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Anthony Garotinho

5/5/2003

Articulações com o governo federal, combate ao tráfico de drogas e reestruturação da polícia estão entre as principais preocupações no Rio de Janeiro

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[programa ao vivo, permitindo a participação dos telespectadores]

Paulo Markun: Boa noite. Ele reaparece no cenário político assumindo o comando da área mais crítica da administração pública do Rio de Janeiro. Por escolha própria e nomeado pela mulher governadora [Rosinha Garotinho, eleita governadora do Rio de Janeiro em 2002], ele é o novo xerife da cidade que virou símbolo da violência urbana e do crime organizado no Brasil. O Roda Viva entrevista, essa noite, Anthony Garotinho, ex-governador e novo secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro.

[comentarista]: Foi uma surpresa nacional. Anthony Garotinho, que já participava informalmente da administração da governadora e esposa Rosinha, agora tem participação oficial. É secretário de governo com prestígio de ex-governador [foi governador do estado entre 1999 e 2002, quando renunciou para disputar a Presidência da República] e disposição anunciada de abrir novo combate a uma das mais pesadas estruturas montadas pelo crime organizado no país. É a segunda vez que Garotinho assume um compromisso público com a segurança. A primeira foi durante seu governo no Rio, de 1999 a 2002, quando anunciou um projeto para unificar as Polícias Militar e Civil, criar um novo tipo de delegacia, informatizar o setor e eliminar o que ficou conhecido como “banda podre da polícia”. Conseguiu afastar mais de setecentos policiais envolvidos em corrupção que, mais tarde, retornaram ao trabalho, amparados por decisões judiciais. Das cento e quarenta delegacias da cidade, conseguiu reformular cerca de setenta e a pretendida unificação das polícias não deu certo por conta de barreiras corporativas. A persistência da criminalidade provocou sucessivas crises na administração. A maior delas foi em março de 2000, quando Garotinho demitiu o coordenador de segurança e cidadania do Rio, Luiz Eduardo Soares [ver entrevista de Luiz Eduardo Soares no Roda Viva], hoje secretário nacional de Segurança. Em 2002, ao disputar a Presidência da República, em meio ao crescimento da violência, não só no Rio como em outras cidades, Anthony Garotinho investiu no tema “segurança”, lançando um livro com suas idéias e propostas para um plano nacional de segurança pública. Ele retoma o discurso agora ao substituir o coronel Josias Quintal, numa decisão tida como a cartada da governadora para enfrentar o maior desafio ao seu governo: o agravamento da violência do tráfico com ações cada vez mais ousadas, que afrontam as autoridades. A dificuldade de lidar com presos perigosos e o terror espalhado por traficantes, com tiroteios, explosões de bombas em pontos turísticos, incêndios de ônibus e o controle do fechamento do comércio pelo crime organizado, motivaram a volta do Exército às ruas e a notícia de uma possível intervenção federal no Rio de Janeiro. A idéia de intervenção não se confirmou. O novo secretário, de imediato, foi conversar com o ministro da Justiça [entre 2003 e 2006], Márcio Thomaz Bastos. Saiu do encontro já com a idéia de adesão ao Sistema Único de Segurança Pública [Susp - sistema criado em 2007 para articular as ações federais, estaduais e municipais na área da segurança pública e da Justiça Criminal. Apesar de único, as instituições permanecem autônomas] do governo federal e começou a trabalhar anunciando nova reformulação da polícia carioca e dureza no combate ao crime organizado.

Paulo Markun: Para entrevistar o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, nós convidamos: Marcelo Beraba, diretor da sucursal do Rio de Janeiro e do jornal Folha de S.Paulo; Paulo Motta, editor do jornal O Globo; Reinaldo Azevedo, diretor de redação da revista e do site Primeira Leitura; Francisco Alves Filho, editor e assistente da revista Isto é; Eumano Silva, editor de política do jornal Correio Braziliense e José Nêumanne, editorialista do Jornal da Tarde. O Roda Viva é transmitido em rede nacional para todos os estados brasileiros e para Brasília. Você pode participar do nosso programa, fazer sua pergunta, encaminhar sua crítica, sua proposta pelo (11) 252-6525 ou rodaviva@tvcultura.com.br. Boa noite, secretário.

Anthony Garotinho: Boa noite, Paulo, boa noite a todos telespectadores do programa Roda Viva.

Paulo Markun: Quais são os motivos que o levam a crer que politizar a segurança pública no Rio de Janeiro é um bom negócio para o Rio e para o senhor?

Anthony Garotinho: Bom, em primeiro lugar, eu quero dizer que essa hipótese de politização está descartada.

Paulo Markun: Mas na hora em que um ex-candidato a presidente da República assume esse cargo, por menos que a intenção seja a de politizar - e eu tenho certeza que não é essa sua intenção - já está politizado o fato, quer dizer, isso é o que a gente tem visto nos noticiários, comentários e na própria maneira de se tratar o assunto. O senhor não concorda?

Anthony Garotinho: Não. Você e todos os moradores do Rio de Janeiro podem ter absoluta certeza que, ao tomar uma decisão como eu tomei, de caráter público, não levei em consideração nenhuma variável política e muito menos eleitoral. Esse cargo de secretário de Segurança Pública é muito mais provável que traga desgaste do que vantagem.

Paulo Markun: [interrompendo] Sem dúvida, mas o que eu queria entender é o seguinte: se fosse um técnico a ser o responsável... Vamos falar da Seleção Brasileira [de futebol]. No dia em que um candidato à Presidência da República for técnico da Seleção Brasileira, nós vamos dizer que está se politizando o cargo de técnico da Seleção, por mais que aquele candidato seja entendido de futebol e diga que não vai politizar a questão.

Anthony Garotinho: Sim, mas nesse momento seria uma atitude mesquinha da minha parte diante da dificuldade que o estado está atravessando. É um momento difícil. Eu fui autor de um plano nacional, de um plano estadual, de um livro em conjunto com atual secretário nacional de Segurança, tenho uma experiência relativa no assunto, conheço o assunto, estudei e acho que seria uma atitude mesquinha da minha parte me negar a prestar uma colaboração em uma área decisiva como essa. O Rio de Janeiro tem muitos problemas de segurança, mas há um problema central, que é a crise de autoridade que havia na Secretaria de Segurança com conflito permanente que estava existindo. Eu chego no momento para restabelecer autoridade, não tenho a pretensão de achar que vou resolver todos os problemas de um dia para o outro. Agora, tenho um plano definido, vou montar uma equipe técnica... Nossa missão é encarar o crime organizado no Rio de Janeiro

Reinaldo Azevedo: Secretário, de algum modo eu vou insistir nesse tema aberto pelo [Paulo] Markun. Eu acho que quando o senhor disse que havia uma crise de autoridade, certamente não está dizendo que a governadora não tem autoridade...

Anthony Garotinho: [interrompendo] Não, não. Eu me refiro...

Reinaldo Azevedo: O senhor não diria isso por vários motivos.

Anthony Garotinho: Não, estava havendo um conflito entre o secretário de Segurança, que é um policial militar exemplar, e a Polícia Civil.

Reinaldo Azevedo: Muito bem, então não é uma crise de autoridade da governadora, porque eu entendo que a autoridade maior é a governadora. Por mais que o senhor seja um especialista em segurança, um estudioso do caso, evidentemente não é a sua notória especialização. Sua notória especialização é ser político, um bom político, o senhor tem uma carreira meritória feita nas urnas. Nossa impressão é que combater o crime no Rio de Janeiro passou a ser uma atividade política, que requer habilidades de negociador. Houve, em algum momento, alguma negociação com o poder organizado do crime, de maneira que é preciso haver habilidades de político e não de pessoa que vai reprimir o crime para exercer o papel? Refiro-me à negociação com os comandantes do crime organizado e com o governo federal.

Anthony Garotinho: Veja, negociação com o governo federal tem que haver, vai haver, porque a luta contra o crime do Brasil é uma luta de todos os governos: municipal, estadual e federal. Negociação com o crime organizado, não houve, não há e não haverá, porque a partir do momento em que o governo senta à mesa e negocia com traficantes ou com líderes de facções perde completamente a autoridade diante da polícia para cobrar qualquer tipo de atitude. Você mesmo viu na introdução que eu afastei da polícia - e acho que em um caso único no Brasil, durante a minha gestão - mais de 680 policiais civis e militares envolvidos com tráfico de drogas, seqüestro e grupo de extermínio. Posteriormente, eles conseguiram retornar à polícia por decisão judicial, porque não existia um mecanismo que facilitasse essa atuação. As corregedorias são extremamente corporativistas, demora-se demais para afastar um mau policial. Criamos uma corregedoria externa, mas esbarramos em algumas questões legais que permitiram o retorno desses policiais à corporação. Mas não houve, não há e não haverá a hipótese de composição com nenhum tipo de crime.

José Nêumanne: Secretário, o crime já manda nos escalões mais baixos dos agentes da lei no Rio de Janeiro. Tanto que o Rio de Janeiro não consegue sequer segurar um bandido como Fernandinho Beira-Mar [Luiz Fernando da Costa] em suas prisões, porque a carceragem está completamente apodrecida e a polícia também. Não há necessidade de o crime negociar com o governo, uma vez que vários agentes do governo são, na verdade, agentes remunerados pelo crime. Até reconheço isso que o senhor falou, o senhor tentou afastar setecentos policiais e não conseguiu, porque eles voltaram ao trabalho por decisão da Justiça. O que interessa mesmo no Rio é o fato de o camarada vender a chave da cela por quatrocentos mil reais ou por um apartamento no Leblon [bairro nobre da cidade do Rio de Janeiro]. Isso é que é realmente grave, muito mais grave do que o secretário brigar com o chefe da polícia. E para se resolver isso, temos que resolver problemas políticos ilegais muito mais profundos do que simplesmente afastar o secretário ou não sei quantos policiais. Tem que haver leis que capacitem o Estado a punir um mau policial, o policial desonesto. Faz parte da sua estratégia algo semelhante à chamada via rápida [medida criada em 2002 pelo então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, para agilizar processos de demissão e expulsão de policiais civis e militares corruptos ou violentos], que o governo de São Paulo está adotando com sucesso? Porque aí os policiais são afastados mesmo, não voltam depois a dar mau exemplo e a funcionar como uma espécie de subversão dentro da hierarquia da polícia...

Anthony Garotinho: Veja, esses policiais ficaram fora durante toda minha gestão, foram reintegrados depois. Durante um bom período, eles ficaram fora da polícia. E, se você olhar o período em que eles tiveram fora da polícia, a criminalidade decresceu, o que prova que há uma relação muito forte entre atividade criminosa e uma parte da polícia. Ainda bem que é uma parte, não é uma totalidade. Há uma parte da polícia honesta, dedicada e que cumpre o seu dever.

José Nêumanne: Como se sente um policial honesto e dedicado, se ele está lá trabalhando e se senta ao lado dele um camarada que foi afastado pelo senhor, porque era comprovadamente desonesto? Qual é o estímulo que ele tem para continuar trabalhando honestamente, ganhando mal e se arriscando, se do lado dele está um policial corrupto que foi afastado porque era corrupto e, no entanto, foi readmitido por decisão judicial?

Anthony Garotinho: Como qualquer cidadão, indignado e revoltado. E ele sabe que nós agiremos não só com a via rápida, mas com outros mecanismos que são necessários em termos de mudança constitucional para facilitar os estados a eliminar esses maus policiais. Eu apenas queria citar aqui algo que você falou a respeito de sistema prisional do Rio de Janeiro. O sistema prisional do Rio de Janeiro atravessa uma fase difícil. Em certa ocasião, o ministro da Justiça José Gregori [do governo FHC] me telefonou no auge de uma crise do sistema penitenciário de São Paulo, e pediu que nós, no Rio de Janeiro, recebêssemos três dos líderes do PCC, entre eles o maior deles, o Geléião, e nós ficamos com ele durante um bom período. O Rio de Janeiro tem os mesmos problemas em termos de sistema penitenciário da maioria dos outros estados. Em 2000, apresentei ao próprio ministro Gregori e ao presidente Fernando Henrique Cardoso um plano de segurança que visava definir claramente a atuação do governo federal e de cada governo estadual. Entre eles, eu propunha a criação das penitenciárias federais. Não é recomendável nem aqui no Brasil, nem em lugar nenhum do mundo, que os líderes de quadrilhas cumpram pena na unidade do seu estado. Infelizmente, o governo federal não deu o foco que o governo Lula está dando para a questão da segurança pública como  responsabilidade de toda a sociedade brasileira.

Reinaldo Azevedo: Quanto o governo Lula já deu para o senhor de verba desde que explodiu essa crise no Rio de Janeiro?

Anthony Garotinho: Por enquanto, nada. Há um entendimento que o governo se propõe a dar quarenta milhões dentro de um plano, mas ainda nada.

Reinaldo Azevedo: Quer dizer que em uma situação como essa do Rio de Janeiro até agora não houve nenhum tostão?

Anthony Garotinho: Não.

Reinaldo Azevedo: E a atenção especial que o governo Lula está dando, qual seria?

Anthony Garotinho: Não, em colocar esse assunto na pauta da discussão.

Reinaldo Azevedo: Mas, governador, colocar na pauta de discusão sempre houve...

Anthony Garotinho: Não. A questão da segurança pública, durante muito tempo o governo federal jogava para cima dos estados. Mas o governo federal já sinalizou recursos para o sistema penitenciário e o reapalheramento da polícia.

Reinaldo Azevedo: Dependeria do bom comportamento da governadora?

Anthony Garotinho: Não, absolutamente. Eu espero que não...Esse é um assunto que deve ser tratado como política de Estado e não política de governo, independente do partido.

Francisco Alves Filho: Secretário, o delegado federal Marcelo Itagiba [indicado para a Superintendência da Polícia Federal do Rio de Janeiro], que vai fazer parte da sua Secretaria, disse recentemente que é contra a transferência de Fernandinho Beira-Mar do Rio, porque diz que se o sistema penitenciário do Rio não tem condição de custodiar o Fernandinho Beira-Mar, não deveria prender mais ninguém. O que o senhor acha dessa opinião?

Anthony Garotinho: Eu acho que ele tem toda a razão. Hoje, Bangu 1 [penitenciária do Rio de Janeiro] tem condição de receber Fernandinho Beira-Mar ou qualquer outro traficante, mas é preciso que a gente se recorde da história de Fernandinho Beira-Mar. Ele estava cumprindo pena em Minas Gerais, mas saiu pela porta da frente e foi para o Paraguai. Nós desencadeamos uma operação para desmontar o Comando Vermelho no Rio de Janeiro. Nessa operação foram presos 13 dos maiores líderes e [ficamos] monitorando Fernandinho Beira-Mar no Paraguai. Fizemos um cerco em torno dele. Ele fugiu e foi para a Colômbia. Nesse período, mantivemos contato com o governo da Colômbia, entrei em contato com o presidente e fizemos uma operação para prender Fernandinho Beira-Mar. O governo colombiano não entendia a dimensão dele. Só se interessou por ele, quando viu sua ligação com as Farc. Quando a questão era tráfico, eles não tinham interesse no Fernandinho Beira-Mar. Em uma tarde de sábado, o representante da Guarda Nacional da Colômbia me comunicou: “Está preso Fernando da Costa e agora a nossa missão está cumprida”. Coloquei então o secretário de segurança Josias Quintal dentro de um avião e o mandei para lá, para trazê-lo. O governo federal disse que ele não podia vir...

Francisco Alves Filho: [interrompendo] Agora, por que o senhor fez tanta força para ele vir e agora não o quer no Rio de Janeiro?

Anthony Garotinho: Um minutinho! Então, o governo federal disse: “Não vai, porque ele é um preso federal”. Ele tinha adquirido uma dimensão internacional. Bom, mas se estabeleceu um conflito, ao ponto de o secretário de Segurança ter ficado dois dias lá tentando resolver a questão, até que se decidiu que ele viria para o Brasil. A polícia do Rio fez um papel de investigação.

Francisco Alves Filho: [interrompendo] Mas o senhor aceitaria o Fernandinho Beira-mar de volta ao Rio?

Anthony Garotinho: Só um minutinho que eu quero concluir a história. Bom, o governo federal disse: “Não, ele não vai com o governo do Rio de Janeiro, ele vai com o governo federal”. Eu disse: “Se o governo do Rio de Janeiro fez toda a operação para prendê-lo, e agora não pode trazê-lo, o governo federal então que o leve para onde quiser”. Levaram para onde?

[...]:Para Brasília.

Anthony Garotinho: Para Brasília, foi a decisão do governo federal. Passados quatro meses, me liga o ministro Gregori: "Olha, precisamos que ele agora vá para o Rio de Janeiro”. Eu disse: “Não, ministro, não vai para o Rio de Janeiro, vocês não quiseram deixar a polícia do Rio de Janeiro trazê-lo, mas agora vocês querem que ele vá para o Rio de Janeiro?".

Marcelo Beraba: Mas por que o senhor não quis?

Anthony Garotinho: Dois dias após minha saída do governo para disputar a Presidência da República, Fernandinho Beira-Mar desce no Rio de Janeiro. Houve até uma controvérsia se havia a permissão ou não da governadora, se havia ou não a permissão do secretário.

Marcelo Beraba: Mas, secretário, a questão do Fernandinho Beira-Mar também foi contaminada pela questão política. O empenho do governo do estado, embora fosse um empenho policial, jurídico e tudo mais...

Anthony Garotinho: Eu acho que contaminação política é você fazer todo um trabalho de esforço para desmontar a maior facção criminosa do Rio de Janeiro, colocar atrás das grades todos os seus líderes e, na hora em que você pega o "cabeça", o governo federal diz: “Não, quem vai trazê-lo somos nós".

[todos falam simultaneamente]

Eumano Silva: O Fernandinho Beira-Mar continua sem ter um lugar fixo para ficar, não é isso? Voltou agora para São Paulo, porque não tem lugar para ficar, não há ainda um acordo.

Anthony Garotinho: A governadora do Rio de Janeiro, durante a sua campanha, disse e defendeu que, sendo ele preso federal, que responde por crime federal - você sabe que tráfico de drogas é crime federal - deve ficar sob a custódia do governo federal.

Paulo Markun: [interrompendo] Como não há prisão federal...

Anthony Garotinho: Sim. Ele não responde a crime só no Rio de Janeiro, ele fugiu do presídio pela porta da frente, em Minas Gerais, quando estava cumprindo pena.

Paulo Markun: Mas o senhor não acha que o fato do Fernandinho Beira-Mar estar sendo jogado de uma prisão para outra faz com que o crime aumente no Rio de Janeiro?

Anthony Garotinho: Não, absolutamente. Aliás, Paulo, você me permita -já que o seu programa é assistido por tantas pessoas inteligentes, preparadas - que nós tratemos dessa questão do crime de uma forma inteligente, porque quando você fala “crime”, você generaliza. O que é o crime? Assalto a banco é um tipo de crime, não é problema no Rio de Janeiro, se você for analisar os dados...

Paulo Markun: [interrompendo] Estamos falando do crime organizado, secretário!

Anthony Garotinho: Você vai perceber que existem outros estados que têm um índice de assaltos a banco muito superior ao Rio de Janeiro, seqüestro também não é problema no Rio de Janeiro.

[sobreposição de vozes]

Paulo Markun: Não, estamos falando de crime organizado, daquele crime que bota fogo em ônibus de noite, atira em policial, da uma bala perdida que fere um estudante na faculdade, é disso que estamos falando.

Anthony Garotinho: Seqüestro é um crime terrível, que mata, que humilha...

Paulo Markun: Todo mundo concorda com isso, Garotinho.

Anthony Garotinho: Então vamos lá. Você vê o seguinte: quanto ao homicídio, o Rio de Janeiro não está nem entre as quarenta cidades em termo de homicídio.

Marcelo Beraba: [interrompendo] Do Brasil?

Anthony Garotinho: Do Brasil, do Brasil.

Marcelo Beraba: Gente, é um número absurdo...

Anthony Garotinho: Sim, eu não estou dizendo que é ótimo, não.

Marcelo Beraba: Hoje o Rio deve estar com uns 45 homicídios por cem mil habitantes. Não tem como fazer comparação, isso é um número absurdo.

Anthony Garotinho: Não, é um numero altíssimo, mas eu estou dizendo que temos que saber de que crime nós estamos tratando. O problema do Rio de Janeiro hoje é tráfico de drogas, esse é o ponto central. Não adianta a gente ficar dando voltas, é claro que nós temos que combater roubo e furtos de automóveis, que nós temos que continuar com a inteligência, evitando a formação de quadrilha de seqüestradores no Rio de Janeiro, mas o problema central chama-se tráfico de drogas.

Marcelo Beraba: Quando o senhor colocou a questão do Fernandinho Beira-Mar, o senhor colocou o seguinte: em sua gestão, teriam sido presos os principais "cabeças" do Comando Vermelho. A idéia era desarticular o Comando Vermelho, mas ele não foi desarticulado naquele momento, ele continua e está mais forte. Onde aquele tipo de política falhou?

Anthony Garotinho: Continua forte, mas hoje está em uma situação de agressividade. Estavam na rua, você não tinha problema no sistema penitenciário do Rio, você tinha problema de sistema penitenciário em outros estados, tanto que o Rio de Janeiro teve que abrigar presos de outros estados. Na medida em que você tirou todo mundo que estava na rua e levou para dentro do sistema penitenciário, o problema se transferiu para dentro do sistema penitenciário. Hoje, nós precisamos fazer um bloqueio, e é isso que está provocando esse tipo de reação. Nós estamos vedando a comunicação que existia entre aqueles que estão dentro do sistema penitenciário com o seu grupo de fora. Veja, o criminoso também não é burro, ele visa lucro, ele quer dinheiro. Então qual o sentido de um cidadão passar em uma moto, em frente a um shopping fechado e jogar uma bomba de fabricação caseira para ninguém? O que ele ganha com isso? [refere-se a ações do Comando Vermelho no Rio de Janeiro]

Paulo Markun: [interrompendo] Manchete de jornal.

Anthony Garotinho: Não, além de manchete no jornal, ele quer outra coisa.

[...]: Quer o medo da população.

[...]: Quer desmoralizar a autoridade...

Anthony Garotinho: Isso, exatamente!

[...]: E consegue.

Anthony Garotinho: Ele quer desmoralizar a autoridade, para que a autoridade sente-se com ele para negociar. Mas nós não vamos negociar. Não tem sentido. Por exemplo, no caso de hoje, o que os criminosos ganharam atirando na menina inocente? [No dia 5 de maio de 2003, a estudante de enfermagem Luciana Gonçalves Novaes, 19 anos, foi baleada dentro da própria universidade, Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Traficantes atiraram contra a universidade em represália ao assassinato de um dos membros do grupo, do Morro do Turano]. A estudante conseguiu sobreviver, mas ficou tetraplégica]

Reinaldo Azevedo: Eles avisaram, não é, Garotinho?

Marcelo Beraba: O que aconteceu ali?

[...]: Poderia ser evitado?

Anthony Garotinho: Eles foram beneficiados com dinheiro? O movimento de drogas dele vai aumentar por causa disso? Não, isso é desafio à autoridade, é teste de autoridade. Agora, o que você faz em uma hora dessas? Recua ou cede? Não, você tem que se preparar...

Paulo Markun: [interrompendo] Secretário, eu tenho que pedir licença, a gente fará um rápido intervalo. Voltamos a conversar exatamente sobre essa questão de hoje, depois do intervalo.

[intervalo]

Paulo Markun: Estamos de volta com o Roda Viva, esta noite entrevistando Anthony Garotinho, secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Só para situar o telespectador, nós estamos falando do caso da estudante do primeiro período de enfermagem, Luciana Gonçalves Novaes, de 19 anos, que foi ferida gravemente por um tiro nesta segunda-feira, no campos da Universidade Estácio de Sá. As testemunhas dizem que vários disparos foram feitos do Morro do Turano e a ação criminosa, segundo a polícia, teria a ver com a represália à morte do traficante Adriano Paulino Martins e o desaparecimento de Fábio Santos da Silva, de 25 anos, e de Ellen, de 16 anos, na sexta-feira passada. No meio da correria dos estudantes, os moradores do Morro do Turano fizeram uma manifestação contra a polícia na porta da universidade, que teria sido avisada. Eu queria entender o que aconteceu hoje lá.

Anthony Garotinho: Vou lhe dizer exatamente o que ocorreu comigo. Quando eu estava me dirigindo para a Secretaria, pelo sistema de rádio interno da polícia escutei que o comércio tinha sido avisado pelo tráfico para não abrir. Eu, pelo mesmo sistema do rádio, determinei que fosse reforçado o policiamento e disse: “Diga aos comerciantes para funcionarem”. Bom, os comerciantes preferiram não abrir. A universidade, embora avisada, abriu.

Paulo Markun: Ela deveria ter fechado? Ela seguiu a recomendação do senhor...

Anthony Garotinho: Não, não, não.

Eumano Silva: Eles deveriam ter atendido aos traficantes, secretário?

Anthony Garotinho: Um minuto! Veja, a universidade abriu por meio período, foi nesse período onde já havia policiamento na rua que os traficantes dispararam contra os policiais que estavam na rua, na porta da Universidade Estácio de Sá.

Francisco Alves Filho: Mas o comandante da PM [Polícia Militar] disse hoje que os traficantes atiraram contra a universidade.

Anthony Garotinho: Os policiais estavam na porta da universidade...Olha, esse fato não tem justificativa, não vamos procurar justificativa, isso é uma covardia, é um fato abominável em qualquer lugar. A determinação que eu dei à polícia é que ela tem que achar esses criminosos e prendê-los.

Francisco Alves Filho: Mas, secretário, a polícia sabia do aviso, estava lá, e aconteceu essa tragédia. Quer dizer, foi ineficaz o trabalho da polícia.

Paulo Motta: O senhor falou havia intenção de renovar o comando da PM...

Anthony Garotinho: E vamos fazer isso!

Paulo Motta: Eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a ação da polícia que, ao procurar traficantes, muitas vezes sobe nas favelas e mata um inocente. Como o senhor vai agir nisso?

Anthony Garotinho: Você tem toda a razão, Paulo. Quem fizer isso, está fora.

Paulo Motta: O senhor já tem algum indício, nesse período, de algo acontecendo?

Anthony Garotinho: Eu estou há seis dias na Secretaria, não posso chegar e desmontar tudo, porque se eu fizesse isso, estaria sendo irresponsável. Mas, claro que nós já sabemos de muita coisa...

[sobreposição de vozes]

Anthony Garotinho: Não há dúvida. Só existe crime organizado se houver conivência da polícia.

Marcelo Beraba: Esse caso de hoje parece ser mais grave, secretário, pelo seguinte: se a polícia realmente sabia, se o senhor deu ordens explícitas para que o comércio funcionasse, o único estabelecimento que funcionou foi atacado. Ou a universidade foi negligente na segurança dos seus alunos ou o senhor foi precipitado ao garantir uma segurança que é praticamente impossível no Rio de Janeiro.

Anthony Garotinho: Beraba, o Rio de Janeiro tem uma característica diferente de outras cidades. Em São Paulo e Brasília, por exemplo, as periferias e problemas estão longe dos centros urbanos. No Rio de Janeiro, não é assim. Você tem, a poucos metros, um morro e, ali embaixo, uma comunidade. Nós não temos a ingenuidade de achar que vamos resolver o problema do Rio de Janeiro sem termos a clareza de que vamos vencer o crime organizado. A cidade toda precisa se unir. Não adianta ficarmos com esse discurso de "o morro contra asfalto ou o asfalto contra o morro". Ou combatemos o tráfico de drogas nas duas pontas ou não temos chance. E quais são as duas pontas? Traficante e consumo. Pelo menos 7% da população da região metropolitana do Rio e de São Paulo usa droga. Você tem setecentas mil pessoas no Grande Rio [a população da região soma dez milhões de cidadãos] consumindo cocaína e maconha. Então, é preciso que a população entenda que a arma que o traficante usa para atirar nessa menina, muitas vezes, foi comprada com dinheiro que o filho dele deu ao traficante.

Reinaldo Azevedo: Quando a gente tem confrontos como esse, você fala assim: “Quando nós começamos a combater o crime, os bandidos reagem”. Nós estamos criando um índice perverso - eu não estou dizendo que isso está na sua fala, mas isso está na fala dos homens responsáveis pela segurança do país - de eficiência do combate ao crime. Suspeito que quando a eficiência ao combate ao crime organizado chegar ao topo, o número de mortos aumentará e não sobreviveremos. Isso, no fundo, é uma brutal ineficiência das pessoas responsáveis em combater o crime. Eu queria saber se o senhor está atento a isso. O senhor está há pouco tempo ali, não o estou acusando disso, mas estou dizendo que as pessoas envolvidas com segurança agora fazem esse tipo de discurso.

Anthony Garotinho: Olha, vou dar todo o meu esforço. Eu, antes de aceitar o convite da governadora Rosinha, telefonei para dez amigos meus, de vários estados. Todos disseram: "Não, não, não, não, não, não vá...".

[...]: Por quê? Com que argumento?

Anthony Garotinho: Política. "Isso não tem jeito, é uma situação que não se resolve". Eu tenho consciência de que não vou conseguir acabar com a criminalidade, porque ela existe em toda parte, mas que vamos dar um duro golpe no crime organizado, não tenha dúvida.

Francisco Alves Filho: [interrompendo] Isso significa o quê, na prática? O que o senhor acha que é possível?

Anthony Garotinho: Significa que nós vamos desarticular o crime, porque o problema do crime é a organização dele. Vamos trabalhar em cima de roubo e furto de veículos, estabelecer uma meta e montar um sistema de inteligência contra roubo e furto de automóveis. No ano passado, o Rio de Janeiro teve 55 mil carros roubados e furtados. Isso é uma indústria, não vamos achar que aquele ladrãozinho que roubou o carro é a peça única da engrenagem. Quero ir além dele, além do ferro velho.

Eumano Silva: Mas isso não acontecia antes, no seu governo?

Anthony Garotinho: Acontecia. Nós conseguimos recuperar muito. Para você ter noção, no último ano do meu governo, foram 45 mil carros [roubados]. Em dois anos subiu para 55 mil.

Reinaldo Azevedo: [interrompendo] Mas por que as pessoas que funcionavam no seu governo não funcionariam agora, no mesmo cargo?

Anthony Garotinho: Não são as mesmas pessoas.

Reinaldo Azevedo: Mas por que elas não funcionariam?

Anthony Garotinho: Deixe-me tentar responder essa pergunta, que é muito importante. Nós vamos nos concentrar em roubo e furto de automóveis, roubo de cargas - 80% da carga roubada no Brasil situa-se em dois estados, 50% em São Paulo e 30% no Rio, é muito. E roubo de carga sem envolvimento de policial é impossível.

José Nêumanne: Mas o senhor não falou em corrupção policial, quando o senhor falou dos dois problemas... O senhor falou no consumo e no traficante, o senhor não falou no corrupto.

Anthony Garotinho: Eu vou chegar lá! Então, a segunda é roubo de cargas e a terceira, armas. O Brasil tinha que evoluir na sua legislação para proibição de vendas de armas, mas eu fiz uma campanha de desarmamento no início do meu governo, colhemos um milhão de assinaturas no estado, enviamos ao Congresso Nacional. Mas, existe um lobby poderoso, que é o da indústria armamentista, que conseguiu impedir que essa discussão fosse adiante. Quarto, homicídio: muitas pessoas são mortas e não há esclarecimento. O quinto é a Delegacia de Repressão a Entorpecentes. O Reinaldo perguntou por que essas pessoas antes faziam de um jeito e agora vão fazer de outro. Bom, eu sou um administrador, no meu governo eu estabeleci metas. Essas metas, em partes, foram cumpridas, houve redução e, em partes, não foram cumpridas. Agora eu estou estabelecendo novas metas, como secretário, seguindo a orientação da governadora. Quem não atingir os índices de resultado e estatísticos de disciplina e operacional, está fora.

[...]: O senhor mencionou, em uma entrevista, 12% de redução na violência durante o seu governo.

Anthony Garotinho: Em uma entrevista, que o assunto era outro assunto, uma repórter que estava na coletiva disse: “O senhor falou outro dia que vai estabelecer metas. Quais serão essas metas?". Eu disse: “são metas estatísticas, disciplinares e operacionais". Porque também... de que adianta você ter o registro de um homicídio se não é apurado? O que adianta você ter um mau policial, de corrupção, de envolvimento com tráfico, e a meta disciplinar não é alcançada? Eu estava apreendendo muita arma, mas a gente sabe que de cada duas armas apreendidas, uma vai e outra fica. Quando chegou a hora da estatística, eu disse: “Não existe um número fixo, porque para cada delito, para cada tipo de crime, nós vamos aplicar um redutor possível".

Paulo Motta: [interronpido] O senhor falou em 50%.

Anthony Garotinho: Isso. Em 2001, quando eu era governador, aconteceram, no estado inteiro, oito seqüestros; e sete foram resolvidos. No ano de 2002, pulou de oito para 25. Eu acho que é possível, no caso de seqüestro, voltar para 12, dá para ter uma redução de 50%.

[...]: Mas isso é algo impressionante. É impressionante esse raciocínio...

Paulo Motta: A população do Rio de Janeiro pede que o senhor tenha um encontro, não de contas, mas de idéias, de ações, com o governo federal.

Anthony Garotinho: E teremos.

Paulo Motta: O senhor procurou um primeiro encontro com o governo federal, mas no seu último programa de rádio, no sábado passado, o senhor voltou a criticar o PT [Partido dos Trabalhadores]. Aí eu pergunto: por que o senhor, volta e meia não consegue deixa de criticar, para que haja um entendimento melhor em prol da cidade do Rio de Janeiro?

Anthony Garotinho: Deixar de criticar é impossível, porque minha crítica não foi ofensiva, eu também não vou me silenciar diante de coisas equivocadas. Será que é proibido falar? Não fiz ofensa a ninguém, eu apenas esclareci a uma servidora do estado que ligou cobrando planos de cargos e salários. E eu disse: "a Rosinha terá que pagar, neste ano, 15 folhas de pagamento, com 12 meses de arrecadação, que a governadora Benedita da Silva [governou o Rio de Janeiro em 2002] não conseguiu pagar". Eu não disse se foi por incompetência, eu não sei se a equipe dela era boa.

Paulo Motta: [interrompendo] Mas o senhor não acha que é o momento de discutir isso ou tentar um entendimento com o governo federal para ter uma ação mais... O senhor vai precisar da ajuda do governo federal, de recursos.

Anthony Garotinho: Isso não significa ofensa a ninguém, eu não estou ofendendo ninguém. Quando assumi a Secretaria, eu deixei claro para toda a população e disse à governadora: “Rosinha você sabe o que implica isso, não é? Vou ter que me afastar das atividades políticas, me dedicar integralmente à segurança pública, estou deixando de ser candidato a presidente da República em 2006”. Como é que eu vou ficar andando pelo Brasil, fazendo campanha, sendo secretário de Segurança? Não dá, mas se é o que a população espera de mim, eu não tenho como recusar.

José Nêumanne: Secretário, eu queria fazer uma pergunta. O senhor declarou, ao assumir, que humilharia os presos, fazendo-os trabalhar para os policiais. Por enquanto, o crime tem humilhado o senhor, a população e a autoridade.

Anthony Garotinho: Eu quero dizer o seguinte: me equivoquei, não deveria ter usado a frase, a idéia que eu tenho é boa, mas a minha palavra foi infeliz. Colocar o preso para trabalhar, que é o desejo de toda a população...

José Nêumanne: [interrompendo] A frase foi infeliz duas vezes, porque se o senhor conseguir que o crime organizado deixe de humilhar a população e a autoridade, o senhor já conseguirá um grande efeito. Mas eu só queria pegar o tema do Paulo, para lembrá-lo do seguinte: um dos seus problemas mais graves de comunicação com o governo federal é que o senhor humilhou publicamente o atual secretário nacional de Segurança [Luiz Eduardo Soares], ao demiti-lo pela televisão. Isso tem dificultado sua relação com o governo federal?

Anthony Garotinho: Não. Eu e o Luiz Eduardo somos homens públicos e temos tarefas públicas, que estão acima das nossas divergências pessoais. Minha divergência com Luiz Eduardo se deu em um episódio que ficou muito conhecido no Rio de Janeiro, envolvendo uma figura querida da sociedade do Rio de Janeiro e de todo o Brasil, mas que se envolveu com traficantes. Bom, o Luiz Eduardo achou compreensível a explicação dada, que ele aquele rapaz estava ajudando um traficante a morar em Buenos Aires...

Reinaldo Azevedo: [interrompendo] Governador, vamos parar com esse negócio! O nome do cineasta é João Salles, e o nome do traficante é Marcinho VP, senão fica parecendo que a gente... [No primeiro semestre de 2000, uma polêmica envolvendo os nomes do traficante Marcinho VP e do cineasta brasileiro João Moreira Salles dividiu opiniões no Rio de Janeiro. O documentarista foi indiciado pela polícia por ter dado uma bolsa mensal ao traficante, então foragido. Segundo Salles, o auxílio estaria sendo dado para que ele pudesse escrever sua biografia e se afastasse do tráfico. Marcinho VP foi morto em 2003, na penitenciária Bangu 3]

Anthony Garotinho: Sim. Minha divergência com o doutor Luiz Eduardo foi nesse episódio. Eu disse: "Luiz Eduardo, por mais que você tenha boa vontade de acreditar que o João Moreira Salles esteja bancando a estadia do Marcinho VP, você é um agente do Estado, e a lei no Estado vale para o João da Silva, vale para o João do banco”, essa foi a minha expressão, o meu artigo publicado em jornal. Isso criou um desentendimento público, mas está superado.

José Nêumanne: O senhor e Luiz Eduardo têm tido...

Anthony Garotinho: Não, não tive mais contato com ele depois disso.

José Nêumanne: Mas ele é a autoridade mais importante da segurança do Brasil.

Anthony Garotinho: Não, a autoridade mais importante da segurança pública no Brasil é o ministro da Justiça, abaixo dele é o Luiz Eduardo, com quem terei o maior prazer de me encontrar.

Paulo Markun: Eu queria colocar aqui uma pergunta de diversos telespectadores: como se resolve o problema central do Rio de Janeiro, que é o tráfico de drogas? Se esse tráfico de drogas está instalado nas favelas, onde ele sustenta uma legião de jovens que não têm outra alternativa de vida, de emprego, de contato com o Estado, quer dizer, que concorrência é possível fazer em relação ao tráfico de drogas que oferece a esses garotos, dinheiro, droga, roupa da moda, poder, euforia e vida curta?

Anthony Garotinho: Olha, na minha gestão, eu promovi diversos programas nessas comunidades, como o Jovens pela Paz, uma bolsa de trabalho para que o jovem trabalhasse em projetos culturais na comunidade e estudasse em outro horário.

Paulo Markun: Certamente, a governadora Benedita não acabou com esses projetos todos, nem deixou de fazer trabalhos na favela, até porque ela mora lá.

Anthony Garotinho: Implantamos um outro programa, que agora é a inspiração para o governo federal, chamado Cheque Cidadão, que nasceu por inspiração de um problema policial. Ele acabou se transformando em um grande programa de renda mínima, mas o surgimento dele foi logo no início do meu governo, quando nós ocupamos uma favela no Rio de Janeiro, chamada favela do Jacarezinho. Quando a polícia entrou, depois de um determinado tempo caiu o movimento de drogas e a população começou a hostilizar a polícia. Então, eu reuni um grupo de pessoas da comunidade, que não tinha relação com tráfico, e disse: “tem que dar alguma coisa em troca". Criamos um cupom no valor de cem reais e fizemos exigências: que a família matriculasse a criança na escola, carteira de vacinação em dia etc. E hoje são 62 mil famílias que recebem, todo mês, para manter o seu filho no colégio e sua carteira de vacinação em dia.

Paulo Markun: [interrompendo] Mas o crime continua agindo.

Anthony Garotinho: Agora, esse é um problema que não pode se enfrentado, enquanto o Brasil tiver essa concentração de renda perversa que tem...

Paulo Markun: Mas é nessa situação que o senhor vai ser secretário da Segurança Pública do Rio de Janeiro.

Anthony Garotinho: Sim, um grande desafio!

Paulo Markun: Então, repito a pergunta, secretário: como se enfrentar essa situação em que há diversas favelas? Onde é a base do crime organizado?

Anthony Garotinho: Vamos restabelecer autoridade e ter confiança que o Brasil cresça, porque se o Brasil crescer vai haver mercado de trabalho para toda essa juventude. As favelas não estão crescendo apenas no Rio de Janeiro, elas estão crescendo em São Paulo, Recife, em todo o Brasil.

Paulo Markun: No Brasil inteiro.

Anthony Garotinho: E o que são as favelas? Ninguém é favelado porque quer, o cidadão é favelado porque não restou para ele outra opção.

Reinaldo Azevedo: O senhor acha que a política econômica adotada atualmente é boa, nesse sentido? Ela adianta?

Anthony Garotinho: Não. É prematuro saber se essa atitude do governo é tática ou estratégica. Se é tática, se ela é momentânea para acalmar o mercado, para consolidar uma imagem do país em nível internacional e depois iniciar um processo de mudanças que levem ao crescimento, nós só vamos saber com o tempo. Agora, nós não podemos manter esse modelo econômico concentrador de riqueza, concentrador de terra, gerador de injustiças, gerador dessa situação a que o Markun se referiu, que gera uma falta de esperança e de perspectiva para as pessoas. Há uma frase que eu tenho repetido sistematicamente, gostaria de repetir hoje aqui: “quem é o pior sujeito do mundo? Aquele que não tem nada a perder!". Então, um garoto que cresce sem perspectiva de vida, sem perspectiva de trabalho, o que ele tem a perder? Ele não tem nada a perder, então ele vai para o tudo ou nada. Torço para que essa estratégia do governo seja uma situação realmente tática, momentânea, e que a política econômica se volte para geração de emprego, para o crescimento, para a distribuição de renda. Quantos postos de trabalho se fecharam no Brasil por causa desse modelo econômico do governo Fernando Henrique [o governo, entre 1995 e 2002, reduziu o tamanho do Estado e incentivou os investimentos privados, nacionais e estrangeiros, privatizou grandes empresas e bancos públicos, sendo qualificado de neoliberal pelos adversários]. Então, eu creio que, pela origem do Lula, origem de alguém que veio de baixo, que lutou, que sofreu, que conhece a situação do povo brasileiro, isso seja uma oposição tática. Não é a política econômica para o governo, porque se for...

[...]: Se for, o senhor sai?

Eumano Silva: O senhor decide apoiar o Lula?

Anthony Garotinho: Não sou do PT.

Eumano Silva: Mas o senhor é da base aliada dele.

Anthony Garotinho: Não, eu não estou preocupado comigo. Se for, será uma frustração para todos os brasileiros que colocaram a esperança de mudança do Brasil no voto que deram no Lula.

Paulo Markun: Secretário, nós vamos fazer mais um rápido intervalo. Voltamos já.

[intervalo]

Paulo Markun: Estamos de volta com Roda Viva, esta noite entrevistando o novo secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. Secretário, o senhor falou aí em duas pontas na questão do tráfico de drogas: o tráfico e o consumo. Carlos Valinha, aqui de São Paulo, que é jornalista, pergunta: o senhor é a favor da descriminalização das drogas?

Anthony Garotinho: Bom, eu sou contra a criminalização do usuário, eu acho que usuário de droga tem que ser tratado, ele não é criminoso, tanto que, como governador, eu criei as primeiras clínicas públicas de recuperação aos viciados em drogas. Eu acho que usuário de drogas é uma vítima. Agora, há um certo debate sobre a liberação do uso de drogas, eu acho que a sociedade brasileira não tem amadurecimento para colocar agora essa questão.

Marcelo Beraba: Mas se tivesse, o que o senhor pensa? Qual seria a situação ideal?

Anthony Garotinho: Eu acho que não resolve.

Marcelo Beraba: Por que não?

Anthony Garotinho: Porque se você faz isso em um país só, você atrai todo mundo para lá e cria uma área problemática em torno de outros países. Isso ou é feito de forma continental, ou não funciona.

Paulo Markun: Como atacar então a questão da ponta do consumo?

Anthony Garotinho: Consciência, tem que trabalhar a cabeça das pessoas. Outro dia, em uma palestra com jovens, discuti duramente com alguns e disse: “Vocês estão querendo uma coisa complicada: querem usar drogas, mas não querem o traficante. Isso não existe!”.

Marcelo Beraba: Pois é, será que não existe isso? Isso é uma questão do Rio de Janeiro muito forte. Várias outras cidades grandes têm drogas e não tem essa guerra diária. O que aconteceu no Rio e em São Paulo e que não aconteceu nessas outras cidades? Como o senhor entende o Rio de Janeiro?

Anthony Garotinho: Beraba, Rio, São Paulo, Brasília, Recife, todos os lugares têm os mesmos problemas. O que agrava a situação do Rio de Janeiro, especificamente, é a sua geografia. Você não tem nem em São Paulo o problema que você tem no Rio, porque, conforme você conhece São Paulo, existe toda uma periferia longe do centro. É diferente do Rio de Janeiro, onde é tudo compacto. Aqui em São Paulo, uma cena como aquela do Rio de Janeiro de hoje, onde o cara atira para dentro de uma faculdade, não existe.

Francisco Alves Filho: Secretário, eu queria voltar rapidamente a esse episódio. O senhor disse há pouco que as autoridades chegaram a avisar os comerciantes que a segurança ali naquele local, apesar do aviso dos traficantes, seria dada a quem quisesse funcionar. A universidade abriu e aconteceu o que aconteceu. Como o senhor acha que os comerciantes vão reagir na próxima vez que uma autoridade disser: “Abram, não ouçam os traficantes"?

Anthony Garotinho: Francisco, nós não podemos achar que vamos resolver os problemas de uma hora para outra, nem autoridade é conquistada de uma hora para outra, e nem ela é perdida de uma hora para outra, isso é um processo. Então, eu, apesar de todas as dificuldades que tenho pela frente, não perco minha esperança.

[todos falam ao mesmo tempo]

Anthony Garotinho: Então, eu quero pedir a todas as pessoas que estão nos assistindo agora, especialmente para o Rio de Janeiro, que elas creiam, que elas não percam a confiança, porque o Estado vai restabelecer a autoridade.

Francisco Alves Filho: Acho que o que pode ajudar a restabelecer essa confiança é se o senhor disser como vai fazer. O senhor acabou de falar do problema da geografia dos morros, que é uma fala repetida há várias gestões. Como o senhor vai fazer para vencer esse problema da geografia dos morros?

Anthony Garotinho: Eu dei uma explicação a respeito. Por exemplo, falei das delegacias especializadas. Adquirimos ontem, através de uma doação importante, um sistema de interceptação telefônica, talvez uns dos mais modernos do país, que vai trabalhar com inteligência. O doutor Marcelo Itagiba foi para a Secretaria e a primeira determinação que eu dei para ele é: “reformule todo o sistema de inteligência.” O sistema de inteligência policial no Brasil não trabalha como deve trabalhar, contra o crime, trabalha contra a sociedade, é mais para bisbilhotar a vida dos outros do que para fazer o que tem para fazer. Então, vamos trabalhar com inteligência, vamos trabalhar com as especializadas, vamos trabalhar limpando a polícia. A população não pode ter a menor dúvida: quando ela olhar para o policial, tem que saber que é um agente da lei, um agente do bem e não do mal. Fiquei chocado anteontem. Recebi o relatório e vi que a Polícia Militar está com oitocentas viaturas quebradas e paradas no pátio, por falta de peças. Vamos recuperá-las e já encomendei outros veículos.

Francisco Alves Filho: Isso não é culpa do secretário anterior?

Anthony Garotinho: Não, não quero atribui culpa a ninguém. Eu quero olhar para frente, eu quero trabalhar. A responsabilidade é minha, agora cobrem de mim, podem cobrar de mim.

Francisco Alves Filho: Pois é, o que a população pode cobrar do senhor no final dessa sua gestão?

Anthony Garotinho: O senhor prometeu que ia melhorar a inteligência, melhorou a inteligência? O senhor prometeu que iria botar as especializadas para reduzir tráfico de drogas, reduzir armas, esse tipo de assunto...

Marcelo Beraba: O senhor prometeu isso em 1999 também.

Anthony Garotinho: Um minutinho, Beraba. E diminuí. Mas temos hoje uma polícia com foco. Homicídio tem problema, mas o Rio não é a cidade mais violenta do Brasil, tem seqüestro, mas São Paulo teve 320 seqüestros, enquanto o Rio teve oito...[refere-se a dados do município do Rio de Janeiro]

Paulo Motta: O Rio, em termo de homicídios, nesse caso relativo por cem habitantes, pode estar, talvez atrás de Pernambuco, ou alguma coisa perto de São Paulo, isso eu percebo.

Anthony Garotinho: Não estou falando estado, eu estou falando de cidade, porque o grosso de homicídio do Rio de Janeiro é na Baixada Fluminense...

[todos falam ao mesmo tempo]

Anthony Garotinho: Se for por estado, é o terceiro. Primeiro é Pernambuco, segundo é Espírito Santo, terceiro é Rio de Janeiro. Então, eu vou rearticular todo sistema de policiamento ostensivo. Por exemplo, o que adianta hoje você ter o Bope [Batalhão de Operações Policiais Especiais, grupo de elite da Polícia Militar carioca]? É importante você ter o Bope, foi reestruturada na minha gestão. Então qual é a minha idéia? Minha idéia é ter um mini-Bope em cada Batalhão. Você pega um Batalhão que tem trezentas pessoas, vamos pegar trinta e formar ali um grupo para enfrentar o tráfico de drogas na região.

Francisco Alves Filho: O senhor promete o mínimo de segurança no final de sua gestão?

Anthony Garotinho: Olha, você pode ter absoluta certeza de uma coisa: eu tenho 43 anos de idade, eu fui deputado com 25 anos, prefeito com 27, secretário do estado com 32, prefeito de novo com 36, governador do estado do Rio com 38 e candidato a presidente da República com 42 anos. Não assumiria aos 43 anos um risco desses. E é um risco mesmo, se eu não tivesse com interesse público.

[todos falam ao mesmo tempo]

Anthony Garotinho: Não me cobre com um mês, não me cobre com uma semana, mas ao final da minha gestão. Não vou acabar com bandidos, mas que o Rio de Janeiro estará muito melhor, você pode escrever aí.

Paulo Motta: Secretário, só para mudar um pouco aqui o tema. Amanhã haverá a CPI do Propinoduto, chamada dos “Silveirinhas e que tais”, e se encerra, pelo que parece, que tudo vai parar onde começou, nos mesmos fiscais que já estavam indiciados por causa do Ministério Público suíço, não das autoridades brasileiras. O que o senhor acha disso? O senhor acha que morreu ali, que aquela quadrilha andava por ali mesmo?

Anthony Garotinho: Olha, ainda bem que a esposa de uns dos fiscais resolveu falar aquilo que ela sabia, que ela viajou com o marido em 1997, e que abriu a conta e depositou dinheiro na conta nesse período.

Paulo Motta: [interrompendo] Os outros depósitos do Amauri foram em 1999 e 2001.

Anthony Garotinho: Não...

Paulo Motta: A maioria dos depósitos.

Anthony Garotinho: Depois que chegaram as contas da Suíça, verificaram que auditores federais e fiscais estaduais tinham conta em 1989, em 1994, em 1995...

Paulo Motta: Mas a maioria dos depósitos foi em 1999 e 2001.

Anthony Garotinho: Veja, eu assumi em 1999, isso é uma quadrilha que já atuava no estado há muito tempo.

Paulo Motta: São grandes empresas, como a Light, gente que teria acesso ao senhor para dizer “Olha, esse bando de fiscais está tentando me extorquir”.

[sobreposição de vozes]

Anthony Garotinho: Veja, no caso da Light, especificamente... Esteve no meu gabinete o diretor financeiro da Light, com uma fita, eu assisti à fita junto com ele, mandei-a para o Ministério Público na hora, que investigou e transformou a acusadora, que era a Light, em ré. Não estou querendo acusar ninguém, eu estou dizendo que o meu papel, eu fiz. E mais do que isso, não me furtei a nada. Depois de 21 anos de vida pública, tenho minha vida limpa, fui investigado, não se provou nada contra mim.

Paulo Motta: [interrompendo] Mas o senhor não respondeu. O senhor acha que era ali? Aquela quadrilha atuava ali e acabou?

Anthony Garotinho: Atuava há muito tempo.

Paulo Motta: Nenhum secretário da Fazenda tinha idéia dessa roubalheira?

Anthony Garotinho: Olha, da mesma forma que o traficante não age sem a polícia, o fiscal não age sem a conivência do empresário.

Reinaldo Azevedo: É uma soma tão estratosférica de dinheiro para estar na mão...

[todos falam simultaneamente]

Anthony Garotinho: Houve casos em que a arrecadação subiu no período, se tivesse caído, teria sido detectado. Não vamos tentar politizar a questão. É diferente do caso do Banestado [CPI do Banestado], que o inquérito não andou, está tudo parado. No Rio de Janeiro, andou por quê? Porque eu quis que andasse.

Marcelo Beraba: Como assim?

Anthony Garotinho: Eu podia perfeitamente fazer o que outros fizeram, o próprio Fernando Henrique impediu a CPI da corrupção do seu governo. Mas eu disse: “Eu quero a CPI”, quando começaram a insinuar que poderia haver qualquer, mesmo que de longe, envolvimento do Garotinho.

Marcelo Beraba: Durante o seu governo, todas as CPIs pedidas que, de alguma maneira, pudessem investigar o seu governo, foram derrubadas...

Anthony Garotinho: Absolutamente.

Marcelo Beraba: Nenhuma foi aprovada.

Anthony Garotinho: Eu nunca evitei qualquer tipo de investigação, jamais. Desafio qualquer um, em qualquer lugar do Brasil, a provar que eu tenho em meu nome ou em nome de alguém, aquilo que não está na declaração de bens.

Marcelo Beraba: Governador, o que está sendo questionado, por exemplo, por todo mundo, é o seguinte: como isso ocorreu durantes três anos, independentemente se foi antes ou não, e eles participaram? Silveirinha participou diretamente do seu governo, não só como um fiscal qualquer, ele tinha um cargo de subsecretário adjunto da Administração Tributária.

José Nêumanne: Eu só queria que o senhor me esclarecesse uma coisa: para que serve uma Secretaria, só para grande contribuinte?

Anthony Garotinho: Para fiscalizar. A ação deles é que não foi correta. Você não pode tratar um contribuinte que contribui com mil reais de ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] como um que contribui com um milhão de ICMS.

José Nêumanne: Só porque a propina dele vai ser maior?

Anthony Garotinho: Não, não é questão de propina maior, não. A própria União trabalha assim também, não é errado ter uma fiscalização maior em cima das grandes empresas, errado é fazer o que eles fizeram.

[sobreposição de vozes]

Reinaldo Azevedo: O senhor foi governador do Rio de Janeiro...como é que a situação se deteriorou tanto em relação à segurança? Parece que quando houve uma troca de guarda e na equipe de segurança, o poder do morro se desorganizou do asfalto pra lá. Os interlocutores desapareceram e o caos desceu.

Anthony Garotinho: Não, não é verdade.

Reinaldo Azevedo: Então, em vez de só os brancos e ricos atravessarem asfalto para comprar droga, os pretos e pobres resolveram fazer o caminho contrário.

Anthony Garotinho: Não, não é verdade, Reinaldo. Primeiro, não considero que o povo seja burro. A minha candidata, do meu partido, que era minha secretária de Ação Social, minha esposa, foi eleita no primeiro turno. Se eu tivesse feito um mau governo não teria vencido a eleição. Se tivesse sido uma gestão desastrosa na segurança pública ou em qualquer outro setor, a população não teria apoiado.

Reinaldo Azevedo: O senhor não acha que o senhor é a prova de que nem sempre o melhor vence? [refere-se à eleição para a Presidência, a qual Garotinho perdeu]

Anthony Garotinho: Política de segurança pública é continuidade, é continuidade. Não se muda em nove meses, não há tempo hábil para se implantar uma nova política de segurança. Então mudaram a que existia e não deu tempo de implantar uma nova, ou seja, ficou sem comando e criou-se uma desorganização total. E as forças do mal, que estão reprimidas, põem a cabeça de fora.

Francisco Alves da Silva: [interrompendo] O senhor não sabia disso quando se afastou para disputar a Presidência?

Anthony Garotinho: Não, você acha que eu sabia que ia mudar a política de segurança? Não, não sabia quem ia ser o secretário de Segurança. Eu sei que política de segurança deveria ser política de Estado, acima de política de governo.

Paulo Markun: Secretário, nosso tempo acabou. Eu acho que esse programa tem o mérito de ter um registro do pensamento do senhor e das afirmações que o senhor fez, taxativas e muito firmes, no momento em que assume a Secretaria. Eu tenho certeza que, no mínimo, ele servirá para que a gente possa cortejar essas afirmações como o que será a realidade da política de segurança pública que, segundo o senhor, não se muda de uma hora para outra. Desejo-lhe, de todo o coração, realmente boa sorte para o senhor. O Rio de Janeiro precisa muito, o Brasil precisa que isso funcione. O Roda Viva vai estar aqui para acompanhar, cobrar, fiscalizar, como é a tarefa da imprensa, e dar espaço para que as autoridades se manifestem. Nós voltamos na próxima segunda-feira, às dez e meia da noite. Uma ótima semana e até lá.

 

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