Memória Roda Viva

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Nelson Motta (2000)

6/3/2000

O produtor musical critica gêneros musicais de grande sucesso nos anos 90, como o sertanejo e o axé, conta história ligadas à MPB e mostra-se descontente com as principais gravadoras

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[programa gravado, não permitindo a participação do telespectador]

Paulo Markun: Boa noite. Ele viveu de perto a revolução musical que o Brasil conheceu no início dos anos 60, conviveu com gênios e pilantras, roqueiros e sambistas, pirados e doidões, e resolveu colocar neste livro, Noites Tropicais [2000], as memórias de trinta anos de história de bastidores da música popular brasileira. O Roda Viva entrevista o compositor, produtor artístico, crítico musical e revelador de talentos, Nelson Motta.

[Comentarista]: João Gilberto: estava naquele jeito de cantar, na puxada do violão, na melodia surpreendente e na harmonia sofisticada, a nova forma brasileira de fazer música. Uma legião de jovens enfadados pelos boleros e sambas-canções que inundavam rádios e vitrolas, se deixaram seduzir pela nova onda. Nelson Motta era um deles. Também não entendia direito o que ocorria, mas gostava. A bossa nova chegava como trilha sonora da vida jovem do Rio de Janeiro daquele tempo. Era o novo fim do musical para a vida que se levava nos apartamentos, nas praias, nas ruas de Copacabana, situações comuns vivenciadas nas letras de uma música moderna, nova, diferente, que revelava o novo estado de espírito da cidade, que ainda se podia dizer maravilhosa. É nesse mundo que Noites Tropicais dá seu mergulho inicial. Rio de Janeiro, 1957, ele diz que não gostava de música, mas relata nessas páginas de memória e histórias de bastidores como foi se apaixonar pelo novo som que estava surgindo. Vivendo de perto a febre da nova onda, Nelson Motta foi se juntar àquela turma jovem que multiplicava cantinhos e violões para consolidar a nova música popular brasileira: João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Nara Leão, Sylvia Telles, Maysa, Dick Farney, Lúcio Alves, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli e outras centenas de jovens entusiasmados se embrenhavam numa fenomenal aventura que as polêmicas nunca definiram se foi um movimento ou um surto cultural. Nelson Motta percorre, no livro, o cenário dessa corrida que abriu o horizonte musical brasileiro, que sofisticou o trabalho de compositores, músicos, cantores e poetas. Deixou, na contracapa do livro, o registro de que essa virada musical foi uma das maiores contribuições brasileiras à beleza e à alegria do mundo.

Paulo Markun: Para entrevistarmos o analista, escritor e produtor musical Nelson Motta, convidamos: o escritor Marcelo Rubens Paiva; o jornalista Mauro Dias, crítico de música do jornal O Estado de S. Paulo; Regina Echeverria, jornalista da Rede TV!; a jornalista Lorena Calábria, apresentadora do Metrópolis, aqui da TV Cultura; Okky de Souza, editor de "Artes e Espetáculos" da revista Veja; Carlos Calado, crítico de música e colaborador da Folha de S.Paulo. Hoje você não pode fazer perguntas, infelizmente, porque este programa está sendo gravado. Mas, em compensação, nós temos o nosso Nelsinho Motta aqui, ao vivo e a cores. Boa noite.

Nelson Motta: Boa noite a todos.

Paulo Markun: Você viveu esses momentos da bossa nova, do Tropicalismo, do movimento do rock, uma série de instantes importantes da música e revela no seu livro, além de histórias muito saborosas, que houve uma certa tristeza apenas em relação a um gênero musical: o sertanejo, ou melhor, o predomínio absoluto do sertanejo durante o governo Collor [primeiro presidente da República eleito pelo voto direto após o regime militar, em 1989, pelo período entre 1990 e 1992,  renunciou ao cargo em razão de um processo de impeachment fundamentado em graves acusações de corrupção]. Hoje vivemos no Brasil ainda o pagode e alguma sobra do axé. Você imagina que possa vir aí um novo gênero musical hegemônico? E que gênero seria?

Nelson Motta: Eu acho que é inevitável que venha um novo gênero hegemônico e, com toda a certeza, será pior do que esses. É verdade, porque é uma constante na música brasileira e de outros países que têm tradição musical. O problema do gênero hegemônico...como a bossa nova no início dos anos 60, que durou no Brasil três, quatro anos, no máximo, como um movimento atuante. Por quê? Porque quando Tom Jobim e João Gilberto fizeram sucesso, todo mundo virou "bossa nova". Então todos os picaretas, os sub-bossas, os sub-sub-imitadores do Tom, do João Gilberto, do Carlos Lyra [ver entrevista do cantor e compositor Carlos Lyra no Roda Viva], passaram a fazer bossa nova também. O público do rádio se chateia porque, ao mesmo tempo que quer aquele gênero de sucesso, vê que os melhores e os piores ficam muito próximos, porque a batida, o ritmo é parecido. Então, a tendência é nivelar João Gilberto e Tom Jobim com todos esses picaretas e esses sub-compositores, cantores dos anos 60 e ninguém mais lembra o nome dessa gente. Nada, ninguém lembra. Eu acho que o gênero hegemônico do momento, que foi a bossa nova até uns anos, que foi a MPB [música popular brasileira] nos anos 70, o rock brasileiro nos anos 80 - nos anos 80 tocava rock brasileiro o dia inteiro no rádio, de um monte de bandas que ninguém mais lembra o nome, que imitavam os Titãs, que imitavam os Paralamas do Sucesso - então os melhores e os piores ficaram muito parecidos e chega uma hora que ninguém agüenta mais aquilo. E o que sobra? Desses gêneros hegemônicos todos, sobram João Gilberto, Tim Maia [(1942-1998) cantor e compositor brasileiro de grande sucesso entre as décadas de 70 e 90], Elis Regina [(1945-1982), conhecida como "pimentinha" e considerada uma das maiores cantoras da MPB], Marisa Monte [cantora, compositora e produtora musical], Ed Motta [cantor e compositor ligado ao funk, é sobrinho de Tim Maia], Cássia Eller [(1962-2001) cantora e instrumentista do rock nacional], que são grandes artistas que navegam nesse rio de vulgaridade, que é o gênero hegemônico, pela própria definição. Ninguém lembra aqui direito qual era a música hegemônica nos anos 60, antes da época áurea do Chico Buarque, do Caetano Veloso, do Gilberto Gil, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos [Jovem Guarda]? Antes, era aquele sambão jovem, eu nem me lembro, ninguém lembra...

Carlos Calado: Havia brasileiros gravando em inglês também, aqueles caras...

Nelson Motta: É, mas vocês são profissionais, mas isso é uma porcariada, é um lixo que ninguém lembra, é a água do rio onde correm os barcos dos artistas de talento que existem em todos os gêneros musicais.

Regina Echeverria: É assim que tem que acontecer.

Nelson Motta: Tem que acontecer, isso é inevitável. Os meus amigos, no Brasil, falam: "Ah, você está refrescando muito isso, porque você mora lá [no exterior] e não fica ouvindo rádio o dia inteiro, essa pagodeira...". Realmente, o meu contato com a música brasileira é selecionado, é um disco que me mandam, é um disco que eu compro, que leio no jornal, que me interessa. Eu não tenho que ouvir no táxi, na rua, na loja, na televisão, em casa, aquele pagode o dia inteiro. É insuportável!

Mauro Dias: Mas Nelsinho, eu acho que esse rio de lama que você falou ficou caudaloso demais hoje, ficou diferente. Existia uma diferença... Por exemplo, vamos pegar os anos 70, entre Chico Buarque e Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, enfim, você ainda tinha um pouquinho de bossa nova, tinha muita coisa acontecendo, tinha sambão jóia, tinha Benito de Paula, tinha o Tim Maia...E agora não tem mais, não. Não tem mesmo, não existe lugar para você ouvir nada que não seja essa coisa do mercado. Em São Paulo, por exemplo, a última rádio que tocava só música brasileira fechou há um ano, não existe mais. A rádio USP [Universidade de São Paulo] toca, a Eldorado toca um pouquinho, e o resto não toca música brasileira que não seja essa. Então, me parece que houve um alargamento do rio e um estreitamento de oportunidades para outros gêneros. Você percebeu isso?

Nelson Motta: Olha, minha visão é muito distante, eu fui para os Estados Unidos em 1992, fugido do Brasil, literalmente, porque havia uma crise econômica pavorosa que ajudou também no sucateamento da música. Em épocas de prosperidade econômica, quando as gravadoras estão nadando em dinheiro, eles abrem espaço: "Vamos fazer um disquinho de prestígio aqui. Vamos perder um dinheirinho aqui. Vamos melhorar a imagem". Na hora do sufoco econômico, que você não tem dinheiro para fazer nada, aí só sobra para o gênero hegemônico da época. Eu saí do país por causa disso, eu era o diretor da [gravadora] Warner [Music Brasil] e era um sonho... Eu tive essa oportunidade várias vezes, mas achei que não estava maduro, não queria e tal. E, naquele momento, eu ia fazer tudo que queria na vida e não podia. E logo veio um plano econômico daqueles, ficamos no zero, eu fiquei um ano na Warner e produzi um disco do Tim Maia, só. Eu me orgulho dele, mas o resto foi ali, [a gravadora] botando dinheiro nos sertanejos, produziram um disquinho do [Gilberto] Gil, que já estava no contrato, um disco do Titãs, uma besteirinha aqui e ali, e só. Por coincidência, foi o pior ano da minha vida pessoal e da minha vida profissional, não havia espaço para nada. Agora, de lá para cá, como a economia do país melhorou também, a política melhorou...Eu não consigo imaginar, no Brasil, nada pior do que os anos Collor, como ambiente econômico, político, social e cultural. As instituições ficaram desmoralizadas, essa "ladroeira", a cafajestice, aquele ambiente é uma das coisas que eu mais odeio na vida, não havia espaço para nada. De lá para cá, eu consigo ver, nos anos 90, músicos de alta qualidade no Brasil, como Marisa Monte e Ed Motta. E vendem discos.

Mauro Dias: A questão é que eles não conseguem divulgação, não chegam ao rádio, por exemplo.

Nelson Motta: Eles quase não tocam nas rádios, mas vendem trezentos, quinhentos mil discos...

Paulo Markun: Um dado a acrescentar a esse fato é que, de lá para cá, o predomínio da música feita no Brasil, da música brasileira nas rádios - leia-se pagode e axé - é absoluto. Quer dizer, nos anos 60, 70 e 80, pelo que me lembro, a música norte-americana, importada, vinha e dominava. Hoje não, pois a gente tem música popular brasileira, mas tem esse tal predomínio hegemônico do pagode, nesse momento, que elimina a presença de qualquer outro tipo de composição. E o mais curioso: assisti, por exemplo, neste ano, uma prova de hipismo clássico, animada ao som de pagode. E participei de várias festas da elite brasileira, onde só se toca e se dança pagode, como se não houvesse no Brasil qualquer outro tipo de gênero. Mas eu queria deixar uma ressalva, "puxando a brasa para a nossa sardinha", que é a rádio Cultura AM, emissora que também toca música popular brasileira.

Regina Echeverria: Por que você acha que acontece isso? Se toca, é porque tem gente que quer ouvir.

Nelson Motta: Claro.

Marcelo Rubens Paiva: Apesar do gênero hegemônico, existem algumas pessoas que conseguem furar esse gênero. Titãs, Caetano, Djavan, Cássia Eller estão vendendo um milhão de cópias.

Nelson Motta: Cássia Eller em um ambiente de relativa prosperidade econômica, também mudou muito isso. O Gabriel, o Pensador [um dos primeiros rappers brasileiros que fizeram sucesso] é talentosíssimo, tem coisas ótimas. O Cidade Negra é um grande grupo de reggae, negro, legal. Eu acho que o axé, que é chamado pejorativamente de "axé", não pode ser colocado no mesmo nível do sertanejo e do pagode, de maneira nenhuma. Isso porque o axé, no mínimo, tem uma enorme riqueza rítmica. Na Bahia, inventam um ritmo por dia, praticamente. Há uma riqueza rítmica enorme e grandes artistas, criadores, trabalham com esses ritmos baianos, então não é bem assim. Você não pode comparar a Daniela Mercury [cantora brasileira, ícone do axé nos anos 90] com um cantor de pagode ou sertanejo. O axé ficou nessa massificação: dez axés de qualidade se misturaram com os novecentos sub-axés, picaretagens, sacanagens, duplo-sentidos, essa coisa toda. Então, você fala assim: "O axé é uma porcaria", mas não é. Esse pagode mais animado, como "Sai da minha aba" [música gravada pelo grupo Só pra Contrariar, no fim dos anos 90], eu acho divertido porque é samba, entendeu? O que eu não agüento é o tal pagode romântico, consegue ser pior do que sertanejo!

Okky de Souza: Você não acha que as letras de axé são as piores de todos os gêneros que estamos citando aqui?

Nelson Motta: Aí é duro, é cabeça com cabeça, bunda com bunda ali disputando...

Lorena Calábria: Nelson, voltando à história do teu cargo, você fala no livro e acabou de falar para a gente que sentiu que a vida inteira você estava se preparando para assumir esse cargo de diretor artístico. Você acha que houve uma certa ingenuidade sua? Porque eu me pergunto: o que o Nelson Motta vai poder fazer na Warner, será que vão te dar tanta liberdade assim? Você já passou por todos os movimentos, convive bem com o lado produtor, com o letrista, conhece todas as facetas da música e do mercado. Quando você chegou na Warner, acreditou mesmo que teria toda essa liberdade?

Nelson Motta: Acreditei totalmente.

Lorena Calábria: Mas você acha que é possível uma pessoa ter essa liberdade no mercado fonográfico?

Nelson Motta: Quem me convidou foi o André Midani que é, talvez, o maior homem de disco [indústria fonográfica] do Brasil, que é responsável por tanta coisa boa...

Carlos Calado: Mas, de certo modo, é uma espécie em extinção também, né?

Nelson Motta: Não existem mais gravadoras com homens como ele...Liberdade eu tive, eu não tive foi dinheiro, então não adianta liberdade: "Você pode fazer o que quiser, desde que não gaste um tostão". Essa foi a minha situação.

Marcelo Rubens Paiva: Dinheiro para produzir ou para divulgar?

Nelson Motta: Para tudo, produzir e divulgar. Porque o pouco dinheiro que eles tinham foi para os sertanejos...

Regina Echeverria: [interrompendo] Era o que dava retorno.

Nelson Motta: Nem deu. Bem feito, não deu, nem isso ganharam!

Lorena Calábria: Aí, depois da experiência, você teve o selo Lux Records. Como está essa situação, como foi a experiência de você ser o dono do próprio selo?

Nelson Motta: Não, eu nunca tive uma grande ambição, era uma coisa artesanal. Eu fiz dois discos de compilações de músicas brasileiras, que lancei nos Estados Unidos, Japão e Europa, onde vende um pouquinho. A coletânea, modestamente, é boa, teve boas críticas, vende. E produzi um disco de [música] gospel, que foi uma grande aventura pessoal, cultural, musical, étnica, uma coisa da qual me orgulho muito [cd Mount Moriah Mass Choir, com o coro de uma igreja do Harlem ,de Nova Iorque]. Mas quanto ao selo de música, se você não se dedicar totalmente àquilo e entrar no mercado mesmo, você não consegue.

Lorena Calábria: Você era mais movido pela paixão do que pelos negócios?

Nelson Motta: Eu comecei a trabalhar muito com jornalismo. Fiz o Manhattan Connection [programa de TV transmitido diretamente de Nova Iorque, pelo canal GNT. Motta participou do programa por oito anos, até 2001], fui chamado para escrever no Estadão, escrevia para outras revistas e quando vi, estava ocupando o meu tempo todo com jornalismo. Essa coisa de selo de música, você tem que ter dedicação integral.

Lorena Calábria: A Lux está dormindo ou já está aposentada?

Nelson Motta: Pode algum dia...eu não penso em mexer com produção de discos há uns dois ou três anos. Nem em outras gravadoras. Agora virei escritor.

Carlos Calado: Mas isso é uma certa desilusão ou não?

Nelson Motta: É realismo, visão realista de mercado. Nos Estados Unidos, vi como funcionam as coisas, entendi também que se você se dedicar full time e contratar pessoas, botar dinheiro e correr atrás para ir na mosca como quem vai ao prato de comida, você vai fazer sucesso, vai ficar rico, fazendo um trabalho legal. Mas eu não me senti em condições de parar tudo que eu estava fazendo para fazer um trabalho que é 30% cultural e 70% comercial e promocional. Eu prefiro escrever. Nos últimos quatro anos, eu escrevi três livros, então tive um imenso prazer nisso e essa coisa de disco... eu não agüento mais estúdio, é chatérrimo! E disco também é chato, digo a mídia disco, não o show ao vivo, pois ao vivo é a coisa que eu mais gosto. Mas os discos, mesmo os melhores, estão cada vez piores. Se você tem hoje duas ou três músicas boas em um disco, já é uma maravilha. Eu não sei não, se você me oferecer um bom romance para ler e um bom CD para ouvir, eu acho que eu fico com o romance.

Regina Echeverria: O que você tem lido ultimamente?

Nelson Motta: Eu leio as coisas mais loucas, adoro romance, esses de virar a página, virar a noite ali, ficção. É a coisa que mais me descansa, que mais refresca a minha cabeça. Eu leio muita coisa séria, mais pesada, de internet, leio tudo de todos os gêneros, mas um bom romance de ficção...ah, eu adoro!

Regina Echeverria: Quando você acabou de escrever esse livro, fez um romance na sua vida.

Paulo Markun: Até um pedaço, deixou um pedaço para o segundo volume. [risos]

Regina Echeverria: Falta um pouco.

Nelson Motta: É. Isso foi até interessante, uma terapiazinha também, porque eu tive que fazer uma edição na minha vida, é uma possibilidade que pouca gente tem. Também pela distância do tempo e a distância geográfica de Nova Iorque, isso me deu uma certa neutralidade em relação aos acontecimentos, principalmente no início da minha vida. Eu pude ver os fracassos retumbantes que eu fiz, que estão abundantemente expostos no livro, sem nenhum pudor. Eu me diverti muito com isso, não fiquei ressentido.

Lorena Calábria: Você falou em ressentimento. Alguém ficou ressentido porque foi esquecido ou porque a história foi contada com uma outra visão? Alguém te procurou depois de ler o livro?

Nelson Motta: Bom, só pessoas que gostaram muito. Eu acho que, dificilmente, alguma pessoa vai se incomodar com esse livro. Dificilmente. Como escritor, eu tenho um grande amor pelos meus personagens, compaixão também. [Por exemplo], o Carlos Imperial [(1935-1992) ator, apresentador de televisão e produtor musical] é apresentado como um vilão de chanchadas da Atlântida, uma caricatura de um político profissional. Eu trato igualmente as pessoas, porque cada um teve o seu papel ali, é isso que dá a diversidade do livro. Eu acho que dificilmente uma pessoa vai se magoar com isso. E o critério que eu tive foi mostrar as pessoas que conviveram mais comigo. Se eu estivesse escrevendo um livro de referência, como "A história dos trinta anos da música brasileira", aí sim: "faltou não sei quem, tem pouco não sei quem". No meu caso, as memórias são minhas.  Posso contar mais coisas de quem convivi mais. Por exemplo, eu fui amigo do Tom Jobim, convivi muito com ele, em algumas épocas. Mas, não convivi tanto como o Tim Maia, então tem mais Tim Maia. Isso não quer dizer que Tim Maia seja mais importante que Tom Jobim, mas as histórias do Tim Maia eram muito mais divertidas. Esse foi o meu critério. O meu critério foi o leitor, foi o cara que está lendo aquilo, eu não hesitei em me expor em situações ridículas ou constrangedoras.

Paulo Markun: Qual foi o seu fracasso mais retumbante?

Nelson Motta: Um dos fracassos mais queridos é o Festival de Saquarema, "Som, Sol e Surf",  em 1976. Okky [de Souza] estava lá, Regina [Echeverria] também, todos vocês sabem que foi...

Okky de Souza: Estava.

Regina Echeverria: Eu também estava.

Nelson Motta: ...um fracasso total, eu fali, quebrei nesse festival. Artisticamente, foi uma porcaria, a única coisa interessante que houve ali foi o lançamento da Angela Ro Ro, que cantou duas músicas, foi a estréia dela. Choveu no primeiro dia, desabou o palco todo, perdemos dinheiro, artisticamente foi um fracasso, comercialmente foi um fracasso, mas a gente se divertiu muito. Mas, ao mesmo tempo, por causa desse festival fracassado que eu tive uma proposta para abrir o Dancin'Days [boate de grande sucesso no Rio de Janeiro. O nome deu origem à música "Dancin'Days" e à novela de mesmo nome, exibida na TV Globo em 1978], que foi um dos maiores sucessos da minha vida profissional, onde paguei minhas dívidas todas, foi uma maravilha aquilo. Então contei o episódio no sentido de mostrar para as pessoas que a vida é assim mesmo, para você não desanimar no seu fracasso, que ali pode estar o primeiro passo do seu sucesso. E aprendi também que no sucesso não se aprende nada, mas sim nos fracassos.

Paulo Markun: Se aprendesse, todo mundo fazia igual.

Nelson Motta: Exatamente. Então, eu dou grande valor aos fracassos, pude olhá-los com uma certa neutralidade, com humor. Pude avaliar também as coisas boas que fiz, sem falsa modéstia. Foi bom, foi bom mesmo. E outras coisas foram ruins, mas estão feitas, e uma coisa não existe sem a outra.

Lorena Calábria: Qual foi sua maior contribuição nesses trinta anos de serviços prestados à música?

Nelson Motta: Marisa Monte. Não só as músicas que ela faz, mas as letras, a carreira, a atitude artística, o caráter, o comportamento, a qualidade. Marisa é uma cantora de um sucesso enorme, o que ela vai fazer agora? É o máximo essa garota! Eu tenho orgulho de ter trabalhado com ela. E com a Marisa foi diferente, pude aplicar tudo que aprendi com os meus fracassos e nos discos, no jornalismo. Até ensinei a Marisa a lidar com os jornalistas: "Você não confie nunca em jornalistas, Marisa". Falei pensando em vocês todos... [risos] Isso é brincadeira, mas foi um conselho útil. Agora, das Frenéticas [grupo de música disco brasileira nos anos 70, formado por Sandra, Lidoka, Edir, Dudu, Leiloca e Regina, na discoteca Dancin' Days. O LP Frenéticas foi um estouro instantâneo, vendendo 150 mil cópias rapidamente] eu tenho tanto orgulho quanto da Marisa. As Frenéticas deram tanta alegria para o Brasil, numa época tão dura, tão triste [refere-se ao período da ditadura militar do Brasil, caracterizada pela intensa repressão política e censura]...Elas são de 1977, é o início de uma tênue abertura,  que culminou com a morte do Vladimir Herzog [jornalista assassinado pelos órgãos de repressão em 1975, durante a ditadura militar no Brasil, em episódio que desencadeou os primeiros grandes protestos que acabaram por levar à abertura política].

Marcelo Rubens Paiva: Tinha gente que falava que era um movimento muito alienado...

Nelson Motta: Muita gente falava isso. Foi um alívio para as pessoas poderem dançar, poderem se alegrar. Foi uma das maiores alegrias da minha vida quando eu vi "Perigosa" [música que consagrou as Frenéticas], todo mundo cantando na rua: "Eu sei que eu sou bonita e gostosa...", as mulheres feias, velhas, todo mundo podia dizer que era bonita e gostosa, as "bichas" delirando! Disso eu tenho um orgulho enorme, porque deu alegria para as pessoas. A maior alegria de um compositor é ver a sua música, chorei, fiquei enlouquecido com aquilo. Os discos da Elis [Regina] também, eu produzi dois discos dela, que estão entre os grandes discos de música brasileira. Regina, você que é uma especialista no assunto...

Regina Echeverria: Eu acho. [risos]

Nelson Motta: Ela era um colosso. É difícil comparar. Se quando eu produzi a Elis, já soubesse o que eu sabia quando fiz o disco da Marisa, "sai de baixo", né? A Marisa é a coisa mais completa que eu produzi.

Paulo Markun: Nelson, no seu livro quase não tem bandido. Todos os personagens são citados de maneira simpática. Isso foi intencional ou você esqueceu os bandidos no meio do caminho?

Nelson Motta: Foi.Tem tanta gente aqui que me conhece há tantos anos, é um jeito meu de estar na vida. É um jeito que eu me posicionei na vida, que não é nenhuma qualidade ou nenhum defeito, é uma característica. Eu, como jornalista, jamais perdi um amigo por causa de uma notícia. Ao contrário, nunca tive esse espírito de repórter. Eu admiro, eu gosto que façam esse trabalho por mim, especialmente quando eu vejo coisas sérias, sobre política, administração, economia, dou o maior valor aos repórteres que vão atrás, que "enchem o saco" dos caras e querem ser os primeiros a darem a notícia. Mas música popular? Se você ficar cutucando, vai encontrar pequenas fraquezas, escândalos pessoais, quem "comeu" quem, quem fumou o quê, quem cheirou o quê, quem roubou a mulher de quem, isso aí é... eu nunca me interessei muito por isso, não é minha área.

Marcelo Rubens Paiva: Mas e se você tivesse que criticar um disco de um conhecido, amigo seu, e o disco fosse muito ruim, você faria essa crítica ou adoçaria as palavras?

Nelson Motta: Não. Por todo tempo que eu trabalhei, eu nunca fui crítico de música full time, entendeu? Eu acho que seria impossível eu ter uma carreira de crítico de música, pois o cara tem que fazer a crítica de dois, três ou cinco discos por semana. Eu nunca aceitei fazer isso. Eu tinha uma coluna de notas e comentários no [jornal] Última Hora, depois em O Globo, por praticamente 15 anos. Quando eu gostava muito de um disco, falava do disco, às vezes escrevia a coluna inteira. Os discos de que não gostava, que achava chato, eu simplesmente ignorava, eu podia fazer isso porque não tinha edição. Também foi uma certa esperteza profissional, porque da mesma forma que eu sou amigo dessa gente toda que está na música brasileira há tantos anos, eu sei de muita coisa, de muita gente... Todo mundo fez coisas erradas, deu vexames, micos e tudo, muita coisas que eu sabia e que não falei, para não perder o amigo. Por causa dessa notícia que eu deixei de dar, ganhei cem notícias ótimas, as pessoas tinham confiança em mim, então eu sempre tive todas as fontes de informação maravilhosas, porque as pessoas sabiam que eu não ia contar aquela frutinha podre, eu tinha caixas de frutas maduras, boas. E eu não me arrependo disso.

Carlos Calado: Nelson, sobre essa coluna que você escrevia no jornal Última Hora, em um determinado momento do seu livro, você conta que percebeu, nos anos 60, que a música também era comportamento, política, atitude, e isso ficava claro para quem lê a sua coluna. Agora, eu queria que você se reportasse a hoje. Até que ponto esse approach que a indústria, de certo modo, lança sobre a música, quer dizer, esses clichês de comportamento não sufocaram a música? A gente está cansado de ver diariamente bandas e artistas de, praticamente, um sucesso só. Você vê ali naquela quinzena e adeus, nunca mais!

Nelson Motta: Carlos, nesse tempo, quando eu comecei a perceber isso, havia um conflito muito grande entre meus amigos - que eu chamo de "pessoal da música", como Dorival Caymmi, Edu Lobo, gente de um enorme talento - e esse interesse da música como comportamento, política, moda, que me interessava muito. E era muito difícil você estabelecer um diálogo com essas pessoas. Eu vivia lá, detesto quando meus amigos brigam entre si, eu fico nervosíssimo, e fico tentando apaziguar. Eu gosto de harmonia, eu não gosto de polêmica, raras vezes me envolvi em polêmicas. Não quero convencer ninguém, há muito tempo já desisti de querer convencer as pessoas de alguma coisa, se quiser acreditar, ótimo, se não quiser, não tem o menor problema. Se uma pessoa me mostrar outro ponto de vista, eu adoro, aceito na hora, e digo: "você tem toda razão". Mas, nessa época era muito difícil, porque você vivia num clima de repressão política, de paranóia total, tinha medo de tudo, o amigo seu que está ali do lado podia ser um "dedo-duro", você estava em um restaurante...era complicadíssimo. As pessoas da nova geração não sabem a merda que foi viver nos anos 70 no Brasil, o clima horroroso que se vivia. Isso tudo influenciou muito o radicalismo musical. Os caras também não tinham a possibilidade da discussão política, social e econômica, então ficavam brigando por causa de música, enquanto os caras lá em cima "mandavam bala" na gente, roubavam a economia. Não podiam ter opinião sobre nada, e ficavam discutindo tudo ali no plano da música popular.

Regina Echeverria: E no entanto, 1964, como você coloca no livro, foi um ano magnífico para a MPB.

Nelson Motta: É um ano maravilhoso para a música brasileira, para Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Elis Regina, Jorge Ben Jor, esse pessoal explode mesmo em 1964.

Zuza Homem de Mello: Nelson...

Nelson Motta: Diga Zuza, muito obrigado pelo seu livro. Eu já falei aqui, e vou falar em público, que devo muito esse livro ao livro de vocês, A canção no tempo, que me deu as datas corretas, precisas, os autores, para que eu pudesse criar minhas histórias, os meus testemunhos, seguindo a espinha dorsal que vocês criaram. Obrigado Zuza, eu devia pagar por isso!

Zuza Homem de Mello: Imagina, nossa amizade é muito grande. Aliás, o livro é lindíssimo, um dos produtos gráficos mais bonitos que eu tenho visto no mundo!

Nelson Motta: Luiz Stein. [refere-se ao profissional responsável pelo projeto gráfico do livro]

Zuza Homem de Mello: Uma coisa lindíssima, parabéns para vocês! Você tocou, há pouco, na leitura dos livros, mas não falou qual disco você está ouvindo. Eu queria perguntar se você já ouviu o disco do João Gilberto [refere-se ao álbum João Gilberto Voz e Violão, lançado em 2000]?

Nelson Motta: Ouvi. Não ouvi tanto quanto eu gostaria, mas o pouco que ouvi, eu gostei tanto, achei tão lindo, achei... Primeiro, eu acho essa música "Desde que o samba é samba", do Caetano Veloso, uma das três maiores músicas que ele fez na vida, uma síntese social e antropológica, retratando o Brasil através do samba. Até cito essa música como prova de que os anos 90 não foram tão ruins para a música brasileira, [afinal] foi quando Chico Buarque fez "Futuros amantes", quando Jorge Ben Jor faz "W Brasil", não pode ser tão ruim. No CD do João, só a música "Vim da Bahia", do Gil, que eu achei um pouco esquisita, tem uma elipse ali numa frase, não entendi direito. Mas eu acho que o João está muito melhor do que nunca, como violonista ele nunca esteve tão bom, a idade dele não afetou em nada isso. E o João é metade voz e metade violão, no mínimo. Então, nesse ponto, ele está melhor do que nunca. O repertório do João Gilberto, pelo amor de Deus, é o seguinte...todo mundo fala na música brasileira, mas o João que é um gênio, que é cantor, e mesmo os grandes fãs, raramente falam: "Vai olhar a qualidade das músicas que João Gilberto gravou". São músicas dos anos 30, dos anos 40, que ele vai pegar no baú, a melhor da obra de Tom Jobim, de Carlos Lyra, de Chico Buarque, de Gilberto Gil, então, claro, a voz não é mais a mesma, a minha também não, de todos nós...Mas a cabeça dele, onde ele imagina as frases musicais, as divisões, as harmonias que ele faz, os atrasos, os adiantos, é uma coisa de louco, né?

Zuza Homem de Mello: As harmonias de "Chega de saudade", ele mudou a música inteiramente, né?

Nelson Motta: Eu discordei totalmente de uma crítica que saiu do João Máximo [jornalista e crítico de música], que saiu na TV Globo. Ele é um amigo que admiro, respeito, mas ele disse "O João Gilberto vai cantar 'Desafinado' mais uma vez, a essa altura da vida?". Eu acho que foi um ato de grande coragem artística dele e acho a gravação...está certo, a voz dele em 1958 tinha um brilho, um frescor, que é claro que não tem mais, o homem está com quase setenta anos. Mas a voz dele ganhou nos graves, ganhou em profundidade, ganhou em leveza também.

Zuza Homem de Mello: Clareza.

Nelson Motta: Ele foi corajoso de gravar de novo "Desafinado", e foi melhor. A gravação é superior à gravação original, como a harmonia, o ritmo, o fraseado dele. Ele deu a versão definitiva, como se pudesse existir isso. Achei superior à gravação original.

Carlos Calado: Nelson, falando ainda em discos recentes, você deve ter notado, de um ano ou dois para cá, uma verdadeira onda, um modismo de discos gravados ao vivo. Claro que alguns eu acho que são plenamente justificáveis, grandes shows como o do Chico Buarque, da Maria Bethânia, da Gal Costa. Mas sabemos que outros são meros truques das gravadoras para investirem menos. Quer dizer, é lógico que é muito mais barato fazer um disco ao vivo, você ir lá e registrar um show. Até que ponto essa falta de investimento das gravadoras não está ajudando a sufocar, vamos dizer, a inovação, a experimentação da música popular brasileira?

Nelson Motta: O problema dos discos ao vivo é que nenhum é [realmente] ao vivo, o cara retrabalha tudo aquilo em estúdio, põe as vozes de novo, regrava os instrumentos, e tudo que não é...

Lorena Calábria: Enche de aplausos...

Carlos Calado: Na verdade, é no estúdio que rola muita novidade, é onde você testa...

Nelson Motta: No estúdio é que rola. Mas, por exemplo, o primeiro disco da Marisa Monte é ao vivo, isso é um absurdo na música brasileira, música em qualquer lugar do mundo, você fazer a estréia de um artista com disco ao vivo. Nós fizemos e temos o testemunho dos técnicos da Odeon, onde nós gravamos, de que a voz da Marisa não foi mexida em nada. A voz que foi, ficou. Mexemos nos instrumentos, porque a bateria estava ruim, refizemos alguma coisa, a Marisa refez todos os backing vocals cantando junto com as garotas. Mas a voz dela ficou, não mudou nada. Então, eu acho que foi um trabalho mais honesto. Vendeu quase um milhão de discos.

Mauro Dias: Falando em Marisa, eu acho que há um tom de lamento nessa história. Você diz: "Puxa, ela foi embora...".

Nelson Motta: Eu fiquei arrasado, me apaixonei por ela. Eu também contei essa história com grande discrição, porque acho que é um dado importante para você entender a carreira de uma grande artista brasileira. Se não fosse nessas condições, talvez eu...

Mauro Dias: Você tinha um projeto de carreira para ela?

Nelson Motta: Não, não tinha nada.

Paulo Markun: Você tinha um projeto de vida com ela?

Nelson Motta: Não tinha. Eu fiquei triste pela consciência dessa impossibilidade, ela era uma menina de 20 anos e eu tinha 43, ela era muito culta. Só um bobo que pode imaginar que possa dar certo uma coisa dessas! Na vida não é assim, entendeu? Essa diferença de gerações não pode determinar um projeto de vida sério, entendeu? Uma garota de 20 anos quer o quê? Quer conhecer gente, viajar, namorar, ir para a noite, dançar, comprar. E eu, com 43 anos, já estava de "saco cheio", não queria conhecer mais ninguém, então são projetos de vida incompatíveis. Eu gostava dela como gosto muito dela até hoje, é uma querida amiga, e me separei dela ali, no final, quando saiu esse disco. Nunca brigamos, continuamos amigos até hoje. Eu quero só esclarecer uma coisa: namorei muitas outras cantoras, atrizes e gente conhecida, e não tem ninguém no livro. Eu jamais faria isso...

Regina Echeverria: Conta!

Nelson Motta: Eu não vou contar, Regina, eu não botei no livro...É fofoca, é coisa sem importância nenhuma. Tem importância, uma enorme importância, eu ter me apaixonado pela Elis Regina, ter me divorciado da minha mulher, ter me dedicado quase dois anos da minha vida à carreira da Elis. Sei que isso mudou o rumo da carreira de uma artista importantíssima. Então, por isso eu contei, porque facilita a compreensão da carreira da Elis, que sempre misturou muito a música com o coração, todos os namorados, os homens da vida da Elis, foram pessoas que tiveram profunda influência na vida artística dela. Então, outros namoros que tive eu não contei, porque não interessa a ninguém. Eu só falei dos meus sentimentos em relação à Marisa. Para saber os sentimentos dela em relação a mim, você tem que falar com ela.

Zuza Homem de Mello: Nelson, a que você atribui o fim das Frenéticas?

Nelson Motta: Ah, acho que foi um desgaste natural, Zuza. Foi um desgaste natural, uma superexposição, elas cresceram com a onda da discoteca e elas foram saindo de cena na medida em que a onda da discoteca foi se esgotando também. Elas poderiam ter feito uma mudança na carreira, eu não sei direito o que houve, tiveram problemas pessoais. O último disco das Frenéticas foi um disco de Lamartine Babo [Babando Lamartine, de 1980]...

Zuza Homem de Mello: Pois é, isso que eu ia falar. Eu lembro desse disco e eu vou citá-lo como algo que poderia ter assentado a carreira, podia ter estabelecido...

Nelson Motta: Podia ter estabelecido as Frenéticas como artistas de MPB.

Zuza Homem de Mello: No entanto, não aconteceu isso.

Nelson Motta: Eu acho que o disco foi feito em uma época errada, talvez, elas começaram a se desentender, eu não sei direito o que aconteceu ali, mas esse disco poderia perfeitamente ter feito essa ponte entre as Frenéticas e a MPB, porque elas tinham muito menos influência norte-americana, da disco norte-americana do que das chanchadas da Atlântida. Elas tinham muito mais influência das chacretes [mulheres que dançavam nos programas Discoteca do Chacrinha, Buzina do Chacrinha e Cassino do Chacrinha, apresentados pelo Velho Guerreiro entre 1956 e 1982] do que da Donna Summer [cantora pop dos Estados Unicos, conhecida por suas gravações em estilo disco dos anos 70, que deram a ela o título de "Rainha da Disco"]. É a diferença entre a chanchada e Hollywood.

Marcelo Rubens Paiva: Por que a black music não entra no Brasil como entrou o rock? O black é poderoso no mundo todo, mas no Brasil só temos o Tim Maia e um ou outro.

Nelson Motta: Gozado, não tinha pensado nisso.

Marcelo Rubens Paiva: É por causa do samba?

Nelson Motta: De uma certa forma, o samba supre muito essa função. Quando eu conheci o Tim Maia, na virada para os anos 70, a música brasileira estava em um certo impasse, porque o Tropicalismo tinha começado e tinha acabado, praticamente, com a prisão e exílio do Caetano, havia um rock brasileiro incipiente, mas muito branco, muito inglês, muito americano...Então a opção era entre esse rock internacional ou a MPBzona, que já tinha naquele tempo. O Tim Maia entrou no meio disso trazendo a música negra americana e misturando isso com baião, aí arrebentou com tudo, quebrou essa opção, que não era boa para nenhum dos lados. Veio com uma terceira coisa, que tinha muito mais identidade de raízes culturais, étnicas e religiosas com a música negra americana. Mas eu acho que tem grandes artistas, como Cláudio Zoli,  Ed Motta...Eu vi esse [grupo] Fat Family cantando, essa garota do Fat Family, a Deise, é uma das maiores cantoras que eu vi no Brasil.

Paulo Markun: O seu livro também menciona os festivais. Este ano há uma tentativa de recriar alguns festivais, um deles é o festival da TV Globo [Festival da Música Brasileira, que aconteceu em agosto de 2000].

Carlos Calado: E o da [rádio] Eldorado também...

Paulo Markun: Isso, são dois festivais importantes. Você acha que ainda é possível um revival dos festivais, eles representarem algo para a música brasileira?

Nelson Motta: Acho que sim, acho que é uma ótima oportunidade, porque as pessoas podem expor a sua música. Mas, para quem viveu aqueles festivais de 1967, 1968, fica difícil porque onde você vai encontrar um festival em que estão competindo Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Jobim, Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Jorge Benjor, na flor da idade, em plena potência criativa? É difícil você juntar um time desses. Eu diria que é impossível. Mas um festival como uma vitrine para novos talentos é uma das melhores coisas que existem, já que a rádio e a televisão estão tão fechadas, ficam só no pagode...

Okky de Souza: Nelsinho, na sua coluna [O Globo], você faz considerações sobre como fazer com que a música brasileira seja mais divulgada no exterior. E uma das formas seria fazer letras em inglês, já que o português ninguém fala.

Nelson Motta: Sim, é indispensável.

Okky de Souza:  Eu queria que você falasse sobre isso, verter toda a música brasileira atual para o inglês seria a saída?

Nelson Motta: Eu acho que isso foi a partir da bossa nova. Muito dificilmente, a bossa nova teria toda a repercussão e o sucesso popular que teve nos Estados Unidos e no mundo, se ela fosse cantada só em português. Então, nós tivemos sorte e  competência ali, porque o Tom Jobim e alguns dos melhores letristas norte-americanos fizeram versões...O Tom Jobim falava um inglês maravilhoso e ele fez grandes letras para praticamente todas as músicas dele, e continuou fazendo, fez várias letras originais em inglês. O Tom Jobim era uma das minhas grandes paixões como letrista, para mim, eu acho ele um letrista extraordinário! Se não me batessem aqui na saída e eu tivesse que me mudar para Nova Iorque, eu diria até que gosto mais da letra do Tom que do Vinicius de Moraes. Se nos Estados Unidos você cantar em português ou em chinês, o espanto é o mesmo, porque o cara não entende uma palavra. Os americanos são muito ignorantes, como todo mundo sabe, é raro você encontrar um americano que fale  outra língua. Eles têm um desprezo absurdo pelo mundo inteiro.

Okky de Souza: E como produtor, você faria um disco hoje no Brasil e acharia uma boa jogada de produção você gravá-lo em inglês?

Nelson Motta: Eu acho que seria um projeto interessante. Chico Buarque fala um inglês maravilhoso, Caetano Veloso fala um inglês maravilhoso, Gil, Rita Lee, Lulu Santos, eu conheço tantas pessoas que têm capacidade de fazer boas letras em inglês para as suas próprias músicas! Acho que valeria a pena as pessoas tentarem, se tiverem interesse. Por exemplo, Caetano falou que não tem interesse nenhum em fazer uma carreira internacional nos Estados Unidos, ele vai lá uma vez por ano, faz seus shows. Quem é que pode fazer uma carreira internacional? Marisa Monte, Daniela Mercury, Ed Motta, Ivete Sangalo, porque isso precisa de juventude: encarar aquela turnê, vinte shows, em 25 dias, de ônibus, abrindo show de não sei quem...A carreira internacional  está reservada para esses mais jovens.

Carlos Calado: Mesmo assim, nessa última década, você acompanhou mais de perto o mercado  norte-americano. Você sente que ele está um pouco mais aberto, mesmo para artistas brasileiros que cantam em português? Isso porque a mídia...

Nelson Motta: [interrompendo] O Jon Pareles, principal crítico do jornal The New York Times, é um dos críticos mais influentes dos Estados Unidos, conhece música feito louco. E eu digo a ele: "Jon, você está levando uma grana do Ministério da Cultura do Brasil, cara? Porque não é possível. Todo mundo que vai a Nova York é aquela maravilha, é um Deus, é genial, é tudo". O Pareles fala espanhol, estudou muito para aprender letras de música brasileira. Os caras que entendem as letras falam: "Pô, esse pessoal no Brasil, poeticamente, estava trinta anos na frente dos americanos na mesma época". E ainda com a diferença que a gente estava em uma ditadura truculenta e os americanos estavam em plena liberdade dos anos 70. No Brasil, se produziam letras com uma densidade, com uma ambição poética, que raramente se vê na música americana. Então eles estão encantados agora, também com as letras. Falei: "Puxa, o Chico Buarque podia fazer umas letras em inglês para as músicas dele. O Chico já é conhecido como músico, se ele mesmo pudesse fazer dez, 12 grandes músicas dele em inglês, seria maravilhoso!".

Lorena Calábria: Você fala muito de letristas, você já escreveu várias letras e sucessos. Como você se considera como letrista? Você sempre fala que você está ali, entre os médios. O que significa isso?

Nelson Motta: É verdade, meu amigos sabem disso.

Lorena Calábria: Mas quem são os médios?

Nelson Motta: Os médios não, eu falo dos grandes, dos caras que são só letristas, que não são músicos. Quem faz letra? Aldir Blanc [compositor, autor da música "O bêbado e o equilibrista", de enorme sucesso durante a ditadura militar], que é o melhor de todos, Ronaldo Bastos, José Carlos Capinam, Abel Silva é um poeta musical...

Lorena Calábria: Fausto Nilo.

Nelson Motta: Quem? Fausto Nilo! Eu me considero um segundo time desses aí, e eu nem sonho em chegar perto de Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Rita Lee, Tom Jobim. Então eu me coloco no segundo time desse pessoal, mas eu sei que eu tenho méritos nisso. Eu tenho boas letras e tive a felicidade de ter boas músicas...Porque não adianta nada ser um grande letrista se a música é uma porcaria. Quem não gostaria, imagine o Lulu Santos chegar com uma música e dar vida para "Como uma onda" [cantarolando].

Lorena Calábria: Na hora em que você fez a música [Nelson Motta é autor do sucesso "Como uma onda"], você teve essa sensação?

Nelson Motta: Sim, na hora eu senti. Minhas melhores músicas são: "Como uma onda", com o Lulu Santos, o "Dancin'Days", que considero uma letra boa, bem feita, tem rimas boas, tem sonoridades, estrofes.  "Caia na gandaia", isso é bom. Essa coisa  de "livre, leve e solta" todo mundo fala, ficou vulgar, mas foi uma novidade.

Okky de Souza: "Coisas do Brasil" [gravada pelo cantor Guilherme Arantes].

Nelson Motta: "Coisas do Brasil" é das que mais gosto. E há uma bossa nova que é "Meu primeiro amor", fiz a letra ali no Rio de Janeiro, anos 60, naquele barzinho à beira mar. Eu fiz questão de fazer isso. Tenho umas músicas com o Djavan, que eu gosto bastante. E agora estou voltando com Ed Motta, eu sou fã do Ed Motta.

Paulo Markun: Este programa está sendo exibido durante o Carnaval, e uma das suas iniciativas foi justamente em uma época em que não se faziam mais músicas de carnaval como antigamente. Você chegou a tentar fazer um disco. E, de lá para cá, isso piorou ainda mais. Quer dizer, não há mais músicas de carnaval. Há os enredos das escolas de samba, que produzem aquele disco em São Paulo e no Rio de Janeiro e ponto final, além do carnaval da Bahia. Passou o tempo, não tem mais espaço?

Nelson Motta: Não, como você disse, a Bahia reviveu muito o carnaval. Ali é carnaval o ano inteiro. Eu gosto de música de carnaval. A primeira frase do meu livro é: "Eu não gostava de música", porque quando eu tinha 13,14 anos, em Copacabana, tocavam aqueles boleros, samba-canção, Ary Barroso, Rádio Nacional [é considerada o berço dos mais populares programas de auditório e radionovelas da história do rádio brasileiro.Transmitia famosas novelas, programas de humor, musicais e jornalismo], achava aquilo tudo um "saco", não tinha nada a ver com a minha vida, ninguém da minha turma estava ali. Eu gostava era das músicas de carnaval, das chanchadas da Atlântida. E todos os grandes compositores da época faziam músicas de carnaval. Quando comecei a produzir disco, sempre tive essa idéia. Uma foto nossa, que virou histórica, é a única que existe no Brasil onde estão praticamente todos nós, com exceção do Gilberto Gil. Tivemos a idéia da foto, falamos com o Vinicius [de Moraes], que achou uma ótima idéia juntar: "Por que esses compositores novos, Tom, o Edu, o Caetano, o Paulinho da Viola, não fazem música de carnaval?". Todo mundo adorou a idéia, porque o carnaval estava decadente, só tinha samba-enredo. Essa foto é 1967. Fomos todos para a casa do Vinicius, bebemos à beça, tiramos essa foto, e eu como era o mais baixinho, fiquei ali na frente. O célebre Braguinha [Carlos Alberto Ferreira Braga, (1907-2006), também conhecido como João de Barro, compositor de marchas de carnaval] também...ele já fazia músicas de carnaval desde os anos 30, eram músicas geniais. Talvez seja o nosso maior compositor de carnaval, ao lado do Lamartine Babo. E, por volta de 1973, foi o último disco que eu produzi na Phillips, quando eu abandonei a produção para trabalhar como jornalista em O Globo. Aí eu fiz um disco e chamei Raul Seixas, Fagner, Tim Maia, Chico Buarque, Sá e Guarabyra, que gravaram frevos, sambas. O Caetano foi um dos primeiros, quando ele fez "Atrás do trio elétrico" foi um impacto na minha vida. Eu adorei aquela música, eu não conhecia trio elétrico, ninguém conhecia quando Caetano falou: "Olha, Nelsinho, na Bahia tem esse trio elétrico, os caras tocam, lá na Bahia isso é natural". E era mesmo, nunca tinha visto um trio elétrico! E quando Caetano apareceu com essa música, todo mundo gostou. E tinha uma música dele nesse disco de carnaval que é aquela: "A praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião, o frevo novo..." [cantarolando]. Maravilhosa! Esse disco valeria a pena ser reeditado, o título é um pouco otimista, em pleno 1973: O carnaval chegou. Na verdade, é uma brincadeira com o filme do [cineasta] Cacá Diegues, Quando o carnaval chegar [1972]. E a gente ficou a vida inteira esperando, igual esperamos "o grande amanhã", a esquerda brasileira sempre esperava "o grande amanhã", que não veio nunca...aliás, foi o Collor.

Paulo Markun: Por que no Brasil não temos musicais de qualidade, de sucesso e até de investimento alto?

Nelson Motta: Eu acho que é porque no Brasil é tudo tão pobre, tão desprezado, que é tão complicado de fazer uma peça de teatro com três personagens! É duro, cara. Um musical tem que ser bem feito, tem que ser uma música ao vivo, não pode fazer musical de playback, tem que ter orquestra, tem que ter grandes cenografias, tem que ter dança. Eu detesto musical  norte-americano, fazendo uma confidência aqui. Eu detesto esses musicais da Broadway, essas coisas atuais. Eu estou comemorando porque Cats [musical composto por Andrew Lloyd Webber, que estreou em 1981, mas se consagrou por mais de vinte anos em exibição] saiu de cartaz , é uma das piores porcarias da minha vida.

Zuza Homem de Mello: E os musicais que ainda estão na Broadway, Annie get your gun e Kiss me Kate, de Cole Porter [compositor norte-americano]?

Nelson Motta: Quantos musicais o Cole Porter fez? Quantos musicais o George Gershwin fez? Essas coisas vivem até hoje. Esse Andrew Lloyd Webber é que eu acho um "saco". Reconheço até que uma ou outra música é bonita, mas como estilo de compositor, é o que tem de pior, aquele sentimentalismo barato, aquela grande eloqüência vazia. Isso eu detesto!

Zuza Homem de Mello: O que você não gosta não é dos musicais da Broadway, é dos musicais atuais da Broadway?

Nelson Motta: O que aparece lá, eu falo: "Eu não acredito, cara". No Brasil, houve uma época de musicais, o Opinião [show Opinião, que estreou em 1964, apresentado por Zé Keti, João do Vale e Nara Leão. Foi uma produção realizada em parceria entre o Centro Popular de Cultura e o Teatro de Arena inspirada em uma visão popular e nacionalista, propondo a aproximação entre bossa nova e samba de morro] é um musical, tinha textos...

Paulo Markun: Sim, lá atrás você teve o Cassino da Urca, o  teatro de revista [gênero teatral que emergiu em meados do século XX, misturando musicais, comédia e algumas críticas sócio-políticas].

Nelson Motta: Sim, eram musicais. Eu não imagino hoje como alguém possa montar um musical como se deve, o Calabar [Calabar: o elogio da traição, peça teatral escrita no final de 1973] do Chico Buarque e do Ruy Guerra, é talvez o maior código musical já escrito nessas últimas décadas de música brasileira. Ali tem, pelo menos, umas cinco ou seis músicas sensacionais.

Zuza Homem de Mello: O Chico tem o domínio da técnica de escrever música para musical, que é uma técnica diferente.

Nelson Motta: É verdade, você tem toda a razão. Mas isso seria uma coisa maravilhosa no Brasil. Compositor é tudo meio preguiçoso ou desmotivado. Se você fala: "Você vai ter que escrever dez músicas", eles adoram, eu também. Eu não estou preparado para a liberdade, eu já cheguei a essa conclusão: tem que ter pressão. Vou lá e faço.

Marcelo Rubens Paiva: Nelson, eu queria mudar de assunto e falar de um tema que eu percebi que você foi cuidadoso em seu livro, que é em relação ao rock dos anos 80. E é curioso, porque houve um gap muito grande entre o que estava acontecendo e o que as gravadoras e as emissoras de televisão, e até o Rock in Rio [festival de música de repercussão internacional, realizado no Rio de Janeiro, pela primeira vez em 1985], pelo qual você foi responsável, exibiram. O rock começou em São Paulo em 1982, já havia muitas bandas. E, no entanto, as gravadoras demoraram muito tempo para investirem nesse nicho no mercado. Quer dizer, os investimentos em 1985, com o Rock in Rio, onde nem estava o rock representativo dessas casas, desse movimento. Os Paralamas do Sucesso foram e fizeram um discurso homenageando e dedicando o show a todas as bandas...

Nelson Motta: [interrompendo] Aos [grupos de rock] Titãs, Ultraje a Rigor, que não tinham shows, não foram chamados.

Marcelo Rubens Paiva: É uma curiosidade que eu tenho, o mercado todo estava apontando para aquilo e demorou muito para as gravadoras sacarem esse nicho. E, por outro lado, em outros mercados isso nunca acontece. Se aparece um bom ator de teatro, imediatamente ele vai para a televisão. Se aparece um bom escritor, esse livro é imediatamente publicado, é badalado pelos cadernos culturais. Mas as gravadoras, não. Quer dizer, demorou para as gravadoras investirem no rock, o manguebeat já estava em Pernambuco e só uma gravadora grande se interessou, a Sony, pelo Chico Science [(1966-1997) cantor e compositor]. Em São Paulo, agora há um movimento rap fortíssimo e nenhuma gravadora se interessa, quer dizer, eles mesmo que prensam os seus discos. Por que existe esse gap? Por que as gravadoras não percebem o que está acontecendo no mercado?

Nelson Motta: Sempre foi assim. Há algumas pessoas que trabalham em gravadoras que são de alto nível, mas pouquíssimas. Vá ver quem trabalha em gravadora, cara! É uma obsessão com a coisa mais imediata, o cara tem que vender o disco no dia seguinte ali, eles não têm nenhuma perspectiva futura. Caiu muito o nível das pessoas que trabalham em gravadora. Acho que virou uma coisa tão comercial...

Marcelo Rubens Paiva: É exatamente por isso que tinha que ter bons profissionais.

Nelson Motta: Porque eles estão ali, olhando o que está acontecendo na hora, depois é que vão atrás. Aí já é tarde demais. Eu acho que, nos anos 80, eles descobriram tarde e depois, quando descobriram, ficaram loucos porque o rock era baratíssimo de se fazer. É um dos principais motivos pelos quais as gravadoras investiram em rock. É claro, ao invés de pagarem uma orquestra enorme, arranjadores, maestros, produtores para fazerem um disco de MPB, que dava um trabalho danado, pegavam uma banda de quatro, cinco garotos, que faziam as músicas, as letras e tocavam. Era só colocá-los num estúdio ali e saia quase de graça. Então, também foi esse imediatismo das gravadoras que acabou dando esse impulso ao rock.

Mauro Dias: Nelsinho, eu queria fazer duas perguntas acopladas. Primeiro, a gente está falando de gravadora institucional e agora, há pouco tempo, a WEA comprou a EMI e viraram um gigante só, então acho que a gente não pode esperar muitos discos vindo daí. Eu ouço muita gente nova, interessantíssima, acho que existem os projetos de Chico Buarque, de Caetano Veloso, existe uma garotada de 18 a vinte anos fazendo músicas extraordinárias, mas que não vão chegar, de forma alguma, e eu começo a perceber, principalmente aqui em São Paulo, o surgimento de pequenas gravadoras que se alimentam umas das outras, vão começando a se faze,r à margem da grande indústria, como se precisasse reinventar toda a ousadia. Eu não sei se existe um paralelo em outro lugar do mundo, não sei se nos Estados Unidos, além da Sony e da Warner, você tem algo acontecendo ali...

Nelson Motta: Mauro, eu acompanho, com grande interesse, toda essa revolução da internet, de todas as coisas e as conseqüências que isso está gerando. E um dos campos mais afetados, ao meu ver, positivamente, é o musical. Hoje, qualquer pessoa pode fazer um disco em um estudiozinho em casa, as coisas estão cada vez mais baratas, mais fáceis, hoje qualquer pessoa tem em casa um equipamento muito, muito, muito melhor do que o equipamento de estúdio que eu gravei os discos da Elis Regina em 1970. Qualquer um tem ou tem um amigo que tem. Uma pessoa pode fazer um disco em casa inteiro, sozinho. Como o [cantor brasileiro] Lobão fez, pode vender na internet, não só para o Brasil, como para o mundo inteiro. O próprio cara pode "queimar" o CD em casa, fabricar. Então, isso é uma situação inédita, nem o mais delirante anarquista poderia imaginar algo que poderia dar uma total liberdade de produção e criação. Nós, que vivemos sob uma censura quase mitológica, com a internet acabou, ela arrebentou com tudo. Nunca foi tão fácil fazer um disco. E nunca foi, por isso mesmo, tão difícil fazer sucesso com um disco, porque tem tanta oferta...Quando um cara vem falar para mim: "Ah, não há espaço para o artista novo no Brasil". Eu ouço esse papo há quarenta anos. Eu digo: "Olha aqui, se tivesse espaço para todos esses artistas novos do Brasil, não teria espaço para ninguém", exatamente porque você tem uma oferta colossal, então....Pela internet, o cara vai se ligando a pequenas distribuidoras. Hoje, nos Estados Unidos, o segundo lugar de vendas de discos são as companhias independentes somadas. Não há mais esse problema. As grandes gravadoras vão se tornar distribuidoras, quase de software, na verdade. Um disco jamais será o mesmo depois da internet. Cara, você pode ter certeza...não sei o que eles vão fazer, se eles vão lançar um produto novo, um álbum do tamanho de um LP, com quarenta folhas e o CD vem junto, é um CD-ROM que tem um vídeo, que tem cena do making of e tudo, tem que ser uma coisa assim.

Mauro Dias: Isso já existe. Eu acho que eles também não sabem o que vão fazer.

Lorena Calábria: As gravadoras estão bem preocupadas.

Nelson Motta: Não sabem o que vão fazer. E eu estou adorando isso! Estou adorando, porque é uma liberdade com a qual ninguém jamais sonhou. Liberdade não só artística, mas comercial também, E vem esses caras pentelhos no Brasil: "Tem que arranjar um jeito de taxar a internet". Os caras querem botar um imposto de venda ali, para mamar mais, e vai ter fiscal levando grana, para esses deputados torrarem, o de sempre que a gente está cansado de saber. Nos Estados Unidos, ninguém mexe nisso, ninguém vai botar a mão, não vai botar taxa em cima... No Brasil, a coisa começou a dar certo, e já tem um deputado querendo botar um imposto sobre vendas. Ah, eu temo pelo que possa acontecer aqui. Todas essas conquistas tecnológicas que vivem da liberdade... acho que em nenhum lugar do mundo se paga tanto imposto como no Brasil.

Paulo Markun: Você trabalhou em Portugal, no ano passado, e uma das coisas que você fez foi o programa Atlântico...

Nelson Motta: Vai passar aqui na TV Cultura, em abril.

Paulo Markun: Eu queria que você contasse um pouco sobre esse programa e o que o pessoal pode esperar.

Nelson Motta: O programa, modestamente, é lindo. Eu falo à vontade porque eu não fiz nada nesse programa, eu fui chamado pela Eugênia Melo e Castro, que é uma amiga minha, uma grande cantora portuguesa e grande amiga da música brasileira. Ela falou: "Tive idéia de um programa, estamos produzindo aqui com a RTP [emissora de televisão portuguesa], a idéia é maravilhosa. você quer apresentar o programa comigo?". E eu falei: "Com o maior prazer". E fui fazer. A idéia dela era muito simples: juntar um artista português e um brasileiro em um programa, onde teria também uma entrevista. Um dos programas foi com a Marisa Monte e Cesária Évora, uma das maiores cantoras do mundo, é um gênio, fez um sucesso enorme nos Estados Unidos, na Inglaterra, ela está em outro patamar.

Paulo Markun: Ela é cabo-verdiana, não?

Nelson Motta: É, é cabo-verdiana. A Marisa cantou três músicas com a banda dela, a Cesária cantou três músicas, as duas cantaram duas músicas juntas, foi lindo aquilo. E no final, nos juntávamos eu, Eugênia, Cesária e  Marisa e conversávamos durante uma hora, depois editamos o programa costurado por essas falas da entrevista. Teve outro programa do Herbert Vianna, do Ed Motta com um grupo de crioulos angolanos, que se chama Blackout, o Edu Lobo fez um programa. Um dos que eu mais gostei é o da [cantora brasileira] Simone com a Dulce Pontes. A Dulce Pontes é uma das maiores cantoras do mundo, é uma cantora portuguesa de 28 anos, que já lançou três discos, ela canta em português brasileiro, até sem sotaque, porque ela foi formada pela Elis Regina, por essas grandes cantoras brasileiras. Então são 12 programas com essas duplas e eu acho que vai ser uma ótima oportunidade para o pessoal do Brasil ver que tem tantos artistas portugueses modernos e de qualidade.

Regina Echeverria: Nelsinho, você e seu primo Ricardo Amaral [empresário brasileiro do ramo de entretenimento e casas noturnas], são paulistas né?

Nelson Motta: Somos paulistas mesmo!

Regina Echeverria: E viraram símbolos do Rio de Janeiro, é uma coisa engraçada.

Paulo Markun: O prefeito de São Paulo é carioca [refere-se ao então prefeito Celso Pitta, que administrou São Paulo entre 1997 e 2000].

[sobreposição de vozes]

Nelson Motta: Eu devo muito à minha mãe. Minha mãe adorava música, tocou piano a vida inteira, ela adorava bossa nova, o João Gilberto. Em um dos primeiros shows de bossa nova - eu tinha uns 15 anos -  fui com meu pai e minha mãe. E tinha um primo nosso, o Augusto Melo Pinto, que é produtor de televisão carioca e era amigo do Ronaldo Bôscoli, da Nara e, através do Gugu, eu entrei na bossa nova, conheci João Gilberto e tudo isso aí. Mas a minha família não é muito musical. Eu tenho uma filha que canta muito bem. Meu pai era advogado, mas minha mãe tem boas músicas, eu fiz letras para as músicas da minha mãe. A Zizi Possi gravou música da minha mãe, Bethânia gravou música da minha mãe, com letra minha. Ela tem muito talento musical, muito mais do que eu.

Lorena Calábria:  Nelsinho, eu queria falar de uma outra paixão sua, não é uma mulher...é o futebol!

Nelson Motta: Minha paixão é minha mulher, Costanza Pascolato.

Lorena Calábria: [risos] Eu queria te pegar de surpresa. Sua outra paixão é o futebol, todo mundo sabe. O seu envolvimento com o futebol já foi tema de livro, e tem um projeto seu que, infelizmente, não foi concretizado pela morte do Nelson Rodrigues. Eu queria que você falasse desse contato com ele e se você tem vontade em tomar esse projeto.

Nelson Motta: Olha, eu tenho realmente uma paixão pelo futebol, coisas que me foram poupadas, quando eu fui morar nos Estados Unidos, foi o pagode e a derrocada do Fluminense para a terceira divisão. [risos] Eu comecei a escrever com Nelson Rodrigues um roteiro de um filme, mas ele morreu e a história não foi adiante. Ele ia fazer os diálogos do Brasil Futebol Clube.

Lorena Calábria: O futebol ia ser o pano de fundo da história?

Nelson Motta: Futebol era o pano de fundo, é um final de Copa do Mundo no Rio de Janeiro, imaginária, ficcional. E em relação ao Nelson, é uma das grandes influências na minha vida, eu o adorava, ele trabalhava em O Globo também, era fluminense,  então a gente tinha muito contato, só que ele era...

Paulo Markun: Ele te chamava de "pálido revolucionário".

Nelson Motta: Eu era um "pálido", ele falava isso para me sacanear. O Nelson não tinha critério nenhum, ele inventava uma frase boa assim e a primeira pessoa que...e ia à praia todo dia. Primeiro, quem não fosse à praia no Rio naquele tempo, estava mortinho, não sabia onde era a festa, não "comia" ninguém, não sabia de nada que estava acontecendo ali, se não fosse a praia. Eu ia todo dia, moreninho. E o Nelson falava: "Você é o único brasileiro que jamais foi à praia". Ele achava uma graça enorme. Eu não me ligava, me divertia. Isso era para me sacanear porque ele era um cara considerado reacionário e tinha essa contradição entre as coisas políticas dele, que era governista, a favor do governo militar. E nós todos éramos contra. Ao mesmo tempo, as peças do Nelson Rodrigues, que entravam ali no coração da família brasileira, era muito mais subversivas do que dez músicas de Geraldo Vandré. Eu tive esse privilégio de conviver com ele, com Glauber Rocha, com Vinicius de Moraes, Paulo Francis, esse pessoal. Eu aprendi muito, devo tanto a eles...

Paulo Markun: Nelson, o nosso tempo está acabando, mas eu ainda queria abordar uma questão. Eu vi em algumas entrevistas suas que você mencionava um livro sobre o Glauber Rocha [(1939-1981) nome mais famoso do movimento do cinema brasileiro, conhecido como Cinema Novo que, a partir de 1950, passa a retratar a realidade brasileira com uma linguagem simples e sem grandes produções ou efeitos, abordando temas fortemente ligados ao subdesenvolvimento do país].

Nelson Motta: Sim, ele tem quarenta páginas escritas. O livro, na verdade, é sobre a juventude do Glauber, ele começa na Bahia e vai até a consagração dele, aos 24 anos, com Deus o Diabo na Terra do Sol, em 1964. Era um dos maiores diretores de cinema do mundo. O livro termina ali. Eu não quis me envolver com as outras fases onde o sofrimento total consumiu muito o Glauber nos últimos anos, é tão controvertido você tentar explicar o pensamento do Glauber depois, que eu não quis me meter nisso.  Quando eu estava escrevendo o livro do Glauber, soube que meu mestre Zuenir Ventura [jornalista e escritor] estava fazendo um também. Encontrei com ele na praia e falei: "Mestre, vou parar o meu livro, imediatamente". E ele disse: "Não, você continua". O dele era uma "biografiazona" do Glauber, ele tinha ido à Europa, tinha começado a fazer uma pesquisa grande. Aí passou um mês e o Zuenir me falou que roubaram o carro dele e os originais estavam todos na mala do carro. Ele desistiu do livro também. Eu já tinha meio que desistido e, quando fui retomá-lo, comecei outros projetos. Mas não é uma coisa totalmente afastada, porque o título é lindo: A primavera do dragão. É bom? Eu levantei histórias maravilhosas sobre a juventude dele, ele foi um dos meus amigos mais queridos e também um grande crítico de música.

Paulo Markun: Para finalizar, qual é o próximo projeto?

Nelson Motta: No momento, o que eu tenho vontade de fazer é um livro, quem sabe escrever um livro sobre o Tim Maia, a biografia do Tim Maia, não sei, mas eu gostaria que fosse alguma coisa literária.

Paulo Markun: Ok, estamos esperando ansiosos.

Nelson Motta: Obrigado a vocês todos.

Paulo Markun: Nós é que agradecemos.

Nelson Motta: Obrigado e boa noite!

Paulo Markun: Boa noite para você, até a próxima segunda-feira, sempre às dez e meia da noite, até lá.

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