Memória Roda Viva

Listar por: Entrevistas | Temas | Data

Oswaldo Sargentelli

11/9/1989

Amante do samba e do futebol, o "mulatólogo", que é sobrinho de Lamartino Babo, discorre sobre seu amor pela cultura popular brasileira e sobre fatos importantes da sua carreira

Baixe o player Flash para assistir esse vídeo.

     
     

[Programa transmitido ao vivo, permitindo a participação do telespectador]

Jorge Escosteguy: Boa-noite! Estamos começando mais um Roda Viva. Este programa é transmitido ao vivo pelas TVs educativas de Porto Alegre, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Bahia e Piauí; TV Cultura de Curitiba e TV Cultura do Pará. É, ainda, retransmitido pela TV Educativa do Espírito Santo. O convidado do Roda Viva desta noite é o empresário da noite Oswaldo Sargentelli. Para entrevistar Oswaldo Sargentelli esta noite, no Roda Viva, nós convidamos os seguintes jornalistas: Tão Gomes Pinto, diretor executivo da revista Executive; Sergio Leopoldo Rodrigues, editor de jornalismo da Rádio Nova Eldorado; Maria Amélia Rocha Lopes, jornalista da TV Cultura; Kleber de Almeida, editor do Caderno de Sábado do Jornal da Tarde; Alex Solnick, repórter do jornal Folha da Tarde e Silvio Luiz, comentarista esportivo da TV Bandeirantes. Na platéia assistem ao programa os convidados da produção. Oswaldo Sargentelli nasceu no bairro da Lapa - no Rio de Janeiro - há 66 anos. Radialista e jornalista, começou sua carreira como locutor esportivo da Rádio Nacional. Na televisão, criou programas importantes e que marcaram época como Preto no branco e O advogado do diabo [programas televisivos de variedades criados pelo jornalista Fernando Barbosa Lima e exibidos pela TVE em que Oswaldo Sargentelli entrevistava os convidados]. Mas foi com o samba e as mulatas que Sargentelli encontrou fama, sucesso e dinheiro. Você que está em casa e quiser fazer perguntas por telefone, pode chamar 252-6525, que a Carla, a Ana e a Bernadete estarão anotando suas perguntas. Sargentelli, nesses mais de 20 anos na condição de “mulatólogo” - como costumavam chamá-lo -, você nunca enfrentou problemas com esses movimentos feministas de liberação da mulher, etc? 

Oswaldo Sargentelli: Surpreendentemente, quase não. Mas já enfrentei uns probleminhas... No Sul, duas vezes; em São Paulo, uma única vez; no Rio de Janeiro, não me recordo e no exterior, umas duas ou três vezes, também, mas...

Jorge Escosteguy: Que tipo de problema?

Oswaldo Sargentelli: Probleminha...

Jorge Escosteguy: Críticas?

Oswaldo Sargentelli: Não... Do ônibus parar na porta do hotel e o gerente dizer que não tinha lugar. E eu perceber que o hotel não estava lotado. Isso, na época da ditadura militar, eu forjei um telefonema para um general e o gerente em um instantinho mudou de opinião e de parecer e nos deu os 30, 40 lugares que precisávamos! Quando eu forjei um telefonema para um general inexistente. Outra vez na Sucata - uma boate da época do Ricardo Amaral [empresário carioca que por 30 anos foi o principal nome da vida noturna da cidade, possuindo restaurantes e casas noturnas como a famosa Sucata, que abriu em 1967 e onde espetáculos marcantes da Tropicália tiveram lugar, como shows dos Mutantes, Caetano Veloso e Gilberto Gil] - do Rio de Janeiro, outra vez numa cidade do interior do Rio Grande, em que eu notei a metade do teatro de ocupada, da primeira fila ao centro da platéia, e de repente, um espaço de três ou quatro fileiras de cadeiras e o público encostado atrás. Eu perguntei ao gerente do teatro o que era aquilo e ele disse que a sociedade não se misturava com o povão e que era tradicional e eu me neguei a começar o espetáculo. Veio a polícia e eu digo: “então não tem show”.

Jorge Escosteguy: Mas eu digo mais especificamente nessa questão de você ser um “especialista em mulatas”...

Oswaldo Sargentelli: Não.

Jorge Escosteguy: As feministas, os movimentos feministas não te criticavam por isso?

Oswaldo Sargentelli: Não, não, elas são simpáticas. Elas gostam de mim. Nunca houve nada pelo menos até hoje, não mesmo. Eu tenho tido a impressão de que no "olho a olho" jamais. Agora, na ausência do Sargento, talvez os comentários proliferem. Mas isso não me atinge, mesmo que elas venham falar comigo. No tête-à-tête não encontrei nenhum problema, mas tenho sabido, sim, que volta e meia criam um probleminha sobre esse aspecto de acharem que o Sargentelli é explorador de mulatas. Eu acho muito engraçado isso!

Jorge Escosteguy: O Silvio Luiz tem uma pergunta para você.

Oswaldo Sargentelli: Pois não.

Silvio Luiz: Sargento...

Oswaldo Sargentelli: Quem diria, hein?!

Silvio Luiz: Já comemos muita galinha à cabidela [prato típico do nordeste do Brasil] juntos!

Oswaldo Sargentelli: É verdade!

Silvio Luiz: No tempo daqueles “me empresta 5 para ir embora para casa”. De todas essas... Porque eu também gosto da cor, sabe? Embora eu não tenha me casado com uma mulata, mas eu acho que a cor realmente é um negócio sensacional...

Oswaldo Sargentelli: Está boa a Márcia [esposa de Silvio Luiz e cantora. Foi vencedora do prêmio Berimbau de Ouro em 1965 e nos anos 1970, fez turnês internacionais com Vinícius de Moraes e Baden Powell. Uma de suas principais interpretações é a da canção "Ronda" de Paulo Vanzolini]? Está ótima? Está no Palladium [casa noturna da cidade de São Paulo que, aberta entre 1982 e 1997 no Shopping Eldorado, trouxe inovações no conceito do entretenimento ao trazer shows e eventos variados em sua programação]?

Silvio Luiz: Está boa.

Oswaldo Sargentelli: Está no Palladium?

Silvio Luiz: Está no Palladium. Me diga uma coisa. De todas essas mulatas, esse número, esse mar de mulatas qual foi aquela que deixou você realmente embasbacado? A melhor mulata que você já teve o prazer de apresentar para o mundo? Uma, não! Uma daquelas, hein?

Oswaldo Sargentelli: Sem exagero, sem demagogia, em vinte anos de noite eu já me embasbaquei umas vinte vezes. a média é de uma estrela por ano, extraordinária. Estrela natural, sem vedetismo. Mas de Adele Fátima até Sandra Maria, de Solange Couto até Ângela Maria Correia, de Sandra de São Paulo com Rose Garitão, de Telma Regina às menininhas da 89, eu me embasbaco. O verbo é feio, não é bom da gente pronunciar, mas a minha emoção é linda, porque eu cada vez me renovo vendo os elencos que eu constituo. E, hoje, até de filhas de bailarinas de antigamente. Não há coisa mais bonita para mim - com todo o respeito à beleza dos outros - do que uma mulata brasileira desfilando iluminada nas platéias da Europa que aplaudem essa gente bonita do Brasil. Embora, Silvio, tu sabes que a sociedade, às vezes, não nos perdoa, acha que eu sou um bandalho [indivíduo desprezível], mas a inveja é uma merda. Eu tenho a impressão, querido, que na minha profissão todos têm o mesmo direito de colocar a moça brasileira de cor no palco. Porque é que todos não tentam fazer? Tão fácil, meu Deus. Trazer a menina ensaiá-la... O bê-á-bá do ziriguidum, do telecoteco, do borogodó. Ensinar a ela como se faz, não. Mas orientá-la - porque ninguém ensina nada de samba. E essa a moça bonita está em casa, às vezes, querendo... Hoje, por exemplo, tenho tenta certeza que este telefone vai tocar com meninas de São Paulo querendo ensaiar conosco, no bom sentido. Querendo vir trabalhar, sem ouvir bobagens da oposição que não me perdoa.

Jorge Escosteguy: Ô, Sargentelli! Só um minutinho, por favor. Essa pergunta que o Silvio fez, também era a pergunta do Hélio Seles Ribeiro, de Guaratinguetá. Agora, a Zilda Alves Ferreira, de Ribeirão Preto, te pergunta se, em meio a tantas mulatas lindas, você alguma vez já se apaixonou por uma delas.

Oswaldo Sargentelli: Já.

Jorge Escosteguy: E como você fez para... Não ir adiante... Enfim como você resolveu essa questão?

Oswaldo Sargentelli: Como é o nome da menina? Zilda?

Jorge Escosteguy: Zilda Alves Ferreira.

Oswaldo Sargentelli: Ô Zilda! Eu já me apaixonei, ô Zilda, porque eu sou humano, não é? Eu hoje sou coroa, mas já fui broto, já fui gato. Eu trabalho há vinte anos, minha filha. Estou com 66. Eu comecei com 45 e eu era um garotão queimadão da praia, cheio de cabelo... E me apaixonei como eu me apaixono até hoje, sem cabelo! Veja bem, Zilda, as meninas que trabalham comigo, de tanto a gente exigir delas a perfeição no trabalho, eu não vejo outra coisa senão a bailarina profissional diante de mim. Mas coração, minha filha, é coração. Eu já me apaixonei e não deu certo, não podia dar. Eu sempre fui um homem casado. Mas nunca me proibiram, como casado, de me apaixonar. Eu me apaixonando pelo Botafogo [clube carioca de futebol], me apaixono pela praia, me apaixono pela criança, pela flor, pela poesia, eu me apaixono pelo livro que leio, pelo filme que assisto e pela mulata que trabalha comigo. Agora tem, Zilda, paixão e paixão. Aquela comum, gostosa, que todos nós temos, eu tive muito e tenho até hoje. A outra... A outra deu encrenca [risos]. A "patroa" descobriu.

Jorge Escosteguy: Sergio Leopoldo, por favor.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Na sua biografia está [escrito que você é] empresário da noite. O que é que é empresário da noite? Qual a diferença na atuação do empresário da noite e do empresário do dia?

Oswaldo Sargentelli: É verdade, é uma pergunta inteligente. Serginho, você sempre foi um garoto tão inteligente... Veja bem, quando a gente fala "um homem da noite" é aquele cara que troca a noite pelo dia.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Não o homem da noite! Eu gostaria de saber o empresário, ele empresaria o quê, é diferente do empresário do dia?

Oswaldo Sargentelli: É, o empresário do dia adormece e vai nos ver. O empresário da noite trabalha, às vezes, com o empresário durante o dia, mas é o que promove o espetáculo noturno, entende? O empresário da noite é o Chico Recarei [empresário, dono de diversas casas noturnas no Rio de Janeiro], o empresário da noite é o J. Martins [diretor de diversos espetáculos como Brasil de corpo e alma e A fantástica mistura das cores] do Plataforma, o empresário da noite é o Elias Abifadel da [boate] Oba-Oba [casa noturna fundada por Sargentelli em 1973, no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro. Esteve em atividade durante dez anos no Rio de Janeiro e seis na cidade de são Paulo. Os espetáculos que reuniam músicos do morro, elementos afro, mulatas e sambistas] do Rio. O empresário da noite é a gente, que tem a responsabilidade de movimentar a noite. É o proprietário da casa noturna, é quem dirige, é quem paga o imposto - ou não -, é o que paga a folha [de pagamento dos funcionários], é o responsável pelo espetáculo da noite... E o empresário do dia é aquele que geralmente dorme à noite, uma vez por semana ou duas vai nos ver.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Mas tem uma imagem um pouco diferente, que é... Um é mais bem visto e o outro é mais... Meio escondido...

Oswaldo Sargentelli: Você tem toda razão, você tem toda razão. O empresário do dia é aquele homem trabalhador, com aquele aspecto assim do nosso Afif Domingos [empresário e político brasileiro que havia se candidatado à presidência da República em 1989] , bonito, entende? Sempre elegante, boa cabeça, bom isso, bom aquilo, tudo legal, conta no banco, escritório, cara amarrada, elevador, etc. O empresário da noite tem blusão, peito aberto, uísque, compreendeu? Ziriguidum...

Silvio Luiz: Não é o Lula [presidente do Brasil de 2003 a 2005, reeleito em 2006, e que, em 1989 , na época desta entrevista, perdeu a eleição no segundo turno para Fernando Collor de Mello], não, né?

Oswaldo Sargentelli: Não! O Lula não tem tempo, coitado.

Silvio Luiz: Não, não! Você estava comparando com o Afif... Bonito e tal... Da noite, peito aberto, não é o Lula?

Oswaldo Sargentelli: Silvinho, tem a arquibancada, tem a geral, tem cadeira numerada, tem a tribuna de honra! Não é verdade?

Sergio Leopoldo Rodrigues: Quem está na tribuna de honra do empresário da noite?

Oswaldo Sargentelli: O empresário da noite que está com a tribuna de honra, que eu diria que está com a grana: Chico Recarei, que representa um grupo estrangeiro da maior qualidade e poderosíssimo. Eu não sou idiota de invejá-lo, eu o admiro. “Sargentelli, você não tem nada que invejar ninguém, você tem que chegar lá”. Eu tenho um estilo diferente e nunca cheguei.

Kleber Almeida: Mas Sargentelli, teoricamente você poderia estar numa situação parecida com o Chico Recarei. Porque, inclusive, havia um projeto seu de espalhar o Oba-Oba pelo Brasil afora. Quer dizer, além de São Paulo, talvez na Bahia - eu confesso que não sei se chegou a montar esse [espetáculo] na Bahia -. Enfim, o que é que houve com esse projeto?

Oswaldo Sargentelli: É... Eu te digo o seguinte, eu sou um péssimo administrador. A minha desorganização é tão organizada que quando querem mexer nela para organizar eu me perco, eu me espatifo. Eu gosto de organizar o conjunto de mulatas, de bailarinos, de músicos, de ritmistas, de cantores. Aí, modéstia à parte, eu faço. O meu nome fica iluminado na porta, mas o nome apagado é do cara do dinheiro. É o investidor, é o homem que financia. Esse é o meu sócio. E eu não tenho tido sorte. Se eles não têm sorte comigo, eu muito menos com eles. Porque eu sou boêmio, eu sou um inveterado boêmio. Eu sou do palco, eu sou do ziriguidum, eu sou do ensaio... E pela manhã, enquanto eu estou dormindo, eles estão recebendo a mercadoria. [risos] Enquanto eu estou dormindo, eles estão pagando a mercadoria. Enquanto eu estou dormindo, eles estão no banco. E eu acordo para o palco todo iluminado. “Nesse palco iluminado, só dá Lalá” [canta trecho do samba enredo da Imperatriz Leopoldinense de 1981]

Silvio Luiz: E duro, não é?

Oswaldo Sargentelli: Não é que eu fique duro! Eu ganho muito dinheiro, mas eu não tenho dinheiro.

Kleber Almeida: Para onde vai o dinheiro?

Oswaldo Sargentelli: Vai para aí... Vai para toda... Eu não junto, eu não sei... Eu não aprendi a juntar, aprendi a ganhar! Como eu tenho um espírito muito boêmio, se eu tivesse guardado a metade do que eu ganhei, eu teria muito mais dinheiro que o Roberto Carlos e a Xuxa [modelo que transformou-se na apresentadora de programas infantis mais famosa da televisão brasileira. Além dos programas de TV, grava aproximadamente um disco por ano desde 1984, também para o público infantil. É uma das artistas brasileiras mais ricas] juntos. Teria! Porque a Xuxa começou agora, eu comecei há muito tempo: 40 anos!

Maria Amélia Rocha Lopes: Sargentelli...

[sobreposição de vozes]

Jorge Escosteguy: Maria Amélia, por favor. Ela tem prioridade.

[risos]

Maria Amélia Rocha Lopes: Obrigada! Você falou do Elias Abifadel, do Oba-Oba... Foi ele que fez uma escola de mulatas - mulatas formadas, sindicalizadas, com carteira assinada e tudo isso? O que é que você acha disso?

Oswaldo Sargentelli: Olha, me parece que esse movimento existe no Rio de Janeiro. Eu não conversei com o Elias a respeito, mas me parece que sim. Se ele realmente fez, parabéns, porque eu não fiz.

Maria Amélia Rocha Lopes: Você acha legal uma escola de mulatas? É possível?

Oswaldo Sargentelli: Olha, o Elias deve estar encontrando uma dificuldade terrível, porque ensinar - como eu estava dizendo ainda agora -, não há condição de você ensinar. A mulata, como Sandra Maria que está ali em cima me olhando, ela tem ou não tem vocação? Porque papai que está no céu, deu a ela um corpo bem-feito, um rosto muito bonito. Eu diria “cinturinha fina, coxinha grossa, carinha de safada, boa dentadura e cheirosa”. Mas dançar, sambar ô Jorge... Não há condição, Maria Amélia! Ninguém ensina. Me parece que a preocupação do Elias é de dar mais seriedade à coisa: de organizar, sindicalizar - o que é muito justo - mas ensinar essa mulata a sambar, não há quem ensine. Ela tem ou não tem jeito. Ela tem ou não tem, Maria Amélia, entende?

Maria Amélia Rocha Lopes: Mas a escola não pode ser um canal para quem tem jeito, como você disse? Com cinturinha fina, coxa grossa...?

Oswaldo Sargentelli: Mas é uma minoria. Não, eu aplaudo! Só que eu não fiz e nem faço.

Jorge Escosteguy: O Alex Solnick, por favor.

Alex Solnick: Ô Sargentelli, você tem uma voz muito conhecida. Como você disse, há muitos e muitos anos, você tem um vozeirão, não é?

Oswaldo Sargentelli: De trovão!

Alex Solnick: De trovão e um tom bonito, não é? Um timbre bonito.

Oswaldo Sargentelli: Obrigado.

Alex Solnick: Queria saber por que você não se tornou um Lombardi [locutor que sempre participou dos programas televisivos de Silvio Santos, tornando-se uma das vozes mais conhecidas do Brasil] do Silvio Santos [empresário, dono da rede de televisão SBT e um dos apresentadores de programas de entretenimentos mais famosos da televisão brasileira], com uma voz padrão do Brasil...

[risos]

Oswaldo Sargentelli: Pior é que poderia ter sido, mesmo.

Alex Solnick: Você tem uma voz tão boa quanto ele, eu acho. Por que você não se tornou um Lombardi e se tornou "mulatólogo"?

Oswaldo Sargentelli: É o destino de cada um, né, Solnik? E olha! Eu tenho tudo para ter sido Lombardi antes do meu querido amigo Lombardi. Porque eu trabalhei com o Silvio, fomos colegas na rádio Mauá, na [...] da Cantareira. Silvio começou do zero e eu estava naquele mesmo zero. De forma que, de repente, até que poderia, não é? Mas os nossos destinos correram paralelos. Depois eu nunca me cruzei - como amigo que sou dele até hoje -, mas nunca trabalhei na equipe do Silvio. Eu já fui jurado do Silvio [Silvio Santos apresentava um programa de calouros no qual diversos famosos atuavam como jurados para avaliar o desempenho dos candidatos e escolher o vencedor] e sou permanentemente um amigo dele, mas é o destino. Cada um de nós tem um, não é verdade?

Alex Solnick: Mas o que é que foi? A voz não deu dinheiro? Por que é que você parou de usar a voz?

Oswaldo Sargentelli: Não, a minha voz deu muito dinheiro! E muita cadeia, também!

Alex Solnick: Quando, por exemplo, deu cadeia?

Oswaldo Sargentelli: “General, porque o seu apelido de vaca fardada?”. Nesse dia eu fui em cana, sem saber por quê!

[risos]

Jorge Escosteguy: Foi o general [Olímpio] Mourão Filho [(1900-1972) militar brasileiro que foi o redador do documento que divulgava o Plano Cohen, um suposto plano comunista de tomada do poder, que fez com que Getúlio Vargas ficasse mais tempo no poder e criasse o Estado Novo, uma ditadura. Também participou dos movimentos que culminaram no golpe militar de 1964], se não me engano...

Oswaldo Sargentelli: Foi!

Jorge Escosteguy: Como é que foi o incidente? Um apelido, um pouco de informações... Qual foi a história do general Mourão Filho? Aliás, ele dizia que ele era uma vaca fardada!

Oswaldo Sargentelli: Exatamente! Foi isso. Ele pediu que o locutor do programa fizesse essa pergunta porque ele estava precisando responder, mas ele esqueceu de avisar a equipe dele e eu fui em cana!

[risos]

Jorge Escosteguy: Esqueceu de avisar o ajudante de ordens?

Oswaldo Sargentelli: Naturalmente.

Alex Solnick: Quem era presidente na época, quem era o presidente?

Oswaldo Sargentelli: Ou era o [Emílio] Garrastazu Médici [presidente do Brasil de 1969 a 1974] ou era ou era...

Alex Solnick: O Castelo Branco [presidente do Brasil de 1964 a 1967]?

Oswaldo Sargentelli: O Castelo Branco! Presidente Castelo. Eu entrevistava todos, querido. Eu entrevistei... Olha, eu entrevistei de Getúlio Vargas [presidente do Brasil de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954] - no rádio - a José Sarney. De [Gaspar] Dutra [presidente do Brasil de 1946 a 1951] a Juscelino [Kubitschek. Presidente do Brasil de 1956 a 1961]. Entrevistei a todos. Quando veio a televisão em 1950, Jânio Quadros [presidente do Brasil de janeiro a agosto de 1961] eu entrevistei. Na posse de Jânio Quadros. E fui em cana em Belo Horizonte. Meu amigo Jânio...

Jorge Escosteguy: Por quê? O que houve?

Oswaldo Sargentelli: Porque nós demos um close no rosto do professor [Jânio Quadros havia sido professor de língua portuguesa, mas era formado em direito]. Está tudo marcado, Jorge. Eu sou apenas o locutor, o leitor do papel! E vou em cana, entende? Depois é claro...

Jorge Escosteguy: Mas o que é que foi? Deu um close, como é que foi essa história?

Oswaldo Sargentelli: Professor Jânio com um olho no capitão americano e o outro na Rússia [querendo dizer que o presidente era estrábico], não é? [risos] Então começaram aquela encrenca e eu já estava até me habituando a ir em cana.

Tão Gomes Pinto: Mas nessa pergunta você era só o leitor? Você era só o locutor? Era a sua voz?

Alex Solnick: Essa pergunta não era sua...

Oswaldo Sargentelli: [interrompe] Às vezes era minha.

Alex Solnick: Essa do Jânio, em especial?

Oswaldo Sargentelli: Era da equipe.

Tão Gomes Pinto: Mas tinha muita pergunta sua! Tem muito "caco" seu, qual era essa equipe?

Oswaldo Sargentelli: Sabe o que era, Tão? Às vezes, Maria Amélia, eu estava com o papel que me davam, a tua resposta prejudicava a quinta pergunta. Então eu tinha que colocar uma no lugar da quinta, porque essa era a terceira. Mas tu respondias com tanto brilhantismo... Emílio Carlos, Elói Dutra, Tenório Cavalcanti [deputado estadual e federal pelo Rio de Janeiro. Era conhecido por ser violento, por andar armado e mandar matar seus inimigos, como o famoso caso do delegado Imparato, morto em 1953. Ficou conhecido como "o homem da capa preta" e inspirou um filme de mesmo nome de 1986]. “Deputado, nasceu para matar ou mata para viver?”. Entendeu? E puxa o revólver e todas aquelas coisas inusitadas da época em que a censura não podia... A gente não podia dizer e nem pensar num palavrão. Se você pensasse, já estava...

Tão Gomes Pinto: O inusitado [...] no [programa de TV] Advogado do diabo, era seu? Era de sua autoria?

Oswaldo Sargentelli: Não, eu sempre fui locutor. Fernando Barbosa Lima, Borjalo [(1925-2004] Mauro Borja Lopes, cartunista que desenhava para jornais e, depois, para a telvisão e ficou famoso pela Zebrinha que anunciava o resultado da loteria esportiva na TV Globo], Sergio Porto [(1923-1968), usando o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, foi escritor e cronista apaixonado por música, compôs espetáculos musicais como "Samba do crioulo doido". Foi o criador do Febeapá (Festival de Besteiras que Assola o País), programa que fazia duras críticas à repressão militar, usando um tom humorístico]... Olha que turma! Os irmãos Holanda, Villas-Bôas Corrêa [jornalista e analista político, em atividade desde 1948, atuou na Rádio Nacional, TV Manchete, O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil] ... Era uma equipe... Esse menino...

Silvio Luiz: Carlos Alberto.

Oswaldo Sargentelli: [...] Carlos Alberto Loffler, aquele famoso... Ora, esqueci! Tem que dar um branco, né?

Jorge Escosteguy: Agora vamos... Depois a gente retoma, então, essa história. Você mencionou há pouco, dois candidatos à Presidência da República: Afif e o Silvio Luiz falou no Lula. Como é que você vê esses candidatos? Você tem candidato a presidente da República? Quem é o seu candidato hoje?

Oswaldo Sargentelli: Você quer que eu responda agora ou no próximo intervalo?

[risos]

Jorge Escosteguy: Não, quero que você responda agora!

Alex Solnick: É outro programa no próximo intervalo!

Oswaldo Sargentelli: É porque estou habituado, eu ouço televisão, eu vejo televisão todo dia. Geralmente uma pergunta dessa fica para depois. Jorginho, sem demagogia. Vão dizer: “Ah, mas o Sargentelli é um gozador, ele fala, fala e não diz nada” [risos]. Eu sou amigo de quase todos, só não conheço dois. Sou amigo deles todos, não tem nada a ver uma coisa com a outra no dia 15 [de novembro, dia da eleição].

Jorge Escosteguy: Quais são os dois que você não conhece?

Oswaldo Sargentelli: É o [Affonso] Camargo , que eu não tenho a mínima... Eu não conheço... Não é o Camargo do PTB? Eu não conheço.

[sobreposição de vozes]

Sergio Leopoldo Rodrigues: Não, não é nada! Eu ia falar que não é só você que não conhece. Tem muita gente que não conhece.

[risos]

Oswaldo Sargentelli: Não, mas eu lamento... Eu procurarei conhecê-lo, porque eu vivo disso, eu quero conhecer. Eu leio muito. Eu sou muito amigo, eu sou muito amigo...

[sobreposição de  vozes]

Jorge Escosteguy: O Camargo e o outro?

Oswaldo Sargentelli: E o outro que eu não conheço... Quem é outro que eu não conheço, Silvio?

Silvio Luiz: Não sei! Você que não conhece, não sou eu!

Oswaldo Sargentelli: O [Ronaldo] Caiado! O Caiado que eu não conheço. E é elegante e bonito como o Fernando [Collor de Mello. Presidente do Brasil de 1990 a 1992], né? Eu acho o mesmo logotipo assim... A mesma elegância do...

[...]: Padrão Globo?

Oswaldo Sargentelli: Do Fernando. E pelo que eu estou vendo e pelo que eu vi está eleito, já está eleito! Pelo menos é o que a imprensa toda no Brasil... Já me convenceu de que este rapaz está eleito. Porque eu leio muito vocês, sempre, querido. A imprensa toda propala, através das estatísticas, que o Fernando Collor de Mello é o presidente. Mas como eu sou Botafogo e levei 21 anos esperando um título, eu tenho muita paciência! Eu vou esperar até o dia da apuração.

Jorge Escosteguy: Mas você vai votar em quem?

Oswaldo Sargentelli: Vou te dizer... É uma história, é uma história! Tem que contar uma história, não é assim: “Você vai votar em quem?” [risos]

[sobreposição de vozes]

Oswaldo Sargentelli: Eu vou te dizer em quem eu vou votar, sem demagogia.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Leonel Brizola [ex-governador do Rio de Janeiro. Disputou a Presidência da República por duas vezes. Faleceu em 2004]?

Oswaldo Sargentelli: Sou muito amigo do Leonel.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Mas é o seu estilo.

Oswaldo Sargentelli: Não, sou muito amigo dele, entrevistei, Serginho. você não era nascido, eu entrevistava o Leonel na TV Rio, e ele já vinha com aquela conversa dele.

[sobreposição de vozes]

Oswaldo Sargentelli: Na TV Rio em 1960... Não! Em 1958, eu entrevistava o Leonel Brizola. Agora, que ele é “raposo” e se deixar falar, toma conta... Aí é outro assunto. Querido, o Mário Covas é meu irmão, meu amigo, eu admiro o Mário. Como locutor, trabalhei na campanha do José Serra [foi entrevistado pelo Roda Viva diversas vezes] ... Como locutor, fui para os comícios do José Serra.

Silvio Luiz: Não foi preso, né, Sargento?

Oswaldo Sargentelli: Não! Ali não tem nada a ver. Não posso ir preso fazendo campanha em prol do Mário Covas.

Silvio Luiz: Dessa vez, não! Pelo menos uma vez!

Oswaldo Sargentelli: Eu estava fazendo campanha em prol do Mario Covas, um homem digno. É uma inteligência... Se não for eleito, tem que ser ministro. Se não for eleito terá que constituir, fazer parte do ministério do presidente eleito.

Jorge Escosteguy: E votar, você vai votar em quem, Sargentelli?

Oswaldo Sargentelli: No presidente!

[risos]

Alex Solnick: Sargentelli, para facilitar a tua resposta, você é um convidado por alguns candidatos para apresentar - você e as mulatas - durante a campanha? Você foi convidado por alguns candidatos?

Oswaldo Sargentelli: Como profissional nessa campanha.

Alex Solnick: Já foi convidado?

Oswaldo Sargentelli: Ah, não! Para presidente da República, não. Estou sendo convidado, estou sendo convidado para fazer a voz, colocar a minha voz e deverá ser... Depois do dia 15 é que começa a ser irradiado? Começa sexta-feira. Como profissional, eu acabo de ser convidado para colocar a minha voz de besouro numa campanha de um candidato.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Qual é o candidato?

Oswaldo Sargentelli: E esse candidato... Vocês vão ter que aturar a minha voz quando o candidato aparecer no rádio e na televisão.

Silvio Luiz: Você vai ganhar em dólar ou não? A pergunta tem uma razão porque todos os jornalistas que estão participando de campanha de candidato, estão ganhando em dólar. A Silvia Popovik está ganhando em dólar, o Hélio Pete está ganhando em dólar, o Carlos Brickmann está ganhando em dólar. Está todo mundo ganhando em dólar! Eu quero saber se você, para botar a voz, também vai querer cobrar em dólar. O que eu acho é que é a moeda da época!

Oswaldo Sargentelli: Mas não é inconstitucional isso?

[risos]

Silvio Luiz: Não sei! Que é, é! Mas que todo mundo fala em dólar, todo mundo fala em dólar!

Oswaldo Sargentelli: Veja lá se eu for em cana depois de receber esses dólares!

[risos]

Jorge Escosteguy: Sargentelli, desculpe! Você deixou agora duas perguntas sem respostas. Você não disse em quem vai votar e nem em qual é o candidato para quem você vai colocar a voz?

[risos]

Oswaldo Sargentelli: Ô Jorge, eu sou um...

Jorge Escosteguy: Você gosta muito do Brizola, é amigo do Covas, admira o outro?

Alex Solnick: Em quem você não vota?

Silvio Luiz: Desses dois, em 35.

Oswaldo Sargentelli: O doutor Ulysses Guimarães [(1916-1992) político histórico do PMDB, partido do qual foi presidente por longo tempo, influenciou fortemente a política nacional. Participou de todas as campanhas pelo retorno do país à democracia, inclusive a luta pela anistia ampla, geral e irrestrita e o movimento pelas Diretas Já. Exerceu a presidência da Câmara dos Deputados em três períodos; presidindo a Assembléia Nacional Constituinte, em 1987-1988. Em 1989, foi candidato derrotado à presidência da República] é um símbolo...

[risos]

Oswaldo Sargentelli: É uma bandeira, é uma confiança, é um negócio... Eu tenho uma filha... Eu tenho uma filha... Eu tenho uma [repete porque os entrevistadores continuam falando] filha de 23 anos - a Waleska - e a outra de 20. A Waleska está com o carro dela todo enfeitado de propaganda eleitoral [risos dos entrevistadores]. E outro dia eu entrei no carro dela, eu disse: “Minha filha, eu estou andando no seu carro e vão dizer assim: eu sabia que o Sargentelli era isso e tal”. Eu estava no carro da menina no Rio de Janeiro. Então, que é que eu faço, eu não fumo e compro o cigarro para os outros. Eu não bebo... Você tem que acreditar, Jorge, que eu não bebo. Você não é culpado, eu não bebo! Só bebo... Hein, Ednilton - meu empresário - eu bebo? Eu bebo, Ed? Eu bebo, Abate - outro empresário -? Eu bebo, Fause [...], que está em casa assistindo? Eu não bebo, eu não bebo. Mas eu compro muito uísque para os rapazes que vão à minha casa, os amigos... Eu não fumo e compro cigarro. Eu entrei no carro da minha filha e em 20 minutos, ela dirigindo e eu ouvia as piadas. As pessoas... Uns diziam: “Tão bonita e com tão mau gosto!” e eu quietinho de co-piloto. O carro é dela. Daqui a pouco um disse assim: ”Muito bem, neném! Vai ganhar! Já ganhou! Pum, pum, pum! Já ganhou! Pum, pum.” Aí eu ficava quietinho de co-piloto. Quem me viu no carro da Waleska tem absoluta certeza.

Alex Solnick: Para quem, afinal, você vai colocar a voz? Para qual candidato?

Oswaldo Sargentelli: Quem me vir no carro da Waleska como me viu, há de dizer: “O Sargentelli estava em Copacabana... No Leblon [ambos bairros da zona sul da cidade do Rio de Janeiro], desfilando em um carro do Collor”. A minha filha vai votar no Collor. Quem me vê em Brasília conversando no hotel com Ulysses Guimarães, da maneira que conversamos, e ele me abraça e eu respeito, tem uma bandeira de probidade: “O Sargentelli vai votar no Ulysses Guimarães. Até porque eles têm quase a mesma idade e se dão muito bem” .

Alex Solnick: Você toma leite, também? [risos]

Oswaldo Sargentelli: Leite. Eu tomo leite e água.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Esse candidato... Esse candidato não revelado é de esquerda, é de centro - porque todo mundo agora é de centro - ou é de direita?

Silvio Luiz: Você não falou em Maluf ainda, para mim é a voz...

Oswaldo Sargentelli: O Paulo Maluf [político, ex-governador do estado de São Paulo, denunciado por uso indevido do dinheiro público] foi meu primeiro anunciante, foi meu primeiro anunciante [sobreposição de vozes]. O meu primeiro anunciante... A Eucatex [empresa da família de Paulo Maluf], posso dizer? Porque eu já disse... O Paulo Maluf, Jorge, tem uma memória de elefante, hein? Ele tem uma memória extraordinária e esse homem me patrocinou naquela série Século XX, lembra [aponta para Silvio Luiz]? Aqui na Record [emissora de televisão], Século XX?

Silvio Luiz: Lembro.

Oswaldo Sargentelli: Foi quando eu comprei meu primeiro automóvel, quando eu comprei meu primeiro apartamento. Não tinha nada de mulata!

Silvio Luiz: Mulata deu Mercedes [Benz, marca alemã de automóveis] para você e outras coisas! Eu estou entendendo, também! O Paulo Maluf deu um automóvel. Aí quando, depois, você colocou os mulatas, tinha aquele Mercedes que você desfilava com ele. Eu sei porque morava no Paraíso [bairro da cidade de São Paulo].

Oswaldo Sargentelli: É, mas na campanha eleitoral eu não ando de Fusca [carro popular da Volks Wagen]. Se eu tenho Mercedes, eu encaro. [risos]

Silvio Luiz: Está certo!

Oswaldo Sargentelli: E tem gente aí de Fusca, eu acho muita graça. Depois de março, voltam todos para as Mercedes. Mas aí é outro problema. Mas, Jorge, eu fico preocupado com você... Eu sou obrigado a dizer?

Alex Solnick: Em quem você vai colocar a voz na campanha?

Oswaldo Sargentelli: Eu vou colocar a voz para o Leonel Brizola.

Alex Solnick: Eu falei! Profissionalmente, ele enfatizou que é profissionalmente.

Oswaldo Sargentelli: Mas contratado profissionalmente.

Silvio Luiz: E é em dólar ou não?

Oswaldo Sargentelli: Eu vou saber amanhã.

[risos]

Silvio Luiz: Mas de acordo com o status, tem que pedir! Todo mundo está pedindo em dólar, pô!

Oswaldo Sargentelli: É amanhã o que eu vou saber.

Jorge Escosteguy: E votar, você vai votar em quem, Oswaldo Sargentelli?

Oswaldo Sargentelli: Eu não sou obrigado a te dizer.

[risos]

Jorge Escosteguy: Não, claro.

Oswaldo Sargentelli: Mas eu vou te dizer o que eu vou fazer no dia 15... Hoje é setembro... Temos outubro e novembro, não temos? Vamos fazer um acordo aqui de amigos, de compadres, de irmãos. Sem preocupação nenhuma de credo, de religião... Se todos vocês me confiarem em quem vão votar, eu também declaro meu voto sincero. Em quem você vai votar, Silvio?

Silvio Luiz: E estou estudando todos os programas, aliás o meu carro tem...

Oswaldo Sargentelli: Não é justo, Jorge, que você também me diga em quem vai votar? E as meninas também possam dizer?

Jorge Escosteguy: Como todos nós estamos estudando em quem vamos votar...

Oswaldo Sargentelli: Nós somos estudiosos...

Jorge Escosteguy: Eu queria fazer aqui uma pergunta de três telespectadores [sobreposição de vozes], Sargentelli. O Clarismundo dos Santos, colunista do jornal A Primeira Hora, de Osasco; o Ricardo Teliomini, do bairro da Lapa  - aqui de São Paulo - e o Helio Seles Ribeiro de Guaratinguetá - de novo... Ele pergunta o seguinte: “Em meio às mais diversificadas manifestações dos turistas estrangeiros, de um modo geral, quais e onde são aqueles que você considera mais respeitosos e os mais inconvenientes?”. O Ricardo quer saber, inclusive, se aconteceu de - em algum show de mulatas - o espectador invadir o palco, tentar agarrar uma mulata etc e o Clarismundo quer saber como é essa repercussão fora do Brasil?

Oswaldo Sargentelli: Eles não entendem nada que eu falo e eu falo muito no show. A expectativa é da entrada das bailarinas. Mas nós temos uma orquestra boa, temos ritmistas, temos cantores, temos uma cantora extraordinária vinda da Bahia - a Jane -, tem um cantor extraordinário, contratado agora aqui da Vai Vai [escola de samba da cidade de São Paulo] - o nosso Tobias, um cantor ótimo, excelente. Eles aplaudem a música, eles aplaudem a dança, eles aplaudem o ritmo. Na minha parte falada não aplaudem porque não entendem o que eu falo. Eu alinhavo o show todo e, te respondendo e aos telespectadores, eu não vi ainda inconveniência de estrangeiro nenhum. E, olha... É 0,8% - sei lá -, 0,7% em 20 anos de trabalho, a inconveniência física deles. É claro... Eles bebem! Eles bebem... Cabe à bailarina, cabe à mim, cabe a todos nós - do palco - manter aquela distância necessária. Mas, inconveniência, deles quererem trepar no palco, segurar, não. A gente sente, por exemplo, veio uma vez...

Jorge Escosteguy: Ninguém invadiu o palco?

Oswaldo Sargentelli: Houve um ameaçozinho uma vez e tal, e ele não estava nem sabendo. Eu disse para o garçom: “Acaba de derramar a garrafa de uísque toda no copo dele para ele entrar em coma” [risos] e ele entrou. Pronto! Aí entrou em coma e não me aporrinhou mais.

Silvio Luiz: Sargento, todo mundo sabe que você tem um cuidado e um carinho muito especial com as suas mulatas. Terminado o espetáculo, você as coloca em uma viatura e as entrega em casa. A sua responsabilidade com elas termina na porta de casa? E na Itália é a mesma coisa? Você já leva tudo, não aparece nenhum príncipe, nenhum... Daqueles que querem casar com mulatas, aquele negócio todo? Qual é a sua responsabilidade? Onde ela termina?

Oswaldo Sargentelli: Tem, eles querem aqui. A única diferença que eu tenho notado, Silvio, é que aqui é em português, lá é em italiano. Mas o problema é o mesmo. Vontade de tê-las... A menina trabalha com um biquíni sumário, né? O sujeito já está na quarta dose na boate. Na quinta o comportamento dele... Ele já vê oito biquínis em vez de um só. Aqui é assim. Lá [na Itália] não, porque eu trabalho em teatro, Silvio. Lá não tem bebida.

Silvio Luiz: Bom, está certo. Mas você leva para o hotel, é o mesmo esquema ou não?

Oswaldo Sargentelli: É eu me hospedo no mesmo hotel do grupo, né? E, lá na Itália, eu dou sorte porque o teatro fica na mesma rua onde moramos. Geralmente até vamos a pé. Na Quattro Fontane, que você conhece. Na praça Barberini [em Roma]. Então, evidentemente, vêm os paqueras como no mundo inteiro, ô Sergio! Os automóveis saem, não é? Naturalmente, para me ver, para conversar: “Ehi, Signore Sargentelli! Saravá, buona gente!”. Por minha causa. Eles me perguntam: “Signore Sargentelli, come si chiama quella ragazza” [como se chama aquela garota?]. Eu digo: “Sandra!”. Aí vem meu ritmista de 1m90 e eu digo: “Olha o marido dela!” [risos]. Mentira, não é o marido.

Silvio Luiz: Eu sei, mas a sua responsabilidade termina quando? Quando você as entrega no hotel ou quando você, aqui em São Paulo, as entrega em casa?

Oswaldo Sargentelli: Quando a Kombi leva as moças para casa.

Silvio Luiz: Daí para frente?

Oswaldo Sargentelli: Daí para frente só Deus e a cabecinha de cada uma. Agora, eu oriento, eu converso... Eu tenho bailarinas casadas, eu tenho bailarinas noivas. Eu sei que não é essa imagem!

Tão Gomes Pinto: Quantas bailarinas você já deixou na Europa?

Oswaldo Sargentelli: Nenhuma!

Tão Gomes Pinto: Todas voltaram?

Oswaldo Sargentelli: Ah, eu não deixo nenhuma!

Tão Gomes Pinto: Casaram lá ou não?

Oswaldo Sargentelli: Não, uma casou com um rapaz proprietário de sete frigoríficos e quem entrou na fria fui eu! [risos] Mas ela era muito bonita. A Rosângela fazia Iemanjá e o italiano parece que nunca tinha visto uma moça daquele tamanho. Com todo respeito ao ser humano, eu disse para ela: “Isso não vai durar”. O garoto ficou... Como é o termo? Embasbacado?

Silvio Luiz: Embasbacado!

Oswaldo Sargentelli: O garoto ficou embasbacado porque... O menino viu uma mulata de 1m83... O italiano começou a tomar sorvete pela testa [risos]! E eu digo: “Isso não vai durar”... Não durou.

Tão Gomes Pinto: E japonês com mulata, como é?

Oswaldo Sargentelli: Japonês é assim: japonês chega na boate, senta. Aí ele pergunta ao garçom: “Pode sair com mulata?”, “Não”. Então ele levanta e vai embora! [risos] Não aporrinha, não amola, levanta logo e tic, tic...

Silvio Luiz: Em média quanto ganha uma mulata com você, Sargento? Aqui e lá fora?

Oswaldo Sargentelli: Uma vergonha!

Silvio Luiz: Mau patrão?

Oswaldo Sargentelli: Não!

Silvio Luiz: Sargentelli, uma pergunta da produção: você é um mau patrão? [faz outra voz para parecer que não é ele falando]

[risos]

Oswaldo Sargentelli: Eu não posso é fazer milagre! Eu vou dizer a você, aqui vamos responder tudo. Eu me entristeço quando a moça vai para a Europa trabalhar, quando vai para o Japão fazer temporada... Eu me entristeço mas, ao mesmo tempo, reconheço que não tem alternativa. Vocês vão saber a média de um salário de uma bailarina de boate do Brasil, a média de salário de bailarina...

Sergio Leopoldo Rodrigues: Qual boate?

Oswaldo Sargentelli: Não, de boate brasileira, a média. Vamos colocar porque é um negócio tão ruim hoje que em São Paulo tem duas casas de espetáculo e no Rio, duas. Com espetáculo montado, com orquestra... E agora nem mais orquestra. O Plataforma ainda tem, mas a maioria das casas agora usa som de fita.

Silvio Luiz: Palladium tem?

Oswaldo Sargentelli: Opa, ainda tem! Mas não do tamanho da que tinha. Até o Palladium reduziu, também. O Palladium é de uma grande qualidade, não precisa de quantidade.

Silvio Luiz: Mas eu quero saber quanto você paga para as mulatas.

Oswaldo Sargentelli: Elas não ganham, hoje... Bailarinas! Já foram 28, já foram 30 em cada espetáculo. Agora você vai assistir ao espetáculo são 14, são 18... Eu duvido que o meu irmão Abelardo Figueiredo [produtor cultural que atuou no teatro e na música, além de ter sido secretário do Teatro de Arte do Rio de Janeiro e ter criado novos formatos de shows nas noites paulistas. Foi o diretor do Palladium, importante casa noturna em São Paulo, e um dos pioneiros da TV brasileira] - que é um extraordinário produtor - mantenha 15, 18, 20 mulatas em cena ainda. Não tem mesmo! E o Plataforma, aqui na Avenida Paulista [na cidade de São Paulo], também não. É a casa que mais tem mulatas em cena. A média de salário, acreditem...

Sergio Leopoldo Rodrigues: Mil dólares por mês!

Oswaldo Sargentelli: Quem foi que disse isso a você, meu irmão? [inconformado]

Sergio Leopoldo Rodrigues: Não, eu estou chutando!

Oswaldo Sargentelli: Não, querido! Isso ela ganha fora do Brasil. Nenhuma ganha 500 cruzados por mês! Nenhuma.

Kleber Almeida: Mas Sargentelli, em uma entrevista sua, há mais tempo, você se orgulhava de pagar muito bem essas mulatas...

Oswaldo Sargentelli: Mas o Brasil ficou difícil, filho. Naquele tempo eu pagava bem e tinha até exclusividade com elas. Eu podia, no tempo do Oba-Oba da [Avenida] Paulista, manter uma exclusividade, querido. Eu dizia: “Minha filha, você só pode trabalhar comigo”. Viviam com dignidade. Era um Brasil de dez anos passados. Você estava aqui no Brasil? Você há de reconhecer, querido, que a coisa ficou muito difícil em pouco tempo, não é? Achatou tudo! Hoje, uma menina ganha 500 cruzados por mês se fizer boate, desfile, televisão, cachês de 30 a 40 cruzados por noite! Ainda existe isso a beça aqui em São Paulo! Eu tenho bailarina conhecida minha que, para ganhar 40, 50 cruzados por noite, ela tem que trabalhar em cinco casas noturnas. Essa moça, quando viaja, vai para o Japão, ela ganha 900, mil, mil e duzentos ou mil e quinhentos dólares!

Silvio Luiz: Lá fora, você paga...

Oswaldo Sargentelli: Em dólar!

Silvio Luiz: Não, um minutinho! Você paga a passagem?

Oswaldo Sargentelli: É, passagem de ida e volta.

Silvio Luiz: Passagem de ida e volta...

Oswaldo Sargentelli: Hospedagem.

Silvio Luiz: Hospedagem você paga?

Oswaldo Sargentelli: Alimentação.

Silvio Luiz: Alimentação e mais o salário?

Oswaldo Sargentelli: A diária é em lira, né? A diária em lira... O dólar é depositado na mão delas. Dólar! Todas voltam com, no mínimo, sete, oito, dez mil dólares. Todas! Onde uma menina, no Brasil, pode ganhar dez mil dólares, oito mil dólares?

Silvio Luiz: Você pagando a comida, a cama, a roupa lavada?

Oswaldo Sargentelli: Evidente, querido! É evidente. Agora, eu não sou melhor pagador de nada!

Silvio Luiz: Não! Eu quis fazer a pergunta só para comparar. Porque quem está assistindo pode entender “O Sargento está levando mulata para Itália!”.

Oswaldo Sargentelli: Não, eu nunca levei. Eu não levo ninguém para o exterior! Pelo amor de Deus, Jorge, eu nunca levei ninguém! E a impressão que passa é que eu levo, eu mando. Não! Saem comigo para uma temperada de teatro e voltam comigo.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Mas você já pensou em exportar mulata?

[sobreposição de vozes]

Oswaldo Sargentelli: Eu nunca exportei isso, pelo amor de Deus. Isso é problema do [Romeu] Tuma [(1931 -) político brasileiro que foi chefe do Dops (Departamento de Ordem Política e Social, de 1978 até 1983) e diretor da Polícia Federal], meu amigo Tuma. E outro dia eu dei um escândalo aqui no aeroporto...

Sergio Leopoldo Rodrigues: Mas o doutor Tuma está exportando?

Oswaldo Sargentelli: Não, é problema dele reprimir. O Brasil tem muito escândalo e pouco Tuma, tu sabes disso. É muita sacanagem e pouco Tuma.

Alex Solnick: E muita "toma", não é?

Oswaldo Sargentelli: Pois é, muito toma. Então é uma podridão isso que ocorre - eu não quero entrar no mérito, porque “se não provar vai em cana” e olha eu novamente em cana! -... Mas que atrás disso tem, tem. Tem “mutreta” nisso tudo. A moça vai sem saber dançar. Eu vejo sair aqui do Brasil moças sem aptidão, sem qualificação. E voltam com oito mil dólares? E, em meio a esses grupos, vão moças bonitas que dançam. Então, querido, é o figurino brasileiro. Nós exploramos a coisa de uma forma... Eu nunca na minha vida deixei de demitir o garçom que passa um bilhetinho para a bailarina. Não é que eu seja pudico, não, Sergio! Eu não sou puritano, eu sou falho. Mas a minha proposta de trabalho, Silvio, nunca foi essa. A minha proposta nunca foi essa. Se eu encontrar um garçom passando torpedo - como se chama -, um papelzinho para bailarina, mesmo que ela não aceite, ele está despedido. Houve um homem da República, ô Jorge...

Silvio Luiz: Da nova ou da velha?

Oswaldo Sargentelli: Da velha. Mandou. Essa é nova ou já ficou velha também?

Silvio Luiz: Já está tudo...

Oswaldo Sargentelli: Ele mandou um cheque para a bailarina [segura um lenço de pano como se fosse um cheque]. O garçom – escondido – entregou. Mas ele preencheu o cheque, ouviu, Maria Amélia?

Sergio Leopoldo Rodrigues: Mas não assinou, não é?

Oswaldo Sargentelli: Não, ele assinou sim! Ele assinou. E ela disse assim: “Diz a ele que eu não sei ler”. Ele rasgou e fez outro. Agora não sei de quanto. Ela disse assim para o garçom: “Diz a ele que eu aprendi a ler” [risos]. Ele já morreu e ela já não é mais bailarina. Querido, por mais que você segure, a coisa é pior que jogadorzinho de futebol que se dá aquela encrenca tira um, bota outro, bota no banco [de reserva] e aquele é o reserva... É difícil.

Silvio Luiz: Você tem banco de mulatas, também? Quando falta uma, entra outra?

Oswaldo Sargentelli: Tenho, claro.

Tão Gomes Pinto: Onde é que você vai buscar o estoque para esse banco?

Oswaldo Sargentelli: Olha, Tão, antigamente eu ia, mas agora as meninas - feito a Sandra Maria - trazem a prima, trazem a irmã, trazem a colega, a amiga... Elas indicam. Você vai fazer uma compra em uma butique e diz: “sabe menina, você é tão bonita! Não quer trabalhar com o Sargentelli?”. Porque o nosso nomezinho ficou marcado. Então eu pago um tributo. Há muita avó, há muito vovô - aqui em São Paulo é “vô” -, muita titia, muita madrinha que se arrepia quando a neta, a sobrinha ou afilhada diz que vai trabalhar com Sargentelli. Porque sei lá... Passa uma impressão de que a menininha, comigo, vai se prostituir. Como se a indumentária, Maria Amélia, valesse para você avaliar o comportamento moral de uma criatura. Era tão fácil, meu amor... Era só botar um [vestido] longo na garota! Não é pelo biquini que você vai avaliar se a garota é “piranha”, prostituta... Não é pela gravata e pelo paletó que você vai dizer se o cara é [...], se ele é pudico, se ele é honesto, se ele não é corrupto... Quer dizer que com blusão aberto [dizem] “Mas ele é devasso, vive de blusão, mas aquele é correto: engravatado, colarinho duro...”. Não é por aí! Ou é? Não é, querido? A bailarina é a mesma coisa... Agora, como tem bailarina, como tem empresária, como tem datilógrafa, como tem médica que “pisa no morango”, pisa. Sei lá qual é a fruta!

Maria Amélia Rocha Lopes: Sargentelli, deixa eu te fazer uma perguntinha, por favor. Você era locutor, você falou da rádio Mauá e tudo isso... Como é que as mulatas surgiram na tua vida e você virou um "mulatólogo"?

Oswaldo Sargentelli: A revolução.

Maria Amélia Rocha Lopes: O que é que te jogou para esse lado da história?

Oswaldo Sargentelli: Maria Amélia, eu fazia o Preto no branco lendo papel. Eu fazia O advogado do diabo, o Quarto poder, o Encontro com a imprensa. E veio a revolução [o golpe militar] e me aconselharam a ficar em casa: “Sargento, agora você vai dar um tempo porque não está bom”. Eu tinha que sobreviver, filha, em 1963. Lembrei que sou sobrinho do Lamartine Babo, lembrei-me que a minha casa foi impregnada de ziriguidum na minha infância, tive um tio por afinidade - Manoel Alves Paradella – que era contra-regra do cassino da Urca [um dos cassinos mais importantes do Rio de Janeiro, localizado no bairro da Urca, que é conhecido por abrigar residências de artistas que se apresentavam no cassino e famílias de classe alta]... Que é uma coisa singular. Eu sou o homem mais feliz do mundo porque eu tive uma infância hiperfeliz: eu fui paparicado em cochia, proibido de entrar, como garoto, pelos maiores cantores do mundo. Meu tio me levava para assistir as matinês da Urca. José Mojica [(1896-1974) Frei José Mojica, cantor lírico mexicano que participou de encenações como a ópera Otelo de Giuseppe Verdi, compôs tangos e boleros conhecidos internacionalmente como “Besame” e “Solamente uma vez”, além de ter sido ator em no cinema norte-americano. Esteve no Brasil em 1950 para a inauguração da televisão brasileira] entrou na Urca cantando, eu estava na cochia. “Besame... Lalalarariri” [canta]. O mundo queria assistir Mojica e eu estava do lado. Um dia, um louro com um microfone - era uma flor - e eu garoto e já era um microfone à lapela... Bing Crosby [(1903-1977) cantor e ator estadunidense, foi um dos principais nomes da música do século XX] cantando na Urca e eu na cochia. Um garoto carioquinha nascido na Lapa que vê Bing Crosby cantar a dez metros, é feliz. Um garoto que viu Silvio Caldas cantar pela primeira vez, praticamente... Um menino que assistiu na avenida Teixeira Soares passando para pegar o ônibus para ir trabalhar, escutou um violão - que naturalmente era de 7 cordas - numa casa de janela baixa, no sol, o garoto parou perdeu o ônibus e ficou ouvindo o violão. E uma senhora bonita veio à porta e disse: “Entra, meu filho”. Eu disse: “Não, senão eu vou perder o ônibus”. “Mas entre que o meu filho está cantando com o pai!”. A mãe da criança viu em mim a primeira platéia do filho dela e eu entrei. E ele estava cantando assim: “Tu és divina e graciosa, estátua majestosa...” [canta trecho de “Rosa” de autoria de Pixinguinha]. Dona Balbina, mãe do Orlando [Silva. (1915-1978) conhecido como "o cantor das multidões". Entre os sucessos gravados por Orlando está "Rosa" de Pixinguinha]. Fui um menino muito feliz, muito mesmo. Agora, te respondendo, Maria Amélia... Quando eu me vi desempregado, quando eu não devia mais fazer perguntas e não podia mais perguntar nada a ninguém e ainda era chamado... Não era prisão, eu nunca fui preso. Eu era chamado para depôr e eu depunha, né? “Por que, Sargentelli, você foi a Cuba gravar com Fidel? Você, sobrinho do Lamartine...”. Eles foram carinhosos comigo, mas me detinham. Até eu cheguei a uma conclusão um dia, de que eles queriam ouvir as histórias que eu contava para eles sobre o Lamartine, sabe? Mas já estava ficando muito chato para mim eu ter que ficar lá seis horas, cinco horas. Bom, aí, minha filha, eu lembrei que eu era sobrinho do Lamartine, que eu via o Orlando cantar na Praça da Bandeira [no Rio de Janeiro], que eu conhecia aquela gente toda levada pelo meu tio à casa de Noel [Rosa]... Eu digo: “Ah, eu vou encostar essa voz de besouro e não vou perguntar mais nada a ninguém. E vou pegar uma caixinha de fósforo”. Então eu peguei. Aí nascia um programinha chamado Viva meu samba. Que o Silvio Luiz - na Rádio Guanabara, eu tenho retrato dele sentado comigo -, locutor esportivo já famoso, [estava] me assistindo já, vendo o meu telecoteco. Aí veio um amigo meu comum feito o Silvinho e disse: “Vai lá fora e traz uma turma que cante, que toque afoxé [instrumento de percussão africano conhecido no Brasil pelo seu uso nos rituais do candomblé], um bomgô, um reco-reco, um pandeiro e um tamborim. Traz uma cantora e um cantor”. Eu nunca escolhi a cor, porque nunca fui idiota, imagina... Discriminar... “Vai lá fora e traz três crioulos, amigo”? Não. Aí eles foram trazendo. A primeira sambista: Clementina de Jesus, a outra: Elizeth Cardoso, a outra: Elza Soares, a outra: Ângela Maria [cantoras de samba de bastante destaque no Brasil]. Qual é a cor das quatro? De repente vai trazer cantor... Jamelão  [Jamelão [(1913-2008) José Bispo dos Santos, sambista, um dos mais conhecidos intérpretes de samba-enredo da Mangueira] -... “Ela disse-me assim” [canta]. Eu nunca pedi cor. E veio Martinho da Vila, Ciro Monteiro [cantores e compositores], veio Monsueto Menezes [cantor e baterista de bastante renome no Rio de Janeiro dos anos 40 por ter sido parte da Orquestra de Copinha, do Hotel Copacabana Palace]. E eu cercado, Jorge. Brancão, uma ilha branca cercada de mulatas e mulatos por todos os lados. Aí eu precisava de quem? De bailarina! Eu ia no Teatro Municipal buscar bailarina? Eu fui na Portela [escola de samba tradicional do Rio de Janeiro]! Ah... A primeira mulata que eu vi sambando, eu estava diante de um altar! Narcisa...

Sergio Leopoldo Rodrigues: Você acha que branca não samba?

Oswaldo Sargentelli: Não, branca não samba. Até porque a branca não tem culpa de não sambar. Ela é desinformada por ser branca.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Por quê?

Oswaldo Sargentelli: Porque não nasceu humildemente. Geralmente a branca, a raiz da branca no Brasil, não é bem da favelinha, não é no morro. Não tenho nada contra o morro e nem contra a cidade, mas eu encontro em cada dez mulatas sempre humildes [ele não continua a estatística], daquelas raízes das escolas de samba. A branca já vai para discoteca, tem poder econômico melhor, já não...

Sergio Leopoldo Rodrigues: Ela não teria que dançar melhor e tal?

Oswaldo Sargentelli: Não, eu tenho brancas. A minha filha Waleska dança, Sergio, muito bem. Mas em cada dez moças que eu escolho para dançar, nove são mulatas. Agora estou levando branca para a Itália porque o show se chama Quem tem boca vai à Roma na fantástica mistura das cores. A branca é o sol, a morena é o entardecer e a mulata, a meia-noite. Mas está difícil arranjar branca que sambe.

Tão Gomes Pinto: Esse Sargentelli vem da onde, hein? Vem da Calábria?

Oswaldo Sargentelli: O Sargentelli não. Sargentelli é do sul da Itália. Sargentelli é... Eu sou toscano [a Toscana fica na região central da Itália]. Sargentelli é o sobrenome da minha mãe. E você vai me perguntar: “E porque não Babo?”. Porque o Leopoldo não me registrou. Porque não havia proteção. E quando o Getúlio assinou a lei [de paternidade] eu já era casado. Então, eu sou Oswaldo Sargentelli, filho de Maria Amélia Sargentelli. Minha mãe é tua xará! E tem 86 anos. Você tem 20 e poucos. Então, ela com 86, Maria Amélia. Eu sou filho de Maria Amélia Sargentelli, pai... Botaram um tracinho. Esse traço me deu muita sorte. O Leopoldo foi safado. Não me registrou. Deve ter tido motivos. Eu não o conheci. Para não dizer que não conheci, um dia no Largo da Carioca - eu com a minha mãe -, garoto atravessando, passou um sujeito de terno branco HJ120, sapato duas cores. Ele gostava de usar sapatos duas cores.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Mas você... Eu estava pensando nisso. Sabe que olhando para você, Sargentelli... Você, como empresário da noite, acha que o teu espírito é mais assim para Moreira da Silva [típico malandro carioca, nascido no bairro da Tijuca, passou a infância no morro do Salgueiro onde teve contato com o samba de breque que, posteriormente, passou a ser sua vida, sua profissão. Compôs músicas como "Na subida do morro"] ou mais para Chiquinho Scarpa [paulistano de família rica de origem italiana que circula  por eventos sociais caracterizado como conde, título que herdou da família]... Aberto...

Oswaldo Sargentelli: Estou mais para bicheiro!

[risos]

Sergio Leopoldo Rodrigues: Estou falando numa boa! Mas eu digo porque você gosta de corrente - coisa que me lembra um pouquinho o Chiquinho Scarpa - mas o estilo é mais um Moreira da Silva falando. O que é mais o Sargentelli? Gostaria mais de ser um empresário do tipo Chiquinho Scarpa, que é mais bon vivant, não trabalha é só tem dinheiro ou um Moreira da Silva, que era mesmo...

Oswaldo Sargentelli: Eu gostaria de ser os dois! Eu tenho muito dos dois. A única coisa que eu não tenho, realmente, do Chiquinho - gosto muito dele, foi sempre nas minhas festas - e não invejo, mas eu admiro - que Deus o proteja - é a grana que ele tem. Mas ele é um trabalhador, ele mereceu ter também... Bom!

Jorge Escosteguy: Sargentelli, preciso fazer uma rápida interrupção. Fazer aquele intervalo que você mencionou há pouco.

Oswaldo Sargentelli: Levei um susto agora, eu pensei [que você perguntaria] “já pensou quem é o seu candidato?”. [risos]

Jorge Escosteguy: Nós vamos fazer um rápido intervalo e voltamos, em seguida, com o Roda Viva. Entrevistando hoje o Oswaldo Sargentelli. Até já!

[intervalo]

Jorge Escosteguy: Voltamos com o Roda Viva que hoje está entrevistando Oswaldo Sargentelli. Sargentelli, o telespectador Felipe Bedran Fillho, da cidade de Rio Claro, pede a você que conte a história do crucifixo que você usa. Diz ele aqui que parece que ele possuía quatro garras e já perdeu duas, e que você teria dito que quando perdesse a terceira, alguma coisa especial iria acontecer [a câmera mostra o crucifixo]...

Oswaldo Sargentelli: Eu quero pedir desculpas ao telespectador porque eu me perdi um pouquinho e jamais olhei para eles. Eu me dispersei e agora vou passar a olhar com mais atenção para a lente, que são os nossos olhos, né? A lente da televisão. Ô, Felipe Bedran, meu querido, essa história é verídica. Eu mandei fazer há mais de 15 anos essa peça. Foi uma senhora no Rio de Janeiro. E eu passei a usá-la. Esse crucifixo não é o mesmo [segura seu crucifixo para mostrar]. Aquele eu já me desfiz dele, dei. E quando fiz esse que é cristal de rocha... Repare que o suporte tem essas capinhas aqui que seguram o crucifixo no cordão e, em cada extremidade do crucifixo, tem essa pecinha aqui que você vê. Eu fui num centro espírita em Niterói - no Rio de Janeiro - e uma senhora manifestada abaixou e disse o seguinte: “Sargentelli, quando caírem todos esses suportes, é o dia da sua passagem”. Quer dizer, é o dia que eu vou morrer. E o meu espírito brincalhão... Ainda perguntei: “Mas eu não posso apertar um pouquinho sempre?”. Quando eu vi ela sem achar graça nenhuma, até me encabulei. Disse: “Não é por aí que você vai evitar isso” e seriamente. Eu, então, até me arrependi de brincar. Faz um ano e meio ou dois que eu - em chegando a casa – reparei, Felipe, que faltava essa haste inferior.

[...]: Quanto tempo levou para cair?

Oswaldo Sargentelli: Pois é, querido, levou 13 anos.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Então 13 vezes três, são mais.

Oswaldo Sargentelli: É pelo teu cálculo, Sergio. Que Deus te proteja, tu és um homem muito mais inteligente do que eu imaginei!

[risos]

Sergio Leopoldo Rodrigues: Não mais 13,13,13?

Oswaldo Sargentelli: Este é o cálculo meu, eu já também fiz o mesmo, só que parece que tem que fazer uma correção ao inverso. De BTN [Bônus do Tesouro Nacional]! [risos]

Sergio Leopoldo Rodrigues: Ao invés de valorizar?

Oswaldo Sargentelli: Ao invés de ir para a frente, vem para trás. Mas não faz mal. Felipe, caiu esta aqui. Juro por Deus que eu tenho apalpado as três, elas estão durinhas! Já operei o coração, operei a garganta, fiz fimose... Quando eu era menino, Silvio! Eu era garotinho. Foi em mim não foi em você! [risos] Eu te confesso, querido, que eu tenho muita sorte. Mas que eu ando preocupado em verificar se está me amolecendo alguma coisa, eu verifico. [risos] A cruz é minha, a vida é minha, tudo que eu tenho é meu e quem tem ..., tem medo, você sabe. A gente fica [faz cara de dúvida]... Eu acredito em tudo, eu sou um cara de boa fé.

Kleber Almeida: Sargentelli, mas por falar nisso, eu sei que no intervalo você disse que seu necrológio já está pronto na TV Globo. Como é que você acha que eles vão te vender para a eternidade? Como que tipo de pessoa?

Oswaldo Sargentelli: “Morreu... Morreu o rei das mulatas”, essas coisas todas... [risos] “Morreu o 'mulatólogo'. O Brasil está de luto, as mulatas choram no velório do Sargento”, aquelas coisas. Outro dia eu brinquei em casa, eu disse assim: “Olha, eu vou ficar assim [cobre o rosto com um lenço de tecido e coloca os óculos por cima], não me botem o óculos por cima. E vai aparecer um chato falando ‘Ai, ainda ontem eu conversei com ele’”. Tem sempre um chato que conversou com você na véspera. Velório tem sempre disso. Eu vou, vou contrariar o cara. Eu vou dizer: “Conversou nada, você é mentiroso”. O Nanai... O Nanai é um violonista de 70 anos - do tempo da Carmen Miranda morou nos Estados Unidos - que é uma das figuras mais impressionantes que eu conheci, que conheço. Nanai, Arnaldo Humberto de Medeiros. Ele toca violão aqui no Vou Vivendo, essa casa em Pinheiros [bairro da cidade de São Paulo]. Extraordinário. Toca violão lá. É um piadista, é um homem que está de bem com a vida, brinca com tudo. Está sempre fazendo uma piada! Eu sinto o Nanai em cada brincadeira que eu faço, em cada resposta alegre que eu dou. É um fazedor de alegria. Ele faz a alegria e vende. Outro dia, eu encontrei um cidadão dizendo que se for eleito, ele vai criar um Ministério da Verdade. Aí eu digo... Isso eu não entendo! Quem é que vai comprar a verdade, quem é que vai transacionar com a verdade? Eu não sei.

Alex Solnick: Sargentelli, você acha de bom gosto o pessoal fazer necrológio de gente ainda viva?

Oswaldo Sargentelli: Querido, vocês, jornalistas - nós jornalistas -... Eu não me limito... Eu acho que, sob essa ótica, se você é jornalista e te incumbem - dentro do jornalismo - do teu trabalho, dos teus afazeres, tu tens que fazer o necrológio do Sargentelli. “Olha, o homem.. Não gostei dele na televisão”, sei lá... Vamos dizer que eu estou inchado [risos]... Cada um acha... O cara, outro dia, passou por mim na rua e gritou: “Ô Sarcinelli, como é? Você está muito gordo!”. Aí o guarda disse: “Estão chamando Sangirardi de Sarcinelli” [risos]. Um me acha gordo, o outro, inchado, o outro... O Silvio Luiz hoje chegou para mim, bateu no meu estômago quando eu entrei aqui e disse: “Quando endurece assim, meu filho, não adianta mais. Nunca mais vai parar isso! Está duro!”!

Silvio Luiz: Ainda bem que eu bati na barriga, né?

Oswaldo Sargentelli: Entendeu? Então, querido, você fica em uma situação incrível! Eu levo tudo isso, eu administro... Maria Amélia, minha filha [risos], eu tenho 66 anos, vou fazer em dezembro. Eu assisto muito vocês. Vi o Célio outro dia, vi um dia do Millôr [Fernandes. Cartunista e escritor. Ver entrevista com Millôr no Roda Viva], programas sensacionais que vocês fazem, Jorge.

Jorge Escosteguy: Obrigado.

Oswaldo Sargentelli: A tua produção, você, vocês são ótimos! Esse programa... Olha que são 32 anos de televisão. Com Flávio Cavalcanti [(1923-1986) jornalista, apresentador de rádio e televisão], com Silvio Santos, com Fernando Barbosa Lima a vida inteira. Esse programa é muito bom, muito gostoso, muito bem feito. Ele é muito bem feito, tão simplesmente bem feito... As respostas... O entrevistado se sente muito bem. Pois bem, eu administro essa minha velhice, querido, de uma forma extraordinária! Não tomo banho com um só sabonete, levo dois porque não estou mais em idade de me abaixar [risos]: escorregou, eu já tenho outro. Não conheço velho nenhum que se abaixe e volte bem [risos]. É mentira! E bater com a bunda no chão nessa idade é ruim, mas é ruim mesmo! Botar meias..., mas hoje eu botei porque vendo o programa de vocês eu notei que as câmeras [derruba o copo de água que estava ao seu lado]...

Silvio Luiz: Ê, Sargento!

[sobreposição de vozes]

Oswaldo Sargentelli: Saravá! Eu derramei a água! Essa é a minha Iemanjá! [levanta o copo como se brindasse]. Saravá para todos vocês! Saúde e paz! Eu sabia que ia derramar alguma coisa. Bom, Jorge, então o que é que eu faço? Eu administro. Eu botei meia hoje, mas eu não uso meia. Porque eu vi que no programa de vocês, vocês mostram [aponta para a câmera]. Você mostra a meia, mostra o pé do cara, eu vi do Millôr! Eu vinha sem meia mas iam ver as varizes, iam dizer que estou com de pé inchado... Está um pouco inchado mesmo, eu até tenho que procurar o médico essa semana porque eu estou achando esse aqui mais grosso que o outro. Não! E quando o médico me chateia, eu troco de médico.

Maria Amélia Rocha Lopes: Sargentelli, mas você vai querer ser lembrado como "mulatólogo" ou como um grande locutor?

[risos]

Oswaldo Sargentelli: Querida, se eu falasse... Sua pergunta é ótima! Se eu falasse com a voz de Deus e morresse amanhã, só iam lembrar de mim como "mulatólogo"! A coisa ficou de tal forma, que eu absorvi tanta coisa... Pelé [é igual a] bola, não é?

[...]: Sargenteilli [é igual a] mulata.

Oswaldo Sargentelli: E onde tem Sargentelli tem uma mulata, de maneira que isso vai... E dizem, ainda, que estou trabalhando na Avenida Paulista e não estou.

Tão Gomes Pinto: Sargentelli, quantas casas noturnas você abriu?

Oswaldo Sargentelli: Eu tive o Oba-Oba no Rio, tive o Oba-Oba em São Paulo.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Qual dava mais dinheiro? A do Rio ou de São Paulo?

Tão Gomes Pinto: E por que ficou sem nenhuma casa em São Paulo e no Rio? Além de ser mau administrador...

Oswaldo Sargentelli: Eu sou! Além de ser mau administrador, por isso: é que eu durmo na hora em que eles estão acordados e eu não posso ficar acordado de manhã.

Jorge Escosteguy: Sargentelli, a falar em casas... O Airton Bernardoni de Porto Alegre - ele é comerciante e foi juiz de futebol - conta aqui que você começou a montar um espetáculo em Porto Alegre em 1980, oitenta e pouco - ele não lembra direito - e depois, um advogado da cidade disse que você comercializava as mulatas. Você se sentiu ofendido e foi embora, como foi essa história?

Oswaldo Sargentelli: Não, Airton! Obrigado, Airton. Eu estava em um táxi e disse assim para o motorista: “Me leva na estação tal”, porque eu tinha uma entrevista para fazer em uma estação de rádio sobre a minha temporada no teatro. E, nesse ínterim, o motorista ligou o rádio dele no carro para uma outra emissora e o cara estava dizendo assim: “Mas é absolutamente certo que esse moço explora as mulatas! É um explorador e vou mover-lhe uma ação! E eu como representante...”. E não dizia o nome do cara e eu dizia assim para o motorista: “Puxa, esse cara está frito, hein?”, [e ele continuava] “Vou mover-lhe uma ação na justiça! Persona non grata na cidade! Vamos repelir! Esse moço não pode permanecer em Porto Alegre”. Eu dizia para motorista: “Coitado desse cara” e ele estava me levando para a outra rádio onde eu ia. Quando chegamos na porta o cara disse assim: “O senhor conhece o Sargentelli?”. Eu disse ao motorista: “Me leva para essa rádio”. Então saímos daquele prédio. Era um senhor de cor, um advogado dos seus 37 anos. Eu entrei no estúdio... O programa que deveria terminar ao meio-dia e meia, terminou às duas horas. Problema da produção! Eu só fiz uma pergunta a ele quando eu entrei no estúdio: “O senhor alguma vez falou comigo? O senhor alguma vez me assistiu em teatro ou em boate? O senhor alguma vez conversou comigo? O senhor não me conhece, nunca me viu em lugar nenhum. Então o senhor confessa que está repetindo uma coisa que disseram ao senhor. Então, o senhor está preso! Eu vim aqui para prender o senhor como cidadão”. Prendi o advogado do estúdio! Foi uma encrenca em Porto Alegre que você não faz idéia do que aconteceu! [Ele dizia] “Os meus direitos! Todo homem tem direito”. Eu leio isso toda semana, Jorge, eu não vou encanar um cara que me chama de cafetão? E eu ouvi pelo rádio: “Você é um cafetão!”. E ele era um mulato forte, um cafetão grosso, que se ele fosse magrinho era um cafetãozinho [risos] e eu... E sabe o que aconteceu? Quase me beijou na boca no fim de tudo! Porque ele, como advogado, data venia [expressão com a qual se inicia uma discussão, no direito], achou muito interessante a minha tese e ficamos amigos ali e tal. Mas foi isso que aconteceu. Meu querido... Airton, olha, realmente houve essa campanha contra mim, mas o porto-alegrense foi tão carinhoso comigo no programa... Vazou? Transpareceu? Vocês foram tão carinhosos... Os gaúchos foram tão amáveis, tão compreensíveis, foram tão... Queridos, cada vez mais, pelo meu elenco! E as temporadas que eu faço em Porto Alegre ainda devo a esse rapaz. Esse advogado me ajuda até hoje porque ele, sem querer, me propiciou temporadas formidáveis.

Tão Gomes Pinto: Sargentelli, qual é a sua tese sobre essa falsa verdade de que não existe preconceito racial no Brasil?

Oswaldo Sargentelli: Existe sim! Existe.

Tão Gomes Pinto: Então fala um pouco sobre preconceito...

Oswaldo Sargentelli: É por que ela é perigosa? É porque ela é enrustida! Existe, existe... Existe, querido, existe. E ela é perigosa – eu repito - por isso, porque ela não é declarada, ela não é declarada.

Tão Gomes Pinto: Você já viveu situações com as mulatas?

Oswaldo Sargentelli: Poucas, poucas, poucas. Um hotel aqui em São Paulo, aquela do ônibus que eu falei que mandou o ônibus voltar. Naquele teatro, também, numa cidade do interior chamada Rio Grande. Um espaço na platéia... Não entendi aquele negócio. E probleminhas de dizerem que não tinha vaga em hotel, mas muito raro. Agora, o que eu sinto da sociedade que [diz] “não, não vou lá, não”. E adjetiva... Aí eu já fui preso. Aí sim, aí foi prisão. Ela disse... O marido dela foi me cumprimentar no primeiro andar da minha boate - o marido de uma cliente – e aí [ele estava] me abraçando e ela chegou! Mas chegou zangada, como se ele estivesse conversando com outra pessoa. E eu quis ser amável, brincalhão e disse: “Está vendo a senhora? Seu marido veio falar com o Sargentelli”. Ela disse: “É, porque [com] pilota de fogão meu marido não está habituada a falar”. E aí eu virei e disse: “É, realmente a senhora chamou a minha mulata de pilota, mas não vejo na senhora nenhuma categoria para ter uma pilota dessas em casa. Categoria na senhora?” E eu olhei para ele, porque eu pensei que ele fosse me dar uma porradinha, né? Não, ele saiu me dando... Saiu zangado com ela. Eu disse: ”Eu não vejo na senhora nenhuma categoria para ter pilota dessa”.

Jorge Escosteguy: E aí você foi preso?

Oswaldo Sargentelli: Não, porque aí ele desceu e voltou. No que ele voltou, um amigo meu - embriagado - soube e foi brigar, quando não tinha que brigar. E entre o marido - que foi favorável à coisa - e esse meu amigo, eu fiquei com meu amigo. E sabe aquela da mulher ir lá fora e querer fazer escândalo? Eles estavam brigados, naturalmente, e ela pegou um pretexto e foi para a calçada fazer escândalo, gritar... Da sociedade! Gente fina, muito bonita, muito bem vestida... E promoveu um escândalo. Aí um policialzinho que passou quis ser agradável a ela. [Ela falou] “Meu marido está aí dentro”. Ele foi lá para cima, já pegou meu amigo. Então fomos todos dirimir dúvidas no distrito. Eu queria saber a ficha do casal e acabei sabendo.

Silvio Luiz: Sargento, por que o Botafogo demorou tanto tempo para ser campeão, hein? Foi praga?

Oswaldo Sargentelli: Ainda existe uma afinidade - você sabe, ô Silvio? - entre o Botafogo e a Seleção Brasileira. Por que o Brasil desde 1970 não é campeão, Silvinho? Por uma série de motivos. O Botafogo, também. O Botafogo sofreu todo tipo de desastre na vida administrativa dele. Todos os azares que você possa imaginar, você sabe que o Botafogo sofreu. Vendeu a sede, vendeu patrimônios, saiu da Zona Sul [do Rio de Janeiro], foi para um lugar que não tinha nada a ver com ele... O Botafogo, espírito dele. Criou-se uma imagem diferente, um outro perfil. O Botafogo pagou um tributo, dizendo as três seleções, dá muito jogador.... é um paradoxo!, dá muito jogador para a seleção e quando [eles] voltam, paga um tributo pesado. Haja vista... Você vê, temos uma legião estrangeira toda lá fora, você tem que renovar o elenco. Demos muita falta de sorte e tivemos times muito fracos, portanto. Não se conseguiu mais ter um time poderoso. Acabou o Garrincha, acabou o Amarildo, acabou o Zagalo, acabou o Didi, acabou o Gérson, acabou o Nilton Santos [importantes jogadores de futebol]... Foi acabando, acabando... Vieram os novos craques, veio o Alemão. Mas não bastava só um Alemão, precisava mais. Veio também um goleiro muito bom, não bastou. Não se arrumava uma equipe. Não se arrumava uma equipe. De repente arrumou-se uma equipe que nivelou com as grandes equipes do Rio: o Flamengo, o Vasco da Gama – principalmente - e o Fluminense. O Botafogo jogou vinte e tantas partidas e não perdeu. Eu senti que ele ia ser campeão... É uma brincadeirinha que nós fazemos, Jorge, desculpa... Os botafoguenses fazem por “molecaginha” [molecagem]... “O Brasil só será campeão do mundo novamente se o Botafogo for campeão”. E ele foi! Então vamos trazer o caneco da Itália. Tu vais?

[...]: Eu não sei, acho que não.

Oswaldo Sargentelli: Tem que ir! Nós vamos trazer o caneco da Itália! O Brasil vai ser campeão do mundo.

Jorge Escosteguy: O Adilson Carvalho, da cidade de Jundiaí, queria que você falasse um pouco do seu relacionamento com seu tio Lalá, Lamartine Babo.

Oswaldo Sargentelli: Lamartine Babo foi a coisa mais linda que eu conheci na minha vida, como ser humano, assim... Verdadeiro compositor do povão! A canção que ele fez, o povão gravou, está na boca, está na garganta, está na alma dessa geração que canta “O teu cabelo não nega”. Mesmo às vezes não sabendo que é dele. “O teu cabelo não nega”, “Linda morena”, a “Marchinha do grande galo”, Seu Cabral [refere-se à música “História do Brasil”]. Lamartine Babo foi uma figura singular. Não foi porque foi meu tio, não. Foi um compositor mesmo [enfatiza]. De verdade. Os versos... Foi repentista, foi um homem alegre, viveu da piada, viveu da alegria. Lamartine Babo foi o alicerce dessa alegria que eu ainda tenho a possibilidade de vender. Aprendi com ele o bê-á-bá da alegria! Foi um fazedor de versos extraordinário. Ô Jorge, me permita... Respondendo ao rapaz de Jundiaí... Para tu teres uma idéia de quem foi Lamartine Babo como compositor de música popular, ele apaixonou-se por uma menina - ele com 14, 15 anos, ela com 12, 11 -... Evidentemente que ele deve ter recorrido ao dicionário, mas mesmo assim, olha o que esse homem fez com 14 anos... Ele apaixonou-se, feio, magérrimo... Depois, então, de homem feito, extraiu todos os dentes e nunca conseguiu usar dentadura. “Nananá nananá”, sem dente. E tinha um cacoete com a língua [coloca a língua no canto da boca para mostrar]. Não era, Silvio?

Silvio Luiz: Eu não conhecia ele, não era da época.

Oswaldo Sargentelli: Sabia que ia dizer isso! Eu sabia, Jorge, que ele ia dizer isso [risos] que não é da época do Lamartine. Tu não és da época do Lamartine sem dente [enfatiza]!

[risos]

Silvio Luiz: Não sou da época do Lamartine...

Oswaldo Sargentelli: Silvinho, você não envelhece nunca.

Silvio Luiz: Você já me botou no Museu da Imagem e do Som aqui mas, agora, Lamartine também é demais!

Oswaldo Sargentelli: Silvio, você é um narrador, você é o narrador de futebol que mais nós invejamos em casa. Todos nós queremos ser o narrador que você é. Porque nós fazemos o que você faz sem microfone, você faz com microfone. Você é o homem da piada, da alegria! O jogo “furreco”, ruim, de manhã cedo, você transforma em um clássico! Você é um safado! Bom, voltando... Desculpa, Jorge! Lamartine Babo, com 14 anos. Olha o que ele escreveu para a namorada, Maria Amélia, mesmo recorrendo... Escute só Sergio, você é garoto. “Teus olhos são dois astros pequeninos que brilham nos meus olhos peregrinos. Castanhos são teus olhos cismadores que até parecem dois amores tão cansadinhos de chorar. Teus olhos dos meus olhos são parentes. Nossos olhos são dolentes. Se algum dia tu souberes pela voz de outras mulheres que do amor só tive escolhos. É porque talvez eu visse outros olhos com a meiguice do castanho de teus olhos. Muito embora não zombassem e os meus olhos não falassem, aumentando os meus abrolhos. Eu quisera, por vingança, ver teus olhos de criança no castanho de outros olhos” [canta a música “Os teus olhos castanhos”]

Tão Gomes Pinto: Ô Sargentelli, o que é “abrolhos”, hein?

[risos]

Oswaldo Sargentelli: Não sei! Por isso que eu disse: ele foi para o dicionário! Ele tinha que rimar abrolho com escolho.

Tão Gomes Pinto: Quem é melhor letrista: o Lamartine ou Cazuza [(1958-1990)  cantor e compositor brasileiro, teve contato com a música desde cedo e, apesar de apreciar clássicos da MPB como Cartola, Noel Rosa e Dolores Duran, firmou sua carreira no rock na década de 1980 com o grupo Barão Vermelho, fazendo enorme sucesso de crítica e público até sua morte em decorrência da aids]?

Oswaldo Sargentelli: O Cazuza, na idade de Cazuza, é o Lamartine da época. Como o Chico Buarque é o poeta, para mim... Noel [...] vivo. Os versos do Cazuza são perfeitos. As mensagens só vão ser entendidas e respeitadas depois, muito depois de Cazuza. O que, aliás, é um mal nosso. Eu só vou ganhar o nome de uma travessa depois que eu “sambar”! Eu queria um nome de avenida, vivo! [risos] Ladeira Sargentelli! Tu vai ver só! Tu vai ver só se não vai ser ladeira.

Sergio Leopoldo Rodrigues: O Cazuza está com essa bola toda para você assim? Vai passar, vai ficar ou é mais... foi “criadão” assim? O Chico Buarque você podia falar... Um Chico... Caetano Veloso... Você não acha Caetano Veloso mais importante?

Oswaldo Sargentelli: A partir do momento, eu gosto dos três. Eu vou explicar por que, como eu gosto. O Caetano é o mais afinado cantor brasileiro que eu conheci. É um homem instrumental. O Caetano é instrumental. Papai do céu deu para ele... Ele é instrumental com Caetano Veloso. Ele faz coisas fantásticas, como Yma Sumac [(1922-2008) cantora lírica peruana de reconhecimento internacional por conseguir chegar a notas agudas raramente alcançadas pela voz] fez, como Johnny Mathis [(1935-) cantor estadunidense que deixou o basquete, esporte que tanto gostava e que lhe rendeu uma convocação para jogar nas Olimpíadas, para se dedicar à música, incluindo em seu repertório uma grande diversidade musical, transitando do jazz à música brasileira] faz. Não sei se faz mais. A Yma Sumac que está viva - graças a Deus - mas deve estar com seus 70 e tantos, 80 anos.

Silvio Luiz: Não olha para mim, por favor.

Oswaldo Sargentelli: Porque ele sabe que eu tenho que olhar para ele!

[sobreposição de vozes]

Oswaldo Sargentelli: O Caetano Veloso é o mais afinado cantor do Brasil, ele é instrumental. O Cazuza é um poeta que está calcado em uma tragédia [em fevereiro de 1989, Cazuza tornou pública a sua doença, a aids, que o derrotou em 1990]. Ele está montado em uma tragédia. Em cima dessa tragédia ele está versejando. Há que se respeitar a mensagem de revolta dele, até. Eu vou repetir, querido, os versos do Cazuza... Não digo a música, não, nem a maneira dele interpretar. Porque eu detesto o Chico interpretando e, para mim, é o maior poeta do Brasil, que musica versos. Chico Buarque de Hollanda. Mas se ele não está preocupado... Ele realmente não tem preocupação em cantar. Ele tem preocupação em dizer os versos dele. Que cantem os cantores. Você dirá, “Então por que é que a gente tem que aturar ele cantando?”. Problema da produção. Bote um cantor no lugar dele.

Silvio Luiz: Problema de produção ou é um problema dos direitos autorais e da interpretação também?

Oswaldo Sargentelli: Ele não interpreta... Ah, bom... Também pode ser grana... Em dólar?

Silvio Luiz: Ora, meu amigo... Você imaginou se todos os compositores forem interpretar? Não vai sobrar para ninguém cantar. Eu estou defendendo em causa própria, agora!

Oswaldo Sargentelli: Eu sei, querido. Eu sei.

Silvio Luiz: Se o Chico interpreta as músicas dele, não dá para a Márcia gravar!

Oswaldo Sargentelli: Mas, meu amor, a Márcia grava, sim!

Silvio Luiz: Mas hoje ninguém grava. Hoje ninguém... Está tão caro gravar que ninguém grava.

Oswaldo Sargentelli: O Chico é um dos compositores mais interpretados no Brasil, por vários e vários cantores!

Silvio Luiz: Sim, mas acontece que ele interpreta...

Jorge Escosteguy: O Cazuza, Sargentelli... Desculpe, Silvio, você estava completando...

Silvio Luiz: Eu é que exorbitei, excelência. Perdão!

[risos]

Oswaldo Sargentelli: O Cazuza, que está montado em cima tragédia, é um ser humano como outro qualquer e não quero entrar no mérito. Nem você deseja que eu entre. Eu me preocupo em... Eu tenho, por exemplo... Vem um LP do Cazuza. Quando vem a letra escrita na contracapa, eu não sei que música é, porque ali você não pode saber que música é. Eu, antes de ouvir a música, eu vou ler o verso. Se eu me apaixonar pelos versos eu... Pronto, já me apaixonei pela poesia! Agora, se a música é ruim ou é assada, ela é exorbitantemente atrapalhada, é uma usina que eu não entendo - mas a minha filha entende - [grita alguns barulhos] fica uma loucura na minha orelha que eu não ouço a música, eu só leio o verso.

Maria Amélia Rocha Lopes: Sargentelli, você está falando de música, de compositores, tudo isso... Confirma para mim se é verdade uma história de que uma vez você se hospedou em um hotel com o Adoniran Barbosa [(1910-1982), o mais famoso compositor de samba paulistano, autor de "Trem das onze"] e que tinha um rato dentro desse hotel e que vocês fizeram de tudo para matar o rato mas, não sendo possível, vocês adotaram o bicho...

Oswaldo Sargentelli: Não foi com o Adoniran, foi com o Waldir Azevedo [músico e compositor. Sua principal obra foi o choro "Brasileirinho", dos anos 1940, que tornou-se uma espécie de segundo hino nacional do Brasil ].

Maria Amélia Rocha Lopes: Mas tinha o rato? [risos]

Oswaldo Sargentelli: Tinha! Nós estávamos bêbados e nós tivemos que...

Silvio Luiz: Você falou que não bebe!

Oswaldo Sargentelli: Que não bebo. Quem inventou Jorge Alberto fui eu! Fui eu quem inventou o Jorge Alberto.

Alex Solnick: Champanhe Jorge Alberto.

Oswaldo Sargentelli: Champanhe? Champanhe, não! Era conhaque brabo, ainda. De botequim! E era caubói [dose da bebida pura, sem gelo ou outro componente], menino, era assim [mostra com as mãos].

Silvio Luiz: Mas eu me lembro bem na Rádio Guanabara... A gente tomava umas e outras.

Oswaldo Sargentelli: Agora ele lembrou do tempo, está vendo?!

Silvio Luiz: Mas você está dez na minha frente, “pomba”! Aí é que está coisa!

Oswaldo Sargentelli: Mas isso é verdade... Aquele acém [corte de carne bovina] que a gente fazia era brincadeira, viu!

Silvio Luiz: Lógico, claro! Era um franguinho à cabidela e um conhaque depois!

Oswaldo Sargentelli: É verdade, o Altemar Dutra [(1940-1983) cantor brasileiro que fez sucesso em toda a América Latina cantando boleros] comigo quantas noites, “lalaraiá lalari” [canta].

Silvio Luiz: Bom... E o rato, vai? O rato bêbado...

Oswaldo Sargentelli: O rato apareceu e nós cismamos, bêbados, de não matar o rato. E o rato... Não sei o que deu no rato que ele – coitadinho - ou fugia da gente... Ele não teve saída. Aí ficou no vértice [mostra com as mãos], assim, da parede. De tanto ele se encostar, ele empinou. Juro por Deus! Ficou em pé! Você já viu rato ficar em pé? Nós vimos! Aí o Waldir Azevedo... Coitadinho, num porre danado, bêbado...

[risos]

Silvio Luiz: Bêbado vê qualquer coisa! Bêbado vê rato em pé, jacaré voando, elefante na parede... Vê qualquer coisa!

Oswaldo Sargentelli: Aí, Jorge, o Waldir Azevedo fez um chorinho naquela mesma noite e disse assim: “Sargentelli, e o nome?”. Eu disse: “Camundongo”. Toca até hoje! Toca até hoje.

Alex Solnick: E o ratinho dançava?

Oswaldo Sargentelli: Não, o ratinho se apavorou porque nunca viu três idiotas com medo dele e aí ele se fez de macho. Ele deu uma de Hulk [refere-se ao personagem de história em quadrinhos que é uma espécie de personificação da raiva: um cientista que depois de ser atingido por raios gama, passa a ficar extremamente forte e incontrolável quando fica bravo]! “Já que os caras não me dão um pontapé eu vou ficar em pé!”. Uma gracinha o rato. “Rato, rato, rato. Por que motivo tu roeste o meu baú?” [canta trecho da música "Rato, rato" de Casemiro Rocha e Claudino Manuel Costa, de 1904]. [risos]

Jorge Escosteguy: Sargentelli, o Carlos Miranda - aqui da Vila Mariana [bairro de São Paulo] - queria que você completasse a história sobre o seu pai que você estava contando, se não me engano, antes do intervalo e não chegou a completar.

Oswaldo Sargentelli: Ah, aí eu ia no Largo da Carioca com a minha mãe atravessando e passou um cidadão e disse: “Cuidado com o automóvel”. A minha mãe disse: “Esse é o seu pai”. Aí eu olhei para trás e vi um cidadão alto, de 1m80, cabeça grisalha, bonito assim... E notei: sapato duas cores e um terno HJ120 de linho puro, a minha mãe dizia que ele era muito elegante e tal. Foi a única vez que eu vi e ouvi o meu pai. Uma voz grave... Tanto que quando alguém passa por mim na rua e eu estou com cuidado: “Cuidado com o automóvel”! É o video tape do Leopoldo. Ele deve ter sido exatamente assim... Que ele fazia com as pessoas, fez comigo. Eu tinha seis anos... “Cuidado com o automóvel”. Era o irmão do Lamartine que eu conheci bastante. Esse Lamartine eu conhecia.

Tão Gomes Pinto: Você largou de beber quando?

Oswaldo Sargentelli: Eu vou te contar o que é que eu fiz. Eu deixei de fumar em uma noite em que cismei que não devia fumar mais. Um ano depois eu operei o coração. E... Eu vim fazer uma temporada aqui no Plataforma do [J.] Martins, em Janeiro de 1987 e numa noite, eu tomando minha terceira “dosinha” de uísque - eu morava em um flat no Ibirapuera -. Em chegando... Entre dor de cabeça e gastrite e Magnésia Bisurada e Alcacel sem sal de fruta, eu disse: “Vou abandonar vocês todos, a Alcacel, a Magnésia Bisurada...”. Mas para abandonar isso tudo, eu tinha que deixar de beber e abandonei totalmente essa turma toda e nunca mais tomei. Faz apenas dois anos e meio, mas para quem bebeu por 39 anos, eu acho que vai custar um pouco, não é? Mas eu já deixei, já um bom sinal.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Sente mais falta do cigarro ou da bebida?

Oswaldo Sargentelli: Eu sinto mais falta dos dois. Eu vou te contar! Tem horas... O Botafogo deu no Flamengo de um a zero - aquele gol do Maurício... Chega para lá um pouquinho, assim, na barriga do garoto-. Aquela noite eu olhei para minha geladeira... Tinham dois litros de leite, três garrafas de [água mineral] Lindóia e eu olhei para aquilo tudo e só vi cana [risos]. Então, tudo é a cabeça, entende, querido? Eu bebi aquela Lindóia como se fosse uma [cachaça] 51. Tomei um porre de felicidade! Porque quando você tem vontade, você vê a coisa! Você sabe disso. Bom, nessa idade você ainda não pode.

Kleber Almeida: Então são delírios!

Oswaldo Sargentelli: Só faltou ficar assim um pouquinho.

Silvio Luiz: Ô Sargento, está cheio de empresários aqui. Algum deles já te passou para trás, te deu beiço?

Oswaldo Sargentelli: Eles só me passam para frente! Não... O Abate é um homem que quando me contrata sempre deu certo comigo. O Ed Newton é um homem que me contrata, sempre dá certo; o Fause, que está em casa, é o que mais me aturou até hoje e me atura. 15 anos. Eu sou muito feliz com os empresários. Eles têm que ter paciência comigo, apenas isso.
 
Silvio Luiz: E qual é o percentual deles no momento?

Oswaldo Sargentelli: Olha, se eles não ganharem bem não é bom para mim. Eles têm que ganhar razoavelmente bem, porque eles emprestam um cara que trabalha com 30 pessoas. Sou eu sempre e mais 30; eu e mais 35, eu mais 40. Então, a parte deles é pesada. A cruz que eles carregam não é de isopor. As cidades do interior de São Paulo nos contratam muito. Tem que dar um ônibus de 36 lugares, tem que dar um jantar com 36 bocas, eu tenho crioulo...

[risos]

Sergio Leopoldo Rodrigues: Quem dá mais dinheiro - São Paulo ou Rio de Janeiro - para esse tipo de show seu?

Oswaldo Sargentelli: São Paulo, São Paulo.

Sergio Leopoldo Rodrigues: São Paulo?

Tão Gomes Pinto: Sargento,  quem - dos empresários da noite - você diria que foi o maior no sentido de criar coisas novas, de apresentar...? Carlos Machado [conhecido pela imprensa como "El rey de la noche" foi um dos principais nomes da noite carioca entre o final dos anos 1940 e os anos 1960. Era não apenas produtor de espetáculos musicais, como descobridor de grandes talentos]...

Oswaldo Sargentelli: Olha, na minha infância e, logo em seguida, na minha adolescência, evidentemente foi o Carlos Machado. Eu ia assistir já rapazinho... Entrando para o rádio em 1948, com 23 anos. Em 1948 eu tinha o quê? 24 anos. Nasci em 1923. 25 [anos] e ia assistir a temporada do meu querido Carlos Machado. Era o dono da noite, era o rei da noite. Hoje, para nós assistirmos espetáculo... Hoje nós temos o Abelardo Figueiredo, temos o Chico Recarei - que se apresenta com Maurício Sherman [diretor de televisão que começou sua carreira no teatro de revista. Dirigiu programas famosos nacionalmente como Fantástico, Domingão do Faustão e Os Trapalhões. Além disso, descobriu Angélica nos anos 80, que se tornaria uma das apresentadoras de programas infantis mais famosas a partir de então] - e temos o Jota Martins.

Tão Gomes Pinto: Ele merecia ser enredo de escola de samba, o Recarei?

Oswaldo Sargentelli: Olha...

Silvio Luiz: Você nunca foi?

Oswaldo Sargentelli: Eu fui aqui em São Paulo.

Silvio Luiz: Mas no Rio não.

Oswaldo Sargentelli: Eu nunca fui. Mas "casa de ferreiro..." Não é, meu irmão? Espeto [refere-se ao ditado “em casa de ferreiro o espeto é de pau”]... O Chico Recarei não teve nenhuma culpa de ter sido escolhido. E, depois, o Chico [dizia] “Sargentelli, eu estava com tanto medo, Sargentelli, de ficar em cima daquele carro, aquela coisa”. Tadinho, ele foi pego e colocado ali. Acho até que foi maldade o que fizeram com ele...

Tão Gomes Pinto: Qual foi o grande explorador da noite do Brasil?

Oswaldo Sargentelli: O maior?

Tão Gomes Pinto: O maior explorador no mau sentido. Que tirou da noite o seu sustento, o seu dinheiro, a sua fortuna...

Oswaldo Sargentelli: No mau? Nenhum. Não... O Chico Recarei é milionário, mas o Chico Recarei pertence a um grupo importante. Muitas casas noturnas... E que dá muito trabalho a muito brasileiro, evidentemente. O [Paulo] Veríssimo é o dono aqui do Palladium.

Tão Gomes Pinto: E quem foi o mau patrão, o grande mau patrão da noite?

Oswaldo Sargentelli: Olha, eu nunca... O Ricardo Amaral... O Ricardo Amaral foi um excelente patrão que eu tive. E o J. Martins que, embora eu tenha me despedido no ano passado, num contrato que nós fizemos... Ele mandou uma carta para mim dizendo que o meu ordenado era insuportável diante da folha [de pagamento] dele e que não fizera o mínimo sucesso. Porque ele me contratou em 1987, pensando que eu ia encher a casa dele e, pelo contrário, disse na carta que eu esvaziei. Eu fiquei com muita pena dele, ele me pediu uma contra-proposta mas a minha contra-proposta foi sair. Somos amigos até hoje. Ele ganhou muito dinheiro - e ganha - trabalhando. Foi meu maître, foi maître do Oba-Oba. Não fui eu quem despediu o J. Martins. Foi o meu contador, foi meu advogado, foram os sócios que administravam a casa que... Não despediram o Martins, despediram o sistema. Todo o sistema. Ele isoladamente, não. Mas o meu nome absorve, fica meu nome na porta... Você abre uma casa, Tão, com seu dinheiro, com seu esforço, com seu trabalho e bota “Sargentelli e as mulatas”. Passam na rua e dizem: “Vamos na casa do Sargento?”. Não dizem da sua. Então, esse meu nome absorveu de tal forma que, na hora dos advogados, os contadores e dos diretores da casa despedirem o Manoel, quem despediu foi o Sargentelli. Porque o meu nome está na porta. Então, te respondendo, não tive mau patrão. E não tive patrão a não ser o Ricardo Amaral e o J. Martins, que é muito correto no pagamento dele.

Tão Gomes Pinto: A boate que você sente saudade? Esplanada... Qual é? Qual é a boate do seu tempo?

Oswaldo Sargentelli: Acho que eu vou voltar agora. Ah, o Oba-Oba! O Oba-Oba o Silvio Luis chegou a conhecer.

[risos]

Silvio Luiz: Essa é do meu tempo.

Oswaldo Sargentelli: O Oba-Oba foi a menina dos meus olhos! A imprensa de São Paulo é muito carinhosa. Todos: Giba Um [colunista social e um dos primeiros a ter como tema principal a vida pessoal das celebridades], Chico Lang [cronista esportivo que iniciou a carreira em jornalismo policial, passando por geral e saúde], Arley Pereira [jornalista e cronista especializado em música brasileira], todos muito carinhosos. Eles fizeram da minha casa um ponto de referência do turismo em São Paulo. Eu tenho muita saudade, mas eu não tenho dinheiro para reabrir uma casa igual àquela.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Quanto custa para reabrir uma casa?

Oswaldo Sargentelli: Muito. Os olhos da cara. Caríssimo. Agora não sei.

Sergio Leopoldo Rodrigues: O que é que quer dizer “os olhos da cara”?

Oswaldo Sargentelli: Não sei mais calcular, Serginho. Muito caro, muito. Muito caro. Mil dólares para abrir uma casa dessas. É inviável, haja visto...

Jorge Escosteguy: Sargentelli?

Oswaldo Sargentelli: Perdão, Jorge... Haja vista que, numa cidade como esta - a mais importante da América do Sul -, só há duas casas com espetáculo montado. Palladium e Plataforma. Por que não oito? Por que não seis ou dez? É muito difícil, ouviu, querido? E o Palladium continua se esforçando - e cada vez mais - para manter aquela qualidade ali, aquela coisa impressionante. E o Plataforma - se o Martins não renovar o contrato dele - eu acho que em março ele não ficará mais na Avenida Paulista. Já está me parecendo, se transportando para o Rio de Janeiro já na próxima temporada de verão. Então, pelo visto, aquilo ali é de um clube que deverá fatalmente estar vendendo a sede deles. Por uma fábula. É um clube ali na Paulista, o Aletto. Tradicional clube, querido clube. Para mim, vai desaparecer - em março - mais uma casa noturna em São Paulo. Eu vou abrir a minha pequenininha. Vou! Pequenininha. Não é minha, é do Galdino. Não é minha, é de um amigo meu, mas ele vai iluminar o meu nome na porta e a casa vai ser do Sargentelli!

Jorge Escosteguy: Sargentelli, o Cláudio aqui do Paraíso - em São Paulo - diz que antes de você ser operado do coração, você teria escrito uma carta para uma pessoa...

Oswaldo Sargentelli: Milton Peruzzi [cronista esportivo].

Jorge Escosteguy: Pedindo que, se acontecesse algo com você, para cuidar da sua filha. Por que você escolheu essa pessoa e o que ela representava para você?

Oswaldo Sargentelli: Eu não estava preparado para operar o coração. Eu não suporto tomar injeção e os homens disseram que eu tinha que abrir o tórax e fazer anastomose [cirurgia que junta vasos sangüíneos] da minha aorta mamária. Eu fui descobrir que troço era esse. Era abrir o externo, tirar o relógio, botar em cima de uma bancada e fazer uma anastomose. Eu tinha uma obstrução coronariana da ordem de 90%. Estava morrendo e não sabia. Até me lembrei do samba do Ataulfo [Alves. Sambista que escreveu, dentre tantos sucessos, as músicas "Ai, que saudade da Amélia" e "O bonde de São Januário]:”Eu era feliz e não sabia...” [canta trecho de "Meus tempos de criança].

[risos]

Silvio Luiz: Pensei que fosse em mim de novo, poxa!

Oswaldo Sargentelli: Envelhecer é uma coisa linda. É um texto tão simpático! Ô Silvio, você é uma lição de vida, rapaz!

Silvio Luiz: Chega, pô! Eu sei que eu sou, mas não precisa lembrar toda hora, não é? Vamos lembrar de vez em quando!

Oswaldo Sargentelli: Desculpe, na próxima vez vou fazer com o Sergio, com a Maria Amélia, que são brotos aqui em nossa volta! [risos] Então, querido, eu escrevi sim essa carta. Porque a Waleska tinha muito pouca idade. Faz isso... Faz 13 anos. Eu estou com 66, eu tinha 52 anos quando eu operei o coração e a minha filha tinha o quê? Dez. A Waleska. E ,nas cartas todas que eu escrevi lá de Cleveland [Estados Unidos] - aí fui para lá, porque os médicos brasileiros me levaram. Se me tivessem dito na época que o menor índice de mortalidade era na Freguesia do Ó [bairro de São Paulo], eu teria operado aqui na Freguesia do Ó -. Eu fui para onde me levaram, não entendo... Em Cleveland. Na época, o índice de mortalidade era mínimo. 1,8%. Ainda perguntei quando cheguei lá, Sergio. Eu perguntei para o médico: ”Sambou alguém esse mês, doutor?”. Ele me olhou espantado. “Porque se não morreu, eu não vim aqui para estragar suas estatísticas, não!” [risos]. Quando ele traduziu, riu! Até se mijou de tanto rir. Doutor Floyd Loop. E esse doutor Floyd Loop me operou. E, em chegando ao Brasil, pulando lá na boate, as pessoas iam com problema em casa, Maria Amélia. O avô enfartado, a avó com coronária obstruída, a mãe com um enfarte. Então iam na minha boate querendo saber que médico tinha me operado. Isso é muito natural. Eu passei, de repente, que se eu cobrasse comissão, estava rico! Quer dizer, “Doutor Floyd Loop, minha senhora, em Cleveland”. “Ah, seu Sargentelli, me dê o endereço...”. Eu levei seis anos dando o endereço. E o Floyd só recebendo os brasileiros. Mas foi para lá João Figueiredo [presidente da República de 1979 a 1985] - meu irmão -, foi para lá o da Petrobrás... Foi o Heitor, como é? Não o que foi... Ô, meu Deus! Foi ministro... O Heitor... Como era? Heitor Beltrão [economista que foi ministro do Planejamento e da Previdência Social durante a  ditadura militar]! Ô Helio, desculpe! O Heitor era o pai! Mas eu sou do tempo do pai, também. Eu, o Silvio... [risos] Hélio Beltrão foi ministro do Exército da época, o Waldir [Pires. Político que, dentre outros cargos importantes, foi governador da Bahia]. Foi o Adolfo Bloch [um dos principais nomes da imprensa e televisão no Brasil, dono do grupo Bloch Editores, fundador da revista Manchete e da rede de televisão Manchete] e foi o meu médico, também.

Tão Gomes Pinto: Você pagou a conta lá em Cleveland ou alguém pagou?

Oswaldo Sargentelli: Eu paguei. Me deram o troco e eu perguntei assim: “Então, e a garantia?”. Eles disseram: “15 anos”. Faltam dois. Eu ando preocupado porque eu ouço muito o Fantástico [programa exibido aos domingos pela Rede Globo desde 1973] para ver se eles inventam, no domingo, algum treco. Aquele programa de remédio... Aquele inventa logo. [risos] Olha, o Itamar de Freitas [jornalista que assumiu a direção-geral do Fantástico em 1977] é meu irmão, eu amo o Itamar. É o mais velho programa da televisão brasileira e em minha opinião ele é perfeito porque ele tem de tudo. Você, ali, assiste tudo. Eles dão um show inusitado! É o show da vida.

Silvio Luiz: Em matéria de farmácias eles estão contentes! [risos]

Oswaldo Sargentelli: Mas eles têm uma farmacologia extraordinária, então eu estou preocupado em saber se os japonêses, os chineses, os russos, os americanos vão inventar um treco para superar essa minha garantia. Porque quando eu paguei a conta, eu disse: “Doutor, e a garantia?”. Ele disse 15 anos. Eu operei em 1976, façam as contas.

Jorge Escosteguy: E a carta? A história da carta você acabou não completando...

Oswaldo Sargentelli: Então, eu escrevendo lá as cartas todas - eu fiz muitos bilhetinhos para várias pessoas -, eu fiz uma dizendo: “E você, pelo amor de Deus, segure a Waleska! Seja da Waleska o que eu tenho sido, pelo amor de Deus”. Só que, graças a Deus, eu rasguei todos esses bilhetes, mas alguns o Correio chegou a mandar. Mas, graças a Deus, a correspondência foi a correspondência mais prejudicada da minha vida [risos]. Não valeu nada porque eu voltei. Eu estou aqui.

Jorge Escosteguy: Sargentelli, depois de tantos anos de sucesso, o Eduardo José Dias - aqui do bairro do Aeroporto, em São Paulo - quer saber se você ainda tem grandes objetivos. E, eu acrescentaria, qual é o tipo de show que você gostaria de montar e não conseguiu montar, ainda hoje?

Oswaldo Sargentelli: Eu não monto porque eu não tenho dinheiro, mas eu estou procurando quem monte. Eu estou com uns empresários montando um espetáculo que se chama Quem tem boca vai a Roma com as louras, as morenas e as mulatas, uma orquestra brasileira. Mas o cenário - viu, Sergio? -, o guarda-roupa, querido, é uma coisa! É uma fábula!

Sergio Leopoldo Rodrigues: E quem é o perfil do empresário que investe nisso? Você pegaria um empresário... Por exemplo, um industrial, um empresário... Um dono de banco investiria num show de mulatas, por exemplo?

Silvio Luiz: Isso aí não sai na Lei Sarney, não?

Oswaldo Sargentelli: Não, a Lei Sarney é boa.

Silvio Luiz: Mas não sai esse negócio? Esse tipo de coisa não sai?

Oswaldo Sargentelli: Poderia sair, eu já... Mas eu não me dei bem porque eu tentei... Ou eu fui mal orientado ou não fizeram direito, mas é uma boa lei que, bem aplicada, ela é realmente boa. Inegavelmente, você sabe.

Silvio Luiz: Por isso que eu estou perguntando se esse tipo de espetáculo não pode sair na Lei Sarney?

Oswaldo Sargentelli: Pode. Sim!

Silvio Luiz: Você com a tua firma, bota aí.

Oswaldo Sargentelli: Eu vou pedir licença ao Jorge, não sei se vou fazê-lo convenientemente. Como de administração eu não entendo. Eu entendo um pouquinho, Tão, de vontade de fazer show. Eu tenho uma vontade sempre danada de reunir gente bonita. São as moças e rapazes que tocam, brasileiros e que... Ritmistas e cantores. Você vai me permitir, porque isso vai ficar na minha história. Estou com 66 [anos], deixa eu fazer... Eu nunca tive essa oportunidade. Eu vou deixar um telefone aqui no teu programa, Jorge, que é o telefone da minha casa, onde eu moro. Se algum espectador, telespectador achar conveniente me procurar para que a gente possa, com os empresários, conversar a respeito. Porque é um projeto... Ainda hoje a esposa de um empresário disse: “Sargento, vá à minha casa”. Hoje! Antes de vir para cá a Lu Barbosa me disse: “Vá à minha casa para que coloquemos no papel os números que você não está dando. Da gaze, do algodão, do que for necessário, do chapéu, do sapato. Vá a minha casa e vamos escrever no papel”. Porque quando a gente bate à porta de um empresário, ele sempre pergunta: “Quanto custa isso? Você nunca sabe, Sargento?”. Que essa parte simplesmente, Maria Amélia, não é minha. Eu não sei o preço da sandália, eu só sei que é muito cara. Eu não sei o preço da peruca, eu sei quem é que dança, se a Sonia Maria é feia ou bonita, eu sei se o Ditinho toca ou não toca trombone, se o Jericó é um pistão extraordinário. Isso eu entendo! Se Jane, a minha cantora, canta ou não canta. Mas quanto custa o vestido da Jane, não sou eu! A Lu está interessada. Então o telespectador, de repente, diz: “Olha, sei lá, fui com a cara do cara!”. Sei lá, é questão de pele, olho. Esse teu programa pode ter sido... Não sei o que possa acontecer depois de acabar o programa - eu pedi a muita gente para gravá-lo. Eu vou fazer depois, também, a minha censura: “Ih, Sargentelli, que vergonha! Olha o que você fez!”. Mas, de repente... Desculpa, Serginho, de repente vai ficar qualquer coisa realmente muito boa para mim. Vocês hão de convir que eu estou desabafando, estou pondo para fora. Aliás, se eu fosse mais supersticioso do que eu sou, eu sairia daqui encucado hoje. Por que é que vocês, de repente, passaram a me procurar tanto? [risos] Mas não sou. Olha, não sou, mas que eu vou encucar...

Silvio Luiz: Está faltando para cair ainda, está faltando para cair duas pecinhas, três! [refere-se às pontas do crucifixo]

Oswaldo Sargentelli: Se você me permitir então, Jorge, eu vou deixar um telefone. De repente um [Antônio] Ermírio de Moraes [empresário, presidente do Grupo Votorantim e político brasileiro]  fala para mim. De repente o Bradesco fala para mim. O  [Amador] Aguiar [fundador e presidente do Banco Bradesco até sua morte em 1991] não usa meia - eu até mexi com ele um dia na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro -. Ele não usa meia, todo mundo aprecia. Eu aqui estou duro... Bom, quando não boto meia, pode até estar mal não usar meias, mas de repente, então, se aparecer...

Jorge Escosteguy: Sargento, está começando, está quase no fim.

Oswaldo Sargentelli: Então, querido, pelo amor de Deus, deixa eu dizer o número! 533-0077. Eu juro por Deus, querido, que se algum telefonema na minha casa houver, que seja o caminho.

Sergio Leopoldo Rodrigues: Parece telefone de hospital!

Oswaldo Sargentelli: É parece! Pronto-socorro!

Sergio Leopoldo Rodrigues: Gaze e algodão! Ele olhou para mim aqui, eu disse... Quando você falou gaze e algodão, ele olhou para mim como se falasse “ele está querendo fazer um show de ver médicos?”!

Oswaldo Sargentelli: Parece um protocolo! 533-0077. Te confesso, Jorge, que, mesmo à revelia, eu virei aqui para contar a vocês, o outro lado da história e “Olha, lembra-se daquele dia do 533-0077? Estamos todos indo todos para a Itália fazer, afinal, o nosso show”.

Jorge Escosteguy: Está ótimo, Sargentelli!

Oswaldo Sargentelli: É uma questão de cultura, né? E eu estou nela. TV Cultura.

Jorge Escosteguy: Desculpe interrompê-lo, mas o nosso tempo, infelizmente, está esgotado. Nós agradecemos a sua presença aqui, esta noite, no Roda Viva; agradecemos a presença dos nossos convidados jornalistas e aos telespectadores que telefonaram. Como sempre, não foi possível fazer todas as perguntas, mas elas serão entregues ao Sargentelli. O Roda Viva fica por aqui e volta na próxima semana, na próxima segunda-feira, às nove e meia da noite. Uma boa noite a todos e até lá.

As mulatas choraram a partida do Sargento em 12 de abril de 2002.

Sobre o projeto | Quem somos | Fale Conosco