Memória Roda Viva

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Raul Cortez

10/8/1987

Parte da geração mais importante do teatro brasileiro, o ator recorda fatos marcantes de sua carreira, comenta aspectos inusitados da fama e mostra desânimo com a situação econômica e política do país

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[Programa gravado, não permitindo a participação dos telespectadores]

Augusto Nunes: Boa noite. Aqui começa mais um programa Roda Vida da TV Cultura de São Paulo. Nós lembramos que esse programa foi, excepcionalmente, gravado, portanto não poderemos recolher entrevistas formuladas por telefone pelos nossos telespectadores. Lembramos, ainda, que o programa Roda Vida é retransmitido pelas TVs educativas de Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Bahia e Piauí. Nosso convidado de hoje é o ator Raul Cortez. O paulista Raul Cristiano Machado Cortez acumula já há trinta anos sucessos em várias frentes: no cinema, no teatro e na televisão. No momento, Raul segue brilhando em todas essas áreas, uma das quais é a novela das 19 horas da TV Globo, Brega & chique. É para falar da sua carreira, para expor suas opiniões sobre o teatro e sobre a situação brasileira que o programa Roda Viva convidou Raul Cortez. Convidamos também para entrevistá-lo o jornalista Ivan Ângelo, escritor e editor-chefe do Jornal da Tarde; o jornalista Caetano Bedaque, chefe de divulgação da Rede Bandeirantes; a atriz Célia Helena; a jornalista Cristina Duarte, diretora de redação da revista Cláudia; o jornalista Marcos Augusto Gonçalves, editor da Folha Ilustrada, do jornal Folha de S.Paulo; o jornalista Marco Antônio Lacerda, editor da revista Vogue; o jornalista Luís Fernando Emediato, editor do Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo; o jornalista Humberto Werneck, da revista Isto É; a atriz e deputada estadual Ruth Escobar e o jornalista Luciano Ramos, da TV Cultura. Estará acompanhando o programa e nossos movimentos e assuntos o cartunista Paulo Caruso. Temos também a presença de alguns convidados da produção do programa. Raul Cortez, você acha que, neste momento, a cultura brasileira está mais para brega ou mais para chique?

Raul Cortez: [risos] Se ele estivesse para brega, até seria uma coisa muito boa! Eu acho que nem para isso está. Acho que a cultura brasileira, de uma forma geral – não especificando a minha área, que é o teatro –... acho que está simplesmente parada. Acho que nada, realmente, acontece. Agora, dentro do meu setor, que é o teatro... Sempre considerei o teatro [como] um reflexo do que está acontecendo na vida brasileira. Então, esse marasmo em que alguns dizem –  com o que não concordo na sua totalidade– que o teatro está acho que sempre está refletindo o que está acontecendo no país no momento. Então, ninguém pode tirar essa qualidade do teatro, nesse momento. Ele está, realmente, refletindo que está acontecendo tudo isso. Se dizem que o teatro é medíocre, acho que a nossa vida criativa, artística está medíocre, não como nossa culpa evidentemente... Uma série de coisas que vem acontecendo durante esses anos todos na vida brasileira. 

Augusto Nunes: Agora, Raul, te incomoda, de alguma forma, o fato de você ser mais conhecido popularmente como ator de novela de TV do que como um grande ator de teatro que você, reconhecidamente, é?

Raul Cortez: Acho que, de uma certa maneira, me incomoda. Me incomoda no momento em que a gente tenta justificar a vida da gente, trazer não só uma respeitabilidade para a própria carreira, mas pela própria função que você está desempenhando... E também porque você fica sempre na eterna luta da qualidade e quantidade, entre uma coisa e outra. Evidentemente, a telenovela – e não vejo atualmente nenhum desprestígio em fazer – traz, normalmente, mais quantidade e menos qualidade. [Por]Que até o processo de criação e de fazer a novela, a cada dia um capítulo, enfim... Nesse processo de trabalho, a gente não tem muito tempo. E vejo meus colegas todos da televisão com muito respeito, porque o tempo que se tem para criar qualquer coisa é muito pequeno. E as coisas criadas dentro dessa novela que estou fazendo eu acho extraordinárias, porque você tem um diretor, de repente, com o talento do Jorge Fernando [(1955) ator e diretor brasileiro. Iniciou sua carreira no teatro e, posteriormente, passou a atuar na TV Globo. Além de dirigir peças teatrais e programas televisivos, também dirigiu shows de grandes nomes da música popular brasileira]. Então, essas coisas têm que ser levadas em consideração. Evidentemente, dentro do teatro você tem mais oportunidades de fazer coisas melhores. No cinema, sem falar, é claro.

Ruth Escobar: Raul, o Augusto perguntou se o teatro está mais para brega ou mais para chique, né? E você disse que o teatro, em certo sentido, reflete o momento que a sociedade está vivendo. Agora, o que acontece? Nós tivemos aqui vinte e tantos anos de ditadura e nós dizíamos – nos momentos em que o teatro esteve em crise, ele passou por ciclos de crises de subida e descida–... e nós, os artistas, muitas vezes colocávamos a responsabilidade disso em relação à censura. Nós podemos dizer... Nós quase podemos dizer que a censura não se exerce mais como ela se exerceu nos tempos da ditadura. Então, como é que se justifica que de repente haja esse vazio cultural do país? E, muitas vezes, a gente se pergunta “será que os artistas conseguem criar mais quando eles têm o gancho da censura e da repressão em cima deles?” Como é que você justifica que no momento em que há uma liberação,  quer dizer, a censura ainda existe... Mas como é que se justifica quando, de repente, surgem os grandes textos falando do momento político que é tão... Em certo sentido, pode ser dramático, mas ele é criativo...  Não é?

Raul Cortez: Quando se fala em censura, a gente esquece que houve uma outra censura também que foi terrível, que foi censura econômica. Então, muitas pessoas – não digo só atores, de uma forma geral – se afastaram do teatro, foram à televisão, por um problema inclusive econômico, não é? E o que se vê atualmente é um reflexo de todos esses anos de repressão que se teve. Quando se diz que um artista talvez melhore o seu poder criativo dentro de uma repressão, acho isso terrível de se falar! Porque o que na verdade – não sei, pelo menos é o meu caso –... o que realmente acontece quando existe uma repressão é que ela provoca uma energia muito grande por parte da gente. Eu acho que ninguém gosta de ser...

Ruth Escobar: A gente talvez introjete uma espécie de auto-censura, não? Será que isso tem reflexos depois?

Raul Cortez: Isso teve... Evidentemente que teve. Teve especificamente na área dos autores de teatro. Também... Ninguém mais queria escrever para o teatro. Por que você ia escrever para o teatro se as peças não iam ser encenadas? Se o trabalho deles não poderia ser melhorado através de se ver representado, não é? Então, isso também frustrou demais. Como é que eu poderia representar bem, sabendo que, de repente, ia ter  – como teve, inclusive, com você, não foi, numa peça que nós fizemos juntos? – na bilheteria algo dizendo que aquela peça era considerada pornográfica. O que, na época, afastava o público, porque era na época da marcha daquelas senhoras  não é?

Ruth Escobar: Santana. [risos] [Senhoras de Santana]

Raul Cortez: É. Aquele troço todo.  Então, realmente, as pessoas não iam ao teatro por causa disso. Então, até que ponto isso mexeu comigo no sentido de poder procurar ser um melhor ator ou até que ponto isso me frustrou como ator? Acho que isso frustrou muito a mim e a todos os meus colegas, porque os melhores momentos da vida da gente e os melhores momentos de juventude, vamos dizer assim, criativa, isso foi profundamente castrado. 

Ruth Escobar: Mas no teatro você sempre foi um transgressor. Eu me lembro de que você foi o primeiro ator que apareceu nu nos palcos brasileiros, quando você fez O balcão completamente nu. Eu lembro  que, quando nós fizemos Os monstros, você fez talvez – como ator de grande porte – o primeiro travesti. Como isso se refletiu na sua vida pessoal? Quer dizer, em uma sociedade extremamente moralista e conservadora, quando você apareceu nu pela primeira vez, quando  fez um travesti, como isso refletiu na sua vida pessoal e profissional?

Raul Cortez: Isso está muito ligado a mim mesmo... Por exemplo, acabei de ler uma peça do Renato Borghi que achei extraordinária. Eu estava meio assim, meio “broxa” nesse sentido... [Pensando] “Fazer o quê? Pra quê? Vai trabalhar para quê? Nada vai melhorar, vou continuar com as minhas dívidas, assim como todo mundo, então pra que continuar a trabalhar? Melhor é ficar quieto, não contribuir, não dar nada pra esse governo que está aí.” Mas me apareceu essa peça do Renato Borghi e o personagem tem diversas situações muito estranhas dentro dela. E justamente por essas situações estranhas é que me deu vontade de fazer, porque não só era um desafio a mim, como ator – será para mim um desafio como ator–, como também vai contra uma série de coisas já estabelecidas, acomodadas... Aí mexe comigo! Quando fiz Os monstros com você, em que eu teria que fazer um travesti... Naquele tempo, foi inédito! Quer dizer, travesti não estava por aí, era complicado, [risos] então foi uma coisa que me provocou. O fato de fazer o teatro que era desconhecido naquela época, que era o happening, ninguém sabia... Os críticos nem sabiam o que queria dizer isso, né? E como Jérôme Savary [ator e diretor de teatro nascido na Argentina e radicado na França. Seu trabalho expandiu e democratizou a simpatia pelo teatro musical na França, combinando gêneros como a ópera, a opereta e a comédia musical. Foi o fundador do Grande Circo Mágico] também me provocou... O balcão já era diferente. [Em] O balcão, eu estava ali porque era uma coisa extraordinária, eu estava sentido que estava tendo um contato com Victor García [(1934-1982) cenógrafo e diretor de teatro argentino, ligado à vanguarda, que teve imensa contribuição no teatro brasileiro durante os anos 1960 e 1970, montando algumas das peças mais importantes do período como O balcão e Cemitério de automóveis], que [foi] a primeira vez em que topei com um gênio na minha frente. Era de uma admiração profunda... E eu sabia, sentia que ele estava criando, não é? Então, falar de ficar nu ou não, isso não tinha a menor importância!

Augusto Nunes: Raul... Desculpe-me interromper... Me parece, portanto, um tanto evidente que você prefere esse tipo de trabalho ao qual se referiu há pouco ao trabalho que você faz no momento, da televisão, apesar das ressalvas feitas por você, que respeita o trabalho dos companheiros e que respeita o público de televisão. Dito isso, eu queria lembrar que, conforme disse no início do programa, esse programa foi gravado então nós não pudemos receber telefonemas de telespectadores. Mas tenho certeza de que, se isso fosse possível, nós já teríamos recebido certamente, a essa altura [do programa], dezenas de telespectadores com duas perguntas. Em primeiro lugar: com qual das três mulheres da novela você ficaria? Segundo lugar: quando é que a sua identidade vai ser revelada? Faço essa pergunta em nome dos telespectadores. Queria saber... Como é que você se sente quando ouve perguntas assim?  Você certamente as ouve. E em segundo lugar se você tem essas respostas para essas duas perguntas.

Raul Cortez: Essas perguntas, sempre depende de quem faz, né? Depende muito... Se, de repente, ouço uma pergunta dessas de pessoa que considero inteligente,  acho profundamente babaca. Mas, se estou parado na rua e um tipo popular qualquer que me para e faz um negócio,  acho até carinhoso e procuro responder. As perguntas... Com qual das mulheres vou ficar? Não sei. Eu não sei, porque a gente não conhece... O problema da novela... É isso que me irrita profundamente! [Se] Você está em uma peça de teatro, você tem princípio, meio e fim. Você pega um seriado, por exemplo, de televisão, você já sabe como você vai mexer com aquele personagem. [Em] Novela nunca soube. Já entrei... A primeira [novela] que fiz na Globo foi Água viva. Eu tinha que morrer no trigésimo capítulo. Primeiro, ia minha mulher, que era a Tetê Medina, em uma explosão de barco e depois ia logo eu. Era só isso que sabia e me disseram: “O papel é ótimo!”. O Roberto [Roberto Talma, diretor-executivo da novela Brega & chique], quando diz que o papel é ótimo, eu vou, porque não dão nem sinopse para ler nem nada. Mas sei que o papel é ótimo, porque ele me falou. Só que não sei como mexer, não é? Isso me irrita! Acho chato, porque nunca sei o que vai acontecer. Daí  inventei que a gente tem que trabalhar em aberto. Eu inventei isso... Também não sei muito bem o que quer dizer [risos], mas tinha que trabalhar em aberto, porque [ia] receber qualquer coisa do autor. Qualquer coisa de uma pesquisa que a Globo tinha – não sei se ainda tem – com 40 senhoras, donas-de-casa, de níveis sociais totalmente diferentes que se reúnem para dizer o que deve acontecer com cada personagem da novela. Além de toda a cúpula em cima, tem essas espadas, as 40 senhoras em cima da cabeça para decidir o destino. [risos; o ator faz referência à espada de Dâmocles]

Humberto Werneck: De qualquer forma, o que você acha? O que vai acontecer com o Herbert? Ele vai ser punido? Ou você gostaria de que ele fosse? Ou ele vai entrar para a lista brasileira das impunidades?

Raul Cortez: Pois é, se ele fosse punido agora, a novela seria profundamente moralista, né? O que seria péssimo. Ninguém está sendo punido aí. Seria ridículo!

Luciano Ramos: Raul, essa abertura... Desculpe-me interromper, porque você não vai poder falar desse personagem, porque quem decide é o Cassiano [Gabus Mendes, autor da novela Brega & chique]... Mas é o seguinte: essa abertura da novela, essa possibilidade de você reverter a diretriz que o próprio autor tinha dado ao personagem ao longo dos capítulos não é exatamente o fascínio? Não [é] exatamente aquilo que dá graça para você ser ator de novela?

Raul Cortez: Bom.

Luciano Ramos: Por exemplo, o Miguel Fragonard [um famoso cirurgião plástico interpretado por Raul Cortez na novela Água Viva, exibida pela TV Globo em 1980]  ia ter um destino diferente que você com seu talento, com seu trabalho alterou? Ou não?

Raul Cortez: Exatamente. Isso aconteceu com o Miguel Fragonard e também com o Célio Cruz, no Partido alto [novela que foi exibida pela TV Globo em 1984], por razões diferentes.

Ruth Escobar: Eu ia contar a história do Célio Cruz... que o Raul foi assaltado na casa dele e os ladrões, quando viram o Raul saíram correndo!

[risos]

Luciano Ramos: Pensando que era bandido?!

Ruth Escobar: Pensando que era bandido!

Luciano Ramos: Mas e aí?

Raul Cortez: Primeiro, o Miguel Fragonard. Foi como disse, ia morrer depois do vigésimo capítulo, sei lá. Mas aí comecei a achar interessante. Eu fazia Rasga coração [escrita por Vianinha, a peça foi proibida pelo governo militar em 1974, fazendo com que se tornasse um símbolo da lutra contra a censura e  a repressão] e já estava lotado. E comecei... Casei. A minha mulher estava grávida, eu precisava de dinheiro, não é?  Então digo “eu não posso morrer agora! [risos] Sobrevivência econômica!”. Aí pensei: “O que tenho que fazer?”. Daí comecei a ver que se pode mexer com a máquina, saber lidar. Mas, no momento  em que você sabe, você começa uma novela, por exemplo, desde o início, então você está participando do projeto... Aí eu digo: “Bom, aqui tenho que botar umas roupinhas, fazer umas carinhas, não é? Fazer o que dizem que é charme, botar umas roupas, fazer um gênero elegante, bonzinho... Um rico maravilhoso,que é bom e mão aberta, generoso, para poder me salvar...”. Daí o resultado foi ótimo! Quando morri no final, foi um acontecimento nacional, né? Todo mundo parou para ver o Miguel Fragonard morrer. E eu consegui viver até os 130 capítulos. Então mexi um pouco com isso. O que achei mais interessante foi com o Célio Cruz, do Partido alto, que foi uma novela do Aguinaldo Silva,  que achei extraordinário, um grande autor. E os 20 capítulos que ele tem que escrever antes para apresentar para a censura e nós começarmos a gravar.... Todas as gravações do Célio Cruz, o “bicheiro” [banqueiro do jogo do bicho ou pessoa encarregada de coletar para o banqueiro o dinheiro das apostas], eram cortadas. Celinha [Célia Helena, atriz que interpretava a esposa de Célio, Izildinha] até participou comigo. E a gente precisava dar um jeito nesse bicheiro, porque a gente não podia falar que ele era bicheiro, a gente não podia, principalmente, dizer que ele contrabandeava ouro – não é? –, que aquela coroa, na verdade, estava falando da taça Jules Rimet, que tinha sido roubada e que, até hoje, ninguém sabe o que aconteceu! [risos] E eu  não sabia também que o ministro da Justiça, na época, estava envolvido em contrabando de pedras preciosas e tal. E a ordem de cortar a novela vinha diretamente dele, através da dona Solange, que era a chefe da censura na época. [risos] Então a gente devia saber como driblar isso aí. Então se pegou todo o Célio Cruz em um lado humano, uma coisa mais engraçada para ele poder sobreviver na novela. Isso fiz junto com o Talma e a Célia e todas as pessoas que participavam do universo do Célio Cruz, o bicheiro. Então aí você consegue mexer... Daí dá! Aí tem uma certa graça, né?

Luís Fernando Emediato: Raul, o que você acha de viver em um país como o Brasil, em que o povo inteiro para para ver Miguel Fragonard morrer na televisão?

Raul Cortez: Achei isso péssimo... quando foi? 1968, 1970, quando começaram as grandes novelas da Globo. Eu achava isso catastrófico. E  via a novela também diferente, não é? Hoje em dia, novela já está totalmente incorporada. Você vê um povo todo sofrido como está atualmente... O que eles podem ter na casa deles, sabe? Eu acredito que, hoje, o único brasileiro feliz é aquele que é desinformado. É a única maneira, realmente, ser feliz nesse país. E muitas dessas pessoas são! E precisam de uma coisa qualquer – menos os mais ou menos informados– e a novela, hoje em dia, já está dentro da vida do brasileiro, faz parte como o carnaval, como o futebol e uma série de coisas assim. Então também por  que não fazer?

Marcos Augusto Gonçalves: Raul, deixa eu pegar uma carona... Você disse, quando começou a falar de novela, que, se alguém te perguntasse sobre o destino de um personagem e fosse uma pessoa inteligente, você consideraria uma pergunta babaca. Você não acha que isso é um clichê do que seria uma idéia de uma pessoa inteligente? Pessoa inteligente não tem direito a querer saber o destino de um personagem?

Raul Cortez: Não, pelo amor de Deus!

Marcos Augusto Gonçalves:  Saber o destino de uma novela?

Raul Cortez: Não há nada disso.

Marcos Augusto Gonçalves: Você acha que...

Raul Cortez: Tem. E estou dizendo... Não vejo novela, porque eu faço... Talvez eu estivesse assistindo, se não estivesse no teatro, estaria vendo. Não quis dizer isso. Acho que não é uma pergunta que se espera, por exemplo... Você chega para mim e pergunta com qual das mulheres você vai ficar... Eu não esperaria isso de você! Desculpe, mas...

Marcos Augusto Gonçalves: Mas seria possível...

Raul Cortez: Por que não?

[risos]

[...]: Poderia ser...

Marcos Augusto Gonçalves: Você tem uma avaliação do público de novela montada em cima de um clichê, de que normalmente você... É evidente que se pode tirar uma média de pessoas, digamos, pouco inteligente ou qualquer coisa desse gênero, mas acho que existem maneiras de você consumir...

Raul Cortez: Não, não estou dizendo que quem vê novela não seja... Depende do tipo de pergunta.

Marcos Augusto Gonçalves: É exato!

Raul Cortez: Acho que você não faria esse tipo de pergunta. Acho que você me faria outro tipo de pergunta em relação à novela.

Marcos Augusto Gonçalves: Poderia fazer essa pergunta para você sem deixar de ser inteligente. Poderia conversar e perguntar:  “E aí, você vai ficar com que mulher?” Uma pergunta que poderia ser feita!

Cristiane Duarte: O senhor não acha que... Uma coisa que acho interessante é que, além de ter mudado o destino de alguns personagens... Pode parecer uma pergunta de senhoras, mas eu trabalho para senhoras, acho que as senhoras fazem perguntas muito interessantes, [mesmo] as mais “bobonas” , então quero fazer um papel um pouco mais...

Ruth Escobar: Mesmo as mais bobonas?

[risos]

Cristiane Duarte: É... ou as mais bobonas, isso não importa! Mas acho importante perguntar uma coisa. Além de mudar o destino de alguns personagens, acho que você mudou um pouco o padrão do galã. Muitas mulheres vieram, quando souberam que eu vinha para cá – mesmo as mulheres que lêem a minha revista –, me dizer o seguinte: “Pergunta para ele... Se é tão difícil a gente acreditar quando a gente está gorda e o homem diz "não, fica gorda assim, não faz regime, não!", a gente jamais acredita. Pergunta se, quando dizem que ele fica lindo careca, ele acredita”.

[risos]

Raul Cortez: Eu não acredito, não!

Cristiane Duarte: Não acredita?

Raul Cortez: Não. Acho que... [risos]

Marcos Augusto Gonçalves: Ficou vermelho.

Raul Cortez: Não,  acho...

Cristiane Duarte: Cheguei aqui no programa e comentei com ele que aconteceu...

Raul Cortez: Mas tenho uma coisa que acho ótimo, quer dizer, não me considero bonito. Eu me acho um cara feio, um feio que deu certo! Um careca que deu certo. Mas eu também tenho juízo! Eu acho que o feio é excitante, o bonito não levanta nem pau, entendeu? [risos] Então, eu acho ótimo! Você pode cortar depois! É isso! [risos]

Luís Fernando Emediato: Apesar de todas as críticas... Foi em 1956 a sua primeira peça, né? O que foi que o Décio de Almeida Prado [(1917-2000) um dos críticos de teatro mais importantes do Brasil] escreveu? Que Raul Cortez não merecia um lugar no teatro brasileiro. O que você, hoje, trinta anos depois… Como é que você lembra desse decreto?

Raul Cortez: Mas isso daí saiu errado! Coitado, ele nunca escreveu isso daí!

Luís Fernando Emediato: Isso saiu escrito.

Raul Cortez: Saiu em uma entrevista que dei para a revista Veja, porque a minha preocupação, quando comecei o teatro, foi saber se eu era merecedor de um lugar dentro do teatro paulista, do teatro brasileiro. E o Décio era um grande crítico, como acho que é até hoje. Não teve nenhum crítico no nível do Décio. Até hoje ele é o grande papa, todo mundo respeita, ele faz teatro, [o chamam de] doutor Décio e tal. E ele nunca disse isso, ele simplesmente me pixou, assim, de uma forma muito terrível. Na verdade, talvez eu merecesse mesmo. Eu estava começando, não sabia nem me expressar direito!

Luís Fernando Emediato: Bom, ele ainda não escreveu essa frase, mas algo parecido...

Raul Cortez: Não escreveu, mas disse outras coisas que me desestimulavam totalmente.

Ivan Ângelo: Raul, teve um diretor que falou que você não dava para o teatro no começo da sua carreira?

Raul Cortez: Teve vários. [risos] Teve um que me marcou muito, agora ele está morto! Eu nunca curti muito exatamente por causa disso... Foi porque eu estava muito preocupado, não sabia o que fazer e estava meio desempregado... porque, quando decidi fazer teatro, larguei todo o meu trabalho, larguei faculdade e tal e não estava dando certo. Então fui procurá-lo, pedir: “Poxa, o que devo fazer?”. Aí [ele] disse: “Você não tem talento absolutamente nenhum, mas eu te arranjo um emprego!”. E o emprego que me arranjou foi em uma companhia, de vendedor de fósforos. Sabe esses fosforozinhos que fazem publicidade? Então! Fui lá, eles me deram aquele mostruário enorme com aquilo, umas caixinhas de fósforo, e me deram um setor que era para fazer, que era na rua Augusta [em São Paulo]. Da [rua] Jaú para cima, até a [avenida] Paulista. Então comecei a entrar naquelas lojinhas para vender os fósforos. [risos] Na terceira, acho, deixei tudo lá, virei as costas e fui embora! Resolvi fazer teatro apesar de tudo!

Ivan Ângelo: O diretor reconheceu seu trabalho, conversaram a respeito...

Raul Cortez: É. Daí ele me dirigiu! Era o Ziembinski [Zbigniew Marian Ziembinski, polonês, nascido em 1908, faleceu no Rio de Janeiro em 1978, foi ator e influente diretor de teatro, cinema e televisão] [risos]. Daí ele me dirigiu, dirigiu outras peças, tudo meio a contragosto, assim, mas sempre... Teve que me engolir!

[risos]

Humberto Werneck: Nesses capítulos das rejeições aí, seria verdade também dizer que em certa ocasião você tentou entrar no Partido Comunista e foi recusado sob alegação de que era um burguês e de que era homossexual?

Raul Cortez: É. Foi. Essa coisa homossexual, acho que não. Isso não. O que sei é que fui considerado um burguês, isso aconteceu.

Humberto Werneck: Isso correspondia à verdade em que medida? Porque parece que você veio de uma família muito rica, de tabeliões, que nos meios era considerado “filhinho de papai”...

Raul Cortez: É. Não sou... Isso de ser de família muito rica, acho que não existe isso, era uma família burguesa. E, naquela época, era uma família da... como é que chama? Classe média alta, né? Hoje em dia não é mais. Naquele tempo a gente era. Hoje ninguém mais é da média-alta. E então isso pesou muito na época, acho uma pena isso sinceramente. Foi uma coisa que senti muito.

Cristiane Duarte: Você sente até hoje?

Raul Cortez: Sinto até hoje.

Célia Helena: Eu só queria falar! [Há] Tanto tempo que eu queria conversar, pedir uma pergunta! [risos] Quero voltar ao teatro! Gostaria de perguntar uma coisa, Raul: você tem uma trajetória na sua carreira muito bonita. Você teve o privilégio de participar de grupos – hoje em dia não existem mais grupos– como o TBC [Teatro Brasileiro de Comédia. Criado em 1948 pelo empresário italiano Franco Zampari, o TBC atuou na cena cultural brasileira por 16 anos e trouxe as concepções do teatro moderno para o Brasil], como o Oficina, como grupos de que por um certo tempo a Ruth [Escobar] fez parte, com Victor García e alguns diretores que ela trazia de fora. Hoje em dia nós não temos mais. Nós, atores, somos pessoas sozinhas, isoladas. Nós nos sentimos, às vezes, mais apoiados na televisão, porque temos um grupo de trabalho; apesar de não ser nosso, nós temos companheiros. Então eu queria que você dissesse como você se sente agora e que você falasse – acho que é importante para todos os telespectadores – sobre como que era o teatro antigamente, porque antigamente o teatro estava por cima! Ele existia! Ele tinha um espaço no jornal. O teatro tinha um espaço na cabeça das pessoas. As pessoas iam ver o que acontecia no teatro. Nós não precisávamos fazer uma página inteira de jornal para todo mundo querer ver. O teatro existia como força. Agora não tem mais, porque agora nós estamos sozinhos. A gente monta uma peça, é um ator... Um grande ator com mais um monte de gente que se agrupa na hora. Todos eles podem ser muito bons, mas eles não são um grupo homogêneo... É por aí, Raul?

Raul Cortez: Acho, por exemplo, quando você disse primeiro, perguntou sobre o negócio...

Célia Helena: Dos grupos.

Raul Cortez: Os grupos.

Célia Helena: Isso é que acho importante...

Raul Cortez: Acho que existem grupos, Celinha. Existem grupos extraordinários que estão se fazendo, só que se fazem de uma forma diferente.

Célia Helena: É, só que eles não tem mais força não é?

Raul Cortez: Tem um grupo novo que está aqui – que veio do Rio, o Grupo Tapa –, que está se organizando. É um trabalho interessante. Mesmo o trabalho do Cacá [Rosset], que está trabalhando em grupo, o trabalho é sempre na base do repertório, é muito interessante. E citando sem citar os outros... Existe esse movimento, só que é um movimento diferente. Quando nós fizemos o [Teatro de] Arena, quando nós fizemos o [Teatro] Oficina, havia uma preocupação política. Nesses grupos essa preocupação, se existe, não está tão definida como existia antes. Mas acho que é o próprio desenvolvimento de tudo... Hoje a juventude é totalmente diferente da nossa juventude. Não pode se esquecer também a força da televisão, a força da telenovela, tudo isso influi muito, não é? Como também aqui no Brasil nunca se trabalhou, não houve governo nenhum que trabalhasse em longo prazo. A cultura sente muito isso. O teatro sente muito. Até hoje, você não formou um público de teatro, não é? Justamente, também, por isso, então as coisas são mais ou menos por aí..

Marco Antônio Lacerda: Só para falar um pouco dessa coisa de teatro e televisão, Raul. Para você, que é um ator que já ganhou três prêmios Molière... Talvez seja o maior número de Molière já dado a um ator no Brasil, não é?

Raul Cortez: Quatro!

[risos]

Marco Antônio Lacerda: Quatro. Como é que fica para você?

Raul Cortez: Mas tenho muito orgulho disso, sabe? Não é um orgulho de prêmio, orgulho porque, pelo menos, eu achava que o prêmio surgia na decorrência  – não porque você é o melhor – de que seu trabalho foi o melhor, não é? Acho que...

Marco Antônio Lacerda: Como é que fica para você essa coisa de fazer televisão? O vídeo é uma coisa muito pequena para o talento do ator? O que mais a televisão pode dar para o autor além de um bom salário e uma grande audiência?

Raul Cortez: Não... Acho que se pode fazer um trabalho muito interessante. Muito interessante. Acho que... aquilio que eu disse : quando você trabalha em um seriado, é totalmente diferente  de quando você trabalha em uma telenovela. Telenovela tem seus valores muito específicos, há uma indústria atrás disso, ela é feita um pouco para atender a todo um mercado, então é com outras coisas que você tem que mexer. Isso não satisfaz tanto a um ator, como poderia satisfazer, por exemplo, um trabalho especial que você faz para a televisão, um seriado mesmo, qualquer coisa por aí. Então é nisso que me sinto um pouco defasado meu trabalho, mas mesmo...

Marco Antônio Lacerda: E como é que fica para você?

Raul Cortez: Na telenovela... Você vê, estou fazendo Brega & chique... É péssimo você entrar em uma novela no meio, porque você não participou do projeto. Eu já estava escalado desde o início, mas devia ter estado lá o tempo inteiro. [Em Brega & chique, Raul Cortez interpretava Herbert Alvaray, um empresário bem-sucedido que mantinha duas famílias até que, ao ter suas finanças arruinadas, forja a própria morte e sai do Brasil. Um tempo depois, Herbert volta ao país com uma nova personalidade, Cláudio Serra, e tenta se reaproximar de suas duas esposas]

Marco Antônio Lacerda: Como é que foi entrar na novela, já com o “bonde andando”?

Raul Cortez: É muito desagradável, porque está todo mundo já pronto, a novela já é um sucesso, todos os personagens estão estabelecidos... Então você entra em um ritmo que já está estabelecido e que ainda não é o seu.

Humberto Werneck: O que você mais gostou de fazer nisso tudo?

Raul Cortez: Tenho que acompanhar isso tudo. Então, só para finalizar isso, mesmo dentro da telenovela, eu estava falando até para a Célia agora há pouco,  quero já trabalhar com uma outra maneira dentro dessa comédia, porque nunca trabalhei em comédia dentro da televisão, com uma outra forma de expressão. Acho que o ator pode estar sempre procurando uma nova maneira de melhorar seu trabalho. Tem sempre um desafio, até mesmo em telenovela ou até em um comercial, que às vezes você faz.

Humberto Werneck: Qual trabalho você mais gostou de fazer na televisão até hoje?

Raul Cortez: O que mais gostei em televisão? Foi o Partido alto! Foi. Depois, claro, o Miguel Fragonard [foi] uma coisa interessante, mas o Partido alto foi mais.

Augusto Nunes: O Ivan Ângelo parece que está querendo fazer uma pergunta há algum tempo....

Ruth Escobar: Como sou feminista, os homens primeiro! [risos]

Ivan Ângelo: Retomando a pergunta da Célia Helena, que era a seguinte: tivemos montagens portentosas – algumas até por responsabilidade da Ruth [Escobar]–  por exemplo, O balcão, Cemitério de automóveis, A viagem... São grandes produções, então isso pressupunha também um interesse financeiro maior para o teatro. Você não acha que esse também abandonou o teatro? Você e a Célia participaram de um momento muito grande do teatro brasileiro e hoje a gente não tem grandes encenações. Falta dinheiro além de faltar esse tom político que você falou aí. Essa força da comunicação mais política... Não digo a política direta brasileira, que não tem nada a ver... O balcão, por exemplo, foi uma peça política sem estar falando de política local, né?

Raul Cortez: É essa falta do dinheiro?

Ivan Ângelo: Essa falta do dinheiro, que é uma coisa...

Raul Cortez: Do chamado angel [angel investor, pessoa física ou jurídica que aposta em empresas que estão começando e precisam de apoio para manufaturar ou comercializar produtos ou serviços], não é? Existe isso. Agora, por outro lado, existe também o projeto Sarney [Lei Sarney], que está favorecendo muito.

Ivan Ângelo: Você acha que vai ajudar?

Raul Cortez: Acho que tem ajudado já.

Ivan Ângelo: Por que não apareceu nenhuma grana pesada em cima?

Raul Cortez: Mas está acontecendo! Tenho companheiros que estão construindo um teatro, graças a isso! As coisas estão aparecendo nesse sentido. É claro que não existe, por exemplo, um projeto qualquer... Uma peça ou três peças... Você não vai encontrar agora, porque a crise é total, poxa! Ninguém está dando dinheiro para o teatro, para uma peça, porque há uma crise, as pessoas não têm dinheiro e não querem empatar. Querem esperar para ver se esse plano [Plano Cruzado] vai dar certo ou não. Tem uma série de coisas! Mas, quando você quer construir um teatro,  encontra firmas que dão o dinheiro para isso.

Ivan Ângelo: Acho até que um prédio eles constroem, mas construir uma grande encenação, não tenho visto...

Raul Cortez: Mas está acontecendo, sim! Está acontecendo isso. Você veja, lá no Rio de Janeiro... Um evento [enfatiza] teatral que é, sem dúvida nenhuma, a peça da Marília [Pêra], que é a Estrela d’alva [espetáculo em que a atriz representou e homenageou a cantora Dalva de Oliveira, uma das maiores intérpretes do samba-canção, apelidada de "rainha da voz"], é patrocinada... A Shell tem patrocinado muitos projetos. Tenho impressão de que até o próprio [Antônio] Fagundes consegue muita coisa através disso.

Luís Fernando Emediato: A Shell já patrocinava antes.

Raul Cortez: Não estou falando da lei Sarney. Estou falando que atualmente também existe. As pessoas também estão usando esse dinheiro.

[sobreposição de vozes]

Ivan Ângelo: Quando encenam, por exemplo,  o Cyrano [de Bergerac, peça escrita por Edmond Rostand em 1897, baseada na vida do escritor francês. Foi encenada por Antônio Fagundes em 1985 no Teatro de Cultura Artística de São Paulo]... É uma grande encenação, dava uma grande grana. Mas falta o fogo da criação, falta – digamos – um Victor García. Acho que não basta...

[sobreposição de vozes]

Ruth Escobar: Eu queria, então, encavalar duas perguntas. Primeiro, em cima do que disse o Ivan Ângelo, queria perguntar o que é que você acha. Não acho que a questão é só uma questão de faltar dinheiro. Acho que falta aquele fogo...

Raul Cortez: [Interrompe] É o que ele acabou de dizer.

Ruth Escobar: ...Aquela paixão que se tinha pelo teatro, porque não adianta ter só o Victor García se você não tiver o produtor que invista nessa paixão de fazer teatro. Acho até que, se aparecer de novo essa paixão, você consegue os investidores, sobretudo com a questão da lei Sarney.

Ivan Ângelo: E há também talentos financiáveis?  Além da falta desse fogo, você acha que há talentos...

Ruth Escobar: Se houver o fogo, acho que os talentos aparecem. Por exemplo, o Raul Cortez foi uma pessoa que sempre investiu. Ele, entre ter um espetáculo  em que ia ganhar um salário três vezes superior para fazer um vaudeville [gênero de peça teatral em forma de pantomima, cuja trama é apresentada geralmente por meio de letras adaptadas de canções populares conhecidas] qualquer, ele preferia apostar no Balcão, que ele acompanhou e que sabe... O Raul participou da montagem, ele sabe que a Célia Helena saiu do espetáculo e fez um outro espetáculo e voltou para estrear o Balcão, porque nós demoramos seis meses para montar o espetáculo. Mas, falando ainda do fogo e da paixão, o que eu queria colocar para o Raul é o seguinte: em cima da pergunta que fez o Emediato, quando ele disse “O que é que você acha desse país que pára para ver Miguel Fragonard?” Em cima da pergunta também que lhe fizeram sobre quando você foi recusado para entrar no Partido Comunista... E eu sou testemunha de que você foi uma das pessoas que... na época em que o país mais se mobilizava pela campanha das diretas [Diretas Já], você e Irene Ravache junto comigo, foram as primeiras pessoas a pisar nos comícios das diretas. E aí, realmente, isso se tornou uma mobilização de fé, de paixão, de crença, de acreditar que era possível, que existiam alternativas para esse país. Eu te pergunto: como você se sentia quando você ia ao palanque, quando você falava para um milhão de pessoas, para 500 mil pessoas? Nós corremos o país inteiro fazendo isso... Como é que você se sentiu? O que significou para você? O que é que foi o Raul Cortez "homem político"? Hoje você faria isso de novo?

Raul Cortez: Você entrar em um palanque para falar... Acho que você mesma estava sempre comigo, eu nunca sabia o que dizer e o que falar. E acontecia um mistério extraordinário, o que acontece muito no teatro, mas não na proporção que é um comício... No momento em que eu assumia a palavra, as coisas vinham claramente para mim. E eu era quase que tomado por uma energia extraordinária que vinha daquele povão todo que estava assistindo à gente.

Ruth Escobar: Tinha a mesma comunicação que tem no palco?

Raul Cortez: É fantástico! Fantástico! Só que no teatro você têm 400 pessoas ou mil, sei lá! Mas lá era uma multidão! Então a vibração era muito maior. E, principalmente, de repente você diz assim: “então valeu a pena tudo que fiz até agora, estou sendo útil!”. Eu acreditava nisso. Mas hoje em dia não sei. Não sei realmente, mas é claro que estou com meu título de eleitor já no bolso, pronto para assinar qualquer lista que esteja de acordo com a Constituinte! [Constituição de 1988] Inclusive, agora, para as diretas [Diretas Já] e tal. [risos] Mas eu pergunto – vou assinar evidentemente –: será que é esse o momento para  fazer uma nova eleição? O país está nessa miséria, a gente está muito mal, todos nós estamos muito mal. De repente, uma campanha política para eleição de presidente... O que vai acontecer com esse país? A inflação – não sei a resposta – vai aumentar? Esse dinheiro todo que vai sair vai sair de onde? E como é que fica? E votar em quem também, em que partido? Não vejo nenhum partido com plano. Não vejo nenhum... O PMDB é uma frustração absolutamente total, né? E também, qual é o outro? Qual é o homem público para quem vou dar meu voto,  que eu vou ao palanque por ele? Realmente,  não encontro ninguém.

Ruth Escobar: Os atores no poder!

[risos]

Luís Fernando Emediato: Mas, Raul... Aquele povo... Um milhão de pessoas, dois milhões de pessoas, e você no palanque falando e mais o PMDB e os políticos ali... E aquele povo parece que queria eleições diretas. “Diretas Já”. Deram Tancredo, Tancredo morreu, veio o Sarney. Você não acha, hoje, vendo essa história, que é bem recente... Será que aquele povo não foi enganado? E você também no palanque?

Raul Cortez: Mas não é... Isso é uma coisa... Também te pergunto: esse povo todo onde é que está em momento como esse? Por que se elegeu Jânio Quadros? Isso é um absurdo! Como é a cabeça dessa gente? Não entendo! Não compreendo isso daí. As próprias pessoas que tinham ido às diretas e aos comícios – e, na verdade, estavam todos contra o regime militar que se tinha –, essas pessoas você encontra hoje em dia e elas dizem: “Ah! É melhor que voltem os milicos, que volte todo esse regime ditatorial que nós tivemos”. Não entendo esse tipo de coisa.

Luís Fernando Emediato: O que é que você quer dizer, que não entende aquele povo?

Raul Cortez: Pois é! Onde é que está? Como é que se explica isso? Pessoas estavam lá! Eram multidões, eram milhões de pessoas! Por que de repente se muda tudo? Por que, de repente, uma cidade como essa, que teve um dos maiores comícios das Diretas, elegeu Jânio Quadros por exemplo? Não compreendo isso! Eu realmente não entendo, quer dizer, acho que talvez seja um problema sul-americano, problema de colonização portuguesa... Acho que, se nós tivéssemos sido colonizados por espanhóis, talvez a gente tivesse uma tradição de sangue mais forte...

Ruth Escobar: Protesto, Raul! [risos]

Augusto Nunes: Raul, vamos à pergunta do Caetano Bedaque, que está esperando faz tempo.

Caetano Bedaque: É, tenho crédito. Vou fazer duas perguntas possíveis! [risos] Raul, vou pegar uma carona na pergunta do Ivan. A Lei Sarney faculta até 2% de abatimento do imposto para os patrocínios alocados diretamente junto aos produtores teatrais. São 2%. Por outro lado, uma empresa que doa uma verba qualquer ao governo tem 5% de abatimento. Como é que você vê isso do ponto de vista cultural? E a outra pergunta é o contrário da pergunta feita pelo Emediato: como é que você vê o público paulista, o público brasileiro, indo cada vez menos ao teatro e o país parando para ver um final de telenovela?

Raul Cortez: Acho que tudo isso está muito ligado àquela coisa de se trabalhar a longo prazo. Você até hoje... Hoje, nesse momento, nós estamos com um problema dentro do teatro, podemos falar disso até depois. E já foi colocado. Nós temos um plano para ser levado ao Sarney. Um pedido de toda a classe teatral nacional, mas esse plano até está divido em médio, longo e curto prazo. Mas o que importa sempre é esse longo prazo, que o governo nunca trabalha em nada, em nenhum setor, principalmente no setor cultural. Você não tem uma tradição de teatro. Você até hoje não formou um público de teatro. E até que ponto as empresas se interessam em colocar esse dinheiro? É claro: no momento em que você tem um produtor que consiga explicar exatamente isso que você acabou de falar, traduza a lei Sarney , eles vão perceber que há uma vantagem nisso, que agora não está sendo usada, porque eles estão sem dinheiro também e sem vontade de aplicar em alguma coisa. Mas acho que, principalmente, é isso: não adianta nada você trabalhar para um curto prazo, porque não vai acontecer. Só vai acontecer, talvez, um sucesso de uma peça,  uma peça financiada, mas ela não vai acrescentar nada ao teatro no sentido de público e, inclusive,  de colocar o nível do teatro melhor.

Marcos Augusto Gonçalves: Raul, houve há pouco tempo uma assembléia da Apetesp [Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrias do Estado de São Paulo] que deliberou por uma espécie de redução, boicote de anúncios em jornal. A Folha de S. Paulo divulgou isso, saíram coisas na imprensa e houve uma afirmação – que não tomo como verdadeira necessariamente– de que você, embora afastado das suas funções na Apetesp, teria sido um dos principais mentores dessa idéia. Eu queria saber se isso é verdade primeiro. E, segundo, o que você achou desse embrólio todo? Enfim, o que você imagina que isso possa trazer de bom ou de mau para o teatro e para a própria relação com a imprensa?

Raul Cortez: Em primeiro lugar, não houve boicote.

Augusto Nunes: Apetesp, só para informar, é Associação dos Produtores de Espetáculos de Teatro do Estado de São Paulo.

[sobreposição de vozes]

Raul Cortez: Presidente licenciado.

Augusto Nunes: Você é presidente licenciado?

Raul Cortez: Exato. Em primeiro lugar, não houve esse boicote. Isso foi uma coisa que surgiu não sei de onde. Não houve boicote nenhum, nenhuma tentativa de boicote, porque não acredito que isso seja a opinião de todos os empresários de teatro ligados à Apetesp. Em primeiro lugar isso. Segundo lugar, não fui mentor absolutamente nenhum, porque estava até no Rio [de Janeiro], não estava nem sabendo disso que aconteceu. Aliás, até um recado: quem inventou esse troço aí foi um jornalista teu, da Folha. Não vou citar nome, porque é muito chato.

Marcos Augusto Gonçalves: Inventou o quê?

Raul Cortez: Quem inventou esse boato, foi um jornalista que trabalha para você.

Marcos Augusto Gonçalves: Que você teria sido...

Raul Cortez: O mentor. Não é a primeira vez.

Marcos Augusto Gonçalves: Posso assegurar que não foi... Posso assegurar que não foi... Não foi jornalista...

Raul Cortez: Bom, não é a primeira vez que ele coloca uma noticiazinha assim na coluna dele, não só contra mim, mas contra outros. Isso é profundamente desagradável. Em primeiro lugar, porque não cumpre a função de jornalismo, que acredito que tem que informar o que é certo, o que é verdade. Em segundo lugar, está usando a coluna para problemas pessoais que ele tem comigo e que, realmente, nem conheço nem nada. Então absolutamente não houve isso. Pelo contrário, sempre houve esse problema, porque sempre tem produtores que não podem pagar seus anúncios em jornal. Então não é desta gestão, já vem de várias outras gestões na Apetesp, onde eu era presidente. Isso sempre era jogado de lado, porque acho isso um absurdo. Em primeiro lugar, porque São Paulo é a capital do consumo. Até bolacha ou qualquer coisa que você quer botar no mercado, você tem que fazer não só merchandising, você tem que colocar seu produto à venda. Como é que você vai transar teatro assim? É um absurdo isso. E, segundo, fazer a imprensa se voltar contra também já é um suicídio. Uma vez nós fizemos isso, entregando o [prêmio] Saci para o Estado de S. Paulo. Na época acho que valeu, porque o Estado de S. Paulo estava tomando uma atitude a favor do uso da censura na época. Então, evidentemente, a gente tinha que tomar uma atitude contra o jornal, mas não foi uma coisa sábia, vamos dizer assim, porque O Estado de S. Paulo é um órgão de imprensa importantíssimo – não é? –  e muito respeitado.  Então também não se faria isso e não se fez. O que acontece na Apetesp e na Associação dos Empresários do Teatro é que os produtores só se reúnem quando existe dinheiro a ser distribuído. Até hoje você aprendeu que tem um espaço para serem debatidos os problemas de classe e, quando há uma convocação, todos têm que aparecer na verdade.

Augusto Nunes: Mas você não acha que...

Raul Cortez: Então foi uma minoria que decidiu. Essa minoria, evidentemente, estava zelando pela pouca deficiência [risos] que ele tem de colocar esse anúncio. Por isso, eles não só queriam que os outros não colocassem, como também queriam acabar com os “tijolinhos”.

Cristiane Duarte: Porque no Rio também não usam muito os tijolinhos, né? Usou-se muito pouco há muitos anos....

Raul Cortez: Não, mas lá não é uma cidade como São Paulo, porque o público já está acostumado a ir ao roteiro dos jornais para consultar e aqui não existe isso ainda. Esse público não tem esse costume.

Caetano Bedaque: Você diz que os produtores só aparecem quando há distribuição de dinheiro da Apetesp...

Raul Cortez: De dinheiro... Sempre foi assim!

Caetano Bedaque: Agora você não acha... Isso aí é uma falta de representatividade da Apetesp...

Raul Cortez: Não, absolutamente... É falta de interesse.

Caetano Bedaque: Uma boa parte dos grandes produtores teatrais de São Paulo – tipo Antônio Fagundes, Paulo Autran, Bibi Ferreira– não aparece, não participa das atividades da Apetesp. Isso não está gerando uma dissidência, uma briga ideológica dentro da Apetesp?

Raul Cortez: Não, essa briga não está havendo.

Caetano Bedaque: Inclusive, há um ano houve a criação daquela entidade dissidente, a UBT.

Raul Cortez: Quando isso aconteceu, houve uma briga, houve um racha. Nós, inclusive, formamos a UBT, União Brasileira de...

Caetano Bedaque: De Teatro.

Raul Cortez: Do Teatro. E aconteceu isso. Mas hoje em dia não há, não.

Augusto Nunes: Raul, nós temos uma pergunta aqui...

Raul Cortez: O que eu acho que está acontecendo é que, para você presidir a uma associação dessas, você tem que ter uma energia e um tempo totalmente disponível para ela. É um cargo que não é remunerado e que toma seu tempo todo... Quando faço televisão, é impossível. Como é que vou me dedicar, não é? Então precisa... É uma coisa muito especial, para quem seja da presidência, exercer isso. Então essa coisa da energia é imprescindível ter em um cargo desse, que realmente é muito difícil.

Augusto Nunes: Raul, nós temos uma pergunta gravada da atriz Glória Pires, que nós vamos ver e ouvir por aqueles monitores.

[VT de Glória Pires]: Raul! Tenho te visto na Brega & chique e você está tão solto, está tão à vontade, tão engraçado, tão bem... Claro, você sempre está bem, mas está... em casa.  Eu queria te perguntar se você já está se sentido à vontade com a televisão...

[risos]

Augusto Nunes: Essa pergunta pressupõe que você não se sentia à vontade.

[risos]

Raul Cortez: Ou que não me sinta à vontade! [risos] Não concordo muito com a Glória, não. Acho que não estou muito em casa no Brega & chique. A primeira coisa foi o que falei: peguei o bonde andando, né? E, segundo, porque não tenho esse personagem! [risos] Não sei o princípio, meio e fim. Não sei como lidar com ele no sentido de usar o que está acontecendo. Em terceiro lugar, porque o Cassiano também é um autor extraordinário. Ele não precisa nem do que você dá para ele na gravação. Já está tudo muito estabelecido. Ele te dá o personagem nas melhores condições possíveis. Então, dentro disso você fica meio... Se procurando. Às vezes também, com esse negócio de fotografia, levo um choque quando me vejo! Eu falo: “Meu Deus! Como estou feio!” Aí sábado estava me vendo em um capítulo, daí vi uma cena... Fiquei muito deprimido. [Pensei] “Não tem nenhum amigo aqui a essa hora”, tal... Aí telefonei para a minha mãe! [risos] Disse: “Mãe, eu estou muito feio, você viu?! Estou muito velho!”. Ela disse: “Para com isso! Quero acabar de ver o capítulo!”. [risos] Daí apareceu uma outra cena em que eu estava de terno branco e óculos, lindo... Então falei: “Ai, maravilha!”. Liguei pra ela e disse: “Estou lindo! Isso não é idade, não! É a luz, a luz daquela cena é que estava errada!”. Então tem sempre isso, eu estranho os panelões... Digo “ih, Amadeu! Essa luz não está legal!” Estar à vontade é meio difícil!

Cristiane Duarte: Raul, você falou em geração e agora você falou está se sentindo velho. Daí eu queria saber uma coisa, a Glória Pires disse que você...

Raul Cortez: Eu não falei que estava me sentindo velho!

Cristiane Duarte: Não, você falou... [interrompe a frase]

[...]: Só para a mãe!

[risos]

Cristiane Duarte: Acho que... Só para carregar um pouquinho... Sua filha disse que ser chamado de avô é uma coisa demais para você. Você se sente à vontade na pele de avô? Não tem nenhum refletor lá, como e que é?

[risos]

Raul Cortez: Quando ela diz assim [risos]... Foi engraçado, que ontem foi dia dos pais, né? Quer dizer, dias desses foi dia dos pais. Então estava minha filha e minha nora, ela foi junto com a minha neta. Aí, até aquele momento, eu dizia assim: “A minha amiguinha está aí? Como tá a minha amiguinha”... Foi para brincar, mas eu realmente não sentia muito... E, quando a minha filha dizia assim: “Vai com o vovô!”, eu pensava: “Por que ela está me agredindo?” [risos]. Eu achava meio estranho! Mas aí a menina estava no colo da Lígia, minha filha, a menina olhou e não entendi muito isso... Achei fantástico! Ela tem oito meses agora. Ela olhou para mim e riu muito!  Eu não a vejo sempre, porque estou sempre no Rio de Janeiro. Riu muito, se dependurou no colo e me deu um abraço, me agradou do jeito dela... Olhou, riu e fez: “Ahhh”, daí fez [manda um beijo]. Aí eu falei: “Agora sou avô mesmo! Não tem nada a fazer!” [risos].

Luciano Ramos: Raul, você disse há pouco que é um dos campeões em termos de prêmios, de Molière. Já ganhou quatro. Recentemente você foi indicado, você é um dos indicados para o troféu Mambembe este ano pelo trabalho que você fez no Drácula.

Raul Cortez: Não!

Luciano Ramos: Não foi?

Raul Cortez: Foi para o Augusto Matraga [A hora e  a vez de Augusto Matraga, última novela do livro Sagarana, que lançou o escritor João Guimarães Rosa e  já foi adaptada para o cinema e para o teatro].

Luciano Ramos: Ah! Está certo. Ainda tem dentro de você alguma expectativa com essa coisa: “Será que vou ganhar? Será que não vou ganhar?”

Raul Cortez: Nenhuma.

Luciano Ramos: Como é que você vê essa coisa?

Raul Cortez: Absolutamente. Nenhuma.

Luciano Ramos: Para você tanto faz?

Raul Cortez: Eu não tenho, não. Acho que agora está sendo distribuído de maneira diferente, não é mais o melhor trabalho. É sempre “vamos incentivar aquele que está começando” ou então “vamos dar um Molière para ele, porque é casado com a atriz que ganhou, então o casal vai para a França”, entendeu? Tem um pouco essa jogada, sim. Então, isso é péssimo, porque...

Luciano Ramos: Eu me refiro ao troféu Mambembe, que é dado pelo Inaci...

Raul Cortez: Mas não vai acontecer, não vai acontecer. Quando fiz o Ah! Mérica, foi o trabalho que acho que foi o trabalho da minha vida, porque fiz uma pesquisa de dois anos, fiz acreditando naquilo que eu estava dizendo. Foi um trabalho extraordinário para mim e foi, talvez, o mais traumatizante, porque pelo trabalho percebi, por exemplo, que o brasileiro não gosta de ser considerado sul-americano. Sul-americanos são os outros. Ele é brasileiro. [risos] Era um trabalho que falava da América do Sul e tal... Depois recebi as melhores críticas que recebi em toda a minha vida. Quando terminou o ano, não fui indicado para nenhum prêmio. E ainda tive contato com uma crítica que me disse que eu tinha feito o Ah! Mérica, porque estava profundamente agressivo à figura do diretor e, então, estava querendo era me dirigir. Ela não via mérito nenhum naquela pesquisa de dois anos, a não ser esse momento meu de rebelião contra os diretores brasileiros. O que é profundamente estúpido, né?

Humberto Werneck: Raul, você acha que a crítica tem te tratado bem? A Marília Pêra anda reclamando muito. Como é que tem se passado com você isso aí?

Raul Cortez: Não sei. Eu... Não tenho queixa. Como eu disse... Por exemplo, essa peça, recebi as melhores críticas. Fiz o Augusto Matraga, que achei extraordinário, gostei muito de ter participado e não tive crítica contrária, também. Do Drácula, não achei que tivesse sido um bom trabalho e tivesse sido uma realização total... Então as críticas, quando vêm e questionam isso também, tenho que ter uma certa lucidez e pensar “tem razão” ou “não tem razão”. Em Augusto Matraga, quando um jornalista estava passando pelo teatro para esculhambar – não com a peça, mas para esculhambar com meu trabalho –, aquilo foi tão gratuito que telefonei para a redação e falei com ele. Ele queria até que eu criasse uma polêmica e tal, mas não fiz isso.

Humberto Werneck: Agora, alguma vez na vida... A crítica te valeu como um “toque”, assim, para orientação do seu trabalho?

Raul Cortez: Décio Almeida Prado valeu. Tenho que dizer nomes, né, porque temos os bons críticos e os críticos que estão passing by... Estão ali para conseguir alguma outra coisa. Tem os péssimos críticos e os que são mornos. Mas o Décio foi... Sábato Magaldi... E alguns assim foram.

Humberto Werneck: Mas você acha que a crítica faz o sucesso de uma peça?

Raul Cortez: Não.

Célia Helena: Só queria fazer um parênteses aqui, só sobre essa crítica... É tão importante isso! Porque me parece... queria que você dissesse... Antigamente a crítica era importante para a gente, não só para para dizer que você era bom ou mau, porque ela analisava o trabalho não só do ator, como do diretor, do encenador, do grupo. Hoje em dia é “está bom, está mau. Presta ou não presta. Vão embora, fechem as portas do teatro. Sumam! Vejam, não vejam”. É ou não é assim?

Raul Cortez: É verdade.

Célia Helena: Não existe mais uma crítica que chegue e converse.

Raul Cortez: A chamada “crítica construtiva”...

Célia Helena: Mesmo o ponto de vista do ator.

Ruth Escobar: São colunistas sociais?

[sobreposição de vozes]

Célia Helena: Talvez seja isso. Então, agora, o Décio, o Sabato...

Raul Cortez: Mas aí também acho que... A formação deles como é que foi? Que referências eles tiveram? Que tipo de... Eles não tiveram nenhuma formação! São 20 anos. Tem uma geração que não teve.

Célia Helena: É de esperar?

Raul Cortez: Uma imprensa livre? Tem tudo isso que também tem que ser levado em conta. Agora, é claro... Existem críticas, assim, como a Ruth falou...

Cristiane Duarte: Raul, o Luciano falou de expectativas em relação a prêmios. E eu queria de saber que expectativas você tem depois de ter dois casamentos... Eu gostaria de saber quais as expectativas que você tem a respeito dos próximos ou se você não tem nenhuma?

[risos]

Raul Cortez: Não tive dois, eu tive quatro!

Cristiane Duarte: Sim, eu fui diminuir um pouquinho....

Raul Cortez: Mas casamento o bastante para não esperar mais nada! [risos] Não... Eu acho que... Não sei, não estou ligado nisso, né?

Cristiane Duarte: Não está ligado em casamento ou em amor?

Raul Cortez: Eu terminei uma relação muito grande, uma relação de 18 anos. Oito de vida comum e dez de namoricos e tal. É muito tempo, né? A gente acabou essa relação agora em outubro. Então, no momento estou a “meia-bomba”, sabe aquela coisa? Não estou preocupado com isso, nem estou vendo isso. Tenho necessidade de me encontrar profissionalmente. Isso me preocupa muito. Demais! Tenho crises terríveis por causa disso. Até o momento em que percebi... Até tem um grande amigo meu, com quem eu estava conversando hoje, [falando] que estou péssimo fazendo esse programa, porque minha cabeça está geléia... Eu não consigo me expressar mais direito, estou péssimo, não estou mais em condições de um amadurecimento, de ponderação, para fazer um tipo de programa desse. E daí, conversando, percebi que absolutamente não é isso. Estou até consciente. É que o que está acontecendo fora é que mexe muito com a gente, né? O que está acontecendo com esse governo, na forma com que está sendo administrado este país, é que acaba com qualquer projeto que qualquer um de nós tem em mente para fazer, porque é profundamente frustrante. Não posso trabalhar direito, porque me disseram que eu tinha que ter casa própria. Eu nunca me preocupei com isso. Aí me disseram: “Não, você tem que ter casa própria. Tem que ter casa própria”. Falei: “Então vou comprar casa própria”. Achei um financiamento ótimo com pessoas maravilhosas na Caixa Econômica, tudo maravilha. Bom, aí aconteceu o cruzado... Quer dizer, não aconteceu o cruzado. Acabou! Então caí numa roda viva terrível, porque só trabalhava para pagar banco e para pagar o empréstimo da Caixa Econômica. Assim, é melhor não fazer nada e nunca ter tido nada, melhor não pensar em nenhum projeto. Dentro disso em que a gente está trabalhando hoje em dia, então você pensa começa achar: “Ah! Sou uma merda de ator! Não sou o bom ator que dizem que sou, porque não consegui me realizar”. Você vê que não, que não é nada. Foram coisas que te jogaram, né? E você ter que lidar com isso, é muito difícil.

Ruth Escobar: Agora, Raul, você que se casou quatro vezes... Sempre costumam perguntar para nós, mulheres, como é que a gente consegue conciliar nossa vida artística, política, com a vida doméstica, né? E pergunto para você: como é que você conseguiu conciliar – e você foi um homem que ficou casado todos esses anos, acho que é a primeira vez que você está solto, aí, no pedaço há algum tempo! [risos] –, como é que você conciliou a sua vida artística com essa coisa doméstica? Porque vejo, por exemplo, que você tem uma relação com sua filha, com a Maria, que é quase que uma relação de mãe... Coisa legal, né? Como é que foi estar casado? É complicado para o cara que é um ator, que as mulheres vão em cima, que as pessoas param na rua? Como é que isso atravessa a sua vida doméstica?

Raul Cortez: Não vejo nenhum problema nisso, não. Acho que eu devia ter casado muito mais cedo, devia ter tido muito mais filhos do que tenho. E foi uma pena isso não ter acontecido. Acho que tudo faz parte, não é? Acho que você poder mexer nas coisas e ser tudo isso é o que é o bom!

Ruth Escobar: Mas você, sozinho, como é? Quer dizer... Você cuida, lava as suas cuecas, vai para a cozinha, faz a comida? Normalmente, homem está muito habituado a ter mãe que tome conta! Como é que você se vira sozinho?

[risos]

Raul Cortez: Bom, você tem pessoas que cuidam disso também. Você não pode fazer tudo, não é, Ruth? Não vou lavar minha cueca! [risos] Vai ter uma pessoa que pago para lavar minha cueca.

[risos]

[sobreposição de vozes]

Raul Cortez: Tenho um carma maravilhoso, não é? A minha filha mais velha, a Lígia, diz que é um carma, porque as mulheres se sentem profundamente atraídas por mim e sou sempre rodeado delas. Isso é verdade! Sou muito grato a elas. Eu realmente não preciso lavar cuecas, tem sempre alguém que lave, que não me deixa fazer as coisas, que faz por mim!

Ruth Escobar: E a liberação masculina, Raul, como é que fica?

[risos]

Raul Cortez: Ué, mas cuido das outras coisas muito bem!

Ruth Escobar: Lavo minhas calcinhas e penduro no banheiro. Você faz isso?

Raul Cortez: Ah! Não lavo mesmo! Não sei cozinhar, não gosto de lavar...

Luciano Ramos: Mas, Raul... Vamos fazer um pouquinho de reminiscências aqui, porque, nessa conversa nossa, volta e meia pintou uma lembrança, pintou uma referência aos anos de 1960. Você nos anos 60 era hippie, andava de branco, flor na mão e tal. [risos] Paz e amor. Eu me lembro de você nos lugares e tal. Como é que... o que ficou daquela época para você, daquela rebeldia, daquela loucura toda?

Raul Cortez: Em primeiro lugar, foi ótimo ter vivido aquela época da maneira que vivi, de uma forma integral, assumida à beça. As coisas passaram. As coisas mudam e quero sempre estar acompanhando o que está aí agora, né? Todas aquelas experiências foram de uma validade extraordinária como artista. Acho muito difícil você desassociar a sua vida pessoal do seu trabalho como ator no caso. É muito difícil! Acho que é impossível. Você será melhor ator na medida em que você se realizar pessoalmente melhor também. Então o ator tem sempre que estar acompanhando o momento, o que acontece, sofrendo, se alegrando, indo às diretas, “ir aonde o povo está” [refere-se à musica "Nos bailes da vida", de Milton Nascimento e Fernando Brant, que diz “todo artista tem de ir aonde o povo está”]. Então foi extraordinário! Tudo isso faz parte e tem que se continuar sempre assim. Nos anos de 1960... 1970 especificamente, época de flor na mão, essa coisa toda. 60 foi uma ocasião política extraordinária também.

Luís Fernando Emediato: E por que, nessa mesma época em que você andava de flor na mão e curtindo os anos 60, você queria também entrar no Partido Comunista, de onde foi rejeitado?

Raul Cortez: Não. Essa época foi 70.

Luís Fernando Emediato: Foi 70...

Raul Cortez: 60 foi uma época muito forte, politicamente, no Brasil.

Luís Fernando Emediato: Mas você quis entrar no PC em que ano? 1960 e poucos?

Raul Cortez: 1960, 61, 62... 

Luís Fernando Emediato: E porq ue você queria ser comunista?

Raul Cortez: Porque acho, em primeiro lugar, o Partido Comunista do Brasil o mais forte, aquele em que mais acredito.

Luís Fernando Emediato: Você achava ou acha? 

Raul Cortez: Acho ainda. Agora mais ainda. Porque...

Luís Fernando Emediato: E como é que você se sentiu quando foi rejeitado pelo partido?  Por que você não entrou?

Raul Cortez: Como eu me senti?... No momento achei que talvez eles tivessem razão.

Luís Fernando Emediato: Que eles tivessem razão? Aliás, você achava que era muito novo para entrar no partido?

Raul Cortez: Era uma responsabilidade muito grande. Acho, talvez, que eles tivessem razão. Hoje em dia, vendo tudo o que aconteceu com meus colegas que eram do partido e a tão pouca contribuição que eles tiveram, tenho certeza de que eu teria dado muito mais...

Augusto Nunes: Mas você não achava isso?

Luís Fernando Emediato: Não acha que o partido era muito careta? Porque eles te rejeitaram porque achavam que você era burguês e, depois, bissexual. E, como você sabe, nos países socialistas – ou os que se dizem socialistas - bissexuais ou homossexuais são vistos como criminosos.

Raul Cortez: É. Bom...

Augusto Nunes: [Interrompe] Raul, só um minutinho. Embarcando na pergunta do Emediato, parece que em 1980 você foi cumprimentado nos camarins, quando desempenhava o papel principal do Rasga coração, pelo Luís Carlos Prestes. Então, além de responder ao Emediato, eu gostaria de que você me dissesse se se sentiu de alguma forma resgatado aí, pelos chefes comunistas. Porque o Prestes, na época, ainda militava no Partido Comunista.

Raul Cortez: O Rasga coração... Quando se fala nessa peça, até hoje me emociona muito. É uma coisa extraordinária, que mexe muito comigo, essa peça, porque, em primeiro lugar, foi escrita por um homem que respeito profundamente, que foi de uma coerência política e fez da política a vida dele. E foi sempre coerente. Foi o Oduvaldo Vianna Filho [Vianinha]. Comecei com ele no Teatro de Arena. Quando estreei... Quando  fui procurado para fazer o papel do Manguari Pistolão [um funcionário público, inspirado no jornalista Noé Gertel, militante do Partido Comunista que tem problemas com o filho Luca, um jovem rebelde interessado em filosofia oriental] do Rasga coração, eu pedia: “Mas tem tanto outros atores mais engajados politicamente do que eu”. Porque isso para mim era um grande prêmio, né? [Eu pensava] “Até que ponto sou merecedor de ganhar esse papel?”. Durante os ensaios, sempre me acompanhou muito o diretor José Renato, que acabou tirando isso da minha cabeça e dizia: “Olha, todos esses que você está dizendo que têm essa importância política, inclusive dentro do próprio partido, não têm, porque a atuação deles é totalmente distorcida já e tal. Então é você mesmo que vai fazer”. Que tipo de ponte eu tinha que estabelecer entre mim e o Maguari Pistolão, também foi um trabalho que tive que descobrir. Como eu poderia entrar naquele personagem? Quando aconteceu toda a peça, até teve um caso muito interessante porque...  e muito estranho também... A minha filha nasceu... A Maria nasceu no tempo em que eu fazia o Rasga coração. A peça tinha acabado de estrear mais ou menos. E a Tânia foi ter a Maria no [Hospital] São Silvestre [no Rio de Janeiro], eu não estava sabendo de nada. E o parto foi e tal... E o José Renato – que foi quem acompanhou Vianinha sempre, a vida inteira, até na hora da morte – foi lá visitar minha filha. Ele e a mulher dele. E não conseguiram entrar no quarto. Mas eu disse: “Por quê?” Eles me disseram “foi nesse quarto que sua filha nasceu que o Vianinha morreu”. E na hora veio na minha cabeça: “Bom, de certa maneira ele está me dizendo: tudo bem, achei ótimo que você fez esse papel’”. Foi uma coisa que me impressionou muito. Foi incrível essa coincidência, se é que existe coincidência! Quando o Luís Carlos Prestes foi assistir, evidentemente, dentro desse quadro que estou te dizendo, eu já estava mais do que comovido e profundamente emocionado por ele estar assistindo à peça. Ele nos procurou depois, tiramos fotografia, conversamos com ele e tal. E, para surpresa minha, muito tempo depois, saiu uma reportagem na Manchete dizendo que o Luís Carlos Prestes... Que uma das razões pelas quais ele tinha tido problemas com o partido foi uma fotografia que tinha tirado comigo. Eu quis até processar a Manchete, [mas pensei] “Por que disse isso e aquilo? Não adianta. [Estamos no] Brasil. Esses processos não resolvem nada. Melhor nem mexer nisso”. Agora estou lembrando, porque isso associou a sua pergunta com a pergunta do Emediato.

Augusto Nunes: Acho que a pergunta do Emediato ainda não foi respondida...

Luís Fernando Emediato: Acho que você acabou não respondendo! [risos]

Augusto Nunes: Você quer repetir, Emediato?

Luís Fernando Emediato: Era como você se sentiu naquela época, rejeitado pelo partido? E como você vê ainda o partido com simpatia hoje na medida em que não deixa de ser um partido um pouco careta e excessivamente conservador, na medida que ainda vê homossexuais e bissexuais como uma espécie de criminosos, de aberrações... Aliás, seria interessante que você falasse também sobre isso... Ou não? Pela sua cara eu vi que você não quer falar sobre isso. [risos]

Raul Cortez: Em primeiro lugar acho o seguinte: quando eu estava fazendo o Rasga coração – não sei se você conhece bem a história da peça e tal –, havia um movimento muito grande, porque o [Fernando] Gabeira [ver entrevista com Gabeira no Roda Viva] chegou. Ele tinha chegado no Brasil e estava mudando todo o comportamento do brasileiro. Foi extraordinário! No fim, a imprensa acabou folclorizando e tirando a importância do Gabeira naquele momento, não é? Mas ele é mais forte do que isso. Mas, naquele momento, aconteceu isso. Então, naquele momento, o Partido Comunista estava um pouco defasado, não estava acompanhando a cabeça da juventude, estava pedindo uma abertura muito grande. Hoje em dia, eu acho que estão sempre certos, porque como você faz para politizar um povo que não tem memória, que não tem referências, não sabe como se politizar, também? É um trabalho diário, é um trabalho do dia-a-dia. E eles fazem isso.

Ruth Escobar: Mas, Raul, você se dá conta de que o Partido Comunista não conseguiu sequer eleger um dos parlamentares, até mais brilhantes , que eles tinham em São Paulo, que é o Alberto Goldman, que foi um parlamentar de várias...

Raul Cortez: Trabalhei para ele e tudo.

Ruth Escobar: Mas quero dizer o seguinte. Na medida em que um parlamentar que foi eleito por diversas legislaturas e não consegue se eleger por um partido comunista, eu me pergunto: até onde pinta esse trabalho do dia-a-dia? E gostaria também de te perguntar se alguma vez você visitou algum país socialista, para saber até onde a filosofia de Karl Marx... Quer dizer, saber como é que isso transformou os países da "cortina de ferro" [expressão criada em 1946 pelo ex-primeiro-ministro britânico, Sir Winston Churchill, para designar a política de isolamento adotada pela União Soviética e seus estados-satélites após a Segunda Guerra Mundial. Foi uma expressão usada no Ocidente para designar a fronteira imaginária que dividiu a Europa em duas áreas de distintas: os países socialistas e os países capitalistas]?

Raul Cortez: Bom... Em primeiro lugar, não sou politizado o suficiente para ter tantas respostas assim. O que acho é que um homem como o [Mário] Covas [(1930-2001) deputado federal nos anos 1960 pelo Partido Social Trabalhista (PST), em 1965, ajudou a fundar o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), foi cassado pela ditadura militar e perdeu os direitos políticos por dez anos sendo depois deputado e governador do estado de São Paulo pelo PSDB]  não ter sido eleito foi uma pena para todos nós, não é? Não sei quais são os problemas de dentro do partido. Não posso te dizer. Acho que esse trabalho diário é extraordinário, Ruth. Acho que é isso que tem que ser feito! Um povo que, de repente, esquece o que aconteceu com esse país e que resultou no golpe militar [promovido, em 1964, pelas Forças Armadas, derrubou o então presidente da República João Goulart, instaurando a ditadura militar no Brasil, que se estendeu até 1985, caracterizada pelo autoritarismo, censura, repressão e violência] e  volta a votar nessa mesma figura, é de uma falta de informação absurda, de uma [falta de] lucidez total. Então isso tem que ser feito diariamente para [as pessoas] deixarem de acompanhar, de irem aos comícios simplesmente porque é moda ou porque houve um movimento forte, energético e então vai meio assim, entendeu? Totalmente bitolado, para isso. E outra coisa também, você não pode mais dizer assim: “É, porque é corrupto!”. Você tem que dizer por que que é corrupto. É muito fácil dizer: “Fulano de tal é ladrão”. Mas por que é ladrão? Baseado em quê? Eu sou contra aquela estrada do Norte... Brasil-Maranhão? Como é que é?  Que liga o Maranhão... Tem que ver por que tem isso... De onde saiu esse dinheiro? Onde as pessoas estavam roubando aí? Acho que isso tudo tem que ser feito. Essas perguntas têm que ser respondidas.

Ruth Escobar: As pessoas não sabem que informação é poder. Essas pessoas não têm acesso à informação, mas o que eu queria saber...

Raul Cortez: Acho que o Partido Comunista... Um dos trabalhos deles é isso.

Ruth Escobar: Você acha que o Partido Comunista, ainda hoje, seria o partido capaz de encaminhar, digamos, alternativas políticas para esse país?

Raul Cortez: É muito difícil saber qual é o partido com que pode ser feito. Eu não vejo, realmente, nenhum partido no momento. Mas não posso desconhecer a importância e o valor do Partido Comunista. Sem falar na história.

Augusto Nunes: Raul, o Humberto Werneck está tentando fazer uma pergunta.

Humberto Werneck: Você levaria sua admiração pelo Partido Comunista ao ponto de se filiar a ele?

Raul Cortez: Hoje em dia?

Humberto Werneck: Sim.

Raul Cortez: Eu teria que me questionar muito. Porque acho que, quando você tem 20 anos e quer se filiar ao Partido Comunista, tem um tipo de atitude perante a vida. Hoje tenho 50 anos e preciso ver até que ponto não fui contaminado por uma série de coisas, até que ponto seria útil, até que ponto eu poderia exercer as coisas que tenho certeza de que seriam necessárias. E teria que abdicar de muitas coisas.

Marco Antônio Lacerda: Mudando um pouco aqui o texto, Raul. A gente falou muito de teatro e televisão... Você é um ator de cinema, também. Só para lembrar alguns filmes... Você fez Pedreira das almas, não é?

Raul Cortez: Vereda da salvação...

Marco Antônio Lacerda: Vereda da salvação, Vera, mais recentemente. O cinema brasileiro parece que vai muito bem em matéria de ator, haja vista o caso de Marcélia Cartaxo [recebeu o Urso de Ouro de melhor atriz no Festival de Berlim em 1985 pelo filme A hora da estrela, baseado em obra homônima da escritora Clarice Lispector] e Ana Beatriz Nogueira [aos 20 anos de idade foi premiada no Festival de Berlim de 1986 com o Urso de Prata de melhor atriz no filme Vera, escrito e dirigido por Sérgio Toledo, que se baseou na vida de Sandra Herzer, homossexual, interna da Febem, e seu livro A queda para o alto], não é? Agora, o que falta ao cinema brasileiro para uma repercussão maior no exterior? E quanto a filme, quanto a todas as outras áreas do cinema? Porque parece que de material ator nós estamos muito bem servidos...

Augusto Nunes: Para uma repercussão maior e no interior também é?

Marco Antônio Lacerda: E no interior também... É! [risos]

Raul Cortez: Acho que tem que procurar temas brasileiros mesmo para serem tratados. Acho que não adianta você fazer um cinema ou qualquer coisa que seja falando de outro país. A nossa qualidade de estar em um país em desenvolvimento, como é o Brasil, é justamente por tudo estar para ser feito. Tudo para acontecer. Tenho profunda alergia aos meus colegas “colonizados”, entre aspas, como eu chamo!

Marco Antônio Lacerda: Você acha que o cinema brasileiro tem sido colonizado?

Raul Cortez: Não. Não é colonizado, mas tem sempre uma tendência de falar de coisas alheias aos nossos problemas reais. Mas isso é tudo... É aquilo que eu estava falando com Célia: os grupos de teatro, naquela época, tinham um sentido político. E a maneira de enfoque das coisas hoje em dia... Os grupos formados hoje em dia não vêem muito isso. É tudo de uma forma mais universal. E talvez seja esse o problema também...

Augusto Nunes: Raul, eu queria aproveitar o tema levantado pelo Marco Antônio para chamar a pergunta do cineasta Francisco Ramalho, diretor do filme Besame mucho, que entra por ali [aponta onde o vídeo apareceria].

Francisco Ramalho: Raul, sou cineasta, não um homem de teatro. Ainda não tive o prazer de trabalhar com você em meus filmes. Espero que algum dia isso aconteça, mas estou acompanhando sua carreira com admiração e respeito. E, atendo-se ao seu meio de expressão máximo, o teatro, como foi o reencontro com o Antunes [Filho (1929-) destacou-se, principalmente, com a obra Macunaíma, 1978, de Mário de Andrade. Pertence à primeira geração de encenadores do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), participou do movimento de renovação cênica na década de 1960 e criou o Centro de Pesquisa Teatral  (CPT), que mantém um disputado curso para atores - ver entrevista com Antunes Filho no Roda Viva] ao trabalhar agora, há não muito tempo, no Matraga? Um tipo de experiência completamente diferente daquele tipo de trabalho que você já fez com ele no passado – seja lá em Vereda da salvação ou em outras peças –, para esse dado mais experimental do trabalho. Que prazer isso lhe deu? Que grandeza isso acrescentou ao seu trabalho? Vi a peça, gosto do seu trabalho, gosto do seu desempenho. Você vê isso do ponto de vista histórico, crítico, cultural... Acho que é muito, né? 

Raul Cortez: Bom,  acho que o reencontro com o Antunes foi extraordinário, porque não só é uma ligação muito forte minha com o Antunes, relação diretor-ator, como também a importância do Antunes como um dos melhores diretores – talvez o melhor diretor brasileiro – de teatro. Isso já traria qualquer benefício para qualquer ator. Então nesse reencontro já estava estabelecido que haveria uma revitalização, uma reciclagem muito grande que esse grupo e ele em especial iriam dar para mim. Quando ele colocou que isso seria feito de uma forma também recíproca e que ele também se revitalizaria, também não entendi muito bem na hora o que ele quis dizer com isso. Mas isso aconteceu. Aconteceu, porque ele me colocou na figura de um ator convidado perante um grupo que estava se formando. Então o interesse das pessoas que estão fazendo teatro em ver de que forma eu fazia meu trabalho, acho que influenciou muito o grupo. Influenciou a ponto deles colocarem outros métodos de interpretação e  fazerem – inclusive, aquilo que achei extraordinário, que eles faziam todos os sábados lá no [Teatro] Sesc Anchieta [em São Paulo] – a improvisação junto com o público. O público dava um tema e os atores em cena procuravam trabalhar sobre aquilo. E isso foi muito bom! Participar de um texto que é do Guimarães Rosa, que foi elaborado por um grupo, em especial do Antunes,  também acrescentou demais. O despojamento que era necessário ter... eu também gostei de ter participado. O que achei prejudicial para o grupo e para o trabalho do Antunes é que é muito difícil para um ator na minha posição se despojar de uma forma tão intensa, [ao ponto de] que esqueça até todos os anos que essa técnica lhe deu, todos esses anos de história que fez dentro da sua carreira. Acho que isso era necessário para poder ter uma homogeneidade do grupo. Isso, evidentemente, não poderia acontecer. Eu sempre estava mais destacado do que eles. Isso poderia até comprometer essa homogeneidade do trabalho. Nisso acho que atrapalhou um pouco.

Luciano Ramos: Um pouco do interesse da história do cinema aqui. Você fez a Vereda da salvação, o filme, com Anselmo Duarte e eu  considero, humildemente, que seja um dos grandes personagens que você fez para o cinema, se não o mais impressionante de todos eles. Aquele personagem que você fez no filme Vereda da salvação era cria tua com Anselmo Duarte, que dirigiu o filme, ou com Antunes, que tinha dirigido a peça?

Raul Cortez: Não, foi cria minha com o Antunes! Foi cria minha com o Antunes. Gosto muito do filme. O filme foi muito bem recebido em Berlim. Concorri, inclusive, ao prêmio e... Estou dizendo isso para ver a importância do filme junto à crítica. Mas talvez um pecado do filme tenha sido o resultado meio teatral que ele teve. Eu precisava rever o filme hoje em dia, não sei se você chegou a rever... Eu gostaria de rever, mas na época o resultado era um pouco teatral.

Luciano Ramos: E, olha, ainda existe! Parece que envelheceu bem esse filme! [risos]

Raul Cortez: É. Pode ser.

Luciano Ramos: Mas, enfim, o que é para você hoje em dia trabalhar em cinema: um hobby, uma atividade cultural ou você dá o mesmo peso para o trabalho do teatro e da televisão?

Raul Cortez: Todo meu trabalho como ator de teatro em televisão, a única coisa que sei que fica é cinema. Infelizmente. Infelizmente, porque trabalho muito pouco em cinema, mas é o que vai ficar. Quando quero saber, quando se quer... Eu não, que a conheci intimamente – graças a Deus tive esse privilégio –, mas quando minha filha e outras pessoas mais jovens queriam conhecer o trabalho de Cacilda Becker [(1921-1969) estrela maior do teatro nacional pela forma revolucionária de interpretação, morreu precocemente aos 48 anos, praticamente em cena. Participou do TBC, Teatro de Arena e Teatro Oficina e atuou também em dois filmes]... Pedi para fazerem um filme para ser colocado na televisão, para verem que atriz extraordinária ela era. Essa importância o cinema tem. E não tenho sido convidado, do jeito que eu queria, para fazer esses grandes filmes. Mas tenho muito cuidado em cada personagem que faço dentro do cinema.

Célia Helena: Eu queria saber... Os jovens sempre perguntam – como trabalho muito com jovens – como é que faz um ator para ter uma carreira? Você tem uma carreira quase só de sucessos e ultimamente você só faz bons espetáculos e bons papéis. Então, eles sempre querem saber quais os critérios que um ator deve ter. Você teve alguns ou é por acaso? Ou é por sorte? Ou você vai orientando sua carreia da maneira como você quer e como você acha que deve ser?

Raul Cortez: Aí eu acho que [isso] não obedece a nada cerebral, não. Aquilo de que gosto, que dá um tesão de fazer, é aquilo que eu vou fazer. E, quando não mexe, assim, prefiro não fazer. Todas as vezes que fiz para ganhar dinheiro no teatro, sempre me saí mal, nunca consegui ganhar.

Célia Helena: É uma coisa boa.

Raul Cortez: Um castigo incrível, todas as vezes, então...

[risos]

Célia Helena: Não é pelo dinheiro!

Raul Cortez: É melhor procurar obedecer a minha intuição mesmo!

Caetano Bedaque: Por que você não aceitou fazer o Drácula no Rio de Janeiro?

Raul Cortez: Espera aí. Acho que tenho que virar do outro lado, [risos] hein?!

Caetano Bedaque: Por que você não aceitou fazer o Drácula no Rio de Janeiro?

Raul Cortez: Por que que não aceitei?

Caetano Bedaque: O trabalho em São Paulo não lhe agradou o suficiente para você dar continuidade?

Raul Cortez: Não. Não aceitei porque dependeria muito de como o Drácula ia ser levado para o Rio de Janeiro. Acho que dentro de um “besteirol” eu não me enquadraria de jeito nenhum. Não é o propósito de levar o Drácula lá, totalmente diferente daqui. Talvez resulte melhor... Acho que aqui não chegou a ser frustrante, mas não teve o resultado que a gente quis.

Augusto Nunes: Raul, os atores se queixam com freqüência do ritmo extremamente apressado das gravações de novelas e freqüentemente se queixam também de que só ficam sabendo o que vão dizer, as falas daquele dia, momentos antes da gravação. Eu te pergunto se isso de fato acontece nas novelas nas quais você trabalha e qual é a sua técnica para assimilar rapidamente esse texto em tão pouco tempo. Como é que você se prepara para começar a gravar uma novela nesse ritmo, e conforme você disse, sem saber direito o destino do teu, do teu...

Raul Cortez: Personagem!

Augusto Nunes: ...personagem?

Raul Cortez: Bom... Você diz um método de trabalho? É isso que você quer saber?

Augusto Nunes: Isso!

Raul Cortez: Eles te dão um texto. Eu até estava fazendo uma conta agora, enquanto o chofer me trouxe para cá, da quantidade de texto que tenho para decorar. Geralmente são 17 cenas pra decorar em dois dias mais ou menos ou três dias quer dizer, sete cenas são duas páginas cada uma, então, você multiplicando isso, dá 14...

Augusto Nunes: Trinta e quatro páginas.

Raul Cortez: Trinta e quatro páginas que tenho por semana, que tenho que decorar. Isso aí... termina que não tenho que fazer muita pergunta, tenho que decorar. Só. Decorar feito um papagaio! Isso me irrita profundamente! Não sei decorar assim. Então, a maior dificuldade que tenho é na decoração mesmo.

Ruth Escobar: Raul, hoje a maior parte dos grandes atores do teatro brasileiro está fazendo televisão, né?  O que a gente ouve... Os atores, às vezes, param ao fim de um ano, dois anos fazendo novela e dizem: “Agora vou fazer uma peça de teatro!”. Então a gente sempre sente, pela forma como as pessoas se colocam em relação à televisão, um pouco como a televisão sendo uma coisa alternativa... O que ela significa realmente para você? Se você tem que escolher entre um grande projeto no teatro e uma novela com um papel extraordinário, onde é que seu coração balança? Você só faz televisão porque, por um lado, fatura sua imagem, que é importante agora para o teatro por causa do dinheiro, ou a televisão te dá igual tesão como dá o teatro? Como que é que fica essa relação? O que o palco representa para você?

Raul Cortez: Isso daí foi respondido quando o Antunes me convidou para fazer o Augusto Matraga. Nós estávamos ainda no ensaio e a Globo me chamou – eu estava com contrato com a Globo ainda – para fazer Anos dourados e me recusei, embora sob contrato, [a fazer] Anos dourados, que era, inclusive, um seriado, o que me atraía muito mais. O sucesso que teve... quer dizer, era um seriado realmente muito interessante e deixei de fazer por causa do teatro, por causa do projeto que o Antunes tinha.

Ruth Escobar: O teatro é coisa realmente da sua vocação, a sua paixão?

Raul Cortez: Não é...Não é qualquer peça. Depende do projeto que tem, eu largo na hora, imediatamente! E às vezes trazendo problemas terríveis para mim...

Humberto Werneck: Por que você abandonou o Matraga? A uma certa altura você parou com o Matraga. O que houve?

Raul Cortez: Porque eu tinha o compromisso de fazer o Drácula. Eu, quando aceitei o Matraga, já sabia que em agosto eu teria que sair para fazer o Drácula. E quando você tem um compromisso profissional, no momento, na atual conjuntura do teatro – independentemente de qual seja a companhia, qual seja o produtor – é um compromisso que tem que ser respeitado, porque tem gente jogando uma grana que, às vezes, não tem dentro desse projeto. Então você não pode, de repente, dizer “não vou fazer mais”. Disse ao Antunes “só posso fazer saindo em agosto”. E para voltar... Era para eu ter voltado, é que para o grupo não interessava a minha volta – ou sei lá por quais outras razões que o Antunes achou –, mas ia voltar. Fiquei profundamente frustrado por não ter voltado, por não ter feito A viagem com eles, embora realmente eu não pudesse fazer A viagem. Mas faria, teria feito.

Humberto Werneck: Raul, você estava dizendo que [dentre] os grandes problemas que você tem, talvez o maior seja para decorar os textos... É verdade que, freqüentemente, no palco, te acontece um “branco” e você perde completamente o texto?

Raul Cortez: No palco acontece...

Humberto Werneck: Você se lembraria de algum momento em que isso foi particularmente cômico ou dramático?

Raul Cortez: [risos] Quando acontece isso, me dá um acesso de riso muito grande! Rio muito! E acho engraçado isso acontecer, então não me aflige ,assim, muito, não tem esse peso: “Oh, como é que vai ficar?”. Mas no Amadeus [1982] me aconteceu... Eu tinha vários monólogos com o público [risos]... E, quando comecei a conversar com eles, me deu branco total. Não tinha nenhum ator do meu lado, porque era direto o meu papo com o público. Então eu tinha que falar qualquer coisa da peça - eu não lembro muito bem - ou descrevendo a partitura do Mozart, não sei bem o que é que era... Aí comecei [faz uns barulhos com a boca] e ria e pensava: “Olha... Eles não vão entender, mas vão achar que não ouviram direito”. E passou assim! A gente faz uma coisa dessas...

Ivan Ângelo: Você parece que gosta de voltar, você estava falando em voltar ao papel que você tinha feito... O que está sendo para você, agora, voltar para Santo Amaro?

Raul Cortez: É... É que estou com um “grilo” aqui, sabe o que é? E não gosto de ter grilo, não... Tem uma pergunta do Emediato que não respondi, mas daqui a pouco a gente volta, tá? [risos] Daí eu não fico me sentindo bem... Mas não esqueci, não! Mas voltar para Santo Amaro? Acho extraordinário! Acho aquela coisa... Todo homem volta para a sua origem, né? Uma das coisas de que mais gostei e daí, realmente... percebi que o Jardim Marajoara, onde estou morando, é de Santo Amaro. É por isso que estou tão feliz! E Santo Amaro foi uma coisa importantíssima...

Augusto Nunes: Você nasceu em Santo Amaro, Raul?

Raul Cortez: Eu nasci em Santo Amaro, meus pais são de Santo Amaro...

Ivan Ângelo: O pai dele foi prefeito de Santo Amaro!

Raul Cortez: É, minha bisavó... Então é uma coisa forte demais. Minha infância toda foi feita lá! E Santo Amaro, naquele tempo, era uma cidade do interior, né? Havia a rua Direita onde todos os sábados passeavam as mulheres de um lado e os homens do outro [mostra com as mãos]... Se cruzavam ali e começavam os namoros e tal... Tinha a quermesse da Igreja do Largo Treze – esse largo é extraordinário, gostaria até de escrever alguma coisa sobre esse largo! – e a gente participava. Tinha as procissões, Semana Santa... E tudo isso fica muito na cabeça da gente... Tinha a figura do meu avô, que eu achava extraordinária...

Ivan Ângelo: E agora? Será que vai sobrar espaço na tua carreira para você ampliar essa sua experiência de ator, de produtor para, por exemplo, essa coisa que você mencionou, de passagem, que é escrever? Você tem vontade de escrever?

Raul Cortez: Às vezes... Quando comecei a fazer teatro... Era tão problemático fazer teatro, eu tinha que abdicar de tanta coisa e havia uma pressão tão forte para não fazer teatro, que fui fazer aqueles testes vocacionais. Na época fui nisso aí. Daí, bom, deu teatro “na cabeça” e me disseram: “se não for fazer teatro faça ciências sociais, faça jornalismo...”, que eu queria muito...

Ivan Ângelo: Olha do que você se livrou, hein?

[risos]

Raul Cortez: É! Mas está tudo mais ou menos na mesma gaveta, né? [risos]

Ruth Escobar: Raul, como é que você se sente quando alguém te chama pelo nome do personagem? Alguém te chama?

Raul Cortez: Agora, por exemplo, nessa novela há um embaraço muito grande deles, porque eles não sabem se me chamam de Herbert ou de Cláudio Serra! [risos] Então, fica: “Oi, você aí!” [risos]

Cristiane Duarte: Raul, além dos desejos, o que mais que ficou na gaveta? Você chegou a fazer curso de direito, não foi?

Raul Cortez: Fiz.

Cristiane Duarte: E dos teus sonhos que ficaram irrealizados, quais ficaram na gaveta? Quer dizer, você realizou o maior, que era de ser ator , mas o que que ficou na sua gaveta? Você considera que nada? Além de não ser admitido na "igrejinha" do Partido Comunista?

Raul Cortez: [risos] Mas acho que não... acho que a importância, pra mim, de me tornar ator era tão grande... E a gratificação de ter me tornado ator, por exemplo, de repente, digo assim: “Mas por que eu estar aqui...?”

Cristiane Duarte: Não... Na sua vida, no seu baú pessoal! Do teu baú pessoal: não namorei, não beijei a fulaninha, não fiz aquela viagem, não conheci... No baú pessoal... É que fico... Estou aqui assim... [Faz cara de curiosa]

Raul Cortez: Não deu tempo, Cristina, por exemplo, de poder parar tudo e fazer uma viagem e poder ver o teatro lá fora e poder estudar,  ter uma bolsa qualquer, que seja mais ou menos coerente com minha posição, e poder usufruir disso.

Cristiane Duarte: Você nunca ficou com vontade de falar... russo, vai?! – inglês, não, porque devia ser pecado, pelo partido não devia poder! –, mas assim... Russo! Você não ficou com vontade de aprender russo e não aprendeu? Quero saber o que ficou...

[risos]

Raul Cortez: Nunca tive frustração por não ter ganhado o Oscar, por exemplo, sonho... Oscar... Não tenho isso aí. Acho que falar russo, não; queria poder era ser ator em outros países. Infelizmente é um pouco... a língua portuguesa é um pouco castrativa, não é? Você pode só... Em alguns... Eu poderia em uma época poder ter ido embora, ter ido para os Estados Unidos, podia ter ido para a França, para a Espanha. Eu sempre me recusei a sair do Brasil, porque achava que a função tinha que ser aqui mesmo, embora seja muito cacete, às vezes, você ter que trabalhar aqui, mas é...

Augusto Nunes: Raul, parece que sua família se opunha...

Raul Cortez: Você não tem...Você entendeu, Cristina? [risos] Deixei... Gostaria de beijar muitas!

Cristiane Duarte: Fala alguma!

Raul Cortez: Adoraria ter namorado a Rita Hayworth, que era um grande mito quando eu era garoto... A Jane Fonda, até, mas isso é coisa de...

[risos]

Augusto Nunes: Raul, parece que sua família não gostava da idéia de ver você nos palcos. Por que, exatamente? E como é que foi essa resistência familiar, se é que foi real?

Raul Cortez: É... Porque não sei se ainda existe isso. Eu acredito que exista, mas não de uma forma tão forte como era na época. Fazer teatro era uma violentação para qualquer família na época. Não só por problemas financeiros, que eram muito grandes, uma das coisas que meu pai alegou, como também do ponto de vista moral, né? Esse meu avô de que gostava muito e tenho uma admiração muito grande, quando soube que eu estava fazendo teatro, disse que ia me deserdar. Mas nem tinha tanto dinheiro assim...

Augusto Nunes: Era uma ameaça!

Raul Cortez: Era um homem dramático! E ele disse também que não tinha mais coragem de erguer a cabeça pelas ruas de Santo Amaro! Ele era tão dramático, que acabei descobrindo, depois da morte dele, que ele tinha várias peças escritas!

[risos]

Ivan Ângelo: Raul, em um leque bem amplo assim... Do que você gosta?

Raul Cortez: Do que é que eu gosto? [risos] Gosto muito do que estou fazendo agora!

Ivan Ângelo: Tirando teatro, tirando trabalho...

Raul Cortez: É, não estou falando de trabalho!... É não sair da minha casa, é ficar muito com minha filha... Eu sei, não é só porque é minha filha. É porque você, de repente, sente responsabilidade de estar criando uma criança, de estar educando, ensinando... E isso acho extraordinário! E poder ler sempre, o tempo todo que tenho. Acho que é questão de idade também, né? De repente você começa a achar que não tem mais nada na esquina, que não precisa mais sair de casa.

Ivan Ângelo: E o que você verdadeiramente odeia, Raul?

Raul Cortez: O que eu odeio, assim, de cara? Detesto caretice, detesto preconceito, detesto uma série de coisas...

Luciano Ramos: Falando nisso, Raul... Consta que durante algum tempo a classe teatral paulista, de certa forma, esnobou você um pouquinho, porque dizia que você era “filhinho de papai”, era burguês etc. Quero saber se o pessoal da sociedade que você freqüentou – sei que você freqüenta, haja visto o seu casamento com uma mulher da sociedade – também tinha um preconceito em relação a você por ser um ator e ser um cara de esquerda.

Raul Cortez: Muito.

Luciano Ramos: Então você era um marginal! Você não conseguia estar nem de um lado nem do outro...

Raul Cortez: Eu falava que não estava em nenhum lugar. Eu não estou nem aqui nem ali nem lá... Isso me deu uma solidão muito grande... Me deu, sim. Mas acho que é assim mesmo, né?

Luciano Ramos: A vida é assim?

Raul Cortez: Não, não é que a vida é assim!... Graças a Deus paguei um preço por ter uma cabeça diferente. Não sei se  tenho, mas acho que tenho. Acho que é isso, graças a Deus, eu tenho!

Luciano Ramos: Você é um cara, assim... Todo mundo olhando o Raul, acha que é um sujeito super... Um gentleman! Mas é um brigador! [risos] Por exemplo, li em uma pesquisa que você deu uns “cascudos” no Pereio [Paulo César Pereio] e no Nuno Leal Maia... É verdade essa história?

Raul Cortez: Não! Eu bati no Pereio e apanhei do Nuno Leal Maia!

[risos]

Luciano Ramos: Justificável! [risos] É compreensível! Mas como é que foi isso?

Ruth Escobar: E deu uns “pescoções” na [atriz e produtora] Tereza Rachel, no teatro! [risos]

Raul Cortez: Ele não falou das mulheres, só perguntou dos homens!

[risos]

Augusto Nunes: Como é que foram esses incidentes?

Raul Cortez: Acho que companheiro de trabalho não tem sexo, entendeu? É um companheiro de trabalho! Não é mulher nem homem. É companheiro de trabalho, pô! [risos] Então aconteceram problemas com atrizes também!... Com o Pereio foi porque eu estava fazendo uma peça, estava fazendo um sucesso extraordinário, e  [era] uma peça que apanhei a dez dias para estrear no Rio de Janeiro. Uma peça que estava sendo feita aqui em São Paulo já havia muito tempo e em dez dias fiz o papel. Chamava-se Rapazes da banda e foi um sucesso, foi muito grande no Rio. Tanto é que o primeiro [prêmio] Molière veio dessa peça. Então, evidentemente, isso mexia com os meus colegas. E eu estava sendo vítima de um movimento que não entendia muito bem, que era contra mim. Por isso, depois de meses de gozação, tinha que se resolver o problema. E também  acho que a gente tem que resolver na hora certa, não adianta nada você resolver o problema em cena com a platéia... Normal. Então  esperei acontecer uma grande festa, comemorando não sei quantas apresentações, com a impressa inteira lá e digo “hoje, se me aprontar, vai ter!”. E o pessoal todo já bebendo, comemorando... E começou a peça. Daí digo: “Bom, deve vir por aí alguma coisa”. E realmente aconteceu, não vou explicar, porque é muito longo!

Luís Fernando Emediato: Em cena aberta?

Raul Cortez: Em cena aberta! Era uma coisa para realmente... Tinha uma coisa de puxar um lápis da mão do outro e, com esse impulso que eu tinha que fazer, provavelmente eu cairia se fosse dado “molemente”, assim, como foi dado pra mim. Mas eu tinha sacado que ia acontecer alguma coisa, mas a coisa não aconteceu, porque simplesmente tirei. E deu uma frustração muito grande, eles saíram do texto e começaram a me xingar. E [eu disse] “Nós vamos parar é agora e aqui” e saí, fui embora para o camarim. O Johnny Herbert era o empresário. Ele foi para o camarim e dizia: “Mas como?” E eu digo: ”Quero um copo de água para me acalmar, depois eu volto!”. [risos] E daí eu tomei meu copo de água – xingaram muito, mas me deram o copo de água –, mas na hora em que estou subindo para ir à cena [risos], o Pereio grudou no meu braço e disse: “Está mais calminho, neném?” [risos], qualquer coisa assim! Aí já começou a briga ali! Pereio subiu para a cena e, para surpresa minha, dei uma porrada nele, ele caiu e ganhei a briga.

[risos]

Ivan Ângelo: Você estava dizendo que companheiro de trabalho não tem sexo. É para qualquer efeito isso ou não?

Raul Cortez: Em cena é!

[risos]

Augusto Nunes: Célia, desculpe. Só queria que ele contasse, também, como foi o incidente com o Nuno Leal Maia, que é uma curiosidade geral! [risos]

Célia Helena: Mas é esse “miolo” que vou atacar!

Augusto Nunes: Então, por favor!

Célia Helena: Quando fui trabalhar com você – evidentemente, a nossa relação era diferente –, todo mundo dizia: “Como é que é com o Raul?”. Porque trabalhar com você era difícil! Ninguém queria trabalhar com você, porque você brigava com todo mundo, com tudo que era mulher, com tudo que era homem... Então ficou uma aura em torno de você, do “briguento”. Eu dizia: “Não, não tem problema nenhum!”. [E perguntavam] “Mas ele não puxa a cena para ele?”, [e eu dizia] “Não, não puxa. Pelo contrário, ele até cede. É muito cavalheiro”. [Me diziam] “Não, não... Então é porque ele gosta de você”... Eu dizia: ”Não é por causa disso, não!”. Escuta, como é que é?

Augusto Nunes: Célia, vocês foram casados? Acho importante para os telespectadores.

Célia Helena: É!

Augusto Nunes: Acho importante para os telespectadores...

Raul Cortez: Uma filha e uma neta!

Célia Helena: Nós temos uma filha e uma netinha. [risos] Então, Raul, eu queria que você contasse um pouco sobre isso. Isso já passou, né? Graças a Deus!

Raul Cortez: Não sei. [risos] Espero que não tenha passado, não!

[risos]

Célia Helena: Tem a história da Tereza Rachel!

Ruth Escobar: Diziam os empresários, também, que era muito difícil trabalhar com o Raul! E o Raul trabalhou comigo várias vezes e quero dizer que nós nunca tivemos nenhum problema, eu, enquanto empresária, e o Raul, ator... Inclusive, quando as peças tinham dificuldade e não tinha dinheiro em caixa para pagar, o Raul saía comigo para fazer vendas especiais para conseguir pagar o elenco! [risos]

Raul Cortez: A gente faz parte de um folclore – né, Ruth? – que a gente tem que arrastar a vida inteira! Eu tenho essa aí, você tem outra...

Ruth Escobar: Eu tenho outra, de que não pagava os atores! [risos]

Raul Cortez: De que não pagava os atores!

Ruth Escobar: Nunca tive uma ação na Justiça do Trabalho! [risos]

Raul Cortez: Você sempre me pagou e, se houve dívida, foi minha com você. Para surpresa minha, três anos depois você ainda lembrou e eu tive que te pagar, você se lembra?

Augusto Nunes: Só lembrando...

Marcos Augusto Gonçalves: Só lembrando que tem duas perguntas: a do Emediato e do Nuno Leal Maia. E eu queria fazer mais uma, que era pedir uma avaliação sua sobre a qualidade da produção de texto em teatro no Brasil atualmente.

Raul Cortez: Você me deixa responder a da Célia primeiro? Para mim, é importante poder me defender dessa “brigaiada” toda.

Marcos Augusto Gonçalves: É claro.

Célia Helena: Claro. Tem que clarear tudo! [risos]

Raul Cortez: Não, porque acho que o teatro tem que ser feito naquele momento que está sendo vivenciado. É o aqui e agora. E nem sempre todos os atores têm essa vontade de fazer. É sempre uma preguiça de ter que reproduzir o dia-a-dia. mas a reprodução do dia-a-dia, a procura de sair da rotina é que faz o teatro ser vivo sempre. então eu estou sempre pedindo para ser alimentado em cena, para poder devolver, não é? E quando um ator tem comportamento de funcionário público, me irrita profundamente. E eu chego até a brigar por causa disso. Como também... Eu estava conversando com a Marília que nós não temos saco para mediocridade... Acontece, não quero ser... Mas às vezes você topa com cada ator que, realmente, não tem razão de estar ali. Aí como você vai tratar? Quero sentir respeito pelo ator com quem estou trabalhando. Se ele não me faz sentir isso, é muito desagradável você contracenar.

Ivan Ângelo: Bom, vamos ao pugilato com o Nuno Leal Maia! Como é que foi isso?

Luís Fernando Emediato: E dizem que você deu uma surra na Tônia Carrero, também...

[risos]

Raul Cortez: Não. Que é isso! Não! Isso era da peça... Não havia batida...

[sobreposição de vozes]

Raul Cortez: Nnunca ouvi isso aí.  A gente estava fazendo uma peça chamada Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá...

Augusto Nunes: Só um minuto, Emediato. Só para contar o incidente.

[risos]

Luís Fernando Emediato: Em quantas pessoas você bateu?

[risos]

Raul Cortez: Espera aí!

Augusto Nunes: Depois a gente faz a contabilidade!

[risos]

Raul Cortez: Não é assim, não, Emediato! O que é isso?! [risos] Mas essa do Nuno foi engraçada! É isso que tenho que responder?

Luciano Ramos: Pelo menos é o que estão pedindo!

[risos]

Raul Cortez: É. Eu fazia essa peça, Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá. Eu fazia uma “bicha” proletária. E então estava trabalhando e o Nunes fazia o “bofe” dessa “bicha” – o cara a apanhou na rua, na Cinelândia e trouxe para casa, tal –, mas então não havia um grande monólogo do “bofe”. Era muito cacete. Era muito chato. Agora, no momento muito mais crítico da peça... Mas o ator estava representando e era o Nuno, que adoro e adorava muito, fui eu quem convidei e tal, maior respeito por ele. Mas, nesse momento, atravessou uma barata em cena. Eu estava fazendo uma bicha, bicha não pode nem ver uma barata, pelo menos na minha cabeça, essa muito menos. E atravessou a barata, gritei! Tirei o chinelinho, porque ele usava um chinelinho [risos], e comecei a procurar a barata.

[risos]

Luciano Ramos: No meio do bife do outro.

Raul Cortez: É. No meio do monólogo do outro! [risos] Até hoje, o Nuno acha que eu estava fazendo para prejudicar. Mas eu achava que ele podia entrar no jogo da barata e isso ia criar um momento extraordinário no teatro.

Luciano Ramos: Se sentiu culpado...

Raul Cortez: Mas ele não entrou no barato!

[risos]

Luciano Ramos: Agora, ao longo dessa sua...

Marco Antônio Lacerda: E aí: você apanhou?

Raul Cortez: Hein?

Marco Antônio Lacerda: Você apanhou? Como é que foi?

Raul Cortez: Não. Não apanhei por causa disso! Apanhei de repente, sem saber por quê. A gente estava em Recife e disse um “não” qualquer - e era para falar “sim” - De camarim para camarim eu disse um “não” qualquer, ele entrou e me deu uma bofetada! E a Tamara, que era a namorada dele, disse: “Eu sabia que isso ia acontecer!”. Fiquei sem saber por que, mas ela sabia!

[risos]

Luciano Ramos: Escuta, ao longo desses 30 anos em que você viveu mil personagens diferentes... é aquela coisa do ator, que o personagem encarna depois desencarna, depois faz outro e tal. Algum deles ficou em você aí? Algum deles deixou alguma marca mais profunda que outros?

Raul Cortez: O Teteriev, de Os pequenos burgueses, deixou. Rasga coração deixou. Qual mais?... O trabalho com o Victor García deixou. Esse foi fantástico!

Luciano Ramos: Ah, é? E o Salieri [personagem de Raul Cortez na peça Amadeus]? O Salieri achei sensacional! Melhor do que do Murray Abraham [ator que interpretou o mesmo papel na versão cinematográfica de Amadeus], por exemplo...

Raul Cortez: É? Você achou?!

Luciano Ramos: Achei melhor! Leva para casa esse [...]

[risos]

Raul Cortez: Que bom!... Mas foi um trabalho, entende? Não modificou a minha vida. Acho isto: o teatro é bom porque pode modificar a vida da gente que faz e de quem está assistindo. Quando acontece isso, é extraordinário!

Ruth Escobar: Você começaria tudo de novo, igualzinho, Raul?

Raul Cortez: É claro! Acho que fiz muita coisa errada, é claro... Coisas que não deveria ter feito. Mas, no total, começaria tudo... Não largaria essa profissão. Continuaria.

Caetano Bedaque: Raul, dizem que você também é muito difícil de ser dirigido. Isso é verdade?

Raul Cortez: Acho que não. Nunca ninguém se queixou, não.

Caetano Bedaque: Não?

Raul Cortez: Pelo contrário.

Augusto Nunes: Veja, Raul, um ator quando chega à sua situação, com essa carga de experiência, com tantos papéis importantes já desempenhados... Um ator na tua situação precisa, realmente, de um diretor?  Você já não é capaz de se dirigir sozinho, saber todos os teus movimentos, inflexões...?

Raul Cortez: Não. É preciso, sim! E, quando acontece um bom diretor, então, o efeito é extraordinário. Mas, quando você leva uma peça, você sempre tem que saber como você está sendo visto. É impossível você dirigir e representar ao mesmo tempo. É muito difícil.

Luciano Ramos: O que você considera um bom diretor? Ou quem [enfatiza] você considera um bom diretor? [risos]

Raul Cortez: Para mim um bom diretor é aquele diretor que trabalha com o ator. Existe, hoje em dia, o teatro do diretor... existe o teatro do ator, o teatro do grupo. Quer dizer: é o que leva você a assistir a uma peça? Quando acontece um diretor que se debruça sobre o ator,  ao meu ver, para mim ele é ótimo, extraordinário, porque o trabalho resulta sempre em benefício do próprio espetáculo.

Marco Antônio Lacerda: Com qual diretor você consegue esse tipo de sintonia especialmente?

Raul Cortez: Existem vários, não é? Os que eu mais gosto de trabalhar: o Antunes, o José Celso [Martinez Corrêa] - [ver entrevista com José Celso no Roda Viva]... Tenho interesse de trabalhar com o [José] Possi [Neto]. Eu gostaria de ter trabalhado era com o Fauzi Arap... E tem diversos...

Luciano Ramos: E o [Walter] Avancini, por exemplo?

Raul Cortez: O Avancini, especificamente, na televisão. Gostaria muito! Nunca recebi um convite! Aliás, recebi uma vez um convite para fazer [a minissérie] Moinhos de vento [1983]...

Luciano Ramos: Moinhos de vento! Você fez!

Raul Cortez: Mas foi um trabalho... Não foi bem realizado. Em primeiro lugar, porque ele não dirigiu. Foi dirigido por um outro diretor. E depois porque o trabalho foi também muito cortado. Não deu. Mas eu gostaria muito [de trabalhar com o Avancini] porque acho que ele pede coisas totalmente fora do padrão da interpretação. Isso é interessante.

Luís Fernando Emediato: Você está falando de diretor... Você não sente falta – você, um ator da sua categoria– de um grande texto hoje em dia, não?

Raul Cortez: Ah! Sem dúvida.

Luís Fernando Emediato: Você não acha que tem uma crise de produção de textos hoje, no Brasil?

Raul Cortez: Total.  Principalmente no teatro brasileiro, né?

Luís Fernando Emediato: Isso não te frustra muito?

Raul Cortez: Muito. Agora não estou frustrado, porque acredito muito nesse texto do Renato Borghi que acabei de ler. Acho emocionante escrever um texto que é uma homenagem ao próprio teatro, ao teatro brasileiro. E dentro de uma... Vamos dizer assim... Um trio convencional dentro de uma tragédia passional. Aquilo foi muito bem feito.

Luciano Ramos: Que texto é esse?

Raul Cortez: É muito bem feito! É a última peça dele, chamada Brilho oculto, título talvez provisório, não sei.

Augusto Nunes: Raul, nessa...

Raul Cortez: Mas, quando acontece isso, é extraordinário.

Augusto Nunes: Raul, nessa reportagem para a revista Veja - já mencionada aqui -, você diz que você voltou, em uma determinada ocasião, a fazer análise e que você estava com problema de identidade. Quer dizer, você estava se considerando um pouco confuso, até em função dos vários personagens que você já encarnou. Isso aconteceu de fato? Isso acontece agora? Até que ponto um personagem se confunde com você e te perturba?

Raul Cortez: O que havia não havia uma confusão de personagens. Havia uma confusão no sentido de que eu nunca tinha parado de trabalhar durante anos e anos. Então chegou um momento em que eu não sabia mais onde eu estava, quem eu era, o que eu queria, porque minha vida toda foi sempre trabalhar: sair de uma peça e entrar em outra, em outro projeto em televisão que seja, fosse no cinema... Então precisava dar uma parada. E, no que dei uma parada, eu estranhei. Mas essa ajuda que a gente tem que ter de um terapeuta acho que acontece sempre. Até hoje em dia tenho. Isso independe da sua cabeça. Você sempre é o produto do que está acontecendo. É o que estávamos falando, às vezes você tem uma frustração profissional e se acha incompetente, mas na verdade não é isso. É que, de repente, atualmente qualquer projeto que você tem é frustrado, porque já está castrado desde o início. Você não sabe o que vai acontecer daqui a três meses neste país... Não é um pouco é isso?

Célia Helena: Você gostaria de dirigir ou, então, de dar aulas?

Raul Cortez: Dirigir, sim.

Célia Helena: Dirigir...

Raul Cortez: De dirigir eu gostaria muito.

Luciano Ramos: E de dar aulas?

Raul Cortez: Dar aula, também, mas para dar aulas você precisa saber como ensinar e ainda não sei como ensinar.

Célia Helena: Você tem tanta coisa para dar...

Raul Cortez: Mas é uma coisa que eu quero. Uma coisa para deixar para mais longe.

Luciano Ramos: O que é que está sendo fundamental na formação do novo ator brasileiro? Porque você é um ator que se formou... Você entrou no TBC [Teatro Brasileiro de Comédia], saiu da faculdade de direito e começou a aprender com a própria prática. Como é que você vê a atual formação do jovem que vai ser, futuramente, um ator? O que está faltando? O que poderia acontecer de melhor?

Raul Cortez: Acho que é uma formação cultural muito grande e existe essa deficiência. Eu acho que também existe uma deficiência técnica muito grande. O ator não está equipado tecnicamente para poder exercer sua função em um palco. É totalmente diferente da televisão e do cinema... Essas coisas eu sinto que há uma deficiência muito grande. E também porque quando eu comecei a trabalhar... É muito difícil no início, você romper suas barreiras e dar aquilo que você acha que pode dar. Você tem uma espécie de muro na frente que você tem que quebrar. São as suas defesas que você tem que jogar fora para poder se soltar e chegar a uma emoção – vamos dizer, assim, entre aspas – “quase verdadeira” em relação ao seu trabalho.

Augusto Nunes: Raul, em função do tempo, Marco Antônio vai fazer a última pergunta do programa.

Marco Antônio Lacerda: Ok. Você tem ainda a pergunta do Emediato para responder [risos], mas eu quero perguntar uma outra coisinha que é o seguinte: Brega & chique tem sido um grande sucesso de audiência e você, como já disse antes, pegou o bonde andando. Como é que tem sido para você, contracenar com a Marília Pêra, que está fazendo um papel especialmente bom na novela?

Raul Cortez: Eu acho extraordinário! Toda vez que você contracena com uma grande atriz, você não pode imaginar o que isso te traz de bom. Inclusive, para melhorar você como ator. No caso da Marília é fantástico, porque a gente tem um subtexto muito grande. Eu sempre... Quando ela está contracenando comigo, sempre sinto a Marília rindo atrás, sabe? E a gente passa a rir do que está acontecendo. Mas é uma coisa que não passa, que a gente lê um no olho do outro. O momento da Marília é extraordinário, porque ela conseguiu aquilo que acho que todos nós atores procuramos, que é um relax e um domínio absoluto dessa arte de representar. A Marília atualmente tem.

Marco Antônio Lacerda: Essa sintonia acontece naturalmente ou vocês têm um trabalho de bastidor antes de fazer a cena?

Raul Cortez: Não existe nem tempo para isso! A coisa é feita quase imediatamente. Você tem um ensaio que é para o diretor te dar a marcação, outro ensaio de câmera e a própria gravação já.

Augusto Nunes: Então vamos à reclamada resposta da pergunta...

[risos]

Luís Fernando Emediato: E confesso que nem lembro mais que pergunta era! [risos] Qual foi a pergunta? Estou tão "grilado", que você está devendo uma resposta.

Augusto Nunes: Considere respondido.

Raul Cortez: Não, acho que não existe mais a necessidade de responder à sua pergunta.

Luís Fernando Emediato: Agora fiquei curioso para saber qual era!

[risos]

Raul Cortez: Nem cabe mais.

Augusto Nunes: Acho que foi respondido. Acho que nós pudemos, todos nós aqui e os telespectadores, conhecer um pouco mais desse grande ator brasileiro que é o Raul Cortez. Muito obrigado ao Raul. Muito obrigado aos nossos entrevistadores. E o programa Roda Viva volta na próxima segunda-feira às 21h25.

[Raul Cortez faleceu no dia 18 de julho de 2006, na cidade de São Paulo, em decorrência de câncer]

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