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Wanderley Luxemburgo

27/5/1996

Técnico que fez do Palmeiras uma máquina de fazer gols fala de sua filosofia, de uma eventual participação na Seleção e defende-se de acusações de assédio sexual

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Matinas Suzuki: Boa noite. Ele fez do Palmeiras uma máquina de fazer gols. No meio campo do Roda Viva está o técnico Wanderley Luxemburgo.

[Comentarista. Narração Lia Benthien]: Carioca, 44 anos. Wanderley Luxemburgo é personagem de uma história de sucesso rara. Ainda mais na profissão de técnico de futebol. Não faz muito tempo, era lateral esquerdo do Flamengo, jogando ao lado de Zico e defendendo as cores do clube do coração. Vestiu ainda as camisas do Botafogo e do Internacional de Porto Alegre. Foi ser assistente técnico de Antonio Lopes, no pequeno Olaria [Olaria Atlético Clube, criado em 1915. Obteve o título de Campeão da série C do Campeonato Brasileiro em 1981], do Rio de Janeiro. De lá até ao primeiro título na Arábia Saudita se passaram apenas cinco anos. Mas foi em São Paulo que o nome Wanderley Luxemburgo ganhou fama. No Bragantino, recebeu a faixa de campeão brasileiro da segunda divisão em 1989. Um título mais significativo viria no ano seguinte. O Bragantino é campeão paulista na final contra outro time do interior: o Novo Horizontino. As campanhas vitoriosas credenciaram Luxemburgo para um desafio maior: dirigir o Flamengo. Durou sete meses e com final amargo. Voltou para São Paulo, dirigiu o Guarani e a Ponte Preta. Colocou a Ponte de novo na divisão principal do futebol paulista.  Disciplinador e ousado, qualidades que levaram o Palmeiras a escolher Luxemburgo para vencer o desafio de tirar o clube de uma fila de 16 anos, Wanderley Luxemburgo conseguiu o que outros 32 técnicos apenas tentaram. Em 1993, o Palmeiras foi o melhor em todos os campeonatos que disputou: o Paulista, o Brasileiro e o Torneio Rio-São Paulo. Em 1994, repetiu a dose: bi-Estadual e do Brasil. O sucesso não impediu o desgaste. O treinador se transferiu para o Flamengo, de Romário. Aí, uma parada dura, Luxemburgo acabou de mala e cuia [foi demitido] no Paraná Clube. O trabalho novamente chamou a atenção da diretoria do Palmeiras, que não teve dúvida: chamou-o de volta. Foi a vez do Brasil inteiro ficar de olho numa máquina de fazer gols. Falta apenas um [gol] para o Palmeiras chegar à marca dos cem gols no Campeonato Paulista. Um índice só comparável ao Santos de Pelé. A nova Academia Alviverde tem quatro dos seis artilheiros do campeonato, e em 28 jogos empatou duas e perdeu apenas uma. Mas, no meio dessa festa, Wanderley Luxemburgo deixa o noticiário esportivo para figurar nas páginas policiais dos jornais. Em Campinas, é acusado de assédio sexual pela manicure Cláudia Cavalcante. O treinador nega a tentativa de seduzir a moça, que o atendeu no apartamento do hotel. Na semana passada, outra denúncia de assédio. Agora, uma menor, ex-aluna da escolinha do jogador do Corinthians, Marcelinho Carioca. Luxemburgo deixa tudo nas mãos da Justiça. Enquanto isso, a torcida palmeirense já comemora mais um Campeonato Paulista. No próximo domingo, basta um empate contra o Santos, no Parque Antárctica, para que Wanderley Luxemburgo seja aplaudido mais uma vez como o grande vencedor.

 Matinas Suzuki: Bem, para entrevistar o Wanderley Luxemburgo esta noite nós temos aqui a presença elegante do Rogério Fasano, que é palmeirense, proprietário do Restaurante Fasano; o jornalista Sidney Mazzoni, editor-assistente de esportes do Jornal da Tarde; Luiz Alfredo, narrador da Rede Record. Maria Amélia Rocha Lopes, editora-chefe do programa Metrópolis, da TV Cultura de São Paulo; Marcelo Duarte, diretor de redação da revista Placar; Melchiades Filho, editor de esportes da Folha de S.Paulo.  Lembro a você que o Roda Viva é transmitido em rede nacional, com 150 outras emissoras de 21 estados brasileiros. [...] Boa noite, Wanderley.

Wanderley Luxemburgo: Boa noite, Matinas, boa noite a todos. É um prazer muito grande participar do programa.  Já participei um tempo atrás e é uma grande oportunidade de trocarmos idéias e vocês ficarem sabendo do trabalho que executamos.  É bom passar para o público isso.

Matinas Suzuki: Wanderley, a torcida do Palmeiras já pode comemorar o título paulista ou [por causa de] esse pontinho [que falta] ainda você acha que é preciso segurar, um pouco, a comemoração?

Wanderley Luxemburgo: Matinas, eu trabalho com os jogadores em cima de uma realidade. Eu não minto para eles com respeito ao nosso trabalho. Eu sempre falo aquilo que está acontecendo. O que está acontecendo é que no Palmeiras, nós planejamos, fizemos todo um projeto, objetivos a serem conquistados, e fomos por etapas. E no último jogo, contra o América [o Palmeiras venceu por 0 a 1], na preleção, falei para eles que nós tínhamos adquirido uma vantagem muito boa na competição, jogando com o Botafogo em casa e o Santos perdendo para o XV de Jaú. Então, ficaram seis pontos de diferença. Seria importante ganharmos do América para aumentar a vantagem e [ao] ganhamos do América a vantagem aumentou. Mas a realidade é que o Palmeiras, matematicamente, não conquistou o título. Então, nós temos que ter os pés no chão. Nós temos uma vantagem – não posso enganá-los –, mas que conquistou, não conquistou. Então, acho que a torcida, a imprensa, tem o direito a torcida à emoção, e a imprensa noticia fatos. A imprensa acha que o Palmeiras já ganhou o campeonato, a torcida está comemorando, mas nós não. Nós estamos tranqüilos sabendo que ainda falta uma etapazinha a ser cumprida. Está próximo. Nós temos uma grande vantagem, mas vamos buscar em cima daquilo tudo que fez o Palmeiras adquirir a vantagem.

Matinas Suzuki: Wanderley, antes de chegar no [jogo contra o time] do Santos [o Palmeiras venceria por 2 a 0], você passou por uma parada duríssima. Há quem diga que talvez esteja em confronto os dois melhores times do Brasil, que seria o Palmeiras e o Grêmio. Tem um jogo válido aí, e é um jogo praticamente decisivo. Quer dizer, são 180 minutos, é a primeira fase desses 180 minutos. Como você vai trabalhar esse elenco do Palmeiras essa semana para dois jogos praticamente decisivos nesse primeiro semestre? [Diz "jogo de 180 minutos" para partidas classificatórias, disputadas em jogos de ida e volta, cujo time classificado é aquele que somar o maior número de gols nos dois jogos].

Wanderley Luxemburgo: Eu tenho trabalhado durante a competição. No primeiro semestre, temos que trabalhar no sentido de [nos] dividir. A hora que entramos na Copa do Brasil, o pensamento é só Copa do Brasil. Voltamos ao Campeonato Paulista e é só Campeonato Paulista. Então, acabou o jogo em Rio Preto, já reuni os jogadores e falei: “agora, vamos viver a expectativa da Copa do Brasil”. É um jogo – como você falou bem – de 180 minutos. Nós não podemos achar que vamos decidir a classificação, como todo mundo está falando, que nós temos que ganhar de três, quatro aqui, para levar uma vantagem muito grande para lá de número de gols, para que o Grêmio não supere a gente. Não é por aí o caminho. São duas grandes equipes, que se respeitam, que têm grandes jogadores. E todas essas duas equipes podem conquistar resultados na casa do adversário. Como o Grêmio pode vir aqui conquistar resultado, como o Palmeiras pode ir ao Sul e conquistar resultado. O importante é buscar resultados em cima daquilo que estamos acostumados a trabalhar, respeitando a equipe do Grêmio, pela grandeza do Grêmio e pela qualidade da equipe. Mas, em momento algum, queremos decidir o jogo nos noventa minutos aqui. Nós temos 180 minutos para decidir não o jogo, decidir a classificação. Acho que nós temos que separar muito bem isso. [O Palmeiras venceu o primeiro jogo, em casa, por 3 a 1. No jogo de volta, foi derrotado por 2 a 1, classificando-se para  a fase seguinte]

Maria Amélia Rocha Lopes: Wanderley, eu queria te fazer uma pergunta: você usa muito neurolingüística com os jogadores do Palmeiras; e com tudo isso, a gente percebe que você tem uma preocupação com o lado emocional, também, do atleta. Agora, essas coisas que estão acontecendo com você, saem duas páginas numa revista de projeção nacional, na revista Veja, falando de assédio sexual. Como você trata essa questão? Como os seus jogadores... De que maneira eles se sentem afetados por isso também? Uma vez que você também deve estar afetado com essa história, eu penso. E eu queria também que você falasse, você respondesse sobre isso. Você já disse que realmente é inocente, não precisa provar nada. Mas aí já está aparecendo um segundo caso, e essa é uma boa oportunidade para você falar a esse respeito.

Wanderley Luxemburgo: Não resta dúvida. Vamos por etapas. Emocional, é muito importante que você esteja preparado...

[...]: [interrompendo] E é até bom, porque foi uma mulher que fez essa pergunta, né, Luxemburgo?

Wanderley Luxemburgo: Claro! Não resta dúvida. O emocional, se você não estiver preparado, equilibrado emocionalmente, você não consegue realizar nada. Não adianta treinar os meus jogadores diuturnamente para que eles possam estar bem preparados, física e tecnicamente, se emocionalmente eles não vão estar preparados e não vão conseguir jogar, não vão conseguir realizar. Então, você tem que equilibrar os jogadores, mostrar a realidade para eles, trabalhar em cima de uma verdade única. Não adianta você ficar criando alternativas para eles, que eles cheguem para você e te questionem a respeito delas. E estar sempre o jogador motivado, encontrar motivação para que ele possa entrar dentro do campo e se motivar para render. A parte emocional é muito importante. Meu trabalho na preleção, eu faço uma preleção de ordem psicológica, buscando esse equilíbrio; e a outra, parte tática. Então, a gente trabalha muito em cima disso. Eu converso muito com a Suzi Fleury, que é uma pessoa que trabalha com a neurolingüística, psicóloga, muito amiga. Nós trocamos idéias para seguir um caminho que eu possa passar para os jogadores, e tenho passado muito isso para eles. E o outro fato, lamentável na minha vida, mas que não altera a minha maneira de ser e de trabalhar. Surgiu um fato, um episódio na minha vida, que eu vou ter que viver com ele, está certo. E como eu falei desde o início, que eu sou inocente. Não tenho nada a temer. Eu tenho que separar as coisas. Aconteceu, o Wanderley Luxemburgo, ser humano, fica aqui, e o profissional vai para o outro lado. Então, eu estou conseguindo separar muito bem isso, deixando esse processo todo, essa coisa toda que foi criada para os meus advogados resolverem. Eu não sou advogado, eu fui acusado, eu sou inocente, quem tem tomar conta desse assunto é o meu advogado. Eu não posso tomar conta, sou técnico de futebol. E a hora que eu saio dali - como eu tenho a minha cabeça tranqüila, está certo? - eu vou para os meus jogadores e faço o nosso lado profissional. Eu não posso, em momento algum, deixar essa parte penetrar no meu lado profissional.

Maria Amélia Rocha Lopes: Quer dizer, ninguém comenta nada a respeito? Dentro do Palmeiras? Nem um jogador? Ninguém teria coragem, digamos, de comentar?

Wanderley Luxemburgo: Teriam, com certeza. Mas é o que eu falei para você. Até foi bom você tocar nesse assunto, porque em momento algum eu quis barganhar ou quis que a coisa ficasse parada, como as pessoas falam: “É o Wanderley Luxemburgo, então, vamos acomodar para não sair nada”. Não, em momento algum. A partir do momento em que aconteceu o problema, que apareceu o delegado, os investigadores, o delegado querendo prestar depoimento... Não, vamos prestar depoimento. Qual o problema? "Vai noticiar". Não tem problema nenhum. Eu não tenho o que temer. Eu sou inocente. Até eu estava lendo na revista Veja mesmo, a Camila Paglia, ela me colocando como se eu fosse de repente um símbolo para o Brasil, [risos], que eu cheguei no Parque Antarctica e fui ovacionado. Mas ovacionado por quê? Eu tive foi o carinho da torcida que me conhece. Eu não quero ser ovacionado por uma coisa que eu não fiz.

Maria Amélia Rocha Lopes: [interrompendo] Agora, você não...

Wanderley Luxemburgo: Deixa eu concluir minha linha de raciocínio. Então, quer dizer, saiu lá nos Estados Unidos que o Wanderley Luxemburgo seria preso, processado. E aqui no Brasil mostrou que é um machão, que foi ovacionado. Muito pelo contrário, não quero esse tipo de apoio. Eu quero o seguinte, que a justiça seja feita, só isso...

[...]: [interrompendo] O que você acha que levou...

Wanderley Luxemburgo: Só concluindo meu raciocínio, tá?! A justiça seja feita. Então, eu sou inocente. Não tenho o que temer. Tem que ir nesse caso até o final. Tem que ir até o final, não pode parar, tem que se levar até o final. E a Camila Paglia fala que, de repente, eu fui considerado assim, que a torcida ovacionou por eu ter... Não, não quero isso. Eu acho que a pessoa que fez isso tem mais que ir até o final e provar, se ela for culpada, ela tem que ser presa, ela tem que pagar por aquilo ali.  Eu quero que vá até o final.

Marcelo Duarte: O que motivou ela a procurar a polícia, te acusar? Na coluna de Juca Kfouri ele colocou: "Ou é um caso de assédio ou é um caso de extorsão". Você acha que ela está pensando em alguma forma de te chantagear com isso?

Wanderley Luxemburgo: Não sei, você tem que perguntar para ela. Não dá para eu pensar por ela, não é verdade? Tem que perguntar para ela, não dá para eu te responder isso.

Marcelo Duarte: Mas você deve ter pensado nisso, né?

Wanderley Luxemburgo: Não, não posso pensar.

Marcelo Duarte: Não, não. Pensar o que leva uma pessoa a acusar outra pessoa.

Wanderley Luxemburgo: Eu não tenho que estar preocupado com o que ela possa ter pensado. Eu não tenho que ter esse julgamento. Eu sou inocente, me acusaram; eu tenho que estar preocupado com o que passou na cabeça da pessoa? Não sou eu que tenho que estar preocupado.

Melchiades Filho: Wanderley, quanto à sua família, você tem três filhas. Como você contou esse incidente para elas? Como elas reagiram? E se elas tiveram liberdade para comentar esse caso com você ao longo dessas duas semanas.

Wanderley Luxemburgo: Olha, foi boa, foi boa. No dia em que aconteceu, a minha família ficou sabendo de imediato. “Olha aqui, aconteceu isso aqui, vai ser noticiado isso aí.” E o apoio. São 24 anos de casado. A minha esposa e as minhas filhas sabem quem eu sou. Em momento algum eu quis que fizessem qualquer tipo de coisa para acobertar, para poder parar. Não, tem que deixar a coisa seguir normalmente. Então, ela está seguindo normalmente. Estive ontem no Rio de Janeiro com a minha família, com as minhas filhas, normalmente. Em momento algum estremeceu, muito pelo contrário. Isso aí mostrou que eu casei com a pessoa certa, que eu tenho os filhos certos, porque me deu uma noção exata do que é ser uma família, quando ela é muito bem firme, muito bem segura.

Sidney Mazzoni: Wanderley, quem te acompanha já há algum tempo percebe que depois disso que aconteceu, seu semblante está mudado. Você me parece uma pessoa mais compenetrada. Você, no dia que recebeu a imprensa no CT [Centro de Treinamento] do Palmeiras, estava com os olhos vermelhos, dando a impressão que estava muito tenso e tinha até chorado. Você sabe, assim como eu sei, e como todos nós sabemos, que essa é uma cicatriz que jamais vai ser apagada. Você vai levar isso para o resto da sua carreira. Em quê isso... você que é um treinador que sempre se notabilizou pelo comando da sua equipe, você exerce o comando, pelo menos sempre fez assim no Palmeiras, você acha quê, de alguma forma, isso vai afetar o seu relacionamento futuro na cobrança dos jogadores, no comportamento deles extra-campo?

Wanderley Luxemburgo: Acho que não. Acho que você está equivocado. Não vai ficar uma cicatriz, porque fica a cicatriz quando você é culpado de alguma coisa. Quando você não é culpado, não fica cicatriz nenhuma, está certo? E só o tempo vai mostrar. Hoje, você me perguntar isso, não dá para você falar que vai ficar uma cicatriz. Hoje, existe a notícia de um fato, não é verdade? Do jeito que você está falando, de repente, você já está falando que eu sou culpado de uma coisa que ...

Sidney Mazzoni: [interrompendo] Não, não disse que você é culpado.

Wanderley Luxemburgo: Não, então, deixa eu falar. Mas do jeito..., a cicatriz que vai ficar. Eu acho que hoje todo mundo discute isso, normal. A imprensa noticia fatos para dar repercussão, está certo? Então, eu acho que vai ficar uma cicatriz, porque o tempo, como eu fiz questão que a coisa vá caminhar e eu sou inocente, o tempo vai mostrar a verdade. E a outra é o seguinte: se tivesse que acontecer alguma coisa com certeza já teria acontecido. Agora, não resta dúvida, você ser acusado de uma coisa que você não fez, você ficaria normal?

Sidney Mazzoni: Não.

Wanderley Luxemburgo: Ah, então está certo.

Sidney Mazzoni: O Cafu te procurou para te manifestar solidariedade em nome do grupo?

Wanderley Luxemburgo: O grupo me respeitou muito. Eles sabem quem eu sou. Em momento algum eu vacilei com eles, em momento algum eu vacilei com [o meu] grupo. Aquilo que eu cobro deles, eu estou junto com eles. Então, eu fui muito respeitado pelo grupo, porque eu passo respeito para eles. Porque tem uma coisa, que é a minha de vida, dignidade você não compra na farmácia, porque não é doença. Você nasce com ela ou não.

Matinas Suzuki: Wanderley, você acha, e aí eu queria te deixar absolutamente à vontade para responder sobre isso, você acha que a imprensa exagerou nesse caso? Você acha que há fatos que não teriam...

Wanderley Luxemburgo: A imprensa, Matinas, ela trabalha do jeito que tem que trabalhar. Eu não posso censurar a imprensa, porque minha área é o futebol, sou técnico de futebol. Vocês são profissionais: estão ali para noticiar. Então, não acho que a imprensa não tinha que ter noticiado. Tinha que ter noticiado. Foi um fato com o Wanderley Luxemburgo, que aconteceu, repercutiu. É normal isso. E então, dá uma noção exata da importância do Wanderley Luxemburgo, [do] crescimento do Wanderley Luxemburgo, então, eu não tenho nenhuma... Só acho o seguinte: de repente, no segundo episódio, eu acho que a coisa foi equivocada, mas a imprensa noticiou. Por exemplo, apareceu uma moça lá em Campinas, sem uma cédula de identidade, sem nada, e que foi prestar depoimento, está certo? Sem saber, noticiaram. E aí? Não é verdade? E essa moça, que foi lá em Campinas, ela está sempre no centro de treinamento, pede as coisas para os jogadores, pede as coisas para todo mundo lá, está lá sempre. Então, repercutiu, vai fazer o quê? Eu respeito a imprensa dessa forma. Não sou eu que vou censurar a imprensa de trabalhar nisso ou naquilo. Ela está aí para isso.

Luiz Alfredo: Wanderley, Wanderley, você hoje é uma personalidade, e eu não quero com a minha pergunta truncar esse processo de informação que está se desencadeando com esse fato, que chamou muito mais atenção. Mas eu tenho uma curiosidade em relação à sua própria vida. Quer dizer, essa caminhada do Wanderley, [de] razoável lateral esquerdo, depois auxiliar técnico de um técnico sem muita expressão, delegado de polícia que se tornou um técnico, Antonio Lopes, [um] estudioso. Depois você se meteu em negócio de comércio para ver se ganhava um pouco mais de dinheiro, parece que até carro quebrado, batido, você comparava e revendia e tal. Acho que foi desenvolvendo um certo Wanderley nisso aí. Só que hoje, na minha opinião, você é o responsável pelo melhor time do mundo. Eu dificilmente vou me esquecer desse Palmeiras. Enquanto o Rogério [Fasano, palmeirense entre os entrevistadores]vai se recuperando da emoção de ouvir isso, eu acho que você construiu, com seres humanos, uma obra de arte, você fez uma obra de arte. Eu vejo o Müller, por exemplo, que é um jogador, que era um artilheiro daqueles... - mesmo que coletivo -, mas daqueles que ficavam esperando o time jogar por ele. Você o transformou, você pegou o avesso do Müller e o transformou num jogador, no melhor servidor de passes e de gols do futebol brasileiro, num fenômeno, aos trinta anos de idade. Fez esse super Palmeiras. Nessa caminhada, até o auge da fama... quando você, de repente, talvez vivendo o maior momento da sua vida, não é? De ter tido o privilégio e o talento de montar o melhor time do mundo. [E] leva uma paulada dessas. Como está a vida do Wanderley?

Wanderley Luxemburgo: Luiz, está normal, isso faz parte da vida. Eu tenho que estar preparado para tudo. Eu sou uma pessoa pública, que vai ter momentos bons e momentos ruins. Estava tudo muito bom e, de repente, esse percalço veio e está aí. Mas, em momento algum eu mudei o meu comportamento. Se você falar assim: “Wanderley você está triste?” Claro. Eu sou inocente de alguma coisa [que fui acusado]. Então, eu não vou estar triste? Por que eu não vou estar triste? Claro que eu tenho que estar. Mas só que eu separo bem esse lado meu de tristeza, como ser humano, com o lado profissional. Nada vai impedir que o Palmeiras possa seguir nessa caminhada. Ele está em busca do título paulista e em busca do título da Copa do Brasil. E eu sou o comandante desse grupo.

Luiz Alfredo: E você viu o Ajax e Juventus?

Wanderley Luxemburgo: Então, eu sou o comandante desse grupo.

Luiz Alfredo: Você acha que o Palmeiras é melhor que os dois?

Wanderley Luxemburgo: Não, deixa eu concluir. Eu, como comandante desse grupo, a partir do momento que eu não tiver equilíbrio, o grupo não vai ter equilíbrio. Então, como o [Sidney] Mazzoni me perguntou, se o grupo... Em momento algum eu perdi o comando, muito pelo contrário, eu continuo com o comando porque eles sabem quem sou eu, está certo? Agora, se falar: "Wanderley, você é um homem triste?" Estou triste pelo episódio, porque eu sou inocente, aconteceu uma coisa. Então, claro que eu sou uma pessoa que fiquei triste. Agora, quando você entra para o lado profissional, acabou.

Luiz Alfredo: Mas é uma ironia, um timaço desse e um momento desse, né?

Wanderley Luxemburgo: Mas eu acho que... Vai fazer o quê? Isso faz parte da vida. Os percalços acontecem. Os obstáculos aparecem na sua vida e você tem que ultrapassar os obstáculos.

Rogério Fasano: Falando de futebol um pouco, com essa história do melhor time do mundo e tudo. Eu, como palmeirense, lógico, estou muito feliz com essa gestão Palmeiras-Parmalat [multinacional italiana que manteve contrato de parceria com o Palmeiras de 1992 a 2000]. Agora, já que o grande problema dos clubes brasileiros era a manutenção de um time por pelo menos três temporadas, que é o que criava realmente a identidade do torcedor [com o] time... Lembro do Palmeiras da Academia. Quer dizer, era uma coisa que foi muito marcante, como eram os times de um tempo atrás, onde você ficava com o mesmo time cinco, seis anos. Você não acha que, agora, já que está provado que foi um sucesso essa gestão, não poderia se conseguir o compromisso da manutenção de um time por pelo menos três campeonatos? Aí sim poderia dizer se esse time é, de fato, o melhor time do mundo ou [ainda] se ele é comparável ao Santos do Pelé, ou ao Palmeiras da Academia. Porque eu acho uma judiação, daqui [há] dois meses já é outro time e a gente não consegue criar realmente essa identidade.

Matinas Suzuki: Rogério, o Artur Alves dos Santos, que apesar do sobrenome deve ser palmeirense lá de Taubaté, faz a mesma pergunta: se vocês não estão trabalhando para manter esse time do Palmeiras pelo menos para o ano de 1997.

Wanderley Luxemburgo: Vamos por etapas. Deixa eu responder ao Matinas e ao Luiz Alfredo primeiro. Depois eu chego em você. Se eu tivesse receio de vir aqui eu teria cancelado e pedido à minha assessoria para cancelar este programa. Eu não viria se eu tivesse algum receio de ser perguntado pelo episódio que aconteceu aí, que está surgindo aí. Em momento algum eu fiquei com receio, porque eu tinha certeza que eu ia ser perguntado. Não tenha dúvida disso. Eu não quis cancelar, de maneira nenhuma. Porque que eu tenho que cancelar? Então, vamos lá, nós temos que encarar a realidade. A realidade, hoje, é que alguém me [acusa], [e] eu sou inocente, [falo isso] pois vou ser perguntado e [já] vou responder naturalmente, está certo? Mas acho que tem muita coisa boa para falar a respeito de futebol. E é difícil, Fasano, você, de repente, já diz que o Palmeiras desmantelou o time [devido ao] noticiário da imprensa. Nós não desmantelamos ainda o time, nós estamos aí ...

[Risos]

Rogério Fasano: Não, mas os outros foram desfeitos, de qualquer maneira.

Wanderley Luxemburgo: Por que não é nem momento de nós comentarmos sobre, [de ficarmos] especulando com saída ou vinda de atletas, porque nós estamos num momento decisivo de competição, não é verdade? Nós temos aí, no momento, o jogo contra o Grêmio. [Depois] o jogo contra o [time do] Santos. E falar em saída de jogador só tumultua a cabeça. Agora, é difícil manter um jogador que se sobressai, que tem qualidade, né? As propostas vêm, vêm forte, e fica difícil manter. Seria ótimo se você pudesse realizar um trabalho, projetar, que é o projeto do Palmeiras, o planejamento do Palmeiras é esse. Os contratos dos jogadores, o Cafu tem contrato de dois anos; o Júnior de dois anos; o Sandro de dois anos. O Müller está fazendo um contrato de dois anos. [Ou seja], a maioria dos atletas tem contrato de dois anos, porque nós projetamos o Palmeiras para médio e longo prazo. Agora, seria bom se você continuasse com todos eles, mas as propostas surgem e você, de repente, perde um ou outro. O importante é você ficar com uma base, a base tem que permanecer. Se você perder a base, aí a coisa fica complicada.

Melchiades Filho: Como você e o Palmeiras encaram a possível, eventual, talvez provável fim da Lei do Passe. Isso te preocupa? Qual é a sua opinião pessoal sobre a proposta do ministro Pelé [Pelé foi ministro do Esporte entre 1995 e 1998. Sua proposta deu origem à chamada Lei Pelé]?

Wanderley Luxemburgo: Isso é uma coisa que vai ter que ser discutida, [é] muito complexa. É uma coisa que... Vamos criar a lei e vamos discutir...

Melchiades Filho: Estão dizendo que mais um mês...

Wanderley Luxemburgo: É, mas eu acho que vai ter mais tempo. Acho que essa coisa não vai ser votada e..., acho que vai ter mais tempo, na minha sensibilidade. Porque, no Brasil, a nossa economia é diferente da Europa, não é verdade? Lá já tratam [desse assunto de forma] diferente. Aqui no Brasil, se você, de repente, todos os atletas ficarem livres, eu acho que eles vão todos para a Europa e nós vamos ficar sem jogador nenhum aqui. Essa é a grande realidade nossa...

Melchiades Filho: Você seria contra, então?

Wanderley Luxemburgo: Não sou contra. Eu acho que tem que ter. Eu acho que ninguém pode ser escravo de nada. Mas tem que se discutir dentro da nossa cultura. Não é porque na Europa o jogador com três anos tem passe livre [que] vamos dar o passe livre para o jogador aqui com três anos.

Melchiades Filho: Dentro da nossa cultura, qual que seria a sua idéia?

Wanderley Luxemburgo: Vamos discutir, então, vamos discutir. Nós temos que achar um meio termo para que o atleta deixe de ser escravo - está certo? - mas que os clubes também possam sobreviver.

Melchiades Filho: Você ainda não tem opinião formada.

Wanderley Luxemburgo: Acho que o grande... Do jeito que está colocado aí, acho que os grandes beneficiários vão ser – como é em quase todos os setores – os intermediários. Esses vão ser os grandes beneficiários.

Maria Amélia Rocha Lopes: Wanderley, o que você acha desse campeonato terceirizado proposto por Eduardo José Farah, o presidente da Federação Paulista [Presidiu a FPF de 1988 a 2003].

Wanderley Luxemburgo: Eu acho que é uma coisa que tem que ser discutida. Está [se] terceirizando tudo. Qualquer empresa está terceirizando. Então, tem que deixar de tratar o futebol com a emoção, ele tem que ser tratado mais com a razão. Porque todo mundo fala que o futebol tem que ser tocado por renda. Renda não toca o futebol. Nunca tocou o futebol. Se você pegar o público pagante de um time e você fizer um balanço no final de uma temporada, você vai ver que causou prejuízo se for só trabalhar com aquilo ali. Então, vai ter que buscar alternativas, está certo? Então, as alternativas [podem] ser a terceirização. A televisão chegou, ajudou bastante. Tem que buscar alternativas ...

Maria Amélia Rocha Lopes: Será que a alternativa real não seria acabar com o Campeonato Paulista e fazer só um Campeonato Brasileiro?

Wanderley Luxemburgo: Não, de jeito nenhum.

Maria Amélia Rocha Lopes: Você não concorda?

Wanderley Luxemburgo: Não. Por exemplo, eu acho que pode ser um campeonato mais curto, com mais qualidade...

Matinas Suzuki: [interrompendo] Mas Wanderley, você não acha que a Copa do Brasil tem o seu grande ...

Wanderley Luxemburgo: [interrompendo] Matinas, nós estamos no ISO 9001 [Conjunto de especificações de processos buscando a qualidade. Bastante popular no ambiente empresarial nos anos 1990]. De repente, eu acho que tem que buscar qualidade. Acho que aí, sim, [se] buscar qualidade na primeira divisão a coisa fica um pouco melhor. Quem for assistir a um jogo na primeira divisão vai ver um time. Por exemplo, os clubes vão ter que buscar alternativas, a Federação vai ter que buscar alternativas através da qualidade. Qualidade ao terceirizar, uma série de coisas que você vai buscar. Qualidade no atleta [também]...

Matinas Suzuki: Wanderley, você não acha que está havendo uma tendência dos grandes clubes [em] valorizar dois torneios: o torneio regional, porque é mais barato, não precisa ficar viajando pelo Brasil. E a Copa do Brasil, que é o grande acesso a Libertadores? E o que seria o grande Campeonato Brasileiro [é] deixado de lado.

Wanderley Luxemburgo: É, eu acho que a Copa do Brasil é muito boa, não resta dúvida. Mas eu acho que ela é injusta, a nível de ranking. Como você pode jogar em dez jogos e [ainda] chegar na Copa Libertadores [torneio continental]? E para você chegar de outro jeito tem que jogar trinta [refere-se ao fato de a Copa do Brasil ser disputada em jogos eliminatórios, tornando-se um caminho mais curto à vaga no torneio continental do que o Campeonato Brasileiro]. Eu acho que tem uma injustiça muito grande nisso. Eu acho que deveria existir a Copa do Brasil, alguma coisa, mas teria que mudar um pouco, porque não é justo você jogar dez jogos. Por exemplo: vamos jogar um Campeonato Paulista. Campeonato Paulista é extremamente difícil. Cada jogo no interior, jogo na capital, clássico ou não, é um jogo muito difícil. E privilegia..., não estou citando caso, mas o Grêmio disputou cinco finais de Copa do Brasil. Por quê? Porque o campeonato regional no Sul não é tão forte como é o Campeonato Paulista. Então, dá para você administrar melhor. Você bota um time no Sul, no seu campeonato regional, um time que não seja o primeiro time, e vai priorizar outra competição. Na hora da decisão no Sul, você joga com teu time principal. Haja vista que, ano passado, o Grêmio jogou três jogos num dia só, não foi?

[...]: O Grêmio.

Wanderley Luxemburgo: Jogou três jogos num dia só. Por quê? Porque ele priorizou a Copa do Brasil, não é verdade? Então, acho que a Copa do Brasil... Não estou dizendo que não é um campeonato bom, é. Me mostraram que é um campeonato bom; é rentável, [tem] televisão, está todo mundo junto. Mas poderia mudar um pouquinho. Porque não é justo você chegar na mesma competição, [onde só tem] duas vagas [na época, o Campeonato BRasileiro dava apenas duas vagas à Libertadores] e você chega com 26, 28 jogos de uma forma, e [de] outra [forma] você chega com dez jogos.

Rogério Fasano: Mas você não acha que os campeonatos regionais deveriam ser eliminatórios para o Campeonato Brasileiro? Ou seja, para que déssemos até o quarto ou quinto lugar.

Wanderley Luxemburgo: Eu acho que tinha que passar a ranquear, você tem que ranquear. Não adianta você falar: “Vamos fazer [a partir do] Campeonato Paulista”. Acho que tinha que ranquear o Campeonato Brasileiro, de campeonatos regionais para o Campeonato Brasileiro.  Se você ranquear, você vai ficar melhor. Esse é o grande problema: não tem que acomodar a situação, quem tem que descer, desce. Quem tem que disputar o tal campeonato, vai disputar. O problema é que nós temos que acomodar, sempre a coisa meio política no país, não é verdade? Um tempo atrás aconteceu um episódio – vocês devem saber – do Vasco com o Joinville. Se recordam disso? O Vasco ia cair, mas de repente, acomodaram a situação e o Vasco não caiu no Campeonato Brasileiro [Vasco e Joinville no Campeonato Brasileiro de 1986]. Tinha que cair o Vasco. Agora, teve um time que foi campeão lá, acho que foi em [cita um clube europeu não identificado], né, que caiu...

Matinas Suzuki: E foi campeão da Copa.

Wanderley Luxemburgo: E foi o campeão da Copa e caiu! Foi lá. Eu acho que aí é que é o problema. Eu acho... por exemplo, vamos voltar ao Campeonato Paulista, tem cinco grandes clubes em São Paulo, brasileiro, cinco, né? São Paulo...

[...]: Quatro e meio

Wanderley Luxemburgo: Não, cinco grandes clubes...

Matinas Suzuki: Tirando o Palmeiras, quatro.

Wanderley Luxemburgo: Vamos ranquear. [risos] Vão dois para o Campeonato Brasileiro. Vão os dois melhores, o campeão e o vice. Então, vamos ranquear. Não tem que ir cinco. Por que tem que ter cinco vagas São Paulo?

Marcelo Duarte: Mas aí, teria um do Acre e dois de São Paulo. Ou não teria Acre, também? Porque no Brasil quando começam a ranquear começam a pensar nos interesses políticos. Então, levam dois de São Paulo, mas tem que levar do Amapá.

Wanderley Luxemburgo: Mas é o que eu estou falando. Por exemplo: São Paulo, você não acha que tem que ter dois representantes, como o Rio de Janeiro, que são os grandes centros? Minas Gerais, você acha que tem que ter dois ou um?

Marcelo Duarte: Se São Paulo tivesse dois, teria que ter um.

Wanderley Luxemburgo: Ah, então, está certo! É o que eu estou dizendo.

Marcelo Duarte: Mas o Amapá não teria nenhum, então?

Wanderley Luxemburgo: Por que não? Porque não poderia ter um representante? Teria que ser o campeão de lá, entendeu? Poder ser mais vaga em São Paulo ou menos vaga, acho que a coisa tem que entrar a partir daí. E [aí entra] o Campeonato Brasileiro, está certo? A Copa do Brasil. Como é que você pode... sai [classifica-se] um clube para a Copa Libertadores - está certo? - do Campeonato Brasileiro. E os outros para onde vão? Poderia sair dois clubes para a Copa Libertadores, dois clubes para a Copa dos Campeões, dois clubes para outra copa. Quer dizer, na Europa você em quinto, sexto lugar, você tem prêmio, você participa da Copa da Europa e [outras] copas. E aqui você não participa de nada. Inclusive, quando você é campeão, você não ganha prêmio. Você ganha é problema para frente.

Matinas Suzuki: Wanderley, gostaria de trazer aqui dos telespectadores, uma pergunta. Na verdade, [de] dois telespectadores que estão na mesma direção. O Élson Teixeira Ferreira, de Peruíbe, São Paulo e o Francisco Carlos Gonçalves, aqui de São Paulo; os dois perguntam sobre o Edmundo [e] Romário. Como foi a sua relação com esses dois jogadores? E se você convocaria, por exemplo, o Romário para a Seleção Brasileira. Você sendo técnico da seleção brasileira, evidentemente.

Wanderley Luxemburgo: Se ele estivesse jogando o que ele jogou na Copa do Mundo, com certeza. O Edmundo a mesma coisa. O Edmundo, se vocês sabem, é um dos meus melhores amigos dentro do futebol e talvez eu tenha sido o cara que mais puniu o Edmundo. Eu fui, realmente, dentro do futebol, a pessoa que mais o puniu. Mas eu puni sempre o atleta, nunca o ser humano. Todas as vezes que eu o puni, eu dei a chance de ele poder retornar e buscar melhorar. Não sou eu que pode cecear o direito de liberdade de ninguém, o direito de ir e vir. Eu tenho que punir por aquele fato, pelo ato de indisciplina, está certo? Então, eu puni, mas dei a chance para ele. E o Romário, eu não tenho nada contra o Romário. Nós já estivemos num programa de televisão juntos. Ele pediu para que pudesse participar até desse programa, porque ele achou que aconteceu um equívoco e que ele queria conversar. Sem problema nenhum, se eu tiver que convocar o Romário amanhã, numa Seleção Brasileira, se eu for o treinador ...

Matinas Suzuki: Wanderley, porque que não deu certo o time do Flamengo, com você lá, com esses, com Edmundo, Romário etc.?

Wanderley Luxemburgo: Não, não trabalhei com o Edmundo no Flamengo. Não cheguei a pegar. O problema é que aconteceram muitos problemas e o Romário estava vindo de uma Copa do Mundo. E com cabeças diferentes. Hoje, seria mais fácil. Porque eu tinha trabalhado com ele, não é verdade? Então, ele já me conhecia e eu o conhecia. Na época foi muito difícil, antagônico, né?

[Risos]

Luiz Alfredo: Como comparar, Wanderley, esses dois momentos do futebol brasileiro? Em 1994, o Romário era o melhor jogador do mundo. Era essa a opinião que rolava solta aqui no Brasil. Hoje, o futebol brasileiro mudou. O velho lobo Zagallo mudou. Hoje, a Seleção Brasileira joga um futebol alegre. E os melhores jogadores do Brasil hoje são: Rivaldo... até o Müller é chamado de um dos cinco melhores. O que mudou do [Carlos Alberto] Parreira [Foi técnico da seleção brasileira durante a Copa do Mundo de 1994, que rendeu ao Brasil o título de tetra campeão] para o Wanderley?

Wanderley Luxemburgo: Bom, a coisa é meio complicada, né Luiz? Eu não vou..., porque tem a ética em cima disso.

Luiz Alfredo: Não, você pode pegar o São Paulo, do Parreira, no segundo semestre, não tem problema, não.

Wanderley Luxemburgo: Eu acho que a ética tem que existir a todo o momento. O Parreira, você sabe. Eu tive um convite para poder comentar a Copa do Mundo, eu escrevi para o Jornal da Tarde, e combinei com vocês que eu não falaria de Seleção Brasileira, faria comentário da Copa do Mundo em geral, menos Seleção Brasileira.

Sidney Mazzoni: Foi isso que você disse.

Wanderley Luxemburgo: Não foi? Então acho que não caberia a mim comentar. Agora, eu vou dizer o meu trabalho: o Zagallo é o meu ídolo. Zagallo foi o grande treinador que eu tive. E mostra como é uma coisa o futebol. Eu acho, por exemplo, eu acho que o Lazaroni [Sebastião Lazaroni, técnico da Seleção Brasileira durante a Copa de 1990. Foi bastante criticado em seu trabalho e tachado de defensivista. O Brasil foi desclassificado nas oitavas de final pela Argentina] vai se recuperar dentro do próprio futebol brasileiro, porque o tempo vai dar chance para ele se recuperar. O Zagallo foi enaltecido, elogiado, em 1970. Em 1974, ele foi execrado. E hoje, ele é considerado o maior fenômeno do futebol brasileiro.

Luiz Alfredo: Quem?

Wanderley Luxemburgo: Zagallo.

Luiz Alfredo: Zagallo

Wanderley Luxemburgo: E o Zagallo, se você quer saber, em 1970, ele estava [jogava como] em 1996. O que o Brasil jogou em 1970, a formação tática, a dinâmica de jogo diferente. [Era a mesma] que se joga hoje. Jogava com dois atacantes, dois meias encostando nos dois atacantes, dois volantes habilidosos, tá certo? Um lateral que passava [atacava] e o outro não, mas o lateral que passava, passava muito, está certo? Então, a dinâmica era diferente, mas o Zagallo já conseguiu montar uma equipe em 1970, que se joga hoje. Estava 24 anos na frente de todo mundo. Mas, de repente, 1974, ele perdeu a Copa do Mundo e passou a não prestar. E aí, passou muito tempo para as pessoas reconhecerem de novo o valor dele. O Telê [Santana (1931-2006) técnico da seleção brasileira em duas Copas do Mundo – 1982 e 1986. Entre 1990 e 1995, comandou o time São Paulo, conquistando duas vezes a Taça Libertadores] é a mesma coisa: perdeu duas Copas do Mundo e depois foi enaltecido, elogiado por todo mundo no São Paulo. É dessa forma que é a nossa cultura. E como é que vai fazer? Não tem como ser diferente. Eu procuro trabalhar o futebol da maneira como eu penso. Eu aprendi com muitos treinadores, [ao] vê-los trabalharem. Mas eu tenho a minha cabeça. Sempre entendi que tinha que trabalhar o futebol em cima das nossas características. E o tempo que joguei futebol, e que estou como treinador, o que eu quis ver? Eu vou imitar o europeu? Não. Eu não posso imitar o europeu. Eu tenho que trabalhar em cima da minha característica, trazendo o que o europeu tem de bom. E o que o europeu tem de bom? É a responsabilidade tática, é responsabilidade profissional. [Assim], adaptando tudo que ele tem de bom, dentro do nosso futebol, da nossa característica, tá certo? É parte tática. O que o Brasil, o que o mundo precisa evoluir taticamente? Nada. Não tem mais o que você inventar taticamente. Só se você vai inventar agora um [por] dez [um atacante e dez defensores, ironiza os esquemas táticos]. Porque não tem mais nada que precisa melhorar. Foi o que Zé Roberto [José Roberto Guimarães, técnico de volei da seleção masculina em 1992, ano em que a seleção ganhou a medalha de ouro nas Olimpíadas de Barcelona] fez no voleibol. Ele [tornou] o atleta [versátil]. Eu acho que o futebol brasileiro precisa ser, os atletas [precisam ser] mais responsáveis taticamente, certo? Mais profissionais. Porque eles vão ser cobrados profissionalmente, porque o custo hoje do futebol é muito alto. Ninguém vai pagar cinco milhões de dólares num jogador para não ter retorno, para ele passar a valer um milhão. Então, ele vai ter que ser um bom profissional. Esse negócio do atleta indisciplinado, que não gosta de trabalhar, vai acabar! Porque não tem espaço. Não sou eu que estou dizendo isso. Vocês vão cobrar isso dele. A empresa chamada clube vai cobrar isso dele. Porque, como você vai ter uma participação numa empresa como a Parmalat no Palmeiras, outra num outro clube, e o atleta não ter a responsabilidade que tem que ter um empregado de uma firma, tá certo?

Maria Amélia Rocha Lopes: [interrompendo] Agora, Wanderley...

Wanderley Luxemburgo: Só concluir o meu raciocínio, por favor. [risos] Senão... Então, o que o atleta precisa no Brasil é melhorar a [sua] performance, para que possa ser melhor usado dentro do campo de jogo. Acho que é esse o problema.

Melchiades Filho: Qual a posição que precisaria ser melhor em campo?

Wanderley Luxemburgo: Não, a versatilidade, no geral. Por exemplo: porque o atacante não pode marcar? Criou-se um conceito que o atacante não pode marcar. Muito pelo contrário, ele tem que ser um marcador, mas não um marcador de centro-avante adversário. O Müller não vai marcar o meu centro-avante adversário, mas ele pode marcar o zagueiro, para inibir a presença do adversário muito rápido no meu campo. Então, ele pode se tornar um marcador no setor dele. E é isso que ele faz.

Melchiades Filho: Eu digo que teve um fenômeno recente dos laterais serem bastante valorizados nos times, de acabarem migrando para o meio campo para posições mais nobres, o caso do Júnior [lateral-esquerdo], do Branco [lateral-esquerdo], do Mazinho [lateral-direito e meia] do Leonardo [lateral-esquerdo e meiamais recentemente. Teve uma “lateralização” de muitos times vencedores. Você enxerga esse fenômeno em alguma outra posição, os zagueiros que precisam fazer funções que eles não estão atualmente acostumados?

Wanderley Luxemburgo: Não, não fazer funções. Vamos dizer, o que é versatilizar? Vamos dizer, Flávio Conceição, [ou] Amaral [então volantes do Palmeiras], precisam melhorar a qualidade? Por quê? Tem hora que eu vou precisar dele sendo um jogador de melhor refino tático... De uma técnica mais refinada para iniciar uma jogada, porque vai estar todo mundo marcado. Então, aquele negócio de achar que o volante só tem que ser um marcador... Ele não vai poder ser só um marcador: vai ter que ser um marcador, porque é a função primeira dele. Mas ele vai ser uma pessoa que vai ter que jogar futebol. 

Melchiades Filho: Esse é o fundamento.

Wanderley Luxemburgo: Claro, é parte técnica. Mas ele melhorou. Porque antigamente, o que você queria? Que o jogador volante fosse só aquele cara robô, marcando, marcando. Eu acho, muito pelo contrário, ele pode ser um finalizador, como é o Flávio Conceição, que chega por trás chutando a bola, decidindo um jogo, tá certo? O lateral, hoje, é um jogador muito importante? É, mas quantos laterais bons nós temos, hoje, no Brasil?

Melchiades Filho: Uns poucos

Wanderley Luxemburgo: Então, quer dizer, eu acho que você tem que criar alternativas de participação do atleta dentro do campo de jogo. Aí é que nós temos que matar. Por exemplo, o Antônio Carlos [zagueiro], que é um jogador sensacional, é um jogador que iniciava, sempre saía para o jogo, mas ele tinha uma atuação de gol muito pouco. Mas eu acho que a primeira função dele é ser zagueiro e a segunda é na versatilidade. Por exemplo, o Cléber [zagueiro, então no Palmeiras] tem seis gols dentro da competição.

Matinas Suzuki: Agora, já foi um milagre você ter dado versatilidade ao Cléber. [risos] Do Antônio Carlos até dava para ... Agora, o Cléber...

Wanderley Luxemburgo: Mas o que eu acho, por exemplo, qual é o meu time? Todo mundo acha que o Palmeiras é... O que eu quis criar com isso?

Matinas Suzuki: [interrompendo] É verdade que você...

Wanderley Luxemburgo: Primeiro, isso é até em cima de uma coisa que você [Matinas] escreveu durante a Copa do Mundo, eu acompanhando, leitor assíduo, né? [Sobre] os cinco atacantes. Uma equipe, ela pode ser extremamente ofensiva sem ser vulnerável. É esse o problema da versatilidade do atleta. Eu posso ser ofensivo até com o próprio zagueiro. Mas desde que na hora que eu perca a bola todos tenham função de marcação, iniciando com os atacantes. Então, por exemplo, o Cléber tem outras alternativas para que ele não seja só zagueiro. Nós criamos algumas alternativas para que ele possa ser usado dentro de outras qualidades, que até então ele não tinha. Aí ninguém tinha.

Matinas Suzuki: É verdade que ele te perguntou: “O que está acontecendo comigo?”

[Risos]

Wanderley Luxemburgo: É, ele falou no jogo, foi engraçado aquilo. Fez dois gols e veio bater a mão em cima de mim e falou, assim: “Professor, o que está acontecendo comigo”. Falei: “eu não sei.”

[Risos]

Sidney Mazzoni: Wanderley, agora, muito bem. Você tem uma frase que repete muito quando você quer, digamos assim, cortar “as asinhas” de alguém que está fugindo daquele padrão que você considera ideal de jogador do Palmeiras. Isso aconteceu com o Edmundo, aconteceu recentemente com o Djalminha [meia, então no Palmeiras] e, provavelmente, vai acontecer mais vezes. A frase é a seguinte: “Você não é maior que o Palmeiras”. Mas muita gente dentro do Palmeiras, você sabe, acha que você está ficando maior que o Palmeiras, e isso incomoda. Há informações de que a ponta de lança operacional desse esquema, que não te engole muito, apesar dos títulos - digo você, leia-se Parmalat também - é o presidente do Palmeiras [Mustafá Contursi presidiu o Palmeiras de 1993 a 2005. A Parmalat foi trazida ao clube por adversários de Contursi, que então comandavam o clube em aliança. Essa aliança mostrou-se instável, o que causou turbulências na relação com a empresa parceira.]. E seria a razão de você ter saído do [time], uma das razões, depois daquela campanha vitoriosa de 1993 e 1994. Você acha que existe essa dualidade... existem dois Palmeiras: um que apóia, incondicionalmente, e um cuja presença do Luxemburgo e da Parmalat incomoda um pouco, apesar da vitória?

Wanderley Luxemburgo: Eu discordo de você. Não existe ninguém maior do que o Palmeiras, até o próprio presidente do Palmeiras. O Palmeiras é eterno, não é verdade? Então, não sou maior do que o Palmeiras e nem tenho essa pretensão. Ninguém vai ser maior do que o Palmeiras. O Palmeiras é eterno. Não tenha dúvida nenhuma disso. E eu não saí do Palmeiras por causa do presidente ou não presidente. Eu achei que tinha terminado a minha etapa e quis ir para outro clube e desenvolver outro trabalho. Tive um convite muito bom de trabalho, que era ser diretor técnico do Flamengo. Um projeto de trabalho de um para dois anos. Era uma coisa que eu gostaria muito de fazer. Infelizmente, foi interrompido com seis, sete meses, está certo? E o Palmeiras, eu não acredito que seja dividido. Isso é o que as pessoas possam imaginar, mas não acredito que seja dividido...

Sidney Mazzoni: Essa questão da Parmalat, da gestão de jogador que joga no Palmeiras mas é da Parmalat [A parceira era a dona do passe de alguns jogadores]. Isto está, na tua cabeça, está resolvido?

Wanderley Luxemburgo: De jeito nenhum, de jeito nenhum! Não, mas não está resolvido, nunca teve problema, você que está falando. Isso aí pode passar na sua cabeça, [e] até respeito. É um pensamente que você [tem], [já que] você não conhece internamente o que vem a ser. Mas em momento algum há uma divisão dentro do clube. Muito pelo contrário. É uma empresa que está patrocinando... Com co-administração. Acho que o termo certo é esse, com a co-gestão. Nós sentamos para planejar. Isso é muito importante. Então, não tem divisão. Resolve-se com a Parmalat uma coisa e se resolve com o Palmeiras outra. Existe comissão técnica que [está sob] meu comando, e o diretor da Parmalat, diretor do Palmeiras, que nós sentamos para resolver um problema do Palmeiras.

Matinas Suzuki: Wanderley, nós temos que fazer um rápido intervalinho e voltamos daqui a pouco com o segundo tempo da entrevista de Wanderley Luxemburgo. Até já.

[Intervalo]

Matinas Suzuki: Nós voltamos com o Roda Viva, que entrevista esta noite o técnico do Palmeiras, Wanderley Luxemburgo. Wanderley, eu há pouco tempo tive o privilégio de ver você fazer uma palestra numa agência de publicidade, na agência do Celsinho Loducca, e me impressionou muito você dizer como trabalhar com a mentalidade vencedora num time de futebol, que isso é pré-condição para se criar um grande time. Como você faz esse trabalho? Como você pega um jogador, que estava ali, Müller, por exemplo, muitos davam como encerrada a [sua] carreira. “Müller não rende mais nada", essa coisa toda. E fez dele o rei da assistência do futebol brasileiro, garçom como você costuma dizer, o servidor, essa coisa toda. E num prazo tão curto de tempo você conseguiu por essa mentalidade no time?

Wanderley Luxemburgo: Aí vem a primeira pergunta que ela me fez, essa parte emocional. Você tem que estar emocionalmente muito bem. E o Müller, é fácil. Ele, no São Paulo, foi campeão de tudo, dois campeonatos mundiais. Ele foi tetracampeão mundial, disputou três Copas do Mundo. Mas só se via sair notícia ruim do Müller; que não gosta de treinar, foge de jogo, que ele é isso, que ele é aquilo, que eu não sei o quê. Quando eu cheguei ao Palmeiras, eu conversei com ele e falei: “olha, eu não quero saber o que as pessoas possam vir a falar de você. Daqui para frente, sou eu que vou te conhecer. Agora é que nós vamos ter um contato, agora é que eu vou te conhecer. Você tem muita coisa para dar ainda para o futebol, pois eu acho você um excelente jogador, senão não teria disputado três Copas do Mundo e ganhado uma. E [também] não teria ganhado tudo no São Paulo. Porque você tem muitas qualidades. Então, essa outra parte que as pessoas falam, eu não conheço. Então, vamos ver daqui para frente, se ela é verdade ou não”. E passei a fazer uma coisa que eu acho justa, elogiar o Müller por aquilo tudo que ele já fez, que é justo. E a outra parte, como eu não conhecia, se ele fizesse algum equívoco, cometesse algum equívoco para a frente, aí sim. Ele fez isso e isso. E então, ele não fez nada comigo, a não ser [apresentar-se como] um ótimo exemplo para os jogadores que estão lá. Ele ficou de fora de um jogo só. No dia em que eu quis tirá-lo - e deveria ter tirado, se você quer saber; eu errei e assumi, diante do nosso trabalho, que eu tinha errado. Eu quis tirar ele e o Rivaldo no jogo contra o Guarani. Ele, o Rivaldo e mais um outro – não me lembro quem é o outro jogador. O Müller estava com um problema de tornozelo, agora eu lembro, o Rivaldo havia jogado na seleção, e eu ia tirar. E ele chegou para mim: “Não, eu não quero sair não, quero jogar!” Mostrando que ele está totalmente integrado. Eu acho que eu só fiz isso com o Müller. E a outra coisa é a parte tática. Eu achava... Olhava para o Müller jogando no São Paulo... respeito cada treinador, a ética tem que existir, eu respeito. E o Telê ganhou tudo. Quem sou eu para contestar o Telê? Só que eu achava que o Müller ficar só do lado esquerdo do campo, ali, era muito pouco pela [sua] qualidade. Então eu dei mais liberdade para ele. Eu deixo ele flutuar, deixo-o livre, buscar [seu] espaço. E aí nós encontramos uma qualidade que até então ele não tinha apresentado: que é de servir. Ele consegue ver uma jogada que eu lá fora não consigo ver. E, às vezes, de primeira, toque de primeira. Então, ele passou a ser o garçom. Chamei ele de garçom, que ele serve a toda a equipe.

Luiz Alfredo: Wanderley, eu acho que essa parte psicológica é muito importante, mas você está contando a história como que se só ela justificasse tudo. E isso não é verdade, senão a Áustria e a Alemanha seriam campeãs do mundo, com Freud [(1856-1939), médico neurologista austro-húngaro, fundador da psicanálise] e essa turma toda aí. Mas é um aspecto fundamental, tão importante que na preparação olímpica os Estados Unidos gastam fortunas, exatamente com esse aspecto. Mas você falando, agora, me veio a mente a seguinte sensação: o futebol passou por uma fase de preparação tática, aquela coisa em que a tática virou até números, quatro-quatro-cinco-nove-dois; 18-13; dois-dois-quatro, essa coisa toda. Só que no meio da sua explicação, você falou uma palavra que me encantou, foi liberdade. Será que nós não estamos numa nova fase? Sei lá se uma nova fase do país, do mundo, mas pelo menos do futebol, e o futebol é uma conseqüência de tudo isso aí. Será que a liberdade não fez você pensar em utilizar os seus craques de outra maneira, e deu no que deu?

Wanderley Luxemburgo: Ah! Com certeza. É o que eu disse: eu trabalho o atleta... A minha equipe, dentro da qualidade do meu atleta. Qual é a grande qualidade do atleta brasileiro?  É a capacidade de improvisação, é a habilidade, é a técnica. Eu não posso tolher o Edmundo, o Sávio [meia-atacante, notabilizou-se jogando pelo Flamengo], o Djalminha, o Rivaldo de fazer uma jogada de efeito, desde que ela seja produtiva. Aí é diferente. Eu acho que ele pode dar um lençol, um drible por debaixo da perna - que a gente chama de caneta -, dar uma jogada de letra, como o Rivaldo faz, uma letra para cruzar uma bola na área, para fazer um passe, produzindo. Fazer para humilhar o adversário? Aí vai fazer a briga que eu tive com o Djalminha, né? Em função dele fazer aquela [jogada], menosprezando o adversário. Acho que menosprezar o adversário é você ir buscar o gol. Você fez o primeiro gol, você faz o segundo gol. Fez o segundo, você busca o terceiro. Você fez o terceiro, você busca o quarto. O adversário vai sendo humilhado pela sua superioridade. 

Marcelo Duarte: Aquilo que o Túlio fez contra uma equipe chilena que...

Wanderley Luxemburgo: Eu não gostei, achei que ...

Marcelo Duarte: Você faria o quê?

Wanderley Luxemburgo: Sabe por que eu não gostei? Porque ele fez aquilo, depois uma lesão o tirou do jogo do Chile, né? Foi contra a equipe do Chile, né?

Marcelo Duarte: Isso. Universidad Católica [Em jogo pela Libertadores de 1996, quando o Botafogo já vencia o Universidad Catolica, do Chile, por 3 a 1, o centro-avante Túlio recebeu uma bola de frente para o gol, já sem goleiro, parou o lance e tocou de calcanhar].

Wanderley Luxemburgo: E o retorno desse jogo lá, os jogadores colegas dele ficaram expostos no momento em que ele fez uma situação desnecessária; coloca a bola para dentro e acabou. Só que o jogo de retorno lá, com certeza, quem é profissional sabe disso, o revide viria de imediato. Porque você não humilha ninguém daquela forma, porque você se sente humilhado. Eu tenho uma preocupação de... Nas próprias entrevistas, eu não dou espaço para que o adversário possa motivar sua equipe através de alguma coisa que [foi] mal colocada.

Sidney Mazzoni: O Edmundo fez a mesma coisa contra o Internacional sobre o seu comando? [Em partida do Campeonato Brasileiro de 1994, em que o Palmeiras venceu por 0 a 2].

Wanderley Luxemburgo: E eu, vocês lembram que na época, eu retruquei e não gostei. Não achei que fosse uma coisa correta.

Maria Amélia Rocha Lopes: Wanderley, deixa eu te perguntar uma coisa. Agora posso?

[...]: Claro!

Maria Amélia Rocha Lopes: Então está bom. Eu estava ouvindo você falar da nova mentalidade do jogador, novas formas de preparo, nova forma de gestão das equipes e tudo isso. Tudo novo. Todo mundo tentando coisas diferentes para melhorar o futebol. Agora, por que os times ou por que ninguém tem força para mudar a mentalidade de quem organiza os campeonatos? Por que os campeonatos são tão “mambembes” se todo mundo está voltado para a melhora?

Wanderley Luxemburgo: Mas vai ter que mudar. Eu chego com uma idéia diferente, o outro chega, vocês da imprensa cobram bastante. Já mudou bastante, se você quer saber. Se você pegar um pouquinho para trás, você vai ver que a coisa era bem pior. E vai ter que mudar, senão vai falir o futebol brasileiro. Vai ter que buscar qualidade.

Maria Amélia Rocha Lopes: Agora, eles fazem força para vocês se sentirem...

Wanderley Luxemburgo: Vai ter que buscar qualidade. A coisa não vai ter que ser mais política, não. Vai ter que se buscar qualidade. Você não pode ter quarenta clubes e jogadores. Se você quer saber, jogadores ganham cem reais, cento e cinqüenta reais e não recebem. Quer dizer, isso aí não vai ter que existir, vai acabar. A coisa vai ter que deixar de ser política e vai ser empresa mesmo. Tudo vai ter que ser trabalhado [como] em empresa, pode ter certeza disso. Vai demorar um pouco ainda...

Sidney Mazzoni: Você não acha que falta, Wanderley, uma participação mais efetiva também dos próprios jogadores? Porque eu vejo muito jogador reclamar de calendário, joga hoje, joga amanhã. Mas quando tentou fazer os jogadores jogarem apenas aos domingos no campeonato, os jogadores não quiseram. Porque também o jogo as quartas, as sextas e aos domingos representa prêmio. E isso você sabe muito bem, que é uma parte importante no rendimento dos jogadores. Então, eles dizem, de certa forma, que o calendário é massacrante, mas ao mesmo tempo, eles adoram jogar toda a semana, várias vezes.

Wanderley Luxemburgo: Mas quando começou isso, quando foi dito, foi tocado nesse assunto? Há um tempo atrás. Agora não. Por que agora não? Por que de uns tempos para cá, você não precisa mais sair do Brasil para ser bem remunerado. Antigamente, você era muito mal remunerado no Brasil. Você tinha que sair para buscar uma condição de vida melhor, você tinha que sair do Brasil.

Rogério Fasano: Por que não dá para manter um time três anos?

Matinas Suzuki: O Rogério está preocupado com os próximos três anos dele, Wanderley.

[Risos]

Wanderley Luxemburgo: Nós vamos tentar manter, prometo. Seria ótimo, né? Seria ótimo se nós pudéssemos manter. Não só o Palmeiras, todas as equipes devem ser mantidas por três anos, porque a qualidade, com certeza, seria muito melhor. Os campeonatos seriam muito melhores. Eu acho que nós mudamos no Brasil, um pouco naquela linha de raciocínio tua. Antigamente, você não ficava no Brasil com um Marcelinho no Corinthians por tanto tempo como está ficando. Não ficaria com o Rivaldo tanto tempo. De imediato, você perderia o jogador. Você não faria um contrato [de dois anos] com o Sávio, como o Flamengo fez. Está mudando, é uma coisa lenta. Mas vai mudar, porque senão vai ser engolido. Não tem como ser, você não vai poder mais tocar um campeonato deficitário da forma como ele é.

Marcelo Duarte: Wanderley, a gente está falando da saída de jogadores, mas e a saída do técnico? Se você receber um convite para treinar um clube fora, você iria hoje?

Wanderley Luxemburgo: Não. Vem uma série de crescimento. Por exemplo, nós treinadores somos bastante culpados também por uma série de coisas, como é o Sindicato dos Atletas, está certo? Porque não é uma coisa forte, sólida. Por exemplo, o treinador no Brasil reclama de prazo para trabalhar, mas a partir do momento que ele tem uma proposta melhor financeiramente, ele deixa um projeto que acordou com o dirigente e vai para outro clube. Então, ele é tão culpado como o dirigente. Então, por isso é que eu estive no Bragantino durante dois anos, estive na Ponte Preta um ano e meio. Eu procuro cumprir meus compromissos, tá certo? A não ser que o dirigente me mande embora, como o Flamengo – “não dá certo. Brigou com o Romário. Então não tem jeito, vamos mandar ele embora”. Tudo bem. Mas eu respeito meus compromissos. Logo que cheguei no Palmeiras, tive um convite para sair. Eu não vou sair. Eu tenho um compromisso de um trabalho com o Palmeiras até o final do ano. Então, [se] eu falo isso, [eu não posso] fazer o contrário. Vou ficar até o final do ano e desenvolver meu trabalho. Terminar o ano, aí a proposta de renovação é com o próprio Palmeiras. Se nós não chegarmos a um acordo, eu vou buscar outra vida. Mas até o final do ano, com certeza, eu vou estar no Palmeiras. 

Luiz Alfredo: O Rogério não vai dormir. Você falou que o teu contrato termina no fim do ano ... Ele está querendo dois.

[Risos]

Marcelo Duarte: Você acha que mudou também a mentalidade do treinador? Para dirigir a Seleção, ele tem que estar no Rio de Janeiro, ele tem que estar mais próximo da CBF [Comissão Brasileira de Futebol], ou não?

Wanderley Luxemburgo: Não. Se você pegar o Parreira, [ele] não estava no Brasil e o Lazaroni não estava no Brasil. O próprio Telê também não estava no Brasil. Só que eu acho que, dentro dessa linha tua, o cargo da Seleção Brasileira é um cargo de competência, não de experiência ou político. Você tem que ter competência para ir lá. Se você não tiver, [não adianta] você ir, não é verdade?

Matinas Suzuki: Wanderley, o Anselmo Rocha, que é de Araçoiaba da Serra, aqui em São Paulo; o David Abex, de Ourinhos; o Miguel Veiga, de Curitiba, no Paraná; e o Marcos Rosendo, aqui do Butantã, perguntam se você não vai ser o próximo técnico da Seleção Brasileira?

Wanderley Luxemburgo: É, eu já respondi tanto a respeito disso. [risos] Eu tenho certeza que a minha vida profissional vai me conduzir à Seleção Brasileira. Mas eu acho que é tudo dentro de uma coisa normal, bem natural. Eu acho que a Seleção Brasileira está muito bem servida. O Zagallo [na época técnico da Seleção] é a pessoa que eu adoro. Foi, dos treinadores todos com quem eu trabalhei, que eu vi, que conhece futebol. E está fazendo um trabalho muito bom, brilhante. Então, não tem o porquê tirá-lo. Eu estou torcendo para que o Brasil ganhe as Olimpíadas, para que o Brasil ganhe a Copa de 1998. A hora que eu for convidado, eu vou estar preparado para dirigir a Seleção Brasileira. Acho que vai acontecer, mas sem... Não foi, o Wanderley não foi convidado, não aconteceu, preferiram outro, [isso] não vai me deixar frustrado, porque não é uma coisa que eu coloquei com radicalismo: tem que ser. Não, se não acontecer, faz parte da vida, não é verdade?

Rogério Fasano: Wanderley, falando de Copa do Mundo, você não acha que, por exemplo, a Fifa [Federação Internacional de Futebol] fica buscando maneiras meio patéticas de eliminar o empate do futebol? Eu tenho uma teoria: o empate é a salvação do futebol. O que eu quero dizer com isso? Que a única maneira de fazer um time atacar é um dos times terem que ter a obrigação de entrar em campo para ganhar. Ou seja, se você considera a campanha, mesmo numa Copa do Mundo, se vai para uma quarta de final, um time que tem doze pontos contra outro time que tem nove pontos, teria, esse time que tem nove pontos, a obrigação de ganhar do time que tem doze pontos? Por isso Brasil e Itália, por exemplo, em 1982, foi um grande jogo de futebol: porque a Itália tinha a obrigação de ganhar do Brasil. Já em 1994, teve aquele jogo que ninguém tomou nada de risco, porque eu tenho a impressão de que perder nos pênaltis é, de certa maneira, confortante. Você concorda com isso ou não?

Wanderley Luxemburgo: Não, eu discordo de imediato [em relação] ao empate. O futebol brasileiro, até o próprio futebol mundial, mudou muito em função dos três pontos. Vou te explicar por quê. Antigamente, você jogava pelo empate e você chegava a uma semi-final. O atual Campeonato Paulista: você joga por dez empates e soma dez pontos. Praticamente você era classificado entre os seis que classificavam...

Rogério Fasano: [interrompendo] Mas hoje você pode ser campeão do mundo sem ganhar um jogo.

Wanderley Luxemburgo: Não, deixa eu concluir. Aí, agora, dez empates, tá certo? Você soma dez pontos. Cinco vitórias, você soma 15 pontos. Então, você é obrigado a buscar a vitória, porque a vitória vale três pontos. Então, veja: três, de cinco jogos, você multiplica por cinco, vai dar quinze pontos. Dez empates dão dez pontos. Então, você vê que a busca pelo gol, a busca pela vitória, foi em função dessa mudança.

Rogério Fasano: Isso sem dúvida.

Wanderley Luxemburgo: Agora, Copa do Mundo é complicado, porque é um torneio muito rápido que, às vezes, não ganha o melhor. O Brasil saiu da Copa de 1990 no seu melhor jogo, contra a Argentina [O Brasil perdeu por 1 a 0]. Foi o melhor jogo do Brasil na Copa do Mundo e saiu, entendeu? Agora...

Rogério Fasano: Mas você concorda... você não acha que perder nos pênaltis é de certa maneira, confortável?

Wanderley Luxemburgo: Não, perder nunca é confortável. A pessoa que achar que vai para uma disputa de uma Copa do Mundo, ou de um campeonato, para levar as coisas para o pênalti, para perder e falar assim: “Ah! Eu fui campeão moral”. Isso pertence aos perdedores, não aos vencedores.

Rogério Fasano: Mas, por exemplo, na final de 1994, se a Itália ou quem quer que seja tivesse entrado em campo, ou o Brasil – caso tivesse menos pontos –, para ganhar do Brasil, você não acha que o jogo teria sido muito melhor? E você não acha que é muito melhor, mesmo tendo o empate, na hora em que o juiz apita o final do jogo alguma coisa ter acontecido?

Wanderley Luxemburgo: Mas a Copa do Mundo de 1994, ela foi jogada em cima de uma filosofia que existia no momento. Hoje...

Rogério Fasano: Mas a de 1990 também.

Wanderley Luxemburgo: Então, e hoje você vê já uma coisa diferente em função desses três pontos. Você vê que o Ajax surgiu aí fazendo gol, ganhando, jogando bonito, é uma coisa que está...

Rogério Fasano: [interrompendo] Mas ele é um campeonato de pontos corridos [ganha quem soma mais pontos], não é uma Copa do Mundo.

Wanderley Luxemburgo: Mas a Copa do Mundo, preste atenção, é diferente.

Matinas Suzuki: Na verdade, não é um campeonato é um torneio.

Wanderley Luxemburgo: É um torneio, é diferente você jogar. Eu tenho a filosofia que o medo de perder tira a vontade de ganhar. Eu acho que eu não quero disputar uma competição para ir para os pênaltis, perder nos pênaltis e falar: “Poxa! Podíamos ter ganhado, demos azar nos pênaltis!” Não. Eu vou querer buscar...

Luiz Alfredo: E a gente corre o risco de morrer do coração...

Wanderley Luxemburgo: Eu vou buscar a vitória. Acho que o primeiro ponto que um atleta de nível, como é um atleta individual, como é em qualquer esporte, ele tem que ser um vencedor, tem que buscar a vitória. Eu jogo com dois resultados no futebol: dois bons contra um ruim, não é verdade? Eu jogo com dois contra um. Se eu jogar pelo empate, eu já fico com um resultado só. [O raciocínio parece ser que, em se jogando pela vitória, ainda se é possível alcançar um empate, que não seria um resultado ruim].

Matinas Suzuki: Wanderley, o Sr. Franz Josef Hildinger, aqui de São Paulo, pergunta o seguinte: “Eu gostaria de saber do Luxemburgo se ele pretende escrever um livro a respeito de sua técnica de gerir”.

Wanderley Luxemburgo: Eu fui essa semana... apareceu lá uma editora querendo conversar a respeito. E ficou de termos uma conversa mais para frente. É um livro que eu li, e a pessoa soube que eu li aquele livro e quis comentar a respeito e também quer produzir.

Matinas Suzuki: Você pode dizer qual é o livro.

Wanderley Luxemburgo: Sem medo de vencer.

[...]: ...que se cuide.

[Risos]

Wanderley Luxemburgo: Sem medo de vencer. Acho que é uma coisa muito minha. Eu não tenho medo de vencer. Vencer está com a pessoa que conquista. Não posso ter medo de vencer. Por isso a frase: o medo de perder tira a vontade de ganhar.

Sidney Mazzoni: Wanderley, depois de amanhã, você enfrenta um time que virou uma [espécie de] fantasma, principalmente para os paulistas, que é o Grêmio. Queria que você abordasse dois aspectos. Primeiro: taticamente, como você vê o time do Grêmio? O caso do Jardel vai ser falado na seqüência, tenho certeza. E hoje à tarde, um repórter do Jornal da Tarde conversou com você no CT do Palmeiras e disse que você falou com muita amargura do seu último encontro com o Felipão, o Luiz Felipe, técnico do Grêmio, quando ele te agrediu [na época] em que [você] era técnico do Flamengo. Então, duas coisas: primeiro, como você vê esse time do Grêmio? Esse time do Grêmio é um time violento? É um time competitivo? Como dizem os gaúchos, é um time copeiro como eles fazem questão de afirmar? Um aspecto. O segundo, o que você sente em relação a Luiz Felipe, que vai ser seu adversário depois de amanhã?

Wanderley Luxemburgo: Vamos por etapas. [risos] O Grêmio tem que ser respeitado pela sua tradição, não é verdade? É um clube que não é de agora, tem tradição dentro do futebol brasileiro. Quanto ao Grêmio ser uma equipe violenta, não pode nem pensar. É uma equipe que joga em cima da característica do seu estado. O futebol que se joga no Sul é um futebol guerreiro, determinado, de marcação forte, mas sem ser violento. O Grêmio não é uma equipe violenta. É uma equipe que joga na bola, que está acostumada a jogar grandes decisões, não é verdade? Você vê que nos três últimos anos o Grêmio participou de grandes campeonatos chegando a decisões e conquistando. Então, é uma equipe que sabe jogar uma competição [com] características que o treinador conseguiu embutir bem na cabeça dos seus atletas. E o episódio com Luiz Felipe passou, não tem mágoa nenhuma daquilo. Foi uma coisa lamentável o que aconteceu, e que nós tivemos uma semana antes. Eu recebi um troféu em Porto Alegre, num programa de uma televisão, de uma pessoa que fazia um programa lá, que elegia os melhores do ano, uma coisa assim. E nós sentamos e ficamos tomando... E jantamos e tomamos um chopp até as quatro horas da manhã. Na semana seguinte, eu fui jogar com o Flamengo e, em noventa minutos, eu cheguei perto dele e ele me agrediu. Então, eu achei que não era uma coisa que... Não gostei. Mas, eu não tenho mágoa dele. Acho-o um treinador competente, o resultado mostra isso. E como ser humano, não tem nada que mostre que eu tenha que denegrir sua imagem, muito pelo contrário. Só o episódio que aconteceu comigo.

Sidney Mazzoni: Você vai em direção a ele para cumprimentá-lo, como você faz com os outros treinadores amanhã, depois de amanhã?

Wanderley Luxemburgo: Não tenho que ir à direção dele.

Sidney Mazzoni: E se ele vier te cumprimentar?

Wanderley Luxemburgo: Sem problema, não tem por que não cumprimentar.

Matinas Suzuki: Agora, como você vai marcar o Danrlei [goleiro]? Eu tenho aqui cinco perguntas sobre isso. 

Wanderley Luxemburgo: O Jardel [centro-avante]?

Matinas Suzuki .: O Jardel, desculpe.                             

Wanderley Luxemburgo: Eu não vou marcar, não, com certeza eu não vou marcar. Eu vou mandar alguém marcar. [risos] É uma jogada característica dele, é um jogador que é muito forte na bola aérea e, às vezes, você não tem nem como marcar. A competência dele é muito grande nessas bolas. Agora, vamos tentar neutralizar, não só a jogada do Jardel mas sim toda a equipe do Grêmio que..., não adianta marcar o Jardel e esquecer-se do Paulo Nunes, do Carlos Miguel, esquecer que eles têm outras jogadas de bola parada. Então, a gente vai trabalhar no geral a equipe do Grêmio. [Dois dias depois da entrevista, o Palmeiras venceu o Grêmio por 3 a 1 no Palestra Itália]

Marcelo Duarte: A gente estava falando da violência do Grêmio, Wanderley...

Wanderley Luxemburgo: Eu não!

Marcelo Duarte: Não, nós estávamos falando da possível violência do Grêmio. Você acha que os árbitros estão sabendo conter essa violência em campo? Lembrando aquele lance do Marcelinho Carioca contra o Júnior, que você ficou alterado... e não aconteceu nada, o Marcelinho continuou em campo, até empatou o jogo. Você acha que os árbitros estão sabendo conter essa violência ou os craques continuam sendo prejudicados, como foi o Sávio [meio-campista do Flamengo] que teve que sair de campo?

Wanderley Luxemburgo: Eu acho que no futebol paulista eles estão... Eu estou trabalhando em cima disso. Como eu estou trabalhando? Eu tenho um time extremamente técnico. Então, meu time teve um jogador expulso durante... Foram 28 jogos, que eu proíbo, eu brigo, eu cobro dos jogadores para que não reclamem de juízes e para que não faça mal [falta] por trás, tá certo? A não ser participar muito bem do jogo, que é uma vantagem que você tem que tirar. Eu tenho um time de qualidade e de boa técnica, você tem que tirar proveito disso. E os árbitros de São Paulo têm - não é que seja uma coisa muito rígida - mas eles têm procurado colocar essa regra em prática [punir severamente faltas por trás], mas no futebol brasileiro e no geral, não. Na Copa do Brasil [existe o] problema dos árbitros, [por] não interpretarem dessa forma. Até eu achei que foi um momento oportuno da CBF, do presidente da CBF [Ricardo Teixeira] se pronunciar a respeito disso. Porque você tem que privilegiar quem joga futebol, não o cara que dá pancada, que quer quebrar os outros.

Luiz Alfredo: Wanderley, a gente, quando lembra do Garrincha, ninguém era mais competitivo do que ele. Ele cruzava e o Vavá entrava para fazer o gol, mas era uma delícia ver o Garrincha jogar. Ninguém foi mais competitivo do que o Pelé, por exemplo. Era uma beleza ver o Pelé jogar, ele dava chapéu, pegava do outro lado, coisa de louco. Será que o Palmeiras é o único time do Brasil que gosta de jogar futebol?

Wanderley Luxemburgo: Não. Eu acho que a proposta de jogo do Palmeiras mexeu com [várias] pessoas. Vocês da imprensa começaram a falar e a noticiar e a buscar o porquê disso, dessa ascensão do Palmeiras. Eu acho que foi gostoso isso aí. E outras equipes começaram a buscar isso. Você vê que foi uma coisa [comentada], e sentiu-se que as outras equipes e até os próprios treinadores comentaram muito a respeito do Palmeiras, [dizendo] que gostariam que suas equipes jogassem dessa forma. Acho que foi uma das coisas que eu sempre batalhei e que estou brigando. E sou jovem ainda para poder colocar isso no futebol e ser discutido, é a proposta de jogo, né? É você acrescentar alguma coisa dentro do nosso futebol. Eu quero ter acrescentado alguma coisa na hora que eu parar de trabalhar no futebol. Nesse momento, eu acrescentei pelo menos uma coisa para ser discutida, né? Através dos meus jogadores, que são os grandes feitores.

Matinas Suzuki: Wanderley, a Folha fez uma pesquisa com os jogadores e deu disparado... numa pesquisa feita entre os jogadores de futebol que tinham jogado pelo menos uma vez nesse Campeonato Paulista [deu disparado] você como o melhor técnico do campeonato, o melhor técnico que eles consideram que está em ação. Como você recebeu esse resultado? Eu até achei o resultado um pouco curioso. Porque, na verdade, eu acho que o jogador gosta, mas não muito, de trabalhar com você, certo? Porque você exige muito, você cobra muito, essa coisa toda. Então, o resultado, no entanto, foi altamente expressivo. Como você recebeu essa pesquisa?

Wanderley Luxemburgo: Foi bom. Essa pergunta foi boa, porque a imagem que eu passo, [para] quem não me conhece, é que é difícil trabalhar comigo. Muito pelo contrário, é extremamente fácil, não é difícil. Se fosse difícil eu não teria ficado tanto tempo em clubes como fiquei, certo? E ter conquistado o sucesso que conquistei. Teve um dia que eu fui questionado: “Você só ganha títulos no Palmeiras”. Eu tenho dezenove títulos conquistados, cinco foram no Palmeiras, os outros 14 foram onde?

Matinas Suzuki: E considerar um Campeonato Paulista pelo Bragantino, que não é fácil [O Bragantino foi campeão paulista em 1990, dirigido por Luxemburgo].

Wanderley Luxemburgo: Então, eu lido com quatro fatores em um atleta: união, disciplina, trabalho e profissionalismo. Você já me ouviu falar a respeito disso, mas os outros aqui não me ouviram falar. Então, quando eu estou dentro do campo eu sou profissional, cobro dos meus atletas, e muito, profissionalismo. Eles têm que ser profissionais, porque eles são pagos para aquilo ali. Eles têm que dignificar e honrar a camisa do clube e dar o máximo. Eles são obrigados a trabalhar: é produzir 100%. O algo a mais é que faz a diferença na final de uma competição, [é isso] o que eu busco, o algo a mais. Aí vem essa pessoa [falando] que talvez eu não passe essa imagem. Porque eu sou dessa forma, eu não sou uma pessoa que fico rindo a toda hora, mas eles são meus amigos. Eles tomam cerveja comigo, nós conversamos, vamos a lugares juntos, com família, sem problema nenhum. Então, esse lado aí que as pessoas também desconhecem é o lado do ser humano Wanderley. Agora, quando eu estou ali, [sendo] entrevistado e trabalhando, eu sou o profissional. Aí, dentro do meu trabalho eu sou meio chato, eu sou uma pessoa que cobra bastante profissionalismo.

Melchiades Filho: Wanderley, qual é a sua religião?

Wanderley Luxemburgo: Eu acredito em Deus.

Melchiades Filho: Você tem algum tipo de ritual que segue antes, durante e depois dos jogos?

Wanderley Luxemburgo: Não, não sou uma pessoa que faço alguma coisa... por exemplo, usar cueca do dia, do jogo anterior, essas coisas.

Sidney Mazzoni: Espera aí, Wanderley, mas na final contra o Corinthians em 1994, você usou uma camisa e quase não servia mais, uma camisa branca lá.

Wanderley Luxemburgo: Não, mas eu vou contar para vocês a história, está certo? Eu falei que não sou muito.

[Risos]

Matinas Suzuki: O quão pouco você é então?

Wanderley Luxemburgo: Mais ou mesmo assim... porque vamos relacionar logo com o Robério, né? O Robério [Robério de Ogum, místico e vidente que trabalhou com Luxemburgo durante os anos 1990] é meu amigo de família. Minha esposa esteve semana passada, semana retrasada aqui com minhas filhas e ficou na casa dele, porque somos amigos. E se ele tem a religião dele e ora por mim dentro da religião dele, não tem por que... Se meu amigo faz isso por mim, eu tenho mais é que aceitar. Mas ele também, dentro da religião dele, acredita em Deus, como eu acredito, está certo? E a história da camisa é que eu fui dirigir um clube na Arábia Saudita que nunca havia conquistado um título, o Al Shabab-Riyadh [clube da Arábia Saudita em que Luxemburgo trabalhou como assistente técnico entre 1987 e 1988] e nós ganhamos o campeonato lá.

Sidney Mazzoni: Com aquela camisa?

Wanderley Luxemburgo: Com aquela camisa. Aí, na final do Corinthians eu falei, eu vou por essa aqui, é essa que vai. [O Palmeiras sagrou-se campeão brasileiro após  derrotar o Corithians na primeira partida da final (3 a 1) e empatar na segunda (1 a 1)]

[Risos]

Melchiades Filho: Ele te deu algum conselho nesse campeonato que você tenha seguido? O Robério.

Wanderley Luxemburgo: Não, ele não pode me aconselhar. Por exemplo: "Wanderley, faz isso!"

Melchiades Filho: Não, "faz isso" não. Mas, se você fizesse isso ...

Wanderley Luxemburgo: Ele não me aconselhou, não. Ele simplesmente só foi numa emissora de televisão e falou o que aconteceria no jogo. Calhou de, no jogo, acontecer tudo aquilo que ele falou. Mas ele não falou para mim: "Faça isso, faça aquilo".

Melchiades Filho: E aquele caso dos meiões, de trocar a cor dos meiões?

Wanderley Luxemburgo: Então, na hora, nós achamos [melhor] colocar o meião branco, até porque... uma pessoa que eu nunca vi, que eu não sei quem é, uma senhora, chegou e falou: “O Palmeiras, quando joga com o meião branco...” E ele já tinha falado comigo: “Eu gosto do branco, é paz”. Essas coisas dele. Então, eu já tinha na cabeça aquilo que ele tinha falado, né? E chegou uma moça e falou: “O Palmeiras há um tempo atrás, jogou de meião branco”. Aí, bateu uma coisa com outra, eu falei: “Vai com esse meião branco mesmo”.

Luiz Alfredo: Wanderley, com tanta fé assim você promete que o Brasil vai ser Campeão do Mundo em 1998, na França? Ou em 2002, no Japão?

Wanderley Luxemburgo: Se eu prometo? Como é que eu vou prometer?

Luiz Alfredo: Não sei!

Wanderley Luxemburgo: Não, não prometo nada. Não sei se vou ser eu o treinador. Só vou prometer se eu for o treinador, ia trabalhar em cima disso, não sei.

Melchiades Filho: A sua TV tem garantia até quando, assim? [A frase é uma brincadeira com o anúcio de um  fabricante de TVs, que dava garantia de seus produtos até a próxima Copa do Mundo]

[Risos]

Wanderley Luxemburgo: Não, eu acho que o Brasil tem condições [de ser campeão]. Eu escrevi para o Jornal da Tarde, eles sabem disso. Na primeira coluna que eu escrevi eu falei que os finalistas da Copa do Mundo seriam o Brasil, Itália e Alemanha. Foram os três finalistas que eu coloquei. Porque toda Copa... e ia colocando à Argentina, não sei se na época eu coloquei a Argentina, não me recordo bem. Acho que foi o Brasil, Itália e Alemanha que eu coloquei. Todo o campeonato mundial disputado, esses três países ...

Sidney Mazzoni: Você errou a Alemanha, né? Foi o Brasil e Itália.

Wanderley Luxemburgo: Não, eu falei Brasil, Itália e Alemanha.

Sidney Mazzoni: Só podem dois, né? Você errou a Alemanha.

Wanderley Luxemburgo: Eu falei que esses três países, com certeza, sempre vão disputar uma final de Copa do Mundo.

Maria Amélia Rocha Lopes: Wanderley, que você vai chegar à seleção, você vai chegar mesmo, todo mundo sabe disso, é uma questão de competência. Você tem esse pensamento positivo e tudo isso. Agora, chegando lá, o seu time vai ser parecido com o time do Telê [Santana, técnico do Brasil em 1982 e 1996, conhecido por ter feito a Seleção jogar um futebol ofensivo], do Parreira [Carlos Alberto Parreira, técnico da Seleção em 1994, quando o Brasil sagrou-se campeão, e em 2006. Seus times são reputados como cautelosos] ou do Zagallo [Técnico da Seleção em 1970, -quando o Brasil foi campeão - e em 1998]?

Wanderley Luxemburgo: Do Wanderley.

[Risos]

Maria Amélia Rocha Lopes: E que cara vai ter o time do Wanderley?

Wanderley Luxemburgo: Não sei. Vai ter a minha filosofia, né? Aquela que eu penso. Não adianta eu pensar no Zagallo, no Parreira e...

Maria Amélia Rocha Lopes: Não, só para a gente ter uma idéia de como seria o seu time.

Luiz Alfredo: Só para saber se nós vamos disputar por pênalti, é isso [O Brasil venceu a Copa do Mundo de 1994 em disputa de pênaltis contra a Itália].

Maria Amélia Rocha Lopes: Vai ser aquele zero a zero no pênalti, disputando no pênalti a final ou o quê?

Wanderley Luxemburgo: Não, vai ser dentro da característica que eu acho que eu tenho que trabalhar. O Palmeiras trabalha em cima daquilo que eu penso de futebol: ser uma equipe extremamente ofensiva sem ser vulnerável. Você pode criar isso.

Matinas Suzuki: Wanderley, teve algum jogador que você quis trazer para esse time e não conseguiu?

Wanderley Luxemburgo: Teve, mas não vamos citar nomes, com certeza.

Matinas Suzuki: É o nome que interessa.

[Risos]

Rogério Fasano: Wanderley, você acha viável um torneio mundial interclubes?

Wanderley Luxemburgo: Acho.

Rogério Fasano: Por que a Fifa não reconhece esse jogo de Tóquio como... Você tem informação? [Na época, o campeão da América e da Europa disputavam um jogo ao final do ano conhecido como Copa Intercontinental. Os clubes vencedores afirmam-se como campeões mundiais interclubes. A Fifa, porém, não reconhece o título].

Wanderley Luxemburgo: Mas aí eu acho que, por exemplo, eu acho que um jogo final, de dois clubes, da América do Sul e outro da Europa ,para jogar para dizer que é o melhor.... Eu acho que é muito injusto também. Acho que teria que ter um torneio para você ...

Luiz Alfredo: Mas a Fifa reconhece não como um campeonato, mas reconhece como uma copa.

Rogério Fasano: Você acha que seria viável um campeonato mundial interclubes?

Wanderley Luxemburgo: Acho, até para poder valorizar.

Luiz Alfredo: Está vendo o que você incutiu na torcida do Palmeiras, está vendo? Estão querendo disputar o campeonato do mundo de clubes.

[Risos]

Marcelo Duarte: Wanderley, no noticiário dos jornais de sábado você falou que o Palmeiras não faria aquela foto posada, antes do jogo contra o América. No final das contas, acabou fazendo, apesar do Cafu ter ficado meio bravo com o time. Existe muita superstição no futebol de que fazer a foto do time antes dá azar. No ano passado, a Placar procurou o Corinthians e o Palmeiras para fazer o pôster antes, e daria aquele que fosse o campeão [paulista]. O Palmeiras, que não era dirigido por você [o técnico foi Carlos Alberto Silva], não quis fazer por causa de superstição; e o Corinthians fez. E o Corinthians foi o campeão. E nem se falou muito nisso, porque acabou dando certo. Eu queria saber: essa idéia que se comentou de não fazer a foto do pôster, de que isso poderia parecer soberba: "o time do Palmeiras está posando para a foto do título!" Isso foi uma coisa que surgiu como?

Wanderley Luxemburgo: Mas quem polemizou isso foi a imprensa, não fui eu.

Marcelo Duarte: Mas você deu alguma ordem para que não se fizesse a foto?

Wanderley Luxemburgo: Não, eu não polemizei. Simplesmente... até foi engraçado, né? Foi até com o Prósperi [Luiz Antonio Prosperi, jornalista] do JT [Jornal da Tarde], porque ele falou assim: “Mas está difícil fazer matéria no Palmeiras, não tem nada, não acontece nada”. Aí criaram, de repente, esse negócio da foto. Eu não tenho superstição, só que não é uma coisa de praxe. Mas, veja só: nós íamos jogar o último jogo da competição? Não. Não era o último jogo da competição. Ali não se decidiu o campeonato. Era um jogo que o Palmeiras poderia adquirir uma vantagem maior, mas não decidia a competição. Então, porque tem que tirar uma foto de campeão se ali não decidia competição? Se fosse de praxe todos os jogos tirar foto eu deixaria, não teria problema nenhum. Só que todo mundo da imprensa, os fotógrafos, queriam tirar uma foto para que se o Palmeiras ganhasse, no sábado, e o Santos e o São Paulo empatassem no dia seguinte, tivessem uma foto do campeão. Mas no sábado não estavam disputando o último jogo, não terminava ali.

Marcelo Duarte: Mas poderia ter terminado e a torcida ficaria sem a foto.

Wanderley Luxemburgo: Poderia, mas era hipótese. Mas aí era um problema de vocês. [risos] Então, vamos criar o seguinte: não é verdade. Aí era um problema de vocês. Vocês estavam preocupados ali em ver uma coisa para vocês, não o meu lado.

Marcelo Duarte: Não, mas poderia ser campeão. Se você não tinha superstição...

Wanderley Luxemburgo: Poderia, mas não foi.

Marcelo Duarte: Não, mas poderia ser e a torcida ia procurar na segunda-feira a foto do time campeão.

Wanderley Luxemburgo: Sabe o que vocês iam fazer? Vocês iam buscar uma foto de arquivo que tivesse aquela equipe ali e botar.

[...]: Todo mundo fez isso.

Matinas Suzuki: Wanderley, é verdade que você tem pretensões de seguir carreira política? Ou não é verdade isso?

Wanderley Luxemburgo: Tenho, mas não agora, mais para frente. Eu acho que mais para frente eu vou seguir. Mas agora não é o momento de se tocar em parte política. Meu momento profissional é muito bom e não tem por que eu querer sair agora para a parte política. Eu gostaria, até para associar um pouco o profissional do futebol dentro da política, conseguindo ver se a gente consegue aí ajudar alguma coisa no futebol. Acho que dá para se ajudar muito, dá para se fazer muita coisa pelo futebol. Acho que falta buscar alternativas. Não dentro do próprio governo, não. É com a força política, buscar alternativas dentro das empresas. Empresas é que tem que patrocinar essa garotada, tirar essa garotada da rua. É através das empresas.

Sidney Mazzoni: Como você se definiria politicamente, Wanderley? Você é de centro, você é de centro-esquerda, você é de ponta-direita, você é de meio-campo, lateral-esquerdo?

Wanderley Luxemburgo: Eu sou [da] linha esquerda moderado.

Matinas Suzuki: Lateral-esquerdo...

[Risos]

Wanderley Luxemburgo: Nada tem de ser tratado com radicalismo. Independente se tem uma ideologia, ela tem que ser conversada. Não radicalizar nada. Por exemplo, eu acho que político não é o partido. Político é aquele que tem uma mensagem. Eu estou no partido do Roberto Freire [Presidente nacional do Partido Popular Socialista (PPS). Político pelo MDB nos anos 1970, veio a integrar o Partido Comunista Brasileiro (PCB), pelo qual militou na ilegalidade. O PCB tornou-se o PPS] hoje, por causa dele. Até surgiu na própria Veja, na pergunta da menina - ela me perguntou, mas não saiu, que o partido estava querendo me desfiliar por causa desse episódio [da manicure]. E eu falei: “olha, mas não tem problema, se eles não me querem e é dessa forma que eles estão me pré-julgando me condenando antes. Então, eu saio do partido. Não tem problema nenhum”. O Roberto Freire foi uma pessoa que mudou, em função do momento do mundo. Ele era uma pessoa de um partido extremamente radical [refere-se ao PCB]. E viu que o comunismo estava caindo no mundo. O muro [refere-se à queda do Muro de Berlim] havia tombado, aquelas coisas todas. Então, você vê que a postura dele hoje é uma postura diferente de um tempo atrás.

Sidney Mazzoni: Você acredita em pessoas, não em partidos.

Wanderley Luxemburgo: Eu acredito em pessoas, não em partidos. Eu acho que ele mostrou ser uma pessoa extremamente equilibrada e que está preocupado com o país, não com Roberto Freire ou com a ideologia do partido. Está preocupado com o país. Ele é uma pessoa que tinha que ser vista como exemplo.

Sidney Mazzoni: Você não acha um contra-senso você ser um cara de equipe, de trabalho estruturado, com sistema... e acreditar na pessoa e não acreditar no partido, na estrutura, na agremiação?

Wanderley Luxemburgo: Mas antes de você criar uma equipe, você tem a pessoa. Claro que, para você ter uma equipe muito boa, você tem que ter pessoas muito boas, senão você não tem uma equipe muito boa.

Matinas Suzuki: Wanderley, o Chagas, aqui que é o maître do Rodeio Restaurante, pergunta para você o seguinte: “Qual o jogador que mais deu trabalho para você dentro do Palmeiras?”.

Wanderley Luxemburgo: No Palmeiras, o que mais externou foi o Edmundo...

Melchiades Filho: Qual foi o melhor que você treinou na sua carreira?

Wanderley Luxemburgo: O melhor jogador, o melhor atleta que eu treinei? Tive grandes atletas.

Melchiades Filho: Num momento específico, assim...?

Wanderley Luxemburgo: Ah! Teve grandes atletas. Seria uma injustiça, tive grandes jogadores.

Melchiades Filho: E qual foi o melhor com quem você jogou?

Wanderley Luxemburgo: Joguei? O Zico.

Rogério Fasano: Wanderley, o treinador escuta a torcida ou a gente fica ali gritando à toa?

[Risos]

Wanderley Luxemburgo: Não, não pode escutar. Treinador não pode escutar nem a torcida e nem a imprensa.

Matinas Suzuki: Que fica escrevendo à toa, também.

Wanderley Luxemburgo: Não, não escrevendo à toa. [risos] Eu acho que ele [técnico] não tem que acreditar, ele tem que acreditar naquilo que está trabalhando, está certo? E os jogadores têm que saber que [ele] não [é influenciado] nem [pela] torcida e nem [pela] imprensa. Mas a partir do momento em que os jogadores sentirem que ele é frágil, e que tem uma influência externa, ele está roubado, não consegue realizar um trabalho. Eu, por exemplo, respeito a opinião de todos da imprensa, mas não quero dizer com isso que eu tenho que concordar com todos. Muitas vezes sou polêmico por causa disso, porque eu não sou obrigado a concordar com todo mundo.

Rogério Fasano: Mas às vezes não dá vontade de ver a torcida gritar o nome...

Wanderley Luxemburgo: Mas respeito, está certo? Agora, a torcida é emoção, ela não é razão, ela é emoção. Ela está ali numa emoção muito grande. Então, estava empatando: zero a zero, né? Ela quer ver sua equipe ganhar. Então, de repente ela acha que a solução é aquele fulano lá e, comandada por pessoas, ela começa; e vai pegando eco, e vai pegando eco, daqui a pouco todo o estádio. Mas será que aquela é a razão? Será que aquele é o jogador que deveria ser colocado? Aí eu tenho que ter a sensibilidade, o discernimento de deixar para lá. Eu que tenho que saber. Não, eles estão pedindo isso aqui, mas o time está precisando desse jogador - independente de me chamar de burro, até porque trocar e chamar de burro...

Rogério Fasano: [interrompendo] Mas quando coincide [as opiniões] você fica feliz? Ou não? Fala: “É isso mesmo que eu vou por!”

[Risos]

Wanderley Luxemburgo: Não, até porque é muito fácil me chamar de burro, é só trocar o G pelo R do meu nome [Luxemburgo já foi chamado de "Luxemburro" por torcedores].

Sidney Mazzoni: Qual foi o melhor jogo da campanha até agora, Wanderley? Na tua concepção, que jogo o Palmeiras desenvolveu mais?

Wanderley Luxemburgo: Que jogo nós desenvolvemos mais? Nós tivemos grandes jogos, jogamos bem. Mas nas goleadas nós não jogamos bem, fizemos bastante gol, mas ficamos bastante vulneráveis.

Sidney Mazzoni: Que jogo chamou a atenção? [Qual jogo] você acha que o Palmeiras chegou mais próximo daquilo que você imagina que o time possa jogar? Qual foi?

Wanderley Luxemburgo: Nós estivemos bem, nós estivemos sempre muito bem, o time sempre esteve muito bem. O time sempre jogou muito equilibrado. Mas não tem um jogo que...

Sidney Mazzoni: [interrompendo] Contra o Corinthians certamente não foi, porque você disse que o seu time não sabe administrar uma vantagem, só sabe bater.

Wanderley Luxemburgo: Ali, nós ficamos dois a zero. E ficamos ali, depois, defendendo o resultado. Não foi o melhor jogo. Acho que o melhor jogo foi no Parque Antarctica com uma equipe que, eu não me lembro qual foi, sinceramente. Nós estivemos bem, porque foram 28 jogos, com 27, 25 vitórias, dois empates e uma derrota. Então, a equipe esteve sempre muito coesa, muito equilibrada. Então, o jogo que tenha se destacado, talvez eu tenha até comentado já, mas no momento ...

Luiz Alfredo: Você nunca foi de fugir do campo [colocar o time na defesa]; é o contrário, né? O futebol ficou muito mais gostoso de se ver com você. Se você tirar os jogadores do Palmeiras, que Seleção Brasileira você faria hoje, sem os jogadores do Palmeiras?

Wanderley Luxemburgo: Não faria. Tem coisas que eu não me permito.

Luiz Alfredo: Que é isso, Wanderley? Sem os jogadores do Palmeiras!

Wanderley Luxemburgo: Sabe por quê?  Eu acho que eu não posso. Eu sei, por exemplo, o que eu represento o quanto dá eco uma coisa que eu venha a falar. Então, eu falar de uma Seleção Brasileira hoje é injusto, não é certo, vai dar polêmica. Eu não quero isso. Quero estar fora disso, quero só ajudar. Se for me chamar para ajudar, eu vou estar aí. Para polemizar, não.

Rogério Fasano: Wanderley, dentro do campo, na hora do sangue quente, assim, vale mais o grito do capitão ou do treinador que está no banco? Mudou muito comandar o time do gramado?

Wanderley Luxemburgo: Uma das coisas que o futebol paulista colocou que está dando certo é o tempo técnico. Esse tempo técnico é uma coisa que... Só acho que ele podia ser mais flexível. Não precisa ser do vigésimo minuto [ao] 23 de cada tempo, para cada treinador que tivesse direito. Acho que ele podia ser mais flexível. Porque eu posso pedir um tempo técnico com um ou dois minutos [de jogo], dependendo do adversário. Aquilo que eu, por exemplo... faço uma preleção, imagino que o adversário vai jogar de uma forma. Aí, com três ou quatro minutos, senti que ele está diferente. Eu posso pedir um tempo técnico para poder trabalhar minha equipe. Agora, só posso pedir até o vigésimo minuto para poder entrar com 23. Eu acho que podia ser até o trigésimo minuto. Por que até o trigésimo minuto? Porque depois, para frente, já é malandragem, já pode usar para... O adversário está com o jogo ganho, você pede tempo técnico para poder passar o tempo; aí já não é uma coisa legal. Mas até o trigésimo minuto ele é liberado, do primeiro ao trigésimo minuto.

Rogério Fasano: Mudou muito dirigir o time ali do gramado, ou não?

Wanderley Luxemburgo: E com o respeito ao negócio do capitão, o capitão é o porta-voz. Meus jogadores têm liberdade até para mudar aquilo que eu penso dentro do campo. Se ele sentir dentro do campo que aquilo que eu passei não está dando certo - por exemplo, marcação pressão não é uma coisa que eu determino. É uma coisa psicológica. Não adianta eu pedir para o meu jogador: “olha, marca pressão.” Se eles não estiverem bem, não tem como fazer uma marcação pressão. Mesmo que seja na casa do adversário. Se eles sentirem que tem que marcar o adversário, [pois] eles estão sentindo fragilidade do adversário, eles têm que marcar pressão na casa do adversário. Uma coisa mais emocional do que uma determinação. Então, o atleta tem que ter liberdade dentro do campo, de poder, de repente, mudar uma determinação do treinador.

Matinas Suzuki: Wanderley, o Fernando, aqui de São Paulo; o Alexandre Morales, do Cambuci; Ivair Condor, da Móoca; e o Willian Marques, de Osasco, perguntam: “Quando você vai dirigir o Corinthians?”.

Wanderley Luxemburgo: É outra boa pergunta porque, de repente, teve um tempo atrás que me quiseram ...

Matinas Suzuki: [interrompendo] O Rogério Fasano vai morrer do coração aqui, mas ...

[Risos]

Wanderley Luxemburgo: Quiseram me estigmatizar como treinador do Palmeiras. Foi daquela resposta que eu te dei, dos 19 títulos conquistados, cinco foram no Palmeiras. Os outros 14 foram onde, né? Eu sou treinador de futebol. Então, amanhã eu vou dirigir o Corinthians, posso estar dirigindo o São Paulo. Agora, hoje eu sou treinador do Palmeiras. E até terminar a minha etapa no Palmeiras eu vou trabalhar com muita dignidade, com muito respeito ao Palmeiras e muita seriedade. Amanhã, quando for o Corinthians, vai ser da mesma forma. Eu vou defender as cores do Corinthians da mesma forma: profissionalmente.

Marcelo Duarte: Você é cobrado pelos palmeirenses? Você podia estar disputando, conquistando o tetra-campeonato? [A referência é ao fato de Luxemburgo ter treinado o Palmeiras em 1993 e 1994, quando sagrou-se campeão, e ter deixado o clube em 1995, quando o Palmeiras foi vencido na final do Campeonato Paulista]

Wanderley Luxemburgo: O pessoal fala muito isso. Mas não é. O pessoal fala muito assim: “Wanderley, se você estivesse aqui no Corinthians, quer dizer, no Palmeiras...” Olha, já fiquei com o Corinthians na cabeça. “Se você estivesse aqui no Palmeiras, o [time] teria chegado a Tóquio, teria ganho.” [A referência é à final do torneio intercontinental] Não, não acho que seria [campeão].

Matinas Suzuki: Agora, Wanderley, o Palmeiras - vamos fazer as contas direitinho - o Palmeiras só pode ser campeão do mundo em 1997, certo?

Wanderley Luxemburgo: [riso] Está certo.

 Matinas Suzuki: E até lá, como você fica?

Wanderley Luxemburgo: Mas eu disse no início, a proposta...

Matinas Suzuki: [interrompendo] Não, você disse que só vai até o fim do ano de 1996. Está faltando um ano nessas contas.

Wanderley Luxemburgo: Termina no final do ano o meu contrato, mas com a prioridade de renovação com o Palmeiras. A prioridade é do Palmeiras. Se eles entenderem que nós classificarmos para a Copa Libertadores, entenderem que eu posso dar continuidade no trabalho - e eu também entender que eu posso dar continuidade, né? Mas a prioridade é o Palmeiras.

Matinas Suzuki: Wanderley, nós estamos infelizmente chegando ao final do programa. Durante o programa inteiro chegaram fax e telefonemas em solidariedade a você. E eu gostaria de ler alguns para você ter uma idéia de que tipo de resposta ao seu trabalho que você tem do nosso telespectador. A Vera Moreira diz: “Parabéns pela postura séria de se entregar à Justiça até que provem se você é culpado ou não”.  A Valdete Oliveira, de Ouro Fino, Minas Gerais diz que acredita em você e que é para você não ficar triste. O Fábio Albiero de Faria disse que nunca foi tão gostoso ser palmeirense na vida inteira dele e que parabeniza você pelo grande trabalho desenvolvido no time dele. O Donizete diz que você está merecendo o Cartão Verde há muito tempo lá no programa Cartão Verde, da TV Cultura - onde estão o Flávio e o Trajano juntos aí [Flávio Prado e José Trajano, apresentadores do programa. O Cartão Verde era um premiação oferecida a cada programa].

Wanderley Luxemburgo: Já me deram já. Um cartãozinho.

Matinas Suzuki: Já te deram. Então, estão devendo o segundo. O Vicente diz que é muito bom saber que o time dele tem um técnico com a sua humildade e honra; o Carlos Eduardo Calheiros diz: “Obrigado pelo título paulista”. O Carlos, que é empresário palmeirense, parabeniza pelo trabalho. Também o Marcos, torcedor do Palmeiras aqui de São Paulo, a Denise, mandam um abraço, parabenizam. O Odair diz: “Parabéns palmeirenses, estamos orgulhosos pelo timaço que você montou”. O Miranda, de Recife: “Wanderley, muito obrigado!". A torcida do Palmeiras agradece ao título de Campeão Paulista, Marcos e Carlos Calheiros. O Alexandre Proença, 25 anos, do Butantã, diz: “Wanderley você é o maior técnico do mundo, um grande abraço e muito sucesso na sua vida”. O Pim, o Zaga, o Saracura, o Pedro Paulo, Zé Carneiro, pessoal de Serra Negra diz o seguinte: “Nós gostaríamos de esclarecer a todos que nas três vezes que a Sociedade Esportiva Palmeiras esteve concentrada aqui em Serra Negra, neste ano, tanto os jogadores como a comissão técnica estiveram sempre em contato com a nossa população. Em nenhum momento houve por parte de você, amigo Wanderley, qualquer desrespeito ao morador da nossa cidade. Mostrou-se sempre educado, cordial, com espírito de liderança que faz de você hoje o maior nome do futebol brasileiro”. Tem outro fax que diz: “Meu nome é Alexandre, tenho 27 anos, sou corintiano, mas posso dizer que Wanderley é o melhor técnico do Brasil atualmente. E gostaria de prestar minha solidariedade a você”. E o Reginaldo Alves: “Gostaria também de prestar solidariedade ao Wanderley e gostaria de tê-lo como técnico do Corinthians" E [diz] que tudo isso que estão fazendo com você é só inveja dos adversários, apesar de ele ser corintiano. Eu gostaria muito de agradecer a sua presença aqui nesta noite e desejar boa sorte para o Palmeiras. 

Wanderley Luxemburgo: Eu é que agradeço. Foi ótimo. E, com certeza, como eu falei no início do programa, em momento algum eu quis deixar de vir aqui em função de alguma coisa que está acontecendo no momento. Acho que eu não tenho por que ficar em casa, eu tenho mais é que estar aqui, sendo questionado e inquirido por vocês. E entrar no campo como eu entrei na vez passada: de cabeça erguida, porque eu não fiz nada.

Matinas Suzuki: Muito obrigado, Wanderley, muito obrigado à nossa bancada de entrevistadores, muito obrigado pela sua atenção. Eu lembro a vocês que o Roda Viva volta na próxima segunda-feira, às dez e meia da noite. Até lá, uma boa semana para todos e uma boa noite.

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