Memória Roda Viva

Listar por: Entrevistas | Temas | Data

Olacyr de Moraes

4/10/1993

Em meio à implantação de uma nova moeda no Brasil e com a expectativa da revisão constitucional, um dos maiores exportadores de soja do país fala dos anseios do empresariado e defende as privatizações

Baixe o player Flash para assistir esse vídeo.

     
     

Jorge Escosteguy: Boa noite. Estamos começando mais um Roda Viva pela TV Cultura de São Paulo, agora em novo horário, nove horas da noite.  Nosso convidado de hoje é o empresário Olacyr de Moraes, considerado o maior plantador individual de soja do mundo e, nos últimos tempos, um dos assíduos freqüentadores das colunas sociais. Paulista de Itápolis, interior de São Paulo, onde nasceu há 62 anos, filho de um vendedor de máquinas de costuras, Olacyr de Moraes, em quase cinqüenta anos de trabalho, construiu um patrimônio avaliado hoje em cerca de um bilhão de dólares. O Grupo Itamarati, do qual é dono, compreende mais de quarenta empresas com total de 16 mil funcionários. Além de um banco e uma construtora, Olacyr de Moraes tem sete fazendas onde planta principalmente soja. No ano passado, resolveu começar vida nova. Após uma crise que terminou com seu casamento de 28 anos com Edna Maria, que lhe deu dois filhos. Para entrevistar Olacyr de Moraes esta noite, no Roda Viva, nós convidamos Maria Cristina Poli, repórter da Rede Cultura; Sonia Racy, colunista do jornal O Estado de S. Paulo; Bruno Blecher, editor do caderno "Agrofolha", da Folha de S.Paulo; Maria Luiza Mendes, editora da revista Exame; Eliana Simonett, editora de economia da revista Veja; Luís Antônio Novaes, chefe de redação da revista Isto é; Pedro Del Picchia, colunista do jornal DCI, Diário de Comércio e Indústria; e José Antonio Severo, jornalista.  Boa noite, Olacyr de Moraes.

Olacyr de Moraes : Boa noite.

Jorge Escosteguy: Numa entrevista em 1989, quando o senhor estava investindo na Itamarati Norte, de 120 mil hectares, o senhor disse que estava investindo para os anos 1990 e o senhor disse: “o país ou vai ficar melhor, ou acabado”.  O senhor diria hoje, três ou quatro anos depois, que o país ficou melhor ou está acabando? 

Olacyr de Moraes: Bom, acho que nesses últimos seis meses, no último ano, até que eu estou otimista, porque, apesar de uma inflação nos níveis em que nós estamos tendo, de acordo com últimas estatísticas e informações, nós vamos crescer mais de 5% este ano. Com toda esta crise, nós conseguimos crescer e imagine se a hora que nós realmente acertarmos esse problema, nós vamos surpreender o mundo. Temos todas as condições para conseguirmos isso. Inclusive, podemos superar até os tigres asiáticos, ou seja, sob esse aspecto sou otimista, acredito que o Brasil tem jeito sim.

Jorge Escosteguy: O que o senhor acredita que falta no campo político para o Brasil entrar nesse campo que o senhor imagina?

Olacyr de Moraes: O problema do Brasil é muito mais político do que econômico. Nós temos que atualizar nossa Constituição, que foi escrita em 1988, antes da queda do Muro de Berlim, e possui ainda restrições ao capital estrangeiro; acenamos com um mundo maravilhoso para todos, não é isso?

Jorge Escosteguy: O senhor disse que, na época, a Constituinte tinha idéias aterradoras?

Olacyr de Moraes: Ela foi feita anteriormente à queda do Muro de Berlim e havia, naquela época, em 1988, muitos pleitos reprimidos. Ou seja, as pessoas achavam que era só colocar no caderninho da Constituição e que tudo aconteceria.  É a coisa não é bem assim.

Jorge Escosteguy: O senhor diria que essa reforma tem que mudar, basicamente, o quê na Constituição [revisão constitucional]? 

Olacyr de Moraes: Primeiro, restrições que foram feitas ao capital externo. Acabar com esses monopólios que nós temos de petróleo, comunicações, uma série de monopólios que permanece. Ou seja, era como se nós fizermos uma Constituição para os anos 1950 em 1988, e o mundo mudou. Hoje, já se sabe que é via iniciativa privada que se consegue um desenvolvimento.

Jorge Escosteguy: Quando o presidente Itamar [Franco, presidente do Brasil entre 1992-1995] assumiu, ele tinha idéias dos anos 1950.

Olacyr de Moraes: Pois é, mas eu acho que, realmente, no começo, ele me assustou, depois eu achei que ele se atualizou bastante e todos nós nos atualizamos, não é isso?

Jorge Escosteguy: A Sônia, por favor.

Sonia Racy: Mudando um pouquinho de assunto, o senhor é conhecido como o “rei da soja”, o senhor tem mais ou menos quarenta empresas, estão incluídas aí as fazendas que o senhor tem? 

Olacyr de Moraes: Não, cada empresa, às vezes, tem mais de uma fazenda não é? Quando é do setor agrícola ou pecuário. Nós temos diversos setores, de construção, setor de...

Sonia Racy: Queria saber o seguinte: o grosso do lucro do Grupo Itamarati vem de qual área, da soja?

Olacyr de Moraes: A soja... todo setor agrícola é um setor muito difícil, e quem mexe com pecuária ou agricultura sabe que é muito difícil.  Principalmente nós que iniciamos na região da nova fronteira na Amazônia, porque essa fazenda Itamarati [localizada] em Campo Novo do Parecis, ao norte de Cuiabá, é um negócio de menor rentabilidade do que os outros, mas é um negócio que satisfaz, deixa a pessoa realizada.

Sonia Racy: Porque a sensação que eu tenho, desde que o senhor começou a atuar dentro da área da soja, o senhor vem meio que desprezando outras áreas, área de construção, que foi onde o senhor iniciou a sua vida, e mesmo na área de bancos. Inclusive, teve uma época que o senhor não assinava nem balanço da Constran e nem do banco Itamarati, por que isso? 

Olacyr de Moraes : Bom, quarenta e tantas empresas ao longo de quarenta anos, e agora, você tem que contar com corpo técnico muito bem preparado para dirigir essas empresas. E eu faço acompanhamento pelos balanços, ou seja, essas empresas, eu as acompanhei desde o [seu] nascimento. Eu conheço tudo o que ocorre dentro dessas empresas. Então, realmente, eu tenho condições de saber exatamente como elas são, se estão bem, mal, se devo mudar ou não, mas o dia-a-dia, a administração, é feita por um pessoal técnico.

Sonia Racy: Agora, a maior parte do lucro do Grupo Itamarati vem de onde, de que área?

Olacyr de Moraes: Depende do ano, teve um ano...

Sonia Racy: Ano de 1992, 1993?

Olacyr de Moraes: Por exemplo, agora, o setor da construção está muito ruim no momento não é? Não há obras do governo... Já o setor financeiro está um pouco melhor, o setor agrícola, este ano, eu acho que está razoável. Nunca acontece de todos irem bem, sempre dois vão bem, outro não vai muito bem. Mas um [setor] procura ajudar o outro que não está tão bom naquele momento, e aí a coisa acaba se equilibrando.

José Antonio Severo: Esse setor de construção que foi onde o senhor começou, dizem que o senhor cometeu um erro estratégico, não foi para o exterior como seus concorrentes e, agora, o senhor conseguiu resolver esse problema com as suas próprias obras, porque o senhor construiu duas usinas e mais uma ferrovia.  Enfim, vale a pena ter uma construtora para trabalhar suas próprias obras? 

Olacyr de Moraes: O que acontece é o seguinte: o Brasil mudou, está mudando e temos plena consciência de que o período em que nós trabalhávamos para o governo vai diminuir muito. Por que era uma época muito mais cômoda, você, ao invés de correr o risco do negócio, fazia obras para o governo, por exemplo, hidroelétrica, estradas, prédios. Agora, o governo não tem mais recursos e, com essa mudança, nós temos consciência plena de que está na hora dos empresários assumirem também esses setores. Então, nós estamos construindo uma usina elétrica por nossa conta para explorar... Estamos construindo uma ferrovia

José Antonio Severo: Vocês estão obtendo financiamentos?

Olacyr de Moraes: Lógico, não só aqui, no Brasil, mas em qualquer parte do mundo, qualquer coisa que se faça é com financiamento.

José Antonio Severo: O senhor consegue financiamento externo fácil? 

Olacyr de Moraes: Não é que... Talvez, no momento, até pudéssemos conseguir, mas o que existe é uma restrição imensa ao Brasil lá fora, não aos empresários brasileiros porque todos sabem que as empresas aqui, no Brasil, tomaram dinheiro lá fora, pagaram o Banco Central no passado e o credor lá fora não recebeu. O setor privado liquidou todas as suas dívidas, praticamente, representa quase nada. Tudo isso que os empresários tomaram de empréstimo no exterior eles pagaram, quem não enviou o dinheiro foi o Banco Central. 

Maria Cristina Poli: Doutor Olacyr, o senhor cresceu numa época onde o Estado era mais generoso com financiamentos. O senhor acha que hoje seria fácil surgir outro Olacyr de Moraes?

Olacyr de Moraes: Olha, todas as épocas têm suas dificuldades. Eu acho que hoje, o momento em que nós estamos atravessando, a estratégia deveria ser outra. Por exemplo, quando eu comecei, há quarenta anos, o endividamento era um negócio altamente vantajoso, hoje é ruinoso. Se você se endividar hoje, dificilmente você vai ter chance de pagar essa dívida.

Maria Cristina Poli: Por causa dessa generosidade mesmo do Estado, financiamentos existiam com mais facilidade, o senhor não acha? 

Olacyr de Moraes: Não, naquele tempo existia um financiamento em condições normais. Hoje, todo mundo sabe que financiamento a juros de 40% ao ano não existe em lugar nenhum do mundo. Então, é uma espoliação financeira, não é um financiamento normal.  Porque se você vai ao Japão, Estados Unidos, qualquer país do mundo, se você for fazer uma ferrovia, você tem financiamento lá a vinte, trinta, quarenta anos com juros de 2%. 

Bruno Blecher: Mas hoje, daria para montar essas mega fazendas, como a do Grupo Itamarati, nas condições atuais?

Olacyr de Moraes: Exato.

Bruno Blecher: Nessas condições atuais.

Olacyr de Moraes: Eu acho que não deixa de ser um risco, principalmente o setor agrícola sempre foi um risco muito grande.  Aconteceram diversas intervenções do governo, ele proibiu a exportação de soja, cobrou imposto sobre agricultura, os portos brasileiros eram uma calamidade, hoje isso está mudando. Até que a agricultura hoje está melhor e no passado era mais difícil do que se fazer agricultura hoje. Ou seja, hoje, as pessoas são muito acomodadas no mercado e dizem: “hoje não tem condições”. Não, pelo contrário, você tem um mercado financeiro muito maior do que nós tínhamos, embora com esses custos absurdos, mas existe mais oportunidade de trabalho, mais mercado do que existia há trinta anos. Eu me lembro quando eu comecei os negócios a dívida do Brasil era setecentos ou seiscentos milhões de dólares, hoje já devemos 150 milhões. Ou seja, a economia mudou. No começo do século, o Brasil parece que tinha dez, doze ou quinze bilhões de habitantes, hoje temos 150. Ou seja, temos mais suporte para fazer as coisas.

Jorge Escosteguy: [...] Pedro Del Picchia, por favor.

Pedro Del Picchia: Hoje o senhor me parece um homem mais otimista do que há alguns anos. Inclusive, há algum tempo, numa entrevista, se não me engano, que saiu no Jornal do Brasil, até já chegou a dizer que gostaria de se mudar para a Bolívia se tivesse trinta anos. E hoje suas declarações são otimistas. O senhor fala da situação econômica do país achando que as coisas estão melhorando.  Eu pergunto: ano que vem [haverá] eleição e existe uma possibilidade concreta do Lula ganhar a Presidência da República com um programa que é, justamente, a antítese do que o senhor defende. Como o senhor encara o panorama?

Olacyr de Moraes : Em primeiro lugar se tivesse que me mudar do Brasil, talvez eu me mudaria para Estados Unidos, Canadá, aprecio muito a Bolívia, está aqui pertinho, mas talvez escolhesse outro país para mudar do Brasil, mesmo porque jamais vai acontecer isso.

Pedro Del Picchia: Sem nenhum demérito da Bolívia, por favor.

Olacyr de Moraes: Exato, tanto é que a Bolívia deu um exemplo da recuperação, acabou com a inflação. Agora, porque estou mais otimista, porque eu vejo uma Bolívia miserável dando um bom exemplo. Veja também o Chile, nosso vizinho, hoje com conceito mundial enorme. A Argentina que vai reeleger o Menem [Carlos Saúl Menem, presidente da Argentina pelo Partido Justicialista por dois mandatos consecutivos, de 1989 a 1999] por quê? O que ele fez? Ele conseguiu acabar com a inflação, inflação zero. Então, o que eu acho?  Que o papel do governo deveria ser o de promotor do desenvolvimento, convocar os empresários, todas as forças produtivas para dizer: “olha, precisamos aumentar a produção de aço, quem são os empresários de aço e tal?” e não eles mesmos se meterem, como fizeram no passado, a produzir aço, energia, transporte, produtos químicos, petróleo. Foi aí o erro que nós cometemos, até durante a revolução [ditadura militar] nós demos um grande passo, criamos todo um sistema de desenvolvimento. Infelizmente, isso foi feito pelo Estado e não pelo setor privado.

Jorge Escosteguy: O senhor acha que, naquela época, era necessária a intervenção do Estado, a capitalização do Estado nesse setores para gerar desenvolvimento?

Olacyr de Moraes : Para mim não. Se o Estado tinha recurso, poderia ter financiado, dado as garantias para que os empresários tomassem recurso do exterior e fizessem. É que realmente o Estado, naquela época, tinha essa visão de querer fazer tudo mudou agora e deu no que deu, empresas deficitárias, cabide de emprego, prejuízos, não é isso? Ao contrário dos Estados Unidos, do Canadá, países que realmente fizeram as coisas deveriam e tiveram sucesso.

Jorge Escosteguy: Falta o final da pergunta do Del Pichia, sobre o PT e o Lula.

Pedro Del Picchia: É. Ele é hoje um partido, uma força política competitiva para assumir a Presidência da República, tem seu candidato disparado na frente em todas as pesquisas, apesar dos meses em que ainda faltam até as eleições. 

Olacyr de Moraes: Acho que o PT fala para o eleitorado dele, a linguagem que ele usa é adequada ao seu eleitorado, certo? Ele fala em reforma agrária, aquela coisa da esquerda do mundo todo. Mas nós já assistimos que, se acontecer dele chegar ao poder, historicamente, nunca prevaleceu essa linha. Porque, realmente, uma linha como essa, de tomar propriedade e fazer aquele negócio radical, como determinadas correntes pregam, representaria um isolamento do país do resto do mundo.  E nós...

José Antonio Severo: O senhor também acha que o Lula cairia em seis meses de governo? 

Olacyr de Moraes: Não acho, acho que o Lula, se ele tiver, e parece que vai ter bom senso... Porque, inclusive, a hora em que o indivíduo se senta na cadeira, ele vai ver que a coisa é bem diferente. Ele vai ter que convocar todas as forças produtivas do país, vai ter que dialogar com tudo. Mesmo porque dificilmente ele teria uma maioria no Congresso, não é?

José Antonio Severo: O Lula...

Olacyr de Moraes: Não, não estou. Não estou cogitando isso.

Jorge Escosteguy: Já que estamos na política, vejam só quem ligou aqui, Agnaldo Timóteo, cantor e não é trote não, a recepcionista reconheceu a voz dele, pergunta se o senhor não gostaria de se candidatar a presidente da República ou a um cargo político para administrar o Brasil com a mesma competência que administra as empresas? 

Olacyr de Moraes: Já tenho 42 empresas, estou construindo usina hidroelétrica, ferrovia, estou assoberbado com tanto problema. Acho que temos gente preparada no Brasil assumir essas funções.

Jorge Escosteguy: O senhor acha que esse papel também deve ser o papel do empresariado, o senhor acha que o empresariado deveria assumir essa...

Olacyr de Moraes: O empresariado deve ajudar, deve colaborar, sem fazer demagogia, porque assim foi o desenvolvimento da Alemanha, Japão, Estados Unidos. No Japão, você tem o empresariado japonês e você tem o governo que ouve seus empresários, porque quem vai dirigir a indústria é o empresário. Isso é muito fácil de dizer: “não queremos trabalhador e nem empresário, esse negócio não existe”. Se uma nação quiser ser grande, próspera, tem que conviver em paz com todos.

Maria Cristina Poli: Doutor Olacyr, já que estávamos falando há pouco sobre sucessão, queria saber um pouco sua sucessão, onde será mais difícil substituir o senhor, em que área dos seus negócios? 

Olacyr de Moraes : Bom, eu tenho um casal de filhos, uma filha e um filho, ele está trabalhando comigo há mais de dez anos e está tomando conhecimento de tudo o que ocorre. Como eu disse aqui, delegamos a equipe de profissionais que têm tocado. Nós temos progredido muito nas nossas empresas, o banco Itamarati tem crescido muito, as nossas fazendas também. Agora, já estamos produzindo açúcar, álcool. Ou seja, não me queixo, elas vão muito bem. E damos um atendimento aos nossos trabalhadores muito adequado.

Maria Luiza Mendes: Doutor, o senhor acha que se fosse hoje, seus filhos teriam as mesmas condições de erguer um império como o senhor ergueu, quarenta anos atrás? 

Maria Cristina Poli: Por exemplo, na agricultura, hoje é possível com essas taxas? 

Olacyr de Moraes: É, realmente, não é tão simples.

Jorge Escosteguy: O senhor começou como - para matar logo a curiosidade nossa - qual foi seu primeiro negócio, como o senhor começou a ganhar dinheiro? 

Olacyr de Moraes: Comecei a trabalhar com meu pai há quarenta anos. Ele era funcionário da companhia Singer de máquina de costura, vou repetir isso, quando estourou a guerra no mundo, a mundial [refere-se à Segunda Guerra Mundial], essa companhia era uma companhia americana, ela fechou sua filial aqui no Brasil e não exportava mais nada. Pagou uma indenização de dez contos de réis. E ele comprou, com esse dinheiro, uma pequena transportadora, se chamava Entregas Rápidas. Eu devia ter uns 14 anos de idade naquela época e fui trabalhar com meu pai. Ali, virei mecânico, motorista, relações públicas, aprendi tudo e fiquei durante onze ou doze anos trabalhando na empresa de transporte.

Jorge Escosteguy: Para repetir sua história só uma terceira guerra mundial? 

[Risos]

Olacyr de Moraes: Eu acho que é aquele problema, eu parti de uma empresa de transporte com três caminhões, mas meu pai partiu do zero. Talvez o esforço que ele tenha tido para conseguir aqueles três caminhões foi o mesmo ou talvez até maior do que eu fiz dali para chegar aqui, porque uma coisa é uma pessoa que não tem absolutamente nada e consegue ter uma pequena empresinha de transportes. Ou seja, quando eu comecei, fui trabalhar com ele, comecei já com uma pequena empresa, modesta, mas já existia algo.

Sonia Racy: Senhor Olacyr, o senhor acabou de mencionar aí o banco Itamarati que acaba de contratar o ex-presidente do BNDES, Eduardo Modiano [foi presidente do BNDES entre 1990 e 1992, nesse período participou do Programa Nacional de Desestatização, instituído pelo governo Collor, em 1990], que foi responsável muito tempo pela área de privatização.  Isso quer dizer que o Grupo Itamarati tem grande interesse na área de privatização e, se for verdade, quais as áreas em que você tem interesse.

Olacyr de Moraes: Temos interesse, aquilo que eu disse, da construtora, nós agora temos que assumir o papel de sermos responsáveis por esses setores, não é?

Sonia Racy: O senhor tem interesse na rede ferroviária?

Olacyr de Moraes: Já estamos construindo uma ferrovia que, no final, não sei, são cinco ou seis mil quilômetros.

Sonia Racy: O que corre aí é que o senhor teria interesse na rede ferroviária, por isso que teria contratado o Eduardo Modiano.

Olacyr de Moraes: Não, os cinco mil quilômetros que já construi é muita rodovia.

Jorge Escosteguy: Mais uma rodoviazinha? 

Olacyr de Moraes: Rodovia, devido à cobrança de pedágio, talvez sejamos candidatos, mas o setor elétrico, por exemplo, temos interesse, a Light do Rio de Janeiro, por exemplo, é uma possível candidata. Ou seja, nós vamos começar a participar. Temos oferta de financiamento do exterior para fazermos... Temos muita gente que quer participar conosco.

Sonia Racy: O senhor participará do próximo leilão? 

Olacyr de Moraes: Qual será o próximo leilão?

Sonia Racy: Bom, está marcada, a petroquímica, para 18 de novembro, né?

Olacyr de Moraes: Não, estamos interessados na energia elétrica, coisas mais...

Sonia Racy: Um pouquinho mais para frente né?

Olacyr de Moraes: É. O doutor Modiano, que é pessoa marcante do setor de privatização, homem absolutamente capaz, um nome excelente, exatamente uma das razões foi essa também.

Sonia Racy: O que o senhor acha do programa de privatização do governo Itamar [o programa determinou a privatização da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), da Aço Minas Gerais (Açominas) e da Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa), além de subsidiárias da Petrobras] e quais as diferenças do governo Collor?

Olacyr de Moraes: O programa titubeou no início, mas, no final, tomou um caminho. Como havia aquelas críticas incríveis de que tudo era “carta marcada”, acho que hoje o governo Itamar ficou apreensivo com isso, teve que verificar, perdemos algum tempo com isso aí, mas eu acho que está marchando. Ainda agora tivemos a privatização da última siderúrgica.

Sonia Racy: O senhor acha que vai dar muita fusão até decidirem privatizar o setor de energia elétrica, já está começando?

Olacyr de Moraes: Acho que vai dar, mas isso é problema irreversível, não tem mais sentido isso.

Sonia Racy: O senhor disse bem: problema irreversível.

[Risos]

Olacyr de Moraes: ...Pessoas na frente da Bolsa [de Valores] fazendo aquele barulho todo, com tabuletas, mas não vai dar em nada, porque se a nação resolveu fazer isso, vai fazer. Não é só o Brasil, é o mundo todo que está fazendo isso.

José Antonio Severo: Agora, doutor Olacyr, investir em ferrovia, um negócio mais ou menos em decadência no mundo com algumas exceções, no Brasil, então...

Olacyr de Moraes: Você me desculpe a franqueza, mas você está mal informado com relação a isso, em decadência estão as redes ferroviárias federais. Nos Estados Unidos hoje é um dos principais negócios, ferrovias modernas competitivas.

José Antonio Severo: ...tudo subsidiado.

Olacyr de Moraes: Absolutamente, Estados Unidos não subsidia ninguém. Subsidiamos aqui no Brasil.

Sonia Racy: É que o Brasil fez uma opção não é?

Olacyr de Moraes: É que a noção que nós temos de ferrovias no Brasil é essa da rede ferroviária com trilhinho de um metro, vagões que não levam nada, desaparecem por trinta, sessenta dias, ninguém sabe onde foram parar. Agora, a ferrovia que estamos construindo é de 1.60m, vagões de cento e oitenta toneladas cada um; de velocidade razoável, vai ser mais rápido do que um caminhão; haverá um rebaixamento do frete, que é mais importante, da ordem de 50%.

José Antonio Severo: Para grãos, principalmente, o senhor viabiliza o grão brasileiro.

Olacyr de Moraes: Por exemplo, hoje, custam setenta dólares para transportar tonelada de grãos entre Cuiabá e São Paulo. Com a ferrovia, vai baixar para trinta dólares, redução de 50% do frete.

José Antonio Severo: Verdade que, com isso, o Brasil vai ter um salto agrícola em função do preço?

Olacyr de Moraes: A região do Centro-Oeste, que é a que mais cresce em produção agrícola brasileira, possuía três fatores que limitavam isso, que eram os portos, uma vergonha nacional. Discutiu-se isso durante décadas, enquanto lá, no exterior, eram quatro dólares, aqui eram quinze, 16 dólares para carregar.

Sonia Racy: Mas o senhor fez uma opção por rodovias numa época da sua história, e não por ferrovias, os Estados Unidos fizeram o contrário, não sei se certo ou errado, mas foram duas opções diferentes, como isso se reflete hoje, ferrovia é uma coisa viável, dentro dos investimentos?

Olacyr de Moraes: Não, não houve essa opção, nos Estados Unidos o sistema de transporte maior é a hidrovia, o segundo ferrovia e o terceiro é a rodovia.

Sonia Racy: Mas se privilegiou as ferrovias.

Olacyr de Moraes: Estados Unidos? 

Sonia Racy: Os Estados Unidos.

Olacyr de Moraes: Olha, problema de ferrovia, vamos voltar ao século passado, porque nós temos que olhar as ferroviárias a partir do século passado? Porque não existia motor a explosão, existia motor a vapor. Então, você via a carroça e locomotiva, não existia automóvel, não existia caminhão nem nada, porque você não vai fazer motor a vapor para colocar no automóvel. Quando foi inventado o motor a explosão, começamos a fazer o caminhão de grande porte e tal. Então, tivemos um grande desenvolvimento.

Sonia Racy: Mas hoje, serve ou não serve construir ferrovias, é um negócio lucrativo?

Olacyr de Moraes: Se não não estaríamos construindo, não sou louco de jogar dinheiro fora.

Sonia Racy: Mas você disse que isso foi um sonho do senhor.

Olacyr de Moraes: Não, absolutamente, estou dizendo que há uma redução efetiva de 50%. Nós pesquisamos no mundo todas as maiores empresas de ferrovias do mundo, Canadá, Estados Unidos, e sabemos perfeitamente que é viável e economicamente rentável também.  Ela vai se pagar em dez anos. E, além disso, deu trabalho para nossa construtora, que não tinha o que fazer no Brasil que está totalmente parado. Tínhamos lá milhares de tratores e máquinas paradas e eu assumi isso daí, eu já sou construtor, posso construir mais barato, dei trabalho para o meu pessoal e estou fazendo uma obra super importante para nós e para o Brasil.

Jorge Escosteguy: Vou abrir uma janela aqui para os telespectadores, Celso Costa, de São Paulo e Juvenal Ventura também de São Paulo. O Celso pergunta quantos pequenos proprietários rurais poderiam caber dentro das suas terras e o que o senhor acha de terminar com o monopólio das terras nas mãos dos grandes proprietários. O Juvenal pergunta sua opinião sobre a reforma agrária e distribuição de renda no Brasil.

Olacyr de Moraes: Bom, eu acho o seguinte: vamos citar um grande país que é os Estados Unidos na produção agrícola. Eles pagam dez vezes mais salário para seus trabalhadores, só que eles trabalham de uma maneira moderna, [são] totalmente equipados e com alta produtividade porque eles têm tecnologia em fazendas adequadas à mecanização, a uma agricultura moderna e eficiente.  Conseqüentemente, vamos supor, eles colhem algodão lá, o custo deles, como eles trabalham... Apesar de remunerarem muito bem seus trabalhadores, é mais baixo do que o Brasil. Conseqüentemente, eles ganham também competitividade na indústria têxtil. Eles pegam o algodão em alta produção, vendem no mercado, liquidam com o produtor brasileiro, porque são mais eficientes, modernos, têm alta produtividade, têm poucas pessoas no campo, quase ninguém. Você vai ver uma lavoura de algodão nos Estados Unidos e você não vê ninguém, você vê máquinas. Mas eles têm milhões e milhões de pessoas trabalhando nas indústrias em condições muito mais adequadas do que um miserável ao relento com uma enxada e não produzindo nada, nesses quadradinhos de terras que seriam apenas “perpetuarizadores” da miséria. Ou seja, esse problema de perguntar o quanto, vão ver como vivem os nossos trabalhadores, nas nossas fazendas. Eles têm assistência médica, dentária, escolar, lazer. Ou seja, estão muito mais bem remunerados do que... Como eu vi na própria Bolívia, no altiplano, índios que pegaram pedacinhos de terra e conversei com governo, com pessoas do governo que disseram: “nós só fizemos isso para que não venham para a cidade, então, foi uma maneira que nós fizemos para nos livrarmos deles”.

Jorge Escosteguy: E a reforma agrária, o senhor acha que o Brasil precisa de uma reforma agrária?

Olacyr de Moraes: Não. Eu acho que nós precisamos de uma modernização agrária, máquinas modernas, aumentarmos a nossa produção, agricultura moderna, precisamos de pesquisas, sementes adequadas para sermos competitivos e ganhar uma grande fatia do mercado mundial. Esse negócio de reforma agrária, tomar terra dos outros, isso para mim é conversa de esquerda demagógica que não vai levar riqueza para ninguém. É palanque, isso não funciona.

Jorge Escosteguy: O senhor acha que o perfil agrário hoje, no Brasil, a distribuição de terra é adequada ou existe e deve ficar assim ou tem alguma...

Olacyr de Moraes: As micros propriedades estão muito piores do que as grandes propriedades, desde que produtivas, lógico que há algumas produtivas, mas as micro propriedades são totalmente ineficientes e não têm condições de dar a mínima condição de sobrevivência para seus proprietários que moram lá.

Jorge Escosteguy: Mas em algumas regiões do país, as pequenas propriedades têm rendimento muito bom, Rio Grande do Sul, por exemplo, na Zona da Serra.

Olacyr de Moraes: Cada caso é um caso, se você for a Santa Catarina... Isso que estou dizendo, tem que conviver o pequeno, médio e grande produtor, não há que excluir nenhum deles. Desde que o indivíduo produza eficientemente em condições adequadas, não há porque excluir, se nós temos oito milhões e quinhentos mil quilômetros quadrados de terras, 70% delas, totalmente inaproveitadas.

Jorge Escosteguy: Mas o problema não é excluir, é como incluir.

Olacyr de Moraes: Mas há tanta terra ociosa neste país, vai lá para o Centro-Oeste, Mato Grosso, Rondônia, lá está cheio de terra para quem quiser pegar

Pedro Del Picchia: O senhor não tem terras improdutivas, o senhor é produtor rural...

Olacyr de Moraes: Absolutamente, não tenho.

Pedro Del Picchia: O que fazer com gente que tem estoque de terra improdutiva para guardar patrimônio, como é caso de uma grande área rural brasileira.

Olacyr de Moraes: Nunca fomos contrários que essas terras sejam...

Pedro Del Picchia: Como incorporá-las?

Olacyr de Moraes: O que o cidadão perguntou é quantas pessoas caberiam... Levei quarenta anos para fazer isso. 

Jorge Escosteguy: Está superada a [questão] reforma agrária, o segundo telespectador, o Juvenal.

Pedro Del Picchia: A questão é como incluir essa terra na produção agrícola brasileira?

Olacyr de Moraes: Olha, acho que, em primeiro lugar, esse negócio de fazer quadradinho é política, porque põe lá os indivíduos em dez hectares e eles vão morrer de fome, político só faz aquilo para ganhar voto. Quer fazer um negócio consciente para que a pessoas tenha sucesso... Se você for à Itália ou França, você, para comprar alguma propriedade, você tem que provar que conhece agricultura. Se seus vizinhos não autorizarem, você não pode nem sequer comprar. Veja como é a visão no resto do mundo. Ou seja, só é permitido o acesso à terra para quem conhece os problemas da terra, estou falando em Europa. Aqui no Brasil nós, nem de longe passamos disso, mas se é para fazer alguma coisa consciente, então a propriedade tem que ter duzentos, trezentos hectares e que a pessoa possa mecanizar e ter produção rentável, não se basear que vai fazer agricultura na base da enxada e burro, que não vai fazer.

Bruno Blecher: Então, o senhor admite reforma agrária em terras improdutivas?

Olacyr de Moraes: Eu acho que, no Brasil, quase ninguém é contra isso, terra improdutiva desde que o governo indenize o proprietário, não tem problema. Sou contra se fazer demagogia em cima de reforma agrária. Quer fazer reforma agrária séria para realmente aumentar a produção, tudo bem, não tomar terra de quem está produzindo adequadamente...

Maria Cristina Poli: O senhor se sente meio perseguido com relação à quantidade de terras que o senhor tem? 

Olacyr de Moraes: Eu não, nós temos milhares de empregados, todos produzem muito bem, produzimos riquezas para o país e exportamos. O Brasil hoje é grande produtor agrícola graças aos seus produtores agrícolas, que enfrentaram impostos, dificuldades de transportes, portos inadequados, hoje somos sucessos na agricultura.

Maria Luiza Mendes: O senhor continua preferindo os militares do que a esquerda no poder? 

Olacyr de Moraes: Eu não acho que é o caso nem de militares e nem esquerda no poder, acho que poder é quem o povo decidir que deva tê-lo.

José Antonio Severo: Senhor Olacyr, tem um problema agrícola que o senhor tem falado muito e eu gostaria de perguntar. A questão do algodão, o senhor se queixa que não consegue importar algodão e com isso a produção estrangeira termina tomando conta do mercado brasileiro para esse produto.  Isso continua, o que precisa ser feito para reverter a situação? 

Olacyr de Moraes: Em primeiro lugar, nós aqui, no Brasil, queremos fazer tudo sem termos condições. Então, nós temos algumas universidades que, coitados, se esforçam imensamente. Tem aí Instituto Agronômico de Campinas, a Embrapa, mas não têm condições de competir com as multinacionais americanas, canadenses, australianas. Então, eles desenvolveram sementes que você produz quatro, cinco vezes mais do que as variedades brasileiras, com recursos e eles produzem, e aqui no Brasil, em nome de se proteger essas entidades, é pura e simplesmente proibido importar, em nome de defesa sanitária e tal. Então, Paraguai vai importar, Bolívia, todos os vizinhos e aqui é proibido, não temos acesso à tecnologia.  Conseqüentemente, o Brasil já produziu um milhão de algodão, era um dos grandes do mundo, e abaixou para trezentas mil toneladas, é o maior importador de algodão do mundo e os nossos concorrentes, além de variedades melhores, são subsidiados, os governos protegem. Eles têm financiamento a prazo de um ano, dois anos, com juros de 4%, 5%, 6%. O industrial brasileiro, quando vai comprar algodão, ele prefere comprar do exterior porque ele recebe financiamento, um ano de prazo e juros de 6%, ou seja, produtor brasileiro está jogado aí.

Jorge Escosteguy: Um minutinho, por favor, senhor. Desculpe, lembrar, o telespectador Vicente de Abreu fez uma pergunta sobre ditadura militar, Luís Antônio Novaes também tem uma pergunta.

Luís Antônio Novaes: Mudando um pouquinho de assunto, há pouco foi noticido que pode haver petróleo em alguma de suas propriedades, em terras suas, o senhor disse que defende o fim do monopólio estatal do petróleo. A primeira pergunta que eu faço: o petróleo já foi descoberto? E a segunda, se a revisão [constitucional] mudar a estatal do petróleo, o senhor também vai ser dono de petróleo no país, além de soja?

Olacyr de Moraes: Não, o que a Petrobras está fazendo é uma pesquisa que, por uma coincidência muito grande, no Mato Grosso, coincidiu de ser em uma fazenda nossa, não quer dizer que ali exista petróleo, é uma pesquisa que estão fazendo.  Se acontecer, sorte incrível, vai haver petróleo. E tomara que realmente aconteça isso. O que se discute é o seguinte: por exemplo, o subsolo pertence à União, então, a Petrobras entra numa fazenda e descobre uma riqueza imensa dentro da propriedade privada, ou o que quer que seja, e pura e simplesmente o proprietário é desapropriado e não recebe nem sequer um centavo. Isso, para mim, caracteriza uma injustiça e desestímulo. Ou seja, as pessoas nem têm interesse de alertar o governo que lá possa ter um determinado mineral ou petróleo porque passou a ser azar para o proprietário, embora para o país seja excelente, que se descubra qualquer coisa em propriedade privada. Ou seja, isso caracteriza uma injustiça absurda. Eu acho que isso deve mudar, dá 1%, 0,5%, qualquer coisa, para o proprietário do solo. Agora, entrar na sua fazenda e, depois, você pura e simplesmente é prejudicado se surgir uma grande riqueza numa propriedade sua? 

Jorge Escosteguy: Sônia.

Sonia Racy: Eu queria voltar um pouquinho a um assunto que o Severo até levantou, o senhor estava falando sobre os subsídios para agricultura, a comunidade econômica européia subsidia sua agricultura, os Estados Unidos subsidiam sua agricultura, ao mesmo tempo, o Brasil cortou subsídios na área agrícola. Qual sua opinião sobre este assunto? 

Olacyr de Moraes: Isso que estou dizendo. Veja como este país pode dar um salto gigantesco, não temos subsídios na agricultura e somos um grande produtor de grãos no mundo inteiro, somos exportadores de suco de laranja, soja.

Sonia Racy: O senhor é contra ou favor no subsídio na agricultura?

Olacyr de Moraes: Os nossos concorrentes, produtores de algodão, subsidiam pesadamente. Se você não tomar determinado cuidado ou botar uma barreira para evitar que eles entrem aqui com produtos feitos de maneira subsidiada, não vamos conseguir concorrer contra o tesouro americano, contra a comunidade européia que dá cinqüenta milhões de dólares de subsídios. Ou seja, se nós abrirmos o mercado.

Sonia Racy: Mas por que o senhor consegue exportar e não ter subsídios, área de soja não tem subsídios nenhum na exportação.

Olacyr de Moraes: Por incrível que pareça, a comunidade européia paga... Se uma tonelada de soja aqui, no Brasil, vale oitocentos dólares, um produtor italiano recebe oitocentos da comunidade européia. É que realmente, abaixo de um determinado nível, não há como eles segurarem e aí que o Brasil entra. Então, realmente nós estamos extremamente eficientes, tínhamos estrada ruim, portos ruins, impostos e conseguimos produzir e exportar com todas as barreiras que existem no exterior.

Eliana Simonetti: Doutor Olacyr, o senhor passou os últimos anos afastado dos negócios, achando que a vida tinha mais coisas que davam prazer do que o escritório. O que aconteceu que o senhor resolveu voltar e está discutindo tão animadamente negócios? 

Olacyr de Moraes: Não, eu acho que quem trabalhou durante mais de quarenta anos e continua trabalhando é até viciado em trabalho, está certo?  E também acho que o fato de eu ter ficado divorciado de um ano e pouco para cá, disse um empresário muito conhecido meu, voltou muito mais os olhos da imprensa [para mim] do que era na realidade, você entendeu?  Então, qualquer lugar que eu aparecia, saiu no jornal, então...

Eliana Simonetti: Mas isso não foi uma boa relação na empresa. As pessoas disseram para o senhor baixar a bola um pouquinho, sair menos, aparecer menos, porque isso prejudicava os negócios? 

Olacyr de Moraes: Olha, eu vou dizer uma coisa, esse tipo de posicionamento, evidentemente não vou ser um pândego ou qualquer coisa dessa ordem.

Jorge Escosteguy: Cair na gandaia, como se diz. [risos]

Olacyr de Moraes: Ficar bebendo, mas é impossível as pessoas quererem, vamos dizer, levarem coisas particulares minhas, esse é um comportamento que quem tem que decidir sou eu. Evidente que eu levo em conta que nós vivemos em sociedade, não resta a menor dúvida, mas é uma coisa que, depois de quarenta e tantos anos de trabalho, eu resolver sair um pouquinho, passear com uma boa companhia, eu vou fazer mesmo. Pode a imprensa escrever um milhão de linhas aí que não vai...

Pedro Del Picchia: As colunas sociais têm estoque então...

Olacyr de Moraes: Tem estoque para o tempo que quiser.

Jorge Escosteguy: O senhor reduziu um pouco a marcha ou continua...

[Risos]

Olacyr de Moraes: Cansa também um pouco né, cansa, é lógico. Ficar saindo toda noite e tal é muito cansativo também. 

Jorge Escosteguy: Mas é bom.

[Risos]

Olacyr de Moraes: É bom.

Maria Cristina Poli: O que tira mais o sono do senhor hoje? Crédito no banco que não dá muito certo, empreiteira que não recebe um dinheiro ou namoro por pouco tempo?

Olacyr de Moraes: Namoro é mais tranqüilo de todos.

[Risos]

Olacyr de Moraes: Agora, receber do governo, é o mais difícil de todos. Isso é o mais complicado.

Pedro Del Picchia: Falando em receber do governo, como está a política econômica do governo? Alguma nota para o ministro Fernando Henrique?

Olacyr de Moraes: Olha, eu sei que muitas pessoas o criticam e tal, mas eu acho que ele está fazendo a coisa com muita seriedade. Nós já tivemos diversos planos, não é isso? Como você vai fazer um choque agora, as vésperas do fim de ano, com 13º salário sem ter terminado o ajuste de obras do orçamento, problema dos ajustes dos combustíveis e energia elétrica, que termina em outubro. Você iria – me perdoe a expressão – quebrar a cara. Então, no momento que se fizer um plano e que nós não tenhamos mais déficit nenhum no orçamento do ano que vem, essas coisas estarão ajustadas. O governo não está fazendo nada mais do que aquilo que é possível, já deu demonstração de seriedade, não é só os empresários brasileiros, mas é o mundo todo que vai acreditar no Brasil. Agora, acho que antecipar trinta ou sessenta dias, acho que o ministro não está absolutamente correto, mesmo porque, como nós estamos crescendo 5%, a inflação parou por aí, mas não há ameaça disparada.

Pedro Del Picchia: Parou, o senhor acha? 

Olacyr de Moraes: Está subindo 1%, suponhamos que consigamos levar até o fim do ano, outubro, novembro e dezembro.

Jorge Escosteguy: O senhor está falando como banqueiro agora? 

Olacyr de Moraes: Acho que é absurdo essa inflação que nós estamos tendo, é coisa vergonhosa para o Brasil perante o mundo, não podemos continuar com essa brincadeira de fazer um plano e dar em nada depois de sessenta dias. Vamos fazer um plano que dará certo, como na Argentina, Chile, países que realmente fizeram a coisa séria, na própria Bolívia. Ou seja, teve uma dificuldade, mas se você vai à Argentina hoje ou Bolívia, e pergunta à população que pagou essa conta, você vê se eles querem voltar?  Até nas camadas mais pobres, estão felizes de ter feito esse sacrifício e terminado com a inflação.

Jorge Escosteguy: Dr. Olacyr, vamos fazer uma pergunta de uma telespectadora de São Paulo, Maria da Graça, ela disse que é sua prima. O assunto não tem muito a ver, mas como ela é sua prima eu vou fazer a pergunta.  Manda um abraço para o senhor e pergunta a sua posição em relação à crise salarial dos professores do estado de São Paulo, se tem solução e qual a solução? 

Olacyr de Moraes: Eu não conheço esse problema profundamente, então, não teria como me manifestar sobre um assunto que não conheço. A crise não é só dos professores, é do Brasil como um todo. Acho que no momento que nós resolvemos o problema da economia e a coisa se acertar, todo mundo vai ter uma participação maior.

Jorge Escosteguy: O senhor não acha que ensino é coisa fundamental para o país?

Olacyr de Moraes: Educação é coisa fundamental para o país, realmente [a classe dos] professores é uma das classes dos sacrificados, daqueles que ganham pouco, todos nós sabemos disso, têm razão de reclamar e tal. Mas nós, com esse negócio, afundamos o país, então, todos sofreram as conseqüências.

Jorge Escosteguy: Desculpe interrompê-los, mas estamos em rede com 14 emissoras e preciso de um rápido intervalo. O Roda Viva volta daqui a pouco, entrevistando Olacyr de Moraes.  Até já. 

[intervalo]

Jorge Escosteguy: Voltamos com o Roda Viva que hoje está entrevistando o empresário Olacyr de Moraes [...] Senhor Olacyr, no primeiro bloco do programa a gente falou um pouquinho sobre reforma agrária e tem aqui seis telespectadores perguntando o seguinte: Leopoldo Domingues, de São Paulo – “como se explica o celeiro de São Paulo ter 28 milhões de crianças que não têm um copo de leite para beber todos os dias, não é contra-senso o Brasil ser um dos grandes produtores de soja e não chegar aos brasileiros?” Marinho da Rocha, São Paulo – “O que o senhor tem feito para ajudar pessoas carentes, já que o senhor tem muito? Ou o senhor é mais um que, quanto mais tem, mais quer?” E Sérgio, de Guararema – “o que o senhor faz para ajudar pessoas carentes?” Sérgio Fernandes, de São Paulo - “sendo o senhor o maior produtor de soja, o que tem feito para minimizar a fome de milhões de brasileiros?”

Olacyr de Moraes: Bom, pessoalmente, estou distribuindo vinte mil cestas básicas em nome de Olacyr Moraes. Agora, a missão de empresário é promover o desenvolvimento, é gerar emprego, construir indústrias e, com isso, melhorar o nível de vida de todos, não é fazer demagogia empresarial, fazer sopa, bolo de fim de ano. Isso é muito fácil de fazer, só que não leva a coisa nenhuma. Evidentemente que nós temos coisas de momento, emergenciais, que até podemos fazer, uma delas é o que estarei fazendo amanhã com essas vinte mil cestas.

Jorge Escosteguy: Para quem são as cestas?

Olacyr de Moraes: É nossa campanha.

Jorge Escosteguy: Serão várias doações?

Olacyr de Moraes: Doação. Depois, outros empresários farão doações subseqüentes. Ou seja, a classe empresarial é consciente e quer ajudar. Mas eu acho que isso não é o papel do empresário. O papel dele é de gerar emprego, pagar adequadamente seus trabalhadores, promover o desenvolvimento do país e, via desenvolvimento, resolver o problema da fome e miséria. Essa sim seria é solução definitiva do problema. O resto são [medidas] paliativas com um pouco de demagogia...

Jorge Escosteguy: Essa campanha do Betinho, por exemplo, é para mobilizar sociedade brasileira, empresários.

Olacyr de Moraes: Solução da fome definitiva é desenvolver o país, não é ficar distribuindo coisas. Isso é até missão do governo, não é da classe... Assim mesmo, está havendo grande colaboração de todos. Todos querem ajudar e colaborar nesse sentido. Esqueci o resto das perguntas.

Jorge Escosteguy: Não, era basicamente isso, a campanha da fome.

Luís Antônio Novaes: Campanha do Betinho também é demagógica ou necessária como paleativo? 

Olacyr de Moraes: É uma campanha emergencial, bem paliativa, mas não dá frutos em definitivo, ela resolve um problema momentâneo do indivíduo não ter o que comer. Por exemplo, até para solucionar o problema da miséria do Nordeste, acho que deveria ser feita via desenvolvimento, via turismo, via irrigação daquela região, não se perpetuando essas doações. Agora, admito isso, acho que é uma campanha benemérita e está fazendo... Tudo bem, todos querem ajudar. Quem aqui, neste país, não quer colaborar, quem não quer erradicar a miséria? Mas existem diversas maneiras de você ver isso, o empresário vê de uma forma, padre vê de outra, professor de outra, o governo vê de outra.

Jorge Escosteguy: Faminto só vê de uma, pela fome, não é?

Olacyr de Moraes: Mas se ele tiver um emprego... Garanto que ele ficaria muito mais seguro se, ao invés de levar cesta básica com doação, você levasse um emprego, um trabalho permanente para ele.

José Antonio Severo: Dizem que empresários brasileiros não estão criando empregos, estão investindo mais em ativos financeiros, procurando ter resultados não operacionais.

Olacyr de Moraes: O que nós acabamos de dizer é que, apesar de uma crise com juros absurdos que vem passando o país, vamos crescer 5% ou 6%. Como não estamos [criando emprego]? Mesmo o setor agrícola, não há mais caminhões no Brasil, toda produção de tratores está sendo vendida. Ou seja, não é só crítica não. Eu acho que, realmente, nós estamos fazendo milagre, estamos criando empregos e bastante.

José Antonio Severo: O senhor acha que é injusta essa crítica que está se fazendo ao empresariado, justamente ao seu setor empresarial, que se diz que o problema do Brasil é falta de investimento. Ou seja, não está havendo investimento.

Olacyr de Moraes: Não era para se investir no país, não é?  Com juros aos níveis em que chegaram e tudo o mais, mas, apesar disso, é isso o que eu disse: o empresário é milagroso no Brasil.

Jorge Escosteguy: Seu banco cobra juros muito altos ou não? Como estão os juros do seu banco?

Olacyr de Moraes: Normais de mercado como todos os bancos. Lembre-se do seguinte: quem dita os juros é o próprio governo que compra o dinheiro no mercado que ele se endividou, governos federais, municipais e estaduais. Os bancos apenas repassam o dinheiro dos poupadores e ele ganha o diferencial, os juros vão para os aplicadores. O que fica no sistema financeiro é uma parte.

Maria Cristina Poli: Doutor Olacyr, voltando a falar um pouco da vida boa de solteiro, lembro uma vez que eu fui entrevistar o senhor no banco, estava com perna machucada e falou: “não fala que eu estou com a perna machucada, porque vão dizer que eu quebrei a perna dançando.” É difícil para o homem da faixa de idade do senhor tentar mudar? Quer dizer, as pessoas ficam o tempo todo apontando coisas, como é?

Eliana Simonetti: O senhor tinha quebrado a perna dançando mesmo? 

Olacyr de Moraes: Dançando não, mas tropecei numa escada, quebrei uma pontinha do pé, só que felizmente...

Jorge Escosteguy: Do escritório ou numa escada de restaurante e tal? 

[Risos]

Olacyr de Moraes: Olha, isso é uma...

Maria Cristina Poli: Quer dizer, existe resistência, mulher dos amigos separam o senhor deles, como é isso? 

Olacyr de Moraes: É lógico, você muda um pouco, vamos dizer, de ambiente. Você freqüentava um sistema, um tipo de vida, você dá uma pequena mudança, não é isso?  Uma pequena não, uma grande mudança.  E, segundo lugar, é preciso também ver como é sua saúde, porque tem pessoas que não têm sorte, que tem problemas cardíacos, um monte de coisa.

Maria Cristina Poli: O senhor toma vitaminas, cuida, como é? 

Olacyr de Moraes: Tomo um pouco de vitaminas.

José Antonio Severo: Não, aquele tratamento do doutor Eduardo Gomes [de Azevedo, geriatra conhecido pelo tratamento de rejuvenescimento conhecido como procainoterapia, criado pela eslovena Anna Aslan na década de 1970], inclusive tem máquinas fantásticas que reproduzem... Enfim, a pessoa faz um exercício sem precisar fazer força, não é?

Olacyr de Moraes: Exatamente, e já fiz. Já fiz tudo o que é tipo de check-up, eu procuro ter uma alimentação adequada, sadia, faço um pouquinho de exercício, me trato, porque a única coisa que eu tenho de efetivo, realmente, é isso aí.  E você tem que ter um pouco de saúde para fazer as coisas.

José Antonio Severo: E criticam exatamente isso.  O que o senhor acha dessa coisa de criticar porque o senhor tem saúde, porque o senhor... Será que está certo isso, achar que senhor não deve fazer isso, deveria fazer o que então? 

Olacyr de Moraes: Não estou entendendo sua pergunta.

José Antonio Severo: Volte e meia o senhor é muito criticado justamente por isso.

Maria Cristina Poli: Batalhar esse rejuvenescimento, é isso?

José Antonio Severo: Exato!

Olacyr de Moraes: Mas é evidente. O que me resta é minha própria vida, se não me tratar bem, aí vou ficar numa cama me lamentando.

Eliana Simonetti: O senhor acha que perdeu muito tempo trabalhando, doutor Olacyr, e se esqueceu de se divertir?

Olacyr de Moraes: De maneira nenhuma, acontece que enquanto eu estava casado era... Até me penitencio, talvez pudesse ter aproveitado mais, mesmo casado, apesar de ter aproveitado a vida, mas ter aproveitado um pouco mais. Evidentemente que, quando você fica solteiro, muda um pouco o relacionamento, você adquire novas amizades, conhecimentos, você passa a ser de outro mundo, porque o mundo do solteiro é um e do casado é outro.

Eliana Simonetti: Doutor Olacyr, tem coisa estranha aqui. Porque muitas pessoas se separaram na sua idade e tiveram namoradas na sua idade, e não tiveram a exposição que o senhor teve na mídia, a que o senhor atribui isso?

Jorge Escosteguy: Vai ver eles não têm muito dinheiro [risos]

Eliana Simonetti: Não, têm sim, não vou citar nomes aqui, mas conheço três ou quatro que tem tanto quanto o senhor e não tiveram essa exposição, por que senhor acha que, no seu caso, isso foi tão divulgado e badalado?

Olacyr de Moraes: Não posso te responder, talvez seja por conhecer todos vocês e circular nesse meio todo. E ser uma pessoa realmente conhecida da imprensa.

Eliana Simonetti: Mas também o senhor não ligou para a repercussão.

Olacyr de Moraes: Aquele negócio, "rei de soja", não sei o quê, você entendeu?

Eliana Simonetti: É isso.

Maria Luiza Mendes: Será que não foi porque o senhor arrumou umas namoradas muito mais jovens do que o senhor?

Olacyr de Moraes: Já imaginou arrumar uma namorada da minha idade?  Me perdoe.

Maria Cristina Poli:  Vou pegar uma carona rápida, essa história do senhor estar com moças lindas, bem mais jovens e tudo, o senhor acredita nesse amor sincero ou existe algum outro tipo de troca? Como é isso? As pessoas se perguntam... Tudo bem, o senhor está super em forma, mas elas são muito mais jovens.

Olacyr de Moraes: Não há necessidade.

Jorge Escosteguy: Muito em forma? 

[Risos]

Olacyr de Moraes: Existe um bom relacionamento, existe amizade, companheirismo, compreensão, não precisa ser amor profundo, até seria ridículo amor profundo nessa faixa de idade.

Maria Cristina Poli: O senhor acha? 

Olacyr de Moraes: Pode ser, seria até uma coisa ridícula da minha parte achar que eu estou arrebentando corações por aí, não seria... Isso eu tenho consciência.

José Antonio Severo: Mas elas estão arrebentando seu coração? 

Olacyr de Moraes: Não, não, eu acho que são companhias agradáveis.

Sonia Racy: Tudo no plural. São companhias agradáveis.

Olacyr de Moraes: Ver uma mulher jovem, bonita, interessante é agradável.

Sonia Racy: São várias, doutor Olacyr, no plural.

Olacyr de Moraes: Não, muito é fantasia, não houve nada disso, devo ter saído com duas ou três moças esse período todo. O resto é, acontece uma coisa, uma pessoa encostou do meu lado já é minha namorada né.

Sonia Racy: E as fotos?

Olacyr de Moraes: Ficou do meu lado, é minha namorada.

Luís Antônio Novaes: Doutor, essa busca de companhias jovens, não é um caso isolado, como ela estava falando, e também não é só de empresários. Temos exemplos de políticos que também, sem o sucesso que o senhor faz, mas que, de certa forma...

Maria Cristina Poli: O senhor está fazendo escola.

Luís Antônio Novaes: Por exemplo, o ex-ministro [Jarbas] Passarinho [foi governador do Acre, senador por três mandatos e ministro do Trabalho (1967-1969), Educação e Saúde (1969-1974), Previdência (1979-1985) e Justiça (1990-1992)], que é um que não fez questão de esconder a paixão por uma pessoa muito mais jovem. O ex-líder do governo Itamar, [Franco] Pedro Simon a mesma coisa, circula tranqüilamente com ela em Brasília, vai até ao templo rezar.  O que é isso?  O senhor acha que é sinal dos tempos, está havendo alguma coisa que unifica esse sentimento? 

Olacyr de Moraes: Por outro lado também tem senhoras de idade que se apaixonam por rapazes jovens, a coisa não existe só do homem para mulher, da mulher para homem também.

Maria Cristina Poli: É uma forma de rejuvenescimento?

Olacyr de Moraes: Acho que é, é uma forma de não aceitar que você acabou e está terminado, para que isso? Se não há necessidade disso, evidentemente que você precisa estar razoavelmente bem de vida e tal, tem um certo requisito.

Maria Cristina Poli: Não é assim também, né?

Eliana Simonetti: Mas se o senhor fosse candidato hoje, as mulheres votariam no senhor? 

Olacyr de Moraes: Acho que muitas votariam, algumas não.

Eliana Simonetti: Aquelas todas que não querem apresentar os maridos para o senhor? 

Olacyr de Moraes: Não, isso é bobagem, são casos isolados. Muito mais importante é a pessoa continuar casada e ser feliz. Por outro lado, acho que fui muito útil também, porque eu alertei as mulheres e os maridos que tem que se tratar muito bem, não é isso? Nesse aspecto tem que prestar muito atenção no outro e tal, porque acontece isso sim.

Jorge Escosteguy: Cristina Rocha aqui de São Paulo pergunta se o senhor não tem medo de seqüestro, se toma alguma medida de segurança?

Olacyr de Moraes: Medo de seqüestro, não tenho, agora sou realmente...

José Antonio Severo: Continua defendendo a “forca” para seqüestradores?

Olacyr de Moraes: ...muito prevenido com relação a isso, realmente eu já tive uma cunhada seqüestrada. Acho o crime de seqüestro de uma violência incrível, quatro ou cinco pessoas agarram uma moça ou você e te jogam num buraco feito um animal, um bicho, você vira um enterrado vivo, a custa de unicamente extorquir dinheiro de família...

Maria Cristina Poli: [interrompendo] Que tipo de cuidados o senhor toma?

Olacyr de Moraes: ...Ou seja, o seqüestro puro e simplesmente é forca mesmo. Quando há um seqüestro seguido de um assassinato como nós assistimos aqui o seqüestro daquela menina que agora não lembro o nome. Botaram fogo na menina e tal para desaparecer, é crime hediondo dos piores que pode acontecer.

José Antonio Severo: O senhor fala forca, por que não guilhotina ou paredão? 

Olacyr de Moraes: Força de expressão, [o que eu defendo é] pena de morte para esses casos, porque a sociedade tem que reagir a esse tipo de banditismo que tem no país. Ou seja, o sujeito deu um tiro na cabeça do outro, mas tem 16 anos e não vai preso. Não acontece, pura e simplesmente, nada?  Como é que nós vamos aceitar isso?  Você vê nesses faróis aí de trânsito, quantas pessoas são assassinadas. Esses jovens já são usados pelos malandros e eles têm consciência de, como dizem eles, “são de menor” e [por isso] não acontece nada.  Nós temos que proteger a infância e tal, mas não pode ter total impunidade. Mata um pai de família e tal, mas tem 16 anos!  E não sabe o que faz?! 

Olacyr de Moraes: Voltando um pouquinho à política, Ênio Silva telefonou de Porto Alegre e perguntou ao senhor, às vésperas da reforma constitucional, o que acha do Congresso que vai lidar com a reforma. [revisão constitucional]

Sonia Racy: Com sinceridade, doutor Olacyr.

Olacyr de Moraes: Eu acho o Congresso bastante razoável. Até mesmo pela própria votação que nós tivemos, é um Congresso pós-Muro de Berlim que viu o que está acontecendo no mundo todo, que tem acompanhado as mudanças, e o que a gente tem visto de manifestações com relação à reforma constitucional, eu acho que, talvez, podemos fazer qualquer coisa razoável.

Sonia Racy: Esses episódios recentes, que houve gente subindo em cima da mesa do presidente do Senado...

Olacyr de Moraes: É isso que estou dizendo.

Sonia Racy: O que acha desse tipo de comportamento ético? 

Olacyr de Moraes: É aquele negócio de querer exagerar, então, você deixa todo mundo... Os deputados vão discutir problemas polêmicos de extrema importância para o país e cem, duzentos, quinhentos agitadores jogam pedra, uma balbúrdia. Realmente isolar o Congresso não é se afastar do povo, pelo contrário, é decidir com serenidade.

Sonia Racy: Não foram só essas pessoas que fizeram balbúrdia, os próprios congressistas também fizeram.

Olacyr de Moraes: É, aí é discussão entre eles. O que não pode é pessoas estranhas quererem invadir o Congresso e quebrar tudo. Acho que tem que ter o mínimo de energia.

Sonia Racy: Tem uma frase, acho que do deputado [federal pelo PFL] Inocêncio de Oliveira [presidente da Câmara dos Deputados do Brasil entre 1993 a 1995], que pediu para o deputado [federal pelo PDT] Paulo Ramos delicadamente sair da sua mesa. A frase era a seguinte: “Excelência, por favor, será que dava para o senhor descer da minha mesa?” No meio daquela confusão.

Olacyr de Moraes: Existe muitas falhas e erros, e nós esperamos que isso mude. 

Sonia Racy: O Congresso é um reflexo da nossa sociedade? 

Olacyr de Moraes: É lógico, não deixa de ser um reflexo.

Jorge Escosteguy: O senhor acha que essa reforma fiscal do Estado tem que ir até o fim?

Olacyr de Moraes: Acho que sim. Por exemplo, nós temos um sistema de leis sociais que onera a folha de pagamento das empresas em mais de 100%, e depois o sujeito vai receber vinte dólares, cinqüenta dólares de aposentaria, isso está errado.  Porque aqui os poucos que pagam [impostos] sobre os salários de um trabalhador, recolhemos outro tanto inteirinho, ou seja, deveríamos ter a melhor assistência do mundo, os nossos trabalhadores deveriam ter hospitais de primeira grandeza, uma aposentaria...  Poxa, a vida toda ele paga, e o que o empresário recolhe é o dobro do que ele ganha.  E então, onde está o erro disso aí?  Você é obrigado a pagar menos porque você tem que recolher outro tanto para essa previdência que vira isso.

Jorge Escosteguy: O senhor acha que tem que haver redução dos encargos sociais ou direitos dos trabalhadores.

Olacyr de Moraes: Direito não, acho que o que deve ser feito é, por exemplo, faça como é feito nos Estados Unidos e em outros países: aqueles seguro de aposentaria, o indivíduo escolhe empresas sérias, garantidas pelo governo, que vão administrar isso com custo muito mais baixo e deixar que eles decidam como trabalhar os recursos do futuro. Tem que ter a coisa feita pela iniciativa privada também.

Maria Cristina Poli: Criar concorrência, né?

Olacyr de Moraes : Criar concorrência.

Jorge Escosteguy: O senhor acha que tem que privatizar a Previdência?

Olacyr de Moraes: Hoje se recolhe 100%, a maioria dos trabalhadores tem planos de saúde em que se paga outra vez isso.

Eliana Simonetti: O Estado não funciona...

Olacyr de Moraes: Ou seja, saúde no Brasil custa 150% sobre o que a pessoa ganha. Então, era preferível ele fazer uma poupança para quando se aposentar.  Nós estamos tremendamente onerados, sem nenhum retorno em termos de saúde. No meu entender isso está errado, tem que ser mudado.

Jorge Escosteguy: Acho que tem que acabar de vez ou, por exemplo, o ministro [Antônio] Brito [ministro da Previdência entre 1992 e 1993] acha que o governo poderia garantir faixa mínima de benefício e, a partir daí, o trabalhador iria buscar na iniciativa privada, nos fundos? 

Olacyr de Moraes: Acho uma excelente idéia, garante ao pobre o mínimo do salário mínimo, agora, daí para frente, o sujeito recolhe e faz... Se você quiser ter uma aposentaria maior, você faz o seu plano de aposentaria como a empresa séria, que possa responder isso. Você não recolhe 100% sobre o que você ganha, para depois não receber nada. 

Bruno Blecher: Doutor Olacyr, queria voltar um pouco à questão da [ferrovia] Ferro Norte. Em novembro de 1989, o senhor disse que a produção da nova fronteira teria que sair pelo norte do Brasil, aproveitando os rios Madeira, Tapajós, Amazonas. Não tem mais que vir para Santos. No entanto, a primeira etapa da Ferro Norte vai ligar Cuiabá justamente ao Porto de Santos.

Olacyr de Moraes: São dois problemas diferentes. Em primeiro lugar, você tem o mercado interno, não é?  70% ou 60% do que é produzido no Centro-Oeste é consumido em São Paulo  O que temos que fazer? Toda vez que se fala em produção agrícola, se pensa em exportação. Exportamos dois milhões de toneladas de soja em trinta milhões que vamos produzir, então, a sustentação da nossa agricultura ainda é o nosso mercado. Então, estamos preocupados, no primeiro momento, é com o abastecimento do mercado interno que, infelizmente, vem com fretes altíssimos. Mas para ela começar a subir, a exportação certamente vai sair por Santarém ou Carajás. É um negócio natural, vai lá para cima, nem onera o transporte aqui no Sudeste.

Bruno Blecher: E idéia de se ligar ao [oceano] Pacífico?  O senhor é a favor também? 

Olacyr de Moraes: Pelo Acre? É idéia muito boa, tem que fazer pequena estrada, não sei por que não fazem lá no Acre, já que a região de Cuiabá você está mais longe do Pacífico do que está em São Paulo. Aí teria que atravessar os Andes, é negócio extremamente complexo isso aí, para depois exportar para Japão, que tem que dar toda volta no mundo, tanto faz dar a volta pelo Pacífico ou Atlântico, só desceria um pouco pela África do Sul e chegaria lá.

Bruno Blecher: Quanto custa a Ferro Norte, os primeiro quilômetros?

Olacyr de Moraes: Com todo equipamento, dois bilhões e meio de dólares.

Bruno Blecher: Quanto que já está pronto?

Olacyr de Moraes: Estamos executando os primeiros trezentos quilômetros. Acontece que discutimos isso durante cinco anos e faz apenas um ano que começamos as obras.

José Antonio Severo: Já fez trezentos quilômetros?

Olacyr de Moraes: Até o ano que vem estará concluído os trezentos quilômetros.

José Antonio Severo: Está com dificuldade numa ponte que o governo teria que construir e esbarrou tudo, seria isso?

Olacyr de Moraes: O governo do estado de São Paulo assumiu o compromisso de fazer a ponte que liga o estado de São Paulo a Mato Grosso do Sul, na região de Santa Fé do Sul. Já que não adianta ter a ferrovia do outro lado, se essa ponte não estiver pronta. Existe uma promessa do governador Fleury [governador do estado de São Paulo entre 1991 e 1995]. Ver entrevista com Fleury no Roda Viva] que, realmente, iria alocar recursos e a coisa deveria caminhar. Espero que isso realmente aconteça. Embora nós tenhamos bastante crédito atrasado, mas é importante um esforço do governo porque é obra de muita importância para a região. Ela atende quarenta cidades.

José Antonio Severo: Já tem trens rodando nas linhas prontas? 

Olacyr de Moraes: Não, está previsto para 1995.

José Antonio Severo: Mas já está implantando trilho e tudo?

Olacyr de Moraes: Vamos começar assentar trilhos. O fundamental é você primeiro acertar a faixa, comprar propriedades, fazer terraplanagem. O primeiro trecho de trezentos, já estamos no quilômetro duzentos e vamos começar a assentar trilho.

José Antonio Severo: Vai dar para andar passageiro nesse trem também? 

Olacyr de Moraes: Poderia andar, mas no mundo todo o transporte ferroviário de passageiro, este sim é deficitário, a não ser no sistema de trem bala do Japão e da França, que você faria Rio de Janeiro em menos uma hora. Não se usa esse sistema ferroviário para transporte de passageiro e sim de carga pesada.

Bruno Blecher: O senhor continua plantando, ou não, na Bolívia? 

Olacyr de Moraes: Temos um pequeno experimento lá, na Bolívia, mas nossos negócios estão no Brasil, me fixei aqui, não estou com planos de sair.

Jorge Escosteguy: Até porque plantar lá é meio perigoso. [risos]

Olacyr de Moraes: Aquilo que eu disse, se tivesse trinta anos e tal, mas nesta faixa de idade, ficar viajando para lá...

Maria Cristina Poli:  Mas é possível tocar projeto na Bolívia? Porque o senhor está dizendo que se cansa de viajar, não foi isso que o senhor considerou? 

Olacyr de Moraes: Estou cansado de ficar fazendo viagens, fazer obras. Então, para mim, essa fase já está meio superada.

Maria Cristina Poli: Coloquei o seguinte, o senhor tem sucessão né?

Olacyr de Moraes: Bom, mas quero ver meu filho tocar quarenta e tantas empresas, ele é um só né?

José Antonio Severo: Uma curiosidade. O senhor está desativando as lavouras de soja no norte e plantando pastagens, isso significa que a pecuária vai melhorar muito e soja vai piorar ou alguma coisa diferente? 

Olacyr de Moraes: Em agricultura, você, numa mesma fazenda tem diversos tipos de solo, não é?  Num primeiro momento, nós abrimos todos, plantamos soja, porque soja é produto que melhora o solo, certo?  Mas para você ser competitivo, você tem que ter produtividade, porque se não, a lavoura acaba dando prejuízo. Então, nós tínhamos a fazenda, sessenta mil hectares, a parte mais fraca que era vinte mil hectares, transformamos em pastagens, melhoramos a produção dos quarenta mil hectares e com os quarenta estamos produzindo quase a mesma coisa dos sessenta. É apenas um problema técnico de fazer com que a coisa seja mais eficiente.

Bruno Blecher: O senhor ganhou muito com as enchentes do Rio Mississipi?

Olacyr de Moraes: Ganhei razoavelmente bem, porque acompanhei muito e quando chegou 7,50 dólares e deu uma baixadinha para 7,30, vendemos todas as nossas a seis dólares..

Jorge Escosteguy:  O senhor está prestes a virar o "rei do algodão", é isso? 

Olacyr de Moraes:  Não, acho que temos o grande produtor de algodão no Brasil, a família Maeda, e estão bem lá na frente, nós não estamos preocupados em sermos rei disso ou daquilo, agora, vamos procurar ter uma produção bastante... uma produtividade alta. 

Jorge Escosteguy: Quer dizer, o engenheiro agrônomo do Rio Grande do Sul, Pedro Autemberg, perguntou se na agricultura brasileira o que é mais importante, produtividade, volume de produção ou diversificação de cultura?  O senhor disse que  a rotatividade é fundamental?

Olacyr de Moraes: Tem que fazer rotação, você faz soja e depois milho, e vai fazendo uma rotação que você produz cada vez mais, se você repetir sempre a mesma cultura acaba dando doença, daí você baixa a produção.

Jorge Escosteguy:  Aí, cai a produtividade.

Olacyr de Moraes:  Cai a produtividade.

Luís Antônio Novaes:  Doutor Olacyr, toda a vez que empresário de seu porte é perguntado sobre financiamento de campanha eleitoral, ele diz em geral que acaba financiando todo mundo. O senhor é um desses, o senhor financiou nas outras campanhas todos os candidatos que tinham condições de ganhar?  O senhor financiaria, por exemplo, o Lula, a campanha do Lula, mesmo com todas a restrições que fez ao que ele pensa?  O que achou da nova lei eleitoral no sentido de inibir abusos que antes...?

Olacyr de Moraes: Não financiamos nenhum candidato.

Jorge Escosteguy:  Só complementando, o telespectador Raimundo Dades, aqui de São Paulo também pergunta o que o senhor acha da nova legislação eleitoral que permite doações de empresas em dinheiro para candidatos?

Olacyr de Moraes: Em primeiro lugar não financiamos candidatos nenhum, porque era proibido, evidente que você pode ter simpatia para um ou para outro, tentemos ajudá-los.  Agora, quanto a essa lei, eu acho... você está dando risada, mas é a realidade... Você ri por quê?

Eliana Simonetti:  Não colaborou com nenhum candidato, nenhum?

[Risos]

José Antonio Severo: Mas alguns já dizem que colaboraram.

Olacyr de Moraes: Você sempre tem um amigo ou outro que você ajuda, da melhor maneira possível.

Maria Luiza Mendes: Pode ser sincero aqui, todo mundo já sabe que senhor é generoso.

Olacyr de Moraes: Mesmo porque, nós temos um relacionamento muito grande com um grupo muito grande de políticos. Então, tem político "A"," B", "C" e "D" e você tem que estar à margem disso, não dá para tomar partido.

Sonia Racy: A lei eleitoral resolve esse problema?  O senhor acha, o senhor pretende contribuir de agora em adiante? 

Olacyr de Moraes: Não foi homologada pelo presidente da República?

José Antonio Severo: Foi.

Olacyr de Moraes: Ah, já foi? 

José Antonio Severo: Aliás, o PC [Paulo César Farias] recolhia dinheiro de empresários, como o senhor vê?

Olacyr de Moraes: Não conheço, não sei.  Nunca ouvi falar, só vejo na imprensa. 

Jorge Escosteguy: Agora, o que o senhor acha de lei eleitoral sobre a qual o senhor ouviu falar?

Olacyr de Moraes: Olha, eu acho que a lei é exagerada, com número que deram, mas se as pessoas têm condições hoje de poder ajudar, se tiverem simpatia por um político, elas podem ajudar às claras,

Jorge Escosteguy: Já que [o senhor] diz que não viu, que não sabe, quanto à pergunta que o senhor respondeu sobre o PC, pegaria outro enfoque, o que o senhor acha desses empresários que foram depor e disseram que contribuíram com dinheiro para o esquema PC, ou seja, que providências o senhor acha que devem ser tomadas em relação a esses empresários? 

Olacyr de Moraes: Não acho nada, não conheço o problema deles.

Jorge Escosteguy: Mas cometeram uma ilegalidade...

Olacyr de Moraes: Pessoas têm que responder pela ilegalidade, isso é evidente, não é pelo fato de ser empresário ou sacerdote ou qualquer outra coisa que fica excluído, se houve crime tem que ser apurado. Não há porquê não se apurar isso.

Sonia Racy: O que o senhor acha da nova lei de licitação? 

Olacyr de Moraes: É, abriu completamente o mercado, muitas empresas reclamam, empresas reclamam, mas é uma lei em vigor que precisa ser cumprida.

Sonia Racy: A lei eleitoral mais a lei de licitação o senhor acha que vai acabar com a promiscuidade entre o governo e empresas, candidatos e empresários? 

Olacyr de Moraes: Olha, eu vou dizer uma coisa para vocês, o que eu acho. Eu acho que a maneira de se diminuir isso é realmente entregando essas tarefas à iniciativa privada. Ninguém vai assaltar a empresa do senhor Olacyr de Moraes com facilidade.  Certo?  Não é no Brasil, qualquer parte do mundo, você vê escândalo na Itália, Argentina, em todo lugar do mundo em que há obras públicas, a coisa é muito polêmica.  E a maneira de você acabar com isso é deixar que empresas privadas assumam o risco de construir elétricas, sistemas de transporte, telecomunicações, petroquímicas que é maneira mais eficiente de você acabar com a presença do Estado, o Estado não tem que se meter nisso.

Sonia Racy: Mas, por exemplo, nos Estados Unidos, o que acontece?  Em concorrência de obras públicas, o governo não assume o risco, são seguradoras.

Olacyr de Moraes: Não está certo isso.

Sonia Racy: E dentro da nova lei de licitação no Brasil isso aí está meio confuso, porque metade quer, metade não quer, metade acha que vai ser prejudicada, então, está uma bagunça, inclusive tem uma MP [Medida Provisória] agora no Congresso...

Olacyr de Moraes: Nos Estados Unidos não tem negócio de preço único, você apresenta o projeto que quiser, tem que ter o mínimo de engenharia e certificado de garantia dada por uma instituição financeira de primeira linha. Se a empreiteira não cumprir por aquele preço...

Sonia Racy: Instituição financeira ou seguradora?

Olacyr de Moraes: Seguradora ou instituição financeira, alguém que garanta.

Sonia Racy: Porque as pequenas [empresas] gritaram aí, disseram que isso vai alijá-las do processo, que não tem capital para dar em garantia.

Olacyr de Moraes: Mas daí o problema é o custo disso aí que é 1%. É que eles não devem conhecer como é o mecanismo e devem ter se assustado. Ou seja, agora, não tem mais aquela desculpa de dizer: "não, mas de repente não terminam a obra e tal". Lá nos Estados Unidos se não terminou, a companhia acessa o seguro e ele que tem que indenizar o governo.  É a maneira mais prática de resolver isso.

Pedro Del Picchia: Quem é o empresário símbolo para o senhor? Quem o senhor admira?

Olacyr de Moraes: Em primeiro lugar no Brasil, essa visão que se faz dos empresários brasileiros... Por exemplo, 60% da economia era do Estado, 15% ou 20% era de multinacional, restou aos empresários brasileiros 20%, se muito, era Estado e multinacional. Aí, desses 20% que restaram, você vai ter supermercado, prestação de serviços, inclusive para o próprio governo. Ou seja, nós estávamos viciados em governo, essa é a realidade. Aí você vai ver indústria pesada, quem são os empresários brasileiros da indústria pesada? São raros, há muitos poucos empresários. Toda vez que fala em empresário brasileiro é Antônio Ermírio de Morais [presidente do Grupo Votorantim, conglomerado industrial fundado em 1918 e que reúne empresas de vários segmentos, entre estes alumínio, cimento, papel e outros. Ver entrevista com Antônio Ermírio no Roda Viva]. Não existe empresário brasileiro com indústria pesada, como na Alemanha, Estados Unidos. São raros porque o Estado sempre conduziu a economia do país.  Então, você perguntou quem é que... quem são? 

Pedro Del Picchia: Quem o senhor admira como empreendedor? Algum empresário símbolo? 

Olacyr de Moraes: Acho que Grupo Votorantin, o Gerdau [grupo empresarial criado nos anos de 1930 por João Gerdau no Rio Grande do Sul. É líder em exportação de aço nas Américas], mas são poucos, ou seja, eles não tiveram apoio, não conseguiram.

Pedro Del Picchia: Empresariado nacional é uma espécie em formação ainda?

Olacyr de Moraes: Porque se achava que tudo deveria ser feito pelo governo. 

Pedro Del Picchia: O senhor tem uma série de idéias privatizantes, essa coisa toda, e uma série de expectativas em relação à revisão constitucional, como o senhor manifesta essas idéias aos congressistas que vão mexer na Constituição?

Olacyr de Moraes: Acho que com congressistas pouco tenho conversado. Muitas vezes, eu converso com vocês da imprensa que levam isso a eles, porque o veículo eficiente é impressa, televisão e imprensa, não é? 

Maria Cristina Poli: Agora, doutor Olacyr, como se faz para reverter isso, como é que fazemos para "acertar o passo", digamos assim?

Olacyr de Moraes: Acertar o passo é ter convicção que não vamos mais ter inflação, você ter governo que realmente vai promover o desenvolvimento, vai se modernizar, não é? Acho que o presidente da República tem que ser mais um gerente de desenvolvimento e procurar ver as carências sociais, para  ver essas distribuições. Mas é muito importante que convoque determinados setores: "olha, precisamos aumentar a produção, ou de soja ou aço, automóvel, ou do que quer que seja, de tecidos". Ou seja, precisamos de desenvolvimento.

Maria Cristina Poli: O senhor acha que o ministro Fernando Henrique Cardoso chega próximo ao perfil? 

Olacyr de Moraes: Eu acho Fernando Henrique um bom ministro, porque ele agiu de maneira muito ponderada, ele não está fazendo demagogia, ele está sendo criticado porque está indo devagar e acho que está fazendo as coisas com os pés no chão, é minha opinião.

Bruno Blecher: Como o senhor daria uma "paulada" na inflação? 

Olacyr de Moraes: Acabando com essa dívida interna que nós temos, minimizando ela, que é o que ele está tentando fazer.  Acabando com o déficit do governo, o déficit público. Realmente, todo mundo sabe, qualquer economista sabe qual a receita, só que isso significa sacrifício.  Abrir mão... os governos, os estados, os municípios, todo mundo fazer um pouco de esforço. 

José Antonio Severo: Bandidos são governadores e prefeitos que pegaram o dinheiro, deixaram o [...] sem nada e não querem pagar o que devem.

Olacyr de Moraes: Não é bem isso, porque os estados estão em situação de penúria, realmente, a arrecadação diminuiu, tivemos um período... Agora, nós voltamos a crescer, mas nós não vamos nos esquecer que ficamos dez anos parados, dez anos que estamos parados na economia, significa o quê?  Hoje teríamos o crescimento histórico de 7%, 6% ou 7%, a economia brasileira seria exatamente com o mesmo número de pessoas... Ou seja, em vez de quinhentos bilhões de dólares, estaríamos produzindo um trilhão de dólares se não tivéssemos...

José Antonio Severo: Se puser o [mercado] informal junto, dá isso né? 

Olacyr de Moraes: Não vamos analisar qual o total que nós temos, pura e simplesmente. Se você tivesse continuado crescendo a níveis históricos, nós, hoje, nossa economia seria exatamente o dobro do que ela tem. Agora, dez anos com crescimento zero, está aí a miséria e tal, todo mundo passando fome. A causa fundamental é esta, falta de crescimento.

Maria Luiza Mendes: Vamos mudar um pouquinho de assunto, antes que o programa acabe. O senhor disse que o Marco e a Ana Cláudia, seus filhos, estão assistindo o programa em casa e não posso deixar de fazer uma pergunta que foi encomendada. O senhor disse, na hora que estava falando sobre a Ferro Oeste, que o senhor não gosta de jogar dinheiro fora.

Olacyr de Moraes: Ferro Norte.

Olacyr de Moraes: E aí eu vou fazer a pergunta aqui que seus filhos estão esperando em casa. O senhor não acha que o senhor andou fazendo um pouco isso ultimamente com suas namoradas? 

Olacyr de Moraes: Olha... [risos] É que, realmente, o problema é o seguinte, as pessoas não conseguem fazer avaliações. Eu ir num jantar ou sair e qualquer coisa, dentro do meu mundo empresarial, isso é absolutamente nada.  E é um direito que eu tenho. Se eu quiser gastar alguma coisa, gastar da maneira que eu quiser, como eu quiser e onde eu quiser, porque esses recursos que eu eventualmente poderia gastar estão devidamente anotados na minha declaração de imposto de renda, os impostos foram absolutamente recolhidos, e, portanto, não entrando nas empresas e tal, mas sendo parte das minhas retiradas, eu gasto como eu quiser, onde eu quiser e da maneira que eu achar melhor. 

Jorge Escosteguy: Que conselho o senhor daria aos seus filhos hoje? 

Olacyr de Moraes: Que continuem trabalhando. Não tem nada a ver a minha maneira de vida com a maneira de vida deles, meu filho acabou de se casar, acabei de ganhar um neto, está muito bem casado, muito feliz com o casamento dele, e minha filha solteira viaja pelo mundo todo, está adquirindo cultura, eu acho ótimo. E meu filho, acho que ele deve continuar trabalhando, desenvolvendo negócios da maneira tradicional.

Jorge Escosteguy: Eu digo em relação ao desenvolvimento de seu patrimônio, o senhor contou que seu pai não tinha nada, o senhor já começou com três caminhões, e seus filhos começam com um... muito caminhões!

[Risos]

Jorge Escosteguy: "Muito areia nesses caminhões", [risos] e em relação a isso, o que o senhor diria a eles? Para encerrar, estamos chegando ao final. 

Olacyr de Moraes: Acho que eles também têm consciência, como dizem: "pai nobre....

Jorge Escosteguy: "...filho nobre, neto pobre", não é isso.

Pedro Del Picchia: "Vô rico, filho nobre, neto pobre".

Olacyr de Moraes: Todas as pessoas que encontram alguma coisa feita e não tomam muito cuidado, acabam nisso, não é que meus filhos, principalmente meu filho que está no dia-a-dia trabalhando lá e tem pleno conhecimento do que ocorre. Agora, mais uma vez voltando aquele negócio, isso aí de gastar num jantar, coisa que as pessoas fazem, e fazer isso depois de quarenta anos, um mega empresário não poder dar um vestido para uma moça, ou qualquer coisa, é o fim da picada.

[Risos]

Olacyr de Moraes: Está certo? É um absurdo um raciocínio desses. É inacreditável que as pessoas possam imaginar isso, realmente se isso é feio e um assalariado estivesse fazendo isso...

Maria Cristina Poli: Iam falar que está ficando mais velho e pão duro, não é?  

[Risos]

Jorge Escosteguy: Seguramente não é o caso. Nós agradecemos, então, a presença esta noite aqui no Roda Viva do empresário Olacyr de Moraes, agradecemos também aos companheiros jornalistas e telespectadores. Roda Viva fica por aqui e volta na próxima segunda-feira, às nove e meia da noite.  Muito obrigado, até a próxima semana e boa noite a todos. 

Sobre o projeto | Quem somos | Fale Conosco