Memória Roda Viva

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Fernando Morais

1/4/1991

O jornalista e escritor, que então assumia o cargo de secretário de Educação do governo Fleury, afirma que sua pasta teria prioridade de investimentos

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Jorge Escosteguy: Boa noite. Estamos começando mais um Roda Viva, pela TV Cultura de São Paulo. Este programa é transmitido ao vivo pelas TVs Educativas de Porto Alegre, Ceará, Piauí, Bahia e TV Cultura de Curitiba. O convidado do Roda Viva desta noite administra, no estado de São Paulo, cerca de 220 mil professores e seis milhões de estudantes. Está no centro do Roda Viva desta noite o secretário de Educação de São Paulo, Fernando Morais. Fernando Morais, além de ter sido deputado estadual pelo PMDB paulista, também é escritor, escreveu dois best-sellers: A ilha, sobre o regime cubano, e Olga, sobre a história da vida de Olga Benário. Para entrevistar Fernando Morais esta noite no Roda Viva nós convidamos: Ana Maria Sanchez, diretora de redação da revista Nova Escola, uma revista destinada a professores do primeiro grau; Eric Nepomuceno, escritor; José Paulo Kupfer, editor-executivo do jornal O Estado de S. Paulo; Fernando de Barros e Silva, editor-assistente de Educação da Folha de S.Paulo; Jayme Martins, jornalista da TV Cultura; Fábio Lucas, professor, crítico e escritor; Ivân Angelo, editor-executivo do Jornal da Tarde e Humberto Werneck, chefe de redação adjunto do Jornal do Brasil, sucursal de São Paulo. Você que está em casa assistindo ao Roda Viva e quiser fazer perguntas por telefone, pode chamar 252-6525, 252-6525, que a Bernardete, a Cristina e a Iara estarão anotando as suas perguntas. Boa noite, secretário.

Fernando Morais: Boa noite.

Jorge Escosteguy: Em uma entrevista aos jornais neste fim de semana, o atual secretário de Ciência e Tecnologia, o professor José Goldemberg [físico e professor (1928-), foi reitor da Universidade de São Paulo (1986-1990) e, em âmbito federal, ministro da Educação (1991-1992) e secretário do Meio Ambiente (1992) - ver entrevista com Goldemberg no Roda Viva], relembrando alguns fatos da sua passagem pelo governo de São Paulo, pelo governo Quércia, diz que uma vez, em conversa com o governador, pedindo mais verbas, o governador lhe disse que naquela época a prioridade eram as estradas, mas que no próximo governo a prioridade seria a Educação. Então eu lhe pergunto se a Educação realmente vai ser uma prioridade, e se a sua secretaria está com bastante dinheiro para resolver os problemas da Educação.

Fernando Morais: Bom, em primeiro lugar eu queria agradecer o convite para estar aqui na TV Cultura, nessa instituição à qual eu sou tão ligado, já fui... já trabalhei aqui como jornalista em 1970; batalhei muito quando eu era deputado pela independência, pela autonomia, da Fundação Padre Anchieta e da TV Cultura, e hoje sou, em virtude de ocupar um cargo no governo do estado, sou membro do Conselho Curador. Então me sinto em casa e agradeço muito esse convite para estar aqui com vocês. Eu li a entrevista do professor Goldemberg, secretário de Ciência e Tecnologia da Presidência da República, que acabou passando muito pouco tempo na Secretaria da Educação, no posto que eu ocupo hoje. Se não me engano, ele esteve lá por apenas dois meses. Li a declaração dele, não sabia disso, não sabia que ele tinha solicitado mais verbas ao governador Quércia para a Educação, enfim, que ele teria respondido como o professor Goldemberg declarou aos jornais. O que eu sei, apenas para registro histórico, é que o governo Quércia foi, nos últimos vinte anos, o governo que mais investiu recursos do Tesouro em educação aqui em São Paulo. Apesar disso, educação é [enfatiza] a prioridade número um do atual governo, do governo Fleury, isso foi dito ao longo de toda a campanha, ao longo dos noventa longos e intermináveis dias de campanha, e muita gente achou que isso fosse apenas uma bandeira de campanha eleitoral. E essas pessoas se surpreenderam quando viram que, mesmo depois de vencidas as eleições, o governador Fleury manteve o compromisso. A sua mensagem à Assembléia no dia da posse, quase a metade dela é ocupada pela educação, pela questão educação. O seu discurso de posse também foi aberto e recebeu metade da sua importância à educação, o discurso do dia da transferência do poder, de receber o cargo do ex-governador Orestes Quércia. E eu, afortunadamente ou não, não sei, fui o convidado, acho que afortunadamente, fui convidado para executar essa política, para pilotar. Você pergunta se vai haver recursos. Vai haver recursos. Dentro das dificuldades, que são grandes e que aparentemente tendem a se agravar, dificuldades que são gerais, que são no país inteiro e que em São Paulo começam a se manifestar de uma maneira muito grave com uma queda muito grande da arrecadação dos impostos; apesar disso, o governador mantém o compromisso de que a educação vai ser a prioridade número um, será, é, a prioridade número um desse governo, e que, para tanto, terá que receber recursos materiais.

Jorge Escosteguy: Os professores podem esperar que tipo de recursos? Melhores salários? Porque aqui [temos] já duas perguntas, por exemplo, do José Mauro, aqui de São Paulo, da capital; e Paulo Farias, também da capital, eles perguntam sobre essa questão da crise do ensino público e que tipo de relacionamento que os professores podem esperar hoje do governo do estado, inclusive em termos de salário, que tem sido sempre a grande reivindicação deles.

Jayme Martins: Completando essa pergunta sobre prioridade: em que se traduziria essa prioridade, em termos de remuneração decente para os professores, conservação dos prédios e manutenção do equipamento, reforma pedagógica e modernização administrativa da Secretaria?

Fernando Morais: Bom, o Jayme Martins praticamente já respondeu [risos], porque a prioridade reside exatamente nestes pontos a que você se referiu. O compromisso do governador Fleury, e não é uma promessa é um compromisso, a determinação é de que dentro de quatro anos a população de São Paulo vai voltar a ter orgulho de ter seus filhos na escola pública; coisa que hoje não acontece ou acontece residualmente, de uma maneira localizada, em algumas áreas do estado. Para responder às duas perguntas, dos dois telespectadores e à sua pergunta, eu diria que chegar a esse objetivo passa obrigatoriamente não só pela questão salarial mas por recuperar a dignidade da profissão de professor. Não é só melhorar condições salariais, mas as condições de trabalho para os professores; você oferecer a oportunidade de que o professor se desenvolva e que não se torne alguém anacrônico, superado pelas conquistas, por todas as conquistas que a sociedade tem obtido; passa pela melhoria, pela recuperação da rede física. Nós próprios mostramos, porque a gente não tem que ter pudor de mostrar as suas próprias feridas. Nós mostramos na campanha eleitoral, o Fleury mostrou na campanha eleitoral, escolas com buracos, escolas onde ratos entravam. Há dificuldades, há dificuldades. São seis milhões de estudantes, como o Escosteguy lembrou aí na abertura do programa. São 220 mil professores, mais quase setenta mil funcionários. Então, eu não sei se há três ou quatro empresas no mundo que tenham um número maior de pessoal, de funcionários. Deve ser o maior chefe da seção do pessoal, um dos maiores chefes da seção de pessoal do planeta a doutora Conceição, que hoje está substituída por um computador gigantesco, o que também é algo já saudável nesse processo de modernização. Passa pela recuperação da rede física, passa pela melhoria das condições de ensino, passa pela reciclagem dos professores. Então, não é um trabalho... Primeiro, não é um trabalho só para o estado: o nosso objetivo é fazer com que a escola deixe de ser escola estatal para ser escola pública, no sentido mais amplo dessa palavra. Que a sociedade se envolva. Então, o projeto de reforma que eu vou submeter ao governador dentro de duas ou três semanas, um projeto amplo de reforma, para esse... para contribuir para esse projeto serão convidados educadores, pedagogos e pessoas que tenham contribuições a dar, sem absolutamente nenhum preconceito, sem nenhum preconceito, sem preconceito partidário, sem preconceito de...

Ivân Ângelo: [Interrompendo] Eu queria saber uma coisa. Você falou aí que não seria só o governo do estado o encarregado dessa tarefa, então eu me lembrei que também a prefeita [Luiza Erundina (1934-), foi prefeita da cidade de São Paulo entre os anos de 1989 e 1993 - ver entrevista com Erundina no Roda Viva] falou da prioridade da educação, e há um pouco mais de três meses o Collor [Fernando Collor de Mello (1949-), presidente do Brasil entre março de 1990 e dezembro de 1992] também, lançando o projeto dele, falou que ele ia dar cinco trilhões para a educação básica: primária - não é? - e primeira fase do ginásio. Há alguma possibilidade de entrosamento? Virá algum dinheiro, digamos, da União, para completar esses recursos do estado?

Fernando Morais: Há.

Ivân Ângelo: Haverá um entrosamento com municípios?

Fernando Morais: Há.

Ivân Ângelo: Você pensa em fazer alguma coisa entrosada?

Fernando Morais: Há. Eu acho que, na Educação... Eu briguei muito, quando fui secretário da Cultura, para haver uma integração grande entre município e estado, até para não desperdiçar dinheiro do contribuinte. Vamos falar o português claro. Com o município não foi difícil, apesar das divergências que a gente tem, partidos diferentes, pensa diferente. Foi possível fazer muita coisa junto com a secretária Marilena Chaui [professora de filosofia da Universidade de São Paulo (1941-), foi secretária municipal de Cultura de São Paulo entre os anos de 1988 e 1992 - ver entrevista com Chaui no Roda Viva]. Com o governo federal já foi mais complicado. A gestão do secretário, do hoje ex-secretário Ipojuca [Ipojuca Pontes (1942-), cineasta, escritor e jornalista, foi secretário nacional da Cultura no governo Fernando Collor de Mello] não foi uma gestão que, enfim, estimulasse esse tipo de aproximação. Eu acho que na Educação é mais fácil, eu acho que vai ser mais fácil estabelecer essa amarração entre governo federal e município. No caso do município já existe um programa, aqui do governo do estado, de municipalização de escolas que a gente pretende... aliás, tive a oportunidade de falar com a prefeita dez dias atrás sobre isso. Falei com o secretário Paulo Freire há três ou quatro dias, também sobre isso, e devo dizer que o governo federal, pelas informações que me deu o ex-secretário, Carlos Estevam Martins [filósofo (1934-)], que o ministro Chiarelli [Carlos Chiarelli (1940-), advogado e professor, foi ministro da Educação no governo Collor] tem sido extremamente, além de ter sido cordial, tem sido extremamente pontual no repasse para São Paulo das verbas federais, chamada verba tese...

Ivan Ângelo: [Interrompendo] Porque diz que a tendência é a municipalização, né?

Fernando Morais: A tendência é municipalizar. Esse gigantismo a que se referiu o Escosteguy na abertura do programa, que é absolutamente incompatível com qualquer modernização administrativa, a tendência é municipalizar. Assim como já se municipalizou razoavelmente bem a merenda escolar, é preciso municipalizar a administração das escolas, é preciso municipalizar, não só repassar recursos para que o município construa os prédios escolares, a chamada rede física, mas que você, ainda que mantendo alguma interferência do governo estadual no que diga respeito, por exemplo, a currículo, que você atribua ao município a gerência administrativa daquilo. Não tem sentido você pilotar uma empresa de 300 mil funcionários, não tem sentido. Eu falava há pouco da questão da merenda, né? São seis milhões de estudantes na rede pública. Se você... que recebem por dia na merenda um macarrão, um outro alimento e ali uma salsicha. Se você decidir que em vez de uma salsicha cada estudante recebe duas salsichas, são seis milhões de salsichas por dia, são trinta milhões de salsichas por semana, são 120 milhões de salsichas por mês, é um negócio descomunal em salsichas!

[Risos gerais]

Fernando Morais: E isso você multiplica para rigorosamente tudo: para giz, para caderno, para livro... Então essa coisa mega, essa coisa gigantesca só atrofia. O Estado já vem dando alguns passos no sentido de superar isso, né? Por exemplo, dentro de 40 dias deve ser instalado o último terminal de computador que vai informatizar rigorosamente toda a rede. Até dois meses, três meses atrás, me disse a doutora Conceição, a diretora do DRHU, da Divisão de Recursos Humanos da Secretaria [de Educação], que no fim do mês era necessário manipular mecanicamente, manualmente, um milhão de cartolinas de papelão para fazer folha de pagamento das pessoas. Uma professora ou um professor que quisesse requerer a sua aposentadoria tinha que percorrer um verdadeiro calvário desde a primeira escola onde deu aula, correr o estado inteiro. E isso hoje, está tudo, tudo rigorosamente informatizado.

Ana Maria Sanchez: Secretário.

Jorge Escosteguy: Secretário, por favor.

Ana Maria Sanchez: A sua promessa inicial, voltando um pouquinho, não lhe parece um pouco grande demais?

Fernando Morais: Parece.

Ana Maria Sanchez: Porque veja bem, a sua atuação à frente da Secretaria da Cultura lhe dá um cacife invejável para chegar e dizer algumas coisas para a gente. Agora, nós sabemos que Educação é muito mais caro.

Fernando Morais: Sim.

Ana Maria Sanchez: Além desses números todos que o Escosteguy mencionou, a gente sabe também que há uma quantidade muito grande de crianças fora da escola. A estimativa de 1987 dizia que era necessário construir mais oito mil salas de aula, funcionando em três períodos. Quer dizer, bota criança fora da escola nisso. O governo Quércia, que segundo o senhor diz, investiu bastante em Educação, nos trouxe essa situação em que nós estamos agora em que o piso da categoria é 33 mil cruzeiros, [moeda corrente no Brasil à época desta entrevista, que vigorou até 1993. Depois disso, a moeda passou a chamar-se cruzeiro real (1993 e 1994) e, em seguida, real] investindo tudo o que ele investiu, enquanto a prefeitura, por exemplo, está pagando 88. Da onde vão sair todos estes recursos para essa grande reforma, que é preciso que seja feita realmente? E qual a proposta que o governo pretende oferecer aos professores e aos funcionários da Educação agora que está sendo... que está expirando o prazo para que uma proposta seja feita? O governo conseguiu convencê-los a sair de uma semiparalisação, que já acontecia, dizendo que precisava de um tempo para oferecer uma proposta. Qual vai ser essa proposta?

Fernando Morais: Vamos por partes. Primeiro é preciso que se diga que esse piso salarial, que é muito baixo, eu reconheço que é muito baixo, ele hoje representa a remuneração de uma parcela do professorado muito pequena, o chamado P1, professor 1, com jornada de 20 horas semanais, deve representar, se tanto, alguma coisa em torno de 5%, se tanto, do professorado paulista. Mas eu não estou querendo desqualificar a legitimidade da reivindicação dos professores, não. Aliás, foi a primeira coisa que eu disse aos dirigentes das entidades, foi o seguinte: "olha, a partir de agora, para a gente se entender, eu estou começando hoje, para a gente se entender aqui, a gente precisa estabelecer padrões adultos de entendimento. Eu tenho que reconhecer, eu reconheço publicamente, que há legitimidade na reivindicação de vocês. Agora, vocês também têm que reconhecer que os balanços do estado são balanços complicados, que a crise, a queda da atividade econômica se refletiu na arrecadação de impostos, e que o estado perdeu ao longo dos últimos cinco ou seis meses alguma coisa em torno de um bilhão de dólares em arrecadação, que deixou de ser feita por queda de atividade econômica. Então, da mesma maneira que eu reconheço os problemas do professorado, do salário do professorado, vocês não podem simplesmente ignorar os números que o estado apresenta." Isso é o começo de uma conversa. Você pergunta: "De onde vai vir dinheiro para isso?". Muito bem, o governo anterior, do qual eu fiz parte, foi um governo que investiu pesado em infraestrutura, porque precisava investir. Precisava investir em construção de estradas, precisava investir em construção de hospitais, precisava investir em construção de cadeias - veja você, né? -, a sociedade leva a gente a isso: a construção de celas para presos acaba sendo algo necessário, essencial. Isso levou o governo atual, e aí eu digo [que] isso não foi uma promessa de campanha, um compromisso de campanha só do Fleury. Todos os candidatos diziam que depois do que foi feito, do que tinha sido feito pelo governo Quércia, foi um governo que saiu com o reconhecimento de 88% da população, dizendo que era um governo ótimo, bom e regular. Depois do que foi feito pelo governo Quércia, qualquer governo que assumisse agora teria que se comprometer publicamente com determinadas políticas públicas. Basicamente, para resumir, para não me estender demais, Educação e Saúde. Apesar de toda a crise, São Paulo é um estado que tem uma capacidade de regeneração econômica muito grande. No primeiro sinal de que a recessão desapareça, isso reflete no ICMS [Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços]. Nós vamos ter recursos. Mesmo com a crise, os recursos... você lembrou aí a Secretaria da Cultura, onde eu passei dois anos e meio, e diz que os recursos para a Educação são infinitamente maiores. São, e mesmo com crise são. O orçamento da Secretaria da... da Educação é alguma coisa como cem vezes maior do que o orçamento da Secretaria da Cultura.

Ana Maria Sanchez: Para não dar.

Fernando Morais: Como?

Ana Maria Sanchez: Para não dar.

Fernando Morais: Não, mas dará. Porque é preciso que... Só para eu, num minuto, é preciso que se diga o seguinte: a reformulação administrativa é para que esses recursos sejam concentrados essencialmente no estudante e no professor, ou seja, na escola e não no meio. [Para] Você não fazer com que esses recursos se percam na atividade meio. Você não pode pegar uma montanha de recursos do contribuinte num país pobre - apesar de morarmos em São Paulo isto é um país pobre - e permitir que esses recursos se percam na burocracia. Então essa proposta de modernização que já começa, o último secretário, o Carlos Estevam já começou, essa informatização, por exemplo, é um ganho de... é uma conquista de uma reivindicação de décadas. Essa modernização objetiva também isso: você fazer com que os recursos disponíveis sejam concentrados no essencial, que é a escola, e não se percam no meio do caminho, na burocracia.

Jorge Escosteguy: Secretário.

Ivân Ângelo: Então quer dizer que vai despedir gente?

Jorge Escosteguy: Só um minutinho, por favor, Ivân.

Fernando Morais: Não, não é preciso despedir gente não. Basta concentrar, adotar técnicas modernas de administração. Por exemplo, quando você informatiza uma Secretaria que lidava com um milhão de folhas de cartolina no fim do mês e que hoje, que a um toque de dedo num computador... você está economizando dinheiro.

Ivân Ângelo: Tem professor trabalhando na burocracia?

Fernando Morais: Tem professor trabalhando na burocracia. Tem muito professor trabalhando na burocracia, tem muito professor... Tem uma parcela grande - hoje pelo computador é possível levantar isso -, tem uma parcela grande de professores que estão afastados, seja por problemas de saúde, seja porque estão fora da atividade para a qual foram contratados e são pagos.

Jorge Escosteguy: Secretário, por favor, antes de passar ao Fernando e depois ao Werneck, o senhor falou em recursos, recursos para a Educação, de onde vêm os recursos. A Ana Maria lembrou que lá tem inclusive mais recursos do que na Secretaria da Cultura e tem aqui duas cobranças do tempo da Secretaria da Cultura, em termos de recursos.

Fernando Morais: Ôpa, esqueletos no guarda-roupa. [risos]

Jorge Escosteguy: É a Denise Vieira Pinto. Ela diz: “O meu nome é Denise Vieira Pinto, venci o concurso do Prêmio Estímulo para Curta-metragem em 1990. Aí eu participei da festa, prêmios no Memorial da América Latina etc. Mudou o governo e os secretários...”. Ela pergunta a quem deve recorrer para receber os direitos, assinar os direitos e contrato, e receber o prêmio de 28 mil BTNs [Bônus do Tesouro Nacional, indexador utilizado em tempos de rápida corrosão do valor da moeda], um índice que, por sinal, não existe mais. A mesma pergunta é feita pelos cineastas de São Paulo Ícaro Martins e Wilson Barros, [que] também dizem que ainda não receberam o prêmio, apesar de publicados já no edital do Diário Oficial de janeiro de 1991.

Fernando Morais: Sim, o edital naturalmente foi publicado há muito tempo. Os contratos estão assinados, foram assinados antes de eu deixar a Secretaria, fiz questão de que o diretor do departamento, o Bortolatto, assinasse esses contratos, estão à disposição dos premiados, que devem procurar a Secretaria, não tem nenhuma dúvida quanto ao...

Jorge Escosteguy: É só passar no caixa?

Fernando Morais: Serão honrados, os compromissos serão honrados.

Jorge Escosteguy: É só passar no caixa. Está bom. O Fernando, por favor, depois o Werneck.

Fernando de Barros e Silva: Secretário, o senhor já admitiu, ou já disse em conversas em círculo de amigos, que não descarta a possibilidades de ser candidato à sucessão da prefeita Luiza Erundina no ano que vem. O senhor admitiria isso em público?

Fernando Morais: Não, eu nunca disse. Na-na-não.

Fernando de Barros e Silva: O senhor já disse.

Fernando Morais: Não, não...

Fernando de Barros e Silva: Eu não posso entregar a fonte.

Fernando Morais: Não, pelo amor de Deus.

Fernando de Barros e Silva: Nunca disse?

Fernando Morais: Não, nunca disse isso.

Fernando de Barros e Silva: Não levanta essa hipótese por enquanto?

Fernando Morais: Não, nem por enquanto... E olha, eu vou lhe dizer uma coisa: eu li nos jornais algumas insinuações a esse respeito, que eu sairia candidato a prefeito no ano que vem. Eu quero dizer, em primeiro lugar, que eu ficaria muito honrado, eu gostaria muito de ser prefeito de São Paulo, gostaria muito de ser candidato a prefeito de São Paulo mas, a partir do momento [em] que eu aceitei o convite do governador Fleury para essa empreitada gigantesca, de contribuir, de ser o piloto dessa operação que pretende recuperar a dignidade do ensino público em São Paulo, seria leviano eu dizer que daqui a um ano eu vou deixar a Secretaria para ser candidato a... o que quer que seja. Então, eu não estou lidando com soberba.

Fernando de Barros e Silva: O senhor assume o compromisso de que cumpre os quatro anos na Secretaria da Educação?

Fernando Morais: Se o governador não me demitir antes disso, se não houver algum desentendimento e ele me mandar embora, eu fico até o último dia do governo e vou lhe dizer que, se conseguir isso, se conseguir executar essa determinação dele, de recuperar a dignidade do ensino público, eu acredito que isso será tão importante ou mais importante do que ser prefeito de uma cidade como São Paulo.

Jorge Escosteguy: Humberto Werneck, por favor.

Humberto Werneck: Não lhe parece que a Secretaria da Educação é uma plataforma de lançamento um pouco precária para quem gostaria de ser prefeito?

Fernando Morais: Precária em que sentido? Pois é, tá... é isso, talvez até pudesse usar esse argumento para responder ao Fernando [risos], porque, além de todos os argumentos que eu usei para te responder, tem isso também, né? É uma Secretaria que é conhecida como moedor de secretários, né? O sujeito entra ali e sai picadinho do outro lado. E eu não espero ser moído. Mas de qualquer maneira eu reitero o que eu disse a ele: não tenho planos de me candidatar a prefeito, não.

José Paulo Kupfer: Por que, Fernando, que é um moedor de secretários? Será que você já pensou nisso, ou não?

Fernando Morais: Eu acho que por tudo isso. Eu acho que pelo fato de ser uma secretaria gigante, uma secretaria... Ela é... Com a conformação que ela tem hoje, ela é inadministrável, inadministrável. Não adianta, você pode chamar o Iacocca [Lido Anthony "Lee" Iacocca (1924-), conhecido por sua capacidade de gerenciamento, foi presidente da Ford e da Chrysler], pode chamar o Semler [Ricardo Semler (1959-), empresário brasileiro que desenvolveu inovadoras políticas de engenharia corporativa], quem você quiser, é inadministrável.

José Paulo Kupfer: Pois é, então, nos jornais, domingo, saíram boas matérias sobre o seminário até, feito pelo Banco Mundial aqui no Brasil...

Fernando Morais: Banco Mundial, no Rio de Janeiro, exatamente.

José Paulo Kupfer: …na semana passada, sobre educação. A conclusão principal do seminário é que o problema da escola pública brasileira não é verba, é clientelismo. O sujeito... Tem muita gente que teve sucesso com a escola pública, mas não é o aluno, nem é o país, são alguns grupos, são algumas pessoas, alguns políticos talvez, entre outros, que conseguem cravar escolas nas suas áreas e tudo mais... Coincide até, se você pensar bem, eu queria até que você pensasse junto comigo, enfim, o Quércia foi o governador que mais investiu, segundo você mesmo disse, e a situação não é boa, talvez não tenha avançado muito, você não tem o que oferecer de progressos nesses quatro anos que ele ficou aqui. De outro lado, você disse que todos os recursos foram colocados, e o próprio Fleury, enfim, nos seus discursos, guarda metade do tamanho, do tempo, dá a sua importância para o tema educação. A gente está discutindo até o volume de salsichas que a coisa demanda, né?

[Risos]

Fernando Morais: Poderiam ser almôndegas também.

José Paulo Kupfer: Sim, também.

Fernando Morais: Ou pepinos.

[Risos]

José Paulo Kupfer: Pepinos. Ou então abacaxis mesmo.

Fernando Morais: Da sobremesa das crianças.

José Paulo Kupfer: E um problema que temos assim, claro, é o seguinte: construíram-se muitas escolas e as escolas não têm professores. Isso é sabido, é claro. Será que não se construiu muita escola onde não... não fosse bem o caso? Será que não se atendeu a pressões, demandas, de outra ordem? Será que esses secretários moídos não foram moídos por um tipo de problema desse tipo?

Fernando Morais: Olha...

Jorge Escosteguy: Secretário, antes de responder, por favor.

Fernando Morais: Sim.

Jorge Escosteguy: Por falar em escolas sem professor, há aqui quatro telespectadores, professores naturalmente, a Sigranae, de Bocaina; Veridiana, de Campinas, Márcia, da cidade de Sumaré; e Alice Fernandes, de Santo Amaro; perguntam se há perspectiva de chamada para quem fez concurso para professor recentemente. Quando serão chamados esses professores que prestaram concurso há um ano atrás? Há quatro professores perguntando.

Fernando Morais: Deixa eu responder ao Zé Paulo, tá? Já começaram a moer, já.

José Paulo Kupfer: [Risos] Estão cobrando...

Fernando Morais: O Zé Paulo queria saber se...

[Sobreposição de vozes]

Jorge Escosteguy: [Interrompendo] [...] escola sem professor, então tem professor atrás de escola.

[Risos]

Fernando Morais: Zé Paulo, bom, deixa primeiro eu responder às telespectadoras. Havia uma proibição legal, por se tratar de um ano eleitoral - que venceu no dia 15 de março, no dia da posse do governador - dos governadores, uma proibição de contratação pela legislação eleitoral. Ocorre que, no dia em que essa proibição deveria caducar, o governador baixou um ato, uma resolução, proibindo contratações durante seis meses no estado de São Paulo. Um programa de austeridade diante da crise, mas o decreto dele que proibia as contratações, já na abertura, dizia que, salvo autorização excepcional do governador....

Jorge Escosteguy: [Interrompendo] É o que pergunta a Márcia, de Sumaré. Ela pergunta se vai esperar seis meses para ser chamada.

Fernando Morais: Sim, não, não, não vai ser preciso. Havia um déficit de 150 mil aulas acumuladas, uma demanda acumulada pela proibição do período eleitoral. O governador já decretou, já autorizou a excepcionalidade para a contratação. Primeiro, dos professores da própria rede, que podem ampliar a sua carga horária e, se houver necessidade - até, um pouco, respondendo ao que o Zé Paulo Kupfer levantou -, se houver necessidade, poderão ser contratados novos professores utilizando-se dessa excepcionalidade que o próprio decreto previu. Mas já houve, no dia 17, se não me engano, dois dias depois de assumir, o governador assinou um decreto na pasta da Educação autorizando a contratação de aulas a mais, por professores da própria rede, naturalmente por razões de economia.

Eric Nepomuceno: Secretário...

Jorge Escosteguy: Secretário.

José Paulo Kupfer: Só um minutinho, o senhor não falou ainda da forma do clientelismo.

Fernando Morais: Pois é...

Jorge Escosteguy: O Eric e depois o Fábio, por favor.

Fernando Morais: Está bom, então, primeiro deixa eu responder ao Zé Paulo Kupfer. Olha, eu vi, eu li o que se publicou sobre esse seminário promovido pelo Banco Mundial no Rio de Janeiro. Acho que tem contribuições interessantes ali, acho que a reflexão que foi feita é interessante. Agora, eu sou... eu sou uma pessoa um pouco cuidadosa com essas acusações genéricas, dizendo: "O clientelismo dos políticos é responsável pela tragédia na educação.". Eu acho que há uma dezena de ingredientes para a tragédia da educação no Brasil. O clientelismo dos políticos pode até ser um deles. Agora, se você me aponta e diz: "Olha, fulano de tal, em tal lugar, assim, assim, em tal época fez isso.", eu confesso a você que eu consideraria uma molecagem minha dizer aqui para você: "não, os políticos são os responsáveis pela tragédia da educação.". Essa questão da relação da Educação com a política, que também responde um pouco - mais uma justificativa, se o Fernando quiser, da questão da eleição -, educação, que se sabe, no Brasil, não dá voto não, educação não dá voto. Educação é como o sujeito que faz encanamento: não aparece. Porque é visto como...

José Paulo Kupfer: Mas ganha dinheiro o encanador.

Fernando Morais: Hein?

José Paulo Kupfer: Mas ganha dinheiro pelo menos, se não ganha em voto.

Jayme Martins: Água e esgoto, obras de água e esgoto, não aparecem...

Fernando Morais: É que não aparecem para a população. Então, educação... No Rio de Janeiro nós tivemos um exemplo, o Brizola fez um... No seu primeiro governo, um governo que, independentemente da opinião que cada um de nós tenha, seja sobre o Brizola, seja sobre o projeto de educação, ele concentrou os seus recursos na área da educação. Não conseguiu fazer seu sucessor, que era um sucessor ligado ao projeto da reforma educacional, que era o professor, hoje o senador Darcy Ribeiro [antropólogo, escritor e político (1922-1997), foi vice-governador do Rio de Janeiro de 1983 a 1987, período no qual desenvolveu escolas - os chamados Cieps - com projetos pedagógicos revolucionários, oferecendo atendimento a crianças em período integral - ver entrevista com Darcy Ribeiro no Roda Viva]. Então, dizer que educação é objeto da cobiça clientelista dos políticos... pode ser que seja, eu estou lá há duas semanas. Eu, quando fui deputado, eu fui deputado oito anos, poucas vezes pisei na Secretaria da Educação e, nessas poucas vezes, nunca foi para pedir nada, nunca fui pedir favor, nunca fui, enfim, fazer clientelismo. Agora, me parece que, se há clientelismo político na área da educação, não deve ser muito maior ou muito menor do que o que existe nas outras áreas da política brasileira.

Jorge Escosteguy: Eric Nepomuceno, por favor.

Eric Nepomuceno: Secretário, primeiro eu queria lembrar que, no caso do Rio de Janeiro, em 1986, apesar do esforço do governador Brizola, havia um esforço contra, que era o esforço do Plano Cruzado e a dedicação especial do presidente Sarney [político e escritor (1930-), foi presidente do Brasil entre 1985 e 1989] na época, em impedir, por todos os meios, uma vitória eventual...

Fernando Morais: [Interrompendo] Eu me esqueci de que nós tínhamos aqui um brizolista militante![agita os braços]

[Risos]

[Sobreposição de vozes]

Eric Nepomuceno: Não, aliás, não, não é bem isso não. É só uma questão de colocar as coisas, porque até no Plano Cruzado, inclusive o seu partido ganhou majoritariamente a eleição no país inteiro, coisa que não repetiu na eleição seguinte, enquanto que no Rio, sem Plano Cruzado, sim, o governador Brizola voltou - não é? - a ganhar uma eleição baseado na educação. No programa de educação. Agora, eu queria perguntar ao senhor o seguinte: o senhor falou em recuperar a dignidade do sistema escolar, da educação, coisa que me lembra o professor Darcy Ribeiro quando ele diz que a escola brasileira é eminentemente desonesta. Por aí há um acordo aparente entre o que é indigno e o que é pouco honesto. Como é que se recupera a dignidade depois do desmantelamento do sistema educacional público no Brasil? Como é que em quatro anos se recupera o que foi destruído ao longo de 25?

Fernando Morais: Eu acho que quatro anos é pouco, e se eu tenho a expectativa, mais do que isso, tenho a esperança de poder realizar isso é porque eu estou muito confiante na determinação do governador. Por trás de tudo isso, você sabe muito bem, há algo que é essencial para você fazer qualquer transformação mais profunda, em qualquer área da administração, que é a vontade política. Se você não tiver vontade política, se o governante não estiver efetivamente empenhado, se isso não for apenas uma promessa vã, você não muda. Não muda, não transforma, não avança, não faz com que a sociedade progrida. E o Fleury quer, o governador Fleury quer, quer efetivamente, é um compromisso dele. E hoje, tive notícias, estou vindo agora, minutos atrás, estou vindo de uma reunião no Palácio [dos Bandeirantes, sede do governo paulista], uma reunião presidida por ele, para discutir uma questão que diz respeito à educação também, que é a reunião da comissão de política salarial, e ele reiterou esse compromisso. Então eu acho que quatro anos é pouco para consertar algo que foi desdeixado, para não dizer destruído, ao longo de décadas. Não é?... A mazela da Educação no Brasil não é uma mazela de quatro anos, de oito anos, é uma mazela ancestral, sobretudo da escola pública, sobretudo da escola pública, parte da escola pública foi deliberadamente destruída por alguns dos governos federais sobretudo, alguns estaduais, que a gente teve. Então, você não recupera isso da noite para o dia. Eu não tenho a ilusão de que você recupere da noite para o dia. Eu acho que em um estado com o perfil do estado de São Paulo, tendo um governante com os compromissos que o governador Fleury tem, talvez seja possível, daqui a quatro anos, fazer com que a sociedade volte a ter orgulho de ter seus filhos em escola pública.

Eric Nepomuceno: O senhor estudou em escola pública?

Fernando Morais: Eu estudei em escola pública.

Eric Nepomuceno: Eu também.

Fernando Morais: Estudei no curso, no Grupo Escolar Maurício Murgel, em Belo Horizonte.

Jorge Escosteguy: O Vicente Bianchi, secretário, pergunta...

Fernando Morais: Fiz o ginásio. Hein?

Jorge Escosteguy: O Vicente Bianchi, aqui de Campo Limpo, ele pergunta se o senhor colocaria seus filhos para estudar na escola pública?

Eric Nepomuceno: É o que eu ia perguntar.

Fernando Morais: Eu vou, eu vou colocar...

Eric Nepomuceno: Porque eu estudei em escola pública e o meu filho estuda em escola particular. E o seu?

Fernando Morais: Pois é, a minha filha estuda em escola particular; eu tenho uma filhinha de 11 anos. Eu estudei em escola pública, eu fiz o primário num grupo escolar, fiz o ginásio num colégio estadual de Belo Horizonte, já fiz o clássico num colégio privado, provavelmente porque deve ter sido no momento em que o ensino começou a ser moído, ele moído. Mas não tem onde pôr, escola, onde pôr a minha filha, ela estuda, ela está fazendo agora a quinta série, estuda numa escola privada, mas disse a ela, a Ritinha, há poucos dias, que, espero que antes dos próximos... antes de terminar esse governo, que ela volte a estudar, [corrgindo-se] que ela venha a estudar em escola pública.

Jorge Escosteguy: Antes de passar ao Fábio,...

[...]: [Interrompendo] E o que é que ela falou, Fernando? O que é que ela respondeu?

[...]: Deus me livre!

[Risos]

Fernando Morais: Não, não disse "Deus me livre.", não. Essas crianças não sabem sequer o que é que é escola pública, sabe? As crianças da escola privada não sabem, têm uma noção muito vaga.

Jorge Escosteguy: E quando sabem acham que é castigo.

Ivan Ângelo: Fernando, tem mais uma coisa curiosa que [é a de que] esse negócio é meio sistêmico: não há um estado onde a escola pública seja valorizada, quer dizer, arruinou tudo paralelamente.

[Sobreposição de vozes]

Fernando Morais: É nacional, é nacional sim, mas veja, veja uma coisa, Ivân.

[Sobreposição de vozes]

Fábio Lucas: [interrompendo] Secretário, a minha pergunta girava em torno disso. É o seguinte: é que na sua primeira proposta de enfrentar o problema do ensino em São Paulo ficou a idéia de articulação com o governo federal e com o governo municipal para dar solução pelo menos a alguns dos problemas. E eu queria perguntar justamente isso, se o secretário já teve uma reflexão sobre esse problema: escola pública ou escola particular?

Fernando Morais: Já. Eu sou um defensor da escola pública, eu, eu...

Fábio Lucas: [Interrompendo] Porque isso implica ensino de primeiro grau, ensino de segundo grau e ensino superior.

Fernando Morais: E ensino superior. Nesse momento está havendo uma discussão que eu acho que, como discussão, é extremamente rica, a respeito da qual o professor Goldemberg, citado pelo [aponta para Jorge Escosteguy]...

Jorge Escosteguy: [Interrompendo] O Goldenberg mencionou numa entrevista.

Fernando Morais: ...Jorge Escosteguy, cita na entrevista de hoje da Folha de S.Paulo, e eu acho que ele lida até, responde de uma maneira mais mineira do que eu responderia a essa questão do ensino superior público ou privado. A alegação dos que defendem a privatização do ensino superior é que hoje ele acaba sendo restrito, ou boa parte dele, a filhos de famílias que tenham recursos e que, portanto, aí haveria uma perversidade social e econômica de... a escola, a universidade pública em vez de ser destinada aos filhos dos pobres acaba sendo para os filhos dos ricos. Primeiro que isso não á absolutamente verdade. Essa história de que: “Não, passe no estacionamento da USP [Universidade de São Paulo] e você vai ver o número de automóveis do ano que tem lá, e por isso você mede...”. Não, isso é... isso não tem valor científico. Em segundo lugar, outro dia eu vi uma declaração do secretário Severo Gomes [(1924-1992), foi secretário da Ciência e Tecnologia do estado de São Paulo], a cuja Secretaria estão... eu não diria subordinadas, mas, enfim, estão ligadas às três universidades públicas do estado e ele dizia o seguinte: que uma universidade como a Unicamp [Universidade Estadual de Campinas], por exemplo, se fosse privatizada, para oferecer a qualidade dos serviços que ela oferece, cada aluno teria que pagar por mês ali alguma coisa em torno de dois mil dólares. Ou seja, no país que a gente vive, um estudante ter que pagar dois mil dólares por mês, olha, só a classe super A, só os filhos dos seqüestráveis seriam, poderiam freqüentar uma...

Fernando de Barros e Silva: [interrompendo] O custo médio do aluno da USP é sete mil dólares por ano, mais [...]...

Fernando Morais: Isso que eu li hoje na entrevista do professor Goldemberg, oito mil dólares, oito mil dólares por ano, eu achei um pouco baixo, não sei, me pareceu.

Fernando de Barros e Silva: Segundo os dados da reitoria, isso é recente, é isso.

Fernando Morais: Segundo os dados da reitoria, me pareceu um pouco distante do número citado pelo senador, pelo secretário Severo Gomes. Mas ainda que a gente tome oito mil dólares por ano, isso daria, em 10 meses, que é... o ano letivo é de 10 meses, já com alguma folga, isso daria 800 dólares por mês. Quem é que pode pagar 800 dólares por mês para um filho estudar numa universidade hoje?

[...]: [interrompendo] Vai pra Stanford [Universidade de Stanford, uma das principais universidades dos Estados Unidos, fundada em 1894 e localizada na Califórnia].

Fernando Morais: Essa discussão, esse seminário a que se referiu o Zé Paulo, do Banco Mundial no Rio de Janeiro, defende, ou pelo menos algumas das pessoas que fizeram intervenção lá, defendem que os recursos públicos que hoje são destinados à universidade sejam destinados ao ensino de primeiro e segundo grau. Eu não sei se isso soluciona o problema, eu não sei se isso soluciona. Agora, eu me assusto muito com a possibilidade de ver a universidade pública privatizada. Pelo menos esses argumentos ainda não me convenceram.

Fernando de Barros e Silva: E quanto à proposta do governo federal de estabelecer uma espécie de serviço civil, que a proposta do MEC [Ministério da Educação] é essa, que o sujeito estuda de graça e depois ele retribui...

Fernando Morais: [Interrompendo] Retribui. Olha, pode ser...

Fernando de Barros e Silva: ... à sociedade em forma de serviço.

Fernando Morais: Pode ser uma solução, pode ser uma solução. A única coisa que me preocupa nessa discussão...

Fernando de Barros e Silva: [Interrompendo] Porque no seu... Deixa eu, só fazendo um adendo: no seu livro A ilha...

Fernando Morais: Sim.

Fernando de Barros e Silva: ... O senhor parece, Cuba adota esse sistema ou adotou, o senhor tem uma visão simpática a esse tipo de serviço civil.

Fernando Morais: É. Lá não é exatamente, não é exatamente isso, no fundo o que existe ali é o seguinte...

Fernando de Barros e Silva: [Interrompendo] Mas há uma similaridade?

Fernando Morais: Há uma similaridade, guardadas as diferenças, é um regime econômico de outra natureza, mas existe alguma coisa parecida. Então, o sujeito, depois que se forma, por exemplo, em medicina, ou engenharia... em medicina ele é obrigado a dar [plantão], não sei quantos meses ou anos num hospital, hospital público, lá todos os hospitais são públicos. Um estudante que termina um curso de engenharia é obrigado a ir trabalhar numa usina, numa, enfim, numa empresa. É uma forma de retribuição, digamos, de reposição daquilo que o Estado gastou para que ele pudesse se formar, ter a universidade. Poderia ser uma solução. Disso também fala o professor Goldemberg na entrevista de hoje. A única coisa que me assusta, me preocupa, é a possibilidade de que o ensino superior, que é um ensino que apesar de todas as mazelas - é um ensino de boa qualidade, aqui em São Paulo se você tomar as três universidades, a USP, a Unicamp, a Unesp [Universidade Estadual Paulista], com todas as... todos os problemas que você possa apontar numa ou noutra - é um ensino de qualidade indiscutível, de qualidade internacional indiscutível. Eu não acredito que isso privatizado pudesse permitir que os filhos da população mais pobre tenham acesso a essas universidades.

Jorge Escosteguy: Secretário, antes de passar à Ana Maria, com essas respostas que o senhor deu agora estão respondidas as perguntas dos telespectadores Rafael Filho, de São Caetano; Paulo, de Guarulhos e Ciro Morais, daqui de São Paulo. Ana Maria, por favor.

Ana Maria Sanchez: Secretário, eu não me esqueci [de] que o senhor ainda não me respondeu se o governo já tem uma proposta para os professores, mas...

Fernando Morais: Proposta que você diz...

Ana Maria Sanchez: Uma proposta maleável.

Fernando Morais: ... fiduciária, uma proposta de aumento salarial? Não, não tenho. Essa reunião, de que eu saí há pouco, há alguns minutos, a reunião da Comissão de Política Salarial, os estudos feitos pela Secretaria da Fazenda com relação ao que foi arrecadado até hoje, e a expectativa de arrecadação das próximas semanas, ainda não foram suficientes. O governador convocou uma outra reunião da comissão para amanhã, à uma hora da tarde. Eu acredito que até o fim dessa semana, se tudo correr bem, a gente possa dispor de algum número para oferecer às entidades, no meu caso, às entidades ligadas à Educação. Porque na verdade, o problema não é só da Educação, o problema é do funcionalismo. O secretário, Nader Wafae [doutor em anatomia, foi também diretor da Escola Paulista de Medicina], da Saúde, está com problemas, o secretário de Segurança, o Pedro França, está com problemas também. Então é um problema generalizado. No caso da Educação há uma pauta que reivindica aumento salarial, uma reposição da perda do poder aquisitivo do salário e que tem outras reivindicações, não é apenas a questão salarial.

Jorge Escosteguy: Essa pergunta que o secretário respondeu também foi feita pela Maria Alves, aqui de São Paulo, e ela lembra, pedindo negociações, pedindo números, que o senhor aprendeu a ler com uma professora.

[Risos]

Fernando Morais: Aprendi com a dona Pité.

Jorge Escosteguy: Jayme Martins.

Ana Maria Sanchez: Sim, mas o que eu ia lhe perguntar é se o senhor sabe, falando em custos e em quem é que está financiando, que a população, de uma certa maneira, está pagando duplamente pelo serviço de educação que recebe, porque além dos impostos que ela paga, ela está pagando compulsoriamente as taxas de APM [Associação de Pais e Mestres]. Não há nenhuma divulgação de que esse pagamento não precisa necessariamente ser feito. A maior parte das escolas cobra essa taxa dos pais. É uma cobrança perversa quando se sabe que a maior parte dessa população que freqüenta a escola pública de primeiro grau ganha até três salários mínimos, quer dizer, não há uma divulgação de que isso não deve ser pago, as diretorias cobram essa taxa e alguma coisa deveria ser feita nesse sentido. Se o pai não quer pagar, ele tem que apresentar um certificado de pobreza. É humilhante a situação a que esses pais são submetidos...

Fernando Morais: [Interrompendo] Olha, há uma, há uma, eu posso lhe dizer...

Ana Maria Sanchez: O que é que o senhor pretende fazer a respeito disso?

Fernando Morais: Eu posso lhe dizer com segurança, há uma lei aprovada pela Assembléia Legislativa, de 1983, se não me engano, que proíbe [enfatiza] a cobrança de qualquer taxa, a qualquer título dos alunos ou de seus pais, e que proíbe a exigência da obrigatoriedade de uniforme na escola pública por essas razões que você está levantando, porque tem muita gente que não tem dinheiro para comprar uniforme. Há casos em que, em escola noturna, as próprias associações, os conselhos decidiram que, em defesa do estudante, para que na saída ele não seja confundido com um desocupado, ele não seja importunado pela polícia, que ele deva usar uma camiseta com o nome da escola. E quando ele não tem recursos para comprar a camiseta, a APM dá a camiseta para ele generosamente. Agora, é proibido, isso precisa ficar claro, se você achar que é necessário divulgar isso com mais intensidade vou até passar uma recomendação por telex...

Ana Maria Sanchez: É absolutamente necessário divulgar isso.

Fernando Morais: ... para toda a rede. É proibido, há uma... a legislação a esse respeito proíbe a cobrança de qualquer taxa de qualquer natureza.

Ana Maria Sanchez: Então, mas ela não está sendo cumprida.

Jorge Escosteguy: Secretário, antes do intervalo o Jayme tem uma pergunta, por favor.

Jayme Martins: Vamos ressuscitar aqui, já que estamos passando pela Páscoa, o secretário da Cultura, Fernando Morais; três obras maiores marcaram a sua passagem por aquela secretaria: as oficinas culturais, o Memorial da América Latina e a Universidade de Música. Se bem que o senhor já esteja afastado daquela pasta, como encara o futuro dessas três grandes realizações?

Fernando Morais: Olha, eu acho que a Secretaria está nas mãos de um jovem secretário que tem muito pique, é inventivo, tem uma capacidade de trabalho muito grande e que é uma pessoa publicamente comprometida, sobretudo com essa cultura, essa cultura que permita o acesso das pessoas que não têm dinheiro, dos mais pobres. Não por acaso ele chamou para ser seu secretário-adjunto o que era o gerente das oficinas culturais, o Pedro Braz. Então eu estou convencido de que o Adilson, o secretário Adilson Monteiro [Adilson Monteiro Alves, sociólogo e político, notabilizou-se pelo seu envolvimento com a Democracia Corintiana] vai continuar o projeto das oficinas, está comprometido com isso. A Universidade de Música, eu já anunciei com muita alegria que, no máximo, dentro de noventa dias eu deixo o prédio do Caetano de Campos, que hoje é a sede da Secretaria da Educação e vai ser entregue ao Magnificent Rector [Magnífico Reitor], como ele gosta de ser chamado, Antônio Carlos Brasileiro de Oliveira Jobim, nosso Tom Jobim.

Jayme Martins: De Almeida.

Fernando Morais: [Com o dedo em riste] De Almeida Jobim.

Jayme Martins: Vulgo Tom Jobim.

Fernando Morais: Vulgo Tom Jobim, que passa a ocupar, não só ele, mas toda a Universidade de Música passa a ocupar o prédio do Caetano de Campos, tão logo eu tenha condições de mudar para as novas instalações da Secretaria. E o Memorial, que é aquilo que todo mundo dizia que era um elefante branco, que ia ficar entregue às moscas, em um ano e meio de vida já recebeu dois milhões de pessoas, seja no auditório, para espetáculos... É uma coisa muito bonita você ir lá às segundas-feiras ver a Orquestra Sinfônica do Estado tocando para gente que nunca viu uma orquestra sinfônica na vida, porque ali é boca de metrô...

[...]: De graça, né?

Fernando Morais: De graça. E como é terminal de metrô ali, onde tem uma estação de metrô, então você vê pela roupa, pela cara, pelo jeito das pessoas, você vê que é gente que veio lá do fundão da Zona Leste para assistir à sinfônica, ou para ver um Milton Nascimento, para ver um Tom Jobim, para ver um Chico Buarque.

Fábio Lucas: Só um parêntese nisso. Eu acho incrível o funcionamento da Secretaria durante a sua gestão e principalmente a imposição dessas oficinas culturais. Mas eu fico pensando se isso não está mais ou menos de acordo com uma tendência da indústria cultural de transformar tudo em espetáculo. Eu perguntaria: e as atividades culturais que não estão sujeitas a essa apresentação espetacular; suponhamos, o que é que foi feito com o sistema estadual de bibliotecas públicas?

Fernando Morais: Está bom.

Jorge Escosteguy: Secretário, por favor, desculpe interromper. Eu gostaria de deixar a pergunta do Fábio para depois do intervalo porque nós já estamos com o nosso tempo um pouquinho estourado.

Fernando Morais: Está bom.

Jorge Escosteguy: O Roda Viva volta daqui a pouco, entrevistando hoje o secretário da Educação do estado de São Paulo, Fernando Morais. Até já.

[intervalo]

Jorge Escosteguy: Voltamos com o Roda Viva, que hoje está entrevistando o secretário da Educação do estado de São Paulo, Fernando Morais. O Fábio Lucas fazia uma pergunta...

Fábio Lucas: Isto.

Jorge Escosteguy: ... para o Fernando, um pouquinho antes do intervalo. Eu gostaria que você repetisse para os telespectadores.

Fábio Lucas: Sim, nós estávamos falando no êxito do Fernando diante da Secretaria, à frente da Secretaria de Cultura, e estávamos mencionando o problema das... das atividades culturais, das oficinas, e tudo isso... Mas eu acho que isso foi marcantemente revelado do ponto de vista do espetáculo, quer dizer, a cultura transformando-se sempre em espetáculo. Então o que eu queria perguntar ao secretário Fernando Morais é o que foi feito naquelas atividades culturais que não estão comprometidas com o espetáculo, por exemplo, o sistema estadual...

Fernando Morais: De bibliotecas.

Fábio Lucas: ... de bibliotecas públicas, e outra coisa: enquanto acontecia tudo isso, no Congresso estava sendo discutido, ou está ainda sendo discutido, o problema da reforma do direito autoral, algo fundamental para o escritor e para os artistas. A Secretaria tomou conhecimento disso, ou procurou levar ao governador a idéia de posicionar-se a respeito? Porque há dois projetos: há um projeto que vem da Câmara, do José Genoino [José Genoino (1946-), ex-presidente do PT, foi deputado federal de 1982 a 2002 - ver entrevista com Genoino no Roda Viva], que é bastante progressista, e há um projeto que vem do Senado, do ex-senador Luís Viana [Luís Viana Filho (1908-1990), foi governador da Bahia (1967-1971) e membro da Academia Brasileira de Letras] que constituiu um retrocesso em toda a legislação de direito autoral. Quer dizer, quem vai ficar muito satisfeito com essa legislação serão os que comercializam com o produto cultural. Então a Secretaria acompanhou isso ou procurou também tomar posição em relação a essas atividades?

Fernando Morais: Bom, eu queria democraticamente divergir do meu querido co-estaduano, Fábio Lucas, o sábio Lucas, para dizer em primeiro lugar que a Secretaria consumiu 75% do seu orçamento em atividade de formação, ou seja, no não-espetáculo, que eram as oficinas culturais e a Universidade de Música, o que permitiu que hoje, nesse momento em que a gente está aqui conversando, que haja dez mil adolescentes, crianças, adolescentes e adultos fazendo cursos gratuitos na Universidade de Música, e alguma coisa em torno de 15 mil nas oficinas culturais, também gratuitamente. Então, a administração que a gente fez na Secretaria da Cultura foi a anti-administração do espetáculo, do evento. Nós fizemos, em dois anos e meio, fizemos um único espetáculo que foi o concerto do Tom Jobim com o Chico e com o Milton Nascimento, no dia do aniversário da cidade, que foi o dia do aniversário do Tom e que também era lançamento da Universidade de Música. Com relação à questão do direito autoral, eu lembro que nós fizemos um seminário a propósito dos dois projetos, convidamos gente do Brasil inteiro para vir discutir, democraticamente, abrimos para todas as correntes, todas as tendências e o excerto, o que foi produzido, as propostas que foram feitas foram enviadas ao Congresso Nacional. Então, tínhamos preocupação também com a questão do direito. E sobre...

Fábio Lucas: [Interrompendo] O sistema?

Fernando Morais: ... o sistema de bibliotecas, eu gostaria de dizer, muito orgulhosamente, que o nosso sistema de bibliotecas é considerado um modelo para o Brasil. Pedro Simon [senador, advogado e professor universitário (1930-), filiado ao PMDB, governou o Rio Grande do Sul de 1987 a 1990] convidou o Luiz Milanesi [doutor em biblioteconomia, foi diretor técnico da Divisão de Biblioteconomia da Secretaria de Cultura de 1989 a 1995], que é o diretor do sistema de bibliotecas, para implantá-lo no Rio Grande do Sul; Miguel Arraes [advogado e economista (1916-2005), foi governador do estado de Pernambuco de 1986 a 1990 e de 1994 a 1998] o convidou para implantá-lo no... em Pernambuco, e agora o Milanesi foi convocado pelo Affonso Romano de Sant'Anna [escritor (1937-), dirigiu por seis anos a Biblioteca Nacional, onde criou o Proler, o Sistema Nacional de Bibliotecas], também nosso co-estaduano, lá de Minas Gerais, para implantar um sistema nacional de bibliotecas inspirado no sistema aqui de São Paulo.

José Paulo Kupfer: Fernando.

Fernando Morais: Então...

Fábio Lucas: O que é que ele tem de diferente?

José Paulo Kupfer: Fernando.

Fernando Morais: O problema é o seguinte: nós não temos... o estado de São Paulo é uma coisa curiosa, apesar de ser o estado mais rico do Brasil é o único que não tem uma única biblioteca pública. Inclusive o governador Fleury vai implantar aqui um projeto nosso que não foi possível, por questões administrativas, pôr em prática, que é criar a primeira biblioteca pública do Estado no prédio... no antigo prédio do Dops [Departamento de Ordem Política e Social]. A gente quer ver se leva para lá...

[Risos]

Fernando Morais: É, é uma coisa simbólica. A gente quer ver se leva para lá de novo Graciliano Ramos [escritor e jornalista (1892-1953)] Jorge Amado [escrito baiano (1912-2001)], [...], agora sob a forma de livros.

[Risos]

Ivan Ângelo: Mas a biblioteca do Memorial não é considerada uma biblioteca [...]...

Fernando Morais: Não, mas é uma biblioteca específica, é uma biblioteca latino-americana. Então, uma biblioteca genérica... São Paulo... até o estado de Tocantins tem biblioteca pública estadual, São Paulo é o único que não tem. Então, como é que você pode ter um sistema de bibliotecas se não tem biblioteca? É que nós administramos as bibliotecas dos municípios. São 275 bibliotecas, são administradas através de convênio. O que é que tem de novidade? Parece o ovo de Colombo [expressão que designa uma descoberta simples e fácil de ser realizada depois que alguém já a tenha feito. Refere-se a um episódio em que o descobridor da América Cristóvão Colombo (1451-1506) ouviu de convidados de um jantar em sua homenagem que sua descoberta poderia ter sido realizada por qualquer um. Em resposta, Colombo desafiou-os a colocar um ovo de galinha em pé, mas ninguém conseguiu. Ele, então, quebrou levemente uma das extremidades do ovo e conseguiu], que não é a biblioteca à antiga. O que o Milanesi defende, ele tem inclusive uma tese de doutoramento na Universidade de São Paulo sobre isso, é que a utilização da biblioteca seja múltipla, que a biblioteca não seja apenas um depósito de livros, de modo que a pessoa possa ir lá para ouvir disco, que possa ir lá para conversar, que possa ir lá para jogar alguma coisa, jogos naturalmente compatíveis com o silêncio ou com o ambiente de uma biblioteca, e é isso que ele está implantando no país inteiro.

Jorge Escosteguy: José Paulo Kupfer, por favor, depois o Eric.

José Paulo Kupfer: Bom, Fernando, já que a cultura está entregue, provavelmente sabiamente entregue, enfim, aos mineiros, [risos] vamos voltar para Educação, que é um problema que não só mineiro cuida e, portanto, tem ainda graves problemas a serem resolvidos. Eu queria saber o que é que você acha do Ciep.

Fernando Morais: Olha, eu conheço pouco para fazer um juízo público definitivo. Para ser honesto, o que eu conheço me foi transmitido, além do que li em jornais e revistas, me foi transmitido pelo criador dos Cieps, ou por um dos criadores dos Cieps, ou por dois dos criadores dos Cieps, que foram Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer [(1907-), arquiteto brasileiro considerado um dos nomes mais influentes na arquitetura moderna internacional - ver entrevista com Niemeyer no Roda Viva]. Portanto sei muito pouco. A impressão que me dá é que é algo de uma eficiência muito grande em regiões urbanas, porque, na verdade, o que o Cieps, os [enfatiza] Cieps instituíram foi aquilo que aqui em São Paulo a gente chama de jornada única, o que na verdade atinge só a primeira e a segunda séries do primeiro grau, e que o governo pretende aqui em São Paulo estender para terceira e quarta séries. Então, o que é que o Ciep, em regiões urbanas, onde... o poder econômico das populações que se beneficiam dos Cieps é baixo, a criança acaba passando o dia lá e se alimentando, inclusive toma banho na entrada e na saída do Ciep. Então, à primeira vista, diante das poucas informações de que eu disponho me parece ser algo, pelo menos no Rio de Janeiro...

Ivân Ângelo: Dá para fazer aqui em São Paulo?

Fernando Morais: Não sei se seria... Aqui na capital pode ser, eu não sei se no... estadualmente, [não sei] se seria algo implantável. Tem projetos, tem projetos semelhantes; há um projeto de um arquiteto cujo nome completo eu não me lembro mas é muito conhecido como Lelé, um arquiteto ligado ao...

[...]: João Filgueiras [João Filgueiras Lima (1932-), arquiteto carioca, colaborou com Oscar Niemeyer em monumentos de Brasília].

Fernando Morais: João Filgueiras, [que é] ligado ao Oscar Niemeyer, um baiano, que me parece que está trabalhando aqui em São Paulo para a prefeita Erundina, está trabalhando em Campinas também, fazendo pesquisa em produção de construção, criação, desenho de escolas públicas, que parece que é um projeto também muito bonito, muito avançado, algo que teria até partido do Ciep para uma proposta mais ampla. Mas, enfim, tudo isso para te dizer o seguinte: seria leviano da minha parte condenar o Ciep diante...

José Paulo Kupfer: [Interrompendo] Nesse... nessa coisa da dignidade da escola pública, você contempla a extinção das jornadas de duas, três horas, por dia, de aula?

Fernando Morais: Claro.

Fernando de Barros e Silva: [Interrompendo] Secretário, posso pegar uma carona?

José Paulo Kupfer: Vai terminar essa coisa...

Fernando Morais: Isso tem... Isso tem que terminar. Hoje... hoje eu recebi... hoje eu recebi uma comissão de... de Carapicuíba. O prefeito, o deputado que se elegeu lá pela região de Carapicuíba, um deputado que inclusive não é do meu partido, é de um partido de oposição.

Jorge Escosteguy: Ele não foi lá para fazer clientelismo, como fizeram...

Fernando Morais: Não, não. Foi lá reivindicar bens legítimos para a população, e vários representantes ali: vereadores, prefeitos, professoras, pais e mães de alunos, e se queixando de que numa escola lá de Carapicuíba chegava a haver cinco turnos por dia, cinco! Não dois, nem três, mas cinco [mostra a mão espalmada] turnos por dia. É inadmissível que isso aconteça. Por isso que nós estamos aqui exatamente elogiando um sistema que cria a jornada única, ou a jornada única nossa aqui, ou no Ciep do Rio de Janeiro. Isso é o oposto, isso é o outro lado do... dessas cinco jornadas no dia. É inadmissível.

José Paulo Kupfer: Mas e o custo disso, Fernando, pensa bem?

Fernando Morais: Não, tá, mas tem... Olha, você tem... Se educação é, como efetivamente é, como há um consenso entre nós... é como aquele sujeito que vai para o palanque e diz: “Não, eu sou contra o câncer, a favor da luz elétrica e a favor da água encanada.”. Mas é isso: hoje somos todos a favor da recuperação da dignidade da escola pública. Eu acho que é um dos raros consensos que existem nesse país. Se o governador está empenhado, como efetivamente está, em recuperar essa dignidade, em recuperar a importância da... da escola pública, do ensino público aqui no estado de São Paulo, nós vamos fazer isso. Nós vamos buscar recursos, recursos que neste governo não serão investidos nas estradas, que o Quércia acertadamente investiu no governo passado, vão ser carreados para isso. Para outras áreas também, para Saúde, naturalmente, que tem problemas. Mas, essencialmente, primordialmente, para a Educação.

Jorge Escosteguy: O Eric Nepomuceno tem uma pergunta. Depois o Werneck e o Fábio.

Eric Nepomuceno: Por tudo isso que a gente está dizendo aqui, secretário, eu percebo que há uma coisa chave no que o senhor disse que é o problema da vontade política. Quer dizer, houve, pelo que o senhor diz, vontade política por parte do ex-governador Quércia para permitir ao senhor que fizesse a gestão que fez à frente da Secretaria de Cultura. E o senhor diz que está seguro de que o governador Fleury terá a mesma vontade política para permitir o seu desempenho frente à Secretaria de Educação. Agora, muito bem, o senhor vem de uma trajetória peculiar - não é? -, um jornalista combativo, um deputado combativo, um homem sempre alinhado com a esquerda... Eu me lembro, nas épocas mais tenebrosas o senhor sempre era uma voz ativa em São Paulo e fora de São Paulo, um elemento de ligação com a Nicarágua, elemento de ligação com Cuba. Qual é a trajetória que existe entre o autor de A ilha e políticos, digamos, tradicionais, como o governador Quércia, o governador Fleury: qual é a trajetória de A ilha a Fleury?

Fernando Morais: Olha, eu acho que... Eu acho não, eu estou convencido de que, no fundo, quando você me pergunta uma coisa como essa você está sendo um pouco, um pouco levado por um preconceito mais ou menos generalizado - contra o Fleury até que não existe, não -, mas um preconceito contra o Quércia, que é um preconceito injusto, um preconceito injusto. Não é a primeira vez que me perguntam: “Como é que você, um homem de esquerda e tal, está aí com o Quércia? Homem de confiança do Quércia?”. As pessoas parecem que se esquecem de que a primeira pessoa a pedir... a requerer a constituição de uma comissão de inquérito, uma CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] no Congresso Nacional, para apurar os desaparecimentos, esses que agora a gente está desenterrando em Perus [bairro paulistano no qual se encontra um cemitério utilizado para enterrar corpos de presos políticos desaparecidos, mortos no período da ditadura militar], foi o senador Orestes Quércia, em 1975, no auge [enfatiza] da ditadura militar. Setenta e cinco foi o ano em que mataram o Vlado, aqui em São Paulo. Eu, pessoalmente, posso dar alguns testemunhos - e não dou testemunho como peemedebista nem como amigo do ex-governador, não, dou testemunho como jornalista, ou como militante - de alguns episódios em que o Quércia participou e que a imprensa não registrou, que a história com H maiúsculo não registrou porque não quis, ou porque, enfim... Eu me lembro, por exemplo, de que nas greves do ABC, em 1979, o Quércia senador, nós dois fomos cercados pelo DOI-Codi [Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna, órgão de repressão da ditadura militar no Brasil], ele e eu, dentro de um carro oficial, eu era deputado, um carro de chapa oficial, de chapa preta da Assembléia, cercados por seis, ou sete... Eu tenho uma fotografia disso, tirada de cima de um prédio, seis ou sete peruas do DOI-Codi. De lá desceram homens armados de metralhadoras e, apesar de o reconhecerem e saberem que estava ali um senador... nós estávamos tirando um sindicalista que hoje está na Força Sindical [organização sindical fundada em 1991] com o Medeiros [Luiz Antônio Medeiros (1948-), sindicalista e político], o Alemãozinho, na época era um dos segundos do Lula, lá no ABC. O Alemãozinho estava sendo cassado pelos órgãos de segurança, nós resolvemos tirá-lo, o Quércia ia tirá-lo de uma missa para levá-lo até o gabinete do prefeito Tito Costa [Antônio Tito Costa (1922-), prefeito de São Bernardo do campo entre os anos de 1977 e 1983] e no meio do caminho fomos cercados por homens armados de metralhadora, e disseram: “Não queremos nada com o senhor, senador, nem com o deputado. Queremos o Alemãozinho.”. O Quércia disse: “Tem mandado judicial?”, como se estivesse na Inglaterra, né? “Tem mandado judicial?.” Disseram: “Não”. “Então não leva!”. Eles jogaram bomba de gás dentro do carro para tentar nos forçar a sair de lá. Não levaram. Foi preciso que o doutor Tuma [Romeu Tuma (1931-), advogado e político, fez carreira na polícia, tendo sido chefe do Dops], veja você, [que o] Doutor Tuma passasse lá e permitisse que a gente saísse daquele... daquela situação de... de... não só de constrangimento mas de terror! Eu me lembro, por exemplo, de que, em 1978, quem garantiu legenda para saírem candidatos pelo PMDB [listando os candidatos] Fernando Henrique Cardoso [sociólogo (1931-), foi presidente do Brasil de 1995 a 2003], [corrigindo-se] pelo MDB [Movimento Democrático Brasileiro, partido de oposição durante o regime militar], Fernando Henrique, [como] candidato ao Senado; Eduardo Suplicy [economista (1941-), várias vezes eleito senador pelo estado de São Paulo], [candidato] a deputado; Irma Passoni [professora, eleita  por quatro vezes para a Câmara Federal], [candidata] a deputada, está no PT hoje; Antônio Rezk [sociólogo (1933-2005)], que está no PCB hoje, candidato a deputado; Mauro Bragato [sociólogo (1953-)], [que] está no PMDB, para mim, para quem mais?, enfim, para a chamada esquerda do MDB, quem garantiu legenda para eles na convenção do partido foi o Quércia. Foi lá e brigou e achava que um partido, que uma frente, que era o MDB, tinha que ser pluralista, que tinha que abrir espaço para a esquerda, sob pena dessas pessoas terem que fazer política em partidos clandestinos e se entregarem à sanha da repressão. Eu me lembro de que na morte do Vlado, por exemplo, no assassinato do Vladimir Herzog, eu tive que, por contingências, tive que me evadir, como dizem os policiais daqui de São Paulo, e... foi no funeral do Vlado, [no qual] o Quércia compareceu, e um dos presos, eu não lembro se foi o Markun [Paulo Markun (1952-), jornalista], ou se foi o Rodolfo Konder [jornalista e escritor (1938-)], um deles, eu não me lembro quem, pôde dizer a eles o seguinte: “Olha, avisa para o Fernando Morais, onde ele estiver, que o que estão perguntando sobre ele no DOI-Codi é isso assim, assim...”. Queriam saber o que eu tinha... o que eu tinha ido fazer em Cuba, porque eu tinha ido lá fazer uma reportagem mas não tinha ainda publicado o livro. Então, o Quércia se deu ao trabalho - eu era um ilustre desconhecido, ele um senador da República -, e ele se deu ao trabalho de ir procurar a minha família para dizer: “Olha, avisa para o Fernando Morais que lá no DOI-Codi, no meio das seções de tortura lá...” - no Markun ou no Konder, eu não me lembro qual deles – “...eles perguntam isso, assim, assim, para os presos a respeito do Fernando.”. Então, eu poderia continuar aqui com um rol de manifestações que o Quércia, anonimamente - não foi em show off, não foi coisa para aparecer nos jornais -, anonimamente, fez e que eu acho que revela... além dos dois anos e meio de governo que eu tive ao lado dele, que também poderiam revelar diversos episódios nessa mesma direção. Então eu acho que é um homem da maior dignidade e um homem que, no momento em que muita gente que hoje posa de democrata estava escondido, era um homem que teve a coragem de tomar determinadas atitudes. Um brasileiro de bem.

Humberto Werneck: Fernando,...

Jorge Escosteguy: Humberto Werneck, por favor.

Humberto Werneck: Fernando Morais, eu queria virar um pouquinho essa conversa, né? Você, antes de ser político, é um escritor, não é? E, nessa condição, o autor de um grande best-seller que é a história de Olga Benário. Agora, eu queria que você explicasse para gente o que acontece, que mistério acontece com esse livro que ficou anos dependurado, meses pelo menos, dependurado no topo das listas de mais vendidos e, de repente, não se encontra em parte alguma?

Jorge Escosteguy: Aliás, Fernando, desculpe, o Gustavo Maranhão, aqui de São Paulo, ele também pergunta alguma coisa sobre o Olga, não exatamente a mesma cosia que o Werneck mas pode até ter uma ligação, ele alega que o próprio Luís Carlos Prestes teria dito que muitos fatos narrados no livro não são realidade e sim pura ficção.

Fernando Morais: Está bom.

Jayme Martins: Ainda sobre o Olga, Fernando, está aqui a edição chinesa do seu livro Olga [mostrando o referido livro, com uma foto de Olga Benário em sua capa], Fernando.

Fernando Morais: Pois é.

Jayme Martins: Este livro repercutiu intensamente lá na China, especialmente entre os professores de história política da América Latina, inclusive porque eles constataram que vários personagens importantes do antigo Komintern [ou Internacional Comunista, organização fundada em 1919 por Lênin, com a finalidade de reunir os partidos comunistas de todo o mundo, além de expandir o número de países adeptos ao regime], que haviam atuado aqui na revolução, ou na rebelião comunista de 1935, haviam passado anteriormente pela China defendendo a mesma tese.

Fernando Morais: Exatamente.

Jayme Martins: Da tomada do poder pelo putsch [palavra de origem alemã que designa golpe ou tentativa de golpe para tomar o poder], ou pela quartelada  [motim militar para tomar o poder]. Você teve oportunidade de confirmar isso, checar isso?

Fernando Morais: Tive. Parte... parte dessas informações, na verdade, já estão no livro, outra parte eu teria que reabrir o livro e reescrever, e não me animei muito. Mas, por exemplo, a passagem por Xangai do...

Jayme Martins: Otto Braun [escritor e funcionário do Partido Comunista da Alemanha (1900-1974)].

Fernando Morais: Do Braun, do Otto Braun, que tinha sido namorado da Olga quando era adolescente.

Jayme Martins: Ele fez a Grande Marcha [fuga das tropas do Partido Comunista Chinês que, perseguidas pelo exército do Kuomintang (movimento republicano que governava então o país), acabaram percorrendo cerca de 10.000 km até se estabelecerem ao norte do território] inclusive.

Fernando Morais: Fez a Grande Marcha junto com... o nome, o nome de guerra [era] Li De. Li De.

Jayme Martins: Li De era o nome dele chinês.

Fernando Morais: Era o nome chinês, nome de guerra dele, junto com o depois presidente Mao Tsé-Tung [(1893-1976), dirigente da República Popular da China após ter liderado a revolução que a instaurou, e criador do marxismo-leninismo-maoismo, que foi, durante muito tempo, a doutrina oficial do Partido Comunista da China. Um dos mais importantes teóricos comunistas do século XX], e o Berger, o Harry Berger [nome falso utilizado pelo agente do Komintern Arthur Ernst Ewert, enviado ao Brasil na década de 30 para assessorar uma possível revolução comunista, ficou preso entre os anos de 19035 e 1945] e sua mulher, a Mattler Lesinsky, também passaram por Xangai nessa época, eu só... parte dessas informações eu só soube...

Jayme Martins: E vieram de lá direto para o Brasil.

Fernando Morais: E vieram de lá de Xangai para o Brasil para vir assessorar o Prestes [Luís Carlos Prestes]. Com relação à pergunta que foi feita pelo telespectador, na verdade não foi bem isso que o Prestes... é pena [ele] estar morto, mas está gravado, porque foi dito aqui neste programa, Roda Viva, o Prestes disse... Ele ficou um pouco sentido pelo fato de eu ter publicado no livro uma informação que ele me deu espontaneamente [enfatizando] e que está gravada em fita, que contou que aos 37 anos ele tinha tido a sua primeira relação sexual com a Olga Benário, que até então ele era virgem.

Fábio Lucas: [Interrompendo] Fernando, e o filme, o filme Olga?

Fernando Morais: Só... só... só para não perder o fio da meada. Então, ele não gostou, curiosamente, apesar de ele ter dito para mim, espontaneamente...

Jorge Escosteguy: Ele queria dizer é que isso que era ficção, ou não?

[Risos]

Fernando Morais: Ele não disse que era ficção. Não. O telespectador parece que está equivocado. Ele não disse que era ficção. Ele ficou sentido por eu ter colocado isso no livro, embora eu tenha feito - quem leu o livro sabe disso -, embora eu tenha feito com o maior respeito, com a maior dignidade, sem fazer disso nenhum sensacionalismo. Com relação à pergunta do Werneck - "Por que é que o livro fez tanto sucesso e hoje não pode ser mais encontrado nas livrarias?" -, a editora que o publicou, o meu antigo editor aqui no Brasil... o contrato que eu tinha com essa editora venceu e eu decidi formalmente não renová-lo. E, apesar disso, a editora tirou mais uma edição, portanto, sem autorização, sem ter direitos para isso. Eu fui obrigado a entrar na Justiça, a requerer a apreensão do meu próprio livro, né? Ironizam... O Fábio falava há pouco das mazelas, da tragédia, do direito autoral no Brasil. Então eu estou com alguns milhares de livros empilhados num depósito, eu que vivo praticamente de direitos autorais, porque o salário de secretário é muito pequeno, estou impedido de vender livros porque esse... essa partida - são dez mil, vinte mil livros, eu acho - estão sub judice [em juízo], eu sou fiel depositário desses livros.

Humberto Werneck: O que é que pode acontecer? Qual é a perspectiva de que o livro venha a circular novamente?

Fernando Morais: Eu espero que a Justiça, eu confio na Justiça, eu espero que a Justiça, que o juiz que está julgando essa causa delibere sobre isso, primeiro, o mais depressa possível. E espero que seja justo e delibere a favor de quem tem o direito, que sou eu, e que eu possa vender, voltar a vender livros. Muita gente me procura, tem gente que faz xerox do livro para fazer circular...

Humberto Werneck: Quanto exemplares já se venderam até agora?

Fernando Morais: Eu não saberia precisar, mas se contar que ele já foi traduzido em 11, 12 idiomas, e que aqui no Brasil, vendeu...

Jayme Martins: Duzentos mil, pelo menos...

Fernando Morais: Eu acho que mais, eu acho que vendeu...

Humberto Werneck: Duzentos e cinqüenta mil.

Fernando Morais: Duzentos e cinqüenta mil, mais [a editora] Círculo do Livro, que eu não sei o quanto vendeu, eu não tenho exatamente a tiragem. Olha, certamente vendeu mais de meio milhão de exemplares.

Jayme Martins: E o A ilha?

Fernando Morais: A ilha vendeu, aqui no Brasil, vendeu uns 250 mil, e vendeu mais - também foi traduzido em uns seis, ou sete países -, deve ter vendido uns trezentos e poucos mil exemplares, quatrocentos mil exemplares.

Fábio Lucas: Fernando, há uma... uma espécie de uma novela a respeito do filme a ser tirado do Olga. Você podia explicar como está essa situação?

Fernando Morais: Não, eu não... o que houve na verdade...

Jorge Escosteguy: O Vicente, desculpe Fernando, o Vicente Loua, aqui de São Paulo, da Casa Verde, também pergunta sobre a proposta de transformar o livro em filme.

Fernando Morais: Na verdade, houve uma primeira proposta feita pelo Silvio Tendler [cineasta brasileiro (1950-)], aqui no Brasil, e depois a gente se desentendeu por uma razão muito simples: ele, além de dirigir, queria também produzir o filme. Apareceu a possibilidade de que ele fosse produzido por uma, por produtores norte-americanos, o Silvio não quis, a gente se desentendeu e, enfim, não foi possível concluir os entendimentos que a gente tinha feito. Por recomendação de um agente literário, de um rapaz que é o meu agente literário no exterior, que é o Thomas Colchie, eu esperei o livro sair nos Estados Unidos, para decidir sobre propostas cinematográficas. O livro saiu há pouco tempo, há semanas, nos Estados Unidos. Já há algumas propostas para filmagem dirigidas ao Thomas em Nova Iorque, há uma proposta alemã, que foi... alemã-italiana, germano-italiana, que foi dirigida a mim, e que eu enviei para o agente, então não há... mas isso deve ser, deve ser resolvido dentro de pouco tempo.

Fábio Lucas: Há uma, em relação às suas obras, há o seguinte, primeiro o A ilha: a crítica muitas vezes assinalou a simpatia com que você fez o livro, revelando Cuba para os brasileiros e também, principalmente, Fidel Castro, [(1926-), chefe de Estado de Cuba de 1959 a 2008] quer dizer, há um certo argo de simpatia que envolve Fidel Castro. Depois, quanto a Olga, eu li mais de uma vez pessoas dizendo que você fez um livro quase que apaixonado pela Olga. Agora nós sabemos que você está trabalhando com Chateaubriand. Eu queria saber se já está adiantado o seu trabalho e, principalmente, que sentimento vai sair desse seu contato com a biografia de Chateaubriand.

[Risos]

Fernando Morais: Se eu já me apaixonei por ele?

Jorge Escosteguy: Jorge Ribeiro Neto, também pergunta...

Fábio Lucas: E quando sai o [...] de papel?

Jorge Escosteguy: ... desta biografia do Assis Chateaubriand. [O telespectador é] De Indaiatuba.

Fernando Morais: Olha, o Chateaubriand, a parte mais pesada, que é a pesquisa, que me consumiu quatro anos de trabalho, está terminada. Sempre há uma ou outra entrevista que aparece, alguém pode dizer: “Olha, você... tem Fulano de Tal que esteve com ele em tal época...", tem uma informação interessante e você reabre se achar que é importante. Mas o pesado da pesquisa, que foram duzentas, quase duzentas entrevistas - eu tenho caixas e caixas de fitas, eu tenho quatro mil laudas armazenadas na memória do computador, só de depoimentos -, isso acabou, esse pesadelo chegou ao fim. Eu já escrevi alguma coisa em torno de duzentas laudas, eu não sei quanto é que isso representa do livro porque eu não sei como é que vai terminar isso. Mais ou menos duzentas páginas estão escritas. Eu pretendo entregar o livro este ano para a [editora] Companhia das Letras, para o Luiz Schwarcz , que é o meu editor, espero... meu atual editor, não aquele que eu tinha dito antes, que tinha entrado na Justiça. Já estou atrasado, me atrasei por razões... um pouco por minha causa, um pouco porque alguns arquivos, os arquivos britânicos, por exemplo, a legislação é muito rigorosa, determinados documentos você tem que esperar trinta anos para poder pesquisar, para poder ter acesso a eles, então isso atrasou um pouco. Eu espero entregar este ano, vamos ver se consigo. Se eu já me apaixonei por ele? Não sei. Eu sempre procuro, apesar do que disse o sábio Lucas [Fábio Lucas, que fez a pergunta], eu sempre procuro lidar com algum, com um distanciamento em relação ao personagem, ou à história com a qual eu estou lidando. Mas eu acho que determinadas histórias sem paixão, ainda que com distanciamento, sem paixão você não consegue contá-las. Então, Chateaubriand, as pessoas me perguntam: "Você vai descrever um santo ou um monstro?". Nos momentos em que ele foi santo, santo, e nos momentos em que ele foi monstro, monstro.

Humberto Werneck: Agora, o Chateaubriand que você vai descrever, ele se parece um pouco com essa idéia que se tem dele hoje?

Fernando Morais: Olha, ele... para mim... eu, quando eu comecei a trabalhar, eu imaginava que [ele] fosse um gângster. Para a minha geração, para a nossa geração - você é um pouco mais novo que eu - mas para a nossa geração de jornalistas o que pintou foi isso: o Chateaubriand... o Chateaubriand era um gângster, um grande [enfatiza] vigarista, um grande chantagista.

Fábio Lucas: Eu vi uma entrevista numa época, do Lúcio Bittencourt [jornalista, advogado e político (1911-1995)], que o chamava de escroque internacional.

Fernando Morais: Não, ele teve apelidos... o Conde Matarazzo, o Conde Chiquinho Matarazzo [Francisco Antônio Paulo Matarazzo Sobrinho, ou Ciccillo Matarazzo (1898-1977), um dos fundadores do Museu de Arte Moderna (MAM), assim como da Bienal Internacional de Arte, ambos de São Paulo], se referia a ele como "o lazarento". O Prestes chegou a se referir a ele, é um negócio engraçadíssimo, como "torresminho de pus"...

[Risos]

Fernando Morais: Vejam vocês [faz cara de nojo]. Agora, algumas das pessoas que deram depoimento para mim a respeito do Chateaubriand, e pessoas sérias, pessoas dignas, o professor Bardi [Pietro Maria Bardi (1900-1999), jornalista, historiador e crítico de arte, foi também, junto com Assis Chateaubriand, um dos fundadores do Museu de Arte de São Paulo (Masp) - ver entrevista com Bardi no Roda Viva], por exemplo, se refere ao Chateaubriand - isso é público, ele já disse isso acho que até aqui nesse programa - como o grande mecenas das artes brasileiras.

Jayme Martins: O pai do Masp, né?

Fernando Morais: O pai do Masp. O Masp hoje... Isso aí também... o Masp distingue Chateaubriand dos chamados mortais comuns, né? As pessoas diziam: "Não, era um gângster."...

Jorge Escosteguy: [Interrompendo] [O Masp diferencia Chateubriand] Dos escroques comuns, ou não?

Fernando Morais: Como?

Jorge Escosteguy: Dos escroques comuns?

[Risos]

Fernando Morais: Ou dos escroques comuns, se você quiser, porque eu não... Que me conste, nenhum escroque deixou para a posteridade um museu com as características do Masp, que é hoje um museu público.

Jayme Martins: Forçando empresários e fazendeiros a doarem aquelas...

Fernando Morais: Forçando empresários, e ele não tinha nenhum pudor de dizer que ele reeducava a burguesia para o convívio com a sociedade; de peixeira na mão, segundo ele próprio. [Dizia] que ele não tinha nenhum interesse pessoal, que ele queria reeducar a burguesia. Ele dizia que era uma burguesia que não sabia viver, porque torrava o dinheiro em futilidades, e não sabia morrer, porque legava o dinheiro para os seus filhos repetirem as futilidades. Então... que ele tinha vindo da Paraíba para reeducar essa burguesia paulista e tirava dinheiro de banqueiros, de industriais, de peixeira na mão. Agora, era um dinheiro que... se ia para outras finalidades, ia para o Masp também. Muitas vezes era para comprar Modigliani [Amedeo Modigliani, artista plástico italiano (1884-1920)], para comprar Renoir [Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), pintor francês pertencente ao movimento impressionista], para comprar Rubens [Peter Paul Rubens (1577-1640), pintor belga], tantos outros... A famosa briga dele com o pai do Antônio Ermírio de Moraes [empresário paulista (1928-)], com o senador, o velho senador José Ermírio de Moraes [(1900-1973)], uma briga ruidosa, rumorosa, que gerou um processo que foi parar no Supremo [Tribunal Federal], foi por causa de uma tela, foi por causa de um... de um... A memória me falha agora, mas uma tela que ele arrematou por 650 mil dólares num leilão em Nova Iorque e quis tomar o dinheiro, o senador. O senador disse: “Tsc-tsc [Faz o gesto de negação com a mão]. Isso aqui não é Santa Casa de Misericórdia não. Dinheiro aqui tem rastro de entrada e de saída, não é assim não, o senhor vai levando.”. E ele fez trinta artigos contra o senador Ermírio de Moraes, assinados, ele tinha isso também, que o distinguia de boa parte dos jornalistas de hoje, que atuam muito nos bastidores, os grandes capitães das comunicações, que atuam nos bastidores. Ele não. Ele ia lá, escrevia barbaridades e assinava: Assis Chateaubriand. Ele interrompia telenovelas - naquela época não tinha videotape -, ele interrompia telenovelas para fazer discursos contra o Antônio Ermírio de Moraes, discursos impublicáveis, ou intransmissíveis, “intransmitíveis”, [corrigindo-se] [contra] o senador José Ermírio de Moraes. Então, esse homem, esse homem surpreendente, esse homem que é sempre surpreendente, sempre, as atitudes dele são sempre inesperadas, ele pode ser santo, pode ser monstro, agora, eu tenho absoluta certeza de que é um personagem fascinante.

José Paulo Kupfer: Fernando, com o risco de parecer chato e ranzinza, eu vou querer voltar para a educação, até porque, para te dar uma mão - né? -, porque quanto mais pessoas lerem mais livros você vai vender e os colegas, os escritores também... [risos] A educação é a base dessa coisa.

[Sobreposição de vozes]

Fernando Morais: Benza Deus! Pessoas bem alfabetizadas.

José Paulo Kupfer: Deixa eu te fazer duas perguntas, um...

Jorge Escosteguy: [Interrompendo] De repente, você está unindo o útil ao agradável, ou seja, você está [...] as pessoas que vão ler os seus livros.

[Sobreposição de vozes]

[...]: Em causa própria.

José Paulo Kupfer: Deixa eu te fazer duas perguntas só. Um: qual é a evasão no primeiro ano ou, enfim, no primeiro grau, das escolas públicas paulistas?

Fernando Morais: Não sei. Eu trouxe até uma cola, trouxe um pacotinho que eu deixei ali em cima...

José Paulo Kupfer: Qual é, Fernando?

Fernando Morais: ...com esses dados.

José Paulo Kupfer: Qual é, Fernando? Qual é? Você sabe?

Fernando Morais: Você sabe qual é a evasão, hoje? [perguntando a um dos entrevistadores] Eu não sei, eu trouxe dados gerais, tirei do computador agora de noite antes de vir para cá, dados gerais...

Fábio Lucas: É, mas não é sabatina não...

Fernando Morais: É... não, eu até... na hora em que você falou da prefeitura, eu achei que você ia me perguntar sobre [...]...

[Risos]

[Sobreposição de vozes]

José Paulo Kupfer: Eu queria ouvir o senhor dizer: “Eu queria reduzir isto no fim do ano para X menos tanto.”. É isso o que eu queria.

Fernando Morais: Não, mas ainda que eu tivesse os números aqui seria leviandade eu dizer: “não, vai cair para tanto no... no...”. O risco é grande. O Calegari talvez saiba dizer [olhando para a parte de cima da bancada]. Não sabe? Eu também, eu fiz uma cola mesmo, trouxe um pacotinho com a cola...

José Paulo Kupfer: [Interrompendo] Conceitualmente, o que [é] que você acha que tem que fazer a curto prazo para que essa evasão... se reduza?

Fernando Morais: Olha, não é só para que a evasão se reduza não. Para... para tudo, você tem...

José Paulo Kupfer: [Interrompendo] A evasão [...] fracasso.

Fernando Morais: ... de alguma coisa, de alguma coisa você tem que começar. Há propostas de reformulação administrativa, conceitual e pedagógica da Secretaria. A colinha está aqui [pegando um envelope] daqui a pouco eu te respondo.

José Paulo Kupfer: Chegou a cola.

Fernando Morais: Chegou a cola. É grande para não parecer que é uma coisa escusa. [risos] Para qualquer tipo de reforma você há de encontrar contribuições importantes que foram dadas pela USP, pela Unicamp, pela Unesp, por pedagogos e educadores, inclusive de oposição, do PSDB, do PT, do PDS [Partido Democrático Social, herdeiro da Arena]; você há de encontrar contribuições dadas pela Fundap [Fundação do Desenvolvimento Administrativo], há de encontrar contribuições da própria Secretaria. O secretário que me antecedeu, meu querido amigo Carlos Estevam Martins, tem propostas para se iniciar uma reforma administrativa muito grande. O que a gente vai fazer agora nas próximas semanas é chamar todas essas pessoas, todo mundo que tem o que dizer, sem absolutamente nenhum preconceito de natureza partidária, ideológica, conceitual, chamar as pessoas importantes, que tenham alguma coisa importante a dizer sobre educação e chamar profissionalmente, para que essas pessoas venham como consultores se juntar à determinação da Secretaria de fazer essa transformação, para mexer não apenas na evasão, que é um dos [enfatizando] muitos problemas da educação, é um dos muitos problemas da educação...

[...]: Secretário.

Fernando Morais: Para tentar recuperar a educação como um todo.

Jorge Escosteguy: Um momentinho, por favor, Fernando. A Ana Maria [...].

Ana Maria Sanchez: A propósito, inclusive, disso tudo que o senhor está dizendo, me parece que uma personagem não foi citada ainda, e que tem uma importância fundamental com relação à evasão, com relação ao aproveitamento, com relação à preservação de escola, que é a comunidade. O estado de São Paulo tem já um mecanismo de democratização da escola, felizmente precioso, que é o Conselho, onde participam professores e pais. No entanto, nós sabemos que esse Conselho nem sempre funciona bem. Nós sabemos também que as escolas onde... As escolas que chamam a comunidade a participar, elas não são depredadas, o sentido e o valor da educação muda muito na cabeça desses pais e a evasão praticamente acaba. Nós sabemos também que, quando a comunidade pode opinar, também, sobre a educação que ela quer que os seus filhos recebam, a qualidade do que é feito dentro de uma escola melhora muito, além de que nós temos um caminho de democratização muito grande por aí. O que [é] que o senhor pretende fazer, que mecanismos o senhor pretende usar para chamar essa comunidade a participar das decisões?

Fernando Morais: Você não está sendo muito justa quando diz que eu me esqueci da comunidade, porque...

Ana Maria Sanchez: Peço a sua preleção agora. [risos]

Fernando Morais: ... porque eu, logo no início, disse que era uma tarefa grande demais para o Estado se desincumbir dela sozinho, e que era muito importante que a comunidade se envolvesse. Já há experiências em execução nesse sentido, muito interessantes. O ex-secretário Carlos Estevam fez evoluir um pouco o projeto de municipalização da Secretaria da Educação, criando um instrumento que é conhecido como TCI, Termo de Compromisso Intergovernamental. Apesar do nome complicado, é o seguinte: você repassa recursos para o município, para o município construir escolas e administrar essas escolas. Agora, você estabelece alguns pré-requisitos, alguns pré-requisitos para que esse TCI seja firmado. Um deles é que na cidade que exista um Conselho de Educação Municipal, Conselho esse que é composto por pais de alunos, por representantes, pelo que houver de organizado na sociedade. Então, no momento em que você vincula a existência do Conselho na cidade, para repassar o recurso, você já está obrigando, quase, obrigando entre aspas, a municipalidade a juntar o que houver de organizado na sociedade, que no fundo é quem vai vigiar. Vigiar é um termo meio forte, mas é quem vai cuidar de que a escola esteja funcionando direito, de que os professores estejam ensinando direitinho e de que a escola não esteja sendo depredada. Você disse muito bem que quanto mais ocupada for a escola menos ela é vítima de vandalismo. Uma das propostas que o Fleury tinha feito, ainda no tempo em que eu era secretário de Cultura, era a utilização das escolas nos fins de semana como oficinas culturais, que é algo que beneficiaria a Cultura, que não tem recursos suficientes para instalar oficinas em todo o estado, e ao mesmo tempo permitiria que a escola, no fim de semana, fosse utilizada, o que impede o vandalismo, impede a destruição. Então, me parece que é essencial, eu tinha dito isso, me parece que é essencial que a sociedade se envolva nesse projeto. Isso não pode ser, não é uma... Isso... o que eu estou dizendo aqui é sincero, não é retórico. Não é um projeto só do Estado, é grande demais para o Estado se desincumbir dele sozinho...

Jorge Escosteguy: [Interrompendo] Secretário.

Fernando Morais: Esse é um projeto da sociedade.

Jorge Escosteguy: Nós falávamos há pouco de evasão de alunos, eu queria voltar a falar um pouquinho sobre evasão de professores, entre aspas, e tenho que voltar porque, como diz aqui a telespectadora Ruth Góes, de Rio Claro, são dez mil professores que esperam essa resposta, boa parte deles deve estar assistindo ao programa. Por exemplo, a Maria da Silva, de Santo André, reclama que até agora o filho dela não teve aula de matemática. A dona Luiza Matsutani, de Santana do Parnaíba, tem dois filhos no primeiro grau na escola estadual, o governador Quércia inaugurou lá uma escola com 14 salas de aula, mas só há dois professores para dar aula. A merenda não chega, o pessoal tem que se juntar, o pessoal que tem mais dinheiro tem que se juntar para comprar um pouco de merenda para os alunos. E aí nós temos aqui a Ruth Góes, de Rio Claro, Maria Alice Fernandes...

Fernando Morais: Deixa eu só... Não, deixa eu só dizer o seguinte: tem muita pergunta, eu estou vendo que tem muita pergunta sobre problemas específicos. O programa tem uma virtude, além das que vocês todos já conhecem, que é o seguinte: guardar essas indagações...

Jorge Escosteguy: Todas elas serão entregues ao senhor...

Fernando Morais: Exatamente, todas elas serão entregues...

Jorge Escosteguy: ... no final do programa.

Fernando Morais: O que for possível responder para a pessoa, escrever ou telefonar, eu me encarrego de, no máximo dentro de uma semana, coisa que tenho feito permanentemente na Secretaria apesar de estar lá só há duas semanas, responder a todas as queixas, mandar apurar e responder imediatamente a todas as queixas...

[...]: Secretário.

Jorge Escosteguy: Agora, essa pergunta surgiu em função, desculpe, em função de vários professores e dos dez mil, segundo a Ruth Góes, de Rio Claro, que também faz a mesma pergunta; a Maria Alice Fernandes, de São Bernardo, que ligou duas vezes; o Nivaldo Calimã, de Amparo; a Maria Ivone, de Moema, aqui em São Paulo; e a Valéria Veiga, da Vila Mariana, eles querem saber, alegam que o senhor não respondeu, se os professores concursados terão suas vagas garantidas.

Fernando Morais: Olha, eu não sei responder. Eu sou muito honesto com essas coisas: eu não sei responder. O que eu sabia eu respondi. Que a carência de 150 mil aulas que havia, reprimido, uma demanda reprimida do ano passado por causa da proibição da legislação eleitoral foi suprimida com a autorização do governador para que fossem contratadas aulas, não professores, que os atuais professores pudessem se estender. Posso me informar a respeito disso, e responder publicamente até, sabe? Distribuo a nota, dar uma informação para o jornal aqui da Cultura, amanhã ou depois a esse respeito.

Jorge Escosteguy: Perfeito. O Fernando, desculpe, o Fernando tem uma pergunta, depois...

Fernando de Barros e Silva: Secretário, na linha do que os telespectadores levantaram, quinze dias depois de começadas as aulas a rede pública estadual parou alegando necessidade de planejamento. A rede pública municipal fez isso durante o período de férias. Então você teve 15 dias de aula, uma semana de paralisação, uma semana de aula e agora a semana, o feriado da Semana Santa, sem aula novamente, quer dizer, o ano letivo está praticamente começando em abril. Como é que o senhor vê isso? O senhor acha que há necessidade de...

Fernando Morais: [Interrompendo] Não, eu acho que esse planejamento...

Fernando de Barros e Silva: ... planejar dentro do período letivo?

Fernando Morais: Não, acho que o planejamento tem que ser feito antecipadamente. Não há sentido. Você acabou somando aí um pouco da Semana Santa, um pouco da greve, dois dias, três dias de greve...

Fernando de Barros e Silva: Fora a greve que eu esqueci.

Fernando Morais: Você não tinha citado a greve?

Fernando de Barros e Silva: Não, eu citei essa parte de planejamento...

Fernando Morais: Então, além de tudo tem isso. O ano letivo está começando praticamente em abril...

Fernando de Barros e Silva: Em abril.

Fernando Morais: É um absurdo quando está se pretendendo... O governo federal determinou que o ano letivo tem que ser estendido para duzentos dias, o que é absolutamente legítimo, um país como o nosso não pode ter apenas 180 dias de aulas durante o ano. É metade do ano, é menos da metade do ano. Você encurtá-lo ainda mais é inadmissível. Então, o que for possível fazer para corrigir este tipo de dificuldade será feito.

Ivan Ângelo: Secretário, uma questão ainda dentro dessa questão do ensino. Um pouco sobre o pessoal dessa enorme Secretaria. Para fazer toda essa reforma a que o governo Fleury se propõe, há muitos... há recursos suficientes e tal, como o senhor já disse. Mas eu queria saber se na conta final esse projeto todo não esbarrará na qualidade do pessoal. Acredita a Secretaria que o pessoal que trabalha diretamente no magistério é pessoal capaz de levar esse projeto ao fim, quer dizer, dar uma boa escola em termos de ensino, em termos pedagógicos, para manter esse projeto, quer dizer, fazer esse projeto valer a pena?

Fernando Morais: Olha, Ivan, a situação é tão grave que hoje ninguém nesse estado, nenhum dos 34 milhões de paulistas pode responder à sua pergunta. Não há mecanismos de avaliação hoje do professorado. Não há mecanismos formais de avaliação. Então você precisa criar esses mecanismos. A única, a rigor, o único mecanismo existente para avaliar o desempenho do professor é a assiduidade, nada mais. Então, primeiro: é preciso criar mecanismos de avaliação do professorado. Em segundo lugar... porque todo mundo diz que a qualidade do ensino é baixa porque os professores são... porque há maus professores. Mas dizem isso de uma maneira leviana, porque ninguém tem como comprovar se são bons ou maus professores. Então, é preciso criar mecanismos de avaliação, é preciso criar mecanismos modernos, mecanismos ágeis de reciclagem do professorado, além dos já existentes. Você abrir cursos nas universidades, na USP, na Unesp, na Unicamp, você usar mais e cada vez mais, por exemplo, esse [enfatiza] mecanismo [apontando para a câmera]: a televisão, que já utiliza...

Ivan Ângelo: [Interrompendo] Nesse projeto o senhor já tem, está incluída essa reavaliação?

Fernando Morais: Está, está incluída, está incluída. Um dos itens, são 12 ou 13 itens que vão começar a ser discutidos já, dentro de dez ou 15 dias, entre eles está criar mecanismos de avaliação de professorado. Em benefício do próprio professorado, até para que você possa remunerar melhor quem tem um desempenho melhor.

Jorge Escosteguy: Secretário, por favor, nós já estamos chegando ao final do programa, eu lhe faria uma última pergunta, com a resposta, se possível, breve. O que faz um jornalista combativo - como disse o Eric Nepomuceno, e eu acompanhei boa parte disso, fomos companheiros de redação na revista Veja - e um escritor de sucesso virar secretário de Educação do governo do estado? Porque, como o senhor bem disse, é um triturador de vocações, ou de políticos, enfim...

Fernando Morais: Olha, eu não sei. A vida vai criando caminhos para a gente e produzindo surpresas. Eu confesso a você que cinco anos atrás, dez anos atrás, eu jamais poderia imaginar que estaria aqui hoje, nesse programa...

Jorge Escosteguy: Bom, jamais imaginaríamos os dois, ou os quatro...

Fernando Morais: Pois é...

Jorge Escosteguy: ... alguns aqui, sentados aqui, nessa "roda viva".

Fernando Morais: Programa em que eu já estive... programa em que eu já estive algumas vezes do outro lado do balcão, sentado aí, fazendo perguntas. Nem que tivesse sido secretário da Cultura... Agora, o que eu posso dizer é que a experiência que eu adquiri como homem público, como político, uma experiência que foi muito rica para mim, primeiro oito anos como deputado, quatro anos como deputado de oposição, ainda sob regime militar, e a experiência que eu pude adquirir também como administrador público, dois anos e meio à frente da Secretaria da Cultura do estado de São Paulo, me enchem de anima [diz a palavra em latim, que significa alma, vida] para essa empreitada. Eu disse, no dia em que fui convidado pelo governador Fleury, que esse não era um projeto político, ser Secretário da Educação não era um projeto político, era um projeto de vida, ser secretário da Educação do Estado de São Paulo. Hoje, tendo a educação a importância que terá nesse governo, é um projeto de vida. Poder transformar a escola pública de novo em algo de que a população se orgulhe é um projeto de vida. Eu estou muito animado por causa disso.

Jorge Escosteguy: Muito bem. Nós agradecemos então a presença hoje à noite no Roda Viva do secretário de Educação do estado de São Paulo, Fernando Morais. Agradecemos também aos companheiros jornalistas que fazem parte da bancada e lembramos aos telespectadores que as perguntas que não puderam ser feitas ao secretário ao vivo serão entregues a ele ao final do programa. O Roda Viva volta na próxima segunda-feira, às 9h da noite. Uma boa noite a todos e até lá.

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