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Aécio Neves

27/1/2003

O influente político mineiro do PSDB analisa o governo Lula e afirma que a legenda do seu partido não afetará suas relações com o presidente

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Paulo Markun: Boa noite. Ele é de Minas Gerais, e lá em Minas o carro sempre vem adiante dos bois, ou carro vem depois dos bois, os bois vêm sempre adiante do carro. Repetindo esse ditado muitas vezes - que eu acabo de inverter - ele procura mostrar para amigos e adversários “que em política dar tempo ao tempo é tão importante quanto saber conciliar e negociar”. E foi assim, à moda mineira, que ele se tornou um nome influente na vida nacional. O Roda Viva entrevista esta noite o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, do PSDB. Defensor de um pacto de apoio ao governo Lula, ele e mais seis governadores tucanos querem que o governo federal priorize a reforma tributária e não apenas a reforma da previdência.

[Comentarista]: A política corre na veia desse mineiro de Belo Horizonte desde a infância. A sua história contada no endereço pessoal na internet – www.aecioneves.com.br – mostra a influência da família em sua carreira. O avô paterno, Tristão da Cunha foi quatro vezes deputado federal. O pai, Aécio Cunha, exerceu seis mandatos de deputado federal e o avô materno, Tancredo Neves, era também deputado federal. Aécio tinha 23 anos quando foi trabalhar como secretário particular do avô. Ficou com ele até 1985, ano em que Tancredo morreu comovendo a nação pela perda do primeiro presidente civil eleito, ainda que indiretamente, após 21 anos de regime militar. A partir daí e sempre ligado à imagem do avô, Aécio Neves, economista de formação e político por herança familiar, construiu uma carreira pública nada comum em sua idade. Foi quatro vezes deputado federal pelo PSDB de Minas, e em 2001 chegou à presidência da Câmara Federal vencendo velhos profissionais da política numa das mais disputadas eleições da casa. Com fama de arrojado e discreto, juntando discurso modernizador com a política tradicional aprendida em família, tornou-se o político mais fluente no Congresso nos últimos dois anos. Em 2002, candidatou se ao governo de Minas Gerais recebendo apoio de uma ampla aliança política que incluiu cinco ex governadores e até mesmo o então governador mineiro, Itamar Franco, do PMDB, adversário de Fernando Henrique Cardoso e do PSDB de Minas. Venceu a disputa já no primeiro turno com uma grande vantagem de votos em relação ao segundo colocado. Aos 42 anos de idade, assumiu o governo dizendo que não aceitaria patrulhamento contra sua relação amigável com o presidente Lula. E defendeu um pacto de governadores para ajudar o novo governo federal. Numa nova aproximação São Paulo/Minas, Aécio e o governador paulista Geraldo Alckmin articulam, agora, uma ação entre governadores do PSDB para que o governo federal coloque também em primeiro plano a reforma tributária.

Paulo Markun: Para entrevistar o governador de Minas Gerais Aécio Neves nós convidamos Dora Kramer, colunista de política do Jornal do Brasil e do jornal Estado de S. Paulo; Josemar Gimenez Resende, diretor de redação do jornal O Estado de Minas; Pedro Cafardo, editor executivo do jornal Valor Econômico, Tereza Cruvinel, editora de política do jornal O Globo; Fernando Barros e Silva, colunista da Folha de S.Paulo e Ana Carvalho, subeditora de Brasil da revista IstoÉ. O Roda Viva, você sabe, é transmitido em rede nacional para todos os estados brasileiros e para Brasília também [...] Boa noite, governador .

Aécio Neves: Boa noite.

Paulo Markun: Estamos num momento que, não só o Brasil, está vivendo uma lua de mel com o governo e com o presidente Lula, mas parece que o mundo... Quer dizer, o chanceler da Alemanha, Davos inteira, enfim, o mundo inteiro também. Apesar disso, eu vou fazer provocação com o senhor, sabendo das dificuldades dessa provocação, que é a seguinte: qual é o ponto do governo Lula, desse início do governo Lula que preocupa o senhor, ou não tem ponto nenhum que preocupa? 

Aécio Neves: É claro que devem ter pontos que preocupam, principalmente ao presidente Lula. Ele sabe que o nível das expectativas geradas na sociedade é muito grande, a meu ver, inédito na história republicana do Brasil. Portanto, se eu pudesse sintetizar uma preocupação que eu acredito – não apenas minha preocupação, mas de todos aqueles que querem que o Brasil dê certo – [seria] exatamente dosar essas expectativas e estabelecer o mais rapidamente possível as reais prioridades desse governo. O governo se propôs a fazer muita coisa: se propôs a erradicar a fome, se propôs a manter a inflação sob controle, a gerar dez milhões de empregos, para ficar apenas nas questões de maior impacto. E é preciso que se comece a trabalhar objetivamente nessa direção. Eu, é claro que como governante que sou, tenho que ter um cuidado enorme ao fazer determinadas colocações, determinadas críticas, mas me preocupa também - para ser bem objetivo, buscando responder a sua pergunta - é ver algumas ações do governo sobrepostas. Acho que houve um certo inchaço na máquina pública que pelo, menos a princípio, não me parece que venha na linha da objetividade de se garantir realmente resultados objetivos.

Paulo Markun: A questão da reforma dos ministérios? 

Aécio Neves: Eu acho que se ampliou demais o número de ministérios e de secretarias com esse status. Eu começo a perceber, enfim, alguns problemas gerenciais que esse governo vai viver. E o que nós precisamos hoje, em uma máquina administrativa tão complexa quanto a máquina federal, é resultado, objetividade. Fazer com que a decisão tomada em cima seja, efetivamente, atendida lá na ponta. Eu vejo uma máquina, na verdade, eu cito o exemplo de Minas. Nós fizemos em Minas o contrário do que foi feito no plano nacional. Em Minas tínhamos 22 secretarias de estado, hoje temos apenas quinze e com poderes e ações bem definidas e delimitadas. Faço apenas, não como reparo, mas como uma observação, pode ser que nós tenhamos, no caminhar desse governo, alguns problemas de conflitos de autoridades em determinadas áreas. 

Josemar Gimenez Resende: Governador, nesse conflito de autoridades, só dando seqüência à pergunta do Markun, por exemplo, nós tivemos problemas aí... Quer dizer, críticas do próprio PT à indicação do [presidente do] Banco Central e até à condução da seqüência da política [econômica do governo anterior], por exemplo, aumento da taxa de juros de 0,5%. O senhor acha,  com a experiência que tem como parlamentar, como presidente da Câmara, que o PT hoje pode ser também, dentro dessa preocupação, o grande problema para o PT? Alguns setores do PT [são] o grande problema para o PT, nesse início de governo? 

Aécio Neves: Olha, me parece que também com o correr do tempo, certamente, setores do PT que ainda não compreendem as leis do mercado terão dificuldades de conviver dentro do próprio PT. Mas vejo isso como algo residual dentro do PT. Nós dizíamos na campanha, Josemar, e você acompanhou a campanha no país inteiro, que era muito difícil, de uma hora para outra, fazer alterações profundas na política econômica. O que nós estamos vendo, na verdade, é uma certa seqüência daquilo que vinha sendo feito pelo governo Fernando Henrique, sobretudo na questão do ajuste fiscal, da Lei de Responsabilidade Fiscal. Portanto, vamos chamar assim: do ortodoxismo da política monetária. Eu não vejo modificações profundas, sobretudo nesse início de governo e nem acho que isso seria possível. Se isso vai desagradar, a ponto de afastar do governo setores do PT, o tempo é que vai demonstrar.

Ana Carvalho: Mas aproxima [o governo Lula] do PSDB, nessa seqüência da política econômica, o PSDB vai ficar de que lado? Quer dizer, marcha com o governo Lula, está na oposição? 

Aécio Neves: Eu entendo sua pergunta. Eu tenho uma posição muito pessoal com relação a essa relação próxima com o governo do PT. Nós somos oposição porque perdemos as eleições, perdemos e ficaremos na oposição. Agora, existem formas distintas de exercer essa oposição. Eu não advogo que o PSDB faça em relação ao governo Lula aquilo o que PT fez em relação a nós, que considero vício de origem, em toda a matéria demandada do poder executivo, chegando ao ponto de votar contra a própria Lei de Responsabilidade Fiscal, que hoje compreendem que é um avanço absolutamente definitivo na administração pública brasileira; votaram contra o Fundef, contra o Banco da Terra. E isso são alguns exemplos que me ocorrem aqui, de matéria que são, hoje, aplaudidas por eles. O PSDB, até pela experiência de oito anos de governo, tem o dever  de ter muita responsabilidade ao execer essa oposição. E se o PT vem agora defendendo propostas que nós defendíamos, inclusive, com oposição muito dura deles, como a reforma da previdência ou a tributária, não podemos condenar isso. Eu vejo como evolução do PT, e mais do que isso, eu acho que devemos discutir essas propostas, enfim, fazendo com que elas atendam aos interesses efetivos dos estados e do país, nós devemos votar a favor dessas reformas, independente delas viabilizarem ou não o governo do PT. 

Dora Kramer: Governador, essa relação amigável do PT com o PSDB ou sua com o PT, eu perguntaria: isso tem prazo de validade e qual o limite dessa relação amigável?

Aécio Neves: Dora, na minha avaliação, essa eleição iniciou um ciclo político novo no Brasil. Eu não tenho menor dúvida em relação a isso. Hoje, 100% dos brasileiros, aqueles que votaram no Lula e os que votaram no Serra, querem que o Brasil dê certo. Os governos estaduais, para se viabilizarem, precisam que o Brasil volte a crescer, e precisam que essas reformas efetivamente...

[...]: ...Antes não queriam, governador? 

Aécio Neves: Como?

[...]: Antes não queria que desse certo? 

Aécio Neves: A oposição que o PT exerceu em determinados momentos ao governo do presidente Fernando Henrique foi predatória, não havia espaço no Congresso – e falo aqui como ex-líder do partido do presidente da República na Câmara e, depois, como presidente da Câmara – não havia disposição para se discutir questões importantes para o país. E cito um exemplo muito claro...

Dora Kramer: Sim, mas aí o PT fez política. Estou perguntando o seguinte: se PSDB também não vai fazer política com vistas a voltar ao poder? E aí vai ter que haver um confronto. 

Fernando de Barros e Silva: Só complementando, porque havia gente no partido que queria oposição mais sangrenta, a começar pelo José Aníbal [deputado federal por São Paulo, foi presidente nacional do PSDB], Arthur Virgílio [deputado federal por três mandatos e prefeito de Manaus em 1988], [mas] o senhor e o próprio Fernando Henrique deram um freio antes do Lula assumir e matizaram um pouco essa oposição. [Vocês] não correm o risco de ficar na linha auxiliar do PT? Ou querer pegar essa bandeira social que o senhor acha que o PSDB perdeu para o PT?

Aécio Neves: Fernando, só se nós fôssemos muito frágeis e não acreditássemos no potencial do partido e nas propostas do PSDB. Só os frágeis têm receio de apoiar determinadas medidas para o país, considerando que elas são relevantes, [mas] que podem beneficiar outro partido. Vou repetir o que eu disse agora há pouco: oito anos de governo do PSDB nos cobram e exigem do partido algumas posições de muita responsabilidade – repito – diferente daquelas que o PT teve em determinados momentos [durante] o governo Fernando Henrique. E faço isso por convicção, faço isso até com a responsabilidade de ser governador de um estado como Minas Gerais, que não é diferente dos outros estados da federação, que esperam que o Brasil possa crescer para que esses estados também possam se desenvolver. Mas, mesmo do ponto de vista partidário, Dora...

Dora Kramer: Isso .

Aécio Neves: Não seria adequado, não seria inteligente, a meu ver, uma oposição sangrenta neste instante. E não vejo ninguém do partido com essa disposição...

Dora Kramer: Quando o senhor diz: neste instante, por isso eu perguntei [sobre] a questão do prazo de validade, quer dizer, o que é um prazo... O que é um momento do confronto? 

Aécio Neves: É o processo. O papel fiscalizador [em relação ao] governo Lula é um papel institucional da oposição. A oposição tem que exercer esse papel e o PSDB vai exercê-lo, com vigor, à medida que as contradições forem surgindo. Cabe ao PSDB alertar para essas contradições, e isso nós vamos fazer. Mas isso se faz na medida em que elas surgem, você não faz isso por antecipação. E acho que, neste momento, o que o PSDB precisa fazer, e esta é uma oportunidade, Pedro, única, acho que o PSDB talvez precisasse desses quatro anos de oposição. O PSDB precisa se reciclar como partido, o PSDB precisa se reinserir, por exemplo, no movimento sindical. Precisamos fazer uma revisão do nosso programa, adaptando-nos às mudanças que ocorreram no Brasil e no mundo. Eu acho que este é um grande momento para o PSDB, que exercerá seu papel fiscalizador em relação ao governo Lula sem prejudicar o país, sem fazer oposição ao Brasil, sem inviabilizar reformas que nós sempre defendemos e, em grande parte, nós não viabilizamos no Congresso [em função da oposição sistemática] pelo próprio PT.

Josemar Gimenez Resende: Agora, governador, dentro dessa posição sistematizada, essa posição aí mais dinâmica que o senhor está se referindo, existe uma disputa um pouco surda entre os governadores, até pela questão de liderança para se tornar uma força, [já] que os governadores vão trabalhar numa relação mais conjunta no Congresso. Com a experiência parlamentar que o senhor tem, parece que o governador de São Paulo está querendo que Jutahy [Magalhães Júnior, deputado federal (PSDB-BA)] seja o líder e parece que o senhor está defendendo outro nome, o Custódio [Mattos, deputado federal (PSDB-MG)]. Como está essa disputa aí? Como isso vai ficar?

Aécio Neves: Olha, a minha relação com o governador Geraldo Alckimim não é só uma relação política, mas uma relação pessoal muito forte e de enorme identidade em relação ao que queremos para o país. Aqueles que apostarem que, em determinado momento, o governador do São Paulo estará de um lado e o governador de Minas de outro, posso assegurar que perderão. Podemos ter visões distintas sobre um e outro assunto, mas nós compreendemos – e inclusive almoçamos esta semana e vamos estar juntos, novamente, daqui a pouco dias – que o futuro do PSDB depende da nossa unidade. E não há, hoje, nenhum obstáculo para que essa unidade, que já existe, se consolide. Olha, o PSDB, Josemar, durante muito tempo abrigou no mesmo guarda-chuva lideranças da dimensão de Mário Covas, de José Serra, de Fernando Henrique - estou citando fundadores do PSDB – de Montoro, de Pimenta da Veiga [foi deputado federal por Minas Gerais e prefeito de Belo Horizonte. Entre 1999 e 2002, foi ministro das Comunicações], que eram as grandes lideranças nacionais daquele momento, e que fundaram o PSDB. Não há menor razão para que hoje, nós, até sem eventualmente aquela dimensão daquele momento, também convivamos de forma muito harmoniosa dentro do partido, compreendendo que temos funções distintas. Os governadores têm responsabilidade maior hoje com a administração dos seus estados, uns em situação de maior gravidade do que outros. A situação, e você sabe isso como poucos, que a equação fiscal de Minas é a pior do Brasil hoje. Portanto, seria uma irresponsabilidade se não estivesse me dedicando, como estou fazendo em grande parte do meu tempo, a reorganizar o estado, fazer um grande choque de gestão. Mas é óbvio que temos relações políticas. No meu caso, mais especificamente por estar saindo, depois de 16 anos no Parlamento, terminando agora o mandato como presidente. E mesmo em relação à questão da liderança, eu confio muito que não haverá, no final, disputa. Existem postulações naturais...

Josemar Gimenez Resende: [Interrompendo]: Quem o senhor acha que ficaria com a liderança do partido? 

Aécio Neves: O líder Jutahy, ele era meu primeiro vice líder enquanto eu era líder candidato, foi lançado por mim novamente candidato, novamente apoiado por mim e todo o partido na sua reeleição, e existem algumas discussões dentro do partido, se para o partido é adequado a sua substituição ou a sua continuidade. Nós vamos avançar conversando sobre isso esta semana, mas essa decisão, Josemar, é da bancada do PSDB. Os governadores podem até ter sua opinião, mas essa decisão, por respeito às bancadas, será tomada no âmbito da Câmara dos Deputados.

Tereza Cruvinel: Vamos falar dessas bancadas. Apesar da harmonia toda com o governo do PT, depois desse seu encontro com o governador de São Paulo onde se propuseram, de certa forma, a liderar o esforço pela reforma tributária, houve alguma coisa que eu entendi como uma reação do PT a essa suposta [...] de lideranças, suas e do Geraldo Alckmin, que foi o convite do ministro [da Fazenda] Palocci ao governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, para que ele coordenasse as articulações junto aos governadores com vistas à reforma tributária. O senhor tomou isso como uma competição?

Aécio Neves: Não, ao contrário, como algo extremamente positivo. E confesso a você que já havia conversado sobre isso com o presidente Lula quando esteve conosco no Vale do Jequitinhonha, em Minas. Disse que ele precisava, não poderia deixar, primeiro lugar, que a reforma tributária passasse para um plano secundário. Eu acredito, Tereza, que não é diferente de outros governos, mas, em especial, no [governo] do presidente Lula, pelo apoio popular que conquistou e construiu, esses primeiros seis meses são seis meses de ouro que o governo não pode perder em hipótese alguma. E é possível, sim, que se discuta reforma da previdência e a reforma tributária num mesmo período, porque não são discussões novas, não são discussões que nascem do nada. [Elas] existem. E por isso nós alertávamos para a necessidade de que ela voltasse a fazer parte, vamos dizer, do primeiro nível das discussões, porque ela já é parte de um projeto esboçado, discutido e aprofundado dentro do Congresso.

Tereza Cruvinel: Aquela da comissão especial, você acha que pode ser o pontapé [inicial]? 

Aécio Neves: Acho que é a base, é o que mais consenso adquiriu no parlamento. E não avançou, por quê? Não houve naquele instante, eu reconheço isso, disposição do governo...

Tereza Cruvinel: ...Fernando Henrique Cardoso, a mão que barrou ...

Aécio Neves: Foi claro para nós, o governo optou por não fazer a reforma e depois mandou um projeto, que, enfim, embutia parte daquela reforma. Mas hoje, se há essa disposição, nós queremos sempre alertar para que essa disposição continue viva. Existe um projeto já bem encaminhado e quem conduziu a discussão desse projeto na câmara? Foi o deputado Germano Rigotto, que era o presidente daquela comissão relatada pelo deputado Mussa Demes [(1939-2008) na época, deputado federal], nada mais natural que um governador do Rio Grande do Sul ter um papel também de liderança nesse projeto...

Tereza Cruvinel: Por que os tucanos vão apresentar um projeto diferente, se já existe um....

Aécio Neves: Não, não é essa intenção. Olha, é tão importante para o Brasil, Tereza, uma reforma tributária e seria uma coisa tão pequena ficar com ciúme porque um ou  outro... Olha, o deputado Rigotto é para mim, hoje, o mais preparado para essa discussão, porque preparou o Brasil inteiro. Não sei se lembram, ele viajou o Brasil inteiro conversando com entidades de classes, conversando com todos os segmentos interessados nessa reforma e tem uma memória importante disso. O que o PSDB vai fazer e estabeleceu por fazer é criar um fórum permanente de discussões administrativas, principalmente para que haja uma identidade entre nós. E, do ponto de vista político, também fizemos aquela reunião em Araxá que foi fundamental para que pudéssemos garantir a continuidade do ressarcimento do fundo da Lei Kandir [ou Lei complementar nº 87. Entrou em vigor em 1996 e isenta os imposto dos estados e do Distrito Federal nas operações comerciais de produtos e serviços destinados às exportações. Recebeu o nome do deputado federal Antônio Kandir (PSDB-SP)], que terminaria este ano. Foi ali que nós conseguimos o compromisso formal do presidente Lula, eu o cobrei, enquanto presidente da Câmara, esse compromisso das lideranças do PT que honraram, incluindo aqueles recursos do orçamento. E aquilo foi fundamental, sobretudo para os estados exportadores. E temos que ter esse link, essa relação administrativa. Inclusive, essa reunião dos sete governadores, não será mais sete, e sim oito, porque amanhã estará se filando ao PSDB, estará indo a Minas [para fazer] sua filiação, que muito me honra, o governador Marcelo Miranda, do Tocantins; um jovem de quarenta anos de idade que se elegeu governador de estado num processo grande de desenvolvimento. Será mais um companheiro na busca da identificação de propostas que sejam boas para o país. Nós vamos apresentar contribuições, não vamos exigir que se apóie a proposta de PSDB. 

Paulo Markun: Só para entender, [como] a reforma tributária resolve a vida dos estados que estão endividados?

Aécio Neves: Olha, a situação dos estados endividados – e essa é uma questão que eu também tenho tido o cuidado enorme de tratar – nós temos que permitir que este governo instale, repito, aquilo que disse também anteriormente, estabeleça com clareza as suas prioridades, mas a reforma tributária é fundamental para o Brasil. O Brasil precisa voltar a crescer e só o Brasil voltando a crescer, eu vou conseguir, no caso de Minas Gerais que apresenta um déficit previsto para este ano de 2,4 bilhões de reais, por mais que eu faça, como estou fazendo, um esforço de enxugamento da máquina, de organização da máquina pública, de cortes de despesas, só no momento em que nós ganharmos receita, vamos equilibrar esse rombo... 

Paulo Markun: Não se trata de rediscutir a dívida dos estados?

Aécio Neves: Não, efetivamente não é isso. Temos que criar imediatamente, o mais rapidamente possível, um fator inibidor da guerra fiscal que está chegando a limites intoleráveis para a economia brasileira. Portanto, a rediscussão do ICMS [Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação]...

Josemar Gimenez Resende: O senhor concorda com a alíquota única, governador?

[...]: A questão do ICMS como fica, governador?

Aécio Neves: É uma das questões fundamentais dessa reforma. E isso interessa aos estados que não se dispuseram a entrar na guerra fiscal, portanto, criar isenções. Esse tipo de estímulo, estão perdendo, e Minas perdeu muito ao longo dos últimos anos.

Fernando de Barros e Silva: Em relação ao ICMS, o governador Geraldo Alckmin se manifestou contra que se cobre do estado consumidor e não do produtor. Havia uma posição, parece que foi mudada. E esse ponto específico já mostra complexidade dessa reforma. Porque todo mundo sabe que precisa desonerar a produção, acabar com impostos em cascata e etc, mas na hora de se colocar na mesa para ver quem vai perder, não se chega a nenhum acordo. Como é que vão fazer esse consenso, se é uma questão que já causa esse tipo de polêmica?

Aécio Neves: Unanimidade jamais vai ser alcançada, porque, em determinado momento, alguém vai perder quando se discute reforma tributária, mas as linhas gerais, elas têm que ser acertadas entre nós, por isso eu estou estimulando essas reuniões. Por isso eu realmente cobrei que a reforma tributária voltasse à agenda, porque não é pela dificuldade que vamos abandoná-la. Eu, hoje, como você sabe, o ICMS é compartilhado, tanto no estado de origem da produção, quanto no estado consumidor. Avançou-se muito, chegou-se próximo do consenso que a cobrança deveria ser no estado consumidor, já que ali é que deveria ser, já que ali que mora aquele que consome, é ali que ele demanda os serviços públicos, portanto, a arrecadação deveria ficar para aquela unidade da federação. Apresentou-se, em determinado momento, uma proposta da federalização do ICMS no qual me coloco contrário, não é esse, a meu ver, o caminho adequado. Mas nós podemos, além da questão que, não diria nem unificação da alíquota, Josemar, mas da criação de uma banda máxima para que em determinados momentos você possa excepcionalmente permitir que um determinado estado de uma região menos desenvolvida possa ali, dentro de um determinado setor, dar algum tipo de estímulo. Isso, eu acho até admissível, mas não nos limites ou sem limites, como está ocorrendo hoje. Mas, exatamente por essas contradições que existem, nós temos que apurar, nós do PSDB vamos sentir onde estão as nossas divergências para encontrarmos os pontos de convergência, e a partir do ponto de convergência, conversar com outros governadores.

Josemar Gimenez Resende: Governador, essa guerra fiscal sem a unificação, com mais de quarenta alíquotas de ICMS no Brasil inteiro, o senhor não acha muito difícil que a reforma tributária nos estados...

Aécio Neves: Olha, mas esse é o problema. Temos mais de quarenta alíquotas em 27 regimes diferentes de ICMS, algo absolutamente inconcebível. Avançou-se num determinado momento no Congresso, estivemos muito próximo de fechar um acordo, e repito aqui: não foi fechado porque o executivo optou, em última instância, pela política arrecadadora, vamos chamá-la assim, não [me] cabe questionar, mas pelo menos fazer esse diagnóstico. E agora, se não houver... um pouco aí da minha experiência de parlamentar, se não houver uma presença firme dos governadores, definindo os pontos de consenso nessa reforma tributária...

Dora Kramer: [Interrompendo] Palocci vai repetir Malan [Pedro Malam foi ministro da Fazenda nos dois governos de Fernando Henrique]?

Aécio Neves: ...E exigindo isso, Palocci vai repetir Malan com absoluta certeza...

[risos]

Tereza Cruvinel: União é ...

Aécio Neves: É sedutor. O sistema tributário hoje é sedutor porque a União, feita dos estados, ela faz o seu ajuste através de uma política tributária...

Dora Kramer: [Interrompendo] Queria entender por que a União abriria mão, quando o senhor diz o executivo, a chave, a questão principal é o executivo, por que o executivo abriria mão dessa recomendação?

Aécio Neves: Porque não podem ter... A União não pode ter estados insolventes, a União não pode caminhar para o fim absoluto da Federação. No momento que se percebe que os estados estão absolutamente no limite fiscal e que, se não houver uma ação, eu diria até com a perspectiva, Dora, de alguma perda ou diminuição temporária de arrecadação, mas com estados respondendo também por algumas outras, enfim, tendo outras responsabilidades, mas recebendo uma parte mais expressiva do que se arrecada, se não for por aí, nós vamos chegar a um impasse...

Dora Kramer: [Interrompendo] Vão ter que construir um argumento fantástico!

Pedro Cafardo: Alguns estados estão insolventes, alguns estados estão, inclusive, o seu estado.

Tereza Cruvinel: Até a União...

Pedro Cafardo: Quatro ou cinco estados que são citados como insolventes, outros estão...

Tereza Cruvinel: Seis.

Aécio Neves: Os que não estão, estão bem, os que não estão caminhando para isso.

Pedro Cafardo: O senhor já assumiu Minas há 27 dias, já viu a situação do cofre, abriu o cofre, viu o cofre...

Aécio Neves: Não achei o cofre ainda

Pedro Cafardo: Não achou ainda? Está vazio, né, com buraco!

Tereza Cruvinel: Só dívida!

Pedro Cafardo: Por que Minas está com esse problema e São Paulo e outros estados não estão? O que o governador Itamar Franco fez lá, para Minas ficar desse jeito?

Aécio Neves: Não diria que isso é responsabilidade de um governo. Mas, na verdade, Minas não fez, ao longo do tempo, os ajustes que precisava fazer, ajustes que o governador Mário Covas, por exemplo, fez aqui [em São Paulo] e outros governadores fizeram, esta é uma constatação clara, não fez. Muito bem, mas nessa situação atual do estado, o que se faz....

Pedro Cafardo: Se o estado não se enquadrar, não adianta nada fazer reforma tributária!

Aécio Neves: Estamos na mesma língua. Acho que algum caminho para a superação dessas dificuldades, através da reforma tributária, tem que vir como contrapartida dos estados. Tem que vir com o compromisso dos estados de fazer o que precisa ser feito. Eu estou disposto, Pedro, você fala de Minas e [Minas] tem dado sinais muito claros disso, estamos fazendo os cortes mais profundos que já se fez na história de Minas Gerais, mas não é o suficiente para que eu chegue ao final do ano pagando integralmente a folha de salários. Então, nós temos que encontrar...

Pedro Cafardo: [Interrompendo] Situação de emergência?

Aécio Neves: Concordo com você que não se pode buscar que governo federal divida conosco a arrecadação sem que nós façamos o que precisa ser feito. Vamos fazer, mas é preciso que se encontre um caminho para  oequilíbrio das contas públicas dos estados que estão endividados.

Dora Kramer: Deixa eu fazer uma pergunta, sem querer fazer a linha vingativa, mas em vários estados, não só Minas, os governadores não cumpriram vários aspectos da lei fiscal.

Aécio Neves: Isso.

Dora Kramer: Como não há punição, o senhor não acha que isso enfraquece e invalida o sentido dessa lei?

Aécio Neves: Olha, eu estava no Congresso quando foi votada essa lei e disse, na época, como líder, que a administração pública brasileira ia ser dividida entre antes e depois da Lei da Responsabilidade Fiscal. Portanto, eu me julgo, pessoalmente inclusive, com muito compromisso com essa Lei. Por isso não estou no discurso simplista: “olha, nós temos que diminuir o percentual de comprometimento da receita com dívida ou temos que fazer renegociação dos contratos”. Mas nós temos que, no bojo da reforma tributária, encontrar um caminho para que os estados se reequilibrem, mas para que eles também possam fazer ou façam o que é preciso fazer. Então, Dora, nós vamos ter, nós vamos ter um impasse, a médio prazo, se não houver iniciativa do executivo federal e dos estados de fazer a reforma tributária.

Paulo Markun: Pergunta de telespectadores. João André, de Belo Horizonte, que é bancário, diz o seguinte: “O senhor diz que o estado está mal, mas por que o senhor deu aumento ao seu primeiro escalão?”. Jeremias dos Santos ,de Cambuí, Minas Gerai: “O senhor acha correto que o governador e os secretários tenham aumento de 54% e os professores não tenham nada?”. E Leandro de Oliveira, de Divinópolis, também de Minas, “qual sua posição sobre o plano de carreira para o funcionalismo público estadual na área de educação?”

Aécio Neves: Essas perguntas dos meus três conterrâneos, elas vêm a calhar, até para que se esclareça algo bem óbvio, mas que parece que alguns não compreenderam ainda. Eu me posicionei, no Congresso Nacional, até o final, contra o reajuste que seria dado aos parlamentares naquele valor. Enfim, houve um consenso de todos os partidos na Câmara, de todos, sem exceção. E foi feito, depois que eu deixei a presidência da Câmara, foi feito esse aumento. E eu não queria esse aumento porque eu já sabia exatamente a conseqüência dele, que era a cascata, a ligação é direta. Não cabe ao governador do estado o veto sobre o aumento dado aos congressistas que passa automaticamente para àqueles salários que têm vinculação com salário dos congressistas, como é o caso de secretários, deputados estaduais, secretários de estados e magistrados. Portanto, o aumento é automático e o governador infelizmente não tem nenhum poder de veto em relação a essa matéria. Pode ter certeza que gostaria de ter. Em relação ao plano de carreira, a minha disposição, e disse às lideranças sindicais do funcionalismo mineiro, que a minha disposição é estabelecer com elas um processo de valorização do magistério através do funcionalismo, do magistério em especial, porque era um dos projetos que estavam mais avançados em discussão na Assembléia, mas dentro de uma projeção de aumento de receita. O que nós não vamos fazer em Minas é nos iludir, ninguém vai enganar mais ninguém, a situação do estado é essa que está aí. Esse aumento dado pelo Congresso que, em cascata, a título de parlamentares e os outros poderes, é preocupante, eu já disse e repito aqui, nós vamos fazer outros cortes na reunião dos poderes que estou convocando para depois do dia dez de fevereiro, portanto, daqui quinze dias. E nós tiraremos os orçamentos desses poderes, faremos outros cortes para suportar esse aumento. E a minha...

Paulo Markun: Neste caso, o governador, obviamente, só tem possibilidade de sugerir e propor porque tem a independência dos poderes?

Aécio Neves: É, mas quero que haja compreensão de todos. Porque não adianta ter um aumento salarial se você não consegue pagar ao final, e o Brasil, Minas inteiro se cansou de acompanhar aquela luta pelo pagamento do décimo terceiro salário, então, não poderemos voltar a viver aquele episódio. E a minha disposição é discutir o plano de carreira para o funcionalismo público nas suas várias atividades, em seus vários níveis. Mas o aumento condicionado a um eventual – que eu espero, ocorrerá pela nossa ação administrativa – recuperação da receita do estado. 

Dora Kramer: Governador, esse discurso está completamente “sangue, suor e lágrimas”. Me parece um discurso um pouco inadequado para quem tem planos futuros nacionais de se candidatar. O senhor não teme ter um desgaste político no estado muito grande com isso, ou o senhor acha que tem gordura suficiente para queimar? 

Aécio Neves: Eu acho que terei esse desgaste, Dora, e estou absolutamente preparado para ele por uma única razão: não há outra alternativa. Eu tenho que fazer agora, nesse primeiro ano, o ajuste do estado. Esse ajuste passa por medidas impopulares. Se for governar olhando as curvas de popularidade, eu acho que estaria fazendo aquilo que é o inverso do que me propus quando eu fui candidato.

Dora Kramer: E o projeto futuro?

Paulo Markun: Dentro desse projeto...

Dora Kramer: E a presidência da República, como é que fica?

Aécio Neves: Deixa eu te dizer, você me conhece há algum tempo, eu tenho inúmeros defeitos, mas eu acho que tenho pelo menos um consolo de, entre todos os defeitos, não ter obsessão, mas não tenho mesmo. Eu não tive para ser governador de Minas, você acompanhou, meu projeto não era governar Minas agora, era caminhar para o Senado, o que eu considerava mais natural, até pela minha presença no Congresso. Eu fui candidato ao governo de Minas, não porque eu coloquei aquilo como objetivo a ser alcançado, mas porque as circunstâncias para...

Paulo Markun: ...Sim, mas depois o senhor costurou uma aliança que ninguém mais costurou!

Dora Kramer: Fala que não tem mais obsessão, mas depois que começa ninguém segura né?

[Risos]

Aécio Neves: Eu coloquei tanta pré-condição para sair governador de Minas, até porque acreditava que não se construiriam - e acabaram até sendo construídas, que assumi minha candidatura como gesto de responsabilidade. E vou reorganizar o estado. Eu acho que, em dois anos, nós teremos Minas reequilibrada, mas quem governar um estado na dimensão de Minas pensando no passo seguinte, no degrau seguinte, vai parar nesse primeiro. E eu não penso mesmo. Eu vou governar Minas, eu não penso mesmo, quero olhar para trás e dizer: “O que foi possível ser feito, nós fizemos. E Minas volta a crescer, volta a ser um estado politicamente influente, enfim, condutor de políticas públicas importantes”.

Fernando de Barros e Silva: Igual o governador Geraldo Alckmin. Ele fala que não vai ser nunca candidato a presidente, ele fala

Aécio Neves: Está vendo, tenho muitas semelhanças com Geraldo Alckmin! Só não tenho, infelizmente, um estado na mesma situação que o dele, até pela correção do Covas e a continuidade do governador Alckmin, [São Paulo] está numa situação que devemos aplaudir.

[Risos]

Josemar Gimenez Resende: Agora, Covas, por exemplo, no final do seu primeiro mandato, quando ele saneou, teve um desgaste muito grande. Você não teme chegar nos quatro...

Aécio Neves: É possível, Josemar, mas confesso a você que estou preparado para isso, mais [até], estou determinado para isso. E acho que as pessoas não se iludem mais. Ninguém acredita que com meias medidas ou medidas paliativas vamos recuperar o estado. O que eu tenho percebido em Minas, e até uma pesquisa que me entregaram na quinta-feira passada mostra isso com muita clareza é que a população está na expectativa de medidas duras, está preparada para medidas duras. É óbvio que eu não vou poder atender, enfim, é óbvio que eu vou contrariar determinados grupos. Mas quando você contraria dizendo por que está contrariando e quando você mostra, com absoluta transparência, o que está fazendo e porque está fazendo, eu acredito que haverá compreensão.

Pedro Cafardo: Você vai enxugar a máquina e vai mexer no orçamento da Assembléia? Mexer assim, propor...

Aécio Neves: Como você sabe, a Assembléia tem sua autonomia, como tem os outros poderes, mas o clima que nós estamos vivendo em Minas – acho que um pouco do Brasil também – eu acho que a sociedade vai cobrar dos outros poderes que, enfim, façam esses mesmos ajustes que nós vamos fazer no executivo. Eu vou dar um exemplo, Josemar, eu vou dar o exemplo e alardear. E vou esperar que outros poderes façam isso, pois tenho certeza que tem havido compreensão... Eu vetei, como você deve ter acompanhado, todos os projetos que a legislação me permitia vetar e que demandavam novas despesa para o estado. Inclusive um aprovado com ampla negociação na Assembléia que criava novos cargos para o judiciário. E conversei com o presidente do Tribunal de Justiça, que apesar de justificar a necessidade daqueles novos cargos, compreendeu que o momento era impróprio. Então, e não digo nem que concordou, mas aceitou com muita responsabilidade que teve, aceitou as ponderações do governador. Eu acho que estamos vivendo também esse momento de uma certa solidariedade para que as coisas se ajeitem.

Tereza Cruvinel: Governador, continuando com essa calamidade financeira, eu queria voltar à Lei de Responsabilidade Fiscal. O problema maior de Minas é o da dívida. Minas está entre os seis estados que estouraram o limite de endividamento, não?

Aécio Neves: Isso.

Tereza Cruvinel: Mas o senhor sabe e advogou, até recentemente junto ao presidente Lula, que a dívida dos estados, se não for mudado o índice de correção, que hoje é IG/PDI, foi um pleito seu junto ao presidente Lula, a dívida cresce numa proporção impagável, né? O índice de correção aplicado faz com que ela...

Aécio Neves: Perfeito.

Tereza Cruvinel: O serviço dela continua crescendo numa proporção muito maior que das receitas. E o índice de endividamento é das receitas que cresce numa proporção... O senhor reivindicou isso ao presidente Lula e acho, claro, que esse pleito não foi atendido porque implica em mexer na lei. Ora, um dirigente da antiga base do Fernando Henrique, seu companheiro na aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal, recentemente declarou, reservadamente, que o Congresso Nacional deveria estar de porre quando aprovou a Lei de Responsabilidade Fiscal porque muitos dos seus artigos são inaplicáveis. Um exemplo é esse do IG/PDI. Eu lhe pergunto agora, como governador, como o senhor está vendo, na prática, como é a realidade da federação brasileira, dos estados em relação à União, o senhor continua achando que essa lei é intocável, é um dogma assim...

Aécio Neves: Tereza, eu diria o seguinte, a lei tem muito mais virtudes do que defeitos.

Tereza Cruvinel: Mas tem defeitos?

Aécio Neves: Ela não é uma lei perfeita, certamente, não é. E você toca num dos aspectos sobre o qual já havia me manifestado. Mas eu tenho tido um cuidado muito grande neste momento, porque se eu começo essa discussão agora, propondo eventuais modificações pontuais na lei, sem que seu espírito seja contaminado, eu posso dar um passo para conseqüências perigosas.

Tereza Cruvinel: Os tais mercados?

Aécio Neves: É isso. O presidente Lula, numa das últimas conversas que teve comigo, dizia, até por manifestação espontânea, antes que eu entrasse no assunto, que sabe da situação, compreende a dificuldade da situação dos estados e que num determinado momento, segundo ele, no bojo da discussão da reforma tributária, nós [iríamos] criar mecanismos de aperfeiçoamento da Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas o espírito da lei impede que governantes em final de mandato endividem o estado ou os municípios para os futuros, sem ter qualquer responsabilidade em relação a isso; os limites de gastos que devem ser mantidos em cada um dos setores da administração. Essas são acho que virtudes inquestionáveis e intocáveis.

Tereza Cruvinel: O presidente não pode alterar, apenas, por exemplo, o artigo do IGPDI por Medida Provisória? 

Aécio Neves: Eu acho que antecipar essa discussão agora pode ser perigoso, mas acho que no bojo da reforma tributária essa questão vai ser tocada. E esse é o compromisso que eu tenho com o presidente Lula, nessa matéria ,de aguardar que a discussão da reforma tributária, enfim, tenha a participação dos governadores. Acho que foi uma iniciativa positiva, menos pelo resultado efetivo da reunião que vai haver no dia vinte de fevereiro, mas a iniciativa da reunião foi positiva. Inclusive pelo gesto de demonstração do governo, que vai se empenhar nessa reforma...

Dora Kramer: Quer dizer vai ter que se flexibilizar a Lei de Responsabilidade Fiscal, é isso?

Tereza Cruvinel: Ele não disse isso.

Dora Kramer: Não?

Aécio Neves: Não no que é essencial, não no que é fundamental, não no espírito da lei que garante o novo nível de responsabilidade dos administradores públicos. Mas no bojo da reforma tributária, Dora, vamos ter que buscar caminhos para os estados. E uma modificação como essa, gostaria de trazer isso como uma proposta minha, mas dentro de um fórum de discussão, uma eventual situação num índice que corrija a dívida, até para que ela não se transforme em algo absolutamente impagável, é uma das alternativas que será colocada na mesa.

Pedro Cafardo: Posso falar sobre esse índice? Eu acho que mexer em índice para corrigir o índice de inflação é bobagem. Porque os índices, a longo prazo, convergem. Então, você vai mexer agora, tirar o IGPDI e pôr o índice de varejo, porque o índice IGPDI é basicamente atacado. Lá na frente, ou muito aqui na frente, vai subir mais o índice de varejo do que o IGPDI. Aliás, este ano, se o senhor fizer as contas, IGPDI vai subir menos que IPCA [índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo], então não é a questão mudar isso, porque não vai resolver nada.

Aécio Neves: Veja bem, esta é uma das questões que será colocada na mesa e os cálculos serão feitos. Nesses últimos seis meses pelo IGPDI as contas subiram astronomicamente e você sabe...

Pedro Cafardo: Porque o IGP subiu mais que os índices de varejo.

Aécio Neves: Eu estou tendo muito cuidado porque eu acho que no momento que eu inverto essa discussão, no momento que eu falar em mexer na Lei de Responsabilidade Fiscal, não [estarei] ajudando a própria reforma tributária, porque eu acho que ela, sim, é essencial. Mas, enfim, num determinado momento, não nesse inicial do governo, mas num determinado momento será possível sim [colocar] na mesa todas as alternativas para ver de que forma os estados recuperam a sua capacidade de gestão.

Paulo Markun: Com a experiência de parlamento, que o senhor tem, e na perspectiva agora imediata de mudança do Congresso Nacional, como o senhor imagina que vai ser o cenário para o suporte do governo Lula? Quer dizer, ele vai trafegar com tranqüilidade, vai ser fácil? Esse apoio popular se traduz em voto, lá, dentro do Congresso?

Aécio Neves: Olha, vamos dividir isso em duas partes, Markun. Se eu me fixar na questão das reformas estruturais, aquelas que nós não conseguimos fazer no governo do presidente Fernando Henrique, como essas que nós citamos, e, além disso, eventualmente a reforma trabalhista e a política, acho que seriam as quatro fundamentais, eu vejo que um governo com perfil mais à esquerda talvez tenha maior facilidade em aprovar essas reformas do que nós. Porque nós, que poderíamos criar as mesmas dificuldades que os partidos mais à esquerda criaram, por exemplo, na discussão da reforma da previdência, não vamos criar essas dificuldades. Pelo menos eu trabalharei para que não se crie essa dificuldade. Então, nesse ponto de vista – independente da questão numérica da base que está no governo, dos partidos que estão no governo e a sua representação no Congresso – eu acho que poderá [haver] maior facilidade. Mas eu não vejo, fora isso, uma situação extremamente tranqüila, pelo perfil extremamente contraditório dos partidos que hoje apóiam o presidente Lula. Ele não...

Dora Kramer: Dá um exemplo, senador, como é isso?

Aécio Neves: Ele não conseguiu ainda construir, enfim, finalizar essa base. Não se sabe ainda o quê o governo espera do quantitativo do PMDB, o que ele espera do PMDB no Congresso para votação de matérias que considerem relevantes. Não sabemos ainda o PPB [Partido Progressista Brasileiro. Em 2003, alterou sua denominação para Partido Progressista (PP)] que é um partido, vamos chamar assim, médio no Congresso, se ele adere ao governo ou não adere, e a que custo...

Paulo Markun: Mas já deu um nó ali na questão da presidência da Câmara e do Senado e resolveu [refere-se às eleições para a presidência das duas Casas, cujo os eleitos foram Aloizo Mercadante (PT/SP) para o Senado e João Paulo Cunha (PT/SP) para a Câmara] ...

Tereza Cruvinel: Boa, Markun.

Aécio Neves: O que me parece... Estou assim um pouco à distância.

Paulo Markun: Todos nós!

Dora Kramer: Governador, o senhor entrou numa disputa inesperada, cujo resultado foi sua conquista à presidência da Câmara. Queria saber – [depois] dessa excelente lembrança do Markun – queria saber como o senhor está vendo, análise de fora, de experiência de parlamentar, de quem passou por uma briga boa dessa, que tinha junto aquela confusão do senado, daoACM e do Jader Barbalho [Em 2001 Aécio Neves enfrentou Inocêncio de Oliveira, do PFL em uma das mais disputadas eleições já vista na Câmara, que ainda teve a influência de Antônio Carlos Magalhães do PFL e Jader Barbalho, deputado federal pelo PMDB. Tal disputa levou o PMDB a se aliar ao PSDB em um acordo que representou a derrota do PFL nas duas casas do Congresso. Ganhou Jader Barbalho no Senado e Aécio Neves na Câmara Federal]. Como o senhor está vendo essa disputa neste momento? Com todos aos elementos, atuação de governo e tal, dos partidos... Faça uma análise sobre isso.

Aécio Neves: Sem dúvida, o que me parece hoje é que a situação, falando em primeiro lugar da Câmara dos Deputados, do deputado João Paulo Cunha [deputado federal pelo PT de São Paulo. Foi eleito presidente da Câmara em 2003] é cômoda por algumas razões, entre elas, é muito cômodo você ser candidato de um governo recém eleito com essa popularidade. Ele é o candidato do governo. Diferente da minha situação em que não era candidato do governo e acabei disputando em plenário com cinco candidatos no momento em que qualquer coisa podia acontecer. O que [existe] ainda hoje, eu acho, é que o candidato do PT, que é um bom candidato, um parlamentar correto, enfim, articulador. Mas ele, na verdade, está sendo [beneficiado] pela força política do governo Lula que não está tendo constrangimentos de influenciar com muito vigor a eleição nas duas Casas...

Tereza Cruvinel: [Interrompendo] O senhor acha isso certo ou errado?

Aécio Neves: Eu sei que se isso ocorresse lá atrás no nosso governo, o questionamento seria absurdo porque houve, vamos chamar assim, uma intromissão - acho que a palavra é essa - muito forte em relação principalmente à questão do Senado...

Tereza Cruvinel: Mas é legítimo um governo tentar montar seu esquema parlamentar?

Aécio Neves: Mas é preciso ver se isso lá na frente não deixa seqüelas na relação interna. Eu disse ao deputado João Paulo quando esteve lá em Minas Gerais, buscando nosso apoio, e eu dizia a ele o seguinte: “deputado, eu sempre defendi o critério do partido do bloco majoritário”, contra, inclusive o PT, que na minha eleição não defendeu esse critério. Então, se você veio aqui me pedir apoio para esse critério não tenho razão para mudar de opinião só porque vocês não me apoiaram lá, quando nós éramos o partido majoritário. Mas eu disse para ele o seguinte: “o mais importante agora, o seu desafio não é ganhar eleição – até porque não vejo outras candidaturas colocadas – o desafio é criar um clima de harmonia no Congresso que não passe a impressão de que vai haver um rolo compressor permanente nas matérias que venham do executivo”...

Tereza Cruvinel: Está parecendo que venha do executivo?

Aécio Neves: Estamos observando...

Tereza Cruvinel: [Interrompendo] Observando o quê, governador?

Pedro Cafardo: Vindo do Congresso...

Aécio Neves: De uma observação muito pessoal dentro de partido que eu não conhecia...

Tereza Cruvinel: O senhor não contou com esse apoio do governo, não contou? 

Aécio Neves: Ao contrário.

Tereza Cruvinel: Como ao contrário, o governo não lhe apoiou?

Aécio Neves: Não me apoiou!

Tereza Cruvinel: Não apoiou? Que surpresa... Deus do céu.

Dora Kramer: Pelo contrário, o governo achava muito arriscado, aventureiro...

Aécio Neves: Dizia-se que o PMDB e PFL, é que eram os partidos ali do equilíbrio, da sustentação do governo e eu achei que essa sustentação não se abalaria. Enfim, foi um episódio muito diferente desse...

Tereza Cruvinel:O senhor acha que o presidente Fernando Henrique deveria ter sido mais intrometido, para usar a sua expressão, no sentido de construir uma base de sustentação? Porque o que o presidente Lula está fazendo isso: construir seu esquema parlamentar.

Aécio Neves: Acho que não deveria ter sido mais, são estilos muito diferentes...

Tereza Cruvinel: Muito se diz que presidente Fernando Henrique Cardoso foi omisso, ficou olhando o Senado...

Aécio Neves: Tereza, essa chamada busca da construção da base, ela tem que respeitar sempre a autonomia do Parlamento, porque senão, você acha que está conquistando algo agora, no imediatismo, e lá à frente você sofre as conseqüências dessa intromissão.

Pedro Cafardo: O senhor acha que agora não está tendo...

Aécio Neves: Acho que houve um certo atropelo dessas ações e, enfim, vamos aguardar...

Dora Kramer: Mas a articulação vai mais além, né governador? Não é só fazer o presidente...

Aécio Neves: Vamos aguardar!

Fernando de Barros e Silva: A Tereza fez um ótimo artigo sobre essa questão, falando que Lula está agindo por assimilação e não como rolo compressor. Ele está seduzindo os aliados. Agora, em matéria de rolo compressor, o senhor vem de um governo que no primeiro mandato foi um massacre em cima do Congresso. O Congresso não [existia] e o Fernando Henrique montou aliança que ele chamava de “A” a “Z”, inclusive, usou essa expressão. O que estamos descrevendo é o final dessa aliança. O episódio Jader Barbalho - ACM é um capítulo dessa...

Aécio Neves: Talvez até isso, ele tenha tido problemas como teve no final do Congresso, [pois] não conseguiram [apoio de], enfim, inúmeras matérias que ele considerava importante. O governo [veio] se fragilizando, ao final. Eu não acho o rolo compressor no parlamento o melhor caminho.

Dora Kramer: Governador, o senhor fez parte de um governo que conviveu com o ex-presidente José Sarney como presidente do Senado. O senhor acha que o presidente Lula vai ter facilidades ou o presidente... Como foi esse relacionamento com relação ao presidente Fernando Henrique?

Aécio Neves: Olha, eu tenho uma relação pessoal de muita amizade com o presidente José Sarney, até porque a história acabou nos aproximando naqueles episódios todos que envolveram a eleição do meu avô Tancredo.

Tereza Cruvinel: Estou falando de procedimento político.

Aécio Neves: ...E acabou que, com a sucessão dele pelo presidente Sarney, acabou criando um vínculo mais forte pessoal entre nós. O presidente Sarney é, sem dúvida nenhuma, um homem de bem, uma liderança forte no Congresso. Mas pode ser que em determinados momentos comecem a surgir conflitos de interesses...

Tereza Cruvinel: Do tipo?

Aécio Neves: Conflitos regionais, em que a base, vamos dizer, originária que sempre sustentou o presidente Lula ou o seu projeto... .

Tereza Cruvinel: De esquerda?

Aécio Neves: ...E não me refiro apenas ao PT. Naturalmente, vai ter expectativas de aumentar espaço, perspectivas de participar do jogo político, nesse momento. E, obviamente, o presidente Sarney, legitimamente, vai buscar também esse espaço para seus companheiros. Este tipo de problema vai ter que ser administrável...

Dora Kramer: Companheiros assim como Antônio Carlos Magalhães? O senhor acha que se forma essa dupla?

Aécio Neves: Estou vendo isso na imprensa, [essa] idéia de que existe uma dupla que volta a comandar o Senado. Eles terão influência por serem as pessoas que são, mas acho que Congresso é outro, não há mais espaço, Dora, na minha avaliação para um comando uno, mesmo do presidente do Senado. Acho que esse comando vai ter que ser compartilhado para [ter êxito]. Não vejo um momento para que uma, duas, ou três figuras do Senado, por mais representativas que sejam, solitariamente, enfim, comandem o processo legislativo. Acho que a própria dispersão dos partidos hoje, na Câmara, por exemplo, nenhum dos partidos políticos tem 20% dos votos. Então, volto àquilo que eu disse: ali – não me julgo em condições de dar conselho – a sugestão que eu fiz para João Paulo foi: “cuide mais em conversar com outros partidos, sobretudo com aqueles que não estão participando da base porque serão fundamentais para aprovação dessas reformas”. Não é por simples fato de vencer eleição para a presidência que vai dar ao governo Lula a oportunidade...

Josemar Gimenez Resende: O senhor sempre cita essa questão da governabilidade. Eu vejo – talvez seja impressão minha com relação ao PMDB – o senhor acha que o PMDB é um partido que possa dar maior problema para essa governabilidade hoje?

Aécio Neves: Olha, o PMDB tem um problema interno muito sério e que em determinado momento vai ter que ser resolvido. E nós percebemos que, pelo menos um pouco à distância, há interesses dentro do governo de fortalecer determinados segmentos do PMDB. Se esse segmento comanda, conquista o comando do partido é uma situação, a meu ver, mais cômoda para o governo. Mas eu não conheço em profundidade a divisão de forças internas, e se aquele grupo que veio, ao longo dos últimos anos, conquistando esse poder ou mantendo...

Josemar Gimenez Resende: ...O grupo que apoiou o governo do senhor?

Aécio Neves: Se esse poder mantém o controle do partido, o governo terá problemas.

Paulo Markun: O governo Lula surpreendeu o senhor positivamente? Até agora.

Aécio Neves: Olha...

Paulo Markun: O senhor tinha dito lá atrás que o dia “D” não era ganhar eleição, era montar a equipe.

Aécio Neves: Isso.

Paulo Markun: A equipe já está montada.

Aécio Neves: Eu acho que tem mais acertos do que equívocos. E também não sou eu que vou dizer que têm equívocos aqui e ali, até porque eu tive convicções muito claras de que não haveria [profundas] mudanças estruturais na condução da política econômica, pelo menos nesse primeiro período. Seja em relação aos entendimentos com o FMI, enfim, e aquilo que vinha sendo feito, até no ponto de vista do Banco Central, pelo Armínio Fraga [presidente do Banco Central de 1999 a 2003]. Nós estamos vendo aí uma certa continuidade, então, não é surpresa e me tranqüiliza, desse ponto de vista, da rigidez fiscal. Eu diria que a preocupação que eu externava, quando afirmava que o dia “D” [seria] na montagem do governo, eram as concessões excessivas ao populismo e as corporações...

Pedro Cafardo: O que  achou do [programa] Fome Zero?

Aécio Neves: Quando eu vejo que o discurso do PT na Câmara dos Deputados ou no Congresso Nacional em relação a essas reformas e em relação às questões de receita, como a questão da alíquota de Imposto de Renda, contribuição sobre o lucro líquido mudou radicalmente, eu acho que ele [o presidente Lula] compreendeu. Deixou de ser candidato e passou a ser presidente da República, isso é muito positivo. Quem, certamente, não deve estar gostando são alguns segmentos do PT que estão no Congresso com algumas dificuldades de explicar essa evolução nas suas posições.

Fernando de Barros e Silva: A esquerda do PT acho que o Malan pôs barba e fizeram o Fome Zero que é o “sopão vitaminado”, como já estão chamando. O que o senhor acha do Fome Zero? O senhor disse que tem muito ministro para cuidar do mesmo pobre, que vai haver superposições de funções e é bem provável que isso aconteça mesmo. Há uma enorme confusão... O programa está para ser lançado em três dias, na próxima quinta-feira, e há uma série de indefinições que eles não sabem responder. O senhor vê com bons olhos, o senhor acha que pode descambar para o populismo? Há um retrocesso em relação aos programas do Fernando Henrique?

Aécio Neves: Olha, eu até fui convidado pelo ministro Graziano para participar, se não me engano na quinta-feira, desse lançamento [José Graziano foi indicado para ser o ministro Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, criado pelo governo Lula em 2003]. Não sei exatamente o que se fará nessa quinta-feira. O simples fato de se lembrar a questão da fome como um, enfim, objetivo, o fim da fome um objetivo a ser alcançado, acho positivo. Mas eu vejo que ele nasce com alguns problemas sérios. Entre eles, a negação de alguns programas que vinham sendo feitos pelo governo do presidente Fernando Henrique e com resultados muito satisfatórios, sobretudo em regiões mais carentes. Porque, na verdade, o Fome Zero, na essência, o que eu penso, não é apenas um projeto assistencialista de se levar a preços subsidiados ou através de um cartão de alimento às populações que não têm. Isso pode até ser, na verdade, algo complementar. Mas o Fome Zero passa pelo quê? Passa pelo crescimento, pelo desenvolvimento econômico, pela capacidade de geração de empregos. Então, as políticas que vão permitir...

Josemar Gimenez Resende: [Interrompendo] Mas estamos ultrapassando o âmbito do Fome Zero não é, governador?

Aécio Neves: As políticas que vão permitir ao Brasil erradicar a fome e a miséria não estão no âmbito desse programa. E o governo do presidente Lula não pode ter o preconceito de negar algumas medidas muito positivas que vieram de outro governo porque ele as condenava lá atrás.

Dora Kramer: O senhor está falando do quê?

Aécio Neves: Daquela idéia do nascedouro desse programa, que era o ticket refeição, como foi na época do ticket do leite, acho aquilo um retrocesso absoluto, até pela experiência, aquilo nós criamos...

Fernando de Barros e Silva: Não se pode vincular o dinheiro, obrigar a pessoa a comprar alimentos... Inclusive restringidos a comprar um alimentos da cesta básica – há uma discussão sobre isso, o cara não pode nem comprar o alimento que ele quiser...

Dora Kramer: Com nota fiscal.

Josemar Gimenez Resende: Com nota fiscal. E isso seria um retrocesso, o outro seria uma fragmentação dos programas em vez de se criar um cadastro único, que foi sugerido pelo secretário do Marconi Perillo.

Pedro Cafardo: Que é um projeto que acabou dando certo...

Aécio Neves: E me disse o presidente Lula, com muita simpatia, que estava avançando, enfim, nessa discussão, o que me parece mais adequado. Na verdade, é uma evolução dos próprios [programas] que foram feitos no governo do presidente Fernando Henrique, quando você pega aqueles vários programas específicos e estanques que não se comunicavam e cria um cadastro único, e cria um...

Josemar Gimenez Resende: O fato é que há muita confusão. Ninguém sabe direito. O senhor não é o único que não sabe o que vai fazer lá na quinta-feira. O senhor não é o único, acho que nem ele...

Aécio Neves: Acho que para ninguém no mundo falar que vai acabar com a fome não seja uma intenção positiva, mas acho que se partir para um certo populismo, todos nós perderemos aí um esforço enorme. Agora, foi discutida, naquela reunião de governadores do PSDB em Araxá, uma disposição nossa, dos estados, de participar desse esforço nacional, daquilo que os estados deveriam efetivamente fazer com programas próprios e a disposição de acoplarmos esses programas próprios ao programa nacional. Mas precisamos compreender o que é o programa nacional de combate à fome.

Paulo Markun: Governador, Eneida Cruz, de Carpina, Pernambuco, estudante de administração pergunta: “quais evidências ou medidas poderiam inviabilizar a reforma previdenciária no atual governo? O governador acha que o PT pode atrapalhar a reforma da previdência”?

Aécio Neves: Não, na verdade, o PT, no governo do presidente Fernando Henrique, não se dispôs, em nenhum momento, a aprofundar a discussão da reforma da previdência e votou contra todas as tentativas dessa reforma. Em determinado momento, inclusive, argüindo com o Supremo Tribunal Federal. Portanto, houve uma evolução da posição do PT. Eu não vou chamar isso de contradição, [pois] como eu quero que as coisas aconteçam, eu acho que é uma evolução e, quando eu fazia aquela análise de que aqueles que eram os maiores obstáculos a essa reforma deixam de sê-lo, obviamente essa reforma passa a ter uma chance maior de viabilização. Não acho mal que o ministro [Ricardo] Berzoini [ministro da Previdência do governo Lula de 2003 a 2005] está fazendo de até deixar estourar alguns focos de resistência, algumas bolhas, porque em determinado momento isso vai ter que ocorrer. É preciso que – e eu acho que é mais adequado - que isso ocorra agora, que fique claro onde estão as insatisfações, mas num determinado momento, e eu li hoje que em noventa dias ele mandará a proposta ao Congresso, o governo vai ter que optar qual seu modelo de reforma previdenciária e com a sua base construir a sua aprovação.

Josemar Gimenez Resende: Como o senhor defende esse custo da transação, governador? Porque o custo da transição é uma questão nova, que, na medida em que o senhor fixa um teto na arrecadação das contribuições, vai ter uma perda na arrecadação num primeiro momento, longo momento. Como se paga essa contribuição? Vai cobrar os inativos? O senhor tem isso formulado? Como é que o senhor tem...

Aécio Neves: Olha, o governo, a meu ver, vai precisar discutir no Congresso aquilo que permitiu uma nova legislação, que permitiu que o Supremo Tribunal Federal considerasse inconstitucional a contribuição dos inativos. Essa conta, e é algo polêmico de se dizer, mas essa conta não fechará jamais. Eu vou dar um exemplo, um exemplo de Minas Gerais em números. Isso pode ser, enfim, transferido para o país inteiro. Em Minas Gerais, Dora, a folha de inativos representa 43% do total da folha. Daqui a seis anos a folha de inativos vai representar exatamente 50% do total da folha. Isso significa que nem se todo o trabalhador da ativa contribuir com seu salário integral se dará conta de pagar os salários dos inativos. A folha dos inativos em Minas Gerais, no último ano, foi 210 milhões de reais. Sabe o quanto nós arrecadamos para pagar essa folha? Dez milhões. Então, é uma conta que não fecha. Então, essa discussão é uma discussão complexa, problemática. Mas eu já a enfrentei no Congresso e ela terá – há, claro, percentuais que serão discutidos, mas ela terá que ser...

Josemar Gimenez Resende: Nessa questão da reforma da previdência há três itens que eu gostaria de saber a opinião do senhor: com relação aos militares, a unificação; com relação à alíquota única que o Fernando já disse que em alguns estados vai causar perda de 37%, segundo estudos, na alíquota única; e essa que o Ricardo Berzoini disse hoje, de se cobrar sobre o faturamento não sobre o número de empregados, mas sobre o faturamento. Porque, como as empresas estão cada vez mais informatizadas...

Aécio Neves: Isso, estão se informatizando.

Josemar Gimenez Resende: Nesses três itens, qual a opinião do senhor em cima dessas três bolhas?

Aécio Neves: Vamos lá, vamos sempre nessa questão da previdência, nós vamos chamar da questão do, falado e propalado, direito adquirido. Essa é uma discussão que, na verdade, vai permear, enfim, a complexidade da questão previdenciária. E nós vamos ter que enfrentar isso com muito vigor. Na minha avaliação o direito adquirido é até aquele momento, se você considerar que o direito adquirido vigorará – e eu estou colocando algo que é extremamente polêmico – vigorará até a aposentaria daqueles que já estão no serviço público, nós não vamos construir um caminho para resolver a questão...

Josemar Gimenez Resende: O senhor é contra a tese do ministro Mello [Marco Aurélio de Mello, foi juiz do Tribunal Superior do Trabalho, presidente do Supremo Tribunal Federal e duas vezes presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Em 1998, bloqueou a reforma previdenciária durante o governo Fernando Henrique]?

Aécio Neves: Até porque o efeito disso é muito para longo prazo. E, se quisermos resolver essa questão, vamos ter que enfrentá-la pelo direito adquirido ou de privilégio adquirido que, em determinados momentos, é um termo mais adequado. Vai haver uma controvérsia jurídica em relação a isso e temos que estar preparados para ela. E eu espero, aqui, sem qualquer receio, pelo meu ponto de vista, você vai ter que ter um equilíbrio em função do tempo de contribuição dentro desse sistema, mas alterado o sistema... A partir dali vai ter...

Pedro Cafardo: Como foi feito no setor privado

Josemar Gimenez Resende: ...Só colocando os dois pontos que eu coloquei.

Aécio Neves: Ainda em relação ao sistema unificado. Seria o ideal se nós pudéssemos construir um sistema que incorporasse todos, obviamente, até aquele momento, respeitando o direitos de cada um.

Tereza Cruvinel: Está falando de teto único para aposentaria de servidores públicos e trabalhadores da iniciativa privada?

Aécio Neves: Para todos, incluindo, dentro dos servidores públicos, os militares e o poder judiciário que há uma discussão tremenda...

[...]: E dos políticos também!

Aécio Neves: Claro! Isso já nem tem mais. Na questão ponto de vista lógico e do ponto de vista da justiça social é o que me parece mais adequado. E eu estimularia um debate nessa direção. O sistema único para todos.

Paulo Markun: Como se faz?

Dora Kramer: Não acha que tinha que ser esse teto de 1560 reais? Tem uma última coisa sobre a pergunta do José...

Paulo Markun: Falta [falar sobre] a tecnologia.

Josemar Gimenez Resende: O senhor acha que uma empresa...

Aécio Neves: Olha, é uma discussão nova que surgiu, uma discussão que, me parece, sobre determinados aspectos ,interessante porque as empresas que mais contribuem hoje são exatamente as que mais empregam. Não deixa de ser um certo desestímulo para que se empregue. Obviamente, nós precisamos avaliar, do ponto de vista da competitividade, se nós não estamos também prejudicando essas empresas. Mas eu acho que é um caminho novo que surge. Confesso a você que não tenho uma posição consolidada porque se o preço disso for a perda de competitividade dessas empresas que se automatizaram, enfim, que tem um número menor de mão-de-obra, não [será] bom naquele objetivo inicial da recuperação da economia para o crescimento. Mas é uma discussão nova que deve ser explorada.

Josemar Gimenez Resende: O senhor não acha que noventa dias é um prazo muito curto para uma discussão tão complexa?

Aécio Neves: Sempre vai ser curto o prazo, Josemar, sempre. Porque você não vai conseguir unanimidade, você vai ter que fazer uma opção por determinado modelo e, a partir do momento que considere esse modelo o mais justo e mais adequado, vai ter que enfrentar as resistências, enfrentar as corporações, buscar solidariedade da sociedade e votar.

Tereza Cruvinel: O senhor acha que o governo conseguirá fazer isso negociando com os governadores, como é o discurso do governo hoje, pautado pela negociação? Isso será possível ou vai ter que, em algum momento, arbitrar e baixar uma proposta?

Aécio Neves: Ele deve, até no ponto de vista da informação que ele precisa ter, ele tem que conversar com esses setores, inclusive com outros governadores, não com o objetivo que poderia parecer nessa altura ingênuo, de se obter um apoio de todos para determinados modelo, mas compreendendo com quais apoios se constrói uma determinada maioria. O governo, num determinado momento, Tereza, o governo vai ter que optar por enfrentar as resistências e apresentar um projeto. E eu prefiro que seja nesses noventa dias, porque não acho que, com 180 dias ou um ano, o consenso vai aumentar, mas eu garanto para você que a força do governo vai diminuir.

Tereza Cruvinel: Mas, para contrariar essa tese de que é correto, de que todos os cidadãos deveriam ter um direito semelhante na hora da aposentaria, a tese aí do teto único para todos, há uma injustiça muito grande no sistema geral, não é? Os senhores parlamentares fixaram como teto de aposentaria do sistema geral, dos que se aposentam pelo INSS, o valor de 1200 reais, que na época correspondia a dez salários mínimos, não é?

Aécio Neves: Isso.

Tereza Cruvinel: Com a reforma, depois, do presidente Fernando Henrique, na verdade, não houve vinculação a dez salários mínimos, que é o teto de contribuição. Hoje, o teto de aposentaria no regime geral é 1560 reais, que são oito salários mínimos. Com o tempo, nesse sistema, a aposentaria máxima ainda será de um salário mínimo porque essa defasagem vai continuar rebaixando, rebaixando, rebaixando... Quer dizer, então, a tendência é: vamos jogar todos na vala [comum] e que quem puder que vai para previdência privada que hoje ainda é acessível a poucos, muito poucos, é caríssima...

Aécio Neves: Acho que não, acho que definido o modelo, se é esse o da previdência única, acho que o indexador ou garantia do valor real, pode ser feita com sua vinculação no nível de salários mínimos. Eu acho que esse valor, que hoje é de 1500 reais, pode eventualmente... Isso certamente será um dos objetos da discussão, que começou  aumentar um pouco para retomar aquele valor de dez salários mínimos, que se pensou lá atrás como valor adequado. Acho que isso é algo muito fácil dentro de todas as dificuldades que nós vamos ter, é muito fácil de resolver...

Tereza Cruvinel: Porque senão, não estamos progredindo, governador, estamos nivelando por baixo.

Aécio Neves: Mas o pior sistema é o atual, o mais injusto que existe hoje é o atual, e você sabe disso. E é o atual público porque o déficit da previdência privada para atender talvez vinte milhões de brasileiros é de 13 bilhões. E o déficit para atender cerca de dois milhões de servidores públicos é de quase cinqüenta bilhões anuais. Aí é que está a questão central e é essa que tem que ser enfrentada para, depois, em relação ao unir o teto máximo, nós descobrirmos, em função da própria capacidade econômica do país, qual o número é mais adequado.

Pedro Cafardo: Governador, quero pedir licença ao senhor e aos colegas para sair um pouco da política, fazer uma pergunta de caráter mais pessoal ao senhor. Os dois últimos governadores de Minas, o Itamar Franco e o senhor, os dois são separados, não são casados, são solteiros, sei lá são desquitados... Eu gostaria de fazer perguntas a respeito da sua vida pessoal. Talvez, para os não mineiros isso seja muito sabido, o senhor é casado, separado, tem filhos? Tem namorada? Pretende se casar de novo ou vai deixar os mineiros oito anos sem uma primeira dama?

Aécio Neves: Essas, acho, que são as mais difíceis!

Dora Kramer: Agora que ficou bom!

Aécio Neves: Mas eu sou divorciado há quase cinco anos. Tenho uma filha maravilhosa chamada Gabriela, que tem onze anos, namoro, tenho uma namorada paulista.

[...]: Paulista!

[Risos]

Aécio Neves: Paulista e vivo muito bem. Eu tenho, sabe, uma vida muito serena e, felizmente, essas coisas hoje não são mais relevantes. Porque, na verdade, nunca foram relevantes e, em períodos eleitorais, isso era até colocado. Olha, passei a campanha inteira sem que em nenhum momento eu me lembre de ter até que responder ou dizer que: “não, não tem problema por eu não ser casado, não haver primeira dama”. Acho que o fundamental que Minas quer é um governador com autoridade, austero, que compreenda a importância de se governar e faça o que deve ser feito. As funções tradicionais da primeira dama, acho até que aquilo já nem existe mais, aquilo já está ultrapassado. Felizmente, as coisas têm avançado no Brasil, até quando... E tem que estar, até na questão...

[...]: interrompendo E quando tem [as funções de primeira dama], a filha Gabriela cumpre o papel dela na posse?

Aécio Neves: É, na posse ela estava linda!

Dora Kramer: Essa história não está completa, tem casamento à vista? Tem?

Aécio Neves: Já casei, Dora, uma vez!

Dora Kramer: Não vai casar com a moça?

Aécio Neves: Não...

Dora Kramer: Da moça atual.

Aécio Neves: Não, namoro há três meses.

Dora Kramer: Ah, tá...

Paulo Markun: Pulando aí a fase de perguntas pessoais, pergunta de Edvardo Luz de Almeida – não tenho nada contra, acho ótimo, mas acho que já foi respondida – que é de Teófilo Otoni. [Ele] pergunta: “Enquanto a reforma tributária não sai, quais serão as ações do governo para equilibrar o déficit financeiro do estado?” E eu perguntaria o seguinte: dá para inventar alguma coisa ou tem que "cortar na carne" mesmo?

Aécio Neves: Olha, eu vou dizer uma coisa: tem que ter muita determinação. Como eu disse, quando nós começamos o governo fazendo uma reforma administrativa que, há cerca de vinte anos, não havia nada parecido no estado de Minas, adequando a máquina do estado às nossas prioridades, portanto, enxugamos as secretarias, determinei um corte de 20% em todos os cargos comissionados no estado e, além disso, no custeio das secretarias. Até o dia trinta, portanto, daqui a três dias praticamente, todos os secretários terão que entregar à Secretaria de Planejamento de Gestão, que coordena esse processo, relatórios detalhados de onde estão esses cortes. Portanto, estamos cortando em 20% o custeio da máquina do estado, obviamente, sem prejudicar o atendimento ao cidadão. Na outra ponta, nós estamos fazendo um esforço enorme de recuperação de créditos. Temos a relação daquilo que é considerada dívida ativa, de onde é possível tirar alguma coisa. Estamos, com esforço, com apoio dos funcionários da Receita, um apoio entusiasmado na busca da inibição da sonegação.... e nós estamos informatizando a nossa Receita, nós estamos usando hoje o que há, no ponto de vista de informação, de mais moderno. Então, são as duas pontas. Eu estou dando exemplo, Markun, no campo da despesa, do enxugamento da máquina para que eu possa também solicitar aos outros poderes que ajam da mesma forma. E no campo da receita, fazendo o que é possível para o estado crescer.

Paulo Markun: Andréa Cortez, de Matoszinho, professora, diz o seguinte: “O governo fez corte de gastos no estado, tirou lanche dos jardineiros nos palácios, mas criou almoço requintado para o primeiro escalão que antes não existia. Adianta cortar gastos dessa maneira?”

Aécio Neves: Isso é uma bobagem! Ninguém me convidou para nenhum desses almoços ainda do primeiro escalão. Olha, estamos sendo exemplares no que estamos fazendo e a marca do governo vai ser transparência. Eu dizia para alguns deputados novos do PT que foram numa solenidade no palácio de posse do secretariado e eu dizia: “Vocês vão ter muita dificuldade de fazer oposição ao meu governo” porque eu vou mostrar as coisas com muita clareza como elas são. Se estou cortando, vou explicar porque eu estou cortando, se não estou dando aumento, que eu gostaria de dar ao funcionalismo público, é porque ainda não dá para dar o aumento. Então, quando se age da forma como estamos agindo, com absoluta transparência e realmente com uma determinação muito grande de fazer o que precisa ser feito, vai haver compreensão de todos mesmo...

Paulo Markun: Ana.

Ana Carvalho: Governador, queria fazer uma brincadeira, os senhores fiscais não têm conta na Suíça?

Aécio Neves: Em Minas, felizmente não! Sabe, Ana, que isso é uma coisa que eu percebo, os padrões morais de Minas são um pouco diferentes... Eu vejo, por exemplo, na polícia, e não vamos falar de outros, não para citar outros estados, mas a qualidade, por exemplo, da Polícia Militar e da própria Polícia Civil de Minas é diferenciada. É uma concepção um pouco diferente aí, não há contaminação...

[...]: Uma alma mineira?

Dora Kramer: Não, já está virando um negócio de “mineirice” aí também!

Josemar Gimenez Resende: [Interrompendo] Isso vale para seu adversário na eleição, o Newton Cardoso [vice-governador de Minas Gerais de 1999 à 2003, no governo do Itamar Franco] também? Isso vale para o candidato à reeleição ou não?

Aécio Neves: Essa foi uma página que os mineiros, não fui eu, foram os mineiros felizmente que viraram uma página, enfim, negra da política mineira. É aquela verdade que mostra que ali era uma exceção, até para confirmar a regra. Nós não temos processos administrativos graves na Receita e tive até curiosidade, em função dessas denúncias, enfim, desses fatos absolutamente aterrorizantes que aconteceram no Rio de Janeiro, pelo volume de recursos envolvidos, para saber o que havia em Minas. E as coisas em Minas são muito diferentes, felizmente. E é com esse funcionário público, com essa formação que eu preciso contar para, juntos, reorganizarmos o estado.

Josemar Gimenez Resende: Governador, mais ou menos, eu participei um pouco dessa sua decisão de se candidatar ao governo do estado, você pensava na época em ser candidato ao Senado porque sua vida toda como parlamentar era lá em Brasília, e imagino que seja uma coisa muito importante ganhar essa eleição. E até na sua cabeça deve ter surgido isso: “poxa, vou ser governador, voltar para Minas Gerais!” Como está sendo esse reencontro com Minas Gerais de uma forma mais afetiva e, de fato, como governador? Por que, como presidente da Câmara, há uma função executiva e de gestão, mas como governador, como está sendo esse primeiro mês?

Aécio Neves: Esta pergunta sua é muito interessante, Josemar, porque eu estou sentindo uma coisa muito diferente que mostra como Brasília distancia a gente da realidade. Eu vivi 16 anos como parlamentar em Brasília e, na verdade, o meu contato com o povo, com as pessoas se dava muito nos períodos eleitorais. Fora isso, era até porque eu tinha, sobretudo nos últimos mandatos, contribuições de maior responsabilidade em Brasília, eu ficava muito em Brasília. Agora não. Eu estou indo na rua... Eu disse até em uma entrevista para o [jornal] Estado de Minas, logo depois da posse: “olha, eu tenho um programa com várias metas de governo e entre elas não está passar a ter sessenta anos e depois ganhar a eleição, eu continuo tendo os meus quarenta, 42 anos. Vocês vão me ver em Belo Horizonte nos lugares normais, vão me ver no teatro, no cinema, na rua”. Eu estou convivendo com as pessoas de Belo Horizonte. No [estádio do] Mineirão, quando tiver um jogo do meu [time de futebo] Cruzeiro, agora que começou o campeonato, eu vou. Sabe, felizmente, Josemar, vou viver minha vida sem deixar que seja contaminada, exclusivamente, pela política...

Josemar Gimenez Resende: Mas sente falta de Brasília?

Tereza Cruvinel: A tal de planície da província, que tal?

Aécio Neves: Olha, para mim, nesse começo, está sendo muito positivo, porque tem sido emocionante ir a alguns lugares, olhar para as pessoas que acreditam em você e escutar: “que bom que você veio, que bom que é você que está governando Minas”, realmente, acreditam que você vai fazer um bom mandato. Isso tem sido uma troca de energia, sabe, muito positiva, que Brasília não te dá. Você mora em Brasília e [essa cidade] distancia as pessoas. E esse talvez seja o maior diferencial que eu estou percebendo. E, de alguma forma, te dá um comprometimento ainda maior. Eu ando livre, solto, sem segurança na minha cidade e sou muito bem recebido e isso me dá uma disposição...

Dora Kramer: Governador, daqui a quatro anos vamos poder perguntar sobre esse isolamento de Brasília, vamos contar, o senhor vai estar com mesmo discurso que Brasília é uma coisa horrível, isolada?

Aécio Neves: Mais uma vez, eu não me adaptei bem em Brasília – também foram muitos anos – não achava Brasília ruim de se viver, a qualidade de vida em Brasília é muito boa para quem tem filhos.

Dora Kramer: Quero saber se está fora de cogitação a candidatura à Presidência da República!

[Risos]

Aécio Neves: Para quem tem filhos então... Hoje está fora de cogitação....

Dora Kramer: Não, hoje está começando o mandato, governador.

Aécio Neves: Política é um pouco de destino, não trabalho para ser candidato a presidente da República, acredite no que estou te dizendo. Olhando aqui nos seus olhos, se eu terminar esse governo tendo feito o que eu quero fazer, que preciso fazer, eu vou estar muito feliz. Nem preciso me candidatar a alguma outra coisa, não vou ter a frase piegas de dizer: “não vou disputar mais nada”, é o momento que vai dizer. Como dessa vez não trabalhei, não articulei pessoalmente para ser candidato ao governo, amanhã são novas circunstâncias. Mas o PSDB, aí talvez você me permita até fazer....

Tereza Cruvinel: Ia logo lhe perguntar, foi uma confusão ótima no seu partido, queria que o senhor falasse dele.

Aécio Neves: ...análise mais partidária para dizer o seguinte, existe hoje, a meu ver, o núcleo de poder atual, do poder conquistado, que é o do poder tanto do Partido dos Trabalhadores, do Lula, em torno do qual se reúnem diversas forças políticas. Esse é o pólo principal de poder hoje. O outro pólo, que é o de perspectiva de poder, ainda está no PSDB. Eu não vejo em outros partidos com dimensão nacional, uma perspectiva real de poder a curto prazo.

Paulo Markun: Onde foi parar a direita? Não tem mais direita no Brasil?

Aécio Neves: Não sei, se tem direita, se tem esquerda! Esse negócio é bem antigo. Tem governo que tem que dar certo, tem governo que tem que apresentar resultados.

Dora Kramer: Se o PSDB é contraponto, ele vai ter que aumentar o tom da coisa! A relação amigável não vai poder continuar.

Aécio Neves: Mas isso não pode ser desproporcional às contradições que possivelmente virão. O PSDB vai ser oposição do primeiro ao último dia desse governo, porque tem vergonha na cara.

Paulo Markun: Não é aquele que "quem sabe faz a hora"! [referência à música "Pra não dizer que não falei das flores" de Geraldo Vandré, considerada hino da esquerda brasileira]

Aécio Neves: Agora, o PSDB não vai ser oposição prejudicando o país, deixando de votar algumas matérias que podem inviabilizar esse governo. Tudo bem que ele se viabilize. Nós vamos dizer que nós, para fazer isso que está sendo feito, somos melhores do que o PT para fazer.

Dora Kramer: Então, está assim [cheio] de gente sem vergonha na cara, na sua opinião?

Aécio Neves: Não, não, o nosso papel é da oposição, é bom para o Brasil ter uma oposição como a do PSDB que tem condições para exercer uma oposição responsável, mas oposição sim.

Paulo Markun: Fora o berçário e batizado, qual o momento da vida do senhor em que a política virou projeto de vida? Eu imagino que numa família como a do senhor, deve ter sido no berçário...

Aécio Neves: Eu tive momentos... Podemos, assim, inverter a pergunta? Eu tive um momento que desencantei pessoalmente de tudo, que foi a morte do Tancredo. Naquele processo, naquela expectativa que Brasil vivia e nós, então... E eu tinha ali 23 para 24 anos de idade, caminhei com ele, primeiro na campanha das diretas [Diretas Já] pelo Brasil inteiro. Era o Brasil respirando cidadania, vendo o alvorecer do regime democrático. Depois, a campanha do próprio Tancredo que foi, na verdade, uma reedição da campanha das diretas com manifestação de centenas de milhares de pessoas pelo país inteiro. E, eu, sabendo das suas boas intenções e do que ele estava preparado para fazer – eu vivia com ele, morávamos eu e ele em Brasília durante toda a campanha – e depois viver aquela frustração. E ali, eu achei que a minha passagem pela vida pública tinha sido aquela. Inclusive, Dora, eu estou me lembrando aqui, de algo que serve um pouco do que você perguntou anteriormente da minha disposição de tomar medidas duras e perder popularidade. Eu estava com meu avô em Belém. Chegamos lá, um calor imenso, estávamos num carro, era uma Aero Willys antiga, branca – um dia eu vi essa foto e me lembrei dessa história – conversível e uma multidão nas ruas querendo tocar no Tancredo, querendo vê-lo, se jogando na frente do carro, uma comoção. E ele em pé, saudando as pessoas, enfim, e uma hora sentou-se para descansar um pouco do meu lado do banco, eu estava emocionado com aquele momento, eu falei: “meu avô, que coisa maravilhosa essa expectativa toda. O que o senhor vai fazer com tanta expectativa, com tanta esperança dessas pessoas?” Ele falou assim: “Em seis meses eu gasto ela toda”. E eu não entendi na hora. Confesso que fiquei ainda... Só pouco tempo depois eu fui compreender. [Inclusive], o próprio discurso que ele, pessoalmente, havia preparado para sua posse, dizendo que ele estava disposto a, nos primeiros seis meses, tomar todas as medidas necessárias: debelar a inflação naquela época que era o grande, o maior dos males que tinha o Brasil, e tomar medidas necessárias para o Brasil encontrar seu rumo. Portanto, fica aí também uma bela lição para todos nós.

Paulo Markun: O senhor acha que o Lula está gastando a energia toda?

Aécio Neves: É um equívoco achar que no final do governo vai haver a mesma disposição para apoiar medidas duras...

Tereza Cruvinel: Governador, por favor, realmente foi muito bonita essa festa. Mas vamos voltar aqui, rapidamente, seu partido em maio tem renovação da direção partidária e até agora não sabemos quem é seu candidato à presidência, em princípio está colocada a candidatura do governador Tasso Jereisatti [governador do Ceará entre 1995 e 2002, quando passou a atuar como senador], do ex-candidato José Serra não se sabe por que ele está fora, mas parece que Minas tem um candidato, apóia uma candidatura, isso...

Aécio Neves: Não tem ainda.

Tereza Cruvinel: Como todo mundo diz que o pólo de influência mais importante do PSDB hoje deslocou-se para Minas, é natural que o senhor, que a gente queira saber qual é seu candidato, como o senhor...

Pedro Cafardo: A idéia é tirar essa concentração do poder em São Paulo?

Dora Kramer: Em São Paulo, exatamente, mudar o núcleo.

Aécio Neves: Eu não coloco as coisas dessa forma. Seria um equívoco enorme nós não compreendermos a importância de São Paulo para a história do PSDB e para o futuro do PSDB. Não acho que o eixo maior do poder se deslocou para Minas, o que pode estar existindo, depois da morte de Mário Covas e do Montoro, da saída do presidente Fernando Henrique do governo, é algum equilíbrio entre os estados, vamos dizer, na condução do PSDB. Mas São Paulo será sempre um pólo extremamente importante e vão querer sempre criar uma divisão entre nós, e eu vou lutar com todas as minhas forças...

Tereza Cruvinel: Então seu candidato é paulista, é isso?

Aécio Neves: Para não permitir... Não há nenhum impedimento que seja. Nós temos que sepultar rapidamente uma falsa divisão porque ela foi circunstancial, ela não é de fundo, mas hoje está permeando todas as discussões em relação ao PSDB: que é a disputa entre Serra e Tasso. Nós temos que deixar isso num plano secundário. O PSDB – e olha que sou amigo do ministro Serra. Ele esteve comigo alguns dias em Belo Horizonte fazendo uma longa visita, tenho conversado com senador Tasso Jereissati – o PSDB é muito maior que qualquer um de nós. Nós temos que vencer a etapa dessa disputa, se ficou alguma mácula em relação à questão eleitoral, que cada um dos envolvidos – que não é o meu caso – saiba superá-la em benefício da convergência do partido. O PSDB tem uma enorme perspectiva de voltar, em curto prazo, ao poder central no Brasil, e isso passa pela construção da nossa unidade. E qualquer candidatura a qualquer posto de relevo do PSDB, Tereza, que signifique a vitória de um pseudo grupo sobre outro terá a minha oposição. O que temos que construir é a unidade do partido. Essa é a disposição do Geraldo Alckmin, é a disposição do presidente José Aníbal. E acredito seja a disposição também do ministro José Serra e do senador...

Josemar Gimenez Resende: Está muito "paz e amor" esse discurso!

Pedro Cafardo: Eu também estou achando!

Aécio Neves: Tem que ser!

Tereza Cruvinel: Está muito enrolado,

Aécio Neves: Tem que ser

Dora Kramer: Está muito tucano, está muito tucano! Tucano e mineiro.

Aécio Neves: Mas olha, ele é retilíneo. Nós só sobreviveremos se deixarmos no plano secundário essa disputa. Ela não pode estar à frente da disputa da liderança, ela não pode estar na disputa agora de maio, da eleição do partido. E meu papel, até por estar envolvido nessa questão é esse, é construir ao lado de vários companheiros, a unidade do PSDB.

Paulo Markun: Nosso tempo está acabando, e diria, em primeiro lugar, que o senhor foi tão mineiro que nem parece!

[Risos]

Paulo Markun: Dá até impressão que não é! Claro que há inúmeras questões não respondidas sobre Minas Gerais que serão encaminhadas ao senhor para que possam ser respondida diretamente...

Aécio Neves: Com endereço, eu retorno a todos.

Paulo Markun: Claro. Geralmente, quando a gente convive com gente mais velha, sempre surgem frases, conselhos e definições que a gente não esquece. Eu queria que o senhor dissesse uma, que faz sentido, do seu avô, Tancredo Neves.

Aécio Neves: Acho que uma, não sei se reedito a frase como ele disse, mas foi uma frase que ele me disse quando eu dava os primeiros passos entusiastas na vida pública, ele dizia “que você, para alcançar determinado objetivo, você pode até, eventualmente, no meio do curso alterar a estratégia, mas jamais abdique dos seus princípios”. Acho que isso que é o fundamental. As dificuldades na vida pública vêem a todo instante, mas se você tiver uma formação moral absolutamente clara, você supera essas dificuldades. E a minha vida eu acho que tem sido isso: uma firmeza muito grande em relação às questões éticas, questões morais, e a estratégia muda. Não era para eu ser governador de Minas, agora, eu sou governador de Minas e vou, no limite das minhas forças, fazer o possível para dar a Minas condições de crescer e dar a nossa gente um pouco mais de esperança.

Paulo Markun: Muito obrigado pela sua entrevista, governador. Boa sorte nessa empreitada que não vai ser fácil. Eu gostaria de agradecer também aos nossos colegas da bancada, a você que está em casa e dizer que na próxima segunda estaremos aqui com mais um Roda Viva. Uma boa semana e até segunda.

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