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Steve Ballmer

8/10/2001

O presidente da Microsoft, líder mundial na área de softwares, é questionado sobre monopolização de mercado e livre concorrência

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Heródoto Barbeiro: Boa noite. Ele comanda o maior fabricante de programas para computador do mundo. Tornou-se presidente da empresa que já revolucionou o mercado de computadores pessoais para que seu fundador pudesse pensar em uma outra revolução, de olho no futuro da informática. Para discutir que futuro é esse e o que muda na utilização dos computadores e também da internet e como isso pode refletir no Brasil, o Roda Viva de hoje entrevista o presidente da Microsoft, Steve Ballmer, o executivo que assumiu o lugar de Bill Gates na direção da empresa. Para entrevistar o presidente da Microsoft, Steve Ballmer, nós convidamos: o jornalista Ethevaldo Siqueira, especializado na área de telecomunicações e colunista do jornal O Estado de S. Paulo; Paulo Henrique Amorim, do programa Conversa Afiada, da TV Cultura de São Paulo; Hélio Gurovitz, diretor de redação da revista Negócios e Exame; Ivan Martins, diretor executivo da revista Dinheiro; Stephen Kanitz, articulista da revista Veja; Cora Rónai, editora de informática do jornal O Globo e o engenheiro de computação Tadao Takarashi, coordenador do programa Sociedade da Informação do Brasil, do ministério da Ciência e Tecnologia. Nós vamos, portanto, entrevistar hoje o Steve Ballmer. Obrigado por vir.

 

Steve Ballmer: Obrigado.

 

Heródoto Barbeiro: A primeira pergunta que eu gostaria de fazer ao senhor: qual é a importância, na opinião do senhor, da informática para essa nova estruturação econômica do mundo que alguns chamam de globalização?

 

Steve Ballmer: Com certeza, o computador, a internet e a indústria da tecnologia de informação tiveram papéis importantes. Um deles foi aumentar a produtividade dos indivíduos e empresários no mundo todo. Considero isso um grande boom. Em qualquer lugar do mundo as pessoas falam sobre o aumento de produtividade, sobretudo na prestação de serviços ou para indivíduos e pequenas empresas. É muito animador. Outro aspecto foi o aumento de empregos e da economia dentro da própria indústria da tecnologia de informação. Nos EUA, no Japão, na Índia ou no Brasil, vimos esse fenômeno, a grande criação de empregos, gente trabalhando nesse setor no mundo inteiro. Além disso, temos uma rede global incrível, a internet, que faz a informação e as tecnologias viajarem rapidamente pelo mundo. Então, o mundo todo está muito mais unido e está se beneficiando desses eventos.

 

Heródoto Barbeiro: Paulo Henrique.

 

Paulo Henrique Amorim: Senhor Ballmer, fazendo um follow up da pergunta do Heródoto, sobre o que a computação tem a ver com o futuro e com essa globalização, uma declaração que o senhor deu aqui e que provocou, evidentemente, repercussão, foi o fato de o senhor dizer que, na sua opinião, na opinião da Microsoft, o Brasil tem um potencial de crescimento maior do que qualquer outro país. Como é que o senhor compararia... Por que o senhor diz isso? E se nós levarmos em consideração países emergentes tão fortes quanto, por exemplo, a Índia e a China? Como o senhor compara o Brasil a essas duas economias emergentes?

 

Steve Ballmer: Com certeza, vemos potencial nos maiores mercados do mundo. O que me espantou nos últimos 4 ou 5 anos foi que, sob a perspectiva dos computadores pessoais, não só acreditei no grande potencial do Brasil, por causa da população numerosa e da economia, mas também vi um grande aumento no Brasil na aquisição de PCs. O mercado brasileiro é uma vez e meia ou duas vezes, talvez até duas vezes e meia, maior que o mercado de PCs na Índia, por exemplo. Na comparação com a China, apesar da pirataria no Brasil, ela aumentou demais naquele país. Então, além do aumento no mercado de PCs, o Brasil também evoluiu no mercado de software, coisa que não aconteceu na China. São esses os três grandes mercados, até que alguma coisa mude rapidamente na Rússia, talvez.

 

Heródoto Barbeiro: Ethevaldo Siqueira.

 

Ethevaldo Siqueira: A minha pergunta é com relação à tecnologia. O senhor falou do papel da informática na globalização. Como o senhor vê esta convergência, que é bem maior que a própria informática... quando nós somamos informática, telecomunicações, microeletrônica, multimídia? E qual é o seu conceito de convergência?

 

Steve Ballmer: Há dois aspectos com relação à convergência e quero esclarecê-los. Um deles é: será que as tecnologias que sustentam TV, mídia, computadores e celulares vão ter a mesma plataforma de tecnologia? Assim, as pessoas criativas de todos esses ramos poderiam usufruir o trabalho umas das outras? A resposta a essa pergunta é: sim, com certeza. Claro. Dito isso, será que haverá uma única experiência no mundo do ponto de vista do consumidor? Claro que não. Às vezes, quero sentar diante da TV, não quero ter muito trabalho, talvez queira usar o controle remoto. Às vezes, quero me sentar diante do computador para fazer pesquisa ou planejamento financeiro e às vezes estou em algum lugar para onde não posso levar um computador, mas tenho o meu aparelho de bolso no meu bolso. Acho que haverá convergência de tecnologias e acho que vamos continuar vendo pelo menos três diferentes tipos de uso para tecnologias de informação e telecomunicações.

 

Heródoto Barbeiro: Ivan, por favor.

 

Ivan Martins: A sede da Microsoft é em Seattle [Estados Unidos]. O senhor certamente acompanhou as manifestações que ocorreram na cidade quando houve a reunião da Organização Mundial do Comércio. E eu queria perguntar: o senhor, como presidente de uma das companhias mais importantes e mais influentes do mundo, possui qual visão a respeito desses jovens que no mundo inteiro criticam a globalização? Eles criticam, sobretudo, a prática das empresas multinacionais, a maneira como essas empresas estão ocupando o mercado, dispondo dos recursos econômicos e, de uma certa maneira, do futuro das pessoas.

 

Steve Ballmer: Acho importante avaliar e respeitar as opiniões de várias pessoas, inclusive dos jovens, que têm uma visão diferente da minha. O que eu considero inevitável é que, de várias formas, não só é eficaz ser globalizado, e muitos concordam com isso. Mas, além de ser economicamente eficaz, é realmente inevitável. Mesmo o fenômeno das manifestações e protestos durante a reunião da OMC, em Seattle, foi globalizado. Foi incrível, porque, além de haver um problema, ele se espalhou instantaneamente pelo mundo e as pessoas que foram participar eram globais por natureza. Também aconteceu em Gênova [Itália, em 2001]. Respeito a opinião das pessoas, mas acho que essa tendência é facilitada pela tecnologia. A tecnologia da internet, da telecomunicação, da mídia garante que tudo o que acontece se manifeste de forma global.

 

Heródoto Barbeiro: Hélio Gurovitz.

 

Hélio Gurovitz: Eu gostaria de fazer uma pergunta a respeito da Microsoft e do que a empresa pretende fazer em relação ao Brasil. A empresa tem sido uma das subsidiárias mais bem-sucedidas no mundo todo. Recentemente, inclusive, o presidente da filial brasileira foi promovido por causa disso. Agora, em contrapartida, embora a gente veja muito software da Microsoft, a gente use o software da Microsoft, a gente não vê desenvolvimento, a gente não vê pesquisa, a gente não vê a criação de uma pegada mais firme no Brasil. Eu gostaria de saber se a empresa tem a intenção de investir em pesquisa e desenvolvimento no Brasil. E, se é verdade que nós somos um dos países mais promissores no mundo do software, se isso não faz sentido do ponto de vista do negócio.

 

Steve Ballmer: Você fez perguntas muito boas, que já me fizeram em vários países do mundo. A Microsoft faz 96% de toda pesquisa e desenvolvimento (p&d) em lugares dos quais dá para ir a pé ao escritório do Bill Gates. Isso tem um certo atrativo [risos]. Acreditamos na comunicação eletrônica, mas também gostamos do contato pessoal. Não temos nada contra outros lugares, mas gostamos de centralizar o departamento de p&d. Fazemos parte desse trabalho na Califórnia, porque compramos algumas empresas lá e também estamos começando bem devagar em alguns outros países. Na Índia, por causa das tendências do mercado, em Israel. Mas nosso centro de p&d é em Seattle até criarmos estratégias que nos permitam deslocar esse setor de Seattle. A questão não é se gostamos ou não do Brasil. Gostamos, mas não vamos pensar nisso. Quando pensarmos em tirar esse setor de Seattle, o Brasil será um bom lugar.

 

Heródoto Barbeiro: Tadao.

 

Tadao Takarashi: Em conexão, inclusive, com a idéia de que a Microsoft um dia venha a distribuir as tarefas de desenvolvimento, mas num cenário mais amplo, a minha pergunta é a seguinte: olhando para 2005... o que é a Microsoft em 2005, segundo dois aspectos: a tecnologia que ela detém e o modelo de negócios? Por exemplo: no caso de tecnologia, se fala em novos tipos de interfaces, processamento de linguagem natural e assim por diante. E do ponto de vista do modelo de negócio é: como é que a Microsoft está gerando receita e como é que ela se relaciona com o mercado?

 

Steve Ballmer: Com relação à tecnologia para 2005, há duas mudanças que mais empolgam as empresas. Uma é, como você mencionou, tornar a interação do usuário com a máquina muito mais natural. Quando trabalho com a minha máquina, será que eu preciso mesmo saber tantos comandos, preciso saber digitar e conhecer o teclado? Será que preciso ter algumas dessas habilidades? Mas o computador reconhecerá nossa voz, nosso rosto, reagirá aos nossos comandos. Em vez de dizer "arquivo" e "abrir", posso apenas pedir anotações da minha última viagem ao Brasil. O computador deverá estar apto a responder a isso em 2005, pelo menos em parte... ele deverá estar apto a isso. Estamos animados com essa interação mais natural, que inclui linguagem natural e outras tecnologias. Essa é uma mudança importante. Uma outra mudança que espero para 2005 é ver a revolução XML totalmente implementada. Trata-se de uma linguagem, como vocês sabem, que tem padrão aberto dentro da internet e que achamos que será a língua franca da rede, permitindo que computadores, programas, websites e pessoas integrem seu trabalho de maneira diferente. Isso vai dar ao usuário uma visão mais pessoal da rede. A minha homepage e não a da MSN [site que disponibiliza dowload de programa para envio de mensagens instantâneas via internet], ou qualquer outra, a da Abril. Mas a minha homepage pessoal, eu vou poder ver com essas tecnologias. Minha agenda, a da minha esposa, que às vezes é mais importante que a minha, meus e-mails, resultados de vendas, tudo junto. Essa tecnologia de integração será o equivalente do clipboard na internet e será muito importante. Há ainda uma terceira mudança tecnológica, que vai acontecer por causa da internet: é a evolução do software com serviço. Hoje, você compra um software, recebe um CD e tem bastante trabalho com isso. Em 2005, o software deverá ser auto-suficiente. Ele deverá se instalar pela internet. Deverá se atualizar e fazer backup, tudo sozinho. Ele deve ajudar o usuário nas funções importantes e deve ajudar a compartilhar dados. São três mudanças em tecnologia. Em termos de negócios, são duas as grandes mudanças. A primeira é que vamos iniciar novos negócios. Muito nos vêem como a empresa do Windows e do Office e, hoje, essa é a maior parte do nosso negócio. Estamos criando servidores em empresas pequenas e também em grandes corporações. O retorno será de quase US$ 4 bilhões. É substancial. Estamos investindo numa rede de serviços. Através da MSN, também investimos em pequenas empresas. No Brasil ainda não, mas chegaremos ainda este ano. Por último, mas não menos importante, como eu disse numa outra resposta, acreditamos que devemos criar softwares utilizáveis em equipamentos móveis e TVs, criando uma plataforma comum de tecnologia. Novos negócios são uma forma de ampliar receita e, além disso, esperamos ver, talvez não em 2005, mas nos próximos 5 ou 6 anos, uma transição. Com o software se transformando em serviço, tecnologicamente vamos chegar a um ponto em que ele virá por meio da assinatura de um serviço e não da aquisição de um pacote como é hoje.

 

Heródoto Barbeiro: Cora.

 

Cora Rónai: Eu queria voltar a dois conceitos que foram abordados aqui antes. Um é a globalização e o outro a pirataria. Quando se fala em globalização, se fala muito também em exclusão digital. Aliás, esse foi um conceito a respeito do qual o senhor conversou com o presidente Fernando Henrique Cardoso. E o que eu tenho a perguntar é o seguinte: tendo em vista que a gente ficou sabendo pelos jornais que a Microsoft está preocupada com a questão da exclusão digital, eu pergunto... e também com a coisa da pirataria, naturalmente, se não seria uma boa medida para combater isso repensar os preços que a Microsoft pratica no Brasil. Eu estive vendo a lista de preços. Hoje, compra-se um Windows 2000, que é um sistema operacional defasado como nós sabemos, porque vem o XP, por R$600,00. Isso equivale a 3 e poucos salários mínimos brasileiros. Um Office XP Standard, que é o que qualquer pessoa precisa para trabalhar dentro desse ambiente... bom, vamos usar a palavra monopolizado, pela Microsoft, do desktop, custa R$980,00, o que equivale a 5,4 salários mínimos brasileiros. Não seria uma boa a gente começar a pensar na exclusão digital por aí?

 

Steve Ballmer: Tenho duas coisas a dizer. É uma boa pergunta. Nós passamos muitas horas tratando dessa questão não apenas no Brasil, mas em países até bem menos afluentes. Fizemos testes, estudamos muito essa questão e há duas coisas a dizer. A primeira é que os preços de software e hardware, um em relação ao outro, são bem constantes em todo o mundo, Brasil, Estados Unidos, Índia. O preço relativo é bastante constante mundo afora. Sempre me pergunto por que o software deveria ser barato se o hardware não é barato em alguns países. Essa é uma questão ... [sendo interrompido]

 

Cora Rónai: Porque o senhor não faz upgrade tão freqüentemente do hardware. O software vem com mais bugs e a gente, a toda hora, tem que fazer correções do software, que não são correções, a gente sabe, são vendidas como upgrades. Desculpe.

 

Steve Ballmer: Tudo bem. Seria bom se todos atualizassem os softwares mais que os hardwares. Mas muitos usuários só atualizam o software quando atualizam o hardware. Essa é a prática no Brasil e em outros países. A questão é interessante, mas quero falar do outro aspecto. Testamos isso em alguns países. Reduzimos o preço do software no idioma local, esperando que as vendas subissem. As vendas não subiram. Por que será que elas não subiram? Porque existe a pirataria e os que não queriam pagar nada, de fato, não pagaram. E como o software estava mais barato, isso dificultou o investimento em p&d e na adaptação para o idioma. Fizemos isso na China e a receita caiu, de modo que investimos menos no produto chinês e não houve aumento significativo nas vendas. Concordo que o conceito seja bom, ele parece lógico, mas tentamos aplicá-lo em vários países durante anos e nunca deu certo. Então, hoje, estamos mantendo nosso modelo e é o mais justo para os maiores consumidores. Acho que eles devem pagar o mesmo preço, estejam na Alemanha, no Brasil, na Índia, na China ou nos EUA. Nós pensamos assim e foi essa a nossa experiência.

 

Hélio Gurovitz: A Microsoft recentemente teve uma grande notícia, quando ela estava sob ameaça de divisão. O departamento de Justiça tinha considerado a empresa um monopólio e o remédio que eles tinham recomendado para isso era quebrar a empresa em duas. Agora, embora ainda persista a condenação da empresa, eles estão estudando uma nova sentença. Eu gostaria de saber o que vocês esperam dessa sentença e se vocês acham que passou o pesadelo ou se vocês ainda se vêem sob pressão do governo americano?

 

Steve Ballmer: Nós ainda estamos sob pressão do governo americano. Quando começou o problema com o departamento de Justiça, havia muitas considerações, mas duas eram fundamentais. No nosso país, o monopólio não é ilegal, desde que tenha sido gerado de modo apropriado, mas duas coisas nos preocupavam. A primeira era manter uma empresa só, porque nossa estratégia tecnológica não funciona numa empresa múltipla. A segunda, que as pessoas não conseguem entender, é que nossos engenheiros precisam poder continuar a incluir novas capacidades no Windows. Uma das exigências do governo era que parássemos de desenvolver o Windows. Eu não consigo entender que isso seja bom, porque inovação a preços baixos, eu acho que são baixos, novas funções todos os anos, isso é bom para o consumidor e as leis existem para protegê-lo. Esses foram os dois princípios principais pelos quais nós lutamos. Na primeira etapa do processo, parece provável... ainda não é certeza, mas acho que continuaremos sendo uma única empresa. É um alívio. Afora isso, o que nós ouvimos no processo foi útil para nós, mas não 100%, claro. Ainda há questões que precisam ser tratadas, quer seja na fase de remediar ou quer seja no acerto com o departamento de Justiça. Estamos atuando nesses dois campos, além de entrar com recurso na Corte Suprema com relação ao caso.

 

Ethevaldo Siqueira: O que eu gostaria de saber, continuando este conceito do processo do governo americano contra a Microsoft, é uma questão mais geral. Se o senhor voltar na história, o senhor se lembrará que a Standard Oil, a Esso, implementou no início do século XX processos muito grandes, exatamente por ocupar uma fatia de mercado imensa, quase que um monopólio do ponto de vista do lado petrolífero. Ela e a Shell, na Europa, dividiam o mundo. Nós tivemos até os anos 60 um predomínio da IBM tendo provavelmente mais de 60% ou 70% dos mainframes  [computador de grande porte utilizado para a adminstração de um grande volume de informações, utilizado em empresas de grande porte] do mundo.  A Microsoft foi, não só a Microsoft como todos os PCs foram uma das armas utilizadas mundialmente para quebrar o monopólio da IBM. Hoje, a Microsoft detém mais de 80% dos PCs do mundo com sistema Windows. O que vai acontecer, como é que nós vamos diversificar e ter alguma competição nessa área? O senhor acha necessário? Eu me sinto, às vezes, preocupado com 80% dos PCs do mundo com um único fornecedor.

 

Helio Gurovitz: São 95%.

 

Ethevaldo Siqueira: 95%, me corrigiu o Gurovitz. Como é que o senhor vê este problema?

 

Steve Ballmer: Quero dizer três coisas. Primeiro, para esclarecer, não há semelhança nenhuma entre a Standard Oil e a Microsoft. Nossa empresa foi construída, não foi comprada. Nós a construímos na maior parte com nossa própria P&D. Só para esclarecer que são casos diferentes. Depois, acho que o mais importante é que haja concorrência no mercado. Se os usuários quiserem usar mais um produto do que outro, a decisão deve ser deles, não dos legisladores ou das empresas. As pessoas devem ter direito à escolha e o mundo deve ser competitivo. Acredito nisso, porque o trabalho é melhor quando há concorrência. Uma das coisas em que eu acredito é que nosso mundo é muito competitivo. Eu estudei economia e no curso eles dizem que no monopólio você age como se não houvesse concorrência. Nós não agimos assim, temos muita concorrência. Vocês poderiam dizer: “Mas com tantos clientes, como você pode dizer que tem concorrência?” Nós temos mesmo e continuamos indo bem. Vou citar alguns concorrentes: Linux. O Linux é um concorrente. É grátis. As pessoas não compram ou usam, já que é grátis, no lugar do Windows hoje, mas diariamente nós temos de pensar: “Como vamos garantir que nossos produtos sejam melhores que o Linux a ponto de justificar o nosso preço?” Quando não fizermos isso, será o nosso fim. Todos os dias nós somos pressionados. Estamos mantendo nossos preços baixos? Estamos fazendo pesquisa suficiente? Estamos sabendo lidar com a pirataria e mantendo nossos preços acessíveis? Existem alternativas mais baratas. Existe o Linux e também há outros sistemas operacionais que não são tão famosos quanto o Linux. Há vários sistemas para ambiente Linux, o que faz dele um grande concorrente. A AOL lançou um produto que opera apenas com o Linux e AOL, sem Windows, só Linux e AOL. Temos de competir diariamente, p&d, preços, apoio técnico. Se essa concorrência reduz preços e aumenta a pesquisa, isso beneficia o consumidor. Você poderia perguntar se é uma concorrência válida, já que ainda temos a maior parte dos usuários. Para mim é uma concorrência válida. Quando visito clientes, eles dizem: “Isso não está bom. Vamos usar o Linux.” As pessoas fazem isso. Então, nós pensamos: “Como podemos melhorar? Como vamos ajudar? O que é preciso mudar?” Não queremos perder clientes, queremos ter clientes. Então, precisamos nos exceder em preços, em condições de uso e apoio técnico, em inovações. Acho que a concorrência é boa, hoje, e ainda assim os usuários acham o Windows bom. São eles que devem decidir isso. Os usuários e ninguém mais. O governo quer garantir que haja concorrência.

 

Ethevaldo Siqueira: Mas há um outro argumento que eu gostaria que o senhor considerasse, que é que o governo norte-americano tem conceitos provavelmente um pouco diferente desses. Tinha... [risos]. O que nós consideramos é que, no passado, nos anos 1980, a grande preocupação do povo norte-americano, ou refletida no governo, era o crescimento da AT&T [American Telephone and Telegraph, uma companhia da área de telecomunicações]. A AT&T chegou a mais de 80%, ou 90%, do mercado na área de telefonia. Embora existisse mais de mil ou 1.500 empresas telefônicas. Esta preocupação do governo americano não pode estar em direção oposta ao seu raciocínio?

 

Steve Ballmer: Acho que não. A preocupação do governo é garantir a concorrência e não garantir mercado. O governo não quer saber se nós vendemos 100%. É permitido que nós vendamos tudo. Se vendermos todos os sistemas operacionais, isso é legal. O governo quer que haja concorrência no mercado e essa concorrência deve criar a dinâmica que leva a inovação.

 

Ethevaldo Siqueira: Obrigando uma divisão muitas vezes... Em 1984, a AT&T foi dividida em 7 Baby Bells.  A Microsoft não pode ser dividida em uma Baby Microsoft?

 

Steve Ballmer: A AT&T não tem nada a ver com a Microsoft. Não há semelhança.

 

Ethevaldo Siqueira: Não há similaridade?

 

Steve Ballmer: Nenhuma. Deixe-me explicar. A Microsoft cresceu internamente, desenvolveu seu setor de p&d e sempre foi uma empresa única. A AT&T é um conglomerado. Ele foi reunido em 1912 e a pessoa que presidia a AT&T, na época, procurou o governo e disse: “Deixe-me montar um monopólio e você pode regulamentá-lo.” Foi assim que a AT&T se formou. Foi um conglomerado que recebeu autorização explícita do governo. Quando foi desfeito, em 1984, foi só o fim de um acordo que havia sido feito 71 anos antes. A AT&T não era uma empresa de P&D. Era de serviço, pelo menos nas áreas que monopolizava. A analogia não existe. O que houve foi um acordo com o governo 70 ou 60 anos antes e, então, a AT&T, e não o governo... O governo não desfez a AT&T. Ela quis anular o acordo para não se submeter às regulamentações. Então, foi feito um novo acordo com o governo. Não é o nosso caso de forma alguma.

 

Heródoto Barbeiro: Nós vamos fazer um pequeno intervalo. Nós estamos entrevistando hoje no Roda Viva, Steve Ballmer, presidente da Microsoft.

 

[intervalo]

 

Heródoto Barbeiro: Nós voltamos com o Roda Viva. Hoje, estamos entrevistando o presidente da Microsoft, senhor Steve Ballmer.

 

Heródoto Barbeiro: Quando nós, jornalistas, noticiamos a respeito da sua empresa, geralmente, nós falamos no volume de dinheiro que ela vale. Alguns bilhões de dólares ou muitos bilhões de dólares. Eu gostaria de perguntar ao senhor se a sua empresa é uma empresa socialmente responsável e se ela for, onde isso é exercido?

 

Steve Ballmer: Acho que na nossa empresa, podemos dizer, com certeza, que somos mais responsáveis socialmente que qualquer empresa que já existiu. Isso me deixa muito satisfeito. Nos últimos 4 anos, a nossa empresa, com contribuição dos funcionários, sem contar a Fundação Gates, mas apenas a empresa, contribuiu com mais de US$ 1 bilhão em softwares e dinheiro para organizações de caridade no mundo todo. Somos muito ativos em certas organizações, aquelas que ajudam a combater a exclusão digital, que ajudam na alfabetização em computadores, nas atividades de informática para pessoas carentes. Temos bibliotecas, o projeto com o CDI [Comitê para a Democratização da Informática] aqui no Brasil, que leva computadores e softwares para a favela. Temos projetos no mundo todo. Pelo menos nos EUA, posso dizer com certeza: nenhuma empresa americana fez mais doações nos últimos 4 anos. Nenhuma empresa americana faz mais que a Microsoft. Temos muitos funcionários lá, que é onde as atividades se concentram, mas também doamos milhões de dólares no Brasil nesse mesmo período. Além disso, se você analisar o histórico de Bill Gates, ele tem uma fundação muito conhecida. E eu estou pensando em criar uma também. Vocês verão que nossa empresa e seus grandes acionistas têm um histórico muito claro de ajuda à sociedade à qual pertencem.

 

Stephen Kanitz: A pergunta do Heródoto é que no Brasil as multinacionais, e vocês, também, têm a visão de que a responsabilidade social é mais um indivíduo do que a empresa. É assim que tem que ser. Quer dizer, eu acho até bom que vocês não tenham a Fundação Microsoft e tenham a Fundação Bill Gates. E o Bill Gates se propôs a fazer vacinas, o que é melhor do que uma Fundação Microsoft. Provavelmente vocês estariam vendendo software de graça para evitar o Linux nas favelas e eu prefiro ter Linux nas favelas que pagar essa fortuna. Então, eu acho que a pergunta do Heródoto... Um dos problemas que se tem no Brasil é que a fundação Bill Gates, que ele ganhou esse dinheiro vendendo parte de software no Brasil, por ser uma fundação pessoal acaba não tendo um escritório aqui no Brasil. A gente começa a conversar com o escritório da Microsoft e dizem: “Não, fala com a Fundação Bill Gates.” Porque a responsabilidade social é sempre do indivíduo, ou do acionista, ou dos funcionários, como você faz, e aí há essa discrepância. Às vezes, tem menos dinheiro vindo das empresas do que das fundações, que praticamente não existem no Brasil, a Fundação Bill Gates que não tem escritórios aqui.

 

Steve Ballmer: Acho que a localização dos escritórios da fundação não tem nenhuma importância. A maior parte do dinheiro doado pela Fundação Bill Gates foi entregue fora dos EUA. Boa parte foi para países bem mais pobres que o Brasil. A fundação atua muito na África, onde não há um escritório. Então, o fundamental não é a localização, mas há duas áreas de maior atuação. Uma delas são as atividades mundiais em saúde e as doações são feitas mundialmente. Também houve doações para organizações como a ONU [Organização das Nações Unidas], que é mundial em seu alcance, e também há muita ajuda no setor da educação. Acho que esse dinheiro teve um impacto global. O dinheiro da Microsoft tem melhor distribuição. Mas, como você disse, doações de empresa, mesmo uma empresa que ajuda como a nossa, tendem a ser menores, porque é difícil justificar certos valores aos acionistas, o que não acontece com o indivíduo.

 

Stephen Kanitz: Vai haver uma Steve Ballmer Foundation?

 

Steve Ballmer: Prefiro ajudar de maneira privada [risos]. Tenho feito muito isso, mas gosto de privacidade. Bill preferiu ser mais público em suas doações, mas eu também tenho agido de modo privado.

 

Ivan Martins: Eu queria voltar à questão do monopólio, que eu acho que é muito importante e tem implicações tecnológicas. Alguém me sugeriu outro dia uma imagem que eu achei maravilhosa. Se a Volkswagen tivesse na década de 70 e até hoje o mesmo grau de monopólio, o mesmo poder sobre o mercado que tem a Microsoft, nós ainda estaríamos andando de Volkswagen, the Beetle [automóvel como o Fusca no Brasil]. Seria um Beetle versão 2001, com motor um pouco mais potente, um pouco mais de tecnologia no painel, mas seria, essencialmente, o mesmo carro. Como essencialmente o mesmo carro é o Windows, as versões são atualizadas ano a ano, se acrescenta algumas novas funções, mas é uma mudança evolutiva e não revolucionária. Porque não é uma competição verdadeiramente. Nenhuma empresa se atreve a competir com vocês no mercado dos sistemas operacionais porque é inútil. Vocês têm 95% do mercado. Logo, eu pergunto: o monopólio da Microsoft não é prejudicial ao público, ao consumidor, às pessoas que usam computadores?

 

Steve Ballmer: Eu discordo de você. O que você disse vai contra a realidade que os consumidores vêem. Eles vêem muita inovação. Acho que vão gostar do Windows XP. Eles gostaram dos aperfeiçoamentos do Windows 2000 em comparação com o 98 ou o 95. As pessoas vão se espantar com as novas funções e vão se impressionar com o nível de inovação. Isso é uma questão, o consumidor vê isso e toma sua decisão. A outra questão é que há concorrência. Não sei que programa você tem no seu computador, mas com certeza poderia instalar o Linux, poderia usar os aplicativos do Linux e fazer dele o seu ambiente. Essa concorrência é uma realidade diária. Acredito no nosso trabalho, na inovação que promovemos. Lembre que gastamos 5 bilhões de dólares por ano em P&D para melhorar os produtos e acho que esse trabalho é o tipo de inovação que o consumidor espera. Existem alternativas e isso é muito bom, mas também acho que nós trabalhamos duro e o nosso trabalho é muito inovador. Acho que se uma montadora tivesse dominado o mercado nos anos 70, teríamos ótimos carros no ano 2000. Tenho certeza [soca a palma da mão entusiasmado]. Mas a Ford acabou sendo concorrente. Vamos falar de computadores.

 

Cora Rónai: Mas de repente a tela ficaria azul e o carro pararia no meio do caminho [risos].

 

Paulo Henrique: Vamos supor que, daqui a alguns anos, a Microsoft ou algum outro competidor da Microsoft, que esperamos que exista, consiga fazer com que essa língua franca do XML, de fato, transfira documentos e conteúdo para qualquer device, qualquer dispositivo, com rapidez em qualquer lugar do mundo, que isso de fato seja uma commodity daqui a um tempo. Muito bem. Eu, como consumidor final, o que, na sua visão, eu vou fazer com a televisão, o PC e o meu palmtop? O que eu, como consumidor, vou acabar fazendo em um, no outro e em outro?

 

Steve Ballmer: Acho que, de um jeito meio estranho, você vai fazer qualquer coisa nos três equipamentos. A pergunta é o que você vai querer de cada equipamento. Quando estiver com a família, pode querer ver um vídeo ou um programa de televisão. Acho que ninguém vai ficar perto do PC. Vão ficar todos juntos, sem teclado, vendo uma tela grande, a TV vai ser muito importante. Você poderá ver esse mesmo vídeo no palm ou no PC? Claro. Todos vão funcionar tecnicamente, mas a TV vai centralizar esse tipo de atividade.

 

Paulo Henrique: Mas que tipo de conteúdo?

 

Steve Ballmer: Para o conteúdo que você vai ver, todas as formas estarão disponíveis em lugares diferentes. Quando eu sentar diante da TV, talvez prefira um conteúdo produzido profissionalmente, mas talvez queira ver um vídeo feito por mim. Minha filha de 6 anos está linda neste vídeo. Eu posso querer ver. No palm, eu talvez queira ver coisas que criei ou pequenos trechos de produções profissionais, dados, notícias etc. No PC poderei ver muitas coisas. Conteúdos profissionais. Se eu tiver sempre uma janela do Bloomberg [maior jornal eletrônico dos EUA especilizado em mercado financeiro], poderei colocar no PC, mas ele servirá basicamente para conteúdos da empresa e produções pessoais.

 

Tadao Takahashi: Eu queria voltar ao assunto do monopólio, mas segundo a seguinte ótica: eu não acho que o problema seja discutir se a Microsoft é monopólio ou não. É o ponto central da questão. A impressão que eu tenho é: quando a gente olha uma companhia, uma que começa a ter uma gama de produtos e ter um processo de inovação tremendamente poderoso e que começa, não só a dominar uma fatia considerável do mercado, mas também começa a colocar produtos de serviços que quando se olha, na verdade, fazem todo um leque de coisas que parecem chegar muito próximo do dia-a-dia do cidadão individual... Por exemplo: o password [senha de acesso aos serviços Microsoft]. A tendência de um usuário muito pouco familiar acerca desse tipo de coisa é, provavelmente, sempre utilizar aquilo que está previamente instalado. Então, a impressão que eu tenho é que o grande problema que se coloca por trás da Microsoft, ou da discussão da Microsoft, não é se é um monopólio ou não, não é se é lei nova ou não, não é se ela compete ou não, e quanto a tudo isso eu, certamente, lhe dou razão. Mas me parece ser um problema de interesse público, que é se realmente no mundo que a gente imagina, a gente aloca ou a gente deixa que uma empresa privada ou um conjunto de empresas privadas tenham um poder tão grande sem discutir o público. O que o senhor acha disso?

 

Steve Ballmer: É claro que, se não ouvirmos o público, implicitamente, a opinião dos clientes, se não levarmos isso sempre a sério, não teremos clientes. Por isso eu acho que há concorrência. Os clientes vão procurar outros produtos. Vão usar o Linux, vão procurar máquinas Linux-AOL, vão querer qualquer coisa que não seja Microsoft. Pelo menos eu reagiria assim. Esta é a questão fundamental. A concorrência no mercado é suficiente para manter todos escutando, prestando atenção, prestando atenção aos consumidores? Não é política social que nós fazemos. Fazemos softwares e não políticas sociais. Fazemos softwares. Não mudamos as leis que imperam. Fazemos softwares que aumentam produtividade. Se não fizermos isso, outras pessoas farão e, se alguém fizer bem feito, também vai ter muitos clientes, partindo do zero, mais uma vez. Devemos lembrar que, há 10 anos, a IBM era considerada líder. A IBM ia tirar o mercado do Windows. Nós trabalhamos bastante, ouvimos os clientes e fizemos softwares a partir disso, fizemos p&d a partir disso. Entendo a sua abordagem como uma questão social, sinceramente. Ao mesmo tempo, do meu ponto de vista, não sei o que mais eu poderia fazer além de ouvir o consumidor, tentar implementar inovações, ampliar a área de pesquisa e desenvolvimento e manter os preços baixos. É só isso que eu sei fazer. Se fizermos isso... [alguém tenta interromper] Com licença. Se fizermos isso, vamos manter os clientes. Do nosso ponto de vista, se o governo mudar alguma coisa, acho uma decisão absurda, e pode ser que o cliente fique menos satisfeito do que está na situação atual. Podemos discordar dessa eficácia, é justo, mas não podemos dizer que se possa fazer alguma coisa que possa funcionar melhor.

 

Stephen Kanitz: Mas você está esquecendo o argumento do lock in. No Brasil nós temos que usar um teclado para ingleses, que não tem nada a ver com português. Um professor brasileiro quis fazer um teclado brasileiro, porque estava tudo embaralhado e obviamente o mercado não aceitou. O custo de passar de Windows para qualquer outro sistema é absolutamente impossível, especialmente para um país como o Brasil. Então, eu acho que vocês, de certa forma, estão cavando sua sepultura, porque vocês estão obrigando países como o Brasil a pagar pelo alfabeto. Imagina se o Vinicius tivesse até hoje cobrando royalties pelo uso de um alfabeto [risos]. Você acabou usando a língua franca, vocês querem ser a língua franca. Então, eu estou pagando royalty sob uma linguagem. Esse é o discurso do...

 

Steve Ballmer: Não entendi a pergunta. Se você quer um teclado brasileiro, o Windows resolve isso fácil. [Risos] A arquitetura do Windows permite fazer isso. Talvez eu não tenha entendido direito, mas o Windows é muito bom para essas coisas [todos riem].

 

Paulo Henrique Amorim: Você acaba de dar uma boa idéia para a Microsoft Brasil [risos].

 

Stephen Kanitz: Você conhece muito bem o argumento do lock in, isso te dá vantagens competitivas. O custo de transformação...

 

Paulo Henrique Amorim: Ô Kanitz, eu acho que eu vou fazer uma pergunta parecida com a sua, num outro contexto. Quando houver essa transferência de conteúdo para todos os devices que a utilização do XML vai permitir, existe uma preocupação, que é a preocupação da autenticação universal que eu vou ter que fazer quando eu entrar no sistema que a Microsoft vai prover para fazer isso numa série de operações. A pergunta que eu acho, desculpe Stephen, mais relevante é: se ao fazer essa autenticação universal na Microsoft eu não fico locked in, se eu não fico preso dentro da Microsoft e jamais vou poder sair.

 

Steve Ballmer: Não. Quero falar do presente e do futuro. Se as pessoas quiserem usar o XML, que é uma linguagem de padrão aberto para a qual nós contribuímos, a IBM também, muitas empresas contribuíram muito. É uma linguagem de padrão aberto. Com ela, você não precisa de um produto Microsoft, mas queremos oferecer o melhor serviço, com a melhor interface e as melhores ferramentas de desenvolvimento para fazer parte desse universo. Acho que é esse o nosso papel, trabalhar muito e inovar essas coisas, mas tecnicamente não há nada que impeça as pessoas de usar qualquer outro sistema que suporte o XML, que são quase todos os sistemas existentes no mundo. No presente, as pessoas estão presas? Há uma barreira de treinamento, concordo. As pessoas se acostumam com as coisas, elas se entregam à inércia. É verdade. É a natureza humana, não é culpa da Microsoft. É natureza humana. Quando as pessoas aprendem uma coisa, relutam em mudar. Se o produto for muito bom, elas mudam. Se for importante, elas mudam. Vai haver uma revolução da XML. Pode haver empresas. Os sistemas operacionais serão mais diferentes depois da revolução da XML, do que antes dela. É o momento de os concorrentes chegarem. Não os pequenos, mas as grandes empresas. A IBM, a Sun... Há muitas grandes empresas no mundo que têm potencial financeiro para disputar esse mercado. Podem concorrer com seu próprio trabalho, podem usar Linux, tanto faz. Mas isto é um tempo de mudança. Vamos tentar mudar de modo eficaz e inovador, mas quem mais vai se aproveitar dessas mudanças? Os outros vão se dispor a fazer grandes investimentos a longo prazo? Fala-se muito do Windows, mas ele não se popularizou rápido. Começamos a desenvolvê-lo em 1982 e ele só ganhou popularidade em 1990. Poucas empresas são tão pacientes, persistentes e se dispõem a perder dinheiro por tanto tempo como nós fizemos para emplacar o Windows. Se alguém fizer isso e em algumas empresas, quer sejam novas ou já estabelecidas, as pessoas podem fazer isso. Podem fazer isso com a XML tão bem quanto nós.

 

Cora Rónai: Eu queria primeiro fazer uma observação. Quando o Windows se tornou popular não foi por causa do Windows, mas, sim, por causa de uma série de killer applications [aplicações matadoras, softwares cujas aplicações justificavam a compra de um PC, como as primeiras planilhas de cálculo], de produtos que foram desenvolvidos para Windows por companhias que depois morreram, sabe-se lá por quê. Obviamente, por incompetência administrativa ou criativa, mas, enfim, foram essas empresas que alavancaram o Windows. O senhor falou que nós vamos viver uma época de mudanças. Com isso, eu sou forçada a voltar a uma questão que a essa altura parece bizantina, que foi uma época de mudanças que nós vimos há poucos anos, mas há séculos na internet, que é a questão do Netscape [browser de navegação para internet]. Naquela época a gente viveu uma época de mudanças. Havia um produto que as pessoas preferiam sinceramente ao Internet Explorer que, aliás, só veio a existir depois, um produto que se chamava Netscape. Eu era uma usuária muito contente do Netscape, como inúmeros amigos meus. O Netscape vivia naturalmente de vender o seu produto, que era o único que ele tinha e nós sabemos o que aconteceu: apareceu o Internet Explorer [browse de navegação do Windows], que foi dado de graça junto com o Windows, sob alegação de que fazia parte do sistema operacional. A gente sabe que isso não é verdade, que os professores McGraw e Felten [Gary McGraw e Edward Felten, autores da área de informática] separaram as duas coisas bastante bem. Então, eu quero saber se nessa próxima época de mudanças nós vamos ver esse filme novamente; se, quando aparecer um produto que as pessoas realmente gostem de usar, nós vamos ter esse mesmo tipo de procedimento, por parte da Microsoft.

 

Steve Ballmer: O Internet Explorer foi parte integrante do Windows 1995. Não era muito popular no começo, o Netscape ficou mais popular. Não era muito popular. Quando o Internet Explorer ficou popular? Quando vencemos nas avaliações. Vencemos em 19 das 20 avaliações das maiores revistas especializadas dos EUA. Acho que foi a versão 3 do Internet Explorer. Só nesse momento nós conseguimos popularidade. Acho muito apropriado integrar novas capacidades ao sistema operacional. As pessoas podem usar o Netscape ainda hoje. Querendo usar o Netscape no Windows ,as pessoas podem usar e usam. É melhor ou pior para o consumidor receber tecnologia de primeira como parte do sistema operacional sem acréscimo no preço? Você falou sobre manter baixos os preços do software. Incluir o Internet Explorer no Windows não ajudou a manter os preços baixos no Brasil? Claro que ajudou. A sua linha de pensamento aumentaria os preços para o consumidor brasileiro e não posso acreditar que você queira preços mais altos para o mercado brasileiro.

 

Cora Rónai: Não. Não. Desculpa. Isso é um argumento errado, porque o Netscape para o usuário final era um produto gratuito. Ele era vendido nos servidores. E eu preferiria pagar menos no Windows para não ter o Internet Explorer. Por que o Windows tinha que ter o Internet Explorer? Eu não precisava. Estava todo mundo muito contente com o Netscape, que era grátis para os usuários finais. Os servidores tinham que comprar. Então, não é verdade isso, que o preço seria encarecido. Eu preferiria pagar menos no Windows sem o Internet Explorer, definitivamente. E poder escolher o que eu quisesse depois.

 

Steve Ballmer: O Netscape era grátis para o usuário. Você deveria começar a pagar depois de 90 dias, mas ninguém pagava, apenas baixava outra cópia. Era esse o esquema do Netscape. Acho que o consumidor não é contra a idéia de expandirmos as capacidades dentro do Windows sem alterar seu preço. Isso é bom para o consumidor, porque mantém os custos mais baixos. E vamos continuar mantendo o interesse do consumidor. É nisso que nós pensamos.

 

Heródoto Barbeiro: Quando a sua empresa faz o seu planejamento anual e estabelece metas de vendas, metas de lucratividade, fatias do mercado, existe também alguma preocupação com os reflexos que isso pode provocar, por exemplo, no desemprego? Uma vez que a informática está ligada à automação e, geralmente, a automação é sinônimo de desemprego em qualquer parte do mundo.

 

Steve Ballmer: Acho que as questões sociais que envolvem os computadores são muito importantes. Na minha opinião, não sou a pessoa mais imparcial do mundo, mas, para mim, a criação de empregos na indústria de tecnologia de informação e os ganhos de produtividade nas empresas que não são desse ramo, com certeza, foram maiores que o desemprego causado pela automação. O crescimento geral da economia é bom para toda a sociedade. Por exemplo, nos EUA, não que o país seja necessariamente representativo, mas cerca de 50% do aumento de empregos lá vem da indústria de computadores. Alan Greenspan, presidente do Banco Central Americano, pode dizer que os ganhos de produtividade na economia vêm dos computadores. Eles geraram mais riquezas, que nem sempre são igualmente distribuídas, mas ajudaram as camadas mais altas da sociedade e também as menos afluentes.

 

Ethevaldo Siqueira: Senhor Ballmer, para refrescar o seu lombo, que depois de várias pancadas em relação ao monopólio e ao processo que move o governo contra a Microsoft dos Estados Unidos, eu gostaria de temporariamente focalizar em tecnologia. Que visão o senhor tem de três pontos que me parecem muito ligados à convergência? Primeiro, o cruzamento do celular de terceira geração, banda larga e toda essa tecnologia? Segundo, o computador vai evoluir, como alguns imaginam, para se tornar ubíquo, onipresente, como o computer on the chip, quer dizer, minúsculo e espalhado nas roupas das pessoas e pelo ambiente? Terceiro, a microeletrônica vai concentrar tantos componentes, hoje, na escala de milhões de componentes por chip, vamos chegar a bilhões de componentes, ganhando um poder de processamento e até de "inteligência"? Como o senhor vê estes três pontos: a terceira geração banda larga, computador onipresente e esta última tendência da microeletrônica?

 

Steve Ballmer: São três tópicos muito interessantes. Vou começar pelo primeiro. As tecnologias 3G [terceira geração] serão muito importantes. Isso não será surpresa. Acho que vai demorar para as empresas investirem totalmente nisso. Discordo de alguns analistas. Acho que parar em 2.5G vai ser muito importante para muitas pessoas. Estive com pessoas da Telesp Celular hoje, estávamos todos entusiasmados com o 3G e queremos melhora efetiva para o consumidor.

 

Ethevaldo Siqueira: CDMA? [Code Division Multiple Access, ou Acesso Múltiplo por Divisão de Código]

 

Steve Ballmer: Nesse caso, sim. Mas ainda é 2.5G. É uma outra tecnologia, mas ainda é a uma banda mais larga, se quiser chamar assim. Estou muito animado com isso. Acho que, em muito longo prazo, o produto sem fio vai recorrer à banda larga.

 

Ethevaldo Siqueira: Quanto tempo? Dez anos?

 

Steve Ballmer: Vou dizer 10 porque, como vamos nos reencontrar, se forem 8 ou 12 anos não tem problema [risos]. Acho que uma tecnologia vem sendo subestimada. Trata-se da tecnologia sem fio regional. Na Microsoft temos uma rede local sem fio toda em banda larga. Posso levar meu computador a qualquer lugar da Microsoft e sempre estarei conectado à internet e à internet corporativa, sempre em banda larga. E qual é o interesse disso? Se todo hotel e, especificamente nos EUA, toda a rede Starbucks de cafeterias, toda escola e toda empresa tivesse essa tecnologia sem fio, acho que seria um substituto para os sem-fio de longo alcance, antes mesmo da implementação da terceira geração. Quanto ao wearable [referindo-se a wearable computer, computadores para se vestir] ou usável, quando ouvi falar disso... não sou o visionário da empresa, Bill Gates é que é... mas quando ouvi falar disso, achei uma bobagem, preciso confessar. Como Bill é um visionário, demos algum dinheiro a ele para criar projetos nessa área. Interagimos com a Universidade Carnegie Mellon, que tem experiência nessa área, e nos próximos 12 meses vamos apresentar nosso primeiro produto usável. Não o fabricamos, mas criamos o software e os serviços. É um conceito muito inovador. Sei que funciona nos EUA, fora de lá ainda vamos ver, mas vamos experimentar nosso primeiro usável no mercado. Espero que Bill mostre que eu estava errado e que esses conceitos sejam mais importantes do que eu imaginei. O local mais óbvio para usar algo assim seria no pulso. Não tenho nada no pulso, mas muita gente tem. O relógio é um formato interessante para os primeiros computadores usáveis, na minha opinião. O terceiro, com relação ao alcance da tecnologia, com relação ao que chamo de lei de Moore [referindo-se à Gordon Moore], em homenagem ao fundador da Intel, que diz que podemos colocar o dobro de transistores no mesmo pedaço de silicone, no chip, a cada ano e meio. A equipe da Intel me disse que em projeção para 20 anos... por 19 anos, com certeza, esses aperfeiçoamentos vão continuar. Eles são especialistas, eu acredito neles. Acho que isso é bom para o consumidor.

 

Hélio Gurovitz: Pelos últimos números a que eu tive acesso, a Microsoft tinha em caixa mais de  US$30 bilhões, o que era mais ou menos o que o Banco Central brasileiro tinha para conter ataques especulativos contra o real. Por outro lado, todo mundo aqui está cansado de saber que o Bill Gates é o homem mais rico do mundo e que toda essa riqueza vem do fato de ele ter construído um produto, que é um produto de pura propriedade intelectual, não é um bem físico, e de ter  conseguido convencer a humanidade a aceitar determinadas leis para lidar com a propriedade intelectual, o que favoreceu muito a Microsoft. Por outro lado, o único competidor que o senhor conseguiu mencionar aqui, de peso, é um sistema que justamente reverte esse esquema de leis e propriedade intelectual. O Linux, para quem não sabe, é um software que pode ser copiado à vontade, sem nenhum medo de pirataria, onde eu posso olhar o código-fonte. Eu não sei se o senhor já programou, mas eu já programei bastante e isso faz uma bela diferença para quem programa. Você poder analisar o programa, mexer nele, deixar ele do jeito que você quer. E, finalmente, é um programa que tem sido adotado, justamente por não ser de ninguém, tem sido adotado por diversas empresas que pretendem buscar uma alternativa à Microsoft. Uma outra coisa, é o programa cuja adoção tem mais crescido. Quer dizer, economicamente, ele tem uma força muito grande por ter revertido o esquema de leis de propriedade intelectual. Será que esse esquema que põe US$30 bilhões, mais US$ 60 bilhões na conta de um, e um outro que distribui melhor... Será que não tem alguma coisa errada com o esquema de leis de propriedade intelectual em relação ao software?

 

Steve Ballmer: Não. Acho bom que haja diversos modelos. Somos a favor de cobrar pelo software. Não muito, mas devemos cobrar, vender bastante e investir com muita seriedade em p&d. Os criadores do Linux decidiram que seu software seria gratuito. É uma decisão deles. Os criadores do FreeBSD [sistema operacional de código aberto, como o Linux] decidiram que seu produto seria grátis. A IBM e a Oracle decidiram que seu software seria muito, muito caro. Muito mais caro do que o nosso Windows. São decisões que o criador da propriedade intelectual deve ter liberdade de tomar, com base em diversas razões, econômicas, sociais, qualquer razão que o motive, assim como acontece com os jornalistas. Eles podem publicar seu trabalho de graça, podem trabalhar para um jornal, podem ser autônomos. Vocês também criam propriedade intelectual. Acho importante que o governo proteja e imponha leis para a propriedade intelectual de forma coerente para que você decida, ou que os jornais e revistas que o empregam decidam, como publicar ou colocar no mercado sua propriedade intelectual. Há uma estrutura para isso, o que foi uma das razões que nos permitiram gastar US$5,3 bilhões este ano em p&d. Sem a proteção desses direitos, garanto que não chegaríamos nem perto de gastar US$ 5,3 bilhões em p&d, que cria inovações positivas para o mercado. Se os outros não querem cobrar pelo software, isso nos pressiona muito e precisamos fazer um bom trabalho para justificar nosso preço.

 

Hélio Gurovitz: Não é só uma questão de preço. É uma questão de você ter acesso ao funcionamento da máquina. É como se eu tivesse um carro e eu pudesse abrir e mexer no motor. É isso que torna atraente para os programadores o Linux, não é o fato de ele ser de graça. Provavelmente, eles pagariam se pudessem mexer no motor de outras máquinas também. Vocês consideram essa possibilidade de deixar os programadores mexerem nos motores das máquinas da Microsoft?

 

Steve Ballmer: Tenho algumas coisas a dizer. Para começar, o Windows é o mais aberto, exceto pelo Linux, é o sistema mais aberto do mundo. Nós documentamos... [risos] Não. Não é engraçado. Se você observar os sistemas da IBM e da Sun, eles não publicam o código-fonte. Nós publicamos todas as interfaces, todas as normas que permitiriam que uma empresa de hardware ou software ampliasse o Windows, criasse novas funções para ele. Tudo isso está documentado. Não informamos o código-fonte, embora haja algumas exceções, uma das quais anunciei ontem com o presidente Cardoso [Fernando Henrique Cardoso], aqui no Brasil, mas temos uma plataforma sobre a qual todos podem inovar. Fornecemos uma ampla documentação, www.microsoft.com/msdn. Recomendo que todos os espectadores dêem uma olhada. Há uma ampla documentação sobre como ampliar o Windows: criar aplicações e operadores de dispositivo para o Windows. Centenas de milhares de empresas em todo o mundo já fizeram isso. Como não queremos que o software seja copiado, preferimos não divulgar o código-fonte, porque isso não condiz com nossa meta comercial. Em vez disso, decidimos, há pouco tempo, que vamos criar um programa com certas instituições com as quais temos acordos de propriedade intelectual e compartilhar o código-fonte. Ontem, anunciei que pela primeira vez na América Latina vamos compartilhar o código-fonte com 8 universidades aqui no Brasil, para que estudantes, pesquisadores, professores e pós-graduados tenham acesso on-line. E vamos levar uns 6 meses para preparar essa tecnologia, mas é um programa que vamos implementar, pelo menos está disponível para os maiores clientes e empresas e agora também para algumas universidades daqui.

 

Paulo Henrique: A Justiça americana há poucos dias decidiu, a Corte de Apelação, manter a unidade, preservar a unidade da Microsoft, mas não aceitou o pleito da Microsoft de adiar a decisão. E considerou ainda a Microsoft responsável por práticas desleais de comércio. Essa decisão da Justiça americana, de não aceitar o adiamento, é um risco, ou existe concretamente a possibilidade de a Microsoft ser obrigada a adiar o lançamento do Windows XP, que está previsto para outubro?

 

Steve Ballmer: Não acho que a decisão da Corte de Apelação tenha efeito direto sobre o Windows XP. Estamos terminando os trabalhos, se tudo der certo... Como se diz: isola! Mas não tenho madeira aqui. Esperamos terminar os trabalhos na sexta-feira e vamos entregar o software aos nossos parceiros fabricantes para distribuição. Não há nenhuma ação judicial pendente hoje. Não há ação judicial para impedir a distribuição do XP. Pode acontecer? Acho que sim, mas hoje precisamos terminar o trabalho, colocá-lo nas mãos dos fabricantes de computadores que estão muito animados com as inovações e querem colocar o XP no mercado. Algumas pessoas acham o XP tão inovador, que pode alavancar as vendas de PCs. Muitos analistas acham isso.

 

Ivan Martins: A sua companhia tem controle do mercado de software para PCs, ela entrou com um grande sucesso no mercado de software para aparelhos de mão. Ela está fazendo acordos para desenvolver software para tecnologia celular. Ela disputa com a America Online o controle de alguns tipos de tecnologia para internet. O que acontece é que, se todas essas iniciativas tiverem sucesso, em 5 ou 10 anos, muito provavelmente, os consumidores vão se relacionar com um universo digital que é inteiramente Microsoft. Eu perguntaria para o senhor: o senhor se sentiria confortável, como consumidor, se todas as suas gravatas viessem da mesma fábrica, se todos os seus livros viessem da mesma editora, se todos os seus discos viessem da mesma companhia ou se todos os filmes fossem produzidos pela mesma empresa? Isso não assustaria o senhor, como talvez assuste alguns consumidores de produtos digitais?

 

Steve Ballmer: Sinceramente, eu devo dizer que não sei. Não acho que eu me assustaria, mas não sei se eu sirvo como um modelo de consumidor típico. Acho que essa seria a minha reação. Quando você estava falando, eu pensei no seguinte: é melhor ou pior para os consumidores, por exemplo, em relação aos softwares para aparelhos móveis... seria melhor ou pior para o mundo ter um outro concorrente, uma outra empresa? A Microsoft tentando fazer um bom trabalho nessa área ou não? Isso levaria a mais inovação ou menos? O mundo seria melhor sem isso? Não fomos muito bem no primeiro PC de bolso. Deu errado algumas vezes, na verdade. Agora estamos bem perto de um palmtop muito bom, que nos EUA é líder de mercado. Nós estamos em segundo, trabalhando muito. Nosso produto tem inovações que o palm não tem. Ontem, eu disse que trabalhamos muito no Incor [Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo], em sistemas de monitoração que funcionam em PCs de bolso e se comunicam com os aparelhos na UTI [Unidade de Terapia Intensiva] aqui em São Paulo. É melhor ou pior para o mundo a nossa presença nesse mercado? Mais uma vez a concorrência está agindo a favor do consumidor. Se trabalharmos bem, os consumidores vão comprar, se não trabalharmos bem eles não vão comprar.

 

Cora Rónai: Eu queria perguntar a respeito desse seu mantra: “Se nós fizermos bem os consumidores vão comprar, se nós não fizermos bem os consumidores não vão comprar.” Mas há uma coisa chamada back compatibility, que é uma compatibilidade com os sistemas anteriores ou posteriores também. Porque eu estava muito contente, digamos, com o Word 2.0 [software de edição de textos], que ao meu ver foi o melhor Word que vocês puseram no mercado e ninguém precisava das... Mas isso é outra coisa. Enfim, o problema é que se eu tivesse muito contente com aquele Word, eu depois não podia mais usar, porque ele não leria mais nada que fosse escrito em outra versão do Word. Então, eu fui obrigada a comprar um outro Word, como vou ser obrigada a comprar outro agora, porque esse Word que eu tenho, nesse momento, não vai ler qualquer documento que venha a ser escrito no outro e assim por diante. Afora que eu vou precisar de mais memória. Olha, nem vamos entrar nesse mérito. É que, realmente, as pessoas estão sendo forçadas a comprar, porque você não tem uma compatibilidade. Eu queria ficar com o Word 2.0. Não pude ficar, infelizmente, era um ótimo word processor [processador de texto]. Aliás, parabéns por ele [riso].

 

Steve Ballmer: Essa questão é difícil, sua pergunta é muito boa. Algumas pessoas gostam muito das inovações pós-Word 2.0, outras gostam muito do Word 2.0. Numericamente, mais pessoas preferem as novas versões às mais antigas. Eu gostaria que as versões fossem sempre compatíveis. Seria, de fato, a melhor coisa do mundo. Todos serão consumidores mais satisfeitos. Algumas coisas que nossos engenheiros devem fazer não permitem que se mantenha a compatibilidade de formato. É um equilíbrio difícil. Sempre que criamos uma nova versão de um produto que muda, por exemplo, o formato, é muito arriscado para nós. Se não houver novos usuários ou se forem poucos, teremos um produto que é diferente e que não é satisfatório. É um equilíbrio difícil para a nossa equipe. A inovação que causa mudança no formato é interessante o bastante para justificar o risco em relação à satisfação do cliente ao fazer essa mudança? É uma questão importante. Pensamos muito sobre isso. Falamos com os clientes para tentar saber qual é a melhor alternativa.

 

Cora Rónai: Mas podem ser escritos conversores e esses conversores não são escritos. Quer dizer, na verdade poderia haver um sistema simples de conversão de arquivos para quem tem Word 2.0, eventualmente, até comprar por uma fração do preço, um update para o seu programa poder ler o que está sendo escrito pelo XP, isso a Microsoft nunca fez.

 

Steve Ballmer: Não é verdade, fizemos conversores de arquivos. A nova versão sempre lê as anteriores. [Pessoas tentam interromper] Esperem. A nova versão lê as anteriores. Não sei em qual versão nós mudamos o formato, mas fizemos um conversor que permitia converter ou salvar, na verdade, no formato antigo. Acho que foi no Office 97, porque houve mudança de formato de arquivo. E funcionava. Nós fizemos, funcionava bem, poucos usuários procuraram, mas faremos de novo. Se mudarmos o formato de novo, vamos fazer isso. Por causa da forma como adotamos a XML, o melhor jeito de fazer isso é usando XML como esquema de conversão para versões antigas.

 

Stephen Kanitz: O que eu achei irônico: o Linux entrega o seu Linux para toda a humanidade e toda a humanidade faz a contribuição intelectual. E o Bill Gates entrega a Microsoft à humanidade pela sua Fundação Bill Gates, que não é dele, é da humanidade. Ele vai morrer tão pobre quanto o Linux. Então, em vez de fazer... Como vocês foram para o mesmo caminho, de formas diferentes, não teria sido muito mais simples entregar a Microsoft para a humanidade? Eu vejo uma enorme campanha nos Estados Unidos de vocês exigirem que nós entreguemos a Amazônia para a humanidade. Esse é um movimento cada vez mais forte [risos], porque nós somos o pulmão do mundo. Nós já fazemos isso, porque você está respirando o nosso oxigênio de graça. E vocês são o pulmão dos computadores. Então, vamos simplificar tudo isso: faz do jeito do Linux, faz do jeito do Bill Gates, que é exatamente no mesmo sentido mas, em vez de ficar distribuindo vacinas, você distribui software. E ficamos na mesma.

 

Steve Ballmer: Eu diria que é uma analogia interessante. Acho que a forma de trabalhar da nossa empresa, hoje, nos permite dar grandes contribuições à humanidade. A maior contribuição que podemos dar são softwares de qualidade, que ajudam a melhorar a produtividade e a satisfação de indivíduos e empresas. É a maior contribuição que podemos dar, além da contribuição financeira. O ganho de produtividade com os PCs, o Windows e o MS Office [pacote de serviços do Windows] supera qualquer contribuição financeira que possamos fazer como indivíduos ou empresas. Pessoalmente, eu me sinto muito bem. Eu digo aos meus filhos. Tenho 3 filhos pequenos, de 9, 6 e 2 anos, e o de 9 acompanha um pouco tudo isso nos jornais e me pergunta: “Vocês estão fazendo coisas boas, pai?” É uma pergunta séria para um menino de 9 anos. Eu posso olhar nos olhos dele e dizer que sim. Nós ajudamos a fazer softwares que mudam o mundo. Softwares que aumentam a produtividade, que melhoram o atendimento médico, que permitem que você entre na internet e jogue xadrez com gente do mundo todo, que ajudam em pesquisas, que ajudam em serviços sociais em lugares como Kosovo. Acho que esse modelo de empresa com fins lucrativos serviu a humanidade, muito bem. Pode ser que no fim todos os bens acumulados sejam entregues para a caridade e será mais uma coisa boa.

 

Heródoto Barbeiro: Senhor Ballmer, it's over, thank you. [Chegamos ao final. Muito obrigado]

 

Steve Ballmer: Thank you all very much. [Muito obrigado a todos vocês]

 

Heródoto Barbeiro: Nós estamos encerrando então o nosso Roda Viva. Eu quero agradecer a gentileza e a participação do senhor Steve Ballmer, presidente da Microsoft, também aos nossos entrevistados e convidá-lo para o próximo Roda Viva, que estará de volta na próxima segunda-feira, às dez e meia da noite, em um espaço aberto e democrático desta TV pública que é a TV Cultura. Boa noite. Boa semana. Até segunda.

 

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