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Debate Mercado Internacional de TV

2/6/2006

Qual será o futuro da TV, dos veículos de comunicação, internet e outras mídias? É o que está em discussão neste debate, com a participação de profissionais do setor

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Paulo Markun: Boa noite. O que está mudando no mercado audiovisual? Como as novas tecnologias e as novas regulamentações estão alterando os conteúdos e a forma de produção de filmes, documentários e programas de TV? A indústria internacional do vídeo abre a discussão sobre o futuro do audiovisual, e o Roda Viva entra neste debate com um programa especial esta noite. Reunimos aqui uma bancada de produtores, diretores... gente que representa a cadeia global de produção e distribuição de vídeo e que está desvendando a tendência que vai mudar este mercado nos próximos anos.  O Roda Viva começa num instante. 

 

[intervalo]

 

Paulo Markun: O mercado de formatos, roteiros e produções está globalizado. Emissoras de TV e produtoras do mundo inteiro ampliam suas parcerias, trabalham cada vez mais no sistema de co-produção. Tudo isso está mexendo com as formas tradicionais de produzir conteúdos, principalmente na televisão. 

 

[Comentarista]: O primeiro MITV, mercado internacional de televisão, trouxe a São Paulo representantes de outros sete países e trouxe, também, uma amostragem de produtos que a indústria audiovisual, representada no encontro, está oferecendo ao mundo. Filmes, novelas, documentários, séries, curta metragens, animações, programas de televisão. Uma grande e variada lista de produtos, um novo catálogo de conteúdos que produtores independentes, emissoras de TV, estúdios, distribuidores e investidores têm a mostrar e a negociar. Empresas participantes montaram stand’s para divulgar projetos e idéias que devem alimentar novos negócios do setor e também promoveram discussões sobre mudanças tecnológicas, novos meios de distribuição, e exibição de vídeos, bem como as tendências deste mercado e o que está mudando os conteúdos no formato e jeito de produzir. Organizados pela revista especializada Tela Viva, o evento buscou fazer uma aproximação do mercado internacional de televisão. Mercado que está, também, globalizado e que não tem mais fronteiras para conteúdos e muito menos para negócios. 

 

Paulo Markun:  Para discutir o novo mercado audiovisual, negócios e conteúdos que vão marcar a televisão, nós convidamos Michel Thornton, diretor da Forward Entertainment, de Nova Iorque, Estados Unidos. Eric Michel, produtor executivo da FRV Media International, do Canadá; Charles Zamaria, diretor financeiro da Bell Canadá Fund e professor da Universidade do Canadá; José Eduardo Moniz, diretor-geral da televisão independente TVI de Portugal; André Mermelstein, Editor da revista Tela viva, Fernando Dias, presidente da BPITV, Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Televisão; Ivan Isola, coordenador do núcleo de linha de produção para cinema digital e animação da TV Cultura, e Alberto Flaksman, coordenador dos cursos de formação de executivos para cinema e televisão da Fundação Getúlio Vargas e superintende de produção e comércio exterior da Ancine [Agência Nacional de Cinema. Órgão federal, criado em 2001 com o objetivo de fomentar, regularizar e  fiscalizar a indústria cinematográfica e videofonográfica brasileira]. Temos também a participação do cartunista Paulo Caruso, registrando em seus desenhos os momentos e flagrantes do programa.  O Roda Viva, como você sabe, é transmitido em rede nacional de TV para todo Brasil. Como o programa de hoje está sendo gravado, ele não permite a participação direta do telespectador.

 

Eu queria começar esse debate pela aquela questão que, certamente, nós não vamos encontrar resposta aqui. Aliás, isso costuma acontecer com freqüência em programas desse gênero. É o seguinte: para onde está caminhando a maneira de produzir conteúdo audiovisual neste mundo em que ninguém mais sabe em que meio que a gente coloca o conteúdo, se é na televisão, se é na internet, se é em celulares ou se em outras mídias que nem a gente sabe... capaz de imaginar quando vão surgir, mas certamente vão surgir. E que sentido tem, neste mundo e nesse novo mundo, os formato tradicionais como este que nós estamos fazendo aqui agora, quer dizer, um programa que é produzido em série toda semana por uma emissora de TV que faz um programa do começo ao final e exibe para seus telespectadores em rede aberta de televisão.  Então, essa é a questão número um, talvez começando pelo Zé Eduardo.

 

José Eduardo Moniz:  Bom, é uma questão complicada, eu vou tentar dar o meu ponto de vista sobre ela enquanto diretor de uma estação de televisão que tem uma experiência intensa em termos de sua implantação no mercado. Eu fui um produtor independente, portanto, estou à vontade para, enfim, discutir esta questão. O que eu acho é que tem se falado muito que os programas que tradicionalmente se vê na televisão vão começar a mudar, mas eu acho que não é bem assim. Aquilo que nós vamos passar a ver é, provavelmente, o mesmo tipo de programa espalhado por muitas plataformas. Aquilo que nós temos que nos interrogar é: Qual é o papel da televisão generalista no futuro? Esta que é a grande questão. Não é tanto: Como vamos produzir? Nós temos que continuar a produzir programas, porque as pessoas que vão ver são as mesmas, aquelas que escolhem e decidem do futuro desses mesmos programas e do nosso próprio futuro.  Aquilo que mudou foi que o telespectador, hoje em dia, vê a televisão quando quer, onde quer, como quer, e, enfim, da forma que lhe apetece. E ele é quase um programador, portanto o que nós temos que fazer é ajudá-lo, também, a facilitar um pouco a sua vida. Se você quer ver televisão em qualquer sítio [referindo-se a lugar e veículo de comunicação], nós temos que nos ajustar a esta realidade, não temos que estar contra ela ou lutarmos contra ela.  Acho que este programa que nós estamos a ver aqui hoje ou a fazer aqui hoje é um programa que, no futuro, provavelmente passará na vossa televisão, num modelo tradicional de difusão e, simultaneamente, sobre a internet, sobre os celulares, enfim, haverá uma ampla forma de observação do programa e de seguir o programa. Acho que, basicamente, aí que vai residir o futuro da televisão e, principalmente, a televisão generalista. Não quero me alongar, mas gostaria de citar o resultado de uma conferência em que participei há pouco tempo em Bruxelas, durante a qual se discutia precisamente o que vai ser a televisão generalista em 2010. E a conclusão a que nós chegamos todos foi que nós não sabemos o que vai ser em 2007, quanto mais em 2010, [sorri] porque está tudo a mudar em velocidade aceleradíssima.

 

André Mermelstein: Na verdade, o que me parece é que a grande mudança está se dando do lado do espectador, talvez até mais do que no lado da produção e a produção está correndo atrás do espectador. Uma série de tecnologias que no Brasil não são conhecidas, como o caso do gravador digital, o chamado digital vídeo recorder, DVR, que é oferecido por algumas operadoras de TV por assinatura no Brasil, mas nos Estados Unidos é um grande fenômeno de popularidade. Basicamente é um aparelhinho que o sujeito tem em casa e em que ele programa aquilo de forma simples e transparente, não é como vídeo cassete que você tem que saber o horário. Quer dizer, a partir da própria tela de televisão, ele diz para o aparelho o que ele quer assistir e, imediatamente, aquele aparelho começa a gravar todos os conteúdos que ele tem em todos os canais. O conceito de grade de programação, essa grade que a gente conhece com horários, com canais, ele desaparece e o expectador começa a montar seu próprio canal.

 

Paulo Markun:  [interrompendo] É um super controle remoto que permite você assistir qualquer coisa em qualquer horário.

 

André Mermelstein: No momento em que você quer. Quer dizer, isso muda muita coisa, muda o modelo tradicional de televisão em que você tem os intervalos comerciais. De repente, o espectador começa a poder pular estes horários comerciais. Isso muda o conceito até de canal, porque o espectador ele passa a ser dono, ele passa a criar o seu próprio canal.  Isso vai requerer um esforço muito grande dos produtores de conteúdo, em termos de tornar seu conteúdo atrativo para este espectador que está tão ligado. E também, sem querer me alongar muito, mas uma outra questão interessante são os novos dispositivos digitais, né? Além desse, você tem hoje dispositivos portáteis e você tem a possibilidade de, por exemplo hoje, de comprar conteúdos pela internet e assistir num vídeo portátil ou ligar este vídeo na sua televisão e assistir conteúdo que não estaria disponível de outra forma. Quer dizer, eu não acho que as tecnologias necessariamente matam a tecnologia anterior. As pessoas não vão deixar de ver televisão, não vão... a televisão como a gente conhece não vai morrer, assim como a televisão não matou o cinema também. Enfim, as tecnologias acabam se complementando, mas sem dúvida você vai ter um cenário de muita fragmentação dessa programação, e os produtores de conteúdo, os difusores de conteúdo, vão ter que se virar, aí, para cativar este público que está ganhando muito poder na hora de decidir o que quer assistir. 

 

Eric Michel : Tenho um exemplo do que acontece hoje. Minha filha tem 14 anos e ele não vê mais televisão. Ela tem um iPod e toda a noite ela conecta o iPod a um canal na internet, baixa o que quiser ver e vê os programas. Por exemplo, se o seu programa for do interesse dela, não se preocupe, vai sobreviver [risos]. Ela baixa o programa. Todos os amigos dela fazem a mesma coisa em seus computadores, na escola, no intervalo.  Na escola eles têm computador e no carro ela tem o iPod e vê os programas que quiser. Ao mesmo tempo, ela ouve música e joga alguns jogos. É um mundo totalmente novo e eu sou da TV antiga, da TV de 1964. Nós trabalhávamos como trabalhamos hoje, mas com mais preparação. Levávamos um mês para montar um ambiente como este para exibir o programa ao vivo para o telespectador. Agora, para nós, basta uma hora de preparação. Para o telespectador, talvez dois minutos para baixar um programa. É um mundo novo e fico feliz por estar vivenciando isso.

 

Charles Zamaria: Eu concordo com Eric. Para prever o futuro, para visualizar o futuro, olhe para os jovens. Os jovens serão os adultos, serão os consumidores do futuro. Eles tomarão as decisões. A decisão é ver a televisão tradicional e outros veículos como experiências, em vez de conteúdo. Tradicionalmente, nosso padrão como adultos é olhar as coisas, querem informação e coisas específicas, num formato específico. Os jovens não gostam disso, eles se interessam por experiência proporcionadas por tecnologias diferentes e contextos diferentes. Eles escolhem cada vez mais. Os jovens são criadores, não só receptores de informação, mas criadores. Há espaços no mundo em que eles podem participar de uma rede social com padrões para se comunicar, programas, blogs e informações. Essa é a revolução que se apresenta. Mais e mais eles vão se ocupar em determinar o que querem e contribuir nessa corrente.

 

Ivan Isola: Eu tenho a impressão que nós estamos vivendo um momento muito sexy na mudança de paradigmas, é uma coisa bastante entusiasmante.  De fato, é difícil a gente discutir qual será a aplicação fatal que propiciará a convergência de todas estas mídias que nós vemos aí pipocando no nosso horizonte.  Mas eu tenho a impressão, conforme já disseram algumas pessoas aqui, que a grande mudança de paradigma está na questão da interatividade, porque ela transforma o espectador. O espectador deixará de ser um espectador passivo e abre possibilidades para que ele não só escolha seu conteúdo, mas ele seja também o autor do seu conteúdo. Do ponto de vista da educação, para nós aqui na TV Cultura, isso abre uma perspectiva enorme. De fato, neste exato momento, a TV Cultura está digitalizando seus processos de produção, está digitalizando suas 200 mil horas de arquivo [gesticulando]. A idéia é exatamente colocar este conteúdo a serviço das escolas para que professores e alunos possam passar por um processo de alfabetização audiovisual. Porque não se trata, simplesmente, de ter a opção de escolha, mas ter a opção de, até mesmo, produzir seu próprio conteúdo.  Isso me parece, assim, o aspecto mais excitante. Evidentemente que a tecnologia, ela condiciona determinadas escolhas.  Aqui no nosso país, especialmente, nós temos aí um grande debate em torno da questão do modelo de TV digital que nós vamos adotar. A adoção de um modelo ou outro poderá bastante as escolhas que nós vamos fazer no futuro.  Mas de qualquer maneira, embora não seja previsível o futuro, é bem possível que todos nós estejamos trabalhando nesta mesma direção. 

 

Michel Thornton: Uma coisa que o André disse anteriormente e que me chamou a atenção é o DVR, que está mudando a publicidade em termos de receita. Há um grande desafio, inclusive nos Estados Unidos, no setor criativo, por causa dessa receita que está desaparecendo. Estou falando de merchandising. Nas grandes séries e filmes para TV, sugere-se aos roteiristas que incluam alguns produtos na estrutura do enredo. É claro que os roteiristas resistem muito a isso, porque feito isso seria muito difícil voltar atrás. Além desse desafio, há os desafios multiculturais. Se eles perderem a batalha e mostrarem os produtos, como isso vai funcionar em canais comerciais no exterior, onde o produto talvez nem existam ou canais estatais que não permitem esse tipo de merchandising. Acho que há grandes desafios, inclusive de criatividade, que vêm acompanhando as mudanças tecnológicas. 

 

André Mermelstein: Queria só acrescentar uma coisa nesta observação do Michel, não só a questão de você embutir os produtos dentro do programa, como o que a gente conhece tradicionalmente como merchandising, mas começa a nascer também uma nova vertente que é o conteúdo patrocinado, um conteúdo com marca, né? E isso vem acontecendo muito fortemente na internet, onde você já vê algumas marcas globais, como Nike [marca americana de tênis e produtos esportivos], por exemplo. Ela cria um programa, ela cria um conteúdo, um vídeo, onde não necessariamente o produto aparece, mas é um vídeo criado por ela, que as pessoas sabem que é dessa marca. Este vídeo circula pela internet, as pessoas baixam, porque é um conteúdo legal, interessante, atrativo. E não há muito limite entre o que é a propaganda, o que é a publicidade e o que é o conteúdo, né?  Teve um caso clássico, também, para citar outro. Há cerca de dois ou três anos, a BMW [empresa de veículos] criou vídeos fantásticos sempre envolvendo carros e tal, mas que viraram até um modelo mesmo de conteúdo de marca. 

 

Alberto Flaksman: De modo geral, eu concordo com as coisas que foram ditas aqui. Alguém já usou, há algum tempo, uma fórmula que eu acho interessante, Nós estamos saíndo de uma época em que o conteúdo da televisão era empurrado para uma época em que vai ser puxado. As pessoas... eles deixam de ser jogados em cima das pessoas, as pessoas vão selecionar, poder escolher o que querem ver.  Mas eu confesso que, embora eu fique fascinado com estas coisas, me preocupo muito com a questão do conteúdo propriamente dito e do papel da televisão.  No caso do Brasil, principalmente, é claro que a gente está [gesticulando] conversando com pessoas de diversos países, mas nós vivemos uma realidade própria nossa, né? A televisão tem um papel no Brasil importantíssimo, na medida em que a maioria da população só tem acesso ao mundo através da televisão. Quer dizer, fora sua experiência pessoal, local e no pequeno mundo em que eles vivem, a única janela para o mundo é a televisão. As pessoas lêem pouco jornal, as pessoas lêem poucos livros, quer dizer, as pessoas não têm acesso à outras mídias.  Então, nós estamos um pouco longe disso, ainda estamos numa fase em que a televisão tem este papel essencial. Nós ainda não chegamos nem no ponto de conseguir fazer com que a televisão forneça a estas pessoas uma visão mais diversa, diversificada do mundo. Ainda oferecemos, através da televisão, uma visão muito unificada, não temos muita diversidade, temos uma grande concentração de audiência num único canal.  Temos ainda tantas coisa para fazer. Eu entendo, talvez esteja desviando o discurso, mas eu gostaria de chamar a atenção para isso, quer dizer, não ficar... A gente pode, evidentemente, ficar imaginando futuros extraordinariamente brilhantes e interessantes, mas independente da maneira como as pessoas vão receber este conteúdo, eu me preocupo muito [com] quem vai fazer este conteúdo e se as pessoas vão ter acesso a um conteúdo produzido democraticamente, cada vez mais democrático? Se ele vai ser aberto, se as pessoas vão ter possibilidade de ter visões da realidade.  Esta, para mim, é a maior preocupação.

 

Fernando Dias: Eu acho que, agora, a gente está, assim. Eu concordo com grande parte do que foi falado aqui, eu acho que realmente nós estamos vendo hoje a era do conteúdo, a gente teve a era da informação e agora a gente tem a era do conteúdo no sentido que você tem que fazer o telespectador ou qualquer que seja o meio em que seja exibido, ele [telespectador] tem que ter o desejo por aquele conteúdo.  Então, isso acho que é um processo bastante interessante. A gente tem estes exemplos, aí, nos Estados Unidos, ou seja, tem DVDs hoje que já gravam da televisão cortando o comercial, então, sem dúvida, existe uma mudança fora do Brasil, e muito mais que no Brasil, realmente de agências de publicidade começarem a olhar o conteúdo de uma maneira mais adequada. Por outro lado que também que não deixa de ser interessante, você começou a ter uma segmentação cada vez maior na produção. Então, hoje, você tem canais especializados em programas de medicina, em ciência, de turismo... Isso também agrega um valor a estes produtos que é até mais fácil estarem sendo comercializados, aí, com seus eventuais patrocinadores para esse conteúdo.  A outra forma que é interessante é que, realmente, você tem esta convergência e falta muito pouco tempo. Na verdade, é uma questão mais de logística do que de tecnologia. Para você não saber direito se está vendo uma televisão, ou está vendo uma internet, né? A gente já tem alguns exemplos fora do Brasil na televisão pela internet, com a convergência da televisão digital onde a pessoa vai poder, de certa forma, estar influenciando, comprando os produtos, pondo o dedo na tela, ou seja, tendo uma experiência mais direta com esta programação, igual ela já faz hoje na internet, isso também vai mudar. Então, eu acho que, sem dúvida, é um momento muito interessante, o que a gente está vivendo. A gente não sabe mais se tem que falar com a televisão ou empresa de telecomunicações ou se tem que falar com as empresas que criaram os iPod da vida. Existem várias possibilidades, hoje, para trabalhar o conteúdo. Concordo com o Alberto que, aqui no Brasil, a gente ainda vai ter um grande tempo aqui ainda para isso ser utilizado de uma maneira mais ampla para todos os brasileiros. É um processo ainda um pouco moroso, mas, enfim, é uma tendência que ela não tem volta. Eu acho que vai ser divertido.

 

Paulo Markun: Eu tenho que pedir um intervalo, porque ainda não estamos na TV interativa que você pode escolher o momento do intervalo [risos].  Em breve chegaremos nisso, mas eu gostaria de fazer uma observação que não consigo me furtar a ela, que é o seguinte: dois dados.  Primeiro que já tivemos na televisão brasileira, na origem da televisão os programas que eram produzidos para os patrocinadores. Você tinha o grande Repórter Esso, por exemplo, que era um telejornal, e um telejornal dos mais respeitados do Brasil, programas de auditórios e novelas tudo com a marca do patrocinador.  A segunda observação que eu faço, que é mais especulativa, é o fato que nós temos hoje 80 milhões de celulares no Brasil. Há dez anos atrás, não sei, a gente tinha algum.  O crescimento foi gigantesco. É fácil supor que boa parte desses celulares, depois de três, cinco anos, terão probabilidade de capturar o vídeo, portanto se abre novo mercado aí. O risco que a gente corre é não cumprir todas as etapas como o Alberto mencionou, de dizer que temos sim que democratizar o conteúdo, mas sim passar para uma etapa superior, entre aspas, mas talvez não seja tão eficiente assim, porque vai lá saber quem é que vai decidir que conteúdo vai estar dentro de celulares que 80 milhões de brasileiros já dispõe. Eu vou fazer um intervalo, lembrando que o programa dessa noite, já num pequeno esboço de interatividade, pode ser encomendado, como todos os outros do Roda Viva, em DVD, a partir de manhã. Voltamos em instantes com o programa que tem na platéia: Sandro Pena, secretário de Comunicação de Vitória, Mariel Scarpon, diretora da TVE do Rio de Janeiro e Guilherme Rocha, mestrando em semiótica pela PUC de São Paulo.  A gente volta já.

 

Paulo Markun: Voltamos com Roda Viva. Hoje um programa especial reunindo uma bancada de profissionais ligados à produção e distribuição do audiovisual num debate sobre as mudanças e tendências mundiais em torno da produção de conteúdos para televisão e outros meios. 

 

[comentarista]

Os profissionais hoje envolvidos na produção de audiovisual se articulam para abrir mais caminhos para a co-produção, especialmente na América Latina, com tanta identidade e proximidade entre países vizinhos, mas que também na área de vídeo não conta com um mercado comum. Produtores independentes e emissoras de televisão buscam quebrar uma espécie de monopólio que, desde o surgimento da TV, concentrou nas próprias emissoras a produção de seus programas.  As co-produções no âmbito regional já se tornaram realidade, procuram agora cruzar mais fronteiras, se estender pelo mercado internacional, cada vez mais aberto a conteúdos novos e às novas oportunidades do negócio audiovisual. 

 

Paulo Markun:  Bom, eu queria colocar em debate neste segundo bloco, independente da gente poder voltar às questões formuladas no primeiro bloco, a um outro ponto que é o seguinte: No Brasil, pelo menos, a produção de conteúdo para televisão é extremamente vertical. Quer dizer, emissoras de televisão têm 80, 90, até 100% da sua produção feita em casa. Isso copia um pouco os modelos dos estúdios americanos de cinema, de Hollywood, mas não copia o que existe em outros países no que toca a produção. Então, a pergunta que eu queria fazer, aproveitando que temos aí colegas de Estados Unidos, Portugal e Canadá: como é que funciona hoje o sistema de produção nos países de vocês? E mais do que isso: para onde está caminhando esta produção diante desse novo desafio e dessa nova realidade, Eric?

 

Eric Michel: No Canadá, a produção de TV independente é de 75%.  Talvez mais de 75%.  É mais ou menos como a CBC [Canadian Broadcasting Center, canal de Tv canadense] hoje em dia, um pouco mais, mas não muito. O governo federal e as províncias estabeleceram crédito tributário para a produção.  E o governo também, como meu colega Charles sabe bem, criou um fundo de produção. Todos os canais especializados contribuem com um fundo para que a produção aconteça, mas que aconteça sem depender dos exibidores.  Claro, eles precisam de exibidores, precisam mostrar o produto, mas eles mesmo produzem. Não sei se errei no número, mas acho que 75% da produção é independente em francês e em inglês também.

 

Charles Zamaria: O modelo tradicional é como um aluguel: o exibidor, no Canadá e nos Estados Unidos, paga um aluguel por um programa específico. Após algumas exibições, o programa é devolvido e pode ser vendido no exterior. Você como produtor, é dono do programa, detém os direitos, o que independe de ampliar os direitos e outras plataformas como a internet, jogos, os aparelhos com tecnologia sem fio. O que é singular no Canadá é o esforço consciente de investir em histórias, investir em conteúdo.  Não só do ponto de vista cultural, mas também comercial. O Eric tem toda razão, os exibidores pagam cerca de 25% do total.  Se você tem um programa de mil dólares, os exibidores pagam cerca de 250 dólares e produtores independentes, como Eric, levantam o resto. O dinheiro pode vir de fundos que são criados ou de impostos da TV paga e a cabo no Canadá, e esse dinheiro financia a produção de conteúdo. Um fundo investiu US$ 35 milhões nos últimos oito anos. Eu represento três fundos e investimos, ao todo, cerca de US$ 50 milhões. É uma forma de injetar dinheiro nesse meio, o que é positivo.  Isso se deve à nossa população. São cerca de 35 milhões de pessoas, diferente dos Estados Unidos ou do Brasil.  É difícil fazer este tipo de programa, mas ele também é importante em todas as mídias, do ponto de vista cultural, para reforçar nossa identidade e do ponto de vista dos negócios. Embora todos nós sejamos contadores de histórias, também somos empresários.

 

Michael Thornton: Nos Estados Unidos, nas redes comerciais, as séries são de propriedade dos canais, produzidas pelos estúdios. Os produtores independentes praticamente desapareceram mesmo.  A meu ver, isso aconteceu por causa do custo.  Com os grandes sucessos que vemos no mundo, se tratando de séries, como Lost [seriado americano de Tv], por exemplo, as produções têm qualidade de cinema e custo altíssimo.  Como resultado, quando a série faz sucesso, os ganhos também são altos, mas o risco é tão alto que praticamente tudo é produzido por estúdios e redes. Isso mudou há alguns anos, quando as leis mudaram, permitindo que os estúdios fizessem a produção. A televisão a cabo também está mudando. Ainda há produtores independentes atuando. Nos canais materiais também há, mas eles estão desaparecendo lentamente. Só nos canais públicos ainda há alguns produtores independentes, que são fornecedores do canal. Isso também está mudando, os canais querem produzir o seu trabalho, querem controle editorial e criativo.

 

José Eduardo Moniz: Bom, em Portugal as coisas funcionam de maneira, porventura, um pouco clássica. São as estações de televisão que suportam investimento em programação. Praticamente todas elas é que pagam por inteiro o custo dos programas. É curioso verificar que o modelo de produção em Portugal e a própria televisão mudou muito, um pouco por causa do Brasil. Durante muitos anos, até 2000, o peso da produção brasileira, da novela brasileira importada para Portugal era tremendo, condicionando globalmente todo o mercado. O que se verificou a partir de 2000 foi uma transformação muito grande.  Isso um pouco por causa da TVI, estação que eu represento, que passou de última no ranking das estações para a primeira.

 

Paulo Markun: Com as novelas?

 

José Eduardo Moniz: Exatamente. E com a nossa própria produção de novelas. Tanto é que nós adotamos um modelo de produção que combatia diretamente as novelas importadas do Brasil. A verdade é que, em poucos anos, deu a inversão. Hoje temos as novelas no prime time [horário de exibição considerado nobre, de maior audiência no canal], valores acima dos 40, 50 pontos com as novelas importadas do Brasil, que continuam no prime time, a fazerem 28 pontos, 26 pontos, 30 pontos, 31 pontos. Portanto, houve uma transformação muito grande. E esta transformação foi operada muito por via das opções que nós fizemos, dinamizando os mercados, descobrindo novos talentos etc, mas sobretudo recorrendo aos produtores independentes. Porque nós, como estação de televisão que estava, praticamente, à bancarrota, a única possibilidade que nós tínhamos, para dar a volta, era obviamente recorrendo aquilo que o mercado disponibilizava.  O que o mercado tinha eram produtores independentes. Falamos com uma empresa de produção independente que começou a produzir séries e novelas para nós. E naquela altura, 1998, 1999, nós tínhamos zero horas de produção na TVI de ficção. Hoje temos 800 horas por ano de dramaturgia.  Do mesmo... E não estou a incluir aqui as siticons, ou adaptações literárias que nós transcrevemos para a televisão. O que significa que, de fato, em Portugal o mercado funcionou. Iindependentemente do fato da TVI ter vindo mais tarde para tomar participação de 60% no capital da produtora que mais novelas faz para nós. O que é certo é que o mercado independente tem um peso muito significativo não só na dramaturgia, mas também no entretenimento e nos games shows, por exemplo, e nos realities shows. Nós trabalhamos com muitas empresas internacionais, desde Endemol Entertainment [empresa holandesa], que tem sucursal portuguesa, a outras produtoras nascidas localmente. O que isso significa? Vou arremeter um pouco para trás, não tenho uma opção tão pessimista do futuro nem tão otimista. Eu acho que nós devemos ter os pés no chão. Eu lido primeiro com uma realidade, e isso num lugar, naquilo com o que o futuro me faz pensar que pode acontecer. Mas não vou entrar no futuro, num comboio de alta velocidade sem saber sequer se eu tenho os carrinhos montados para o comboio andar. Primeiro, eu tenho que fazer uma boa televisão deste lado, eu tenho que melhorar a qualidade do meu produto, dar ao meu espectador capacidade de perceber que, conosco, pelo menos, tem critérios que o ajudam a fazer seleção, de modo a criar elos intelectuais [gesticulando] e emocionais fortes que o ajudem inclusivemente a facilitar seu mecanismo de vida. Porque aquilo que se passa é que: se eu tenho muita oferta, também tem cada vez mais dificuldades de escolha. Aquilo que nós verificamos, hoje, é que já há muita oferta. E, apesar de haver muita oferta e haver cada vez melhor dispersão, relativamente àquilo que são os veículos que as pessoas procuram, o que é certo é que as televisões de perfil generalista continuam a ter um peso brutal no conjunto das opções que são feitas, quer como veículos visionalmente de programas, quer como veículos que transportes de mensagens publicitárias. Obviamente que nós vamos continuar a discutir estas questões aqui hoje à noite. Perdoe-me esta volta atrás no tema, mas acho que era importante frisar a propósito daquilo que eu me referi, porque sabe muito bem fazer preenchimento como minha estação de televisão e o seu, que foi brutal. Nós passamos de 2%, em 1988, para líderes do mercado, com 37,5% hoje, no final do mês de maio, que é uma coisa fantástica, com aquilo que era primeiro em terceiro, e o que era terceiro em segundo.  No mercado que mudou muito rapidamente, precisamente porque as pessoas quiseram que o mercado mudasse.  E o público é o mesmo, cada vez tem maior capacidade de escolha. Não é por ter mais oferta que o público vai aumentar, que vai surgir mais gente e vai haver mais consumidor. Eles são os mesmos. Portanto, o que nós temos que procurar é ter bom produto. Nós temos que encontrar bons produtos, qualidade no produto e, sobretudo, que seja visto independente da plataforma que o telespectador escolher ou das várias plataformas combinadas... Porque isso, provavelmente no futuro, é o que vai acontecer.

 

Fernando Dias: A leitura que nós fazemos hoje pela Associação dos Produtores Independentes aqui no Brasil, e aliás é bastante curiosa, é o seguinte: o Brasil não teve a questão da regulamentação, né? Isso eu acho que é o ponto crucial para a gente poder entender o que aconteceu no Brasil. No Brasil, você criou grandes televisões, mais do que grandes televisões, criou-se grandes produtoras. Todas as televisões no Brasil são produtoras, temos exceções só das TVs a cabo que vieram mais recentemente, mas todas, televisões públicas, privadas, todas criaram estruturas de produção e ficou muito fácil. O sistema foi um sistema muito generoso, vamos dizer assim, porque mesmo nos Estados Unidos, com a lei antitruste [lei criada para previnir e reprimir infrações contra a ordem econômica] que começou em 1975, não tinha esta facilidade toda que tinha aqui no Brasil. Você pega outros países no mundo, você pega Canadá, França, Espanha, Argentina, eles têm regulamentações muito fortes ali no sentido de falar quanto é a participação de produção independente na televisão, quanto ela pode. Nos outros países, inclusive, tem produção que ela mal pode produzir. Tem país que é só a questão editorial. Isso porque nem estou entrando na questão dos direitos do conteúdo, porque isso também já é uma questão muito forte, internacionalmente. No Brasil, hoje, o produtor infelizmente concorre com a televisão. Uma coisa um pouco esquisita.

 

Paulo Markun:  [interrmpendo] Em pé de desigualdade.

 

José Eduardo Moniz:  [interrompendo] Paulo, você dá licença para que eu interaja com o Fernando?  Eu percebo a sua preocupação. Eu fui produtor independente também, mas acho que o mercado deve funcionar. E o mercado que é muito pretencionista é um mercado que vai ter sempre problemas na vida e nunca vai se tornar adulto.  Acho que é preciso impor limitações às televisões, mas não se pode tolher as televisões na lógica de elas próprias serem veículos de dinamização do próprio mercado.

 

Fernando Dias: Eu concordo que elas têm que ser veículos de dinamização do mercado, mas hoje o que existe no Brasil é que a produção independente só começa a surgir com a questão da TV a cabo, porque, até então, não tinha nem a possibilidade de poder tentar ter um espaço, né?  Nós só somos produtores independentes de televisão se a televisão aceitar o nosso conteúdo.  Até pouco tempo atrás, existia uma discussão aqui no Brasil, algumas grandes redes chegavam e: “não, porque o brasileiro não tem capacidade de produzir, ele não sabe produzir, não tem qualidade”. Nós já ouvimos isso, infelizmente.

 

José Eduardo Moniz:  Sabe que diziam o mesmo dos portugueses e deu esta reviravolta.

 

Fernando Dias: E, curiosamente, o que a gente percebe hoje, com os projetos de exportação que a gente tem hoje na associação, a gente tem um sucesso tremendo de exportação do conteúdo brasileiro.  Já tivemos, é curioso falar, tivemos produtos nossos que foram exportados, comprados por distribuidores internacionais e depois revendidos para o Brasil. Isso é uma loucura, se a gente pensar.  O que existe e o que não existe hoje? Qual a grande dificuldade? Já está consolidado este tema aqui no Brasil. Teve a tentativa, aqui na Ancinave [foi uma proposta do governo de criar a Agência Nacional do Cinema e Audiovisual discutida em 2004. A agência regularia os trabalhos realizados, porém a proposta não foi aprovada pelo Congresso brasileiro]... Hoje é difícil você falar: “Vamos enfiar caneta aqui, canetar e mudar todo o sistema”. Isso, realmente, a gente concorda que é complicado, não é de uma hora para outra que você vai fazer isso, mas você precisa tentar a começar criar novos modelos de negócio para televisão começar a aceitar o trabalho da produção independente.  Eu estou falando: as televisões públicas sempre foram mais abertas. As televisões privadas sempre foram mais fechadas. Hoje elas estão começando a entender, querendo entender um pouco.

 

José Eduardo Moniz:  Em Portugal foi um pouco o contrário.

 

Alberto Flaksman: O que o Paulo estava dizendo... O Paulo começou falando da verticalização, quer dizer, no modelo vertical que é do studio system [modelo criado em 1920 e que dominava o ramo de produções cinematográficas em Hollywood] americano, este modelo acabou em 1948, quando a Corte Suprema americana proibiu os estúdios de terem sala de exibição. Quer dizer, eles já começaram a cortar a verticalização ali.  Depois a FCC  [Federal Communications Commission], que é um órgão de regulação da radiodifusão nos Estados Unidos que existe desde 1934, quando os americanos resolveram conceder os [?] para empresas privadas, eles criaram imediatamente sistemas de regulação exigindo contrapartidas e exigindo certos comportamentos da parte dos rádiodifusores e depois das televisões.  Você mencionou os anos de 1970 e 1975. Os americanos fizeram regulamentações muito severas impedindo as televisões de controlar o prime time [programas exibidos em horários considerados “nobres”, de grande audiência], de controlar syndication, de fazer elas mesmas a sua própria produção.  O que acontece no fundo, o que estamos dizendo aqui é o seguinte: o Brasil não tem nenhuma regulação. Você falou em canetada. Evidentemente, não se trata de canetada. Isso, seria uma infantilidade, uma bobagem, nós já passamos desse momento, mas eu acho que é uma preocupação legítima. Eu tenho esta preocupação, de que nós precisamos, de alguma forma, regular.  Quando eu digo nós, somos eu, você, o José Eduardo, o Ivan, quer dizer, a sociedade brasileira. A sociedade brasileira tem que, de alguma forma, dizer que tipo de coisa que ela quer ter. Se ela quer estar, se ela acha razoável ela estar submetida, por exemplo, a uma concentração ou a uma uniformidade de informação ou se ela gostaria de ter acesso para uma... Se é importante que seja preservada uma diversidade maior de informação, de produtores, de fontes de informação, de fontes de entretenimento etc. É disso que está se falando.  O que acontece é que a preocupação do Michel é real. O que está acontecendo?  No primeiro mundo, depois de terem regulado e terem tido uma diversidade [gesticulando] muito grande de produção, eles estão concentrando, esta é a preocupação, agora eles estão chegando, estão se brasileirializando, mas nunca passamos pelo processo que eles passaram.

 

Charles Zamaria: Sem querem causar polêmicas, sobretudo diante de vocês, mas o ajuste de contas chegou e vai continuar vindo. Os exibidores não vão poder fazer a escolha pelo público, e o público vai escolher cada vez mais baseando-se no conteúdo. A época dos exibidores paternalistas dizendo o que vamos ver e quais informações vamos receber já não existe. Vejo pessoas fazendo cada vez mais escolhas. No Canadá, os produtores independentes ajudaram nisso e na proliferação de novas tecnologias. O uso da internet no Brasil é muito baixo, mas para quem tem banda larga é muito alto.  Vocês são o 13º do mundo. Três milhões das pessoas que usam a internet no Brasil, usam banda larga.  A banda larga vai ajudar a nova mídia e a escolha do usuário. Quanto mais houver banda larga, mais haverá escolha. Eu diria a todos aqui que a forma de exibição em que o exibidor escolhe o que vai apresentar ao público mudou para sempre. Continuamos presos a este paradigma, mas daqui a dez anos isso vai mudar drasticamente.

 

Ivan Isola: Bom, eu queria, um pouco, voltar ao que o Alberto estava colocando, porque tenho a impressão que todos nós temos que olhar pelo ponto de vista ao assim chamado produtor independente. Não gosto muito da palavra, porque você não é muito independente. Somos, em geral, tóxicos-dependentes de dinheiro público, de formas variadas de financiamento. 

 

José Eduardo Moniz: [interrompendo] Esta é a verdade e, às vezes, um problema grave.

 

Ivan Isola: É um problema grave e têm outros problemas bastante graves. A situação é contraditória porque vemos, com a inclusão da TV digital, o aumento das possibilidades de programação, aumento de demanda, facilidades tecnológicas para se produzir conteúdo de forma mais imediata, mas por outro lado, querendo aproveitar a presença de pessoas de outros países aqui, nós temos a fusão da Direct Tv com a Sky [empresas de TV’s a cabo], que demonstra um processo furioso de verticalização e que não é só brasileiro. Então, como nós podemos enxergar esta questão [gesticulando], um pouco desse ponto de vista mais amplo? Quer dizer, se nossos colegas aqui desta Roda Viva, eles vêem alternativas reais para que os, assim chamados, produtores independentes se articulem de forma a estar presentes? Porque hoje, por exemplo, você faz um filme no Brasil, nós precisamos de um mercado estável para pagá-lo. O mercado brasileiro não paga filme de longa metragem. Ou nós estaremos no mercado mais amplo ou não pagaremos nosso conteúdo. Esta que é a trágica realidade da produção de conteúdo de alta gama no Brasil. Por exemplo, cinema este ano estamos vendo, são dificuldades grandes.  Avançou quando houve uma junção da produção cinematográfica com a televisão que foi iniciada nessa televisão [referindo-se à TV Cultura].  É bom lembrar: embora todas as televisões brasileiras sejam bastante verticalizadas, eu quero lembrar ao Fernando que a TV Cultura promoveu o primeiro casamento efetivo entre cinema e televisão com os filme do PIC TV [Programa de Integração Cinema e TV]. Nós co-produzimos 50 filmes em quatro anos.  Então, gostaria de aproveitar a presença dos nossos colegas para entender um pouco como eles vêem a questão da verticalização.

 

Paulo Markun: Nós vamos colocar esta questão, o André também não participou dessa rodada, logo depois do intervalo. Queria lembrar a coisa da... Aqui a gente tem sempre umas soluções aqui inventivas [sorrindo] que é: se a gente usar expressão técnica crossmedia, quer dizer, o cruzamento de mídia, o Roda Viva já tem o melhor do Roda Viva que são três livros com 60 das melhores entrevistas feitas aos longo de vinte anos no programa que você encontra nas melhores casa do ramo ou pelo www.culturamarcas.com.br. Cultura marcas é, vamos dizer assim, o guarda chuva da TV Cultura para veiculação, para difusão dos seus produtos em outras mídias, ou mesmo em DVD. De todas as maneiras possíveis para ampliar o espectro. Vamos para um rápido intervalo e voltamos com Roda Viva que também é acompanhado na platéia por Vagner Sudameli, que é jornalista e apresentador do programa Paga que eu te escuto, da All TV, Fernando Vilegas, produtor de televisão, Thiago Mantovanni, jornalista e Patrícia Gomes, publicitária.  A gente volta já já. 

 

Paulo Markun: O Roda Viva desta noite é um debate sobre o futuro do mercado audiovisual e as novas relações entre produtoras independentes e emissoras de TV.  Nós reunimos, aqui, uma bancada de profissionais do Brasil e de outros países envolvidos na discussão sobre o futuro do mercado global de vídeo.

 

[comentarista]

Um programa local, um filme coreano, um curta metragem espanhol, um documentário canadense, uma novela brasileira. No mundo todo, a programação de TV tornou-se um mix de produções internacionais. Profissionais da área querem mais, a busca por novos negócios e mais parcerias entre países tem por trás um aumento do número de produtores e produtos áudio visuais estimulados principalmente pelo avanço da tecnologia. Novos formatos e novos conteúdos invadiram a internet, o celular, a TV a cabo e também as emissoras abertas que entram na era digital e procuram compreender e se ajustar às novidades. 

 

Paulo Markun: Eu queria colocar em discussão, neste bloco, um pouco do que o Ivan já havia antecipado ali no final do bloco anterior que é o seguinte: na verdade, a gente no mundo tem situações completamente diferentes. Não apenas de um país para outro, mas às vezes até mesmo dentro do próprio país.  Quer dizer, no Brasil nós temos, por exemplo, gente que tem acesso sim à TV a cabo, perdão, TV via internet ou banda larga e temos gente que não tem sequer TV a cabo. A grande maioria da televisão brasileira tem apenas as televisões de sinal aberto, que tem uma programação muito similar. Outro dado que tem é que temos uma indústria cinematográfica no mundo inteiro, praticamente, dominada pelo produtor norte-americano, mas têm experiências singulares na Coréia, Índia e parte da África, onde surge uma produção, quase sempre a partir de algum guarda chuva que impede a entrada do produtor estrangeiro, mas que acaba se tornando muito produtiva. A pergunta que eu coloco é isso [essa]: “Nesta briga de grandes players, de grandes gigantes da telecomunicação que hoje dominam largamente o mercado, nos Estados Unidos são seis grupos apenas que dominam a comunicação, e estas formas alternativas, estas soluções domésticas, quem é que vai ganhar?  André, começa por você que não falou no [bloco] anterior.

 

André Mermelstein:  Eu queria voltar só um pouco numa questão que estava sendo discutida anteriormente. Eu acho que é interessante para o público, quando a gente fala em regulação para televisão, entender um pouco o que é este sinal regulatório que existe no Brasil.

 

José Eduardo Moniz:  Cuidado, porque eu sou muito sensível a falar destas questões [risos].

 

André Mermelstein:  Mas não vou jogar muita areia, não, é mais para explicar mesmo.  A questão... Olha só, a gente tem no Brasil uma legislação sobre telecomunicações que é absolutamente completa, quer dizer, ela em alguns pontos já está um pouco ultrapassada, é legislação da época das privatizações de 1998, mas é uma lei muito... que regulamenta muito fortemente o setor de telecomunicações.  Na área de televisão por assinatura, você tem a lei de TV a cabo que regula só TV a cabo e tem restrição a capital estrangeira, uma série de coisas. Ela não vale para TV via satélite, por exemplo, voltando a questão que o Ivan levantou do DTH, porque você não tem no satélite capital estrangeiro, enquanto que na TV a cabo você tem.  Na verdade, o que você tem é uma grande salada regulatória. A televisão aberta, e por mais que a gente fale, e realmente aqui eu retomo o que já foi colocado por Alberto e outros, por mais que a gente fale em novas tecnologias que existem e já aparecem, vão ser cada vez mais fortes, no fundo o que as pessoas assistem, pelo menos em países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil e muitos outros, o que as pessoas assistem é TV aberta, a radiodifusão como a gente conhece. Esta radiodifusão, ela não é absolutamente... não que ela não seja regulamentada no Brasil, mas ela tem algumas leis a seguir.

 

Ivan Isola: Muito pouco, né?

 

André Mermelstein:  Muito pouco e muito antigas, né? Uma legislação muito antiga, muito ultrapassada, ela tem mais de 40 anos, é de 1962, se não me falha a memória. Eu acho que, quando a gente fala em regular a televisão, José Eduardo, e eu acho que aí não tem nenhum palavrão aí, eu acho que pode ser uma coisa que as próprias televisões vão precisar, daqui a pouco.

 

Paulo Markun: [interrompendo] Diante da ameaça de outros que estão inclusive...

 

André Mermelstein: [interrompendo] Exatamente. Vamos entender um fenômeno que está, inclusive, acontecendo hoje. As empresas de telecomunicações vêm perdendo receita com seu principal serviço que é o serviço de voz. Antigamente era o quê? O maior negócio era voz, telefonia, telefone, longa distância, né, chamado interurbano, ligação internacional.  É uma coisa que vem perdendo valor muito rapidamente por causa da nova tecnologia. Hoje você tem telefonia por IP, as pessoas falam praticamente de graça com o mundo inteiro, hoje você tem opções de telefone oferecido pela operadoras de TV a cabo ou provedor de internet... no mundo inteiro é um fenômeno que vem acontecendo com as receitas dessas empresas de telecomunicações com... o serviço de voz vem caíndo.  E estas empresas são gigantes que precisam se manter e estão atacando em outras frentes, uma dessas principais frentes que estão entrando é justamente na mídia. 

 

Ivan Isola: Na produção de conteúdo.

 

André Mermalstein:  É, ou na produção ou na distribuição. Você vê no Brasil, por exemplo, a Net, que é principal operadora de TV a cabo, já foi comprada pela Telmex, que é uma grande operadora de comunicações, dona também da Embratel e da Claro [empresas de telefonia].  É um fenômeno que vem acontecendo no mundo inteiro. Então, acho que se confunde um pouco quando fala em regulação ou regulamentação, com, enfim, imposições ou com coisas que, de alguma forma, vão prejudicar a televisão. Não acredito que ninguém [alguém] queira prejudicar a televisão, acho que todos reconhecem a importância da TV aberta, mas algum tipo de regulação é importante. Existe no mundo inteiro, até nos Estados Unidos, a pátria do total liberalismo, as comunicações sempre foram bastante reguladas.

 

Ivan Isola: [interrompendo] São até hoje, fortemente reguladas. Mas não pode garantir a liberdade, que a comunicação não deva ser necessariamente só restritiva.

 

André Mermalstein: Exatamente.

 

Ivan Isola: Nós estamos aqui diante de uma situação muito interessante, quer dizer, a escolha de um padrão de TV digital neste momento pode determinar a organização de um modo de negócio vertical, como ele é até hoje, monopolista, ou eventualmente um modelo de negócio horizontal, com múltipla programação, entrada de novos atores... me parece que o Brasil está resistindo a esta idéia, esta idéia mais, digamos, liberal de mais, concorrencial.

 

André Mermalstein:  Apesar de que você tem também uma questão, uma questão mista de regulação e mercado, né? Quer dizer, não basta regular e ter novas tecnologias e abrir para que se possibilite a entrada de novos atores neste cenário, se você não tiver, acho que uma resposta de mercado. Acho que o José Eduardo quando falou que a emissora dele cresceu em Portugal e o público é o mesmo, temos que lembrar que o mercado publicitário que em essência é quem paga esta produção, pelo menos no caso de TV aberta, também é o mesmo, ele não é muito elástico.  Então, eu acho, na verdade, o que falta, e eu, inclusive, quero cumprimentar o Roda Viva, porque o que falta é debater estas questões e a mídia não se discute, né? Então, você ter a oportunidade de...

 

Alberto Flaksman [interrompendo] Porque a mídia, no Brasil, é parte interessada. Este é que é o problema. Você tem concentração, não se trata apenas de verticalização, mas regra de concentração. Nos Estados Unidos, [as leis] são muito severas e sempre impediram que você tenha, por exemplo, propriedade de diversos órgãos de comunicação nos mercados, televisão, rádio, revista etc e que no Brasil nunca teve este tipo de restrição.

 

Paulo Markun: Muito pelo contrário.

 

Alberto Flaksman: Muito pelo contrário. Então, na verdade, a mídia vai participar do debate, quer dizer... então é um jornal que é da mesma cadeia de televisão que vai discutir se a televisão deve ser regulada ou não?  O resultado dessa discussão a gente já sabe qual é.

 

Ivan Isola: [interrompendo] Hein, Alberto, o interessante, no Brasil, é que nós temos... o que é curioso é que estas empresas, no Brasil são, em geral, empresas familiares, não existe uma SA [Sociedade Anônima] sequer. 

 

José Eduardo Moniz:  Acho que nós  temos aqui é alguma mistura de conceitos e situações. Porque nós temos, perante como todos nós dissemos, um admirável mundo novo relativamente da televisão, e de fato é. E nós estamos ajudando a transformar a televisão e o mercado todo.  Mas ao mesmo tempo, nós falamos de normas regulatórias que, no seu conjunto ou de uma maneira geral, são aplicadas de acordo com modelos antigos, ou com modelos estáticos. Esta é uma situação grave.  E que em matéria de conteúdo, e portanto em matéria editorial, que é aquela que preocupa enquanto criador de conteúdo, e que nos deve preocupar a todos enquanto produtores ou difusores. Preocupa, de fato, que as regulamentação se possa transformar em dirigismo e que o dirigismo se materialize em condicionamento de atividade e da criatividade e da editorialização dos vários órgãos de informações, quanto mais não seja.  Este fato a mim faz me [?] ... Como nós dizemos em Portugal... E depois há aqui outra questão, que é questão que foi falada, que é de propriedade. Hoje a verdade é que o capital circula. Nós, por exemplo, na União Européia, temos total liberdade de circulação de capital. Portanto, qualquer empresário de qualquer país pode investir no meu ou qualquer empresário do meu pode investir, sem restrições, na Alemanha, França, seja onde for. Agora, isso significa que o que se passa é que grandes grupos de comunicação vão comprando posições nos vários países. E aquilo que sem nós nos darmos conta, a partir de determinada altura no futuro, pode acontecer [gesticulando], é que nós tenhamos uma grande uniformização de conceitos e editoriais, de conceitos de programação, de grades de oferta aos telespectadores.  Pondo em causa, é que o que nós próprios hoje temos aqui a discutir e também discutimos no âmbito do fórum em que participamos todos,daquilo que é a vantagem daquilo que é nosso, da identidade nacional, da cultura própria.

 

Alberto Flaksman: E da manutenção da diversidade.

 

José Eduardo Moniz:  Exatamente, daquilo que nos diferencia perante os outros e que, a mim, me dá tranqüilidade quanto tivermos que enfrentarmos o futuro e todas as formas e tecnologias que você diz que vão acabar com a televisão aberta. Você, Charles, que diz que vai acabar com a televisão aberta, mas eu acho que não vai acabar, porque televisão aberta encontrará formas de subsistência, se obviamente se incrustrar em conceitos que desenvolvam noção daquilo que é próprio.

 

Charles Zamaria: Acho totalmente possível mudar. A pergunta é se eles vão mudar. No Canadá, sofremos muito com isso. Havia muitos canais se adaptando às mudanças e às novas realidades de produção e agora não há. Eles tentam manter os direitos e tudo aquilo que permita controle em vez de desenvolver conteúdo. É preciso ter cuidado. Ao falar de regulamentação, falamos de regulamentação de negócios ou de conteúdo? Ou ambas se misturam? Podemos dizer que quanto mais empresas houver, maior será a diversidade. Isso precisa ser dito a respeito do conteúdo, mas o que aconteceu no Canadá é que estávamos em desenvolvimento. Nós fazemos fronteira com o gigante, com os Estados Unidos, estamos a menos de 50km das maiores comunidades e sempre convivemos com isso.  Somos um país de muita regulamentação.  Isso nos ajudou a produzir nosso próprio conteúdo, para termos voz e independência.  Com a internet, com a tecnologia sem fio, já não existem fronteiras que você possa proteger. Nossa agência de regulamentação simplesmente disse: “Não podemos regulamentar a internet, não podemos regulamentar a tecnologia sem fio”. É impossível. É fisicamente impossível regulamentar isso.  Isso abre um novo paradigma com relação ao conteúdo. Os usuários vão escolher. Podemos colocar outras coisas nas sociedades para garantir que o conteúdo produzido seja intrínseco ao país e reforce sua identidade. Dizer que vamos regulamentar o que se pode ver e usar, não existe mais. Não acho que seja possível. 

 

Paulo Markun:  Muito bem, antes de fazer intervalo, queria deixar claro o seguinte: ainda  no Brasil temos um complicador adicional, que não é permitida entrada de capital estrangeiro, pelo menos oficialmente, em doses maciças, nas emissoras de televisão. Quer dizer, então a competição fica prejudicada na medida em que não é possível entrar um novo investidor e transformar uma televisão que esteja lá em último lugar, em primeiro. 

 

André Mermelstein:  Em 30%.

 

Paulo Markun:  Sim, em 30%, mas primeiro que nenhum, até hoje que se saiba, nenhum desses participantes da televisão aberta têm 30% de capital estrangeiro, que a gente saiba.

 

André Mermelstein: Não.

 

José Eduardo Moniz:  E você acha que um investidor que coloca 30% do capital numa empresa sabendo que não pode controlar a sua atividade? [risos]

 

André Mermelstein: Este é o ponto.

 

Paulo Markun: Este é o ponto, mas nós vamos para o intervalo. A entrevista desta noite também é acompanhada, na platéia, por Tomas Agon, sócio diretor da Módulos locadora e finalizadora na área de vídeos e multimídia, Laine Milan, da TVI Cinema e Televisão, Ronaldo Ruiz, apresentador do programa Você Sabia da AOL TV, e Valter Sales, da TV Sesc.  A gente volta já, já. 

 

Paulo Markun:  Novos formatos, novos conteúdos, o futuro do mercado de vídeo e de programação de TV é o tema do Roda Viva especial desta noite, que debate a tendência do audiovisual. Uma rodada final, um minuto para cada participante, e coloco a questão que é o seguinte: Qual é o principal desafio neste momento?  Por onde que a gente teria que começar se pudesse resolver a questão do audiovisual no nosso planeta?

 

Eric Michel: Primeiro, acho que o Ipod é o futuro da televisão [sorri].  Por isso, vamos manter os nossos empregos.  Falando sério, o grande desafio hoje é a parte econômica da TV.  Em toda a produção para TV e para cinema, porque também trabalho com cinema, é a publicidade.  A distribuição da publicidade ainda é a mesma. Sei que o Brasil é especialista em publicidade.  Vimos que toda empresa tem um setor para isso. É bem especial. No Canadá, nenhuma. O que fazer se precisarmos dividir uma parte bem pequena da distribuição? Uma parte para publicidade em jornais... Todo mundo diz que o jornal está morrendo, mas nunca houve mais jornais do que hoje.  Todos os dias aparece um novo jornal em cada país. O desafio é fazer a parte econômica atuar com o conteúdo. A economia precisa servir ao conteúdo e vice-versa. O segundo desafio, este para os canais públicos, é que é absolutamente necessário que a televisão pública continue viva, porque é a garantia de termos uma voz. Se perdermos a televisão pública, podemos perder tudo. 

 

Ivan Isola: Bom, me parece que o grande desafio é buscarmos formas de associação internacional.  Principalmente para nós, brasileiros, porque é um país continental que, na verdade, tem uma certa propensão a ser um país insular.  Todos nós que operamos com o cinema de estado sabemos que tínhamos, no passado, vários acordos de co-produção e poucas co-produções nós fizemos.

 

Alberto Flaksman: Continua existindo, não é?

 

Ivan Isola: Continua existindo, mas neste momento, exatamente por iniciativas desse tipo, nós começamos a perceber que é possível trocar experiências. Nesta troca de experiências, alargávamos os nossos mercados e enriquecermos as nossas culturas reciprocamente com processo intenso de troca. Acho que esta é uma possibilidade que nós devemos explorar ao máximo para que o nosso conteúdo, com nossas especificidades possa estar fora do Brasil, mas também que nós tenhamos parceria com outras culturas que façam com que este nosso modo de conceber a cultura avance cada vez mais, que é o que ocorre em geral aqui no Brasil.

 

Paulo Markun:  Charles, qual o principal desafio? 

 

Charles Zamaria: Eu diria que o maior desafio é manter a essência, que é contar histórias. O segredo é continuar informando e divertindo em qualquer que seja a mídia.  É interessante dizer que, há três meses, uma das nossas primeiras mídias acabou, o telégrafo. Essa tendência vai continuar.  A televisão não vai acabar, mas vai mudar de objetivo com tudo isso.  Acho importante acompanhar isso e também acho importante, do ponto de vista dos negócios, acompanhar, mas pensando em preços e tudo mais.  A pirataria na música caiu pela primeira vez, porque no iTunes você compra música por 99 centavos. Se todos ajudarem a entender estes questões, teremos mais êxito ao englobar as novas mídias.  Deixará de ser massa para se tornar um nicho. 

 

Michael Thornton: Para os produtores independentes, é dinheiro. Esse sempre foi um desafio e ficará cada vez pior. Como Ivan disse, parcerias estratégias serão fundamentais. Podem ser no setor de filmes independentes, procurando redes internacionais que os financiem dinheiro, porque dinheiro será fundamental para continuarmos a contar histórias, como Charles mencionou.  Para as redes de TV nos Estados Unidos, as redes comerciais maiores, como Charles disse, não há um conflito na questão de imposição do conteúdo, mas a esta altura, é preciso ter cuidado para que as redes não dominem totalmente, fazendo sumir os contadores de histórias independentes.

 

Fernando Dias:  Eu acho que o principal desafio é a questão da gente mudar o modelo de negócio aqui no Brasil da televisão. Eu acho que o momento propício para se discutir a regulamentação, até porque a TV digital é outra televisão. Acho que a televisão analógica está mudando para um outro modelo, porque uma televisão agora vai ter direito a quatro canais. Quem está dando estes quatro canais?  Isto está sendo uma outra concessão que está entrando na esteira de uma outra discussão, então é um momento de se regular essa nova questão.

 

Ivan Isola: A banda é a mesma, é sempre 6 megahertz.

 

Fernando Dias: Tudo bem, mas é outra coisa, você tinha uma bicicleta e agora você tem uma moto ou quatro bicicletas. É uma outra questão que ela merece ser discutida amplamente pela sociedade e não foi.  Acho que tem a questão dos subsídios, sem dúvidas. Subsídio, ele existe no mundo inteiro, tirando Estados Unidos, mas tem outros recursos.

 

Ivan Isola: [interrompendo] Mesmo nos Estados Unidos tem também.

 

Fernando Dias:  Tem também, mas se você pegar na Europa, tem cinco milhões de euros, tem os fundos estaduais, municipais... existe lá uma regulamentação muito forte, até porque entra uma política de próprio governo.

 

José Eduardo Moniz:  [interrompendo] Mas foi por causa disso que, apesar disso, os subsídios, a indústria cinematográfica, por exemplo, ficou em condições de enfrentar a indústria cinematográfica americana, só um parênteses.

 

Fernando Dias: Por isso que eu falo: o subsídio é necessário que faça parte de todo o setor. No Brasil, infelizmente, o subsídio vai só para a produção, ele não coloca a difusão junto com o produtor neste processo, a gente acha que isso é fundamental. Para ter uma idéia, tivemos alguns números da... A Ancine colocou quase R$ 1 bilhão nos últimos anos em produção de cinema. Se tivesse sido colocado na produção de televisão também, de uma maneira adequada, a gente teria, hoje, uma participação muito maior no mercado mundial. E é uma questão de vontade política, né? O que acontece hoje? Você vê, as televisões públicas são com dinheiro estatais ou federais. Você tem... O grande patrocinador hoje do Brasil, ou um dos grandes patrocinadores, é o próprio governo, verbas da Petrobras [empresa estatal, brasileira, de economia mista e que opera nas áreas de exploração, produção e refino de petróleo. Possui um programa de  apoio cultural a projetos brasileiros] e tudo. É uma questão de você chegar e vincular de maneira que contemplem a produção independente.

 

Alberto Flaksman: Eu vou resumir a minha idéia em uma única palavra. O grande desafio  para mim é diversidade. A manutenção da diversidade e o aprofundamento dessa diversidade.  Esta, sinceramente, do meu ponto de vista, é minha preocupação pessoal.  Eu estava comentando aqui no intervalo, talvez porque eu tenha vivido uma experiência, uma experiência, da minha geração, de ter vivido debaixo de uma ditadura e ter censura, imprensa, censura aos meios de comunicação. Então, esta preocupação da diversidade, da democratização dos meios e, principalmente, da possibilidade dos indivíduos poderem pensar, poderem escolher livremente, poderem pensar mais livremente possível e se desenvolverem como indivíduos livres. Acho que os meios de comunicação têm grande responsabilidade nisso, o futuro da televisão também. Eu manifesto uma preocupação muito grande. Claro que não estou dizendo que a concentração no Brasil seja um problema dramático já [gesticulando], não quero fazer disso um discurso paranóico, mas esta é a minha preocupação, quer dizer, o grande desafio é manter esta diversidade a nível mundial. 

 

José Eduardo Moniz:  Já que se falou aqui das motos, das bicicletas, entenda como alta velocidade. Eu, como não tenho qualificação para manobrista, o que sinto é fazer equilibrismo, uma espécie de equilibrista entre um futuro que é incerto e um presente que é muito instável.  E por isso acho que nós não devemos dar passos mais largos do que aquilo que nossas pernas permitam.  Nestas condições, acho que é fundamental continuar a tratar o público como ele de fato é, como aquilo que ela é, da razão de ser da existência. É cuidar da liberdade do mercado, do ponto de vista empresarial, comercial e editorial em plena diversidade para que aquilo que é identidade própria de cada país, no qual os operadores e produtores funcionam, com consciência de que as novas gerações de hoje são gerações que vão mandar amanhã.  Intermediarmos o melhor que podemos e sabemos, em obediência a um princípio básico: O da qualidade. Seja no jornalismo, dramaturgia... seja a que nível for.

 

André Mermelstein:  Acho que o grande desafio da mídia no mundo é, em primeiro lugar, entender o que é o digital, no sentido mais amplo. Quer dizer, o fato do mundo estar se tornando digital, e hoje praticamente tudo o que a gente pode chamar de conteúdo, sejam imagens, seja televisão, seja foto, seja música, está se tornando digital. Isso vai trazer mudanças enormes nos modelos de negócios. Acho que o grande desafio é, evidentemente, ninguém sabe como vai ser 2007 ou 2010, mas é evidente que este cenário vai mudar muito. Ele vai trazer grandes transformações. Acho que o grande desafio é estar alerta e perceber como os negócios serão afetados por isso, e os negócios sendo afetados, evidentemente, afeta toda cadeia que vai desde o produtor até o objetivo final, como já se disse aqui, que é o expectador. 

 

Paulo Markun: Ok, André. Bom, eu queria deixar claro aqui, se é que a minha participação é permitida [sorri], que eu acho que o grande desafio no caso aqui do Roda Viva é simplesmente manter o programa com a qualidade que existe há vinte anos. Eu sou apresentador do programa há oito anos e diretor há um ano e tenho maior orgulho do produto que é feito aqui por uma razão: ele não é um produto individual feito por uma cabeça nem por meia dúzia de iluminados. Ele é resultado de 1.500 pessoas que passaram, como quem está hoje aqui debatendo e discutindo uma questão, sempre ou quase sempre com um entrevistado no centro e com a maior diversidade possível de temas e de personagens. Sempre que tenho algo a dizer de relevante, que a gente considere relevante para a sociedade brasileira. Nesse sentido que a gente trouxe esta discussão e este debate. Eu creio que se pudesse ou precisasse representar aqui os interesses das emissoras públicas educativas e culturais, diria que o primeiro passo que o Brasil poderia fazer, que o governo federal poderia fazer era dar a publicidade proporcional à audiência da emissora. As emissoras desse segmento, que obviamente trafega em outro caminho que não da TV comercial, representam algo como 5% da audiência nacional. E tem 0,5% dos recursos. Independentemente disso, nós vamos continuar fazendo o que sempre foi feito aqui no Roda Viva, que se aproxima dos 20 anos. É por isso que acho que este debate, de alguma forma, lançou luzes, aí, sobre a questão. Não se chegou a uma conclusão definitiva, nem era esta a intenção, mas de alguma forma se permitiu, durante uma hora e meia, um tema que poucas vezes aparece na televisão brasileira.  Queria agradecer aos nossos entrevistadores, aos nossos debatedores, e a você, que está em casa, convidar para estar aqui na próxima segunda-feira para mais um Roda Viva.  Uma ótima semana e até segunda.

 

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