Memória Roda Viva

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Maurício de Sousa

9/10/1989

O desenhista e empresário comenta a evolução dos quadrinhos no mundo, a dinâmica de criação em seu estúdio e o destino de seus personagens

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[Programa gravado]

Jorge Escosteguy: Boa noite. Estamos começando mais um Roda Viva. Este programa é transmitido ao vivo pelas TVs Educativas de Porto Alegre, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Bahia, Piauí, TV Cultura de Curitiba e TV Cultura do Pará, e ainda é retransmitido pela TV Educativa do Espírito Santo. O convidado desta noite é o desenhista e empresário Maurício de Sousa. Infelizmente, os telespectadores não poderão fazer perguntas por telefone, porque o programa foi gravado. Para entrevistar Maurício de Sousa esta noite nós convidamos para o estúdio da TV Cultura: Fábio Malavoglia, editor-chefe do programa Metrópolis da TV Cultura; Álvaro de Moya, jornalista; Hamilton dos Santos, jornalista de O Estado de S. Paulo; Ana Maria Fadigas, diretora da Editora Azul; Lia Rosenberg, educadora; Jal, desenhista, e Roberto Miller, diretor do programa Lanterna Mágica da TV Cultura. Na platéia assistem ao programa os convidados da produção. Maurício de Sousa nasceu na cidade de Santa Isabel e tem 44 anos, criador de personagens famosos como Mônica e Cebolinha, é considerado um fenômeno no mercado de editorial brasileiro: as histórias de Maurício de Sousa vendem três milhões de exemplares por mês no Brasil e ainda são publicadas em vinte países da América Latina e Europa, mas o sucesso de seus personagens não para por aí e hoje eles podem ser encontrados em mais de 3.500 itens diferentes de produtos de consumo. No final deste ano, o contrato de Maurício de Sousa e a Editora Globo, que publica as suas revistas, termina e a partir do ano que vem já se comenta no mercado [que] um estúdio de Maurício de Sousa poderia dominar todo o processo editorial e colocar seus personagens nas bancas por conta própria. Boa noite, Maurício.

Maurício de Sousa: Boa noite.

Jorge Escosteguy: Seu contrato com a Globo deve ser renovado ou você pretende fazer todo o processo editorial e produzir as suas próprias revistas?

Maurício de Sousa: Antes de responder, eu queria falar do meu contrato com a vida. [Fala sorrindo] Tenho 54 anos, não 44, como você falou.

Jorge Escosteguy: Desculpe, 54. [Jorge sorri, encabulado]

Maurício de Sousa: E já que estamos com liberdade de falar aqui também em um programa como este, eu queria dizer que eu atendi ao convite de vir a este programa, embora eu não goste muito do visual dele, [porque] a gente fica aqui no meio desta arena, olhando para cima, principalmente eu, sendo taurino, sem muito pescoço [Maurício movimenta o pescoço], espiando lá para cima e assim meio encurralado, meio acuado, não é muito do meu feitio, como eu também não gosto de encurralar, de acuar ninguém. De qualquer maneira é sempre bom a gente ter oportunidade de falar com gente de comunicação sobre as nossas atividades e o que nós fazemos. E agora, finalmente, vamos voltar aí ao que você perguntou sobre editora, não é? Nós temos um contrato vigente com a Editora Globo, tem mais algum tempo pela frente; eu estou negociando realmente uma antecipação do final do contrato, estamos negociando com possibilidade de conseguirmos isso, vai depender muito da boa vontade do outro lado também. E, efetivamente, a minha idéia seria ter a própria editora, até para trabalhar com uma Globo, com uma Abril, com uma outra editora, para que nós pudéssemos efetivamente ter os produtos editoriais nos diversos segmentos que me interessam, em temos de marketing e em termos de possibilidades. Nós podemos fazer livros, podemos fazer revistas de atividades, como podemos fazer - estamos fazendo muito bem - as revistas de quadrinhos. Mas não está no nosso comando isso. Temos um contrato de exclusividade com a Globo.

Fábio Maravolia: Você pretenderia fazer que outro tipo de revista, além das que você tem?

Maurício de Sousa: Quero fazer tudo o que a gente possa fazer. Tenho duzentos artistas nos nossos estúdios, criando mil coisas. Então nós estamos, realmente, no campo editorial, muito aquém do que poderíamos estar com o próprio material que já produzimos. É possível até que aconteça... seria desagradável... aconteça de eu precisar lançar em outros países um leque maior de produtos editoriais do que eu lanço no Brasil, por força de um contrato que está me cerceando.

Jorge Escosteguy: Mas esse contrato, se há esse mercado, se você tem esse interesse e a Globo eventualmente poderia faturar um pouco mais com esse trabalho, por que não se pode...?

Maurício de Sousa: [Interrompendo] Aí é uma questão de especialização ou de nós conversarmos realmente em cima de bons estudos. Algumas editoras estabelecem seus próprios objetivos de mercado e não interessa. Às vezes o interesse do autor, do desenhista, não é o mesmo do grupo editorial. Aconteceu isso na Abril. Eu saí da Abril para abrir o leque e infelizmente a Globo não abriu, não abrimos o leque ainda. Então eu vou fazer o meu próprio leque e vou me abanar com ele, e se der para abanar junto com outros editores grandes aí, vamos fazer isso também.

Álvaro de Moya: Mas aumentou a tiragem das suas revistas na Editora Globo?

Maurício de Sousa: Aumentou, ou seja, de certa maneira, na Editora Abril havia, talvez, um esmagamento e na Editora Globo nós tivemos a oportunidade, era uma editora chegando no mercado com uma força nova, com novos projetos. E eu acho que foi bom ter a força dos nossos personagens para abrir o campo. Depois, logicamente, a chave da Turma da Mônica [grupo de personagens de histórias em quadrinhos criados por Maurício de Sousa em 1959. Seus principais expoentes são Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali, mas a turma inclui vários outros personagens, incluindo animais] abriu campo inclusive para concorrentes dentro da própria casa, então a Globo deu uma boa invadida no ar.

Álvaro de Moya: Qual é o encalhe das suas revistas?

Maurício de Sousa: Encalhe?

Álvaro de Moya: O percentual de encalhe?

Maurício de Sousa: São encalhes técnicos.

Álvaro de Moya: Ou seja, esses encalhes técnicos... porque na Abril ele era errado como encalhe técnico; quer dizer, ele tinha um encalhe pequeno demais, o que provava que as suas revistas poderiam ter tido uma tiragem maior no tempo [em] que estavam na Editora Abril. O seu encalhe hoje está dentro da previsão do encalhe técnico? Ou poderia aumentar?

Maurício de Sousa: Poderia aumentar. Eu tenho conversado inclusive com donos de bancas, grandes bancas, inclusive de outros estados também, e todos eles se queixam de que poderiam estar vendendo mais e não estão recebendo o que eles até estavam acostumados a receber, até no início do nosso processo com a Globo. Eu penso que está havendo de novo algum problema com a distribuição.

Álvaro de Moya: E, nesse caso, você também teria uma gráfica? Você vai ter que trabalhar com a gráfica ou você vai continuar dando dinheiro...?

Maurício de Sousa: [Interrompendo] Não, não sei. Há propostas, há propostas de grupos até que não mexem com isso hoje, de montarem gráficas, mas isso aí eu vou deixar para depois.

Fábio Malavoglia: Eu queria lhe fazer uma pergunta, você que é um autor que, afinal de contas, assina uma série de personagens bastante singelos, vamos colocar assim, que são a Mônica, o Cascão, o Cebolinha [personagens da Turma da Mônica], eu queria saber o que é que você acha, com essa história por detrás, do trabalho, por exemplo, de um Angeli [Arnaldo Angeli Filho (1956-), famoso cartunista brasileiro por seu humor essencialmente adulto e urbano, criador de personagens como Bob Cuspe, Skrotinhos, Los três amigos, Wood Stock e Rê Bordosa]? O que é que você acha, assim, da Maratara, do Bob Cuspe, desses descendentes dos sobrinhos do Capitão, que são os Skrotinhos [todos personagens de Angeli]? O que é que você... como é que você vê... ?

Maurício de Sousa: Como leitor?

Fábio Malavoglia: ... esse lado dark?

Maurício de Sousa: Como leitor ou como empresário de quadrinhos?

Fábio Malavoglia: Como leitor e também como empresário, claro.

Maurício de Sousa: Como leitor, eu compro tudo. Eu compro, curto, eu acho um sarro, eu acho uma... realmente, um momento criativo muito importante - embora debochado, embora seja outra linha -. muito importante em termos de criatividade, em termos de arte também. Eu adoro o Angeli. Como empresário, logicamente, a gente trabalha em outras áreas. Então, na nossa editora, provavelmente não poderia haver esse tipo de produto, embora a gente possa abrir no futuro... a nossa editora talvez abra para outros desenhistas. Mas acho válido, acho uma beleza.

Fábio Malavoglia: Você acha que esse segmento de mercado, esse lado mais dark das histórias em quadrinhos, cresce? Por exemplo, um fenômeno editorial como o Cavaleiro das Trevas [minissérie escrita por Frank Miller lançada no Brasil em 1987, pela Editora Abril, que conta a história do super herói Batman aos seus mais de cinquenta anos, dez anos depois de sua aposentadoria], o Batman em versão dark. Isso cresce? Isso atrapalha, por exemplo, o seu segmento de mercado?

Maurício de Sousa: Não, não, não atrapalha. Eu acho que dá uma esgarçada [faz o gesto de afastar as mãos], dá uma abertura no campo; e eu acho também que é mais força para o quadrinho, é mais força para esse tipo de veículo. Eu acho que tudo isso é muito positivo: quanto mais sucesso houver nos diversos segmentos, inclusive nesse, eu acho que é muito bom para o universo dos quadrinhos. Eu gosto e acho muito positivo.

Lia Rosenberg: Maurício, eu queria lhe fazer uma pergunta que vai por essa linha, mas ficando mais próxima do seu universo. Se você não fosse o criador da Mônica, qual criador você prefereria ser: o da Mafalda [personagem criada pelo cartunista argentino Quino, contra a situação presente e com preocupações em relação ao futuro da humanidade e paz mundial], do Charlie Browm [um menino cheio de preocupações cujas histórias vividas nas tiras de jornais levam ao público o humor delicado e melancólico de Charles Schulz], do Asterix [personagem criado em 1959 pelos franceses Albert Uderzo e René Goscinny, Asterix é um herói gaulês e o melhor amigo do grande e forte Obelix]? Você criou um personagem, uma família de personagens, com uma marca muito própria. Eles não se confundem com esses outros personagens. Mas em algum momento não vem uma vontade de ter sido pai de outra criança?

Maurício de Sousa: [Maurício silencia, olha para cima, sorri, e então responde:] Sim.

Lia Rosenberg: E qual é?

Maurício de Sousa: Lógico, mas não só desses. A gente sonha em fazer alguma coisa na linha de um Will Eisner [o norte-americano William Erwin Eisner (1917-2005) foi um dos mais respeitados e influentes criadores de histórias em quadrinhos (HQs), criou histórias mundialmente conhecidas, como The Spirit, Lady Luck e Mr Mystic, ensinou técnicas de quadrinhos na Escola de Artes Visuais de Nova York e escreveu obras fundamentais na criação de HQs], do Spirit [história do detetive mascarado Denny Colt, um herói que, apesar de não ter super poderes, dedica-se a proteger os habitantes da cidade fictícia de Central City. Com técnicas narrativas e visuais inovadoras, um excelente roteiro, belas mulheres, e cenas carregadas de humanidade, a série é considerada uma das obras mais importantes das histórias em quadrinhos], de um Ferdinando [tira de quadrinhos criada por Al Capp em 1934, também conhecida por Família Buscapé. Os personagens formam uma família caipira, da qual o ingênuo Ferdinando faz parte], do Al Capp [pseudônimo do cartunista norte-americano  Alfred Gerald Chaplin (1909-1979), criador de Ferdinando], e até mesmo na linha do Asterix. As outras que você mencionou, tipo Mafalda, não batem muito com o meu temperamento e a minha visão do mundo. Eu realmente não sou um conquistador, eu sou um construtor e então... Adoro a Mafalda, acho o Quino [apelido de Joaquín Salvador Lavado (1932-), o criador da personagem de histórias em quadrinhos Mafalda] um gênio, uma das cabeças privilegiadas do século, principalmente como chargista. Eu acho que [ele] é o melhor do mundo como chargista, mas não é por aí que eu saberia fazer ou sentiria. Eu estaria mais... do pessoal que você mencionou, eu estaria mais para o lado do Asterix, que é uma belezinha.

Álvaro de Moya: Eu tenho uma observação curiosa a fazer a esse respeito, porque eu sei que o Maurício é fã do Will Eisner, do Spirit e eu sabia que ele ia responder isso. Agora, quando nós estivemos - eu, Maurício e o falecido Jayme Cortez [(1926-1987) famoso quadrinista português que imigrou para São Paulo, criador de tiras de jornais como Caça aos tubarões e O Guarany] - no estúdio do Will Eisner, o Will Eisner diz que invejava o Maurício. Ele disse assim: "Eu gostaria de ter criado uma personagem que nem a Mônica, que pode virar boneco, merchandising e ganhar um dinheirão em merchandising, e eu criei um personagem, o Spirit, [que] é tão complicado de desenhar que só eu e algumas pessoas... e não posso explorar isso.".

Jorge Escosteguy: Você ganha muito dinheiro com os seus personagens, Maurício?

Maurício de Sousa: Eu acho que a gente pode dizer que faturou bastante. E gasta tudo. [risos]

Jorge Escosteguy: Quanto você fatura e gasta por ano?

Maurício de Sousa: Não sei, eu não estou aqui com a minha contabilidade. De qualquer maneira, o suficiente para a gente continuar podendo desenhar no dia seguinte e podendo planejar e sonhar de novo no dia seguinte.

Jorge Escosteguy: Quem sabe montar uma gráfica?

Maurício de Sousa: É, mais uma vez não sei. E outra coisa: nós pretendemos e procuramos não verticalizar muito na nossa atividade. Nós somos um estúdio de prestação de serviço, um estúdio de arte. Trabalhamos com diversas indústrias hoje na área do licenciamento, trabalhamos com mais de cem indústrias, mas não me passa pela cabeça, embora haja diversos cantos de sereia, produzir alguma coisa, fabricar alguma coisa, eu estaria entrando...

Jorge Escosteguy: Como é no caso o extrato de tomate do Elefante [trata-se do personagem Jotalhão, criado em 1962, um elefante verde e simpático que ilustra diversos produtos como "garoto-propaganda" da marca Cica (hoje de propriedade da empresa multinacional Unilever)], por exemplo?

Maurício de Sousa: É. Ou extrato, ou brinquedo... fabricar, entrar no terreno de construir alguma coisa; quer dizer, eu planejei e depois... também verticalizar para construir, para fabricar alguma coisa. Isso seria uma mistura perigosa e iria depois virar uma bola de neve, e daí eu já quereria fazer outra coisa, desejaria fazer, fabricar outra coisa, e daí precisava virar uma fábrica com outros tipos de problemas e eu prefiro realmente crescer como estúdio, como estúdio de criação, treinar o pessoal para isso.

Jorge Escosteguy: Ana Maria, por favor.

Ana Maria Fadigas: Maurício, eu queria saber por que é que você não está em televisão ainda, se a culpa é sua ou é de algum... de alguma negociação não cumprida?

Maurício de Sousa: A culpa é geográfica. Nascer ao sul do Rio Grande é fogo. [risos] Se eu falasse inglês e tivesse um sobrenome anglo-saxônico, provavelmente... ou japonês, provavelmente eu estaria na TV mundial faz algum tempo. Um Sousa demora um pouquinho mais, brasileiro, um pouquinho mais ainda, mas só que a gente é teimoso e a gente vai lá. Eu imagino que daqui a dois anos, Ana, nós devemos estar com as séries de televisão prontas, mas para isso nós precisamos, desde 1980, iniciar um processo de quase criar uma escola de animação, criar os primeiros longa-metragens aqui no Brasil - já são seis - e, em seguida, manter contatos no exterior para que nós possamos nos unir a estúdios que têm condições de uma super produção para televisão.

Ana Maria Fadigas: Você diz que a televisão [...]...

Maurício de Sousa: [Interrompendo] Há problemas tecnológicos.

Ana Maria Fadigas: ... problemas técnicos.

Maurício de Sousa: Há problemas tecnológicos, há problemas de mercado, há problemas de isolamento no país, há problemas políticos de imagem, há uma série de problemas que a gente vai passando por cima e vai andando. Hoje, neste momento, nós estamos iniciando um processo de co-produção com um estúdio de Taiwan e com outro estúdio de Tóquio, para produção de duas séries para televisão, filmes de meia hora. Mas ainda tem dois anos pela frente para você ver os desenhos da Mônica chegarem ao Brasil em inglês.

Maurício de Sousa: Deus do céu! [risos]

Jal: Maurício, você tocou em uma coisa importante aí: o personagem estrangeiro chega aqui no Brasil já como desenho animado, já com o fotolito [imagem em arte final, para impressão] pronto, já com todo o material engendrado e já pago nos Estados Unidos, e entra aqui no Brasil tranqüilamente. Você precisa da mídia eletrônica para veicular os seus personagens, inclusive fora do Brasil, para poder vender em outros países. Agora, você esteve em um movimento, em 1963... 60, 63, que defendia a lei do mercado para o quadrinho brasileiro, que desencadeou em uma lei que existe, inclusive, que as editoras não cumprem, porque ela não foi regulamentada, que obrigaria a todas as editoras de jornais a publicarem 60% de quadrinho brasileiro. Bom, essa lei não pegou, estão se estudando novas leis e tudo mais. Você acha importante essa proteção de mercado, porque o material estrangeiro vem muito barato para competir com o nacional?

Maurício de Sousa: Olha, não é que eu mudei de idéia, que eu mudei de posição, hoje eu vivo em um país em que, infelizmente, a lei pega ou não pega, e se tivesse pegado essa lei ou esse decreto, eu não sei, portaria, eu nem sei mais em que pé que está esse negócio.

Jal: Foi o Jânio [Quadros] que assinou, não é? [A partir de um movimento, com a participação de Maurício de Sousa, pela nacionalização dos quadrinhos, o presidente Jânio Quadros, em 1961, propôs uma lei que obrigaria as editoras a publicarem 66% de material nacional em seus gibis - chamada lei dos dois terços - que nunca foi regulamentada] Ver também: http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=23&bd=1&pg=1&lg=

 Maurício de Sousa: É, se tivesse pegado eu acho que seria interessante e bom para uma série de desenhistas que se dedicavam ao quadrinho naquele tempo. Havia muitos bons desenhistas de revistas, inclusive fazendo sucesso no país, mas todos eles abandonaram o campo, desanimaram, partiram para outro lado, porque faltou, naquele momento histórico, da história do país, uma real e honesta proteção, uma reserva de mercado, nem que fosse delimitada, para esse tipo de atividade. Daí eu resolvi desistir de esperar a lei pegar e partir para a lei da oferta e da procura, que é o que funcionou melhor, tem funcionado mais e, independente de regras estipuladas por governos, governantes, por nossos políticos e tudo mais, eu realmente estou descrente desse tipo de proposta. Eu acho que um quadrinho não deve ser imposto a um jornal ou a uma editora. O quadrinho deve... o quadrinho ou a criação artística, ele deve ter a força suficiente para avançar e superar a mesa do editor, e chegar lá ao público.

Jal: Só que, embora, Maurício, isso... eu também concordo que o fator paternalismo é uma coisa até ruim às vezes, em alguns países existe já essa lei, inclusive nos Estados Unidos, e funciona. E na Argentina é notório que o grande boom do quadrinho argentino e todos esses desenhistas argentinos, que inclusive são exportados até para vários países, surgiram justamente por causa de lei de mercado, na época do Perón, [em] que ele impôs que não se viesse tanta coisa dos Estados Unidos e criou uma escola.

Maurício de Sousa: Sim, foi uma beleza. A Argentina virou um dos grandes... virou a meca, virou um dos países produtores de boas histórias em quadrinhos, até que virou a política e eles pararam de exportar o quadrinho, começaram a exportar o artista, o desenhista. Então, os grandes desenhistas argentinos foram para outros lugares, por motivos políticos. Então, realmente, eu estou muito [enfatiza] cismado com esse tipo de coisa. Eu acho que a gente tem que estudar seriamente... na hora em que houver um interlocutor sério do outro lado, tem que estudar seriamente uma eventual lei de reserva de mercado.

Jal: Do outro lado, você está dizendo... ?

Maurício de Sousa: Do outro lado, do lado do governo mesmo, do lado do governo, do lado dos políticos. E enquanto isso, eu penso que é um negócio hoje que não há fronteiras mais. Hoje um desenhista pode andar para lá e para cá, pode jogar por fax, pode, através de comunicação fácil, entrar em qualquer outro lugar do mundo. Hoje o desenhista realmente deve estar com uma bota de sete léguas [Sete Léguas é a marca da fabricante de botas emborrachadas São Paulo Alpargatas SA. São botas resistentes, usadas para a realização de trabalhos pesados] ou em ambientes úmidos, deve estar acima desse negócio todo, deve estar realmente buscando o mercado em nível mundial. Eu estou fazendo isso, mas não sou só eu. Você mesmo viu diversos desenhistas brasileiros já conseguindo grandes feitos por aí, independentemente de leis de reservas daqui ou de outros países.

Jorge Escosteguy: Maurício, o Hamilton tem uma pergunta para você, depois o Roberto, para completar a roda. Vamos lá.

Hamilton dos Santos: Maurício, os países do chamado bloco socialista sempre tiveram uma resistência muito grande em importar histórias em quadrinhos, que é por causa da suposta ideologia capitalista que estaria embutida nessas histórias em quadrinhos. Hoje a gente vê uma abertura desses países, a perestroika na União Soviética. E eu queria saber qual a possibilidade, quais as perspectivas que os seus desenhos têm nesses países, e se você está trabalhado esse mercado.

Maurício de Sousa: Eu não estou trabalhando como eu deveria, estou mais mandando material, e de vez em quando publicam ou passam algum filme e tudo mais. Mas pelas amostras, pela amostragem, eu penso que nós não teremos problema nenhum. Há algum tempo em um festival de desenho animado em Pequim, passou o desenho do Chico Bento [personagem de Maurício de Sousa que representa o caipira brasileiro], passou o desenho da Mônica e o desenho do Chico Bento, um dos curtas que nós embutimos em um longa metragem nosso. O Chico Bento fez o maior sucesso. O Chico Bento, não tanto a Mônica, e a ponto de a televisão de Pequim estar pedindo mais, [ela] quer mais Chico Bento e eu não tenho; eu não estou produzindo ainda o desenho do Chico Bento para uma televisão chinesa. O problema é que eles não querem pagar. Eu troco por arroz, não há problema.

[Risos]

Maurício de Sousa: A gente faz qualquer negócio para que o nosso produto possa chegar a outros países. Nesse momento estou ajeitando para nós mandarmos material, por exemplo, para Angola. Já mandamos para diversos outros países que, inclusive, não tinham condições também de pagar, mas eu acho que são pontas de lança que a gente deve realmente utilizar para chegar com a nossa mensagem, mas – voltando à pergunta – não há problema nenhum. O nosso material já cruzou as fronteiras socialistas aí e até agora não houve nenhum problema. De vez em quando tem problema nos países capitalistas, isso sim.

Roberto Miller: Maurício, é o seguinte: eu sei que você gosta muito de desenho animado, tanto que você montou um estúdio especialmente para isso, para aproveitar os seus personagens. O desenho animado longa-metragem no Brasil tem um passado muito triste. Nós temos como currículo três filmes apenas até um determinado ano, e depois você entrou no mercado e, com surpresa, eu soube que você já fez dois ou mais longa-metragens.

Maurício de Sousa: Seis.

Roberto Miller: Como é que você conseguiu essa proeza?

Maurício de Sousa: Ignorando o que havia sido feito e fracassado. A gente não pode ficar olhando o que não deu certo, precisa dar uma planejada e tentar realizar o negócio, vamos dizer, industrialmente. O nosso filme... o nosso desenho animado foi montado como nós montamos no estúdio de história em quadrinhos: praticamente uma linha de montagem. Tivemos a sorte de ter personagens fortes que puxam esse processo todo, personagens com suas características bem definidas; então temos público. Em vídeo, hoje, nós somos imbatíveis. No cinema nem tanto; o cinema é um problema no país. A evasão de bilheteria praticamente inviabiliza o filme no cinema, mas, de qualquer maneira, temos a produção, temos a possibilidade de fazer e estamos com uma média de um longa-metragem a cada ano, ou [a cada] um ano e poucos meses. E dá pra fazer isso.

Roberto Miller: Você está pretendendo regularizar essa produção anual, com a mão-de-obra brasileira cada vez mais difícil?

Maurício de Sousa: Olha, não está difícil. Eu acho que no nosso estúdio nós estamos criando uma escola, estamos pegando gente jovem e juntando com os veteranos, e há uma simbiose boa que permite que o pessoal venha com estilão até em full animation [tipo de animação de alta qualidade, em que para cada quadro é feito um novo desenho] de desenho animado disneyano [produzido nos estúdios Disney, nos Estados Unidos], fazendo coisas bonitas. Também... uma boa escola que funciona para outros estudos, também, é o comercial, são os filmes comerciais. Ali, o desenhista [estala os dedos] dá uma criada, ele joga alguma coisa, alguma experimentação que depois ele vai jogar também no longa-metragem. Além disso, no nosso estúdio, na Black and White, nós damos... permitimos que o pessoal saia um pouco do universo [do] quadrinho e inove, tanto que, em muitos casos, o desenho animado tem influenciado alterações até plásticas nos personagens. A Mônica era atarracada, baixinha. Por causa do desenho animado, precisou dar uma esticada, para ela se movimentar mais em animação. E assim aconteceu com diversos personagens. Eu não tinha, por exemplo, antes de fazer os desenhos animados, idéia de como era o universo sócioeconômico do Cebolinha [personagem da Turma da Mônica que vive às voltas em conflitos com a Mônica] e da Mônica. Para fazer desenho animado, a gente precisou analisar como é que era a casa, como é que eles viviam, se tinha carro do ano, quem que não tem automóvel, e assim por diante. Então, o desenho animado nos obriga a pensar e nos adiantarmos um pouco mais na análise dos personagens. E isso também valoriza mais ainda o trabalho dos quadrinhos. Então, essa mistura, essa simbiose está dando, assim, bom... excelentes resultados.

Jorge Escosteguy: Maurício, como é que você fez a distribuição da riqueza entre os seus personagens quando você teve que canalizar isso?

Maurício de Sousa: Eu não fiz.

Jorge Escosteguy: Quem tem carro do ano, quem não tem... se é a Mônica ou o Cebolinha...

Maurício de Sousa: Eu não fiz. Quando se cria um personagem, você cria meio, assim, intuitivamente, né? Eu acho que num país como o nosso, aonde o ideal é estar na classe média, os nossos personagens principais deveriam estar na classe média. Então, estão na classe média. A Mônica... o pai da Mônica tem um carrinho, tem problemas, às vezes, com o preço da gasolina. O Cebolinha também tem um pai com carrinho.

Jorge Escosteguy: O Cascão [personagem da Turma cuja característica mais marcante é não gostar de tomar banho] é de classe média também, apesar da sujeira?

Maurício de Sousa: O Cascão, apesar da sujeira, é de classe média. Agora, ele aparenta, assim, não estar muito no mesmo nível, mas ele inclusive é o rapazinho, o moleque mais espertinho da turma.

Ana Maria Fadigas: Maurício, o desenho animado vai fazer finalmente os seus personagens irem à escola, ou não? [risos] Eu lembro bem da nossa história da escola.

Maurício de Sousa: A Turma da Mônica não é mostrada indo à escola. Essa é uma velha discussão que eu tenho desde o tempo da Editora Abril, que acha que é importante os personagens irem à escola. Eu também acho; acho a escola uma das instituições [mais importantes], se não a instituição mais importante que pode existir para preparar um cidadão. Mas não a nossa escola, ...

Ana Maria Fadigas: Pois é, mas não seria, não seria uma forma... ?

Maurício de Sousa: ... não a escola que paga o salário de fome para o professor.

Ana Maria Fadigas: Não seria uma forma de você mostrar uma relação de escola?

Maurício de Sousa: Eu não posso mostrar em uma história em quadrinhos, em uma revista de lazer, uma revista que deve ter uma proposta leve e gostosa, eu não posso, de alguma maneira, jogar ali umas pinceladas de crítica mais violenta.

Jorge Escosteguy: Colocar o pai da Mônica com problemas de mensalidades escolares, por exemplo?

Maurício de Sousa: É, eu acho que não deveríamos fazer isso na revista nossa. Outras revistas, jornais, outros veículos de comunicação estão fazendo. Não é que o personagem esteja alienado, mas, efetivamente, a criança...

Ana Maria Fadigas: Efetivamente não.

Maurício de Sousa: ... a criança de seis, sete anos, ela sente, sente esse tipo de problema, ouve os pais falarem, mas a vivência, a vida dela, dessa criança, é outra, os problemas são outros. Então, eu tento evitar. A maneira indireta de reclamar, de protestar contra isso, é eu não ter ainda a criançada indo para a escola, ainda. Eu estou aguardando a escola em que eu confie para mandar a Turma da Mônica.

Fábio Malavoglia: Mas, Maurício, por exemplo, se você analisar uma tira famosa, como é o Charlie Brown, o Minduim [personagens da Turma do Charlie Brown, que inclui também o famoso Snoopy, cão de estimação de Minduim], há inúmeras tiras que são situadas em situações escolares e onde, por exemplo, o Schulz [Charles M. Schulz (1922-2000), criador dos personagens citados] coloca uma crítica, na medida em que ele brinca, quer dizer, [que] ele leva a coisa para a ironia, para o humor, a reação do Charlie Brown ou dos amiguinhos dele às coisas da escola, não é?

Maurício de Sousa: A beleza da escola, não é? [Maurício ri]

Fábio Malavoglia: Não, não é uma beleza da escola. Eles falam, eles fazem as maiores estripulias: “Ah, não, professora! Você tem essa lição para eu...”.

Maurício de Sousa: [Interrompendo] Estripulias em uma escola com ar condicionado. É uma escola com belas cortinas, com belas carteiras, com uma criançada bem alimentada. É outro ambiente. Agora, veja bem...

[Corte no vídeo e intervalo]

Jorge Escosteguy: Voltamos com o Roda Viva, entrevistando hoje o desenhista e empresário Maurício de Sousa. Lembramos aos telespectadores que o programa de hoje foi gravado. Portanto, não poderá haver perguntas por telefone. Maurício, um pouco antes do intervalo você comentava sobre a criação da Mônica, que você... que no fundo eram... a Mônica e a Magali [personagem da Turma conhecida por ser gulosa e adorar comer melancia] eram suas filhas. Hoje você me disse que, hoje, a Mônica [Mônica Spada e Sousa, filha de Maurício de Souza que inspirou a personagem homônima] tem 29... 28 ou 29 anos.

Maurício de Sousa: [Ela tem] 29.

Jorge Escosteguy: O que é que ela acha hoje da Mônica, dos desenhos? Ela concorda ou ela acha que é muito... ?

Maurício de Sousa: Ela acha que ela jamais foi como a Mônica da história em quadrinhos, mas aí é uma briga de família. Eu acho, ela não acha.

Jorge Escosteguy: A Magali [irmã de Mônica, inpiradora da personagem que leva seu nome] também?

Maurício de Sousa: Não, a Magali admite que é comilona, e é mesmo.

Jorge Escosteguy: E continua comendo melancia, não?

Maurício de Sousa: Sim, ela fez aniversário na semana passada. Ela mora em Belo Horizonte agora, e pedi para encaminharem para ela umas belas fatias de melancia, um arranjo frutal... [Maurício sorri]

Jorge Escosteguy: Frutal.

Maurício de Sousa: ... ao invés de um arranjo floral, como lembrança.

Álvaro de Moya: Você faz anos esta semana?

Maurício de Sousa: Eu faço em 27 de outubro.

Jorge Escosteguy: O Jal tem uma pergunta para você, por favor.

Jal: Bom, é o seguinte, Maurício, você está falando das criações dos seus personagens e eu considero particularmente o seu melhor personagem o Horácio [um cordato filhote de Tiranossauro Rex que insiste em negar sua natureza, alimentando-se de dieta vegetariana] e estamos em um momento ecológico, inclusive, aí, que... todo mundo falando em ecologia, e o Brasil está sendo um centro aí para o mundo em termos de material para as matérias de jornais no mundo inteiro. O Horácio deu muito certo no Japão, se não me engano, o que a Mônica não deu, porque ela justamente é uma diferença enorme da mulher japonesa. Como que foi essa criação do... [Horácio]?

Maurício de Sousa: Nem tanto, na realidade.

Jal: É, a mulher japonesa está começando a mudar agora. Mas como foi a criação do Horácio? Ele surgiu depois, de fora da família da Mônica, né?

Maurício de Sousa: É.

Jal: Como [é] que foi essa criação? Você pensou no momento ecológico, realmente, ou você quis fazer um personagem diferente dos que já existiam? Porque ele tem... é um dinossauro totalmente diferente de qualquer outro desenho que tenha surgido, de dinossauros.

Maurício de Sousa: O Horácio, como boa parte dos nossos personagens, também ganhou espaço acidentalmente. Ele nasceu como bichinho de estimação do Piteco [personagem de Maurício de Sousa, criado em 1964, que vive na Idade da Pedra, caçando dinossauros e pescando] nas tiras do Diário de São Paulo, um jornal que deixou de ser publicado. E depois, quando a Folha [de S. Paulo] resolveu fazer a Folhinha, um suplemento [destinado ao público infantil], nós tínhamos que fazer uma história de bichinhos, ali, diferentes das demais que havia; e eu estava contratado pelo Diário. Então eu separei o Horácio do Piteco e joguei ali uma história de dinossauro. Ele era feioso, esquisito, pescoçudo, no começo. Depois eu fui ajeitando a forma e ele virou a coisinha fofa e verde que é agora. Essa figura vive aventuras ecológicas, porque eu acho que antes mesmo de haver esse movimento eu fui um garoto de pé no chão. Eu adoro mato, adoro andar na grama e acho que a gente deve preservar realmente essas coisas, essa base toda nossa, mas o Horácio vive esse momento, é verde e realmente pode simbolizar bem esse negócio. No Japão, talvez tenha uma conotação... é um personagem brasileiro, cabeçudo, com aquele verde todo. De repente tem alguma conotação com essa preocupação do japonês pelo verde, pela preservação do verde.

Fábio Malavoglia: Eu queria levar o papo um pouquinho para uma questão que eu acho básica, que é a questão da linguagem da história em quadrinho, não é? Quer dizer, vamos colocar dessa maneira: nós estamos vivendo um boom editorial aqui no Brasil - né? -, que é muito o reflexo de um boom que começou lá fora e eu acho que um momento fundamental disso é de dois ou três anos atrás, que é a história do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller [(1957-) criador norte-americano do Cavaleiro das Trevas, entre outros, Miller é conhecido por sua linguagem sombria , tendo se tornado referência para desenhistas e roteiristas do mundo todo]. Esse artista pega, toma o tema do Batman e rearranja os elementos dessa história de uma forma praticamente revolucionária. Tanto que agora a Warner [empresa norte-americana de entretenimento, uma das maiores do mundo, produtora de filmes e programas de televisão] vai faturar, pelo visto, mais de quatrocentos milhões de dólares com a versão do Batman. A gente às vezes esquece que todo esse processo foi detonado pelo Miller, mas não só a questão do Batman, [como] a própria questão da graphic novel [longa história contada em quadrinhos, também chamada de romance gráfico] como fenômeno editorial. E o Frank Miller coloca na história, além de ele recolocar a questão do Batman, ele coloca na história uma narrativa, uma forma de articular a linguagem que é muito moderna: ele usa o flash back, ele usa a entrada de televisão, ele coloca a angústia existencial do personagem e tal. Agora, você faz uma história em quadrinho que é ainda - pelo que eu vejo, pelo menos - uma coisa que se articula convencionalmente. Você pensa em modificar isso? Você pensa em incorporar esses novos elementos narrativos ou você pretende continuar nisso? E outra coisa: você não pensa que a longo prazo isso pode... se você não incorporar esses elementos, isso pode vir a te prejudicar? Quer dizer, na verdade, as linguagens refletem a sensibilidade de cada época e essa nossa sensibilidade, da nossa época, parece mais próxima dessa coisa do Miller, de mais violenta, mais cortada.

Maurício de Sousa: Sim. Mas você respondeu. Quando todo mundo, todo o público já estiver contaminado devidamente com esse novo processo de narrativa, provavelmente nós estaremos também engajados. Como falei, a Mônica não levanta a bandeira, mas ela acompanha o processo.

Fábio Malavoglia: Mas uma grande parte do público já parece contaminada [...], quer dizer...

Maurício de Sousa: Mas isso [acontece com] o público adulto, o público sofisticado, o público que já passou dos seus 12, 14 anos. Eu não vejo crianças acompanhando ou pelo menos compreendendo e entendendo esse tipo de tratamento dos quadrinhos. É um material mais sofisticado, para um público também mais sofisticado. Lógico, vai haver uma influência. Tenho desenhistas na casa falando: “Olha, vamos fazer uma história um pouco mais sofisticada.”. Vamos... vamos talvez lançar a revista Tina, com um tratamento um pouco mais diferenciado já, em cima dessas novas tendências, mas a Tina [personagem voltada para o público jovem, Tina tem aproximadamente 18 anos de idade, cursa a faculdade de jornalismo e tem Rolo como  seu melhor amigo] já é um personagem para também um público de adolescente para cima.

Jorge Escosteguy: Seu pessoal não lhe pressiona muito, Maurício?

Maurício de Sousa: Uma história linear, uma história que começa, tem um meio e termina, como um filme do Carlitos [personagem de Charles Chaplin], como um desenho do Gordo e o Magro [popular dupla de comediantes composta por Oliver Hardy (1892–1957) e Stan Laurel (1890–1965), respectivamente o Gordo e o Magro. Tornaram-se famosos no início do século XX, por sua atuação em filmes e no teatro, nos Estados Unidos], como os grandes clássicos do pastelão do cinema, eu penso que sempre terão vez. Quando não tiverem mais, então nós estaremos mudando também.

Fábio Malavoglia: Sim, mas você não quer adiantar esse processo? Ou você acha que você está se dirigindo para um público que é até os dez anos de idade, então?

Maurício de Sousa: Não, nós temos públicos em todas as faixas: metade do nosso público é adulto. Mas esse público adulto, pelo visto, pelo que compra de revista, está satisfeito com esse tipo de coisa. Então estamos ganhando o jogo e eu não quero mudar o time neste momento.

Jorge Escosteguy: Maurício, os seus desenhistas...

Maurício de Sousa: [Interrompendo] Não é ser alienado ou não é ficar desligado da história. Estamos observando, a ponto de eu ter viajado nas últimas vezes... desculpe-me, nas últimas vezes que eu tenho viajado eu tenho trazido para cá, para a editora, algumas novidades, alguns contatos com editoras internacionais. Eu trouxe e sugeri que eles comprassem alguns desses personagens novos, principalmente do Japão, e sou responsável pela entrada de alguns dos grandes nomes aí da... indiretamente, da graphic novel. Mas estou observando, estou vendo a nossa...

Fábio Malavoglia: [Interrompendo] Você acha que a maior influência nessa nova articulação da linguagem é da televisão?

Maurício de Sousa: Eu penso que a televisão tem a sua força, o seu momento. O quadrinho é outro canal, é outro momento. O cinema é outro momento.

Fábio Malavoglia: Você não vê cruzamentos?

Maurício de Sousa: Eu vejo encostamentos. [une as mãos e sorri]

Jorge Escosteguy: Os seus desenhistas lhe pressionam muito para mudar o tipo de linguagem das revistas...?

Maurício de Sousa: Há uma boa...

Jorge Escosteguy: ... desenhos, personagens etc?

Maurício de Sousa: Há um bom diálogo e não há exatamente uma pressão. Há realmente influência dos desenhistas da casa, de que, de vez em quando, procedem tanto que a gente muda, e daí eu vou ter que aprender e desenhar alguma coisa diferenciada. Isso no que diz respeito a desenho; tem que ser cuidadoso, porque você não pode mudar de uma hora para outra uma figura ou a aparência plástica dos personagens das histórias. Em termos de narrativa, de roteiro, principalmente, essa influência das pessoas da ala jovem no estúdio, essa é mais sentida por mim.

Jorge Escosteguy: Você tem algum concorrente... ?

Maurício de Sousa: Há várias histórias...

Jorge Escosteguy: Você tem algum concorrente que saiu dos seus estúdios?

Maurício de Sousa: [Silencia, pensando, depois responde:] Tem algumas pessoas fazendo alguma coisa por aí.

Jorge Escosteguy: Que saiu dos seus estúdios?

Maurício de Sousa: Pouca gente sai do meu estúdio. Os desenhistas estão lá com vinte anos de casa; há pouca rotatividade; é uma escolinha boa lá e eu acho que o pessoal gosta de ficar por lá.

Jorge Escosteguy: Você não acha que vinte anos de escola é muito? De repente... ?

Maurício de Sousa: Não, mas...

Jorge Escosteguy: ... pode prejudicar a própria escola?

Maurício de Sousa: Já fizeram pós-graduação, já estão em outra, já são professores de universidade, no estúdio. Estão orientando o pessoal mais jovem. Então, eu vou formando núcleos dentro do estúdio e daí um desenhista orienta três ou quatro, e assim por diante.

Jorge Escosteguy: Hamilton, por favor.

Hamilton dos Santos: Maurício, a gente falou aqui em alienação dos seus personagens, essa história toda que talvez seja até patrulha, e eu ouvi dizer que parece que dentro de um chamado projeto China você vai introduzir um novo personagem na Turma da Mônica, que é um chinês. Eu quero saber como que é esse chinês, o que é que é esse projeto China e se você vai levar em conta essa coisa que aconteceu na China, quer dizer, esse novo jovem chinês que protestou na Praça da Paz. Como é que vai ser esse personagem?

Maurício de Sousa: Olha, realmente nós estamos preparando uma produção de desenhos animados aonde deve entrar, na Turma da Mônica, uma nova família. Vai mudar para a rua uma nova família, uma família chinesa. Isso vai nos possibilitar fazer com que a Turma da Mônica viva algumas aventuras tipo Marco Polo [(1254-1324), explorador veneziano que realizou viagens pelo Oriente, um dos primeiros ocidentais a percorrer a Rota da Seda, que ligava o Oriente à Europa]. É uma linha que nós pretendemos seguir.

Jorge Escosteguy: Essa família veio da onde, Maurício? Fugiu da Praça da Praça Celestial?

Maurício de Sousa: Não, não. Veio trabalhar aqui. São técnicos, técnicos de computação que vieram trabalhar normalmente. Nós não mexemos com política. A gente sofre as conseqüências ou a influência, mas, na historinha, a gente procura não mexer muito. Também eu acho que não cabe a uma revista como a nossa, de lazer, ficar mostrando o que as televisões e jornais estão mostrando de forma crua e às vezes até dramaticamente no dia-a-dia. A nossa revista é feita com antecedência, é um produto de consumo, de massa, e nós temos que ter alguns cuidados, logicamente sem ficarmos alienados.

Hamilton dos Santos: Esse projeto China envolve filmes também?

Maurício de Sousa: Esse processo China envolve... [reflete por alguns instantes] bem, é meio complicado. Uns anos atrás nós sentimos que a indústria nacional... apesar de nós estarmos fabricando muita coisa, a indústria brasileira, por diversos motivos, ela não tinha condições, não tinha competitividade no mercado internacional, e nós estamos nos preparando para entrar em diversos países com os nossos filmes. E nos diversos países há o licenciamento, há o produto ligado ao personagem e nós não teríamos esse tipo de produto ou não teríamos controle sobre isso. Então, nós analisamos aonde é que estão fazendo os produtos. Era Hong Kong. Então montamos um escritório em Hong Kong para iniciar um processo de aproximação com grandes fábricas de brinquedos e tudo mais. Daí, por problemas políticos de Hong Kong com China e tudo mais, o pessoal deu um afastamento do processo. Daí eu elegi Taiwan, que está se abrindo como um grande centro produtor e vendedor mundial. Estamos nos associando com grupos de Taiwan para transformar Taiwan na fábrica mundial da Turma da Mônica. Então, de Taiwan nós vamos irradiar centenas, milhares de produtos para os diversos...

Hamilton dos Santos: Os contratos já estão prontos?

Maurício de Sousa: ...países, aonde nós estaremos chegando dentro de dois anos com os nossos desenhos animados.

Hamilton dos Santos: Isso é projeto ou já está em contrato?

Maurício de Sousa: Já está em andamento. Nós vamos gravar os filmes em Los Angeles, planejar aqui e gravar em Los Angeles, produzir, fazer a parte industrial - vamos dizer - dos filmes nos estúdios de Taiwan, aonde são produzidos 70% dos desenhos animados da televisão hoje; saem de lá Duck Tales, Hanna Barbera, Smurfs, Garfield... saem desse estúdio.

Hamilton dos Santos: Esse contrato inclui artistas nacionais, para o contrato dos seus filmes? E quantos?

Maurício de Sousa: Inclui, inclui. Estamos, neste momento inclusive, contratando elementos aqui do Brasil, alguns até que já trabalharam conosco há alguns tempos, para entrarem num processo de aprendizado com os chineses, em termos de ritmo, em termos de movimentação para esse tipo de filme, que nós não temos prática. E vem também um pessoal da China pra cá... e [vamos] levar um pessoal daqui para lá. Então, nós vamos fazer um intercâmbio, planejar aqui e fazer esse trabalho internacional. E, como eu falei, é uma pena, [porque] a Mônica já vai chegar falando inglês aqui. Mas antes assim do que não haver.

Jorge Escosteguy: Roberto Miller tem uma pergunta, por favor, Maurício.

Roberto Miller: Maurício, muitos anos atrás, em uma entrevista que eu fazia com você, nas folhas ainda, no seu estúdio lá, você me mostrou muito empolgado os esboços do Pelezinho [personagem inspirado no jogador de futebol Pelé]. Eu achava que era um personagem que você já estava criando, não só para histórias em quadrinhos, como para futuras animações. Eu gostaria de saber de você: o Pelezinho, onde está?

Maurício de Sousa: Como bom jogador e bem disciplinado, ele está no banco de reservas neste instante...

[Discretos risos gerais]

Maurício de Sousa: ...mas se preparando para entrar em campo de novo em uma nova campanha.

Jorge Escosteguy: Quer dizer, você conseguiu ser a única pessoa que colocou o Pelé no banco de reservas, é isso?

Maurício de Sousa: Mas o Pelé, ele mesmo diz que ele é muito disciplinado; ele nunca foi contra um treinador que bota no banco de reserva, porque ele sabe que ele joga melhor que todo mundo, e nós efetivamente estamos planejando um novo processo aí para o Pelezinho, com vista inclusive ao ano que vem. Está em andamento.

Álvaro de Moya: E a ex-noiva do Pelé, a Xuxa [(1963-), apresentadora de programa infantil da televisão brasileira desde 1983. Antes disso, atuou como modelo], agora que [...] no fundo do poço, como é que está a revistinha da Xuxa?

Fábio Malavoglia: E da Angélica [(1973-) apresentadora de programas de televisão para o público infantil, nos anos 1980 e, posteriormente, para o público jovem] também?

Maurício de Sousa: A revistinha da Xuxa.

Álvaro de Moya: Eu quero saber da Xuxa, que é a que vende mais.

Maurício de Sousa: Eu não estou com os dados aqui, mas deve ir bem; ela tem uma boa força.

Álvaro de Moya: Muito original. Todo o papai de baixinho [forma como Xuxa costuma se referir a uma criança] gosta. Mas eu estou dizendo a revistinha mesmo da Xuxa?

Maurício de Sousa: Eu sou do fã clube da Xuxa. O processo inclusive de merchandising do licenciamento da Xuxa, a boneca, esse material todo, nós é que criamos. No início, os cenários do programa dela da [Rede] Globo [de televisão] nós criamos também. Depois a gente se afastou, ela ficou por lá. Mas eu sou um fã clube, mas eu fiz tudo isso a pedido do Pelé. Naquele tempo eles eram noivos e o Pelé estava no México, se não me engano, e ele me telefonou.

Álvaro de Moya: O Ayrton Senna [que namorou Xuxa depois de Pelé] não pediu nada para você?

Maurício de Sousa: Não. [risos] Agora já a realidade é outra, mas a pedido do Pelé eu criei todo aquele processo rapidamente e foi uma, realmente, uma catapulta, foi o início que a Xuxa estava precisando nessas áreas e depois nós cedemos aí o Reinaldinho para continuar trabalhando, que é quem está cuidando desse material até agora com ela.

Hamilton dos Santos: E o desempenho do Dieguito Maradona [personagem inspirado no jogador argentino de futebol Diego Maradona].

Maurício de Sousa: O Dieguito não está mais conosco. O Dieguito, eu deixei ele no banco de reserva uns tempos, mas ele andou fugindo aí.

Álvaro de Moya: Você deu cartão vermelho para ele?

Roberto Miller: Quem tem o Pelezinho não precisa ter o Maradona.

Maurício de Sousa: O Maradona, eu penso que o Maradona é uma figura humana e ao mesmo tempo um personagem, mas principalmente figura humana. Ele adora o Pelé, o ídolo da vida dele é o Pelé, ele gostaria de ser o Pelé e ele mesmo fala isso. Agora, o Maradona... quando eu fiz o contato, criei o personagem, montamos o esquema junto com os argentinos. Daí ele sempre teve alguns problemas; ele logo saiu da Argentina e foi para a Espanha. Daí houve problema, daí [ele] foi para o Nápole, daí também deu problema... então a gente não pôde deslanchar o processo Maradona como licenciamento, e, além disso, eu era associado com um pessoal da Argentina que, no meu entender, não pensava como nós na hora de dinamizar os negócios. Então eu peguei e devolvi o Dieguito para os meus amigos argentinos, e eles que façam bom uso. Depois disso, inclusive, algumas pessoas nos procuraram, então encaminhamos o negócio do Dieguito para eles lá. Espero que dê certo. Foi uma criação nossa, é uma criação nossa também.

Jal: Ainda quanto ao Pelezinho, parece que é o seu único personagem negro. E na Turma da Mônica não existe negro?

Maurício de Sousa: Não, tem; tem sim. É o Jeremias [personagem criado em 1960, que durante por muito tempo foi o único menino negro da Turma. Usa sempre usa um boné que foi de seu avô, para esconder a falta de cabelo, embora todos saibam disso].

Jal: Tem o Jeremias, certo, mas não com destaque, com um certo destaque. Inclusive houve até um problema, não sei se foi de impressão na revista que saiu pela Abril, que a mãe do Pelé tinha até uma pigmentação diferente - né? -, um pouquinho diferente.

Maurício de Sousa: A Dona Celeste?

Jal: É. Então o que você acha? Por causa de os seus personagens estarem sendo veiculados no mundo inteiro, é mais difícil você impor um personagem negro? Porque, por exemplo, o Ziraldo [(1932-) cartunista brasileiro, entre outras atuações profissionais, criador de famosos personagens ,como o Menino Maluquinho e Pererê], ele criou o Pererê [personagem principal da Turma do Pererê, um saci - menino negro de uma perna só, que usa sempre um cachimbo no canto da boca e um gorro vermelho dotado de poderes mágicos -, importante entidade fantástica do folclore brasileiro], uma grande criação. Mas é muito difícil de ser colocado fora do país um negro, pelado, e ainda com uma perna só. Todo mundo vai achar que ele está tirando um sarro, alguma coisa parecida, não é?

Maurício de Sousa: Em alguns países há problema sim.

Jal: Há problemas?

Maurício de Sousa: Eu tenho problemas. Em alguns países nórdicos, eu tive alguma reação negativa ao personagem Pelezinho. Nos países latinos não há problema nenhum. Mesmo nos Estados Unidos não há problema. Mas alguns países querem ser mais realistas que o rei e criaram algum impedimento. Mesmo no Japão eu senti alguma reserva. Mas, veja bem, não de público, reserva do velho editor, dos seus sessenta, setenta anos, que quer dominar ou quer direcionar, pelo seu próprio gosto, o gosto do público. Então, o negócio é você se recolher um pouco e aguardar que ele se aposente logo, e depois você vai falar com o substituto. Mas eu acho válido, acho bom e acho... não faço diferença de cor de personagem, porque todos eles funcionam da mesma maneira nas historinhas.

Jorge Escosteguy: Ana Maria, por favor.

Ana Maria Fadigas: Maurício, o artista; Maurício, o empresário. O artista, na minha opinião, é aquele que trabalha dentro, ele antecipa o marketing, porque a criação dele antecipa inclusive as coisas. O empresário é aquele que trabalha com pesquisa, com outros instrumentos, para chegar à mesma coisa às vezes. Quem é o homem difícil, Maurício? É o artista ou é o empresário?

Maurício de Sousa: Difícil para quem?

[Risos]

Ana Maria Fadigas: Porque normalmente as pessoas... quem trabalhou com você, a primeira pergunta que faz é assim: "Por que é difícil trabalhar com o Maurício?". É difícil trabalhar com o Maurício, você sabe disso. Eu queria saber quem é, na sua opinião, o homem mais difícil: é o artista ou é o empresário?

Hamilton dos Santos: Posso complementar a sua pergunta? Por exemplo, há um comentário de que a Abril até queria ficar com você, mas que você foi muito difícil para negociar... talvez você não conseguia negociar.

Maurício de Sousa: Olha, eu vou contar um segredo aqui. Eu não queria sair da Abril. [risos] Houve uma má negociação na ocasião - desculpe-me, a Abril e o Roberto [Civita (1936), presidente do grupo Abril] - do lado deles. Quando o Roberto percebeu, daí já não dava tempo, porque eu já estava comprometido com o senhor Roberto, o outro Roberto, o Marinho. [risos] Mas realmente eu lastimei; eu não queria sair da Abril. Eu queria realmente resolver - como quero resolver agora com a Globo os problemas de produção do que nós podemos e queremos fazer no nosso estúdio -, mas eu lastimei muito. A Abril é a minha casa, como a Globo hoje é a minha casa, e eu estou com a cabeça e o coração nos dois lados aí. Aliás, fisicamente também: o nosso prédio ali na Lapa, aonde nós estamos com o estúdio, fica entre a Editora Abril e a Editora Globo.

Hamilton dos Santos: O que atravancou o processo da negociação com a Abril?

Ana Maria Fadigas: Quem é o homem difícil, Maurício?

Maurício de Sousa: Quem é o homem difícil?

Ana Maria Fadigas: Desculpe, eu quero saber se é o empresário ou é o artista.

Maurício de Sousa: Eu acho que, em última instância, o difícil - se é que há dificuldade -, eu acho que é o empresário. O empresário tem que ser, por força das circunstâncias, o sujeito mais cuidadoso e precisa olhar um pouco mais para diante, para evitar que a peteca caia. Eu acho que todo o artista devia ser também o seu próprio aguerrido empresário, o seu duro empresário, porque o artista, se é só um artista, realmente ele vive levando na cabeça. E eu vi, na minha história, ao longo da minha vida. Meu pai era um grande artista e "levou na cabeça" também por causa disso, porque não se preparou. Vi diversas pessoas e diversos bons artistas também sofrendo muito por não se prepararem. Então eu resolvi sentar na cabeceira da mesa também como empresário, me cercar de bons profissionais, de bons advogados, e discutir as coisas um pouco mais duramente. Mas isso não quer dizer que seja...

Jorge Escosteguy: Um fantasma.

Maurício de Sousa: Não quero ser nem prepotente e nem dono da verdade, nem nada. Eu quero que, principalmente, o pessoal que trata conosco nos trate de igual para igual, de empresa para empresa. Hoje, um artista não é só um artista. Hoje é uma instituição, ou é um empresário. Eu apenas peço o nível. [faz gesto horizontal com a mão]

Álvaro de Moya: Inclusive o Schulz cuida dos próprios negócios dele e fatura... faturou sessenta milhões de dólares nesses dois últimos anos, e ele não sai do rancho dele, apesar de ele ter...

Maurício de Sousa: [Interrompendo] E é uma pessoa muito dura, você sabe disso.

Álvaro de Moya: Duro, como empresário.

Fábio Malavoglia: Sobre isso... sobre isso, exatamente, quer dizer... você vende três milhões de revistas, [para] vinte países da América Latina e Europa, 3.500 produtos de marketing; [são] duzentas pessoas a seu serviço. Então, eu tenho duas perguntas para fazer:...

Maurício de Sousa: Duzentos artistas, fora o pessoal...

Fábio Malavoglia: Duzentos artistas a seu serviço. Bom, eu tenho duas perguntas para lhe fazer... que é o seguinte: essa dureza que você tem na negociação com os seus parceiros comerciais também se reflete na sua administração empresarial, dos teus recursos humanos? Quer dizer, qual é o... que tipo de tratamento você dá a quem trabalha com você? E, segundo, a segunda pergunta é a seguinte: cuidando de tudo isso, desse mundo de negócios, você continua desenhando?

Maurício de Sousa: Bem, são três coisas. Uma: eu não diria que eu sou duro na negociação. Eu peço é o mesmo nível. [gesto horizontal, de nivelamento] Eu adoro fazer um bom contrato, adoro buscar um bom produto e chegar a um bom termo. Nós temos até aberto exceções, firmas pequenas, mas com bons projetos. Nós temos aberto exceções, fazemos qualquer negócio para que realmente a gente tenha parceiros em crescimento, parceiros utilizando a força dos nossos personagens. No caso dos recursos humanos, se eu fosse duro com o nosso pessoal, eu não teria um estúdio com tantos artistas. O artista é um indivíduo, é uma pessoa, assim, que realmente quer ver a sua individualidade respeitada. Então, nós juntarmos duzentos artistas em um estúdio, caminhando para o mesmo lado, só é possível se a gente estiver de porta aberta, sentando com a prancheta do lado deles e conversando, dialogando diariamente. Na hora [em] que eu mandar um artista fazer alguma coisa, eu perco ele. Na hora [em] que eu, como fazemos, estou conversando com um artista sobre uma criação, e pedindo, solicitando uma troca de criatividade, daí sim, daí nós podemos caminhar juntos. Então, eu tenho esse cuidado, vamos dizer, entre humano e democrático; pode ser taxado assim. Só que eu sou assim, é o meu temperamento, eu não sei trabalhar de outra maneira, eu não sei mandar, a minha porta está sempre aberta. Eu posso estar em uma reunião de negócios - se algum dia você for no nosso estúdio, você vai ver - com os sujeitos mais importantes do país, autoridades, se algum artista tiver alguma dúvida sobre um traço, uma arte final, uma cor, ele está autorizado a entrar nos nossos estúdios - sem secretaria, sem marcar hora, sem nada -, interromper a reunião, e eu espio, olho, vejo, debato e daí ele vai embora; e daí eu continuo a reunião.

Fábio Malavoglia: Mas você desenha ainda?

Maurício de Sousa: Desenho.

Mônica Teixeira: Você, tendo que cuidar de...

Maurício de Sousa: Eu escrevo ainda. Escrevo e desenho o Horácio, por exemplo, e gosto de escrever histórias do Chico Bento. Lógico, eu gostaria de ter mais tempo para escrever hoje, mas hoje eu mais examino os roteiros dos nossos roteiristas, discuto com o pessoal os caminhos, e eu fico mais nisso do que, infelizmente, no desenho. Eu participo bastante hoje da criação de produtos, da invenção de produtos novos, principalmente com a nova tecnologia que nós estamos importando da Ásia. Lá é uma beleza: você pega alguma coisa que chega, dá uma informação sobre um novo chip e daí a gente deita e rola em algumas coisas que você vai ver daqui a algum tempo no mercado mundial. Aí é um novo desafio. E como é um novo desafio - eu estava comentando inclusive com o Álvaro de Moya agora há pouco -, há busca de novos caminhos para a nossa criação. Há muitos anos, quando eu fui ao Congresso de Lucca [na Itália], com o Cortez e o Moya, eu passei lá que, no futuro, o gibi ia mudar até de forma, ia ser uma caixinha onde você ia ver a historinha. E estamos chegando nisso. Esses joguinhos eletrônicos, tipo Nintendo [marca de videogames produzidos no Japão], e mais alguns outros que eu trouxe agora da Ásia são o começo de uma mudança aonde você vai comprar a caixinha e você vai comprar depois o cartuchinho [da edição da revista em quadrinhos] da Mônica de dezembro, da Mônica de janeiro.

Fábio Malavoglia: Isso já entrou com tudo na sua empresa?

Maurício de Sousa: Tem que entrar, e nós já estamos produzindo histórias adequadas a esse novo processo.

Jorge Escosteguy: A Lia, por favor, tem uma pergunta.

Lia Rosenberg: Você falou da passagem do artista para o empresário e usou a expressão “se preparar”, que o seu pai não teria se preparado para ser empresário, e a gente sabe que o perfil do artista é bem diferente do perfil do empresário. Como é que você fez essa sua passagem de um perfil para outro? Você é um empresário intuitivo e sensível ou você passou por algum processo de formação, de atualização, para estar jogando nas duas posições com a mesma competência?

Maurício de Sousa: Não, eu não tive oportunidade de estudar administração. Eu fui entre o intuitivo e o necessário, ou seja, eu precisei sair vendendo a minha primeira tira e depois desenvolver todo o processo, e nesse processo eu fui aprendendo, assimilando e formando o esquema que nos serve. Então, tudo o que acontece na nossa empresa hoje, ou tudo o que aconteceu, de alguma maneira, eu acompanhei. Então é fácil você dirigir uma grande empresa, como a nossa empresa é hoje, conhecendo todo o processo, e você podendo passar o que você experimentou. Mas eu diria que eu sou um empresário intuitivo. Nas vezes em que eu tentei sair disso realmente não funcionou muito bem. Eu devo seguir o instinto realmente, que o negócio tem dado mais certo, sem esquecer logicamente a tecnologia, os valores básicos, aliás, os ensinamentos básicos de uma administração. Mas, para isso, eu estou bem cercado também de uma assessoria que não me deixa pisar muito na bola.

Jorge Escosteguy: Hamilton, por favor.

Hamilton dos Santos: Você acabou levantando três hipóteses aqui para o seu futuro. No começo você disse que havia a possibilidade de você ficar independente e ficar com toda a produção, e até incluir outras produções. Depois você disse que... "Como eu estou tentando negociar com a Globo agora..", quer dizer, então parece que há essas duas possibilidades. E pode haver uma terceira, que é você voltar para a Abril, ou... Qual delas está mais próxima de ser concretizada?

Maurício de Sousa: Não sei. [Maurício sorri] Vamos dizer, a fatal é nós sermos uma editora. Aí nós vamos ser uma editora. Agora, o que vai acontecer nas negociações realmente eu não sei, porque há uma negociação em andamento.

Hamilton dos Santos: A hipótese de voltar para a Abril existe?

Maurício de Sousa: Tudo é possível. Eu adoro o Roberto Civita...

[Risos]

Maurício de Sousa: ... como eu adoro o João Roberto Marinho [filho de Roberto Marinho]. Então, eu...

Jorge Escosteguy: O senhor está que nem o ministro Armando Falcão [(1939-2010) ministro da Justiça no governo Geisel, de 1974 a 1979. Ver entrevista com Falcão no Roda Viva], [que diz:] "O futuro a Deus pertence.".

Maurício de Sousa: Não, sem querer escapar, sem ficar em cima do muro. Efetivamente, aí, o empresário vai ter que tomar assento e verificar o que é que vai ser melhor na interação. Quando eu fui para a Globo, eu pensava em televisão, eu pensava em outros veículos. Infelizmente não deu muito certo, mas eu estava pensado nisso. Agora, não podemos esquecer que a Editora Abril vem com televisão também. Então, haverá diversos caminhos e haverá uma beleza de leque para a gente começar a pensar no futuro. Mas eu penso que não é o momento agora; é o momento de a gente ficar livre para sonhar e começar a se preparar, e também, ao mesmo tempo, valorizar cada vez mais a nossa criação, melhorar ainda mais, fazer com que o material seja cada vez mais forte, para que em uma mesa de negociação a gente possa ter bons resultados.

Jorge Escosteguy: Ana Maria, por favor.

Ana Maria Fadigas: Maurício, considerando que a minha paixão pessoal é o Chico Bento, por que é que ele rompe essas barreiras que ele disse, por exemplo, do segmento do caipira, do local? E não só aqui, como fora daqui. Quer dizer, por que é que o Chico Bento é esse grande sucesso? Ele seria um inconsciente coletivo [conceito definido pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung como a camada mais profunda da psique humana, que consiste na herança da humanidade e não em experiências pessoais]?

Maurício de Sousa: Acho que sim. Ana, nós temos conversado já com várias pessoas aí, até alguns psicólogos. É a volta às origens; é o pé no chão; é o singelo - uma palavra que alguém usou.... você, no começo [do programa]...  -, é o singelo que todo mundo gostaria de ser. Ninguém gosta de viver armado contra o próximo. Todo mundo gostaria de estar num campo, numa relva gostosa, mergulhando num ribeirão de água limpa, namorando a Rosinha [personagem que namora Chico Bento], para um dia casar, e assim por diante... ter um pai que vai trabalhar e de vez em quando pega o Chico Bento para ajudá-lo, chega cansado e vão comer feijão com arroz; tem a mãe carinhosa... todo mundo... É uma... é um Éden eventualmente já vivido, vivenciado por algumas das pessoas que viveram no interior, viveram em pequenas cidades, e outros que sonham com isso. Chico Bento realmente é o paraíso perdido e todo mundo gosta dessa idéia.

Fábio Malavoglia: Você não queria voltar para esse tipo de paraíso?

Maurício de Sousa: Como?

Fábio Malavoglia: Você imagina um dia largar os negócios e voltar para isso?

Maurício de Sousa: Quase todo o fim de semana eu faço isso.

Fábio Malavoglia: Mas [você pensa em], um dia, [deixar tudo] de vez?

Maurício de Sousa: Eu acho que a gente se vicia um pouco também com esse burburinho, com esse ritmo de cidade grande, mas eu penso que é uma coisa que a gente pode ir rompendo e voltar. Todos nós queremos voltar para a roça.

Álvaro de Moya: Você, na semana passada, na Semana da História em Quadrinhos Brasileira, na USP, você contou uma história interessantíssima do uso indevido do Chico Bento. Você poderia contar para os telespectadores essa história, do Chico Bento sendo assassinado?

Maurício de Sousa: Ah... [risos] É. Alguns personagens nossos às vezes se engajam fora do nosso controle em algumas charges ou histórias e tudo mais. Apareceu uma charge na imprensa aí, um desenho grande, com o Chico Bento crivado de balas, cheio de buracos de balas, morto, e dois vultos lá no fundo conversando, e um vulto gordão, mais forte, dizendo: “Eu falei Chico Mendes [enfatiza], ô ignorante!”.

[Risos]

Jorge Escosteguy: O Jal tem uma pergunta.

Jal: Voltando ao empresário, Maurício, quando fica pronta a Mauriciolândia?

Maurício de Sousa: O nome é horrível; vamos ter que mudar de nome, porque esse...

Jorge Escosteguy: Precisa usar “lândia”?

Maurício de Sousa: Olha, a Terra da Mônica ou o Parque da Mônica já estamos desenvolvendo. Deve vir um parque urbano aí, em menos de dois anos, aqui, em uma área próxima, do lado do Shopping Água Branca [na cidade de São Paulo], e estamos planejando outros...

Jal: [Interrompendo] Junto com a Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo], não é?

Maurício de Sousa: Não, não. É com o grupo [...] Matarazzo. E estamos planejando em outras áreas a mesma... áreas de lazer, mas parques diferentes, parques interativos, sem motor, sem nada mecânico, onde a criança vai exercitar a sua psicomotricidade. É outro conceito, é outra concepção, para a gente não ficar brigando com a Disney Word, Disneylândia, que é outra aventura. Então, nós precisamos dar esses parques para a criançada que mora em apartamento, que perdeu o quintalzão e assim por diante. E são brinquedos grandes em que até o adulto pode brincar. Nós estamos com técnicos do Canadá e do Japão nos ajudando nisso e eu quero ver se daqui a dois anos nós estamos aí com diversas áreas de lazer. Eu acho que se a década de 1960 foi a [da] implantação dos quadrinhos em jornais; 1970 [foi a década das] revistas e [do] merchandising; [os anos] 1980 [foram do] desenho animado; na década de 1990 nós vamos sair direto para as áreas de lazer e parque.

Hamilton dos Santos: Mas me parece que isso já foi tentado uma vez, o Parque da Mônica, em Porto Alegre, se não me engano, e parece que não deu certo.

Maurício de Sousa: Não, não foi tentado. Nós fizemos prospecção em Porto Alegre, com a prefeitura também. O jornal Zero Hora estava interessado em participar, mas não estava no momento ainda. Então nós fizemos...

Hamilton dos Santos: Isso foi há quanto tempo? Dois anos ou mais?

Maurício de Sousa: Uns dois, menos de dois anos. Menos de dois anos. Técnicos canadenses estiveram lá e estamos desenvolvendo também projetos para essas áreas. Mas é uma coisa custosa, pegou o Brasil meio de perna bamba economicamente. Então, nós estamos aos poucos desenvolvendo esse processo para que a gente possa trabalhar e desenvolver um projeto desse, com condições de se tornar um negócio rentável para o pessoal que vai investir, não é?

Jorge Escosteguy: Maurício, o nosso tempo já está se esgotando, o Roberto tem uma última pergunta para você.

Maurício de Sousa: Então vamos lá.

Roberto Miller: Maurício, o programa Lanterna Mágica [programa sobre as produções de animação exibido na TV Cultura nos anos 1980 e reprisado na década seguinte]... de cada cem cartas que a gente recebe, cinqüenta pedem o Maurício de Sousa. Eu gostaria que... naturalmente, os telespectadores que escreveram essas cartas estão assistindo hoje ao Roda Viva com o Maurício de Sousa. Você poderia dar uma alegria para essas pessoas?

Maurício de Sousa: Eu estou à disposição, logicamente. Eu me lembro que até eu tinha marcado com você de estar no programa, depois surgiu uma viagem de repente, essa correria toda não tem me deixado. Fico à disposição. O estúdio fica à disposição também da produção do Lanterna Mágica e eu até sugeriria, Miller, que o seu programa, como é o único no gênero, ele podia acompanhar o processo da produção desses filmes que nós vamos fazer para distribuição mundial, documentar esse tipo de trabalho, que é inédito também entre nós, e nós teríamos então, a par de estarmos falando com o seu telespectador, com o pessoal que nos assiste, podíamos também ter essa documentação; eu acho importante para nós...

Roberto Miller: Com muito prazer.

Maurício de Sousa: ... guardarmos isso.

Roberto Miller: Faremos isso, faremos essa co-produção.

Maurício de Sousa: Fica esse convite aí, essa proposta.

Hamilton dos Santos: Só para terminar...

Roberto Miller: Muito obrigado.

Hamilton dos Santos: É divertido ser o Maurício de Sousa?

Maurício de Sousa: É. Eu gosto de ser o Maurício de Sousa. [risos]  Mas eu não sei ser outra coisa.

Fábio Malavoglia: Maurício,...

Jorge Escosteguy: Fábio, a última. Curtinha.

Fábio Malavoglia: Por que você usa saltos tão grandes?

Maurício de Sousa: Você acha? [risos] Essa botina eu comprei no Japão. Gostei muito... e principalmente ela é muito maciazinha; não é pelo salto não.

Jorge Escosteguy: Maurício, nós agradecemos a sua presença hoje no estúdio do Roda Viva, a presença dos nossos convidados, e o Roda Viva volta na próxima segunda-feira, às 9h40 da noite, após o horário gratuito eleitoral. Uma boa noite a todos e até a próxima segunda-feira.

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