Memória Roda Viva

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Raí

21/12/1992

Prestes a se transferir para a Europa, o meio-campista fala de sua passagem vitoriosa pelo São Paulo e discute mudanças necessárias ao futebol brasileiro

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Jorge Escosteguy: Boa noite. No Roda Viva que começa agora, pela TV Cultura de São Paulo, nós vamos falar de futebol, mais especificamente do São Paulo Futebol Clube. O time que ganhou o Campeonato Paulista, o Campeonato Sul-Americano e o Campeonato Mundial. No centro do Roda Viva, está sentado um dos jogadores mais importantes do time do São Paulo: Raí, 27 anos, que começou no Botafogo de Ribeirão Preto e durante muito tempo foi conhecido como irmão do Sócrates. Hoje, deve estar acontecendo o contrário. Lembramos que o Roda Viva também é transmitido pelas TVs: TVE do Ceará, TVE da Bahia, TVE do Piauí, TVE de Porto Alegre, TVE do Espírito Santo, TVE do Mato Grosso do Sul e TVE Minas Cultural e Educativa e retransmitida, através da TVE do Rio de Janeiro, para todas as emissoras que formam a rede Brasil. Para entrevistar Raí esta noite, no Roda Viva, nós convidamos: Silvio Luiz, narrador da TV Bandeirantes; Roberto Avallone, diretor de esportes da TV Gazeta; Ubiratan Brasil, repórter da Folha de S.Paulo; Célia Chaim, chefe de redação do Jornal do Brasil, em São Paulo; Osmar de Oliveira, diretor de esportes do SBT; José Trajano, comentarista da TV Cultura, e Juca Kfouri, diretor das revistas Placar e Playboy e comentarista da Rede Globo. Como o programa de hoje foi gravado, não haverá perguntas ao vivo. Boa noite, Raí.

Raí: Boa noite.

Jorge Escosteguy: Dizem que o jogo contra o Palmeiras, na final do Campeonato Paulista, foi a última partida que você disputou pelo São Paulo Futebol Clube. Isso é verdade? Tem fundamento?

Raí: Pode ser, mas não tem nada oficializado, né? O que existe é uma proposta já, que deve ser oficializada nos próximos dias, caso aconteça. Até cheguei a dar os valores do que eu gostaria, caso fosse transferido...

Jorge Escosteguy: Quanto você gostaria? [interrompendo]

Raí: ... e isso... eles já aceitaram a minha parte. Só falta entrar [em acordo] com o São Paulo. E se for oficializado e o São Paulo entrar em contato, aí nós vamos estudar.

Jorge Escosteguy: Qual é o time que fez a proposta?

Raí: Foi através do empresário, né? A princípio, era o Paris Saint-Germain [PSG, time de futebol parisiense, fundado em 1970, campeão francês em 1986 e 1994]. Mas, no momento, não se pode jogar na França, não pode ser inscrito, então, eu não sei qual será o time. [Refere-se ao limite de estrangeiros que podem ser incritos nos clubes. O PSG já teria o número máximo.]

Jorge Escosteguy: Seriam dois milhões e meio de dólares para o São Paulo, para jogar na Europa, possivelmente na França?

Raí: Dois milhões e trezentos mil dólares, líquidos – né? – para o São Paulo, o que corresponde a quase quatro milhões de dólares brutos.

Jorge Escosteguy: E você?

Raí: Para mim?

Jorge Escosteguy: É.

Raí: Para mim, eu acredito que umas cinco vezes mais do que eu ganho aqui.

Jorge Escosteguy: Você finalmente está disposto a ir? Você acha que é um bom negócio?

Raí: É, se for realmente um grande clube europeu eu estou disposto a ir. Mas vou estudar, ver para onde eu devo ir, realmente, para confirmar tudo certinho, para que eu tome a decisão definitiva.

Jorge Escosteguy: Você acha que o que você tinha a fazer no São Paulo, quer dizer, no futebol brasileiro, está feito? Você acha que o destino, agora, tem que ser Europa?

Raí: Não, como eu falei, eu só conto depois que tiver certeza, tudo no papel. Eu sou jogador do São Paulo, por enquanto, tenho contrato e, se continuar, vou... acho que o São Paulo alcançou um nível muito alto, mas é mais difícil se segurar nesse nível, né? Se possível, continuar ganhando títulos internacionais e, se eu continuar aqui, eu vou fazer de tudo para manter esse nível.

Juca Kfouri: Raí, se em vez de ser cinco vezes mais fossem apenas duas vezes mais, você, mesmo assim, preferiria jogar na Europa, ou não?

Raí: Eu iria pensar. É... eu realmente quero morar na Europa, é uma coisa que eu quero, não sei se necessariamente agora, mas é um desafio que me atrai. Principalmente agora, que eu já estou há cinco anos no São Paulo. Eu tenho muito prazer em estar no São Paulo, eu continuo tendo muito prazer, eu tenho prazer em estar com o grupo, o grupo que nós temos lá dentro. Mas é um desafio que eu quero para mim. E se não for agora, com certeza, se for, se eu sentir que é o último momento, daqui a um ano, dois anos e tiver uma proposta que seja pouca coisa mais, eu preferiria ir. Eu quero ir.

Célia Chaim: Você não acha que é muito pouco dinheiro para você, para você ser vendido, por dois milhões e meio de dólares? Quando têm jogadores estrangeiros sendo negociados na Europa por quatro, cinco vezes mais? Você não acha que essa pressa pode atrapalhar um pouco o que você vai ganhar? E eu queria saber quanto você ganha. Se é cinco vezes mais, quanto você ganha hoje?

Raí: Não, eu prefiro nunca dizer, né? Sempre preferi manter isso pra mim. Mas é uma realidade, né? Quer dizer, o futebol sul-americano é diferente. São dois milhões e trezentos líquidos, que correspondem a quase quatro milhões de dólares. E jogadores que já disputaram Copa do Mundo, que estavam no auge, aqui, sul-americanos dificilmente passam disso. Eu sei que lá, em transferências entre equipes européias, é diferente. Têm vários fatores. Um deles, é claro, é que eles sabem que a força da moeda deles aqui é diferente. E também porque – eu acredito que seja isso, né? – o risco de um jogador sul-americano se adaptar lá é maior do que uma transferência entre as...

Célia Chiam: É uma taxa pelo subdesenvolvimento, será?

Raí: Também. Até pela imagem que o próprio Brasil e o Terceiro Mundo têm, quer dizer, principalmente o Brasil, não é? De um pouco de toda a imagem, né? De corrupção, de falta de profissionalismo, tudo isso acaba passando também para os profissionais de todas as áreas.

José Trajano: Se você pudesse botar numa balança, sinceramente, entre todo esse dinheiro que você vai ganhar, que você pode ganhar se for transferido, e essa possibilidade de viver fora do país, olhando o Brasil de longe, criando suas filhas lá, aprendendo novos idiomas, em contato com outra cultura. Se desse para colocar numa balança, sinceramente, mesmo com esse dinheiro de um lado e essa possibilidade de viver fora do outro, o que pesaria mais?

Raí: A princípio, é claro que a gente pensa mais profissionalmente, quer dizer, de repente, se eu ganhasse... se fosse o inverso, se eu ganhasse muito mais aqui, eu tenderia a ficar, né? Mas se fosse uma coisa igual, chega um momento – pode não ser agora, acho que poderia ter perspectivas, ainda, aqui dentro do São Paulo –, mas chegaria um momento que eu iria querer, não que seja para o resto da vida, quero morar lá um tempo. Acho que isso vai acrescentar muito para mim e para minha família, como pessoas. É uma coisa que acho que não tem preço, né? Mesmo que seja depois, se eu não tiver oportunidade, se melar tudo... depois, se eu tiver oportunidade, eu quero viver lá um tempo e depois voltar para cá.

Jorge Escosteguy: Silvio Luiz, por favor.

Silvio Luiz: Eu falei bom dia porque o Escosteguy falou no começo que o programa seria gravado, não teríamos perguntas pelo telefone. Então, bom dia ou boa noite, como você queira. A pergunta é a seguinte: o Sócrates deve ter tido conversado com você a respeito da fase que ele teve na Europa. Ele não deu certo, todo mundo sabe que não deu certo. Você é tão diferente do seu irmão, como o seu pai diz, quer dizer, quando o Sócrates jogava, ele dizia assim: “Tem um na família que joga mais que o Sócrates”. E esse um era você. Você não tem medo de acontecer com você o que aconteceu com o Sócrates?

Raí: Tenho. Pode acontecer, pode dar errado. Mas é um desafio que eu quero ir buscar. Eu acho que o Sócrates, mesmo que morando pouco tempo – acho que um ano, uma temporada –, mesmo tendo muito desgosto, ele deve ter aprendido muita coisa nessa passagem. E eu quero isso também. Claro que eu vou procurar aproveitar esse know-how que ele teve, que ele passa para mim, a dificuldade que ele teve, para que não aconteça. É claro que somos pessoas totalmente diferentes. Eu posso ter outro tipo de dificuldades. Mas é uma coisa que eu quero buscar.

Jorge Escosteguy: Porque o seu futebol seria mais competitivo do que o do Sócrates? Com uma experiência maior?

Raí: Não, não. Não digo no aspecto profissional, não digo no aspecto profissional. Ele teve outras dificuldades em outras áreas, não foi no futebol em si. Eu acho que capacidade ele tinha para jogar em qualquer lugar do mundo, em qualquer hora.

Silvio Luiz: Por que você acha que ele não deu certo, lá?

Raí: Bom, o que ele me passou, né? – eu não sei toda a história –, mas o que ele passou, que ele teve... ele é uma pessoa muito forte, personalidade muito forte...

Silvio Luiz: [interrompendo] Personalidade forte?

Raí: É. E ele disse, né? – ele mesmo reconhece hoje – que ele não se adaptou ao meio. Quer dizer, têm certas coisas que mesmo você não concordando você tem que engolir, porque você não vai mudar uma tradição, chegar lá e mudar. Então, ele disse que isso foi uma das principais dificuldades.

Juca kfouri: Por falar em coisas que têm que engolir, ô, Raí, tirante os dirigentes do São Paulo, por motivos óbvios, tem algum dirigente no futebol brasileiro que você admire, ou não?

Raí: Têm idéias, não é? Idéias que eu admiro, o Márcio Braga [presidente do Flamengo, à frente do clube por 14 anos em mandatos diferentes] algumas, e... mas, são poucos. Eu gostaria que o Zico continuasse como secretário de Esporte. E eu acredito que mesmo quando ele volte, ele deva, mesmo que não seja como secretário, ou através da política, mas que ele se envolva, aí, porque é uma pessoa que sempre amou o esporte, e o que ele deixou nesse projeto, eu acho que não pode ser deixado aí, de lado.

Jorge Escosteguy: Por favor, Avallone.

Roberto Avallone: São duas perguntas: a primeira delas, completando a pergunta da Célia, eu acho que é muita diferença, ainda que se desconfie do jogador sul-americano, quando você vê que se pagam trinta milhões de dólares para um Gianluca Vialli [jogador italiano, que defendeu a seleção da Itália, nos anos 80], quando você vê um Prosinecki [Robert Prosinecki, jogador croata, que fez fama jogando pelo Real Madrid e participou de duas Copas do Mundo por seleções diferentes: em 1990, pela Iugoslávia e em 1998, pela Croácia] custando vinte milhões de dólares, quando você vê um Stoichkov [Hristo Stoichkov, ex- jogador búlgaro, que jogou, entre outras equipes, pelo Parma da Itália e Barcelona da Espanha, onde fez parceria com Romário. Pela Bulgária, disputou a Copa do Mundo de 1994], e pagar tão pouco assim pelo capitão da Seleção Brasileira. Você, como uma autocrítica, há algo em você – é a primeira pergunta –, em você, especificamente, Raí, que amarre esse negócio? Eu acho muita diferença entre o que se paga pelo capitão da Seleção Brasileira e o que se paga por esses mega-astros europeus, que não têm a tua bola.

Raí: É. Eu acho que não devo nada a ninguém, mas é uma realidade. De repente, se o São Paulo quiser transferir, é o valor do mercado sul-americano. É uma coisa que já vem há algum tempo e que deve continuar, né? A não ser que vá mudando a imagem pouco a pouco.

Roberto Avallone: E emendando, como já disseram, a comparação é inevitável entre você e o Sócrates – talvez até seja uma comparação antipática, uma comparação dolorida, porque são irmãos – o Sócrates, na minha opinião, era mais espetáculo do que você. Driblava com mais alegria, tinha mais fluência. Mas, você é mais eficiente do que o Sócrates. Até correu isso outro dia numa discussão, numa mesa redonda. Eu acho que você mantém a frieza e a postura em qualquer decisão, o que não acontecia com o Sócrates. Ele tinha fases no Corinthians, como no bi-campeonato em 82, 83, quando ele decidia o jogo. Mas, por exemplo, contra a Itália, no Estádio Sarriá [refere-se à partida na Copa de 82, nas quartas de final, em que o Brasil foi derrotado pela Itália, 3 a 2], não era o mesmo Sócrates. E você mantém sempre a mesma postura, a mesma frieza; porque você é craque e atleta. O Sócrates talvez até fosse mais craque do que você, mas era muito menos atleta. Essa sua frieza, quase eficiência de robô, em decisão, é de uma lição tirada, extraída das falhas do irmão Sócrates?

Raí: Não, acho que são diferenças de personalidade. Eu, até pelo meu começo de carreira – porque eu já comecei, casei muito cedo –, eu já tive essa responsabilidade de ter que jogar como profissão, como meu sustento, sustentar a minha família. Então, eu já fui muito mais profissional, já cheguei treinando. O Sócrates fez uma faculdade de seis anos de medicina. Com 24 ele se formou. Medicina é período integral, quer dizer, ele não tinha como ser um atleta no começo da carreira. Eu acho que é essa a diferença. E eu, por ter essa iniciação, este estilo de iniciação, você acaba sendo mais profissional em todos os sentidos, né? A gente acaba fazendo as coisas mais práticas, tentando fazer as coisas mais práticas, você fica muito mais prático. O Sócrates, por não ser tão atleta, até pela personalidade dele, é uma pessoa muito genial, e com idéias geniais, tiradas geniais. Então, ele põe esse estilo também para dentro de campo, né? Mesmo não sendo um atleta, mas isso era o estilo dele. De repente, se eu não tivesse tanta responsabilidade no começo, como ele teve, eu teria um estilo diferente também.

Jorge Escosteguy: Ubiratan, por favor.

Ubiratan Brasil: Uma vez você esteve para ser negociado com o Albacete, também, da Espanha. E me pareceu que você estava até disposto realmente a essa negociação. Mas, depois, a negociação não deu certo. E eu sei até que você foi aconselhado pelo Toninho Cerezo, pelo Telê, a não ir, porque não era clube que você poderia se dar bem, né? Agora, nessa fase tua de estar indo, talvez para um clube francês, como é que estão sendo essas opiniões deles, quer dizer, o Telê tem – o Telê já falou que você vale mais do que está se comentando, o valor do seu passe –, entre vocês, assim, ele está aconselhando que é o momento de você, realmente, sair do Brasil?

Raí: É. Ele diz que se for um clube grande, né? De primeira linha do futebol europeu, ele sabe que é inevitável e que devo ir. Ele chega a falar. E a questão de pensar em sair também tem muito a ver com a situação do nosso futebol, né? Do país já é difícil, no futebol também é muito difícil. E você não sabe, é muito instável. Toda estrutura do futebol brasileiro. Então, você pode, de repente, como tivemos aí há algum tempo... de queda de imagem do futebol brasileiro, você pode ir junto nessa. Então, toda essa insegurança da estrutura do futebol brasileiro faz você pensar com mais seriedade em sair.

Ubiratan Brasil: O futebol brasileiro está numa fase ótima, quer dizer, os títulos internacionais que estão se disputando. O Cruzeiro foi campeão da Supercopa [competição sul-americana de campeões continentais], o Atlético, da Conmebol [Confederación Sudamericana de Fútbol], o São Paulo foi sul-americano e mundial entre clubes, a Seleção Brasileira, este ano, teve um superávit até, de resultados. Deu uma crescida – não é o ideal –, mas deu uma levantada. Você acha que vai ter que aproveitar essa onda, agora, de embarcar para um clube bom?

Raí: Eu acho que é muito... tudo depende de interesses, né? Porque não sou eu que escolho, depende das propostas que vierem. Mas isso – você citou bem –, quer dizer, é a onda. Então, é muito cíclico, pela estrutura do futebol. Aí, começa vender e, pelo próprio, pela estrutura dos campeonatos, do calendário dos clubes acabam... os clubes maiores acabam carregando um peso muito grande. Aí, tem que se desfazer dos seus melhores jogadores. E aí, até se formar novos jogadores, é mais um tempo.

Juca Kfouri: Falando nisso, entre a emoção que você sentiu ontem ao ser bicampeão paulista e a que você sentiu oito dias atrás, sendo campeão mundial em Tókio, qual foi a emoção maior?

Raí: Foi em Tókio, em Tókio. Era uma coisa que a gente estava buscando há muito tempo, desde o começo do ano, que a gente teve a oportunidade de disputar a Libertadores. O São Paulo valorizou muito mais esse título, porque nós tínhamos sido duas vezes vice-campeão brasileiro e nós tivemos a oportunidade de disputar o campeonato da Libertadores. Quando nós fomos campeões brasileiros, já estávamos com essa idéia de aproveitar, porque sabemos que é difícil chegar a ter condições de disputar a Libertadores. Então, desde o começo da Libertadores, já estávamos visando isso, mesmo que passo a passo, já estávamos visando isso. Então, toda essa expectativa foi crescendo e foi um momento maravilhoso lá. Nós curtimos tudo. Nós, entre os jogadores, é uma coisa gostosa. Antes do jogo, que momento gostoso! Antes de ganhar o jogo mesmo, aquele momento de estar disputando um título mundial, é uma coisa que pouca gente consegue. Então, nós comentávamos entre a gente no vestiário: “que momento gostoso!”. Nós estávamos sentindo essa ansiedade, né? É muito gostoso.

Juca Kfouri: Agora, no momento que o Stoichkov fez o primeiro gol, aquele gol maravilhoso, você sentiu que podia o sonho todo ir por água abaixo, que aquele Barcelona não era o Barcelona do meio do ano, quando o São Paulo ganhou de quatro a um, ou não passou pela cabeça?

Raí: Não, não. Eu estava muito confiante, confiante depois dos primeiros minutos. Eu senti que o time estava confiante. Eu estava com medo da reação, quando entrasse em campo. Com dois minutos, três minutos de jogo, eu senti que estavam todos os jogadores soltos, né? Para aquele tipo de responsabilidade, jogadores jovens se sentindo confiantes. E ali eu sabia que a gente tinha condições até o último minuto de vencer a partida.

Juca Kfouri: Como é que você está convivendo com essa coisa de chamarem você, agora, de múmia? Cheio de faixas por todo lado?

[Risos]

Raí: Eu acho que é um momento histórico, também, né? Quer dizer, um time com tamanha eficiência, há muito tempo não se via no futebol brasileiro. E tem que se valorizar isso. Eu me sinto satisfeito de estar entre esse time.

Célia Chaim: Raí, o São Paulo tem seis, oito, eu não sei quantos jogadores na Seleção. Eu queria saber qual é a sua opinião, por que o Telê não é o técnico da Seleção? Se ele tem, ele que levou, vocês admitem que ele ensina muita coisa para vocês, o Telê é uma pessoa inteligente, ele fez o futebol ficar mais bonito. Eu queria saber a sua opinião, por que o Telê não é o técnico da Seleção?

Raí: Bom, ele disputou duas Copas do Mundo, e quando disputou a segunda ele chegou a falar que não queria mais Seleção, né?

Célia Chaim: Mas você acha que é só ele que não quer ou as pessoas da...

Raí: Acredito até que ele aceitaria. Aceitaria, mas foi se passando o tempo. Depois dessa segunda Copa do Mundo dele, ele passou por alguns times e não teve sucesso, tanto sucesso como está tendo no São Paulo, e já foram tendo outras idéias para pensar num treinador. E quando escolheram o [técnico da Seleção, Carlos Alberto] Parreira, chegaram a comentar, mas acredito que o Parreira também é um bom treinador e acho que já que se iniciou um trabalho há um ano visando uma Copa do Mundo. Agora, acho besteira mudar. Se tivesse que ser o Telê, teria que ser no começo desse trabalho. Acho que tem que dar tempo ao tempo para uma filosofia de trabalho ser estabelecida, para que quando chegue uma Copa do Mundo, dois, três anos de trabalho, esteja bem mais sólido.

Silvio Luiz: Raí... desculpe doutor, o senhor não fez nenhuma pergunta, faço questão, tenha a bondade.

Osmar de Oliveira: Obrigado, vou fazer duas seguidas, aí, para aproveitar o meu espaço. Você é um pensador e, ao mesmo tempo, um bom observador. Considerando quando o Telê chegou ao São Paulo, em 90, você era uma pessoa, você tinha algumas atitudes – não estou falando de personalidade –, e o Telê era outra pessoa. Eu tenho certeza de que o Telê mudou. Eu quero saber de você o seguinte: daquela época para cá, percentualmente, quanto você mudou no modo de pensar, de encarar as coisas no futebol, e quanto o Telê mudou? Não precisa dizer o quê. Quanto o Telê mudou nas atitudes e no modo de pensar dele?

Raí: Difícil quantificar, [risos] mas, eu acho que mudei bastante. Ele casou muito bem com a parte que vem dele para mim, ele casou muito bem com o meu estilo. Eu sou uma pessoa tranqüila, tranqüila até demais, gosto de, antes de tomar qualquer decisão, ver todos os lados da moeda. E ele é totalmente diferente, né? Ele é uma pessoa mais explosiva. E, por isso, essa minha maneira de ser, tende a ser uma pessoa acomodada, né?

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Ele ligou você? Você era completamente desligado e ele deu...

Raí: ... não, não digo completamente. Acho que eu tinha uns valores...

Jorge Escosteguy: Precisava gritar o seu nome para você se dar conta de que estava jogando futebol?

[Risos]

Raí: Às vezes tinha. Eu estava melhorando isso pouco a pouco, sabendo dessa minha dificuldade pro futebol. Para a minha profissão, porque é uma carreira curta, você precisa ganhar tempo. Eu, quando era começo de carreira, eu me pegava olhando na torcida, assim, o jogo correndo...

Jorge Escosteguy: Como é que era? Você ficava viajando, todo mundo jogando e você pensando na vida? Todo mundo passava...

Raí: Passava, passava, sempre fui muito desligado. Então, ele é uma pessoa que não deixa você desligar, quer dizer, aqueles chamados chatos, aqueles que desde treinamento...

Osmar Oliveira: [interrompendo] Quer dizer que nesses dois anos, você percebeu, observando, que ele mudou alguma coisa?

Raí: Acho que ele mudou com a confiança que ele ganhou do grupo, quer dizer, eu acho que o estilo dele também foi, de repente, que ele não conseguiu ter um relacionamento bom com o grupo – né? –, em nível de confiança, quer dizer, confiança total no profissionalismo do grupo, que é uma coisa que ele pega muito, a disciplina. Eu acho que ele está certo, tem que ser assim, tem que buscar sempre a disciplina e, às vezes, ele não conseguiu aquilo que ele queria. Acho que com esse grupo, ganhando essa confiança recíproca, acabou fazendo com que ele mudasse e até admitisse, aí, que a gente trocasse mais idéias do que o normal, do que ele normalmente deixaria com os outros grupos.

Osmar Oliveira: Isso para ele é uma grande mudança. Só emendando...

Silvio Luiz: A mudança foi – desculpe, doutor [pedindo a palavra a Osmar Oliveira]. A mudança foi no ano passado, antes daquele jogo com o Bragantino, quando parece que o ambiente não estava muito legal, ele queria uma escalação, vocês se reuniram com ele, e foi mais ou menos daí para cá que ele mudou, ou antes disso?

Raí: Não, antes disso. Eu acho que ele... quer dizer, eu acho que ele deve ter aprendido com isso, também, né? A gente está sempre aprendendo, mas ele...

Silvio Luiz: Ele passou...

Raí: ... mas acho que pela confiança, mesmo, no grupo que ele tinha, fez com que ele ficasse uma pessoa... isso é uma coisa natural, e naquele momento, foi um dado importante. Ele chamou vários jogadores, jogadores mais experientes e perguntou qual seria a melhor maneira de jogar e se a gente estava concordando com a idéia dele. Trocou idéias.

Silvio Luiz: Antigamente, ele não agiria dessa maneira?

Raí: Não sei, não conheço ele em outras épocas, né? Não posso falar.

Juca Kfouri: Agora, Raí, você fala da sua mudança, uma coisa que eu acho curiosa é o seguinte: eu me lembro – posso estar enganado de data e local – mas quando você estreou na Seleção Brasileira, se não me engano, em Wembley [estádio localizado em Londres], Brasil e Inglaterra, foi isso?

Raí: Foi.

Juca Kfouri: Você entrou em campo, parecia o dono do time. Apontava, abria o braço e tal. Depois, você parece que foi se introjetando, introjetando e perdeu até a chance de jogar a Copa da Itália [em 1990], que era uma coisa mais ou menos óbvia para todo mundo. O que houve nesse período, entre a sua estréia na Seleção, a Copa de 90 e, depois, essa transformação de novo, você voltar a ser o dono do time?

Raí: É porque eu... acho que a mudança é mais no sentido... eu era muito irregular, tinha fases, subia e descia. E quando eu comecei a ter essa mudança, conscientização de que eu teria que mudar, mesmo antes do Telê, eu já estava... eu já tinha essa conscientização, eu comecei a ser mais regular. Então, nessa irregularidade, acabei tendo momentos bons na Seleção, clube. E momentos ruins, que foi a época que eu não tive a oportunidade de ir para a Copa.

Roberto Avallone: Agora, Raí, o seguinte: ainda na esteira das perguntas do Silvio, do Osmar, do Juca, eu diria que esta transformação foi um aperfeiçoamento, porque a gente vê muita revelação do nosso futebol pintar com habilidade, depois sumir. Qual seria a sua receita?, porque você me parece um jogador que tinha essas qualidades intrínsecas, mas você aperfeiçoou. O arremate, por exemplo, não me lembro de você, aos 23, 24 anos, fazer um gol quase do meio do campo, arrematando, nem cabeceando tão bem quanto você cabeceia. Qual é a receita para o jogador perdurar? É o treinamento exaustivo? Ou o que nisso, onde que o Telê Santana entrou? No arremate, como é que ele pegou: “Chuta daqui, bate com essa parte do pé”? A cabeçada? Qual foi a “receita Raí”?

Raí: Bom, é aquilo que você falou, eu já tinha as minhas qualidades, já fiz grandes jogos pelo Botafogo, aqueles, até melhor do que eu já fiz, aí, nesses principais jogos que eu fiz aqui no São Paulo. Mas hoje em dia, eu sou mais regular e acho que com esse treinamento de fundamento você fica mais eficiente.

Roberto Avallone: O arremate?

Raí: É...

Roberto Avallone: Quantas vezes você bateu aquela falta com o Cafu, por exemplo, toque de bola com o Cafu, e colocar no ângulo do [Andoni] Zubizarreta [ex-goleiro espanhol]?

Raí: Há mais de um ano que a gente vem treinando vários tipos de faltas, entre elas essa. E eu acho que o jogador brasileiro tem vários problemas, né? Quer dizer, um, é claro, é que geralmente vem de uma origem difícil e é difícil você organizar isso na cabeça. É uma pessoa que começa relativamente jovem na carreira e geralmente não é fácil para quem não tem uma estrutura, até familiar, boa. E outro lado é o lado desse aperfeiçoamento. Porque o jogador brasileiro, quando se acha habilidoso, ele acha que não precisa mais de nada.

Roberto Avallone: Exato!

Raí: Essa mentalidade está mudando, está mudando aos poucos. E eu acho que isso é que não pode acontecer, tem que estar sempre aperfeiçoando, principalmente os fundamentos, quer dizer, eu melhorei cabeceio, chute, isso é coisa que na eficiência vai valer. E hoje em dia, a competitividade, não estamos mais naquela época...

Roberto Avallone: Romântica.

Raí: Romântica, de arte! Nós estamos de competitividade, né? De um futebol diferente.

Jorge Escosteguy: O Osmar tinha uma pergunta antes.

Osmar de Oliveira: Ô, Raí, só para emendar àquela: eu me preocupo muito com as coisas que acontecem lá dentro, de você fora do jogo. De repente, em questão de seis meses, você ganha uma fama internacional extremamente rápida. Você se surpreende sendo reconhecido nas ruas do Japão, hoje você é páginas amarelas [refere-se à seção de entrevistas] da revista Veja, hoje você está fazendo um programa desse tipo, em que grandes personalidades sentam-se aí, eu estou vendo aqui a revista IstoÉ, onde...

Juca Kfouri: É capa da IstoÉ. [interrompendo]

Osmar de Oliveira: É capa da IstoÉ, onde uma modelo diz que você faz o gênero bonito, a Joyce Pascowitch [colunista nacionalmente conhecida, escreve sobre moda, comportamento, arte e cultura e atua na cobertura de eventos] diz que é corintiana, mas faz uma concessão a você, e até a Luiza Erundina diz que te entregou a chave da cidade, mas teve o prazer de entregar a chave da cidade para um rapaz tão bonito quanto você. Mas isso foi muito rápido, Raí. Então, eu quero saber de você o seguinte, duas coisas: como é que você está convivendo com isso e até que ponto – e esse é outro detalhe – sua esposa [está convivendo com isso]. Todo mundo sabia que você era casado e um ou dois sabiam que você era casado com alguém chamado Cristina, hoje o mundo inteiro sabe disso. Então, primeiro: como você convive com isso? E, segundo: se ela, ciumenta como é, vendo tudo isso, de vez em quando ela não chega para você e fala: “Puxa até a Erundina te chamando de bonito, assina esse contrato com o Albacete mesmo e está bom!”?

[Risos]

Raí: É. Eu acho que realmente foi uma mudança rápida no aspecto de popularidade. Acho que o sucesso que o São Paulo teve – e eu, como capitão da equipe – chamou a atenção e aí as pessoas querem saber mais o que você pensa, como você é e todos os seus lados, o seu aspecto físico. E aí começa a partir para um outro lado. Mas eu sempre tento ficar com o pé no chão. Eu sei que é uma coisa passageira e que tudo isso está acontecendo pelo que eu sou profissionalmente e nisso, o que me ajudou muito foi também ver de perto, né? A gente vê de perto o que o Sócrates passou, eu estava de fora, mas de muito perto. Então, eu já estava meio preparado para isso. E é o custo, né? A minha esposa, ela tem – claro! – algumas vezes tem ciúmes, mas nós já estamos num relacionamento há quase dez anos, já está muito mais maduro, já é um amor mais maduro. Acredito que se fosse uma situação dessas no começo do casamento poderia ter maior dificuldade no relacionamento. Mas hoje em dia já não tem. Eu consigo transmitir uma segurança para ela, pela importância que ela teve para mim, que ela ainda tem, pelo sentimento que eu tenho por ela. Então, é essa segurança que eu tento passar para que isso não afete.

Juca Kfouri: O Raí é também o perfil de Playboy do mês de janeiro. Agora, eu tenho a sensação de que essa coisa de ter virado mito sexual, o homem bonito, é um pouco em oposição ao irmão, porque comparar o Raí com o Sócrates, daí, realmente, vira um padrão de beleza.

Silvio Luiz: Raí, você está com tanto pé no chão que não tem mais coragem de fazer amor no capô do carro, não é verdade?

[Risos]

Raí: Não, hoje em dia eu prefiro a cama.

Silvio Luiz: Hein?

Raí: Hoje em dia, eu prefiro a cama.

Célia Chaim: Raí, todos os homens, a maior parte dos homens aqui está admitindo que você é bonito, as mulheres também. Você se acha muito bonito? Você curte esse lado? Porque eu vi, você saiu ontem na Folha, na primeira página da Folha. Você posou em estúdio, com uma toalha aqui, todo charmosão. Você se acha bonitão, mesmo?

Raí: Não... faz bem para o ego, né? Mas, realmente, eu não quero passar pra esse lado, né? A gente curte e tal, até um certo ponto. Mas eu acho que eu tenho... a minha beleza, eu tenho uns traços que eu não acho bonitos, mas o conjunto não é feio.

[Risos e sobreposição de vozes]

Silvio Luiz: Por exemplo? Quais são os pontos fracos? Os fundamentos?

Raí: Não, eu tenho uma boca grande, nariz assim, mas eu acho que pelo meu tamanho, tudo, é uma coisa que combina. Mas eu não me acho um símbolo sexual.

Célia Chaim: Vem cá, foi a sua mulher que fez você voltar a usar aliança? Eu li em algum lugar. Ou não? Foi você que resolveu?

Raí: Não, não. Eu tinha perdido minha aliança e nós ficamos um tempo sem e eu me presenteei.

Célia Chaim: Espanta um pouco as modelos? Não?

Raí: Não, ela sabe disso.

Silvio Luiz: Você tem certeza que perdeu? Raí, tem uma pessoa importante no Brasil que tirou, não pôs mais. Você perdeu?

Raí: É. Eu perdi.

Jorge Escosteguy: Agora, como é esse assédio, como é que você se comporta quando as mulheres, as moças assediam você, chegam perto, querem pegar, beijar, pedem autógrafo etc? Como é que você...

Raí: Não é uma coisa tão exagerada, apesar de agora estar começando a mudar, mas pela imagem que a própria imprensa está passando. Mas a imagem que eu passo, até de homem casado já há muito tempo e...

Jorge Escosteguy: Tem mulher que só gosta de homem casado.

Raí: Tem, mas não é a maioria. Mas aí, então, não é uma coisa tão exagerada. Às vezes, acontece um excesso, às vezes, quando estou com a esposa, um grito ou uma coisa assim que ela sente, mas nada...

Juca Kfouri: Na entrevista da Veja você diz que se incomoda muito com a hipótese de parecer, de ficar com a fama de “mauricinho”. Uma sensação que você passa é a do cidadão politicamente correto, mas na própria entrevista da Veja você diz que não é bem assim, que você também toma seus porres. Quando foi isso, que você tomou um porre na vida?

Raí: Ah, já tomei vários.

Juca Kfouri: É mesmo?

Raí: Já tomei vários.

Juca Kfouri: Em férias?

Raí: É. Em férias ou então em dias, muitos dias antes do jogo.

Juca Kfouri: Qual foi a última vez?

Raí: Porre, porre? Ontem. Quase... depois do jogo, claro, né?

Juca Kfouri: Mas é cerveja, também, ou não?

Raí: Não, é mais cerveja. De vez em quando, uma caipirinha. Mas eu gosto de... eu não gosto de tomar um porre, mesmo, não é a minha preferência. Mas eu, pela minha maneira de ser, às vezes, pensar muito para falar, eu sempre gosto de tomar uma cerveja até aquele ponto em que você começa a falar sem pensar, né? Aí que eu acho uma delícia, todo mundo está nisso. Aí depois, pena que você só consegue ficar assim por meia, uma hora. Depois atrapalha.

Jorge Escosteguy: Devia ter servido uma caipirinha para você antes de fazer o programa.

Juca Kfouri: Deixa eu te fazer uma pergunta técnica - que até se pudesse, já que o programa é gravado, passar o gol do Raí contra o Barcelona, o gol de falta. Conta pra gente como é essa coisa – o telespectador, acho que tem muita curiosidade –, qual era a novidade naquela falta? Porque, normalmente, quando se faz a falta em dois toques, você bate pra fora da barreira. E que o Telê pôs na cabeça de vocês que tinha um jeito de bater a falta, que era dar o toque pra dentro da barreira, para o goleiro ficar perdido e não ver onde a bola estava. É isso mesmo? Quer dizer, como é que você automatiza isso?

Jorge Escosteguy: Aliás, Raí, desculpe, só complementando, na hora em que foi batida a falta, um pouquinho antes, a televisão deu um close, um meio close em você e você estava chamando alguém: “Vem cá, vem cá, vem cá!”. O que estava acontecendo ali? Deixaram para você bater, você achou que tinha que chamar alguém para dar o toque? Como é que foi?

Raí: Não, eles estavam deixando pra eu bater direto. E eu senti que dava pra fazer aquela jogada. Chamei o Cafu pra parar a bola pra mim. Precisava alguém pra parar. E o que acontece naquele falta é o seguinte: o goleiro faz a barreira pela trave; então, o jogador fica do lado de fora; aí, você tem duas opções, [bater] mesmo por fora ou fazer o que eu fiz. Você, tocando para um outro jogador, vai te dar um ângulo pra você bater onde ele fez, no canto contrário ao goleiro, que vai ficar sem ver a bola: a bola vai ficar atrás da barreira. Então, automaticamente, ele já sai correndo, pensando que já vai bater naquele, aonde a bola abriu o ângulo. Se você conseguir pegar bem na bola, você vai pegar [o goleiro] no contrapé, quando estiver saindo. Foi o que aconteceu: passou por cima da barreira. É mais difícil do que se batesse por fora, mas quando acerta...

Juca Kfouri: A sensação de um gol feito como fruto de treino é diferente de um gol numa jogada corriqueira, Raí?

Raí: É, é diferente, né? Você se lembra de tudo aquilo que você fez. Mas não é maior, não. É mais emocionante.

Jorge Escosteguy: Agora, você, quando fez o gol, correu em direção ao banco, se não me engano pra abraçar o Telê. Agora, você vibrou, mas não vibrou, quer dizer, você não gritou. Você foi olhando pra lá correndo e não pulou.

Raí: É, no meio do... é o que a equipe toda estava sentindo, né? A responsabilidade, o time estava determinado, né? Eu acho que aquela reação foi... eu só vi depois na televisão, nem reparei nisso, só vi depois na televisão. Nós conseguimos aquilo a que a gente estava determinado. Então, ainda tinha uns dez minutos, não era uma coisa pra ficar sorrindo à toa. Nós tínhamos mais dez minutos para lutar, nós demos um passo muito grande. Então foi meio que...

Jorge Escosteguy: Quem visse aquele lance isoladamente, quer dizer, só você correndo, poderia dizer que você estava correndo pra uma briga ou pra apartar uma briga ou fazer qualquer coisa.

Raí: Exato.

Jorge Escosteguy: O Trajano tem uma pergunta pra você.

José Trajano: Raí, você é o mais completo jogador brasileiro após essa geração de 82 e 86, tanto que em Tóquio – tanto, não –, após o jogo lá em Tóquio, o São Paulo ganhou o mundial de clubes, e você dedicou aquela vitória a essa geração da qual faziam parte seu irmão Sócrates, Falcão e, principalmente, o Zico [jogadores da Seleção Brasileira de 1982]. Dá para fazer uma comparação entre você e o Zico? Porque vieram de classe média, jogadores que se dedicaram profundamente ao futebol? Você citou o Zico no início, aqui do nosso programa. Raí e Zico: dá para comparar?

Raí: É, foi a geração que me inspirou. Então, por isso eu devo muito a ela. Eu lembro aquela beleza que eles faziam a cada jogo, tenho certeza de que muitos garotos mais do que têm no Brasil, se motivaram pelo futebol. E o profissionalismo do Zico, com certeza, foi uma coisa que me influenciou, e eu fui nessa linha do profissionalismo dele, ele me influenciou bastante.

José Trajano: O seu grande ídolo do futebol seria o Zico?

Raí: É, aquela geração toda, né? Mas é tudo, o Zico, por ser um jogador completo, o Sócrates, por ser um jogador genial, o Falcão, também, aquela geração. Mas os três que mais me chamaram a atenção são Sócrates, Zico e Falcão.

Juca Kfouri: Nesse tempo você era palmeirense?

Raí: Em 82? Não, já estava no Botafogo, já.

Juca Kfouri: Garoto, você era palmeirense?

Raí: Não, eu era... torcia pro Botafogo. Até o Sócrates era, quando eu era garotinho. Eu tinha simpatia pelo Palmeiras, mas não era, assim, torcedor. Eu torcia, porque naquela época o Botafogo estava bem, ele chegava à final dos campeonatos, época do Sócrates, Geraldão, Luiz, você lembra? Então, eu torcia pelo Botafogo de Ribeirão Preto.

Silvio Luiz: Quando é que você criou juízo? Quando você veio para o São Paulo?

Raí: De torcedor?

Silvio Luiz: É.

Raí: Não, o Botafogo me deu algumas alegrias lá, mas quando eu vim para o São Paulo, agora com tudo que eu passei de bom aqui, o ambiente que eu tenho no clube todo desde o porteiro até todo mundo, com certeza, se eu sair do São Paulo eu vou ser são-paulino.

Roberto Avallone: É um amargo consolo [Avallone é um palmeirense notório], não é? Rivelino era palmeirense, Raí era palmeirense. Mas, Raí, já que se falou...

Juca Kfouri: Por que consolo? [interrompendo]

Roberto Avallone: Consolo pelo vice–campeonato, né, Juca? Já que se falou tanto no segundo gol do Raí contra o Barcelona, aquele que decretou a derrota do São Paulo, me pareceu tão importante quanto esse, aquele que empatou o jogo, que tirou aquela vantagem conseguida pelo Stoichkov. E foi um gol super estranho, um “gol de púbis”. Conta como é que foi direitinho, Raí. Depois, aproveitando para rever o gol, né?

Raí: Eu já conheço o estilo do Müller [companheiro de Raí no São Paulo], né? Cruzar, quando a gente chega na linha de fundo. Então, ele sabe sempre aonde eu entro. E ele estava apertado. Aí, ele teve que dar um cruzamento forte, e ela [a bola] veio a meia altura. Geralmente vem um pouco mais baixo, tento com o pé; e um pouco mais alto, com a cabeça. Mas, ela – eu estava muito perto dele – veio muito forte e eu tive até que tirar um pouco o corpo, porque se eu mantivesse a mesma direção, iria bater e iria pra fora. Então, tive que tirar o corpo pra deixar que ela batesse em mim, fosse onde fosse. E pegou bem nessa região...

Roberto Avallone: Pubiana.

Raí: Pubiana, exato. E foi tão perfeito, o cruzamento, quer dizer, ele pôs numa curva que facilitava tanto o gol, que onde batesse, acho que se batesse no zagueiro, ali, a bola entraria.

Osmar de Oliveira: Raí, eu não sabia que você só pensava em futebol. Você que disse isso na revista Veja, hoje: que a sua esposa, certas épocas, se queixava que você só pensa em futebol. Bom, pensando nisso eu imagino que você, dentro de casa, você assiste jogo, você acompanha programas esportivos etc. Então, eu queria que você fizesse...

Raí: Não...

Osmar de Oliveira: Não é verdade?

Raí: Não, o que eu coloquei – não sei como, não li ainda a Veja – eu coloquei que em épocas de finais eu fico meio que pensando como é que vai ser a partida, se a gente perder, se a gente ganhar, épocas de finais. Mas eu não acompanho muito noticiário esportivo, eu evito.

Osmar de Oliveira: Bom, de qualquer maneira, eu não vou mudar a pergunta. Faça uma análise sobre a imprensa brasileira esportiva.

[Risos]

Raí: Como tudo, né? Têm bons profissionais e maus profissionais. Só acho...

Juca Kfouri: Aqui, por exemplo, só têm maus.

[Risos]

Raí: Eu só acho que, como – para dar um exemplo, na área política, né? – como a imprensa teve uma importância fundamental em todo esse processo político desse ano, que culminou no processo de impeachment [de Fernando Collo, que renunciou para evitar o processo], eu acho que a imprensa esportiva poderia insistir mais nos erros que ela acha que têm. Serem mais corajosos, denunciar o que eles – com certeza, vocês – todos aí, sabem. Muita coisa que por uma ou outra razão não colocam, não põem para fora, não põem a público.

Jorge Escosteguy: Que tipo de coisa, por exemplo, Raí? A imprensa, na televisão não pode colocar as coisas...

Raí: Não, eu sei que vocês sabem. Mas que, às vezes, eu não sei.

Jorge Escosteguy: O que você sabe?

Raí: Ah, eu acho que, por exemplo: todo mundo fala da organização do futebol brasileiro, coisas desse tipo, ou coisas de ingressos falsos, evasão de renda, são coisas absurdas que a gente não pode levar como natural. Isso, citando alguns exemplos. Existem mais coisas que vocês devem conhecer muito mais, que a gente nunca pode... como a corrupção, que está bem parecida, aí, as situações. Como a corrupção sempre foi encarada de maneira natural aqui, acho que ainda se continua encarando, mas vai haver uma mudança, né? Se houver, principalmente, se houver punição, né? Nesse caso político, acaba sendo uma coisa natural: 15%, 20%, 30% de comissão, não sei o quê. Quer dizer, a corrupção já estava praticamente institucionalizada. Então, essas outras coisas no esporte acontecem e já estão acontecendo com naturalidade: “Não: é assim mesmo, tem evasão de renda, tem não sei o que, tem acordos pra eleições...”. Então, é uma coisa, que acho que a imprensa tem que ser mais corajosa.

Ubiratan Brasil: Você teria a coragem, por exemplo, do motorista Eriberto [Francisco Eriberto Freire de França, ex-motorista do Palácio do Planalto, tornou-se conhecido ao revelar em entrevista à revista IstoÉ, em 1992, dados sobre o esquema de corrupção no governo Fernando Collor] que fez aquela denúncia, de fazer também uma denúncia que você soubesse do futebol?

Raí: Não, eu não tenho provas, né? De nada. O que eu penso eu falo, né? O que eu penso eu falo, o que eu sei. Só que tem algumas coisas que eu penso e não falo porque não tenho provas, não tenho certeza. Mas eu acho que eu, por exemplo, como foi feito... o Juca já fez, também, várias vezes, matérias assim. O Juca, acho que é um exemplo positivo, né? Várias matérias corajosas e muito corajosas. E eu acho que é um exemplo que deve ser seguido por todos, quer dizer, aí tem aquele negócio da competição, o Juca já era uma pessoa só da Placar. Na política, tinha a IstoÉ. Tinha... começou a ser uma coisa de investigar, de buscar provas, buscar coisa de banco...

José Trajano: [interrompendo] Você quer dizer que foi a máfia da loteria, aquela matéria que a Placar fez há muito tempo atrás?

Raí: Máfia da loteria, teve...

Juca Kfouri: A evasão de renda.

Raí: É.

Ubiratan Brasil: É que vocês têm esse problema que... um dia o Zetti [Armelino Donizetti Quagliato, ex-goleiro do São Paulo nos anos 90 , foi um dos ícones do time pelo qual foi bicampeão do mundo. Zetti foi também campeão do mundo em 1994, como reserva de Taffarel] afirmou, resolveu falar mal da bola [usada na competição]. Aí, cria aquela polêmica, o [José Eduardo] Farah [presidente da Federação Paulista de Futebol de 1988 a 2003] ameaça suspender, ameaça represálias. Quer dizer: uma coisa tão simples que é o instrumento de trabalho de vocês, que é a bola, uma denúncia pequena comparada aos problemas que têm. De repente, vem essa repressão. Isso também, você acha que deixa os jogadores, às vezes, quando sabem de alguma coisa, meio retraídos para falar sobre isso?

Raí: É, normalmente são. Mais retraídos porque a gente está no meio, quer dizer, a gente está, nós ficamos mais retraídos porque nós dependemos disso, né? Nós dependemos disso. E, de repente, se colocar numa situação de se expor pode ser profissionalmente ruim para você. É uma coisa que mexe mais com... é difícil, né? Mas, acho que tem que falar, tem que falar. Da bola tanto se falou que melhorou um pouco a qualidade, já melhorou. Não é como a européia, mas já melhorou, já é o mesmo estilo, já melhorou bastante a qualidade...

Ubiratan Brasil: [interrompendo] Melhorou até porque teve um...

Raí: Os gramados, têm alguns clubes do interior, alguns poucos que já se preocupam com isso. Então, falando é que...

Jorge Escosteguy: Você acha que o atleta profissional, hoje, é mais respeitado? Ou ele ainda é tutelado, tratado quase como uma criança pelos dirigentes?

Raí: É um pouco mais respeitado. Mas falta muito, ainda. Acho que o atleta tem que evoluir, também, quer dizer, você tem que se impor, você tem que participar. Não adianta você falar assim: “não, eles nos esmagam, eles” – ou os cartolas –, eles...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Você acha que é deficiência do atleta?

Raí: É, tem que ir havendo, quer dizer, tem... é uma situação social até, quer dizer, não é o atleta, é sempre o povo brasileiro, que sempre foi muito manipulado. Então, até pela falta de conscientização, de possibilidade de ter uma visão melhor das coisas. Então, eu acho que tem que, aos poucos, ter uma conscientização do meio esportivo, quer dizer, o atleta tem que se conscientizar de que ele tem que participar mais.

Jorge Escosteguy: Silvio, um momentinho, eu chamo você em seguida, depois do intervalo, por favor. Nós vamos fazer um rápido intervalo, o Roda Viva volta daqui a pouco, entrevistando hoje, o jogador Raí, do São Paulo Futebol Clube. Até já.

 

[Intervalo]

 

Jorge Escosteguy: Voltamos com o Roda Viva, que hoje está entrevistando o jogador Raí, do São Paulo Futebol Clube. Lembramos aos telespectadores que como este programa foi gravado não haverá perguntas por telefone. Quero registrar ainda a presença aqui no nosso programa, do Guilherme Cunha Pinto, coordenador de esporte do Estado de São Paulo e do Jornal da Tarde. Raí, no primeiro bloco você, comentando um pouco sobre o temperamento do Sócrates etc., você disse que, às vezes, as pessoas têm que engolir muitas coisas, têm que passar por muitas coisas, né? Eu perguntaria a você se você teve que engolir muitas coisas desde que passou a ser conhecido como irmão do Sócrates, ainda no Botafogo de Ribeirão Preto. E depois, quando era jogador desligado, depois, quando não pode, como o Juca lembrou, disputar a Copa do Mundo de 90, porque era muito irregular.

Raí: É, a minha fase mais difícil na minha carreira foi o começo, por ser o irmão do Sócrates. Pela minha maneira de ser, tinha uma cobrança muito grande, era uma comparação constante, e todos diziam que eu estava ali apenas porque era irmão do Sócrates, mesmo antes de sair, e que eu senti ali que eu teria que... eu não poderia ser um jogador comum para sobreviver dentro... isso foi difícil pra mim e foi a maior dificuldade que eu tive. Mas, engolir sapos, assim, não teve grandes, assim...

Jorge Escosteguy: Teve momento em que você se lembre de ter estourado com essa história de Sócrates, de ter ficado até, de repente, com um pouco de raiva do seu irmão?

Raí: Ah, sim, vários, vários momentos. Raiva do quê?

Jorge Escosteguy: Do seu irmão.

Raí: Não, não. Do meu irmão, não.

Jorge Escosteguy: Ou desabafar com ele ou algo assim?

Raí: Não, porque ele estava longe, né? Mas sempre que podia, eu comentava isso, né? E teve momentos, teve um momento que, num treino, eu estava chateado com isso, também, entre outras coisas, que eu pensei em parar de jogar, no Botafogo.

Jorge Escosteguy: Como é que foi esse treino? Você estourou, saiu do treino, o que aconteceu?

Raí: É, já vinha, cheguei a sair de jogo. Depois, a própria imprensa comentando, aí deu um baixo astral. E eu sentei depois do treino e pensei: “Acho que eu vou parar com isso”.

Jorge Escosteguy: E por que não parou?

Raí: Eu acho que muito pelo, quer dizer, pela força dos amigos, ali, da minha própria família, da minha esposa, foi muito importante na minha carreira. Acho que a força das pessoas que estavam perto.

Jorge Escosteguy: Silvio, por favor.

Silvio Luiz: Você fala aqui na Revista da Folha, na página sete: “O futebol brasileiro é uma máfia!” Me dá o nome pelo menos de dois capos [referência à denominação dada aos chefes da máfia italiana].

Raí: Eu não sei quando que eu usei essa expressão e para quê.

Silvio Luiz: Não, eu estou aproveitando o release, aqui. É naquela mesma matéria que você fala que o lugar mais esquisito que você fez amor foi num capô de um carro e que você...

Raí: Não, eu só acho que, sobre o futebol brasileiro, claro que existem certas circunstâncias para se manter no poder no futebol, mas acho que é uma coisa natural, né? Muitas vezes, antes, eu imaginava que isso era coisa de “pessoas más” e não sei o quê. Mas acho que isso não existe, quer dizer, cada um busca os seus interesses. É claro que todo mundo quer se manter no poder, ou se manter onde está, se está te trazendo felicidade ou trazendo benefícios, né? E eu acho que a estrutura do futebol brasileiro, assim como em nível de eleições e a parte política, é uma coisa meio que já dá para se prever o que vai acontecer, mas isso não é – acho que não é – a estrutura é que a gente que está no meio tem que mudar. Quer dizer: se os jogadores acham que isso faz mal, têm que se manifestar. Eu acho que para o jogador é um pouco mais difícil, é uma classe desunida, não tem muita conscientização. Mas os clubes, os clubes que pagam por isso, teriam que se manifestar mais, brigar com isso. Não sei até que ponto eles têm esse interesse, né?

Silvio Luiz: Por exemplo, o que você faria, então, no caso, para você unir a sua classe de jogadores profissionais, que você diz ser desunida? O que você acha que deve fazer o atleta profissional?

Raí: Ah, tem que ter um trabalho de sindicato, né? Um sindicato mais forte. Eu estou lá, mas a gente não tem tempo, a gente tem que organizar o sindicato, tem que haver um... o sindicato nosso é bem amador, digamos assim. Tem que ter um sindicalista profissional, lá. Pago pra isso, se possível um ex-jogador que conviveu, pago pra ficar dia-a-dia ali, porque, não adianta só eu e o Toninho [Toninho Cecílio, zagueiro], do Palmeiras, a gente ter idéias. Não tem, a gente está treinando todo dia, não tem jeito de você ir lá, fazer o papel, mandar para os clubes. Tem que ter um cara profissional para ter idéias, também pago, bem pago. E é isso que a gente vai tentar montar para a próxima gestão do sindicato. Para começar a organizar, acho que tem que ser através do sindicato.

Célia Chaim: Raí, falando em máfia, eu queria saber o que você achou da punição que o [Leovegildo Lins da Gama] Júnior [também integrante da Seleção Brasileira de 1982 e 1986, lateral-esquerdo, um dos ídolos do Flamengo] recebeu, pela cabeçada que deu.

Raí: Eu estava fora, né? Não...

Célia Chaim: Eu queria saber o que você acha das atitudes como a do Júnior e a do [José Ferreira] Neto [jogado ídolo do Corinthians nos anos 90, famoso por seus gols de cobrança de falta. Também conhecido por atos de indisciplina]. Se isso, essa questão da mentalidade do jogador, essa... eu queria que você falasse o que você pensa desse tipo de atitude.

Raí: Eu acho que são variações que são naturais, acontece em qualquer área. É claro que tem que haver a punição correta. Eu, [no incidente] do Júnior, estava fora, estava jogando no Japão. Eu não cheguei a acompanhar, nem vi o lance direito.

Célia Chaim: Ele deu uma cabeçada no outro jogador.

Raí: Se ele deu a cabeçada, acho que a punição foi pouca, né? Eu acho que são situações..., não vem ao caso aqui discutir, apesar de que o Júnior sempre foi um excelente profissional, é um momento em que ele deve ter perdido a cabeça. Mas acho que tem que haver uma punição, claro!

Célia Chaim: Você não acha que o jogador, às vezes, exagera no estrelismo dele? Por exemplo: esse episódio do Júnior, o Renato Gaúcho [Renato Portaluppi, um dos grandes jogadores do Grêmio, time pelo qual foi campeão da Libertadores. Jogou também pelo Flamengo, Cruzeiro e Fluminense. Cultiva a fama, fora dos campos, de grande conquistador], que é insuportável, na minha opinião, o próprio Neto, cuspir no juiz, quem é ele, sabe? Você não acha que o jogador, às vezes, ele exagera, ele se considera muito estrela, muito dono do mundo? E não é bem assim? Você não acha que tem um pouco disso? Talvez a imprensa ajude muito, não é?

Raí: Eu não acho que é bem assim, né? Se comparando a outros meios que mexem com o público, os jogadores, com algumas exceções... é claro, não exagera nesse aspecto. Eu acho que essas situações não são de prepotência e sim de momento de fúria, momentânea. Uma fúria momentânea ou uma coisa de perder a cabeça.

 Roberto Avallone: Ô, Raí, nessa esteira, a Célia falou em prepotência, eu vou falar em amargura. Me espanta, assim, o desenrolar de uma carreira de um técnico, assim, a quem eu sempre considerei o melhor do mundo, sempre achei. Há dez anos, quando o chamavam de pé-frio, eu já dizia: “Mestre Telê Santana”. Eu considero, realmente, o Telê, por essa sua capacidade de desenvolver os fundamentos, o melhor técnico do mundo! Não conheci ninguém igual ao Telê. Mas eu tenho a impressão de que quanto mais vitórias ele acumula, quanto mais títulos ele conquista, ele se torna um homem mais amargo. Eu tenho sentido um Telê mais amargo, mais ranzinza. O que aconteceu com o Telê? Já naquela esteira do Osmar de Oliveira, aquela primeira pergunta: quanto mais dedicado ao ofício, quanto mais títulos, mais amargo. Por quê?

Raí: Bom, o relacionamento com os jogadores, com o grupo, ele melhorou, eu acho que ele teve um relacionamento ótimo. E quanto mais a gente ganha a confiança dele, e quanto mais títulos nós tivemos lá dentro, ele sempre teve um comportamento que nos deixava bastante à vontade, né? Eu acho que ele, em algumas situações, fica mais amargo porque ele sente a responsabilidade, também, pelo próprio futebol. Ele é uma pessoa que viveu toda a sua vida pelo futebol e quando ele vê uma coisa errada dentro do futebol ele – aí, é a maneira dele – ele estoura, ele fica nervoso, mas...

Roberto Avallone: [interrompendo] Por detalhes que muita gente não vê. Por exemplo: o jogo de ontem, São Paulo e Palmeiras, não me pareceu um jogo desleal. Você sentiu um jogo desleal? E o Telê, como um arauto: “Porque isso não pode acontecer!”. Depois do São Paulo ganhar limpamente, indiscutivelmente [O São Paulo venceu o Palmeiras por 2 a 1 e sagrou-se campeão estadual]. Você viu alguma deslealdade que a gente não tenha visto?

Raí: Em alguns momentos, sim. Jogo sem bola, um soco no Adilson, né? O Evair.

Juca Kfouri: Mas uma coisa que eu estranhei: houve um lance – que você falou aí, há pouco – Toninho, presidente do Sindicato dos Atletas de São Paulo, e você, braço direito dele. Ele te deu uma pegada por trás, feia, que eu acho que foi uma das coisas que mais irritaram o Telê durante o jogo de ontem. O Toninho depois se explicou? Quer dizer: o que é aquilo? É o calor da batalha? Você estranhou quando viu que era o Toninho que tinha te pegado daquele jeito ou não?

Raí: É, ele pegou forte, né? Não, por ser o Toninho, eu acho que é aquilo, quer dizer, são pessoas independentes das funções que têm fora do campo. Têm regras e tem que ser... se fosse uma falta tão feia assim, poderia ter sido expulso. Aí, ele prejudicaria o próprio clube, então, o próprio time. Então, acho que tem que ir de acordo com as regras. E é aí que ele deve ter ficado... com o juiz, pela maneira de conduzir o jogo.

Juca Kfouri: Porque, Raí, eu acho curioso o seguinte: quer dizer, você está falando, você é um campeão de tudo este ano, né? O Telê é um campeão de tudo este ano, e nem você nem o Telê têm manifestado um grande entusiasmo com essa coisa que o próprio Bira acaba de dizer. Quer dizer: o futebol brasileiro há muitos anos não vivia um ano tão bom, não é? E vocês não estão entusiasmados com isso, imagino eu, pelo que vocês vêem que permanece de errado – e de muito errado – na estrutura do futebol brasileiro. Tirante os cartolas, os presidentes de federação, essa gente que é amadora entre aspas, e que vive do futebol e que ganha por fora, essa coisa toda. Eu te pergunto o seguinte: quando se fala de estrutura, Raí, coisas bem objetivas, se fosse dado a você escolher, você privilegiaria, por exemplo, o campeonato estadual, que vocês acabam de ganhar, ou o campeonato nacional de futebol?

Raí: O campeonato nacional. Eu acho, na minha opinião, tem que se formar uma elite – né? –, no futebol. Não que seja uma elitização total, que acabe com isso tudo, mas tem que formar uma elite para que esses clubes tenham estrutura para segurar, que represente o futebol brasileiro, essa elite. Claro que vão ter as outras divisões que vão subir. Só pode ser com o campeonato nacional, com jogos, na maior parte, só aos domingos, isso melhoraria o nível técnico e, com certeza, os jogadores teriam... quer dizer, melhorando o nível técnico, tendo melhores condições de trabalho, com tudo, daria mais prazer de participar de um campeonato, o Campeonato Brasileiro.

Jorge Escosteguy: Raí, quando o Avallone perguntou para você sobre o Telê, você começou a dizer que o comportamento dele melhorou. Mas aí, você interrompeu, escondeu o “melhorou”. O que você quis dizer com melhorou? Como é que ele era antes, que melhorou?

Raí: Não. Melhorou, eu quis dizer, que da maneira que ele falou, né? Que parece que quando ele ganha, ele fica mais... – com a gente, não, né? –, conforme as coisas vão dando certo para o time dele, ele sente que não precisa mais ser tão exigente. Quando ele sente que o grupo dele é profissional, ele não precisa ser tão... melhorou nesse aspecto, quer dizer, ele não precisava chamar a atenção...

Jorge Escosteguy: Ele era muito ranzinza, ele exigia muito, é isso?

Raí: É. E muito exigente. E é claro que conforme vai alcançando o nível que ele quer, ele não se torna tão exigente assim.

Osmar de Oliveira: Raí, vamos lá. Se você olhar a fotografia do São Paulo hoje, estampada em todos os jornais, você não encontra nenhum jogador com o cabelo mais comprido do que o seu. É coincidência?

Raí: Moda. Eu creio que é moda. Teve uma época em que quase todos os jogadores usavam cabelo comprido, né? Tem uma moda meio que particular do futebol.

Osmar de Oliveira: Quer dizer que se o São Paulo hoje contratasse o Maurício, do Inter de Porto Alegre, e Renato Gaúcho também, deixaria jogar com aquele cabelo?

Raí: Deixaria.

Osmar de Oliveira: Deixaria?

Roberto Avallone: O Renato, com nenhum cabelo, careca... [risos] e o Macedo, com trancinhas, não jogou.

Raí: Não, não jogou, não. Mas ele disse para o Macedo que achava que tinha que tirar tudo e o Macedo tirou. [O atacante Macedo um dia apareceu nos treinos usando apliques no cabelo. A imprensa, na época, divulgou que Telê o teria obrigado a retirar os apliques]

Osmar de Oliveira: Ah, era isso que eu queria saber! Quer dizer...

Raí: Ele achava que era uma coisa que ia atrapalhar. Também, ali, já era exagerado, né? Não é um cabelo mais comprido que... já era um aplique, era uma coisa assim...

Osmar de Oliveira: Você está dizendo que até como um pai, um avô, ele encosta no jogador e fala: “Oh, por favor, corta esse cabelo”, e o jogador sabe que ele não está dando ordem, mas que se não cortar o cabelo não vai jogar?

Raí: Não, não vai jogar eu não digo. Se tiver... isso ele pode não gostar, tudo, mas ele, nesse aspecto, eu acho que ninguém pode falar nada. Acho que se o cara – quer dizer, claro tem que ter disciplina; o cabelo não está na disciplina, ele pode não gostar, pode ficar chateado com a pessoa –, mas se nos treinamentos o cara começar a arrebentar, fazer gol e começar a desequilibrar o treinamento, ele põe, com certeza.

Osmar de Oliveira: Mas, Raí, como você é hoje uma voz respeitada por todos os jogadores, da mesma maneira que o São Paulo tem essa moda de cabelo curto existem alguns times em que eu encontro seis, sete jogadores de cabelo comprido. Na sua opinião, atrapalha um pouco?

Raí: Eu, no final do ano passado, usei o cabelo um pouco mais comprido, né? Aqui na parte da frente, da franja, mais comprido. Às vezes atrapalhava, mas acho que aqui atrás não atrapalha em nada.

Jorge Escosteguy: O que você acha do jogador Renato Gaúcho?

Raí: O que eu acho dele?

Jorge Escosteguy: É.

Raí: Como jogador?

Jorge Escosteguy: Como jogador e como comportamento de atleta do jogador.

Raí: Não, ele é um grande jogador, acho que um jogador fenomenal. Com uma capacidade física e técnica impressionante, e ele, independentemente da sua vida pessoal, consegue, a exemplo do Sócrates – que muitos diziam que não era profissional – , ele, dentro de campo, na sua profissão, ele corresponde.

Jorge Escosteguy: Você acha que ele tem que fazer parte da Seleção Brasileira?

Raí: Enquanto estiver mostrando isso, como está mostrando, pode continuar.

Jorge Escosteguy: E se o Telê chegasse a técnico da Seleção Brasileira e não convocasse o Renato?

Raí: Bom, aí era um... como ele já assumiu, né? Aí é uma coisa pessoal, quer dizer, é claro que tem que se respeitar isso, né? Não adianta você criar um ambiente ruim, vai ser pior para o grupo todo, né? Se você colocar... ele pode ser o melhor, mas se tiver um ambiente insustentável, vai ser pior para o grupo todo. Então, são situações que...

José Trajano: [interrompendo] Agora, quem está na mesma situação é o Romário. O Romário vai ser – segundo declarações do Parreira e do Zagalo [Mario Jorge Lobo Zagalo (1931-). Como treinador e supervisor técnico da Seleção Brasileira foi campeão das Copas de 1970 e 1994, respectivamente] –, o Romário criou muito caso lá em Porto Alegre, porque ficou na reserva no jogo contra a Alemanha e não deve ser mais convocado. O que você acha disso? O Romário também vai fazer falta, deve ser convocado? Ele desagrega, mesmo, o ambiente?

Raí: Não, nunca vi assim, né? Mas é uma situação difícil essa do jogador do exterior, né? A pessoa... é difícil, eu acho que tem... é claro que a gente tem grande honra em ser convocado pela Seleção Brasileira. Mas às vezes, estão disputando campeonato na Europa, é uma situação difícil, né? O Parreira está querendo formar um grupo, eu acho que tem que insistir mais. Não é questão de... tem que insistir, procurar conversar com o Romário, conversar com o grupo todo, tentar fazer todo mundo vestir a mesma camisa nesse aspecto de conscientização do que ele quer, do que o Parreira quer. Porque, de repente, não dá tempo para isso, para pegar um bom relacionamento. Mas é difícil, quer dizer: imagine você sair da Europa, vir para cá, quer dizer, é uma viagem cansativa, fica três, quatro dias aqui, não joga, volta para a Europa, chega lá, vai jogar pelo seu clube desgastado. Quer dizer, chega lá: “Oh, você foi pra lá, você briga com o clube para ir para a Seleção”, é uma situação difícil também para o jogador. Agora, eu acho que se conseguir formar uma conscientização de que... uma visão mais distante, de que isso vai ser bom, formando esse grupo, um bom relacionamento vai ser bom para uma Copa do Mundo. Se conseguir, quer dizer, a pessoa sentir que está fazendo um sacrifício com um objetivo maior, pode ser que ele consiga, mas acho que tem que insistir.

Guilherme Cunha Pinto: Raí, você acaba de ser eleito o jogador do ano, numa pesquisa do Estado de São Paulo, que ouve tradicionalmente mais de trezentos jornalistas do país inteiro, jornalistas e radialistas. Eu gostaria de saber, sinceramente, em quem você votaria?

Raí: Melhor jogador do ano?

Guilherme Cunha Pinto: É.

Raí: Eu diria que o Müller.

Jorge Escosteguy: E o segundo?

Raí: Não, eu acredito que eu esteja entre os melhores, mas não vou falar. É difícil você fazer uma análise de si próprio. É, de si próprio, você está no jogo, você não está vendo você, eu estou vendo outros jogadores.

Guilherme Cunha Pinto: Você assiste ao videoteipe ou não?

Raí: Não, eu não vi o videoteipe da final de Tóquio. Vi um gol uma vez, depois, em uma reportagem esporádica. Eu não vejo muito.

Jorge Escosteguy: O segundo jogador, qual seria, Raí?

Raí: O segundo do Brasil, acho que teve várias... teve grandes revelações, né?

Jorge Escosteguy: E o terceiro?

[Risos]

Raí: Eu deixo esse trabalho para vocês, eu não me preocupo de ficar analisando, acho que vocês são...

Juca Kfouri: Falando nisso, estamos levantando muito a sua bola. O São Paulo foi campeão da Taça Libertadores, foi campeão do mundo, foi campeão Paulista, foi campeão da Taça Tereza Herrera, Ramon de Carranza, mas perdeu o Campeonato Brasileiro. Por que o São Paulo perdeu o Campeonato Brasileiro este ano, Raí? [Em 8 de julho de 1992 o Vasco venceu o São Paulo por 3 a 0, impedindo o time paulista de se classificar para as finais, disputadas entre Flamengo e Botafogo e vencidas pelo Flamengo]

[Risos]

Raí: É, realmente. Com o time com a capacidade que o São Paulo tem, acho que tinha condições de chegar à final. E nós... foi um jogo que, além de alguns momentos ruins que tivemos no Campeonato Brasileiro, que é natural, mas um jogo horrível. Nós fizemos um jogo decisivo contra o Vasco, onde ninguém rendeu nada. O Vasco estava praticamente fora do campeonato e foi um fracasso, né? Nós tivemos como um fracasso porque nós sabíamos que tínhamos condições de chegar. Mas acho que o saldo está ótimo, né?

Juca Kfouri: Mas, aquele jogo, especificamente, acabou sendo importante para o resto da temporada, quer dizer, de vocês sentirem: “Olha, não dava para ganhar só com o nome, com a camisa, com o fato de serem considerados os melhores unanimemente, tinha que correr atrás”?

Raí: Correto. Não só aquele jogo – aquele jogo principalmente, que nos tirou o campeonato –, mas outros jogos também. Jogos que não estavam valendo mais nada pelo Campeonato Paulista, que nós, que os times vinham e jogavam mais que o São Paulo. Então, nós sentimos que não bastava isso, quer dizer, você precisa estar concentrado, precisa estar ligado no jogo, precisa estar com o nível de esforço no máximo. O futebol, hoje em dia, está muito equilibrado, né? Então, você tem que estar com tudo ligado para uma coisinha, um detalhe, que decide uma partida, decide um campeonato.

Jorge Escosteguy: Raí, você acha que o Brasil tem problemas de goleiros? Não tem bons goleiros como a Europa ou a Argentina? Por exemplo: o Zetti é criticado que não sabe sair do gol. Melhorou muito isso, no Brasil, mas ainda se critica muito essa deficiência.

Raí: É. Nunca foi uma grande escola, mas...

Jorge Escosteguy: No jogo contra o Barcelona, se não me engano, ele deu umas duas saídas absolutamente...

Raí: É, mas eu acho que ele é um dos grandes goleiros que saem melhor do gol. Ele tem coragem de sair. Têm goleiros, não só no Brasil, mas têm goleiros que não tem a coragem de sair. Ele sai bastante do gol, e isso facilita para a defesa, né? Muitas jogadas. É claro que é uma jogada arriscada, mas está melhorando. Acho que nunca foi uma grande escola de goleiros, mas está melhorando. O Taffarel [Cláudio André Mergen Taffarel, ex-goleiro brasileiro, vencedor da Copa do Mundo de 1994], o próprio Zetti têm conseguido...

Roberto Avallone: Aqui não é um debate, mas eu discordo do Jorge. Acho que o Zetti está saindo muito bem do gol, está numa grande forma. Queria reverenciar uma pessoa sempre esquecida: Valdir Joaquim de Moraes [goleiro do Palmeiras entre 1958 e 1968], que foi goleiro com um metro e setenta e quatro de altura e mancando de uma perna. Agora, Raí, gostaria de falar sobre Raí-seleção: o São Paulo tem surpreendido o mundo, porque enquanto o Barcelona do Cruyff [Johannes Cruyff, jogador holandês que foi ídolo do Barcelona como jogador e também treinador] revolucionou a tática mundial em 74 [Cruyff foi um dos líderes da seleção holandesa, que em 1974 surpreendeu o mundo com a tática do “carrossel holandês”, pela qual nenhum jogador tinha posição fixa em campo], enquanto o Barcelona tocava a bola, tocava a bola naquela velha milonga sul-americana, parecia, o São Paulo jogava em velocidade, em profundidade, com extrema simplicidade. E você dizia, no nosso primeiro tempo, que aquela época do futebol romântico, de parar, matar a bola no peito, de olhar, acabou. Você acha que o fundamento é esse, agora? É velocidade, simplicidade e arremate? Defina o São Paulo, o novo estilo do futebol brasileiro.

Raí: É, eu acho que é isso. O futebol brasileiro passou por uma fase de transição, com exceções, é claro, de genialidades, como foi a Copa de 82. Uma fase de transição da arte para a fase que o preparo físico evoluiu muito, que a força está valendo, que as circunstâncias táticas valiam. E esse preparo físico até fazia equilibrar com uma parte técnica mais deficiente. Então, é difícil para o jogador e para os treinadores brasileiros assimilar isso, né? Que tinham que largar. Nós levávamos vantagens sobre todo mundo pela arte, pela habilidade, e isso, só, não estava bastando. Então, isso é uma fase difícil para o futebol brasileiro, que agora está mudando. Nós estamos aliando e sendo mais objetivos, mas em alguns momentos, tendo a habilidade do jogador brasileiro.

Osmar de Oliveira: Raí, você acha o preparo físico do São Paulo perfeito?

Raí: Acho.

Osmar de Oliveira: Acha? Eu também acho. No jogo São Paulo e Barcelona, quanto de preparo físico o Barcelona tinha em relação ao São Paulo?

Raí: Eu senti que nos últimos 15 minutos eles – não sei se pelo resultado até –...

Jorge Escosteguy: Pregaram?

Raí: É. O São Paulo estava muito mais inteiro. O São Paulo estava inteiro o jogo todo, e nos últimos 15, vinte minutos, o Barcelona estava mais pregado. Mas, acho que não foi, quer dizer, não foi só isso, mas mesmo antes, o São Paulo já estava superior.

Roberto Avallone: Eles chegaram na véspera, hein?

Juca Kfouri: Agora, ontem – não é, Raí? – quer dizer, depois de fuso [horário] contra, fuso a favor, toda essa loucura que o São Paulo fez, a sensação que deu é que o São Paulo acabou muito mais inteiro que o Palmeiras.

Raí: É, mas acho que não são só circunstâncias que influenciam, né? De repente, quando você está com a cabeça preocupada, isso passa para o corpo. Às vezes, não é só o preparo físico, né? A cabeça, às vezes, manda mais.

José Trajano: Raí, na sua biografia tem uma passagem que é meio apagada – daqui a alguns anos, acho que ninguém vai se lembrar mais – que foi aquela passagem pela Ponte Preta. Como é que foi essa passagem pela Ponte Preta? Foi a primeira vez que você saiu de Ribeirão para outro lugar, não é?

Raí: Foi, foi sim. Eu estava no Botafogo, e o Botafogo não disputava o campeonato nacional, só disputava o campeonato regional, que era no primeiro semestre. E aí, o Botafogo ia ficar parado, disputando uns campeonatos que disputavam ali no interior. E com isso... eu estava me destacando no Botafogo. A Ponte Preta ia disputar o campeonato nacional, estava querendo formar um grande time, contratou o Jair Picerni [treinador], tinha o Chicão, tinha o Mauro e me contratou. Foi a minha primeira saída, foi uma experiência boa para mim em relacionamento.

José Trajano: Quanto tempo você ficou na Ponte?

Raí: Oi?

José Trajano: Na Ponte Preta.

Raí: Eu fiquei de quatro a cinco meses. Fui disputar o campeonato nacional, aí eu disputei uns três, quatro jogos e tive uma fratura no pé. Então, quase não joguei.

José Trajano: Daqui a pouco ninguém vai se lembrar que o Raí jogou na Ponte Preta. A Ponte Preta vai ficar triste.

Juca Kfouri: Seis jogos e seis gols, se não me engano.

Raí: Oi?

Juca Kfouri: Seis jogos, seis gols, na Ponte Preta. É a sua melhor média de gols.

Raí: É. Eu acho que sim. Eu fiz bastantes gols e, também, nós começamos muito bem o campeonato. Na Ponte Preta, o Chicão era o artilheiro do campeonato. Nós fizemos aí uma dupla de área muito boa. Eu digo que foi uma das grandes fases. Se eu não tivesse machucado já teria me destacado ali em nível nacional. Eu estava me sentindo muito bem, eu estava... fez bem para mim, sair do Botafogo, ali, naquela época. Foi uma pena que me machuquei.

Ubiratan Brasil: Daí, depois, você veio para o São Paulo, que estava com o Cilinho [Otacílio Oliveira Pires de Camargo, treinador do São Paulo na década de 80], se não me engano. Era o técnico, não era?

Raí: Era.

Ubiratan Brasil: E você também não rendeu bem, quer dizer, teve o problema de adaptação à cidade, porque você veio pra cidade grande e tal, mas ao mesmo tempo, o problema de posicionamento em campo. Parece-me que o Cilinho te colocava em algum posicionamento que não era bem o seu estilo. Como é que foi essa fase tua com o Cilinho? Porque depois, me parece que você só se encontrou mesmo quando chegou o Telê.

Raí: Eu vim para o São Paulo com uma contusão muscular que me impediu até de disputar o Panamericano, na época. E eu, quando cheguei, fiquei ainda mais dois meses aqui no São Paulo, só fazendo tratamento. Essa foi uma dificuldade. E quando eu entrei no time, o Cilinho me colocou de atacante, atacante fixo, jogando somente ali, e eu não estava me adaptando à posição e tinha a dificuldade de adaptação à própria cidade. Então, tudo isso foi acumulando e me fez passar o final de 87 – foi quando eu vim – e começo de 88, uma fase – acho – que foi a mais difícil da minha carreira. Mas, aos poucos aí, eu fui, ele foi cedendo... a essa idéia, sentiu que eu, com certeza, iria render mais em outra posição, e outro jogador iria render mais naquela posição, e já foi trocando. Já melhorei em 88. Em 89, fomos campeões paulistas com o [técnico] Carlos Alberto Silva. Eu já era capitão, estava jogando de meia-esquerda como armador já, função que eu fazia com mais facilidade. E depois, com o Telê, já fiquei um jogador mais versátil, até fazendo funções que o Cilinho tentou. Eu consegui fazer com o próprio Telê.

Guilherme Cunha Pinto: Eu queria sair um pouco do futebol para te conhecer um pouco melhor, com a seguinte pergunta: se alguém inventasse a máquina do tempo e te oferecesse uma passagem, você iria escolher para frente ou para trás?

Raí: Para trás. Eu fiz história [abandonou a faculdade quando saiu de Ribeirão Preto para São Paulo].

Guilherme Cunha Pinto: Que época, mais ou menos, que te fascina, que você gostaria de viver?

Raí: Me fascina a época, desde que eu era criança, a época dos feudos. Essa época me fascina bastante, dos senhores feudais, daquela parte que começa, que era o princípio da Revolução Industrial e logo depois...

Guilherme Cunha Pinto: Sei. Mas a tua curiosidade é, assim, uma coisa de comportamento?

Raí: É, sentir o porquê de ser desse jeito hoje, quer dizer, toda a situação capitalista, né? Começou a entrar o dinheiro, a visão, quer dizer, eu tenho curiosidade disso, porque eu acho que nós tomamos o caminho errado na história. Eu acho que vai ter um retrocesso pra tomar outro caminho que – entendeu? –... o dinheiro, esse negócio, essa é a minha curiosidade. Os valores materiais, né? Que sempre, claro, que sempre existiram, mas estão sendo supervalorizados, e a gente vê que em países que alcançaram um ideal as pessoas não estão contentes, né? As pessoas têm tudo, cada um tem seu espaço, cada um tem seu médico, mas onde existem muito suicídio, drogas, quer dizer, eu acho que... até quando esse ideal é o que é bom para o homem? Então, eu queria, eu tenho curiosidade nisso.

Juca Kfouri: Dentro dessa linha, Raí, se você pudesse escolher entre ser o Raí e ser, vamos dizer, o Roberto Carlos, você escolheria ser quem: o jogador de futebol ou o cantor?

Raí: [Risos] Ser o Raí ou Roberto Carlos? Eu acho que o Raí, mesmo, o jogador. Eu tenho um sonho de ser cantor também, mas eu acho que jogador, eu iria curtir mais. Apesar de que a única vantagem é que o cantor segue a vida toda, e a carreira de jogador acaba logo e eu já estou vendo que está acabando o meu tempo, né?

Juca Kfouri: Mas aí você pode já engatilhar uma carreira de cantor. Ou não?

Raí: Não, de maneira nenhuma.

Juca Kfouri: Porque, olha: a seguir pela sua tradição, que acabou superando o mano [Sócrates], ele também tem um LP gravado que não foi exatamente um sucesso, dá pra você... não?

Raí: Acho que eu não superei ele no futebol, mas cantando, acho que eu consigo superar fácil, fácil.

[Risos]

Jorge Escosteguy: Já que nós estamos na máquina do tempo – não vale citar o Pelé –, se você pudesse escolher qualquer jogador de qualquer época para jogar junto, qual você escolheria? Não vale Pelé.

Raí: Não vale Pelé?

Jorge Escosteguy: Nem o Garrincha. Esqueci! Nem o Pelé nem o Garrincha.

Raí: Um jogador atual, Maradona.

Jorge Escosteguy: Maradona? Ainda, Maradona?

Raí: Ainda.

Jorge Escosteguy: O que você acha do Maradona? Como atleta e como pessoa, ou seja, todas essas confusões na vida do Maradona, já que você citou o Maradona. Uma vida complicada, né?

Guilherme Cunha Pinto: Até pelo que você estava falando a respeito da civilização no sentido de quem atingiu todas as glórias e foi para a droga...

Jorge Escosteguy: Ganhou muito dinheiro...

Raí: Aí é uma situação um pouco diferente, porque é a questão, quer dizer, as pessoas começam a te encarar de uma forma diferente. Ele chegou num estágio tal de... e jovem, né? Muito jovem. Um estágio tal de popularidade, quer dizer, uma coisa de mito, você ser um mito vivo é difícil. Você fica, parece, num outro patamar. Você não consegue fazer as coisas cotidianas, né? Com naturalidade, nunca. Isso é difícil administrar...

Jorge Escosteguy: Você pensa um pouco nisso? De repente, não saber administrar...

Raí: Eu acho que nunca vou chegar a esse ponto. Eu tenho... a minha subida de popularidade foi gradativa, foi mais fácil assimilar. Ele foi realmente uma explosão: com vinte, vinte e poucos anos já era o melhor jogador do mundo, né? É mais difícil. Mas, questão de Maradona, sei lá, Xuxa, é difícil administrar.

Jorge Escosteguy: O Pelé é um pouco assim, vamos dizer e, aparentemente, administrou muito bem.

Raí: É, é uma pessoa que conseguiu administrar muito bem isso. É difícil.

Roberto Avallone: É isso que eu queria perguntar, eu estou sentindo no Raí, desde o começo do programa, uma preocupação de resistir ao sucesso. O Guilherme também disse: aquele que alcança todos os ideais. Quem para você, além do Pelé – o Pelé, você falou com muita convicção, assim: “O Pelé administrou e tal” – quem, para você, conseguiu resistir ao sucesso?

Raí: Não é resistir. Eu também não quero resistir. É gostoso, é uma...

Roberto Avallone: Administrar com dignidade o sucesso, do jeito que você espera; idealmente, segundo você.

Raí: Eu... até uma pessoa que também pensa da mesma forma, o Leonardo [Nascimento de Araújo, lateral-esquerdo]. Nós tivemos uma amizade muito grande aqui no São Paulo, e a gente já citava isso, né? Que é você alcançar... eu queria alcançar um nível de popularidade não só pelo próprio futebol. Por isso que eu quero também sair, crescer como pessoa. Eu acho que uma pessoa que alcança um espaço como esse que eu tenho aqui, como tenho na IstoÉ, na Veja, ela tem uma responsabilidade impressionante. E se ela conseguir passar uma coisa que seja boa vai influenciar muita gente. Então, por isso que eu quero sair mesmo daqui. Porque eu sei que eu vou aprender muito mais, vou crescer como pessoa e vou poder passar, assumir essa responsabilidade com maior conhecimento. E acho que se é isso que eu quero, se eu puder, até essas coisas, dessas que eu penso, sejam valores imateriais e tudo, se eu conseguir passar de uma maneira fácil, de uma maneira que convença as pessoas um pouco disso, disso que eu acredito, eu acho que é importante. É melhor do que ser reconhecido como jogador, mesmo.

Juca Kfouri: Essa coisa da administração do sucesso: você sempre que compara – a comparação é sempre inevitável, entre Sócrates e você –, você disse que você não atingiu o estágio do Sócrates, ainda. Agora, veja bem: o Sócrates é três vezes campeão paulista; você também. O Sócrates não foi campeão do mundo, o Sócrates não foi campeão brasileiro, O Sócrates não foi campeão da Libertadores. Você foi isso tudo. Sem comparações, mas, objetivamente, você hoje é um jogador mais vitorioso do que o Magro [apelido de Sócrates] foi.

Raí: É. Ele tem a mais do que eu nesses dados...

Juca Kfouri: [interrompendo] Duas Copas do Mundo.

Raí: Duas Copas do Mundo disputadas, que em nível de repercussão equivalem a... uma Copa do Mundo equivale a mais do que tudo que eu fiz, né? Que eu conquistei, de repercussão.

Juca Kfouri: Você acha que disputar uma Copa do Mundo é maior do que tudo que você já conquistou?

Raí: Em nível de repercussão! Eu estou dizendo de repercussão, assim de popularidade mundial. Ele teve, principalmente, naquela de 82, quer dizer, uma Copa do Mundo com sucesso, é claro. Ele teve naquela de 82. Estou falando em nível de popularidade. Agora, conseguir disputar uma Copa do Mundo também é uma vitória, né? Para um atleta brasileiro. É claro que – mas são coisas diferentes – eu acho que eu já conquistei muito, mas eu acho que o que ele tem a mais do que eu não são conquistas em si, mas sim o que ele fez na carreira dele, como jogador em vários jogos, e não são conquistas. Conquistas, eu posso até admitir que eu tenho mais do que ele. Mas o que ele fez pelo futebol, ele fez muito mais do que eu fiz até agora.

Jorge Escosteguy: Isso que ele tem a mais, ele de certa forma tenta passar para você, Raí? Ele dá conselhos a você? Você conversa muito com ele sobre a vida dentro e fora do campo?

Raí: É, agora conversamos mais, agora conversamos mais. Porque antes, ele estava jogando ainda, era uma coisa meio distante. Mas, agora, quando eu tenho oportunidade, quando eu vou para Ribeirão Preto... não são muitas vezes, mas quando a gente se encontra, a gente pode conversar um pouco mais. Ele conta as experiências, ele dá conselhos, comenta, ele acompanha o futebol ainda.

Jorge Escosteguy: Alguma vez ele disse para você uma coisa: “Fiz uma burrada que você não faça nunca na sua vida”?

Raí: É.

Jorge Escosteguy: Tipo?

Raí: Ele contou algumas coisas da própria passagem dele pela Itália. Aquilo que eu contei da passagem dele pela Itália, que ele teve, que ele poderia ter segurado um pouco mais e tal. Coisas desse tipo.

Guilherme Cunha Pinto: Raí, imagine quantas crianças estão vendo esse programa que gostariam de ser você, né? Ou de chegar aonde você chegou. Eu gostaria que você tentasse lembrar quando que você descobriu que você era “o Raí”? Ou seja, em que momento da vida de uma pessoa, ela sente que nasceu praquilo?

Raí: Raí jogador de futebol?

Guilherme Cunha Pinto: Jogador de futebol. Que você era melhor que os outros na escola jogando bola, passava por todo mundo, que você ia pra várzea e fazia cinco gols. Quando você se convenceu disso?

Jorge Escosteguy: Até porque, você disse que começou meio na marra como atleta profissional. Estava casado e tal...

Raí: É. Como atleta profissional, sim. Mas eu, na escola, me achava o melhor jogador do mundo, quase. [risos] Eu acho, como era só pelada, foi na escola ali, com uns dez, doze anos que eu era infinitamente superior aos meus amigos. Fazia... meus amigos até falavam que quando eu pegava na bola era um samba na defesa. E eu era um jogador... hoje em dia, eu sou muito mais objetivo ou prático. Naquela época, eu era...

Jorge Escosteguy: Você era aquele cara chato, pegava na bola, driblava todo mundo, não passava pra ninguém? E ninguém não reclamava?

Raí: É, eu ia driblando. Eu acho que eu era muito melhor jogador nessa época do que eu sou hoje. Como arte, eficiência...

Jorge Escosteguy: Talvez porque não tivesse o compromisso com a eficiência que você tem hoje?

Raí: Exato, exato.

[Entrevistador não identificado]: Eu acho que nessa máquina do tempo...

Raí: Até pelo próprio biotipo também, quer dizer, eu cresci muito, né? Quer dizer, você perde um pouco aquela agilidade, até também pelo biotipo. Eu fui me adaptando ao biotipo.

Osmar de Oliveira: Raí, você falou agora há pouco alguma coisa que me chamou a atenção. Você fala da sua responsabilidade, a responsabilidade que você acha que você tem no sentido de dar exemplos. Evidentemente que isso, se você transferir para dentro do elenco do São Paulo, essa responsabilidade é maior. Porque eu vejo assim: você e o Telê são mais ou menos assim como guardas de todos eles. Você, tendo responsabilidade maior perante o elenco de transferir esse modelo do jogador atual. Nisso, de toda a rapaziada que tem lá, qual o jogador com que você se preocupa mais, que você olha mais e que você não deixa sair da linha?

Raí: Bom, a gente procura, primeiro de tudo, passar essas coisas através do próprio exemplo, né? Do exemplo que você é, de uma pessoa que conseguiu sucesso através do comportamento. Acho que isso é o melhor método, né? Agora, têm vários jogadores aí que são jovens, como Macedo, tem o Eraldo, tem vários jogadores jovens e que estão...

Osmar de Oliveira: Macedo, e o outro?

Raí: Eraldo, um jogador. Jogadores que necessitam – a gente sente que necessitam – de um apoio. Têm outros jogadores, também, que necessitam de um apoio que, se não for meu, que seja do diretor ou de outra pessoa mais experiente.

Osmar de Oliveira: Então, porque você fala na Veja uma coisa interessante. Você diz que, em sua opinião, jogador tem que ter cultura ou pelo menos tem que se “aculturar”. Você, inclusive, cita os livros que você está lendo agora. E você revela que se o jogador tiver mais cultura, o jogo dele é melhor. Onde é que você foi buscar isso?

Raí: Isso é que... acho que em qualquer área, né? Se você for uma pessoa “bitolada”, você vai ser mais restrito e se você for uma pessoa com a mente mais aberta, ter uma visão melhor do mundo, você vai ser, vai passar a ser mais criativo também. E vai ter uma alegria maior e também não vai ficar pensando só naquilo, só em futebol. No futebol, uma coisa que vai...

Osmar de Oliveira: Bitolando.

Raí: Bitolando, né? Vai te deixando um pouco amargo. Se você... serve até para arejar a cabeça, além de outras coisas positivas.

Osmar de Oliveira: Influi mesmo no jogo, lá, na hora em que a bola está correndo?

Raí: Influi, eu acho que influi. Você fica com...

Roberto Avallone: Eu tenho as minhas dúvidas, até nessa esteira, pelo seguinte: talvez seja até menos bitolado, mas não diria mais feliz. Por ver o São Paulo campeão do mundo – e a gente compactua com esses exercícios obrigatórios, preparo físico e tal –, mas eu me lembro do Santos campeão do mundo; o primeiro campeão do mundo que nós tivemos. E eu sentia muito mais alegria no jogo, na explosão de gol do Pelé, do Coutinho, do Dorval [junto com Megálvio e Pepe, formavam o Ataque dos Sonhos do Santos Futebol Clube da década de 60], do que eu sinto no São Paulo de agora. O São Paulo mais, talvez, até mais eficiente, mais trabalhador, mais operário. Mas eu não sinto a alegria que eu sentia no Dorval, Coutinho, Pelé.

Raí: É, eu acho que... eu digo isso hoje: são épocas diferentes. Eu digo que isso ajuda mais, hoje. Naquela época, realmente, era outro estilo de jogo, era arte pura.

Roberto Avallone: Não fica muito mais chato ter obrigação de ganhar? O prazer não vai por água abaixo?

Raí: É claro, claro que é chato. Eu tenho muito prazer em jogar uma pelada hoje em dia. Eu tenho muito prazer, mas eu acho que isso é um erro do futebol. O futebol teria que evoluir, as regras do futebol têm que evoluir para ir valorizando isso, para não deixar morrer isso, não deixar morrer essa arte. O futebol ficou estagnado, aí, por vários anos. Agora que começou a se mudar algumas regras timidamente. E todos os... hã?

José Trajano: Está muito menos violento hoje, não é?

Raí: Está muito menos violento hoje. Mas se pode melhorar regras para valorizar, para tirar essa vantagem que o preparo físico deu, tem regras...

José Trajano: Você acha que essas mudanças da Fifa (Federação Internacional de Futebol Associação), essas novas regras: não poder atrasar a bola para o goleiro, e o último homem ganha um cartão vermelho quando faz a falta. O futebol tem melhorado muito, com isso?

Raí: Claro, claro, melhora a violência. O fato de atrasar para o goleiro torna o jogo mais dinâmico, melhorou demais. Mas acho que essas regras que mudaram agora, acho que poderiam ter sido mudadas há mais de dez anos.

José Trajano: Por exemplo: [bater] lateral com o pé?

 Raí: Você vê o futebol de salão, o vôlei, o tênis.

 José Trajano: É todo ano.

Raí: Todo ano muda.

José Trajano: É.

Raí: Todo ano muda.

José Trajano: Agora, o futebol, você trocaria o quê? Essa idéia de colocar a lateral com o pé?

Raí: Limite de faltas, por exemplo.

José Trajano: Faltas? Tipo water polo [pólo aquático]?

Raí: É. A linha para... eu acho que poderia até... porque os espaços estão menores, né? A linha do impedimento é perto de uma linha imaginária, como existe a linha de três metros no vôlei, uma linha perto do gol, tirando o impedimento, quer dizer, o centroavante poderia ficar aqui. Se o outro time está atacando, você poderia ficar aqui, você vai segurar a defesa com ele, vai aumentar os espaços. Quer dizer, os espaços diminuíram no aspecto físico e no aspecto tático. Hoje, o que em 70 para trás, a pessoa dominava, pensava, via o marcador que vinha, ele tinha tempo de pensar em dar um drible...

José Trajano: Até os locutores esportivos falavam muito: “parou pra pensar”, né? Porque podia parar pra pensar.

Raí: Hoje, você não tem tempo de pensar em criar, em criar arte, quer dizer...

José Trajano: Tem sempre um César Sampaio [grande jogador da década de 90, atuou no Santos, São Paulo, Corinthians e Palmeiras. Fora do Brasil, esteve no Japão e na Espanha, pelo La Coruña. Na Seleção Brasileira, atuou de 1993 a 2000], junto de você, não é?

Raí: É, as artes, né?

Jorge Escosteguy: Então, como é que funciona isso: quando era garoto, você achava que era, talvez, o melhor jogador do mundo, adorava sair driblando e tal. Como é que passou a funcionar isso na sua cabeça, quando você está no meio-campo, recebe a bola já tem que tocar porque tem um ali e você diz: “Poderia dar um drible nesse cara, ele vem todo aberto, eu dou um corte, ele cai pra lá”. Não, você vai passar.

Raí: Então, esse é o lado profissional.

Jorge Escosteguy: Você resiste? Vem essa tentação ou você já está automatizado no objetivo?

Raí: Têm jogos – são poucos jogos – mas têm jogos em que você, que eu entro com aquele espírito de...

Jorge Escosteguy: Moleque!

Raí: De moleque. Porque eu posso até nesse jogo não ser tão eficiente, às vezes, mas com certeza, faço momentos de rara beleza.

Jorge Escosteguy: E você leva bronca do treinador, ou não?

Raí: O Telê... [risos] se fizer uma brincadeira improdutiva. Mas ele está certo, né? Você está pensando individualmente, né?

Jorge Escosteguy: É, mas ele nunca diz: “Tudo bem, deu certo, mas se não tivesse dado certo iria ser pior”.

Juca Kfouri: O Guilherme falou das crianças. O São Paulo é, seguramente, a torcida que mais cresce no país, por motivos óbvios. Passa alguma coisa nesse momento de despedida, quanta criança você vai deixar triste no Brasil? Por jogar na Europa? Não?

Raí: Em casa tem três.

Juca kfouri: Ou você pensa mais nas suas crianças, nas duas que você tem lá?

[Risos]

Raí: Não, passa, né? Mas é o que eu falei: a gente pensa num todo, não só no que vai ser bom pra mim financeiramente, pra minha família, mas no todo. Você sabe que isso, também, pelo que o futebol é, o São Paulo, de repente, pode cair, o Raí pode... tudo é momento. Quer dizer, se pelo menos eu sair no momento em que eu estou por cima, vou deixar uma imagem boa. E essas crianças vão sempre ter uma imagem boa de mim.

Jorge Escosteguy: Bom, se você for pra Alemanha ou Espanha, pelo menos as crianças poderão ter o privilégio de ver você lá, porque a Cultura transmite.

[Risos]

Osmar de Oliveira: Ô, Raí, eu tenho uma curiosidade e vou embarcar numa concepção sua que eu achei muito inteligente. Você diz que você gostaria de participar de um campeonato em que não houvesse nem concentração, nem treino absolutamente nenhum e que todo mundo entrasse no campo só para exercer a sua arte. Eu achei isso muito interessante. Então, eu te faço duas perguntas: suponhamos que o campeonato brasileiro do próximo ano, utopicamente, fosse assim, o jogador ficava aí andando em shopping...

Raí: O São Paulo é campeão?

Osmar de Oliveira: Não sei. Eu quero saber primeiro: quem seria campeão? E segundo: se isso fosse numa Copa do Mundo, quem seria o vice-campeão?

Raí: Seriam situações totalmente diferentes...

Osmar de Oliveira: Claro!

Raí: E fica difícil de você prever, mas numa Copa do Mundo, o Brasil.

Osmar de Oliveira: Sim, então, por isso eu perguntei quem seria o vice.

Raí: Brasil e Argentina. Uma coisa desse tipo, apesar de estar evoluindo bastante.

Osmar de Oliveira: E se o Brasil pudesse, por exemplo, levar o time A e o time B. A Argentina seria terceiro?

Raí: Não, a Argentina também tem gerações, aí, boas. Eu acredito que o Brasil dá para fazer duas equipes que...

Osmar de Oliveira: E aqui, o São Paulo, numa dessas, por exemplo, ou o Mogi Mirim? [Naquele ano, o Mogi-Mirim surpreendeu com uma grande campanha no Campeonato Paulista. O time ficou conhecido como o “carrossel caipira”, e tinha em seu ataque Valber, Leto e Rivaldo, que depois se notabilizaria na Seleção Brasileira]

Raí: Aqui não dá, aqui no Brasil, não dá. Porque têm muitos jogadores que você vê que tem uma habilidade extraordinária, mas não vivem nesse... então, seria uma coisa tão diferente que não dá pra você prever.

Osmar de Oliveira: Verdade.

Jorge Escosteguy: Raí, no começo do programa, no primeiro bloco, você falou objetivamente em política, quando lhe perguntaram sobre a atuação da imprensa. Você falou não da imprensa esportiva, mas da imprensa em geral, sobre a questão do impeachment etc. E já no segundo bloco, principalmente com as coisas colocadas pelo Guilherme, você falou em política à medida que falou do ser humano, da história, da riqueza, das coisas etc. Até que ponto vai a sua preocupação política. Lhe pergunto, primeiro, porque o seu irmão sempre teve uma preocupação política bastante notável, e por que, também, preocupação política para jogador de futebol sempre significou problema.

Raí: É. Sempre, muita gente me aconselhou: “Não se mete em política, nunca se meta em política”. Mas eu acho que todo mundo tem que ter uma visão política, tem que procurar se politizar para participar da sua vida. Só assim que você vai conquistando, aí, os seus objetivos... e... como é que você falou?

Jorge Escosteguy: Até onde vai a sua preocupação política, ou seja, até que ponto...

Raí: É. Eu não sou um expert. Eu quero ainda entender muito mais de política. Eu não sou um expert. O meu irmão tem uma visão política melhor do que eu. Mas eu tenho uma visão em nível nacional, né? Acho que enquanto não houver uma política voltada ao sentido social... pode haver essa privatização em todas as áreas, justamente para poder se concentrar nesse aspecto social e, principalmente, na educação, para formar uma geração, uma geração educada, mexendo com informações, né? Para poder crescer o país junto. O país nunca vai crescer só com esse nível educacional que tem. Então, eu acredito muito nisso, né? E em nível mundial, eu sou um pouco sonhador, nesse aspecto.

Jorge Escosteguy: Para encerrar, você diria que você acompanha política, ou seja, você dizia que o país melhorou, tem melhorado, principalmente, depois dos incidentes desse ano em relação à política nacional, ou seja, impeachment etc., partidos?

Raí: Tem, tem melhorado. Acho que aí dá para se ver como a participação influencia no instante político. E, a partir de agora, acho que a população vai começar a reclamar, aí, os seus direitos, esses direitos sociais, que eu digo. E os representantes vão se sentir com uma responsabilidade maior do que eles tinham antes de todo esse processo.

Juca Kfouri: Agora, o Sócrates participou dos comícios pelas [eleições] diretas. Você não participou dos comícios pelo impeachment. Por quê?

Raí: Eu fui convidado na última hora para um comício que teve pelo impeachment, mas todas as... acho que até porque também eu não sou um bom orador, né? Não sei se serviria para alguma coisa lá, mas todas as minhas declarações, através da imprensa, foram pró-impeachment.

Jorge Escosteguy: Raí, nós agradecemos, então, a sua presença, essa noite aqui no Roda Viva. Que você tenha sucesso no exterior, se for para o exterior. Egoisticamente, nós diríamos que seria melhor você ficar aqui no Brasil, mas, enfim, você e o São Paulo é quem sabem. Nós agradecemos também aos companheiros jornalistas e aos telespectadores. O Roda Viva fica por aqui e volta na próxima segunda-feira. Boa noite.

 

 

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