Memória Roda Viva

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Pedro Eberhardt

9/4/1990

Empresário e presidente do Sindipeças, Eberhardt discute medidas para estimular a venda de carros, como prazo maior de financiamento e consórcios, durante a crise financeira causada pelo Plano Collor

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[Programa ao vivo, permitindo a participação de telespectadores]

Rodolfo Konder: Boa noite. Estamos iniciando mais um Roda Viva. O convidado desta noite é o presidente do Sindipeças, Pedro Armando Eberhardt. Para entrevistá-lo, a TV Cultura convidou os seguintes jornalistas: Marli Olmos, chefe da sucursal ABC da Agência Estado; Joel Leite, repórter do Jornal do Carro do Jornal da Tarde; Sérgio Tolentino, editor da revista Automotor Peças; Nelson Blecher, repórter especial da Folha de S.Paulo; Germano de Oliveira, editor de economia do jornal O Globo da sucursal de São Paulo; Wilson Moherdaui, editor chefe do jornal Informática Hoje; Fernando Calmon, editor de automóveis da revista Manchete; Darci Higobassi, repórter de economia do Jornal do Brasil, sucursal de São Paulo; Alexandre Polesi, coordenador de redação do Diário do Grande ABC e ainda Paulo Caruso, consagrado cartunista da revista Isto é Senhor. O empresário paulista, Pedro Armando Eberhardt, 53 anos, é o presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores, o conhecido Sindipeças. Eberhardt diz que o seu setor enfrenta a pior crise desde o início dos anos 80. Suas previsões são alarmantes. Se dentro de sessenta dias, nada for feito para recuperar a venda de automóveis, haverá uma quebradeira generalizada no segmento industrial que reúne 1500 empresas. Eberhardt diz mais: a partir desse prazo, cerca de 305 mil empregados podem ser demitidos. Doutor Eberhardt, a minha primeira pergunta ao senhor é a seguinte: quem é que o senhor está querendo assustar com essas previsões? E eu complemento a pergunta: essas medidas recentes do governo, liberando, por exemplo, cruzados novos para que a pessoa quite o débito com os consórcios, e aumentando o prazo de compra de automóveis para trinta meses – o financiamento – não aliviaram um pouco a situação do seu setor? As previsões alarmantes persistem?

Pedro Armando Eberhardt: Em primeiro lugar, não é intenção assustar ninguém, mas simplesmente alertar o governo do perigo que corre esse setor que é de extrema importância na vida nacional deste país. Quanto às medidas que você se referiu, eu devo dizer que as do consórcio ainda não foram liberadas, elas deverão ser liberadas nos próximos dias.

Rodolfo Konder: Que era uma reivindicação do setor.

Pedro Armando Eberhardt: É uma reivindicação da Fenabrave [Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores], da Anfavea [Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores] e do Sindipeças. Eu acredito que isso virá a beneficiar, sem dúvida nenhuma, pois ajudará a evacuar um pouco os pátios das montadoras, que estão com mais de vinte mil carros neste momento, e dar um prosseguimento depois. Isso representa uma parcela muito importante no nosso negócio. Quanto a financiamento de trinta meses, eu acho que não resolve em absolutamente nada.

Rodolfo Konder: [interrompendo] Nada?

Pedro Armando Eberhardt: Nada. Por que quem é que vai hoje pegar dinheiro a 25 ou 30% de juros para comprar um automóvel em trinta meses? Quando você tem uma inflação zero, esses juros deveriam ser conforme a Constituinte manda: 12% ao ano. Esse seria um juro normal nesse momento, mais correção.

Rodolfo Konder: Mas esse juro está sendo cobrado de todo mundo, porque esteve aqui recentemente o presidente da Rhodia e disse que as grandes empresas estão conseguindo o dinheiro nos bancos a juros bem mais baixos do que esse.

Pedro Armando Eberhardt:
Mas para o financiamento de automóveis, o juro que se fala, neste momento, é de 25% a 30%. O que o presidente da Rhodia se referiu é o dinheiro que você precisa para sua empresa para pagar a folha de pagamento, caso você precisar – que no início do Plano estava em 35%  – já tem juros hoje a 18% no mercado.

Rodolfo Konder: Certo.

Pedro Armando Eberhardt: De forma que eu acho que o prazo de trinta meses...

Rodolfo Konder:
[interrompendo] Não ajuda?

Pedro Armando Eberhardt: ... é muito pouco; o prazo deveria ser de 48 meses, na minha opinião, e com juros tabelados a 12% ao ano.

Nelson Blecher: Doutor Pedro, qual é o custo social de uma recessão no setor automobilístico e, mais especificamente, dentro do setor mais nacional que tem, que é o de autopeças?

Pedro Armando Eberhardt: Veja, nós congregamos hoje 305 mil operários diretamente ligados ao setor, se você computar aí mais 150 mil da indústria automobilística. Se você pegar as revendedoras, as oficinas, as retíficas de motores, você chega a um número direto de aproximadamente quatro a cinco milhões de pessoas envolvidas, isso diretas. Se você pegar as familiares, você vai chegar a um número de aproximadamente 14 a 15 milhões de pessoas.

Nelson Blecher: E a Zélia [Cardoso de Mello, ministra da Economia à época da entrevista e mentora intelectual do Plano Collor] está sabendo disso, o senhor falou isso para ela?

Pedro Armando Eberhardt: A ministra Zélia sabe disso, nós temos uma reunião amanhã no Ministério da Fazenda, em virtude dessas declarações e da pressão tanto da Anfavea, quanto do Sindipeças, quanto da Fenabrave, pressão essa que foi feita. Amanhã será feito um grupo de trabalho especial do setor automotivo como um todo, que envolve as três entidades. E a primeira reunião é amanhã em Brasília, onde esses assuntos serão levados.

Rodolfo Konder: Doutor Pedro, estamos aqui já com as primeiras perguntas dos telespectadores. O Lázaro Nicolau, do Jardim Celeste, pergunta o seguinte: “Por que o setor de autopeças exporta tanto e se esquece do mercado interno? Não está na hora de pensar mais no consumidor brasileiro?”.

Pedro Armando Eberhardt: Eu gostaria de responder ao Lázaro o seguinte: infelizmente, nós exportamos muito pouco, nós exportamos 15% do nosso faturamento. E é por isso que nós somos pegos tão fortemente quando há uma crise interna. Nós tivemos em 1981 um baque muito grande.

Rodolfo Konder: [interrompendo] Mas o senhor dizia em entrevista recente que exportar seria uma boa solução.

Pedro Armando Eberhardt: Mas é a saída, é a saída para nós. Nós temos que duplicar as nossas exportações e depender cada vez menos da indústria automobilística. Hoje a dependência da indústria automobilística é de 55%. Em 1981, ela foi de 75%. Já conseguimos chegar a 55%. A nossa exportação que era de 5% passou para 15%, e o mercado de reposição, que é muito importante para nós, hoje representa 30%. De forma que o que eu acho e gostaria que o Lázaro soubesse é o seguinte: que o ideal para nós seria que a indústria automobilística representasse somente 40% do nosso faturamento, 30% o mercado de reposição e 30% as exportações. E esse número nós gostaríamos de atingir nos próximos cinco anos, se possível.

Joel Leite: Doutor Eberhardt, numa entrevista sua para o Jornal da Tarde em 5 de fevereiro, que eu tenho aqui, o senhor disse que a principal coisa que o novo presidente deveria fazer seria reduzir a inflação. E disse também que gostaria de que fosse dado um voto de confiança para o novo presidente. E diz, num prazo determinado, para ele realizar o que deseja. Eu queria saber o seguinte: hoje, com essas perspectivas alarmistas que estão  sendo colocadas pelo setor, eu queria saber que prazo determinado era esse antes do conhecimento do pacote e se esse prazo se reduziu a partir do pacote de 15 de março.

Pedro Armando Eberhardt: Joel, ninguém no Brasil podia imaginar que o tiro que foi dado fosse um tiro tão violento. Todo mundo sabia, tinha consciência de que viriam algumas medidas duras para reduzir essa inflação que estava um absurdo. Não se consegue conviver com uma inflação de 90%. Mas jamais se pensou que 80% dos recursos de uma empresa ficassem bloqueados, por exemplo. Como você jamais pensou também que 80% dos seus recursos na Caixa Econômica desaparecessem de um momento para outro. Essas medidas ninguém esperava. E foram medidas muito duras. Empresas que estavam com uma liquidez fantástica – e nem todas as empresas são especuladoras, a maioria delas são, como diz o nome muito certo, empresas que significam investimento e crescimento – elas pensavam em investir uma fábula de dinheiro como foi feito em 1989. Esses investimentos simplesmente desapareceram.

Joel Leite: Quer dizer que não existe mais esse voto de confiança?

Pedro Armando Eberhardt: Não, não é que não existe o voto de confiança. Ele existe, e eu torço muito para que o Plano dê certo. Eu apoio o Plano Collor. Só acho que, para não incorrer nos mesmos erros que os planos anteriores, tem que fazer as correções o mais rápido possível.

Joel Leite: E com relação ao prazo determinado, parece que ele já está esgotado então?

Pedro Armando Eberhardt: Eu não diria que está esgotado, mas eu acho que devem ser feitas, muito rapidamente, várias correções. E o governo sinaliza com essa vontade. O governo não está fechado ao diálogo, ele está aceitando o diálogo, e algumas correções como, é o caso do consórcio, estão sendo feitas; o prazo de trinta meses, que não existia na semana passada, está existindo. Eu pessoalmente acho pouco, mas já é uma sinalização que o governo está querendo flexibilizar. E acredito que vá flexibilizar em muitas outras coisas.

Rodolfo Konder: Doutor Pedro, há uma pergunta aqui de um telespectador, Francisco de Souza, antes de passar para o Germano e depois para o Wilson Moherdaui. Ele pergunta o seguinte: “Por que a indústria corta a gordura, mas não reduz os preços para contribuir para ajudar a abaixar a inflação?”.

Pedro Armando Eberhardt: Eu acho que neste momento, toda a indústria está baixando os seus preços de todos os segmentos, e do nosso setor também. Hoje os preços caíram significativamente. O que acontece é que os nossos parceiros principais estão parados, não estão funcionando, nós não temos a quem vender. Essa é a grande verdade. No mercado de reposição, os nossos clientes estão estocados, e os preços caíram, mas ninguém nos compra.

Rodolfo Konder: Essa pergunta foi de Francisco de Souza, da Freguesia do Ó. Germano de Oliveira, por favor.

Germano de Oliveira: Doutor Pedro, a indústria está parada, já faz quinze dias que não produz nada, e as montadoras começaram a conceder licença remunerada a seus funcionários, e a perspectiva é que quando esse prazo vença, renove esse período até começar a demitir funcionários. As empresas de autopeças, algumas já começaram a demitir e só não estão demitindo em maior escala porque o próprio governo fez uma ameaça de devassa nas empresas que começarem a demitir com maior intensidade. No seu setor, o senhor acha que dentro de um mês vai começar a demitir em massa, é possível?

Pedro Armando Eberhardt: Não, Germano, eu acho o seguinte: ninguém demite por prazer, começa por aí. Você leva muito tempo para treinar o seu pessoal. Nós perdemos, em 1981, um terço do nosso contingente. E foi muito difícil repor esse pessoal depois; tem um custo muito alto cada homem que você tem dentro da sua empresa. Então ninguém quer demitir. O que está se fazendo neste momento, enquanto a indústria automobilística está parada, é dando licença remunerada; algumas estão dando férias, a maioria está dando licença remunerada, o número de demissões é muito pequeno no momento.

Germano de Oliveira:
[interrompendo] Mas quando esse expediente de licença remunerada acabar, não resta outra alternativa.

Pedro Armando Eberhardt: Não, resta sim. Algumas vão dar férias por conta, outras vão dar redução de jornada de trabalho, que é uma outra opção.

Germano de Oliveira: [interrompendo] Rebaixamento de salário?

Pedro Armando Eberhardt: Com abaixamento de salário, sem dúvida nenhuma. Mas tudo isso são medidas que serão tomadas no seu devido tempo para se evitar demissão em massa. Ninguém quer que aconteça essa demissão em massa. E a indústria automobilística sinaliza a volta dela para o dia 2 de maio, e pelo que nós temos conversado com diversos diretores de empresas de cada uma das empresas automobilísticas, eles devem voltar a produzir carro em maio, em níveis de 40 a 50%. Então nós temos que nos adequar.

Germano de Oliveira: [interrompendo] Metade da produção?

Pedro Armando Eberhardt: Metade da produção.

Germano de Oliveira: Significa também que metade dos operários vai ser demitida?
 
Pedro Armando Eberhardt: Não, com uma redução de jornada de trabalho, já se consegue também aí, equilibrar mais ou menos a coisa. Isso não quer dizer que não vai haver demissões, vai haver demissões, e eu acredito que elas não serão grandes.

Rodolfo Konder: Wilson Moherdaui. Antes do Wilson fazer a pergunta dele, eu queria lembrar aos telespectadores que o Roda Viva é transmitido ao vivo pelas TVs Educativas de Porto Alegre, Minas Gerais, Espírito Santo, Piauí, TV Cultura de Curitiba e TV Cultura do Pará. É ainda retransmitido por mais 15 emissoras que formam a Rede Brasil, através da TV Educativa do Rio de Janeiro. Wilson Moherdaui.

Wilson Moherdaui: Doutor Pedro, tem circulado no mercado uma frase atribuída a Henry Ford, segundo a qual os bancos quando faz sol emprestam guarda-chuvas e quando começa a chover pedem os guarda-chuvas de volta. O senhor acha que a liberação de crédito é a saída para a indústria de autopeças?

Pedro Armando Eberhardt: Veja, eu acho que a saída para o setor são várias. Eu até amanhã vou fazer um pleito, até estou com um pleito para fazer amanhã junto ao governo, mas são várias. Dentre elas, eu vou pedir prorrogação para 48 meses de financiamento do carro. Vou pedir que os impostos não sejam pagos com multa; vou pedir uma prorrogação dos impostos federais, estaduais e municipais. Enfim, é um elenco de medidas que nós vamos pedir para sair, não é só o dinheiro. Também vamos pedir que nos seja liberado o dinheiro para pagarmos a folha de pagamento, para fazermos os nossos investimentos. Vou pedir sim, é um direito que eu acho que eu tenho, esse dinheiro é nosso, está lá. E se um país quer crescer, nós precisamos dele; não adianta pegar dinheiro do banco e não ter como pagar depois.

Nelson Blecher: Doutor Pedro, será que esse dinheiro é bom...

Wilson Moherdaui: [interrompendo] Doutor Pedro, a principal saída para vocês – desculpe, Nelson –  é a liberação de crédito?

Pedro Armando Eberhardt: Sem dúvida.

Wilson Moherdaui: Não o crédito direto ao consumidor, mas o crédito para vocês, para as empresas?

Pedro Armando Eberhardt: Não. Direto para nós.

Rodolfo Konder: Esse crédito, o senhor acha que deveria atingir também os carros usados? É até uma pergunta de um de nossos telespectadores, Alfredo Piotroviski, de Guarulhos.

Pedro Armando Eberhardt: Acho que devia haver crédito para carro usado.

Rodolfo Konder: [interrompendo] E também nessa linha de 48 meses?

Pedro Armando Eberhardt: Não, 48 ou trinta, há que se estudar.

Germano de Oliveira: Mas as financeiras dizem que não podem financiar por 48 meses ou trinta meses já, porque elas só captam dinheiro a trinta, sessenta, noventa dias. Como é que elas podem financiar?

Pedro Armando Eberhardt: Mas já houve no passado financiamentos a 48 meses, isso não é novidade nenhuma.

Germano de Oliveira: Teria que ser feito o redesconto nesse caso, não?

Pedro Armando Eberhardt: Você vai fazer o redesconto, até já teve isso no passado.

Darci Higobassi: Doutor Pedro, eu gostaria de saber o seguinte. Num primeiro momento, as empresas, os grupos empresariais, com raríssimas exceções, elogiaram o Plano Collor, apesar de todo o impacto que trouxe sobre a economia. E contrariando inclusive as previsões de experientes líderes sindicais como Jair Meneguelli []foi presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT)] que disse que a crise começaria a ser sentida justamente no setor automobilístico com demissões em massa, ocorreu justamente o contrário. E passados menos de trinta dias da implantação do Plano Collor, sem que o Congresso tenha aprovado todas as medidas que o governo julga importantes para implementá-lo, parece que há uma orquestração de todos os setores, de todos os segmentos envolvidos no setor automobilístico. Uma perfeita orquestração, primeiro, dando um apoio e agora levantando essa possibilidade de demissão, porque isso parece ser o caminho que vai ocorrer. Então eu gostaria de saber se houve algum entendimento entre as lideranças empresariais do setor, uma espécie de trégua e que agora esse setor começa a fazer pressão para conseguir aquelas reivindicações de que precisa para retomar o crescimento.

Pedro Armando Eberhardt: Não houve esse tipo de acerto entre nós, ou de acerto de tempo de trégua, não houve nada disso, Darci. O que existe é o seguinte: ninguém esperava ser pego da forma que foi pego. E nós estamos aqui buscando alternativas, nós temos que sair do buraco, nós estamos no buraco, está tudo parado. Por quanto tempo se consegue ficar parado desse jeito? Essa é a grande pergunta que se faz.

Germano de Oliveira: Doutor Pedro, o setor sempre criticou a interferência do governo nos seus problemas. De repente os empresários pedem de novo para que o governo os socorra e não seguem alguns conselhos dados pelo presidente Collor, de trazer dinheiro de suas matrizes. Como o setor é composto por muitas multinacionais, não estava na hora de essas multinacionais como a Volks, Ford, pegar um pouco dos recursos que enviou para a matriz durante algum período?

Pedro Armando Eberhardt: Veja, eu não posso falar pela montadora. Eu sei que a montadora teve prejuízo por vários anos neste país. E algumas delas foram embora, foi o caso da Chrysler, foi o caso da Alfa Romeo; elas foram embora deste país, porque não conseguiam ter lucros aqui. Sei que, nos últimos dois anos, as montadoras que aqui estão ganharam dinheiro e reverteram. Agora cabe a elas individualmente a decisão de trazer ou não de volta. Não cabe a mim, pessoalmente, opinar sobre isso. No meu setor, tem multinacionais, e tem muita multinacional trazendo dinheiro para dentro neste momento, isso tem, e para saldar débitos.

Rodolfo Konder: Nós vamos continuar com a roda para que todos tenham oportunidade de fazer perguntas. Marli Olmos, por favor.

Marli Olmos: Pedro, nós estamos falando agora de Plano Collor, mas a gente sabe que o impasse nas negociações entre a indústria automobilística e autopeças começou muito antes do Plano Collor, já desde o Plano Verão do antigo governo, vocês vêm tendo dificuldades de negociação. Nós assistimos há vários meses, carros incompletos nos pátios, milhares de carros incompletos. O que a gente vê é o seguinte. Quando o consumidor tem dinheiro, ele tem que recorrer ao ágio no mercado paralelo; quando tem carro, ele não tem cruzeiros, é isso que está acontecendo. E aqui mesmo você confirmou que a exportação é o melhor caminho para a indústria de autopeças recuperar os seus recursos. O que é que vai acontecer com o consumidor brasileiro? Se vocês começarem a escoar a produção para exportação, porque é muito mais interessante o impasse continuar nas negociações com a indústria automobilística brasileira, o que é que pode acontecer com esse mercado?

Pedro Armando Eberhardt: Marli, deixe eu lhe explicar direitinho. Discussões com a indústria automobilística nós temos muitas, divergências também enormes, isso é normal no dia a dia. Isso não vem do Plano Verão ou do Plano Cruzado, isso já vem de antes. É que as discussões são demoradas, lentas e requerem muito tempo. Quando você termina uma discussão, já está começando uma outra discussão sobre o preço.

Marli Olmos: [interrompendo] Mas isso o que era? A interferência do governo é que fazia com que vocês não conseguissem?

Pedro Armando Eberhardt: Não, o governo sempre interferiu muito com o CIP [Conselho Interministerial de Preços, implantado por decreto em 1968, que teria a finalidade de implantar uma sistemática reguladora de preços, por meio da análise e avaliação do comportamento dos preços no mercado interno], isso sim. Nós queríamos e o que nós sempre pleiteamos foi liberdade de mercado e nunca obtivemos. Há mais de vinte anos que nós temos o governo nos controlando. No caso de autopeças, a coisa é um pouco pior, por isso gera muita discussão. Porque nós temos um duplo controle: o Sipe, por um lado, que é o governo, que tem seus tecnocratas que com meia dúzia de pessoas queriam controlar todo um segmento, o que é impossível, e nem entendiam do segmento. É muito difícil dar para um tecnocrata cuidar de autopeças e cuidar de macarrão ao mesmo tempo, não funciona. E por outro lado, você tem a indústria automobilística muito bem aparelhada para controlar autopeças. Um departamento que envolve trinta, quarenta pessoas, depende da montadora. Então além de você discutir com o governo negociações que levam mais de trinta, quarenta dias, com cortes políticos, com discussões horríveis, você depois vai enfrentar a montadora, que é uma discussão técnica, comercial; uma discussão séria, mas demorada.

Marli Olmos: Recentemente, vocês receberam da indústria automobilística comunicados onde eles relatam que não podem pagar nem os cruzados que deviam. Eles vão dar uma pequena entrada de uns 20% em média, o resto a pagar em 45 dias. Parece que é meio compulsório isso: ou você aceita...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Aqui nós temos que entender a coisa um pouco diferente. Do mesmo jeito que nós fomos pegos de surpresa, a indústria automobilística também foi. 80% dos recursos dela ficaram bloqueados, e ela não tem como nos pagar. Para não especular muito no mercado, eles optaram muito por uma aplicação cambial de longo prazo, algumas vencendo nos próximos oitenta, noventa dias, e outras até trezentos dias. Então eles estão amarrados e estão tentando desamarrar isso junto ao governo, junto ao Banco Central. Mas o caso de elas [as empresas] não poderem pagar é compreensível, elas tiveram o seu dinheiro também tirado da mão delas. E, por outro lado, se não vende automóvel, então não entra, não tem como nos repassar. O que está acontecendo é que no caso da Autolatina [empresa automobilística formada pela fusão da Volkswagen com a Ford durante os anos de 1987 até 1996], ela nos pagou 20%; amanhã dia 10, paga mais 15% do que deve em cruzados, no dia 20 vai pagar mais 15% do que deve em cruzados. Isso perfaz um total de 55%. Os outros 45% ela vai negociar com cada fornecedor individualmente, pretendendo liquidar isso, se possível, no mês de abril ou início de maio. Sem dúvida nenhuma, isso virá corrigido com juros. Há um prejuízo, mas haverá uma correção desse prejuízo.

Marli Olmos: [interrompendo] E vocês estão com o mesmo processo com os fornecedores?

Pedro Armando Eberhardt: No caso da General Motors, é um pouco diferente. No caso da GM, ela só pagou 20% e disse que não pode pagar os outros 80% não antes de 45 dias. Eu hoje mesmo tive uma reunião com André Beer, da General Motors, em que fiz um apelo a ele para ver se havia uma possibilidade de uma antecipação. Ele me explicou que ele está negociando uma cifra bastante significativa com o Banco Central, de uma operação que a General Motors fez, e que se conseguir liberar essa cifra, sem dúvida nenhuma, ele tem interesse em pagar o setor o quanto antes.

Wilson Moherdaui: O senhor não está sendo muito compreensivo, doutor Pedro? Parece que há entre algumas empresas do setor de autopeças, houve até durante a campanha eleitoral da sua eleição, a acusação de que o senhor estava sendo excessivamente complacente e colocando panos quentes em algumas tensões ocorridas no setor...

Pedro Armando Eberhardt: Essa é minha função. Essa é minha função, colocar panos quentes.

Wilson Moherdaui: [interrompendo] O senhor está sendo compreensivo com a indústria automobilística e está sendo compreensivo também com os fornecedores de matéria-prima que exigem prazos muito mais curtos de pagamentos para as indústrias de autopeças?

Pedro Armando Eberhardt: Não, nós estamos discutindo com os fornecedores de matéria-prima. Primeiro: nós não estamos pagando os nossos fornecedores, começa por aí, porque não recebemos e não temos como pagar.

Wilson Moherdaui: [interrompendo] Mas estão sendo pressionados a pagar em prazos muito mais curtos do que os que vocês vão ter para pagar a indústria automobilística?

Pedro Armando Eberhardt: Isso não é verdade, isso é uma inverdade. Nós temos prazos iguais, mais ou menos, ao que damos à indústria automobilística ou maiores ainda.

Wilson Moherdaui: [interrompendo] A indústria petroquímica, a indústria do aço?

Pedro Armando Eberhardt: No caso da indústria, você pode ter a diferença de alguns dias, mas hoje todas elas estão abrindo para prazos maiores.

Wilson Moherdaui: [interrompendo] Há empresas que me informaram que estão sendo pressionadas a pagar entre dez e quinze dias, os fornecimentos.

Pedro Armando Eberhardt: Isso foi. Nós também tivemos condições de 23 dias na montadora que não temos mais. E hoje ninguém paga mais em 15 dias, todos estão dilatando seus prazos.

Rodolfo Konder: [interrompendo] Vamos terminar a roda com Alexandre e o Sérgio Tolentino. Alexandre, por favor.

Alexandre Polesi: Doutor Pedro, eu gostaria de perguntar ao senhor, como experiente líder de um setor importante, qual a avaliação que o senhor faz hoje sobre a administração do Plano nesse período de três semanas. Nós tivemos alguns exemplos na semana passada, nos dias anteriores, bastante assustadores como o episódio do Banco Central regateando o dinheiro que os bancos precisavam fornecer às folhas de salários, para que as empresas pudessem pagar os seus funcionários. Tivemos o caso da ministra Zélia que deu uma entrevista à Folha e teve que desdizer as suas declarações a respeito do leilão de cruzados. Enfim como o senhor avalia, nesse curtíssimo período, a administração que está sendo feita do Plano, considerando as virtudes e os eventuais efeitos?

Pedro Armando Eberhardt: Veja, eu acho que não é indicado fazer uma avaliação do Plano. Eu acho que é muito cedo. Nós estamos com o Plano há três semanas. Eu acho que é muito cedo para fazer uma avaliação. O que se nota é que tem algumas coisas que estão erradas, que devem ser corrigidas e eu espero que elas sejam corrigidas.

Alexandre Polesi: Sim, mas o fato é que hoje nós já percebemos um estilo de administração do Plano que está inclusive assustando todos os setores. Nesses últimos dias, temos percebido um fato absolutamente extraordinário: um fórum de empresários e dirigentes sindicais que pela primeira vez conseguiu estabelecer um pacto social na prática e enviar inclusive reivindicações comuns ao governo.

Pedro Armando Eberhardt: Isso vai acontecer. Esse tipo de pacto a que você se refere vai ter que vir. Eu acho que é por aí o caminho. Nós vamos ter que nos unir para levar ao governo as nossas reivindicações. E o governo vai...

Alexandre Polesi: [interrompendo] E o senhor acha que o governo está hoje reagindo satisfatoriamente a essas pressões?

Pedro Armando Eberhardt: Acho que o governo precisa de tempo ainda e que ele vai reagir satisfatoriamente, espero que reaja.

Alexandre Polesi: Esse tempo não parece ter sido o tempo que os senhores mesmo estão pedindo, porque os senhores mesmos estão colocando um quadro bastante assustador, e realmente é dramático.

Pedro Armando Eberhardt: Mas nem por isso o governo está deixando de nos ouvir e tentar buscar soluções.

Joel Leite: Quando o senhor fala em situação dramática, seria uma pressão. Isso já faz parte da pressão do setor?

Pedro Armando Eberhardt: Não é pressão, nós estamos parados, nós estamos sem vendas, nós não queremos demitir muita gente, nós estamos realmente...

Joel Leite: [interrompendo] Pois então ele tem razão? Quer dizer, o prazo já está limitado?

Pedro Armando Eberhardt: Mas tem que dar um fôlego, tem que ter um fôlego e dar um tempo.

Joel Leite: Não é incoerente você dizer dar um fôlego e ao mesmo tempo pressionar dizendo que a situação é crítica?

Pedro Armando Eberhardt: Não, eu não acho que é incoerente. Acho que você deve pressionar mesmo.

Rodolfo Konder: Faz parte do jogo. Vamos encerrar [a roda], ainda falta o Fernando e o Sérgio Tolentino.

Fernando Calmon: Está tudo muito centrado na situação econômica, realmente é importante e isso deve tomar uma boa parte do debate. Mas eu gostaria de fazer uma pergunta mais em tese sobre o setor de autopeças. Por exemplo, uma das últimas decisões do falecido ministro [José] Hugo Castelo Branco, do Ministério da Indústria e Comércio, foi uma nova política industrial. Essa nova política industrial acabou com o chamado índice de nacionalização dos veículos no Brasil, que hoje está em torno de 95 a 98%. Os japoneses disseram que vêm para o Brasil com duas condições. Primeiro: preço livre. Isso é óbvio, ninguém vem aqui para perder dinheiro. Segundo: se houver uma diminuição dos índices de nacionalização, no mínimo, para 50%. Eu lhe pergunto: ainda assim, o setor de autopeças é a favor de que indústrias japonesas ou de qualquer outro país venham para o Brasil, apesar de diminuir o mercado da indústria de autopeças?

Pedro Armando Eberhardt: Sem dúvida.

Wilson Moherdaui: [interrompendo] Doutor Pedro, só complementando, tem mais uma exigência da indústria automobilística japonesa que é a verticalização. Eles viriam não apenas como montadoras, mas iriam produzir também boa parte dos insumos que são produzidos pela indústria de autopeças no Brasil.

Pedro Armando Eberhardt: Vamos começar pelo Fernando. Nós somos a favor que venha a indústria japonesa para o Brasil, já se fala há muitos anos que ela deveria vir. Na época do ministro Dilson Funaro [ministro da Fazenda durante o governo Sarney (1985-1990), foi o responsável pelo Plano Cruzado], ele foi um dos maiores incentivadores para que ela viesse. E eles não se interessaram em vir. Não se interessaram, primeiro por questão de preço, como você bem pôs. Se não houver o mercado livre, ela não virá. Em segundo lugar, Fernando, ela só virá, se tiver incentivos; se não tiver incentivos, ela não virá. E se der incentivos para ela, não tem por que não dar para as outras que estão aqui instaladas. Então isso vai conflitar muito. Eu pessoalmente não acredito, neste momento, que os japoneses viriam.

Fernando Calmon: Você concorda que o índice de nacionalização precisaria ser baixado?

Pedro Armando Eberhardt: Mas pode baixar!

Rodolfo Konder: [interrompendo] Doutor Eberhardt, os japoneses receberam um incentivo para ir aos Estados Unidos, por exemplo, ou não?

Pedro Armando Eberhardt: Eu não saberia lhe responder.

Fernando Calmon: [interrompendo] Não receberam.

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Não saberia lhe responder.

Fernando Calmon: [interrompendo] Com certeza não, lá o mercado é totalmente livre, é de quem chegar, se instalar e tiver competência. Eu teria uma outra pergunta para você ligada também ao mercado de importação. Em conversa com um dos dirigentes de uma das montadoras, ele me disse que durante um certo momento de crise do abastecimento de peças, experimentaram importar algumas peças do exterior. E pagando todas as taxas possíveis, ou seja, praticamente num nível de igualdade com o que existe no Brasil, eles chegaram à conclusão de que a mesma peça chegava ao Brasil, no portão da fábrica, por 40% do preço que é pago para a indústria de autopeças, peça similar. Obviamente, nós temos uma defasagem cambial enorme, mesmo que a gente conseguisse achar que fosse de 80% essa defasagem, mesmo assim a peça importada pelo câmbio real ainda seria um terço mais barata do que a nacional. Quero saber se isso é fato mesmo?

Pedro Armando Eberhardt: Veja bem, eu posso lhe responder também de outra forma. Interessante que tem uma Chrysler com escritório montado aqui em São Paulo, fazendo compras para a Chrysler dos Estados Unidos. Tem dezenas de empresas do setor de autopeças exportando peças diretamente para a linha de montagem em Detroit e na Alemanha. Será que os nossos preços estão tão caros assim? Será que nós conseguiríamos exportar se esse fosse o caso?

Fernando Calmon: Parecem peças específicas, não?

Pedro Armando Eberhardt: Pode ser, uma ou outra pode até acontecer, eu não discuto isso. E acho que...

Fernando Calmon: [interrompendo] Quer dizer que você acha que não há competitividade na indústria de autopeças...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Eu não vejo esse problema.

Fernando Calmon: [interrompendo] Em todos os setores?

Pedro Armando Eberhardt: Não, em todos os setores não.

Rodolfo Konder: [interrompendo] Doutor Pedro, vamos encerrar a roda com Sérgio, ele ainda não fez nenhuma pergunta.

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Eu só queria responder sobre a verticalização. Quando você falou sobre verticalização, eu entendo o seguinte: não é a indústria japonesa que quer verticalizar o seu próprio produto. Ela gostaria de ter no Brasil os mesmos fornecedores que ela tem no Japão. Ou seja, ela gostaria de vir para o Brasil e trazer com ela os seus fornecedores. O que eu acho muito válido. E o que iria acontecer nesse caso? Alguns viriam, se instalariam, porque não há impedimento nenhum para se instalar aqui no Brasil; outros viriam em forma de joint venture [modelo estratégico de parceria empresarial para alcançar objetivos comuns, em que há união legal entre duas empresas sem que haja necessariamente subordinação societária] com empresas nacionais e outros viriam como forma de vender sua tecnologia e receber um royalty.  Isso aconteceu com os italianos da mesma forma quando a Fiat veio para o Brasil. De forma que eu acredito que os japoneses viriam, e falam em verticalização no sentido de trazer os seus fornecedores de lá para cá.

Wilson Moherdaui: Na verdade eles querem produzir também alguns componentes, mas ainda assim, isso não causaria um impacto forte sobre a indústria nacional de autopeças?

Pedro Armando Eberhardt: De maneira nenhuma, não nos amedronta, de maneira alguma.

Sérgio Tolentino: Doutor Pedro, eu quero lembrar uma frase do presidente eleito, do Fernando Collor, quando esteve, antes de assumir em 15 de março, em seu giro pela Europa. Ele, num determinado momento, colocou que o carro nacional se assemelhava a uma carroça, era uma forma de expressão. O que eu queria colocar é o seguinte. O ano passado, a indústria de autopeças investiu setecentos milhões de dólares, alguma coisa assim; nos anos anteriores, seiscentos, quinhentos milhões. E acompanhando durante esses anos o setor, tenho notado que os empresários têm colocado que esses investimentos anuais são suficientes para a manutenção do Parque Industrial de Autopeças e Componentes. Pouco se pode fazer em termos de modernização, e nós notamos, é possível notar isso, são poucas as empresas, em geral subsidiárias e grandes e tradicionais empresas de autopeças que conseguem levar adiante planos de modernização, de forma que consigam produzir e colocar seus produtos de maneira competitiva no exterior. Essa declaração do Collor de que o automóvel brasileiro ainda é uma carroça, eu suponho, eu concluo que o brasileiro terá que esperar ainda alguns anos para ter um produto realmente moderno, assemelhado ao que se faz no exterior. Porque se durante anos ou pelo menos durante toda essa década, o setor de autopeças investiu o suficiente para manter simplesmente o parque e com dificuldades de modernização, quer dizer, com escassez de recursos para a modernização tecnológica, eu suponho que a gente esteja entrando agora num momento delicado. Até a indústria recuperar fôlego, a economia recuperar fôlego e conseguir investir para modernizar de fato essa tecnologia, nós podemos esperar talvez mais uma década. Eu estou certo?

Pedro Armando Eberhardt: Veja, Sérgio. Em primeiro lugar, o setor de autopeças faz aquilo que o cliente manda. Nós fabricamos as peças dos carros que os nossos clientes querem. Mas eu não concordo com o termo carroça. Eu acho que foi um termo infeliz. Realmente o presidente usou, mas acho que foi prejudicial, inclusive para a imagem brasileira no setor automobilístico, e explico por quê. Hoje existe um grande número de carros que são exportados e tem os carros mundiais. O Escort é um carro mundial, o Monza é um carro mundial, o Uno é um carro mundial, enfim, teve o da Volkswagen, o ...?

Sérgio Tolentino: [interrompendo] Voyage.

Pedro Armando Eberhardt: O Voyage, que é o Fox lá fora, um carro mundial. Então nós temos carros mundiais que são iguaiszinhos aos de lá de fora. Eu sei que por outro lado tem o Opala que é da década de 60, que poderia ser um carro mais moderno, mas que por conveniência, a empresa General Motors achou que ele devia continuar, e ainda não resolveu investir na substituição desse carro. Mas os outros carros não são carroças, nem o Opala é carroça porque é um carro que anda muito bem nas estradas brasileiras. Podia ser mais moderno? Podia. Podíamos ter carros mais sofisticados? Podíamos.

Sérgio Tolentino: [interrompendo] Mas com um mercado tão pequeno?

Pedro Armando Eberhardt: Mas o mercado é mínimo. Você fabrica hoje... Para lhe dar uma idéia, o setor está investindo e está investindo muito por causa da exportação. Porque o mercado interno está igualzinho ao que era dez anos atrás. Você já fazia um milhão de veículos em 1974.

Rodolfo Konder: [interrompendo] 1979.

Pedro Armando Eberhardt: 79. Você passou onze anos e continua fazendo menos do que um milhão de veículos. Este ano então vai fazer muito menos do que um milhão de veículos. Sei lá, se nós vamos chegar a quinhentos ou seiscentos mil veículos este ano?

Rodolfo Konder: Doutor Pedro, nós vamos ter que fazer uma pequena interrupção, eu vou passar a palavra para o Nelson Blecher, mas antes nós vamos fazer um pequeno intervalo. Nós voltamos logo depois do intervalo.

[intervalo]

Rodolfo Konder: O convidado do Roda Viva desta noite é o presidente do Sindipeças, Pedro Armando Eberhardt. Temos aqui algumas perguntas rápidas de telespectadores. Por exemplo, a Cleide Menezes, do Cambuci, pergunta se as multinacionais continuam confiando no país. Ricardo Persequilo, de Campo Belo, pergunta como é que o senhor concilia as funções de presidente do Sindipeças e conselheiro da Autolatina e se isso não interfere nas negociações entre Sindipeças e a Autolatina. Osvaldo da Costa, do Ipiranga, pergunta se as indústrias não dão conta do recado, por que não se libera a importação. E o Luiz Antonio da Silva, de Santana, pergunta se não daria para estudar a venda parcelada de determinadas autopeças como carburadores etc.

Pedro Armando Eberhardt: Eu vou começar pelo fim que fica mais fácil.

Rodolfo Konder: Perfeito.

Pedro Armando Eberhardt: As peças são vendidas parceladamente...

Rodolfo Konder: [interrompendo] Já são vendidas a prazo?

Pedro Armando Eberhardt:
... aos nossos atacadistas, varejistas, enfim, elas são vendidas parceladamente. Quem quiser peça de automóvel, vai encontrar, sem dúvida nenhuma, no comércio. A sua outra pergunta?

Rodolfo Konder: A outra é por que não se libera a importação no caso das indústrias não darem conta.

Pedro Armando Eberhardt:
Nós damos conta, nós estamos produzindo a mesma coisa que dez anos atrás. Não há o porquê de se temer que o setor de autopeças não dê conta de aumentar a produção. Nós deveríamos estar produzindo hoje acima de 2,5 milhões de veículos neste país, e infelizmente só fazemos um milhão. A China, há dez anos atrás, a Coréia, mais especificamente, não fabricava nenhum veículo, e nós já fabricávamos um milhão. Passaram-se dez anos, a Coréia faz 1,3 milhão de veículos e o Brasil continua no mesmo um milhão.

Rodolfo Konder: A outra pergunta sobre como o senhor concilia a sua função de presidente do Sindipeças e conselheiro da Autolatina, se isso interfere?

Pedro Armando Eberhardt: Acho que não interfere e que foi a maior oportunidade dada a um empresário de poder sentar na mesma mesa de diretoria de uma indústria automobilística e poder levar os problemas da sua classe a serem discutidos nessa mesma mesa e em igualdade de condições.

Rodolfo Konder: O senhor acha que as multinacionais continuam confiando no país? É a última pergunta aqui dessas selecionadas.

Pedro Armando Eberhardt: Eu acho que as multinacionais, neste momento, estão em compasso de espera, mas eu não tenho dúvida nenhuma de que confiam neste país e vão continuar investindo muito aqui.

Nelson Blecher: Voltando ao Plano Collor, o senhor falou, a certa altura, e eu notei aqui, que o dinheiro é nosso, ao se referir ao dinheiro do over [também conhecido como overnight, era um tipo de aplicação financeira de rendimento diário, para resgate no primeiro dia útil seguinte] e da poupança. O senhor tem tanta certeza assim, doutor Pedro? Parece que o Antônio Ermírio [de Moraes] não tem, ele já dá como perdidos os quinhentos milhões de dólares que o grupo Votorantim tinha investido no over. O que o senhor acha?

Pedro Armando Eberhardt: Eu tenho que acreditar na palavra dos governantes deste país. Isso nos foi prometido de volta, foi prometido a você, a mim e a todo o Brasil. E espero que isso seja cumprido, é o que eu posso desejar. Se isso foi nos tirado de vez, então nós fomos ludibriados, e eu não gostaria de pensar assim.

Nelson Blecher: Mas dizem que se devolverem todo esse dinheiro, volta a inflação galopante?

Pedro Armando Eberhardt: Não sei de que forma eles vão devolver. Mas a partir do 18º mês, se comprometeram a devolver, e espero que assim o façam.

Fernando Calmon: Pedro, talvez utilizando, por exemplo, esse dinheiro bloqueado, durante certo período, para pagamentos de impostos e obrigações, seria uma forma?

Pedro Armando Eberhardt: Sem dúvida nenhuma. Mesmo para investimentos, ou para pagamento de impostos, ou para pagamento de folha de salário para empregados.

Nelson Blecher: Mas e a pessoa física, Fernando? A poupança, o homem que...?

Pedro Armando Eberhardt: Eu tenho muita pena da pessoa física, porque eu acho que tem pessoas idosas ou que trabalharam durante cinquenta anos, fizeram um patrimônio, confiaram na caderneta de poupança e botaram o seu dinheiro lá dentro e de um momento para outro ficaram pobres. E tem gente que tem sessenta anos e tem que recomeçar a trabalhar hoje, o que eu acho injusto, e o Plano devia corrigir isso também.

Alexandre Polesi: Doutor Pedro, o senhor acha que o Congresso está na iminência de desmantelar o plano, como acusou o presidente do Banco Central, Ibrahim Eris, se referindo especialmente ao relatório do deputado Osmar Rebouças
, que parece que sintetiza um consenso básico entre os empresários, entre os parlamentares, e que tem como pedra de toque o aumento do limite de saque da poupança. Qual é a sua avaliação a respeito disso?

Pedro Armando Eberhardt: Eu acredito que o Congresso vai aprovar esse plano totalmente com pequeníssimas ressalvas.

Alexandre Polesi: [interrompendo] Para seu desespero?

Pedro Armando Eberhardt: Mas eu acho que vai aprovar.

Alexandre Polesi: Então caímos na depressão, caímos num quadro catastrófico?

Pedro Armando Eberhardt: Por quê?

Alexandre Polesi: Porque se o senhor mesmo disse que o plano precisa de alterações mais substanciais do que aquelas [...], então estamos...

Pedro Armando Eberhardt: Eu acho que vai haver alterações no plano, mas você me perguntou se o Congresso vai aprovar o Plano?

Alexandre Polesi: Pois é.

Pedro Armando Eberhardt: Eu disse a você que, na minha opinião, o Congresso vai aprovar, mas isso não significa que o Plano não terá suas correções, o próprio governo diz que vai corrigir o Plano.

Alexandre Polesi: Mas um dos pontos básicos é justamente o limite do saque de poupança, não é? E mesmo a liberação de recursos para pagamento de folha, que são medidas que estão sendo, inclusive, criticadas pelo próprio governo hoje. O senhor, por exemplo, é favorável que se aumente o limite de saque de poupança, nessa faixa de duzentos mil cruzeiros como está se colocando aí?

Pedro Armando Eberhardt: Depende de que forma for feito isso. Fala-se desses duzentos mil cruzeiros em parcelas. Eu acho que é algo a ser estudado, discutido.

Joel Leite: Doutor Pedro, o senhor já falou várias vezes, já deu várias declarações e inclusive repetiu aqui hoje, que é a favor do capital externo, da entrada de capital externo no país. Eu queria saber o seguinte: a indústria de autopeças brasileiras está preparada para enfrentar esse concorrente externo que pode vir para o Brasil em termos de tecnologia?

Pedro Armando Eberhardt: Mas ele é benéfico. Existe hoje um número enorme de empresas estrangeiras no setor de autopeças e que só trazem benefícios, só trazem tecnologia. A maioria das empresas do setor de autopeças está ligada, de uma ou de outra forma, às empresas estrangeiras, a maioria delas. Seja em forma de tecnologia comprada mediante pagamento de royalties, ou tendo elas como sócias, ou as multinacionais sozinhas. Tem um grande número; isso envolve pequena, média e grande empresa.

Nelson Blecher: Com essa parada do setor, está havendo muito calote de remessa de capital ou de empresas associadas, fornecedores?

Pedro Armando Eberhardt: Eu acho que ninguém está podendo remeter nada. Em minha opinião, ninguém está remetendo nada.

Nelson Blecher: O que o setor fala para as empresas de fora que estão esperando o dinheiro?

Pedro Armando Eberhardt: Eu acho que o momento é de esperar mesmo. Não é um desastre se a matriz lá fora esperar alguns meses para receber o seu dinheiro. É absolutamente normal.

Alexandre Polesi: Esperar significa paralisar a produção, significa, enfim, esfriar os...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Esperar até receber o seu dinheiro?

Alexandre Polesi: Não.
 
Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Não. Por quê?

Alexandre Polesi: Estou me referindo a investimentos, a planos de investimentos e tudo mais. Por exemplo, o senhor acredita que hoje nós conseguimos sair de uma recessão profunda ou relativamente profunda? Hoje é possível sair disso?

Pedro Armando Eberhardt: Eu acho que certos setores nem vão sentir a recessão. No meu setor a recessão está sendo sentida profundamente. E acho difícil ela sair rapidamente.

Joel Leite: [interrompendo] Que setor não vai sentir a recessão? Qual será o setor?

Pedro Armando Eberhardt: Não sei, não sei, eu vejo corridas...

Joel Leite: [interrompendo] Supermercados?

Pedro Armando Eberhardt: Eu vejo, pelos jornais mesmo, corridas a supermercados, eu vejo corridas...

Joel Leite: [interrompendo] Eletrodomésticos.

Pedro Armando Eberhardt: A eletrodomésticos. Quem sabe, não tem recessão! No meu setor não vejo corrida nenhuma.

[Sobreposição de vozes]

Germano de Oliveira: Doutor Pedro, o senhor declarou seu voto dizendo que tinha votado no Collor para afastar o país do risco do calote que o PT poderia dar e da intervenção na poupança. O senhor está arrependido de ter votado no Collor? [risos]

Pedro Armando Eberhardt: De jeito nenhum, de jeito nenhum! Eu não estou arrependido, eu apoiei o Collor desde o início e não estou arrependido de ter feito isso.

Alexandre Polesi: [interrompendo] Mesmo porque ainda não está caracterizado um calote, que eu saiba.

Pedro Armando Eberhardt: Não tem calote, inclusive, você mesmo ouviu – voltando aqui, só um instante – que nós todos iríamos receber esse dinheiro de volta. Foi perguntado ao Eris, várias vezes, na entrevista que eu assisti pela televisão, se esse dinheiro iria voltar ou não. E eles confirmaram.

Germano de Oliveira: [interrompendo] Podia receber em bônus também, em títulos do governo?

Pedro Armando Eberhardt: Pode ser, você negocia.

Germano de Oliveira: O senhor esperava um confisco maior do Lula, doutor Pedro, por exemplo?

Pedro Armando Eberhardt: Não, não.

Wilson Moherdaui: Doutor Pedro, o senhor não é mineiro não, não é?[risos]

Pedro Armando Eberhardt: Não, não sou mineiro, sou paulista.[risos]

Wilson Moherdaui: É que o senhor está contemporizando tanto até com os efeitos nocivos do Plano que eu estou assustado.

Pedro Armando Eberhardt:
Não se assuste, não.

Wilson Moherdaui: Eu quero saber o seguinte: o senhor já ouviu falar em coisas como: fueiro, furca, pigarro, travão com tamancos?


Pedro Armando Eberhardt: Não.

Wilson Moherdaui:
[risos] Pois é, são peças de carroças. E a julgar pelo que disse o presidente Collor, os produtores dessas peças de carroça e carro de boi deviam se filiar ao seu sindicato.

Pedro Armando Eberhardt:
São bem-vindos. [risos]

Wilson Moherdaui:
Eu queria saber o seguinte: qual a parcela de responsabilidade da indústria de autopeças para a defasagem tecnológica dos carros produzidos no Brasil?

Pedro Armando Eberhardt: Como eu disse antes... Bom, primeiro deixe eu dizer o seguinte. Se esses quiserem se associar ao Sindipeças, nós os recebemos de braços abertos. Voltando às carroças e pegando aqui um gancho no que o Fernando me falou, precisa ver até que ponto as estradas do Brasil merecem um carro muito melhor, isso também teria que ser analisado um dia. Agora eu acho o seguinte: o setor de autopeças produz aquilo que a indústria automobilística nos requisita. Então se amanhã a indústria automobilística quiser fazer um carro sofisticado, ela vai ter do setor as peças de que ela precisa. Aquilo que nós não soubermos fazer, nós vamos buscar lá fora, nós vamos aprender, como fizemos no passado.

Wilson Moherdaui: [interrompendo] Mas a indústria automobilística se queixa de que alguns componentes eletrônicos, por exemplo, a injeção eletrônica, não são produzidos no Brasil, e por isso ocorre essa defasagem. Quer dizer, o carro nacional...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Isso por causa da Lei de Informática.

Wilson Moherdaui: Mas em que momento alguma empresa do setor de autopeças tentou produzir um equipamento com tecnologia importada e foi impedido pela Secretaria de Informática?

Pedro Armando Eberhardt: Não, você não teve...

Wilson Moherdaui: [interrompendo] O senhor tem algum caso que possa citar?

Pedro Armando Eberhardt: Não, não tenho esse caso para poder lhe poder citar. Mas dificilmente...

Wilson Moherdaui: [interrompendo] Eu tenho alguns para citar ao senhor, ao contrário...

Pedro Armando Eberhardt:
Mas dificilmente uma empresa lá de fora vai dar a tecnologia de um produto tão sofisticado como esse sem ela poder participar.

Wilson Moherdaui: Houve dois momentos em que a Autolatina, a Ford, no caso, pediu autorização à Secretaria de Informática para importar equipamentos de eletrônica, embarcados, equipamentos de injeção eletrônica. E ela concordou, liberou a importação desses equipamentos, e depois foi feito um pedido suplementar que a Secretaria de Informática também liberou, e não foi importado nada, ou foi importado muito menos do que foi pedido. E houve até gestões da Secretaria de Informática para que a montadora completasse a importação dos itens que ela pediu. O senhor não acha que as montadoras, a indústria automobilística não está muito interessada em investir na qualidade dos carros nacionais? E que essa história de que a Lei de Informática impede é um pouco de "cortina de fumaça"?

Pedro Armando Eberhardt: Não cabe a mim julgar por que é que a Ford não trouxe a peça. A única coisa que posso dizer é o seguinte: a Lei de Informática veio atrasar e atrapalhar o setor de autopeças. Não tenha dúvida disso, porque beneficiou meia dúzia de empresas que não fizeram nada.

[...]: Mas as autopeças também já tiveram reserva de mercado.

Wilson Moherdaui: Mas eu quero saber no setor específico de autopeças, onde é que a Lei de Informática está atrapalhando? Porque a gente tem ouvido, eu especialmente, por editar um jornal especializado em informática, o jornal Informática Hoje, ouço muito esse tipo de crítica, mas nunca consegui apurar um caso concreto de problema que tenha tido a montadora ou a indústria de autopeças para produzir ou importar equipamento de eletrônica embarcado. O senhor também não tem notícias disso?

Pedro Armando Eberhardt: Eu não tenho notícia disso, específica assim. Mas sei das dificuldades de empresas, de algumas delas no meu setor, de fazer, por exemplo, a caixa-preta, como era chamada, para a indústria automobilística por ela ser uma multinacional e não poder fazer.

Wilson Moherdaui: Tem algumas indústrias nacionais que este ano vão estar produzindo equipamentos de injeção eletrônica?

Pedro Armando Eberhardt: Vai vir, mas vai vir devagar. Com isso nós perdemos no mínimo uns cinco ou dez anos.

Fernando Calmon: Pedro, parece que o problema que houve, pelo que eu entendi, a Lei de Informática é muito clara quanto à reserva de mercado para a tecnologia digital. Quem quisesse importar ou fazer no Brasil injeção eletrônica com tecnologia analógica, como está fazendo a Bosch, estaria liberado, não teria problema nenhum.

Pedro Armando Eberhardt: A analógica sim, mas a outra não.

Fernando Calmon: [interrompendo] A digital não. E essa...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] A digital não, que era a tal caixa-preta.

Fernando Calmon: Claro, e essa ninguém vai trazer.

Pedro Armando Eberhardt: E ninguém vai cedê-la também gratuitamente.

Fernando Calmon: Exatamente, eu acho que...

Joel Leite: [interrompendo] Doutor Pedro, eu acho que pior do que essa questão que o Wilson levanta com relação às fábricas não terem talvez o interesse de trazer essa tecnologia, é o preço que essa tecnologia chega aqui, quando ela chega. É o caso, por exemplo, da injeção eletrônica que foi aplicada agora no Monza e no Santana. O Monza SLE 2.0 comum custa 1,13 milhão de cruzados. Esse mesmo Monza, com injeção eletrônica e alguns outros equipamentos, talvez com banco de couro, por exemplo, que não é tão caro, passa para 2, 7 milhões de cruzados. Quer dizer, a injeção eletrônica vale mais do que um Monza? Ele passa a custar o dobro do preço ou mais do que isso. Essa peça custa tão caro?

Pedro Armando Eberhardt: Não, eu imagino que não. Eu imagino...

Joel Leite: [interrompendo] Por que razão o carro chega a esse preço?

Pedro Armando Eberhardt: Não saberia lhe dizer, não é minha área. Você está perguntando uma coisa que deveria perguntar à indústria automobilística não a mim.

Joel Leite: [interrompendo] E o senhor não acha estranho, como eu?

Pedro Armando Eberhardt: É estranho, eu acho estranho.

Nelson Blecher: Voltando ao plano econômico. Toda essa confusão que existe hoje, mesmo no meio empresarial para se saber qual é o tamanho que vai ter a recessão, nos induz a uma reflexão um tanto filosófica. Talvez em nenhum outro país do mundo, os economistas tenham alcançado tanta autonomia no poder. Nos outros países, eles são sempre assessores dos governantes. E aqui os economistas vão experimentando os seus planos, e quando não dão certo, parece que eles não têm muito a perder, enquanto que os agentes da produção e os assalariados têm sempre muito a perder. Isso não é uma situação desconfortável para os empresários?

Pedro Armando Eberhardt: Eu concordo com você. E acho que os empresários deviam ter sido ouvidos antes do Plano e logo depois do Plano. O que não aconteceu, eu concordo com você. Neste momento, está começando a se abrir um pouquinho, e os empresários estão começando a ser ouvidos, mas muito devagar.

Nelson Blecher: Mas por que eles se isolaram? Vocês chegaram a alertar? As histórias de bastidores, o relacionamento entre os empresários e os economistas da ministra Zélia não é muito conhecido. A gente ouve alguma coisa aqui e ali de alguns atritos. Por que houve esse silêncio empresarial? Houve uma espécie de reverência ao presidente na estréia dele?

Pedro Armando Eberhardt: Não é que houve um silêncio empresarial, não houve acesso, não se conseguiu chegar a esse pessoal, nós não conseguimos chegar lá.

Darci Higobassi: Doutor Pedro, é o seguinte. Amanhã em Brasília haverá a primeira reunião do Grupo Executivo de Política Setorial, que é um nome pomposo como era o da Câmara Setorial da Indústria Automotiva. Só que aqui eu percebi que houve um enxugamento no número de participantes...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Claro. A Câmara tinha trinta ou quarenta...

Darci Higobassi: [interrompendo] Trinta ou quarenta, e agora...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] São três.

Darci Higobassi: ... serão apenas três. O senhor, como presidente do Sindipeças, um diretor da indústria automobilística...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Não, presidente da Anfavea e presidente da Fenabrave.

Darci Higobassi:
[interrompendo] O presidente Jacy Mendonça e o presidente Alencar Burti dos revendedores autorizados.

Pedro Armando Eberhardt:
Perfeitamente.

Darci Higobassi: Então, eu gostaria de saber o seguinte, doutor Pedro. Até que ponto esses três segmentos podem refletir, não só os anseios de todas as áreas envolvidas, desde indústria de pneumática, de vidros etc, até os interesses do consumidor? A partir do momento em que o setor automobilístico no primeiro momento reagiu com cautela ao financiamento e agora está criticando... Inclusive hoje, o presidente da Federação dos Revendedores de Veículos, Alencar Burti, disse que é um financiamento inútil e provou com cálculos que os juros são muito elevados – um carro de quinhentos mil cruzeiros vai valer, em trinta meses, vai passar de 4,6 milhões de cruzeiros. Ou seja, isso aí é um cálculo matemático e foi uma jogada de marketing do governo que mereceu as primeiras páginas dos jornais. E deixou...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] É por isso mesmo que estamos indo lá amanhã discutir. É um dos assuntos que nós vamos discutir.

Darci Higobassi: [interrompendo] Exatamente, e deixou o consumidor confuso. Tanto que o André Beer, vice-presidente da GM, disse hoje, que muitos negócios que estavam sendo feitos foram paralisados justamente pelo anúncio do governo, ou seja, foi mais uma jogada de marketing do governo Collor. Então eu gostaria de saber se nessa reunião, além de acertar questões pendentes de preços...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Não, não vai se discutir preços.

Darci Higobassi: Eu gostaria de saber...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Essa reunião não é para discutir preço, você se enganou.

Darci Higobassi: O interesse... Não, mas o Jacy Mendonça, presidente da Anfavea disse outro dia que até 40% o governo pode sinalizar como ajuste de preços entre os vários...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] O Jacy esteve aqui antes do plano, não é?

Darci Higobassi: Não, não. Foi agora, na semana passada, na entrevista coletiva que ele deu para a imprensa sobre o balanço. Mas eu queria saber até que ponto essa reunião pode definir também questões ligadas ao consumidor. Por exemplo, o consumidor hoje está confuso primeiro com esse financiamento que foi [do tipo] “puxa, que ótimo”. Mas agora fala: “juros, tanto assim”. Um carro de quinhentos mil cruzeiros custa 4, 5 milhões.

Pedro Armando Eberhardt: São quatro milhões.

Darci Higobassi: Então gostaria de saber até que ponto que é essa reunião do Grupo Executivo de Política Setorial pode apresentar sugestões e o governo implementá-las?

Pedro Armando Eberhardt: Mas é essa a intenção.

Darci Higobassi: Para que ele possa ter um balizador.

Pedro Armando Eberhardt: É esta a intenção: de nós mostrarmos ao governo as saídas que nós precisamos ter. Dentre várias, essa é uma delas.

Darci Higobassi: Mas quais seriam as opções que os senhores levariam para o governo amanhã?

Pedro Armando Eberhardt: No caso do financiamento?

Darci Higobassi: Exatamente, que é o...

Pedro Armando Eberhardt: Na minha opinião, esse financiamento devia ser a 12% ao ano, mais correção.

Darci Higobassi: Mas aí o governo estaria interessado em praticar os juros definidos pela Constituição?

Pedro Armando Eberhardt: Nós vamos discutir, nós temos que discutir.

Darci Higobassi: O governo não está muito interessado em que haja liquidez no mercado.

Pedro Armando Eberhardt: Nós temos que discutir. Ele não está interessado em que haja liquidez no mercado, mas também não está interessado em fechar um segmento como a indústria automobilística.

Rodolfo Konder: Doutor Pedro, nós vamos ver aqui rapidamente algumas perguntas dos telespectadores, que continuam nos telefonando maciçamente, com grande interesse pelos seus esclarecimentos.

Pedro Armando Eberhardt: É bom.

Rodolfo Konder: Osvaldo Moraes, do Tietê, pergunta: “O Banco Central já liberou o dinheiro para pagamento das prestações dos consórcios dos meses de janeiro, fevereiro e março?”.


Pedro Armando Eberhardt: Ainda não.

Rodolfo Konder: Luiz Marques, de Suzano, pergunta se o mercado pode suportar um financiamento de 48 meses.

Pedro Armando Eberhardt: Tranquilamente.

Rodolfo Konder: Cleide Meneses, do Cambuci, pergunta se as empresas poderiam negociar as reduções da jornada de trabalho antes de demitir.

Pedro Armando Eberhardt: Elas deveriam ser negociadas antes de demissão.

Rodolfo Konder: Antônio Caldas Silva, do Sumaré, pergunta se o senhor acha que a crise atual é pior do que a de 1981.

Pedro Armando Eberhardt: Não acho que ela ainda esteja parecida com a de 1981, mas se não tomarmos cuidado, caminha para lá.

Rodolfo Konder: E Ricardo Sotero, do Planalto Paulista, pergunta se as empresas de autopeças vão manter os benefícios sociais aos seus funcionários ou vão cortar esses benefícios.

Pedro Armando Eberhardt:
Não há por que cortar os benefícios que foram dados, a não ser que a empresa não tenha condições de dar. Aí ela vai demitir, ela vai... Por enquanto, ela já está cortando, está dando férias, está dando licença remunerada.

Marli Olmos: Doutor Pedro, nós temos exemplos de que algumas empresas já cortaram a assistência médica e algumas mexeram até nas refeições. Entidades representantes de empresas já estão admitindo isso.

Pedro Armando Eberhardt: Se isso está acontecendo, não é do meu conhecimento e não deveria acontecer.

Marli Olmos: Qual é o limite? Vocês estão estendendo as jornadas, a indústria automobilística deu 15 dias, depois ela dá 21 e vai ajudar.

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Nós também estamos fazendo a mesma coisa.

Marli Olmos: Vocês estão acompanhando?

Pedro Armando Eberhardt: Nós estamos acompanhando.

Marli Olmos: O próximo passo qual é? Redução de jornada ou demissão?

Pedro Armando Eberhardt: Redução de jornada.

Marli Olmos: E depois a demissão?

Pedro Armando Eberhardt: Depois a demissão.

Rodolfo Konder: Nós estamos lembrando também aos telespectadores que este Roda Viva é transmitido ao vivo pelas TVs Educativas de Porto Alegre, Minas Gerais, Espírito Santo, Piauí; TV Cultura de Curitiba e TV Cultura do Pará. É ainda retransmitido para mais 15 emissoras que formam a Rede Brasil através da TV Educativa do Rio de Janeiro.

[sobreposição de vozes]

Germano de Oliveira:
Doutor Pedro, só uma questão interessante. O governo está anunciando hoje um aumento para os carros de 3,6% para poder repassar o que teve de aumento no IPI agora com o Plano Collor. Houve um aumento de IPI quatro pontos percentuais e esse aumento para os veículos passa a ser de 3,6%. Como a inflação do Plano Collor vai ser zero e a Fipe [Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas] divulgou hoje que houve uma deflação desde que o Collor assumiu, uma deflação de 0,26%; esse aumento de 3,6% é no mínimo quatro vezes mais do que a inflação. Ou seja, os carros continuam subindo acima da inflação, e é por isso que o consumidor está no sufoco?

Pedro Armando Eberhardt: Mas se não vender o carro com 3,6% a mais, vai ter que dar desconto para vender automóvel...

Germano de Oliveira:
[interrompendo] Se a inflação é zero?

Pedro Armando Eberhardt:
Germano, hoje não adianta querer vender um carro ao preço que está, não dá, tem que vender com desconto, como já houve no passado.

Germano de Oliveira: Sim, mas está havendo mais um aumento de preços.

Pedro Armando Eberhardt: Sim, está havendo um aumento de preço, mas não vai ser praticado.

Marli Olmos: Mas a quem cabe dar o desconto, Pedro, à indústria automobilística ou à revendedora? A quem cabe dar o desconto?

Pedro Armando Eberhardt: O revendedor é quem vai dar o desconto, mas ele vai negociar com a indústria automobilística para ele poder dar esse desconto. E a indústria automobilística vai negociar com seu fornecedor. A indústria automobilística já nos pede hoje um deflator.

Wilson Moherdaui: Quer dizer, a corda vai arrebentar na ponta mais fraca?

Pedro Armando Eberhardt: Vai arrebentar na mão de todo mundo.

Wilson Moherdaui: [interrompendo] Que é justamente na sua...

Pedro Armando Eberhardt: Na nossa também, nos nossos fornecedores também.

Wilson Moherdaui: Mas a ponta mais fraca da corda é a indústria de autopeças e que vai acabar pagando o pato?

Pedro Armando Eberhardt: Sem dúvida nenhuma.

Marli Olmos: Ou é o fornecedor de matéria-prima que acaba sendo o próprio governo que fornece?

Pedro Armando Eberhardt: Também vai ter que contribuir, vai ter que entrar também.

Wilson Moherdaui: [interrompendo] Mas vocês estão meio como um recheio, um recheio meio incômodo do sanduíche entre...

Pedro Armando Eberhardt: Nós estamos num sanduíche, sempre fomos um sanduíche.

Wilson Moherdaui: Sempre foram o recheio do sanduíche?

Pedro Armando Eberhardt: Sempre fomos. [risos]

Wilson Moherdaui:
Entre as montadoras e os fornecedores de materiais?

Pedro Armando Eberhardt:
Sem dúvida!

Wilson Moherdaui: [interrompendo] E não adianta espernear?

Pedro Armando Eberhardt: Não, não adianta. Você pode gritar, mas você tem que se acertar.

Alexandre Polesi: Doutor Pedro, como é que se sairão às pequenas e médias empresas que compõem uma larga parcela do seu setor...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] 80% do setor.

Alexandre Polesi: ... depois desse período?

Pedro Armando Eberhardt: Como é que elas vão se sair?

Alexandre Polesi: Como é que elas poderão encontrar saídas para atravessar essa fase turbulenta?

Pedro Armando Eberhardt: Se o governo não nos auxiliar... Veja bem: o que nós estamos pedindo no momento é um copo d’água. De nada adianta ela dar um balde d’água daqui a sessenta dias que o setor já explodiu.

Wilson Moherdaui: Sessenta dias é o máximo?

Rodolfo Konder: [interrompendo] Os senhores não estão furando a barragem, a represa; estão só pedindo um copo d’água, mas que pode ser tirado por cima mesmo...

Pedro Armando Eberhardt: Exatamente.

[risos]

Alexandre Polesi: O senhor não respondeu. Afinal, hoje qual o impacto real, efetivo, previsível especialmente para essas pequenas empresas, quando muitas delas trabalham quase no limite da economia informal?

Pedro Armando Eberhardt: O que está se prevendo é que terá um reinício de produção no mês de maio em volume de 50% daquilo que você fazia em fevereiro. Então a pequena empresa vai estar baseada nisso também, nesse tipo de programa.

Alexandre Polesi: [interrompendo] E ela aguenta isso?

Pedro Armando Eberhardt: Eu não sei se ela aguenta, eu não sei se ela aguenta isso.

Wilson Moherdaui: Sessenta dias é o prazo médio ou é o que as pequenas empresas são capazes de suportar também, assim como as grandes?

Pedro Armando Eberhardt: Não. Tem empresas que não vão aguentar sessenta dias nessa situação, [é a] inadimplência.

Wilson Moherdaui: [interrompendo] Todas as empresas?

Pedro Armando Eberhardt: Tem empresas que não vão aguentar.

Nelson Blecher: Quando o senhor está em uma reunião lá com a Zélia e a equipe dela, e o senhor fala essas coisas, o que eles respondem para o senhor?

Pedro Armando Eberhardt: Bom, eu não...

Nelson Blecher: [interrompendo] Como é que é uma reunião dessas? O senhor poderia contar para a gente?

Pedro Armando Eberhardt: Eu vou ter, eu não tive reunião com a ministra Zélia ainda.

Nelson Blecher: Vai ser a primeira amanhã?

Pedro Armando Eberhardt: Eu vou ter amanhã, não sei se será com ela ou com alguém dela, isso vai ser dito. E aí eu vou sentir a reação. Mas até agora, eu não tive nenhuma reunião com ela sobre o assunto.

Rodolfo Konder: Se a reunião for com o doutor Ibrahim Eris, o senhor vai levar...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Vou levar as mesmas coisas.

Rodolfo Konder: ... intérprete ou não? [risos]

Pedro Armando Eberhardt: Não, eu vou falar em português com ele. Ele fala português. [risos]

Fernando Calmon: Tinha uma declaração que eu li na Gazeta Mercantil, de um revendedor Volkswagen, dizendo que ele não podia acreditar como era possível 17 pares de lanternas de um Gol custarem o preço de um Gol. Como é que você explica essa mágica? Por que as peças são tão caras?

Pedro Armando Eberhardt: Os nossos insumos são caros, entende? Eu não sei se 17 lanternas custam um Gol.

Fernando Calmon: 17 pares.

Pedro Armando Eberhardt:
17 pares, então já são 34 lanternas.

Fernando Calmon: [interrompendo] A Gazeta Mercantil falou em 17 lanternas, mas depois eu falei com o repórter e ele falou que eram 17 pares.

Pedro Armando Eberhardt: Bom, sei lá! Eu não saberia responder por que 17 pares custam um Gol. Não sei que tipo de Gol é? Como é esse Gol? Se ele é pelado, se é cheio ou não?

Fernando Calmon: Agora, na mesma matéria falava que, por exemplo, um motor de um Monza custa o preço de um Monza.

Pedro Armando Eberhardt: O motor custa o preço de um Monza?

Fernando Calmon: O preço de um Monza. Se você for comprar em um revendedor autorizado.

Pedro Armando Eberhardt: É. Não faz muito sentido para mim... Quando você falou nas 17 lanternas, elas seriam compradas onde? Fora?

Fernando Calmon: Não, no distribuidor.

Pedro Armando Eberhardt: Em uma revenda?

Fernando Calmon: É. Em revenda uma autorizada.

Pedro Armando Eberhardt: Bom, nós não vendemos para revendedora autorizada, quem vende é a própria fábrica.

Marli Olmos: Mas o que ocorre, Pedro, é que o mercado em reposição é muito mais caro. Dados da Associação Nacional do Comércio Atacadista tem um levantamento...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] É, mas ele está se referindo à concessionária. Aí tem que se fazer uma diferença. A concessionária, o setor de autopeças praticamente não vende nada; quem vende é a própria fábrica. Nós vendemos ao atacado, ao mercado de reposição, aí vendemos. E vendemos com preços mais caros do que vendemos para a indústria automobilística, sim.

Marli Olmos: Segundo esse levantamento de maio de 1989 a março deste ano, a inflação foi menos de três mil, e as autopeças passaram de 18 mil. Por que o mercado de reposição é tão mais caro do que a indústria terminal, quando você repassa essa peça?

Pedro Armando Eberhardt: Eu acho que grande parte, na verdade, dos nossos prejuízos junto à indústria automobilística são repassados para o mercado de reposição. Isso eu concordo.

Marli Olmos: Então é o consumidor que vai consertar o carro que vai pagar pelo prejuízo na indústria terminal?

[...]: [...] trabalha a defasagem de preço, é isso?

Pedro Armando Eberhardt: É a defasagem de preço que existe. Se nós tivéssemos um mercado livre, sem interferência do governo, isso não aconteceria dessa forma. Eu acho que o número que você deu é um número um pouco elevado. Mas existe um diferencial...

Marli Olmos: [interrompendo] O número não é meu, é da Associação dos Atacadistas.

Pedro Armando Eberhardt: Tudo bem, mas existe um diferencial bastante elevado, é verdade. Agora nós não temos com a montadora a liberdade que temos com o mercado de reposição. Então, eu acredito que muita coisa é destinada ao mercado de reposição com preços bem mais altos do que deveriam ser, porque não podemos repassar na montadora.

Marli Olmos: Quer dizer, em resumo é isto: se eu for consertar o meu carro, eu vou pagar...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Depende de onde você for consertar.

Marli Olmos: ... pela defasagem que você não conseguiu na indústria automobilística?

Pedro Armando Eberhardt:
Não, e depende muito de onde você for consertar. Tem vez que você entra na concessionária por uma mesma peça e deixa uma fábula. Você encontra ela na rua por um outro preço completamente diferente.

Rodolfo Konder: Nós vamos ver mais algumas perguntinhas aqui rapidamente, dos telespectadores. José Paiva, da Mooca, pergunta: “Por que a indústria de autopeças não interfere para que os consórcios possam ser pagos em cruzados novos?”.

Pedro Armando Eberhardt: Nós estamos fazendo isso.

Rodolfo Konder: Estão fazendo isso?

Pedro Armando Eberhardt:
Estamos fazendo.

Rodolfo Konder: José Luiz, da Freguesia do Ó, pergunta se as mercadorias exportadas são mais baratas do que as vendidas no mercado interno.

Pedro Armando Eberhardt: Não, elas podem até ser mais baratas dependendo da defasagem cambial.

Rodolfo Konder: Alfredo Alves, de Moema, pergunta se seria possível o lançamento de carros mais econômicos nos próximos anos, se o senhor prevê alguma coisa nessa direção.

Pedro Armando Eberhardt:
Poder poderia, mas eu não prevejo nada. Ao menos não há consulta por parte da indústria automobilística.

Wilson Moherdaui:
E facilitaria a vida...

Rodolfo Konder: [interrompendo] E Antônio Silva, de São Bernardo... Pois não?

Wilson Moherdaui: [interrompendo] Desculpa, só complementando isso, Rodolfo, facilitaria a vida da indústria de autopeças, se a indústria automobilística, as montadoras reduzissem um pouco o leque de modelos oferecidos ao mercado? O senhor não acha que se conseguiria mais escala em determinados produtos e com isso conseguiria reduzir...?

Pedro Armando Eberhardt: Conseguiria mais escala, conseguiria reduzir o preço um pouco. Mas eu não acredito que isso vá acontecer.

Wilson Moherdaui: Por quê?

Pedro Armando Eberhardt: Porque não acho que essa é a intenção da montadora.

Wilson Moherdaui: Mas isso não seria mais consentâneo [conveniente, apropriado] com os desejos do consumidor, que é ter algumas opções, é claro, de modelos para comprar, mas a preços bem mais baixos? O senhor não acha que isso impede a queda do produto?

Pedro Armando Eberhardt: Você já teve a época do “pé de boi”. Você lembra a época do “pé de boi”?

Wilson Moherdaui: Eu não estou dizendo que a gente precise vender carroças literalmente. Eu acho que a gente deve vender alguns modelos de luxo, mas...

Pedro Armando Eberhardt: [falando ao mesmo tempo que Wilson Moherdaui] E a época do “pé de boi” foi uma experiência muito amarga, não deu resultado. E os carros baratos... Pega o Chevette, por exemplo, que é o carro mais barato que você tem, está saindo de linha também, porque ele é deficitário.

Wilson Moherdaui: Mas ele não é deficitário porque ele é barato e nem está saindo de linha porque ele é barato.

Pedro Armando Eberhardt: Ele é deficitário, ele está saindo de linha principalmente porque ele é deficitário.

Wilson Moherdaui: Mas o Chevette não é o carro mais vendido do mercado? Não era até pouco tempo atrás?

Pedro Armando Eberhardt: Não diria que é o carro mais vendido no mercado.

Fernando Calmon: Não, claro que não. O carro mais vendido atualmente é o Gol.

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] É o Gol.

Fernando Calmon:
E o Chevette só foi uma vez o carro mais vendido há seis anos atrás.

Pedro Armando Eberhardt: Exatamente.

Rodolfo Konder:
Doutor Pedro, perguntam aqui, para a gente concluir a rodada de perguntas dos telespectadores. Tem duas que dizem respeito a sua empresa. Antônio Silva, de São Bernardo do Campo, pergunta: “A firma que o senhor dirige vai dar 30% de redução nos preços de autopeças?” E José Lins da Silva, da Vila Guarani, pergunta: “É verdade que a firma que o senhor dirige já demitiu quatrocentas pessoas?”.

Pedro Armando Eberhardt: Bom, respondendo à última. A primeira é uma inverdade, porque eu não dispensei quatrocentas pessoas. No turnover [rotatividade de pessoal]  está normal e o que houve de dispensa pode ser cinqüenta, quarenta, trinta pessoas com o turnover normal. Não houve dispensa em massa na minha empresa. Quanto à outra pergunta, se eu vou dar 30% de desconto, eu vou dar desconto. Vou dar porque se faz necessário dar. E a despesa financeira hoje é bem diferente do que era antes do Plano Collor. Então eu tenho que tirar essa despesa financeira e cair para uma realidade, e esse desconto pode ser superior a 30% inclusive.

Fernando Calmon:
Pedro, eu gostaria só de fazer uma pergunta para você mais funcional. O que você acha do Programa Nacional do Álcool [Pró-Álcool]? Acha que nós devemos continuar, devemos parar, qual é a sua opinião sobre o assunto?

Pedro Armando Eberhardt: Eu acho um crime parar o Pró-Álcool, acabar o Pró-Álcool. Porque se não fosse o Pró-Álcool na década de 70, não existiria mais a indústria automobilística e nem de autopeças neste país. 

Fernando Calmon: O pessoal tem memória curta?

Pedro Armando Eberhardt: Eu acho que esqueceram que nós tivemos uma crise de petróleo muito séria, e o Pró-Álcool veio aqui para salvar a nossa indústria. Abandonar o Pró-Álcool é um crime, porque há poucos dias, eu li no jornal, que nós vamos ter uma nova crise do petróleo muito em breve. Não sei em que jornal foi isso, mas no final da década iremos ter uma crise novamente.

Fernando Calmon: Não. Em meados da década.

Pedro Armando Eberhardt: Então é um absurdo você jogar tudo isso fora, quando tem outros países copiando o Pró-Álcool. África do Sul é um deles.

Fernando Calmon: Estados Unidos.

Pedro Armando Eberhardt: Estados Unidos está querendo copiar o Pró-Álcool e nós estamos querendo abandonar o Pró-Álcool.

Germano de Oliveira: Mas o ministro [Ministério de Estado da Infra-Estrutura] Ozires Silva disse que vai liberar os preços dos produtos, e o governo não deve mais subsidiar nada.

Fernando Calmon: Mas se botar a realidade cambial, você bota a gasolina, onde ela não deveria custar ....

Pedro Armando Eberhardt: Exatamente, a gasolina vai custar uma fortuna.

Marli Olmos:
Você tem carro a álcool?

Pedro Armando Eberhardt: Eu tenho carro a álcool e tenho a gasolina.

Nelson Blecher:
Doutor Pedro, como membro das elites, em que esse choque mudou a sua vida pessoal? O senhor me disse que estava pensando em tirar umas férias, né? Acho que é interessante. [risos]

Pedro Armando Eberhardt: Eu vou lhe dizer uma coisa: essa pergunta é bem capciosa.

Rodolfo Konder: O senhor vai voltar à Suíça onde era companheiro do Jô Soares no passado ou não? [risos]

Pedro Armando Eberhardt: Olha, foram bons tempos. Nós estudamos juntos, fomos colegas de mesmo quarto e foi uma época muito boa da minha vida, quando eu pude ter a oportunidade de estudar com ele.

Rodolfo Konder: Ele entrevistou o senhor recentemente, mas ele não disse que o senhor era daquele grupo.

Pedro Armando Eberhardt: Não, ele não me entrevistou.

Rodolfo Konder: Não?

Pedro Armando Eberhardt: Não. Mas realmente, nós estudamos juntos e vivemos no mesmo quarto. Eu vou continuar levando a vida que eu levava, porque a minha vida era muito modesta, eu não tinha grandes sonhos, grandes planos.

Nelson Blecher: Não, eu estou me referindo ao dia a dia. O senhor me disse que ia fazer mais esportes, o senhor estava...

Pedro Armando Eberhardt: Gostaria de fazer, não estou fazendo por falta de opção, por falta de tempo, gostaria de fazer. Mas estou chegando ao meu escritório às sete e meia e estou saindo às oito, nove horas da noite.

Nelson Blecher: Muito café?

Pedro Armando Eberhardt: Café, bastante.

Joel Leite: Doutor Pedro, nas crises vividas pelo setor, em crises mais brandas, digamos assim, nos últimos anos, me parece que o setor de autopeças tem se safado de alguma forma em função do mercado de reposição. O consumidor não pode trocar o seu carro, não pode comprar um carro zero, ele se preocupa em consertar mais o carro. Claro que nós estamos no começo, três semanas do pacote, talvez não dê para sentir, mas é possível que nos próximos dias, próximas semanas ou próximos meses, haja uma procura maior pelas peças de reposição. O setor está pensando nisso? Isso substitui de alguma forma o problema criado para o setor com o Plano Collor?

Pedro Armando Eberhardt: Veja, 30% do nosso faturamento é destinado ao mercado de reposição. É um segmento muito importante para nós. Nós dialogamos, já tivemos reuniões com eles na semana retrasada, sobre o assunto de vendas. E estamos tentando buscar caminhos para que possamos andar com mais rapidez, com maior velocidade nas vendas junto ao mercado de reposição, para que as empresas tenham o que fazer. Porque com a indústria automobilística parada, se o mercado de reposição não andar, só nos restam 15% que é de exportação. Isso é muito pouco, não dá para aguentar com isso. Então nós temos que ativar o mercado de reposição.

Joel Leite: Esses 30% do mercado de reposição caiu também?

Pedro Armando Eberhardt: Ele caiu muito porque está extremamente estocado. Ele comprou muita mercadoria de nós nos últimos seis meses.

Wilson Moherdaui: Quer dizer que nem aí dá para ser otimista. O Joel está tentando achar algum resquício de otimismo, mas não consegue.

Pedro Armando Eberhardt: Ele está começando a se movimentar muito vagarosamente.

Wilson Moherdaui: O senhor tem alguma mensagem para tranquilizar as famílias dos 305 mil funcionários da indústria de autopeças, depois, já que o consumidor não tem saída, a indústria está perdida, o quadro é negro e tem perspectiva de ...

Nelson Blecher: [interrompendo] E nem a exportação, só para acrescentar.

Wilson Moherdaui: A exportação não vai resolver.

Nelson Blecher: [interrompendo] A exportação é uma defasagem cambial, como o senhor se referiu.

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Mas está se exportando.

Rodolfo Konder: O senhor disse que tínhamos aí uma bomba de tempo, é possível desativar essa bomba? 

Wilson Moherdaui: Há algo que possa tranquilizar essas pessoas ou a iminência de perder emprego é uma coisa irreversível?

Pedro Armando Eberhardt: Não, não é irreversível.

Darci Higobassi: Eu gostaria de completar a pergunta dele, lembrando que os sindicatos já estão aceitando até uma redução na jornada de trabalho e consequentemente redução de salário. Então eu gostaria de saber até que ponto poderá haver esse pacto social de que você falou no começo da entrevista, para amenizar as tensões sociais, que hoje são uma grande preocupação, não só do governo e dos empresários, mas principalmente dos trabalhadores. Porque a licença remunerada significa um meio caminho para o desemprego. E como disse o André Beer hoje, as lições de 1981, da recessão que foi profunda e gravíssima, que desempregou dezenas de milhares de pessoas, centenas... Como é que elas podem ser aprendidas ou apreendidas pelos empresários neste momento de pré-conflito, como a gente pode chamar assim? 

Pedro Armando Eberhardt: O que aconteceu em 1981 é que a demissão foi o primeiro passo. O que vai acontecer em 1990 é que a demissão será o último passo. Nós vamos esgotar todos os nossos esforços antes de começar demissões em massa. E esperamos não ter que fazê-las. Hoje mesmo conversei com dirigentes de três indústrias automobilísticas, que não pretendem fazer demissões em massa.

Nelson Konder: Doutor Pedro, eu ia perguntar o seguinte: por que essa grande evolução que o senhor registra aqui, para nossa alegria? Houve o quê? Aprofundou-se a consciência social do empresariado...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Exatamente.

Rodolfo Konder: ... ou é medo do doutor [Romeu] Tuma [à época da entrevista, era diretor-geral da Polícia Federal]?    

Pedro Armando Eberhardt: Não, não tem nada a ver com o doutor Tuma. [risos]

Rodolfo Konder: Ou tem a ver com essas ameaças do governo?

Pedro Armando Eberhardt: Não, não tem nada a ver com ameaças. Não é por ameaças que nós vamos resolver os problemas.

Germano de Oliveira: Ou é medo de saques, que o trabalhador se revolte e...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Também não é medo de saques. É um problema de consciência e de se esforçar ao máximo de cooperar com o Plano Collor, porque seria um problema a mais se começasse a demitir todo mundo.

Germano de Oliveira: O senhor teve uma reunião com o doutor Romeu Tuma recentemente, onde o senhor colocou essa preocupação de que comecem a ocorrer invasões de fábricas...

Pedro Armando Eberhardt: Não, eu tive uma conversa com ele na semana passada e vou ter outra com ele amanhã pela manhã.

Germano de Oliveira: Mas o senhor estava preocupado com invasão de fábrica, com que os operários acampassem lá dentro?

Pedro Armando Eberhardt: Não, não estava.

Rodolfo Konder: Mas se houver demissões em massa, é possível uma onda de violência?

Pedro Armando Eberhardt: Veja, sempre é possível uma onda de violência se você não tiver o que comer. Isso independe do setor de autopeças, isso é válido para qualquer segmento. Não para o setor de autopeças.

Marli Olmos: O que mais diferencia, Pedro, esta crise da crise de 1981? Você citou as demissões, foi o primeiro passo. E o que mais?

Fernando Calmon: [interrompendo] Mas não houve nenhuma violência em 1981. As demissões aconteceram, mas não houve saque, não houve violência, houve uma acomodação.

Pedro Armando Eberhardt: Não houve saque, não houve violência, não houve nada.

[...]: Houve fome, né? Houve fome em 1981.

Fernando Calmon: Eu gostaria de lembrar também uma outra crise pior ainda, que foi a de 1965.

Pedro Armando Eberhardt: A de 1965 foi pior.

Fernando Calmon: Foi muito pior, ficamos três meses sem vender um veículo.

Pedro Armando Eberhardt: É verdade.

Fernando Calmon: E não houve...

Darci Higobassi: [interrompendo] Mas em 1965 as condições do país eram outras, não é? A economia era...

Fernando Calmon: [interrompendo] Sim, mas de qualquer forma são três meses sem vender um veículo. Ninguém vai pensar que nós vamos ficar três meses sem vender veículo, você acredita nisso?

Pedro Armando Eberhardt: Não, os veículos começam a ser vendidos agora, com os consórcios saindo, eu acredito que o assunto consórcio se resolva esta semana. Você começa a limpar, isso representa mais ou menos 25%.

Rodolfo Konder: [interrompendo] Tanto o financiamento como o uso de cruzados novos, o senhor acha que essas duas medidas devem sair?

Pedro Armando Eberhardt: Eu acho que saem as duas. Eu acho que o consórcio representa 25% mais ou menos da produção, se não me falha a memória, que é um número bastante significativo.

Marli Olmos: O que mais você lembra que diferencia, desculpe eu repetir a pergunta, esta crise da crise de 1981? É a base política? É que desta vez o governo vai dar a sua parte também, o que é?

Pedro Armando Eberhardt: Nós temos a esperança de que o governo dê a sua parte também, sem dúvida nenhuma. Se não derem, nós não vamos sair desse buraco.

Marli Olmos: É por isso que o empresariado agora estaria se comprometendo a partir para demissão como última alternativa?

Pedro Armando Eberhardt: A experiência que nós tivemos em 1981 foi péssima, nós perdemos um terço do contingente treinado. Para treinar um homem levam-se anos. E de repente, você o perde outra vez. Isso é o que nós estamos queremos evitar.

[Sobreposição de vozes]

Nelson Blecher: O senhor disse que tem expectativa com relação a esse [...] da máquina federal, não é? Mas por enquanto, é só expectativa. Parece que mais uma vez a sociedade brasileira tem que pagar a sua cota, para depois então ver o que o governo vai fazer, e depois ainda precisa contar com a aprovação do Congresso, para fazer cortes, o que não está sendo fácil. O senhor acha que se não houver uma diminuição da máquina para efeito de se amenizar o déficit público, esse Plano Collor...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Nós vamos pagar a conta outra vez.

Nelson Blecher:
[interrompendo] O Plano mesmo corre o risco de fracassar?

Pedro Armando Eberhardt: Eu acho que sim.

Wilson Moherdaui: No empresariado, especialmente no seu depoimento aqui, parece haver uma certa cumplicidade em relação ao governo...

Pedro Armando Eberhardt: [interrompendo] Cumplicidade?

Wilson Moherdaui: É, no sentido de que como vocês apoiaram o presidente Collor, votaram nele, fica um certo temor de se partir para crítica mais aberta. Vocês teriam esse mesmo comportamento se ele não tivesse ganhado a eleição?

Pedro Armando Eberhardt: Claro que sim.

Wilson Moherdaui: Se o presidente da República fosse o Lula hoje?

Pedro Armando Eberhardt: Você teria que dar uma chance ao Lula do mesmo jeito. Primeiro, eu acho...

Wilson Moherdaui: [interrompendo] Haveria essa boa vontade que está havendo?

Pedro Armando Eberhardt: Eu acho que as medidas do Lula seriam menos duras do que foram as do Collor, na minha opinião. E acho mesmo que fosse o Lula o presidente da República...

Nelson Blecher: [interrompendo] Por que seriam menos duras?

Pedro Armando Eberhardt: Não sei. A impressão que eu tenho, eu acho que [...]

[...]: Por isso que eu perguntei se o senhor não estava arrependido?

Wilson Moherdaui: E, ainda assim, o senhor não está arrependido?

Pedro Armando Eberhardt: Não estou arrependido.

[...]: Existe uma questão ideológica por trás disso, sem dúvida?
 
Pedro Armando Eberhardt: Claro, eu não sou PT. Eu prefiro o Collor, e apoiei o Collor desde o começo, e não me arrependi. Agora eu acho que qualquer um que esteja nesse cargo merece um crédito e merece um tempo. Eu não vou estipular esse tempo em trinta dias, sessenta dias...

[sobreposição de vozes]

Joel Leite: [interrompendo] Mas a questão ideológica define esse tempo, ou não?

Pedro Armando Eberhardt: Não.

Rodolfo Konder: Eu vou pedir ao doutor Pedro para dar uma última mensagem, um último recado, porque nós já estamos chegando ao fim do programa, estamos com o tempo já contado. Então eu vou pedir ao senhor para dar um último recado nesta linha: o que as pessoas podem esperar, na sua opinião, nestas próximas semanas, dos desdobramentos aí da aplicação do Plano Collor?

Pedro Armando Eberhardt: Eu acho que as pessoas podem esperar que o nosso setor se empenhará ao máximo em mostrar ao governo onde, quais são as correções que devem ser feitas para que se volte a vender automóvel neste país. E que se faça todo o possível para não se gerar um desemprego igual ao que foi em 1981. É essa a incumbência que nós temos e de levar isso ao governo, de discutir isso com o governo. E isso nós vamos fazer.

Rodolfo Konder: Muito bem. Em nome da TV Cultura, doutor Pedro, nós agradecemos muito a sua presença aqui no Roda Viva, a presença dos jornalistas, nossos convidados, dos convidados da produção e da Bernadete, da Ana e da Cristina que nos ajudaram aqui recebendo os telefonemas e do nosso consagrado cartunista Paulo Caruso que está lá em cima registrando todos os momentos desse nosso interrogatório. Muito obrigado a todos.

Pedro Armando Eberhardt: Obrigado.

Rodolfo Konder: E até a próxima. Boa noite.

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