Memória Roda Viva

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Cláudia Raia

8/4/1991

Aos 24 anos, a atriz já tinha muitas histórias para contar, tanto da carreira quanto da vida pessoal

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Jorge Escosteguy: Boa noite. Estamos começando mais um Roda Viva pela TV Cultura de São Paulo. Este programa é transmitido ao vivo pelas TVs educativas de Porto Alegre, Ceará, Piauí, Bahia e TV Cultura de Curitiba. No centro do Roda Viva desta noite, está uma atriz e bailarina que começou a dançar aos dois anos e nunca mais parou. Não parou de dançar e não parou de crescer.  No centro de Roda Viva hoje está a atriz e bailarina Cláudia Raia. É conhecida pelas novelas que fez na televisão, pelo TV Pirata [programa humorístico exibido pela Rede Globo entre 1988 e 1992], fez campanha eleitoral, foi patrulhada pela campanha eleitoral e agora faz um show de muito sucesso em São Paulo chamado Não fuja da raia. Para entrevistar Cláudia Raia, esta noite no Roda Viva, nós convidamos Mário Mendes, jornalista da Companhia de Notícias; Célia Pardi, diretora da revista Cláudia; Roseli Tardelli, jornalista da Nova Eldorado AM; Cunha Júnior, repórter da TV Cultura; Edmar Pereira, jornalista e crítico de cinema do Jornal da Tarde; Mônica Bergamo, sub-editora da revista Veja; Walter Clark, empresário e Ricardo Soares, diretor de redação da revista Trip. Você que está em casa e quiser fazer perguntas por telefone pode chamar (11) 252-6525, que a Shizuka, a Cristina e a Iara estarão anotando suas perguntas. Boa noite, Cláudia.

Cláudia Raia: Boa noite, é muito bom estar aqui.

Jorge Escosteguy: Na sexta feira, se não me engano, você deu uma entrevista no rádio, na rádio Eldorado, e fizeram várias perguntas, perguntaram prato, uma atriz, enfim, perguntaram um político. Aí você pensou um pouco e disse Paulo Maluf. Por que não Fernando Collor?

Cláudia Raia: Em primeiro lugar, todos já sabem, é público e notório, que eu gosto muito do Fernando Collor, como político, tanto que eu o apoiei com fervor. Mas eu achei que eu deveria dizer um político de São Paulo, eu estava em uma rádio e em um programa paulista, fazendo um espetáculo em São Paulo, eu quis homenagear um político paulista, que gosta tanto de São Paulo, só por isso.

Jorge Escosteguy: Não tem nada a ver com nosso atual presidente? Você, quando justificou o seu apoio a ele, disse que o fez de graça e o único pagamento que você queria era que ele tirasse o país do buraco.

Cláudia Raia: É, exatamente isso.

Jorge Escosteguy: Você acha que ele está tirando o país do buraco?

Cláudia Raia:
Eu acho que ele está tentando, que é o mais importante de tudo, porque a partir disso eu acho que a gente pode ter resultados muito agradáveis. Até agora as tentativas foram muito pequenas, muito tímidas, e ele não tem absolutamente essas características, pelo contrário. Eu acho que ele está tentando com muita força, com muita garra, que é uma coisa bastante notória na personalidade dele. Isso já é muito importante, eu pessoalmente acredito que ele vá conseguir tirar o país do buraco, é muito difícil, ninguém imaginou que fosse o contrário, mas eu acho que está aí a tentativa e ela é válida.  

Roseli Tardelli: Cláudia, nessa tentativa do presidente, na sua avaliação, ele tem acertado mais ou errado mais?

Cláudia Raia:
Eu acho que ele tem um governo de muitas dificuldades, ele teve o primeiro ano de governo contra ele, pela guerra, pelo empresariado todo contra, eu acho que ele teve um ano que nem ele mesmo esperava que fosse tão difícil. Eu acho que ele tem acertado muitas coisas, e também tem muitas coisas que o governo está encaminhando que eu não concordo, e eu falo publicamente, que é a cultura. Ela está bastante prejudicada, morta. É uma pena, porque eu sinto que não é da intenção dele fazer esse tipo de coisa com a cultura, mas eu sinto que o governo dele é levado por umas prioridades, coisas que eu não concordo. Acho que a cultura é prioridade. Mas agora ele está reagindo.... talvez com as nossas reivindicações e na mudança do secretário, com alguns projetos que parecem bastante interessantes. Eu acho que ele tem acertado mais do que errado. [Em seu governo, Collor extinguiu diversos órgãos de administração federal, entre eles o Ministério da Cultura, que foi reduzido a uma Secretaria de Cultura. O primeiro secretário foi Ipojuca Pontes, que passou, em 1991, o cargo para Sérgio Paulo Rouanet].

Jorge Escosteguy: Mônica, por favor, a sua pergunta.

Mônica Bergamo:
Cláudia, aqui.

Cláudia Raia: Opa!

Mônica Bergamo: Cláudia, mesmo com recessão, você está conseguindo manter o teatro cheio com seu espetáculo. Eu queria saber se você também está conseguindo manter o teu armário cheio de 120 vestidos e 270 sapatos como há um ano atrás?

[risos]

Cláudia Raia: Não, não tenho não... Mas eu acho que o mais importante disso tudo é que o meu teatro está cheio, acho que é mais importante do que os meus vestidos e sapatos. Não de maneira fútil, mas eu sempre gostei muito disso, porque sou uma mulher muito feminina, gosto muito desse lado, mas não caminhando para a futilidade e sim para eu poder me embelezar e poder eu mesma ficar satisfeita. Mas, o mais importante disso tudo, como você disse, é que no meio dessa recessão, desse momento delicado do Brasil, o teatro está cheio. Eu, na verdade, vim a esse mundo para trabalhar e conseguir ter o meu teatro cheio, não para ter o meu armário cheio de vestidos e sapatos.

Mônica Bergamo: Mas com a recessão você concorda? Você disse que você discorda de algumas coisas do governo...Eu queria saber a sua opinião?

Cláudia Raia: Eu acho que obviamente a gente está vivendo um momento difícil em termos de desemprego. Fico muito triste com isso, não gostaria nem de estar falando sobre isso do meu país, não por causa do presidente, absolutamente, mas sei também, sinto que as pessoas fazem também uma "tempestade num copo d’água". Às vezes eu sinto o comportamento brasileiro, como se estivesse em um pós-guerra, isso me deprime bastante. Sei que o povo está cansado, desesperançoso, é difícil, porque a gente já vem nesse vício há muitos anos. Então como acreditar de novo em mais uma pessoa? Eu sei que é difícil, mas também cria-se um tumulto maior do que na verdade é. E acho também que - obviamente ninguém pode ignorar que está havendo uma crise de desemprego bastante significativa - mas as coisas estão caminhando. O povo brasileiro tem uma atitude bastante imediatista, tudo tem que ser ontem, é complicado isso, eu não sei quem seria a pessoa ideal para modificar de um dia para o outro um país tão viciado. Acho que só Deus. Nem ele, ele fez o mundo em sete dias!

Edmar Pereira: Cláudia, você disse que o seu apoio não custou nada ao presidente Collor. Agora, ele custou alguma coisa a você? Você se sentiu patrulhada na época, você sente ainda patrulhada, alguma porta deixou de se abrir para você por causa desse apoio? Como foi o comportamento geral, você acha que diminuiu a sua relação com as pessoas, ficou pior, ou melhor, isso teve alguma alteração?

Cláudia Raia: Não, eu sou uma pessoa pública. Qualquer posicionamento que eu tome na minha vida, se eu disser no jornal que eu gosto mais do preto do que do branco, isso cria polêmica, é evidente, porque os que gostam do branco vão ficar loucos da vida comigo, lógico. Eu dei uma entrevista uma vez na [revista] Veja, dizendo que eu era a favor do cigarro. Isso criou um tumulto, os que fumavam, adoraram, os que não fumavam, odiaram. Então eu digo que o patrulhamento existe sempre quando você se posiciona em alguma coisa. A partir do momento que eu apoiei o presidente Fernando Collor, é evidente que os que não apoiavam não concordaram com o meu posicionamento, mas também não houve esse patrulhamento, porque o meu apoio a ele era bastante convicto, bastante sólido. Eu não o apoiei somente na campanha presidencial, sou amiga dele há muitos anos. Meu primeiro apoio foi quando ele era candidato a deputado federal em Alagoas. Então eu já o apoiava há muitos anos, então [foi] um patrulhamento normal, digamos assim, nada absurdo. Nem eu falei sobre isso, nem fiz um dramalhão em cima disso, porque isso evidentemente iria acontecer. Então eu não posso ficar reclamando que as pessoas estão me patrulhando, se eu apoiei um candidato à Presidência da República. Logicamente isso iria virar uma polêmica, mas não foi nada grave assim não.

Edmar Pereira: Você quis ser a "Marília Pêra - parte dois"? [a atriz brasileira Marília Pêra também tornou público o seu apoio à eleição de Fernando Collor para presidente em 1989].

[entrevistador interrompendo]: Cláudia...

Cláudia Raia: Não, eu sou a "Cláudia Raia - parte um".

Jorge Escosteguy: O Júnior tem uma perguntar para você, e depois o Walter.

Cunha Júnior: Cláudia.

Cláudia Raia: Oi.

Cunha Júnior: Bom, a gente sabe que você está com um super espetáculo aqui em São Paulo, o Não fuja da raia,  e que você não entrou só como uma estrela naquele espetáculo, mas também é produtora do espetáculo. Ou seja, teve que batalhar para conseguir cada tecido, que eu sei que não é tão fácil assim como as pessoas podem esperar, porque é um espetáculo que, aparentemente, deve ter sido muito caro. Então, vendo assim que você tem uma certa amizade com as pessoas que poderiam, não diretamente para você, mas para toda a sua classe... Quando você conversa com eles na intimidade ou com o presidente ou a primeira dama, ou com a ministra, você nunca conversa na intimidade assim: "pô, eu estou fazendo um espetáculo que está saindo muito caro, e em todo o Brasil a classe artística também precisa de um apoio, como existia, por exemplo, na Lei Sarney"? E o que eles falam?

Cláudia Raia: Isso eu falo sim, eu reivindico, eu digo tudo que eu acho, eu não tenho problema nenhum, eles sabem que foi difícil, todo mundo sabe que foi difícil. Sempre foi difícil, para mim pelo menos, todos os espetáculos que eu produzi. Está aí o Walter Clark [um dos entrevistadores do programa, considerado pela atriz o seu mestre e tutor, já que coordenou diversas produções artísticas, f
aleceu em 1997] que não me deixa mentir, que também fez uma produção muito grande, sabe como as coisas caminham. Por que agora eu teria uma ajuda maior, por quê? Não é. Eu não sou a favor dessa amizade por interesse ou porque posso ter uma troca através dela.

Cunha Júnior:
Mas como porta-voz, você funciona, não?

Cláudia Raia: Eu acho que neste primeiro ano não funcionou muito. Quer dizer, eu falava e ele diz que nós somos muito afoitos, e somos claro, está prejudicando a nossa área, eu não discuto com ele sobre economia, eu não discuto sobre nada, porque eu não sou política, eu sou artista! Eu posso dar a minha opinião como cidadã, eu vou ao mercado e o feijão aumentou, estou chateada com isso, enfim, coisas que nós todos falamos. Agora eu não sou especialista em política, eu não sou política, eu sou artista, portanto eu reivindico a minha área. Eu digo, ele está careca de saber que eu estou totalmente infeliz, lógico, como toda a minha classe. Agora nunca, em momento algum, eu usaria essa amizade para qualquer benefício a mim, e eu acho que eles também não aceitariam.

Ricardo Soares: Claudia, só uma pergunta. Eu queria pegar uma carona na pergunta do Cunha.

Jorge Escosteguy: Por favor.

Ricardo Soares: Vamos supor que o nosso novo secretário de Cultura, Sérgio Rouanet, chamasse você oficialmente para dar sugestões para a cultura. Você acabou de dizer que tinha críticas em relação ao Ipojuca. Que sugestões a Cláudia Raia daria oficialmente para o secretário da Cultura, para melhorar a situação de abandono total que está a cultura no Brasil?

Cláudia Raia: Desculpe, eu não tenho nenhum problema com o Ipojuca, eu tenho problema sobre o abandono da cultura por um ano, eu não sei quem é o responsável por isso, é difícil você julgar alguém. Acho que nós não somos capazes de julgar.

Jorge Escosteguy:
Você chegou a conversar com o Ipojuca nesse período, Cláudia?

Cláudia Raia: Não, não conversei não. Acho também que eu não tenho que me envolver dessa maneira no governo. Eu não faço parte do governo, eu sou artista, sou uma operária da arte, eu continuo trabalhando da mesma forma, eu sinto muita dificuldade como produtora, de produzir alguma coisa, sinto dificuldade em ver o cinema cada vez mais destruído no país. Mas eu não sei se eu teria sugestões tão magníficas para dar, eu gostaria de até de conversar e de dizer sobre as minhas dificuldades, sobre o que eu passo, sobre o que eu vejo. Por exemplo, até foi dito sobre a Lei Sarney, que é uma coisa que também não era o ideal, mas ajudava as empresas. Elas não têm o menor interesse em patrocinar teatro. É uma coisa impressionante! Você chega com um projeto e diz "olha, eu tenho esses profissionais, o projeto é bom, eu estou querendo montar uma coisa grande em São Paulo, ou seja, lá aonde for". As pessoas ficam olhando para sua cara como se elas não tivessem entendendo nada do que você está dizendo, é uma falta de informação absoluta, se você chegar em um banco, por exemplo, e dizer "olha, eu quero montar 
Shakespeare, ninguém nem sabe o que é Shakespeare, a desinformação é impressionante. Eu fico muito chateada com isso, porque te recebem até por curiosidade, porque querem conhecer você pessoalmente e você fica horas falando sobre uma coisa que você acredita que você quer montar e eles são absolutamente alienados a qualquer tipo de possibilidade de ajudar a cultura, o teatro, principalmente.

Ricardo Soares: Você acha que falta cultura ao empresário para ele poder patrocinar a cultura?

Cláudia Raia: Acho, eu acho sim.

Jorge Escosteguy: Walter Clark, por favor.

Walter Clark:
O Ipojuca, você sofreu na carne, comigo, na prática, no Rio de Janeiro. Como você acha que justifica o engajamento de um artista que, afinal de contas, é uma pessoa que tem que agradar da extrema esquerda à extrema direita, que depende desse público, não pode escolher o seu público? Como você justifica o engajamento político de um artista?

Cláudia Raia: É perigoso, muito perigoso. É exatamente isso, o artista tem que agradar todo mundo no geral. Mas nunca agrada, esse é que é o problema, se posicionando ou não. Você vê assim, a relação do público com o artista é uma coisa muito louca, tem uma coisa de amor e ódio misturado. E, ao mesmo tempo que uma pessoa te diz "eu te amo", com a mesma facilidade ela te diz "mas você é pedante!". É impressionante, muda assim de uma hora para outra, então eu não sei o que é melhor, você se esconder, se omitir, ou você se posicionar. Eu acho que eu não tenho idade e nem maturidade para saber o que ainda é melhor, eu acho que eu ainda vou descobrir isso, eu agora me posicionai bastante, com bastante veemência, mas isso não me trouxe assim, resultados negativos não, quer dizer, é claro tem pessoas que não gostam, tem pessoas que gostam. Até completando uma pergunta que me foi feita pelo Edmar, se esse meu posicionamento político me criou algum problema como fechar as portas e tal, eu não notei isso claramente, acho que agora nessa coisa [da procura] do patrocínio, eu senti um pouco, mas também não tanto. Essas coisas passam, tudo na vida passa, nós vivemos em um país de memória muito curta, as pessoas não se lembram das coisas. Também acho que não se boicota talento, não se boicota trabalho, não se boicota honestidade, portanto se alguém pretende me boicotar agora, pode até conseguir 50%, mas os outros 50 não vai conseguir, porque eu sou uma pessoa muito honesta no meu trabalho, então eu acho que isso é a grande virtude, agora...

Jorge Escosteguy:
[interrompendo] Mário, desculpe. O Mário queria lhe fazer uma pergunta.

Cláudia Raia: Mário, pois não.

Mário Mendes:
É o seguinte, você apoiou o Fernando Collor e você agora citou Paulo Maluf e você toma posições, você não tem medo disso. Você diria que prefere políticos à direita?

Cláudia Raia: Não, eu não prefiro nada, eu prefiro as pessoas, eu acredito nas pessoas, independente de que lado elas estejam, eu acredito... Como eu te digo, eu não sou política, então eu não tenho essa visão de esquerda, direita...Eu acredito nas pessoas. Até, coincidentemente, os dois são de direita, eu acho até o Fernando Collor mais de centro do que de direita mesmo.

Roseli Tardelli:
Posso pegar uma carona?

Cláudia Raia: Pode.

Roseli Tardelli:
Tem algum político mais progressista, digamos assim, que você pudesse citar para a gente? Você disse que apóia pessoas, não políticas, mas coincidentemente você citou Paulo Maluf e não Fernando Collor de Mello.

Cláudia Raia: Eu gosto muito, não da política...

Roseli Tardelli: [interrompendo] Alguns mais progressistas, digamos assim, por exemplo?

Cláudia Raia: Então eu quero citar uma pessoa antes disso, que eu admiro. Eu não gostei do governo que ele fez no Rio de Janeiro, mas gosto dele como político, que é o Leonel Brizola [(1922-2004) influente político gaúcho, conhecido pela oposição à ditadura militar, foi prefeito de Porto Alegre, governador do Rio Grande do Sul, deputado federal pelo extinto estado da Guanabara e duas vezes governador do Rio de Janeiro]. Eu acho ele um grande político, eu acho ele uma pessoa absolutamente carismática, é de perder o ar de ouvir falar, você fica muda, porque realmente ele veio para fazer o que ele faz, ele não podia ser outra coisa na vida, ele é um político de nascença. Eu admiro pessoas assim. Quer dizer, eu até não concordo com a política dele, até espero que ele faça um governo lindo para o Rio de Janeiro, porque o Rio de Janeiro está precisando disso, torço por ele não como carioca, mas vivo no Rio de Janeiro, então claro que torço pela cidade onde eu vivo, e desejo toda a sorte do mundo. Enfim, acho ele muito interessante como político, como também acho o Lula [Luiz Inácio Lula da Silva - PT (Partido dos Trabalhadores)] interessante como político, quer dizer, isso não significa que eu odeio as pessoas, o meu apoio ao Fernando Collor não tinha nada a ver, nada contra o Lula ou contra qualquer outro candidato, absolutamente. Aliás, eu acho importante frisar que se outro candidato fosse eleito pelo povo, eu estaria apoiando de todas as maneiras, porque eu quero que o meu país cresça independente de quem o leve para cima.

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Cláudia, você falou em fôlego. Quem tira mais o fôlego, Leonel Brizola ou Fernando Collor?

Cláudia Raia:
Eu queria fazer uma proposta a todos vocês. Vamos parar um pouquinho de falar em política, porque vocês podiam chamar a Zélia [Zélia Cardoso de Mello, ministra da Fazenda do governo Collor entre 1990 e 1991] ou qualquer outro ministro, o presidente Fernando Collor...

[risos]

Jorge Escosteguy: Porque perde o fôlego?

Cláudia Raia: Porque eu sou artista, até agora eu não falei nem um minuto da minha profissão, só falei dos políticos.

Roseli Tardelli: Você se sente incomodada de ser sempre chamada de "defender o presidente Collor" ou estar sempre no centro da roda se o assunto é Fernando Collor de Mello?

Cláudia Raia: Roseli, você não aceitou a minha proposta, definitivamente.

[risos]

Jorge Escosteguy: A Célia Pardi tem uma pergunta para você. Vamos ver se ele aceitou a sua proposta?

Célia Pardi: No seu show, Cláudia, apesar de você ter falado um pouquinho disso no começo...Eu sou da revista Claudia e a minha "Carta ao Leitor" desse mês fala em você. Eu escrevi logo no dia seguinte que eu fui ver o seu show, e você tem, você fala do baixo astral generalizado no show. Você começa com show e pergunta à platéia o porquê do baixo astral generalizado. Inclusive, no final você entra na cadeira de rodas e não sei o que lá, e canta a música no final.

Cláudia Raia: "Dias melhores virão".

Célia Pardi:
"Dias melhores virão". É isso um pouquinho a imagem que você tenta fazer do país, tem alguma coisa a ver? Por que você acha que está todo mundo nesse baixo astral tão generalizado, nessa coisa tão pesada?

Cláudia Raia: É, está sim.

Célia Pardi: Eu sinto, inclusive, porque você é uma pessoa absolutamente alto astral.

Cláudia Raia: É.

Célia Pardi: Pessoa do mais alto humor, do humor mais gostoso. Então eu sinto isso e falei até que a Cláudia Raia fala no show que o baixo astral está generalizado...

Cláudia Raia: É eu acho isso sim, eu fico tão chateada de dizer que o país está tristinho. Mas está, está sim...

Célia Pardi: [interrompendo] Você já viu alguma vez ele mais triste que isso ou não?

Cláudia Raia: Que eu me lembre não, eu só tenho 24 anos [risos]. Eu acho que está tristinho e essa coisa do meu show, que eu digo, eu não pergunto ao público porque eles estão tristes, porque eu jamais perguntaria isso, até porque eu sei. Eu tento, como artista,
fazer com que as pessoas saiam do meu teatro felizes, com um sorriso no rosto e com certeza de que dias melhores virão. Acho que eu, como artista e como uma pessoa que geralmente faz trabalhos ligados à comédia, tenho direito e a obrigação de fazer essas pessoas rirem um pouco,sonharem um pouco. Aliás, o intuito maior do meu espetáculo é esse. Para que eu consiga emanar talvez até esse meu alto astral, essa minha confiança, e trazer um pouquinho mais de alegria e sonho para esse paulista tão tristinho.

Célia Pardi: [interrompendo] Será que dias melhores virão, ou será apenas um sonho? 

Cláudia Raia:
Virão, virão. A fé é a última que morre.

Jorge Escosteguy:
Cláudia, vamos falar um pouco sobre a sua profissão. Temos dois telespectadores aqui, o Marcos Alves, do Itaim, aqui em São Paulo e o André Murakio, de Santa Cecília. Eles perguntam como você reagiu às críticas desfavoráveis sobre o seu espetáculo, principalmente da Folha de S. Paulo. O André, inclusive, menciona o fato de que os jornalistas da "Folha Ilustrada" [caderno de cultura do jornal Folha de S.Paulo] teriam sido expulsos pelo diretor do show no dia da estréia.

Cláudia Raia: Que maravilha, essa história é maravilhosa.

Jorge Escosteguy: Então conte.

Cláudia Raia:
Ah, conto tudo. É o seguinte, se eu disser que eu não fiquei abalada com as críticas, é mentira, porque a gente sempre fica abalada quando as pessoas falam mal da gente, claro. Mas eu não faço o meu espetáculo para críticos, eu faço para publico, sou uma pessoa popular mesmo. Pode ser que um dia eu venha fazer um Shakespeare, às segundas e terças, em um horário alternativo, que ninguém vai ver e que eu ganhe prêmio de melhor atriz. Eu acho que é até importante para minha carreira fazer isso, realmente acho, mas eu não quis fazer isso agora, quis fazer um espetáculo como se fosse uma revista dos anos 90, um espetáculo muito alegre, todo dançado, todo cantado. Eu gosto de fazer esse tipo de espetáculo, e os críticos jamais iriam gostar, eu não tinha a menor dúvida que iam falar mal, eu já sabia que iam falar mal, mas eu não quero saber o que eles dizem. Sinceramente eu quero saber o que o público diz, e o público parece que gosta, porque a gente está há um mês e uma semana em cartaz, lotando todas as noites, o público aplaude de pé, grita, urra. Então eu acho que essa resposta que eu tinha que ter, agora não só a Folha de S. Paulo falou mal, todo mundo falou mal. Podem falar mal sempre! A única coisa que eu fiquei magoada é de não terem respeitado uma menina de 24 anos, que tenta de todas as maneiras possíveis, pede de joelhos 20 metros de veludo para conseguir produzir um espetáculo em São Paulo. Isso ninguém falou... em um produção grande, em uma equipe de 30 pessoas da melhor qualidade, pessoas que tem um passado bastante respeitável. Então isso eu fiquei magoada, porque acho que o meu esforço foi muito grande, e ele deveria ser aplaudido antes de tudo. Não precisa falar que eu sou boa atriz, nem que eu sou boa bailarina, nem que eu canto bem, não precisa falar nada, pode falar que eu sou péssima, agora o meu empenho em montar um espetáculo desse foi muito grande e não podia ser ignorado.

Jorge Escosteguy: E a história que você diz que...

Cláudia Raia:
Ah, a história dos expulsos. Foram dois jornalistas que eu não gostaria de falar o nome, porque é chato, e começaram a me repudiar no meio de espetáculo, me chamar de pretensiosa, isso aos berros, sentados na minha platéia. Não pagaram, entraram de graça e me repudiavam. Eu não respondi, porque com toda certeza eu iria ser agressiva na minha resposta. O meu diretor, com toda razão, fico enlouquecido, chegou, bateu nas costas desse jornalista e disse "por favor, se o senhor continuar gritando e repudiando a Cláudia Raia, eu vou ser obrigado a convidá-lo a sair do espetáculo". E ele continuou repudiando, ele não estava muito bem, ele estava um pouco alterado. Levantou, saiu, foi tomar um drink ali fora, voltou, continuou gritando... Aí sim, o diretor o expulsou de dentro do teatro, porque ele entrou na minha casa de graça e ainda por cima me xingava. Eu acho que motivo mais justo do que esse não teria.

Jorge Escosteguy: Walter.

Walter Clark: Claudinha, você é uma menina. As pessoas, às vezes, não percebem isso, porque você é grandona. Você começou fazendo papel de personagem mais velha da peça, se destacou logo, e nesse curto espaço, quer dizer, quando o Chorus Line [adaptação brasileira do musical da Broadway] estreou, há oito anos atrás...

Cláudia Raia
: É.

Walter Clark: Você tinha 16 anos. Você tem batalhado e essa coisa eu gostaria aqui de reivindicar que se esclarecesse, tanto que essa já é a quarta peça que você produz.

Cláudia Raia: É.

Walter Clark: E do musical, que é sempre muito incompreendido, e aí nós temos essa vivência em comum. Chorus Line é uma peça muito bonita, que também aqui em São Paulo, teve alguns problemas de receptividade. Você vai produzir mais um musical?

Cláudia Raia: Claro, lógico que sim, eu não desisto fácil. Sou capricorniana, teimosa, com ascendente em Leão. Daqui uns anos eu vou estar muito cansada disso tudo, porque agora com 24, às vezes eu fico cansada. Mas não, eu ainda tenho muitas produções pela frente e ainda, se Deus quiser, teremos muito apoio do secretário de Cultura para que nós...

Walter Clark: [interrompendo] O teatro está cheio.

Cláudia Raia: Sim, claro. Mesmo sem o apoio dele, o teatro está cheio, mas acho que com o apoio fica um pouco mais fácil.

Jorge Escosteguy: Cláudia, você fala pouco em talento, eu gostaria de perguntar a você, como é que você administra a questão beleza e talento, ou seja, até que ponto essas duas coisas do sucesso são confundidas? O Martino, por exemplo, aqui de São Paulo, pergunta se o seu sucesso se deve mais a sua beleza do que ao seu talento. E o Luiz Carlos Gomes, de Jundiaí, disse que você está falando muito em política e não está falando da sua carreira artística, se você é mesmo uma atriz ou um produto de merchandising. Como você administra essa coisa, quer dizer, uma mulher bonita, grande, como disse o Walter Clark...essa coisa do talento, ou seja, você está fazendo sucesso porque tem talento ou no fundo porque é bonita, enfim?

Cláudia Raia: Eu não me acho bonita.

Jorge Escosteguy:
Mas as pessoas acham.

Cláudia Raia: Sim, problema das pessoas, não meu.

Roseli Tardelli:
Você se acha o quê, Cláudia?

Cláudia Raia: Eu me acho... eu acho que eu combino, eu acho que eu tenho um todo interessante. Sou grandona, tenho um metro e 80 [centímetros] de altura, tenho uma personalidade forte, eu acho que isso tudo como um conjunto é interessante. Mas eu não me acho bonita, eu nunca me achei bonita, eu fui uma criança muito feia e me tornei, graças a Deus, uma mulher de 1,80, porque senão seria uma catástrofe.

Jorge Escosteguy: Parou de crescer?

Cláudia Raia: Parei, agora os pulsos fecharam os joelhos fecharam. Mas eu cresci até o ano passado, que eu estava com 1,79 e agora estou com 1,80. Aliás, quando criança, eu fiz tratamento para parar de crescer, porque eu ia chegar a 1,90. Eu fiz um tratamento e ele realmente disse que eu chegaria até 1 metro e 80. Na risca. Mas essa coisa da beleza, eu nunca me preocupei com ela. Eu acho que ela foi importante
no início da minha carreira, quando eu posei pela primeira vez para a Playboy [revista brasileira direcionada para o público masculino], quando eu fui chamada para fazer o Viva o Gordo, um programa humorístico com Jô Soares, eu acho que aí a beleza me ajudou. A beleza que as pessoas dizem que eu tenho, me ajudou no Roque Santeiro [novela da TV Globo, exibida entre 1985 e 1986], que foi a minha primeira novela. Eu fiquei três meses sem nenhuma fala, portanto eu fazia uma figuração mesmo. Não acharam que eu era atriz e eu fui provando isso aos poucos, até aprendendo, porque eu nunca fiz nenhum curso de arte dramática, e fui exercitando a interpretação ao longo dos anos, trabalhando sem parar.

Jorge Escosteguy:
Quando você chegou à conclusão de que realmente tinha talento e não era apenas a questão da beleza para você, com você?

Cláudia Raia: Sabe o que é, eu sou muito crítica comigo. Eu não acho que eu sou talentosa, porque as pessoas que eu considero talentosas são muito talentosas e eu não chego nem aos pés delas, por exemplo...

Mário Mendes: [interrompendo] Aonde você quer chegar, aonde você quer chegar?

Cláudia Raia: Eu acho o Michael Jackson um grande talento, esse homem não é desse planeta, ele é uma coisa fora do comum. Então com é que eu posso me achar talentosa se eu acho o Michael Jackson talentoso? Eu estou no início de alguma coisa...

Mário Mendes: [interrompendo] Você vai chegar lá aonde você acha que deve chegar?

Cláudia Raia: Eu não sei aonde eu vou chegar.

Walter Clark: Que atriz que você mais identifica e digamos, que você quer ser quando crescer?

Cláudia Raia:
Quando eu crescer, não, você sabe que eu já nasci desse tamanho.

[risos]

Walter Clark: Aliás, é um texto da peça.

Cláudia Raia: Exatamente. Eu adoro a Marília Pêra, eu acho ela uma grande artista, eu acho ela uma grande show woman, eu sou absolutamente fascinada por ela. Eu não vou dizer de artistas internacionais, porque a gente está no Brasil e tem mais é que falar das brasileiras. Bibi Ferreira é uma grande show woman. Quer dizer, eu não sei aonde eu quero chegar, eu quero trabalhar, eu quero me exercitar, eu quero cada vez saber cantar melhor, cada vez dançar melhor, representar melhor. Então é uma busca eterna de aprender cada vez mais e de melhorar cada vez mais. Eu acho que, obviamente, eu me olhei no espelho algum dia e disse: "tenho vocação para isso, não vou ficar atrás de uma escrivaninha, sendo secretaáia de um escritório imobiliário, porque não tem nada a ver comigo, meu negócio é o palco, eu gosto de televisão, eu gosto de cinema". Então eu "saquei" que essa era minha vocação, com toda certeza. Mas a beleza é um fator que eu não ignoro, porque eu acho que é legal até as pessoas me acharem bonita. Mas eu não uso isso na minha profissão, tanto que o exemplo disso foi o TV Pirata.

Jorge Escosteguy: Eu creio, até mais, no TV Pirata você teve de certa forma uma revelação até como comediante, as pessoas não esperavam...

Cláudia Raia:
[interrompendo] É, foi a primeira vez, foi o primeiro trabalho mais explícito com o negócio da comédia. O "Tonhão", por exemplo, que era a "mulher-macho" que eu fazia, eu pedi para fazer, porque não era eu que ia fazer o "Tonhão". Eu cheguei disse "deixa eu fazer?". E me disseram: "não, você é um símbolo sexual". E eu: "por isso mesmo, aí que é engraçado, fazer uma mulher-macho, um homem é super diferente, ninguém jamais esperaria". E eu não tenho o menor pudor de ficar feia, ficar gorda, ficar nada, isso faz parte, ator não pode ter pudor. Em relação à outra pergunta, eu acho que você fez a pergunta antes de eu dizer, vamos parar de falar em política, porque virou uma coisa política, e eu acho que eu sou uma atriz, não sou marketing não.

Jorge Escosteguy:
Mas veja bem, você diz que não vão falar mais em política, mas por coincidência, você citou a Marília Pêra como exemplo de artista que você gosta.

Cláudia Raia: Gosto muito como artista, o que isso tem a ver?

Jorge Escosteguy: A Mônica tem uma pergunta para você, por favor.

Mônica Bergamo: Cláudia, na Chorus Line você fez um papel, a "Sheila", que tinha medo de envelhecer. Então eu queria perguntar se você tem algum "grilo" em relação a isso e como é que você se vê daqui 30 anos, por exemplo?

Cláudia Raia: Péssima.

[risos]

Cláudio Raia: Se hoje, aos 24, eu já tenho essa quantidade de problemas, você imagina daqui a 30 anos, eu vou estar destruída, acabada.

Mônica Bergamo: Você tem algum "grilo"?

Cláudia Raia: Eu não sei, vou ter que casar com um cirurgião plástico.

Roseli Tardelli: Que problema que você tem?

Jorge Escosteguy: Mas tem uma vantagem, as pessoas quando envelhecem, diminuem um pouco.

Roseli Tardelli: Que problemas você tem, Cláudia Raia?

Cláudia Raia: Não, eu não estou acreditando que você está me perguntando isso! Eu sou artista no Brasil, tenho que "matar um leão por dia", faço uma produção que me custou 300 mil dólares, sem patrocínio!

Roseli Tardelli: Até agora está dando tudo certo, a casa está cheia, apesar da crítica, etc.

Cláudia Raia:
Sim, pagando as dívidas maravilhosas.

Edmar Pereira:
Cobriu os 300 mil dólares, da dívida?

Cláudia Raia: Imagina, isso é um sonho.

Mônica Bergamo:
Mais isso, com a idade, não tende a piorar.

Cláudia Raia:
Oi?

Mônica Bergamo: O que isso tem a ver com a idade?

Roseli Tardelli: Amadurece.

Mônica Bergamo:
Se vai piorar.

Cláudia Raia: Eu digo o seguinte: que hoje, aos 24 anos, eu ainda tenho tudo no lugar, sou jovenzinha, tudo direitinho, e eu tenho essa quantidade de problemas. Você imagina, daqui a 30 anos eu vou ter o triplo de problemas, claro...

Célia Pardi:
[interrompendo] Cláudia, deixa eu perguntar, você está falando em problemas...

Cláudia Raia: Eu vou ficar velhérrima.

Célia Pardi: E coração, como é que é? Você falou que tem uma tendência a buscar os homens traidores. Aí eu vi que você faz análise, não é isso? Isso vai para o divã, esse papo?

Cláudia Raia: Vai, tem que ir.

Célia Pardi: Como é essa coisa? Se os homens traem você, coitadas de nós, imagina!

Cláudia Raia: Os homens traem em geral.

Célia Pardi: Traem, como é que você vê isso?

Cláudia Raia:
Independente de ser comigo ou não, a Marília [jornalista Marília Gabriela, em um programa de entrevistas] me fez essa pergunta e eu tive a idéia na hora, quer dizer, eu acho que o erro está comigo, que se eu sempre estou namorando e casada com homens que me traem. É porque eu gosto de homens traidores, acho que é isso.

Célia Pardi:
E você acha isso um problema?

Cláudia Raia: Claro, imagina.

Célia Pardi: Você já conversou com o analista sobre isso?

Cláudia Raia: Não.

Célia Pardi: Vai levar na próxima sessão?

Cláudia Raia: Vou, com toda certeza, eu tenho que mudar essa minha conduta, senão eu vou enlouquecer. É horrível ser traída.

Célia Pardi: Eu acho um horror.

Cláudia Raia: É péssimo.

Cunha Júnior: E essa questão, até o próprio título do espetáculo, Não fuja da raia... Você é uma pessoa muito desejada, pelo menos as pessoas, através de televisão, através das revistas, todos desejam muito você, apesar de você dizer que não se acha muito bonita. Na harmonia toda, você acha atraente e é evidente.

Cláudia Raia:
Obrigada.

Cunha Júnior: Mas porque é que os homens "fogem da raia"?

Cláudia Raia: Fogem?

Cunha Júnior: Você sempre diz que os homens "fogem da raia", eles têm medo de se aproximar de você?

Cláudia Raia:
Acho que um pouco, mas não é muito também. É engraçado, mas eu sinto que eu não sou uma pessoa cantada. Por exemplo, ninguém chega e me canta, incrível isso. Ninguém acredita nessa história, mas é verdade. Eu crio uma distância que eu também não premedito, não é um posicionamento, eu digo "não, esse eu não vou olhar, porque ele vai...". Não, é natural meu, eu acho que é diferente quando a mulher tem escrito na testa "disponível". Eu não tenho essa palavra escrita na minha testa, e eu não preciso disso também para viver e nem para me relacionar com as pessoas.

Jorge Escosteguy: Que palavra você acha que tem escrita na testa?

Cláudia Raia:
Amor. Eu acho que é o suficiente para viver bem feliz. E até tem alguns relacionamentos que eu tive, até agora poucos, até pela minha pouca idade, embora todo mundo diga que eu namoro uma pessoa por semana. Se eu namorasse todo mundo, eu estaria acabada, não estaria aqui, inclusive, estaria na cama, no soro.

Ricardo Soares:
"Fora da raia".

Cláudia Raia: É exatamente. Agora, eu acho que existe todo um medo, até pelo meu tamanho, eu sou muito grande e tal.

Ricardo Soares: De salto você fica com quanto? Dá um metro e...?

Cláudia Raia:
[interrompendo] Ah, fica um metro e 85.

Jorge Escosteguy: Quem dizem que você namorou, e você não namorou?

Cláudia Raia: Várias pessoas, imagina, mas eu já perdi a conta.

Jorge Escosteguy: Faustão [jornalista e apresentador da TV Globo], por exemplo?

Cláudia Raia: Não, o Faustão, eu iniciei um relacionamento com ele.

Jorge Escosteguy: Fátima Cintra que perguntou, de São Paulo

Cláudia Raia: Eu iniciei um relacionamento com ele. É uma pessoa bárbara, adoro ele, inclusive ia muito bem, mas a gente teve um relacionamento mínimo, muito pouco tempo mesmo.

Jorge Escosteguy: Jô Soares [humorista, escritor e apresentador de televisão], pergunta Eugênio Carlos de Abreu, em São Paulo.

Cláudia Raia:
Namorei muito, apaixonada por ele, muito apaixonada. É uma pessoa bárbara, o homem mais maravilhoso que eu já conheci na minha vida, este é verdade e durante muito tempo, e todo mundo sabe, é totalmente público tudo isso. Agora, o Fausto, aconteceu que a gente, entre as pontes aéreas - porque ele mora no Rio agora, trabalhando enlouquecidamente lá, eu morando aqui, louca por esse espetáculo, a gente não se via. E também começou a criar um tumulto esse meu relacionamento com ele, e é muito desagradável, porque ele tinha acabado de sair de um casamento. A gente nem sabia muito bem o que estava acontecendo e, de repente, eu abri a revista e eu estou casada com ele, é mentira.

Jorge Escosteguy: Jô Soares e Fausto Silva são dois gordos. [risos]

Cláudia Raia: É verdade.

Jorge Escosteguy:
Tem alguma coisa a ver?

Cláudia Raia: Não, me casei com [o ator] Alexandre Frota.

Mônica Bergamo: Cláudia, você uma vez declarou que gostava de pé.

Cláudia Raia: É verdade.

Mônica Bergamo:
Eu queria saber se você tem algum outro fetiche?

Cláudia Raia: Boca é uma coisa que eu gosto muito também. Agora, pé é uma loucura, eu já terminei namoro depois que vi o pé.

Mônica Bergamo:
Alguém conhecido?

Cláudia Raia: Não, ninguém conhecido. Mas eu realmente estava namorando e na hora de ver o pé, um pé horrível, eu não consigo.

Jorge Escosteguy:
Quais os defeitos mais graves nos pés do homem?

Cláudia Raia: Não é no pé do homem, é o pé generalizado, o pé humano. Eu gosto muito de pé, mas eu odeio pessoas que têm o pé feio, o que eu vou fazer?

Roseli Tardelli:
Tem que ser um pé bonito.

Cláudia Raia: Tem.

Jorge Escosteguy: Não pode ter calo?

Mário Mendes: [interrompendo] Cláudia, dizem agora que você está de "caso" com um empresário paulista muito poderoso.

Cláudia Raia: É mesmo? Quem é? [ironizando]

Mário Mendes: Isso procede?

Cláudia Raia: Não, infelizmente não. Completamente sozinha, abandonada.

Mário Mendes:
Sai do teatro e vai para casa, vai para o hotel?

Cláudia Raia:
Vou jantar e vou para casa.

Roseli Tardelli: Você "transa" bem essa solidão? Você disse que está só...

Cláudia Raia: É difícil, porque é o seguinte, quando eu me casei eu tinha uma idéia do casamento maravilhosa, porque eu tenho uma mãe maravilhosa e tive um pai bárbaro - que eu conheci pouco, porque ele morreu quando e eu tinha 4 anos - mas eu me lembro exatamente do relacionamento deles e era um casamento muito feliz. Mamãe nunca mais se casou, tanto o amor que ela sentia por ele. Minha irmã também é casada há oito anos e eu tenho dois sobrinhos maravilhosos. Então, eu tenho uma idéia do casamento muito agradável. Quando eu me casei, realmente achei que eu fosse ficar casada a vida inteira, eu casei com esse intuito, amava o meu ex-marido. Tive um casamento bastante feliz, mas fiquei muito decepcionada quando acabou, porque não era essa idéia que eu tinha do casamento. Eu sou aquela menina de Campinas e sempre sonhei que meu casamento fosse um evento, porque o da minha mãe foi um evento, eu queria me casar igual a ela, porque eu acho que o casamento da gente é o único dia que a gente é verdadeiramente uma princesa. Eu queria me casar! Todo mundo acha que eu fiz por marketing, aliás, que coisa essa coisa de marketing, todo mundo acha que eu fiz tudo por marketing. Eu não faço nada por marketing, eu me casei do jeito que eu queria, com toda aquela pompa, aquele vestido escandaloso, porque eu sou assim. Eu nunca vou conseguir casar [só] no civil,  não é a minha cara.

Jorge Escosteguy: Você acha que se enganou com o casamento ou se enganou com o casado?

Cláudia Raia:
Não, com o casamento. Eu fui muito feliz com meu ex-marido, muito mesmo. Adoro ele, tenho o maior carinho por ele, e nós passamos seis anos juntos, porque três antes de se casar, nós já morávamos juntos. Tenho um grande amor por ele. Fiquei decepcionada por ter acabado o casamento, que era uma coisa que eu acreditava tanto, que tinha uma visão tão positiva.

Jorge Escosteguy:
Mônica, por favor.

Mônica Bergamo: Você estava falando que o casamento era uma fantasia...

Cláudia Raia: [interrompendo] Gente, a Mônica está arrasando em Roda Viva! [referindo-se ao fato de Mônica Bergamo estar participando bastante da entrevista]

Mônica Bergamo: Se for para ficar tímida eu não vou mais...

Cláudia Raia: Não, imagina.

Mônica Bergamo: Você estava falando de fantasia. Eu peguei um ensaio que você fez para a Playboy em janeiro de 1988, com as tuas fantasias sexuais. E você aparecia acorrentada, transando acorrentada e simulando uma transa com um homem híbrido...

Cláudia Raia: Transando não!

Mônica Bergamo: ...metade homem, metade cavalo, era uma fantasia.

Cláudia Raia: É, isso.

Mônica Bergamo: Eu queria saber se você ainda tem essas fantasias, se você realizou? O que era aquilo?

Cláudia Raia: Olha, eu queria contar um segredo para você em "off", que ninguém nos ouça. Eu dei só uma idéia de fantasia, as outras foram inventadas por eles.

Mônica Bergamo: Mas você posou.

Cláudia Raia: Posei, achei legal, achei bonito, mas não eram verdadeiramente as minhas fantasias. Aliás, eu não tenho quase fantasia. Eu gosto muito de cavalo, acho lindo cavalo, acho absolutamente sensual. Na edição anterior a essa, eu também fiz um ensaio todo com cavalo, porque eu acho muito bonito uma mulher nua do lado de um cavalo, é um animal que me chama atenção, acho sensual. Eu disse que eu gostaria de fazer as fantasias sexuais, metade cavalo e metade homem, porque eu acho ficaria bonito, engraçado.

[risos]

Jorge Escosteguy: Rapidinho, antes do intervalo, por favor.

Cláudia Raia: Sim.

Cunha Júnior: Agora é a minha pergunta. Cláudia, ainda voltando naquele negócio da solidão, você sente carência de amor em relação ao público? Citando até um caso, bem especifico, da "Adriana" - que foi seu personagem na novela Rainha da sucata. No início você teve que engordar, e depois o público reclamou muito que você engordou. Você se viu obrigada a emagrecer com medo de perder o amor do público?

Cláudia Raia: Não, não, não absolutamente. Quando eu tinha sete anos de idade, todas as minhas amigas saíam e falavam dos menininhos, paqueravam. Eu não, eu só queria fazer aulas, eu fazia oito aulas por dia, era obcecada pelo trabalho. Minha irmã dizia "Cláudia, se você for uma artista - e provavelmente você será - é muito triste você sair, você entrar em um teatro, ser aplaudida, ovacionada de pé, receber flores, o amor de todas daquelas pessoas e sair pela porta dos fundos do teatro e ir para casa sozinha. Eu acho que você deve abrir o olho em relação a isso". Ela sempre me disse isso a vida inteira, e eu, várias vezes, já fiquei sozinha. Não acabo um relacionamento e inicio outro, eu não consigo, eu não tenho esse poder, demoro um tempo para me refazer disso tudo. Eu já fiquei sozinha umas três vezes, bastante tempo e sinto falta sim, claro, de alguém. Mas essa coisa de emagrecer pra voltar a ter o amor do público, não foi proposital. Eu engordei para a novela e comecei a me sentir mal. Eu tenho uma coisa de estética muito forte, até porque eu danço, dancei a minha vida inteira e danço. Então para mim foi complicado ficar com 13 quilos a mais, eu me sentia uma "anta" de gorda! Foi horrível, as pessoas até diziam isso na rua, não agressivamente. Mas não foi porque as pessoas pediram, eu comecei a sentir mal, comecei a usar roupas largas e tal. Eu espero nunca perder o amor do público, porque eu acho que sem ele eu não vou conseguir viver.

Jorge Escosteguy: Cláudia, nós voltamos em seguida a esse assunto. O Roda Viva vai fazer um rápido intervalo e volta daqui a pouco, entrevistando hoje a atriz Cláudia Raia. Até já.

[intervalo]

Jorge Escosteguy: Voltamos com o Roda Viva, que hoje está entrevistando a atriz Cláudia Raia. Cláudia, no primeiro bloco você comentou alguma coisa sobre o artigo que saiu na Veja sobre fumar. Tem dois telespectadores aqui, o Aderbal, de Planalto Paulista, e o Marcos da Cruz, de São Bernardo. O Aderbal pergunta o que você acha da mulher que fuma na televisão, você está fumando? E o Marcos pergunta porque você não pára de fumar?

Cláudia Raia: Olha Marcos, bárbara essa sua pergunta. Minha entrevista na Veja foi um pouco mal interpretada. Eu não sou a favor das pessoas que fumam, eu acho que fumar, inclusive, é burrice. Eu sou uma pessoa burra, porque eu fumo muito. Claro que o cigarro faz mal à saúde, lógico, isso é óbvio, e eu se tivesse um pouco mais de caráter, eu pararia de fumar, porque eu danço, eu canto, eu não posso fumar. Mas vou parar, porque isso está me prejudicando. O que eu disse é que o preconceito contra os fumantes é errado. Mesmo no dia em que eu parar de fumar - e isso vai ser uma dádiva de Deus - eu acho que o preconceito contra o fumante é muito chato, porque o fumante fica como criminoso, parece que ele matou alguém, ele é o ultimo da fila do avião, ele é a pior mesa do restaurante. Também acho que as pessoas que não fumam devem se incomodar com os fumantes, mas teria que haver um respeito mútuo. Por exemplo, saiu uma lei nos Estados Unidos que não se pode fumar em vôos de até seis horas. É um absurdo para um fumante! Como ele vai ficar seis horas sem fumar? É uma loucura, então bota um avião para fumantes e um avião para não-fumantes, aí eu acho certo. Foi só isso e eu vou parar de fumar.

Jorge Escosteguy: O Walter Clark tem uma pergunta.

Walter Clark:
Eu entrei na Roda Viva e me perguntaram, durante o intervalo, se era difícil trabalhar com você. E não é nada difícil, a Cláudia é essa garotona fantástica. E ela defende o papel, ela defende a companhia - que entrou com grande dificuldade, com exceção do teatro.  Ela, especialmente, e os outros participantes da peça, ajudaram muito na defesa da peça. Agora eu pergunto: e você, empresária, é difícil trabalhar com bailarinas e atores?

Cláudia Raia: É muito difícil, sabe por quê? Eu não consigo entender... você já trabalhou comigo, já foi meu patrão, já foi meu tutor, o Walter Clark foi meu tutor, ele assinava por mim porque eu era menor. E ele sabe que eu jamais dei nenhum tipo de problema, porque eu acho um absurdo alguém chegar para o produtor, que é uma pessoa já insana de natureza, e dizer "olha, o meu sanduíche não chegou". Não pode, gente, são muitos problemas, coisas muito graves. As pessoas reclamam de tudo, elas não conseguem resolver
absolutamente nada sozinhas, então tudo é um problema. Por exemplo, na minha companhia, os meus bailarinos são obrigados a fazer uma aula de balé clássico durante uma hora antes do espetáculo. E eles acham isso chatíssimo.  Agora eles também reclamam que ganham mal, não têm dinheiro para fazer aula. Eu estou dando uma aula de graça, então nada está bom... Eu me lembro um episódio do Splish Splash [musical produzido pela companhia de Cláudia Raia] que a gente estava produzindo. Todo mundo queria um sanduíche. Então eu comprei 32 sanduíches, perguntei para cada um: "é de carne, é de frango?". Organizei tudo direitinho, chegavam com nome e ninguém comia! O sanduíche estava apodrecendo, eu gastei minha saliva, quer dizer, fiz uma permuta com a empresa. É exatamente isso que significa trabalhar em um musical com um elenco de bailarinos e atores de mais de 20 pessoas. Eles reclamam de tudo, nada está bom, então é realmente muito difícil...

Roseli Tardelli: [interrompendo] Você reclamava também, Cláudia?

Cláudia Raia: Oi?

Roseli Tardelli: Você reclamava também?

Cláudia Raia: Não, por isso que eu não entendo quem faz isso com os produtores. Eu jamais cheguei para o Walter [Clark] e pedi qualquer coisa a ele.

Jorge Escosteguy: Nem um cigarro?

Cláudia Raia:
Não, nem um cigarro. A única coisa que eu pedi para ele... Quando eu entrei no Chorus Line, eu entrei como substituta, eu estava louca da vida, porque queria ser a titular. Eu fui assinar o meu contrato e ele, pessoalmente, veio para eu assinar. E ele disse "você vai assinar o contrato de stand by, mas será titular, eu tenho certeza disso". E eu disse para ele "Mas ganhar 150 cruzeiros é muito pouco, imagina se eu vou ficar ganhando 150 cruzeiros para ficar..."

Walter Clark: [interrompendo] Para não entrar em cena.

Cláudia Raia: Para não entrar em cena! "Eu quero ganhar 300". Foi o único pedido que eu fiz, e ele me pagou 300 e nunca mais eu pedi nada. E estava tudo tão bom...quando é uma produção organizada, você não tem que ficar reivindicando nada. E as pessoas reivindicam sempre, nunca está bom, é complicado. O bailarino no Brasil é muito jogado de lado, ele é sempre pano de fundo, nunca é o protagonista de nada, então ele já é revoltado por si próprio,  já acha que tudo é contra ele, que está todo mundo querendo sacanear. Na minha companhia eu não tenho muito problema, pois cada um tem seu momento. Eu também já fui bailarina e sei o quanto é duro fazer pano de fundo, então eu abri esse espaço e agora eles estão calmos.

Ricardo Soares: Cláudia, você falou no começo do Roda Viva sobre a memória curta do brasileiro. A revista Veja publicou uma matéria te chamando de "a namoradora do Brasil", fazendo um contraponto à "namoradinha do Brasil", que é a atriz Regina Duarte.

Cláudia Raia: Isso.

Ricardo Soares: Ou seja, comprovando que você se notabilizou pela televisão...No seu tempo de televisão, qual foi o personagem com o qual você mais se identificou e com quem você menos se identificou? E o que você gostaria de fazer na televisão ainda?

Cláudia Raia:  Um personagem?
 
Jorge Escosteguy: É.

Cláudia Raia: Perfeito. Quando eu vou para a televisão gravar, que todo mundo acha muito chato fazer novela, eu adoro! Eu tenho esse defeito,  pego a minha bolsa sete horas da manhã como se eu estive indo para Nova York, de tanto prazer que eu tenho em trabalhar. Então eu posso dizer os personagens que mais marcaram para o público, porque o meu prazer é sempre o mesmo. Quando eu pego um personagem, ele pode ser mínimo, ele pode ser nada, que eu tento transformá-lo em qualquer coisa. Agora , nada ele não vai continuar sendo, entendeu? Eu gosto muito do que eu faço. Todos os personagem que eu fiz, uns com mais sucesso, outros com menos,  marcaram muito a minha vida. Cada um...

Ricardo Soares: [interrompendo] Que tipo era mais você: "Adriana",  "Tancinha" ou "Tonhão"? Quem tinha mais de Cláudia Raia?

Cláudia Raia: Acho que era "Adriana". O "Tonhão", eu ficava olhando meu ex-marido, como ele fazia a barba, como ele falava. Eu imitava o Alexandre [Frota]. A "Maria Inspiração", que era aquela "negona" que eu fazia, imitava a minha camareira. Ela era metida, então qualquer coisa que você falava, ela falava: "É ruim, hein?". Eu tento pesquisar assim, nas pessoas, para criar os meus personagens. Eu faço um personagem na peça, que é uma homenagem à minha professora de canto. Eu geralmente crio os personagens pelos outros. Agora, personagens que eu gostaria de fazer na televisão, não tem nada específico, eu gosto de fazer boas coisas, lógico.

Jorge Escosteguy:
[interrompendo] Edmar Pereira, por favor.

Cláudia Raia: O meu sonho é fazer um musical na televisão. Eu não consegui fazer ainda uma coisa grandiosa, gostaria de ter um programa meu...

Ricardo Soares: Tem um papel para aquele programa, tinha uma idéia para esse programa, entre você e o Boni [José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, produtor da TV Globo] para fazer um...

Cláudia Raia: Inclusive o Não fuja da raia  foi um nome dado pelo Boni. Foi feita uma pesquisa em São Paulo e eles relataram que eu era atriz mais popular com as crianças e com os adolescentes. Então veio à idéia, mas não era um programa meu, mas era muito interessante, aos sábados à tarde, eram três horas ao vivo, com a descoberta de novos talentos em todas as modalidades artísticas. Era uma gracinha o programa, foi totalmente aprovado, mas depois a gente chegou à conclusão que semanalmente a gente não iria descobrir grandes talentos, e como essa era a força do programa, podia não dar tão certo. Desistimos e pedi o nome ao Boni.

Jorge Escosteguy: Edmar Pereira, por favor.

Edmar Pereira: No Kuarup [filme brasileiro de 1989, dirigido por Ruy Guerra e baseado em obra de Antônio Callado, mostra os rituais indígenas do Xingú, as mazelas da condição sacerdotal e política do Brasil]
, você faz uma das séries de cenas de erotismo mais bonitas que eu já vi no cinema. Eu queria saber como foi, como que é isso para você. Você falou de fantasias sexuais...que clima você criou para você mesma fazer aquelas cenas?

Jorge Escosteguy: Desculpe, o Miguel Davi, de Osasco, pergunta também o que significou para você trabalhar no Kuarup.

Cláudia Raia: Ótimo, significou muito, foi bárbaro! Você sabe que eu achei que o cinema era uma "panelinha", porque ninguém me chamava para fazer cinema, eu fazia sucesso na televisão, no teatro, mas nunca ninguém chamava para fazer cinema. Só me chamavam para fazer filme pornô, eu ficava com uma raiva! Então o Ruy Guerra, que era uma pessoa que eu admirava muito, admiro muito, me chamou para fazer um filme dele. Eu não acreditei, pois estava produzindo uma peça e fazendo o piloto do meu programa, atoladíssima de trabalho. Imagina se eu ia conseguir ir para o Xingú [Parque Indígena do Xingú, situado à beira do rio Xingú, no norte do estado do Mato Grosso], eu tinha horror de ir para lá, essa é a verdade. Isso porque eu tinha medo dos bichos, dos mosquitos, eu fiquei apavorada. Quando ele me chamou e me mostrou o personagem, eu disse que não poderia fazer. E ele falou "você tem que fazer esse papel, é a sua cara". Então ele me convenceu, disse que não tinha bicho no Xingú, que não tinha mosquito. Eu fui de avião e levei tanta coisa, tanto sapato, tanta roupa, canapés  - eu levei com medo de não ter comida - que eu e a minha bagagem não cabíamos no avião. Então foi um avião me levando primeiro, claro, porque senão eu podia "fugir da raia" e depois a minha bagagem. Eu fiquei em uma barraca de cabine dupla, porque eu não cabia em numa barraca só, eu e as minhas coisas. Era uma barraca chiquérrima, foi a melhor barraca da temporada...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Do cinema brasileiro.

Cláudia Raia: E aí eu me lembro... no Xingú, eu queria usar chapéu, aquelas echarpes. E não deu nada certo! Tinha que andar descalço, tinha um monte de bichos, eu desci do avião e já fui picada por três abelhas. Foi horrível, eu não sei como eu me preparei para as cenas. Eu estava tão apavorada, porque eu tinha medo de entrar no rio, porque tinha um bichinho que entrava dentro da gente e corroía, e eu entrava nua no rio. Eu fazia as minhas cenas absolutamente apavorada com tudo, porque eram dentro da canoa, dentro do rio Xingú, que tem milhares de piranhas, era perfeita tensão, então eu não sei como que saiu daquele jeito, realmente não sei...

Edmar Pereira: Agora vendo as cenas você gostou?

Cláudia Raia: Mais ou menos. Eu me lembro que quando eu vi na moviola que foi montada no Xingú, vi as minhas cenas e comecei a chorar, tive uma crise, achei que eu estava péssima no filme, que ele tinha que ter chamado uma modelo, que o meu desempenho tinha sido péssimo, eu tive uma crise de depressão. Depois eu vi que todo mundo falava que eu era a melhor coisa do filme. Eu ganhei prêmio de melhor atriz da APCA [Associação Paulista de Críticos de Artes]. Então não dá, eu nunca posso me criticar, eu sou péssima crítica para mim mesmo. 

Jorge Escosteguy: Ô Cláudia, há vários telefonemas e elogios à entrevista.

Cláudia Raia: Que bom!

Jorge Escosteguy: Há vários amigos que se surpreenderam com você. O Antônio Sobrinho, de Santo André, Carlos Alberto Cavalcante, de São Paulo, Roberto Alvarenga, da Granja Viana, Gustavo Almeida, da Vila Mariana, Thomas de Paz ,de São Paulo,  Cláudia de Oliveira Aquino, também de São Paulo, Ana Maria Kalil, do Jardim Paulista, Joel Machado, do Jaçanã e o Vinícius, que pergunta que mensagem você mandaria para as mulheres feias.

[risos]

Cláudia Raia: Para as mulheres feias! Eu não tenho esse preconceito de pessoas feias e mulheres feias, porque eu acho que todos nós somos bonitos.  Nós temos nosso lado bonito e temos nosso lado feio. Eu não acredito só na beleza física, mas no que a gente tem dentro do coração, portanto se você se considera uma pessoa feia é porque você não está deixando o seu lado bonito sair para fora. Então cultive cada vez mais esse lado que todos nós temos. [vira-se para a câmera chamando a atenção dos telespectadores]

Roseli Tardelli: Ô Cláudia, os telespectadores disseram estar surpresos com a entrevista e tudo mais. Você é uma pessoa surpreendente, por exemplo, você tem vergonha de fazer cenas nuas. De que mais você tem vergonha?

Cláudia Raia:
É..do que mais eu tenho vergonha?

Roseli Tardelli: A gente nunca imagina que você possa ter vergonha de alguma coisa.

Cláudia Raia: Não, ninguém imagina, nem eu, porque os trabalhos que eu faço, realmente... Olha, eu vou te contar um episódio maravilhoso. Eu estava no Chorus Line e o J.R. Duran [Josep Ruaix Duran, fotógrafo espanhol radicado no Brasil, com trabalhos bastante elogiados e muito utilizados em revistas masculinas, de moda e campanhas publicitárias]
, que eu adoro, ficou impressionadíssimo comigo, levou a direção da revista Playboy, foi conversar com o Walter, que disse: "eu acho que você deve fazer a Playboy". Eu tinha 16 anos, mas aceitei fazer. Fomos para Angra dos Reis fotografar e... eu não queria tirar a roupa!

Roseli Tardelli: O contrato assinado?

Cláudia Raia: Totalmente, com o dinheiro no banco, maravilhoso.

Roseli Tardelli: Rendendo...

Cláudia Raia: Rendendo, naquela época rendia muito, 90%.

Roseli Tardelli: No banco normal.

Cláudia Raia: No banco normal, tinha muita inflação naquela época e rendia muito. Eu fui fotografar e a produtora dizia "Você tem que tirar a roupa, Cláudia. Está fotografando para a Playboy!". Eu comecei a chorar e disse "não quero tirar a roupa". E o "meu santo é tão forte", que começou a chover. Choveu por quatro dias e a gente ficou esperando a chuva passar e aí fomos embora. Antes de começar a chover, eu me lembro que o Duran me botou a três dunas acima e ele ficou embaixo, me botou uma saia branca e um colete aberto e eu, sem calcinha, lógico. Ele pediu que eu corresse, corresse, corresse e fizesse um [...] que é com as pernas abertas. Eu adorei porque eu estava de saia, coletinho, estava vestida. Corri, corri, corri e quando eu fui fazer o [...] me lembrei que ele estava aqui embaixo e que se eu abrisse as pernas, ele ia fotografar  Tive uma crise, falei que não queria, foi muito difícil essa minha primeira foto para a
Playboy. Aí eles tiveram que me colocar dentro de um estúdio de dança, me vestiram como bailarina, fecharam tudo, e me fizeram dançar quatro horas seguidas. Eu transpirava, ia tirando um pouco a parte de cima, só tirava a parte de cima! Quando acabaram as fotos, eu tirei a roupa toda e botei um roupão. Quando eu ia fecha o roupão, o roupão estava aberto. O Duran abriu a porta e fotografou. É a única foto que eu tenho nua inteira, é uma das fotos mais lindas que eu tenho na minha vida, porque eu estou com uma carinha assustada, sabe? Para autorizar a foto foi um problema, porque eu não queria autorizar. Então, eu realmente tenho muito problema com isso, todas as Playboys que eu faço, mesmo agora que eu já estou mais madura, um pouquinho mais atirada, eu fico me escondendo no mês que a revista está nas bancas. Porque eu falo "meu Deus, todo mundo vai me olhar, vai saber que eu estou na Playboy, que eu estou nua!". Eu fico apavorada, é horrível, esse é o meu maior medo...Tenho medo de mentira também, tenho medo de falsidade.

Jorge Escosteguy: Cláudia, a Silvana Pinto, aqui de São Paulo, pergunta qual a sua religião, se você realmente é budista e que ramificação?

Cláudia Raia: Sou, sou budista sim, mas não sou fanática. Rezo a sutra, rezo meu mantra, eu encontrei o meu caminho.

Jorge Escosteguy: O que leva você ao budismo?

Cláudia Raia: Eu encontrei uma pessoa muito interessante no Rio de Janeiro, que se chama Cristina. É uma budista, uma taróloga, uma pessoa muito espiritualizada. Na verdade, eu acreditava em uma força maior que me regia, mas eu não sabia exatamente o quê e quem. Fui criada na religião católica, acho tudo super bonito, mas ainda não tinha encontrado a minha religião certa. O budismo foi a religião a que eu mais adaptei, ele não é exatamente uma religião, é uma filosofia de vida. E eu gosto dessa filosofia de vida, que é a junção do espiritual com o material, ninguém te pune por nada, nem por ninguém. Você reza para conseguir o seu equilíbrio, eu acho que é só o que a gente precisa neste mundo.

Cunha Júnior:
Cláudia, eu tenho uma declaração sua aqui de um jornal de São Paulo, de abril de 1990, dizendo que você, por enquanto, não pensa em interpretar Shakespeare ou fazer drama, já que ainda tem pernas para dançar. É real isso ou foi mal interpretado? Você realmente não pensa em fazer drama por enquanto?

Cláudia Raia: Não, foi mal interpretado. É super importante na carreira de uma atriz fazer drama, eu é que tenho as veias cômicas, eu gosto de comédia, o meu primeiro personagem na vida foi de comédia. Eu não sei nem se eu sou uma ótima atriz dramática, porque eu fiz pouca coisa em relação ao drama, não é?

Cunha Júnior: Seria um desafio para você agora, por exemplo, fazer um papel dramático na televisão?

Cláudia Raia: Seria, se bem que eu acho a comédia mais difícil do que o drama, porque é mais difícil fazer alguém rir do que chorar. Mas acho importante fazer um Shakespeare. Só que ninguém entende, a crítica brasileira acha que o ator que faz musical e comédia é um ator menor. Eu não concordo com isso, absolutamente. E é um preconceito que existe não só brasileiro,  mas mundial, de quem faz musical e faz comédia é um ator menor. Eu não concordo com isso e também não estou preocupada se eu vou ganhar algum prêmio ou não vou, porque eu sou uma atriz de comédia e de musical. Também não quero deixar isso definitivo na minha vida, não é que eu nunca vou fazer drama, mas agora eu ainda não estou com vontade. E as minhas pernas, eu realmente tenho que aproveitá-las enquanto elas agüentam, porque ser bailarina, realmente, depois dos 35, 40 anos, já não dá mais mesmo, é complicado.

Jorge Escosteguy: Mônica, por favor.

Mônica Bergamo: Eu ia fazer uma pergunta naquela hora que estava falando de nudez, de ensaio e ficou um pouquinho fora. Mas em todo caso, você disse que é tímida, tem problemas com ensaio de nudez e tal. Eu queria saber o que te levou então a bater um recorde na Playboy? Você foi quatro capas, a pessoa que mais posou até hoje.

Cláudia Raia: Não, eu fiz cinco capas e quatro ensaios.

Mônica Bergamo: Bom, tudo bem. Você posaria de novo?

Cláudia Raia: Não sei...Foi uma fase da minha vida, mas foi muito legal, eu tenho muito carinho do pessoal da revista,  fui muito bem tratada. Na primeira vez que fotografei para a
Playboy eu era uma adolescente, tinha 16 anos e fui tratada com tanto carinho, com tanto respeito e isso até hoje, a última que eu fiz, da mesma forma. Eu falo até como uma homenagem.

Mônica Bergamo: O que te levou fazer quatro vezes um ensaio se você tem problema...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Com toda essa timidez?

Roseli Tardelli: Tantos ensaios e não perdeu a timidez?

[risos]

Cláudia Raia: Mais ou menos. Não é eu gostava muito, depois passei a curtir, trabalhar com essas pessoas. Vinham com propostas, eu achei que até estava ficando demais na Playboy. Mas as propostas eram boas, as propostas fotográficas eram muito boas.

Mônica Bergamo:
Financeiras?

Cláudia Raia: Também, muito boas.

Mônica Bergamo: Não dá para falar quanto?

Cláudia Raia: Eu nem me lembro mais, foram tantas e há tanto tempo atrás, não me lembro. Agora, não sei se eu faria, eu acho que se fosse há um mês atrás, com meu problema todo de patrocínio, eu acho que até faria se viesse uma proposta maravilhosa.

Jorge Escosteguy: Cláudia, o José Max, de Santos, pergunta como nasceu a sua amizade com o presidente Collor.

Cláudia Raia: Quando eu fui fazer um peça, Gatão de estimação, em Maceió, ele era candidato a deputado federal. Todos eram muito meus fãs, porque eu fazia a novela Roque Santeiro, estava iniciando, eles assistiam. Ele dizia que eu ia ser uma estrela...Fui com a peça e eles foram me ver. Fiz um agradecimento a eles na platéia, eu disse "Queria agradecer ao futuro deputado federal Fernando Collor e sua esposa Rosane".  Eu o conhecia já do jornal e o achava um político interessante. Eles foram até o camarim me cumprimentar, e eu disse para ele: "Você vai ganhar como deputado federal. Você tem uma camiseta sua aí?". E ele: "Tenho no carro." E eu mandei buscar, mesmo ele estando sem graça. Havia repórteres, fotógrafos, porque eu estava estreando em Maceió. Ele vestiu a camisa e tirei uma foto, ele perguntou quanto era. Eu falei que não era nada: "eu estou te apoiando, porque acho que você vai ganhar". Convidou todo o elenco para jantar e tal, e assim foi o início da nossa amizade. Depois eu o apoiei, ele ganhou e ele achou que eu sempre tinha que estar ao lado dele. Nessa época eu estava noiva, já para casar, e eles participaram muito de toda dessa parte da minha vida. Ficamos realmente muito, muito amigos.

Jorge Escosteguy: Você falou que tirou as fotos para a Playboy e tinha um dinheirinho no banco. Você tinha cruzados novos no banco? Foram bloqueados?

Cláudia Raia: Claro que sim, e como!

Jorge Escosteguy: Qual foi sua reação com o presidente quando você perdeu seus ricos cruzados novos?

Cláudia Raia: Meu dinheiro ficou preso, eu não tinha dinheiro para comprar cigarro, me lembro que eu estava iniciando a novela Rainha da sucata [1989], e a [atriz] Glória Menezes também não tinha nenhum tostão. Então a gente juntou o que a gente tinha e compramos um maço de cigarros para dividir. Foi uma situação caótica, mas eu acho que faz parte, eu também me sentiria muito mal se o meu dinheiro não tivesse ficado preso, claro que se o de todo mundo ficou preso, o meu também teria que ficar. E acho que ele vai devolver, acho que vai ser muito legal essa atitude.

Jorge Escosteguy:
Você disse que foi fazer Kuarup na selva e estava morrendo de medo da selva. O Lázaro dos Santos, aqui da Lapa, pergunta o que você acha do movimento ecológico e se pretende dar algum apoio?

Cláudia Raia:
Sem dúvida, é lógico. Eu acho totalmente importante, inclusive foi feito um programa do Roberto Carlos  [cantor brasileiro] esse ano, que eu participei. O motivo maior era uma campanha em prol do verde, a vida, a ecologia. Eu acho absolutamente importante, eu tenho medo de estar na selva, não da selva! Acho que
cada vez mais tem que haver projetos nesse sentido, porque está muito complicado. Até a rádio Eldorado AM está fazendo uma campanha super bonita pedindo a salvação do rio Tietê. Eu acho isso absolutamente fundamental e vou cooperar sempre que eu puder, eu só não quero estar na selva! [risos]

Jorge Escosteguy: O Ricardo Soares tem uma pergunta para você.

Ricardo Soares: Falando de estar na selva e medo de bicho, está na cara que você jamais poderia ser a "Juma" do Pantanal, não é? [refere-se à personagem selvagem vivida pela atriz Cristiana Oliveira, na novela Pantanal, maior sucesso da TV Manchete, exibida em 1990]

Cláudia Raia: Nunca.

[risos]

Ricardo Soares: Eu queria saber qual a sua opinião sobre essa propalada revolução na telenovela brasileira em relação ao Pantanal, a emissora concorrente [da Rede Globo]. Qual a sua opinião sobre essa investida da TV Manchete em telenovela, enfim, tua opinião sobre Pantanal e sobre a dramaturgia da TV Manchete?

Cláudia Raia: Perfeito, acho maravilhoso, dou a maior força, é mercado de trabalho para todos nós! É início de uma televisão que tem tão pouco tempo de vida, mas que já está conseguindo resultados tão positivos. Eu não assistia Pantanal, até porque eu estava trabalhando ou eu estava assistindo a novela que eu fazia, mas fico muito feliz com o crescimento da Manchete. Eu acho que essa competição é muito boa, muito saudável. Também acho que a TV Globo investe para ser um monopólio, lutou muito também, para chegar onde ela está, é muito bom trabalhar na TV Globo. Sabe, eu às vezes fico um pouco irritada com isso de "TV Globo e monopólio". É monopólio porque também ninguém fez nada melhor até hoje, isso não significa que seja uma coisa definitiva, para o resto da vida. Está aí a Manchete que prova isso, não é?.

Jorge Escosteguy: Claudia, o Mário Mendes tem uma pergunta para você.

Mário Mendes:
Mudando de assunto você estudou balé e dança em Nova York, você passou pelas lentes de grandes fotógrafos do mundo, você foi ao Festival de Cannes [um dos mais famosos festivais de cinema do mundo, acontece anualmente na cidade francesa de Cannes] de cocar e causou o maior "frisson". Você, nessas suas andanças internacionais, não ficou tentada a virar uma outra Sônia Braga [famosa atriz brasileira que, nos anos 80, optou por viver e seguir sua carreira nos Estados Unidos] ?

Cláudia Raia:
Quem sou eu para dizer isso, não é?

Mário Mendes:
Como foram essas suas experiências?

Cláudia Raia: Maravilhosas, maravilhosas. Os meus estudos em Nova York, no American Ballet Teatre, foram bárbaros. As pessoas gostavam muito de mim. O [...], que foi a pessoa que me escolheu para a bolsa de estudos, falou para mim que eu era uma pessoa esculpida por Deus para a dança, tive esse elogio desse grande mestre.

Mário Mendes:
Nem com esse elogio você quis ir para lá?

Cláudia Raia: Eu fiquei dois anos, mas eu não agüentei. Era muito nova, tinha 13 anos de idade, fiquei longe de tudo, saí de Campinas e fui para Nova York, imagina. Mas eu achei que eu não fosse mais agüentar. Todo pessoal da companhia elogiava muito o meu trabalho e botava muita fé, achando que eu ia ser uma grande bailarina. Eu que não consegui ficar. Mais tarde, no Teatro Colón, de Buenos Aires, passei como primeira bailarina. Dancei Romeu e Julieta tantos anos lá... Claro que eu tenho ambições internacionais. No Festival de Cannes foi muito legal também, teve uma coletiva para a imprensa, que já estava bastante animada com o meu trabalho no Kuarup, já me chamavam muito para entrevista e fotos, quer dizer, já criou uma coisa bastante favorável.

Mário Mendes: Você já recebeu algum convite, por exemplo, em Cannes, sempre ficam de olho em uma nova estrela, que está pintando?

Cláudia Raia:
Não eu não recebi não. Bom, eu fui convidada para fazer o Orfeu Negro, que é uma produção americana e eu não pude fazer, não tive condição de fazer, fiquei sentida, porque era o filme é todo em inglês.

Mário Mendes: Você não fala inglês?

Cláudia Raia: Falo, mas eu não pude fazer, porque eu estava com trabalhos que eu não podia abandonar, era difícil, a filmagem era fora do Rio e de São Paulo, eu não tive como aceitar, infelizmente, mas claro que quero fazer trabalhos internacionais. Mas eu  tenho que amadurecer um pouquinho mais, trabalhar um pouco mais aqui.

Edmar Pereira: Você tem um filme inédito, não tem? Com o Neville [Neville de Almeida, cineasta brasileiro]?

Cláudia Raia:
Tenho.

Edmar Pereira: Matou a família. [Matou a família e foi ao cinema (1991)]

Cláudia Raia: Tenho.

Ricardo Soares: Por que você fez essa cara? Tem medo?

Cláudia Raia: É, tenho medo, pânico, porque esse filme é muito louco.

Mônica Bergamo: O que você faz nesse filme?

Cláudia Raia: A história principal é minha e a da [atriz] Louise Cardoso. A gente faz amigas que foram mulheres da sociedade, absolutamente finas e sofisticadas e que são absolutamente infelizes no casamento. Tudo na vida delas é um horror, elas são riquíssimas e são absolutamente infelizes. Elas vão enlouquecendo de uma tal maneira, bebem, transam, fazem tudo. Eu fui ver na moviola e saí meio perturbada, como sempre moviola é o meu problema! É muito louco o filme, é um trabalho de interpretação.

Cunha Júnior: Quando a gente vai ver esse filme?

Cláudia Raia: Vai estrear em maio.

Jorge Escosteguy: Cláudia, o Walter Clark tem uma pergunta, por favor.

Walter Clark:
Eu ia fazer a pergunta do drama. Como você encararia Nelson Rodrigues no teatro? Você já pensou?

Cláudia Raia:
Seria bárbaro, eu gostei tanto de fazer o Nelson Rodrigues no cinema. Ele escreve de uma maneira tão difícil, falar o texto dele é muito difícil e em cinema eu acho que é mais difícil ainda. Ele tem um linguajar bastante complicado, não em termos de português, quer dizer, a construção de como ele leva o personagem é uma coisa que você tem que estar muito atenta. Até para decorar é difícil, porque ele pega o raciocínio nada óbvio, uma coisa totalmente ao contrário. Você tem que estudar muito Nelson Rodrigues, eu gostaria de fazer no teatro.

Jorge Escosteguy:
Cláudia, o Jessé de Andrade e a Sueli Brito aqui de São Paulo, perguntam: depois dessa crise, como você conseguiu 300 mil dólares para montar o seu espetáculo? O Jessé inclusive lembra que você mencionou que ficou sem dinheiro para comprar cigarros quando veio o Plano Collor, e o José Zamboni, de Jundiaí, pergunta, quando você vai produzir show para os descamisados, já que o seu show é considerado caro?

Cláudia Raia:
Nossa, que coisa horrível! Olha, eu não consegui os 300 mil dólares, o espetáculo ficou orçado em 300 mil dólares. Eu até tinha um patrocínio que depois eu não tive mais, ele custaria 50 milhões de cruzeiros se eu não tivesse todas as permutas que eu tive. E se não tivesse festas dos boiadeiros, foi o que me salvou. Eu ensaiava, saía de noite e ia fazer festa de boiadeiro, eventos, apresentações. Graças a Deus fiz dois comerciais nessa super crise, que foi o que me salvou. Mas eu estreei lotada de dívida, estou pagando.

Jorge Escosteguy: Por que  você perdeu o patrocínio?

Cláudia Raia: É, um eu tinha e perdi.

Jorge Escosteguy: E perdeu, por quê?

Cláudia Raia:
É por causa da recessão, disse o...

Jorge Escosteguy: Patrocinador.

Cláudia Raia: O patrocinador disse que ele tinha " fechado as torneirinhas".

Jorge Escosteguy: Bom, o Zamboni pergunta quando você pode fazer o show para os descamisados e pés descalços?

Cláudia Raia: O meu espetáculo não é caro, é 2.500 [cruzeiros], quarta e quinta, e 3.000, sexta, sábado e domingo. Você imagina que um espetáculo que custa 300 mil dólares ter um ingresso que custa 3.000 cruzeiros, não é nada. Desculpe, mas eu não tenho como baixar o preço, porque aí eu não pago nem meu elenco, é difícil.

Jorge Escosteguy:
Bom, nós agradecemos então a presença da atriz Cláudia Raia hoje no Roda Viva. Agradecemos também aos companheiros que fizeram parte da bancada e aos telespectadores que nos prestigiaram. Lembramos que as perguntas que foram feitas por telefone, que não puderam ser feitas ao vivo, serão entregues ao final do programa para Cláudia Raia. O Roda Viva fica por aqui e volta na próxima segunda-feira, às nove horas da noite. Até lá e boa noite a todos.

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