Memória Roda Viva

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Hortência

31/8/1987

A atleta relembra o início da sua carreira, fala sobre sua fama de "Rainha do Basquete", conta sobre o relacionamento com as demais jogadoras da seleção brasileira e critica os baixos investimentos nas categorias de base

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[Programa ao vivo permitindo a participação do telespectador]

Augusto Nunes: Boa noite! Começa aqui mais um programa Roda Viva da TV Cultura de São Paulo. Este programa é transmitido, simultaneamente, pela rádio Cultura AM de São Paulo e retransmitido pelas TVs educativas dos seguintes estados: Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Bahia e Piauí. Este programa é transmitido ao vivo pela TV Cultura e os nossos espectadores poderão encaminhar perguntas à nossa entrevistada de hoje pelo telefone 252-6525. Repetindo: 252-6525. Nossa entrevistada de hoje é Hortência de Fátima Marcari, a Hortência da Seleção Brasileira de Basquete e da Minercal [Empresa mineradora. Manteve por vários anos o Clube Atlético Minercal, cuja equiipe de basquete ficou conhecida internacionalmente], de Sorocaba. Hortência é uma mulher de mãos mágicas, que já vem encantando o Brasil com o seu excepcional talento para jogar basquete há muitos anos. Já há algum tempo, Hortência vem se tornando conhecida de torcedores de outras partes do mundo. E há pouco tempo, milhões de telespectadores - entre os quais alguns milhões de brasileiros, pela TV Cultura - puderam acompanhar o desempenho espetaculare de Hortência nos jogos Pan-Americanos disputados em Indianápolis. É para conhecer um pouco melhor a mulher Hortência de Fátima Marcari e a super atleta Hortência, que nós convidamos esta nossa entrevistada para que ela se sentasse ao centro desta roda viva, formada pelos seguintes entrevistadores: o jornalista Roberto Pereira de Souza do Jornal da Tarde; o jornalista Juca Kfouri, diretor da revista Placar; a jornalista Ester Lima, do jornal O Globo; a ex-jogadora de basquete Norminha, uma das grandes estrelas da história das seleções brasileiras; o jornalista José Góes, da TV Cultura; o ex-jogador de basquete Wlamir Marques, outra grande estrela das quadras - Wlamir foi conhecido durante muitos anos como Diabo Loiro, fazendo coisas muito parecidas com que Hortência faz atualmente; o jornalista Paulo Planet Buarque; o jornalista Marcelo Resende, da TV  Globo; e o jornalista Ouhydes Fonseca, coordenador de esportes da sucursal paulista do Jornal do Brasil. Temos, também, presentes alguns convidados da produção, entre o quais convidados da cidade de Sorocaba, onde a Hortência defende a equipe da Minercal. Hortência, você já é uma atleta e uma mulher famosa há muito tempo, mas, evidentemente, ocorreu nesses jogos Pan-Americanos uma virada na sua carreira e na tua vida. Você chegou aos Estados Unidos como uma jogadora já conhecida mas saiu de lá sendo considerada uma das maiores jogadoras de basquete de todos os tempos, uma das melhores do mundo e também como a “Rainha dos Jogos Pan-Americanos”. Você viveu uma infância de menina do interior, de uma cidade pequena como Potirendaba. O que passa na sua cabeça no momento em que você, lembrando dessa infância, você  talvez não imaginasse que ocorreria no futuro o que está ocorrendo agora. O que passa na cabeça quando você se vê alvo de reportagens do New York Times e sendo chamada por jornalistas de todo o mundo como a “Rainha dos Pan-Americanos”? O que mudou na sua vida em função disso?

Hortência: Boa noite. Na minha vida não mudou nada. Eu continuo sendo, ainda, aquela criança de Potirendaba. Continuo sendo igual a quando eu sai daqui. Quer dizer, para mim não mudou nada. A única coisa que mudou é que hoje eles me reconheceram realmente... [Reconheceram] A grandiosidade do meu basquete, que eles todos andam falando. Mas, realmente, eu trabalhei muito para isso, treinei bastante e todo atleta visa chegar a essa posição que eu cheguei. E até é uma responsabilidade a mais porque, de agora em diante, eu vou ter que treinar ainda mais do que eu havia treinado, porque eu não quero deixar que tudo isso se acabe rapidamente. Mas em relação à minha cabeça, continuo sendo igualzinha ao que eu era antes.

Augusto Nunes: Deve mudar, pelo menos - sem assustar os dirigentes aqui presentes - os termos do teu próximo contrato.

Hortência: Pode ser, aí pode ser! [risos]

Augusto Nunes: Hortência, você pretende jogar em outros países, jogar nos Estados Unidos, se aproveitando também desse sucesso internacional que você tem conseguido?

Hortência: Olha, eu tenho um contrato com a Minercal até fevereiro e vou cumprir esse contrato. Eu nunca tive a pretensão de sair do Brasil, eu gosto muito daqui, eu amo demais o Brasil. Então, realmente, eu nunca tive essa vontade de jogar só para dizer que eu joguei lá fora. Quer dizer, eu nunca tive essa vontade. Agora, se realmente tiver uma proposta melhor do que eu tenho aqui no Brasil, quem sabe, talvez eu possa pensar. Mas isso só depois de fevereiro.

Augusto Nunes: Marcelo Resende, da TV Globo.

Marcelo Resende: Hortência, me diz o seguinte... Potirendaba eu acho demais, né? A cidade deve ser demais, sempre você fala com carinho. Agora eu te pergunto o seguinte: você, além do basquete, como disse o Augusto, você é uma gracinha. Você recebe muita cantada, propostas de casamento, querem te namorar, ligam para a tua casa de madrugada?

Hortência: [risos] Ligam e desligam, né? Isso tem bastante. Mas eu era noiva, né? Então eles sabiam que eu tinha um noivo... De vez em quando só... Agora que sabem que eu estou sozinha então o pessoal já...

Marcelo Resende: Agora você está livre?

Hortência: Estou sozinha. Então agora eles... Mas com muito respeito.

Marcelo Resende: E você recebe muitas cartas, assim...

Hortência: [Interrompe] Recebo bastante!

Marcelo Resende: ... de propostas de casamento?

Hortência: Com proposta de casamento não, mas querendo me conhecer, querendo jantar comigo, isso eu recebo.

Marcelo Resende: E nunca aceitou nenhum?

Hortência: Não. Agora quem sabe, né? [risos]

Paulo Planet Buarque: Eu tenho impressão de que o telespectador está, hoje, mais próximo de você para um tipo de entrevista que seguramente você ainda não tinha dado, porque o grupo que está aqui vai pretender esmiuçar a sua vida. Provavelmente tem uma curiosidade que, pelo menos eu tenho... e o Wlamir poderia responder tanto quanto você, a Norma também. Você é um produto do dom ou do treinamento?

Hortência: A minha maneira de pensar é a seguinte: eu acho que Deus te dá o dom de você ser um jornalista e eu [para] ser uma jogadora de basquete, mas você tem que aprimorar esse dom. Não adianta nada ele te dar o dom e você, realmente, não aproveitar esse dom que ele te deu. Então, além desse dom, eu treino bastante para isso. É a mesma coisa que um diamante: você tem que lapidar para ele ficar bonito, senão não adianta. Então eu treino muito, eu adoro treinar, eu sou viciada em treinamento, adoro treinar! Eu acho que eu consegui isso que eu consegui hoje porque eu batalhei bastante para isso.

Paulo Planet Buarque: Esse tipo de... Perdão, Augusto... Apenas para completar a informação. O que você chama treinar muito? Porque - além de jogar bem esse esporte tão maravilhoso como é o bola ao cesto, o basquete - você tem uma facilidade um pouco fora do normal no que diz respeito à cesta. O que é? Porque a moça que está começando, o jovem que está começando, precisaria saber o que representa esse treinamento... Quantos arremessos por dia?

Augusto Nunes: Paulo, antes eu até pediria licença a você e à Hortência para, embarcando na sua pergunta, mostrar algumas jogadas que são resultados desse dom, desse treinamento ao qual nos referimos. Depois disso a Hortência podia responder a você.

Paulo Planet Buarque: Muito bom.

[Vïdeo com imagens de cestas que Hortência fez na Seleção Brasileira]

Augusto Nunes: Hortência, como é que você consegue isso, como pergunta o Paulo Planet Buarque?

Hortência: Bom, treinar muito é o seguinte: é você ter vontade de chegar na quadra e sair dali não agüentando mais. E depois desse treinamento - que você treina, por exemplo... eu treino em cada período duas horas, duas horas e meia - você ainda ter vontade de pegar uma bola e fazer mais quinhentos arremessos convertidos, então isso para mim...

Augusto Nunes: Quantos?

Hortência: Quinhentos arremessos convertidos, isso para mim é treinar bastante. Além dos arremessos que o treinador geralmente te dá, quando tiver todo mundo indo embora você pega - sempre tem um garotinho que pega a bola para mim – [e diz]: “Vamos lá, pega mais uns ‘quinhentinhos’ para mim?”. Pego a bola, vou lá e arremesso mais quinhentos.

José Góes: Você disse há pouco que Deus dá o dom e o atleta aprimora as qualidades. Eu pergunto a você o seguinte: quem é o seu Deus?

Hortência: Bom, eu sou católica, mas não sou aquela católica que vai muito à igreja. Quando eu posso, geralmente eu vou. Mas eu leio a Bíblia, eu sou uma pessoa religiosa, eu tenho o meu Deus... Eu acho que ele está sempre comigo. Eu penso bem das pessoas, eu não sou uma pessoa maldosa, não sou uma pessoa egoísta, então eu acho que isso é ter Deus com você. Não adianta nada você ir na igreja e rezar mil Pai Nosso, mil Ave Maria, mas você sair dali e já ter pensamentos ruins. Eu nunca tenho pensamento ruim, então eu acho que isso é ter Deus perto de você.

Juca Kfouri: Pode ser prefeita, né?! Depois dessa resposta prefeita já dá! Me conta uma coisa, Hortência... Os americanos disseram que a Paula [Magic Paula] era o bolo e você a cobertura. Como que você avalia essa análise?

Hortência: A Paula é uma jogadora excelente, então ela tem uma habilidade e uma visão incrível da quadra. Eu preciso muito da Paula para jogar, porque ela é armadora da minha equipe: ela lê os meus pensamentos e eu leio os pensamentos dela. Ela sempre arma as jogadas para eu finalizar. Então é por isso que eles falaram que ela é o bolo e eu sempre sou aquele recheio, [por] que sempre finalizo as jogadas.

Juca Kfouri: Você é “fominha”?

Hortência: Eu sou.

Juca Kfouri: É?

Hortência: Eu sou!

Juca Kfouri: Como é isso? Você é “fominha” porque você sente uma necessidade de resolver as coisas pelo time - na medida em que a maior parte do time não te acompanha - ou é um estilo mesmo?

Hortência: Eu acho que desde quando eu comecei, eu tive um pouco de responsabilidade de decidir. E mesmo porque eu confio muito em mim. Então se eu estou livre para ir para a cesta, eu vou. Eu acredito no meu arremesso, eu acredito em mim, então eu pego a bola e vou.

Juca Kfouri: Mas já houve alguma vez que você tenha se arrependido dessa volúpia? Quer dizer... Se há uma crítica que te fazem é de que, às vezes, a bola parece que esquenta na sua mão e você quer resolver o jogo, mas nem sempre é feliz...

Hortência: Eu nunca me arrependo daquilo que eu faço, eu posso me arrepender daquilo que eu deixei de fazer. A partir do momento que eu peguei e fiz, eu não vou me arrepender nunca.   

Ouhydes Fonseca: Tanto a Paula quanto você foram algumas das figuras mais destacadas nesse Pan na equipe de basquete. Mas a gente sabe que o basquete é um esporte coletivo, né? São cinco jogadoras. Como que é esse relacionamento, especialmente de vocês duas com as demais jogadoras, as colegas, na medida em que normalmente se dá o destaque - a imprensa toda dá o destaque - para vocês duas? Você sente algum tipo de ressentimento por parte delas por, geralmente, ficarem um pouco afastadas de toda essa luz?

Hortência: Eu acho o nosso relacionamento excelente, e mesmo porque uma equipe só começa a ganhar a partir do momento em que as jogadoras passam a ser conscientes daquilo que elas têm dentro da equipe. Então, o resto das jogadoras é consciente de que a equipe precisa muito dos meus arremessos, precisa muito da Paula e precisa muito do arremesso de três pontos dela. Então elas confiam na gente, elas próprias procuram nós duas na quadra. A nossa equipe passou a ganhar jogos a partir do momento em que houve essa conscientização de que eu preciso da Paula, que ela precisa de mim e que eu preciso das outras jogadoras, da Marta [Marta Sobral], da Vânia Teixeira, Vânia Hernandes. A partir do momento que a Maria Helena [técnica] colocou isso dentro da nossa cabeça foi que nós começamos a colher resultados.

Marcelo Resende: Agora, qual o seu relacionamento com a Paula fora da quadra?

Hortência: É normal. É um relacionamento gostoso como é com todas as outras jogadoras.

Augusto Nunes: Já foi mais difícil, Hortência? Porque, segundo reportagens mais antigas, houve um momento em que vocês não se entendiam tão bem - [há] uns três, quatro anos. Esse desentendimento era real?

Hortência: Não, isso houve mais por parte assim de promoção, porque [diziam]: “Não percam o duelo, vamos ver quem é a melhor”. Então [nós pensávamos]: “Vamos ver quem é a melhor? Então vamos ver quem é a melhor!”. Entendeu? Às vezes, a gente deixava transparecer isso aí até demais. Então parecia que nós duas... Nós éramos rivais, realmente.

Marcelo Resende: Quem é a melhor?

Hortência: Eu acho que sou eu! E ela acha que é ela! Quer dizer... Eu tenho que confiar em mim.

Juca Kfouri: Qual time é melhor, o seu ou o dela?

Hortência: O meu, apesar de o dela ser campeão. [risos] Porque eu tenho que confiar nas coisas que eu faço, na minha equipe. Como eu acho a Paula uma grande jogadora. Porque como eu sempre falo para ela: “Paula, eu tenho que fazer trinta pontos e você também tem que fazer trinta pontos. Não adianta você fazer cinquenta e eu fazer dez ou vice-versa. Tem que ser as duas”.

Juca Kfouri: Mas, Hortência, me conta com sinceridade. Você acha que ela está se mordendo de ciúmes nesse momento que é você que está no Roda Viva e não ela?

Hortência: Eu não acho. Eu não acho porque a Paula é uma pessoa muito competente e pessoas que são competentes jamais vão ter inveja de outra pessoa. Eu tenho certeza [de] que ela não tem inveja e nem está com ciúmes, porque ela é uma pessoa muito competente.

Wlamir Marques: Primeiro, parabéns!

Hortência: Obrigada!

Wlamir Marques: Puxa vida! Você levou o nosso basquetebol lá em cima! Você, Maria Helena, Heleninha [ex-jogadora da Seleção Brasileira de basquete e auxiliar técnica de Maria Helena], todas as meninas. Os rapazes também. Nós do basquetebol estamos todos orgulhosos com isso. Agora, quem vê a Hortência na quadra, jogando - agora há pouco passaram uns lances - a gente vê muita vibração dela, a gente vê muita alegria da Hortência jogando. Isso é muito natural na estrela ou no astro. É o prazer de estar ali na quadra representando o seu país e, além do mais, também justificando o seu nome, as contratações, tudo aquilo que envolve o nome da Hortência. Mas eu acho que a Hortência... Eu e a Norminha, porque nós vivemos dentro da quadra, nós temos muito a falar a respeito de alguns problemas que a gente passa ali dentro. Porque [para] quem olha, parece que tudo é festa, tudo está dando certo, tudo que é planejado deu certinho e nem sempre é assim. Aquela Hortência que você vê ali na quadra, ela tem instantes ali que a coisa fica meio difícil para ela. [Ela deve pensar]: “Será que dá? Será que não dá? Será que vou conseguir ou não?”. A minha pergunta está muito relacionada com aquilo que eu trabalho hoje: eu me preocupo mais com o lado humano, psicológico, do atleta do que propriamente [com] a parte técnica ou tática. Qual é o seu grande drama numa quadra, Hortência, e o seu maior prazer? Por exemplo, tem alguns jogadores que o drama maior dele é ser substituído, não gosta de sair... Substituir é um drama terrível. Errou uma bola, duas bolas, aquilo passa a ser um drama imenso. Errou um passe aquilo parece que caiu a casa, para citar um exemplo. Em compensação, tem gente que sente como um prazer [em] uma seqüência de cestas: três arremessos seguidos, aquilo dá um prazer enorme. É lógico que nós não poderíamos relacionar o prazer e o drama, [como] “Eu apenas sinto prazer quando ganho” ou “Meu drama é quando perco”. Porque nem sempre você ganha um jogo porque deu tudo certo, como nem sempre você perde porque deu tudo errado. Qual é o seu grande drama na quadra e o seu grande prazer?

Hortência: Eu não sou uma jogadora que me preocupo muito em ter dramas dentro da quadra, eu não... Acho que a única coisa assim que eu mais me preocupo dentro da quadra é [em] não fazer falta, principalmente quando você está numa decisão, ou numa Seleção Brasileira, ou no clube, na Minercal... De eu estar, assim, com três faltas, fazer a quarta e não poder sair. Talvez o meu maior drama, minha preocupação é [a de] não fazer faltas. E o maior prazer é aquele que quando termina o jogo você realmente venceu. E quando você começa, né?! Começa o jogo e você já mete a primeira bola, segunda bola, terceira bola... Aí embala!

Wlamir Marques: E a vaia? Tem certos jogos que você joga e você é vaiada, principalmente em Piracicaba [cidade-sede do time da Unimep, onde jogava Paula]. Todo mundo reconhece o seu potencial, não tenha dúvida, a vaia vai para aquele que tem valor. Dificilmente alguém vaia o ruim. E a vaia, o que ela interfere em você?

Hortência: Eu trabalho muito com a minha cabeça. Por exemplo, eu, quando entro numa quadra, eu não procuro levar a torcida, por exemplo. Ela estar a favor ou contra, não me interessa. O importante é que ela esteja gritando, que tenha bastante gente em volta de mim, torcendo. Ou contra ou a favor. Isso, para mim, não tem importância. Então eu procuro transferir as vaias como se fossem... Porque, como você mesmo falou, ninguém vaia uma pessoa que não tem valor...

Paulo Planet Buarque: Ninguém chuta cachorro morto!

Hortência: Exatamente! Então, se eles estão me vaiando é porque eu estou incomodando eles. Realmente eu trago aquilo para mim, como se fosse um aplauso. Então eu tenho este dom de transformar isso em coisa boa para mim.

Wlamir Marques: Positivamente.

Hortência: Realmente.

Paulo Planet Buarque: Mas a pergunta do Wlamir é muito importante dentro... Você se irrita quando bem marcada? Você se perturba quando a primeira cesta não dá certo, a segunda cesta não dá certo?

Hortência: Vou dizer um negócio para você: a coisa mais fácil de você me marcar é você me marcar normal. Se você me irritar... É pior para pessoa que está me marcando...

Marcelo Resende: O Pelé é assim também, no futebol.

Hortência: Eu sou assim. Você me dá uma pancada fora de jogada, você me irrita, é aí que eu jogo mais. Então eu gosto quando tem alguém que fica me irritando, porque aí eu me enfezo e é aí que ninguém me segura mesmo.

Paulo Planet Buarque: E quando a cesta não dá certo? A primeira, a segunda...

Hortência: Fico louca.

Paulo Planet Buarque: Você se perturba?

Hortência: Não!

Paulo Planet Buarque: Não?

Hortência: Não, de maneira alguma.

Juca Kfouri: Quantas vezes já aconteceu isso de a primeira, a segunda não darem certo?

Hortência: Ah, já aconteceu várias vezes. Mas aí eu me controlo, o técnico me substitui ou pede um tempo e me dá uma orientação. Porque eu... Hoje eu tenho uma concentração diferente de quando eu comecei. Eu procuro, na defesa... Eu procuro defender bem para eu poder ir bem para o ataque. Então, por exemplo, [se] eu erro uma bola, erro duas, eu vou tentar me recuperar na defesa, porque aí eu vou mais forte para o ataque. Eu procuro me segurar na defesa.

Augusto Nunes: Marcelo, [espera] só um segundinho que eu queria fazer uma pergunta, de um dos telespectadores - dos muitos que telefonam - e depois completar a roda com Roberto, com a Ester, e com a Norminha, aí falaremos todos. O Mauro Madureira, do Jardim Europa, diz que é seu fã, ex-jogador de basquete e hoje é psicanalista. Ele faz duas perguntas. Primeiro: “Como é o seu treinamento na parte física, técnica e tática?”. Ele quer mais detalhes porque observa aqui que 98% representam suor e 2% genialidade - observação que ele faz. E a segunda pergunta: “Hoje você é aplaudida. E o que vai acontecer quando você jogar mal..."  - acredito que será quando você estiver encerrando a sua carreira - "... e for vaiada? Como é que você reagirá?”

Hortência: Eu pretendo parar antes de ser vaiada. [risos] Quando eu perceber que comecei a cair, já vou parar para não haver esse tipo de problema, porque talvez eu não consiga segurar. Então, eu já vou parar antes. Agora, quanto ao treinamento, eu realmente acho que a parte física não é tanto como ele falou - 90%. Eu acho eu pode ser 60%, 40%. Eu acho que é muito importante um atleta ter uma condição física. E na Minercal nós temos um treinamento muito forte, muito intensivo na parte física das atletas, e depois nós completamos com parte tática e técnica.

Roberto Pereira de Souza: Você estava falando quando o pessoal te marca com certa violência, pessoal meio implacável -como a Teresa Edwards que marcou você lá em Indianápolis - você se irrita, vai para cima, chuta mesmo e tal. Dá impressão [de] que você é uma mulher assim, meio de ferro, uma fortaleza inabalável. Mas, lá em Indianápolis, a gente estava conversando e você me disse que tem vezes que você abre a boca mesmo, chega no vestiário [e] a casa cai porque o time não venceu. Eu queria que você falasse um pouco desse aspecto psicológico, do esforço máximo dentro da quadra e, depois, da frustração quando o placar não chegou.

Hortência: Realmente, quando eu perco o jogo eu sinto muito. Eu sou uma pessoa muito sentimental, eu batalho tanto para aquilo, eu treino tanto para aquele jogo, que eu não aceito derrota. Eu acho que um bom atleta tem que ser assim: ele não pode aceitar nunca a derrota. Ele tem que sempre querer mais, sempre querer mais. Agora existem derrotas, como a dos Estados Unidos - [a derrota] que nós tivemos na disputa da medalha de ouro – [que] eu não fiquei chateada porque, realmente, não fomos nós que perdemos o jogo, e sim elas que nos venceram. Então eu acho que nós fizemos até demais, como falaram: “Vocês ganharam a de prata, mas valeram ouro”. Quer dizer, realmente, é muito difícil vencê-las, vencer a equipe dos Estados Unidos. Elas são muito fortes, elas têm uma estrutura totalmente diferente da nossa. Eu acho que elas que ganharam o jogo e não nós que perdemos.

Roberto Pereira de Souza: Em cima disso, eu queria que você fizesse uma análise do que é a Seleção feminina hoje, com a Maria Helena, e o que foi a Seleção feminina com o técnico Barbosa?

Hortência: Eu acho que o Barbosa tem um grande mérito nessa equipe que está hoje porque, afinal de contas, ele viveu com essa equipe durante dez anos, então ele tem uma parcela dentro dessa equipe. A única diferença é que a Maria Helena já foi uma atleta, ela viveu durante 16 anos com a Seleção Brasileira. Como ela mesma fala às vezes para nós: “Eu sou ‘macaca velha’: quando vocês estão indo, eu já estou voltando”. Então, realmente, quando nós estamos indo ela já está voltando mesmo. Ela “saca” tudo na hora. Dentro da quadra, o Barbosa era perfeito, [mas] fora da quadra ele não sabia lidar um pouco com a gente, porque ele...

Roberto Pereira de Souza: Que tipo de problema que vocês tinham com o Barbosa, por exemplo?

Hortência: Não tínhamos muito problema.

Roberto Pereira de Souza: E fora da quadra?

Hortência: Às vezes, assim, um mal-entendido, às vezes um atleta estava... Porque se dentro da sua família – eu, na minha família nós somos em seis, que somos irmãos - tem briga, você imagina [como é] onde tem 12, [em] que uma não têm nada a ver com a outra? Isso é normal! E para você conhecer uma a outra tem que haver briga, tem que haver, assim... Isso que é importante. Então ela [Maria Helena] já resolve na hora, [diz]: “Olha, Hortência, tem tal coisa”, e já resolve na hora.

Roberto Pereira de Souza: Você me disse, lá em Indianápolis, o seguinte: que a Maria Helena tinha mexido em algumas feridas da Seleção e tinha feito bons curativos. Que feridas eram essas?

Hortência: Eu não lembro de ter falado isso para você.

Roberto Pereira de Souza: Mas você falou. Até mesmo no aspecto de que poderia haver pequenos ciúmes, coisinhas assim de relacionamento, de ajeitar algumas coisas.

Hortência: Veja bem, olha a diferença. Eu chego para você e falo assim: “Porque não estou satisfeita com isso, com aquilo”. Aí você fala: “Realmente a Maria Helena é fogo e não sei o quê”. Aí eu pego e falo para uma outra pessoa: “A Maria Helena ela fez...”. [A pessoa] fala: “Não, não é isso! Ela respondeu daquele jeito para você porque ela estava nervosa, mas ela gosta...”. Você vê a diferença? Antigamente tinha isso, hoje não tem mais. Às vezes, alguma menina levanta meio... Não está no dia, aqueles negócios todos, então [diz]: “Não agüento mais ficar aqui! Não  agüento de saudades não sei do quê”. [A Maria Helena] fala: “Que nada amanhã a gente vai embora, vamos pensar na medalha!”. Já muda o astral!

[sobreposição de vozes]

Ouhydes Fonseca: Dentro da questão, isso significa que, para uma seleção feminina de basquete, vocês têm que ter uma técnica mulher?

Hortência: Não. Eu acho que ela é assim não pelo sexo, mas sim pela competência que ela tem. Eu acho que ela não é boa porque ela é mulher. Mas, também, pode ser que pela sensibilidade que ela tem como mulher, e pela convivência que ela teve dentro do esporte, ela tenha essa sensibilidade de pegar logo o fio, bem no começo.

Norminha: Hortência, voltando a anos atrás, você se lembra [de] como você iniciou a sua carreira de basquetebol em São Caetano?

Hortência: Eu lembro. Eu lembro que eu cheguei numa escolinha e que, até, eu fiquei entusiasmada porque era a Marlene [Marlene José Bento] que dava a escolinha. Eu fiquei doida! [Pensava] “A Marlene da Seleção Brasileira!” [Marlene jogou pela Seleção Brasileira entre as décadas de 1950 e 1970]. Fiquei louca, queria jogar também. Comecei a jogar e aí já viram que eu tinha jeito para correr, pra pular...

Norminha: Vou te lembrar mais. Você lembra o problema que houve - porque é interessante para os telespectadores saberem o teu início da carreira do basquetebol -, a briga que a Marlene fez com o Carlos Ventura, que é treinador do João do Pulo [(1954-1999) João Carlos de Oliveira, mais conhecido por João do Pulo, foi bi-campeão pan-americano de salto triplo e recordista sul-americano de salto triplo. Em 1980, sofreu acidente automobilístico que fez com que sua carreira acabasse precocemente], porque ele queria você para o atletismo. A Marlene falou:  “Não, eu quero a Hortência para o basquete!”. Foi uma briga porque ele viu o potencial da Hortência. A Hortência, na realidade, teve um início no basquetebol com a Marlene José Bento, que eu gostaria de lembrar, porque ninguém se lembra. Acho que cada parcela é uma parcela. Então, com o passar dos anos, cada um diz: “Eu fiz essa jogadora! Fiz aquela jogadora!”, mas se esquecem da contribuição. E a Hortência nunca, em nenhuma reportagem - de frente estou te falando - nunca você se lembrou de dizer do teu início em São Caetano. Porque, na realidade, aconteceu. Como aconteceu, também, uma fase de Centro Olímpico [de Treinamento e Pesquisa, órgão subordinado à Secretaria Municipal de Esportes da Prefeitura de São Paulo], que foi muito importante. O que você teve dentro do Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa?

Hortência: Realmente, foi muito importante. Até, você era a minha técnica lá no Centro Olímpico. Foi muito importante. Toda a fase da minha carreira foi importante, tanto o início - na minha escola, com a minha professora Mitsuko, que foi a minha primeira professora que me deu [pela] primeira vez a bola de basquete - até a minha chegada em São Caetano com a Marlene, a minha ida ao Centro Olímpico que foi com você, Waldir Pagan [Waldir Pagan Peres, ex-atleta da Seleção Brasileira de basquete. Jogou durante os anos 1970]... Tudo isso teve grandes... Vocês foram muito importantes na minha carreira. Então quando eles me perguntam, eu falo, mas é tão rápido que não dá tempo de contar tudo com detalhes. Mas eu, aqui dentro [coloca a mão no peito], eu jamais vou esquecer.

Norminha: Não é por isso, é porque eu conheci uma Hortência criança...

Hortência: Mas eu ainda sou. [risos]

Norminha: Quando te interessa, tem esse detalhe! [risos] Teve uma Hortência imatura, uma Hortência adolescente... Quais são as críticas que você faz para esse tempo, Hortência?

Hortência: Eu não faço críticas. Eu acho que cada um tem a sua época, né? Eu acho que tem que ser criança, moleque, adolescente... Até você chegar a ser uma mulher. Sinceramente, eu nunca penso no que já passou, no que eu fui... Eu sempre penso no meu presente, no que eu estou fazendo agora e no que eu tenho que fazer depois. Então, o meu passado está sempre gravado aqui, sempre guardo as coisas boas. E as coisas ruins, eu procuro sempre deixar um pouquinho de lado.

Augusto Nunes: Hortência, antes de passar para a Ester e completar a roda - e a partir daí a conversa fica solta - desculpa eu ter interrompido o Marcelo. Eu faço com o maior prazer, aqui, mais um esclarecimento que me é cobrado justamente por um telespectador chamado José Ernesto, de Santos. [Ele] diz assim: “Wlamir Marques não é apenas um ex-jogador de basquete e sim ex-bicampeão mundial de basquete”. Digo isso com maior prazer! Sou fã, há muito tempo, do Wlamir. Wlamir, como a Norminha, ambos são glórias do esporte brasileiro. As apresentações são um tanto sucintas e a gente deixa de dizer aqui coisas muito importantes a respeito das pessoas. Fica feito esse adendo que eu faço, realmente, com maior prazer. Ester.

Ester Lima: Hortência, você vem sendo apontada, há alguns anos, como a melhor jogadora do mundo. Você se considera a melhor do mundo?

Hortência: Não, eu acho que, às vezes, o pessoal exagera um pouco. Eu acho. Eu não... Eu me considero no bloco de algumas jogadoras no mundo, mas não a melhor. Eu acho que não dá para você apontar a melhor, sabe? Porque existem fases. Às vezes eu não estou bem, às vezes tem outra que está bem melhor, então eu não me considero a melhor jogadora do mundo, não.

Ester Lima: No Pan-Americano, agora, você acha que a sua atuação ficou dentro desse bolo... Entre as melhores?

Hortência: Eu vou ser sincera para você: eu acho que não foi umas das melhores atuações que eu já fiz, sabe? Mas é que os americanos, desde a Olimpíada de Los Angeles, estavam me esperando. Até, eles vieram aqui no Brasil, fizeram uma reportagem comigo na esperança [de] que eu, realmente, fosse para as Olimpíadas. Mas o Brasil, infelizmente, não se classificou. Então eles leram sobre a minha vida e, de repente, não me viram jogar nas Olimpíadas. E, de repente, no Pan-Americano... Foi nos Estados Unidos, então eu estava ali. Eles queriam ver se eu realmente era tudo aquilo que eles haviam passado pelo jornal. De repente eu fiquei até com medo. Falei: “Gente, de repente, e se eu não jogo bem? O pessoal vai ficar todo decepcionado”. Então, sinceramente, eu não gosto desse tipo de coisa.

Ester Lima: Você acha que essa preocupação te atrapalhou um pouco?

Hortência: Não, não me atrapalhou. Porque eu fiquei totalmente isolada. Veja bem, saiu entrevista minha no New York Times e eu não li. Até hoje eu não li essa reportagem.

Juca Kfouri: Você sabe inglês, Hortência?

Hortência: Mais ou menos, muito menos do que mais.

Juca Kfouri: Porque eu acho que é importante deixar claro para o telespectador que a maior revista de esportes dos Estados Unidos, a Sports Illustrated, às vésperas da Olimpíada, já chamava a Hortência de rainha. Quer dizer, eu imagino que isso... Ao ir para lá, essa coisa devia povoar um pouco o seu sonho: “Como é que vai ser na terra do basquete?”.

Hortência: Não, eu não fui com a preocupação de ser a rainha, mas eu fiquei preocupada porque quando eu cheguei lá eu levei um susto. Falei: “Nossa, gente!”. De repente, todo mundo queria saber como é que eu era, como eu não era, e eu fiquei preocupada. Falei: “Eu não quero decepcionar esse pessoal, mas também não quero entrar na quadra com a preocupação de ser a melhor. Porque eu quero ajudar a minha equipe, eu não quero aparecer”.

Paulo Planet Buarque: Por falar em sua equipe, você declarou uma coisa aí que... Realmente, bastante importante. Você disse que vocês não perderam, foi a equipe dos Estados Unidos que ganhou. Eu gostaria de saber por quê.

Hortência: Porque eu acho que, hoje, a nossa equipe não tinha condições de ganhar deles.

Paulo Planet Buarque: Por quê? 

Hortência: Porque nós temos muito [o] que treinar ainda. Nós temos muito [o] que fazer ainda em termos de defesa, em termos de ataque... A Maria Helena mesmo, no final - porque nós trabalhamos com Deus do nosso lado sempre, rezamos, sempre pensamos nele, sempre, tanto eu, como Maria Helena, como toda a equipe - ela disse: “Gente, Deus não deu agora, mas ele vai dar ainda. Nós temos que trabalhar, batalhar para isso”. Então, eu acho que nós subimos ao pódio, que foi o que nós queríamos, que era o nosso maior desejo - disputar a final -, nós disputamos. Agora é continuar batalhando para classificação nas Olimpíadas.

Paulo Planet Buarque: Essa superioridade americana, ela se expressa de que forma? Isso é muito importante. Veja bem, é porque a equipe americana é constituída por maior equilíbrio de qualidade individual ou é porque a equipe americana possui jogadoras de maior altura, várias delas... Por quê?

Hortência: A altura é uma coisa que influencia muito e elas têm a jogadora Anne Donovan que tem dois metros e cinco, que, realmente, é muito boa. Mas eu acho que elas têm muitas opções. Veja bem: para elas convocarem 12 jogadoras, elas têm mil, mil e quinhentas - jogadoras de nível! - para integrar a Seleção Americana. Já não é o nosso caso. Nós, para tirar 12, você aponta vinte e olhe lá.

Paulo Planet Buarque: Por quê?

Hortência: Porque não tem muita jogadora no Brasil. Se tiver quinhentas, seiscentas pessoas hoje praticando basquete de alto nível, é muito. Então, quer dizer, fica difícil. É mais difícil para a Maria Helena trabalhar em cima desses números. Mais difícil do que para eles.

Marcelo Resende: Já que é a rainha, a rainha será tratada como tal. [risos] Me diga o seguinte: qual é o sonho da mulher Hortência? Como que você vive, o que você gosta de fazer? E qual o seu sonho como mulher, agora, adulta?

Hortência: O meu sonho realmente é o basquete. Para mim tudo [enfatiza] é o basquete. Agora, fora isso, eu vivo uma vida normal, como qualquer outra mulher.

Marcelo Resende: O que você gosta de fazer?

Hortência: Eu gosto de fazer tudo. Eu gosto de ficar em casa, eu gosto de sair, fazer compras, ir ao cinema, ir numa boate, namorar...

Ester Lima: Você tem tempo de fazer isso?

Hortência: Tenho.

Roberto Pereira de Souza: Você gosta de guiar a 150 km/h ou não?

Hortência: Também.

Marcelo Resende: Você lê, você tem hábitos de leitura?

Hortência: Leio!

Marcelo Resende: Que hábitos de leitura você tem?

Hortência: Eu gosto de livro best seller... Eu gosto de qualquer [tipo de] livro, independente se é romance ou...

Marcelo Resende: Você leu em Indianápolis algum, assim, que tivesse batendo contigo?

Hortência: Lá em Indianápolis? Lá eu li um livro que chama Um caprichos dos deuses [de Sidney Sheldon]. Levei daqui do Brasil. Mas eu leio livros que me recomendam.

Augusto Nunes: Hortência, vários telespectadores fizeram essa mesma pergunta, um deles foi o senhor Emilio Carlos, da Moóca: “Você acha que o esporte masculiniza a mulher?” Eu completaria: Você... a tua aparência é crescentemente mais feminina de uns tempos para cá. Você usava um rabo de cavalo... Você mesma declarou numa entrevista que você aparecia sempre de calção, com camisa, rabo de cavalo e [que] você foi desenvolvendo, digamos assim, esse lado evidentemente feminino que você tem. Você tinha essa preocupação? Essa pergunta freqüentava a sua cabeça, essa imagem [de que] o basquete masculiniza?

Hortência: Eu sempre tive essa preocupação, porque tinha aquela [coisa] “Jogadora de basquete é sapatão”, aquelas coisas todas... Quer dizer, eu sempre tive, porque não é verdade. Eu não me acho masculina, pelo contrário. Agora, na quadra estou pouco me importando se eles estão achando que sou homem ou mulher. Na quadra é diferente. Ali você está defendendo um país, está defendendo uma cidade, defendendo um time, ali não me importa. Saindo daquilo eu não vejo... Eu me acho muito feminina. O único problema é que a imagem que nós temos é dentro da quadra... então é a Hortência de rabinho, suada, com o semblante bem... sabe? Agora, fora é diferente. Eles não estão acostumados a nos ver - jogadoras de basquete feminino - fora da quadra, num baile, numa boate, num restaurante... Quer dizer, o público em geral, né? Porque algum sempre encontra a gente no meio da rua. Então, às vezes... Em programas de televisão, você só aparece depois que você começa a ter uma certa evidência, então aí você começa a mostrar aquele outro lado que você tem [e] que eles nunca...

Roberto Pereira de Souza: Você pensa em ter um filho?

Hortência: Ô! É minha maior loucura.

Ester Lima: Você acha que dá para conciliar essa vida de mãe de família com vida de jogadora de basquete?

Hortência: Dá, a Isabel [jogadora da Seleção Brasileira de vôlei, musa do esporte nos anos 1980. Casou-se com o ex-tenista Koch Tavares]] não concilia?

Ester Lima: Mais ou menos.

Hortência: Por isso que eu não tive até hoje.

Augusto Nunes: Porque existe essa imagem? A incidência de homossexualismo no esporte feminino é maior do que nos outros setores?

Hortência: Mas está mudando. Acho que está mudando essa imagem. Eu acho que a mulher está acompanhando a evolução, né?... Os tempos estão mudando, então a cabeça - tanto do homem como da mulher - também está mudando com relação ao esporte. Veja bem, antes não tinham muitas mulheres que praticavam esportes e hoje elas já estão [praticando].

Juca Kfouri: Eu li no Globo, Hortência, uma entrevista sua em que você diz que você aceita melhor o homossexualismo feminino do que o masculino. Por quê?

Hortência: Não, eu nunca disse isso.

Marcelo Resende: Você já levou alguma cantada? Já?

Hortência: [risos] Já. Mas tirei de letra!

Marcelo Resende: É mesmo! Já levou? Como foi?

Hortência: Eu recebo tão poucas, porque elas sabem que eu não sou, então elas não...

Wlamir Marques: Olha, Marcelo, eu queria fazer um testemunho aqui. Veja bem, Hortência, eu acompanho basquetebol feminino há muitos anos, eu fui técnico de basquetebol feminino... O que eu acho é o seguinte: eu acho que o uniforme que se usa hoje do basquetebol feminino, eu acho que ele é terrivelmente masculino. Eu acho que ele é muito feio para as mulheres. Por exemplo, as meninas do voleibol... Vendo voleibol, ninguém diz que no voleibol a menina ali é masculina. Por quê? Ali está aparecendo muitas coisas. No basquetebol feminino esconde-se tudo e, outra coisa: [usa-se] um calção muito comprido, uniforme também. O uniforme... Eu tenho impressão [de] que a jogadora do basquetebol, na hora que ela está jogando, ela não é atração além de jogadora. Eu acho que o uniforme é feio.

Ester Lima: Parece que vai mudar.

Wlamir Marques: Eu acho que o uniforme dá esse tipo de aspecto...

Norminha: Esse uniforme com o shorts, com as meias até o joelho, foi depois que entrou o Barbosa, que vocês, inclusive, escolheram. Me parece que as meninas que escolheram o uniforme, porque não se via nada. Era meia de futebol, shorts até o meio da coxa, tá certo? Porque a jogadora de basquetebol já é mais “atarrancadinha”... Quer dizer, na minha época se jogava de sunga. Agora, voltando ao tema que você falou... Todo mundo se preocupa com a opção sexual do ser humano e não por aquilo que ele é, não por aquilo que ele faz, não pela sua intelectualidade, pela sua profissão, pela sua capacidade. Então pergunto à Hortência - porque ela sempre é questionada como qualquer jogadora de basquetebol, de voleibol, de futebol, isso já vem desde milênios - a única pergunta básica, fundamental é se é homossexual ou não é. Pergunto à vocês: o que importa isso na individualidade do ser, Hortência?

Hortência: Não importa nada, tanto é que esse tipo de assunto não existe na Seleção Brasileira. Porque eu acho que cada um tem a sua vida particular e nós temos que respeitar a maneira delas [jogadoras] quererem viver. Esse é um problema particular delas. Então por isso [é] que não está tendo problema na Seleção Brasileira. O que você faz dali para fora é um problema seu. Desde que não atrapalhe o seu relacionamento dentro da equipe, não trazendo problemas dentro da equipe...

Juca Kfouri: [interrompe] Eu tinha te perguntado e você não completou a resposta. Porque você declarou que te importunava mais o homossexualismo do masculino do que o feminino?

Hortência: Eu não lembro, eu não sei se eu falei isso. Se eu falei eu realmente me enganei, porque eu acho que - tanto o homem como a mulher - cada um vive a sua vida. Eu acho que o homem, se ele quer sair com homem, é um problema particular dele; e a mulher também. Eu acho que nenhum dos dois fere mais do que o outro. Eu acho que os dois são iguais. Eu acho que isso é uma opção de vida que cada um escolhe. Cada um escolhe aquilo que ele quer.

Marcelo Resende: Hortência, me diga uma coisa: no futebol, tem sempre aquela história de que o jogador não pode ter relação sexual 48 horas antes do jogo porque atrapalha... Enfim, tem toda uma história ao redor disso. No basquete feminino há também essas coisas, essas limitações? Ou vocês têm liberdade de exercer, como vocês bem entendem, as suas vidas? E você acredita que atrapalha?

Hortência: Nós não temos [limitações]. Eu não acredito que atrapalha. Eu acho que cada ser humano é de uma maneira diferente. Para uns pode atrapalhar, para outros pode ser até melhor, se sente mais... Quer dizer, isso depende de cada um. Nós não temos esse problema, porque nós nos concentramos... Cada uma vive na sua casa e só sai duas horas antes do jogo para ir para a quadra.

Augusto Nunes: Hortência, eu queria chamar agora a pergunta da jornalista Marina Moraes, que fez a cobertura dos X Jogos Pan-Americanos, em Indianápolis, para a TV Cultura, e que vai entrar por um desses monitores.

Marina Moraes: Hortência, durante um papo em Indianápolis você me disse que estava fazendo aulas de jazz e ginástica rítmica - entre outras coisas - para suavizar os gestos, porque o basquete é um esporte de movimentos muito duros. Eu queria saber se você tem a preocupação, ou já teve, com esse estereótipo [de] que o basquete carrega de ser um esporte masculino ou - usando uma expressão mais popular - de ser um esporte de mulher-macho.

Hortência: Eu já respondi metade, né? Eu faço ginástica rítmica porque eu gosto! Eu gosto de dançar, eu gosto de música... E acho que ela trabalha algumas partes do corpo da mulher que o basquetebol não dá muita importância. Então eu gosto de fazer esse tipo de... E é uma coisa diferente... Sem ser bola, sem ser aquele negócio mais...

Juca Kfouri: Você estava no Morumbi ontem. Você saiu de lá feliz, de cabeça inchada ou é palmeirense? [refere-se à final do Campeonato Paulista de 1987, ocorrida no dia anterior. O Corinthians empatou com o São Paulo em 0 a 0, após ter sido derrotado no primeiro jogo (1-2). O São Paulo foi declarado campeão]

[risos]

Hortência: Cabeça inchada.

Juca Kfouri: Cabeça inchada?

Hortência: Eu nunca fui assistir uma final. Aquele dia eu fiquei impressionada!

Augusto Nunes: Você é corinthiana, Hortência?

Hortência: Sou!

Ouhydes Fonseca: Esse novo visual, mais feminino... A Maria Helena tem alguma coisa a ver com isso? Porque não é só você que tem aparecido fora das quadras mais elegante, mais bonita, mais feminina. Todas as outras jogadoras... A gente tem comparecido a algumas coletivas e elas sempre se apresentam assim. Faz parte do esquema da técnica ou é alguma coisa que aconteceu por acaso?

Hortência: Não faz parte do esquema. Como nós falamos, nós não nos preocupamos com o fora da quadra. Cada um faz aquilo que quer. Mas existe um detalhe muito importante: a Maria Helena pega no pé das jogadoras. [Ela diz] “Tem que emagrecer, você está muito gorda! Tem que emagrecer, você está muito gorda!”. Então, de repente - a Paula, não sei se vocês lembram, no mundial de 1983 ela era muito mais gorda do que ela é hoje - elas começaram a emagrecer e começaram a descobrir que são bonitas, que têm um corpo bonito. Então, de repente, resolveram mostrar isso, sabe? Resolveram mostrar que elas também são mulheres, que elas são bonitas e, hoje, se você vê a jogadoras fora da quadra, são altamente produzidas. Como a nossa técnica, que sempre vai impecável. É uma delícia você estar lá fora e você ouvir o outro técnico falar: “Nossa, como ela é bonita!”. Então você fala: “Ela é minha técnica!”. [risos]

Juca Kfouri: Aquela garota argentina que jogou aqui, aquela era um exagero! Era só bonita e não era jogadora de basquete? Ou eu estou enganado? Era uma boa jogadora de basquete também?

Hortência: Era só bonita.

José Góes: Aliás, vocês têm que seguir realmente a Maria Helena! Porque nós mostramos, aqui na Cultura, todos os jogos de Indianápolis. E a cada jogo ela se apresentava de maneira diferente, sempre elegante, simpática...

Hortência: Não só ela como a Heleninha, também.

José Góes: Exatamente! Mas ela apareceu mais. Aquela pergunta que foi feita há pouco a você sobre filho, casamento e marido... A seleção de vôlei, voleibol feminino, sentiu muito a ausência de jogadoras excepcionais nesses últimos dois anos. [Por] Problemas de casamento, marido, cuidar de filho e tal. Então, dentro da sua filosofia de jogar basquete, de viver o basquete... Você, pelo menos tão cedo, não vai se casar, não vai ter filho?

Augusto Nunes: Eu queria incorporar a essa pergunta essa preocupação de muita gente que está telefonando para saber o que houve com o seu noivado. Vários espectadores perguntam se, primeiro, o fato do Maurício [Maurício Jaú, da Seleção Brasileira de vôlei] - teu ex-noivo - não ter sido convocado e não ter ido para Indianápolis atrapalhou alguma coisa? E muita gente quer saber se é muito difícil você, com a dedicação plena ao basquete, manter algum tipo de relação sentimental mais duradoura.

Juca Kfouri: Mas deve ter muita telespectadora perguntando também!

Augusto Nunes: Tem todo tipo de pergunta!

[risos]

Hortência: Respondendo à sua pergunta, eu acho que você tem uma carreira muito curta. É uma profissão que acaba logo, são 15, vinte anos no máximo. Eu quero aproveitar muito isso. Então eu acho que ter um filho agora vai me atrapalhar, eu posso deixar isso para depois. E casamento... Não tem idade para você casar. Até é bom você casar um pouco mais velha, porque aí você já tem consciência daquilo que você quer. E para ter filhos também... Até os 35, 37 anos eu posso ter filho tranqüilamente, porque eu sou uma pessoa saudável. Então eu vou começar a me preocupar com essa minha vida de mãe, que eu sonho muito em ter, depois que eu parar de jogar basquete. Agora eu queria responder à sua pergunta em relação ao meu noivado, o meu relacionamento com o Maurício não era muito difícil, porque ele sabia entender. Porque ele é um atleta e eu também, sendo uma jogadora de basquete, compreendia muito essa nossa distância. Agora, quanto a ele não ter sido convocado, isso não teve nada a ver. Foi um relacionamento de quatro anos e que poderia ter dado certo ou poderia não dar certo, que foi o que aconteceu. Não deu certo, resolvemos ficar amigos.

Roberto Pereira de Souza: Você estava falando que você percebe uma evolução na forma de ver da mulher, a mulher evoluiu muito. Você também evoluiu bastante, pelo que você está dizendo. Eu queria saber se, nesse time feminino, vocês discutem outras coisas que não seja exatamente tática de jogo. Se vocês falam de política, se vocês discutem a Constituinte, se vocês discutem votos, políticos, a situação do país em si. Como que é o Brasil para você?

Hortência: Nós discutimos isso, nós nos preocupamos com isso. Apesar de eu me preocupar mais com o basquete, que é a minha área. Eu não entendo muito de política para chegar para você e comentar sobre política. Eu procuro ler, procuro estar por dentro do que está acontecendo. Eu sei que o Brasil passa por um momento muito difícil. Economicamente o Brasil está numa fase muito difícil e a gente lê jornal e sabe que coisas muito críticas estão acontecendo. Eu acho que a gente tem que dar um voto de confiança para o nosso presidente e deixar ele trabalhar um pouco, para ver se ele consegue tirar o Brasil dessa situação econômica que ele vive hoje. [A década de 1980 ficou conhecida como “década perdida” devido aos problemas econômicos que o Brasil enfrentou. Em 1987, o presidente era José Sarney, eleito para o cargo de vice por colégio eleitoral, tendo assumido o cargo após o falecimento de Tancredo Neves. O período era de hiperinflação]

Roberto Pereira de Souza: Você gostaria de eleger um presidente?

Hortência: Todo brasileiro gostaria de eleger seu presidente.

Augusto Nunes: Você tem algum partido, Hortência? Algum partido da tua preferência?

Hortência: Não. Eu não tenho partido, eu tenho candidatos. Porque hoje está uma mistura que você não sabe mais... Antes um era do PMDB, passou para o PDS; do PDS passou para o PFL... Quer dizer, hoje você não sabe mais o que o cara é.

Marcelo Resende: Você votaria no Sarney?

Hortência: Não sei, preciso ver. Porque ele não terminou o mandato dele ainda, vamos ver até o fiinal do mandato dele, fazer uma análise de como ele foi.

Juca Kfouri: [Orestes] Quércia, [Eduardo] Suplicy, Ermírio [Antônio Ermírio de Moraes] ou [Paulo] Maluf para governador? Em quem você votou?

Hortência: Eu acho que o voto é secreto!

Juca Kfouri: Olha! Olha que você está revelando que votou no Maluf! [risos]

Hortência: Não! Não tem nada a ver!

Paulo Planet Buarque: Já que você quer manter o sigilo do voto pelo menos há uma curiosidade: o que você pensa dos homens?

Hortência: O que eu penso dos homens? Eu penso tanta coisa. [risos]

Paulo Planet Buarque: Então diga! Diga o que você pensa do homem, faça um retrato bem falado dos homens, segundo a sua opinião.

Hortência: Eu acho que a mulher procura se espelhar muito no homem, porque antes ela sempre vivia do lado do homem e, de repente, com a evolução do tempo, novas épocas, ela resolveu sair um pouco de perto do homem e batalhar sozinha. Eu acho que o homem teve uma grande contribuição para isso. Eu acho o homem uma pessoa muito interessante. A única coisa que eu acho que o homem tem mais que a mulher é a força, porque o homem realmente é muito mais forte do que a mulher.

Norminha: Em que nível?

Hortência: Demais.

José Góes: Você não é feminista?

Hortência: Eu não, prefiiro dizer para você que eu sou feminina.

Norminha: A força é muito relativa... Em que nível?

Hortência: O quê?

Norminha: O homem. Você colocou que homem é mais forte. Em que nível?

Hortência: De força, de massa muscular.

Paulo Planet Buarque: Força física, só! A Norma já reclamou lá. Ela quase pulou aí!

[risos]

Hortência: Acho que, em termos de inteligência, acho que a mulher é o mesmo nível que o homem. Não tem o porquê, são o mesmo cérebro. Quer dizer, eu acho que a única coisa que o homem... É que ele é o chefe da família.

Juca Kfouri: Você acha, de fato, que mulher é tão inteligente, Hortência? Mulher gosta de homem!

[risos]

Hortência: Eu acho isso super inteligente, o senhor tá me chamando de burra?!

Juca Kfouri: Não.

Hortência: Eu gosto de homem porque eu sou inteligente!

Wlamir Marques: Hortência, o Paulo Planet, ele pode dizer isso aí bastante, de cátedra, porque ele conheceu... Acho que ele comentou. Existiu um grande jogador de futebol - acho que ele está vivo ainda -, ele é argentino e jogou no Real Madrid, na Espanha. Chamava-se Alfredo di Stéfano [Atacante, nascido em 1926] - eu não sei se ele está vivo [Estava vivo quando da gravação do programa]. Eu me lembro muito bem disso porque... Isso está na minha cabeça gravado, o que aconteceu com ele quando ele parou de jogar. Ele quando parou de jogar, mandou construir de frente aàcasa dele um pedestal. Ele colocou uma bola de futebol em cima, bem grande e ele escreveu assim embaixo: “A ti lo devo todo”. Quer dizer,  à bola ele deve tudo o que ele conseguiu na vida dele. Você, quando parar de jogar, Hortência, você vai fazer esse pedestal? Ou você vai mandar fazerem depois que você morrer? Ou seja, quando você parar de jogar, você continuará dentro do basquetebol ou vai fazer como o Alfredo di Stéfano, que no instante [em] que parou de jogar ele pôs a bola. “A ti eu devo tudo” porque dali... Ele vivia da renda do que ele ganhou com o futebol.

Marcelo Resende: Ele continuou depois, virou técnico, tem toda uma história.

Wlamir Marques: Mas como técnico não foi muito longe. Então a minha pergunta é a seguinte: você deve mesmo tudo à bola ou você pretende, depois, continuar ainda dentro da bola? E muito mais tarde, você fazer esse pedestal?

Hortência: Eu devo, eu devo tudo ao basquete, mas eu pretendo continuar. Eu não sei se vou conseguir ficar longe do basquete, porque eu vivo tão intensamente isso que não sei se vou conseguir largar totalmente. Então, eu quero ser uma técnica. Vou ver se eu vou dar para isso, se não der eu vou fazer jogadora, porque eu posso não ser boa técnica, mas boa treinadora eu sei que eu sou. Eu sei ensinar, eu sei ensinar criança, isso eu vou fazer. Mesmo que eu não precise disso, mesmo que eu tenha dinheiro para viver uma vida...

Marcelo Resende: E vive-se com o dinheiro do basquete feminino? Hoje, se você parar, você vai ter dependência financeira para continuar vivendo?

Hortência: Eu tenho.

Marcelo Resende: Quanto que você ganha no basquete?

Hortência: Eu não costumo dizer quanto eu ganho.

Augusto Nunes: Nós precisamos fazer um ligeiro intervalo, depois vamos retomar esse assunto que tem despertado muita curiosidade de quem está nos vendo aqui. O programa Roda Viva volta já, já.

[intervalo]

Augusto Nunes: Eu queria, antes de mais nada, agradecer esta camisa aqui - número 4 - que a Hortência está oferecendo ao programa Roda Viva, que é a camisa da Minercal, de Sorocaba - que vocês certamente conhecem, ou quase todos vocês. Nós vamos voltar a esse assunto que desperta muita curiosidade entre os espectadores. Eles querem saber quanto... Tem uma pergunta aqui que é típica: Sergio Aloy, de Santo Amaro, São Paulo, ele vai perguntando por etapas. Ele começa assim: “O basquete traz bons lucros?”. Depois ele pergunta: “Ganha-se muito no basquete? Para ser mais preciso, quanto é que você ganha por mês?”. [risos] E o Amarildo, que está aqui presente, faz uma pergunta de certa forma ligada a isso. Ele gostaria de saber da Hortência qual a premiação que as jogadoras receberam da Confederação de Basquete pela medalha de prata dos jogos Pan-Americanos; e qual o prêmio que a Minercal, especificamente, ofereceu pelo fato de a Hortência ter sido considerada a rainha do basquete na terra dos gringos. Eu tenho aqui um recorte de jornal onde diz que você teria dito aos jornalistas americanos que você estava ganhando cinco mil dólares, calculados no paralelo. Agora o Juca pode ajudar [risos].

Juca Kfouri: Se a gente disser que é alguma coisa em torno de quatro e cinco mil dólares, não estará mentindo, [estará]? Por mês?

Augusto Nunes: Então, sobre o salário e os prêmios.

Hortência: Realmente, eu nunca disse a ninguém quanto que eu ganho porque eu acho que isso aí só interessa...

Juca Kfouri: [interrrompe] A todos os telespectadores!!

[risos]

Hortência: Eu realmente nunca revelei, ninguém sabe. Esses cinco mil dólares que o cara deve ter chutado, eu nunca falei para ninguém. Mesmo porque eu acho que isso não é importante, não é interessante. Agora, como o próprio Oscar [Schmidt, jogador de basquete. Viveu o ápice de sua carreira ao mesmo tempo que Hortência] disse, não tem preço que pague a medalha de ouro deles [a Seleção Brasileira de basquete, em que Oscar jogou, levou o ouro nos Jogos Panamericanos de 1987] e nem a nossa medalha de prata. Não ganhei nada por ter sido a rainha, por ter ganhado a medalha de prata. Isso para mim não é importante, o importante é que eu ganhei a medalha. Eu não sou uma jogadora profissional nesse aspecto, então nós não ganhamos nada para isso.

Juca Kfouri: Há quem diga, Hortência, que às vezes é preferível ganhar medalha de bronze, porque você a ganha depois de uma vitória, do que ganhar a medalha de prata, porque ela sempre vem acompanhada de uma derrota. Nesse caso específico, me parece... A prata valeu bem mais do que o bronze, de fato?

Hortência: Muito mais, quem falou isso para você acho que... Muito melhor você ganhar uma medalha de prata do que você ganhar uma medalha de bronze! Você não tenha nem dúvida! Independente da derrota que você vai ter.

Ouhydes Fonseca: Você citou o Oscar. Ele também disse, nessa mesma entrevista, que ele achava válido o pessoal do futebol receber cerca de quatro ou cinco mil dólares, que eles receberam de prêmio por conquista de medalha de ouro. E que outros esportes, considerados amadores, têm realidades diferentes e, portanto, eles não teriam a mesma... Não estariam na mesma situação e, portanto, não mereceriam esse prêmio. E você falou aí, também, que você não se considera uma atleta profissional nesse sentido. O que é para você profissional e o que é amadorismo? E você acha que ainda é válido se falar, hoje, em esporte amador?

Hortência: Não, aqui no Brasil acho que não tem mais esse esporte amador, principalmente no basquete, né? Eu acho que o futebol conseguiu um espaço que nós ainda não conseguimos, então nós estamos muito além daquilo que nós tínhamos há dez anos. Devagar eu acho que a gente vai conseguir esse tipo de coisa. Mas isso... Não adianta você querer passar por cima de todas as coisas. Então eu acho que devagar a gente vai chegar lá e vai conseguir esses mesmo benefícios que o futebol consegue hoje.

José Góes: Hortência... Divórcio, aborto, infidelidade... Como é que você defiine esses temas?

Hortência: Divórcio é muito triste. Porque é o final de uma relação que... Realmente, o casamento é uma coisa que quando o padre fala: “Para sempre, até que Deus os separe”... Quer dizer, é uma coisa muito triste. Qual foi a outra que você falou?

José Góes: Aborto.

Hortência: Aborto... Eu acho isso péssimo, eu acho que você tem que tomar todas as precauções para que você não fique grávida. Depois que você ficou, eu acho que seria uma injustiça você ir contra uma coisa que não tem como se defender.

Marcelo Resende: No auge da sua carreira, se você tivesse que fazer um aborto, você faria?

Hortência: Não. Por isso que eu sempre me preocupei em não ficar grávida, porque se eu ficasse, eu jamais faria isso.

José Góes: E a infidelidade?

Hortência: Infidelidade é uma coisa que jamais passou pela minha cabeça. Eu acho que uma pessoa que tem esse tipo de... Sei lá... Infidelidade para mim... Eu acho horrível.

Roberto Pereira de Souza: Hortência, se você não fosse jogadora de basquete, você seria o quê? Eu sei que você gosta de guiar com pé embaixo, [risos] você veio de Sorocaba a São Paulo em quarenta minutos, não é isso? 150 km/h.

Juca Kfouri: Já está complicada com o imposto de renda e agora com a Polícia Rodoviária!

[risos]

Roberto Pereira de Souza: Você seria capaz de ser uma pilota, por exemplo, ou não?

Hortência: Piloto não, mas talvez uma corredora de motocross, quem sabe? [risos]

Roberto Pereira de Souza: Porque você tem uma moto também, né?

Hortência: Tenho.

Roberto Pereira de Souza: Você, uma vez, atropelou seis vacas no interior, é verdade isso?

Hortência: É verdade! [risos]

Roberto Pereira de Souza: É mesmo? Conta essa história para gente!

Hortência: Eu estava voltando dos jogos regionais em Ribeirão Preto, e eu jogava em Catanduva. Eu estava de carro, eu e mais três atletas.

Roberto Pereira de Souza: Era emprestado o carro, né?

Hortência: Era do cara que estava do lado. Ele era um velhinho e não gostava de dirigir. À noite ele, geralmente, assistia aos nossos jogos, e eu sempre voltava dirigindo para ele. Durante três anos eu fiz isso. E tinha uma estrada que liga Bebedouro a Catanduva, que chama Rodovia da Laranja, e ali não tinha ninguém, não tinha trânsito, não tinha nada. Tinham seis vacas sentadas no meio da pista!

Roberto Pereira de Souza: Conversando!

Hortência: E eu passei e peguei uma delas. [risos]

Paulo Planet Buarque: Hortência, mudando um pouquinho de assunto. Alguns jornalistas brasileiros - pensando em termos de jogos olímpicos - estão a imaginar que o Brasil, a exemplo de outros países, deveria importar técnicos para aprimorar os nossos esportes. E dão como exemplo o fato de hoje treinar a Seleção Brasileira um coreano; o fato das equipes de ginástica olímpica americanas serem treinadas por um búlgaro...

Hortência: Romeno!

Paulo Planet Buarque: Um romeno. Você acha que, se fizéssemos isso aqui, nós teríamos condições de melhorar a parte técnica, a parte tática do nosso esporte em geral e do basquete feminino, em particular?

Hortência: Eu acho que nós temos valores humanos aqui. Eu acho que ao invés de você trazer o técnico para dirigir uma equipe, eu acho que você poderia trazer o técnico para ensinar os técnicos. E os técnicos brasileiros ensinariam os seus jogadores. Ou pegar os técnicos daqui e levar para o exterior e fazer cursos lá fora. Eu acho que, no basquete, não tem necessidade de trazer lá de fora, porque eu acho que nós sabemos bastante. Tanto é que o basquete foi lá e ganhou dos americanos. Quer dizer, eu acho o que falta é um intercâmbio dos técnicos... Aprender lá fora ou trazer aqui para dentro [para] ensinar os técnicos. Mas os jogadores... Eu acho que nós temos que dar o valor para o técnico brasileiro.

Ester Lima: Você acha que é válido trazer jogador estrangeiro?

Hortência: No basquete eu acho. Principalmente no feminino, que não tem muita jogadora.

[...]: Principalmente pivô.

Norminha: Você disse que nós estamos com, mais ou menos, quinhentas jogadoras. Não existe isso, Hortência.

Hortência: Tem que trabalhar.

Norminha: Trabalhar infanto-juvenil, pré-mirim... Então, os valores de um Panamericano que vocês conseguiram, será que nós conseguiremos até a Olimpíada pelo menos que o país, que a parte da infra-estrutura, a bendita infra-estrutura de esporte que eu nunca vi na minha vida, vou morrer sem essa tal força - apareça até a Olimpíada? Ou morre? Vai aparecer até a Olimpíada porque é interesse brasileiro um comportamento decente? E, ao mesmo tempo que eu estou te perguntando isso, eu sou totalmente contra a vinda de técnicos estrangeiros. Por quê? Vou dizer porquê e você, depois, vai me responder a tua opinião. Nós vamos para fora aprender, lógico. Nos aprimorar. Só que na volta nós confundimos a realidade de fora com a realidade brasileira. Então, ao invés de nós falarmos: “olha, você faz um bloqueio”, [falamos] “faz 2x2, 2x1, box 1”, sabe? Terminologia toda americana quando, na realidade, nós somos brasileiros. E olha que eu sou argentina naturalizada brasileira, e eu não aceito isso. Eu vim para a Seleção, você sabe muito bem. Eu acho a valorização do técnico brasileiro... Porque nós temos pessoas capazes. Simplesmente é que não se dá a oportunidade. Ou seja, existe... Agora... Vamos entrar no problema de cúpula. Você não acha?

Hortência: Eu acho. Concordo com você, mas eu acho que tem muita coisa que lá fora que você pode, tranqüilamente, trazer para dentro. Como a minha equipe, a Minercal... O meu técnico, o Vendramini, ele trabalha totalmente em cima de jogadas da Iugoslávia, de defesas dos Estados Unidos... A própria Maria Helena utiliza muito, estuda muito... E ela tira aquilo que ela acha que cabe dentro da nossa realidade.

Norminha: Exatamente.

Hortência: Mas para ela saber o que cabe ou não, ela tem que aprender as outras coisas.

Norminha: Eu não disse isso. Estudar tudo bem. Você ter conhecimentos extras de países muito mais desenvolvidos. Porque nós estamos no Brasil... Embora seja um país em desenvolvimento - não vou dizer subdesenvolvido, em desenvolvimento, para ser generosa [risos] - então nós vivemos em um país a nível esportivo [atrasado] mais de vinte anos, concorda comigo? Estamos atrasados. E assim mesmo nós vamos e fazemos o que podemos na realidade nua e crua, porque vocês fizeram o que puderam.

Hortência: Por isso que eu não fiquei triste por ter perdido a medalha de ouro. Porque mais do que aquilo, eu acho que não está na hora ainda.

Ouhydes Fonseca: No caso do basquete - o basquete feminino mais especificamente - a realidade é muito mais dramática. Ou seja, o basquete feminino brasileiro se concentra, fundamentalmente, em São Paulo. A realidade do basquete feminino no Nordeste, por exemplo... Na última convocação a Maria Helena convocou, não me recordo o nome da menina de Fortaleza...

Hortência: De Recife.

Ouhydes Fonseca: E ela acabou sendo dispensada porque não conseguia acompanhar o ritmo do treinamento e, até mesmo, a esquematização tática da Seleção. Então eu queria que você dissesse para a gente como você vê essa realidade e se vocês, em conversas, têm alguma proposta... O que poderia o Brasil fazer para desenvolver o basquete feminino em outros estados? Acabar com essa centralização que, de certa forma, é prejudicial.

Hortência: Primeiramente, nós aqui dentro do Brasil vivemos de resultados. Não só o basquete, como futebol, tudo vive de resultado. E foi muito importante essa medalha que nós trouxemos, porque aí vai agitar um pouco o meio do basquetebol e isso vai fazer com que a criança queira jogar basquete, [e peça] “Pai, eu quero jogar basquete”. Então eles começam a procurar.

Augusto Nunes: Com que idade você começou, Hortência?

Hortência: Eu comecei com 14 anos. Tinha 13 anos e meio, ia fazer 14 anos. Então, a criança fica entusiasmada para a prática do basquetebol e aí fica mais fácil para a cidade, para o estado, movimentar o basquetebol. E precisa que, também, as federações queiram fazer alguma coisa em prol do basquetebol. Incentivar, promover... Como agora a Minercal vai fazer um amistoso em Brasília. Ali já vai movimentar. Quer dizer, isso é interessante; que se movimente, que leve as jogadoras, a Hortência, a Paula, para mostrar nos outros estados o que é o basquete e dar uma movimentada naquela cidade.

Ouhydes Fonseca: Seria bom levar alguns técnicos do Sul que ficassem fazendo estágios, clínicas...

Hortência: É uma coisa muito importante, veja bem: não é fazer o jogador somente, porque, às vezes, tem o atleta mas não tem uma pessoa capacitada para ensinar aquela criança. Precisa ensinar certo, precisa ensinar correto. E precisa se fazer técnicos também. Então não é só o jogador e sim o técnico, também, saber ensinar [as] crianças a maneira certa.

Paulo Planet Buarque: A qualidade só vem da quantidade, isso é absolutamente perfeito. E você acabou de citar os Estados Unidos. Nós podíamos citar vários outros países, todos da Cortina de Ferro [países europeus que integravam o bloco comunista], Cuba - por se tratar de um país que tem no esporte uma ação do Estado -, mas o que se nota aqui, Hortência, é que a mulher brasileira não é muito adepta da prática esportiva com a intensidade que se poderia desejar. A mulher se cuida um pouco mais, acha que ela se expõe muito... O que fazer para mudar essa mentalidade?

Hortência: Eu acho que já mudou.

Paulo Planet Buarque: Já mudou?

Hortência: Eu acho que já mudou. Você vai em academia, você vê mulher fazendo musculação, você vê mulher dançando, você vê mulher fazendo ginástica aeróbica, você vê menina querendo jogar vôlei. Agora, com essa movimentação do basquete você vai ver um monte de meninas querendo jogar basquete, como já me procuram! [Perguntam-me]: “Como que faço pra jogar? Meu filho quer entrar”. Quer dizer, o pai se empolga também e põe na cabeça do filho. Como o Oscar falou: “Meu filho vai fazer o que ele quiser, mas vai jogar basquete”. Então tem pai que põe na cabeça do filho: “Filho, você vai jogar basquete”.

Ester Lima: Você não tem vontade de montar uma escolinha de basquete?

Hortência: Eu tenho. Eu já tive [uma escolinha], agora eu não posso porque eu não tenho tempo, porque eu fico tempo integral com o basquete feminino. Mas quando eu parar, eu vou ter escolinha.

Marcelo Resende: Você acha que o basquete tomou o lugar do vôlei, que era o segundo esporte na preferência? Você acha que desse momento o vôlei passou a um terceiro plano em relação ao basquete?

Hortência: Eu não acho que o vôlei está em primeiro, segundo ou em terceiro... Eu acho que os dois podem ficar em primeiro tranqüilamente. Eu acho que tem espaço, tem torcedores no Brasil, o suficiente.

Marcelo Resende: Está tomando o público do futebol, por exemplo, o basquete?

Hortência: Isso que eu estou falando para você: acho que todo esporte tem o seu público. O futebol... Ninguém tira o público do futebol.

Marcelo Resende: O Nabi [Nabi Abi Chedid, político e ex-presidente da Federação Paulista de Futebol e ex-vice-presidente da Confederação Brasileira de Futabol] tira!

Hortência: E o basquete tem o seu público e o voleibol também tem o seu público.

Augusto Nunes: Hortência, nós estamos recebendo muitos telefonemas, então eu sou obrigado interromper vocês de vez em quando para fazer a pergunta que os telespectadores desejariam estar fazendo aqui, ao vivo. Maria Donizete, da Vila Maria, pergunta a propósito de alguns comentários feitos por você agora há pouco: “Se você é do interior deve ter recebido uma educação bastante rígida. Você é contra a virgindade ou a favor dela? E sexo para você é uma coisa normal?”.

Hortência: Eu acho que isso aí é uma pergunta muito difícil de responder, se você é contra ou a favor da virgindade. Acho que isso varia muito de cada pessoa. Eu acho que a mulher... Eu, por exemplo, tenho que saber se eu devo ser virgem ou não, na minha maneira de pensar. Agora, pode ser que as outras pessoas não pensem igual [ao que] eu penso. Quer dizer, cada um tem uma maneira de pensar. Então isso de ser contra ou a favor, depende muito de cada menina, de cada mulher. Se ela acha que não tem que ser virgem, [que] ela já está preparada para isso, então... Tem pessoa que acha que tem que casar virgem... Nós temos que respeitar as duas versões.

Augusto Nunes: Uma outra pergunta após a qual eu prometo devolver a bola [risos]. Você que é um dos ídolos brasileiros hoje. Quais são os teus ídolos nas várias áreas, tanto em esporte, as pessoas que você mais admira no basquete, e fora dele? Vale cantor, vale artista de cinema, vale político...

Hortência: Eu não tenho um ídolo assim, “ai, eu sou louca por aquela pessoa”. Não. Isso depende muito. Cantores, eu acho que todos têm o seu valor. Eu gosto do Chico Buarque de Hollanda, eu gosto do Milton Nascimento... Eu gosto de todos os cantores. Às vezes, tem um que está numa fase melhor, têm outros que lançam uma música melhor que o outro, então eu ouço todos os cantores. Atletas, sinceramente, eu tenho vários atletas que eu admiro... Admiro, no voleibol, o Renan [Renan Dal Zotto], eu admiro o Xandó [Mário Xandó de Oliveira Neto], o Amauri [Ribeiro] [Integrantes da "geração de prata", Seleção Brasileira de voleibol que conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984]. No basquetebol, eu admiro o Oscar, que para mim é o único. Admiro o Marcel [Marcel de Souza], admiro... Sabe, em cada esporte eu tenho a pessoa que eu admiro. Se for falar pra você de todos, acaba o programa! [risos]

Ester Lima: Como você se sentiu, Hortência, quando você foi comparada ao Carlos Dummond de Andrade?

Hortência: Eu achei que foi exagero, porque não tem nada que compare a ele.

[risos]

[...]: Quem disse isso?

Ester Lima: Foi Jaime Maria de Sousa, numa crônica.

Hortência: Realmente, eu acho que foi um exagero, porque nada se compara a ele.

[...]: Mas é uma admiração profunda, hein?!

[risos]

Juca Kfouri: Eu queria que você me respondesse uma velha curiosidade que eu tenho, que também o Wlamir poderia responder perfeitamente. O que é mais difícil durante o jogo: chutar da zona morta [área da quadra próxima à linha de fundo, de onde não se consegue usar a tabela ao se tentar a cesta] ou parar para bater dois ou três lances livres? O que é mais difícil de acertar o chute de fora ou o lance livre?

Hortência: Eu acho que o chute de fora, porque está em movimento. Porque no lance livre você está concentrada, não tem ninguém te marcando, não tem ninguém te perturbando. É você, Deus e a cesta.

Paulo Planet Buarque: O que você pensa quando você fecha os olhos e inspira [antes de fazer um arremesso de lance livre]? Isso todo mundo quer saber, o que você pensa?

[sobreposição de vozes]

Ouhydes Fonseca: É que o Kfouri perguntou o que é mais fácil e mais difícil, eu ia perguntar exatamente isso. Quer dizer, nós vimos alguns lances seus aí em que você faz cestas de tudo quanto é forma. E no basquete a cesta é equivalente ao gol no futebol. É o momento da grande explosão, da realização. Quando é que você sente mais prazer, é a cesta arremessada - ou de lance livre ou de uma bola parada - ou após uma finta, uma bandeja, um lance trabalhado?

Hortência: Eu acho que a cesta que é mais gostosa é aquela que você trabalha muito para fazê-la. O lance livre nem tanto, porque você está ali sozinha. Agora, uma finta, você passa pelo meio das pernas, dá um giro, entra toda desequilibrada e faz... Eu acho que essa é a mais gostosa, que você vibra mais.

Marcelo Resende: E de tensão? Na hora que pára ali para um lance livre, aquilo é o que dá mais tensão no jogo?

Ester Lima: O que passa pela sua cabeça quando você dá aquela respirada assim antes do arremesso?

Hortência: Essa que você fez, acho que essa é a responsabilidade. Então seria assim, a cesta que você sente mais responsabilidade é quando o jogo está acabando você tem que chutar lance livre, e está nas sua mãos, depende de você...  essa não é qualquer um que chuta não.

Marcelo Resende: É o pênalti, né?

Hortência: É fogo!

Norminha: Eu vou te perguntar [algo] que faz muito tempo. Alguns anos atrás...

Hortência: Eu sei até o que você vai perguntar! [risos]

Norminha: Como é que você sabe? Não sei por quê, porque eu sempre falava da Paula e sempre falava de você e colocava as duas de diferentes condições. Sempre grandes estrelas, mas você com a tua característica e a Paula, sem dúvida alguma, com a característica excepcional de jogadora de um visual periférico fantástico, de passes e de assistências que não aparecem. Porque na realidade a jogadora [Paula] não aparece, a Hortência aparece muito mais - não te desvalorizando, não vai entender o que eu falei há anos atrás, veja bem. Então você tem um potencial de arremesso excepcional, de qualidade, com a bola fantástica; e a Paula, com outras qualidades também que são inerentes a qualquer jogador, que é a capacidade de raciocínio, raciocínio momentâneo. Então ela trabalha, como você disse, a combinação, vocês duas combinam. Muito bem! Passaram os anos, teve uma época que você ficou meio brava comigo, aí nós conversamos, e no ano passado eu senti você com dor, solidão e uma péssima fase de basquetebol. O que você me diz?

Hortência: Toda atleta tem uma fase ruim.

Norminha: Depois de tanto tempo que eu não a via jogar, você me disse coisas importantes. Por que especificamente, se tinha “n” pessoas lá dentro?

[...]: Por amor.

Hortência: O quê?

[...]: Por amor.

Hortência: Não, de maneira alguma, eu nunca trago problemas meus de fora da quadra para dentro. Realmente, eu estava tendo problemas, acho que todo atleta tem problemas dento da quadra. Eu não estava bem, não estava conseguindo treinar direito, não tava conseguindo... sabe? Passei por uma fase ruim que, graças a Deus, já passou. E realmente eu vi a Norminha e eu senti... De repente eu me vi, assim, num ombro amigo, porque ela tem uma parcela daquilo que eu jogo, porque ela me ensinou também muita coisa, então de repente eu abracei ela e comecei a conversar com ela, que eu não estava numa fase boa. Ela me deu uma força e realmente foi importante, porque ela fez parte da minha carreira, então eu achei que ela era uma pessoa legal para conversar.

[sobreposição de vozes]

Norminha: Sabe porque eu puxei isso? Porque na realidade é de muitos anos. Porque eu conheci uma Hortência inicial, depois uma adolescente, depois uma estrela em formação. Atualmente talvez agressiva, prepotente, pela própria capacidade técnica dela. E passaram-se os anos e vejo, no ano passado, a Hortência com maior humildade, com maior decisão, com maior necessidade de princípio, trabalhando para a equipe. Então, isso que me chamou a atenção na Hortência, porque esses valores eu tenho que colocar em evidência em você.

Hortência: A atleta, conforme ela vai crescendo, ela vai ficando mais consciente. Hoje eu tenho 27 anos. Na época que eu treinei com você eu tinha 15, 16 anos. Quer dizer, você vai evoluindo também. Hoje eu corro bem menos do que eu corria antes. Não porque eu não tenho mais condição física, é porque não preciso correr tanto para fazer cesta.

Norminha: Aprendeu a correr.

Hortência: Aprendi a correr, aprendi a me mexer... Quer dizer, então você vai tendo malícia, você olha para cara da pessoa e você já sabe a hora que você vai tomar a bola. Não precisa ficar ali “fogosa” em cima dela.

José Góes: Hortência, você tem algum apelido ou não?

Hortência: Não....

[...]: Não é Magrela?

Hortência: Ah, tenho! Me chamam de “Pur”! É Magrela, Pur... A Vânia Hernandes...

Entrevistadora: O que é Pur?

Hortência: Uma brincadeira delas. Não posso contar!

[risos]

José Góes: Qual é o apelido mais interessante entre vocês? Uma companheira que tem um apelido interessante...

Hortência: O apelido mais interessante?...

José Góes: Curioso.

Hortência: Não tem assim...

Marcelo Resende: O convívio da concentração, como que é o convívio de vocês?

Hortência: É ótimo.

Marcelo Resende: Fica cada uma no seu quarto, dormem todas juntas?

Juca Kfouri: É uma “fofocaiada” terrível!

Hortência: Onde fica mulher, sempre tem fofoca.

[risos]

Marcelo Resende: Uma pega o shampoo da outra...

Hortência: Uma sacaneia a outra, uma esconde a coisa da outra, isso é normal! Isso é concentração, você tem que brincar. A Paula é a menina mais criança do time! A que mais brinca, a que mais te perturba, que mais pula, que mais... Se você vê ela quietinha, já sabe que ela está aprontando alguma coisa! E de ficar... Dormem todas juntas? Isso depende, se o hotel é para duas, ficam duas; se o hotel é para três, ficam três. Depende!

Augusto Nunes: Hortência, alguns telespectadores... Nós comentamos aqui essa questão do uniforme da Seleção Feminina de Basquete e você não foi muito precisa sobre que tipo de uniforme você gostaria de adotar. João Carlos Castilho, de Itaim, São Paulo, certamente impressionado com o teu desempenho, diz assim: “Você não acha que o calção de basquete deveria ser de nylon colante, com blusa do tipo Araquém [refere-se ao personagem de programa humorístico Araquém, o show-man], mostrando a alegria de vocês?” [risos] Como é que deveria ser o uniforme da Seleção Feminina? Se você fizesse o design dele, como é que seria?

Hortência: Bom, eu ainda adoto o shorts comprido, porque eu acho muito mais gostoso para jogar, muito mais confortável. Mesmo porque, no basquete, ninguém usa shorts curto, a não ser a Argentina - que não tem expressão internacional nenhuma - e Austrália. O resto, o mundo inteiro usa shorts curto [quis dizer comprido]. Eu faria de helanca comprido, bem colado no corpo. E a blusa também. Eu acho mais bonitinho! Podia ser um pouquinho mais curto, mas não aquele cavado, porque esse aí, eu já usei muito... Já gostei muito de usar esse shorts, mas hoje já não tem mais. Depois de seis, sete anos você usando, acho que não teria mais o porquê. E mesmo porque ninguém usa mais, é fora de moda isso!

José Góes: Outro dia nós fizemos aqui na [TV] Cultura uma reportagem em Sorocaba com seus pais - aliás, figuras muito simpáticas os dois. Sua mãe dizia que se você fosse aos Estados Unidos jogar ela iria junto; e seu pai dizia que não, que ele ficaria aqui. Eles interferem na sua carreira, dão palpite, dão opinião, ajudam? Ou não, ficam quietinhos? Qual é o seu relacionamento, Hortência, com seus pais?

Hortência: Nossa, é demais! Eles são uma gracinha os dois...

José Góes: Tanto assim que vocês moram no mesmo prédio, né?

Hortência: Moro, comprei um apartamento do lado de onde eu moro e pus eles ali, pertinho de mim, porque eu que cuido deles. E a minha não ida aos Estados Unidos, na época que me convidaram, foi justamente por causa deles; porque eu tinha aquele compromisso de cuidar da minha família, porque eles eram de família bem humilde, família pobre e não seria justo eu largar eles aqui e ir embora. Se eu fosse de família rica, eu teria ido com maior prazer jogar nos Estados Unidos, mas como eu tinha que cuidar...

[...]: [...]

Hortência: Partiu desde 1976, foi quando eu fui jogar lá... 1977, e foi até 1983. Depois viram que não dava, viram que eu não ia e desistiram.

Juca Kfouri: Eu queria que você nos contasse um pouco isso, Hortência. Como é essa sua família, essa sua família pobre... O que o seu pai fazia? E como é que, de repente, numa família pobre uma menina descobre o basquete, que é um esporte - hoje nem tanto, mas 13, 14 anos atrás - bastante elitizado ainda?

Hortência: Eu acho que [para] você ser um atleta, Deus dá o dom... Não é porque é rico, porque é pobre. Deus não escolhe dinheiro para dar o dom para alguém, ninguém compra isso. Realmente, a minha família era muito pobre e eu comecei a jogar basquete... Ia parar de jogar basquete porque eu não tinha condições... A minha família não tinha condições de sustentar.

[...]: Em Potirendaba ou não?

Hortência: Não, eu comecei no ABC. Comecei em São Caetano. E, quando eu parei de jogar, foram saber porquê, e eu disse que tinha que começar a trabalhar para poder pagar os meus estudos e que eu não tinha condições. Foi quando eu comecei a ter uma ajuda de custo e quando eu entrei no “Adote um atleta”. Eles começaram a me dar uma ajuda de custo, fui adotada pela Caloi [empresa de bicicletas], na época; fui ajudando a minha família com esse dinheiro. Então foi por isso que eu não pude largar, porque eles dependiam pouco - não totalmente - de mim, mas um pouco de mim. E hoje eu cuido deles, eles moram do meu lado. Minha mãe é que nem eu, ela é aventureira. O meu pai não, ele já é mais pacato.

Wlamir Marques: Você estudou até onde, Hortência?

Hortência: Eu sou professora de educação física.

Wlamir Marques: Fez educação física?

Hortência: Fiz o curso completo. Fiz curso técnico de basquete, também.

José Góes: Vamos supor, se amanhã aparece uma garotinha do interior... 12, 13, 14 anos, simples, humilde, sem recursos e você teria descoberto ali uma possível estrela do basquetebol. Você ajudaria?

Hortência: Tranqüilamente, nem que fosse para morar comigo!

Marcelo Resende: Vai ter uma fila na porta da tua casa amanhã!

[risos]

Hortência: Mas eu tenho que sentir que ela vai ser uma grande jogadora, como eles - a Norminha, o Waldir [Pagan Peres] - sentiram. Porque eu era... Ninguém dava nada para mim! [As pessoas diziam]: “Imagina que você vai jogar basquete!”. Eu era totalmente esquelética, eu não tinha nada a ver, e eles acreditaram que eu podia ser uma jogadora.

Juca Kfouri: Eu só não entendi, Hortência, como é que você pôs na cabeça que você ia jogar basquete. Como é que nasceu o seu namoro com a bola de basquete? Quando foi? Esse é o momento que eu não entendi...

Hortência: Eu entrei na quinta série do ginásio e aprendi handebol. Já fiquei apaixonada! Porque qualquer coisa que dessem para mim, eu fazia. E fazia bem! Eu acho que eu nasci para ser atleta. Então eu comecei com handebol. Aí eu mudei de escola e a outra professora já dava basquete. Aí eu vi o basquete! Gostei, adorei o basquete também! Mas aí entra aquela história que eu falei para a Norminha, da Marlene ser da Seleção Brasileira de basquete. Me encantou! Porque ela era da seleção, eu via ela na televisão! E aquilo me chamou a atenção. Entrei no meio do basquete e me deram toda a força, me deram toda aquela estrutura e eu...

Ouhydes Fonseca: Há quem diga que você usa a família como uma espécie de desculpa para não aceitar, não enfrentar esse desafio que é sair do Brasil. Quer dizer... Você é uma pessoa criada no interior, com costumes bem rígidos, a educação bem rígida e tal... E você temeria sair do Brasil, ficar longe da família, dos amigos etc. e se desgastar.

Hortência: De maneira alguma. Eu acho que quem enfrenta Cuba, Estados Unidos, não vai ter medo de sair do país!

[risos]

Ouhydes Fonseca: Viver fora.

Hortência: De maneira alguma. Eu gosto de desafios, eu adoro desafios. Quando uma coisa se torna difícil para mim, aí é que eu entro de cabeça naquilo.

Marcelo Resende: Qual seu signo?

Hortência: Eu sou de Libra.

Juca Kfouri: Só podia ser!

Norminha: Hortência, como professora de educação física que você é, qual o principio básico que você...

Hortência: Lá vem ela! [risos]

Norminha: Não, é básico, eu sou professora! Eu estou perguntando para uma outra professora também!

Hortência: Faz tempo que eu não exerço a minha profissão! [risos] Fala!

Norminha: Tudo bem, como se chama o magrão que jogou futebol? O Sócrates! Ele está novamente... isso não impede, você está na área.

Juca Kfouri: Não sei se você dá um filho para ele cuidar hoje! [(1954) Sócrates jogou na Seleção Brasileira de futebol e foi um dos maiores ídolos do Corinthians. Em paralelo, formou-se médico, profissão que passou a exercer após encerrar a carreira como jogador]

[risos]

Norminha: Qual princípio básico você teria para iniciar como professora e como técnica? Em criança, adolescentes... Como que você agiria, qual seria o objetivo primeiro?

Hortência: Se eu vou ensinar basquete?

Norminha: Não, educação física. Pressupõe que posteriormente a criança fosse fazer basquete.

Hortência: Qual o princípio básico?... Primeiro ela tem que saber se ela quer fazer aquilo, se ela gosta daquilo. Porque, às vezes, tem muita criança que não sabe nem porque está ali. Uma criança tem que gostar daquilo que ela está fazendo.

Norminha: Você não acha que primeiro seria formar o indivíduo, o ser humano?

Hortência: Também!

Norminha: Antes de formar um atleta?

Hortência: Não, eu acho que primeiro... Formam-se os dois juntos. Eu, por exemplo, acho que o esporte que faz a personalidade, que fez a minha personalidade, então eu acho que isso forma junto. Eu acho que você vai formando o atleta e a personalidade dele juntas, não adianta você formar a personalidade dele antes para depois você formar o atleta.

Norminha: Eu não estou dizendo a personalidade, porque para mim a personalidade é mutável. O caráter não, correto? O caráter você vai levá-lo até o fim da vida. Formar o indivíduo, que eu digo, como professora, estou me referindo à formação dele para que ele tenha sustentação e suporte para ser atleta.

Hortência: Eu concordo! Eu acho que você, como professora, você tem que formar o homem, o atleta, o indivíduo... Você tem que formar tudo, ensinar tudo. Ensinar que não pode fumar, que não pode beber, que não pode fazer isso... Gradativamente você vai ensinando tudo.

Norminha: Estou vendo que você não esqueceu tudo da profissão! [risos]

Hortência: Não!

Wlamir Marques: Vou te perguntar... Antes de perguntar eu vou justificar a minha pergunta. Eu não conheço nenhum atleta ídolo aqui no Brasil, nenhum... Atletismo, natação, basquete, futebol - futebol, vamos deixar de lado, porque no futebol se forja. Eu não conheço nenhum que tenha sido ídolo... João do Pulo, Nelson Prudêncio, Ademar Ferreira da Silva [os três foram os atletas de salto triplo mais famosos do Brasil]...

[...]: Wlamir Marques!

Wlamir Marques: [Não conheço ídolo] Que não tenha surgido aqui, neste país, acidentalmente. Nada se forja, você não foi forjada. É o tal negócio... Igual à Hortência, outras começaram em São Caetano, achando que a Marlene era o grande ídolo. E porque deu certo a Hortência, que veio lá de uma cidade, de Potirendaba, [tem] os país simples e humildes? A Hortência é mais um dos fenômenos - ela e a Paula -, são mais um dos fenômenos que apareceram nesse país. Nós não vamos forjar nunca outra Hortência. Vai aparecer outra Hortência acidentalmente, vai aparecer outro João do Pulo... Quando a gente for ver a origem, a gente vai dar risada, [e dizer]: “Puxa vida, mas saiu disso daí? Sem recurso nenhum, sem nada...”.

Augusto Nunes: Uma informação... Você é uma das atrações deste programa, você também começou por acaso?

Wlamir Marques: Acidentalmente! Eu comecei acidentalmente! Eu comecei praticando natação, joguei voleibol, joguei futebol. Acidentalmente, meus pais mudaram para uma residência onde bastava eu pular o muro da minha casa, eu estava numa quadra de basquete. Se fosse uma piscina, eu seria nadador!

Hortência: Você também era de família pobre?

Wlamir Marques: Não seria pobre, mas naquela época não tinha nem pobre e nem rico, porque não havia inflação. Hoje a gente fica pobre de repente.

[risos]

Hortência: Sabe por que eu estou te perguntando isso? Porque, realmente, eu acho que a família quando é pobre, é mais fácil do cara... Porque ele tem tantos ideais, tem tantas coisas que ele quer ter e que ele não pode ter - porque não tem dinheiro... Então eu acho que é importante também. Eu acho que muitos ídolos nasceram de famílias humildes. Eu acho que 90%.

Marcelo Resende: A necessidade...

Hortência: A necessidade de agarrar aquilo, porque não tem uma outra coisa para você agarrar. Se você não conseguir aquilo, você não vai ser mais uma outra pessoa, não tem o amanhã. Então eu acho que aquela necessidade de você ser uma jogadora de basquete, de querer ter um carro, de querer ter uma vida decente, faz com que você trabalhe.

Wlamir Marques: Agora, você veja, o Paulo Planet falou recentemente que os romenos foram para os Estados Unidos para formar ginastas. E é recente. Na nossa época, Nádia Comăneci foi uma menina preparada desde os cinco, seis anos de idade para ser campeã olímpica no ano “x”. E nós aqui, nós não trabalhamos com programas, nós não temos metas. Nós temos o Campeonato Sul Americano que começa no mês que vem, a Olimpíada... Não se fala em Seul. Alguém fala em preparação para Seul aqui nesse país? Alguém forjou alguma coisa para a Seul? Nós vamos com a mesma coisa que nós fomos nesse Panamericano e [vamos] torcer para, outra vez, dar certo. Quando dá certo a gente fala assim: “puxa, não é que deu certo?!”. É como esse nosso basquetebol masculino: chegou no fim, houve uma surpresa total, como se a gente tivesse ganho o maior campeonato que já houve na história do esporte nacional! Porque nós conseguimos uma coisa impossível! Por que é impossível? Eu parabenizo você e outros ídolos nossos que conseguiram às custas de vocês, com ajuda de amigos realmente importantes... Mas eu gostaria que, igual a você, outras fossem forjadas; outros Pelés surgissem aqui... Para a gente não ficar na geração sempre assim Pelé, Garrincha; Wlamir, Amauri; Hortência, Paula... Sempre em dupla. Por que sempre em dupla?

Augusto Nunes: E, aproveitando as observações do Wlamir Marques... O que poderia ser feito para que o surgimento de atletas da tua categoria, num país como o Brasil, fosse uma coisa mais freqüente, mais fluente? Isso é uma política de governo? Ou são as empresas patrocinadoras que deveriam resolver? Qual o caminho?

Hortência: Acho que tem que ser o conjunto de tudo isso. Eu acho que as empresas têm que entrar, tem que ajudar. Porque sem dinheiro você não consegue formar.

Augusto Nunes: E está havendo problema de patrocínio no basquete feminino?

Hortência: [O time da] Unimep está tendo. Em Sorocaba a gente não tem esse problema. Então [as empresas precisam] dar dinheiro para formar atletas e trabalhar para isso. Pegar um número grande de crianças e começar a trabalhar. Agora, o grande problema é que quando uma empresa entra para patrocinar, ela quer retorno rápido, imediato. Ela não quer trabalhar naquela categoria menor e esperar formar o atleta. Então, o que está acontecendo...

Augusto Nunes: Retorno em matéria de títulos, você está dizendo? Vitórias?

Hortência: Exatamente! Por exemplo, a Minercal visou retorno rápido, mas está trabalhando para o futuro. Então, hoje ela está gastando com atletas que ela tem que ir buscar fora, mas ela já está trabalhando a criança de Sorocaba. Para daqui a dois, três anos ela não precisar ir buscar tanta gente lá fora. Porque ela já tem aqui, dentro da própria cidade dela. Isso é importante. A empresa forma a equipe e já começa a se preocupar com o trabalho de base, como tem na Unimep [Universidade Metodista de Piracicaba], como tem na...

Norminha: Nas equipes infantil, juvenil de Sorocaba as jogadoras tem honorários?

Hortência: Algumas têm, elas recebem uma ajuda de custo. Porque na Minercal não existe este problema.

Norminha: Eu estou lhe perguntando isso não é por nada, não é desvalorizando a [categoria] infanto ou a juvenil, é que as épocas mudaram. Então, você veja bem, o infantil com honorários...

Hortência: Infantil não tem. O juvenil tem porque você tem que ir buscar fora. Porque é uma idade de 18 a vinte anos.

Norminha: Eles não estão fazendo lá? Estão buscando fora também?

Hortência: Estão fazendo trabalho de base. Trabalho de base, na minha forma de entender, é mini, mirim e infantil. E o juvenil já joga no adulto.

Juca Kfouri: Você acha que vem aí uma geração de Hortências e Paulas às custas desse trabalho?

Hortência: Eu espero que venha. Não agora.

Juca Kfouri: Você observa alguém surgindo já?

Hortência: Já, a gente observa jogadoras...

José Góes: Você tem duas sobrinhas?

Hortência: Tenho!

[risos]

José Góes: Prometem ou não?

Hortência: Mais ou menos.

Marcelo Resende: Só um dado que me parece importante, para quem está em casa, em termos numéricos... A Unimep gasta, por mês, um milhão e 200 mil cruzados - o que, para uma grande empresa, se ela for patrocinar esse esporte, ela tem retorno naturalmente. E uma outra questão, também, que me parece, é o seguinte: não é ir só na fase do adulto, do principal. Mas, sim, preparar a base. Com um milhão e 200, a Unimep se sustenta e sustenta a base. E não encontra... está para fechar. A Minercal, a própria Minercal quis dar uma ajuda à Unimep, mas parece que aí houve aquela questão de suscetibilidade.

Hortência: É porque o grupo Pagliato tem várias empresas e uma delas é a Minercal. Então ele tem outras empresas que podem ser patrocinadores da Unimep, se caso não arrumar, talvez ele não vá deixar o time da Minercal...

Norminha: A Minercal Sorocaba sempre fez empreendimentos em cima das jogadoras. Quando a Minercal passou dois anos com o professor Waldir Pagan Peres sem ganhar o título, o que aconteceu? Mudou-se a estrutura, rapidinho.

Hortência: Mas o time continua.

Norminha: Continuou.

Paulo Planet Buarque: Hortência, o Augusto pediu, a Norma pediu, o Wlamir pediu, o Marcelo pediu... E o que parece que nós estamos em busca da famosa infra-estrutura. Então eu vou fazer uma pergunta a você: você está situando um problema dentro da Minercal. Não tem o direito de sonhar um pouco, em termos um pouco mais amplos? Vamos deixar até o Brasil de lado... Mas será que em São Paulo, no estado de São Paulo, não se poderia pegar a Hortência - para nos situarmos tão somente no basquete... A Hortência, a Norma, o Wlamir, todos os excelentes jogadores de bola ao cesto que nós temos e tivemos aqui nesse estado... Não se poderia fazer uma operação pente fino no estado inteiro, cidade por cidade, em busca dos valores considerados capazes de se tornarem - dentro de um, dois, três, cinco, dez anos - os valores necessários para nós termos essa quantidade? Será que a Secretaria do Esportes do Estado de São Paulo não pode fazer isso, que é uma coisa extremamente simples? Extremamente simples e baratíssima. Operação pente fino no estado de São Paulo inteiro, esporte por esporte, em busca de valores... Por que não?

Norminha: Paulo, nós temos um Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisas, um dos mais modernos da América do Sul. Eu faço questão que vocês vão lá... Esquecido, um “elefante branco”. Porque não existe possibilidade de selecionarmos atletas. Tem um trabalho paralelo, mas atletas com potencial, os próprios clubes não admitem que sejam treinados.

Augusto Nunes: Eu queria insistir... O que você acha disso? É fácil fazer?

Hortência: Eu acho ótima essa sua idéia. Eu acho fácil, basta que queiram fazer isso. Eu acho que isso tem que ser feito. Porque, se existe uma Secretaria de Esportes é justamente para fazer isso. Eu acho que eles já estão fazendo. Veja bem, eles fazem muitas coisas e uma dessas seria bem possível que eles fizessem e encontrassem jogadores. Eles têm os Jogos Abertos do Interior onde eles descobrem, também, valores. Eu acho que também seria uma coisa a se pensar.

Roberto Pereira de Souza: Hortência, eu queria te perguntar uma coisa, mudando um pouco de assunto. Você foi procurada por um candidato ao governo de São Paulo para fazer uma campanha para ele na época das eleições do estado?

Hortência: Eu fui procurada, mas eu não me envolvo com política. Eu não gosto de me envolver, eu gosto só de ouvir falar.

Roberto Pereira de Souza: Como é que você vê a carona que os políticos pegam? Qual foi o candidato? Foi o Maluf?

Hortência: Foi. Eu acho que ele está na dele, né?

Roberto Pereira de Souza: Eu queria saber o seguinte: como você vê essa carona que os partidos pegam, que os candidatos pegam no prestígio de alguns atletas?

Hortência: Como eu falei, eu acho que eles estão na deles. Eu acho que se ele vê que um atleta tem capacidade para puxar um pouco de voto para ele... Cada um ... Olho por olho, dente por dente. Como nós, também... A gente vê uma jogadora, [e pensa] “vamos trazer para o nosso time! Vamos  [fazê-la] jogar para nós!”. Eu acho que ele está na dele. Cabe ao atleta [decidir] se acha que deve ou não fazer.

Juca Kfouri: Digamos, Hortência, daqui a uns 15 anos, quando você parar de jogar basquete... Você aceitaria ser secretária de esportes de um governo bem intencionado nessa área?

Hortência: Se eu me achar competente para isso, eu aceitaria. Não sei se eu sou competente para isso, mas se na época eu me sentir competente, eu aceitaria com o maior prazer.

Juca Kfouri: Você já se imaginou uma situação dessa?

Hortência: Ainda não me passou, eu nunca imaginei nem parar de jogar basquete!

[risos]

Juca Kfouri: Por isso que eu falei daqui a 15 anos!

Hortência: Não me passou pela cabeça, por enquanto. Mas já que você tocou no assunto, seria uma boa idéia!

Roberto Pereira de Souza: O João do Pulo hoje é deputado estadual. Você já sonhou com isso, quer dizer, fazer alguns jumps na política, alguma coisa?

Hortência: Não. Realmente, política não faz o meu tipo. Eu não gosto de política. Gosto de política, mas não gosto de participar da política.

Roberto Pereira de Souza: Jogo muito duro.

Hortência: Assisto a todos os programas políticos na televisão, vejo aqueles programas que todo mundo fala que é chato, [e] desligam a televisão. Eu não desligo, eu assisto para ver até onde eles chegam. Eu gosto.

Roberto Pereira de Souza: O que você acha do político brasileiro, Hortência?

Hortência: Eu acho que existem grandes políticos no Brasil.

Roberto Pereira de Souza: Fala um para mim?

Hortência: Não gostaria de citar nomes. Mas existem muitos que são... É brincadeira! Gozam... Acho que chegam até gozar da cara dos brasileiros. Eu acho que não têm respeito pelo brasileiro.

Roberto Pereira de Souza: Você acha que a maioria é assim?

Hortência: Não a maioria. Como eu disse para você, existem grandes políticos no Brasil, mas existem muitos que entram não para fazer política, mas para se beneficiar do dinheiro, depois.

Juca Kfouri: Eu entendo que você não queira citar os que você acha grandes...

Hortência: E nem o que eu acho pequeno!

Juca Kfouri: Mas eu gostaria que você citasse o que você acha...

Hortência: Não... Eu prefiro falar de esporte, não gosto de falar de política!

Augusto Nunes: Hortência, um teu conterrâneo - José, de Potirendaba - pergunta porque você demorou tanto tempo para aceitar Potirendaba como a sua terra natal? Eu te pergunto - até para usar um verso famoso de Drummond - Potirendaba é o quê? É um retrato na parede para você? Quais são os teus vínculos afetivos com a terra onde você nasceu?

Hortência: Eu nasci em Potirendaba e me mudei logo cedo. Acho que eu tinha dois anos de idade quando eu saí de Potirendaba. O problema de Potirendaba é que eu não tenho tempo para ir lá. Eu gosto muito... Às vezes eu passo por lá, tenho pessoas que moram lá ainda - tenho um tio que mora em Potirendaba. O problema não é que eu não aceite Potirendaba, é que eu não tenho oportunidade de falar de Potirendaba, porque eu não estou numa televisão e não é sempre que me perguntam de Potirendaba. Todas as vezes que me perguntam - são raras as vezes que perguntam - mas quando perguntam eu falo com maior orgulho. É que eu não posso chegar em tudo quanto é lugar e ficar falando de Potirendaba. O único problema que eu tenho com Potirendaba é que quando perguntam assim: “Onde você mora?”, eu falo: “Potirendaba!”. [Então perguntam] “Onde?”, [e digo de novo] “Potirendaba”. Aí eu tenho que explicar...

Juca Kfouri: Aliás, onde fica Potirendaba, Hortência?

[risos]

Augusto Nunes: Onde é a cidade, perto de onde?

Hortência: Acho que é a 15 ou vinte quilômetros de São José do Rio Preto.

Juca Kfouri: Você se sente, hoje, uma cidadã do mundo e não uma cidadã de Potirendaba?

Hortência: Eu prefiro ser mais de Potirendaba. Do mundo acho que me pesa muito!

Augusto Nunes: Hortência, nosso programa está nos minutos finais, infelizmente. Um dos nossos convidados - não identifiquei aqui - pergunta se você se considera uma “marajá” – usou essa expressão - do basquete? Pois, diante da crise que vivemos, você se recusou a ganhar tantos dólares nos Estados Unidos. Você é, hoje, uma mulher de muitas posses? Qual é o teu patrimônio pessoal?

Hortência: Eu consegui muita coisa com o meu suor. Eu batalhei muito para isso. Eu jogo basquete há 13, 14 anos...

Augusto Nunes: Com suor literalmente!

[risos]

Hortência: Realmente, com suor! Eu batalhei muito para isso. Então, de repente, quando eu vou fazer os meus contratos - que são sempre contratos de trabalho, porque eu ganho porque eu trabalho na Minercal – então, geralmente, eu recebo propostas muito boas.

Augusto Nunes: Você negocia os teus próprios contratos?

Hortência: Eu mesma faço. Eu sou muito boa para fazer contrato! [risos]

Ouhydes Fonseca: Você disse que trabalha na Minercal, houve uma mudança lá. O Vendramini agora é o técnico e tal... Você participa de alguma forma? Você tem alguma atividade além de jogadora? Já colabora na equipe técnica, departamento técnico?

Hortência: Não, a equipe técnica eu não... Eu acho o Vendramini uma pessoa muito competente e não preciso me envolver.

Ouhydes Fonseca: A empresa não pede para você colaborar com o trabalho?

Hortência: O que ela me pede para colaborar, eu geralmente eu colaboro. Sempre dentro das minhas condições, eu sempre colaboro.

Juca Kfouri: Por esse caminho aí, Hortência... Você fez, logo no início do programa, um baita de um elogio à Maria Helena e acho que todo mundo reconhece nela uma técnica excepcional. Você acha que a Maria Helena poderia vir a ser técnica do time masculino de basquete?

Hortência: Não sei, eu acho que basquete feminino é diferente de masculino. Eu acho que ela é uma grande técnica do feminino. No masculino tem que pôr para ver, né? Realmente, eu não sei como ela se sairia. Mas eu acho totalmente diferente o feminino do masculino.

Juca Kfouri: Essa sensibilidade feminina que ela tem... Você a vê mais localizada para conduzir mulheres ou ela teria algum charme especial para dirigir homens?

Hortência: Eu acho que a competência de uma técnica não vai porque ela é mulher ou porque ela é homem, está certo? Porque ela entende de basquete. Ela pode discutir com qualquer homem o basquete. Agora, quanto a lidar com a pessoa fora da quadra - ou também dentro - eu acho que ela tem mais sensibilidade com mulher. Porque ela é uma mulher, porque ela já jogou... Eu acho que a sensibilidade dela é bem maior.

Augusto Nunes: Wlamir, você estava fazendo um sinal... Eu queria que você fizesse, então, a última pergunta do programa.

Wlamir Marques: Hortência, eu estava conversando com o Kfouri agora há pouco... Eu só quero que não me considerem um coveiro, vamos falar um pouco do basquete masculino, que você assistiu aquele último jogo. Nós vimos na televisão vocês torcendo ali. Eu não vou usar nenhum outro técnico masculino, eu vou usar a própria Maria Helena - que eu também gosto muito, amiga há muitos anos. Você acha que a Maria Helena - [se estivesse] no banco [na Olimpíada] nos Estados Unidos - naquele jogo final masculino, ela perderia aquele jogo?

Hortência: Vixi! Agora você... Talvez... Sei lá, não sei, realmente. Eu acho que o Brasil ganhou aquele jogo muito bem, inteligentemente. Porque o Oscar e o Marcel desequilibraram emocionalmente os jogadores dos Estados Unidos. Provocaram, começaram a provocar de uma maneira que eles desequilibraram emocionalmente os jogadores dos Estados Unidos. Por terem vinte anos de idade, eles se desequilibraram. São jogadores inexperientes... Ao contrário do Oscar que é considerado, como nós falamos aqui, é “macaco velho”. Como o Marcel... Quer dizer, eu não sei.

Norminha: Quer dizer, até um certo ponto foi válida a medalha de ouro e, em outro ponto de vista, se nós analisarmos, não. Se eles eram inexperientes com vinte anos e o nosso [jogador], "macaco velho", então não ganhamos nada?

Hortência: Isso não importa. O que importa é que eles tinham cinco contra cinco ali dentro e os nossos jogadores foram mais inteligentes. A maneira como eles ganharam, isso não interessa, o que importa é que realmente eles ganharam.

Wlamir Marques: Eu quis perguntar justamente pela maneira... Mas não tem dúvida, não vamos tirar os méritos do Brasil jamais. Mas eu acho que qualquer técnico brasileiro, principalmente o latino, dificilmente perderia esse jogo. Ele viraria a mesa de qualquer forma. Até invasão de quadra ele faria.

[risos]

Hortência: É que americano é tão educado que ele foi educado demais e até perdeu o jogo! [risos]

Wlamir Marques: É verdade!

Augusto Nunes: Nós encerramos aqui o programa Roda Viva da TV Cultura. Nossos agradecimentos à nossa entrevistada de hoje - Hortência de Fátima Marcari -, a Hortência da Minercal e da Seleção Brasileira de Basquete. Que você continue jogando com esse talento enorme que tem, continue fazendo muitos pontos pelo Brasil, pela Minercal, pelas equipes que você defender. Nossos agradecimentos aos nossos entrevistadores, aos convidados da produção. O programa Roda Viva volta na próxima segunda-feira às 21h25.

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