Memória Roda Viva

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Carlos Eduardo Matheus

6/11/1989

Às vésperas das eleições presidenciais de 1989, o diretor do Gallup discute as pesquisas de opinião pública e o efeito da candidatura de Silvio Santos

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[Programa ao vivo, permitindo a participação dos telespectadores]

Jorge Escosteguy: Boa noite. Estamos começando mais um Roda Viva pela TV Cultura de São Paulo. Este programa é transmitido ao vivo pelas TVs educativas de Porto Alegre, Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Bahia e Piauí; TV Cultura de Curitiba e TV Cultura do Pará. É ainda retransmitido pela TV Educativa do Ceará. O convidado do Roda Viva desta noite é o diretor do Instituto de Pesquisas Gallup, Carlos Eduardo Meirelles Matheus. Você que está em casa assistindo ao programa e quiser fazer perguntas por telefone, pode chamar: 252-6525. A Carla, a Bernadete e a Ana estarão anotando suas perguntas. Para entrevistar Carlos Matheus esta noite no Roda Viva nós convidamos os seguintes jornalistas: Marco Damiani, coordenador de política do Jornal do Brasil; Hugo Studart, repórter da revista Veja; Heródoto Barbeiro, editor de política do Jornal da Cultura; Ivan Ângelo, editor-chefe do Jornal da Tarde; Emanuel Neri, repórter do jornal Folha de S.Paulo; Durval Ferreira, jornalista da revista Manchete; Tão Gomes Pinto, jornalista da revista Ícaro. Na platéia assistem ao programa convidados da produção. Estamos a nove dias das eleições presidenciais, e a maioria dos candidatos, mesmo aqueles que negam, têm toda sua atenção voltada para os institutos de pesquisa, para discutir a importância que os gráficos e os números exercem sobre suas campanhas. Para discutir essa questão é que nós trouxemos hoje ao Roda Viva o Carlos Matheus, do Gallup. Boa noite, Matheus.

Carlos Eduardo M. Matheus: Boa noite.

Jorge Escosteguy: Neste ano de eleições presidenciais, aparentemente, pelo menos pelo resultado das últimas pesquisas, há um certo desafio paras os institutos, na medida em que há vários candidatos embolados e, apesar de se ter a ressalva sempre da diferença da margem técnica de erro, é um desafio tentar saber com certa antecedência, ou indicar com certa antecedência, qual vai ser o futuro presidente da República. Você acha que os institutos em geral, ou o Gallup em particular, se prepararam de alguma forma específica diferente dos outros anos para realizar pesquisas este ano?

Carlos Eduardo M. Matheus: Esta campanha, como as outras campanhas que nós já acompanhamos, é uma campanha difícil. Não há nada de mais difícil nesta do que em outras, exceto pela extensão territorial, exceto pela complexidade regional do país e também pela quantidade de candidatos que nós temos. Quanto à preparação, é claro que há institutos profissionais no Brasil preparados para realizar um trabalho sério e competente. Eu acredito até que pelas pesquisas que vínhamos acompanhando, não só nossas como de outro institutos, existe uma certa aproximação bastante grande entre os percentuais dos vários pesquisadores, das várias pesquisas. E mais do que isso: o quadro se parecia muito coerente de uma pesquisa para outra, as diferenças eram mínimas e extremamente naturais em qualquer trabalho de pesquisa. A complexidade surgiu nesta última semana, como vocês todos estão sabendo, nós agora temos um fato novo não apenas na campanha, mas um fato novo para a pesquisa, porque a candidatura de Sílvio Santos não só não estava prevista pelos candidatos, como também pelos eleitores, como também pelos pesquisadores. Também o Tribunal [Superior Eleitoral] não previu, tanto assim que não colocou na cédula, e nossas pesquisas eram feitas sempre usando a própria cédula em que o eleitor vai votar.

Jorge Escosteguy: Agora com a entrada do Sílvio Santos [candidatura de Silvio Santos], deu uma certa confusão na área das pesquisas?

Carlos Eduardo M. Matheus: Bastante...

Jorge Escosteguy: Eu pediria licença a você e ao Brasil para ler aqui uma última pesquisa que saiu hoje, do instituto Ibope, com o nome de Silvio Santos indicado na consulta ao eleitor, e os resultados foram: O Fernando Collor de Mello em 1º com 23%, Silvio Santos em 2º com 18%, [Leonel] Brizola em 3º com 14%, Lula em 4º com 12%, [Mário] Covas em 5º com 7%, [Paulo] Maluf em 6º com 6%, Ulysses [Guimarães] em 7º com 4% e [Guilherme] Afif [Domingos] em 8º com 3%. Com a cédula, ou seja, com a relação de nomes que vai constar na cédula eleitoral, o resultado foi diferente. Deu: Collor, 28%; Brizola, 15%; Lula 14%; Covas, 8%; Maluf, 7%; Ulysses, 5%; Afif, 4% e Armando Corrêa, que cedeu o lugar para o Silvio Santos, teve 2%, ou seja, já é a faixa de eleitores que, de certa forma, mentalizou ou conscientizou o fato de que Armando Corrêa passa a significar Silvio Santos. Matheus, há uma diferença entre a última pesquisa do Gallup, por exemplo, e essa do Ibope, em relação aos resultados. Se não me engano, na última pesquisa do Gallup dava Silvio Santos com 28% ou 29% e Collor com 21%. Ou seja, de repente, ao contrário do processo anterior, como você mencionou que as pesquisas mais ou menos batiam, de repente você tem uma disparidade grande entre duas pesquisas recentes.

Carlos Eduardo M. Matheus: Exato. Bom, em primeiro lugar, vamos distinguir o momento. Essa pesquisa que você mencionou acaba de ser realizada foi até ontem; a nossa pesquisa terminou no dia 1º de novembro. Isso é apenas uma diferença de datas, mas que não é o mais relevante. O mais relevante está na maneira como as duas pesquisas foram feitas. Como eu estava dizendo há pouco, essa foi uma surpresa para todos os pesquisadores, ou seja, nós não contávamos, como o eleitor também não contava, com a existência de um novo candidato. Qual é a maneira de pesquisar diante dessa situação? Nós não tínhamos uma solução obviamente pronta, então, diante da surpresa geral, cada pesquisador adotou uma solução e uma sistemática. Nós adotamos uma, o Ibope adotou outra. E obviamente as soluções são todas precárias; tanto a solução do Ibope quanto a solução do Gallup são precárias. Porque nós estamos diante de um fato imponderável em que nós não sabemos como o eleitor vai reagir. Principalmente, há um fato ainda que eu gostaria de mencionar, nem se sabe sequer se a candidatura é definitiva. Pelo que sabemos, até quinta-feira essa candidatura poderá ser impugnada e ser cancelada. Então nós estamos raciocinando em termos de hipóteses.

[...]: Agora, Matheus, uma pergunta...

Carlos Eduardo M. Matheus: [interrompendo] Só para completar o raciocínio porque aí é importante essa explicação. Há dois caminhos para se pesquisar. O Ibope adotou o método inicial que nós adotamos: pergunta espontânea depois a pergunta com a cédula, exatamente como a do TSE [Tribunal Superior Eleitoral], e em seguida apresentou um disco com todos os nomes, incluindo Silvio Santos, sem mencionar ao entrevistado que Silvio Santos estava ali presente. Então mostra 22 nomes e pergunta em quem você votaria se a eleição fosse hoje. Depois diz: “Bem houve alguma mudança, por favor, veja essa outra lista. Em quem você votaria se a eleição fosse hoje com essa nova lista?”. O eleitor entrevistado olha e encontra mais ou menos os mesmos nomes. O disco é sempre mais difícil de achar. Ele já respondeu, fica um pouco difícil para ele procurar, então é normal que nem todos achem o nome porque não foi mencionado; e também não é ainda totalmente oficial a candidatura. Nós adotamos um outro procedimento, tão perigoso quanto este, que foi o seguinte. Nós usamos o cartão com a cédula única, apresentamos aos entrevistados. Em seguida, nós dissemos o seguinte: “O senhor acabou de me dizer que vai votar no candidato x”. O entrevistador repetia o nome do candidato escolhido pelo entrevistado. “O senhor acabou de me dizer que vai votar neste candidato. No caso de Silvio Santos vir a ser candidato...” – ainda é uma hipótese – isso na semana passada e no momento ainda em que ele era candidato hipotético no lugar de Aureliano Chaves. “No caso de Silvio Santos vir a ser candidato, o senhor vai votar nesse candidato que o senhor indicou ou vai mudar seu voto para Silvio Santos?”. Então essa colocação posta foi para avaliar mais do que tudo a firmeza do voto já dado, por um lado, e por outro lado, a vontade de votar no Silvio Santos, independentemente dos problemas que vão existir, que serão provavelmente identificar na cédula, votar no nome sem estar etc. Então a nossa pesquisa indica muito mais a vontade de votar, e a pesquisa do Ibope indica como os eleitores hoje estão informados da existência da candidatura e como eles encontram o nome numa cédula que na verdade não vão encontrar, um círculo que na verdade não vai existir na hora de votar.

Emanuel Neri: Doutor Matheus, nesse caso o senhor não contrapõe o Silvio Santos aos demais candidatos? Ou seja, também não há o risco de, ao invés de medir a intenção de voto no Silvio Santos, o senhor medir a popularidade do Silvio Santos?

Carlos Eduardo M. Matheus: Bem, nós estamos...

Emanuel Neri: Então ele poderia medir também a popularidade da Xuxa, do Pelé e de outras pessoas extremamente populares.

Carlos Eduardo M. Matheus: É verdade, no voto a popularidade influi, ou seja, o desejo de votar é de alguma maneira uma escolha que o eleitor faz em função da admiração que ele tem. Eu entendo que isso é popularidade. Agora, nós não estamos seguros a respeito de um método ou de outro; também o Ibope não está seguro. Embora eu não esteja aqui com procuração para isso, sei que não existe uma certeza com relação a isso. Nós já trocamos idéias a respeito do ponto de vista técnico, não existe uma certeza de que um método ou outro método sejam corretos. Lembre-se bem, o disco não vai existir, o nome de Silvio Santos não estará na cédula. Nós lembramos o eleitor de que existe uma candidatura; até hoje muitos eleitores não sabem, então...

[Sobreposição de vozes]

Jorge Escosteguy: Um minutinho, por favor...

Hugo Studart: O senhor está fazendo uma pesquisa essa semana, e qual será o método? Será o método do Ibope ou o método que o senhor usou primeiro?

Carlos Eduardo M. Matheus: Será o mesmo método nosso com um acréscimo: nós estamos perguntando como é que o eleitor vai fazer para votar, na medida em que o nome de Silvio Santos não estará na cédula.

Hugo Studart: Então de novo o senhor vai lembrar que o Silvio Santos é candidato?

Carlos Eduardo M. Matheus: E vamos lembrar que ele já fez uma escolha, porque primeiro eu falo dos candidatos já presentes na cédula. E vou dizer: “Olha, você acabou de me dizer que vai votar neste candidato”. Ou seja, eu reforço uma escolha que ele já me deu. Então se ele me diz “Não, eu também posso votar no Silvio Santos”, significa que existe uma predisposição do eleitor, uma predisposição que eu não sei se vai se confirmar, mas é uma predisposição de mudar o voto.

Hugo Studart: Doutor Matheus, na hora em que o eleitor chega à cabine de votação, o fiscal do TRE em nenhum momento chega e diz assim: “Se o senhor quiser votar no Silvio Santos, tem que marcar o nome do Armando Corrêa”. Ele não diz isso. Ele entrega uma cédula em branco, e a pessoa tem que saber ou não saber. O senhor não acha que simplesmente não falando nada fica mais de acordo com a realidade?

Carlos Eduardo M. Matheus: Ficaria mais com a realidade do momento da pesquisa. Agora, o momento da pesquisa é uma realidade que ainda nós não estamos concretamente avaliando, porque existe um fato que também não é real que é a candidatura em si. A intenção de votar em Silvio Santos me parece que mede o limite extremo superior do voto. Nas próximas pesquisas, o que nós vamos tentar avaliar é em que medida o leitor estará informado a respeito da candidatura e em que medida ele já tem o nome na cabeça. Para isso nós vamos usar agora uma pergunta que de repente se tornou muito importante, que é o chamado voto espontâneo. Ou seja, antes de apresentar a cédula, a gente pergunta “em quem você vai votar?”, sem mostrar candidato nenhum. E ele pode dizer o nome que ele quiser, mesmo que não seja candidato. Essa resposta espontânea passará a ser agora um sinalizador importante, porque esse eleitor que disser que vai votar no Silvio Santos sem olhar na cédula, esse com certeza votará. Os demais poderão votar ou não, poderão errar ou acertar, dependendo da propaganda, dependendo das informações que eles buscaram.

Ivan Ângelo: Eu ia perguntar o seguinte. Na pesquisa publicada um dia depois do aparecimento da candidatura do Silvio Santos, deu 29% no Gallup, publicado pelo [jornal] O Estado de S. Paulo e pelo Globo. Dois dias depois, no sábado, a Folha [de S.Paulo] publica uma pesquisa em que também consta o nome do Silvio Santos e, surpreendentemente, 14% junto com o Lula, sendo que Collor parece ter 21%. Essa diferença que parece chocante – é de apenas dois dias depois – me leva a perguntar o seguinte: é por causa do método adotado, o resultado varia com o método? E, se varia com o método, basta o pesquisador escolher um determinado tipo de método para chegar a um tipo de resultado desejado por alguém ou não?

Carlos Eduardo M. Matheus: Em primeiro lugar, eu gostaria que você comparasse os resultados com a cédula, ou seja, os resultados de DataFolha, Ibope, Gallup com a cédula de votação. Os resultados estão muito próximos: a Folha tinha dado 26%, o Gallup, 27%, o Ibope 28% pra Collor; Lula com 14%, Brizola entre 14% e 15%, depois vinha Covas na nossa pesquisa em 4º lugar com 9%, 10%. Hoje o Ibope dá Covas com 10%, enfim. Há uma aproximação muito grande quando nós estamos trabalhando com os mesmos critérios. Agora nós temos um fato novo que é novo, como eu disse, para todos, inclusive para o eleitor, inclusive para pesquisa. Como eu disse, nós adotamos caminhos diferentes. Nós estamos avisando o eleitor de que existe um candidato novo, a Folha não fez isso; ela simplesmente colocou o nome, o Ibope também, simplesmente colocou o nome no círculo, o círculo é difícil de achar, mas ele colocou o nome, e não avisou que o candidato está entrando na campanha. Nós avisamos, mas para contrabalançar esse desequilíbrio que a lembrança do nome faz, nós alertamos ao entrevistado que ele já tinha feito uma escolha, portanto, por coerência, ele deveria manter a escolha. Nós estamos buscando um método para medir uma situação imprevista...

Ivan Ângelo: Eu estou querendo saber se a escolha do método pode ser feita maliciosamente?

Carlos Eduardo M. Matheus: Não, maliciosamente não, nós estamos procurando com a maior boa fé que [Ivan Ângelo fala ao mesmo tempo que Carlos Eduardo]. Eu acho que há boa fé por parte da Folha, há boa fé por parte do Ibope, e há boa fé por nossa parte...

Ivan Ângelo: Estou falando em tese...

Carlos Eduardo M. Matheus: Claro, nós estamos encontrando a melhor ferramenta, o questionário. Agora se você faz em uma pesquisa perguntas diferentes, você pode obter resultados diferentes. Isso é importante que se saiba. Pergunta diferente, o resultado é diferente. Nós estamos buscando a melhor pergunta; pareceu-nos melhor esse caminho. A Folha e o Ibope procuraram esse outro caminho, nós não temos nenhuma experiência anterior, nunca tivemos até hoje na minha vida de pesquisador, eu nunca tive uma situação em que o candidato não está na cédula e que o eleitor tem que levar de cabeça o nome, não pode escolher de outra maneira.

Heródoto Barbeiro: Doutor Matheus, os candidatos têm investido com maior ou menor regularidade contra os institutos de pesquisa de opinião, especialmente quando não estão nos primeiros lugares. Eu tenho visto o seguinte. Nos comícios eleitorais do candidato A, B, C ou D, quando eles investem contra a pesquisa, eles dizem o seguinte: “Quem aqui já foi pesquisado levante o braço”. E absolutamente ninguém levanta o braço, o senhor já deve ter visto isso inclusive...

Jorge Escosteguy: Alguém aqui já foi pesquisado?

Heródoto Barbeiro: Mas era exatamente essa pergunta que eu iria fazer para o doutor Matheus. O senhor já foi pesquisado, não pelo Gallup, logicamente, mas pelo DataFolha, pelo Ibope ou por qualquer outro instituto de opinião pública? Já ligaram na sua casa perguntando em quem o senhor vai votar para presidente?

Carlos Eduardo M. Matheus: No meu caso não, mas veja bem. Para nós respondermos essa pergunta, o importante é lembrar o seguinte: são 82 milhões de eleitores. As pesquisas usam três mil eleitores em cada pesquisa. Ainda que ao longo de uma campanha nós entrevistemos trinta, quarenta, cinqüenta mil eleitores, no total dessa campanha serão entrevistados duzentos, trezentos mil eleitores, o que é um fragmento muito pequeno do conjunto de 82 milhões. Ou seja, no final da campanha a grande maioria não será realmente entrevistada. Agora, isso não é um argumento que... ou revela, por parte dos candidatos, ignorância, ou revela má fé; ou eles estão querendo simplesmente usar um argumento que, para o senso comum, pode parecer um argumento válido, mas que não é. Ou eles estão simplesmente demonstrando que não conhecem estatística, o que é lamentável.

Jorge Escosteguy: Matheus, aproveitando só uma carona - Tão, eu já passo a pergunta para você. Você falou aqui no universo de pessoas pesquisadas, e o César Angeluchi, aqui de São Paulo, da Vila Mariana, que é estatístico, afirma aqui: “A margem do número de segurança para uma pesquisa ter base científica é de 1% sobre o universo pesquisado. Portanto seriam necessárias 820 mil entrevistas porque o colégio eleitoral beira os 82 milhões de votantes. Como se baseia o Gallup pesquisando apenas de três a cinco mil pessoas, portanto um número, diz ele, irrisório, de pessoas pesquisadas?”

Carlos Eduardo M. Matheus: Com todo o perdão, esse rapaz não é estatístico; se ele fosse estatístico não faria essa afirmação. Evidente que uma amostra, a partir de um determinado número, um tamanho de universo, já não tem mais qualquer relação com o tamanho do universo. Se a população é de cem milhões de pessoas, a amostra não precisa ser proporcionalmente maior, isso é de bom senso...

Jorge Escosteguy: Depois de certo ponto, ela é...

Carlos Eduardo M. Matheus: É o que nós estatisticamente chamamos de universo infinito. O universo infinito não precisa mais guardar nenhuma proporção, [retificando] a amostra não precisa guardar nenhuma proporção com o universo. Então, basicamente, só para ressaltar isso que foi dito, não só o nosso plano amostral como o de outros institutos profissionais que estão trabalhando nesta campanha, foram elaborados por estatísticos profissionais, não fui eu que elaborei o plano amostral. Há um estatístico que também trabalha no nosso instituto, que elaborou esse plano e que definiu esse tamanho.

Tião Gomes Pinto: Matheus, vamos falar em números para o telespectador entender. Silvio Santos aparece candidato, o Gallup solta pesquisadores para ouvir três mil pessoas no Brasil. Eu queria saber quantas pessoas dessas três mil nessa pesquisa foram ouvidas em São Paulo, quantas no Rio de Janeiro, qual é a proporção, se é relacionada com a população, com o número de eleitores. E como é que você faz para dividir as chamadas classes A, B, C, D, E? Isso também é proporcional à sociedade, ao perfil da sociedade brasileira?

Carlos Eduardo M. Matheus: Olhe, Tão, o que nós chamamos de plano amostral, quer dizer, uma sistemática que é previamente elaborada para depois ser executada na coleta dos dados parte, no nosso caso, de um sistema que é o seguinte. Inicialmente nós segmentamos, dividimos o eleitorado em regiões geográficas homogêneas. Essas regiões geográficas do país são subdivididas em função do tamanho de cidade. Depois, em cada faixa de cidade são sorteadas algumas cidades para ingressarem na amostra. É feito um sorteio em que a aleatoriedade é fundamental; pode entrar uma cidade, pode sair outra, de uma amostra para outra. Sorteada a cidade, nós vamos aos quarteirões da cidade, vamos sortear quarteirões. Pegamos o mapa da cidade, vamos até a cidade, sorteamos um determinado quarteirão, e depois o entrevistador, de posse daquele quarteirão, vai até à cidade. Naquele quarteirão que foi previamente especificado no nosso escritório, ele deve fazer um arrolamento do quarteirão; o que chamo de arrolamento é uma listagem de todos os domicílios presentes. Depois que ele faz isso ele tem um critério para sortear seis domicílios; dependendo do número poderá ser oito, poderá ser dez, ou no máximo parece que é oito, mas poderá ser três ou dois, dependendo do número de domicílios. Depois que ele fizer esse sorteio vai visitar os domicílios sorteados e verificar quantos eleitores moram nesse domicílio. Se é apenas um, este deve ser entrevistado; se for mais de um, ele deve também sortear o eleitor a ser entrevistado. Então veja que é um processo, no nosso caso, por etapas. O resultado disso é uma amostra representativa por todos os níveis sócio-econômicos, por todos os grupos etários, níveis de escolaridade etc. Ou seja, duzentas e tantas cidades estão presentes na amostra com eleitores dispersos por todo o país. Essa é a idéia básica não sei se isso vai ficar.

Heródoto Barbeiro: Matheus, uma pergunta: quanto custa uma pesquisa dessa e quem é que paga essa pesquisa?

Jorge Escosteguy: Só um minutinho, por favor, Matheus. A pergunta que você respondeu também foi feita pelo Júlio Estancato, de Campinas, pelo Rufino Portela, do centro, aqui em São Paulo; e pelo Arnaldo Conceição, de Santo André. E a pergunta feita pelo Heródoto, “Quem paga as pesquisas e quanto custam as pesquisas”, também foi feita pelo Alexandre Marcovici, da Vila Olímpia, aqui em São Paulo; Carlos Alberto Rocha, do Butantã; e Eunice Vieira Rosato, de São José dos Campos.

Carlos Eduardo M. Matheus: É uma pergunta importante. Gostaria de deixar bem claro. Nós temos um contrato com jornais. Os principais são: O Estado  de S. Paulo, no estado de São Paulo; no estado do Rio de Janeiro, O Globo; no estado do Rio Grande do Sul, o jornal Zero Hora; no estado de Pernambuco, o Jornal do Commercio. São esses jornais que se cotizaram e pagam simultaneamente todo o trabalho. Esse trabalho para lhe dizer custa aproximadamente cinqüenta mil BTNs [Bônus do Tesouro Nacional, indexador utilizado na época].

Heródoto Barbeiro: Cada pesquisa?

Carlos Eduardo M. Matheus: Cada amostra.

Tão Gomes Pinto: As revistas [...] as revistas [...] Veja têm um contrato com o instituto, a Isto É Senhor ou com outro...

Carlos Eduardo M. Matheus: Infelizmente não tem, gostaria que tivesse. Na verdade, só esses jornais é que contrataram.

Durval Ferreira: Doutor Matheus, o senhor tinha falado que havia surgido um fato novo, que é o do Silvio Santos, e que os institutos estavam despreparados para fazer essa pesquisa. Nós estamos a nove dias das eleições e trabalhando na hipótese também de que a candidatura Silvio Santos possa ser impugnada – vamos dizer que seja impugnada – não vai dar uma informação muito errada para o eleitorado que vai estar a questão de horas de ir para as urnas, e isso também não vai colocar em risco a reputação dos institutos de pesquisa?

Carlos Eduardo M. Matheus: Que informação errada seria essa? De que o Silvio Santos, hipoteticamente, seria candidato e depois deixou de ser? Veja bem, nós estamos pesquisando...

Durval Ferreira: Vai mudar tudo. Pelo o que ele havia falado, o Collor foi para 23%, Silvio Santos foi para 18%. Quer dizer, se ele sair, muda novamente.

Carlos Eduardo M. Matheus: As pesquisas estão sendo feitas com a hipótese de ele ser ou não ser candidato. Nossa última publicação deixava muito claro isso, não sei se você viu. Tanto O Globo como o Estado publicaram claramente: com o Silvio Santos, Fernando Collor teria 27,5%, mais ou menos; o 2º era Lula, que tinha 14,5% ou 15%, não me lembro bem do número; em 3º vinha o Brizola, depois Covas etc. Isso sem Silvio Santos. Na hipótese de Silvio Santos se candidatar, e obviamente na hipótese de o Tribunal Superior Eleitoral aceitar a sua candidatura em definitivo, o quadro mudaria, mas daí vamos ter eleição e vamos confirmar isso.

Durval Ferreira: Não ficaria muito em cima da hora assim?

Carlos Eduardo M. Matheus: Mas a candidatura está em cima da hora, a candidatura que foi em cima da hora, não foram as pesquisas. As pesquisas estão tentando retratar uma situação que está aí...

Jorge Escosteguy: Por favor, só para completar a roda com o Marco Damiani, apenas para esclarecer, o custo da pesquisa de cinquenta BTNs seria algo em torno de 250 mil cruzados novos...

[...]: Milhões...

Marco Damiani: Minha pergunta é no sentido da influência das pesquisas no resultado final da eleição. Uma pesquisa feita recentemente nos Estados Unidos comprovou que realmente as pesquisas de opinião têm resultado determinante no pleito, no resultado final da eleição. Eu queria saber se o senhor concorda com essa afirmação; e uma vez concordando se o senhor tem alguma sugestão a dar ou se o senhor acha necessário o processo político, o processo democrático ter algum antídoto contra o que a gente pode considerar ser a ditadura das pesquisas na medida em que elas influenciam demais o eleitorado?

Jorge Escosteguy: Davi Mariano dos Santos, de Lins, no estado de São Paulo, também faz a mesma pergunta, e acrescenta se as pessoas em geral gostam de votar em quem está ganhando, ou seja, quem está na frente das pesquisas.

Carlos Eduardo M. Matheus: O uso da palavra influência é extremamente ambíguo. Já vi que você dá a essa palavra um sentido negativo, ou seja, ela não deveria influenciar, é o que você pensa. Na verdade a influência que a pesquisa tem, se é que existe - e é muito menor do que se pensa-, tem dois sentidos pelo menos, senão mais. Eu diria que um dos sentidos, que é importante, é o de informar o eleitor a respeito de chances ou possibilidades dos vários candidatos. Em uma sociedade numerosa como a nossa, como o Brasil, não existe outra maneira de nós nos conhecermos senão através de pesquisa. Veja o censo, o censo é uma grande pesquisa. Como nós podemos saber que somos 140 milhões hoje? Através do censo. E é necessário, em uma sociedade de massas, que a população colabore respondendo as pesquisas para que a própria população se beneficie da informação. No caso da pesquisa eleitoral, o que nós temos é uma situação de o eleitor querer saber, ou os candidatos quererem saber, ou a imprensa querer saber, qual seria o resultado da eleição se a eleição fosse no momento em que a pesquisa é feita. Essa curiosidade existe, a técnica já foi criada, já está à disposição, nós podemos usá-la ou não. Há alguns anos atrás quem usava eram apenas os candidatos. Os candidatos encomendavam a sua respectiva pesquisa e publicavam ou não, se lhes convinha. Ou seja, usavam a pesquisa como um instrumento de propaganda para, aí sim, influenciar em seu benefício; fazia da pesquisa uma simples peça publicitária. A partir do momento em que as pesquisas deixaram de ser financiadas – as pesquisas publicadas sérias publicadas –, ou seja, pagas pelos candidatos e sim pagas pela imprensa, passaram a ser publicadas na íntegra, exatamente como são e não apenas quando convinha para o candidato. Então existe agora uma nova fase que nós estamos vivendo, de isenção da publicação. Ou seja, a pesquisa, que já era isenta, deixou de ser utilizada como um instrumento de publicidade. Agora que há alguma influência, acho que é normal que exista, a propaganda existe para influenciar o eleitor...

[Sobre posição de vozes]

Carlos Eduardo M. Matheus: Eu só queria completar dizendo o seguinte. A influência, e que existe, que eu acho que pode ser benéfica é quando o eleitor de uma sociedade como esta quer saber que chances ele tem ou a que grupos ele pertence e a que segmento de opinião ele pertence. No caso de uma eleição, ele quer dar utilidade ao seu voto, por exemplo, dizendo “vou votar neste candidato para impedir que outro candidato ganhe”. Isso é um direito que ele tem...

Jorge Escosteguy: Mas nesse sentido é um voto útil?

Carlos Eduardo M. Matheus: E que se não fosse publicada a pesquisa, poucos teriam acesso a ela. Hoje, com a publicação, com a liberação, com a democratização da informação, qualquer um pode ou não usar-se desse critério, a liberdade é dele. “Eu quero votar no vencedor”, é um direito dele. “Eu quero votar no perdedor, eu vou votar neste candidato, independentemente de ele ganhar ou perder”. É uma escolha que cada eleitor faz usando também esse critério, eu acho isso mais livre.

Ivan Ângelo: Quer dizer então que é questão de estratégia, não é? Porque aí muda apenas a estratégia, você não acha que isso é uma coisa [a ser] condenada? Quer dizer, a pessoa ter que, em um determinado momento, votar útil porque a pesquisa indica este rumo ou aquele...

Carlos Eduardo M. Matheus: Eu acho justo que ele queira fazer isso...

Ivan Ângelo: Introduz apenas uma estratégia no voto de modo geral.

Carlos Eduardo M. Matheus: Há eleitores que fazem isso e há eleitores que não fazem isso. Eu acho justo que ele queira fazer se ele quiser usar isso. Nós tivemos na eleição do ano passado, aqui em São Paulo, uma situação desse tipo. Havia eleitores de [João] Leiva e eleitores de [José] Serra para os quais era preferível a vitória de [Luiza] Erundina à vitória do Maluf. Uma parte dos eleitores, não todos, mas uma parte. Então quando eles viram a pesquisa... e se eles não soubessem da pesquisa talvez eles tivessem votado no Serra ou no Leiva, e o Maluf teria ganhado. Mas para os eleitores, quando tiveram acesso à informação, eles quiseram – foi um ato livre do eleitor – eles quiseram votar na Erundina. Erundina teve votos do Serra...

Ivan Ângelo: Exatamente isso que eu queria introduzir é…

Hugo Studart: Parece que há pesquisas que mostram que esse voto útil é bem menor do que se imagina, as pessoas costumam mudar bem menos de voto. Especialmente o eleitor mais popular, o eleitor menos instruído, não é?

Carlos Eduardo M. Matheus: A mudança de voto não quer dizer necessariamente a influência da propaganda; ela influi, às vezes, até menos do que se pensa, e a pesquisa menos ainda. Agora, é evidente que há uma parcela dos eleitores que não tem muita certeza a respeito de um determinado candidato. Hoje, por exemplo, neste quadro que nós temos, existe uma parcela do eleitorado que já decidiu, não vai mudar, aconteça o que acontecer...

Jorge Escosteguy: [falando ao mesmo tempo que Carlos Eduardo] Qual é o percentual dessa parcela, Matheus?

Carlos Eduardo M. Matheus: Mas existe uma parcela, que vem sendo de aproximadamente 40%, que é muito grande, que está entre dois ou três candidatos. E essa escolha vai depender um pouco das chances de um candidato ou de outro, vai depender do que esse candidato apresente até o final...

Hugo Studart: 40% nesse voto útil? 40% estariam enquadrados nesse possível voto útil?

Carlos Eduardo M. Matheus: Não necessariamente voto útil, mas eles estão em dúvida entre dois ou três. Um dos critérios que provavelmente poderá ser utilizado por essa parcela do eleitorado poderá ser o voto útil. Nós não sabemos exatamente, estamos tentando medir isso, quantos vão votar para impedir.

Tão Gomes Pinto: Matheus, é comum a gente ler na imprensa que determinado instituto que está a serviço ou é contratado por determinado candidato, caso do Vox Populi, que parece ser um instituto idôneo e tecnicamente muito bem equipado, todo mundo sabe que ele trabalha para o senhor Fernando Collor de Melo. Quero saber se você acha isso conveniente, se existe algum impedimento ético e se o Gallup já fez ou faz pesquisas encomendadas por candidatos ou por partidos. Se algum partido entra nesse rateio desses 250 mil cruzados novos que custa uma pesquisa?

Carlos Eduardo M. Matheus: Eu acho que eticamente é aceitável que um instituto trabalhe para um candidato e para um jornal. Eu acho perfeito isso, acho que não há nenhum impedimento de regulamentação profissional com relação a esse assunto. O que existe é política de cada instituto com relação ao assunto. No caso do Gallup, nós temos adotado sistematicamente a seguinte política. Quando nós trabalhamos para imprensa é só para imprensa, daí é para publicar; quando é para o candidato, nós colocamos uma cláusula de não-publicação, nós exigimos que o candidato cumpra isso, ou seja, ele não pode publicar o dado ainda que lhe convenha. Então isso é mais uma questão de política de cada instituto. Agora se um determinado instituto fizer uma pesquisa para um determinado candidato e depois fizer uma pesquisa para um determinado jornal, eu não veria isso como, em princípio, errado, desde que ele cumpra os procedimentos técnicos adequados. Mesmo porque cada candidato pode solicitar uma ou mais pesquisas, um ou mais institutos. Vamos agora falar de pesquisa de mercado. Nesta não existe aquela proibição ética que existe nas agências de propaganda. Você sabe que uma agência de propaganda não pode trabalhar para produtos concorrentes, exatamente porque o publicitário precisa estar envolvido com o produto, ele precisa acreditar no produto, ele precisa tomar parte daquelas opiniões que aceitam o produto ou que preferem o produto, para poder fazer um bom anúncio. No caso de pesquisa é o contrário. Um mesmo instituto pode trabalhar para dois produtos de mercado concorrentes entre si, fazendo duas [pesquisas]. É claro que não vai fazer a mesma pesquisa e vender duas vezes! Mas pode fazer uma determinada pesquisa para um concorrente, e outra pesquisa para outro concorrente, sem que ele esteja ferindo a ética profissional.

[Sobreposição de vozes]

Jorge Escosteguy: Um de casa vez, por favor. O Tão acrescenta rapidamente, o Emanuel e o Heródoto.

Tão Gomes Pinto: Como você vê, Matheus, a presença do profissional de pesquisa como consultor político, seja de governo, seja de candidato? Parece-me, inclusive, que você já exerceu uma função de consultoria a políticos ou a governos...

Carlos Eduardo M. Matheus: Existe, inevitavelmente, quando a gente termina um trabalho de pesquisa, é normal que aquele que solicitou o trabalho venha pedir mais informações a respeito da interpretação da pesquisa. Uma coisa são os dados frios, outra coisa é o que eles significam e que repercussões ou que desdobramentos eles poderão ter ou como articulá-los de maneira mais inteligível. É normal que quando a gente está trabalhando para um determinado candidato... – e já fizemos dezenas de campanhas para determinados candidatos. Isso acontece, por exemplo, muito em campanhas municipais, nas quais em cada município há um determinado candidato que nos contrata para acompanhar a sua candidatura e a sua campanha. É natural que depois que a gente entrega cada trabalho que eles marquem uma reunião, que peçam que a gente converse com os assessores de propaganda, enfim, que haja um entrosamento entre a informação que a pesquisa dá e aquilo que vai ser acionado na campanha.

Emanuel Neri: Doutor Matheus, tem um dado curioso de uma pesquisa que o senhor fazia, aliás, duas pesquisas feitas em Campinas o ano passado. Ao mesmo tempo o senhor fazia uma pesquisa para o candidato do PSDB, que era o Vanderlei Simionatto, e para o Manuel Moreira, que era o candidato do PMDB. Em uma mesma época, na mesma data, com a mesma amostragem, saiu uma pesquisa favorável ao Manuel Moreira, e outra pesquisa favorável ao Simionatto, que era do PSDB. Como é que o senhor explica essa pesquisa?

Carlos Eduardo M. Matheus: Não foi isso. Foi um mal entendido, e a imprensa não entendeu e não esclareceu claramente o que aconteceu. Na verdade nós vínhamos fazendo uma série de pesquisas para o prefeito, que no caso não era propriamente o Simionatto e sim o Magalhães Teixeira. E ele nos solicitou uma determinada pesquisa que coincidiu de ser aproximadamente na mesma data de outra solicitação do candidato do PMDB, que pediu outra pesquisa com outras perguntas. Algumas perguntas eram comuns, como por exemplo a preferência por partidos, que era obrigatória. Nós avisamos ao então prefeito Magalhães Teixeira que estávamos sendo solicitados para realizar outra pesquisa para o candidato do PMDB e avisamos o candidato do PMDB que estávamos realizando pesquisa para o prefeito. As duas pesquisas foram realizadas, dois questionários independentes, duas pesquisas com resultados aproximadamente semelhantes. E foram entregues e ambos sabiam que havia dois trabalhos em curso e que estavam sendo realizados em períodos bastante próximos...

Emanuel Neri: Doutor Matheus, eu me lembro dessa época que chegou a ser publicado o resultado nos jornais com resultados completamente diferentes, ou seja, a pesquisa feita para Manuel Moreira dava Manuel Moreira em 1º lugar; a do Simionatto dava Simionatto em 1º lugar.

Carlos Eduardo M. Matheus: A diferença era de 2% ou 3%.

Emanuel Neri: Mas a pesquisa foi feita no mesmo dia.

Carlos Eduardo M. Matheus: Não, não foi no mesmo dia.

Emanuel Neri: Na mesma data, pelo menos...

Carlos Eduardo M. Matheus: Foram duas amostras que tinham características um pouco diferentes, mas basicamente o problema não era esse. Primeiro, a pesquisa não foi feita com intenção de publicar; o candidato do PMDB depois se apressou em publicar como uma forma de utilizar a pesquisa como uma arma política contra o prefeito que estava em oposição a ele. Os resultados eram muito parecidos, havia uma diferença de 3% na preferência partidária e uma diferença com relação ao voto espontâneo exatamente porque eram duas amostras. Se fosse a mesma amostra, nós poderíamos ser incriminados, porque estaríamos vendendo a mesma pesquisa para duas pessoas. Nós fizemos duas pesquisas, avisando os dois de que se tratava de duas pesquisas...

Heródoto Barbeiro: Doutor Matheus, o senhor falou agora há pouquinho a respeito de instrução. O senhor diz que há uma reunião entre o instituto e o candidato e há discussão de algumas instruções que o instituto poderia passar para o candidato. Perguntaria ao senhor o seguinte. Dos atuais candidatos à presidência da República do Brasil, qual deles usa melhor essa pesquisa? Como é que um candidato à presidência da República pode usar essa pesquisa em seu favor numa tentativa de aumentar o seu eleitorado?

Carlos Eduardo M. Matheus: Com relação aos candidatos atuais, nós estamos bem afastados porque nós efetivamente não estamos realizando trabalho para nenhum candidato. Posso falar como observador...

Heródoto Barbeiro: [interrompendo] Os candidatos não consultam o Gallup?

Carlos Eduardo M. Matheus: Como?

Heródoto Barbeiro: Os candidatos não consultam, não ligam para lá, o assessor não liga para o senhor?

Carlos Eduardo M. Matheus: Eles têm nos procurado para pedir detalhamentos das pesquisas que são publicadas, e a gente está inteiramente à disposição para ceder. E até por lei podemos ceder, devemos ceder. Mas não existe nenhuma consulta, nós não estamos trabalhando sob a forma de consultoria, porque como eu disse, nós adotamos, fazemos a opção de trabalhar para um determinado candidato, e o Gallup não vem à tona em termos de publicação, não é para ser publicado. Porque achamos que existe um conflito, quando há um interesse do candidato, quando há um interesse de divulgar. Porque daí o candidato vai querer interferir na publicação, e como ele financia isso vai sempre gerar um certo mal estar ou uma certa suspeita. Então nós preferimos adotar políticas diferentes. No caso desta campanha nós não estamos trabalhando para nenhum candidato e não temos sido procurados pelos candidatos. Eles estão se utilizando da pesquisa na medida em que os jornais as publicam.

Jorge Escosteguy: Matheus, por favor, só um minutinho. Nós temos que fazer um rápido intervalo e em seguida eu passo a pergunta a você. O Roda Viva volta daqui a pouco, entrevistando, hoje, Carlos Matheus, do Instituto Gallup de pesquisas. Até já.

[intervalo]

Jorge Escosteguy: Voltamos com o Roda Viva que hoje está entrevistando o diretor do Instituto Gallup de Pesquisas, Carlos Matheus. O telespectador Hélio de B. Ramos, de Porto Alegre, havia perguntado sobre as diferenças entre os índices de pesquisa, e o Matheus já respondeu. E agora o João Marcos Custódio, de São José dos Campos, pergunta ao Matheus de onde vieram os votos do Silvio Santos. Quem perdeu votos? Foram os indecisos que optaram por ele?

Carlos Eduardo M. Matheus: A pesquisa que nós publicamos na semana passada já deixava claro que o maior perdedor é Fernando Collor, mas é evidente também que há mais migração para Silvio Santos de candidatos como Afif, Maluf, Collor do que, por exemplo, Brizola e Lula. Nestes dois a migração é menor.

Jorge Escosteguy: O Joaquim Santana de Morais, aqui de Santo Amaro, pergunta justamente qual é a explicação para a queda tão brusca do Afif?

Carlos Eduardo M. Matheus: Existem duas razões basicamente. O Afif apareceu praticamente no início da propaganda do TSE. Ele era uma novidade tanto quanto o Collor, foi uma novidade em março e abril com aqueles programas em que ele se tornou mais conhecido em nível nacional. A partir do momento em que ele apareceu como novidade, ele passou a ganhar o voto da classe A, ou o voto do eleitor mais politizado. Esse crescimento vinha avançando até para classe B quando de repente aconteceram alguns fatos. Primeiro, foi atacado e ele não tinha uma imagem muito consolidada; ele foi atacado primeiro pelo Collor e depois pelo Covas naquele debate da Rede Bandeirantes. E naquele debate, segundo pareceu a uma parcela grande dos eleitores, ele não teria respondido suficientemente bem. Tanto assim que depois ele teve que re-explicar a questão de voto na Constituinte. O fato é que o eleitorado que estava encontrando e buscando nele uma novidade, a partir do momento em que ele começou a sofrer ataques de vários lados houve uma história familiar, houve uma série de fatores, a novidade começou a ser posta em dúvida muito cedo, e a imagem dele que era uma imagem ainda em formação não resistiu a essas críticas, e ele então passou a declinar.

Hugo Studart: E o Silvio Santos, doutor Matheus? O Silvio Santos não está com este bom desempenho porque é novidade? Será que se a campanha rolasse por mais um mês, três semanas, será que ele continuaria mantendo esses bons índices? O eleitor não pensa em votar no Silvio Santos porque está se lembrando dele no meio de 22 candidatos mais ou menos anônimos?

Carlos Eduardo M. Matheus: Eu acho que esse fator está influindo muito. Aliás, dá até para supor que essa tenha sido a estratégia dele...

Hugo Studart: Essa é a lógica dele.

Carlos Eduardo M. Matheus: Foi exatamente esta a estratégia: ingressar no final através de uma possibilidade legal que parece existir – não sei se existe –, mas para expor-se menos ao ataque. Veja que o Collor cresceu, chegou a 45% quando ele era uma pessoa não atacada. Quando começaram a fazer críticas ele começou a perder; mesmo sem crítica, o próprio aparecimento dele naqueles programas de entrevistas em que ele aparecia, ele começou a perder votos, porque a novidade começou a perder o atrativo inicial. O Afif também representou uma certa novidade, mas a novidade tem sempre uma vulnerabilidade muito forte, e sendo novidade ela não precisa, ela não pode ser atacada muito cedo. E o Silvio Santos, é claro que ele é uma novidade em política, ele é conhecido fora da política. Se ele for atacado como político, ele poderá cair assim tanto quanto o Collor ou o Afif caiu.

Tão Gomes Pinto: Você falou que na análise da primeira pesquisa do Gallup sobre o efeito Silvio Santos, ficava claro que ele tirava votos do Collor, na grande maioria, um pouco do Maluf...

Carlos Eduardo M. Matheus: Maluf, Afif, principalmente.

Tão Gomes Pinto: Essa pesquisa foi oferecida ao jornal O Globo.

Carlos Eduardo M. Matheus: Não oferecida, já estava comprada...

Tão Gomes Pinto: Já estava comprada pelo Globo. E o Globo, em cima da pesquisa, parece que produz a seguinte manchete: “Silvio Santos tira a esquerda do segundo turno”. O Globo não entendeu a pesquisa ou vocês não conversaram? O que houve? O resultado da pesquisa exatamente contraria a manchete feita em cima da pesquisa.

Carlos Eduardo M. Matheus: Não está de todo errado. O que eu gostaria de salientar é o fato de que como nós estamos trabalhando para quatro jornais, a gente agora tem a possibilidade de constatar ao vivo o quanto existe de diferenças de posição entre os vários jornais e quanto os próprios jornalistas pensam de maneira diferente, e acabam publicando até uma mesma pesquisa de maneira diferente. Quer dizer, se você comparar, não só esta mas outras pesquisas que foram publicadas simultaneamente pelo Globo ou pelo [O] Estado [de S. Paulo], você vai verificar que a maneira de dar a manchete, a maneira de dar o lide da matéria [parte inicial que contém as informações mais importantes] varia muito em função da orientação do jornal, em função da visão que o jornalista tem dos dados e, portanto, a pesquisa também passa pelo filtro do olhar e dos valores do jornalista.

Ivan Ângelo: Matheus, eu queria saber o seguinte. Para fazer uma pesquisa, geralmente os institutos previnem que há um erro, uma margem de erro possível de 2%, depende de instituto para instituto, conforme a pesquisa, mas o número é mais ou menos 2%. Com essa variável Silvio Santos, essa margem aumenta ou diminui? E como se avalia o erro introduzido nessas pesquisas com ficha, sem ficha, com cédula, sem cédula, com cartão, com disco?

Carlos Eduardo M. Matheus: Aí nós estamos fora da estatística. Uma coisa é: o que nós chamamos de erro é basicamente a oscilação amostral em relação ao universo. Se você tivesse dez mil bolas azuis e vermelhas em um saco e tivesse que tirar uma amostra de cem bolas, provavelmente você tiraria metade azul, metade vermelha, em uma proporção aproximada, não seria exatamente cinqüenta e cinqüenta, poderia ser 51, 49, supondo que houvesse metade de cada uma. Essa oscilação entre a amostra e a contagem total sempre acontece. Ela varia um, dois, três, pode ser até um pouco mais de 4%; depende do percentual, do tamanho da amostra etc. Isso é o que nós podemos chamar uma oscilação que se chama também de erro, mas é uma oscilação inevitável em todas as amostras. Qualquer amostra tem sempre uma certa variação; é praticamente impossível que a amostra coincida exatamente com a total apuração dos votos. Agora o caso Silvio Santos é fora de qualquer padrão, porque nós não sabemos... Agora nós estamos falando de outro tipo de erro, que é o erro do eleitor, o erro da campanha. Existe um erro básico na cédula, quer dizer, a cédula tem um candidato que não consta dela e que pode ser votado...

Ivan Ângelo: Mas pode ter um erro muito grande...

Carlos Eduardo M. Matheus: Isso é fato gerador de um erro extra-pesquisa que é impossível...

Ivan Ângelo: Pode ter um erro maior do que nas outras eleições?

Carlos Eduardo M. Matheus: Evidentemente. Quando nós entregamos aquela pesquisa com 29%, eu alertei os jornalistas dizendo o seguinte: “esses 29% poderão ser mais e poderão ser menos. Isto aqui mede apenas, no momento, quantos porcento dos eleitores estão pensando, estão desejando, estão com vontade de votar no Silvio Santos. Não sei se vão votar, se vão conseguir votar, se vão acertar votar, e se efetivamente até o dia 15 de novembro vão continuar com essa mesma vontade”.

Jorge Escosteguy: Matheus, há uma história de que um dos candidatos, Fernando Collor de Mello, baseou toda a sua estratégia de campanha, no seu perfil como candidato, numa pesquisa sobre qual era o perfil de candidato que o povo brasileiro estava pedindo naquele momento. E ele pegou essa pesquisa e vestiu as cores, os tons, a roupa desse perfil. Eu perguntaria a você até que ponto isso é correto e até que ponto isso ajudou ou ao Fernando Collor ou pode ajudar a qualquer candidato.

Carlos Eduardo M. Matheus: Se ele fez ou não, eu não sei. Não foi pesquisa nossa, pode ter consultado outros institutos, acho até que deve ter feito, mesmo porque existe um instituto que, segundo se diz, eu não tenho certeza também, tem prestado serviços a ele. E se fez, não só agiu bem fazendo como também utilizou-se bem da pesquisa, porque acho que a comunicação dele traduz claramente certos ingredientes que certamente as pesquisas devem ter indicado e que nós sabemos. Hoje, por exemplo, já desde início do ano já sabíamos que outros pesquisadores... também estavam aí os dados para descobrir, deveriam ter descoberto e contado a ele que os eleitores queriam algo de diferente que não fosse comprometido ou ligado ao atual governo. Em primeiro lugar, queriam uma novidade que não fossem os políticos comuns já conhecidos; queriam alguém que fosse absolutamente contrário à corrupção, capaz de suprimir a corrupção que se diz existir no país e no governo. E finalmente queriam alguém que fosse capaz de conter o processo inflacionário em que o país está vivendo. A partir desses dados que nós já conhecíamos, antes até do Fernando Collor fazer aqueles famosos três programas de uma hora na televisão, nós já sabíamos disso, ele passou a falar sistematicamente “Eu vou combater a inflação e a corrupção” e ainda usou a bandeira dos marajás, do combate aos marajás, como uma forma de ampliar a noção de marajá para representar qualquer significado de corrupção existente no país. Portanto de alguma maneira ele usou informação de pesquisa.

Jorge Escosteguy: E a queda se daria em função da superexposição dele no programa eleitoral, na medida em que quando começou o programa eleitoral é que os eleitores passaram a conhecê-lo realmente?

Carlos Eduardo M. Matheus: Uma coisa é o que a pesquisa indica que ele deva fazer, outra coisa é como ele faz. A meu ver, ele teve a pesquisa correta, mas não a usou integralmente ou na perfeição que deveria ter utilizado. Portanto alguma coisa houve de falha nisso.

Heródoto Barbeiro: Matheus, é o seguinte. Pelo que eu sei, o Gallup é uma empresa internacional com sede nos Estados Unidos.

Carlos Eduardo M. Matheus: Não.

Heródoto Barbeiro: É uma empresa brasileira?

Carlos Eduardo M. Matheus: É empresa nacional, capital nacional, diretores nacionais. Existe uma associação internacional de pesquisadores, de pessoas físicas que coordenam no mundo em nível técnico e em nível ético o uso do nome Gallup, que é o nome que representa a origem das pesquisas de opinião pública no mundo.

Heródoto Barbeiro: Existe algum pagamento por isso, pela utilização do nome Gallup?

Carlos Eduardo M. Matheus: Nada. Eu sou pessoalmente afiliado a essa associação internacional que tem a mesma natureza de uma associação médica internacional. Ou seja, profissionais que se associaram para a troca de experiência em torno do fundador das pesquisas no mundo, que é Gallup [O estadunidense George Gallup (1901-1984) é o pioneiro em pesquisas de opinião]. E ele jamais quis ter algo de propriedade ou de negócios fora do seu país. Então houve apenas uma associação que se formou para zelar pelo nome e para intercambio técnico.

Heródoto Barbeiro: Matheus, esses dados que são coletados aqui dentro do Brasil são exportados?

Carlos Eduardo M. Matheus: Não.

Heródoto Barbeiro: Esses dados são enviados à matriz da Gallup nos Estados Unidos?

Carlos Eduardo M. Matheus: Não, não tem matriz. O Instituto Gallup de Opinião Pública é uma empresa totalmente nacional que não presta contas a ninguém, exceto a nós mesmos enquanto técnicos e profissionais, e aos nossos clientes que contratam nossos serviços. Não existe filial nem matriz. Cada Instituto Gallup que usa o nome Gallup no seu respectivo país tem que prestar...

Heródoto Barbeiro: [interrompendo] É um por país?

Carlos Eduardo M. Matheus: Um por país. Tem que prestar contas a essa associação internacional quanto à conduta ética e quanto à capacitação técnica. Se em um determinado país nós constatarmos que alguém se conduziu de maneira eticamente inadequada – nós, quer dizer, os representantes dos vários países – ou alguém que se mostrou incompetente para o uso do nome, ele pode ser desafiliado, e a partir desse momento ele perde o direito ao uso do nome.

[Sobreposição de vozes]

Jorge Escosteguy: Só um minutinho, por favor. O Valid Madi Keini, aqui da cidade Ademar, pergunta a você se “Gallup” quer dizer alguma coisa, se tem algum significado a palavra Gallup.

Carlos Eduardo M. Matheus: É, foi o que eu disse. As pesquisas de opinião pública foram criadas no mundo, na década de 30, por um professor universitário chamado George Gallup. Esse homem, que passou a ser o grande professor de pesquisa, que ensinou a todos os pesquisadores em todos os países; a partir de um determinado momento, junto aos seus companheiros de vários países, criou essa associação, que hoje é uma associação sem fins lucrativos, que simplesmente realiza intercâmbio em nível técnico e zela pelo uso do nome.

Marco Damiani: Doutor Matheus, eu gostaria de saber o seguinte. Se os adversários do Fernando Collor de Melo procurassem o senhor hoje em busca de conselhos, o senhor já os aconselharia a buscar desde já o voto útil contra Fernando Collor, na medida em que ele é o líder das pesquisas desde o início do ano, de todas as pesquisas, e deve provavelmente estar no 2º turno, deve vencer as eleições de 1º turno?

Carlos Eduardo M. Matheus: Em primeiro lugar, eu não aconselharia mais nenhum candidato a partir do momento em que nós firmamos um contrato com os jornais. Nós estamos hoje, todo nosso trabalho profissional está contratado pela imprensa, portanto...

Marco Damiani: A pergunta é muito no sentido de saber se o senhor acha que o Fernando Collor de Melo está no 2º turno?

Carlos Eduardo M. Matheus: Em segundo lugar, esse tipo de consultoria exigiria um tipo de pesquisa que não tem sido realizado normalmente por nós. Ou seja, os questionários para pesquisas que se destinam à consultoria têm que ser mais extensos, têm que avaliar a imagem do candidato, e têm que avaliar outros desdobramentos de campanha, avaliação da comunicação etc, coisa que nós não estamos fazendo. Nós estamos tentando entender qual é a evolução da intenção do eleitor, tentando entender porque ele está mudando de um candidato para outro e porque está se fixando em um determinado candidato, exatamente para acompanhar esse movimento que levará até o dia 15 de novembro. Então nesse momento eu diria: nós não somos talvez os melhores consultores.

[Sobreposição de vozes]

Hugo Studart: Não sua opinião, aí não é uma pergunta científica, é quase um achismo de alguém que está muito mais dentro do assunto do que a maior parte de nós e a maior parte da audiência... Quem é que em sua opinião tem mais chance de ir para o 2º turno? Por exemplo, eu gostaria de lembrar só que o Guilherme Afif Domingos, que estava em uma curva ascendente, hoje está em uma curva descendente; o Mário Covas está em uma curva ascendente; o Lula parece que deu um tropeção. O senhor acha que ele tem chance de se recuperar?

Marco Damiani: Só queria lembrar que, a essa altura, a nove dias da eleição, já há um caráter científico na previsão, quer dizer, as pesquisas, desde o início do ano...

Carlos Eduardo M. Matheus: Não é bem a previsão. Eu acho que só podemos dizer que um candidato já está eleito quando a pesquisa indica uma absoluta estabilidade, uma baixíssima mutabilidade. A mutabilidade ainda é grande, ela vem se mantendo no nível de 40%, que é o suficiente para uma grande reversão. Então nesse quadro nós ainda não podemos dizer quem vai ganhar. Agora pegando a pergunta do...

Hugo Studart: O achismo, não é?

Carlos Eduardo M. Matheus: É claro que nenhum pesquisador tem direito de achar nada, está certo? Todos vocês têm o direito de achar o que quiser, pesquisador não acha; ele investiga e avalia a partir das informações que tem. As informações que nós temos indicam, por experiências anteriores até, que candidatos que sobem e depois caem, como é o caso típico do Afif, dificilmente se recuperam. Isso é mais ou menos histórico. Segunda coisa, os candidatos que crescem no final podem produzir uma reversão sobre os indecisos e sobre os eleitores mutáveis no último momento.

Hugo Studart: Por exemplo, o Covas?

Carlos Eduardo M. Matheus: Como é o caso da Erundina em 1988, como pode ser o caso do Covas.

Hugo Studart: Tem algum outro que está nesse caso, crescendo na reta final?

Carlos Eduardo M. Matheus: Pode com esse crescimento conseguir em um determinado momento uma ampliação. Mas note que os candidatos que vêm crescendo nas nossas pesquisas são tanto o Lula como o Covas. A nossa última pesquisa dava ao Lula o 2º lugar; é verdade que muito próximo do Brizola. Mas o Lula, se você olhar a trajetória, ele passou de 5% para 15% em questão de um mês e pouco, o que não significa que ele vá continuar crescendo, porque o tamanho do Lula em fevereiro já era de 15%. Se vocês lembrarem as pesquisas que fizemos entre janeiro e fevereiro, Lula e Brizola estavam entre 14% e 16% com pequenas oscilações.

Hugo Studart: Chegou a 19% o Lula, se eu não me engano.

Carlos Eduardo M. Matheus: Não, na nossa não, chegou a 16%.

Emanuel Neri: Doutor Matheus, o Gallup não está detectando o crescimento de alguns candidatos meio atrasado? Por exemplo, [em relação a] o Lula, o senhor detectou agora que ele está crescendo quando os outros institutos detectaram há algum tempo. Isso aconteceu com o Afif também, ou seja, o Gallup dizia que ele estava crescendo quando os outros institutos de pesquisa, principalmente o Ibope e o DataFolha, já tinham registrado esse crescimento dele e já registravam uma queda dele, quando o Gallup o indicava com 11%, já próximo do Brizola. E essa queda do Afif se deu exatamente bem depois quando os outros institutos de pesquisa já davam a queda dele.

Carlos Eduardo M. Matheus: Nessa questão de atraso, você tem que levar em conta a data da publicação e a data da pesquisa. Pode ser defasagem na publicação. Mas no caso do Afif... vamos examinar caso por caso. Em primeiro lugar, no caso do Ibope, está havendo uma oscilação do Lula. E mesmo agora parece que para o DataFolha o Lula já apresentou um pequeno refluxo. Se você observar a nossa pesquisa, o Lula tem mantido um crescimento constante, em primeiro lugar. Segundo lugar, com relação a essa questão de defasagem, gostaria de lembrar que existe uma tendência que precisa ser observada. Quando, por exemplo, o DataFolha dá 1% a mais do que o nosso ou 2% a mais, isso não significa defasagem; significa simplesmente uma diferença amostral inevitável de uma pesquisa para outra.

Ivan Ângelo: Matheus, queria saber o seguinte. Tem um dado interessante e isso aqui é uma pergunta que fica entre o achismo, o feeling e realmente alguma coisa científica de pesquisa. Quando o Lula começou a subir nas pesquisas houve certa inquietação no mercado de aplicações e tal, o dólar subiu, ouro subiu, ficou sendo chamado até “efeito estrela” [referência ao símbolo do PT, uma estrela]. Então entrou o Silvio Santos e o dólar hoje está baixo, está por volta de dez e tanto. Então se chamou-se aquilo de “efeito estrela”, o que você acha do “efeito baú”? [referência ao Baú da Felicidade, empresa de Silvio Santos] Quer dizer, essa entrada do Silvio Santos interessa aos que movimentam o mercado de financeiro e tal? Por que essa tranqüilidade?

Carlos Eduardo M. Matheus: Eu não entendo nada de mercado de dólar...

Ivan Ângelo: Mas você trabalha com pessoas que prestam depoimentos para as pesquisas...

Carlos Eduardo M. Matheus: Mas posso dizer que existe um certo nervosismo excessivo com relação à maneira como as pessoas recebem a publicação de dado de pesquisa. Eu gostaria, se pudesse interferir nesse processo, que as pesquisas nem fossem tão desacreditadas como certos candidatos dizem e nem fossem tão acreditadas como certas pessoas pretendem acreditar. De repente um candidato sobe dois pontos, as pessoas dizem “já vai ganhar a eleição”, “já houve uma reversão total”. É preciso dar o sentido relativo do dado, é preciso saber entender o que ele significa naquele momento. Então esse mercado financeiro, essa área financeira pode ser muito sensível até desnecessariamente por não saber entender os dados como no seu limite, no seu significado momentâneo.

Heródoto Barbeiro: Matheus, eu queria um complemento sobre essa pergunta, que é o seguinte. Como o companheiro colocou, realmente nós tivemos alguns dias até de boatos na área do dólar, na compra do ouro, da própria bolsa de valores de São Paulo, mas não foram os dias que o instituto publicou, geralmente é no dia anterior à publicação. Porque se você tem os dados na mão, obviamente a realidade está ali escrita, mas quando você não tem os dados e tem o boato, a coisa corre de boca em boca, há uma euforia no mercado, então não é no dia da publicação, é no dia anterior. Eu pergunto o seguinte: como é que vazam os dados do Gallup? O Gallup passa no dia anterior para os candidatos, para poder repercutir? Ou o jornal faz isso para poder repercutir? Quer dizer, no dia seguinte, ele publica a pesquisa do Gallup, já publica a repercussão do candidato àquela pesquisa?

Carlos Eduardo M. Matheus: Se você fizer um retrospecto, vai verificar que nenhuma pesquisa nossa até agora vazou, desde que nós começamos a trabalhar com jornais. Agora havia um vazamento intencional quando nós tínhamos um contrato com a revista Isto É, porque a revista Isto É, como tinha naquele momento um contrato exclusivo, portanto era quem pagava a pesquisa até aquele momento, tinha interesse em um certo vazamento na véspera, como uma forma de promover a edição da revista. Isso aconteceu até junho. Mas se você observar, a partir do momento em que nós tivemos o contrato com os jornais, não tem havido vazamento, no caso do Gallup, não tem havido vazamento.

Jorge Escosteguy: Nós demos um dia no Jornal da Cultura, quando a pesquisa do Gallup era divulgada na quinta-feira, nós demos na quarta-feira à noite, às 19:55h, o resultado da pesquisa.

Carlos Eduardo M. Matheus: Então, tem certeza que foi o mesmo dado?

Jorge Escosteguy: Fui eu que escrevi.

Carlos Eduardo M. Matheus: Então significa que você tem muito boas relações com algum dos jornalistas com os quais a gente trabalha.

Jorge Escosteguy: Não necessariamente.

Carlos Eduardo M. Matheus: Não, mas você, pelo menos, já que disse, poderá me dizer se a fonte é jornalística ou se a fonte é política?

Jorge Escosteguy: A fonte eu não posso.

Carlos Eduardo M. Matheus: Não pode. [...] eu lhe afirmo: é jornalístico.

[...]: E os dados estavam corretos?

Jorge Escosteguy: Matheus, os dados estavam corretíssimos...

Tão Gomes Pinto: No caso do seu contrato com as Organizações Globo, o seu contrato é só com o jornal?

Carlos Eduardo M. Matheus: O jornal O Globo.

Tão Gomes Pinto: A televisão contratou o Ibope?

Carlos Eduardo M. Matheus: O Ibope.

Tão Gomes Pinto: A televisão não passa para seu público os seus dados?

Carlos Eduardo M. Matheus: A televisão não passa?

Tão Gomes Pinto: A sua pesquisa não é divulgada pela TV Globo?

Carlos Eduardo M. Matheus: Não vai para a televisão. Vai para a televisão depois de publicada.

Tão Gomes Pinto: Só depois de publicada?

Heródoto Barbeiro: Ela passa a ser domínio público ou não?

Carlos Eduardo M. Matheus: Sim, uma vez publicada é de domínio público.

Emanuel Neri: Doutor Matheus, essa questão de vazamento, eu me lembro do ano passado quando o senhor fazia a pesquisa para eleição municipal em São Paulo, para o Palácio dos Bandeirantes, o palácio do governo do estado. E o tempo todo em que o senhor fazia a pesquisa, o Leiva, que era candidato do PMDB, estava atrás. Ou seja, uma pesquisa que vazou do Gallup era a pesquisa que o Leiva estava na frente. O senhor não acha que isso compromete um trabalho de pesquisa?

Carlos Eduardo M. Matheus: Naquele caso houve vazamento. Não é que houve vazamento, o candidato, sem a nossa autorização, colocou na sua propaganda gratuita na televisão. A partir desse momento nós dissemos o seguinte: “a partir desse momento, nós vamos passar a publicar os dados”. E procuramos a imprensa e fomos publicar os dados. Tanto assim que você se lembra que, a partir do começo de novembro, nossas pesquisas deixaram de ser usadas na propaganda do horário do TSE e passaram a aparecer na revista Isto É.

Marco Damiani: Doutor Matheus, como é trabalhar para candidato que está perdendo? O sujeito não acredita na pesquisa, briga, quer outra interpretação, pede outros números?

Carlos Eduardo M. Matheus: É muito difícil realmente. Aqui eu falo de experiência de eleição municipal que foi a nossa experiência mais rica, porque em todos esses anos sem eleição para presidente, nós tínhamos eleições municipais, eleições para prefeito. Já aconteceu muitas vezes, quinze dias antes da eleição, de nós observarmos que o candidato que está contratando a pesquisa não tem grandes possibilidades de vitória. E eu acho que a única postura honesta do pesquisador é dizer: “Olha, as suas chances são pequenas, o que é possível ser feito é isto, mas pessoalmente nós achamos que é uma operação de poucas probabilidades de êxito”. É claro que nenhum candidato aceita a derrota antes do dia da eleição.

Heródoto Barbeiro: Doutor Matheus, existe uma comprovação de que o fator econômico realmente é decisivo para se ganhar uma eleição? Quer dizer, o candidato que quiser contratar o seu instituto, o Gallup, uma assessoria desse quilate, tem melhores condições de vencer uma eleição do que quem não tem o dinheiro para contratar?

Carlos Eduardo M. Matheus: Qualquer candidato pode contratar qualquer pesquisador, desde que seja um pesquisador sério e profissional. Hoje existem centenas, milhares de profissionais de pesquisas; não precisa ser um instituto, pode ser um pesquisador profissional, que contrata entrevistadores e realiza um trabalho sério. É claro que isso custa dinheiro, mas ninguém ignora que qualquer campanha custa dinheiro, e uma pesquisa também tem um custo porque é trabalho, nós temos que remunerar pessoas para realizar esse trabalho.

Marco Damiani: Como é que o Gallup faz os seus contratos com os políticos? O político pode contratar o Gallup só até o dia da eleição? Ou até quando os números forem convenientes? Ou o senhor pode ficar na mão de uma hora para outra?

Carlos Eduardo M. Matheus: Quando fazemos contrato, nós procuramos que o contrato tenha uma seqüência, porque não tem sentido se fazer pesquisa para um determinado político, para uma determinada campanha, parando dois meses antes. E uma das cláusulas que a gente procura impor ao candidato contratante é que ele não publique em momento algum a pesquisa, porque a gente sabe que ele só vai publicar quando convier e sabe também que ele pode deixar de contratar ou suspender o contrato quando ele perceber que está em má posição ou não tem mais possibilidades de acompanhar. É por isso que para nós pesquisadores é preferível trabalhar para imprensa, porque a imprensa vai até o último dia.

Marco Damiani: Tem multa quando rompe o contrato, ou tem que ir até o dia 15?

Carlos Eduardo M. Matheus: Nós temos feito alguns tipos de acordos. Varia de um contrato para outro, mas essa multa é muito difícil de ser cobrada.

Heródoto Barbeiro: Doutor Matheus, o senhor já sofreu algum calote?

Carlos Eduardo M. Matheus: Já sim, já... [risos]

Heródoto Barbeiro: De candidato a prefeito, governador...

Carlos Eduardo M. Matheus: Candidato a governador...

[...]: Pode dizer ou não?

Carlos Eduardo M. Matheus: Não, eu não vou dizer porque... [risos]

[Sobreposição de vozes]

Ivan Ângelo: Queria saber o seguinte: quando não tem eleição, o que faz o Gallup?

Carlos Eduardo M. Matheus: Aí é que a gente trabalha mesmo! [risos]

Ivan Ângelo: Trabalha em silêncio.

Carlos Eduardo M. Matheus: Quando tem eleição a gente fica dando entrevista no Roda Viva, a gente fica atendendo jornalista, conversando com muita gente, não consegue trabalhar.

Ivan Ângelo: É o grande marketing da eleição.

Carlos Eduardo M. Matheus: Nós fazemos pesquisa de mercado, que é o nosso ganha-pão essencial. Quer dizer, basicamente as técnicas de pesquisa de opinião pública são utilizadas pelas empresas para conhecer preferência por produtos, produtos mais vendidos, propaganda que mais comunica etc. É isso o que nós fazemos regularmente, o nosso trabalho é essencialmente pesquisa de mercado. Agora, com a utilização da pesquisa no processo político, inevitavelmente a gente também trabalha, mesmo porque a origem das pesquisas de mercado está nas pesquisas políticas, ou seja, foram as pesquisas de opinião pública que mostraram às empresas, aos comerciantes, aos industriais que o sistema de amostragem funciona e que, conseqüentemente, através de uma amostra, a gente pode conhecer uma multidão de consumidores.

Marco Damiani: Doutor Matheus, algum candidato teve a cara de pau de pedir para o senhor manipular uma pesquisa? Aliás, o senhor, sem dar os nomes, evidentemente, poderia contar um caso, se é que houve?

Carlos Eduardo M. Matheus: Já deixou de existir isso. Quando comecei a trabalhar em pesquisa havia certos candidatos que nos procuravam dizendo: “Olha, eu quero uma pesquisa em que eu possa sair com uma boa posição”. Ou então sutilmente querendo interferir na metodologia da pesquisa ou tentando interferir, por exemplo, no questionário. Mas isso para nós sempre foi muito claro. Nós aceitamos qualquer candidato, de qualquer partido, como cliente, mas não aceitamos que ninguém interfira na nossa metodologia. Nós tivemos na eleição de 1986 um caso, que não vou dizer quem é, porque compromete o político, desculpe.

Marco Damiani: De 1986?

Carlos Eduardo M. Matheus: De 1986.

Marco Damiani: Governador?

Carlos Eduardo M. Matheus: Para governador.

Ivan Ângelo: É o mesmo que deu o calote? [risos]

Carlos Eduardo M. Matheus: Não, não foi...

[Sobreposições de vozes]

Carlos Eduardo M. Matheus: Um determinado candidato queria que nós fizéssemos uma pesquisa no seu estado, mas ele queria nos dar a lista dos municípios onde deveria ser feita a pesquisa. Nós recusamos, dissemos: “quem define onde deve ser feita a pesquisa somos nós”. Ele dizia: “Não, é porque esses são os municípios que me interessam”. Nós dissemos não, não vamos fazer.

Tão Gomes Pinto: Matheus, se eu saio daqui e me reúno com o Manuel, arrumamos um sócio com algum dinheiro, e decidimos hoje à noite montar um instituto de pesquisa. Isso é possível? Não existem pré-requisitos empresariais, técnicos, éticos?

Carlos Eduardo M. Matheus: É bom que você conheça estatística, que você conheça metodologia de pesquisa, que você conheça alguma coisa de marketing. Mas você pode aprender, não há nenhum segredo.

Tão Gomes Pinto: O mercado é aberto. Não existe reserva de mercado?

Carlos Eduardo M. Matheus: Totalmente aberto. A Folha contratou profissionais e montou um departamento de pesquisa hoje e trabalha [refere-se ao instituto DataFolha].

Tão Gomes Pinto: Como você vê a existência de um departamento de pesquisas respeitável como é o caso da Folha dentro de um possível cliente seu?

Carlos Eduardo M. Matheus: Dentro de um possível cliente?

Tão Gomes Pinto: Dentro de um jornal. Se todos os jornais começarem a ter seus departamentos de pesquisas, fecha o Gallup.

Carlos Eduardo M. Matheus: Tudo bem. Eu acho possível que cada jornal queira fazer isso. No futuro é até possível que aconteça que alguns jornais, além da Folha, venham a ter esse departamento de pesquisa. É uma situação normal de concorrência. O que eu acho que existe nesse campo é o seguinte: existe o profissional independente e o profissional dependente. Por mais sério, por mais competente que seja, se ele é empregado do jornal, ele está vinculado à coloração do jornal, por mais independente que seja, é o caso da Folha. A Folha tem profissionais competentes, que são pagos pela diretoria do jornal, pela empresa. Existe uma diferença que no mínimo é psicológica. O Gallup é independente. Nós não aceitamos determinadas injunções, provavelmente os profissionais da Folha também não aceitam, mas existe a vinculação e no nosso caso ela não existe.

Jorge Escosteguy: Matheus, o José Luís Furtado, de Bauru, o Nilton Marques Ribeiro, de Santo André e o Jair Paulino, de Santo Amaro, perguntam que critérios o Gallup tem para contratar pesquisadores, se são pessoas politizadas, se não são.

Carlos Eduardo M. Matheus: Existe um trabalho de seleção feito permanentemente no nosso escritório. Os candidatos que aparecem são entrevistados, passam por uma fase de treinamento, existe quase que um pequeno curso, não vou chamar... não é bem uma faculdade, mas é um pequeno curso de treinamento para os entrevistadores se qualificarem e aprenderem a técnica de entrevistar. E evidentemente que nessas entrevistas, essas qualificações ou alguma coisa sobre a formação da pessoa é observada.

Emanuel Neri: Doutor Matheus, dos três grandes institutos de pesquisas, o Ibope, o DataFolha e o Gallup, o seu, o Gallup, é o único que trabalha com número quebrado, ou seja, com a vírgula. Por que isso, doutor Matheus?

Carlos Eduardo M. Matheus: Porque nós estamos trabalhando para a imprensa escrita. Na televisão eu entendo que é mais complicado trabalhar com vírgulas...

Emanuel Neri: Ou seja, não arredondar o número...

Carlos Eduardo M. Matheus: Não arredondar. Isso é uma das razões. A outra razão é o fato de que o nosso programa de computador já está organizado para fornecer com os decimais, e os decimais nos ajudam em certos momentos a fazer análises um pouco mais detalhadas na soma de certos percentuais.

Emanuel Neri: Mas isso parece que dificulta a leitura ou a interpretação da pesquisa, porque às vezes o candidato sobe 0,1 ou 0,2% ou cai, e parece que há um crescimento significativo. Ou seja, há uma leitura desse número, de que o candidato subiu ou o de que o candidato desceu, com um número que é muito insignificante.

Carlos Eduardo M. Matheus: Eu acho que esse arredondamento é também um arredondamento que leva a esse tipo de interpretação. Às vezes o candidato tem 14,5%; pela lei do arredondamento, vai para 15%, e depois na semana seguinte, ele está com 14,4%, e ele desce um ponto. Então o arredondamento também tem um inconveniente. Por isso a gente publica o dado cru, do jeito que ele vem, com um decimal. O arredondamento é uma operação aritmética que, sem beneficiar ou prejudicar alguém, às vezes dá a sensação de que o candidato subiu um ponto sem ter subido.

Marco Damiani: Doutor Matheus, o senhor acha que a imprensa está divulgando corretamente os dados das pesquisas? Eu lhe pergunto pelo seguinte: o que a gente vê nas manchetes é Collor em 1º, Brizola e Lula em 2º embolados, quando na verdade o senhor colocou que hoje o universo de indecisos é 40%. Quer dizer, quem está em 1º lugar é o ninguém, o indeciso. O senhor acha que a imprensa está sabendo trabalhar os números dos institutos corretamente?

Carlos Eduardo M. Matheus: Vamos separar as coisas. Uma coisa é a publicação exata dos números. O que nós preocupamos é saber se os números que nós entregamos não foram adulterados, ainda que por erro.

Marco Damiani: Aconteceu no meu jornal no dia seguinte. O senhor reconhece a sua pesquisa?

Carlos Eduardo M. Matheus: Eu acho que existe um viés inevitável. Cada jornal e cada jornalista lêem os dados como lhes parece. A pesquisa não é absolutamente a mesma em dois jornais diferentes, não é mesmo. Eu já abdiquei de qualquer esforço para padronizar esse tipo de interpretação, mesmo porque, veja bem, nos nossos relatórios nós entregamos também um texto em que nós damos a orientação básica de interpretação dos dados, aquilo que nos pareça mais exato quanto à maneira de entender. Dentro dessa interpretação, ainda existem certas perspectivas ou certos realces que alguns jornalistas querem dar, e aí é inevitável. Eu já admiti que nós temos que conviver com a divergência de interpretações dos vários jornais e dos vários jornalistas.

Tão Gomes Pinto: Matheus, se eu apresentasse a você um círculo com o nome dos candidatos, qual deles você escolheria? [risos]

Jorge Escosteguy: Essa vai ser a última pergunta porque era a que eu estava reservando aqui, feita também pelo Luís Cotaique, de Garça, São Paulo, e por mim. Você falou há pouco que pesquisador não acha nada, mas chegará um momento em que você vai ter que achar. Como se diz “no lusco-fusco da cabine indevassável”, [Citação do marechal Lott, que concorreu com Jânio Quadros nas eleições presidenciais de 1960.] quando você for votar, você vai ter que achar quem é o melhor candidato. Então nós queremos saber quem é o candidato do Carlos Matheus.

Carlos Eduardo M. Matheus: Então eu vou declarar a você e a todos que estão curiosos. Eu vou dizer em quem eu voto: eu voto em branco. [risos]

Jorge Escosteguy: Nós agradecemos então a presença no Roda Vida do Carlos Matheus, do Instituto de Pesquisa Gallup, e também a dos nossos convidados e jornalistas.

[Fernando Collor de Mello foi o vencedor das eleições presidenciais em 1989, em segundo turno. No primeiro turno a distribuição dos votos entre os cinco primeiros colocados ficou: Collor, 28,5%; Lula, 16,1%; Brizola, 15,5%; Covas, 10,8%; e Maluf, 8,3%. Silvio Santos teve sua candidatura impugnada.]

 

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