Memória Roda Viva

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Maguito Vilela

13/1/1997

O então governador de Goiás explica por que é contra a reeleição e fala dos programas sociais que empreendeu em seu estado e que elevaram seu índice de aprovação pela população

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[Programa ao vivo]

Matinas Suzuki: Boa noite, ele é o governador com melhor índice de aprovação do país. No centro do Roda Viva, está Maguito Vilela, governador de Goiás.   

[Comentarista]: Ele é o primeiro entre os governadores pesquisados pelo Datafolha, e considerado pelo PMDB como candidato natural do partido a um segundo mandato, caso o Congresso aprove a emenda da reeleição. Seu índice de aprovação popular é de 72% entre ótimo e bom, e isso o coloca na liderança da pesquisa Datafolha feita no mês passado nos 12 principais estados brasileiros. Mas aos 47 anos, Maguito Vilela garante que seu projeto é disputar o Senado em 1998 [eleito em 1998, cumpriu mandato até 2006]. Formado em direito, casado, dois filhos, Luiz Alberto Maguito Vilela nasceu em Jataí, interior de Goiás, e foi vereador, deputado estatal e vice-governador, antes de chegar ao governo do estado há dois anos. Maguito se elegeu no segundo turno com 56% dos votos e ganhou projeção nacional ao implantar um maciço programa de combate à fome, que distribui 150 mil cestas de alimentos e noventa mil litros de leite por mês. Veja outros números exibidos pelo governador: Goiás tem uma taxa de crescimento 70% acima da média nacional, é considerado um dos cinco estados mais seguros do país, e a qualidade de ensino subiu do 21º para o 7º lugar no Brasil. Os partidários de Maguito Vilela vêm trabalhando pela aprovação da reeleição em todos os níveis, mas foram vencidos na Convenção Nacional do PMDB em Brasília ontem, quando o partido se colocou contra a emenda que favorece o presidente Fernando Henrique Cardoso.

Matinas Suzuki: Para entrevistar esta noite o governador Maguito Vilela, nós convidamos o Fábio Pannunzio, do Canal Rural da Rede Brasil Sul de Televisão; o analista político Luiz Felipe D’Avila, que é diretor da revista República; Mônica Teixeira, editora-chefe do programa SBT Repórter; Maurício Stycer , repórter da Folha de S.Paulo; Enio Lucciola, chefe de reportagem da TV Cultura; Igor Fuser, editor de nacional da revista Veja, e Marco Damiani, chefe da sucursal de São Paulo da revista Manchete. O Roda Viva é transmitido em rede nacional com 150 emissoras de 21 estados brasileiros. Este programa está sendo transmitido ao vivo, depois de um bom tempo com programas gravados, então nós estaremos hoje aqui recebendo as suas perguntas, e a sua participação pelo telefone 252-6525. Ou se você preferir enviar o seu fax com a pergunta aqui para o governador de Goiás, use o número: 874-3454. Boa noite, governador.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Boa noite.

Matinas Suzuki: Governador, nós vamos ter muito tempo para falar sobre os seus expressivos índices de aprovação, mas nós estamos vivendo uma semana política decisiva no Brasil. E o partido do senhor, o PMDB, está no centro das atenções do debate político nacional. Como o senhor avalia a decisão do seu partido de tirar uma posição contra a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso?

Luiz Alberto Maguito Vilela: É lógico que o PMDB, como o maior partido do Brasil, e com uma responsabilidade muito grande, quis fazer essa convenção para avaliar o que pensam os convencionais, os pemedebistas de todo o Brasil. E ,naturalmente, que isso é importante para os líderes, como para toda a classe política, saber o que pensa, o que pensa a militância do PMDB. E foi isso que aconteceu, foi o aferimento de posições.

Matinas Suzuki: Parece que o resultado pegou muito a liderança do PMDB de calças curtas, ou seja, há uma ala do partido que contava com pelo menos a liberação dos congressistas do PMDB sem uma posição formal do partido com relação à reeleição. O que houve nesse bastidor? O partido está dividido? Como estão as coisas?

Luiz Alberto Maguito Vilela: É interessante. O PMDB sempre, aparentemente, ficou dividido em algumas questões, mas isso só aparentemente, porque na realidade o PMDB, no momento das grandes decisões, se une. O PMDB é uma grande frente, nunca deixou de ser uma grande frente, com pensamentos diferentes. O PMDB tem, da esquerda à direita, segmentos interessantes; em cada estado do Brasil, tem características diferentes de um estado para o outro, lideranças diferentes também, que pensam diferente, de um estado para o outro. Então o PMDB é imprevisível nas suas definições, mas sempre está colaborando para o encaminhamento da solução dos principais problemas do Brasil. Foi o PMDB que levantou as grandes bandeiras deste país e fez com que a redemocratização acontecesse. De forma que o PMDB é esse partido enraizado na sociedade brasileira, um partido com muita responsabilidade, e na hora  H ele sabe realmente como se conduzir.

Igor Fuser: Governador, da maneira como o senhor coloca, como o senhor se refere à convenção do seu partido, o PMDB, a impressão que eu fiquei é de que o senhor estivesse falando assim, como se fosse uma pesquisa eleitoral...

Luiz Alberto Maguito Vilela: Exatamente.

Igor Fuser: ... uma coisa sem validade nenhuma. Agora estamos falando de uma convenção nacional do maior partido brasileiro que aprovou uma posição claramente contrária à reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, com uma recomendação muito forte aos seus deputados para que votem contra. Quer dizer, o senhor, pelo que parece, tem uma posição diferente, ou defende a reeleição do presidente da República?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Pelo contrário. Toda vida fui contra, sou contra, votei contra ontem na convenção. Eu sempre fui muito claro nas minhas posições, nunca defendi a reeleição. Pelo contrário, os meus princípios não me permitem defender reeleição, nem a minha e nem a de ninguém, já na metade do mandato.

Igor Fuser: É que a maneira como o senhor se referiu à convenção, uma coisa quase como uma pesquisa, me pareceu o contrário.

Luiz Alberto Maguito Vilela: O país está aí próximo de grandes decisões, de grandes definições. E o partido do PMDB, como o maior do Brasil, ele tinha que se reunir, realmente, para mostrar o posicionamento da militância, dos convencionais. É importante os deputados federais saberem, os senadores saberem qual é o pensamento da maioria do partido...

Matinas Suzuki: [interrompendo] O senhor é a favor do afastamento do PMBD...

Luiz Alberto Maguito Vilela: ... [ignorando a pergunta de Matinas] ... até para nortear o partido nas votações. Agora, é lógico que essa votação, essa convenção, não tem caráter oficial, é um caráter oficioso, até porque esse é um problema estritamente do Congresso Nacional, da Câmara Federal e do Senado. Os convencionais não votam a emenda constitucional, quem vota são os deputados federais e os senadores. Portanto, a convenção era apenas um motivo para reunir o partido, e lá estavam pemedebistas de todos os estados brasileiros para ver o que as bases do partido estão pensando dessas definições que o Congresso terá que fazer.

Enio Lucciola: Governador, no sábado à noite, o senhor esteve jantando com o presidente Fernando Henrique e com os outros governadores do PMDB. Hoje, depois já dessa convenção, o presidente se reuniu de novo com lideranças do PMDB, e os jornais todos trazem o relato de que o presidente considerou o resultado dessa convenção um rompimento. O PMDB tem quatro ministros no governo e consta que tem mais ou menos cerca de seiscentos cargos de segundo e terceiro escalão. O PMDB vai para a oposição ou o PMDB continua no governo?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Bem, Enio, eu acho que o partido tem que pensar na nação, tem que pensar no futuro deste país e do povo, ele não pode pensar em cargos. Aliás, os cargos de ministros que muitos pensam que o PMDB tem, na realidade esses ministros foram escolhidos pelo presidente, eles não foram escolhidos pelo partido, eles não foram escolhidos pelo PMDB, e eles estão para servir a nação. Não estão lá para conduzir os pemedebistas a esta ou àquela votação; o partido tem que ter esta responsabilidade de fazer com que encontremos os melhores caminhos para o Brasil.

Enio Lucciola: O partido, tendo quatro ministros, tem uma participação importante no governo, o senhor não pode ignorar isso. Então, o senhor acha que não tem problema, que o presidente pode considerar realmente um rompimento e tudo bem?

Luiz Alberto Maguito Vilela: De maneira nenhuma. Aliás o presidente não tem esse direito, o PMDB sempre foi fiel, sempre aprovou as matérias do presidente, por entendê-las importantes para a nação. Quer dizer, o PMDB sempre confiou no presidente. Agora existe, e eu não posso negar isso, até porque sou um político que procuro ser o mais transparente possível, o PMDB desconfia de alguns setores do governo que estão claramente tentando torpedear a candidatura do senador Iris Rezende Machado que tem o apoio unânime do partido hoje, além do partido...

Matinas Suzuki: [interrompendo] Se o presidente Fernando Henrique tivesse publicamente manifestado o seu apoio à candidatura do senador Iris, o senhor manteria a sua posição?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não, de maneira nenhuma, a questão não é essa. Até porque o PMDB não quer e nunca pediu o apoio do presidente Fernando Henrique para o pleito de Iris Rezende  à presidência do Senado. O que o PMDB quer e exige é a neutralidade do presidente, simplesmente a neutralidade.

Matinas Suzuki: Mas se ele ficasse neutro, pelo menos, isso mudaria a posição do PMDB?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não, de maneira nenhuma, não mudaria. Como ninguém sabe qual será a posição dos deputados e senadores do PMDB, de repente os convencionais optaram pelo não à reeleição, mas os deputados federais e senadores, que são detentores de mandato e que têm legitimidade, podem optar pelo sim. De forma que essa decisão não é uma decisão do Congresso Nacional, essa foi uma decisão das bases do partido.

Luiz Felipe D’Ávila: Mas, governador, como o senhor bem disse, o partido está muito dividido em torno da questão, e ontem ficou clara uma outra coisa, que parecia que se o governo tivesse apoiado explicitamente a candidatura à presidência do Senado de Iris Rezende  e de Michel Temer, se tivesse fechado um apoio do Palácio do Planalto a essas duas candidaturas, a convenção do PMDB votaria a favor da reeleição. Foi isso o que passou ontem e que ainda está no ar. Inclusive hoje as lideranças do PFL e do PSDB acusavam o PMDB de tentar colocar o governo contra a parede, para apoiar essas duas candidaturas a fim de trocar pelo apoio a Iris Rezende e a Michel Temer a aprovação da reeleição.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não, de maneira nenhuma. E o PMDB não está dividido nessas questões. O partido está unânime com a candidatura de Iris Rezende à presidência do Senado e unânime com Michel Temer para a presidência da Câmara. É um direito do PMDB buscar essas presidências, é o maior partido do Brasil, tem o maior número de deputados federais, tem o maior número de deputados estaduais, prefeitos, vereadores; o maior número de senadores, exceto nos últimos dias, em função de mudanças. Mas o partido tem legitimidade e está buscando isso como forma de ajudar o Brasil. E nós entendemos que o Iris na presidência do Senado vai ajudar muito o país a encontrar novos rumos, e Michel Temer [também], são dois políticos excepcionais, de muito conceito e que têm liderança dentro do partido. É um direito do partido buscar a presidência das duas casas.

Luiz Felipe D’Ávila: Mas o senhor acha que se o PMDB não participa desse bloco governista não deveria chegar a um acordo com outros partidos que formam a coligação do governo, especialmente em ocupar dois cargos estratégicos, como a presidência da Câmara e do Senado?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Lógico que poderia ter buscado o acordo, mas ninguém falou em acordo. De repente o Iris saiu candidato pelo PMDB, e de repente o PFL já lança candidato também, o Michel Temer saiu candidato pelo PMDB, o PSDB lançou o candidato, o PFL fala também em lançar candidato, o que é um direito também, nós não podemos tirar o direito desses partidos de querer buscar o poder para dar a sua contribuição. Agora o que o PMDB censura é realmente a intromissão de alguns ministros nos problemas da Câmara e do Senado.

Matinas Suzuki: Quais ministros?

Luiz Alberto Maguito Vilela: A imprensa já noticiou, vocês sabem mais do que eu quais são os ministros que estão interferindo.

Maurício Stycer: O senhor está falando de um ministro que inclusive pertence ao seu partido, o ministro da Coordenação Política, é isso, Luiz Carlos Santos?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Eu não sei, são alguns ministros, o próprio líder do presidente do Senado fez gestões. E eu acho que eles não podiam fazer isso, principalmente com o Iris que foi e é o presidente da Comissão de Constituição e Justiça, e sempre foi muito leal ao presidente e ao país, sempre se conduziu com o maior esmero, com o maior decoro. De forma que nós entendemos que essa intromissão é indevida. E eu acho que o poder legislativo não deve aceitar intromissão do poder executivo. O problema é exclusivamente do legislativo.

Maurício Stycer: Consta que nesse jantar de anteontem dos governadores com o presidente, os governadores reclamaram explicitamente do ministro Sérgio Motta estar se intrometendo na eleição à presidência do Senado. O que o presidente respondeu?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Olha, de repente, se tivesse até sido uma intromissão sadia, tudo bem, mas dizendo que a candidatura do Iris era apenas uma fantasia, que ele iria era ser ministro, enfim, subestimando a candidatura de Iris e do PMDB, isso foi e é inaceitável para o partido.

Mônica Teixeira: O senhor diria que o PMDB deu uma lição ao governo? Porque o governo contava com essa aprovação, não contava?

Luiz Alberto Maguito Vilela: O PMDB mostrou, ao longo do tempo, fidelidade ao presidente e ao país, e está a exigir, pelo menos, uma consideração para com o partido.

Enio Lucciola: Qual foi a reação do presidente a essa colocação dos governadores?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Ele achou também que estava errado, mas o problema não é só achar, o problema é frear esses ataques às nossas candidaturas, porque eu sou governador, secretário nenhum fala contra a minha vontade ou contra as minhas posições, e se falar tem que entregar o cargo, porque a equipe tem que estar afinada, tem que ser harmônica. E o que entendeu o PMDB? É que na primeira manifestação de um ministro, ou de outro, ou de um líder, teria que haver um basta e não houve esse basta.

Fábio Pannunzio: Governador, em 1988, quando o senhor era constituinte, houve um governador, por coincidência, um governador do PMDB, que era Carlos Bezerra, do Mato Grosso, que se colocou frontalmente contra o quinto ano do mandato do ex-presidente [José] Sarney. No contexto do partido, ele ficou muito exposto e acabou pagando muito caro por isso, porque passou o resto do tempo que tinha no governo, denunciando que estava sendo sabotado, que o governo federal não mandava mais recurso, o senhor se lembra bem disso, não se lembra? O senhor não teme que essa posição possa reverter contra a sua administração em Goiás? O senhor não teme o peso da caneta?

Luiz Alberto Maguito Vilela: De maneira nenhuma, eu entendo que o presidente Fernando Henrique é um homem de outra extirpe política, não é homem de perseguir, não é homem de guardar rancor, de guardar mágoa. E nós temos um tratamento muito respeitoso, o presidente tem tido um carinho especial para com Goiás, e o estado tem também retribuído isso ao presidente, nós temos uma excelente convivência. Eu acho, acho não, tenho certeza, é um dos melhores presidentes que o Brasil teve, principalmente nos últimos anos, e não acredito nisso, ele respeita a minha posição, eu já disse isso a ele. Por questões de princípios, eu não defendo a reeleição. Aliás até defendo o instituto da reeleição para os próximos prefeitos, governadores e para o próximo presidente eleito já, com o povo sabendo que está elegendo com a possibilidade de reeleição. Então eu já disse isso e o presidente respeitou. Agora eu não estou interferindo nem forçando deputados federais nem senadores a votarem de acordo com o meu pensamento, com a minha posição.

Fábio Pannunzio: O senhor tem sustentado essa sua tese ao longo de muito tempo. Acontece o seguinte. Quando o senhor foi lançado candidato, a imprensa, os próprios políticos goianos o apresentavam como apadrinhado do hoje senador Iris Rezende. E hoje o senador Iris Rezende já lançou a sua candidatura à reeleição, mesmo com o senhor contrário, em tese. Como é essa confusão? Quem é o candidato a Goiás?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Eu e o Iris temos uma afinidade política muito grande e uma amizade assim inseparável. Eu fui líder dele na Assembléia Legislativa, na Câmara Federal tivemos um contato muito permanente, eu como deputado federal, ele como ministro da agricultura. Depois fui o vice governador dele durante os quatro anos do seu segundo governo e fui lançado candidato a governador por ele. De forma que ele é um grande líder lá em Goiás, pensa que... Mas eu, na realidade, mesmo passando a reeleição, eu não pretendo me candidatar à reeleição, até porque eu já disputei cinco eleições: de vereador, de [deputado] estadual, de [deputado] federal, de vice governador e de governador. Eu já disputei cinco eleições, sem repetir cargo algum e não pretendo repetir. Se for me dado a oportunidade de disputar o Senado, eu pretendo contribuir com o crescimento do meu estado lá no Senado Federal; mas se não, também não tenho apego ao poder, vou tranquilamente para a vida particular, continuar contribuindo com o estado e com o país.

Mônica Teixeira: Mas esses seus índices de aprovação não o recomendam para um novo cargo eletivo? O senhor tem altos índices de aprovação, no seu estado o presidente Fernando Henrique Cardoso tem um alto índice de aprovação também, e na prefeitura de Goiânia também os índices de aprovação do Darci Accorsi do PT também são muito altos. Isso tudo junto não é muito bom para a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Sim, Mônica, esses índices, tanto os meus quanto os do presidente, poderão ser também atingidos, alcançados por outros candidatos ou por outros governantes, ninguém é insubstituível. Não é só o presidente o único capaz de governar bem o Brasil, e não é o Maguito Vilela o único a governar bem Goiás. Quer dizer, nós podemos inclusive ter as nossas marcas superadas por outros eventuais governantes.

Marco Damiani: O governo como um todo, e o presidente da República em particular, colocam a questão da reeleição como importante para a manutenção da estabilidade econômica. O país vive agora um momento atípico de sua história em razão da inflação próxima a zero, como não acontecia há muito tempo. A decisão de ontem do PMDB me parece a semente de uma crise econômica pela frente, de uma crise política também. Quando a inflação voltar, se a reeleição for derrotada, qual o senhor acha que deve ser a desculpa do PMDB: “Não, queríamos isso e tal...”. Quando o imbróglio já tiver colocado, e o "caldo de novo desandar",  o que o senhor acha que o PMDB vai dizer à nação por não topar, neste momento, oferecer a chance para o presidente se recandidatar?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Eu acho que o PMDB não tem bola de cristal e muito menos varinha de condão. Ele tem o direito de ter posições e, naturalmente, o país não vai desandar em função das posições do PMDB. De repente a inflação pode voltar sem essa posição do PMDB, como também pode, naturalmente, continuar nos níveis suportáveis de hoje, com o PMDB contra a reeleição. Eu acho que nada tem a ver uma coisa com a outra.

Marco Damiani: Sem a reeleição, o governo acaba no dia seguinte. E a oposição já começa, o senhor não acha?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Por quê? A inflação caiu em qual governo? Quem governava o Brasil? Foi Itamar Franco, o Fernando Henrique era ministro da Fazenda. De repente amanhã pode ter um outro ministro presidente e continuar a mesma política.

Enio Lucciola: Governador, o senhor acha que o plebiscito é uma boa saída para esse impasse em torno da reeleição?

Luiz Alberto Maguito Vilela: É lógico que o plebiscito é importantíssimo, é válido, é ouvir diretamente o povo, porém, a meu ver, enfraquece muito a instituição Congresso, Senado e Câmara. É lógico, se for preciso recorrer ao povo, é uma demonstração de fraqueza da Câmara Federal e do Senado. Porque os senadores e deputados federais já têm procuração para votar questões como essa da emenda constitucional. O povo já delegou poderes ao Congresso, por que agora voltar novamente ao povo?

Marco Damiani: Mas o plebiscito está na Constituição, é uma prática democrática em muitos países. Muitos pensam que quanto mais plebiscito, melhores as chances de democracia. Agora,  dizer que é enfraquecimento do Congresso...

Luiz Alberto Maguito Vilela: Exatamente. Mas quando há dúvida. De repente, se não houver dúvida nenhuma por parte do Congresso, e acredito que não há dúvida em votar a favor ou contra, se houvesse uma dúvida muito grande, aí sim, acho que deveria recorrer ao povo que é...

Marco Damiani: As mesmas pesquisas que o colocam como governador mais popular do país, hoje, também indicam que o público quer a reeleição. Ou seja, está havendo, neste momento, me parece, uma dicotomia, uma briga de pensamentos entre o público em geral e o Congresso em particular, não lhe parece?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não, de maneira nenhuma. Eu acho que o povo, inclusive, deve ficar satisfeito com o presidente que tem, com os governadores que tem, mas nem por isso tem o direito de exigir reeleição. É como eu já disse, nós poderemos inclusive ter novos governantes com índices maiores que os atuais.

Luiz Felipe D’Ávila: O senhor não acha que o povo tem o direito de exigir a reeleição?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Luiz, tem, mas não está a exigir reeleição.

Luiz Felipe D’Ávila: Está exigindo, através de todas as pesquisas.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não existe indicador nenhum neste país... Existe indicador de que o presidente está satisfazendo a nação, de que o presidente caminha no rumo certo, de que o presidente tem credibilidade, de que está dando credibilidade ao país lá no exterior. Tudo isso tem, mas não existem indicadores de que o povo quer a reeleição de todos nós.

Luiz Felipe D’Ávila: Duas pesquisas concomitantes foram feitas. A primeira pergunta se o presidente Fernando Henrique é um governo popular ou não, se tem uma grande aceitação. Diz que tem uma grande aceitação. E a segunda questão é se aprovaria a reeleição e se a reeleição valeria para este governo. E mesmo nessa pesquisa, a opinião pública indica um apoio maciço à tese da reeleição, que parece que hoje não reflete o interesse do Congresso Nacional. Há hoje uma divergência entre a maneira que o Congresso está se portando e as pesquisas de opinião pública que indicam a aprovação da emenda da reeleição, já valendo para o presidente Fernando Henrique. Como o senhor vê essa divergência entre Congresso Nacional e opinião pública numa questão crucial que pode mudar o quadro político partidário no país?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Na realidade, o Congresso Nacional ainda não se manifestou, o Congresso Nacional não votou a emenda, então nós não podemos antecipar aí a decisão do Congresso, que poderá ser a favor ou contra, de forma que o Congresso não se manifestou...

[sobreposição de vozes]

Igor Fuser: Essa coisa das pesquisas eu acho muito relativa, não acredito que pesquisa de opinião pública – acho que o senhor vai concordar comigo –  seja um mecanismo conclusivo o suficiente para você aferir a vontade popular.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Ela reflete o momento.

Igor Fuser: Nesse caso, essa própria dúvida que a gente está tratando aqui e que se reflete no Congresso Nacional não poderia ser resolvida da melhor maneira através de um plebiscito? Quer dizer, pesquisa é muito relativo, uma pesquisa pode ser manipulada, uma pesquisa é um instrumento muito fluido para você saber o que o povo realmente quer. Já o plebiscito é concreto, as pessoas são chamadas às urnas, há uma campanha, os argumentos pró e contra são expressos de uma forma clara para o conjunto da população que, aí sim, pode opinar de uma forma efetiva. Existe uma dúvida no Congresso Nacional, existe uma questão, um debate, que permeia a imprensa; parece-me muito difícil uma outra maneira de resolver essa questão melhor do que com o plebiscito.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Você está ajudando o meu raciocínio, a pesquisa reflete o momento. Nós já tivemos presidente da República com pesquisas com índices maiores do que o atual e de repente desabou nas pesquisas. Então, a pesquisa reflete o momento. Hoje, as pesquisas indicam que os governadores estão correspondendo à expectativa do povo, o presidente corresponde aos anseios da nação, mas de repente daqui um mês pode ser totalmente diferente. Então, não podemos votar em função de pesquisa, nós temos que votar... Realmente porque, olha, veja você. O Brasil está, hoje, consolidado com relação a sua economia: está estabilizada, a inflação reduziu-se a quase zero, mas um país precisa também da estabilidade política. Nós tivemos há pouco tempo um presidente que tinha seis, e que o Congresso queria quatro, que aconteceu cinco, de repente vem um que quer reeleição, amanhã é outro que quer oito anos. Não é assim! Eu acho que o país precisa de estabilidade política. A credibilidade do Brasil lá fora é em função da estabilidade econômica, mas é muito mais em função da estabilidade política. E precisa parar com esse negócio de estar mudando as regras a cada partida; a cada partida no Brasil mudam-se as regras, precisa ter mais estabilidade.

Mônica Teixeira: O senhor diria que a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, dos governadores e dos prefeitos, é um casuísmo?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Eu diria: é um casuísmo sim. Porque agora, já vencida a metade do mandato, porque estamos com índices extraordinários, vai ter reeleição. É casuísmo.

Mônica Teixeira: E a proposta do plebiscito da parte do presidente da República é casuísmo?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Por que não se votou a reeleição no período constituinte? Era o momento apropriadíssimo, por que não se votou naquele momento? Por que agora, de repente?

[sobreposição de vozes]

Luiz Alberto Maguito Vilela: Só um minuto. Só para completar. Por que não votar para os próximos? O Brasil demonstra maturidade, estabilidade política e confiança nos homens públicos do Brasil. Porque não somos só nós, hoje, governadores, prefeitos e presidentes, que somos capazes de governar bem, não, este país tem 150 milhões de habitantes.

Fábio Pannunzio: O senhor se lembra da posição do então senador Fernando Henrique durante a Constituinte sobre esse tema?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Era contrário, não é?.

Fábio Pannunzio: Por que o senhor acha que mudou?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não sei. [risos]

Mônica Teixeira: E, em relação ao plebiscito, o que o senhor acha que mudou?

Enio Lucciola: Governador, eu queria saber o seguinte: é uma questão de princípio, é uma questão fechada para o senhor, como liderança do PMDB, ou o senhor acha que é possível ainda um acordo entre o governo e o PMDB, que deu uma demonstração de força?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Bem, Enio, é lógico que política é a arte de conversar, de dialogar, de procurar o melhor caminho. Eu já inclusive disse, eu já me manifestei desde o primeiro minuto contra a reeleição, mas eu não estou aí a torpedear a reeleição. Eu não sou o dono da verdade, de repente o país quer, paciência.

Luiz Felipe D’Ávila: Governador, eu acho que essa pergunta da reeleição, a vontade do PMDB e da opinião pública, eu fiz essa pergunta porque eu acho que ela reflete em outros aspectos da vida política partidária. Por exemplo, o Senado, um lugar que o senhor gostaria de disputar a próxima eleição e talvez chegar lá. O Senado deveria ser, teoricamente, a Câmara que representa a voz dos estados na elaboração da política federal. Se isso fosse verdade na prática, as reformas constitucionais já teriam sido aprovadas, porque todos os governadores reclamam pela reforma administrativa, previdenciária e tributária. Ora, o Senado não está ajudando a aprovar essas reformas no ritmo que os governadores almejam. Portanto o Senado...

Luiz Alberto Maguito Vilela: [interrompendo] Que o povo almeja.

Luiz Felipe D’Ávila: Que o povo e os governadores, porque eu estou dizendo que o Senado é essa Câmara que representa o interesse dos estados na elaboração da política nacional. Então, não vemos aí um pouco dessa instituição Congresso Nacional, demorando muito para responder às pressões da sociedade? E isso acaba desgastando a credibilidade política das instituições?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Você tem plena razão, hoje o mundo mudou, o Brasil também mudou, os estados estão mudando, e o Congresso, o Senado, a Câmara também têm que mudar, têm que ser mais ágeis. A vida hoje nem é dinâmica, ela é supersônica, e realmente o Senado, o Congresso estão morosos demais. Essas reformas são [importantes]. É muito mais importante para o Brasil hoje a reforma tributária, administrativa, a reforma fiscal, a reforma previdenciária, tudo isso é muito mais importante do que a reeleição. Então, eu acho que o Congresso, Senado, Câmara deveriam se debruçar diante dessas reformas, realmente atender a esse apelo popular, esse apelo dos governantes, no sentido de votar rapidamente essas reformas. Você está coberto de razões, e eu acho que as reformas hoje são muito mais importantes para o país e para o povo do que o problema da reeleição.

Matinas Suzuki: Governador, ainda sobre o tema, o que o senhor acha que vai acontecer amanhã? Parece que o governo está decidido a levar à votação na comissão. O senhor tem algum prognóstico? Para que lado o PMDB vai, que é o fiel da balança?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não interessa ao governo, não interessa ao PMDB e não interessa ao Brasil radicalização de parte nenhuma. Eu acho que nós precisamos encontrar o caminho que leve o país a um porto seguro. De repente, se o PMDB desconfia do governo, o governo desconfia do PMDB, aí as coisas começam a complicar.

Luiz Felipe D’Ávila: Eu gostaria de voltar a essa questão que eu falei sobre as instituições representativas pelo seguinte: o senhor conseguiu enxugar a folha do funcionalismo público no seu estado, reduzir, parece, de 83% para 63% do gasto com a folha do seu orçamento. Isso é uma lição para outros governantes que reclamam que não podem realizar a reforma administrativa em seus estados por causa de empecilhos constitucionais. Como o senhor conseguiu enxugar a folha do funcionalismo público em Goiás sem esbarrar em atos inconstitucionais?

Luiz Alberto Maguito Vilela: É lógico que todos os governantes, com a reforma administrativa, teriam as suas ações facilitadas. Mas eu quero levar ao seu conhecimento, como ao resto da nação, que todos os governadores cortaram, enxugaram; talvez nunca na história do Brasil os governadores de todos os estados cortaram tantos gastos quanto os atuais. Eu posso responder, eu eliminei muitos órgãos, muitas diretorias, eliminei muitas empresas deficitárias; não privatizando, mas liquidando, porque elas não tinham atração nenhuma para investimentos, para privatizações. Fizemos um enxugamento realmente muito grande na máquina do estado, acabando com cargos comissionados.

Luiz Felipe D’Ávila: Quantos cargos o senhor eliminou?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Nós eliminamos aí em torno de duzentos cargos de grande expressão no estado, além de secretarias, de diretorias, vice-presidências. Todas as empresas tinham vice-presidências, nós eliminamos todas essas empresas, transformamos algumas empresas em autarquias; fizemos fusões de empresas como Igope [Instituto Goiano de Pesquisa Econômica] e Emater [Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural], uma é de pesquisa a e outra é extensão rural, fundimos em uma só. Enfim, nós procuramos com muita criatividade, com muita determinação, modernizar a máquina, fazendo esses enxugamentos. E continuamos ainda com os enxugamentos, porque não é em apenas dois anos que você vai realmente afinar o estado. Demora às vezes três ou quatro anos.

Enio Lucciola: Governador, essa eleição municipal que a gente acabou de ter agora, no fim do ano passado, mostrou, na maioria dos municípios, especialmente das capitais, uma predominância, uma linha de continuidade das administrações, a população votando na continuidade do trabalho da maioria dos prefeitos. Isso é até um fenômeno interessante, independente dos partidos que estivessem no poder. O senhor acha que há uma nova forma de se fazer política no Brasil? O senhor se sente, de alguma forma, uma das pessoas que faz parte dessa nova forma? Como o senhor interpreta esse fenômeno? O que está mudando na forma de se fazer política no Brasil? Ou não, isso aí é uma interpretação que não tem nada a ver?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não, Enio, a sua interpretação é correta, isso é porque o povo, com a seqüência de eleições, passou a exigir mais, passou a conhecer melhor a classe política, os governantes, se interessou mais pela política e de repente está escolhendo, está escolhendo bem. Veja você que nós temos aí uma safra de bons governadores, prefeitos também; essa continuidade administrativa é importante, mas a continuidade administrativa não quer dizer que seja com os mesmos figurantes. A política tem que ser estável, quer dizer, de repente eu estou governando com um objetivo e outro vem seguindo o mesmo objetivo. Eu acho que o presidente da República vai muito bem, a equipe dele é muito boa, é preparada, é conseqüente, sabe o que quer, onde quer chegar; de repente o país está realmente mudando, isso ninguém pode negar. Agora o que eu entendo é que outros vão dar continuidade, vão dar seqüência.

[sobreposição de vozes]

Fábio Pannunzio: Matinas, me permita só essa [pergunta] para pegar esse gancho? O senhor disse o seguinte: “O povo escolheu bem nessa eleição”. Então eu quero saber do senhor – não é provocação, nem quero construir um sofisma – se andou mal acompanhando nessa eleição, porque os seus candidatos perderam nas cidades principais de Goiás: Anápolis, Itumbiara, Jataí, se não me engano, Rio Verde.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Jataí não.

Fábio Pannunzio: Mas o senhor tomou uma lavada nessa eleição. O que aconteceu?

Matinas Suzuki: Governador, se o senhor me permite, o Jorge Talebi, que é jornalista lá de Goiânia, da sua cidade, faz essa pergunta também: “Como o senhor explica a derrota do seu candidato à prefeitura de Goiânia?”.

Luiz Alberto Maguito Vilela: O candidato que venceu em Goiânia, a origem dele é PMDB, ele foi eleito duas vezes prefeito pelo PMDB e o deputado federal mais votado de Goiás pelo PMDB. Então quem o elegeu não foi a oposição não, foi o próprio PMDB, porque ele teve muitos votos no PMDB e a origem dele é PMDB, não tem nada a ver com a oposição. Ele não fala a mesma língua da oposição em Goiás não, ele fala a língua do PMDB, e é por isso que ele conseguiu essa eleição, é justamente pela história dele, é pelo passado dele. E pelo PMDB, teve apoio e fez boas administrações, por isso é que venceu.

Matinas Suzuki: Nós vamos agora – eu sei que o assunto está quente – fazer um rápido intervalinho, e a gente volta daqui a pouco com o segundo tempo da entrevista com o governador de Goiás, até já.

[intervalo]

Matinas Suzuki: Nós voltamos com o Roda Viva que entrevista esta noite o governador de Goiás, Maguito Vilela. Vamos falar um pouco de Goiás e de Goiânia. Daniel Ribeiro, de Pindamonhangaba, aqui no estado de São Paulo, pergunta o que foi feito na capital – não sei se foi mérito do governador ou do prefeito – para aumentar a área verde de Goiânia, superando a área verde de Curitiba, segundo o nosso telespectador.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Goiânia é considerada uma cidade ecologicamente correta, e o estado também, como um todo, está muito preocupado com essa questão de ecologia. O estado já adquiriu no entorno de Goiânia aproximadamente quatro mil hectares, e desses quatro mil hectares, grande parte é de mata virgem, nunca penetrada pelo homem. Então, fez ali um pulmão verde hoje de Goiânia, e essas áreas são do estado, são intocáveis e permanecerão. Agora, eu gostaria que você me permitisse, já que vamos falar de Goiás, só para responder ao Fábio, dizer que o PMDB fez a grande maioria esmagadora das prefeituras de Goiás, e com os partidos aliados então ela superou a expectativa, e a grande esmagadora maioria de governadores também.

Fábio Pannunzio: Governador, mas a minha provocação era a seguinte: eu perguntei se o senhor, nas maiores cidades do estado, andou mal acompanhado nessas eleições.

Luiz Alberto Maguito Vilela: De maneira nenhuma, muito bem acompanhado, tanto é que vencemos com aliados em Anápolis, vencemos com o PMDB em Itumbiara, em Aparecida, em Jataí, Morrinhos.

Fábio Pannunzio: Mas o que o senhor considera aliados, governador? Porque em Anápolis, por exemplo, o PMDB foi derrotado, não foi?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não, o PMDB nem teve candidato, os dois aliados nossos, o PL e o PSD lançaram candidatos, o PMDB não lançou candidato e ficou neutro.

Fábio Pannunzio: Quer dizer, o PMDB tinha mais de um candidato em cada grande cidade, era isso?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Como?

Fábio Pannunzio: Mais de um candidato disputava com a confiança do PMDB?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Nem sempre, mas em algumas cidades sim. Completando, Matinas, se me permite, o PMDB tem o governador, o vice-governador, os três senadores, a maioria de deputados federais, a maioria de deputados estaduais, a esmagadora maioria de vereadores e prefeitos em Goiás.

Mônica Teixeira: A que se deve isso?

Matinas Suzuki: Aproveitando também, a Silvia de Souza, que mora em Goiânia, e que também é nossa telespectadora, pergunta o seguinte: “Senhor governador, sobre o resultado da pesquisa que o elegeu como governador de maior aprovação popular, o jornalista Clóvis Rossi disse estupefato em sua coluna na Folha de S.Paulo, que Goiás deve estar em estado de graça, que lhe parece necessário um estudo de sociólogos para avaliar esse fenômeno. Considerando que aqui em Goiás temos grandes problemas na educação, na saúde, e o nosso transporte coletivo deixa muito a desejar, apesar de ter ganhado também recentemente como melhor do país, a que o senhor atribui esse resultado? À pouca politização do seu povo, à falta de uma oposição mais forte, já que até o PT aqui abraçou o governo do cacique do PMDB, do qual o senhor é o maior cabo eleitoral, ou à sua política de distribuição de cestas básicas, descontos no pagamento de água e luz à população carente?”.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Bom, a Silvia sabe que em Goiás nós elegemos prioridades. Por exemplo, programas sociais. Não tem nenhum estado no Brasil – e me permitam a falta de modéstia – com programas tão sérios, tão arrojados, como os programas sociais de Goiás. Combate à fome e à miséria, não no discurso, mas na prática, distribuindo aos desempregados 150 mil cestas de alimentos, todos os meses – nunca faltou um mês sequer. Foram distribuídos noventa mil pães vitaminados e noventa mil litros de leite por dia. A reportagem aí disse “por mês”, não, é por dia; todos os dias noventa mil crianças pobres de zero a seis anos recebe um litro de leite e um pão vitaminado. As 220 mil famílias mais pobres de Goiás não pagam água, não pagam luz, e ainda estamos com o programa do lote, cem mil lotes urbanizados sendo distribuídos em todas as cidades do estado. E, é bom frisar, e a Silvia sabe disso, nenhuma cidade do estado, seja governada pelo PT, pelo PFL, PMDB, pelo PPB, nenhuma deixa de receber. 242 cidades recebem cesta, leite, pão, lote e isenta água e luz das famílias mais carentes. Então, lá nós combatemos a fome, não tem nenhuma família passando fome em Goiás. Eu posso dizer isso e os goianos podem dizer com muito orgulho. Qualquer família que tiver passando fome pode procurar a secretaria da solidariedade humana que ela é atendida na hora, então não existe isso. Para serem atendidas, as famílias têm que ter residência há dois anos no estado. Porque de repente chega uma família lá de outro estado, de outra região, em dificuldades, nós podemos até atendê-la na emergência, mas não integrará os programas sociais. E a Silvia sabe que o nosso programa de industrialização está dando certo, é outra prioridade do meu governo. Enquanto combato a fome e a miséria, nós estamos também criando emprego, gerando riquezas, agroindustrializando o estado, industrializando o estado. Já foram quase cinqüenta mil empregos gerados no meu governo, quase três bilhões de reais aplicados por empresas e indústrias no meu governo, de forma que fizemos um enxugamento da máquina, modernizamos a máquina do estado de Goiás. Estamos fazendo obras de infra-estrutura, energia elétrica; já temos muitos municípios com 100% de energia elétrica na zona rural, e no final do meu governo vamos chegar a 100%. E ela sabe também que a educação em Goiás saiu do 20º lugar para o 6º lugar no país, é o 6º hoje, em nível educacional.

Luiz Felipe D’Ávila: Eu vejo os estados como sendo um grande laboratório para testar certas políticas que poderiam ser utilizadas em nível federal ou por outros estados. O senhor já mencionou como fez o corte do funcionalismo público, como enxugou a máquina estatal. Eu gostaria de pegar o gancho da educação que foi a matéria, inclusive, da abertura do programa Roda Viva, dizendo que a educação de Goiás foi do 21º lugar para o 6º lugar. O que o senhor fez para provocar essa mini revolução na educação pública em Goiás?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Primeiro, na educação, como em quase todo o Brasil, os professores são mal remunerados. O único pequeno aumento que eu dei em todo o meu governo foi para a educação. A educação é a primeira a receber os seus salários, antes de qualquer outra secretaria, é a educação que primeiro recebe os seus salários, o 13º...

Luiz Felipe D’Ávila: [interrompendo] Quanto ganha um professor, governador?

Luiz Alberto Maguito Vilela: O 13º [salário], a educação foi a primeira a receber, os prédios escolares de Goiás já se constituem em aulas de educação, são extremamente limpos, conservados. Hoje todas as escolas do estado têm televisores, vídeo-cassetes, bibliotecas. Enfim, as escolas goianas estão aparelhadas, há muito tempo não se ouve falar numa greve na educação, em Goiás. Nós temos uma secretária da Educação que é realmente um primor de secretária, ela já é secretária por três governos consecutivos. Essa continuidade também facilitou muito o aprimoramento da educação.

Luiz Felipe D’Ávila: Ela foi reeleita, não é, governador?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Agora quanto à questão da saúde, esse não é um problema de Goiás, é um problema do Brasil. Agora eu estou investindo em saúde.

[sobreposição de vozes]

Enio Lucciola: Antes de mudar para a saúde, governador, sobre a educação ainda, teve uma pergunta que foi feita sobre salário...

Luiz Felipe D’Ávila: Quanto é que o senhor está pagando ao professor? Qual é o menor salário e o maior salário?

Luiz Alberto Maguito Vilela: O menor salário é o salário mínimo mais 5%, além de outras pequenas vantagens como vale-transporte e outros. O maior salário está em torno de 1500 reais.

[...]: Ninguém ganha menos do que o mínimo.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Eu vou adotar o teto do governo, o piso do governo federal: trezentos reais. Em Goiás nós vamos pagar o piso, vai ser o primeiro estado a aderir...

Matinas Suzuki: [interrompendo] A Luciana Meira, de Goiânia, diz aqui o seguinte: “O estado está com as folhas de pagamento em atraso, o 13º saiu com vinte dias de atraso, e até hoje não recebemos o salário mensal”.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não é verdade, eu estou em dia com os salários e o 13º foi totalmente quitado sexta-feira próxima passada, o 13º e todas as folhas; eu começo o pagamento todo dia 10. Agora, você vê, quantos estados e quantos municípios que têm três meses de atraso, quatro meses de atraso. Goiás está em dia!

Mônica Teixeira: O senhor listou aí uma série incrível de benefícios, mostrando que Goiás deve ser uma espécie de sucursal do paraíso. Eu só estou brincando, mas eu acho que parece uma sucursal do paraíso.

Luiz Alberto Maguito Vilela: É um estado privilegiado realmente.

Mônica Teixeira: De onde o senhor tirou dinheiro para fazer esse investimento, de onde o senhor tirou dinheiro para fazer a cesta básica, como o senhor geriu, o que aconteceu aí?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Nós aumentamos a arrecadação em aproximadamente 60%, de quando iniciamos até agora. Reduzimos a folha de 82% para 63%.

Mônica Teixeira: Mas como o senhor fez para aumentar em 60%?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Há um programa de combate sistemático lá em Goiás ao desperdício. O que estamos economizando com energia, com combustível, com diárias, com carros, é qualquer coisa de fantástico, ninguém acredita. Economizamos muito em Goiás, aumentamos a arrecadação. Só no setor industrial, para você ter uma idéia, Mônica, a arrecadação, de 1995 a 1996, nós crescemos 75% a receita industrial. Goiás tem o terceiro maior rebanho bovino do país, tem uma bacia leiteira respeitável, é a terceira ou quarta do estado. Quer dizer, é um estado pujante, é um estado forte e privilegiado. Ninguém ouve falar em grandes enchentes, em Goiás isso não existe, secas prolongadas não existem, tem estações muito bem definidas, terras férteis.

Maurício Stycer: Nesse seu esforço de economizar recursos, o senhor também tem entrado em algumas batalhas jurídicas que são perdidas, não é? Por exemplo, não pagar pensão, aposentadoria para ex-governador. Isso acaba servindo para marcar a sua posição, que o senhor é contra e etc. Sabendo que isso é uma coisa perdida juridicamente, isso não acaba servindo mais para distrair a opinião pública realmente do que ... ?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não, Maurício, na realidade eu acredito que não. Eu estou lá numa batalha jurídica... É bom dizer também... Hoje dois anos após ter assumido o governo, eu repasso menos verba para a Assembléia do que dois anos atrás, para o Tribunal de Contas do estado, dos municípios e o Tribunal de Justiça. Uma briga jurídica. Primeiro, os ex-governadores querem receber salários milionários porque são direitos adquiridos, e nós temos que acabar com isso no Brasil.

Mônica Teixeira: O seu salário é milionário, governador?

Luiz Alberto Maguito Vilela: O que tem de direito adquirido hoje, de causa pétrea, como já disseram, virou rochedo no Brasil. Eu lá em Goiás defendo primeiro os direitos nascidos com a pessoa humana: os direitos à educação, à saúde, ao trabalho, à alimentação. Primeiro os direitos nascidos com o cidadão e depois os direitos adquiridos nas caladas das noites, nas madrugadas, adquiridos de forma imoral, então diretos...

Maurício Stycer: [interrompendo] O senhor acha que é democrático ir contra a lei?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não, quando a lei é imoral, é absurda, quando a lei joga crianças no abandono, joga pessoas nos bolsões de miséria, nas favelas, na periferia, passando fome, você não deve cumprir essas leis e deve acudir aqueles que estão passando fome.

Enio Lucciola: Governador, o senhor apóia o Movimento [dos Trabalhadores Rurais] Sem-Terra, invasões de fazenda? É mais ou menos uma situação assim que você pode traçar um paralelo.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Invasões não, mas eu apoio sim, o movimento. Com tanta terra no Brasil, o país deveria dar graças a Deus por ter gente querendo voltar para terra e produzir alimentos para esta nação, quando em muitos países, e até no Brasil acontecia, acontece, o contrário: o êxodo rural. Nós já tivemos 80% da população morando na zona rural e 20% na cidade, e isso se inverteu, por quê? Porque a cidade oferece aí mil privilégios. E a roça? A roça não oferece nada.

Enio Lucciola: O que o sem-terra diz é exatamente isso, que é o direito dele de comer, de sobreviver e é isso que eles alegam para invadir.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Eu quero dizer que eu sempre apoiei o Movimento [dos Trabalhadores Rurais] Sem-Terra, e até o assentamento modelo do Brasil está lá em Goiás. Nós estamos, inclusive, levando energia elétrica aos assentamentos rurais, já levamos inclusive casas. Foi o primeiro estado a construir casas na zona rural, em assentamento rural, e vamos construir. Eu acho que você precisa dar condições para o homem se fixar no seu habitat, com energia, com educação, com saúde, com condições de trabalho.

Fábio Pannunzio: Governador, o senhor estava falando em pensões milionárias que são pleiteadas e pagas para ex-governadores. Eu quero perguntar...

Luiz Alberto Maguito Vilela: O meu governo não pagou nenhum centavo.

Fábio Pannunzio: Eu queria perguntar o seguinte: quanto é que custaria, hoje, em pensão, um ex-governador que exerceu o mandato, por exemplo?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Ele ganha como um desembargador.

Fábio Pannunzio: Quanto dá isso em real?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Eu não sei, e eu quero até lançar um desafio: quem é que sabe o salário real de um desembargador? É difícil saber, ninguém tem acesso à folha de pagamentos.

Fábio Pannunzio: Por exemplo, o ex-governador Iris Rezende, por essa legislação, teria direito a duas pensões, é isso?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Mas ele renunciou, ele está fora dessa...

Fábio Pannunzio: Ele renunciou, ele foi à Justiça? O senhor fez isso, não fez? O senhor foi à Justiça para...?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Eu fiz, eu acabei com a aposentadoria de deputados estaduais em Goiás, tentei acabar na Câmara Federal, não aceitei aposentadoria; eu poderia hoje ter três  aposentadorias, renunciei a todas elas, e não tenho nenhuma e nem quero ter aposentadoria; acho aposentadoria política [algo] imoral.

Marco Damiani: O senhor pode adotar em Goiás um programa de geração de renda mínima que muitos economistas consideram melhor, mais avançado, do que a simples política de doação de cestas básicas, ou aí é igual plebiscito: não dá para chegar até lá?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não, Marco, tudo é distribuição de renda. Os meus programas... Interessante, eu vou contar um fato aqui. Eu lancei esse programa do leite e do pão. Eu só distribuo leite pasteurizado. O que aconteceu? Oitenta mini pasteurizadoras surgiram no estado de uma hora para outra em todas as regiões. O programa que era social acabou se tornando também um programa econômico, gerou mais de quatro mil empregos na zona rural, surgiram as pasteurizadoras em todo estado, e hoje todo mundo em Goiás toma leite pasteurizado. Antes não, mais da metade da população tomava o leite sem pasteurização.

Marco Damiani: [O Programa de] Renda mínima em Goiás está descartado?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Por enquanto acho que está totalmente descartado, porque se estamos ajudando com isenção de água, de luz, dando a cesta, o leite e o pão, acho que é uma forma de distribuir a renda.

Igor Fuser: Governador, estamos falando aqui de políticas sociais. Existe no país uma série de experiências que podem ser consideradas experiências modelo na área de política social. Por exemplo, no Distrito Federal, o governador Cristovam Buarque aplica um programa que vincula a concessão de um salário mínimo a um certo número de famílias ao envio dos filhos à escola. Parece-me uma experiência bem mais avançada do que simplesmente o estado distribuir comida. É claro que é louvável. Distribuem-se 150 mil cestas básicas por mês em Goiás, é a fome de muitas pessoas que está sendo saciada. Agora essas críticas que se fazem... Quer dizer, não haveria aí um elemento de paternalismo no fundo, por mais benefício que essa política venha a trazer?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Infelizmente o tempo não me permitiu a conclusão do meu raciocínio. Nos programas sociais, a família, para receber a cesta, tem que provar que os filhos estão freqüentando a escola, não basta apenas matricular não, tem que estar freqüentando. Para receber o leite e o pão, tem que apresentar o cartão de vacina. E hoje o índice vacinal de Goiás é o maior do Brasil, são as crianças mais bem cuidadas e vacinadas do Brasil, em função dos programas sociais. Está vinculado à educação, à saúde e ao emprego. Nós descobrimos que uma empresa precisa de empregados de baixos salários; nós temos um banco de empregos, oferecidos àquelas famílias. Os chefes de família que não aderirem ao emprego são descredenciados. Nós começamos o programa com 158 mil famílias e já se descredenciaram 18 mil, que conseguiram emprego e que saíram do programa. De forma que nossos programas são programas amarrados, não têm nada de paternalismo, o que existe em Goiás, e de resto em todo Brasil, e é preciso que as elites intelectuais, políticas e econômicas enxerguem isso, visitem as favelas, os bolsões de miséria, a periferia, para ver que o que existe é um quadro instalado de fome, de miséria absoluta, e que deve ser prioridade de qualquer governo: municipal, federal ou estadual. Porque não tem nada que humilha mais um povo do que a fome, não tem nada que envergonha mais um povo do que a fome. Então, se temos milhares passando fome, nós temos que acudi-los, temos que socorrê-los, quer dizer, o pior dos males é a fome. Então, eu acho que é prioridade minha, é prioridade do meu governo, do nosso governo, em Goiás, alimentar as pessoas para que elas se defendam melhor das doenças e tenham ânimo para buscar o emprego. Porque pessoas debilitadas e famintas não têm nem ânimo para buscar emprego.

Luiz Felipe D’Ávila: Outra prioridade é atrair investimentos para o estado. O senhor mesmo disse que Goiás atraiu cerca de três bilhões de reais em investimentos nos últimos dois anos, somando capital nacional e internacional. E é evidente que neste momento outros estados começam a disputar investimentos internos e externos. O que Goiás está fazendo, qual é a estratégia que Goiás vai adotar para atrair o capital nacional e internacional no momento crucial para esse desenvolvimento do estado?

Enio Lucciola: Só pegando uma carona na pergunta, há uma previsão de que vão entrar esse ano no Brasil 12 bilhões de dólares em investimentos produtivos. E a tendência mais natural desse capital que entra é sempre ficar ao redor de São Paulo, do eixo Rio-São Paulo. Como é que o governador de um estado que não está bem dentro desse centro, quais são as armas que ele tem para tirar um quinhão maior?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Eu acho que este foi o grande mal do Brasil: concentrar tudo no eixo Rio-São Paulo, Sul do país, Sudeste. O país tem que se desenvolver de forma uniforme, tem que interiorizar o progresso, até para que não aconteçam os inchaços nas grandes cidades...

Enio Lucciola: [interrompendo] Quais são as armas que o senhor... ?

Luiz Alberto Maguito Vilela: ... com esses índices de criminalidade avançadíssimos nessas cidades, a vida ficando quase insuportável por conta disso. Eu acho que o país tem que incentivar a interiorização do progresso para ter um desenvolvimento mais equilibrado. Goiás é o grande trevo deste país, é o centro, é o coração. De Goiás partem alimentos para todos os estados brasileiros e quase que na mesma distância. E Goiás tem muitas opções hoje: hidroviárias, ferroviárias e rodoviárias. Goiás é realmente um estado privilegiado: terras planas, luminosidade ideal para produção de alimentos, água em abundância, recursos minerais, recursos florestais. E o povo descobriu isso, o povo não, os investidores, os empresários. De repente a [empresa de alimentos] Perdigão está investindo quinhentos milhões de reais em Goiás, por quê? Porque tem o milho lá fácil para engordar o frango, para engordar o porco.

Enio Lucciola: O que o senhor está oferecendo para essas empresas?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Nós temos lá o Fomentar, que é um programa de incentivo fiscal que financia o empresário durante dez anos, e de repente, algumas indústrias, por até 15 anos. Nós temos distritos agroindustriais com água, luz, asfalto, para oferecer aos empresários. Goiás tem, enfim, produz muito, quer dizer...

Enio Lucciola: Eles pagam por isso, governador, por essa...

Luiz Alberto Maguito Vilela: Pagam um preço simbólico. Essas áreas são áreas nas proximidades das cidades grandes ou médias e até das pequenas. Eles pagam um preço simbólico. Hoje, mesmo um empresário da área cultural transferiu a sua gravadora para Goiânia, para Goiás, o Ivan Lins [em 1991, em parceria com Vítor Martins, fundou a gravadora Velas, cujo objetivo era lançar talentos brasileiros e resgatar artistas já consagrados, porém desprezados pelas grandes gravadoras. Chico César, Lenine, Guinga e Zizi Possi são alguns nomes que fizeram parte do catálogo de cantores da gravadora], e vai talvez montar uma indústria de CD's lá em Goiânia. Então todos os dias está chegando uma nova indústria, uma nova empresa, lá em Goiás.

Marco Damiani: É visível que o senhor gosta muito do seu estado, só para entender melhor a maneira como o senhor enxerga o exercício do cargo, eu queria formular uma hipótese. O senhor está em viagem na Europa, daqui uma semana tem uma audiência com o Papa, uma coisa que aconteceu recentemente. O senhor fica sabendo na Europa que Goiás está debaixo d’água. O governador deve voltar e verificar pessoalmente as condições do seu estado? Ou ,como disse agora recentemente o governador Eduardo Azeredo de Minas Gerais, onde isso aconteceu: “Não é preciso a presença física do governador em locais de catástrofes, de acidentes, de dramas sociais”. Dá para olhar de longe, governador? O senhor voltaria?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Lá na roça nós temos um ditado: “O olho do dono é que engorda o boi”. Eu acho que o governador tem que estar muito atento a todos os problemas e é ele que tem a credibilidade para naturalmente fazer as gestões necessárias para acudir o seu estado nos momentos... Eu voltaria imediatamente. Eu não quero com isso criticar quem não tenha voltado, mas é questão de temperamento. Eu, por exemplo, tenho um temperamento irrequieto. Se tivesse acontecido qualquer catástrofe, eu voltaria imediatamente.

Maurício Stycer: Vamos imaginar a hipótese. O senhor não passa à reeleição, o senhor não é candidato à reeleição, não se reelege, o seu candidato perde, e o programa de distribuição de cestas básicas de um dia para o outro desaparece. Esses chefes de família que são pessoas com renda familiar inferior a um salário mínimo, de um dia para outro vão ficar sem esses benefícios que o senhor está dando a eles. O que eles aprenderam nesses quatro anos para poder enfrentar uma situação dessas? Eles tiveram alguma capacitação profissional, tiveram alguma melhora na sua possibilidade de enfrentar a realidade que eles estão vivendo?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Sem dúvida nenhuma.

Maurício Stycer: O senhor falou de benefícios para as crianças, para os filhos. Tem algum tipo de treinamento, está havendo algum tipo de preparação para tirar esses chefes de família da situação em que eles estão?

Luiz Alberto Maguito Vilela: A Secretaria de Solidariedade Humana promove campanhas educativas, porque além desses programas nós temos lá um programa de distribuição de óculos também. Pessoas que nunca foram ao oftalmologista, que nunca tiveram condições de entrar num consultório, de repente a Secretaria fez lá uma promoção, deu mais de mil pares de óculos. Tinha pessoa até com nove graus de miopia – é verdade – e foi atendida pelo médico, recebeu óculos. De repente tem aulas sobre como escovar os dentes e aí se distribui o kit bucal. Enfim, as famílias estão ganhando: 19 mil crianças voltaram para as salas de aula, o índice vacinal cresceu muito. Só isso é um ganho extraordinário. Na realidade esses programas se constituem em investimentos, eu queria que o Brasil atentasse para isso. Botar proteína, vitamina no estômago da criança, isso é investimento; gasta-se com alimento, mas não se gasta com médico, não gasta com remédio, não gasta com hospitais e não gasta com penitenciárias, cadeias, porque você estimula a pessoa a estudar e trabalhar. De repente é investimento que estamos fazendo em Goiás. A Unicef está acompanhando o impacto desses programas, principalmente nas crianças, e vai fazer um relatório agora no mês de fevereiro, vocês vão ouvir falar dos resultados desses programas. De forma que eu não tenho o menor constrangimento. De repente eu vou nessas distribuições e entrego lá a cesta, porque não é só velhinhos e velhinhas que contribuíram com este país a vida inteira, que são expulsos das terras porque não têm mais força para trabalhar. Chegam na cidade, e a maioria deles, dos velhos, das velhas, não conseguem segurar a cesta, trêmulos, ofegantes, degradados pela fome. O governo não pode ser insensível a isso, ele tem que existir para todos, para todas as camadas. Precisa deixar de governar para as elites, para os banqueiros, para os latifundiários, para os grandes empresários, tem que governar para quem precisa de governo.

Mônica Teixeira: O senhor se diria um neoliberal?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não, não me considero neoliberal.

Mônica Teixeira: O senhor, portanto, não é considerado antiquado, atrasado, executor de uma política que está ultrapassada pela globalização, pelas mudanças?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não é isso que dizem as pesquisas, Mônica, não é isso que o povo tem dito.

Fábio Pannunzio: Governador, eu queria fazer uma pergunta fugindo a tudo isso. Tem um goiano ardendo na fogueira: Pedrinho Abrão [deputado do PTB de Goiás, foi acusado de cobrar da construtora Andrade Gutierrez uma comissão de 4% sobre uma verba de 42 milhões de reais para a construção de uma barragem no Ceará. Foi instaurado o processo de cassação, mas a Câmara Federal o absolveu por falta de provas]. Eu queria saber o que o senhor pensa a respeito dele. O senhor acha que ele deve pagar o pecado que lhe é imputado, ou acha que ele deve arder na fogueira moral, ou o senhor acha que ele tem alguma chance de comprar uma indulgência?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Eu não tenho a menor condição de pré-julgar, de saber se está errado ou não. Porém eu vou lhe dizer uma coisa: todo político corrupto tinha e tem que ir para cadeia. Eu acho que o maior mal, o câncer do Brasil, é a corrupção. Se nós estancarmos 50% da corrupção neste país, ele dará um salto gigantesco, ele se transforma da noite para o dia num grande país. Então político corrupto tem que ser varrido da vida pública, seja ele quem for.

Fábio Pannunzio: Pelo que se veiculou pela imprensa, essa coisa toda, o senhor acha que ele realmente quis tomar dinheiro daquela construtora?

Luiz Alberto Maguito Vilela: É difícil responder isso, a gente de longe, é muito difícil saber se a empreiteira está com a razão, ou se ele está com a razão...

Fábio Pannunzio: Mas o senhor não está tão longe assim.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Agora eu estou lhe respondendo de uma forma geral. Eu sou um político que desde vereador, eu combato sistematicamente a corrupção; eu detesto, não gosto nem de ouvir falar em corrupção. E quem ousar fazer qualquer tipo de corrupção no meu governo é cortado imediatamente, e todos sabem disso.

Fábio Pannunzio: Já houve algum caso?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não houve.

Maurício Stycer: Existe uma investigação relativa a um período anterior a sua eleição, há uma acusação de que teria sido feito um caixa para a sua campanha a governador, que está em curso lá em Goiânia.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não existe nada disso. Precisamos acabar com essas questões. Qual é o governador ou qual é o presidente da República no Brasil ou no mundo que se elege só com os seus recursos? Não existe isso. Que existiram amigos, companheiros, partidários e quem contribuísse com a minha campanha, é lógico que existiu.

Mônica Teixeira: Mas tem uma forma legal de fazer isso e tem uma forma que não é legal.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Existe e foi feito da forma legal, de forma que eu não temo nenhum tipo de investigação. Aliás, eu acho que sou o único político do Brasil com sigilo permanentemente quebrado, e os dois gerentes dos dois bancos com os quais eu trabalho têm a autorização de fornecer as minhas contas a quem quiser a qualquer hora, de forma que eu não temo nenhum tipo de investigação. E todo político deveria ter o seu sigilo quebrado, ele mexe com dinheiro público. Eu, por exemplo, trabalho com 130 milhões de reais todo mês.

Marco Damiani: Dê um exemplo, governador: quanto o senhor tem hoje na sua conta pessoal? O senhor pode contar?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não passa de dois mil reais nas duas contas; o que passar de dois mil reais, eu faço doação. [risos]

Fábio Pannunzio: Eu queria que o senhor me satisfizesse uma curiosidade pessoal, acho até que o senhor não vai fazer isso. Durante a sua campanha, o senhor se lembra quando houve aquela denúncia de que a fazenda do Leandro e Leonardo, aquela dupla sertaneja, o senhor tem até um relacionamento pessoal com eles, não é verdade? Mas na época o senhor era ex-governador, já licenciado até...

Luiz Alberto Maguito Vilela: São meus amigos, Leandro e Leonardo, Zezé Di Camargo e Luciano, Chrystian e Ralf, são lá de Goiás, são todos meus amigos.

Fábio Pannunzio: Mas o senhor vai se lembrar disso. Houve uma denúncia, os equipamentos do governo do estado de Goiás – patrolas e tratores de esteira – foram flagrados na fazenda dessa dupla, muito rica por sinal, construindo lá uma pista de pouso. Eu fui o repórter que foi pela Rede Bandeirantes fazer a cobertura. Por uma coincidência dessas que nem a..., bom, não há explicação para isso. Depois teve até outros desdobramentos. Mas a televisão, a TBC, TV Brasil Central, saiu do ar duas vezes: uma vez durante o Jornal Bandeirantes e depois outra durante o Jornal da Noite, impossibilitando Goiânia de assistir àquela reportagem. Eu queria saber como a campanha do senhor conseguiu tirar do ar a emissora que retransmitia a TV Bandeirantes, que é estatal?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Na realidade não foi denúncia, foi feita realmente uma pista de pouso, de terra, lá para o Leandro e o Leonardo, como foi feito para milhares de outros que dispõem de aviões e que precisam ter acesso às suas fazendas. Não é só pista de pouso lá não, nós fazemos estradas de cinqüenta quilômetros, cem quilômetros, duzentos quilômetros, para chegar nas propriedades...

Fábio Pannunzio: É que os seus adversários na época apresentaram isso como uma denúncia.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Então não há que se esconder essas coisas; fez para eles e faz para todo mundo. Se amanhã você tiver uma propriedade lá e quiser ter acesso de avião, nós vamos fazer uma pista de pouso para você também. Nós temos que facilitar a vida daqueles que estão trabalhando e fortalecendo o nosso estado. Você já pensou numa pista de terra mal feita? Se nascer ali um cupim, por exemplo, é capaz de capotar um avião. Você já pensou se morrerem hoje, Leandro e Leonardo, o prejuízo que Goiás tem? Então é lógico que este governo tem que fazer e dar assistência inclusive, não só à pista de pouso, como também às estradas.

Fábio Pannunzio: Mas quem tem dinheiro para comprar avião tem dinheiro para construir a pista.

Matinas Suzuki: Para um fazendeiro que não tem expressão nacional nenhuma, você faria a mesma coisa?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Temos feito para todos, indistintamente. Agora, veja você, para alguém contratar uma máquina para sair da cidade, só para fazer ali mil metros de pista, não vai, é inviável, o preço é exorbitante. De repente as máquinas do estado estão ali perto, porque conservam estradas, então passam e fazem a pista.

Fábio Pannunzio: Governador, esse dinheiro não faz falta para o programa de atendimento à população? Por exemplo, quem tem avião tem dinheiro para pagar um [...] para construir a pista.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Tem e paga muito imposto e investe muito no estado, e gera muita riqueza, muitas...

Fábio Pannunzio: Sem querer questionar isso, eu queria que o senhor me contasse o que aconteceu com a TBC naquela noite.

Luiz Alberto Maguito Vilela: É difícil, eu, por exemplo, não me lembro disso, e até fico feliz de saber que você está familiarizado com Goiás, é sinal que você gosta do meu estado.

Fábio Pannunzio: Gosto muito.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Agora, eu não sei por quê, mas de repente caiu lá a energia elétrica...

Fábio Pannunzio: Não foi bem isso, não. Mas depois isso teve desdobramentos.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Mas tinha muito isso em Goiás – quedas de energia – e ainda tem em algumas cidades.

Fábio Pannunzio: Quando a matéria não interessa para o candidato...

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não, de maneira nenhuma, só se caísse todos os dias, mas caiu um dia, então por que não lançou a matéria no dia seguinte? Não vai cair todos os dias.

Marco Damiani: O [...] também chamou a atenção recentemente, este ano, em razão do Leonardo Pareja [jovem de classe média, iniciou-se no crime ainda na adolescência. Em setembro de 1995, na Bahia, após uma frustrada tentativa de assalto, manteve a estudante Fernanda Viana como refém por três dias. Ele terminou numa prisão em Goiás, onde chegou a comandar uma rebelião, e foi morto por um detento com quem dividia a cela cerca de um ano depois]. Ficou clara a questão penitenciária que não é fácil em qualquer parte do país. Como está isso em Goiás? Foram mostradas naquela rebelião condições muito precárias, talvez desumanas, naquela cadeia.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Isso em todo Brasil, e já há cem anos que vem essa situação se agravando cada vez mais. O governo federal não tem construído ao longo dos anos...

Marco Damiani: [interrompendo] O que o seu governo tem feito?

Luiz Alberto Maguito Vilela: O que o meu governo tem feito? Naquela época mesmo, o desembargador e o pessoal que foi lá estava entregando um trator zero quilômetro, com todos os equipamentos, para produzir alimentos para aquela penitenciária. Meu governo reformou lá uma cerâmica, fez o esgoto que corria a céu aberto, meu governo implantou uma escola moderníssima, está alfabetizando todos os presos; o meu governo nunca deixou faltar leite, carne, arroz, feijão, nada, naquela penitenciária, quem dirige lá é testemunha disso. O problema de liberdade é um problema sério. Se o colocarem num apartamento de um hotel cinco estrelas e falar “você tem que ficar aí um mês”, você logo ficará rebelde. Então isso é muito difícil, colocar setecentos presos ali, amontoados, é complicado mesmo. Estou fazendo três pavilhões grandes lá e estava já, quando houve a rebelião, eu já tinha iniciado a construção desses novos edifícios lá para abrigar presos.

Enio Lucciola: Governador, o senhor falou que Goiânia era a capital mais ecologicamente correta do Brasil e disse que Goiás também estava dentro desse pensamento. Uma entidades das mais respeitadas no mundo, a WWF [World Wide Fund for Nature ou Fundo Mundial para a Natureza], disse que o cerrado brasileiro pode acabar no ano 2000, pela velocidade com que a agricultura está avançando. Quer dizer, você tem um ganho de um lado, tornando a terra produtiva, gerando riqueza, alimento, que o Brasil precisa, e por outro lado, há uma destruição de ecologia. Como o senhor equilibra essa equação?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Há pouco tempo nós tínhamos em Goiás, inclusive, uma empresa estatal que derrubava cerrados, a [...]. Era um empresa que tinha máquinas pesadas para desmatamento, inclusive liquidamos essa empresa, acabamos com essa empresa. Num passado aí, não muito recente, a coisa era feita assim de forma muito extravagante. Hoje não, hoje até para abrir uma estrada, você tem que ter o EIA-RIMA [A 1ª sigla significa Estudo de Impacto Ambiental, e a segunda, Relatório de Impacto Ambiental. Trata-se do estudo prévio dos impactos ambientais que poderão vir a ocorrer, com a instalação e/ou operação de um empreendimento. É, portanto, um instrumento que possibilita a negociação entre o empreendedor e a sociedade para o uso dos recursos naturais], você tem que obedecer a todas as normas. E lá criamos a Secretaria do Meio Ambiente que cuida realmente dessa política e precisamos cuidar realmente.

Enio Lucciola: Tem área de preservação? Só para a gente conhecer qual é a política.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Existe, é lógico que existe, temos lá enormes parques, muitos parques, onde a preservação é total. O Parque Nacional das Emas é um exemplo disso.

Luiz Felipe D’Ávila: Eu gostaria de pegar o gancho sobre a questão agrária, porque Goiás hoje é uma das maiores rendas, a fonte de renda de Goiás é o agrobusiness. E, por outro lado, tem a questão da reforma agrária, e como o senhor bem sabe, os assentamentos que estão sendo feitos resolvem o problema da subsistência de algumas famílias, mas não aumenta a produção agrícola, não traz mais rendas ou dividendos para o estado na questão do agrobusiness. Como o senhor vê essa vocação de Goiás para o agrobusiness e a posição da reforma agrária? Ou a política de reforma agrária que está sendo adotada? Como vamos conciliar essas duas partes e fazer com que esse sem-terra que será assentado poderá se tornar um produtor agrícola e não um mero agricultor tentando sobreviver da sua pequena renda do campo?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Exato, Luiz Felipe. É através da conscientização e através também da parceria do governo estadual, federal e municipal e as entidades representativas também, clubes civis. É preciso congregar a sociedade organizada e os poderes constituídos, para essa missão, é importante fazer isso. Porque se nós continuarmos aí com discriminação, com os assentados sem condições nenhuma de trabalhar ou com as condições mínimas apenas para sobreviver, nós nunca vamos fazer a reforma agrária necessária ao país.

Matinas Suzuki: O Francisco José Gaspar Carvalho, de Lavras, diz o seguinte: “O estado de Goiás ocupa o 5º lugar no ranking nacional das dívidas de estados da Federação, com uma dívida de quase cinco bilhões”.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Quatro e meio.

Matinas Suzuki: Ele pergunta: “O senhor não acha que o senhor está na mão do presidente da República?”.

Luiz Alberto Maguito Vilela: De maneira nenhuma. Essa dívida foi feita ao longo dos anos e ao longo dos anos deverá ser paga. Eu já paguei mais de seiscentos milhões de reais em dívida, nos dois anos de governo. E estamos cumprindo rigorosamente os nossos compromissos. Agora renegociamos a nossa dívida em trinta anos. Então, mostramos ao presidente que dívidas que foram feitas ao longo de cem anos não podem ser pagas em apenas um ano, dois anos ou quatro anos, nós não podemos ser os responsáveis por essas dívidas.

Matinas Suzuki: A propósito de dívidas do estado também, o Marcos Vinícius Ataíde Nogueira, que segundo ele, é fornecedor da Secretaria Estadual de Saúde, diz o seguinte: “Dirijo-me a Vossa Excelência a fim de que o senhor possa esclarecer quais as providências que serão tomadas para a quitação de dívida da Secretaria Estadual de Saúde para com os seus fornecedores?”. Segundo ele, que não recebe desde agosto de 1996, a dívida deve chegar em torno de nove milhões de reais.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Eu já confessei que o problema da saúde é um problema seriíssimo, todo mundo sabe que a saúde vive em função de recursos federais. Se eu pegasse toda a arrecadação do estado e jogasse em saúde ainda não seria suficiente para resolver o problema, então vocês imaginem que o problema é grave, é sério, e eu já tenho denunciado isso. Eu tenho procurado, eu tenho investido em saúde preventiva, eu acho que é a grande saída do Brasil, investir em saúde preventiva e não em saúde curativa apenas. É lógico que é caríssimo, eu sei que é caro. Porém o governo não tem repassado os valores a que cada estado tem direito, aliás tem reduzido esses valores ao longo dos anos, não tem repassado. Então daí advém o atraso.

Maurício Stycer: O senhor está dizendo que deve, não nega, e vai pagar quando puder, é isso?

Luiz Alberto Maguito Vilela: É lógico, eu não posso pagar tudo de uma vez.

Luiz Felipe D’Ávila: O senhor acha que a CPMF [Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira] vai resolver o problema da saúde?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Vai amenizar, eu acredito que vai atenuar. Porque só se resolveu em parte os problemas da educação depois que teve verba carimbada. Acabaram, por exemplo, com a verba do transporte, e as estradas brasileiras acabaram. Eu acho que a saúde, a educação têm que ter verbas realmente carimbadas, verbas destinadas àquele fim.

Fábio Pannunzio: Deixa eu aproveitar esse gancho da saúde, porque ali em Goiás havia um problema crônico com o atendimento dos que sofreram com o acidente do césio, que está fazendo dez anos este ano. A Fundação Leide das Neves [fundação cujo nome é uma homenagem à primeira vítima fatal do acidente com o césio 137, uma menina de seis anos. Criada em 1988 para dar assistência médica e psicológica às pessoas expostas ao césio, foi extinta em novembro de 1999, pelo governador Marconi Pirillo, que a transformou em superintendência. Em 2003, os sobreviventes do acidente perderam o atendimento exclusivo e passaram a ser atendidos na rede pública de saúde] sempre foi um órgão extremamente complicado, foi negligente, foi omisso, muitas vezes não tinha remédio, apesar de todo o esforço dela mesma. Eu queria saber como está a situação dessa fundação no atendimento às vítimas daquele acidente, e como é que Goiânia, que foi uma cidade tão estigmatizada, que sofreu tanto com aquele acidente radiológico, vai comemorar os dez anos, se eu não me engano, agora em agosto?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Na realidade nós estamos pagando aposentadoria, pensão, a todas essas famílias. Agora o governo federal também instituiu a pensão, a Fundação Leide das Neves tem dado muita assistência, aliás nos últimos cinco anos, ninguém nem ouve falar mais de descaso por parte da Fundação Leide das Neves. Está funcionando normalmente, está abrigando e amparando essas famílias; tem pessoas lá com problemas tão sérios que têm sido levados constantemente a Brasília, inclusive em aviões do estado, porque não tem condições nem de pegar ambulância, tal o estado às vezes de dificuldade que elas têm, de forma que o estado tem feito tudo, tem procurado fazer tudo.

Fábio Pannunzio: Para a Fundação tem tido dinheiro, governador?

Luiz Alberto Maguito Vilela: É lógico que sempre tem reclamação, querem aumento na pensão e tudo, mas temos procurado assisti-las.

Mônica Teixeira: Quanto é a pensão hoje?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Varia de família para família, dependendo do grau em que a família foi afetada. De repente é uma pessoa, são duas e assim por diante.

Fábio Pannunzio: E ali, governador, ainda tinha mais um problema que era a construção daquele depósito para os rejeitos radioativos que ficaram provisoriamente abrigados lá em Abadia [Abadia de Goiás, a 25 km do centro de Goiânia], a CNEN [Comissão Nacional de Energia Nuclear, órgão federal responsável pelo licenciamento e fiscalização das instalações nucleares e radioativas brasileiras] nunca tomou as providências para guardar decentemente aquilo. Eu gostaria de saber se o senhor, que é uma pessoa que se empenhou pessoalmente pela construção daquele depósito, conseguiu isso já na condição de governador, quando é que aquilo vai ser tirado da exposição ao ar livre?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Todo problema já está superado, os rejeitos mais perigosos já estão em contêineres definitivos, a grande parte dos rejeitos já foi sepultada, já construímos o laboratório de radioecologia. Agora em abril o presidente da República estará inaugurando todo o complexo que deu tranqüilidade e segurança aos goianos e, por extensão, aos brasileiros. Goiânia realmente sofreu muito, Goiás sofreu discriminação, a economia sofreu danos quase que irreparáveis, mas é por isso que eu lhe digo: Goiás é um estado forte, pujante. Ele superou, os goianos souberam superar esse problema, e hoje o estado já voltou à normalidade.

Enio Lucciola: Governador, uma pergunta bem rápida. Um telespectador do qual eu não lembro o nome perguntou sobre a independência do senhor, se o senhor estava na mão do presidente ou se não estava na mão do presidente. O senhor hoje procurou dar uma aula para a gente das políticas sociais que o senhor vem desenvolvendo. Qual é a nota que o senhor dá para a política social do governo Fernando Henrique Cardoso?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Eu, na realidade, acho que podia fazer mais, acho que pode fazer mais. O presidente, com toda a sua equipe, pode realmente fazer muito mais do que está fazendo, mas pelo menos já começou a fazer, antes nem isso.

Enio Lucciola: O senhor dá uma nota?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Hoje pelo menos começou, está aí com a Comunidade Solidária em milhares de municípios brasileiros, de forma que há uma expectativa. Agora precisa investir mais, a maior dívida que nós temos, que o Brasil tem, é a dívida social, não podemos ter dúvida disso.

Enio Lucciola: Só um número, governador, qual é a nota que o senhor dá para o presidente?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Oito.

Luiz Felipe D’Ávila: Governador, eu gostaria de saber o que o senhor está fazendo para incentivar o turismo, que é outra fonte grande de renda que Goiás tenta atrair neste exato momento.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Temos lá o maior lençol termático, é um dos maiores lençóis termais do mundo que é o complexo de Caldas Novas, Rio Quente, e que realmente tem hoje atraído muitos brasileiros e até estrangeiros. Hoje, japoneses, chineses, freqüentam muito lá a pousada, e tem o Rio Araguaia. São as duas maiores fontes de renda do turismo goiano. É lógico que tem outros como Três Rachos, Britânia, Aruanã.

Luiz Felipe D’Ávila: É significativa a participação do turismo na receita de Goiás hoje?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Não, não tem muito significado.

Mônica Teixeira: O estado de Goiás se beneficiou, o senhor se beneficiou, com a divisão feita em relação ao Tocantins?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Sim, esse...

Mônica Teixeira: Porque me parece que essa prosperidade, na verdade, é porque a maior parte da arrecadação deve ter ficado para o senhor, não é? [risos]

Luiz Alberto Maguito Vilela: De jeito nenhum, eu fiquei com as dívidas. Mato Grosso era um estado imenso, dividiu, e Mato Grosso e Mato Grosso do Sul deram saltos extraordinários de progresso. Hoje os dois [estados de] Mato Grosso estão super satisfeitos. Goiás era muito grande, Tocantins cresceu, desenvolveu e enriqueceu, Goiás pela mesma forma. Eu, inclusive, como constituinte, eu advoguei isto: os grandes estados têm que ser realmente divididos para facilitar a administração. De forma que foi um ganho para Goiás, para Tocantins, como foi para os dois [estados de] Mato Grosso.

Fábio Pannunzio: Governador, havia uma coisa curiosa. No tempo em que o governador lá no Tocantins era o [José Wilson] Siqueira Campos, o primeiro governo daquele estado, Goiás e Tocantins brigaram pela posse de uma mina de ouro que ficava em Almas, município que ficou parte para Tocantins e parte para Goiás, se não me engano. Um ameaçava até colocar Polícia Militar na fronteira do outro, trocar tiro e tudo mais. Como acabou essa guerra? Ou ela ainda existe?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Acabou Tocantins ficando com tudo, ficou com a mina de Almas, ficou com toda a rede de energia elétrica, com todas as rodovias pavimentadas e a dívida ficou tudo com Goiás.

Fábio Pannunzio: Mas e a guerra aconteceu, não aconteceu?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Agora que nós estamos conseguindo o reconhecimento dessa dívida pelo governo federal, que ficou responsável por ela: água tratada, que foi levada a mais de cem... , as redes, tudo ficou para Tocantins.

Fábio Pannunzio: E o conflito armado, que eu quero saber, na fronteira lá? Um ameaçava botar a polícia para dar tiro no outro.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Acabou os goianos e tocantinenses agindo como seres humanos, e acabou a briga.

Matinas Suzuki: O senhor que está colhendo uma safra de boas notícias, foi um homem ligado ao futebol no seu estado, e o estado de Goiás teve um time que quase foi finalista do [Campeonato] Brasileiro e agora tem o jogador com maior salário do futebol brasileiro, que é o Túlio, que veio para o Corinthians. Como está o futebol lá, está indo bem? Quais as perspectivas, o senhor acha que vai continuar nessa demonstração?

[...]: O governador foi jogador, não é, Matinas?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Está em estado de graça. O Goiás chegou ao 4º lugar, vendeu dois jogadores por seis milhões de reais, tem muitos outros jogadores sendo pretendidos. O esporte é importante, acho que é muito importante, não é só o trabalho, tem que ter diversão, o lazer. E o esporte, além de tudo, ajuda muito o ser humano, fisicamente, mentalmente. Eu sou um adepto do esporte, acho que todo mundo devia praticar esporte: crianças, adolescentes, adultos. O esporte faz bem, dá equilíbrio às pessoas, o esporte é realmente fundamental na vida de todos nós. E Goiás está sendo hoje o estado referência na área do esporte, temos procurado apoiar.

Matinas Suzuki: O Túlio vai dar certo no Corinthians?

Luiz Alberto Maguito Vilela: Eu sou um admirador do Túlio, agora eu acho que o Túlio poderia dar muito mais certo se tivesse um pouquinho mais de humildade. Acho que está faltando humildade. Humildade é o que há de mais importante no ser humano. Esse negócio de estar chegando em campo, para treinar, de helicóptero, não pega bem num país com tanta fome e tanta miséria.

Matinas Suzuki: Nós estamos, infelizmente, chegando ao final do nosso programa, eu gostaria de ler rapidamente alguns faxes que chegaram, cumprimentando o senhor pelo seu trabalho. José Carlos Lima, da Penha; Juarez Félix Coelho, de Goiânia; Durval Ferreira, de Anápolis; Álvaro Gomes Lima, de Goiânia; José Roberto de Andrade, de Brasília...

Luiz Alberto Maguito Vilela: Agradeço a todos.

Matinas Suzuki: ... e o Geraldo Lúcio Costa que cumprimenta o senhor inclusive por ter a visão de levar a gravadora Velas para Goiás para provar que o estado não tem só música sertaneja.

Luiz Alberto Maguito Vilela: Eu agradeço a todos, porque no início você viu algumas interpelações fortes, [risos] precisava ter aí os favoráveis...

Matinas Suzuki: [interrompendo] Esse é o espírito do Roda Viva.

Luiz Alberto Maguito Vilela: ... para poder equilibrar. Mas Goiás realmente tem sido um estado de sorte, tem um povo trabalhador, um povo humilde e um povo determinado. Goiás tem recebido realmente muitos investimentos, eu disse aqui da Perdigão, mas tem também da Coimbra, que hoje refina e enlata óleo lá, a Nestlé investindo muito no estado de Goiás, acreditando nas potencialidades de Goiás; indústrias de confecções também têm chegado lá como a Mannes de Santa Catarina, e muitas outras. É bom para o Brasil ver que os estados estão crescendo, desenvolvendo, gerando riquezas, gerando empregos, isso vai dar uma nova performance ao nosso país.

Matinas Suzuki: Governador, muito obrigado pela sua presença aqui esta noite. Eu gostaria de agradecer a nossa bancada de entrevistadores, agradecer a sua atenção, e lembrar para você que o Roda Viva volta na próxima segunda feira.

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