Memória Roda Viva

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Peter Arnett

27/6/1994

Para o célebre correspondente de guerra da CNN, "a transmissão inédita de informações é o fator mais novo na diplomacia mundial. Ela influencia não só os que tomam decisões nos EUA, mas no mundo todo"

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[Programa gravado]

Heródoto Barbeiro: Boa noite. Correspondente de guerra é o jornalista que se atreve a tudo, arriscando a própria vida para fazer a cobertura das notícias na frente de batalha. Para o centro do Roda Viva desta noite, nós temos um convidado muito especial, é um correspondente internacional, de fama internacional. Com 35 anos de trabalho e carreira, ele está atualmente na rede de TV norte-americana CNN. Peter Arnett já esteve em zonas de guerra em todo o mundo, do Laos ao Vietnã até a recente Guerra do Golfo. Esteve também em El Salvador, no Líbano, Panamá, Indonésia, Chipre e Afeganistão e outras zonas de combate. A controvertida cobertura que fez da guerra do Vietnã provocou a ira do então presidente americano [Lyndon] Johnson [(1908-1973), eleito vice-presidente, sucedeu John Kennedy após sua morte em 1963. Depois de eleito, em 1964, intensificou a atuação do exército americano no Vietnã], mas lhe valeu o prêmio Pulitzer de jornalismo. A reportagem que fez ao vivo de Bagdá foi de uma simultaneidade sem precedentes. A entrevista exclusiva com Saddam Hussein causou polêmica na imprensa nos Estados Unidos. Alguns militares o acusaram de ter sido manipulado pelo ditador iraquiano. Isso fez o jornalista norte-americano levantar a questão da liberdade de imprensa na guerra, como ela costuma ser usada para uma auto-glorificante versão oficial da guerra. Graças ao respeito adquirido ao longo de sua carreira, tais insinuações foram tidas como infundadas. Considerado como uma espécie de Indiana Jones da televisão norte-americana, Peter Arnett veio ao Brasil para o lançamento do livro Ao vivo do campo de batalha, no qual ele conta suas memórias nos 35 anos vividos e sofridos em muitas frentes de guerra de Saigon até Bagdá. Para entrevistar o correspondente Peter Arnett, nós convidamos os jornalistas: Antônio Cabral, redator internacional do jornal O Estado de S. Paulo; Igor Fuser, editor de internacional da revista Veja; José Arbex, editor do jornal O Mundo, Geografia e Política; Vicente Adorno, editor-chefe do Departamento de Documentários da Rede Cultura; Andréa Fornes, editora de exterior e ciências da Folha de S. Paulo; José Eduardo Varella, editor internacional do Jornal da Tarde e José Hamilton Ribeiro, repórter da Rede Globo de Televisão e ex-correspondente de guerra no Vietnã. Peter Arnett, minha primeira pergunta é sobre o livro Ao vivo do campo de batalha: do Vietnã a Bagdá, 35 anos de zona de combate no mundo. E este livro você oferece aos seus colegas que arriscaram as suas vidas constantemente para fazer cobertura de notícias. E eu gostaria que você me respondesse o seguinte: em que momentos, para escrever este livro em 35 anos de trabalho, você correu efetivamente perigo de vida?

Peter Arnett: A Guerra do Vietnã foi a mais longa. Eu cobri o Vietnã durante dez anos, estava com as tropas americanas na linha de frente. Soldados e colegas próximos de mim foram mortos. E foi lá que aprendi a ser um correspondente de guerra. Em Bagdá, no começo dos bombardeios, eu e meus colegas da CNN não tínhamos certeza se o hotel de onde estávamos transmitindo seria alvo das bombas dos americanos e aliados. Mas continuamos transmitindo assim mesmo, porque sentimos que era uma notícia muito importante.

Vicente Adorno: Dada a agressividade do ser humano, o senhor acredita que ainda é possível sonhar com um mundo sem guerra?  

Peter Arnett: Boa pergunta. Ted Turner, que fundou a CNN há 15 anos, esperava que ela trouxesse paz ao mundo ao levar a informação e a comunicação ao mundo todo. Mas desde a fundação da empresa, as guerras continuam. Por outro lado, acredito que a comunicação moderna pode ser eficiente na solução de conflitos. Nestes últimos dias, tivemos uma prova disso, com a CNN na Coréia, [do Norte] com Jimmy Carter [presidente dos EUA entre 1977 e 1981, quando procurou estabelecer uma política de paz, fortalecendo relações diplomáticas com os países árabes, a União Soviética e Cuba] tentando resolver publicamente a crise em relação às armas nucleares. Talvez através de uma comunicação melhor possamos atingir o ideal de um mundo pacífico.

Heródoto Barbeiro: Peter, a CNN mantém uma programação praticamente 24 horas ao vivo, relatando basicamente os conflitos internacionais. Isso pesa muito na opinião pública, a ponto de ela influenciar a direção da política externa dos seus países? E o caso mais recente citado é o da Coréia do Norte.  

Peter Arnett:
A transmissão inédita de informações é o fator mais novo na diplomacia mundial. Ela influencia não só os que tomam decisões nos EUA, mas no mundo todo. Já notamos, na CNN, em momentos de crise, como na Coréia... o impasse estava acontecendo e os EUA queriam impor sanções à Coréia do Norte e pedia apoio internacional. Então, Jimmy Carter se encontra com Kim Il Sung, líder da Coréia. E em frente das câmeras de TV, Kim ll Sung abraça Jimmy Carter e dá um sinal ao mundo de que tem intenções de paz. Imediatamente surgem reações positivas do Japão, as bolsas de valores sobem em todo o mundo e os EUA anunciam que vão adiar as sanções. E então fica claro que hoje muita diplomacia é feita através da mídia.  

Antônio Cabral:
Nós sabemos que o senhor está indo para a Coréia do Sul. Então a minha curiosidade é saber a sua opinião sobre essa idéia de que está havendo um cenário de guerra na península coreana. Nós tivemos, recentemente, desdobramentos interessantes como essa viagem do Carter à Coréia do Norte. Parece que houve um amainamento da crise. E eu gostaria, particularmente de saber sua opinião sobre a posição da China nesta crise. A China vem mantendo uma posição enigmática, apesar de ter recebido, novamente, as vantagens comerciais dos Estados Unidos. Ela parece estar ainda hesitando apoiar sanções no Conselho de Segurança [da ONU]. Qual é sua opinião sobre a posição da China nesse conflito? Porque a posição da China nesse conflito é fundamental. Sem ela será impossível adotar sanções. Assim como a Rússia também, que recentemente disse que não apoiaria sanções porque não foi consultada. Então eu gostaria que o senhor analisasse esse cenário dando ênfase à posição da China.

Peter Arnett: O comportamento da China e o da Rússia têm sido bem claros nas últimas semanas. Os chineses disseram que não necessariamente apoiariam as sanções, mas não deram certeza. A Rússia já disse que talvez não as apóie, mas não disse que vetaria sanções. Existe uma manobra política. Os EUA estão tentando criar um consenso internacional, assim como o presidente [George Herbert Walker] Bush [(1924- ), presidente dos Estados Unidos entre 1989-1993. Pai de George W. Bush (1946- ), presidente de 2001 a 2009] criou um consenso em relação à Guerra do Golfo. É lógico que a possibilidade da Coréia do Norte deixar a Agência Internacional de Controle Nuclear e de fornecer armas nucleares a certos países é muito desanimadora para os EUA e para o mundo. Mas será preciso diplomacia para se criar um consenso. O fato de Kim ll Sung abraçar Jimmy Carter em frente das câmeras de TV e dizer que realmente tem boas intenções de paz tem dois lados. Pode ser pior para os EUA se ele não estiver falando sério. É o outro lado da diplomacia internacional feita em frente da TV. Será que podemos confiar em líderes que na frente das câmeras dizem uma coisa, mas na verdade pensam de outra forma? Vimos isso acontecer com Saddam Hussein, que dizia ser a vítima da Guerra do Golfo e não o vilão.

Heródoto Barbeiro: Agora, Arnett, não é uma contradição? De um lado, os Estados Unidos anunciam sanções contra a Coréia do Norte; e do outro, o ex-presidente Carter vai lá, na mesma Coréia do Norte, fazer uma negociação?

Peter Arnett: Não existe contradição. Estamos diante de um processo. Por um lado, o governo dos EUA tem que ter uma postura firme: desaprovar o fato de a Coréia do Norte estar construindo armas nucleares, e a relutância da Coréia do Norte em aceitar investigação internacional de seu programa nuclear, como havia concordado previamente. De um lado, os EUA projetam uma posição dura, porque é assim que funciona uma diplomacia. Mas, por outro lado, por que não um Jimmy Carter ou outra pessoa tentar uma solução diplomática isoladamente? Até mesmo um órgão da imprensa pode ser usado. A CNN foi à Coréia do Norte há seis semanas e, na época, Kim ll Sung disse que iria cooperar com a comunidade internacional. Uma semana depois, ele proibiu a entrada de especialistas nucleares das Nações Unidas. Faz parte de um emaranhado diplomático. A diferença hoje é que o mundo todo pode assistir a esse processo acontecendo. Acredito que todos nós estamos mais bem informados sobre o que está acontecendo e também os nossos governos. Seja no Brasil, nos EUA, ou em outros lugares do mundo consegue-se sentir melhor o que está acontecendo. Existe menos segredo, de forma que podemos fazer um julgamento e, em última análise, influenciar ou ter um melhor entendimento de como as decisões são tomadas. Esse é o nosso papel na mídia, um papel que aumenta conforme a mídia vai ficando tecnologicamente mais perto do século XXI.

Andréa Fornes: A crise na Coréia do Norte não seria mais um sinal de que a política externa do presidente Bill Clinton [Presidente dos Estados Unidos entre 1993 e 2001. Na política internacional, suas prioridades incluíam reduzir barreiras de comércio e mediar os conflitos na Irlanda do Norte e na Palestina] está desgovernada, como já aconteceu com a Somália, Haiti e Bósnia?

Peter Arnett:
A política externa de Clinton tem certamente sido criticada nos EUA e internacionalmente. Não estou aqui para elogiar o presidente Clinton. Alguns aspectos da política externa dele foram eficientes: sua política para com a ex-União Soviética, o apoio às mudanças econômicas e o desenvolvimento da ex-União Soviética. No Oriente Médio, onde Israel e OLP [Organização para Libertação da Palestina] e também os vizinhos árabes de Israel estão se encontrando para solucionar uma crise de longa data, isto também tem sido positivo. A Coréia do Norte é um caso diferente da Somália e da Bósnia, porque os EUA o consideram de interesse internacional. A ameaça à Coréia do Sul, ao Japão, aos aliados americanos e a possibilidade de um conflito nuclear será mais palpável, se a Coréia produzir e vender bombas. Clinton tem sido fraco em relação à sua política externa, mas tem sido encorajado a ficar firme com a Coréia do Norte. Vamos ver o que vai acontecer. O fato de Jimmy Carter ter conseguido fazer com que Kim ll Sung, reconhecidamente um recluso, aparecesse em público e até trouxesse sua mulher a público - o que não acontecia há anos - talvez mostrem que a política de Clinton esteja se fortalecendo. Mas só o tempo dirá.

José Arbex:
Primeiro, parabéns pelo livro, eu acho que vai ser uma importante contribuição para os jornalistas e estudantes de jornalismo no Brasil. Mas eu estou preocupado com o problema ético. O secretário geral das Nações Unidas disse recentemente, Boutros-Gali [Diplomata egípicio, secretário geral da ONU de 1992 a 1996], que a televisão já se transformou em um dos componentes da guerra. Ela não apenas cobre a guerra, mas atualmente é um dos componentes talvez decisivos de uma guerra. Por outro lado, eu tenho aqui um relato do jornalista Gregg Easterbrook, que ele fez para a revista New Republic de setembro de 1991, em que ele diz rapidamente o seguinte: que os censores militares americanos ficaram enlouquecidos, furiosos, porque um comandante deixou ver um tape em que jovens iraquianos, jovens adolescentes iraquianos tiveram seus corpos cortados ao meio por rajadas de metralhadora dos Estados Unidos, sem piedade, por parte dos americanos, e que soldados americanos se comportavam de uma forma selvagem contra esses adolescentes iraquianos indefesos. "Quando perguntei" - diz o Gregg Easterbrook - "para um oficial do Pentágono por que esse tape foi censurado, por que a opinião pública americana não teve acesso ao tape, ele respondeu: 'Se nós permitirmos que as pessoas vejam esse tipo de imagem, nós nunca mais vamos vencer nenhuma guerra'. A CNN foi parte fundamental da cobertura da guerra do Iraque e quis convencer o mundo, por qualquer razão que seja, seja por censura, seja por ato de vontade própria do dono da CNN, de que a guerra do Iraque foi limpa e que foi uma guerra sem vítimas praticamente, quando nós soubemos que houve mais de quatrocentas mil mortes na guerra, a esmagadora maioria de iraquianos, e que objetivos civis foram destruídos. E, no entanto, a CNN apresentou a imagem de uma guerra limpa, sem sangue, com armas inteligentes e quis convencer o mundo de que isso foi verdade. A pergunta que eu faço do ponto de vista ético é se o senhor, como importante membro do staff [equipe] de reportagem da CNN, não sente um conflito íntimo em relação às suas convicções pessoais e o papel que a CNN acabou assumindo nos conflitos internacionais?

Peter Arnett:
Meu livro reflete 35 anos de lutas contra a censura em todos os níveis e particularmente a censura do governo americano. Durante a Guerra do Vietnã, a mídia foi criticada pelo governo Johnson por ser negativa quanto à guerra, não esquecendo os massacres reportados pela imprensa, como o assassinato de quinhentos civis vietnamitas. Tínhamos muitas imagens da brutalidade da guerra. Na Guerra do Golfo, concordo que o governo americano proibiu o acesso da mídia ao campo de batalha. Prometeram o acesso, mas depois negaram, e nós reclamamos ao Pentágono [Departamento de Defesa estadunidense] sobre esta tendência de evitar imagens negativas de guerras em que os americanos estejam envolvidos. Mas gostaria de lembrar que minha cobertura de Bagdá deixou o governo americano irritado, justamente porque mostrava cenas de pessoas mortas, os massacres. Temos retrato dos cadáveres. Uma guerra não é limpa e civis morrem nela. Estamos comprometidos em mostrar os dois lados. Por isso a CNN está na Coréia do Norte. Muitos americanos vêem os norte-coreanos como inimigos. Nós os vemos como parte da história e queremos entrevistá-los.

José Eduardo Barella: O senhor foi o único jornalista ocidental que obteve permissão para entrevistar o ditador iraquiano Saddam Hussein na Guerra do Golfo. Na quinta-feira passada, um repórter da CNN foi o único que pode acompanhar o encontro do ex-presidente americano Jimmy Carter com o ditador coreano King ll Sung. O senhor considera saudável essa tendência da informação ser vinculada por apenas um órgão? O senhor não acha isso perigoso em termos de liberdade de imprensa?

Peter Arnett:
É saudável para a CNN essa exclusividade [diz isso sorrindo]. Uma das razões para isso é o fato de ela ser hoje o único canal internacional cujas matérias são vistas rotineiramente em Bagdá e em Pyongyang, a capital da Coréia do Norte. Nós atingimos mais de duzentos países e territórios no mundo. Todos os ministros do exterior assistem à CNN. Todos esses governos, de Saddam Husseim à Coréia do Norte, estão mais familiarizados com a nossa empresa, e é isso que faz com que eles nos convidem com exclusividade. Nós não pedimos. Em Bagdá não queríamos ser exclusivos, só queríamos estar incluídos. Outro motivo é que em nossas reportagens usamos o máximo de informação. Quando entrevistei o Saddam Husseim por noventa minutos, todos os minutos foram ao ar. Cheguei a falar por meia hora sobre o que estava acontecendo. Nós, na CNN, nos consideramos uma fonte para os jornalistas de todo o mundo que usam nosso material por saber que ele é acurado. Acreditamos assim ajudar outros jornalistas.

José Eduardo Barella:
Mas eu insisto, porque eu considero perigoso apenas um órgão - apesar de a CNN ser de uma competência inquestionável -, não deixa de ser estranho que apenas um órgão tenha esse privilégio exclusivo do furo. Isso que me preocupa. E eu gostaria de saber se o senhor acha que isso é uma tendência que vai se dar, daqui para frente, na imprensa mundial.

Peter Arnett:
Não é uma tendência mundial. Geralmente existem dois mil repórteres cobrindo um assunto importante. Com tantos jornalistas, pode-se garantir a veracidade da história. Nos países livres, há sempre alguma mídia cobrindo os eventos. Mas há paises com restrições à mídia: Cuba, Vietnã, Coréia do Norte. Poucos países continuam restringindo o acesso da imprensa e negando vistos. Até na Bósnia existem centenas de jornalistas. Restam apenas alguns países controlados que desejam limitar o acesso da imprensa, mas se for a CNN, OK. Mas não é a tendência. Talvez a CNN tenha aberto as portas para outros repórteres. Vamos à Coréia do Sul, eles se vêem na CNN e deixam os repórteres entrar. Isso aconteceu no Iraque e eu acredito que também vá acontecer na Coréia do Norte, provavelmente porque a CNN abriu a porta.

Andréa Fornes: Quando aceita fazer a cobertura de uma guerra, o senhor vai por uma questão de desafio pessoal ou por uma obrigação profissional?

Peter Arnett:
Pelos dois motivos cubro guerras. Sou pago pela CNN para ser um correspondente de guerra. Existem centenas de repórteres como eu no mundo, na Somália, na Bósnia, em Ruanda. Por que fazemos isto? Em meu livro, tento explicar que acreditamos que as informações dos conflitos são muito valiosas para o mundo. A comunidade mundial contribuiu com tropas para resolver conflitos como em Ruanda. Por que os EUA enviaram tropas? Por que enviar tropas para acabar com a violência? São tropas de países envolvidos e podem ser mortas. Acreditamos que as pessoas e os governos devem ter informações suficientes antes de se envolverem em conflitos. Em segundo lugar, pessoalmente, porque é o meu trabalho. No Vietnã, onde estive por mais de dez anos, aprendi a cobrir guerras e depois tentei cobrir outras coisas. Cobri a Casa Branca por seis meses e fiquei muito entediado. Cobri assuntos internos dos EUA, mas voltei às guerras porque percebi que podia cobri-las bem e nunca fui ferido. Acho que até ser ferido, vou continuar cobrindo. Basicamente faço isso porque acredito ser muito importante ter informações sobre esses conflitos.

Heródoto Barbeiro:
Arnett, se você for ferido, você pára?

Peter Arnett: Depende da seriedade do ferimento, mas certamente pensaria duas vezes. Claro, sou apenas humano.

Heródoto Barbeiro:
Eu vou passar a pergunta para o jornalista José Hamilton Ribeiro, que foi ferido como correspondente de guerra.

José Hamilton Ribeiro:
Ao lado do fato político, do fato militar, do fato econômico, a Guerra do Vietnã se tornou também um fenômeno cultural. É grande o número de livros sobre o Vietnã, de artigos, e principalmente de filmes americanos. Alguns são verdadeiras obras primas do cinema como, por exemplo, Platoon [1986, dirigido por Oliver Stone], Apocalipse now [1979, dirigido por Francis Ford Coppola], The Hunter [1980, dirigido por Buzz Kulik. No Brasil, recebeu o título Caçador implacável] e Corações e mentes [1974, dirigido por Peter Davis]. E eu pergunto: esses filmes estão distantes da realidade que você viu no Vietnã? Qual destes filmes você vê como mais fiel ao que foi a guerra?

Peter Arnett:
Boa Pergunta. Tenho mais de três mil livros sobre a Guerra do Vietnã, e existem também muitos filmes sobre aspectos da guerra: reabilitação de soldados, soldados se tornando criminosos. Você mencionou dois dos melhores. Platoon é uma apresentação correta do que aconteceria a uma unidade no Vietnã. É claro que o que acontece no filme em duas horas levaria um ano para acontecer no Vietnã, mas é essencialmente correto. O outro filme que mencionou, Apocalipse now, também é correto, apesar de ser uma visão surrealista, mas está certo na essência: a loucura do envolvimento americano, a insanidade de alguns oficiais, justificando sua participação das maneiras mais estúpidas, e o perigo mostrado no filme que certamente ficará como um documentário verdadeiro sobre a guerra.

Igor Fuser:
Eu gostaria de introduzir a questão em nosso debate sobre a maneira como a imprensa internacional - que é uma imprensa basicamente americana e inglesa - cobre os grandes conflitos do mundo. Gostaria de dar dois exemplos. Um, o senhor falou agora há pouco sobre um dos grandes momentos da sua cobertura da guerra: é quando o senhor mostrou o abrigo em Bagdá onde foram mortos trezentos civis iraquianos pelas bombas, as supostas bombas inteligentes dos Estados Unidos. Agora, se a gente compara essas imagens com as imagens que foram mostradas pela televisão internacional dos Scuds iraquianos [um tipo de míssil, o Scud era a mais temida das armas iraquianas] que caíram em Israel, e causaram alguma destruição, muito menor do que a destruição americana no Iraque. Houve algumas vítimas, mas muito poucas. Essas imagens em Israel foram mostradas na televisão durante horas e horas, dias e semanas a fio, enquanto essas imagens de Bagdá foram mostradas de relance, durante dois ou três dias. O bombardeio em Bagdá, por exemplo, não foi capa da revista Time, da revista Newsweek, nem manchete de nenhum dos grandes jornais americanos. Segundo exemplo: agora no ano passado, durante esses combates na Somália, eu me lembro de um incidente que para mim é muito significativo. Houve uma escaramuça, um pequeno combate na Somália, e as agências internacionais todas noticiaram da seguinte maneira: houve um combate etc etc, cinco soldados das Nações Unidas morreram nesse combate. Foi morto o soldado americano, vamos supor, eu não lembro o nome, Bill Evans, 23 anos, de Memphis, Tennessee, casado, pai de um bebezinho e quatro soldados nigerianos, ponto. Minha pergunta é: a imprensa internacional não estaria ajudando a criar essa imagem de que existem no mundo dois tipos de seres humanos? Os seres humanos de primeira classe, que moram em Tel Aviv ou que nasceram nos Estados Unidos, e seres humanos de segunda classe, soldados nigerianos, civis em Bagdá etc?

Peter Arnett: Esta é o que chamo de uma pergunta cósmica porque introduz um argumento sobre seleção de notícias. Você está totalmente certo, já que a imprensa internacional é dominada pela mídia americana e britânica. Temos a tendência de privilegiar informações sobre americanos, ingleses e pessoas brancas no mundo, mais do que as informações que dizem respeito ao Terceiro Mundo, aos negros ou outras etnias. Faz parte do nacionalismo que acompanha a imprensa ocidental desde sua fundação. Mas tanto na CNN como em outros veículos, estamos tentando ir além deste estereótipo. Como fazemos isso? Na África do Sul, a CNN decidiu que se tratava de uma notícia importante. Mandamos uma equipe de 75 profissionais. Fiquei lá durante um mês e havia repórteres da BBC e de todo o mundo. Cobrimos a transição pacífica de um governo branco para um negro. Acredito que nossa cobertura foi ótima, a matéria era muito positiva e sempre enfatizamos que essa transição deveria servir de exemplo para outros países africanos e para o mundo. Delegações assistiram à transição, foi um evento positivo. Um exemplo além do interesse da mídia. Um dos motivos do atentado em Tel Aviv ter recebido tanta atenção e propaganda foi o fato de haver dois mil repórteres lá, enquanto em Bagdá havia vinte. Onde há um grande numero de jornalistas, existe a tendência a exagerar o fato. Se houvesse mais repórteres em Bagdá, haveria mais publicidade a respeito da destruição da cidade, mas os iraquianos restringiram o acesso. Mas está correto. Devemos preencher os espaços e dar cobertura à política de outros países. Farei uma propaganda da CNN aqui. Em 1984, Ted Turner convidou emissoras de todo o mundo para enviar, semanalmente, programas de três a quatro minutos com matérias consideradas importantes para seus paises. Meia hora diária de matérias de todo o mundo, duas horas aos sábados, e o fazemos há dez anos. É uma forma de dar representação ao que está acontecendo em países que não têm cobertura da imprensa norte-americana.

Heródoto Barbeiro:
 Arnett, você acabou de dizer que tinha apenas vinte repórteres em Bagdá, a cobertura maior foi da CNN. Qual foi o acordo que você ou a CNN fez com Saddam Hussein para ter essa cobertura?

Peter Arnett: Os iraquianos tinham alguma confiança na CNN. Para eles, a CNN era uma conexão com o mundo. Eles não tinham nenhuma conexão diplomática com nenhum país quando começou o bombardeio contra o Iraque. Os ministros de Saddam assistiam à CNN para ouvir o que tinham a dizer o presidente Bush e o general [Norman] Schwarzkopf [general líder da operação de guerra que libertou o Kuwait, em janeiro de 1991, da ocupação efetuada pelas tropas iraquianas], para ter uma noção do que estava acontecendo no mundo e na Guerra do Kuwait [o mesmo que Guerra do Golfo]. Saddam deu uma entrevista porque queria dizer ao mundo o que pensava. Eu fazia perguntas difíceis, e ele me dava respostas falando sobre sua filosofia, sobre como era vítima da guerra e porque as pessoas deviam deixar que ficasse com o Kuwait. Ele sabia que na CNN teria uma linha de comunicação direta com o mundo. A CNN não se importou em deixar que falasse, pois sentimos que em um momento tão difícil, era importante ouvir o que o inimigo tinha a dizer. Imediatamente após a entrevista, o presidente Bush apareceu para dar a resposta dos americanos. Saddam soube imediatamente que os Estados Unidos rejeitavam seu argumento. Foi um momento de diplomacia que só pôde ser visto na CNN.

José Arbex:
Eu vejo um problema na sua argumentação. O problema básico é o seguinte. Você, de certa forma, equipara a CNN a outras empresas de comunicação, quando eu acho que essa equiparação é falsa, porque você, particularmente, você indivíduo, você jornalista, individual, querendo ou não, a partir do momento em que se estabeleceu um sistema mundial de comunicações, nós, em qualquer situação, temos dois tipos de realidade. A realidade do campo de batalha, a realidade da destruição, a realidade de todos os interesses concretos envolvidos, e uma outra realidade, que é a realidade virtual transmitida pela mídia, da qual a CNN se torna um componente fundamental. Ou seja, a CNN não é mais um assunto de jornalismo, ela se transforma em um assunto de Departamento de Estado. Porque a CNN é capaz, através da manipulação dessa realidade virtual, de transformar a derrota dos Estados Unidos, a derrota diplomática dos Estados Unidos na Somália [desde o início dos anos 1990, a Somália vivia intensos conflitos entre clãs, que causaram milhares de mortos e refugiados. Dada a truculência do general Aidid, em 1992 tropas dos EUA intervieram no país, mas não puderam derrotar o ditador. Em 1994, devido à forte pressão pública americana contrária à ocupação, os EUA saem em retirada], em uma vitória. Os soldados americanos foram festejados nas cidades americanas como vitoriosos, quando eles foram humilhados na Somália. E a CNN tem essa capacidade, através da manipulação da realidade virtual, de transformar uma derrota política em uma vitória diplomática. Então, a pergunta que eu insisto em colocar é a seguinte: você, como um dos principais repórteres da CNN, não é mais um instrumento da mídia, tomada na sua forma puramente jornalística? Você se transforma em uma figura que tem importância para o Departamento de Estado. Eu quero saber, do ponto de vista ético, como você se coloca essa questão. Porque nós temos vários outros exemplos de falsificação de realidade. Posso citar a Guerra da Bósnia, em que os sérvios são pintados como os cruéis - quando todo mundo lá pratica atrocidades - porque interessa para o Departamento de Estado Americano uma determinada concepção. E a CNN reflete os interesses do Departamento de Estado Americano, querendo você, individualmente, ou não. Eu quero saber do ponto de vista ético, como você se coloca essa questão.

Peter Arnett:
A CNN tem realmente um poder muito grande, e poderíamos apresentar uma derrota americana como vitória, mas não fazemos isso. Derrotas não são vitórias. O poder que temos na CNN não é usado para isso. A CNN é uma empresa de notícias, administrada profissionalmente, como as empresas de notícias para as quais vocês trabalham. Ela opera em âmbito internacional, mas estamos fazendo em âmbito internacional o que as TVs e jornais de vocês fazem com alcance regional. Com que freqüência políticos locais dão entrevistas a seus repórteres políticos e conseguem grandes manchetes em sua imprensa e suas TVs? Eles também estão tentando influenciar os acontecimentos. Somos uma plataforma para opiniões políticas para qualquer um que queira falar. Nos EUA, temos o ideal da liberdade de idéias, de deixá-las fluir através da mídia. A CNN faz isso com alcance internacional. É atemorizante pensar que poderíamos ser um instrumento do poderio americano internacional. Na Europa e na África já nos disseram isso. Mas, na verdade, por causa da Guerra do Golfo, e desde então, a CNN não é um instrumento de poder dos EUA. Por que então damos entrevistas com Kim ll Sung? Por que deixamos Saddam Hussein ir ao ar? Por que na Somália deixamos o general [Mohamed Farah] Aidid [(1934 –1996) sanguinário ditador somali, foi presidente de seu país de 1995 a 1996. Como líder do Congresso Unido Somali (USC) e depois da Aliança Nacional Somali, conduziu a resistência contra as tropas de ajuda humanitária das Nações Unidas e dos Estados Unidos] – que, por algum tempo, foi o homem mais odiado nos EUA por liderar uma quadrilha, em Mogadíscio [capital da Somália], que matou patrulheiros americanos e mandou apedrejar e massacrar soldados americanos – ir ao ar pela CNN? Porque acreditamos que deve haver um livre fluxo de informações, mesmo que venham de pessoas que o governo dos EUA vê como inimigas. Eu concordo, existe a ameaça de que uma mídia todo-poderosa possa abusar de seus privilégios. Mas, na CNN, não abusamos. Assista à CNN diariamente e verá que é verdade o que digo.

Heródoto Barbeiro:
Arnett, o fato da CNN ter menos de 1% de audiência nos Estados Unidos provoca esse efeito tão devastador como você está colocando? Quer dizer, uma repercussão tão grande lá nos Estados Unidos, de 1% a 4%, é isso?

Peter Arnett: Os telespectadores da CNN representam a circulação do New York Times, aproximadamente um milhão de americanos a assistem. Mas como os seus leitores são políticos, homens de negócios, jornalistas, os diplomatas internacionais o lêem, é um jornal essencial. Cada palavra sua é analisada, os fatos mais importantes do governo estão nele. A CNN se vê na mesma categoria. Todos os escritórios de deputados têm CNN, todos os jornais e TVs têm a CNN. Todo negócio nos EUA tem CNN. Atingimos um milhão de pessoas que são formadoras de opinião. Quando aparece uma matéria na CNN, aqueles que precisam saber... Os empresários que se preocupam com a estabilidade no Norte da Ásia, quando viram as imagens de Jimmy Carter abraçado a Kim ll Sung, ficaram mais seguros quanto ao futuro de seus investimentos na Coréia do Sul e Japão, e é assim em todo mundo. Eu ficaria muito feliz se muito mais americanos assistissem à CNN, mas pelo menos eu sei que temos a confiança dos americanos influentes. Eles têm respeito por nosso trabalho.

Heródoto Barbeiro: Antes de passar a pergunta aos nossos jornalistas, nós vamos fazer um pequeno intervalo e voltamos daqui a pouquinho. Hoje nós estamos conversando aqui com o correspondente da CNN em várias frentes de guerra, o Peter Arnett. A gente volta daqui a pouco.

[intervalo]

Heródoto Barbeiro: Nós voltamos aqui com o programa Roda Viva e hoje nós estamos entrevistando o correspondente da rede norte-americana de televisão, a CNN, que é o Peter Arnett, correspondente de guerra durante 35 anos. Nós lembramos aos telespectadores que hoje nós não temos perguntas por telefone, porque o nosso programa foi gravado com antecedência. Arnett, neste momento o Brasil todo está acompanhando de perto a cobertura da Copa do Mundo. Você disse agora há pouco [que havia] dois mil jornalistas em uma guerra, lá em Jerusalém, Israel. Hoje nós temos dois mil jornalistas cobrindo a Copa do Mundo nos Estados Unidos, que nem está sendo tão vista nos Estados Unidos, muito mais fora dos Estados Unidos do que dentro do país. Eu gostaria que você fizesse um rápido comentário sobre isso, sobre esta movimentação da mídia internacional.

Peter Arnett:
Acredito que a Copa do Mundo está recebendo uma grande cobertura. Uma pesquisa recente mostrou que apenas 32% dos americanos sabiam que a Copa estava acontecendo nos EUA. Mas a publicidade está acontecendo. Houve um desfile da seleção colombiana ontem em Chicago. Acredito que até o final da Copa, todos os americanos vão estar sabendo que o futebol é um esporte muito valorizado no mundo e vão entender melhor o papel do futebol na vida do resto do mundo. A maioria dos americanos acredita que o mundo todo adora beisebol, mas sabemos que isto não é verdade.

Andréa Fornes:
Eu gostaria de voltar ao assunto Ásia. Eu gostaria de saber se a CNN teve alguma reação e qual foi, quando o governo chinês proibiu a veiculação de imagens às vésperas do aniversário de Tian'anmen [grande praça no centro de Pequim, também conhecida como Praça da Paz Celestial. Foi palco, em 1989, da violenta repressão do governo chinês às manifestações pacíficas de estudantes e intelectuais contra o regime ditatorial. Estima-se a morte de quatro mil pessoas no episódio].

Peter Arnett: A CNN está sempre lutando com o governo chinês para poder dar coberturas completas. Mike Chinoy é o correspondente da CNN na China há oito anos e estava na Praça da Paz Celestial. Ele é um dos melhores jornalistas em Pequim. Nós conversamos com muitos dissidentes nos EUA, ele falou com os dissidentes em Pequim, e assim tentamos dar os dois lados da história. Mas é uma luta constante conseguir informações. Chinoy é um dos nossos melhores correspondentes. Qual é a imagem da China? Nós e outros grupos mostramos a situação problemática dos direitos humanos, mas o presidente Clinton diz que isto já não é tão importante, a economia é mais importante. Não é fácil entender completamente a dinâmica da política internacional, mas certamente a China é um dos países mais difíceis de se cobrir para todos os correspondentes.

Igor Fuser: Senhor Arnett, o senhor tem uma longa experiência com censura, vários tipos de censura. Durante a Guerra do Golfo, o senhor foi censurado pelo regime de Saddam Hussein. Ao mesmo tempo, os seus colegas estavam sendo censurados pelo comando militar norte-americano. Qual é a pior censura, a mais eficiente: a censura feita por uma ditadura, como no Iraque, ou a feita por governos que se vangloriam de ser democráticos?

Peter Arnett:
Esta é uma boa pergunta. A censura de um governo democrático é a mais condenável. Em Bagdá e no Iraque é de se esperar que Saddam Hussein e seu governo censurem as notícias porque essa é a natureza de uma ditadura. Eles não estão interessados em liberdade de expressão, em comentários livres, não estão interessados na verdade. Só lhes interessa a mensagem que querem passar do país. Mas quando os EUA ou a Inglaterra censuram informações, isso vai contra os princípios da democracia e deve ser condenado. Mesmo quando a maioria dos americanos diz não ligar se há ou não censura na guerra, nós, da imprensa, lutamos por maior liberdade de expressão e maior acesso, porque em uma democracia, segredos são condenáveis.

Heródoto Barbeiro:
 Agora, Arnett, você esteve aqui no Brasil com o proprietário da rede de televisão que tem 50% da audiência nacional, mais de oitenta milhões de brasileiros assistem essa rede, que é a Rede Globo de Televisão, comparativamente muito maior à audiência que a CNN tem lá nos Estado Unidos. Qual foi a impressão pessoal que você teve do doutor Roberto Marinho, que é o proprietário da TV Globo?

Peter Arnett: Eu estive com ele e tive uma boa conversa de dez minutos. A organização dele tem bom relacionamento com a CNN. O que mais posso dizer? Nos EUA, durante muitos anos, as três redes, NBC, ABC e CBS, detiveram o monopólio e dividiram a audiência: 240 milhões de americanos assistiam às três redes. A TV a cabo se desenvolveu nos EUA, hoje há uma variedade maior para os telespectadores, mas existe uma regulamentação federal nos EUA sobre a limitação do número de canais de TV. Acredito que com o desenvolvimento da TV a cabo no Brasil haverá uma maior variedade para os brasileiros, como em todo o mundo. Na Europa, por exemplo, até pouco tempo os programas eram essencialmente governamentais. Recentemente, as regulamentações foram modificadas, inclusive para a entrada da TV a cabo. Está acontecendo na Europa, talvez aconteça no Brasil.

Heródoto Barbeiro:
Agora, Arnett, o que significa uma emissora de televisão ter 50% da audiência do público interno no seu país, o que significa isso?

Peter Arnett: Se nos EUA uma emissora conseguisse uma audiência de 50%, isso seria considerado uma grande vitória e significaria um grande aumento da publicidade. Se estão querendo que eu diga aqui que o monopólio é ruim para o Brasil, práticas monopolistas são ruins de qualquer maneira e perigosas na esfera da notícia, como em outras áreas. No caso da TV, há uma regulamentação para o número de canais em certos países do mundo, até por razões técnicas. O desenvolvimento da TV a cabo, a meu ver, será uma oportunidade de acesso a mais pessoas. Existe um debate constante nos EUA sobre a necessidade de aumentar o acesso para as pessoas. Se o debate existe nos EUA, obviamente também existe no Brasil.

José Arbex: Você sempre foi... [Adorno o interrompe]

Vicente Adorno: Mister Arnett, a gente esteve falando o tempo todo sobre guerras e acontecimentos que se passam muito longe de nós, na África, Ásia etc. Eu gostaria de saber sua opinião sobre uma guerra que existe nas ruas de todas as grandes cidades do mundo, em São Paulo, no Rio, em Nova Iorque, Los Angeles, Moscou, em que pessoas são dizimadas por gangues, esquadrões da morte e outras coisas, como nós vimos recentemente ou vemos todos os dias na televisão.

Peter Arnett: É verdade. Certamente a cultura das drogas contaminou não apenas o Rio e São Paulo, mas também Washington, onde moro. Muitas pessoas morrem todos os dias. Está contaminando Londres, Los Angeles e Nova Iorque. Para mim, essa é uma forma de guerra. Nos últimos meses, tenho trabalhado um documentário com meus colegas da CNN sobre a ligação entre o Cartel de Cali [organização criminosa colombiana de tráfico de cocaína, liderada pelos irmãos Gilberto e Miguel Rodríguez Orejuela. O nome Cali é o mesmo da cidade onde se originou o grupo e que era sua principal base de operações] e a máfia italiana, e como se transformaram em um conglomerado multinacional das drogas. Há bilhões de dólares sendo movimentados ilegalmente e sendo usados para comprar influência. Fiquei sabendo sobre o caso recente de um restaurante famoso que pertencia ao Cartel de Cali e à máfia. Esse tipo de notícia certamente merece nossa atenção. Não acho que o governo americano esteja se envolvendo o suficiente na tentativa de diminuir o tráfico de drogas. Acho que nos EUA, porque a maioria dos usuários de drogas são de minorias étnicas, o americano médio não se importa. Os europeus pensavam da mesma forma, mas agora a heroína e a cocaína estão inundando a Europa. Certamente é um problema que está ajudando a destruir nossas cidades e precisa receber atenção.

Heródoto Barbeiro:
Arnett, você é favorável à descriminalização das drogas?

Peter Arnett:
Não sou favorável à descriminalização das drogas. Se heroína e cocaína estivessem à disposição como o fumo, acredito que seria terrivelmente destrutivo para a sociedade. Sou contra, mas existe um debate nos EUA a este respeito. Algumas pessoas acham que seria uma forma de diminuir o lucro das drogas.

Antônio Cabral: Voltando aos assuntos distantes um pouco, nós sabemos que você esteve no Iraque outras vezes depois daquela memorável cobertura da guerra. Eu voltei recentemente do Kuwait, e falou-se aqui na destruição que os americanos fizeram no Iraque. E eu pude ver com meus próprios olhos a destruição que os iraquianos fizeram no Kuwait, as torturas, as enormes violências. E eles estão lá muito preocupados com a continuação do regime do Saddam Hussein. O Iraque não respeita a soberania do Kuwait, não houve um acordo de paz, há 625 prisioneiros kuwaitianos no Iraque. Você acha que esse temor dos kuwaitianos de uma possível nova aventura militar do Iraque é procedente?

Peter Arnett:
A relação entre o Kuwait e o Iraque sempre foi hostil. O Kuwait ainda teme Saddam Hussein, porque ele está no poder e faz fronteira com o Kuwait. Mas a verdade é que Saddam está preso pelas sanções internacionais. Ele não reconstruiu seu aparato militar. Saddam Hussein continua no poder porque George Bush decidiu que preferia ter um Saddam Hussein contra um Irã forte do que não ter Saddam Hussein. Era um jogo político. Acredito que Saddam Hussein está acabado – [tossindo] acho que eu também [risos] – e há poucas chances de que ele se torne de novo uma ameaça. Isso não vai acontecer. O mundo não quer que isto aconteça. Acredito que os temores do Kuwait são exagerados.

José Arbex:
A gente está falando aqui já por uns quarenta minutos, e o tempo todo, tenho mais a impressão de que eu estou falando [mais] com um embaixador que representa a CNN aqui, que fala com muito cuidado sobre todos os assuntos, do que com um jornalista que tenha, de fato, uma posição pessoal sobre os diversos assuntos, que tenha criado um certo perfil psicológico depois de 35 anos de cobertura e que tenha uma opinião mais individual e personalizada sobre os diversos problemas. Como jornalista, a minha pergunta é a seguinte: você sempre, desde o começo de sua carreira, teve essa postura [risos], vamos dizer assim, senatorial, ou você desenvolveu essa habilidade diplomática ao longo dos anos?

Peter Arnett:
Eu deixo os fatos falarem por eles mesmos. Fatos são sempre muito mais eficientes que opiniões. Quando estávamos no Vietnã, desde o começo sabíamos que era uma guerra ruim e que os EUA não deveriam lutar no Vietnã. Mas não fazia sentido escrever uma matéria dizendo que a guerra era ruim. Quem ligava e quem liga hoje para o que diz Peter Arnett? Importam os fatos, as imagens, a realidade, e é isso que eu sou: um mero instrumento da realidade. Estou disposto a ir a qualquer lugar para recolher imagens, para colher as opiniões dos outros – amigo ou inimigo. Esta é minha vida como jornalista: falar com qualquer um que possa contribuir com a verdade. Esta é a minha contribuição para a democracia: um público informado. Eles não precisam de um público de opiniões. Na CNN temos Pat Buchanan e outros do programa Crossfire [programa de debate político] que tem muitas opiniões. A propósito, Pat Buchanan concorreu a um cargo político e não ganhou [risos]. Não acredito em opiniões, acredito em fatos. Eles falam mais alto que palavras. Uma imagem dramática, como já foi dito, fala mais que mil palavras.

Vicente Adorno:
Arnett, apesar disso, o senhor parece que vai ser o tema central de um filme de Hollywood, e já existe há muito tempo uma tendência de se glamourizar a profissão de jornalista. O senhor não acha que uma biografia hollywoodiana vai contribuir ainda mais para essa glamouralização?

Peter Arnett:
Se este filme for produzido, pode ser bem aceito ou não. Hollywood está interessada em contar a história da CNN em Bagdá, de como ganhamos a confiança dos iraquianos e como cobrimos os conflitos da guerra. Dustin Hoffman está interessado em fazer o papel de um dos produtores da CNN. Eles estão falando sobre a possibilidade de Anthony Hopkins [A história da cobertura da CNN gerou o filme Ao vivo de Bagdá, em que Michael Keaton interpretou o produtor Robert Wiener e Bruce McGill interpretou Arnett] fazer meu papel, porque ele tem o mesmo sotaque que eu. Mas, como disse no Rio, prefiro Danny DeVito [DeVito é bastante baixo e calvo] porque ele é mais o meu tipo [risos], mas acho que ele não está disponível para o papel. Adoro ir ao cinema, mas percebo que se passam vários meses entre um bom filme e outro. Não gosto nem de pensar o que daria um filme sobre a CNN.

José Hamilton Ribeiro:
Peter, eu pergunto se você, beirando os sessenta anos, não tem vergonha de ser repórter. Aqui no Brasil, a estrutura do jornalismo faz do repórter aquele jovem estouvado; o sujeito melhora um pouco como repórter, e já o encostam em uma chefia, em uma subchefia. Ele vira um John [...] da vida, fica chefete e nada. Eu fiquei impressionado no Vietnã, porque a maioria dos repórteres que estavam na guerra eram gente de mais de quarenta anos. Eu queria saber, no seu caso, se o caminho para chegar a um correspondente de guerra foi um degrau da profissão, um degrau de competência, ou se vai para ser correspondente de guerra só aquela pessoa inquieta, os mal amados da vida.

Peter Arnett: Não sei o que mais poderia fazer. Sou um repórter, o que mais posso fazer? Muita gente em jornalismo quer o meu emprego. Eles me perguntam: “Por que você não se aposenta para que eu possa ficar com o seu emprego?" [risos] Tenho que ressaltar que a experiência vale para alguma coisa. Quando o bombardeio começou em Bagdá, praticamente todos os repórteres foram embora. Fiquei porque tinha anos de reportagem como correspondente e já havia sido bombardeado por aviões americanos, por aviões russos no Afeganistão, por aviões israelenses no Líbano. Depois de tantos conflitos, olhei para o bombardeio de Bagdá e concluí que daria para sobreviver. Meus colegas, com metade da minha idade, disseram: “De jeito nenhum, nós estamos indo embora da cidade!" Então eu fiquei, porque naquele caso, a experiência foi importante. Eu admiro muito os meus colegas mais jovens. Na Bósnia temos repórteres jovens da CNN maravilhosos, que fazem um trabalho excelente. Adoro trabalhar com eles. Mas também gosto de ser correspondente de guerra e vou continuar fazendo isso por mais algum tempo.

Heródoto Barbeiro:
Arnett, correspondente de guerra tem família ou é como o marinheiro que tem uma namorada em cada guerra?

Peter Arnett:
Bem, esta é a lenda, mas não é a verdade. Todo correspondente de guerra tem uma família em casa. Eu tive uma família durante algum tempo. Mas o glamour sobre ser um correspondente de guerra é exagerado. Fui a Sarajevo em fevereiro e o hotel não tinha água corrente, não tinha eletricidade. Eu e meus companheiros cheirávamos mal, todas as manhãs, e não era uma atmosfera romântica, de forma alguma. Era muito perigoso. Nas páginas de [Ernest] Hemingway [(1899-1961), escritor norte-americano. Alguns de seus romances, como Adeus às armas e Por quem os sinos dobram se passam em períodos de guerra], a guerra é romântica, mas na realidade da CNN, a guerra é o inferno, e sempre será.

José Arbex: Arnett, dá para notar, recentemente, que nas guerras os correspondentes têm morrido com muito mais freqüência do que há alguns anos atrás. Eu queria saber a quê você atribui esse número elevado de jornalistas mortos em guerra. E mais uma perguntinha. O que é mais importante para um correspondente de guerra: ele ter coragem para enfrentar a morte ou ter sorte para não ser morto?

Peter Arnett: Esta é uma pergunta muito boa. Em meu livro, tento explicar que na minha vida, eu achei importante arriscar para conseguir notícias na guerra. Acho que faço parte de uma tradição de repórteres ocidentais de guerra que, na verdade, se ligam às tradições de repórteres no Brasil, na Colômbia, onde vocês têm assassinatos e conflitos entre autoridades e repórteres. Vejo que meus colegas da América Latina e da África passam por perigos em suas regiões da mesma forma que eu passo em âmbito internacional. Na Bósnia, os repórteres muçulmanos e croatas que foram mortos estavam lado a lado com seus colegas do ocidente que também morreram. Existe uma tradição, mas também toda uma nova geração de jovens. Durante a Guerra do Golfo, foi dito que Peter Arnett era o último de uma espécie em extinção, e que eu pertencia a uma tradição de jornalistas, mas que nenhum outro repórter arriscaria mais a sua vida por uma reportagem. Mas desde então, na Somália, na Bósnia, toda uma geração de jovens repórteres mostrou que uma reportagem vale a pena. Eu não quero morrer, nenhum dos meus colegas quer morrer fazendo uma reportagem. A maioria de nós não morre e nem sai ferido, mas o risco existe. É uma profissão onde existe uma verdadeira dedicação e um sentimento de missão, e eu tenho orgulho de todos eles.

Igor Fuser:
O senhor falou agora há pouco, se referiu à Guerra do Vietnã como uma guerra errada, que os Estados Unidos não deveriam ter travado. Esta não parece ser a opinião crescente nos Estados Unidos. Desde os anos [Ronald] Reagan [(1911-2004), presidente dos Estados Unidos entre 1981 e 1989 pelo Partido Republicano], tem surgido um movimento muito forte revisionista dizendo que os Estados Unidos estavam realmente certos em terem lutado no Vietnã contra o comunismo, e que a guerra, na verdade, não foi perdida no campo de batalha no Vietnã contra os vietcongues, os norte-vietnamitas, mas foi perdida em casa, dentro dos Estados Unidos, através da cobertura da imprensa. Ou seja, quem derrotou o Estados Unidos no Vietnã, segundo essa visão, não foram os guerrilheiros vietcongues, mas foram, em última análise, jornalistas como o senhor. Como o senhor se sente diante desse tipo de interpretação? O senhor ganhou a guerra do Vietnã, e os seus colegas, contra o maior exército do mundo.

Peter Arnett:
Já ouvi este ponto de vista. Nos EUA existe uma tendência que diz que os americanos, na verdade, ganharam a guerra ajudando países vizinhos a desenvolver a democracia. Na realidade, como dizem os historiadores, a guerra aconteceu no lugar errado, na hora errada. A Guerra do Vietnã foi uma manobra política equivocada, foi um erro. Os militares receberam uma tarefa que não podiam cumprir adequadamente. O fato de admitir esse erro mudou as relações dos EUA com o Vietnã. O embargo econômico foi retirado, estamos estabelecendo relações diplomáticas com eles. Estive em Saigon há duas semanas, a indústria americana está lá e os americanos estão sendo recebidos com boas vindas pelos vietnamitas. A página foi virada, e foi preciso reconhecer que se tratava de uma guerra errada, e basicamente tivemos que começar tudo de novo. É uma pena que os americanos se sintam em relação a Cuba da mesma maneira que se sentiam em relação ao Vietnã, e essa página ainda não foi virada.

Heródoto Barbeiro: Arnett, nós aqui da TV Cultura acompanhamos muito o noticiário da CNN. Nós vemos o seguinte: nem sempre a CNN tem a imagem do fato para mostrar, então é feito através do telefone. Neste momento, o que a CNN está fazendo? Está fazendo televisão ou está fazendo rádio na televisão?

Peter Arnett: Está fazendo notícias [risos]. Você pode chamar de rádio, TV ou o que quiser. Nós colhemos informações de qualquer lugar. Quando cobrimos a invasão americana do Panamá, em 1989, para capturar o general [Manuel] Noriega [ditador do Panamá de 1983 a 1989,  deposto em uma intervenção dos Estados Unidos], os panamenhos que gostavam de TV e da CNN telefonavam e nos contavam o que estava acontecendo. A mesma coisa na ex-União Soviética, durante a tentativa de golpe. Os russos telefonavam para a CNN. Somos uma empresa de notícias, em primeiro lugar, e faremos qualquer coisa para colocar uma notícia no ar, com palavras ou com imagens.

José Arbex:
Peter, qual é o critério dentro da CNN para decidir o que você vai cobrir, você pessoalmente? É um critério político, é um critério de urgência dos fatos, é um critério econômico? Como é que se decide que você vai para a Coréia e não para Ruanda, por exemplo? Esta é uma questão. E a segunda é se você já tentou entrevistar o Fidel Castro [(1926-) militar e político cubano, foi um dos líderes da Revolução Cubana (1958-1959), que derrubou o governo do general Fulgêncio Batista. Tomou o poder em 1959, permanecendo no governo de Cuba até 2008] ou não.

Andréa Fornes:
Eu queria emendar com uma outra pergunta, o seu seguro deve ser muito alto, não é? Como correspondente de guerra.

Peter Arnett: Entrevistei Fidel Castro duas vezes. A primeira foi durante oito horas; a segunda vez foi mais curta. Aliás, Fidel estava na CNN dois dias atrás, em Cartagena, e o correspondente espanhol da CNN o entrevistou. Ted Turner também o entrevistou por duas horas, três anos atrás. Ele recebeu tempo suficiente da CNN. Em relação ao critério de seleção dos locais que cubro, fatores econômicos são uma influência certa. Nós somos uma empresa que gera lucros, temos que dar lucro para manter a empresa funcionando. Ted Turner tem outros compromissos financeiros, as Organizações Turner têm uma dívida de um bilhão de dólares. O orçamento da CNN tem que estar equilibrado todos os anos. Então, o fator econômico é importante: quantos [repórteres] enviar à África ou à Coréia. Fatores econômicos são importantes, mas o fator principal é a notícia. Na Guerra do Golfo, gastamos milhões de dólares além do orçamento. Mandamos cem funcionários para o Golfo porque, naquele caso, era uma história prioritária. Eles me escalam se a matéria promete bastante, afinal sou um cara velho e me canso facilmente. Vou à Coréia do Sul porque é um assunto de destaque e já estive lá. Acham que posso contribuir com a reportagem. Também devo ir ao Haiti porque existe uma crise em andamento. Geralmente fico com as matérias internacionais da CNN.

Andréa Fornes:
Um segundo [pedindo a palavra].

Heródoto Barbeiro: Você acredita que nesse escândalo envolvendo o presidente da... Ele não respondeu sua pergunta?

Andréa Fornes:
Não.

Heródoto Barbeiro: Ah, desculpe.

Andréa Fornes: Eu gostaria de saber agora sobre o seu seguro de vida.

Peter Arnett: Não me importo com o seguro de vida porque não vou ficar com ele. Acho que está por volta de um ou dois milhões de dólares. A CNN oferece seguro apenas durante a cobertura de guerra, do dia de chegada ao dia de partida somente. É um assunto um tanto complicado.

Andréa Fornes: E como é que vocês... [Arnett a interrompe].

Peter Arnett:
Enquanto estiver no Brasil, não tenho cobertura de seguro de guerra, então, por favor, não deixem que nada me aconteça [risos].

Andréa Fornes: Por que você não está em Ruanda, onde está havendo uma guerra que já matou quase 500 mil pessoas?

Peter Arnett: Temos um correspondente muito bom em Nairóbi [capital do Quênia], cobrindo a história desde o começo. Temos bom relacionamento com a TV britânica, eles não precisam de mim lá. Há imagens suficientes e a cobertura está muito boa. Talvez eu vá para lá se a comunidade internacional enviar tropas, mas na verdade, eles não precisam de mim lá.

Antônio Cabral:
Arnett, embarcando na pergunta do Arbex sobre a CNN, qual é o seu relacionamento com a estrutura da CNN, qual é a influência que os diretores, os editores da CNN têm em relação ao seu trabalho? Você se sente livre? Qual é o peso que existe entre o correspondente internacional que sabe o que deve fazer e a direção da CNN? Em última analise, qual é o peso que o Ted Turner tem nas decisões que vocês tomam dentro do cenário?

Peter Arnett:
Essa é sempre uma boa pergunta em jornalismo. Quem decide sobre o que vai na TV, no jornal etc. Tudo é designado para mim, me incumbem das reportagens. Não sou eu quem decide para onde vou. Fui mandado à Coréia, não pedi para ir a Bagdá. Queria ir com o general Schwarzkopf. Já o havia coberto no Vietnã. Amigos me aconselham a cobri-lo, ele me ajudaria. Mas me enviaram a Bagdá, pois precisavam de mim lá. Por isso fui a Bagdá. Desculpe, qual é o resto da pergunta?

Antônio Cabral:
Eu queria saber qual é o peso que existe de decisão entre o correspondente internacional, o correspondente de guerra e os editores. Qual é o seu relacionamento com os editores?

Peter Arnett:
Falo com a sede da CNN em Atlanta todos os dias. Recebo orientação sobre as reportagens. Mas quando se trata de algo como Bagdá ou Coréia, tenho uma grande influência no que aparece na reportagem. Eu ligo e digo o que tenho e ouço o que querem. Nem sempre consigo o que gostariam, mas influencio quando estou em campo. Ted Turner influencia algumas vezes. Por exemplo, quando o governo americano não queria ninguém da imprensa na Guerra do Golfo, não queria observadores em Bagdá. Sabiam que cobrir os bombardeios teriam impacto político negativo. Eles consideraram a possibilidade de me trazer de volta, mas Ted Turner disse que se eu quisesse, podia ficar, porque isso era devido aos correspondentes. Essa foi uma decisão pela qual eu serei sempre grato. A CNN demonstrou que pode estar em qualquer lugar.

Vicente Adorno:
Mister Arnett, hoje em dia a gente vê as guerras entre Estados sendo instituídas por conflitos étnicos, raciais, religiosos etc. Na sua opinião, como é que vão ser as guerras em um futuro próximo?

Peter Arnett:
Em primeiro lugar, deveríamos ser gratos pelo fim da Guerra Fria. A ameaça de um aniquilamento nuclear não existe mais. 25 mil armas nucleares americanas e 25 mil soviéticas lançadas juntas, isso não existe mais, graças a Deus. Em segundo lugar, acho que está claro que democracias não entram em guerra. Nunca mais a Inglaterra, a França, a Alemanha e os EUA vão guerrear uns contra os outros. Não lutaremos com o Japão de novo. Por que lutar com nossos vizinhos? Por que entrar em guerra, se podemos conversar? Por outro lado, as diferenças étnicas na África, na Ásia, no Leste Europeu e o deslocamento de alguns países depois do fim do império soviético, são muitas guerras que devemos observar. Temos que prevenir a disseminação nuclear. Por isso, o impasse com a Coréia é tão importante. No futuro, as preocupações do mundo devem ser a explosão demográfica, a ecologia, as drogas, assuntos não tão sérios como a Guerra Fria. Pequenas guerras, mas afastamos a ameaça de aniquilamento.

Heródoto Barbeiro: Agora, Arnett, esse escândalo envolvendo o presidente dos Estados Unidos e sua esposa, na sua avaliação, como jornalista, pode ser uma segunda edição do caso Watergate [caso de corrupção nos Estados Unidos que levou, após uma investigação do jornal The Washington Post, à renúncia do presidente Richard Nixon em 1974]?

Peter Arnett:
Não. A única semelhança está nos nomes: Whitewater [investigação sobre um empréstimo de US$ 300 mil dólares concedido à Susan McDougal, sócia e amiga do casal Hillary e Bill Clinton, na década de 1980, quando Clinton era governador do estado de Arkansas, EUA], Watergate. Até mesmo os republicanos que criticam Clinton dizem que, mesmo que ele seja culpado das acusações, não se trata de um motivo para impeachment. Clinton não teria que deixar a presidência. Mesmo se culpado, isso não influi na presidência. As pessoas podem até pensar mal dele, e as pesquisas de opinião podem mostrar que a popularidade dele venha a cair, mas ele não terá que sair da vida política. Parece que o caso se tornou um oportunismo político exagerado pelos críticos do governo. Clinton deveria estar sendo criticado em muitas áreas de sua política, ao invés desse assunto do Whitewater, que não tem nenhuma relação com assuntos da atualidade.

José Arbex:
Qual foi a entrevista que você fez que causou a maior impressão psicológica? Quer dizer, qual foi o sujeito que você entrevistou que o impressionou mais? E qual foi o fato que você cobriu que o impressionou mais também?

Peter Arnett:
Entrevistei Yasser Arafat seis ou sete vezes nos anos 1980, e ele era sempre muito impressionante. Ele era um fugitivo dos israelenses, fugitivo dos EUA. É um homem que dorme em uma casa diferente todas as noites, não necessariamente com uma mulher diferente a cada noite, por motivos de segurança. Ele é sempre fascinante, carismático e cativante, além de ser uma pessoa importante para o Oriente Médio. É interessante ver que hoje já é aceito. Visitei recentemente a casa de Al Gore, vice-presidente dos EUA, e havia sobre a mesa uma foto de Al Gore apertando a mão de Arafat. Isso não seria possível há dois anos. Um político não teria a foto dele sobre a mesa. O outro entrevistado seria Saddam Hussein, o homem que o presidente Bush chamou de “o Hitler do Oriente Médio”, o homem mais odiado do mundo naquele momento. A oportunidade de confrontá-lo cara a cara e fazer perguntas para as quais o mundo queria respostas foi um dos pontos altos de minha carreira jornalística. Foi muito empolgante, e eu me senti parte da história naquele momento.

Vicente Adorno: Mister Arnett, o senhor não sentiu medo de ser usado por alguém que quisesse prender ou assassinar um desses entrevistados difíceis?

Peter Arnett:
Muitas vezes sinto medo e fico assustado com o que está acontecendo. Mas isso faz parte. Em Sarajevo, seria loucura não sentir medo quando os bombardeios e a artilharia começam a atacar. Mas é preciso tomar uma decisão maior, a decisão de participar desses eventos mundiais. Se se quer cobrir a Guerra do Golfo, então a decisão mais importante é ir até lá. Depois de tomar essa decisão e assumir um compromisso, os perigos que aparecerem serão menos problemáticos. Sabemos que repórteres são assassinados e, felizmente, poucas vezes estive em lugares onde isso ocorreu. Com exceção do Líbano, onde um amigo repórter foi seqüestrado, raramente estive em lugares onde os jornalistas eram alvo. Se tenho medo de ser seqüestrado? Não, aceito a possibilidade como parte do risco.

Igor Fuser: Só complementando o que o senhor estava dizendo, no seu caso, qual foi a situação em que o senhor se sentiu mais em perigo?

Peter Arnett:
Perigo? Cobri 17 guerras e conflitos nestes 35 anos e cada um deles teve o seu perigo. O mais perigoso foi o Vietnã: dez anos junto com os soldados americanos.

Igor Fuser: Uma situação específica, um momento?

Peter Arnett: Meu livro está cheio de momentos específicos [risos]. Quatrocentas páginas de momentos específicos, mas vou me lembrar de alguns para você. Em 1965, eu estava em uma floresta ao norte de Saigon, com um coronel de infantaria americano. Ele olhava um mapa, e eu olhava o mapa por cima do seu ombro, quando quatro balas o atingiram no peito. Ele caiu morto no chão ao meu lado, e fiquei esperando que uma quinta bala me atingisse, mas felizmente isso não aconteceu. Três anos depois, estava com um batalhão de americanos que havia sofrido muitas baixas e haviam morrido soldados por todos os lados. A Força Aérea americana apareceu para jogar bombas para prevenir mais ataques dos vietnamitas, e vi que duas bombas vinham em nossa direção. Uma explodiu bem longe e a outra caiu a três metros de distância. Imaginei que iria morrer e meu corpo seria transformado em fragmentos. A bomba não explodiu. Alguém estava olhando por mim.

Heródoto Barbeiro: Arnett, qual é a técnica que você usa com o seu entrevistado quando você pergunta uma coisa e ele responde outra, por exemplo, no caso de Saddam Hussein?

José Arbex:
Técnica que ele aprendeu muito bem. [risos]

Peter Arnett: Continuo pressionando, pressionando. Tento tirar a verdade, assim como vocês estão me pressionando. [risos]

José Eduardo Barella:
Arnett, voltando à questão levantada pelo Igor, que eu acho muito interessante, você trabalhou 35 anos e cobriu 17 conflitos pelo mundo. Eu queria saber qual foi a cena em que você sentiu maior repulsa pelo ser humano, uma cena que tenha lhe chocado de tal maneira que fizesse você pensar em desistir até de cobrir uma guerra.

Peter Arnett: Como jornalista, tenho a mesma visão de um médico, que vê o paciente, trata-o, faz operações e passa para o próximo. Pessoalmente, não gostaria de cortar um corpo humano para investigar os órgãos, mas um médico sabe que alguém tem que fazer isso. Portanto ele tenta curar os ferimentos. É o mesmo com jornalistas. Sabemos que existem coisas horríveis acontecendo no mundo. Vamos até lá, captamos imagens, fazemos a reportagem. Ao apresentar essas informações a nossos leitores ou telespectadores, estando em Sarajevo ou no Afeganistão, sinto que dei minha pequena contribuição à humanidade ao apresentar aquilo que vi. Seja qual for o enfoque da matéria, vítimas ou heróis, sei que fiz minha parte. Acordo de manhã me sentindo bem, porque pelo menos fiz algo que me dá orgulho e posso pensar na próxima reportagem. Estou errado quando digo “eu”, porque tenho um camera man, um sonoplasta, um editor e um produtor. Na verdade, estou sempre me referindo à equipe, pois aonde vou, outros vão comigo. É como equipe que superamos os momentos difíceis, porque sentimos que estamos fazendo algo que vale a pena.

José Hamilton Ribeiro:
No Brasil poucas pessoas vivem de livro. A edição do seu livro, eu vi, é uma edição bonita, deve ser um livro caro. Qual é a expectativa de renda que você espera ter nesse livro e em que países ele está saindo simultaneamente?

Peter Arnett:
Você devia perguntar ao meu editor, Paulo Rocco. Eu agradeço o compromisso que ele assumiu de publicar meu livro, ele foi um dos primeiros a demonstrar interesse. Ele se interessou em ver a história publicada. Nem todos vão ler o livro, mas o interessante é que em entrevistas como esta, não falo apenas sobre o livro, mas sobre a experiência jornalística, que é muito importante para a minha vida e para todos os povos e democracias, para a liberdade de expressão de idéias. Meu livro é um exemplo dessa liberdade, minha conversa hoje com vocês é também um exemplo. Então, isso tudo é parte da educação das pessoas, é um compromisso com um trabalho jornalístico sério. Estou orgulhoso pela Rocco ter se interessado pelo meu trabalho, pelo interesse que os editores ingleses, americanos e alemães demonstraram. Eles perceberam a importância do assunto.

Heródoto Barbeiro:  Arnett, voltando novamente à televisão. Há dois dias você esteve na Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Eu gostaria de saber se a CNN está preparando algum documentário sobre a violência ou sobre a situação de vida dessas pessoas que você conheceu pessoalmente nessa sua passagem pelo Rio de Janeiro.

Peter Arnett: Boa pergunta. Fui à favela, porque os repórteres do jornal O Globo me desafiaram. Eu disse que iria se eles fossem comigo. Foi uma visita interessante. Passei duas ou três horas ali e pensei sobre outras favelas em que estive, em outros lugares do mundo, onde há descontentamento e problemas. A CNN tem um escritório no Rio de Janeiro, que já mostrou reportagens sobre as favelas no noticiário diário. Gostaria de fazer a minha própria cobertura sobre favelas, pelas revoluções sociais que surgem nelas pelo mundo. Algum dia, farei minha própria cobertura, mas sei que isso já é feito rotineiramente aqui.

José Arbex:
Arnett, que roupa você vestiu para ir à favela? Você estava de terno e gravata, ou não? E se você fosse cobrir hoje uma história no Brasil, o que você escolheria, qual o assunto? Além das eleições presidenciais, e além da Copa também, que não valem.

Peter Arnett:
Fui à favela logo depois de uma palestra para estudantes na universidade. Estava de paletó e tirei a gravata. Não estava vestido adequadamente para subir e descer o morro. Então, minha roupa ficou suja. Adoraria cobrir matérias sobre a Amazônia e o meio ambiente e os conflitos ecológicos da Amazônia. Sou fascinado pela política e pela economia brasileiras e pela maneira como se relacionam com a América Latina. Passei anos na América Central, nos anos 1980, cobrindo El Salvador, Nicarágua, Panamá, Colômbia. Adoro essa parte do mundo e espero poder cobri-la mais vezes. A CNN tem três escritórios na América Latina, no México, Santiago e Rio de Janeiro, e tem muitas matérias em espanhol. Nossos vizinhos latinos são importantes e tentamos pôr isto no ar.

José Eduardo Barella:
O senhor ficou impressionado com a miséria que o senhor viu no Rio de Janeiro, nesta estadia do senhor aqui no Brasil ou não?

Peter Arnett: Fiquei no Hotel Sheraton, com uma linda vista da praia do Rio; comi em ótimos restaurantes, fui a coquetéis, uma vida nada miserável. E fui à favela, que é uma vida miserável. Da última vez que vim ao Rio, em 1984, foi para uma reportagem no Rio e em São Paulo. E o interessante no Rio eram os parques cheios de sem-teto que dormiam e comiam ali mesmo, e agora não estão mais lá. Os parques estão limpos, mas não acabou o problema. Minha impressão do Rio é de uma cidade maravilhosa, vibrante, alegre. Tenho boa impressão do Rio. Sobre São Paulo, não sei, só estou aqui há poucas horas.

Heródoto Barbeiro: Arnett, nos Estados Unidos quem é que julga o jornalista? Existe um conselho de ética da categoria, de uma associação, um sindicato que julga o comportamento dos jornalistas lá nos Estados Unidos, ou isso é restrito à empresa em que o jornalista trabalha?

Peter Arnett: Todos julgam os jornalistas nos EUA. Há uma discussão constante sobre a qualidade da imprensa. Pesquisas de opinião mostram que as pessoas não confiam em jornalistas. A mídia constantemente se auto critica. Empresas de notícias examinam suas próprias colunas e há os que regularmente criticam a mídia. Então, acho que somos constantemente discutidos e assim nos policiamos. Não há conselho ético, não achamos necessário. A constituição americana garante liberdade de expressão e imprensa livre. Exigimos liberdade total, mas nos avaliamos constantemente. A CNN, a NBC, o New York Times, todos fazemos isso e acho que melhora o trabalho.

Andréa Fornes:
O que você acha do fato do FBI ter decidido investigar os jornalistas que vão fazer a cobertura da Copa do Mundo?

Peter Arnett: Eu não sabia disso até você me informar agora. Por que investigar os jornalistas? Surpreende-me que o façam. Mas o FBI é conhecido por suspeitar de estrangeiros, sabemos disso; eu fui investigado pelo FBI antes de me tornar cidadão americano [Arnett nasceu na Nova Zelândia]. Mas não sabia até você me dizer agora. Eles devem trabalhar em nome da segurança.

Heródoto Barbeiro: Arnett, uma última pergunta minha. Eu queria saber de você o seguinte: no meio de comunicação eletrônica dos Estados Unidos ou mesmo na Europa, existe uma diferença entre aquilo que é editorial e aquilo que é informativo ou essas coisas se confundem?

Peter Arnett:
Poderia explicar novamente? Não ficou muito claro.

Heródoto Barbeiro:
Nos jornais e nas revistas, você tem a parte editorial, onde fala o veículo de comunicação e normalmente são artigos não assinados. Nos meios de comunicação eletrônica, não é visível essa distinção. Eu quero saber se na imprensa internacional, na imprensa eletrônica internacional, nos Estados Unidos ou na Europa, existe esta distinção.

Peter Arnett: Sim, é por isso que você conhece Peter Arnett. Estamos sempre no ar. Na CNN temos colunas de opinião, entretenimento, política. Acredito que hoje temos mais editoriais na TV que no passado e identificamos mais o repórter.

Heródoto Barbeiro:
Bom, nós queremos então agradecer a sua participação, Peter Arnett, obrigado pela participação aqui no Roda Viva. Agradecemos também a presença aqui dos jornalistas convidados que participaram conosco nesta edição do Roda Viva.
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