aos poucos, que a gente, se conhece bem, sabe que tem alguns problemas como o Off tem. Que não tem um lugar para você se concentrar, que os atores sempre pedem um lugar. Como é essa sua concentração lá no Aeroanta, que eu sei mais ou menos como é?

Regina Casé: Meu camarim agora está um show, que a gente reformou com a ajuda do Cao, que foi maravilhoso o figurinista que, além de fazer um figurino lindo, me armou um camarim lá a pulso, que era uns escombros que tinha lá atrás e agora está um luxo. O dia da estréia, então, aquele mundão de flores que mandavam, era maravilhoso. Isso eu consegui, tenho uma casquinha de um ovo ali que eu me enfio e me concentro. Agora a montagem e a desmontagem para as pessoas que trabalham... estão loucas. Na época do ensaio então, teve momentos que eu achei que eu ia desistir. A sensação era que eu estava trabalhando na praça Castro Alves,que é do povo. Com todas as coisas, você chegava lá, tinha assim: chope, cerveja, lata, destroços da véspera.

Celso Cury: É legal explicar que tem banda, ensaia...

Regina Casé: Antes tem o sound check da banda que vai tocar depois, então monta a bateria, todos os microfones, tudo testa. Aí tira e põe o meu cenário que além de ser grande, é meticuloso. Tem coisinhas que não podem ser perdidas, uma canetinha, um papelzinho, e... monta aquilo tudo. Quando acabava a peça, desmonta tudo e vai ter o show de noite, tarde [...?]. Então no início foi uma loucura, agora a gente já está craque, está funcionando superbem. Por isso até o horário do espetáculo é às 8 da noite, para isso ficar mais tranqüilo. Mas eu acho que, de qualquer maneira, vale a pena, porque o espaço é lindo e eu não sei se este espetáculo em um outro espaço ficaria tão bonito como ele ficou. Uma das coisas que eu mais gosto neste espetáculo é o que o Hamilton fez junto com o Luís, de espaço. Por exemplo, eu trabalho no palco uma parte. A minha saída para a platéia dentro do roteiro, da estrutura da peça é muito bem feita pelo Hamilton, quer dizer, você vai botando o pezinho igual na água fria assim, até chegar na platéia, aí entra, entra, entra e começa a ver que aquelas vozes que você estava ouvindo, aqueles fantasmas estão existindo mesmo, o pessoal veio e está ali. E vai, vai, vai, até que o trabalho, a platéia toda, a arquibancada toda... tem um outro palco lá no meio da platéia e no alto. Uma posição diametralmente oposta de onde eu comecei, que é onde eu termino. Então eu acho lindo a coisa de espaço. E a arquitetura também é menos careta, porque o teatro é... chato isso, né. Fazem até teatros novos, mas sempre a arquitetura, eu acho que é muito tirana, né? Então isso acaba determinando o aproveitamento de espaço sempre muito parecido.

Celso Cury: E acaba enriquecendo o espetáculo? Você acha?

Regina Casé: Ah, com certeza. Eu acho que, com todo trabalho que dá no Aeroanta, o espaço muito bonito compensa, vale a pena.

Ricardo Soares: Mario Prata e depois a Maria Amélia. [Mario Prata ri e cede a vez para Maria Amélia, que agradece]

Maria Amélia Rocha Lopes: Eu queria que você me desse as suas preferências com relação a esses nomes que eu vou falar aqui: George [Herbert Walker] Bush [(1924-), eleito presidente dos Estados Unidos em 1988] ou Michael Dukakis [em 1988, era governador de Massachusetts e concorrente de George H. W. Bush na eleição à presidência dos Estados Unidos]? [risos]

Regina Casé: Nossa! Olha, eu vou te dizer: eu acho que americano tem um luxo, que é poder não votar [risos]. É que isso também pode... não sendo, quer dizer, anulando o voto. Mas lá, eu acho isso uma coisa realmente adiantada. Civilizada. Pelo que eu vi dos dois na televisão, eu não votaria.

Maria Amélia Rocha Lopes: Em nenhum deles? Robin Givens [em 1988, esposa de Mike Tison] ou Mike Tison [pugilista norte-americano]?

Regina Casé: Nenhum dos dois.

Maria Amélia Rocha Lopes: Quem que você acha que tem razão nessa briga?

Regina Casé: Eu acho horrível essa história. Eu acho tudo triste, não posso nem ver a fotografia deles no jornal, dá uma tristeza... Eu fico pensando: “Que vida ruim, que coisa triste aquelas pessoas!”. Eu acho horrível aquilo. Dá uma pena danada, eu tenho vontade de ter um programa na rádio, que eles me escrevessem uma carta e ficar confortando eles [risos].

Maria Amélia Rocha Lopes: Ben Johnson [atleta canadense que nas Olimpíadas de Seul, em 1988, venceu a corrida dos 100 metros rasos, mas foi pego no exame antidoping e teve que devolver a medalha de ouro]  ou Carl Lewis [atleta norte-americano que competiu com Ben Johnson, em Seul, pela medalha de ouro e acabou ficando com ela depois da desclassificação do canadense]?

Regina Casé: Ben Johnson ou Carl Lewis? Que engraçado, né? Você está perguntando várias coisas que realmente não me tocam. Em nada.

Maria Amélia Rocha Lopes: Sinto muito.

Regina Casé: Não! É, mas é interessante. Mesmo as coisas das Olimpíadas, eu até tenho vergonha em dizer: eu não sou muito ligada em esporte. Assim, não fico empolgada, porque para mim foi ruim... as Olimpíadas que foram logo antes da minha estréia, então eu chegava exausta, ligava e ainda estava aquela gente se matando, suando, correndo! Eu dei graças a Deus quando acabou. Era uma canseira e aquela luta, aquela coisa, aquelas veias, aqueles músculos. Aquilo me fez um mal assim, antes da estréia.

Maria Amélia Rocha Lopes: Que parte do jornal você lê?

Regina Casé: [respondendo ainda a pergunta anterior] Aí aquela época foi uma loucura.

Maria Amélia Rocha Lopes: Que parte do jornal você lê, Regina?

Regina Casé: Quer dizer, eu começo pelo caderno Ilustrada ou o Caderno 2, Caderno B, [suplementos culturais de jornais], mas em geral leio bastante.

Maria Amélia Rocha Lopes: Sonolenta, assim?

Regina Casé: Eu leio. Todo mundo morre de rir. Eu leio o obituário diariamente, leio quase todas as páginas. Não todo dia tudo. Eu meio que vou fazendo um revezamento, até esportes eu leio. Ontem eu li, as meninas do body boarding, a Mariana e a outra. Lindas, aquele esporte eu acho maravilhoso, quando é assim ao ar livre, tem mar e tudo, eu adoro. Eu não gosto quando é aquela coisa muito sacrificada, que a pessoa se mata para aquilo assim. Aquela idéia olímpica eu não gosto muito, não me anima aquilo. E quando é um lugar fechado, com muito suor, vestiário. Não sou muito para esse lado assim, mas assim: ginástica olímpica, essas meninas do body boarding, eu acho muito maravilhoso. Aí eu li tudo, a vida delas, a página inteira dos esportes. Então, assim, boxe eu não gosto muito. O Ben Johnson, antes mesmo de saber o negócio, eu já achava que ele estava muito assim, cansado, entendeu? Aquilo ali me dava uma certa aflição. Eu não achava que ele era muito feliz, parece o Mike Tyson também. Você vê agora já disseram que ele tirou um revólver, acho que nem tirou. É no Canadá, eles devem ser racistas, também tem muito preconceitos com esse negócio dele ter tomado esse anabolizante e o Canadá é muito racista, um negão daquele tamanho [risos], eles devem ter ficado grilados. Eu achei toda essa história careta e se é certo... Não me animei muito com essa Olimpíada.

Celso Cury: Regina, você tem ídolo?

Regina Casé: Ídolos, eu tenho muitos. E vão variando, assim, toda hora. Parece como... por exemplo, ontem eu vi essa menininha que foi campeã de body boarding. Eu a acho maravilhosa, mas na semana que vem já não é ela mais [risos], entendeu? Quando eu vejo alguém legal, já fico achando legal e corto a figura e acho bom, mas também não precisa ser aquele ídolo de pedra.

Ricardo Soares: Regina, aproveitando a pergunta do Celsinho, eu queria que você dissesse o seguinte: essa tua comentada relação de amizade com Caetano Veloso, que rendeu até duas músicas em sua homenagem... Queria saber como é que começou? Como é que vocês se conheceram? Como é que começou essa relação de amizade, respeito mútuo, de musa da música de Caetano? A Paula comentou aqui, no começo, eu queria que você contasse essa história.

Regina Casé: Foi mais um presente que o meu trabalho me deu. Eu estava trabalhando e ele foi assistir ao Trate-me Leão, gostou muito, foi conversar com a gente no camarim, e daí a gente foi jantar e ficou amigo. Logo assim, mas acho que foi muito pelo trabalho. Se não fosse o trabalho, talvez no Rio a gente viesse a ser amigo. Mas, o que precipitou... e isso criou uma amizade já com muita qualidade assim, legal, que não é aquela amizade que você vai encontrando no bar.

Ricardo Soares: Você via ele como ídolo antes da amizade, pelo Celsinho estar perguntando isso?

Regina Casé: Vejo até hoje.

Ricardo Soares: Então, é um dos teus ídolos, né?

Regina Casé: Com certeza!

Ricardo Soares: Tem algum outro?

Regina Casé: O Hamilton eu vejo todo dia e é meu ídolo. O Caetano é meu ídolo. Não é porque você é amigo que você deixa de admirar ou mesmo...

Ricardo Kotscho: Regina, quem que você levaria para uma ilha deserta? Quem que você não levaria de jeito nenhum?

Regina Casé: Primeiro, eu odiaria ir para uma ilha deserta [risos], eu ia fazer o possível para não ir para uma ilha deserta. Eu ia tentar levar o máximo de pessoas possível.

Ricardo Kotscho: Mas se pudesse levar só uma pessoa, quem que você levaria?

Regina Casé: Ah, o Luís, né? Claro!

Ricardo Kotscho: Quem que você não levaria de jeito nenhum?

Regina Casé: Quem eu não levaria de jeito nenhum?

Ricardo Kotscho: Luís Zerbini, o seu marido, artista plástico, você levaria.

Regina Casé: Isso, todo mundo. O pessoal do Oiapoque ao Chuí, Luís Zerbini, meu marido, imagina se eu iria para uma ilha deserta e ia deixar ele aqui, aquela maravilha.

Hamilton Vaz Pereira: Uma pergunta. Depois de quatro anos em que você não fazia teatro, voltou e fazendo... a gente trabalhando juntos outra vez. Em vários momentos eu fiquei pensando quem seriam as outras pessoas com quem você gostaria de trabalhar no teatro? Ou seja, digamos que estivesse fazendo uma outra coisa em algum outro lugar, quem seria um autor, diretor, um ator, um produtor, enfim? Qual é uma turma que você ainda não trabalhou, em teatro também, pode ser fora do teatro também. Mas em teatro, digamos? Qual seria uma turma boa?

Regina Casé: Por isso que eu demoro tanto para trabalhar. Porque não que eu acho que não tenha gente legal, mas é difícil de você armar isso. Eu vou te dizer: queria trabalhar com o Luís [Fernando]. Ah, com gente que eu nunca trabalhei, você está dizendo? Porque o Luís Fernando... [Guimarães, ator brasileiro] Mas assim, o Luís Fernando, eu morro de pena de não ter conseguido fazer um espetáculo, eu e ele, como a gente queria fazer. Porque ele está sempre fazendo alguma coisa, eu estou fazendo outra, não sei quê. A gente mesmo demorou a conseguir. Imagina, então, com essas outras pessoas. O ano passado eu tentei a Debbie, a Débora Bloch, atriz, 24 anos, signo de gêmeos. Ela queria que eu a dirigisse, você lembra. E aí a gente leu, leu, leu, até que um dia descobriu uma peça que gostou, mas aí teve problemas lá do elenco, que um queria a peça, o outro não queria a peça, não sei quê, acabou não saindo a peça.

Hamilton Vaz Pereira: E você ia dirigir?

Regina Casé: É. Ela me chamou para dirigir e eu fiquei muito animada de trabalhar com aquelas pessoas. Eu tenho mais, assim, atores que eu tenho vontade de trabalhar. Adoraria ter autores e diretores, muitos, que eu tivesse vontade...

Hamilton Vaz Pereira: E como é que seria você dirigindo?

Regina Casé: Não sei. Nunca dirigi, nem era um sonho dourado. Igual como é fazer um monólogo. Mas, naquela época, eu também estava muito a fim de trabalhar e o que pintou foi aquilo, e eu fale: “Puxa, é uma boa idéia eu dirigir”. Sabe que eu acho que agora eu já dirigiria legal? Eu acho, eu sinto. Eu não ia dirigir legal igual a você, assim, porque eu acho... É verdade, você tem uma visão de espaço e de coisas e tal, que eu ia ainda tatear. Mas assim, para dirigir ator, eu acho que ia ser superlegal, para outras coisas menos. Mas se eu dirigisse um, dois espetáculos, talvez eu engrenasse. Acho que eu ia gostar, tenho vontade de dirigir.

Mario Prata: Regina, escalando aí no Hamilton. Escrever, você não pensa?

Regina Casé: Eu penso isso tudo e acho uma pobreza a gente não fazer o que a gente pensa.

Mario Prata: Porque eu acho que você deveria escrever.

Regina Casé: Mas não dá tempo, não sei por quê. Eu penso à beça, mas não dá tempo, não é frescura. É muito difícil abrir um tempo na tua vida para uma outra coisa, a não ser que surja um compromisso de fora, uma coisa boba, isso, de você não se impor, não se disciplinar. Não tenho disciplina nenhuma, isso é um defeito gravíssimo.

Ricardo Soares: Você tem um papel sério que você gostaria de fazer? Um drama, Regina? Personagem clássico?

Regina Casé: Eu não tenho aquelas assim: meu sonho é fazer essa e tal. Mas adoraria fazer.

Ricardo Soares: Blanche Dubois [personagem feminina principal do clássico drama Um bonde chamado desejo, 1953]?

Regina Casé: Não! Blanche Dubois, não! Mas eu gostaria muito de fazer personagens sérios e dramáticos. Um realmente sério e dramático. E a vantagem de fazer um clássico é que todo mundo já ia saber que realmente era sério. Não dá trabalho nenhum na divulgação, né? Se eu fizesse a Lady Macbeth [personagem da peça Macbeth, de William Shakespeare, que não hesita em tomar ou promover as piores ações, como assassinatos, para que seu marido se torne rei da Escócia], por exemplo, era um prato cheio, né? Já vem divulgado, o pessoal já sabe o que é, não discute o texto, nem nada. Isso é ótimo. Adoraria, por exemplo, a Lady Macbeth, a gente quase fez, né? [alguns falam ao mesmo tempo. “Aquelas mulheres, aquelas bruxas todas, isso foi um sarro”, diz Mario Prata] Eu fiz e fazia super a sério, eles morriam de rir. Eu pensava bem na Lady Macbeth, eu era bem má. Eles riram à beça, mas eu adorei fazer. Na época a gente ficou votando, lembra Hamilton, no Asdrúbal? [Hamilton confirma]. Ficou empatado até o último momento se a gente ia montar o Burro ou o Macbeth, isso em 1975.

Ricardo Soares: Você participou de assembléias para decidir tudo?

Regina Casé: Reuniões, né? Fazia reunião todo tempo.

Mario Prata: Vou fazer uma pergunta que eu sempre quis fazer, mas eu nunca tive coragem. 

Regina Casé: Sobre sexo? [risos]

Mario Prata: Quem é que inventou e por que esse nome maravilhoso Asdrúbal trouxe o trombone?

Regina Casé: A história não vale a pena, isso é menor que o nome. O nome é mais legal. É verdade, a história não é... O meu pai, ele falava várias coisas. Não só, quer dizer, ele tinha uma linguagem assim, que a gente brincava e ficava falando. Tipo assim: “a mousse da mãe da Alice”, “o fenefu de [...?]”, “o tupi de [...?]” são várias coisas que...

Mario Prata: Mas ele falava isso para nomes de ...

Regina Casé: Para situações... é meio difícil de explicar. É como um código. Você está em um lugar e está chato, ele dizia: "vem cá, o Asdrúbal trouxe o trombone? Vamos lá ver o negócio lá na porta?" Saía porque estava chato. Mas não era só para isso, para outras coisas. "E aí, o Asdrúbal trouxe o trombone!" A gente falava: oba! Entendeu? Era uma coisa que, assim, pode valer para várias situações. Mas não fui eu que lembrei. Para você ter uma idéia, sempre quem gosta de nomes novos, exóticos é o Hamilton. Por exemplo, da mesma maneira que, no Ataliba, era o porteiro dele que o Zulpério cola, lambe, lambe, lá no Rio, é o cara que cola, lambe, lambe, são várias coisas assim que ele vai ouvindo e vai guardando. Tinha uma amiga da minha mãe, que eu não via há 20 anos, da época da Farra da terra, chamada Morocha. O dia que ele me entregou o texto da Farra da terra, tinha um personagem que eu fazia que se chamava Morocha. Nem eu lembrava da mulher, o Hamilton guardou 20 anos aquela Morocha para lançar na farra, e esse Asdrúbal eu também não propus como nome nem ninguém, apesar de ter vindo do meu pai. A gente já tinha tentado vários nomes e tudo. O Hamilton, de repente, ele que guardou esse nome do meu pai, que propôs, não fui nem eu.

Paula Dipp: Regina, nessa falta de tempo toda, cabe um filho na sua vida?

Regina Casé: Vamos ver se cabe, né? Se ele abrir espaço e inventar. Eu acho que, se eu ficasse grávida, eu teria um filho, mas não planejo ter um filho, nem vou deixar de evitar para ter um filho, assim, pelo menos por enquanto, não tenho vontade agora. Acho que vai ser difícil, para ele vai ser pior a ponte aérea [risos].

Ricardo Kotscho: Você se sente uma pessoa que deu certo em um país que não deu?

Regina Casé: Ah! Eu também não sou tão assim, né? Oposição para o Brasil, não é tão assim. Não sei, eu não me sinto assim.

Ricardo Kotscho: Eu digo em relação ao mundo que você vive, ao país que você vive.

Regina Casé: Isso é chato. É chato até quando você está feliz. Eu tenho uma... Eu acho que uma coisa que o Asdrúbal me ensinou, o compromisso com a felicidade assim, que é uma coisa muito boa que a gente aprendeu, entendeu? Terminava o Trate-me Leão e falava... Eu não agüento ficar muito tempo infeliz. Eu choro sem parar, entendeu, até eu conseguir consertar o que está me fazendo infeliz ou quem estiver infeliz. Quando a gente estava ensaiando, o Hamilton reclamava isso à beça, né? Falava assim: “Nossa, tá chorando muito e tal”. Se ficar ruim, eu fico chorando, chorando, igual a bebê, entendeu? Até alguém trocar a minha fralda ou eu mesma resolver a situação. Mas eu não agüento ficar ruim. Nem dois dias, nem três dias. Se tem uma coisa ali que eu não estou achando boa, eu vou, vou, até... E é horrível você não poder fazer isso com o Brasil, com a miséria, com a situação política. É uma situação muito ruim para quem tem um compromisso desse individualmente. Por mais que você tente fazer isso socialmente, ter uma coisa legal com todo mundo, e no teu cotidiano tentar passar isso, da maneira mais social e abrangente possível, ainda assim, eu acho que é muito ruim. É a coisa que eu te falei da estréia. É chato, né? Quando você está muito feliz e você olha em volta e ninguém está.

Maria Amélia Rocha Lopes: Regina, você acha que a nova Constituição [promulgada em 5 de outubro de 1988] pode mudar alguma coisa?

Regina Casé: Um pouquinho pode. Eu acho muito chato, também, você não ter esperança nenhuma com a nova Constituição. Acho uma injustiça com aquela gente que trabalhou mais que a Nardja, entendeu? [risos] Também tinha uma pena horrível deles, achava aquilo horrível. Ainda tinha uns velhinhos, né? Porque a vida deles devia estar um suplício, tão sofrida [vários falam e riem ao mesmo tempo]. Tomando café, virando a noite, aquela papelada. Eu falava: “Meu Deus, ainda bem que eu não estou ali”. Tem algumas profissões, algumas coisas que eu olho, que eu falo: “Ainda bem que não sou isso, que eu não estou ali”. Essa era uma delas, não ser constituinte, acho que já era um refresco, e foi puxado. Então eu acho muito injusto, por mais que... Eu não estou animadona, também não sou louca. Tem muita gente careta. Você vê que várias coisas que podiam ter sido mais... Não digo nem revolucionárias, maravilhosas, coisas que davam para ser modernas, no sentido, assim, liberal. Que todo dia tinha uma coisa que atravancava, quando dava para você acompanhar pela televisão, então eu não li, não acompanhei, eu não sou uma expert na constituinte. Mas as coisas que você ia vendo... A reforma agrária, entendeu? A presença da UDR [União Democrática Ruralista], as coisas que iam aparecendo no decorrer da Assembléia Constituinte. Muitas coisas... Mais uma vez fazendo assim: “Ah! Ah!” [como se estivesse se lamentando] Mas ao mesmo tempo, tem coisas importantes, entendeu? Do ponto de vista da ecologia, eu acho que aconteceram coisas legais, importantes e modernas.

Celso Cury: Na censura você acha que...

Regina Casé: [respondendo ainda a pergunta anterior] Também não acho que você deve ficar desesperançada total e nem animadona.

Celso Cury: Você acha que houve algum impacto em relação à censura nessa Constituinte ou não vai mudar nada?

Regina Casé: Eu não sei. O que eles resolveram? Diz para mim.

Celso Cury: Acabou a censura.

Regina Casé: Ah, bom! Mas isso já acabou faz tempo e a gente ainda faz espetáculo para a censura. A censura corta a TV Pirata toda semana. [alguém começa a falar ao mesmo tempo que Regina] A TV Pirata tá cortadérrima. Eu já gravei um monte de quadro e não foi pro ar.

Mario Prata: Regina, falou-se aqui de mais um ano de Sarney. Agora, depois de Sarney, virá ou Jânio ou Brizola ou Ulysses ou Sílvio Santos.

Regina Casé: É mesmo? Só isso? [risos] Que pobreza! Tinha que ter uma opção mais...

Mario Prata: Se forem esses quatro, você vota em quem?

Regina Casé: Não! Não vão ser só esses quatro. Deus é mais. Tem que ter mais.

Ricardo Kotscho: Mas você tem vontade de votar em quem? Quem que você gostaria de votar, numa boa, com vontade?

Regina Casé: Quem eu gostaria de votar numa boa? Não tem... Isso é que é chato. Se tivesse essa pessoa, eu estava, que nem uma louca, fazendo campanha. Se tivesse já uma pessoa, acho que pode ter pessoas... que você se anime mais um pouco, entendeu? É claro que é completamente... Não vou te dizer “todos são iguais”. O Jânio para mim não é igual. Se, por exemplo entrasse o Fernando Henrique, ou mesmo o Mário Covas, não é igual. É claro que um é muito mais legal e o não outro é. Mas eu também... apesar de que, se tivesse, por exemplo, o Fernando Henrique Cardoso, eu votaria nele. Mas não ia votar, assim, como uma louca, animada, fazendo campanha desde hoje para tentar colocar ele lá, você tá entendendo? Eu não sinto uma pessoa assim, que pode ser até que já exista, mas que a gente não saiba, por desinformação, ou porque a pessoa ainda não quis, ou porque não se...

Ricardo Soares: Em quem você votou nessas eleições, nessas últimas do Rio de Janeiro para governador?

Regina Casé: Eu não votei. Eu estava aqui. Mas deixa eu lembrar quem era pra dizer...

Ricardo Soares: Moreira, Darcy Ribeiro, [Fernando] Gabeira...

Regina Casé: Ah, não! Eu votei, fui para o Rio votar. Não votei na seguinte, que era o [Roberto] Saturnino [Braga], que eu votaria no Saturnino. Mas não votei porque estava aqui em São Paulo. Votei no Gabeira.

Paula Dipp: Você falou que Deus é mais que isso. O que é Deus para você? Você é uma pessoa religiosa, espiritualista? Você tem um lado assim de...

Regina Casé: Eu tenho um lado, não, eu tenho um todo. Eu não tenho nenhuma religião, não. Mas é... Como todos os outros, as outras coisas, né, que permeiam a vida da gente, eu tive contato com várias religiões, principalmente com a religião católica, muito grande. Estudei 11 anos em um colégio de freira, que era o Sacré Coeur de Marie. Então, por exemplo, é impossível eu não ter uma relação com a Nossa Senhora, eu não sou louca, passei 11 anos convivendo com ela. Claro que eu tenho, eu acho ela maravilhosa. É impossível não ter, eu acho que seria muito mais religioso, fervoroso e fanático se eu negasse Nossa Senhora na minha vida. Então, eu tenho... não só com ela, mas com uma porção de símbolos religiosos e com outras coisas, independente de Deus. Até com coisas... isso que eu estou te dizendo, é porque eu tenho uma idéia de Deus, eu sou mística, eu sou... Tenho uma religiosidade presente em cada ato meu, o tempo todo.

Mario Prata:  Mas a culpa, já limpou a culpa, ou ainda tem culpa?

Regina Casé: Do quê? Do colégio?

Mario Prata: Aquela culpa que põem na cabeça da gente os padres, as freiras, aquelas coisas chamadas pecado.

Regina Casé: É, eu não cultivo muito aquilo que todo mundo reclama do colégio, assim, culpa dessas, assim, que atrapalham pra você namorar, essas coisas já acho que, graças a Deus, eu não tive. Mas essa culpa, por exemplo, assim, de você estar feliz e de alguém estar infeliz, a tua relação com a pobreza e com as outras coisas do mundo... quem está pior que você, essa culpa ainda existe um pouco. Eu acho que eu lido bem, para quem estudou 11 anos em um colégio de freira, mas sempre tem...

Ricardo Kotscho: Você já era assim nesse tempo, no tempo do colégio de freira? [outro entrevistador fala ao mesmo tempo: “Era da turma do fundão da classe, assim?]

Regina Casé: Eu era, é engraçado. Eu tenho essa sensação. O Hamilton me conhece há muito tempo. Você não acha que eu sou igual quando você me conheceu?

Hamilton Vaz Pereira: Bastante igual.

Regina Casé: Eu também acho que eu sou igual desde que eu nasci. Eu nunca desbundei, nunca tive uma virada, é estranho.

Hamilton Vaz Pereira: A Regina sempre teve uma coisa interessante, que é: ela sabe chamar a atenção e quando você presta atenção ela corresponde [risos e falas simultâneas].

Paula Dipp: Vamos falar de sexo, já que você puxou o assunto um tempinho atrás.

Regina Casé: Queria depois, antes de acabar, só dar um tempinho, aproveitar que ele é crítico e que ele escreveu uma crítica. Hoje eu queria falar um pouquinho sobre isso. Porque hoje eu pensei muito nisso, por causa da crítica dele. Só para dar tempo.

Paula Dipp: Então fala, fala antes. Quer falar antes?

Regina Casé: Não, era por esse assunto, porque a gente nunca encontra... Eu o conheci hoje. O Alberto eu não conhecia, primeiro eu li no jornal a crítica dele...

Paula Dipp: Então está respondida a questão sobre sexo...[risos]

Ricardo Soares: Fala da crítica, depois você responde a pergunta da Paula.

Regina Casé: Não! Eu queria conversar, eu queria propor a vocês, vocês podem fazer perguntas, né [risos]? Eu queria conversar sobre isso, porque hoje eu senti uma diferença na crítica dele, é a terceira crítica que a gente recebe aqui em São Paulo. Eu estou muito mais carente de críticas do que em outros espetáculos. Por isso que eu te falei, por ser um monólogo. Então, eu estou louca para que alguém me diga o que é aquilo, como é que está e tal. E esse espetáculo, para mim e o Hamilton, a feitura dele, você viu, como eu estava falando antes... A gente se lascou, a gente brigava o dia inteiro, entendeu? E chorava e dava risada. Era uma coisa muito emocional mesmo, de você ensaiar com o coração na mão, de todos os dias parecer que vai acabar tudo e com todos esses lados de todos esses assuntos, entendeu? A religião, então eu era a supercrédula, o Hamilton cético, fazendo esses papéis, assim, que não é... é claro que ele não é doido de ser totalmente sério, nem eu sou uma bobona. Mas é eu ser uma mulher, ele ser um homem, tudo. A gente lidou com opostos muito básicos e muitos fortes e que daí saía muita fagulha.

Paula Dipp: Vocês já foram namorados, não foram?

Regina Casé: A gente foi casado um tempão, mas muitos anos atrás.

Paula Dipp: Eu acho superbonito, essa coisa que você mantém com seus homens assim. Você mantém uma amizade muito forte, isso não é fácil.

Regina Casé: Com os meus amigos, minhas amigas mulheres também [sendo interrompida].

Regina Casé: É. Porque é mais difícil que uma mulher se dar bem com os homens... é com as mulheres.

Paula Dipp: Nem diga! [risos]

Regina Casé: Mas eu me dou. Eu sou muito orgulhosa desse meu lado, das minhas amizades. Eu, como dizia a Dalva de Oliveira [famosa cantora brasileira, eleita a “Rainha do Rádio” em 1951]: “eu me dedico” [risos].

Maria Amélia Rocha Lopes: Você reage bem à crítica negativa? 

Regina Casé: Não. [risos] Eu reajo mal, mas não me descabelo, assim, nesse sentido. Fico danada. Principalmente... agora, não é comigo, porque eu tenho uma sorte danada, eu sempre digo que o papel que eu ocupo é superfácil, que a prima-donna é a diva, aí se você for uma atriz legal, pelo menos razoável, ocupando esse papel da estrela da coisa, é um papel muito fácil. De ser elogiada, de ser criticada, de... Entendeu?   A não ser que você pise muito na bola, ninguém vai falar mal de você, especificamente do seu trabalho. Mas em relação aos espetáculos que eu fiz, o que era falado do espetáculo, eu sofria barbaramente e nunca soube como lidar e queria poder lidar melhor com isso, né?

Maria Amélia Rocha Lopes: Você já teve ímpetos assim de invadir uma redação e matar o ...

Regina Casé: Principalmente porque eu acho que... é isso que eu queria falar. Eu acho que... Eu adoro quando eu estou em uma situação boa, eu aproveito, assim, acabo de ganhar um prêmio, ou se tem uma crítica positiva, aí eu falo: “Agora que é uma boa de se falar da crítica”. Aí, você vê que você não está com dor de cotovelo, nem nada. Mas não é nem falar mal, é assim, por exemplo, hoje eu estava dizendo para o Mario... Vou aproveitar que está no ar para dizer. Tem uma crítica aqui, em São Paulo, que eu gosto muito, que se chama Mariângela e que eu conheci, ela fez duas críticas aos dois espetáculos. Uma foi o Doce deleite, quando eu fiz, que ela falava mal e eu adorei a crítica dela. Você vê como não foi negativa. Ela escreve muito bem, eu não a conheci. Eu a vi uma vez pessoalmente, fiquei encantada. Achei o jeito dela escrever legal, as coisas que eu tinha grilo com o espetáculo, de vez em quando, é claro que você fala: “Que pena que ela não adorou ou que todo mundo não está adorando”, entendeu? Mas tudo que ela dizia de ruim eram coisas que estavam me tocando e que eu questionava. Então, eu adorei, apesar dela falar mal. Depois na Farra da terra, que foi um espetáculo que foi massacrado pela crítica, ela falou muito bem e falou coisas maravilhosas. Por exemplo, coisas que a gente só intuía da relação com a platéia, então, para a gente que se descabela, eu acho que, independente de elogiosa ou não, escrever bem ou não, é que eu cada espetáculo tem que ter um tipo de crítica. Quando a gente trabalha o espetáculo comercial, você vai estrear no teatro Mesbla, ensaiou 15 dias e não sei o quê... O quiproquó do cacacá, sei lá o quê... Aí vai estrear aquela peça X. A maneira com que as pessoas se envolveram com aquilo permite você ter uma relação muito fria, com aquilo de escrever, o cenário é fraquinho, o sofá não combinou com a estante, achei as marcas pouco criativas, levantaram para pegar uísque três vezes, sentaram quatro vezes, e tal... Não desmerecendo esse tipo de espetáculo, você pode fazer um espetáculo assim, muito bem. Mas a maneira que você se envolveu é diferente. Eu fiquei contente muito com a sua crítica hoje [dirige-se a Guzik], porque eu senti emoção na crítica, senti que ela é uma crítica emocionada. Então eu acho que, para um espetáculo que é muito emocionado, que a pessoa está em cena, superemocionada, que você vê, que você supõe o processo, um processo emocionado, que você se lascou muito e tirou o coro para fazer, mesmo que você fale mal, eu acho que tem que passar uma emoção maior. Eu acho que a crítica tem que corresponder ao que você está trazendo para um espetáculo.

Ricardo Soares: Você acha que, em geral, ela é rancorosa, a crítica de teatro?

Regina Casé: Eu acho que às vezes é muito fria, eu acho que ela é muito parecida entre os espetáculos. Isso é o que eu acho mais grave. Eu acho que você não pode criticar um espetáculo qualquer do Hamilton como você critica um espetáculo desses montados assim, 15 dias para estrear num teatro e tal... É diferente a maneira que você faz. Até outros espetáculos, que não são comerciais, mas que são muito diferentes do dele. Eu acho que a maneira de escrever. Não é que você tem que ser mais complacente ou ver que ele teve muitas dificuldades, então tem que ser bonzinho com ele, de jeito nenhum.

Mario Prata: São coisas diferentes que exigem abordagens diferentes.

Regina Casé: Diferentes. Eu acho muito chato quando você lê, abre a crítica, fala um pouquinho do texto, aí dá uma pincelada na direção, destaca os protagonistas ou alguma revelação ou um ator que está num papel menor, você dá uma destacada, vale a pena conferir fulano de tal na gozadíssima empregada. Uma frase assim para ajudar alguém que está começando ganhar um prêmio de revelação.

Alberto Guzik: São fórmulas meio prontas mesmo, claro...

Regina Casé: É uma fórmula. Eu posso dizer de olhos fechados o que... [sendo interrompida]

Ricardo Kotscho: Se você ficar desempregada, pode ser crítica de teatro [risos].

Regina Casé: Claro! Pra criticar a peça do Hamilton, então, eu... É uma maravilha. A gente passou dez anos em que todas as críticas da gente abriam dizendo que a gente tava falando do umbigo. Mas foram dez anos. Podia ser o jornal que fosse, a revista que fosse, era tudo que estava olhando para o umbigo, que o negócio era o umbigo, uma coisa esse negócio do umbigo. E eram iguais as críticas nesse sentido. Depois eu comecei a sentir uma coisa mais legal. Eu acho, por exemplo, as outras críticas que a gente teve aqui, muito boas, estão elogiando o espetáculo e me elogiando. Mas hoje eu fiquei mais animada com a do Alberto, pelo seguinte: porque eu senti mais emoção, eu estava sentindo falta disso.

Ricardo Soares: Caso raro de amor à primeira vista entre uma atriz e um crítico, hein?

Regina Casé: Não, não é isso. Eu já me apaixonei pela Mariângela, sem conhecer. Até foi bem essa sensação, eu falei: “Nossa, ela reparou isso?" Até ia reclamar que ela não escreveu, teve um outro crítico. Eu ia fazer um apelo no ar: “Faz uma criticazinha no nosso espetáculo”.

Alberto Guzik: E o sexo? [vários falam ao mesmo tempo]

Paula Dipp:  Eu acho que sexo é uma coisa que está na vida da gente, a forma como a gente trabalha, como a gente fala. Está tudo... É que não se fala muito do assunto. Talvez nem precisasse falar, mas como você tocou rapidinho nisso, eu acho engraçado. Você é uma pessoa muito espontânea, muito satisfeita com o seu corpo, com sua figura, com a sua pessoa, como mulher. Como é que você vê?

Regina Casé: [falando ao mesmo tempo que Paula Dipp] Ela é bárbara. Eu estou reclamando tanto de mim.

Paula Dipp:  Parece... Eu estou falando do que eu estou vendo aqui. Como é que você está vendo isso hoje? Quer dizer, a gente viveu um tempo, nós somos da mesma geração praticamente, a gente viveu aquela liberdade, vamos experimentar tudo, vamos... E hoje a coisa não está mais assim, tem uma certa repressão.

Regina Casé: O mundo não está fácil. A gente fala do Brasil. O Brasil está com dificuldades tremendas, está tristíssimo, está terrível, mas o mundo também. A gente está vivendo uma época e é assim. Você pega a história da humanidade e tem épocas que são... A gente está nas trevas, eu não tenho dúvidas, a gente está em uma época difícil. Vai passando um livro de história, tem assim a cólera, as trevas! A gente está em uma daquelas páginas difíceis, eu sinto que está. Eu vejo tristeza, eu acho que há projetos individuais, mas a gente não está encontrando sopa por aí, né? Agora, ao mesmo tempo tem um monte de coisas animadoras e...

Ricardo Soares: Você acha que isso passa, então?

Regina Casé: Eu sinto. Tenho sentido em muitas pessoas. Por exemplo, você estava citando o Caetano. Eu tenho conversado com ele sobre isso e sinto que ele fala também a mesma coisa. Fala assim: “Nossa, que época difícil, assim, está uma época diferente, né?" A gente se compara  e compara os amigos, isso de mudar, como as pessoas estão diferentes ou como as coisas estão mais difíceis de serem realizadas e a coisa do sexo está nessa, horrível. A coisa da Aids, que é tristíssimo você viver numa época que você assiste a isso, somente depois dessa liberação. Depois a coisa toda afetiva que... eu acho que o sexo é uma coisa, o amor é outra, junto, assim e tal. E que acaba  empurrando uma coisa, misturando, e com essa coisa da Aids confundiu por um outro lado, né, a coisa do casamento, a coisa das separações, eu tenho conversado à beça sobre isso e fico tristíssima. Eu vejo muitas mulheres de meia idade, por exemplo, que é a coisa do sexo, que eu acho triste que a gente está vendo... Mulheres de meia idade que não conseguem namorar e não vão conseguir namorado. A coisa toda da separação, a liberalidade que veio de você poder se separar, parecia que era ótimo, que você estava ganhando a tua liberdade com aquilo. Então, todas as mães e todo mundo se separando e depois elas ficaram sozinhas e agora tem muitas que estão sozinhas e que é uma dificuldade. Você pode eventualmente conseguir um namorado, um garotão, e não sei quê e tal, mas um homem maduro, da tua idade, para te acompanhar e ser teu companheiro sexualmente, intelectualmente, na velhice, que eu acho que deve ser uma hora boa de você estar casado e estar com alguém do lado. Então, você investiu à beça nisso, essa liberalidade acho que fez as pessoas se separarem atabalhoadamente. Acho a educação afetiva, amorosa, sentimental da gente muito pior do que a sexual. Eu acho que atualmente até a revista Nova, qualquer revista, dá uma base mínima de como você deve proceder sexualmente. Se a tua mãe não disse nada, ninguém disse nada, você é uma pessoa muito tímida... Eu acho que tem jeito no cinema, em mil lugares, de você conseguir o básico, descobrir o que você vai fazer e não se agoniar tanto. Eu acho que você consegue e você acaba conseguindo parceiros mais experientes que vão te ensinando. Eu acho que o mais triste, o mais grave, está na coisa mesmo amorosa. 

Mario Prata: Regina? Eu queria...

Ricardo Soares: Infelizmente o tempo já acabou.

Mario Prata: Me dá um minuto, é que ela falou uma coisa tão bonita sobre o amor. Você começou a falar de como deve ser a relação de marido e mulher, né? Fale um minuto sobre isso.

Regina Casé: Então, em um minuto, eu vou dar um conselho, porque, com todas essas separações, eu penso muito nisso. Que ninguém fique junto nem por causa da Aids nem por medo de conhecer outras pessoas nem por medo de ser feliz, entendeu? Mas que ao mesmo tempo, as pessoas não se separem com a primeira crise ou com a primeira besteira que pinte no casamento. Que essa possibilidade de se separar seja um trunfo de liberdade que você tenha na sua mão e no seu casamento. Que essa liberdade não seja jogada fora e desperdiçada, de você se separar logo e não aprender a lidar com uma pessoa que talvez seja uma pessoa para ficar com você a vida inteira, quem sabe.

Ricardo Soares: Regina, eu queria te agradecer a participação no Roda Viva, a todos os entrevistadores que participaram do programa e o Roda Viva tá de volta na próxima segunda-feira, até lá.

Regina Casé: Até lá [olha para cima, dando tchau à câmera que a filma].

 
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