Memória Roda Viva

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Leonel Brizola

9/8/1989

Referência importante da política brasileira, o ex-governador do Rio de Janeiro distribui críticas à Rede Globo e às pesquisas de opinião

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Jorge Escosteguy: Voltamos apresentar o Roda Viva Eleições 1989. O programa Roda Viva está entrevistando, ao longo dessa semana, os dez candidatos melhores colocados nas pesquisas de opinião. O candidato entrevistado, agora, nesta segunda sessão, é Leonel Brizola, do Partido Democrático Trabalhista [...] Para entrevistar Leonel Brizola esta noite estão presentes no Roda Viva Eleições 1989 os seguintes jornalistas: Ricardo Setti, diretor da sucursal paulista do Jornal do Brasil; Aloysio Biondi, editor geral do jornal Diário de Comércio e Indústria; Rodolfo Konder, editor chefe do Jornal da Cultura; Alex Solnik, repórter do jornal Folha da Tarde; Jorge Oliveira, editor de economia da revista IstoÉ Senhor e Fernando Mitre, superintendente de jornalismo da TV Bandeirantes. Na platéia, assistem ao programa convidados do governador Leonel Brizola. Leonel Brizola realiza este ano um projeto político acalentado há quase trinta anos, disputar à Presidência da República. Ele começou com o slogan “cunhado não é parente, Brizola para presidente” [Refere-se à época em que Brizola era um dos pré-candidatos à Presidência. Casado com Neusa Goulart, irmã de João Goulart (1919 -1976) presidente do Brasil entre 1961 e 1963, Brizola criou esse slogan contra uma lei federal que impedia que parentes do presidente concorressem à sua sucessão]. Passou pelo “socialismo moreno” e hoje apregoa a oposição sem cumplicidade. Sempre foi um dos favoritos nas pesquisas de opiniões, mas agora enfrenta a preferência destacada do eleitorado nas pesquisas pelo ex-governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello. No âmbito interno do partido, é ameaçado por alguns desfalques importantes que ameaçam "collorir" [refere-se ao jingle do então candidato Collor]. Governador, como o senhor vê, hoje, essas notícias de que alguns dos mais importantes aliados e assessores estariam prestes a collorir? Esta pergunta, inclusive, é feita já, de Maceió, pelo Ademir Cabral. Ele pergunta por que o senhor queria que o Collor fosse seu aliado sendo seu vice, quando Collor não tinha ainda carisma ou o índice de pesquisa de hoje e por quê, agora, o senhor encontra vários defeitos nele?

Leonel Brizola: Creio que [é] simples onda essa questão de que companheiros nossos estão querendo dissentir das posições do partido. O caso do deputado César Maia [economista. Foi deputado federal em 1986 e 1990. Em 1991, rompeu com Brizola e entrou no PMDB. Candidatou–se a prefeito do Rio de Janeiro em 1993, vencendo as eleições. Em 2001, retornou ao cargo de prefeito, obtendo a reeleição em 2005] é um homem de boa fé, foi envolvido na sua boa fé. Francamente, essas tentativas de envolvimento servem para mostrar que esse candidato não tem nem aquele mínimo de quadros que um presidente eleito necessitaria para ser coerente, a não ser para fazer uma geléia. Agora, mostra que não tem também idéias, não tem programa. E não é verdade que eu tenha cogitado, em qualquer momento, em qualquer circunstância, tenha cogitado atrair esse personagem para o nosso partido ou para uma eventual composição conosco, não é verdade. Porque há uma prática na imprensa brasileira que... não tomem como uma crítica, nem como um ataque como costuma se dizer, qualquer coisinha está se atacando à imprensa, não estou atacando, [mas] é bom questionar. Lá, tem um jornalista que inventa uma coisa, cria, e até há alguns jornais especializados nisso, como é o caso da Tribuna [Possivelmente refere-se à Tribuna da Imprensa], do Rio de Janeiro, [que] cria e os outros repetem. E dali um pouco, tanto se repete, que fica como se fosse uma verdade...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Por isso, desculpa governador, por isso, o senhor...

Leonel Brizola: ...com essa questão de que eu ambiciono. Eu, francamente, não estou em um projeto pessoal. Eu digo com toda lealdade a mim, a um homem da minha idade, com os meus 67 anos, eu não estou em uma corrida pessoal. Não me interessam as galas de poder. Eu estou nisso porque eu não vou ser incoerente com tudo que eu fiz na minha vida. O partido me convoca, me chama. Existem circunstâncias... Milhões de brasileiros pensam nisso e eu me sinto honrado, sei que vou entregar os últimos anos de vida ativa... e que eu até merecia, depois de mais de cinqüenta anos de trabalho, eu merecia ter até uma boa aposentadoria, sair com a minha mulher por aí, fazer as minhas conferências, viajar, não é?

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Governador, desculpe...

Leonel Brizola: ...gozar um pouco desses últimos tempos da vida. Do último quartel da vida, como dizia a minha velha mãe. Agora, eu me sinto também mobilizado por isso, porque eu sempre fui inconformado e eu me sentiria feliz se pudesse, construtivamente, veja bem a palavra – construtivamente – dar as últimas energias para poder mobilizar a minha vida e tirar o nosso país dessas dificuldades e encontrar outros caminhos. Mas eu não eu estou movido por uma ambição e isso é tão verdade que é isso que vai me fazer vencer as eleições.

Jorge Escosteguy: Governador, o senhor falou em repetição, antes de abrir a roda para que cada um dos candidatos faça uma pergunta, eu gostaria de notar apenas uma curiosidade. O senhor não gosta de repetir o nome do candidato Fernando Collor de Mello. O senhor sempre se refere a esse personagem ou a esse rapaz.

Leonel Brizola: [interrompendo] Não, eu não tenho nenhuma inibição a esse respeito, não tenho nenhuma inibição a esse respeito, eu tenho repetido muito...

Jorge Escosteguy: Mas o senhor, mais uma vez não repetiu bem. Mas, enfim...

Leonel Brizola: Mas podendo evitar, eu evito. Sabe que eu estou nessa polêmica da sucessão sem nenhuma inibição. Eu acho que isso é um dado muito significativo para mim. Eu não tenho nenhuma inibição de debater assunto seja qual for a sua natureza. Eu acho que o povo brasileiro nunca necessitou tanto de um processo de autocrítica quanto agora. Nós estamos no fim de uma época. Nós precisamos reconhecer isso e abrir caminhos para um novo tempo.

Jorge Escosteguy: Bom, nós vamos começar, então, a roda de entrevistadores do Roda Viva. Antes, eu gostaria, por favor, de fazer um apelo a todos: nós não estabelecemos tempo para as perguntas ou respostas para que haja a maior liberdade...

Leonel Brizola: Perfeito.

Jorge Escosteguy: ...das pessoas se manifestarem. Mas faria o apelo para que as perguntas fossem breves e as respostas do senhor, na medida do possível...

Leonel Brizola: Eu já fiz o meu tema. Eu lhe dei as duas respostas mais curtas que eu já dei na minha vida.

Jorge Escosteguy: Muito obrigado. Ricardo Setti, por favor.

Ricardo Setti: Governador, como o senhor disse que não tem inibição de tratar de nenhum tema, eu queria começar por um que o senhor... Algo que, inadequadamente, o senhor chama de “o monopólio da Rede Globo de Televisão” e o senhor tem dito, inclusive no programa da Hebe Camargo [apresentadora de programa televisivo] repetiu, sem detalhes, que vai tomar providências sobre a Globo logo no primeiro dia. Eu não consegui entender ainda que providências, exatamente, vão ser essas. Em que consistirão essas providências?

Leonel Brizola: Eu também não sei. Concretamente, eu também não sei que providências eu tenho ao meu alcance. Mas eu vou cogitar na esfera administrativa e se eu tiver que me dirigir ao Congresso, eu vou ter a necessária responsabilidade de me dirigir ao Congresso. Se tiver que atuar junto ao poder judiciário, eu vou atuar. Só que eu considero incompatível a coexistência de uma nação livre, de uma ordem democrática com operacionalidade, com a eficácia de um governo em um país na hora de crise, com a situação como a que desfruta esse poder anômalo, esse poder fora de qualquer consideração, uma coisa excêntrica em uma ordem democrática. Veja, agora, esta aí, o senhor Roberto Marinho achando que se deve mudar o ministério, mas ele o que é afinal? Ele é um concessionário, é um empresário, ou ele é um partido? Por que ele não funda logo um partido para poder influir, legitimamente, na vida do país? De onde vem esse poder? Vem das condições de concessionário. E eu tenho andado aí pelo Brasil e conversado com as estações que estão associadas à Globo e vou verificar que essas emissoras estão lá de repetidoras da Globo, deixaram de ser emissoras porque passam o dia repetindo a Globo, não diz respeito aos interesses locais, aquela emanação da vida cultural, da vida artística, de estados que tem grande tradição. Eu sempre argumento o seguinte: nos Estados Unidos, que é um país mais liberal, não seria permitido isso. Então, eu vou atuar em nome dos princípios gerais da Constituição, nos princípios gerais do próprio regime democrático. Isso é uma coisa incompatível e eu vou questionar porque isso torna o nosso país, praticamente, ingovernável, com um poder ilegítimo e ilegal. Porque ele ainda descrimina. E um concessionário de um canal de televisão é concessionário de um serviço público que pertence a todos, isso seria como um concessionário de uma linha de ônibus que, de repente, dissesse “eu transporto esses e não transporto aqueles”. E o canal de televisão não pode discriminar ninguém.

Ricardo Setti: O senhor diz que é ilegal. Qual lei esta sendo violada pela Rede Globo?

Leonel Brizola: Esses princípios gerais da Constituição. Primeiro, não pode discriminar; segundo, está sendo um poder demasiadamente abrangente dentro do país, que até não está configurado dentro da estrutura da legalidade do país...

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: É um poder que põe ministro, tira ministro, francamente, é demasiado. Por que ele não funda logo o POG: Partido das Organizações Globo? Perfeito, aí o eleitorado legítima a situação dele.

Jorge Escosteguy: Governador, por favor. Antes de passar ao Rodolfo Konder, eu já considero respondida, então, a pergunta de Airton Moreira, de Pedra Branca, no Ceará, que fazia a mesma pergunta ao senhor.

Leonel Brizola: Olha, agora eu vou questionar esse assunto, eu vou. Olha, se eu não puder mudar, o que o senhor vai fazer? Desculpe a colaboração, sabe o que eu faria? Eu vou chamar o doutor Roberto Marinho e vou dizer que ele se sente logo naquela cadeira. É melhor, o senhor mande logo nesse país.

Alex Solnik: [interrompendo] E se ele aceitar?

Leonel Brizola: Por que essa intermediação?

Jorge Escosteguy: Um momento, por favor, Solnik. Desculpe Rodolfo Konder.

Leonel Brizola: Aí há uma coisa muito importante que se chama povo brasileiro.

Jorge Escosteguy: Para completar a roda, Rodolfo Konder, por favor.

Rodolfo Konder: Governador, minha pergunta é no campo da política externa, se o senhor for eleito. A gente, na década de 1960, a esquerda no Brasil tinha um discurso, uma retórica marcadamente nacionalista. De lá para cá as coisas mudaram muito, há hoje um re-exame do papel do Estado, uma rearticulação da economia do plano mundial em regiões e há questões, claramente, supranacionais como os direitos humanos e ecologia. Se o senhor for eleito presidente, o senhor pretende fazer com que a sua política externa interfira, por exemplo, pressionando governos que estão violando os direitos humanos? Pressionando outros governos em favor da democracia? E no campo da ecologia, o senhor admitiria a participação da comunidade internacional na discussão, por exemplo, da Amazônia?

Leonel Brizola: Eu acho que, na verdade, nós estamos vivendo tempos de mais abertura, que são muito mais flexíveis, mais democráticos, até sob um contexto internacional. Há o advento de uma entidade nova que eu costumo sempre acentuar [chamada] opinião pública internacional. Isso, há 25 anos, não existia. Eu me recordo quando, em nome do interesse público, encampei aquelas duas imprensas estrangeiras no Rio Grande do Sul, eu não [tinha] para quem me dirigir. Criaram uma onda e eu não tinha para quem a pelar [cadeia da legalidade]. Agora não, [agora] há esse ente importante, então, tudo isso influi para que o contexto internacional, realmente, seja mais aberto, mais democrático. Eu acho que aquelas grandes causas de antes de 1964, como, por exemplo, nós sustentávamos firmemente a questão da auto-determinação dos povos, o relacionamento internacional com todas as nações, a causa dos direitos humanos. Eu fui ver nos textos antigos e encontramos a causa dos direitos humanos condenando governos que desrespeitavam esses direitos. Eu acho que tudo se tornou mais fácil com o sistema de comunicações defender essas grandes causas humanas. Eu acho que, se amanhã o povo brasileiro me honrar com a sua escolha, com a sua confiança, e me outorgar está grande missão de governar o país, eu creio que nós teremos que nos bater por essas grandes causas. E aceitar que nos questionem dentre um diálogo, de uma polêmica que também não deixa de ser o nosso reconhecimento, a nossa contribuição à opinião pública internacional. Por exemplo, na questão a Amazônia, nós estamos dando razões, estamos dando motivos para que a opinião pública internacional nos questione. Eu estive lá e vi, eu voltei de lá indignado com a quantidade de motos serras que existem lá na Amazônia cortando árvores para queimar. Voltei até com a idéia de se registrar as motosserras e dar um número, criar uma caderneta que constasse o programa de trabalho de cada um desses poderosos instrumentos que multiplicaram a ação destruidora do homem, não é? Então, eu acho que, ao lado de tudo isso, o que o nosso país tem que fazer em matéria de política internacional é lutar com todas as suas forças para que se modifique esse tratamento que estão dando às nações como a nossa. Nós fomos à guerra, [e] vencemos. Nos colocaram dentro de esquemas perversos. Não que se diga “há, conspiração internacional”, como, às vezes, eu leio algum comentarista dizer: “Não, o Brizola anda atrás de conspiração internacional”, não há conspiração, há combinação. Por que se reuniram os setes grandes? [refere-se ao G7, hoje G8, que reúne os sete países mais industrializados do mundo e a Rússia] Será que só para tomar cafezinho?

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: Então, eu acho que nós temos que defender a situação do nosso país no conjunto, no contexto internacional, principalmente nas relações econômicas. Eu acho que aí está uma causa que o novo governo terá que se dedicar e jogar todas as suas possibilidades, competência, para defender o nosso país das perdas internacionais, onde está à causa profunda da inflação brasileira e da crise que estamos.

Jorge Escosteguy: Governador, o Jorge Oliveira, da revista IstoÉ, por favor.

Jorge Caldeira: Jorge Caldeira.

Jorge Escosteguy: Desculpe, Jorge Caldeira.

Jorge Caldeira: Governador, vou falar um pouco de economia. Há pouco, o senhor disse que seria um modelo adotável para o Brasil o modelo australiano de socialismo, do Partido Socialista Australiano. O senhor acha que isso inclui também o tratamento liberal que a Austrália dá para capital estrangeiro e medidas como, por exemplo, encerrar a própria indústria automobilística por ser pouco eficiente e liberar importações, coisas desse tipo?

Leonel Brizola: Eu acho que, em matéria de economia, nós temos que ser práticos ao máximo, procurando buscar... Resguardando, naturalmente, certas questões éticas, certos compromissos, a nossa própria integridade, mas devemos buscar sempre a conveniência nacional. Devemos estar sempre procurando o interesse nacional, o bom relacionamento, relações firmes e estáveis lá fora. E tratar o capital estrangeiro dentro de uma linha de conveniência para ambas as partes, porque senão ele não vem. Eu acho que necessitamos da colaboração do capital estrangeiro, mas dentro de determinadas limitações.

Jorge Caldeira: Não é bem isso o exemplo australiano, não é?

Leonel Brizola: Não sei. Mas eles construíram, através do tempo, mecanismos, instituições de defesas da economia nacional, por isso eles se capitalizaram. Eles ficaram, depois da guerra, sob as asas do Commonwealth britânico [grupo de países formado em 1933 e que reúne ex-colônias britânicas], e não tiveram, não se submeteram a esse tipo de política econômica em que toda a América Latina e as Filipinas caíram. As elites desses países, depois da guerra, se viram fascinadas pelas fórmulas [do] sistema americano. Eu até, às vezes, eu até reconheço que, finalmente, era de se fascinar, porque aquela economia enorme que deu certo, um país vitorioso, oferecia para a casta dominante da economia brasileira muitas facilidades: “Não, nós vamos aí com o capital estrangeiro, vocês tem que abrir. Nós levamos tecnologia, levamos tudo. Nós levamos nossos técnicos, levamos as nossas máquinas e o máximo que vocês têm que fazer é ler os nossos catálogos, os nossos livros de instruções, nossos manuais e pronto, vocês ficam manejando essas máquinas. Não se preocupem porque essas máquinas funcionam, nós levamos tudo para vocês. [Nem] precisam mandar os seus filhos estudarem tecnologia, ficam só de herdeiros, nossos sócios, então, ficam com grandes cartórios” Assim...

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: ...e deu no que deu. O modelo econômico que assimilaram ali, deu no que deu, foi ao fracasso e os australianos não embarcaram nisso. Logo criaram o mercado interno, criaram os sindicatos, fortaleceram os sindicatos, distribuíram a renda, chegaram àquele enorme mercado interno para sua economia, se auto-sustentaram e estão lá como estão. E nós nesse buraco, na crise, no desastre.

Jorge Escosteguy: Governador, gostaria que o senhor fosse um pouco mais breve se possível.

Leonel Brizola: Farei o possível.

Jorge Escosteguy: O Fernando Mitre, da Bandeirantes, tem uma pergunta ao senhor.

Leonel Brizola: Sabe que eu tenho um estilo e tenho minhas limitações, vocês são extraordinários, eu tenho uma grande admiração.

Jorge Escosteguy: Muito obrigado, governador. 

Leonel Brizola: Quando eu vejo vocês se desempenharem no rádio e na televisão...

Jorge Escosteguy: O Fernando Mitre tem uma pergunta para o senhor.

Leonel Brizola: Especialmente na televisão, que frente a qual eu tenho as minhas inibições. Agora, vocês são formidáveis, vocês fazem síntese, se expressam rapidamente.

Jorge Escosteguy: Obrigado. O Fernando Mitre quer fazer uma pergunta, por favor, governador.

Leonel Brizola: Mas eu não consigo porque eu tenho o meu estilo próprio. Eu gosto de repetir. Abrir uma janelinha na cabeça das pessoas... Olha, me conforta tanto e eu procuro fazer isso.

Jorge Escosteguy: Mitre, por favor.

Fernando Mitre: Governador, depois vamos voltar a falar da Austrália. Eu tenho uma outra pergunta que é a seguinte: hoje, em uma das avenidas principais de Niterói, o candidato do PRN [Partido da Reconstrução Nacional, refere-se a Fernando Collor]  estava à frente de uma passeata quando foi cercado, ele e os seus seguidores, por grupos de manifestantes que vaiavam, atiravam ovos e, finalmente, atiravam pedras, inclusive uma das pedras feriu um dos assessores do candidato. Esses manifestantes gritavam também o nome Brizola. O senhor acha que a campanha pode descambar para esse tipo de comportamento?

Leonel Brizola: Isso seria muito lamentável, porque a violência é condenável, praticada por quem seja e venha de onde vier. A violência e esses métodos violentos e intolerantes são sempre condenáveis. Agora, eu não estou bem a par desse episódio, porque eu estava viajando, vim de Foz de Iguaçu para cá e [vi] apenas notícias que as televisões estão difundindo. Vou me informar depois, então eu vou fazer um bom comentário.

Fernando Mitre: As notícias falam de manifestantes “brizolistas”.

Leonel Brizola: Mas sabe o que acontece? Eu tomei conhecimento de tudo isso e a impressão que tive é que eu já vi esse filme duas vezes. O primeiro foi aquele do Moreira Franco, no Rio de Janeiro [Foi governador do Rio de Janeiro entre 1987 a 1991 pelo PMDB. Concorreu ao cargo em 1982, porém, perdeu para Brizola. Na época, houve uma tentativa de fraude conhecida como fraude da Proconsult]; provocações para criar fatos eleitoreiros. E o segundo filme foi aquele da Praça XV com o presidente Sarney [tumulto praça XV]. Possivelmente, vão falar que são “brizolistas”, que são... não é verdade? Vão descobrir aí um Danilo Groff [militante do PDT na época. Foi preso durante o tumulto na praça XV] ou algum militante do PT também, vão inventar personagens, criar situações. E eu gostaria de dizer o seguinte: se pensam inventar ou querer nos atingir com esses... estão muito enganados, porque nós temos luz própria. O povo brasileiro nos conhece, sabe que esses não são os nossos métodos. Agora, é preciso não esquecer o seguinte: um candidato que chama o presidente da República de filha da “p” pelo rádio, que chama o seu competidor, que vem de 15 anos de exílio, com 67 anos de idade, sem mais nem menos, gratuitamente, de filho da “p”. Dizem que chamou o Lula também. O que se pode esperar? Deve esperar pétalas de rosa nas ruas? Ele é um agente, ele é o causante, ele é o grande provocador...

Fernando Mitre: [interrompendo] Mas o senhor aprova essas pétalas?

Leonel Brizola: ...provocador de atitudes incompatíveis – já lhe dou a resposta – de atitudes incompatíveis, entre essas, a de atirar o que seja.

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: Eu não admitiria, como eu próprio já fui defrontado, gente que faz assim [mostra o dedo polegar para baixo], gente que faz qualquer outro gesto de desaprovação, da até uma vaiazinha, eu não gosto. Eu acho que vaia é um processo que, francamente, não é democrático.

[...] Governador.

Leonel Brizola: Então, eu reprovo tudo isso, mas eu registro que esse candidato anda provocando com essas afirmações incompatíveis. Se fosse nos Estados Unidos, onde há aquela impressa mais pluralista, com comentaristas duros, francamente, essa candidatura não durava 48 horas, só pela sua incontinência verbal. Iam mostrar que esse candidato estava completamente desqualificado para ser presidente.

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: Eu registro isso porque aí está o fundo dessas reações.

Jorge Escosteguy: [interrompendo] O Alex Solnik tem uma pergunta para o senhor.

Leonel Brizola: E tem mais, o povo brasileiro se sente um pouco um quanto usurpado com essas pesquisas. Porque se exalta, nessas pesquisas, que ele representa quase a maioria, já é quase presidente eleito e já esta até com ministérios e não sei o quê. [Ele] se acha no direito de agredir outros partidos, praticando uma ação corruptora do ponto de vista político, de estar aí querendo fazer “da lá e toma cá”, “é dando que se recebe”. O povo brasileiro sabe que isso não é verdade e se sente usurpado quando vê alguém se apresentar como se fora já o dono da sua vontade.

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: Isso é um pouco...

Jorge Escosteguy: Por favor, governador, nós já estamos com quase meia hora de programa e não completamos a roda. E estamos aqui, como o senhor pode ver, com dezenas e centenas de telefonemas.

Leonel Brizola: Perfeito.

Jorge Escosteguy: O Alex Solnik tem uma pergunta para o senhor, por favor.

Alex Solnik: Doutor Brizola, algumas pesquisas já estão indicando uma aproximação do doutor Paulo Maluf e do senhor, [vocês] estariam em um empate técnico. E o doutor Maluf pretende também atacar o Collor porque ele também não gosta do Collor, assim como o senhor.

Leonel Brizola: Eu não estou informado. Sabe, em matéria de Maluf, eu sou completamente desinformado.

Alex Solnik: Não, eu digo o seguinte: se o Maluf começar a atacar o Collor, o senhor continua atacando o Collor também ou vai deixar a tarefa para o Maluf?

Leonel Brizola: Olha, nós seguimos o que denominamos de processo social: à medida que os motivos que nós consideramos corretos para a polêmica surgirem, nós entraremos nela. Eu acho que a campanha vai se centrar, essencialmente, na questão econômica, na crise econômica, e, subsidiariamente, nesses detalhes. Agora, até aqui impressionou muito todo esse manejo das pesquisas, por quê? Não há nenhuma arma, nenhum instrumento mais forte de persuasão e de pressão do que as pesquisas neste momento. E veja que isso é uma arma que não está ao alcance dos partidos, [já que] as instituições incumbidas em promover os seus candidatos legitimamente... Os candidatos só podem ser promovidos pelos seus partidos, [já] as pesquisas estão ao alcance do poder econômico. Então, é uma arma do poder econômico, justamente a mais poderosa. E quando se junta isso com a televisão, jogando choques eletrônicos sistematicamente na população, isso é uma deturpação, uma violação. No meu entender, isso é uma ilegalidade que devia ser questionada pela Justiça Eleitoral.

Jorge Escosteguy: Aloysio Biondi, por favor, tem uma pergunta.

Aloysio Biondi: Governador, o senhor disse que as elites ficaram fascinadas no pós-guerra com o modelo de industrialização norte-americana e que a gente caiu em um modelo dependente, caiu na dívida externa e no esquecimento dos problemas do povo. Atualmente, está se falando muito na modernização do capitalismo brasileiro, na abertura de mercado, e isso não seria apenas uma repetição dos erros, um aprofundamento desse modelo? Como seria possível, apenas com essa abertura de mercado, com a aceitação maior do capitalismo estrangeiro, como seria possível partir para aquilo que o senhor falou do modelo auto-sustentável? Quer dizer, um modelo baseado na ampliação do mercado interno através da melhora do poder aquisitivo, do poder de compra do povo brasileiro. Como o senhor resolveria isso, no momento em que a tendência, até dos economistas de esquerda, estão todos martelando na história de modernizar o capital e aceitar mais capital estrangeiro? Ninguém mais fala na tal da distribuição de renda, e como fica o povo brasileiro? Como o senhor vê isso?

Leonel Brizola: Eu recebo com grande conforto.... me sinto profundamente feliz de estar participando de um programa da repercussão como este, de estarmos realizando [essa discussão] numa rede pública de televisão e sendo questionado em torno de uma matéria como essa que, para mim, como eu disse há pouco, vai ser o centro da discussão dessa campanha política. E eu acho que vai ser também o centro das preocupações de todos aqueles que, de uma forma independente, verdadeiramente sincera e coerente, se preocupam com a vida do nosso país, com os impasses a que atingiu. E no curso da campanha, nós vamos elucidar muito... Eu lhe afirmo que, como candidato, eu não me sinto dono de fórmulas e de propostas completas a respeito de uma alternativa. Eu tenho, por exemplo, a certeza que nós não podemos continuar como está aí. Assim como todo pensamento lúcido naqueles últimos anos da Monarquia tinha a consciência de que não podia continuar a escravatura sabendo aquele modelo econômico era baseado na escravatura. Eu acho, por exemplo, que não pode continuar mais esse modelo. Então, a construção do novo modelo... Claro, olhamos o mundo, as experiências dos outros povos. Eu fui à Austrália um pouco porque tudo que se argumenta sobre a Europa, [aparece] um argumento: “Não, mas lá estava tudo feito, a Alemanha foi destruída, mas depois que terminou a guerra o governo, os gerentes juntavam aquelas equipes e pronto, já começavam a trabalhar de novo. Nos Estados Unidos, o filé mignon da humanidade dos dois lados, aquela riqueza, cai neve, tudo lá é bonitinho, não dá para comparar. O Japão, a poeira dos tempos, aquilo vem dos séculos, dos milênios, não sei o quê”. Então, eu fui encontrar a Austrália. Colônia há pouco tempo; país mais jovem que o nosso, grande, tropical e longe dos mercados; trabalha com a agricultura, pecuária, com o minério e com produtos primários. Então, eu me escandalizei ao ver um regime capitalista, uma economia do mercado baseada na livre iniciativa com aquele sistema de vida e tratei de levantar essa discussão. Não tenho tido nenhuma correspondência porque muita pouca gente no país tem se interessado em examinar essa questão, que é realmente um parâmetro para nós. Eu acho que a busca do modelo econômico tem que partir de algumas medidas. Por exemplo, eu acho que um governo coerente vai ter que trabalhar de “serrote”, é a imagem que eu encontrei para expressar essa determinação de destruir o modelo econômico perempto, esgotado, inútil.

Aloysio Biondi: E as pressões, como o senhor enfrentaria?

Leonel Brizola: Bom, eu acho que vamos procurar enfrentar tanto quanto possível, uma de cada vez. Mas há opinião pública internacional, há diálogos pelo mundo; é preciso mostrar à opinião pública internacional que aqui existem milhões de crianças jogadas ao abandono, conseqüência de um capitalismo perverso. O povo norte americano, no dia em que verificar a natureza do capitalismo que cai sobre o Brasil, eles vão aceitar essa brincadeira que eu contentemente faço com eles...

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: ...se vocês tivessem o capitalismo que temos aqui, vocês faziam outra revolução. Mas veja o seguinte: o governo coerente - só esse pequeno detalhe - um governo coerente tem que chegar lá e tem que dizer o seguinte: pois bem, neste país não se baixa mais salário, aconteça o que acontecer, para baixar salário tem que passar por cima do presidente.

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: Não se baixa mais pensões, não se aviltam mais as aposentadorias. Como pode continuar isso? Já é um escândalo internacional.

Jorge Escosteguy: Governador, por favor. Eu tenho aqui muitas perguntas de telespectadores e como eu lhe disse há pouco, nós já passamos da metade do programa. Eu vou tentar agrupá-las por assunto. Então, a Cida Chubal, de Belo Horizonte, Minas Gerais; Manuel de Souza, do Rio de Janeiro; Fernando de Souza, do Rio de Janeiro; Claudinei Frei Santos, de Campinas; e Antônio, de Jacareí, daqui de São Paulo. Eles perguntam, basicamente, se o senhor, como presidente da República, repetirá a atuação que teve no Rio de Janeiro em relação à segurança do cidadão, onde - segundo eles - não houve o combate ao crime organizado e existiu até um aumento no índice de criminalidade?

Leonel Brizola: Permite uma palavra?

Jorge Escosteguy: Claro.

Leonel Brizola: Eu diria o seguinte: este país precisa de um governo legítimo e um pouco de coragem consciente, “pagar para ver” certas coisas. Veja o seguinte: se tivesse que me deparar, nas mesmas circunstâncias, como governador do Rio de Janeiro em pleno regime autoritário, com governos federais da primeira fase do governo Figueiredo - natural, ele me via com desconfiança, embora dele, pessoalmente, sempre tivesse as melhores considerações – em um clima adverso. E, depois, um governo perverso como esse atual, que não só não deu ao Rio de Janeiro o que merecia como também tratou de nos tirar e nos criar dificuldades. Se eu tivesse que enfrentar os mesmos problemas nas mesmas circunstâncias eu confesso que, às vezes, até fico admirado como eu trabalhei tão coerentemente, tão corretamente. Eu acho que as elites do nosso país estão cegas a respeito da questão da violência. O atual governo do Rio de Janeiro, o governo Moreira Franco, é um governo elitista, nitidamente elitista. Pois bem, como ele trata o problema da violência? Procurou destruir aquele programa do CIEPs [Centros Integrados de Educação Pública. Projeto de unidade escolar de atendimento integral implantado no Rio de Janeiro nos dois mandatos do governador Leonel Brizola (1983-1987; 1991-1994)], a escola pública estava daquele jeito, o professorado em crise. Praticamente, o ensino público desmantelado, o particular indo para o mesmo caminho, e ele incentivou a repressão. “As favelas são guetos de inimigos, tem que invadir as favelas”. Quer coisa mais escandalosa do que esta? Tudo é culpa da favela...

Jorge Escosteguy: Agora, e o senhor, que programa teria o senhor?

Leonel Brizola: Então, combate... E pior é a matança, o escândalo da matança, isso ainda vai cair sobre as nossas cabeças. Mais de três mil jovens foram mortos com mais de vinte, trinta perfurações de bala de guerra, inclusive crianças menores.

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Desculpa governador, mas isso também acontecia...

Leonel Brizola: Ninguém mais identifica esses cadáveres.

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Isso também acontecia no seu governo, governador. Eu perguntei o que o senhor faria se fosse presidente da República?

Leonel Brizola: Eu mantive um combate firme ao Esquadrão da Morte. Consegui identificar muitos deles. Trabalhamos juntos com a Igreja e o problema dessa matança indiscriminada praticamente parou no meu período. Então, dizem: “aumentou a criminalidade”. Claro, isso aí é uma onda de todo um período histórico de abandono da população, [já] que todos os dias são jogadas milhares de crianças para os desvios de conduta, para as primeiras práticas da [má] conduta. Então, o que acontece? É preciso, neste país, haver um grande esforço. Eu gostaria de dizer que se amanhã eu ocupar a Presidência da República eu vou desenvolver um grande esforço de coordenação, não só junto à população das comunidades, das suas instituições, mas, especialmente, junto aos governos dos estados e municípios. Precisamos trabalhar em conjunto em duas frentes.

[…]: Governador!

Leonel Brizola: Uma reprimindo, procurando controlar. Não há dúvida que tem que ser com o uso da força e do policiamento ostensivo de uma polícia competente, não brutal, que não desrespeite o direito de todo mundo. Os pobres parecem que não tem direito à inviabilidade do lar, metem a bota, como estão fazendo no Rio de Janeiro, [isso] não. Uma polícia que atue com o máximo de eficácia possível. E, simultaneamente, nós vamos tratar de desenvolver uma verdadeira cruzada de salvação das nossas crianças e de salvação dos nossos adolescentes...

Fernando Mitre: Governador.

Leonel Brizola: Aí está o viveiro infindável de onda sucessiva de jovens que são jogados à violência, à criminalidade. Agora, essa atitude cega, brutal das elites mandando matar, francamente, isso...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Fernando Mitre, por favor.

Leonel Brizola: É como incentivar a violência e a criminalidade. Ela está marchando cegamente contra si mesmo.

Fernando Mitre: Governador.

Leonel Brizola: Porque, qualquer dia, vão poder viver somente dentro de muros com guaritas e metralhadoras, como estão fazendo muitos potentados da vida brasileira, que estão até importando serviços do estrangeiro porque tem medo de atribuir a sua segurança aos brasileiros.

Fernando Mitre: Governador, por falar em medo, o senhor tem dito que os privilegiados sabem que o senhor eleito representa uma ameaça. Eu gostaria de saber que ameaça é essa que o senhor representa, caso eleito, aos privilegiados? E quais são esses privilegiados?

Leonel Brizola: Olha, eu vou tratar de democratizar a vida brasileira, abrir mais oportunidades.

Fernando Mitre: Certo, mas quem vai perder, por exemplo?

Leonel Brizola: Para que neste país não sejam alguns poucos que acumulem, em detrimento do povo brasileiro pobre. Eu vou denunciar, abrir para o conhecimento da opinião pública nacional e internacional essa cumplicidade que está nos mergulhando na inflação, de uma classe dirigente que por um grande setor - não é toda, quero deixar isso registrado - mas grandes setores estão defendendo um sistema que, para ganharem um milhão de dólares, eles entregam dois do povo brasileiro.

Fernando Mitre: Certo, por exemplo, digamos os banqueiros, o que os banqueiros podem perder com o senhor no poder?

Leonel Brizola: Eu acho que se eles quiserem ser bons brasileiros, abrirem os seus sentimentos, forem fraternos com o povo brasileiro, com o povo a quem pertencem, não devem esperar nada de mal de mim.

Fernando Mitre: E se eles não quiserem?

Leonel Brizola: Eu, por exemplo, vou considerar intolerável a existência desses grandes cogumelos que controlam toda a economia do país. Eles estão asfixiando as regiões, as comunidades. Vou restaurar os bancos regionais, os bancos locais... Fizeram isso para poder se adornar do dinheiro, da poupança, dos depósitos.

Fernando Mitre: [interrompendo] Estatizar os bancos? O senhor não considera essa hipótese?

Leonel Brizola: Eu vou até privatizar, sabe por que eu vou privatizar os bancos aparentemente particulares?

Fernando Mitre: Como assim?

Leonel Brizola: Porque esse modelo econômico, no fundo, o que fez? Estatizou o dinheiro. Deixou os bancos no nome dos grandes conglomerados, mas tirou o dinheiro. O senhor Delfim Netto reunia cinco ou seis e dizia: “Me dá o dinheiro aí, toma a letra do tesouro”. Se tivéssemos aqui os trezentos bancos regionais que eles fecharam, eu duvido que o senhor Delfim Netto tiraria o dinheiro das comunidades. Esse é o segredo do desenvolvimento harmônico dos Estados Unidos. Lá existem mais de 18 mil bancos locais e regionais. Quando se fala nos grandes bancos americanos, eles são locais, eles são grandes fora. Pode crer que, em matéria de extensão territorial, o Citibank tem mais agências no Brasil do que nos EUA.

Alex Solnik: Brizola, o senhor, quando chegou aqui no estúdio, deu um grande abraço no doutor Aureliano Chaves [(1929-2003). Foi governador de Minas Gerais (1975-1978) e vice-presidente da República (1979-1985). Concorreu à Presidência nas eleições  em 1989 pelo PFL]...

Leonel Brizola: E com muito prazer.  

Alex Solnik: Que é um representante do PFL e, durante o tempo em que o senhor esteve no exílio, ele apoiou o regime militar, não é? Ocupou postos nesse regime militar. E eu ouço dizer que o senhor está procurando o entendimento do doutor Aureliano, uma espécie de pacto de não agressão, até possível o apoio dele no segundo turno. Ele, como representante dos privilegiados, o senhor confirma esse entendimento com o doutor Aureliano?

Leonel Brizola: Veja que não há nenhuma procedência nesse comentário, são especulações, “tempo de guerra, boato como terra”. Mas eu, desde que cheguei aqui, tive o ensejo de conhecê-lo e, desde então, as nossas relações sempre foram respeitosas; distantes, mas respeitosas. Eu acho que lá, no campo do adversário, eu posso ver no doutor Aureliano [como] um homem digno e que só pode me honrar encontrá-lo e dar-lhe um abraço, desejar saúde, foi o que fiz. E espero que o sentimento dele para comigo seja o mesmo, mas não vejo nisso senão um simples relacionamento ético que deve existir entre nós. Nós podemos ser adversários, mas não inimigos.

Rodolfo Konder: Governador, no plano das idéias, há candidaturas mais progressistas e outras mais conservadoras que propõem projetos mais ou menos semelhantes. Mas eu diria que há diferenças muito claras entre as pessoas e os candidatos.

Leonel Brizola: É possível.

Rodolfo Konder: O senhor me contou longas historias lá em Nova Iorque sobre o seu passado, e eu acho que um pouco da sua história ajuda a marcar essas diferenças. Eu gostaria de socializar essas informações com os telespectadores. Quais são, na sua vida de menino pobre e depois de exilado, quer dizer, quais são os traços que o senhor acha que distingue mais claramente dos outros candidatos?

Leonel Brizola: Eu não me considero, não assumo a pretensão de ser melhor de quem quer que seja, mas eu tenho as minhas próprias características e as minhas convicções. Ninguém como eu... Posso avaliar a minha própria sinceridade, é um dever de cada um de nós. Então, eu considero que, entre todos, ninguém pode se considerar mais bem intencionado, mais preparado e mais seguro do que eu. Eu me inspiro, em grande parte, na minha vivência com os problemas. Eu tenho uma longa trajetória, desde criança [lutei] para chegar à universidade; depois, na vida pública, eu realmente me orgulho muito de ter chegado aonde cheguei. Sempre fui inconformado com a situação do nosso país.

Rodolfo Konder: Por falar nisso, o senhor trabalhou como engraxate?

Leonel Brizola: Bom, eu exerci as atividades mais humildes que se possa imaginar.

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: E eu vivi como um assalariado. E depois, também em outros níveis, em outros patamares eu trabalhei com igual sinceridade. Eu me sinto muito inconformado com a situação do meu país, principalmente o que me inspirou muito no curso de toda a minha vida foram as dificuldades que eu encontrei para estudar. Eu nunca consegui uma bolsa de estudo. Eu andava agarrando no casaco de muito político, e mesmo assim, não conseguia. Eu cheguei a propor para um grande capitalista... eu não vou citar o nome, não vou. Ele era importante, gordo na sua importância, considerado um homem de grande importância. Eu fui falar com ele. Disse: “o senhor me financia uma bolsa de estudo”? “Eu me obrigo... Se eu tirar uma nota abaixo de nove, o senhor me corta a bolsa e eu me comprometo a lhe dar três bolsas de estudo, depois que eu me formar”. Obviamente, eu não consegui, mas eu tive sempre uma grande revolta de ver certos contingentes tão desprotegidos nessa parte, tanta gente sem oportunidade.

Jorge Escosteguy: Governador!

Leonel Brizola: Imagina que, quando eu fui candidato pela a primeira – eu vez era estudante – o meu primeiro folhetozinho foi questionando o governo do país: porque todas aquelas facilidades que tinham aqueles estudantes militares, eu achava que tinha que ser estendidas aquelas facilidades para muitos outros setores, porque eles tinham... Eu dizia no meu boletim “eles tinham roupas, pensão, eles tem tudo para estudar, o internato”...

Jorge Escosteguy: Governador!

Leonel Brizola: Porque não para mais e mais e mais gente essa capacidade?

Jorge Escosteguy: Governador, desculpe. Vamos dar um salto no tempo, se o senhor me permitir.

Leonel Brizola: Então, isso sempre... Sabe que isso sempre me revoltou. Depois eu fui estendendo a minha visão para as realidades do país. Eu sou um empírico – permita que eu só conclua meu pensamento – eu sou um empírico, eu não sou um cientista, eu não sou um teórico. Eu tenho assimilado muito através do diálogo, através de uma leitura muito restrita, mas bem feita, que fiz, bem orientada. Mas, sinceramente, pelas as minhas experiências, pelo o que eu tenho visto do mundo...

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: [Pude] intuir muitas coisas. Eu não estou em um projeto pessoal. Mas dificilmente possa haver no país alguém, neste momento, reunindo credenciais políticas e experiências do passado como conseguimos acumular.

Jorge Escosteguy: Governador, só minuto, por favor.

Fernando Mitre: [interrompendo] Mas o eleitorado...

Leonel Brizola: Embora não me considere melhor do que ninguém.

Jorge Escosteguy: Um minutinho, por favor. Governador antes que termine o nosso tempo, só um minutinho, Mitre...

Fernando Mitre: Mas o eleitorado não esta convencido nesse momento, não é?

Jorge Escosteguy: Mitre, desculpe, só um minutinho, eu gostaria de entrar. O governador falou um pouquinho do seu tempo de dificuldade.

Leonel Brizola: Eu acho que [o eleitorado] está, porque o Leonel Brizola está nos 60% da população que não se definiram, que as pesquisas não mostram.

Fernando Mitre: Mas todos os candidatos normalmente dizem isso.

Leonel Brizola: Mas o Leonel Brizola esta lá, porque eu já provei uma vez. A dona Sandra tinha, nessa época, 60% e o Leonel Brizola tinha 6%, ela acabou em quarto lugar e eu venci as eleições com 38% dos votos [Refere-se a Sandra Martins Cavalcanti. Concorreu ao governo do estado do Rio de Janeiro em 1982 pelo partido provisório PDR (Partido Democrático Republicano)].

Fernando Mitre: Mas a candidatura do senhor está estacionada agora.

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Governador, por favor.

Leonel Brizola: Nessas pesquisas. Mas não está estacionada na consideração, no apoio e na solidariedade que eu encontro por aí.

Fernando Mitre: O senhor não fez uma revisão nos últimos dias?

Jorge Escosteguy: Governador. Só um minutinho, Mitre. Eu gostaria de dar um salto no tempo, como eu falei para o senhor. Há vários telespectadores preocupados. O senhor falou aqui das suas dificuldades quando jovem, as dificuldades de estudo etc. E aqui quase dez telespectadores preocupados mais com a sua situação econômica hoje. Hoje, o senhor não só tem condições de dar bolsas de estudo, como pode fazer muitas outras coisas. E a preocupação deles basicamente é com a sua condição de fazendeiro no Uruguai. A Ana Maria, do Rio de Janeiro; o José Luís Pimentel, de Campinas; Humberto Gomes, de Taubaté; Norberto Torres, de Campinas; Mário Henrique de Moraes, da Freguesia do Ó, aqui em São Paulo; Mário Albuquerque, de Ilhéus, na Bahia; Jorge Goulart, do Rio de Janeiro e Milton, de São Paulo. Eles perguntam se o senhor, eleito presidente da República, passará a ter fazendas no Brasil. E eu completaria perguntando se o senhor, hoje, que tem condições de dar bolsas de estudos, se já deu alguma bolsa de estudo para um estudante pobre.

Leonel Brizola: Permita que eu lhe pergunte uma coisa? Vocês perguntaram isso também para os outros candidatos que estiveram aqui?

Jorge Escosteguy: Talvez porque eles não fossem fazendeiros no Uruguai.

Leonel Brizola: Muito bem. E esse candidato Fernando Collor, que esteve aqui, que gasta verba secreta...

Jorge Escosteguy: Foi perguntado a ele...

Leonel Brizola: Também perguntaram sobre a questão particular dele?

Jorge Escosteguy: Foi perguntado a ele sim.

Leonel Brizola: Não, perguntaram sobre a verba secreta, mas perguntaram...

Jorge Escosteguy: Se parentes ou familiares dele, por exemplo, foram beneficiados...

Leonel Brizola: Sobre essa questão dos bens particulares, perguntaram? Perguntaram para o doutor Aurelino? Olha, eu estou perguntando isso só para mostrar que essas fontes todas são [daqueles] que discriminam.

Jorge Escosteguy: O senhor me desculpe, mas eu sou obrigado a atender os telefonemas dos telespectadores. E eu sou obrigado há confiar em nossos telespectadores.

Leonel Brizola: Eu admiro que não tenham falado do dinheiro de Cuba também aí.

Jorge Escosteguy: Eu gostaria que o senhor, por favor, respondesse, já inclusive, essa pergunta, mas eu...

Leonel Brizola: [interrompendo] Desculpe mais eu tenho o direito de colocar...

Jorge Escosteguy: Eu não a coloquei.

Leonel Brizola: Calma, desculpe, calma lá, vamos direitinho na questão.

Jorge Escosteguy: Não, nós estamos direitinho, perfeitamente.

Leonel Brizola: Eu tenho direito de comentar de acordo com que eu considero o que devo comentar.

Jorge Escosteguy: Claro, e eu tenho o direito de fazer a pergunta do telespectador, se o senhor me permitir.

Leonel Brizola: Então, o senhor me deixe comentar.

Jorge Escosteguy: Perfeito.

Leonel Brizola: Veja o seguinte: isso aí é a prova desse sentimento discriminatório, eu me admiro até que não tenha outras coisas aí. Veja o seguinte...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Há outras coisas.

Leonel Brizola: A esse respeito, eu apenas faço a seguinte declaração - aqui, nesse momento -  não tenho, não possuo nada de irregular, nada do que não seja bem havido. A rigor, tudo que eu e a minha mulher possuímos nada mais é do que um patrimônio familiar que tem uma só origem, uma só origem, naquilo que ela herdou do seu pai e da sua mãe, nada mais. E o que nós possuímos hoje é muito menos daquilo que ela, originalmente, herdou. Estou no Uruguai porque fui empurrado daqui para fora pela força; eu não fui fazer inversões no estrangeiro como muita gente faz espontânea e ilegalmente. Não, nós fomos empurrados para fora e, de acordo com os princípios do exílio político, tratamos de levar o que era nosso para lá. Vendemos tudo, rigorosamente tudo aqui e fomos viver lá. Trabalhei lá 15 anos... podia até, se eu fosse um gerente mais absorvido nesse tipo de trabalho, eu teria até o direito de ter multiplicado isso, mas não, mantive, lutando, procurando educar os filhos. E na hora de eu retornar foi sempre tudo tão atribulado que eu não tive tempo de me dedicar. Eu acho que se estivesse vendido tudo lá e estivesse aplicado tudo aqui, por exemplo, na especulação financeira, eu estaria muito bem hoje.

[...]: Por que senhor não vende essas terras?

Leonel Brizola: Para quê?

Jorge Escosteguy: Uma pergunta específica, o senhor desculpe. Os telespectadores não estão.

Leonel Brizola: Francamente, eu achei que não convinha, que não me convinha e pronto.

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: Não me convinha, que não me convinha e pronto.

Jorge Escosteguy: Governador, os telespectadores não estão dizendo que as suas propriedades não são bem havidas.

Leonel Brizola: Não convinha à minha família, não convinha a mim e pronto.

Jorge Escosteguy: Eles apenas perguntam se o senhor teria fazendas no Brasil, é uma pergunta. Não lhe acusaram de que não são bem havidas?

Leonel Brizola: Eu não penso nisso. Eu não estou pensando nisso. Eu não tenho esses planos...

[sobreposição de vozes]

Leonel Brizola: Se isso satisfaz à sua curiosidade, eu não tenho esses planos. Agora, esses esclarecimentos, a mim não me constrange. Eu apenas registro o sentido discriminatório contra o Leonel Brizola. Agora, o povo brasileiro que é importante, eu gostaria de dizer que eles sabem que, primeiro, eu, a rigor, não sou homem de negócios, nunca fui. Porém, cuidar desse pequeno patrimônio familiar era o meu dever e eu tenho feito com uma competência possível. Segundo, que Leonel Brizola jamais amealhou recursos públicos; jamais foi empresário cartorial; jamais foi concessionário de qualquer coisa do governo que o fizesse...; jamais recebeu qualquer tipo de concessão do governo para negócios internacionais. O Leonel Brizola jamais praticou nesse campo qualquer coisa que pudesse atingir a dignidade do povo brasileiro.

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: Tanto que o regime [militar], se pudesse encontrar no Leonel Brizola alguma coisa em matéria de corrupção, de irregularidade, de desonestidade, tinha destruído simplesmente o Leonel Brizola podendo investigar e fazer tudo o que quiser. Eles vasculharam a minha vida e nada encontraram.

Jorge Escosteguy: Eu lhe faço um apelo. Nós estamos a seis minutos do final do programa, o Ricardo Setti tem uma pergunta, o Mitre tem outra e eu faço uma última dos telespectadores, por favor.

Ricardo Setti: Governador, ao colocar em dúvida as pesquisas... Quer dizer, o senhor coloca em dúvida o trabalho de instituições diversas, de diferentes origens, profissionais, jornalistas, emissoras de televisão, jornais, pesquisadores de campo. Quer dizer, são milhares de pessoas envolvidas nesse tipo de trabalho em diversas organizações...

Leonel Brizola: [interrompendo] Eu concordo. É uma máquina muito grande.

Ricardo Setti: Existe uma colossal conspiração sistematica colocada contra o senhor? É inimaginável isso, governador.

Leonel Brizola: Não, não é só contra mim, está fazendo a sua própria defesa, toda essa...

Ricardo Setti: Quem?

Leonel Brizola: Essa casta dirigente está em maus lençóis, levou o país à crise, não tem saída, não tinha candidatos, está em crise. Então, está manipulando tudo isso, quem não vê, sabe...

Ricardo Setti: [interrompendo] A conspiração é muito grande, governador. Todo mundo sendo manipulado.

Leonel Brizola: Até não sou eu quem afirma. Sabe quem é que afirma isso? Eu não consigo repercussão da imprensa, será que o senhor deputado José Lourenço é tão desprestigiado assim? A imprensa não considera que o depoimento do ex-líder do PFL... Sabe o que ele declarou ao deputado Bocaiúva? Chamou o deputado Bocaiúva lá em Brasília e disse: “Deputado, eu estou indignado com as pesquisas porque eu sei como é que faz isso”.

Jorge Escosteguy: Mas ele disse isso à impressa ou para o deputado Bocaiúva, governador?

Leonel Brizola: Disse para o deputado Bocaiúva e não pediu segredo. O deputado Bocaiúva me contou e me pediu segredo...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Se o deputado José Lourenço não contou à impressa, a impressa não ficou sabendo.

Leonel Brizola: Mas eu conto, eu conto. E por que não vão perguntar a ele se é verdade?

Jorge Escosteguy: Então, já está sendo registrado pela impressa.

Leonel Brizola: Será que o Leonel Brizola não tem nenhuma significação na hora que denuncia que o senhor Antônio Carlos Magalhães chamava os dirigentes e proprietários do Ibope [Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística], da Gallup e de outras instituições e dizia: “Eu fico com as pesquisas todas, digam quanto é. Só quero que vocês me dêem duas, uma verdadeira, para minha orientação secreta reservada e a outra de acordo com a nossa orientação”. Aceitaram com uma única condição: de que um mês antes [os] deixassem livres para fazer os ajustamentos. Ora, isso é dito por um deputado do qual se pode discordar, porque tem as suas posições conservadoras, mas é um homem afirmativo, é um homem de posições. Como não se dá conseqüência a uma denúncia como essa? Porque os que estão manobrando toda essa manipulação não querem ver as pesquisas desprestigiadas.

Fernando Mitre: Por que o senhor mesmo não tomou...

Leonel Brizola: [interrompendo] Porque isso é uma arma do poder econômico, é a maior pressão, é a arma mais poderosa na campanha eleitoral, neste momento, e custa muito dinheiro...

[sobreposição de vozes]

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: Custa muito dinheiro. Pois eu assumo, eu transmito essa denúncia: por que não há uma investigação?

Fernando Mitre: Porque o senhor não vai à Justiça com essa denúncia, já que o senhor tem essas evidências, que o senhor diz que tem?

Leonel Brizola: Nós já colocamos na Justiça Eleitoral as nossas ponderações. Nós lamentamos, sinceramente, que a Justiça Eleitoral não seja dirigente como entendemos que devia ser nesse momento.

Fernando Mitre: Governador, é difícil.

Leonel Brizola: Porque permitiu ali, sobre as suas barbas, esse Collor usar três horas em rede de rádio e televisão através daquela impostura de acordos com “partidecos”. Claro, o espírito da lei é de ensejar os partidos. Como é que ele foi usar [esse horário] com a omissão dos olhos complacente da Justiça Eleitoral invocando formalidades? E quando se tratava de tirar Leonel Brizola da televisão eles foram dirigentes, rápidos, eficazes e não permitiram.

Fernando Mitre: Governador...

Jorge Escosteguy: Fernando Mitre, por favor.

Fernando Mitre: É difícil, é difícil aceitar a idéia de que essas pesquisas são falsas, ou pelo menos que elas não estejam perto da verdade.

Leonel Brizola: São arrumadas.

Fernando Mitre: Há uma coerência entre elas governador, há uma coerência entre elas!

Leonel Brizola: São pesquisas ajudadas. Quer ver uma coisa que fizeram? Primeiro, começaram jogar o Brizola, joga o Brizola... Eu cheguei a ver uma manchete do Globo, do Globo dizendo: “Brizola em primeiro lugar”. Eu disse: “mas o que é isso?, o Globo me colocando na manchete, na primeira página de domingo, Brizola lá em cima?”. Depois o Lula, o Lula atrás. Depois, criaram uma figura estranha chamada “Brizula”, vem o “Brizula”, vem o “Brizula”. A esquerda vai ganhar, espalharam isso pelo o mundo inteiro. Assustaram os empresários que andam viajando por aí: “Vai ganhar a esquerda, vamos voltar ligeiro, vamos pegar o nosso dinheiro que vai ganhar a esquerda”.

[risos]

Leonel Brizola: Bom, depois andava esse candidato por aí, gastando o dinheiro do pobre estado de Alagoas, como está provado, como a Folha de S.Paulo está provando, gastando os dinheiros públicos.

Ricardo Setti: [Folha de S.Paulo] Que tem um estudo pesquisa, o senhor esta citando a Folha como algo confiável? A Folha tem um instituto de pesquisa.

Leonel Brizola: Não, não. Não vamos meter esse argumento aí, porque a Folha embarcou naquela história do Quércia e desmoralizou muito a Datafolha.

Jorge Escosteguy: Então, a Folha é confiável em relação ao Collor, mas não é confiável em relação às pesquisas das eleições?

Leonel Brizola: Não, a Datafolha é uma questão. Ela embarcou naquela questão do governador Quércia [governador de São Paulo de 1987 a 1991], o colocou lá em cima e eu sei como foi.

Jorge Escosteguy: Governador, desculpe. Governador, só um minutinho, desculpe, acabou o nosso tempo, está esgotado.

Leonel Brizola: Agora, não pelo fato de ser a Folha somente, mas pelo que está ali e pela documentação que está aí difundida no país.

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: Ele andava gastando dinheiro aí, uns 5%, 6%. Então, o jogaram lá em cima. Quer dizer, o fizeram desfilar em uma passarela e toda aquela gente da classe média, da classe rica, da classe A.

Jorge Escosteguy: Governador, governador, por favor, para não sermos injustos com os outros candidatos...

Leonel Brizola: [interrompendo] A direita estava assustada com o "Brizula" passou logo para ele. E aí foram impulsionando isso aí.

Jorge Escosteguy: Governador Leonel Brizola, por favor. Eu não gostaria de ser injusto com os outros candidatos...

Leonel Brizola: [interrompendo] Separaram o contingente... Perdão, me perguntaram e eu tenho que falar, me desculpe.

Jorge Escosteguy: Eu peço perdão ao senhor porque eu fui obrigado a interromper os outros candidatos, governador.

Leonel Brizola: Separaram um contingentes de 20% 30 % de direita.

Jorge Escosteguy: O senhor teve mais de dois minutos além do tempo regulamentado.

Leonel Brizola: De eleitores.

Jorge Escosteguy: Eu gostaria que o senhor, por favor, respeitasse o horário de todos.

Leonel Brizola: Da classe média e ali fizeram à pesquisa. Eu até me admiro que o Leonel Brizola tenha algum voto ali, eu devia ter 70% ali, não era 40%.

Jorge Escosteguy: Governador.

Leonel Brizola: Ele tem 12 ou 15% do eleitorado brasileiro.

Jorge Escosteguy: Perfeito, governador.

Leonel Brizola: Essa é a grande verdade.

Jorge Escosteguy: O senhor me desculpe, mas o tempo infelizmente está esgotado. Nós temos que dar o mesmo tempo para todos os candidatos.

Leonel Brizola: É verdade.

Jorge Escosteguy: Por isso eu fui obrigado a lhe interromper dessa maneira. Eu agradeço à sua presença no Roda Viva.

Leonel Brizola: Não, você não me interrompeu. Você cumpriu o seu dever e eu também me defendi. Porque, já que perguntaram, eu tinha direito de responder.

Jorge Escosteguy: Eu agradeço à presença dos jornalistas convidados ao programa de hoje. Agradeço aos telespectadores que telefonaram. Infelizmente, as perguntas [feitas ao candidato] foram poucas, não pudemos fazer todas, mas elas serão entregue ao candidato Leonel Brizola.

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