Memória Roda Viva

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Carla Camurati

2/2/1995

Cineasta estreante, com o filme Carlota Joaquina - a princesa do Brasil, que marca a retomada da produção cinemetográfica brasileira, a atriz fala de política, sociedade e de sua relação com teatro, cinema e televisão

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[Programa gravado não permitindo perguntas de telespectadores]

Heródoto Barbeiro: Boa noite. O cinema brasileiro passa por momentos surpreendentes. A produção nacional, depois de muitos anos de estagnação, começa a crescer. A crítica, muitas vezes cruel com cineastas brasileiros, já recebe com mais simpatia a produção nacional e, cada vez mais, mulheres dirigindo filmes no Brasil. Uma dessas novas diretoras é a atriz Carla Camurati, centro do Roda Viva, que começa agora, pela Rede Cultura. Estreando seu primeiro longa-metragem, o filme Carlota Joaquina, a princesa do Brasil, Carla Camurati acrescenta, em sua condição de cineasta, mais um item em seu extenso currículo artístico. Aos 34 anos, já fez teatro infantil, filmes eróticos, novelas da TV Globo, foi capa da revista Playboy, ganhou o prêmio de melhor atriz em 1985 e, segundo diz, sente-se cada vez melhor consigo mesma. Para entrevistar Carla Camurati, nós convidamos os jornalistas José Geraldo Couto, repórter especial da Folha de S. Paulo; Celso Masson, editor assistente da revista Veja; Marta Góes, redatora chefe da revista Cláudia; André Klotzel, cineasta; Artur Xexéo, sub-secretário de redação do Jornal do Brasil; Alessandro Giannini, repórter do Jornal da Tarde, e Cunha Júnior, repórter do programa Metrópolis, aqui da Rede Cultura. Este programa é transmitido, em rede nacional, por outras 27 emissoras que cobrem todo o Brasil. E nós lembramos aos telespectadores que hoje não podemos ter perguntas, porque o nosso programa foi gravado. Boa noite, Carla.

Carla Camurati: Boa noite.

Heródoto Barbeiro: Carla, nós temos entrevistado outras diretoras de cinema, aqui, e algumas delas até disseram da sua dificuldade com seu segundo, terceiro, quarto filme de longa-metragem. Você veio de um curta metragem para um longa-metragem e já traz um personagem histórico, personagem da história do Brasil. Eu gostaria, inicialmente, que você explicasse para a gente o seguinte: "Por que o personagem Carlota Joaquina [Carlota Joaquina Teresa Caetana de Bourbon e Bourbon] como o tema central de seu primeiro filme de longa-metragem?"

Carla Camurati: Eu queria fazer um filme sobre a história do Brasil. Esse era o meu desejo e eu não sei nem explicar por que [tive esse] desejo. Às vezes você não explica por quê, né? Eu queria que o meu primeiro filme fosse sobre a história do Brasil. Aí eu comecei a ler, ler, ler, ler, e cheguei nesse período, que eu achei que era o período mais legal. É um período de transformação do Brasil e onde o Brasil está completamente conectado com a Europa, de uma maneira que, quando a gente estuda no colégio, você não consegue entender direito. E tinha uma coisa infantil, uma relação infantil, de quando eu estava no colégio e aprendi sobre esse período, que era o fato de a Carlota Joaquina ter ido embora do Brasil dizendo: “Dessa terra, não quero nem o pó!”; que eu era criança e quando eu aprendi isso era uma coisa tão absurda. [Eu pensava:] "gente, por que ela tratou a gente assim? Por que ela não queria... ?”. E era engraçado isso, né? Quer dizer,  você acaba tendo uma memória e quando bate na sua cabeça, você, depois, mais velho, lendo, você fala: “é mesmo, olha, é ela!”. E aí eu comecei a estudar sobre o período, e comecei a focalizar Carlota, porque, a bem da verdade, Dom João [Dom João VI]... a gente acaba até tendo um pouco mais de noção sobre Dom João. Mas a Carlota, menos ainda, quer dizer, a única coisa que você sabe dela é isso. E ela era uma mulher interessante, entendeu? Era uma mulher, para o período, que acabou ficando com uma máscara um pouco diferente do que ela era, ela tinha qualidades que você não sabe...

Heródoto Barbeiro: [Interrompendo] A imagem dela não é muito boa na história do Brasil, né?

Carla Camurati: Péssima!

Heródoto Barbeiro: É péssima?

Carla Camurati: É péssima, tanto que, por exemplo, quando reclamam [do filme], reclamam só de Dom João. Dela ninguém fala nada. Eu poderia [no filme] até ter dado na cara dela, cuspido, feito o que eu quisesse, todo mundo ia dizer: “É pouco!".  [risos] Tudo o que eu falar sobre ela é pouco. Porque ela tem uma imagem horrorosa, que até nem é tão verdadeira, entendeu? Aquela coisa que a pessoa acaba levando a fama, em conseqüência de outras coisas.

Heródoto Barbeiro:  E no seu filme você recupera essa imagem? Você restaura essa imagem?

Carla Camurati: É... Um pouco sim, talvez sim. É... mas o objetivo não é nem recuperar, nem restaurar a imagem de ninguém. Eu não queria nem denegrir e nem restaurar; o que eu queria era contar um movimento histórico onde o Brasil entra e onde ela seria o fio condutor.

Cunha Júnior: E você estudou bastante para isso, eu sei que você pesquisou bastante. Mas você não se ateve a essa história real, apesar de você ter lido quase vinte livros a respeito da Carlota Joaquina ou coisas que citavam sobre a vida dela. E você preferiu ir para o lado do imaginário, você fugiu do realismo, apesar de se ater aos fatos históricos. Por que essa opção?

Carla Camurati: Porque chega uma hora que, assim... eu queria contar do lado de fora do Brasil, para começar. Quando se é colonizado, como no caso do Brasil, se você fica do lado de dentro e você começa a botar a coisa num pé de realidade, você vai ter que levantar uma bandeira. Porque aí você vai ter que analisar as coisas sobre um dado, uma dimensão diferente. E você vai ter que levantar uma bandeira sobre a maneira como você foi colonizado, o que foi feito aqui no seu país, e quando você vê você está levantando uma bandeira, que não era o que eu queria, naquele momento, até porque você fala assim: “ok, levaram o ouro. Ok, fizeram isso.”, mas passaram-se 170 e tantos anos, e aí? O que se faz com isso? Não faz mais nada, entendeu? Não adianta [levantar] essa bandeira, agora. O que é legal agora é as pessoas pelo menos saberem, terem contato com isso, entendeu?

Heródoto Barbeiro:  Então você acha que o pessoal, por aqui, nem se lembra que a Carlota Joaquina foi mãe de D. Pedro I [(1798-1834) filho de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, veio para o Brasil com 9 anos, em virtude da transferência da família real para o Rio de Janeiro. Em 1821, com a volta da família real para Portugal, tornou-se príncipe regente do Brasil. No ano seguinte, declarou a independência do Brasil e foi proclamado seu imperador], talvez o primeiro grande herói do Brasil independente?

Carla Camurati: Ah, muita gente não sabe, né?

Heródoto Barbeiro: Não sabe disso?

Carla Camurati: Ah, eu já tive até repórter me perguntando se ela era casada com Dom Pedro I. Aí eu disse assim: “a-há,! Será que eu posso escrever para o seu jornal, perguntando: [risos] 'olha... eu estive hoje...'?".

[Risos]

Carla Camurati: "... 'me ligou um jornalista, que me perguntou: Escuta, a Carlota Joaquina era mulher do Dom Pedro?" [E o jornalista falou:] "Ô Carla, eu me esqueci”. Eu falei: "ah não, esta eu anoto, porque... pego um...” [risos] Ninguém tem noção, mas não é culpa... isso é uma coisa meio geral, né?

[...]: Carla,...

Heródoto Barbeiro: Antes vou passar para o André. Pois não, André.

André Klotzel: Carla, confesso que quando eu recebi o convite para assistir o seu filme, eu fiquei um pouco temeroso de assistir um filme realizado com pouco dinheiro, mexendo com tema de época, e tema de época dentro da corte de Portugal, Espanha. Eu falei: “pelo amor de Deus, não quero ver aquelas coisas terríveis e tal.”. E de repente eu percebi... umas das surpresas mais agradáveis de assistir o filme é que o filme lidou com toda essa maneira de retratar e reconstruir a época de uma forma extremamente criativa, extremamente bacana, usou esses elementos de uma forma [...] super bacana. Eu queria saber por onde passaram as reflexões disso aí, quer dizer, como é que vocês fizeram essa... o raciocínio sobre essas coisas.

Carla Camurati: Sabe, é porque eu queria fazer um filme que falasse sobre esse período, e não queria, também, virar um desespero de dinheiro, entendeu? Eu falei: “eu não quero ficar um maracujá amargo, dizendo assim: 'quero três milhões de dólares para fazer meu filme, porque eu preciso...'” E eu não quero, eu tenho que conseguir fazer, conseguir fazer legal, e não me desesperar com dinheiro. E o teatro é uma coisa que sempre te dá esse recurso. O teatro é lindo por isso. Então o que [é] que eu fiz? Quando eu escrevi o roteiro, eu peguei Tadeu e Emília - que fizeram cenário e figurino - e o Breno Silveira [(1964-) fotógrafo carioca que despertou atenção logo na sua estréia em longa-metragem, no filme Carlota Joaquina]... Tem que falar o nome de todo mundo, eu sempre fico numa intimidade... o Tadeu Burgos [Rodolfo Tadeu Baumann Burgos (1961-1994), cenógrafo e figurinista carioca], Emília Duncan [(1958-) figurinista e diretora de arte, já fez trabalhos para cinema, teatro e televisão] e Breno Silveira, que, respectivamente, fizeram cenário, figurino e fotografia do meu filme. E a gente começou a ter reuniões. Então a gente estudava cena por cena, assim: Portugal - aí a gente pegava o universo de cores de Portugal. O que [é] que a gente vai botar? Vai botar isso, ba-ba-bá... Como é que a gente vai fazer as relações da câmera com a cenografia? Porque o problema é você... é exatamente você conseguir equilibrar o que [é] que você vai mostrar e de que forma você vai mostrar, porque é tudo de mentira. Então, você fala assim: a fotografia tem que estar preparada para defender a cenografia, e não ficar cobrando da cenografia, que é uma porcaria aquilo, que ela não pode fechar no close, [dizendo:] “Está uma porcaria, está malfeito.”. Ao contrário, o fotógrafo tem que saber que ele vai lidar com uma coisa que não é uma porcaria, mas é uma coisa de mentira, e que ele tem que ir junto com a luz, fazer com que aquilo brilhe feito ouro. Você fala: "é Colorgin [Colorgin Tinta Luminosa é uma tinta acrílica fosca indicada somente para uso interno. Quando aplicada em superfícies brancas proporciona efeito luminoso quando há a incidência de luz], tem que brilhar feito ouro." E é essa interação. E isso deu um resultado super legal. A bem da verdade foi isso, foi um trabalho...

André Klotzel: Você teve, na verdade, uma limitação, obviamente, uma limitação espacial, uma limitação cenográfica...

Carla Camurati: É.

André Klotzel: ... mas que você não sente no filme. Você incorporou enquanto linguagem, né?

Carla Camurati: É.

André Klotzel: Eu senti super incorporado, e eu falei: “pô, um filme que mexe com uma corte, alguns séculos atrás, é complicadíssimo fazer isso.”.

Carla Camurati: É, é difícil.

André Klotzel: Uma elaboração...

Carla Camurati: Foi feito tudo, porque foi estudado. Então a gente chegava lá... todo mundo sabia o que ia fazer, o que ia mostrar. Era preparado para que fosse assim.

Marta Góes: Dá uns exemplos de recursos desse tipo, né?

Carla Camurati: Ah... sei lá, a cama de Dom João, né?

Marta Góes: Hum-hum.

Carla Camurati: Que é linda! Uma coisa que é feita... foi uma artista plástica, que é maravilhosa, que fez as nossas paredes todas, entendeu? Aquilo é feito com cera, Colorgin, papel. É nada. E, no entanto, ela é linda! E a maneira com que você fotografa ela, ela tem uma imponência, entendeu? Tem uma cena [em] que todo mundo está vestido de papel.

Marta Góes: Que é... ?

Carla Camurati:  [Que é] A cena do casamento, quando tem dois casamentos ao mesmo tempo, que depois vai para os dois, na Escócia, e quando volta está tudo de preto, que ele fala: “Nuvens negras cobriram os céus portugueses...” e tal, aquilo era tudo papel. Porque a gente precisava de roupa [em] que jogassem tinta; tinha que ser uma roupa baratinha, tinha que ser de papel. Então, tudo era papel e algodão, as perucas eram de algodão. Eu gosto um pouco disso [Carla sorri], é um lado infantil, assim... Eu adoro botar papelão, eu gosto da mentira. Eu, particularmente, entendeu?

José Geraldo Couto: Carla, ...

Heródoto Barbeiro: Pois não, Zé Geraldo.

José Geraldo Couto: O Jabor [Arnaldo Jabor] escreveu, há algum tempo, um artigo na Folha [de S. Paulo] elogiando o seu filme e saudando esse novos filmes feitos por mulheres, dizendo que a geração dele, a geração do Cinema Novo e tal, fazia um "cinema macho" e tal, que faliu, que não dá mais conta da realidade. Então, ele saudava esses filmes feitos por mulheres como uma nova revolução no cinema brasileiro, de certo modo - né? -, e incluindo seu filme entre eles. E eu queria saber de você se você sente essa diferença de ótica dessa geração para a sua, ou do "cinema macho" para o cinema que vocês fazem, e em que consistiria essa diferença.

Carla Camurati:  [Sorrindo] Não, eu não sinto isso. Quer dizer, eu não me identifico. Eu fico, claro, honradíssima quando o Jabor me inclui nisso. Eu amo o Jabor, amo o raciocínio do Jabor. Jabor, para mim, é uma pessoa muito inteligente. E eu adoro quando ele pega um filme e usa para fazer uma autocrítica para uma geração dele, enfim... Acho que o Jabor é uma pessoa muito inteligente. Mas eu, quer dizer, eu não consigo ver assim. Eu não acho que exista um movimento feminino ou... Quer dizer, eu já não consigo olhar o mundo assim. Mas é a ótica de cada um, né? Jabor tem esta ótica "homem e mulher" que é intrínseca dele - né? -, que está no trabalho dele, está em tudo. Eu já me sinto mais andrógina, eu olho e falo assim: “o André [André Klotzel (1954-), diretor, roteirista, produtor e editor cinematográfico brasileiro, um dos entrevistadores presentes neste programa Roda Viva] acabou de filmar, entendeu? O Cacá [Carlos Diegues (1940-), mais conhecido como Cacá Diegues, é famoso cineasta brasileiro e um dos fundadores do Cinema Novo. Já esteve no Roda Viva] acabou de filmar, o Sérgio Rezende [(1951-) cineasta brasileiro, dirigiu vários filmes biográficos de personalidades da história do Brasil] acabou de filmar, a Norma [Benguell (1935-), atriz, cantora e compositora brasileira. A partir de 1987, tentaria a carreira de diretora, realizando, nessa função, os filmes Eternamente Pagu e O Guarani. Já foi entrevistada no Roda Viva] também já fez filme, há não sei quanto tempo.”. Eu não consigo olhar o espaço entre homens e mulheres, nunca. Quer dizer, aliás, é um problema nunca conseguir olhar. Eu não consigo ser feminista, porque não consigo nem me situar de que lado eu estou. Eu já começo assim, eu falo: "mas será mesmo? De que lado eu estou?". Porque eu nunca tive, primeiro, nenhum preconceito por ser mulher. Ao contrário, eu sempre fui muito menino. Então, se tiver que ficar de um lado, eu acabo ficando do lado dos  meninos, no sentido assim: eu jogava bola, eu era do time de futebol do prédio, entendeu? Primeiro eu jogava, era ponta-esquerda, depois eu tive que passar para o gol, e depois eu perdi, quando eu comecei a ficar adolescente, fui expulsa, naturalmente, porque eu não conseguia mais agarrar bola nenhuma. Mas, durante muito tempo... Então, eu nunca consegui olhar o mundo, né? Aí eu falo, de uma maneira geral, o que as mulheres fazem e que o os homens fazem. Eu tenho amigos que são verdadeiras mulheres, se a gente for olhar, e mulheres que são verdadeiros homens. Então, eu não consigo montar assim, entendeu? Mas eu adorei o que ele escreveu, fiquei toda boba. Eu o amo. Eu falei: “nossa, que lindo!”.

Heródoto Barbeiro: Carla, antes de passar à pergunta do Xexéo, eu queria que você respondesse ao seguinte: no caso desse filme, você falando aí a respeito da história do Brasil e falando também da Carlota Joaquina, me parece que os membros da família imperial brasileira não gostaram muito do enredo do filme, achando que, de certa forma, ridiculariza um pouco a figura de Dom João, quer dizer, D. João VI, rei de Portugal, e Dona Carlota Joaquina. Tem isso ou não?

Carla Camurati: Teve esse problema sim, porque são vários os descendentes, né? O mais jovem, que é Dom Joãozinho [Dom João de Orleans e Bragança (1954-), bisneto da princesa Isabel, além de pertencer à tradicional família real brasileira, é fotógrafo, dono de uma pousada chamada Pousada do Príncipe, em Parati, além de trabalhar com  negócios imobiliários. Possui idéias diferenciadas referentes à monarquia e esteve no centro do Roda Viva em 2008],... eu já chamo ele de Dom Joãozinho [risos]...

Heródoto Barbeiro:  O mais liberal?

Carla Camurati:  É... [risos] Ele gostou do filme, ele falou que o filme era legal, que a fotografia... Isso eu fico lendo pela imprensa, também, quer dizer, eu não liguei para ele e falei: “oi, tudo bom, João? E aí? Você gostou ou não gostou? Desculpa, eu nunca...". Até não fiz isso, não por nada, até pretendo fazer, mas... você fica lendo. Então, parece que ele gostou, elogiou, elogiou a fotografia do filme, os diálogos, as coisas. O Dom Pedro [Pedro Carlos de Orleans e Bragança e Bourbon (1945-) é também bisneto da Princesa Isabel e considerado príncipe imperial do Brasil] não foi ver e não gostou. Foi uma coisa... ele mandou assessores, ou secretários dele...

Heródoto Barbeiro: "Não vi e não gostei."?

Carla Camurati: É, nem é isso, eu entendo. Porque você faz uma fantasia também. Quando você manda alguém ver uma coisa para você, você já está correndo um risco de sofrer um equívoco na comunicação, né? Porque vão ser sempre outros olhos, que nem sabem exatamente o que [é] que os seus olhos gostariam de ver, e por isso, já temerosos, falam assim: “A-há! Está falando isso e isso não era assim, ou quem sabe era, ou está ridicularizando...”. Quando eu fiquei sabendo disso, eu falei: “nossa, ele está sofrendo à toa! Nossa! Vai ver não é tão ruim assim!”. O Nanini [Marco Nanini (1948-), ator brasileiro de cinema, teatro e televisão, além de produtor, autor e diretor. Em 1995, interpretou o personagem Dom João VI no filme Carlota Joaquina, de Carla Camurati] não faz nenhum deboche horroroso de Dom João. Eu não quis ser cruel. Meu intuito não era esse.

Heródoto Barbeiro: Você até evitou colocar algumas coisas curiosas a respeito da família real portuguesa, em relação a Dom João IV, por exemplo? O hábito de ele colocar coxas de galinha no bolso... [faz o gesto de colocar no bolso]

Carla Camurati: É, por exemplo, tem coisas...

Heródoto Barbeiro: ... de ele sofrer de eczema nas pernas. Você deixou fora isso?

Carla Camurati: Eu deixei, porque...

Heródoto Barbeiro: Exatamente. Para não denegrir o personagem?

Carla Camurati: É porque, por exemplo, você lê: “Dom João se arrastava, penosamente, com as pernas enfaixadas, com feridas.”. Você fala: “bom, vai ser duro isso, né?”. É duro, né? [risos] Ele já faz tudo isso, e você ainda põe a pessoa se arrastando, penosamente, com as pernas em feridas; você vai começar a criar e fala assim... A própria coisa da coxinha, que é mais do que conhecida, quer dizer, isso no colégio a gente aprende - né? -, que ele enfiava... porque ele comia seis frangos, ele comia as carcaças e as coxinhas ele guardava todas dentro do bolso e ia comendo durante o dia. Mas a imagem, quando você está botando isso em imagem... quer dizer, você vai pegar uma mão que enfia dentro do bolso [faz o gesto] e sai com aquela coisa engordurada, vai fazer uma coisa um pouco nojenta demais, que é desnecessário. O fato de ele já comer tanto frango já é o suficiente. Você também não precisa ficar abusando, porque, como você está falando exatamente da história, é... você corre o risco de parecer que você quer pegar a sua história... que aí a minha preocupação não é a família real, sem nenhum desrespeito, é a história do país que é meu. "É sua tia, mas é meu país, sinto muito.". É, porque senão a gente perde essa referência...Você está falando... O respeito é com o Brasil, meu dever é com o Brasil, não é com mais ninguém. Então, eu não ia fazer isso com a gente...

Artur Xexéo: Carla, falando da história ainda, você pegou um período que é muito rico de acontecimentos, né? É claro que você não conta tudo o que o aconteceu com a Carlota Joaquina e com Dom João naquele período. Como é que você escolheu o que você queria do filme ou não queria? Você filmou coisas que não estão no filme que a gente está vendo? O que [é] que você filmou, por exemplo?

Carla Camurati: Ah! Tem muita coisa que teve que cair, por exemplo, a própria relação dela lá no Prata [região situada ao sul do Brasil e que fazia parte do Reino de Espanha. Dom João VI, embora não confiasse nas intenções políticas da esposa, que pendia aos interesses espanhóis, tentou constituir uma monarquia no rio da Prata, sob autoridade de Carlota Joaquina. Porém, tal projeto falhou, após inúmeras intrigas e a oposição da Inglaterra] era maior do que o que está no filme. O que acontece é que, como é um período muito rico, você tem muitos acontecimentos, você tem muita informação. O primeiro tratamento que eu fiz, [quando] eu acabei de ler, tinha três horas e quarenta, lendo. Eu falei: “não vai dar certo isso, não vai dar certo.”. Aí comecei a enxugar, enxugar, enxugar. O Nanini brinca comigo porque eu e a Melanie [Melanie Dimantas (1958-), roteirista nascida em São Paulo e radicada no Rio de Janeiro. Em 1993, com Carla Camurati, escreveu Carlota Joaquina, que lhe rendeu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Damasco, Síria], a gente não parou de trabalhar nunca, né? A Melanie, que fez o roteiro junto comigo. Então... e o Nanini e a Marieta [Marieta Severo (1946-), atriz brasileira de teatro, cinema e televisão, interpretou Carlota Joaquina no filme de mesmo nome] receberam a primeira versão, a segunda [corrigindo-se], do roteiro. E aí eu fui alterando, quer dizer, determinadas cenas ficaram sem, no princípio do filme, alguns acontecimentos; eu ia mudando. Só que quando a gente foi filmar, eu falava: “seqüência 85.” Aí o Nanini dizia: “Aquela, Marieta, que para você é 64, para mim é 32?”. [risos] Era uma zona, porque não dá para você contar tudo. Então, por exemplo, eu tirei... tinha uma relação no filme mais com Portugal, no final da volta deles, entendeu? Então, o filme ia para Portugal, os portugueses já, lá em Portugal, já querendo que Dom João ficasse mesmo no Brasil e dar Portugal para outra pessoa, porque já estava chato... e tinha uma coisa que se estabelecia mais, mas que aí, no filme, quando eu comecei a montar, achei que estava ficando... Como tem muita informação, eu tinha medo que o filme ficasse cansativo. Eu falei assim: “chega uma hora [em] que eu vou esgotar as pessoas, ninguém vai agüentar.", entendeu? Conta isso, começou com dez anos, ela cresceu, ela se casou, ela foi para o Brasil... Eu falo: "nem eu estou agüentando, acho que foi muito!".

Artur Xexéo: Você não quis levantar uma bandeira e também não quis dar uma aula de história, né?

Carla Camurati: Não, não quis, e ao mesmo tempo quis passar o legal, o pitoresco da história, que é o que é mais gostoso, que é o que você pode aprender, o que a gente conversando tem... Entendeu? Você fala: “você sabia que na China...?”. Eu adoro esse tipo de coisa, sou louca com isso. [Digo:] “ãh, o que [é] que tem na China?" - sou louca com isso. "Ah, na China... os chineses, naquela época...”. Eu queria ter essa sensação da história. Essa... não o compromisso econômico-político com a história. Então, você fala: “Tá, no filme não fala que Dom João fez a abertura dos portos [carta régia promulgada pelo prríncipe regente Dom João em 1808, que decretou abertura dos portos do Brasil ao comércio com as nações amigas de Portugal. Foi a primeira experiência liberal do mundo após a Revolução Industrial], né?”. Você fala: “Não fala da Biblioteca Nacional!”. Nem precisa falar, porque isso tem, numa página e meia, que tem... E, aliás, são as únicas informações que as pessoas têm.

Artur Xexéo: E o Jardim Botânico?

Carla Camurati: É, o Jardim Botânico eu quis botar porque o Jardim Botânico é uma coisa poética. Você construir um jardim feito o Jardim Botânico é um dado, na sua personalidade, lindo... de cara... independente de quantos frangos... você fala: “O que é aquele jardim, né?".

Marta Góes: Carla, as imagem no Brasil que o filme mostra, elas são do filme da história do Brasil que passava na sua cabeça em menina? Era assim que você via, em menina, ou isso é um desenvolvimento da sua vida adulta?

Alessandro Giannini: Só complementando...

Heródoto Barbeiro: Pois não, Giannini.

Alessandro Giannini: Parece que tem... Complementando a pergunta... porque a idéia que me passou é que a imagem que aparece na tela é a - até escrevi isso - que... é uma coisa que a menina que está escutando a história imagina. É por aí, ou não?

Carla Camurati: É exatamente isso. Quer dizer, o que você vê na tela não é reprodução exata do que era o Rio de Janeiro, até porque o Rio de Janeiro deveria ser muito pior do que aquilo. O Rio de Janeiro não tinha limpeza de rua, então não havia.. A primeira companhia de lixo foi fundada quando Dom João estava quase indo embora. Então, as ruas eram muito sujas! Era um ambiente de caos um pouco maior do que está ali, entendeu? Ali tem uma coisa mais colorida, tem uma coisa de quem mora no frio e imagina o quente - entendeu? -, mora na Escócia e adora os trópicos, e não de quem, de fato, está nos trópicos, entendeu? Porque devia ser assim... Tinha o dobro de animais do que tem no filme. Então, é uma coisa - devia ser - um pouco mais caótica. Dizem que fedia muito também. Isso.... você, lendo - sei lá - Debret, você vê isso. E fala: “A realidade desse período, ela era... ela era... talvez, menos bonita.”, entendeu? Num sentido assim. É um período mais... Porque você tem o avanço, por um lado,  num lugar que ainda é muito pequenininho, num lugar que não dá conta de tudo aquilo, com pessoas que vieram muito pobres, que até que conseguissem gerar dinheiro para conseguir... Se hoje você vê o que é, você fala: “O que são as ruas do Rio de Janeiro?”. Né? Um buraco a cada.... Enquanto eu estava lendo, eu pensava nisso: “gente, será que ainda existem buracos que sejam os mesmos?", pensei eu, um dia.

[Risos]

Carla Camurati: Porque tem buracos eternos. Você passa ali pela Lapa, ninguém deve saber isso, “este buraco deve estar aqui há 170 anos?”. [risos]

Marta Góes: E você era uma aluna que ficava fantasiando a história?

Carla Camurati: Sempre. Eu adoro história. E eu acho que, no fundo, a história - eu sempre pensei nisso - é a ficção do homem, é a nossa própria ficção, a nossa história. Porque sempre passa pela lente de alguém, ela sempre tem um ponto de vista que não era o da realidade. É o ponto de vista de alguém que escreveu sobre aquilo - né? -, e vai inventando, que vai...

Heródoto Barbeiro: [Interrompendo] Agora, Carla, para contar essa história, você teve que ouvir muitas outras ou não?

Carla Camurati: Como assim?

Heródoto Barbeiro: Por exemplo, para conseguir o financiamento do seu filme, você teve que ouvir muitas histórias, ficou muito em sala com pessoas dizendo: “Olha, vamos ver... a gente vê daqui a pouco...”. Como é que você conseguiu o dinheiro para fazer o filme se outros cineastas, que nós inclusive conhecemos aqui, tiveram dificuldades enormes?

Carla Camurati: Porque é a históriua de cada um, a vida de cada um. Essa pergunta é completamente... Você fala: "Como é que...?"...

Heródoto Barbeiro: Então conta qual é o segredo.

Carla Camurati:  Não tem segredo, aí é que é mais louco. Na vida não existe segredo e nem receita. Tudo é  uma  conjunção das coisas que te acontecem. Então, por exemplo, o primeiro dinheiro que eu recebi para meu filme foi da maneira mais insólita que você possa imaginar. Eu estava num programa de televisão, falando sobre meu filme, junto com o secretário de Turismo do Maranhão, [corrigindo-se] secretário do Meio Ambiente do Maranhão, que era o Fernando César Mesquita, que estava ouvindo. Ele estava falando sobre Maranhão, eu estava falando sobre meu filme. Ele virou para mim e falou  “Você vai fazer Portugal no Brasil?”. Eu falei: “vou. Vou fazer Portugal no Brasil.”. Estava no meu roteiro, ali, não sabia nem direito o que eu ia fazer. Ele falou: "Que interessante! Você devia fazer Portugal no Maranhão.". Eu fiquei meio... Eu falei: "Por que no Maranhão?". Não conseguia nem lembrar o que ele estava querendo falar. "Nossa! Os sobrados do Maranhão...". Eu falei: “gente! Você tem razão.”. Assim, literalmente, como eu estou aqui agora, com vocês. Eu falei: “claro!”. E vira aquela coisa de programa: “Então vamos passar o vídeo do Maranhão, onde tem sobrados do Maranhão..." - e entra o vídeo do Maranhão, e eu fiquei olhando aquele vídeo, dizendo: "meu Deus! Claro, o Maranhão é maravilhoso, o Maranhão é [como] uma luva para mim, um presente.". Você olha para Deus e fala: "meu Deus! Como eu nunca pensei? Precisei vir aqui para ouvir isso desse homem!”. Saímos, no final do programa, ele pegou o cartãozinho dele, simpaticamente, e fez assim: “Vai ao Maranhão, vê se você acha bonito, que eu te ajudo.”. Eu falei: “claro! Vou lá!". Fui lá, peguei uma passagem, fui até o Maranhão olhar o que era o Maranhão, se de fato o Maranhão... Porque eu conhecia o Maranhão, já tinha passado férias no Maranhão quando eu era pequena. Isso para mim era muito estranho. Como é que uma pessoa, apesar de eu conhecer o Maranhão, ter amigos que eram de lá, nunca ter me ocorrido ir para o Maranhão? Fui lá. Não era bom, era maravilhoso. Maranhão é lindo! Maranhão dava para fazer Rio, dava para fazer Portugal e mais alguma coisa. E não era mais... porque eu estava pensando [em] Parati... eu estava numa área... Fui lá, falei com ele, ele pegou... pegou uma verba da Maratur, Secretaria de Turismo do Maranhão, falou com o governador na época, e falou: “Olha, eu acho que a melhor coisa, enquanto empreendimento e como propaganda para o Maranhão,... "...

Heródoto Barbeiro: E quanto foi essa verba?

Carla Camurati: Cem mil dólares, na época.

Alessandro Giannini: E o total?

Carla Camurati: De quem?

Alessandro Giannini: Do filme. O orçamento.

Carla Camurati: Em dinheiro, 530 e poucos [mil dólares], e o resto em permuta.

Alessandro Giannini: Você tinha me falado 630 na primeira entrevista.

Carla Camurati: É total, menino, 630 é o orçamento.

Alessandro Giannini: Ah, foi o orçamento. Ah!

Carla Camurati: É. Você acha que eu ia falar duas coisas? Ah, que bobo que você é, Alessandro!

[Risos]

Alessando Giannini: Não... É que você tinha me falado...

[Sobreposição de vozes]

Carla Camurati: Continuo falando, 630 é o orçamento. Presta atenção, eu vou repetir.

Alessando Giannini: Está bom.

Carla Camurati: Atenção!

Alessando Giannini: Está bom.

Carla Camurati: 530 é em dinheiro, e o resto é em permuta.

Alessando Giannini: Que você recebeu?

Carla Camurati: É.

Alessando Giannini: Certo!

Carla Camurati: É a mesma coisa... Os orçamentos não mudam, e quando mudam, eles não diminuem, eles aumentam.

Alessando Giannini: Não é uma crítica, é só uma coisa... Era minha dúvida, mais nada.

Carla Camurati: Não, mas é isso que eu estou querendo dizer. Porque você já estava tão antenado que você não ouviu o que eu falei, você me interrompeu no meio. Aí perdeu: eu estava falando 530 em dinheiro, o resto em permuta, para chegar nos 630...

Alessando Giannini: 630.

Heródoto Barbeiro: Tá ok, Carla. Esclarecido o orçamento.

Artur Xexéo: Carla, eu sempre ouvi falar que um dos problemas mais difíceis do filme brasileiro era a distribuição.  Inclusive, o que a Embrafilme fazia, pelo menos no final da vida dela... quer dizer, o financiamento que a Embrafilme dava era o adiantamento sobre a distribuição. O primeiro órgão estatal que se criou em relação a cinema depois do Collor foi a Riofilmes [empresa que desempenhou um papel fundamental na revitalização do cinema brasileiro ocorrida no decorrer da década de 1990, contribuindo grandemente para a retomada da produção e distribuição de filmes brasileiros, principalmente no mercado nacional], no Rio de Janeiro, que era da Secretaria Municipal, que também faz distribuição de cinema. E diz-se que você fez sua distribuição sozinha. Como é que é isso? Você pega o telefone e liga para o dono do cinema e fala: “Você quer passar meu filme?”. Qual é a vantagem de você fazer sozinha a distribuição, e qual é a desvantagem de você fazer sozinha a distribuição?

Carla Camurati: Eu não sei ainda qual é a desvantagem, exatamente, nem qual é a vantagem, porque eu estou fazendo pela primeira vez. Então, eu não tenho uma experiência, eu nunca distribui meu filme, porque eu nunca fiz um filme que fosse distribuído. Mas eu tinha uma sensação [de] que era assim [suspira]: independente dos filmes, do julgamento que a gente possa estabelecer sobre os filmes, os filmes "dançavam" na hora de serem distribuídos. Alguma coisa acontece nesse momento da distribuição, né? Porque, seja bom ou seja ruim, chega nessa hora, dá alguma coisa errada. Falei: “eu queria tentar alguma coisa diferente.”. Aí, eu vi assim: o filme do Mauro foi lançado no carnaval... do Mauro Farias [(1957-) cineasta, estreou na direção de longas-metragens com a comédia Não quero falar sobre isso agora (1989), premiado no Festival de Gramado]. Eu falava: “eu mato quem fizer isso com meu filme! Eu mato,! Eu juro!". O filme do Zé Antônio [José Antonio Fernandes Garcia (1955-2005), diretor e roteirista do cinema nacional, dirigiu o filme O Corpo, com Antonio Fagundes, Marieta Severo, Cláudia Gimenez e Carla Camurati, que teve sua estréia  somente em 2001] nunca foi lançado. Eu falo: “Eu mato o produtor que fizesse isso comigo."; eu vou para cadeia feliz depois, mas eu falo: "matei ele, ele me deixou dois anos com meu filme parado e não fez nada.”. Eu falei: "eu não vou passar por isso.". Eu aprendo muito vendo os outros, eu observo e eu aprendo com os erros, eu falo: “ah! O Xexéo fez aquilo, não deu certo. Ah, então aquilo não é legal de fazer.”. Eu vou tentando achar qual é o certo, meio num farol do que dá errado. Eu falei: “vou fazer que nem teatro; já que todo mundo se dá mal nessa hora, eu vou me dar mal por mim mesma, entendeu? Qualquer coisa, eu só reclamo comigo, eu falo: “sua burra! por que você fez isso? Metida! Estúpida!”, porque aí você fica numa relação, pelo menos com você, mais conseqüente. Eu falei: “não, eu não quero dar para ninguém distribuir, eu não quero dívida, eu não quero que ninguém abra uma dívida, sob nenhum aspecto, que eu tenha que pagar, que eu não concorde 100% com essa dívida.”., entendeu? Você fala: “eu abro dívidas. As que eu acho que são boas e que eu vou conseguir pagar.”. Do contrário, para quê? Você fala: “não quero, não quero essa relação.”. Então, vou fazer que nem teatro. Vou diminuir ao mínimo e vou levando o filme. Antigamente era assim, os diretores de cinema faziam assim, né? Então tá bom. E aí o que aconteceu foi que a Márcia, dona do Cine Gávea, do Rio, quando eu fui alugar o Cine Gávea para fazer uma pré-estréia, porque eu tinha que fazer uma pré-estréia... Porque tudo começa a complicar quando você chega nesse âmbito. Eu tinha que fazer uma pré-estréia para patrocinadores, o contrato do meu filme tinha que ficar pronto no ano de 1994. Você fala assim: "se eu for esperar fechar distribuição com alguém para ir e a pessoa com quem eu fechei me dá o cinema para eu fazer essa pré-estréia, dancei! Eu já não cumpri o meu contrato.". Falei: "ok, vou alugar um cinema. Quanto custa um cinema para alugar, para fazer um dia?". Fui ao Cine Gávea, o Jornal do Brasil tinha me pedido o Cine Gávea, que era melhor para os assinantes e tudo, a gente estava fechando uma permuta com o Cine Gávea e com o Jornal do Brasil, e o Jornal do Brasil pediu o Cine Gávea. E fui lá; não sabia nem quem era a dona do Cine Gávea. Cheguei lá, a Márcia, dona do Cine Gávea, maravilhosa, disse: “Que filme lindo! Nossa, você não quer passar seu filme no meu cinema?". Falei: "eu, passar meu filme no seu cinema? Claro que eu quero. Imagina! Quando?". "Agora, você entra agora.”. Eu falei: “entrar agora?” - eu não estava preparada - "mas eu não tenho trailer, não tenho nada.". Tanto que eu fui atropelada nesse sentido. [Quando] O trailer ficou pronto, o filme já estava há quatro semanas em cartaz. Não consegui. Aí eu falei para a Bianca [Bianca De Felippes, produtora de teatro e cinema, sócia de Carla Camurati na Copacabana Filmes, empresa de produção, publicidade e marketing. Com longa experiência em teatro, estreou na produção de cinema com o filme Carlota Joaquina, de Carla Camurati, e, junto com a cineasta, realizou a distribuição do filme de forma independente, conquistando 1,2 milhão de espectadores]: “Bianca, a gente tem o Cine Gávea! O que a gente faz?” . Ela falou: "Vamos?".  Eu falei: "Vamos. Agora vamos lá. Atira, pula, porque qualquer coisa é só nadar.". E aí ligamos para o Marcelo [Marcelo França Mendes, sócio-fundador do Grupo Estação e da distribuidora Filmes do Estação. Ainda adolescente, em 1985, participou da criação do Cineclube Estação Botafogo, uma sala de rua transformada em cinema de arte que deu origem ao Grupo Estação], do Estação, eu já estava com o Cine Gávea fechado. Liguei para o Marcelo para saber de São Paulo. E o Marcelo estava chateado porque eu não tinha procurado ele [e disse:] “Você nem me procurou..." Eu falei: "pois é, Marcelo, eu não sabia.”. E eu tinha me comprometido com a Márcia, porque tinha um problema lá dela com os distribuidores dela, lá, que ela fechou comigo, porque eu falei: “está bom, eu topo entrar no seu cinema, mas eu queria três semanas. Você não me tira antes de três semanas de jeito nenhum. Assim, eu pago para você no final, não sei, a gente faz alguma coisa. Mas não se preocupa.”. É claro que, se tivesse uma pessoa por sessão, eu não ia querer ficar três semanas, mas eu não queria ter a sensação que eu ia ser atirada, que eu ia entrar numa sexta[-feira] e quando fosse na outra quinta[-feira] eu estava atirada no lixo. Eu precisava de tempo! Eu precisava de tempo. Já que eu não ia entrar em cima, eu precisava de tempo - né? -  para mexer a coisa. Fechei com ela três semanas. Ela falou: “Tá legal: três semanas!". Falei: "só vou entrar no seu cinema três semanas. Não é possível que a gente não consiga botar algumas pessoas aí dentro.". A Bianca dizia: “Eu apanho na rua, você não me conhece! Márcia, sou de teatro e em teatro a gente faz tudo: vou aqui embaixo no shopping...”. [risos] E eu dizia: "pára, Bianca! Calma! A gente vai conseguir!”.

Cunha Júnior: Só uma pergunta... a sua relação com o cinema é interessante. É evidente que você é apaixonada pelo cinema, né? Mas parece que a sua história com o cinema, no início, segundo reza a lenda, não foi bem assim. Parece que a primeira vez que você foi ao cinema, você teve um surto de pânico, quando foi ver O Mágico de Oz [filme musical, produzido em 1939, nos Estados Unidos, que conta as aventuras de uma garota transportada para um mundo mágico, habitado por bruxas más e estranhos personagens. Foi considerado um dos maiores filmes musicais de todos os tempos]. Então, eu queria saber como é que você venceu esse primeiro pânico, como é que você começou, aí, a se apaixonar pelo cinema. Quem foram seus primeiros grandes cineastas, seus ídolos, para chegar, então, hoje, a ser a cineasta Carla Camurati?

Carla Camurati: Não, é assim: eu fiquei impotente, foi uma relação de amor, eu acho. Porque  eu comecei a assistir o filme e teve um momento lá [em] que a Judy Garland [(1922-1969), atriz do cinema norte-americano considerada uma das maiores cantoras dos filmes musicais de Hollywood, interpretou o papel de Dorothy Gale em O Mágico de Oz, em 1939, aos 16 anos] dorme em cima das flores e a bruxa vem; é uma hora terrível. Eu, na verdade, eu queria acordar ela. Então, minha primeira reação foi começar a gritar, e aí a mãe da minha amiguinha me segurou e falou: “Carla, não pode!”. E eu me soltei dela e comecei a correr. Ela veio atrás de mim e me "güentou"! Eu fui levada para fora, meio arrastada. E eu não... o cinema tem uma coisa meio louca, que a proporção da tela é muito grande. Eu não sei... quando eu corri em direção à tela, eu não sei o que, exatamente, o que eu queria fazer ali... Porque, para mim, foi muito violento ser arrastada pela mãe de uma amiga minha que, afinal de contas, nunca tinha me tratado assim, que de repente me puxava por aquele corredor... E eu dizia: “não, não.”. E aí corta, eu me vejo sentada, [imita seu estado ofegante] bufando, naquele... no hall, naquele cinema lindo que tinha ali em Copacabana, na [avenida] Atlântica. Eu, sentada, a bilheteira me dando copo de água com açúcar e eu chorando, e ela assim: “Você não vai voltar lá para dentro. Eu vou ligar para sua mãe.”. [risos] E aí eu chorava mais [e ouvia:] “Mas o que aconteceu com ela?". Ela dizia assim: "Não aconteceu nada, isso é cinema, isso é cinema!". E eu... Aí ela ligou - né? -, minha mãe pediu desculpas e veio me apanhar. Foi uma coisa meio traumatizante, porque eles continuaram no cinema, e minha mãe: “Mas você foi dar vexame! Não sabe que é tudo mentira?”. E eu, voltando para casa: “mas a bruxa ia pegar ela!". "Não ia pegar não, isso é filme”. E aí, demorou um tempo até que eu voltasse a ir ao cinema - acho que coisa de dois anos -, eu fiquei mal, devia ter uns seis anos, né? Eu estava acostumada, até, com a televisão, que era pequenininha, mas o cinema era uma coisa... e colorido! Porque não tinha cor, a televisão na minha casa não tinha cor. O máximo que eu via de cor era a do vizinho, que tinha aquelas listras, aquele arco-íris de plástico, que botava em frente à televisão. Então, eu me deparo com aquela coisa enorme, colorida, era uma coisa...

Cunha Júnior: Por que você começou se apaixonar, depois, através do cinema?

Carla Camurati: Porque é isso, eu acho. Eu tenho uma relação até hoje com o cinema que é engraçada. Por exemplo, Fanny & Alexander [drama realizado em 1982 por Ingmar Bergman. Na premiação do Oscar de 1984, venceu nas categorias de melhor filme estrangeiro, melhor fotografia, melhor guarda-roupa e melhor direção de arte. Recebeu também outras premiações, entre elas o Globo de Ouro e o prêmio da Federação Internacional dos Críticos, no Festival de Veneza], que eu estava vendo, do Bergman... isso eu já era grande, estava com o Paulo [Paulo José (1937-) um dos mais ativos e talentosos atores brasileiros, com presença destacada no cinema, teatro e televisão, e diretor de vários espetáculos de teatro e de televisão. Foi marido de Carla Camurati] dentro do cinema e, de repente, no final do filme, eu falei: “ah, não!”. O Paulo falou: “Cá!”. Eu falei: "não, nada...". Porque na hora [em] que aparece o padrasto, no final, que o menino sai correndo... Porque tem umas coisas que... não sei se é a dimensão da imagem que me impressiona, entendeu? Eu não sei o que é que me impressiona tanto até hoje. E aí minha primeira paixão como cineasta, que eu me lembre de cara, foi o Woody Allen [Allan Stewart Königsberg (1935-), cineasta, roteirista, escritor, ator e músico norte-americano, reconhecido como um dos maiores cineastas contemporâneos]. Foi o primeiro diretor que... Eu achava ele lindo, né?

[Risos]

José Geraldo Couto: Você gosta de se ver na tela, Carla? Você gosta de ver os filmes nos quais você aparece? Por que [é] que você não apareceu como atriz nesse seu filme?

Carla Camurati: Eu apareço um pouquinho no meu filme.

José Geraldo Couto: Não dá para ver. Não notei!

Carla Camurati: Não dá para ver muito. Minha família não me reconheceu. Todo mundo olhando para o Marquinhos Palmeiras [Marcos Palmeira de Paula (1963-), ator brasileiro que interpretou o papel de D. Pedro I no filme Carlota Joaquina - Princesa do Brasil]. Eu falei: “vocês não me viram?". "Aonde?” [Risos] Falei: "gente! Mãe, você não me viu?". “Não, minha filha! Onde você apareceu?”. Eu disse: "ah! droga!". Eu tenho um pouco de nervoso de me ver na tela.

José Geraldo Couto: Hum-hum.

Carla Camurati: Então, quando eu trabalho como atriz, eu demoro para me ver. Eu não consigo, de cara. Eu sofro! Eu sofro, acho uma porcaria, acho horrível, acho que estou piscando em vez de estar falando, eu falo: “meu olho piscou ali. Por que eu tinha que piscar ali? Por que eu olhei assim? Estava errado! Não era isso que eu queria.”. Eu entro num processo neurótico, que eu... E é horrível, porque você vai nas estréias, as pessoas ficam te elogiando, e você está se achando uma merda. Então você fica assim: "Ah! [faz um riso forçado] Você achou?", "Nossa, você estava ótima! Aquela cena ,então!" [e eu respondo:] "você acha?”. Eu achava horrível [enfatiza]! Então eu ia conseguir... Depois de um tempo não. Parece que depois de um tempo, quando você se distancia, quando a tua memória... ou seja, quando a minha sensação do que eu queria fazer com o personagem se apaga, eu consigo me conformar com o que eu fiz.

Marta Góes: E como diretora, o produto do seu trabalho lhe produz esses arrependimentos ou você consegue relaxar e gostar dele?

Carla Camurati: Como diretora eu não tenho esse problema, até porque eu olho tanto... você olha tanto seu trabalho, você tem tanto tempo com ele, você não fica impotente com ele, quer dizer, o que está ali, está ali porque você quis que estivesse, senão não estava.

Celso Masson: [Interrompendo] Carla, ...

Heródoto Barbeiro: Pois não, Masson.

Carla Camurati: Não é o caso quando você é atriz, que você dá seu trabalho e ele vai embora.

André Klotzel: E você assiste da cabine de projeção o filme, que você me contou agora.

Carla Camurati: É, eu assisto da cabine de projeção, sempre.

André Klotzel: Não tem coragem de assistir da platéia. Não é isso?

Carla Camurati: É, não tenho ainda.

Heródoto Barbeiro: Masson.

Celso Masson: Carla, eu queria voltar um pouco na história, mesmo, do seu filme. Você disse que tem uma fascinação pela história do Brasil. Nesse, que é seu primeiro filme como diretora de um longa-metragem, você escolheu justamente uma maneira de contar a história do Brasil que não é comprometida com nenhum rigor historicista... quer dizer, você mesma falou, agora há pouco, que você decidiu pegar um veio mais pitoresco. Não sei se você leu um livro chamado O Chalaça [obra literária constituida a partir do caderno de anotações de Francisco Gomes da Silva, conselheiro do Império, que, durante um bom tempo, foi um dos mais importantes auxiliares, e o mais próximo, de Dom Pedro I. Seu apelido, Chalaça, significa gracejo, caçoada, zombaria, devido ao humor fino e inteligente de que era possuidor]...

Carla Camurati: Li, li.

Celso Masson: ... que é [sobre] as memórias ficcionadas do conselheiro Gomes - né? -...

Carla Camurati: É.

Celso Masson: ... que também é o livro de estréia do José Roberto Torero [José Roberto Torero Fernandes Júnior (1963-),  escritor, cineasta, roteirista, jornalista e colunista de esportes brasileiro, autor de diversos livros, como O Chalaça, vencedor do prêmio Jabuti de 1995]...

Carla Camurati: [Interrompendo] Que é maravilhoso!

Celso Masson: ... e que também vai pelo mesmo caminho, né? Eu queria que você dissesse o seguinte, comentasse o seguinte: se você acha que o Brasil de hoje está querendo rever sua própria história, e se essa vertente - que eu não diria que é irônica, mas não tão comprometida com o rigor histórico, mas mais pegando a graça da coisa, a circunstância, sei lá, pitoresca mesmo - é uma maneira de ser didático sem ser chato, e ensinar um pouquinho da história do Brasil, e mostrar que as coisas também não eram tão assim - sabe? -: “Dom Pedro, Dom João...”. Aquela coisa, aquela pompa toda, tinha uma certa galhofa generalizada. Eu queria saber se você acha que realmente a gente está querendo olhar mais um pouco para essa origem do Brasil, como país e tal, essa transição da colônia para o império?

Carla Camurati: [Interrompendo] A gente sente essa necessidade, eu acho, entendeu? Eu acho que quando você procura esse olhar, que é mais realista - a bem da verdade, né? - e é... e é mais parecido com o que a gente é.

Celso Masson: Hum-hum.

Carla Camurati: Então, ele fica numa comunicação mais direta com as pessoas, porque, quando você começa a fingir que  a monarquia brasileira era igual à monarquia francesa, você cria um buraco para nós, porque você fala: “Nossa, o que aconteceu com a gente? A gente piorou muito, muito mais do que o que dizem, a gente piorou.”. [risos] Porque se naquele momento existia a monarquia - desse tamanho -, como a gente foi parar, agora, nesse buraco? Está certo que a gente sabe que vem caindo, mas aí foi um tombo! Mas, então, quando você aproxima do que é, quer dizer, quando você vê que... sei lá... no escritório de Dom Pedro, no gabinete dele, a cadeira era de palha, e  que, a bem a verdade, você fala: "eu li isso trinta vezes.". Eu lia para todo mundo da equipe: "gente, olha o que eu descobri!”. Todo mundo ficava: “Jura?". Não, era de palha a cadeira de Dom Pedro. Por quê? Porque a gente tem uma fantasia... durante muitos anos... Dom Pedro II traz uma outra monarquia para o Brasil. É quando o Brasil tem o esplendor. Tanto que o esplendor da nossa monarquia é ali. Eu acho que quando você cria esse acesso, quer dizer, que não é tão engrandecedor, é melhor que o Brasil seja menor, se sinta menor e consiga andar para frente do que a gente ter que lidar com esse monstro maravilhoso, rico, potente, corajoso, vitorioso, que não quer nada e que parece que, justo no nosso momento, micou, né?

Marta Góes: [Interrompendo] Carla, ...

Carla Camurati: Você fala: “Logo agora acabou, né? Era tão bom!”. Você fala: “E ficou tão ruim de repente!”. Você fala: “Não, nunca foi.”.

Marta Góes: Já que você tem esse apreço - né? - pelo pitoresco da história, no Brasil contemporâneo, o que [é] que daria um filme de Carla Camurati?

Carla Camurati: Difícil! Ainda não sei.

Marta Góes: Pelo excesso, talvez?

Carla Camurati: Eu não consigo... eu não consigo me antenar direito com a realidade, esse é um problema. Eu inclusive fiz dois filmes, dois curtas - um, que era A mulher fatal encontra o homem ideal [(1987)], que é um filme de ficção, e outro que é Os bastidores [(1990)], que é quase como se fosse um documentário, uma coisa... -, e eu me senti ruim sobre esse aspecto. Eu sem poder controlar as coisas, eu fico doente.

Celso Masson: Você não gostou de ter feito esses filmes, é isso?

Carla Camurati: Não, eu não gostei de fazer... Eu não acho que Os Bastidores seja um filme legal, que eu... Eu gosto dele, mas eu não acho que eu fui muito boa.

[...]: Carla, ...

Carla Camurati: Eu acho que, na verdade, a realidade me põe no bolso, entendeu? Quando eu não posso controlar as coisas, eu não sei, a ótica que eu preciso controlar mais, como eu fiz nos meus filmes que eu controlo, que eu vou controlando, vou fazendo todo mundo pensar na mesma direção, eu consigo controlar a condução da coisa, eu consigo me expressar melhor. Quando eu tenho que lidar com a realidade e ela me arrasta, e eu não consigo controlar, eu não tenho... Tem gente que é maravilhoso, né? Você olha e fala: “Ele sabe fazer, né?”. A pessoa sabe lidar! Eu não sei, eu não consigo ter a... Eu, na hora, eu "danço".

Heródoto Barbeiro: Carla, você está falando um pouco da realidade brasileira, eu queria te perguntar o seguinte: eu não vi ainda você fazer críticas ao governo, como outros colegas seus cineastas geralmente fazem: “Porque o governo não ajuda, o governo é isso, o governo é aquilo...", e fazem críticas ao Ministério da Cultura e todas aquelas tentativas estatais de ajudar o cinema nacional. Você está fora disso? Você nem pensa no governo? Você já conversou com o atual ministro da Cultura, o professor Francisco Weffort [Francisco Correia Weffort (1937-), cientista político brasileiro, foi ministro da Cultura durante o governo de Fernando Henrique Cardoso]?

Carla Camurati: Não, atualmente não. Eu não tive... porque ele entrou, eu estava começando a lançar o filme.

Heródoto Barbeiro: E o anterior?

Carla Camurati: Os anteriores, você quer dizer?

Heródoto Barbeiro: É.

Carla Camurati: Os vários... O Jerônimo Moscardo [José Jerônimo Moscardo de Sousa (1940-), diplomata brasileiro, foi ministro da Cultura por um breve período de três meses, durante o governo Itamar Franco] foi com quem eu tive mais contato, embora o Jerônimo tivesse ficado muito pouco tempo. Eu adorava o Jerônimo. O Luiz [Luiz Roberto do Nascimento e Silva (1952-), nasceu no Rio de Janeiro, foi ministro da Cultura durante o governo Itamar Franco e secretário de Cultura de Minas Gerais. É advogado e mestre em direito econômico pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e também escritor, tendo várias obras publicadas], eu estive com ele também.

Heródoto Barbeiro: Sei.

Carla Camurati: Eu... Porque quando eu estava em fase de produção e de finalização, eu tinha mais tempo, e quando entrou na fase de lançamento, eu fiquei mais... Eu não conseguia nenhuma...

Heródoto Barbeiro: Você não dependeu do governo nem nada, é isso?

Carla Camurati: Imagina! Eu tenho quatro estatais. "Não dependi" não [assumindo que dependeu]. Eu tenho quatro estatais no meu filme. Eu tenho o Banco do Brasil [instituição financeira brasileira constituída na forma de sociedade de economia mista, com maior participação da União], eu tenho a Embratel [Empresa Brasileira de Telecomunicações S.A.], a Telerj [Telecomunicações do Estado do Rio de Janeiro, empresa operadora de telefonia no estado do Rio de Janeiro que prestou esse serviço entre os anos de 1975 e 1998] e a Petrobras [Petróleo Brasileiro S/A, empresa brasileira mista, de capital aberto, cujo maior acionista é o governo federal, dedicada a atividades de exploração, produção, refino, comercialização e transporte de petróleo e gás natural, além de atividades ligadas a petroquímica, distribuição de derivados de petróelo, gás, biocombustíveis e energia elétrica].

Heródoto Barbeiro: E como você consegue isso?

Celso Masson: [Interrompendo] Tem até um merchandising [técnica, ação ou material promocional que informa e dá melhor visibilidade a produtos, marcas ou serviços, com o propósito de motivar e influenciar as decisões de compra dos consumidores] estranho do Banco do Brasil.

Carla Camurati:  Departamento de marketing.

Heródoto Barbeiro: Seu?

Carla Camurati: Claro que não! Eu tenho departamento de marketing? Ele não consegue nem [...]! [risos] Departamento de marketing deles!

Heródoto Barbeiro: Amigos, você tem amigos no governo?

Carla Camurati: Não. Mas, não é questão de ter amigos, é uma outra coisa. A revista Veja não tem amigos no governo hoje...

[Sobreposição das vozes de Carla e Heródoto]

Heródoto Barbeiro: Não, estou falando isso porque outros cineastas não conseguem, eu gostaria que você contasse...

Carla Camurati: A revista Veja, ela não tem amigos no governo. No entanto, ela fecha as propagandas da Petrobras, inteiras, que atravessam... E você fala: existe uma média... uma... uma... uma grande verba, em todas as estatais, de publicidade...

Heródoto Barbeiro: Aí você vai lá na porta, bate na porta e diz: olha, eu quero... ?

Carla Camurati: [Interrompendo] Entrega o seu projeto!

Heródoto Barbeiro: E atendem?

Carla Camurati: Demoram, como tudo. Como tudo na vida, nada é tão fácil e nem é tão difícil. Não tem essa, e essa ironia...

Heródoto Barbeiro: Você não me respondeu se tem amigos no governo.

Carla Camurati: Não. Não tenho amigos no governo. Quer dizer, eu sou amiga do Fernando Henrique, eu conheço ele, mas não sou íntima, de dizer: “oi, Fernando, tudo bem?” [faz um olhar galanteador]. Não sou. Entendeu? Assim como eu gostava muito do presidente Itamar e gosto [enfatiza] muito dele, entendeu? Mas não conheci. Se você me dissesse: “Quem é que é seu amigo no governo?”,  eu não tinha ninguém amigo no governo. Agora, acho errado esse raciocínio, também, entendeu? Você fala [que é] errado o raciocínio de que as estatais não devam cuidar da cultura. Por que não devem? Por que não têm que paternalizar? Desculpe, governo é para paternalizar sim! Agora, tem pais e pais. Agora [exaltada, enumerando nos dedos], é para cuidar de cultura, é para cuidar de saúde e é para cuidar da educação! E é para cuidar não jogando dinheiro fora, feito se joga nas estatais, fazendo comerciais, que vai verbas, milhões em publicidade, que não geram nada. Disso ninguém tem vergonha, isso não tem ninguém cobrando ali: "Vem cá!", para as agências grandes, "Quanto vocês estão ganhando do governo para fazer essa publicidade milionária que está no ar?”. Ninguém vai lá perguntar isso. Agora, quando você vê um desgraçado, coitado, que consegue um dinheirinho para fazer uma peça de teatro, tem todo mundo no pé [altera a voz de forma propositada, deixando-a mais aguda]: "Você tem amigo no governo? Como você conseguiu isso? Ah, francamente, hein!". Você fala: "Ô gente! Acorda! Brasil, 1995!". O dinheiro do governo que vá para o governo, que cuide das coisas do país, e não que fique numa babaquice de promoção de estatal que já tem... Por que [é] que precisa de tanta publicidade se, na realidade, você detém... se você detém o mercado, se uma estatal, na maior parte das vezes, ela é a única, sozinha, ali na parada?

[...]: [...] concordo [...].

Carla Camurati: Entendeu? Então, não tem... Tem que gerar dinheiro para cuidar das coisas do nosso país. E isso não é corrupção, isso não precisa de amigo, isso devia ser o primeiro cuidado que um país deve tomar. A Shell [empresa multinacional petrolífera, de origem anglo-holandesa, que tem como principais atividades a refinação do petróleo e a extração do gás natural], quando cuida do teatro no Brasil, não é à toa. Ela não é "irmã Paula" [gíria para pessoa que pratica intensamente a caridade sem olhar a quem]. Entendeu? Agora, a gente aqui, porque tem um departamento, porque o marketing no Brasil virou tudo... por isso o Collor ganhou eleição, por isso o país está ruindo água abaixo, porque, na realidade, a gente fica na camada da superficialidade de tudo, e tudo o que  tem alguma coisa de mais dimensão soa corrupção, soa amigo, soa interesse. Fala, eu quero saber: quem é que fecha as verbas de publicidade, ali, do governo? Onde é que estão os amigos ali? Onde é que vão os os milhões, ali, que vão em trinta segundos, dinheiros que fariam coisas enormes pelo país? E vai em trinta segundos... Aqui, na televisão, passando todo dia, na revista, que você vira e ninguém olha - o que é pior, porque você vê anúncio, você [assopra e faz gesto de virar a página] passa rápido, para ver o que te interessa -, então eu discordo. E eu acho que enquanto a gente não tiver um outro tipo de olhar, um outro tipo de generosidade, a gente vai impor o país ao mesmo tipo de lenga-lenga, entendeu? Então, você fala: "Eu dou graças a Deus!". Assim: "O Banco do Brasil é maravilhoso, porque ele ajuda, ele ajuda o teatro, ele ajuda a Bibi Ferreira a fazer o show dela.". Ele tem que ajudar sim! E ai do bobo que ficar enchendo o saco, querendo saber se Banco do Brasil deu o dinheiro para a Bibi Ferreira! Graças a Deus! Tem que dar! E que dê muito, porque se não é o Banco do Brasil, quem é que vai [dar dinheiro]? É o Banco do Brasil, sim, que tem que dar; a Petrobras que ajude as pessoas a fazer... se tem dinheiro, isso não é corrupção. Isso é cuidar do seu país, isso é o mínimo. Aliás, isso é o mínimo que deve ser feito. Corrupção são os salários que as pessoas ganham, é uma outra coisa. Bobagem é dar tanto dinheiro para o México [o México passou por grave crise econômica, em 1994, que se propagou por toda a América Latina e ficou conhecida como "Efeito Tequila", só superada graças ao apoio dos EUA e do FMI]. Aí a gente vai entrar numa - entendeu? -... num "angu de caroço" [confusão] que eu fico louca! Eu sou italiana, eu não posso [...] essas coisas. Preciso me acalmar. [risos]

Alessandro Giannini: Carla, só uma coisa...

Carla Camurati: [...]

Alessandro Giannini: Carla, já que a gente está nesse assunto árido, que é financiamento, não sei o que mais, eu queria saber a sua opinião sobre o modelo de financiamento que a Secretaria do Audiovisual propôs, que é Lei do Audiovisual [lei federal 8.685, de 20.07.93, de investimento na produção e co-produção de obras cinematográficas, audiovisuais e infra-estrutura de produção e exibição, que permite desconto fiscal para quem - pessoa jurídica ou física - comprar cotas de filmes em produção]. Quer dizer, essa coisa meio burocrática, que vocês [cineastas] têm que virar até tributaristas para entender direito aquela... aquela coisa toda. E eu queria saber o que é que você acha, se, para você, aquilo lá também é ideal. Quer dizer, não só ter a ajuda do governo, das estatais, mas se é por esse caminho, que é uma maneira de buscar ajuda na iniciativa privada, também; se é bom, se é ideal...

Carla Camurati: Eu acho que é interessante, quer dizer, tudo o que você vai... Assim , a lei do audiovisual ainda é muito verde, e eu não posso falar de uma coisa que eu ainda não consegui, porque o que aconteceu  [foi] o seguinte: quando ela foi aprovada, o  meu filme já tinha começado. E quando você tem um filme que está no meio, em andamento, [fica difícil] para você entrar num tipo de coisa assim. Quando você tem um projeto é mais fácil: você tem um projeto, ele é uma coisa estanque, ele tem lá um orçamento, e então você consegue. Quando esse projeto já virou outra coisa, ou seja, ele já é metade projeto e metade é filme, já está lá, você tem uma coisa que torna mais difícil de você entrar nesse tipo de lei. Então, eu não posso falar com muita profundidade sobre isso porque eu não pude utilizar. Eu acho que ela [a lei] vai ser interessante, sim. Eu acho que se você entra com um projeto antes de ele ter começado, você pode, através dessa lei, conseguir que as pessoas se interessem, e se a gente muda a história do cinema... porque você fala assim: “só a gente não está ganhando dinheiro com cinema. Só a gente.”. Os exibidores ganham dinheiro com cinema, e, graças a Deus, ganham muito dinheiro com cinema. Então, você fala: “Existem... Ah! Estão fechando as salas de cinema”. Estão fechando e abrindo. Fecha-se uma aqui, e abrem-se duas ali, menores. Quer dizer, está se mudando o perfil das coisas, mas, absolutamente, o cinema não é uma coisa que não rende dinheiro. A gente tem que descobrir como é que a gente faz render para a gente. Você está entendendo? A gente não está ganhando, mas tem muita gente ganhando. E eu acho que o importante é exatamente saber como é que  faz para a gente ganhar - a gente que produz, a gente que dirige, a gente que quer fazer cinema.

Heródoto Barbeiro: Carla...

Carla Camurati: Então, acho que pode ser um princípio interessante. Eu  queria ter usado a lei para poder falar melhor sobre ela. Eu só li, e quando eu vi, eu falei: "eu, do jeito que eu estou, vai me dar problemas ter que usar.".

Heródoto Barbeiro: Ok Carla, vamos fazer um intervalo. Nós fazemos um intervalo e voltamos daqui a pouquinho no Roda Viva, entrevistando Carla Camurati. Até já!

Carla Camurati: Gente, que calor hein! [passa a mão na testa]

[intervalo]

Heródoto Barbeiro: Nós voltamos aqui com o programa Roda Viva. Hoje estamos entrevistando a atriz e cineasta Carla Camurati. Queremos lembrar aos telespectadores que hoje não podem fazer perguntas, porque este programa nosso foi gravado. Carla, vamos falar um pouco também a respeito da televisão brasileira. As pessoas conhecem bastante seu trabalho também na televisão brasileira. E, rapidamente, gostaria que você nos dissesse, [desse um] rápido panorama sobre a televisão brasileira e as oportunidades que essa televisão, hoje, dá para atores e atrizes, de uma maneira geral. Se as oportunidades são maiores hoje [ou] são menores. Qual é a avaliação que você faz?

Carla Camurati: Eu estou afastada da televisão há dois anos. Desde que eu comecei fazer meu filme, quer dizer, a última coisa que eu fiz foi no SBT, quando eu vim para cá com o Avancini [Walter Avancini (1935-2001), escritor, autor e diretor de telenovelas e minisséries], e depois eu não... [corrigindo-se] Não, eu fiz - eu acho que fiz - um Você Decide [programa exibido pela Rede Globo de televisão, de 1992 a 2000, no qual eram encenados casos especiais que culminavam em finais diferentes. Após cada apresentação, os telespectadores interagiam e votavam, por telefone, o final que desejavam], ou dois, na TV Globo. Eu estou um pouco afastada da televisão. Depois que eu comecei a fazer cinema, que eu comecei a produzir esse filme, eu só fiz isso: eu escrevi o roteiro, fiz pesquisa, ba-ba-bá... fiquei em função disso e perdi um pouco essa noção. Quer dizer, eu não sou, hoje, a melhor pessoa para poder falar da relação, porque a televisão, inclusive, é uma coisa... ela muda muito. E muda muito rápido, as relações todas, não só de produção, como... sei lá... é... de escalar atores... Eu não estou muito por dentro, entendeu? Eu não estou... eu não vejo televisão.

Heródoto Barbeiro: Você tem recebido convites para voltar para a televisão?

Carla Camurati: Eu recebi um que eu me encantou, que foi do Nilton Travesso [Nilton Travesso, um dos principais personagens da história da TV brasileira, participou da fundação da TV Record, dirigiu festivais de música, o programa Fantástico, além de inúmeras novelas. Abriu nos anos 2000 uma Oficina de Atores, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, oferecendo cursos ligados à arte dramática], aqui, para fazer outra novela no SBT. É... do Mauro Farias  também, para fazer umas coisas lá na TV Globo. Mas o problema é que, como eu estou direto cuidando do filme, eu não tive mesmo... Porque se você se fala: “você tem que se concentrar.". É muita coisa.

Artur Xexéo: Carla, você podia estar estrelando a novela das oito, fazendo comercial de sabonete, posando, de novo, para a [revista] Playboy e ganhando muito, muito dinheiro. Em vez disso, você está entrando numa atividade [em] que as pessoas estão sempre com um "pires na mão" e tendo que explicar como consegue financiamento. Em que momento você deu essa virada? Houve uma virada? Ou você sempre foi assim e a atriz que a gente conhecia, de dois anos atrás, estava passando um tempo até chegar aonde você está? O que aconteceu?

Carla Camurati: É engraçado isso para mim, porque eu adoro ser atriz. Eu adoro representar! Eu sou muito feliz na hora de fazer. Eu sofro na hora de ver, mas na hora [em] que eu estou fazendo, nada me incomoda. Eu não sou uma pessoa que fica preocupada com roupa, se a roupa está assim, se a roupa está... Eu não tenho esse tipo de problema. Até, talvez, isso seja um defeito, enquanto atriz. Eu deveria ser mais cuidada; eu sou um pouco descuidada. Eu fico tão animada, na hora [em] que estou fazendo, na hora [em] que estou no estúdio, que eu fico, às vezes, meio desleixada. Mas chega uma hora [em] que você precisa... Eu descobri um dia que o mais legal de ser ator era você emitir a sua opinião. Porque, na realidade, representar é emitir a sua opinião sobre as outras pessoas. Então, se você faz uma mulher que é abandonada por um homem e que está desesperada, a maneira como que você faz aquela cena é exatamente a sua opinião de como deveria ser essa mulher abandonada, né? Isso é que é o mais gostoso. É quando você percebe que não necessariamente você tem que... você pode estar dizendo o mesmo texto de “n" maneiras e emitindo a sua opinião, seja você fazendo essa mulher como uma mulher fraca ou forte. Mas você está assinando embaixo disso. Depois, quando você... trabalhando como atriz, você acaba vendo que você tem um espaço meio restrito, que você quer falar de coisas que não te convidam, que são personagens que vão parar na mão de outras atrizes. Porque, claro, tem outros diretores que julgam que você não é atriz capaz de representar aquilo. Quando eu comecei a reparar, eu estava começando a ficar meio “pancada”, sentido assim: eu queria fazer personagens que as pessoas achavam que eu não podia fazer, e eu achava que eu podia fazer. Então você começa a ter problemas de ordem... com seu ego, que não são bons, entendeu? Você começa a ficar com o ego meio estranho; você começa a ficar... sentir inveja ou sentir sentimentos que não são bons para você mesmo, porque eles não saem de você e eles só lhe fazem mal. E você, na realidade... por que tudo isso? Porque você quer falar sobre determinadas coisas, porque você quer exprimir a sua opinião sobre determinadas coisas. Eu cheguei à conclusão que, então, eu deveria... em vez de eu ficar reclamando do que eu tinha... Porque, como eu sou muito crítica, o que acontece? Eu começo a reclamar. Aí ninguém me agüenta! Porque eu reclamo de tudo: eu reclamo disso, eu reclamo daquilo... Daqui a pouco eu falo: “você está chata, ninguém vai te agüentar. Você está horrível. Você cala a boca, fica quieta um minuto, pelo amor de Deus!”. Porque eu consigo me ver do lado de fora, e me vejo muito mal, né? Falo: "está demais! Você está passando!". Eu comecei a ver que eu precisava entrar em outro caminho, eu estava me fazendo infeliz. Eu estava me botando numa situação onde eu tinha que... eu estava ficando impotente e recebendo coisas que eu não gostaria de fazer, tendo que fazer às vezes, porque todo mundo precisa sobreviver. E aí você fala: “estou perdendo o canal do que é o meu trabalho, estou perdendo onde eu quero ir. Já, já eu vou estar é muito infeliz... já, já eu vou estar passando mal.” Então, o que eu tenho que fazer? Eu tenho que procurar o que eu gosto de fazer, o que eu quero falar. E fazer, e falar.

Celso Masson: Carla, essa trajetória, você sair da atuação para a direção, é uma coisa até bem rara no Brasil, - acho que a Norma Benguell fez isso -, poucas outras atrizes dirigiram seus próprios filmes. E na verdade são formações diferentes, né? Quer dizer, você fez dois curtas, que eu acho que você até exercitou um pouco, ali, como é que se dirige e tal, mas são formações diferentes. Quer dizer, atuar, por melhor atriz que você seja, não lhe garante que você saiba dirigir. E eu queria saber como é que foi esse seu processo de aprendizagem do ofício de dirigir um filme...

Carla Camurati: Foi olhando os  meus diretores.

Celso Masson: ... e se foi só meter as caras mesmo, falar: “Não, eu vou fazer, vou conseguir fazer, tenho essa super autoconfiança!".

Carla Camurati: Não, foi olhando os meu diretores, entendeu? Eu trabalhei com vários diretores de cinema, então eu ficava sentada olhando - né? -, vendo como é que eles faziam, chegava mais cedo no set...  Aí eu fico olhando, você fica ali olhando - né? -,  você fala: “nossa! Ah! Então é assim, tem que fazer assim...".

Celso Masson: Quer dizer, quando você está no set, como atriz, estava também fazendo estágio de direção?

Carla Camurati: É, quando você gosta de uma coisa, você aprende olhando - né? -, você aprende dando na observação, porque você gosta tanto que tudo entra dentro de você, até, às vezes, sem que você sinta, né? E trabalhar com Zé Antônio, com o Chico, - né? -, com Chico Botelho [(1948-1991)], diretor de fotografia, roteirista, cineasta e professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo]... Então eu ficava numa coisa de ouvir o que o Chico fazia... Aí você ficava vendo como é que... como é importante, no diretor, harmonizar a equipe inteira, quer dizer, como é que eles se colocavam... Então, é um processo que você vai pegando meio por osmose, né? Você vai... você vai observando, né?

Cunha Júnior: Carla, voltando à televisão, você já declarou: “No dia em que as pessoas me virem na televisão, pode ter certeza [de] que eu estou lá porque estou sem grana, estou sem dinheiro.”. Eu queria saber...

Carla Camurati: Adoro dizer isso. [Carla ri]

Cunha Júnior: Isso foi publicado no jornal, pelo menos. Queria saber se você não gosta do veículo mesmo televisão ou se você não gosta, por aqueles motivos que você estava dizendo, [por]que muitas vezes falta oportunidade para você fazer as coisas, como você gostaria de fazer.

Carla Camurati: Não, adoro o veículo, imagina, acho a televisão um veículo mágico em si. Nada contra o veículo. Às vezes com as propostas de trabalho. E, a bem da verdade... primeiro, quando eu digo isso, isso é uma verdade - né? - , porque tem uma coisa que... todo mundo adora mitificar, também, a televisão, né? Tem sempre aqueles atores que falam: “Nossa! Pra mim, fazer a Joaninha do ti-ti-ti no to-to-tó está sendo uma experiência! [risos] Uma coisa, estou aprendendo tanto!”. E eu fico do lado e falo assim: “nossa! Eu devo ser louca, porque não dá! Não é...”, quer dizer, sem nenhum deboche, não é para aprender tanto, nem é para tanto! Nada é para tanto... Você está fazendo ali um produto que é o que a própria televisão se propõe a fazer, quer dizer, sem... Só, para a gente não - de novo - engrandecer o que não precisa ser engrandecido, em nenhum sentido - né? -, dimensionar o que está se fazendo, que aí eu adorava, também, quando as pessoas vinham com essa coisa: “Como é a Marianinha do bu-bu-bu? ”. Você fala: “ah, a Marianinha - pra mim - eu estou fazendo porque eu não tenho um tostão!”.

[Risos]

Carla Camurati: E aí tem um pouco essa relação, né? Você precisa de dinheiro e você vende seu trabalho com a maior dignidade, com a maior seriedade. Mas não dá, por causa disso... que você queira iludir as pessoas, que aquilo que você está fazendo é a oitava maravilha! Porque... e se você acredita nisso, ainda é pior [enfatiza], porque você vai descendo seu teto. Você vai achando que aquilo é a oitava maravilha, e você não passa daquilo. E aquilo não é a oitava maravilha nem para a televisão, que é quem ganha dinheiro com aquilo. Quer dizer, a própria televisão, dentro das novelas, tem as minisséries que são os tratamentos mais especiais. Então, quando você, enquanto ator, faz esse tipo de declaração, você está sendo até bobo! Você fala: “Ninguém mais espera isso.”.

Heródoto Barbeiro: [Interrompendo] Não é uma forma de se autovalorizar um pouco, Carla? Não é uma forma, também, de o ator se autovalorizar, dizer: “Eu faço parte da novela tal.”? É o seu currículo...

Carla Camurati: Claro, é isso que estou dizendo. As pessoas se sentem... parece que o céu ficou ali, entendeu? Você fala: “empurra ele mais para cima.” [faz o gesto de empurrar para cima]. Aliás, nem existe céu, gente! É um infinito, né? É tudo uma ilusão!

Marta Góes: Carla, que preço você paga - né? -, na sua vida pessoal, para poder fazer o que você gosta? Do que você abre mão? Quer dizer, você precisa viver com menos dinheiro, você tem uma vida dura, você tem alguma... Enfim, é custosa, pessoalmente, essa opção?

Carla Camurati: Por enquanto não tem sido. No sentido de que eu não sou uma pessoa de grandes gastos, pessoalmente. Eu não sou uma pessoa que adora jóias, eu não sou uma atriz que se veste excessivamente... que precisa sempre estar com uma roupa nova... Ao contrário, eu sou uma atriz meio... eu gosto de umas roupas velhas, entendeu? Então, eu não sofro, eu não preciso de um carro último modelo; eu preciso de um carro que me leve e que não me encha a paciência, que não pare. Eu não tenho esse tipo de... Então, eu não sinto... eu até tenho uma educação um pouco classe média, eu sou infantilmente classe média. Então, meu sonho era o quê? Era ter meu apartamento, né? Então, a primeira coisa que eu fiz foi comprar o meu apartamento! Como toda pessoa de classe média. Você vai e fala: “puxa! agora eu já tenho! Ufa! Velhinha, eu vou estar ali, no Jardim Botânico, que é lindo, que da-ra-rã...”. Eu fui criando... quer dizer, o que eu queria e que eu fui construindo são pequenos portos - né? - de segurança onde você fala: “se eu ficar sem dinheiro nenhum, eu tenho apartamento, não pago aluguel; condomínio é pouco, porque é um prédio que não tem elevador, não tem nada, não tem que o gastar ali.”. Você vai construindo uma vida que faça com que você viva bem, quer dizer, eu vivo muito bem, eu tenho esse apartamento onde funciona a produtora, eu tenho uma casa que é alugada, que é onde eu moro. Mas eu nunca gastei excessivamente, eu sempre juntei. Eu tenho uma coisa que eu junto dinheiro, eu sou que nem formiga, eu junto para guardar, sabe a formiga que guarda para o inverno?

Artur Xexéo: Mas se você tem que dedicar dois anos da sua vida a um... ao filme Carlota Joaquina, que só vai dar dinheiro dois anos depois, você vive de quê? Se não pode fazer mais nada, tem...

Carla Camurati: Não, mas você nunca fica totalmente sem fazer nada - né? -, assim, absolutamente sem fazer nada. Não dá. E eu sempre junto um pouquinho de dinheiro. É aquela história: eu sempre... eu aprendi rapidamente que eu tinha que ter o mínimo de reserva que mantivesse, com dignidade, os meus desejos, você está entendendo?

André Klotzel: E eu espero que você tenha ganho um salário para fazer o filme também.

Carla Camurati: Não, ganhei um salário.

André Klotzel: Quer dizer, o filme não é uma coisa idealística e amadorística. [...] entendi.

Carla Camurati: Não, não...Você não ganha em dinheiro. Na produção, você ganha o seu salário.

André Klotzel: Você ganha um salário! Óbvio.

Carla Camurati: Você ganha semanal. Não é também... não é... É claro que você tem que medir sempre seu salário. Eu ganhava [o valor da] tabela, né? Você tem que ganhar como você paga. Você não pode se... Ainda mais quando você tem pouco dinheiro para administrar, essa administração tem que ser muito justa e muito clara. Durante o processo do meu filme, todo mundo sabia quando entrava dinheiro, quanto dinheiro tinha... Era uma coisa meio suicida. As pessoas diziam: “Você está fazendo isso?". Eu dizia: "tô.”. Porque eu tinha medo que as pessoas tivessem a sensação que eu poderia ter mais dinheiro do que de fato eu tinha, e que isso desarranjasse a minha equipe, e que eu acabasse perdendo as pessoas. Porque dinheiro é uma coisa que confunde muito as relações, né?

André Klotzel: É, eu acho que fica, às vezes, até a sensação de que é quase uma coisa amadorística [fazer] cinema, de tão... Sabe? [Para] Você se dedicar, você tem de parar de fazer as coisas na televisão, de ganhar dinheiro, para ir fazer cinema. Como é que é isso? Quer dizer, para você, acho que é uma coisa mais profissional, também, pelo que te conheço.

Carla Camurati: Não, mas não foi esse drama, porque eu tinha um dinheiro, eu comecei com meu dinheiro. Eu tinha um dinheiro guardado. Então, as primeiras coisas eu fui tocando com meu dinheiro, vivendo com meu dinheiro, chamando as pessoas. No princípio, ninguém ganhava nada. Todo princípio de elaboração do projeto, ninguém ganhava nada. A gente se reunia três vezes por semana. Até porque não dava para ganhar, porque não tinha o que pagar. Então, o que [é] que [eu] fazia? Eu pagava os custos de todo mundo, de tudo que o era preciso - isso eu conseguia pagar - até entrar o primeiro dinheiro de patrocínio, no qual... Eu só conseguia pagar com meu dinheiro a secretária, que ajudava a bater as coisas, a menina que fazia a pesquisa, que me ajudava a botar as coisas dentro... Você vai fazendo uma engrenagem pequenininha, onde você começa a girar as coisas.

Marta Góes: Mas, eu não me referi ao amadorismo do cinema. Eu me referi ao luxo de você fazer o que você gosta, e não o que  paga mais, entende?

[...]: Claro.

Alessandro Giannini: Agora, Carla, só uma coisa... Falou-se de antes; eu quero falar um pouquinho de depois. Agora parece que você está com... você chegou a ter quarenta mil espectadores no Rio e em Belo Horizonte...

Carla Camurati: Não. Já deve ter passado, já. Ah, já! Porque [em] Belo Horizonte a gente está fechando a segunda semana. A gente fez quatro mil e alguma coisa na primeira semana...

Alessandro Giannini: Bom, de qualquer forma,...

Carla Camurati: Já deve ter uns cinqüenta e alguma... cinqüenta e pouquinho...

Alessandro Giannini: ... a perspectiva...

Carla Camurati: Fico contando que nem... que nem criança: “olha, deve estar quatro mil e duzentos...”.

[Risos]

Carla Camurati: Cafona demais!

Alessandro Giannini: Eu falei com o distribuidor, aqui, de São Paulo, o Adhemar [Adhemar Oliveira, distribuidor e um dos maiores exibidores de filmes do país], do Espaço Nacional [espaço de cinema inaugurado em outubro de 1993, na Rua Augusta, em São Paulo, patrocinado pelo Banco Nacional e incorporado pelo Unibanco, quando houve a fusão das duas instituições financeiras, passando a se chamar Espaço Unibanco], e ele me disse que a expectativa que se tem é que você chegue a trezentos mil. Eu não sei se esse número é real. Mas se você chegar a trezentos mil, você vai fazer mais do que todos os filmes que... praticamente [mais do que] quase todos os filmes que foram lançados no ano passado. Todos os brasileiros. E você estava falando de lucro, de ganhar dinheiro... Dá para ganhar dinheiro fazendo trezentos mil espectadores?

Carla Camurati: [Interrompendo] Ainda não posso... Ah, com certeza! Deve-se ganhar dinheiro. Porque o problema é que tem um momento em que você ainda não consegue ganhar dinheiro, porque você tem que girar. Então, você fala: “é cópia que você tem que tirar.”... Porque eu fiz o contrário, eu quis desembocar o filme, quis assim: “eu só vou fazer o número de cópias que o filme precisar.”. Então, você fala: “dá para fazer mais uma? Ok, faz mais uma.". Eu não quero entrar achando que eu sou "a rainha da cocada preta" e depois ficar com aquele bando de cópia, sabe um tipo de coisa assim? [Não quero ficar] Devendo à Líder [laboratório fundado no Rio de Janeiro em 1954, com o nome de Líder Cinematográfica], que não pode. Você fala: “a Líder está falindo porque todo mundo fica devendo à Líder.”. Aí você fala: “a gente tem que mudar essa relação, porque senão a gente mesmo, vai se afundando.". E não tem outro jeito. E então, eu fui... agora, por exemplo, eu vou ter que ir tirando. Então, você tem gastos de publicidade que você tem que fazer. Você tem um gasto... por exemplo, eu vou lançar o filme em todos os lugares. Então, eu tenho custos disso. É claro que eu tenho uma equipe que me reduz esses custos ao máximo, mas eu tenho que pagar essa equipe. Essa equipe tem que receber legal, porque eles trabalham excessivamente. Então, tem um momento [em] que ainda não dá para ganhar, eu acho. Mas acho que não é uma coisa impossível, de jeito nenhum.

[Sobreposição de vozes]

André Klotzel: Mas é tendo o patrocínio? Quer dizer, isso, depois que o filme teve o patrocínio? Senão você não teria condições...

Carla Camurati:  Agora que eu não sei, André. Por exemplo, eu não sei direito... Eu não queria falar, ainda, sobre uma coisa que eu não sei onde eu consigo chegar nela.

Alessandro Giannini: Mas, aí é que está. Essa é a minha dúvida. Você mesma falou [que] você não quer parecer um maracujá, que fica [dizendo]: “Não tenho dinheiro, não tenho dinheiro!”, mas [eu] queria saber: dá para ganhar dinheiro com filme nacional, fazendo filme nacional desse jeito que você está fazendo?

Carla Camurati: Dá.

Alessandro Giannini: Assim, [de um jeito] que parece uma coisa meio penosa?

Carla Camurati: Eu tenho que responder isso daqui a pouco. Eu tenho que responder isso mais tarde. Eu tenho que, primeiro, percorrer o caminho que eu quero percorrer, fazer exatamente tudo que eu acho que, para ganhar dinheiro... Não é que... não é fácil, porque você tem que fazer para você, você tem que ir... Você fala: “eu tenho que ir ocupando o maior número de praças possíveis e tenho que fazer um trabalho de longa resistência.”, você está entendendo? Eu não posso me contentar com Rio, com São Paulo, sem ter interior, interior do Rio, interior de São Paulo... Você tem que ir cavucando, entendeu? O Brasil é muito grande!

[Sobreposição de vozes]

André Klotzel: E dar dinheiro, nesse caso, quer dizer até uma coisa maior, acredito. Porque não é ganhar dinheiro, se remunerar...

Carla Camurati: [...] Isso dá.

André Klotzel: Eu acho que é muito mais. Você tornar uma produção uma coisa viável, quer dizer... E eu acho que o filme só está aí, e só teria condições de, eventualmente, você até ganhar algum dinheiro, porque você teve os patrocínios. Ou não?

Carla Camurati: Não sei. Isso que estou dizendo. Meu desejo, André... se tem uma coisa [com] que eu sonho, que eu adoraria poder, é ter de fato o maior presente: é que ele gerasse o dinheiro pro meu segundo filme.

Marta Góes: Qual é o segundo filme?

Carla Camurati: Ah, eu não posso falar!

[Risos]

[Sobreposição de vozes]

André Klotzel: Mas nem num programa de televisão?

Carla Camurati: [Carla ri] É exatamente! Mas, agora, todo mundo já fica falando disso. Eu falo: "gente, eu não quero. Eu fui falar isso uma vez, agora virou...virou...". E eu  não escrevi ainda, só tenho o argumento. Você fica falando... arrotando...[...] Não pode!

Marta Góes: O que [é] que acontece? Esvazia?

[...]: Dá azar?

Carla Camurati: Não, não é isso. É porque passa a ser notícia antes de existir.

Marta Góes: E aí?

Carla Camurati: E aí, é ruim. Porque é legal que seja notícia quando a coisa já está fortinha, para poder ser sugada e ir para o mundo. Quando ela ainda é pequenininha, você fala: “gente, é só uma idéia, um argumento. Ele não é...”. Eu sei falar, sei lá, quinze minutos sobre isso.

[Sobreposição de vozes]

Heródoto Barbeiro: Só um instantinho. Carla, veja o seguinte: eu estou vendo você falar a respeito dessas coisas econômicas todas, e isso depende também de as pessoas terem dinheiro até para ir ao cinema, de as condições econômicas do país permitirem que as pessoas possam ir no cinema, teatro e outras atividades culturais. Eu queria saber o seguinte de você: como você está avaliando esses primeiros dias do governo Fernando Henrique Cardoso? Qual é a avaliação que você faz? Acha que o presidente está mantendo o Plano Real? Isso vai dar condições para as pessoas irem a atividades culturais? Para empresários poderem... ?

Carla Camurati: Acho que está complicado.

Heródoto Barbeiro: Está complicado? Qual é a complicação que tem?

Carla Camurati: [Pensativa] Sabe, eu preferia não falar. Eu vou ser sincera, eu preferia não falar.

Heródoto Barbeiro: Acha que ele não está cumprindo as promessas que fez na campanha?

Carla Camurati: Não, não é isso.  Eu preferia não falar, por dois motivos: primeiro, porque se eu emitir a minha opinião, ela vai ser cruel, ela não vai ser legal.

Heródoto Barbeiro: Contra o presidente?

Carla Camurati: Não, contra o governo. Não é contra o Fernando Henrique. Eu não falo da pessoa do Fernando Henrique. Eu falo do governo que estou vendo formar aí. E tem muito pouco tempo. Aí você fala: "estou falando de uma coisa que está há trinta dias aí...". E se eu fosse... se eu for falar exatamente o que eu sinto desses trinta dias, eu vou fazer uma análise terrível, porque eu sou muito crítica. Então, eu vejo já rombo em tudo quanto é lugar. A vida também já me ensinou, e a minha própria experiência, que às vezes você tem que ter um pouco de calma. Você fala: “você tem que ter calma até para emitir a sua opinião e a sua opinião virar alguma coisa construtiva, e não demolidora, porque senão ela é só demolidora, né?

Heródoto Barbeiro: [Interrompendo] Mas o que [é] que a desgosta, por exemplo? Sem emitir opinião, o que a está desgostando nesse governo?

Carla Camurati: E ser crítico é fácil, também, né?

Heródoto Barbeiro: Mas, Carla, o que a desgosta? O você acha que não está como você gostaria que estivesse?

Carla Camurati: Eu não gosto... demagogia ou não, eu não gosto de ter aumentado, não gosto de eles terem se aumentado. Aliás, não gosto do Congresso e do Senado, particularmente falando. Eu não sei o que eu faria com eles, mas eu não gosto deles. Eu não gosto, gente, não gosto! Eu olho para eles, eu falo... eu não gosto de ver como eles trabalham, não acho bonito,...

[...]: Eles não trabalham.

Carla Camurati: ... acho feio, fico envergonhada, eu olho e falo: “nossa, que vergonha!”. [coloca a mão no rosto, em sinal de vergonha] Cada vez que mostra o Congresso, cada vez que mostra... Eu sinto tanta vergonha; eu falo: “gente, pelo menos finge que está trabalhando, finge que...”. Você vê aquele bando de homem: "Ha-ha-há...". [imitando uma gargalhada] É uma esbórnia, é uma coisa tão feia, visualmente falando. E a gente tem um país tão pobre... Então, eu não gosto de eles se aumentarem, não gosto de achar... eu não consigo entender a relação de não aumentar o salário mínimo. Demagogia ou não, você fala assim: “aumentou tudo, estamos dando dinheiro para o México, estamos fazendo isso...”. Fala: "se vira, dane-se, foda-se, explode o país, entendeu?". Mas não... não, de novo não joga para o lado mais fraco, porque a inflação... Fala: "não está tendo inflação.”. É mentira! Eu queria comprar um sapato para estréia do filme, que eu tinha deixado o meu, e você vai na loja e nego te pede 240 reais por um sapato. Aí você fala: "não importa se eu tenho dinheiro para comprar ou não; eu não pago e não gosto de ver o sapato custando isso, me faz mal!". Chega uma hora [em] que você fala: “Será que ninguém passa mal? Será que ninguém... ?”. Fala: "eu sugiro [ao] Congresso, Senado, governo, todo mundo [vivendo somente] com uma cesta básica [por] trinta dias.". Só para situar. Assim, numa boa, sem querer levantar nenhum... não quero me antagonizar, porque sempre vira uma coisa de "ai", uma briga, uma picuinha, uma nhe-nhe-nhém...Você fala: "não é! Senta e vamos lá com a cesta básica. Passa trinta dias.". [Vamos] Aproveitar que a gente tem uma relação melhor, estamos evoluindo... Todo mundo, sugiro ao país, uma cesta básica para todo mundo. Para a gente poder dimensionar. É claro que eu acredito que deva ser difícil, é claro que não deva ser... [estala os dedos] não deva estar num piscar de olhos, mas, de qualquer maneira, tem que se resolver.

Heródoto Barbeiro: Mas foi isso que fez com que você não participasse das campanhas, dessa campanha eleitoral, pelo menos, ficasse fora disso?

Carla Camurati: Eu acho que... É... Eu estive com o Fernando [Henrique], eu gosto muito dele, não é isso.  É sempre como as pessoas se colocam, é a administração de tudo. É... Eu acho que artista não tem que fazer mais campanha. Eu, pessoalmente, acho que a gente tem que ficar fora disso. Você fala: “Apóia Beltrano ou não apóia.”. Eu não apoio e nem desapoio. Eu fico olhando a pessoa fazer, porque o que acontece é o seguinte: eu não quero ter compromisso, no sentido de apoiar uma pessoa que, nem ela pode responder pelos atos dela antes de estar numa posição. Segundo, a gente tem que se colocar numa posição menos de glória, menos de pessoas tão importantes, para quem nosso apoio seja definitivo, porque não é. Entendeu? O país tomou rumos horrorosos, a gente tentando fazer com que ele fosse para outro lado. E fala assim: "chega uma hora que você tem que se colocar enquanto cidadão, não enquanto... - entendeu? - ... uma - sei lá -, uma bijuteria que fica no pescoço de alguém, entendeu?".

Celso Masson: Carla, o jornal Folha de S.Paulo, ontem, na primeira página, colocou uma pesquisa, segundo a qual despenca a popularidade do Fernando Henrique. Você estaria engrossando esse caldo de desaprovação ou, enfim, nesses trinta dias - [você] falou que você prefere não comentar, mas, grosso modo, uma análise genérica - você está mais decepcionada, como a maioria das pessoas, segundo o Data Folha [instituto de pesquisa pertencente ao Grupo Folha. Foi criado como departamento de pesquisas do jornal Folha de S.Paulo em 1983 e, em 1990, o instituto se torna independente para atender clientes externos]? Sei lá, a popularidade, a aprovação, de ótima - era 70% - caiu para 30 e pouco, 38%. Você já sente isso? Quer dizer, em um mês, você consegue se sentir decepcionada ou não? Ou vai continuar preferindo não falar?

Carla Camurati: Eu fico triste de ficar falando. A bem da verdade, o que me acontece é que vai me dando uma angústia. Eu falo: "cacete! Não acredito que a gente vai passar tudo de novo! Não acredito que, de novo, a gente vai entrar no buraco! Não acredito as pessoas não sacaram em que ano a gente está! Não acredito que a mentalidade... que você não consiga, que tudo o que a gente viveu não sirva para nada, que a gente resolva, de novo...". E e fala: "eu não acredito em transformações radicais, em reformas [enfatiza, com voz de sátira]! Aliás, eu tenho horror a isso!". Eu acho que um país feito o Brasil tem que ser harmonizado, ele tem que ser equilibrado, e aí você vai andando; mas você tem que só equilibrar. Você fala: “harmoniza os egos, as forças...", você fala: “mas parece que não muda, parece que não muda.”. Com relação ao Fernando, por ser uma pessoa que eu gosto, me angustia, então eu não tenho nem vontade de ficar levantando bandeira contra ele, assim: “Fernando...” [simulando tom de briga] Mas já falei, me dá um sentimento ao contrário: "Ah meu Deus, ah, não!”. Eu vou lendo e vai me dando assim “ah! Não, não, não, não!”. Porque aí você fala assim: "vamos cair de novo ali?". Não quero; eu queria uma história diferente. E pode ter. E estava na nossa mão, entendeu? E começa um jogo que já é tão conhecido - né? -, tão decepcionante, e muito rápido, o que eu acho que é pior.

Cunha Júnior: Carla, vamos puxando agora um pouquinho para o lado pessoal. Você disse que é extremamente crítica, que você muitas vezes não consegue nem ver o resultado do seu trabalho, que você sempre vai achar alguma coisa [de] que você não gostou... Até puxando pelo lado dos Stones [Rolling Stones, banda de rock inglesa formada em 1962, considerada uma das bandas mais importantes das décadas de 1960/70 e ainda em atividade], que estiveram agora há pouco em São Paulo [de 27 a 30 de janeiro de 1995, se apresentando no Estádio do Pacaembu], a história do "I can´t get no satisfaction" [título de célebre canção composta por Mick Jagger e Keith Richards, integrantes da banda Rolling Stones, em 1965, e que fala sobre a insatisfação: "Eu não consigo me satisfazer."]. Parece que você também saiu um pouco nessa linha, de não estar muito sempre satisfeita com as coisas que você está fazendo. Não basta ser atriz, tem que ser boa atriz; não basta ser boa atriz, tem que começar a escrever, ou começar a produzir, ou começar a dirigir. Como é que fica isso, na sua cabeça, essas suas ilimitações? E para onde é que você acha que você está indo agora?

Carla Camurati:  Não sei direito. Isso é uma coisa engraçada, porque o que acontece é que eu sou movida pelos meus desejos, entendeu? Eu tenho desejo de fazer determinada coisa, eu tenho desejo de realizar determinada... E eu vou entrando neles. E eu ainda não consegui me ver, no geral, do lado de fora, entendeu? Eu consigo me olhar nas pequenas atitudes, do lado de fora. É engraçado isso. Então, se eu estou falando, e se eu conto uma mentira, ou se eu estou mentindo, eu consigo me ver do lado de fora e falar: “a sua cara de mentira está péssima, é melhor você quebrar logo, agora, e falar, porque ele vai ver que você está mentindo.”. Eu consigo. Agora, quando você está fazendo uma coisa que é apenas o seu desejo, quer dizer, a vontade que você tem de expressar determinada coisa, é mais difícil você ter o geral do que você está fazendo. Ou qual é a condução que você está dando para sua vida, entendeu? Você está indo, seguindo alguma coisa.

[...]: Carla,...

Marta Góes: Mas, do que você já fez, talvez retrospectivamente seja mais fácil pensar, né? Então, você achou graça na biografia do seu currículo, apresentado aqui, né? Que é tão variado, que tem desde uma capa de Playboy até uma monja - não é verdade?...

Carla Camurati:  É.

Marta Góes: ... no teatro.

Carla Camurati: É.

Marta Góes: E você, olhando para essa diversidade, o que você acha que isso lhe trouxe de bom ou de prejuízo?

Carla Camurati: Eu acho que de prejuízo, nada. É engraçado, eu não me arrependo. Acho que só tem um arrependimento, que é um trabalho, que é um filme, que eu não vou falar!

[Risos]

Carla Camurati: É... Obrigada, obrigada. Só para avisar que não adianta, que eu não vou falar! Porque aí não vale dar cartaz para o que você não gosta, né? Vou gastar meu tempo aqui falando... Mas, de uma maneira geral, todos os meus trabalhos são coisas que eu gostei muito de fazer e coisas que, todas, me acrescentaram. Você fala: desde eu ir posar nua para Playboy.... Era uma coisa que eu tinha vontade de fazer.

Marta Góes: O que isso lhe trouxe?

Carla Camurati: Eu ficava olhando as mulheres e a maneira como as pessoas posavam nuas, e dizia assim: "que engraçado, por que todo mundo precisa encolher a barriga, arrebitar a bunda, fazer cara de tesão?". Por que [é] que você estar nu não pode ser uma coisa... ? Você está só nu! Entendeu? Você não precisa nem... se você tem um pouquinho de barriga, que esse pouquinho apareça, que isso não tire a sua sensualidade. Quer dizer, onde é que está o canal de sensualidade, da expressão de um corpo nu, né? Você vê muita matéria de mulher nua [vestindo] mini-blusa, short , né? Assim, aquela mini-blusa, tênis e a meia, né? Aquelas pessoas... Fala: "nossa! Como é feia, né?". Por que o tênis e a meia? E por que a mini-blusa? E como eu recebia convite, eu tinha a vontade... É, eu sou uma pessoa que não tenho muito problema e nem problemas morais de experimentar as coisas, e dizer: “nossa, vai ser legal fazer isso.”. Eu só tinha medo [de] que saísse alguma coisa que eu não gostasse. Porque quando você está exposto, você tem que estar seguro de que o que está ali você responde. Goste Beltrano e Sicrano não goste, você gosta. Aí você está defendida. Então, o que eu fiz foi assinar um contrato, dizendo: “olha, eu não quero dinheiro, enquanto a gente não aprovar as fotos. Aprovamos as fotos, ok, eu recebo.". E é engraçado que todo mundo que posa nu sempre posa por dinheiro - né? - , é outra coisa que eu adoro. Sempre foi uma coisa...

Marta Góes: Irrecusável...

Carla Camurati: ... que ganhou um dinheiro, que... Olha... aí fica perdoado! Eu falo: "que engraçado! Por que as pessoas não podem...?". A gente nasce nu, qual é o problema? A gente namora nu. Nu não é, também, essa coisa do outro mundo, que parece que nu, você precisa ter uma quantia bilhardária para justificar...

Heródoto Barbeiro: Mas quanto é? Quanto é, Carla?

Carla Camurati: Não me lembro mais quanto eu ganhei, exatamente.

Heródoto Barbeiro: Quanto vale um cachê desses, aproximadamente?

Carla Camurati: Eu não sei, porque eu fiz isso há muito tempo. E o dinheiro no Brasil muda tanto que você não tem mais a referência do que você ganhou. Eu me lembro que eu ganhei um dinheiro que era bom, era um dinheiro muito bom, não foi por nada, não foi de graça que eu fui lá fazer isso [risos], mas... eu tinha uma percentagem sobre a vendagem da revista, de capa, mas também eu não poderia jamais dizer: “não, eu fiz isso porque o que eu ganhei de dinheiro foi uma [fortuna]...”. Porque, também, o dinheiro não compra determinadas coisas, se você de fato não quer fazê-las. No outro dia me ligaram e queriam os figurinos do meu filme para um comercial. Eu falei: “não tem dinheiro... nem a verba do comercial me seduziria, para deixar o figurino do meu filme para aquele comercial.”. Sem nenhum problema! Fala: “Ah, você não quer emprestar?”. Mas você fala assim: "gente, como eles pensam que eu poderia dar o figurino do meu filme para um comercial?".

José Geraldo Couto: Carla,...

Carla Camurati: Nem se me desse o cachê do comercial inteiro para pôr o figurino, não levava, entendeu? Porque não é um dinheiro. O dinheiro, ele vai até um limite, ele é muito bom, mas tem um limite; depois ele pára, e ali ele fica, né? Porque também gastou, acabou, né? Então, ele não pode comprar outras coisas, quando ele é uma coisa que acaba. E não há dinheiro que você não acabe. O pior é isso, né?

José Geraldo Couto: Carla, isso que você acabou dizer mostra como você é zelosa, ciumenta até, com seu filme, né? Quer dizer, você, no seu filme, você participou de todas as fases, desde a pesquisa, a realização do roteiro e tal à produção e, até, à distribuição, né? Foi levar o filme lá e... quer dizer,...

Carla Camurati: Eu fico envergonhada...

José Geraldo Couto: E, hoje, está na moda, mais ou menos, entre alguns críticos dizer que o cinema de autor está falido, que tem autor demais no Brasil, que o que falta é produtor, sugerindo um esquema de produção diferente, em que o diretor seria quase que um assalariado, que vai lá e cumpre a sua função, né? Como é que você vê essa discussão?

Carla Camurati: Acho que isso já existe. Isso é o que a novela faz, entendeu? A novela é exatamente isso: o diretor vai lá, é contratado, recebe aquele roteiro, cumpre a sua função e trabalha num esquema no qual ele não tem nada... Acho que qualquer forma tem que contar com o pessoal. Não quero dizer que o cinema de produção não seja uma coisa interessante. Para isso, o cinema no Brasil tem que se estabelecer de novo enquanto indústria. Porque a gente fala em indústria, mas não tem indústria de cinema. É uma bobagem quem acha que existe uma indústria, no Brasil, de cinema. Nós não temos. Você tem - sei lá - meia dúzia de pessoas que amam cinema, que pegam a sua vida e ficam ali para fazer os filmes que eles querem. Isso não é uma indústria, isso não é uma indústria, entendeu? Falo assim, a hora que virar indústria, render muito dinheiro, a gente voltar a ter estúdios e ta-ra-rá, você pode até, de novo, ter esse tipo de cinema. Quer dizer, eu não sei até que ponto a imprensa, às vezes, não quer lançar sempre moda - entendeu? -, e espelhado, olhando lá para fora, e fica querendo botar modelo aqui dentro. Só que tem que ter uma harmonia com aqui dentro. A gente é capenga. Eu falei agora... já está me dando vergonha essa coisa de distribuir, porque eu já começo a me sentir um pouco mambembe demais. Eu estava fazendo uma coisa que era muito, era quase um segredo. Eu dizia: “Bianca, se alguém perguntar você não fala nada; você fala: 'Não, por enquanto, a gente...'”. Porque não é... Na realidade, eu não queria nem fazer um escândalo com isso, nem um estardalhaço, eu só queria testar uma coisa que eu achava que era legal. Quer dizer, a bem da verdade, talvez fosse até pior. Eu não queria era perder o controle do meu filme. Eu não queria testar nada. Eu não queria era perder o controle, e dizer: “perdi a mão; ele foi embora; ele se fodeu; ele acabou; ele não deu certo e eu não cuidei dele.”. Eu queria dizer assim: "não! Eu vou, nem que eu vá...". Entendeu? Tendo o meu carro para levar, e não tendo que saltar do ônibus... Eu brincava  sempre com a Bianca e dizia: "só não pode perder o carro, porque são seis latas - e muito pesadas!”. Então, você leva e cuida para que a coisa ande, porque, no mínimo, para ela fazer sentido com o trabalho que você teve, para você não ter amargura, para você não ter... você não ficar frustrado depois.

Heródoto Barbeiro: Carla, você citou novamente a questão da televisão e falou novamente da novela... Carla, existe mercado no Brasil para essas novelas importadas, especialmente as novelas mexicanas?  Ou você acha que isso, de certa forma, deteriora um pouco o mercado de novelas no Brasil? Ou é uma questão de custo de produção? De mau gosto? Qual é a sua observação?

Carla Camurati: Eu acho divertidas as novelas mexicanas.

Heródoto Barbeiro: Você gosta?

Carla Camurati: Ah! Eu adoro! A Chispita [telenovela mexicana transmitida em 1983, que conta a história de uma menina órfã, Isabel. No Brasil, foi exibida pelo SBT e teve diversas reprises até 1996], eu adorava. A Chispita  era maravilhosa! Quem não viu  Chispita? Aquela menina [...] que era uma peste, má! Tem uma coisa que é engraçada: a América Latina, ela tem um canal, o México, uma coisa... Porque, se você não engrandece o produto da novela, se você não quer que a novela seja o cinema e que aquilo chegue... Se você consegue dizer: "xampu é xampu, desodorante é desodorante, todos servem para limpeza, mas não adianta você misturar.". Quer dizer, cada coisa vai servir para você num momento. A novela mexicana é engraçada. Ela é um entretenimento engraçado, porque você vê as mulheres com aqueles cabelos, completamente maquiadas, uma coisa muito... Ela é engraçada, ela beira um ridículo que é muito legal, o folhetinesco às últimas conseqüências. Enquanto a nossa novela, ela pretende ser mais chique, mais cool, mais elegante, os mexicanos, eles rasgam na novela, entendeu? É tudo...! E você olha aquilo... eu olho, acho engraçado, não consigo nem defender, nem tirar, nem falar de mercado, no sentido [de] que você fala: "acho que televisão... a televisão, ela é um veículo tão devorador, ela precisa tanto de programação... aliás, o desespero de lidar com ela é porque, mal você acabou de fazer aquilo, que você suou para fazer, ela já comeu, já jogou fora, já está precisando de outro. É aquele glutão: “Vamos lá! Outro, outro! Estava com fome.”. E quanto mais a programação vai ficando mais tempo no ar, mais canais você tem, você precisa de todo tipo de programação.

Alessandro Giannini: Carla, você falando dentro desse negócio de televisão, o Cacá fez um filme - né? -, o Veja esta canção, em co-produção com a TV Cultura - né? - e, assim, me passou pela cabeça... você está falando esse negócio de a televisão sempre pedir programação e tal, você acha que você se encaixaria num esquema desses, de co-produção com televisão? Assim, em que o controle sobre o produto é mais ou menos dividido? Você acha que você se adaptaria a isso?

Carla Camurati: Sim, dependendo, acho que sim. Acho que também não que deve ser...

Alessandro Giannini: Você acha válido? Quer dizer...

Carla Camurati: Claro, acho que, aliás, a televisão devia entrar em sintonia com o cinema, ao invés de se antagonizar, entendeu?

Celso Masson: Televisão no Brasil é indústria. Cinema não é. Quer dizer, as duas coisas...

Carla Camurati: É, exatamente. Não tem por que a televisão ter tanto problema com o cinema e vice-versa. Tinha que trabalhar junto, né?  E não tem por que esse buraco.

Heródoto Barbeiro: Xexéo,...

Artur Xexéo: Carla, você está falando de teatro, TV, de televisão e cinema. Você é uma atriz de teatro também, e tem pelo menos uma experiência de teatro radical, que é o teatro da Bia Lessa [Beatriz Ferreira Lessa (1958-), atriz e diretora de teatro brasileira que, a partir dos anos 1990, torna-se artista múltipla, trabalhando em cinema e realizando curadorias e cenografias para eventos de artes plásticas e decoração], né? O que [é] que o teatro lhe traz? O que [é] que seu trabalho com a Bia Lessa lhe trouxe?

Carla Camurati: Maravilhoso! Assim, eu adoro a Bia, eu acho a Bia uma pessoa... Eu aprendi muita coisa com a Bia, muita coisa a meu respeito, que é isso que é mais legal. A Bia conseguiu localizar em mim coisas que eu nunca tinha visto. Ela tem um senso de observação muito agudo. Então, trabalhar com uma pessoa que gosta de você e que tem um olhar agudo, que ao mesmo tempo que é crítico, porque gosta, é generoso... Quer dizer, nenhuma crítica que a Bia me faz, hora nenhuma, me deixa insegura. Assim... eu sei que ela gosta de mim, eu sei que ela gosta do que eu faço. Então, o fato de ela me criticar não é uma negação. É só um "alô" para que eu cresça, entendeu? Então, foi uma delícia fazer Cartas Portuguesas [romance epistolar publicado no século XVII, de Mariana Alcoforado, que conta a história de uma moça que vivia em um convento desde os doze anos e conhece um oficial francês, por quem se apaixona imediatamente, sendo depois abandonada. A obra, composta de cinco curtas cartas de amor enviadas por ela, foi encenada em 1991 por Bia Lessa, com Carla Camurati num dos papéis principais] foi maravilhoso! Porque ela conseguiu pegar todos os tipos de vícios que eu podia ter criado, a nível de interpretação; a Bia foi lá e desarmou, no sentido de que me mostrou onde eles estavam, entendeu? Eu tinha... estava com um vício engraçado, uma coisa com televisão, que eu tirava o foco, às vezes. Eu tirava o foco do olho. Não era nem que não tivesse olhando, não era nem que eu não tivesse... mas era assim, o olho dá uma [...]  e parece que você sobe um pouco, você faz [...]. E era maravilhoso, porque eu, ensaiando com a Bia, a Bia dizia assim: “Estava ótimo, por que saiu de foco?”. Você fala: "cacete, ela pegou!". E é uma delícia, porque você sabe que isso existe dentro de você, só que, ao mesmo tempo, você também não sabe, porque é quase como se fosse um cacoete, e quem tem cacoete sabe que tem, mas não sabe exatamente a hora que está fazendo. Quer dizer, assim... é uma coisa que fica... Então, para mim, foi uma experiência deliciosa. E Cartas Portuguesas, eu adorava fazer. Era um espetáculo difícil de fazer. Não é aquele espetáculo que fica na sua mão, que você fala assim: "eu sei dele, eu sei o tempo inteiro.". Mas é um espetáculo que você... todo dia você tem que ir lá e ganhá-lo, porque o cenário se mexe, porque a árvore que estava ali caiu, porque fez um buraco aqui... então, você não pode correr sem prestar muita atenção... Você tinha que ter uma... Para mim foi lindo fazer, foi... Aliás, adoro trabalhar com a Bia.

Heródoto Barbeiro: Carla, nós vamos encerrar o nosso Roda Viva de hoje. Nós queremos agradecer a gentileza de sua participação. Muito obrigado.

Carla Camurati: Obrigada a vocês também.

Heródoto Barbeiro: Nossos agradecimentos também aos jornalistas aqui presentes, à sua atenção; e o programa Roda Viva volta na próxima segunda-feira, às dez e meia da noite. Até lá e tenham uma boa semana.

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