Memória Roda Viva

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Dercy Gonçalves

26/6/1995

Debochada e irreverente, a atriz arranca boas risadas e também emociona ao contar sobre as dificuldades enfrentadas na vida antes de se tornar a comediante mais famosa do Brasil

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[Programa gravado não permitindo a participação do telespectador]

Matinas Suzuki Jr.: Boa noite! Ela é a dama das comédias do mais verdadeiro teatro brasileiro. Oficialmente, ela acaba de completar 88 anos mas contesta essa data no papel e na vida. “Não sou velha e estou uma beleza”, diz. No palco iluminado do Roda Viva de hoje está Dolores Gonçalves Costa, a nossa Dercy Gonçalves. O Roda Viva agradece a Rede Globo pela presença da Dercy Gonçalves esta noite no nosso programa. Para entrevistar a atriz Dercy Gonçalves nós convidamos esta noite o escritor e dramaturgo Flávio de Souza; Maria Cristina Poli, apresentadora do programa Vitrine da Rede Cultura; o repórter do jornal O Globo, João Wady Cury; Marta Góes, redatora-chefe da revista Cláudia; Zeca Camargo, editor da Folha Ilustrada da Folha de S. Paulo; o repórter Sérgio Roveri, do Jornal da Tarde; e a atriz Iara Jamra. O Roda Viva é transmitido em rede nacional por outras trinta emissoras de sul a norte do Brasil. Como este programa foi gravado, nós não recebemos perguntas dos telespectadores por telefone ou por fax. Boa noite, Dercy Gonçalves!

Dercy Gonçalves: Boa noite!

Matinas Suzuki Jr.: Você está muito elegante.

Dercy Gonçalves: É! Eu sempre fui de apurar bem a minha idade, a minha personalidade. Sempre fui muito vaidosa e não gosto de deixar a peteca cair. Eu já estava falando para as meninas aí: a mocidade de hoje não liga quando elas são jovens, pensam que nunca vão ficar velhas, então estão ficando feias. Feias agora, quando ficarem velhas vão botar chapéu verde na cabeça pra ficarem bonitas.

[risos]

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, você está fazendo, agora, no Teatro João Caetano no Rio de Janeiro um novo espetáculo chamado Dercy Gonçalves: uma história, uma vida. Como é que é esse espetáculo?

Dercy Gonçalves: Não é nada de novo [risos]. É um espetáculo que eu tenho, esse espetáculo, há dez anos. Eu modifico... É como a Coppélia [ballet baseado na obra O homem de areia publicada por Ernst Theodor Wilhelm Hoffman (mais conhecido por  E.T.A. Hoffman) em 1815. Estreou na Ópera de Paris em 1870 e foi o espetáculo mais representado na cidade], como A viúva alegre [a opereta mais famosa do mundo, cujo texto é de autoria de Viktor Leon e Leo Stein e as músicas, de Franz Lehár. Estreou em Viena em 1905 e, além de várias adaptações, foi transformada em filme em 1952], a Traviata [ópera italiana La Traviata de Giuseppe Verdi]... É a mesma coisa. É um espetáculo que você vai, olha e morre de rir e diz “nunca vi tão engraçado”. E você já assistiu muitas vezes. Esse é o meu espetáculo! Porque, do contrário, eu não levaria o espetáculo tantos anos se o espetáculo não fosse um [enfatiza] sucesso. Porque eu - com esta idade - não iria estar blefando ninguém, nesta idade não estaria fazendo picaretagem, nem chantagem com os meus companheiros, meus brasileiros. E eles vão e me aplaudem na entrada e na saída.  Então, eu sou muito orgulhosa do meu espetáculo.

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, você, nesse espetáculo, faz uma homenagem também a toda a sua carreira e às pessoas que trabalharam com você, essa coisa toda. Tem algum papel que você gostaria de fazer e que não fez?

Dercy Gonçalves: Não, eu não tenho papel nenhum! Eu não penso em nada, eu gostaria de trabalhar. Que é o mal que tem o brasileiro - eu não sei por que. Ele encosta um artista - [o] bom encosta - e começa a fabricar artista, como agora estão fabricando na Globo mesmo, em todo lugar. “É o maior! É não sei o quê!”... A tal de Babalu [refere-se à Letícia Spiller, que interpretou a personagem Babalu na novela Quatro por quatro em 1994, na Rede Globo]... Eu nem sei se aquela mulher é artista. Eu acho ela uma mulher linda! Aquela puta mulher. Mas não pode dar adjetivos [como os] que você está usando agora comigo. Ah, eu me sinto a Babalu! Então eu não gosto. Dê oportunidade aos novos, mas não ilumine tanto [por] que eles caem em borra lá de cima, né? Porque ficam convencidos, ficam impossibilitados de aceitar um negócio menor. Não estou falando para esculhambar - porque eu nada faço para esculhambar ninguém - faço para construir, faço para que eles entendam que estão maltratando os artistas que estão começando. Você primeiro aprende a engatinhar, primeiro aprende a andar de carrinho, depois anda com suas pernas. Não! “Ainda bem começou engatinhar! É o maior! Super! Hiper! Caceta, faz tudo!”. É um horror!

[risos]

Matinas Suzuki Jr.: Ô Dercy, como é que você começou? Como é que foi?

Dercy Gonçalves: O meu começo foi muito simples, muito humilde, como sou até hoje. O meu sucesso termina ali. Eu não sou... Se eu fosse uma convencida nessa turma que anda aí... Pô! Andaria dando gritos por todo lado, porque o meu espetáculo é um sucesso. O meu espetáculo é um achado. Mas sou uma pessoa que acha que amanhã é outro dia. Não sei se amanhã ainda estou viva, se amanhã eles ainda me querem, porque nada... Todo mundo, tudo é descartável.

Maria Cristina Poli: Dercy, desse pessoal novo que apareceu nessas últimas décadas, qual deles que te faz rir?

Dercy Gonçalves: Eu não acho graça em ninguém, porra! Eu acho tudo tão superficial. Eles querem a comédia, vão fazer comédia... Pensam que sair vestido de mulher, de veado, ficar dando porrada um no outro, que isso é comédia. Comédia não é isso!

Maria Cristina Poli: Mas não surgiu nenhuma boa comediante?

Dercy Gonçalves: Não! Tem muita gente boa, tem muita gente boa. Muita gente nova até que não é... Que não tem “confete” em cima, mas tem muita gente nova muito boa.

Sérgio Roveri: Dercy, se você fosse chamada para fazer, por exemplo, um programa tipo A escolinha da professora Dercy [refere-se ao programa Escolinha do professor Raimundo, que era interpretado pelo comediante Chico Anysio e tinha outros humoristas como alunos], quem que você...

Dercy Gonçalves: Eu não gosto de escolinha! Eu não gosto de ensinar nada a ninguém! Eu não sou professora! Gosto muito que me dêem um texto que eu possa desenvolver à vontade. Agora, porque o Chico Anysio tem uma escolinha, então começa essa porrada de escolinha em todo o lugar! É uma falta de imaginação danada das televisões do Brasil, das pessoas, dos diretores do Brasil! É uma falta de imaginação! Não criam nada, só copiam! É uma vergonha, sabe? Então, pára!!! Não fala mais em escolinha que me irrita. [risos]

Sérgio Roveri: Complementando a pergunta da Maria Cristina... Comediantes novos... Você gostaria de trabalhar com algum?

Dercy Gonçalves: Eu não tenho nada com isso, eu não vou dar opinião. Fica mal pra mim se eu esculhambar uma. Eu falo da Babalu, mas é porque a Babalu está começando hoje... Ela nem sabe [mas] eu estou dando cartaz a ela, estou dando cartaz a Babalu. Eu acho ela é uma gracinha de menina, mas pô... Eu falo Babalu porque Babalu é um nome engraçado. Podia ser uma Babacachu [risos]. Podia ser, mas Babalu é engraçadinho. Eu falo dela porque o nome é engraçado, mas não que eu discrimine. [Como dizem]: “essa vai matar a Dercy”; “essa acabou com a Dercy”; “ah... agora a Dercy se fodeu”. [risos]

Marta Góes: Mas, Dercy, tem muitas atrizes que se orgulham de dizer que são da sua linhagem.

Dercy Gonçalves: Ah, mas tem que se orgulhar! Porque o meu estilo eu criei, permaneceu e é o que está comandando... Porque o estilo não era esse não, meu bem. Eu duvido que a dona... uma atriz qualquer dessas aí "classudas", que não assoam o nariz... Como é que é? [Duvido] que elas aceitassem levar um pastelão na cara. Não, não aceitava! Dar uma gargalhada, levantar as pernas, deitar na cama de mau jeito a não ser com tudo... Eu duvido. Esse é o meu gênero: é um gênero irreverente, é um gênero que lancei e que tenho muito orgulho de ser a professora desse gênero no meu país.

Marta Góes: Você reconhece alguma herdeira, digamos assim, do seu estilo?

Dercy Gonçalves: Não, não tem! Herdeira igual a mim não tem, igual Pelé não tem, igual ao Einstein não tem. Não tem! Mas podem fazer o gênero. Todas elas todas, todas... Atores, Nanini [Marco Nanini], todos eles estão fazendo o meu gênero. Estão fazendo aquilo que Dercy Gonçalves fazia e que era recriminada, que chamavam de puta, [e diziam] “bota essa mulher na cadeia!”. Porque os meus filmes eram assim... Quando saía um filme meu, eu tinha até medo de sair na rua. Porque [diziam] : “bota ela na cadeia!”. A imprensa [dizia]: “não presta! É uma merda! Pa-ta-ti...”. E hoje é cultura essa porra toda.

Matinas Suzuki Jr.: Ô Dercy, há uma passagem em seu livro - Dercy de cabo a rabo - que me chamou particularmente a atenção, que é a seguinte: que essa imagem que você criou da mulher aberta, que fala o que pensa, que fala...

Dercy Gonçalves: [Interrompe] Eu não sou aberta, eu sou fechada.

Matinas Suzuki Jr.: Exato, e que você... Com os homens, você tinha um comportamento que era um comportamento tímido.

Dercy Gonçalves: Ninguém sabe como é que eu estava com os homens, porque eu não fazia público. Como é que eles inventam? Eu falei no livro? Não, o livro...

Matinas Suzuki Jr.: Que você era tímida.

Dercy Gonçalves: Eu sempre fui, porque, meu filho, minha vida foi na Praça Tiradentes [centro do Rio de Janeiro]. Então ali, na Praça Tiradentes, sabe como é que eu fazia? Levantava da cama para tomar meu café e ia para o botequim da Praça Tiradentes. Ficava sentada ali até aparecer um que pagasse.

Matinas Suzuki Jr.: Você tinha quantos anos?

Dercy Gonçalves: Minha juventude, minha mocidade, até entrar no esquema da Praça Tiradentes. Aí fui para o Teatro São José [Teatro Municipal de São Paulo. Esteve instalado em diversas regiões da cidade e era obrigado a se mudar constantemente por questões políticas. Em 1898, o teatro estava no Largo Municipal, foi incendiado e, depois disso, instalado em seu local definitivo, no centro da cidade, próximo ao Viaduto do Chá]... Teatro São José, perdi... Ali no Teatro São José fiz uma temporada de sucesso... [Diziam]: “Dercy Gonçalves. Quem é essa menina?”. Era cantora. [Diziam]: “quem é essa menina?”. Só que depois fiquei tuberculosa, fui para o sanatório e ninguém mais me quis, ninguém mais me quis! Trabalhava no circo, trabalhava em parque, trabalhava em tudo, levantava a minha saia, mostrava as minhas pernas... São boas, eu tenho as pernas boas para trabalhar! [Mas] não queriam! Até que eu resolvi casar. Casei com um jornalista, peguei um otário [risos]. Casei com um jornalista... Eu disse: “porra, mas o que é casar com um jornalista? Porque [é] ele que comanda essa porra toda... Então eu vou casar”. Aceitei. [Ele disse]: “ah, vamos trepar?”. [Respondi]: “não, senhor! Não trepo, só caso.” [risos] Casei no dia 31 de dezembro de 1942.

Matinas Suzuki Jr.: E aí começou a mudar?

Dercy Gonçalves: Fui a pé para o escrivão, lá na rua Dom Manoel [centro do Rio de Janeiro], voltei a pé, fomos comer uma feijoada, na Praça Tiradentes. Foi o casamento. Eu não fiz casamento, fiz um arranjo, um negócio para a minha vida.

Matinas Suzuki Jr.: Foi aí que você mudou o nome, você já usava Dercy Gonçalves?

Dercy Gonçalves: Eu sempre usei Dercy Gonçalves, desde que sai da minha terra. Porque, em primeiro lugar, tinha medo do meu pai. Do meu pai não deixar, do meu pai não querer... Porque era ser puta, ser artista. Mas eu, então, tirei logo o meu nome. Botei Dercy porque a Dona Darcy Vargas era uma mulher muito importante na época, muito importante mesmo, como sempre foi e eu gostava do nome dela. Aí Dona Maria [...] disse bota Darcy, mas já tem o Darcy... Tinha um Darcy Casarré. “Ah, bota Der...”. Eu queria ficar no “Dar” ou no “Der”. [risos] E fiquei!

Maria Cristina Poli: Você rompeu com a sua família, Dercy?

Dercy Gonçalves: Eu não rompi, eu não tinha família! Meu pai... eu tinha medo dele porque ele sempre dava muita porrada, me bateu muito. Ele sempre foi muito severo... Na época... Isso tem setenta anos.

Sérgio Roveri: Ô, Dercy... Essa maneira como as garotas, as atrizes da época eram vistas pela sociedade, isso mudava com o sucesso ou não? Depois que você passou a fazer sucesso...

Dercy Gonçalves: [Interrompe] Mas eu não sei o que é sucesso. Eu não sei o que é fracasso, eu não sei o que é sucesso. O fracasso é quando você morre de fome, você vai para um asilo, você começa a pedir. E sucesso é aquilo: você [se] asfixia com tanta mordomia e depois tira. Não tive nem uma coisa, nem outra, tudo meu foi brando. Tenho minhas coisas, eu não tenho nada demais, não sou rica, não sou remediada, não sou porra nenhuma. Eu sou... Eu tenho para viver... vivo com o que tenho. O negócio é você viver com o que tem. Então é um sucesso a sua vida! A minha vida é um sucesso por que se eu tinha pão com feijão, eu gostava, eu estava feliz. Se não tinha, se comia [...]. Mas também nunca fui muito... Eu gosto! Até hoje a minha comida é angu, carne seca, feijão e arroz.

Sérgio Roveri: A qualquer hora, né?

Zeca Camargo: Para falar um pouquinho de costumes, assim... há pouco tempo tínhamos uma mini-série de TV, chamada Engraçadinha [baseada na obra de Nelson Rodrigues e exibida pela Rede Globo em 1995], onde você via que tinha muita malandragem, muita sacanagem de algumas décadas.

Dercy Gonçalves: A Malandrinha [confunde o nome] era do Nelson Rodrigues, que ele fez na minha época. Ele fez na minha época essa Malandrinha. E eles agora estão botando... Exagerando um pouco.

Zeca Camargo: Isso é o que eu quero saber, não era daquele jeito?

Dercy Gonçalves: Não sei, porque eu não li.

Zeca Camargo: Você viveu aquela época. Naquela época...

Dercy Gonçalves: Mas era natural ser puta! Qualquer uma era puta! A gente era puta [...]. Não queria ser puta-puta [prostituta], eu era puta de teatro. De teatro eu tinha carteira, carteira da censura, carteira da polícia.

Zeca Camargo: E hoje em dia, aquela carteirinha significa a mesma coisa?

Dercy Gonçalves: Não sei... Hoje não! Hoje a gente nem tem censura. Hoje eles não têm moral para chamar a gente, “não pode fazer isso”. Pode é mandar proibir, mandar metralhar, mas não pode proibir de dizer palavrão. Eles são o próprio palavrão. Nunca tive medo deles, nunca tive medo de ninguém, não.

Flávio de Souza: E quando você descobriu que você era engraçada, Dercy?

Dercy Gonçalves: Eu não descobri.  Foi sem querer... A necessidade, meu filho. A necessidade estava por lá, jogou a água e pulou. Então, o que aconteceu comigo, eu estava na Casa de caboclo [casa de espetáculos fundada em 1931 pela dupla Jararaca e Ratinho, Dercy Gonçalves, Duque e Pixinguinha] - conto no livro - quando fui fazer... Eu era cantora de igreja [enfatiza]. Era cantora séria, porra! Fiquei puta quando o Duque [Antônio Lopes de Amorim Diniz Miranda, dentista de formação dedicou-se à dança e criou coreografias e compôs canções que ficaram famosas, como o maxixe "Cristo nasceu na Bahia"] me chamou para substituir a Durvalina [Duarte, era uma das estrelas que atuava na Casa de caboclo] para fazer um “papelzinho” para dar entrada aos grandes atores [na verdade cantores e compositores] que eram Jararaca e Ratinho [Jararaca, José Luís Rodrigues Calazans, e Ratinho, Severino Rangel de Carvalho, formavam uma dupla de música caipira autores de sucessos de difusão na Rádio Nacional: Passarinho verde, Alma de tupi e Caboclo de raça]. Porra! Eu fiquei puta da vida! Ah, é... Eu acho um desaforo! Eu já era estrela, já sai da minha casa estrela! Nunca fui pilantra... Não aceito, não aceito! Até na Globo [enfatiza] se me mandam um papel que eu não gosto, devolvo! Enfia no cu [por] que não quero isso. [risos]

Iara Jamra: Você acha que quando uma mulher é engraçada... Você é uma mulher engraçada...

Dercy Gonçalves: [Interrompe] Eu sou uma mulher engraçada!

Iara Jamra: Graças a Deus, porque eu te adoro! Você acha que uma mulher, quando ela é engraçada, ela conquista os homens ou afasta os homens? Na hora de namorar...

Dercy Gonçalves: Não... Você sabe que o homem... eles têm um desprezo danado pela cômica, sabe? A mulher cômica é muito discriminada. Eles gostam mais do homem, não gostam muito de mulher cômica.

Iara Jamra: O homem engraçado é atraente. E a mulher?

Dercy Gonçalves: É atraente... [Com] A mulher cômica eles têm uma discriminação. Mas eu como nunca andei atrás de homem - porque pra mim eles não me fazem falta nenhuma, nunca me fizeram...

Maria Cristina Poli: [Interrompe] Nunca fizeram?

Dercy Gonçalves: Nunca me fez falta. Eu nunca dei importância a isso não. Mas que tem discriminação, tem. Para qualquer negócio não chamam mulher, chamam homem. Só quando não tem mais nada a fazer, então eles chamam. Eles têm coragem de chamar o homem para fazer veado, fazer bicha, fazer travesti, mas não chamam a gente nem para merchandising, nem para determinados negócios... Não chamam mulher cômica.

Marta Góes: Se você fosse homem, sua vida teria sido mais fácil, Dercy?

Dercy Gonçalves: Se eu fosse homem, odiaria. Adoro ser mulher! Adoro ser mulher!  Sou uma feminista nata e sem título, porque gosto de ser mulher, aprecio a minha atitude, gosto de ser vaidosa. Imagina se fosse homem? Podia botar colar? Podia botar brinco? Ficariam todos discriminando. Podia botar a perninha de fora? Podia botar meia de seda? Como é lindo ser mulher! Mulher que pare. Não tem coisa mais linda que você ser criadora do mundo. É mulher! Mulher tem um valor espetacular. Como é que eu vou querer ser homem? Porra! Que enfia aquela banana e não faz mais nada?! [risos] Puta que pariu!

Matinas Suzuki Jr.: O que você acha das feministas?

Dercy Gonçalves: Eu acho elas umas babacas, porque as feministas ficam com um idealismo falso. Elas não enfrentam... Tudo tem marido, tudo tem.. [São] cortejadas, resguardadas. Vai enfrentar a vida como enfrentei: sozinha no mundo, sem mãe, sem pai! Estive um ano, quase, no sanatório. Só recebia visita do homem que foi o pai da minha filha, que me visitava. [Ele] me dava um beijinho, pagava as minhas contas. Esse homem - um homem só - que foi um santo. Sou uma mulher de muita sorte, tive esse homem. Agora, pô! Pra quê? Pra quê?

Maria Cristina Poli: Mas você foi apaixonada por ele, Dercy?

Dercy Gonçalves: Não, não fui! Mas, porra... O homem que te dá isso você não respeita profundamente? Ele foi o pai da minha filha. Depois que eu fiquei boa, ele veio me trazer e disse: “agora você vai viver a sua vida”. E me fez um pouco de carinho... Eu já estava acostumada, mas aí ele já queria trepar. Dei... Dava tudo que ele quisesse!

Maria Cristina Poli: Mas algum homem te virou a cabeça?

Dercy Gonçalves: Não, ninguém vira a minha cabeça. Eu nunca me virei. Eu enganei eles como eles me enganaram [risos]. Fui na onda, eles me enganaram, eu enganei. Ele trepou, eu trepei eles, foi tudo assim.

João Wady Cury: Os homens têm medo de você, você acha?

Dercy Gonçalves: Não sei se têm medo... Eu não me queixo se ele gosta ou se ele não gosta. Estou contando a ela o que sou. Eu acho o homem maravilhoso. Gosto de homem. Gostaria de ter um homem. Gostaria de ter um homem. Aquele homem que me respeitasse, aquele senhor [enfatiza] ao meu lado. Não cheio de asma como estou hoje! Cheio de gosma, não! Mas aquele homem que [dissesse]: “vamos fazer um passeio?”; “vamos fazer uma viagem?”; “vamos...”. [Que] eu chegasse para chorar as minhas mágoas perto dele. Às vezes até fingir, fazer charme, [por] que é bom ser gata, né? De vez em quando, enroscar é muito bom. Eu gostaria muito de [um] homem, acho homem um negócio muito [enfatiza] lindo, mas eu não quero.

Zeca Camargo: Mas esse homem existe? Que você está procurando... Para encostar e tudo...

Dercy Gonçalves: Existe, existe homem de todas as espécies. Homem bom, mau, grosseiro, delicado, meigo, chato, o homem que não é homem, que finge de homem, que toma no cu e finge que ele bota. Então essas coisas não me agradam.

[...]: Que tipo deles você encontrou mais, Dercy? Ou todos?

Dercy Gonçalves: Eu encontrei todos, encontrei quase tudo igual... Engraçado... Encontrei esse pai da minha filha. Primeiro porque fugi de casa... Era um homem garanhão. Mas ele já estava doente. Tanto era garanhão que ele me pegou. Sem responsabilidade nenhuma. Era um garanhão porque, pela lógica, ele não poderia me aceitar. Primeiro [por]que ele não sabia quem eu era: se era uma menina, puta, escrota, mau-caráter. Ele me pegou. Me aceitou, porra. Então ele era um garanhão sem conseqüência, mas teve consciência. Não foi um perverso comigo. Ele, naturalmente, viu a facilidade... Ele veio fazer sexo comigo. Estava pensando que eu já era treinada naquilo. Eu não sabia que aquilo existia, eu não sabia. Abre, abre, fecha, fecha, lambe, lambe, fica, fica. [risos]

Sérgio Roveri: Isso foi em Madalena [Santa Maria Madalena, sua cidade natal] ainda ou já foi no Rio [de Janeiro]?

Dercy Gonçalves: Não, já foi na estrada. Já foi na estrada. Não foi nem em Madalena e nem no Rio. Foi em Leopoldina. Fiquei com muito medo quando ele me enfia um negócio, que eu tive a impressão [de] que era um facão. Aquela dor... “Sentei o pé” e sai correndo pelo hotel afora. Fui parar na polícia. Eu e ele. Chegando lá a gente contou a história. Mas não era para ir preso nem para bater nele. Não queria mais aquilo e nunca mais tive nada com ele. Dormia com ele, comia com ele... Vivemos cinco anos até ele morrer. É, eu sou paciente! [risos]

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, voltando um pouco ao seu casamento... Você disse que quando casou, a partir daí a sua vida começou a mudar. E como é que foi, então?

Dercy Gonçalves: Mudou de sociedade, porque eu era uma pilantrazinha da Praça Tiradentes, que trabalhava... Era pilantra num modo geral, mas nunca fui. Nunca fui. Era aquela pilantra que saia de casa... Aquela menina sem governo, sem ninguém que mandasse, sem orientação... Sentava no café, batia papo com um, batia papo com outro, pagava almoço... Um pagava o almoço, outro pagava o café e eu ia tirando a minha féria ali, quando eu não tinha dinheiro... Quando tinha, eu ficava um pouco no quarto. De noite lá, [se corrige] ali se faziam negócios, ali se contratava para circo, para show, para viajar para o interior. Era ali. Eu tinha que estar ali, não podia perder uma vez. Então ali eu acertei... [se corrige] Acertava a minha vida. Então... O que você perguntou?

Matinas Suzuki Jr.: Eu perguntei como é que começou, depois do casamento, como é que você começou a carreira artística?

Dercy Gonçalves: Não, depois do casamento já tinha um marido. Ele era publicista, tinha um salário bom que dava... Eu já estava ganhando alguma coisinha a mais. Já tinha sido estrela da companhia Jardel Jércolis, do Jércolis. Não tinha [incompreensível]. O Jardel fez Paradise [uma das companhias de teatro que criou] não sei se alguém aqui lembra da Paradise. Que ele levou no [teatro] República [inaugurado em 1965 no Rio de Janeiro e vendido para o Ministério da Educação e Cultura em 1966, tendo seu nome alterado para Teatro Novo]. Fui estrela da companhia até meio de emergência, porque as estrelas eram três argentinas, mas fracassou no segundo ato ele chegou no camarim e disse: “eu vou te dar o lugar o lugar de argentina. É minha estrela!”. [risos] Então aceitei de braços abertos e aumentou o meu ordenado. Eu ganhava oitocentos, passei a ganhar dois mil e duzentos.

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, e o fato de você ter sido mãe mudou a sua vida?

Dercy Gonçalves: Não. Não mudou nada porque, primeiro... Filho eu não queria. Mas tanto não mudou que eu não fiquei com o pai dela. Eu não quis ficar. O meu mundo foi o que Deus me deu: ser artista. Eu não podia abandonar a minha carreira por nada neste mundo, nem pela minha filha. Mas procurei proteger, esconder daqui, esconder dali para não ser puta, porque eu não queria que fosse puta.

Maria Cristina Poli: Mas você acha que não combina a vida de artista com a vida em família?

Dercy Gonçalves: Não, é muito sacrifício. A família... hoje não tem mais, meu bem! Quem é família e quem é puta? Hoje não tem puta. Puta virou família, família virou puta: tá uma merda! Não sei mais quem é quem hoje. Eu digo, na minha época, eu trazia a minha filha escondida como Jesus foi escondido quando Maria fugiu. Assim fui eu com a minha filha [pensando]: “aqui na Praça Tiradentes é ruim, as amizades vão ser ruins. Na Praça da Bandeira [centro de São Paulo] também não presta, eu vou botar na Tijuca... [Em] lugar nobre é capaz de arranjar um casamento bom”. Pois lá ela arranjou um casamento bom. Arranjou um casamento muito bom, um marido espetacular, uma família formidável e que eles foram felizes por quarenta anos. Viveram juntos até ele morrer.

Matinas Suzuki Jr.: Ô Dercy, e esse ambiente do Rio de Janeiro que misturava boemia e que era um ambiente muito...

Dercy Gonçalves: Eu não vi isso muito não, meu filho. Eu nunca vi o que é boemia. Eu fui uma boêmia permanente, eu sou...

Matinas Suzuki Jr.: É, mas hoje o Rio de Janeiro tem muita violência, mudou muito...

Dercy Gonçalves: Violência tem no Brasil todo e o mundo inteiro está violento. Eu ainda não vi um tiro. Você já viu? [risos] Pô! Nem na Revolução eu vi um tiro! [risos] Tem muita violência... falam... O jornal, vocês fabricam violência. Fabricam violência. Olha o cara! Eu estava pensando, estava vendo ontem... O cara sai de casa, vai sei lá fazer o quê, leva um tiro de dinamite! Lá da rua vai pegar no crânio dele! Vai ser infeliz na puta que o pariu. [risos] É muita falta de sorte!

Matinas Suzuki Jr.: Como é que foi a sua experiência no cinema? Como é que você começou?

Dercy Gonçalves: Eu não fiz experiência nenhuma! Eu fiz filme.

Matinas Suzuki Jr.: Mas como é que foi o primeiro? Como é que você foi chamada?

Dercy Gonçalves: Eu fiz com o [Adhemar] Gonzaga [(1901-1978) jornalista e cineasta. Produziu filmes como Romance proibido (1944), em que Dercy atuou]. A gente era chamada como se fosse o último.

Flávio de Souza: Mas ganhava pouco, né?

Dercy Gonçalves: Nunca ganhou nada, e alguém ganhou? Tem alguém aí de cinema, vivendo de cinema? Pô o Anselmo Duarte... Palma de Ouro [ator, roteirista e diretor de cinema. Ganhou o prêmio máximo do Festival de Cannes com o filme O pagador de promessas (1962) sendo, até 2008, o único filme brasileiro que conseguiu tal premiação] Palma do cacete... Porra, tá aí numa miséria que faz gosto. Imagina eu, que fiz, no máximo, uns quarenta filmes? E fiz aqui, ali... Quando ninguém queria, me chamavam. E sempre quando não tinha dinheiro... Na hora do almoço davam descanso para todo mundo, para ir todo mundo para casa comer, pra ninguém [da produção do filme] pagar comida.

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, nós estamos vendo imagens suas da Baronesa transviada [(1957) comédia dirigida por Watson Macedo na qual Gonçalina, vivida por Dercy Gonçalves, é uma moça pobre que descobre que poderia ser a filha desaparecida de uma baronesa muito rica e, após herdar a fortuna da baronesa, resolve realizar seu sonho de produzir um filme].

Dercy Gonçalves: Baronesa, fiz é... Catalano [(1904-2000) Humberto Catalano iniciou sua carreira no teatro em 1924, logo passa a fazer parte do cinema nacional que, na época, ainda era mudo. Na década de 1940, contratado pela produtora Atlântida Cinematográfica, passa a atuar em comédias como Gente honesta e Esse mundo é um pandeiro. Além disso, trabalhou em produções televisivas como O primo Basílio (1988, Rede Globo). Parou de trabalhar nos anos 1990, após um derrame que deixou sua saúde bastante frágil]. Catalano, um ator espetacular! Sabe o quê? Está lá, abandonado... Operou, cortou uma perna. E ele é de uma família muito importante, família Catalano. O irmão dele é ministro. Foi ministro. Ta aí... Cadê ele? Ninguém fala desse cara, foi um ator espetacular!

[Trecho do filme Baronesa transviada]

Maria Cristina Poli: Você sente alguma saudade, Dercy?

Dercy Gonçalves: Eu não! Não tenho saudade de nada, uma coisa que eu não tenho é esse defeito.

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, você conta no seu livro que esse filme você teve que fazer... Era um rolo só e vocês tiveram que filmar rapidamente. Como é que foi? Você lembra disso?

Dercy Gonçalves: Todos eles, meu filho! Não teve um que não fosse. Eu fiz a Lucrécia Borgia [refere-se ao filme Uma certa Lucrécia, de 1957, sobre a famosa personagem do Renascimento espanhol] lá em São Paulo... Na Vera Cruz [uma das mais importantes companhias cinematográficas brasileiras nos anos 1950 situada no estado de São Paulo], o escambau. Tudo na miséria, sempre na miséria. Não pode repetir filme porque não tem filme, não tem rolo, não tem porra nenhuma. O cinema brasileiro a vida toda foi assim. Agora não, agora eles dão milhões para um artista, milhões para fazer a produção. Não sei pra quê, porra! A gente aqui com o cenário maravilhoso que a gente tem da vida, não precisava nem cenário para fazer nada.

Marta Góes: Mas você acha que melhorou a vida de um artista popular no Brasil? É mais fácil hoje?

Dercy Gonçalves: Mas pra mim foi ótimo, pra mim eu sou um artista popular e vivo muito bem, porque eu não dependo de ninguém. Não dependo de Globo, não dependo de Bandeirantes, não dependo de ninguém. Eu fiz o meu... minha trouxinha, minha bagagem e sai por aí. Eu sou uma verdadeira judeu errante. [risos] Eu viajo, eu faço vinte shows por mês. Vou parar sabe onde? Pra lá... Rio Branco, perto do Acre. Muitas vezes fui. Agora a maioria quer ficar nos grandes teatros e ainda querem subvenção! Acho uma sacanagem dar dinheiro para artista montar o seu ego, para satisfazer o seu ego. Tem que montar [...] é teatro! Você que vá lutar para conseguir! Vá lutar para conseguir, porra! Agora dar dois milhões, cinqüenta milhões, três mil milhões! Porra! Para montar aquela merda que foi lá no João Caetano, só de tora de madeira?! [risos] Ah, isso é uma molecagem!

Zeca Camargo: Dercy, eu vi você assistindo o seu filme aqui... E o cinema estava pela primeira vez permitindo que você se visse, né? Quando você se viu na tela você achou que você...

Dercy Gonçalves: Sempre não gostei, achei uma merda. Não gosto de mim na televisão. Pensava que era mais bonitinha, estou uma bosta. [risos]. Eu não gosto de me ver! Não gosto, não.

Zeca Camargo: Por isso então talvez você prefere teatro? Sempre o palco?

Dercy Gonçalves: Eu não prefiro o teatro, o teatro me prefere. As televisões são muito filhas da puta. Elas sacaneiam muito os artistas. Um ordenado... Um dia desses, vou contar, é um segredo lá da... Marcelo Madureira [me perguntou]: “Dercy quer fazer um [...] aqui no Casseta e planeta?”. Respondi: “vou!”. [Eu ia] fazer a Maria Paula. Porra! Achei aquilo espetacular, li o texto [achei] maravilhoso. [Pensei]: “vou fazer essa merda!”. Queria a roupa dela, roupa curta [risos]! Quero roupa curta. Deram uns mulambos compridos pra mim. Deixa de ser besta! Quero roupa curta, perna de fora, igual a ela! Ela é uma gracinha. [Perguntei]: “bem, quanto é?”. [Disseram]: “mil cruzeiros”. Ah, enfia no cu! [risos] O Boni ficou puto da vida porque me ofereceram aquilo. Eles nem sabem. Uma molecagem filha da puta com os artistas. Eu vou aceitar mil cruzeiros? Eu tenho prazer de fazer, eu quero [enfatiza] trabalhar, eu quero trabalhar. Eles não me chamam porque eu entendo da coisa. [...] Então a mim... Eles ficam com medo de me chamar a atenção. Até quero contar... Eu obedeço com um certo critério, um certo critério. [risos]

Zeca Camargo: Não deve ser muito fácil dirigir Dercy Gonçalves?

Dercy Gonçalves: Não sou, não! Não sou fácil de jeito nenhum! Mas espera aí: entre você ser fácil e você ser uma... [Entre] Ser [uma atriz] fácil, [mas] uma merda e ser uma difícil, mas que chega e diz o que está fazendo, não é muito mais negócio? Porra, primeiro que é a casa não é deles, eles não têm direito de discriminar! Porque eles estão ganhando para levar para a televisão e eu tenho certeza que Roberto Marinho me adora.

João Wady Cury: Você não reclama com o Boni quando isso acontece?

Dercy Gonçalves: Eu não vou levar intriga para Boni. Boni tem muita coisa para fazer. Boni é a cabeça da televisão! Boni é um gênio, é um gênio! Eu não vou chegar lá fazer... Fazer intriguinha de [Edwaldo] Pacote [jornalista, foi diretor de programas da Rede Globo e assessor de Boni]. Pacote me sacaneia... [risos] Você sabe menino que implica com outro?

[...]: Quem é esse Pacote?

[...]: Esse Pacote é o cara que libera os artistas da Globo.

Dercy Gonçalves: Libera os artistas. Ele não manda fax... O Boni manda, ele não manda [o fax]. Agora mesmo em Natal, em São Luiz do Maranhão e Manaus, Boni [disse]: “Pacote, manda um fax pro teatro”. Fiquei esperando e não saiu nada na Globo. O Pacote não mandou. Uma vez o Boni me convidou para ir ao camarote da Globo para assistir o desfile [das escolas de samba do Rio de Janeiro].

Matinas Suzuki Jr.: O desfile.

Dercy Gonçalves: Mandou mandar um retrato, mandar não sei quê, eu mandei o meu. Vocês sabem que ele sumiu com o meu retrato? [risos] Ele sumiu com o meu retrato e eu não fui. E eu tinha um convite para ir assistir o Beto Carrero [(1937-2008) empresário e ator conhecido por seu personagem caubói que representou em filmes e programas de TV. Criou o maior parque temático da América Latina em 1991 - o Beto Carrero World - no qual se apresentava com cavalos e animais ferozes], que ele mandava passagem, mandava tudo. Não fui. Perdi o Beto Carrero e perdi o desfile! Esse Pacote é uma piada! [risos]

Maria Cristina Poli: Você estava dizendo, antes de começarmos a gravar aqui, que você... Que não adiantava combinar nada com você [por] que você esquecia tudo...

Dercy Gonçalves: Não combina nada comigo, [por]que eu não faço.

Maria Cristina Poli: Você dá muito trabalho nas gravações? Como que é?

Dercy Gonçalves: Não dou, sou profissional pra burro.

Matinas Suzuki Jr.: E como é que você faz a fala? Você segue a fala?

Dercy Gonçalves: Tem ponto! Tem ponto eletrônico! Pode deixar. E saiu uma vez... marcou, pode deixar, tá bom? Quer chamar alguma atenção? Quer alguma advertência? [Se] não tem, então pode tocar [em frente].

Maria Cristina Poli: E o ponto fica dizendo pra você: “faz assim” ou “pára”, “não sei quê”? O que ele fala?

Dercy Gonçalves: Eu respiro para me dar a deixa que tem. Porque eu fico muito agitada e esqueço... [risos]

Sérgio Roveri: Dercy, você já deu muito baile em quem contracena com você?

Dercy Gonçalves: Não, eu não! Às vezes... As pessoas que contracenam comigo, que são artistas verdadeiros, eles não sentem constrangimento. Quem diz que dá baile é canastrão, sabe? Que tem medo até da mãe dele. [risos] Canastrão que tem.

Matinas Suzuki Jr.: Ainda na questão do cinema. Nós temos umas imagens.

Dercy Gonçalves: Você não quer falar de Madalena [sua cidade natal], não, porra?

Matinas Suzuki Jr.: Podemos falar de Madalena!

Dercy Gonçalves: Eu quero falar de Madalena!

Matinas Suzuki Jr.: Então diga!

Dercy Gonçalves: Eu tenho uma mensagem. Eu tenho um recado para dar para Madalena. Eu estava esperando o seu programa!

Matinas Suzuki Jr.: Eu ia perguntar... Para você dizer isso!

Dercy Gonçalves: Ah, pois é! Você estava demorando! [risos]

Matinas Suzuki Jr.: Então dê o recado para Madalena.

Dercy Gonçalves: O meu recado para Madalena é o seguinte. Estou com um problema com o prefeito de Madalena. Acho isso uma guerrinha besta por causa de uma bobagem. A bobagem é que ele foi processado por uma sobrinha minha porque... Para pagar um salário, dois salários e ele não pagou. Ele ficou devendo os encargos, aquela coisa toda. Sabe quanto é que resta, [quanto] tem que pagar? Dois mil cruzeiros. Queria dizer a ele para não brigar, só para ele não roubar mais. Para ele ficar quietinho, que eu pago os dois mil cruzeiros, ou até mais, o que for. Não quero é que tire dinheiro da minha terra. Não quero que onere a minha terra. A minha sobrinha fez muito mal de processar, porque eu luto para a minha terra não ser onerada. Eu vou fazer as compras da minha casa lá. Tudo que eu posso levo pra lá, porque é uma terra pobre. Terra de gente séria, de gente direita, mas eu não quero onerar. E o prefeito... Eu queria que ele não roubasse. Porque tem uma verba semanal que eu queria ver onde é que ele enfia. Queria ver onde é que ele enfia essa verba? E que lá Madalena não tem nada, continua não tendo nada: nem esgoto tem, não tem água, não tem estrada, não tem uma diversão. O meu museu ele botou abaixo, o meu túmulo ele pichou, o meu busto ele quer tirar pra fazer rolo de fazer pão na casa dele.

Zeca Camargo: O museu não vai ter então, Dercy? Como é que fica a história do museu?

Dercy Gonçalves: Eu vou fazer o museu, porque o meu espetáculo no João Caetano, eu vou... a renda... vou arranjar pra ver se eu compro o museu, compreendeu? Porque é aqui... eu estou no Hotel Bristol. Aqui o Hotel Bristol também está angariando dinheiro para mim. O Hotel Bristol é muito bom, está me angariando dinheiro pra mim.

Zeca Camargo: A gente não vai ter oportunidade tão fácil assim de ir nesse museu. O que tem no museu?

Dercy Gonçalves: O museu tem tudo que é meu. Você vai ver Dercy Gonçalves do princípio ao fim.

Zeca Camargo: De cabo a rabo.

Dercy Gonçalves: Lá no museu. Eu tenho jornais de 1919.

Zeca Camargo: Com críticas suas de peças? O que é?

Dercy Gonçalves: Com críticas minhas falando de meu pai... Meu pai era alfaiate [...] Então eu tenho... Eu tenho coisas, roupas... Meu acervo todo está lá. Não é o museu do Louvre [risos]! Não é o museu do Louvre [situado em Paris possui um dos maiores acervos do mundo]. É o museu de Madalena, como eu quero. Não quero museu pra fazer ostentação a Madalena. Quero um museu com preguinho, uma casa com preguinho, para cobrir. Agora, não quero que o cupim leve a minha roupa como está levando.

Marta Góes: Dercy, por que em Madalena? Por que...

Dercy Gonçalves: Porque é minha terra, não tem outro lugar mais importante do que minha terra. Aqui fazem festa. Cadê Carmen Miranda, que fez o nome do Brasil lá fora? Já levaram até os tamancos da mulher! [risos]

Marta Góes: Mas a sua terra não te tratou bem, como você conta no livro, né?

Dercy Gonçalves: Não, não me tratou bem, não. Minha terra sempre me tratou bem. Quem não trata bem são determinados moleques. E naquela época também era. Não posso me queixar da minha terra. A terra me deu, me nasceu. Minha mãe era de lá, meu pai era de lá.

Matinas Suzuki Jr.: Quantos habitantes tem Madalena?

Dercy Gonçalves: Sei lá, porra. Tinha cinqüenta antigamente, agora tem dez. [risos] É uma terra pequena, mas é linda. Olha, o mal é que vocês não mandam ver. Vai lá ver a sacanagem que o prefeito faz! Vai lá ver o que eles fizeram! Ficam ouvindo a mim, parece que eu sou uma fofoqueira, uma mulher cômica [que] fica fazendo graça e falando mal da minha terra. Não estou falando mal da minha terra, estou defendendo a minha terra. E a minha terra é digna porque é o terceiro [melhor] clima do Brasil, compreendeu? É uma vergonha, porque quase todo prefeito tem o mesmo defeito. Mas, pelo menos, respeite... Eu estou aqui e, se posso defender, eu defendo a minha terra até morrer.

Matinas Suzuki Jr.: É no estado do Rio de Janeiro?

Dercy Gonçalves: É no estado do Rio de Janeiro. Por que não manda uma CPI, não manda ver o que está acontecendo lá? [Me perguntam] “Que foi o que aconteceu, Dercy? O prefeito...”. Ah, porra! Não quero nada disso. [risos] Não estou aqui para fazer fofoca nem perder tempo com sacanagem, porra! Não sou de sacanagem, sou uma mulher íntegra. Estou falando porque é verdade. Eu seria incapaz de chegar aqui para aproveitar uma mídia espetacular, como eu tenho, para fazer uma babaquice para a minha terra. Sou uma mulher direita, sou uma mulher que não deixou rabo na vida, não é agora, com oitenta anos, que vou deixar minha moral se abalar.

Sérgio Roveri: Dercy, você já o conhecia antes da eleição?

Dercy Gonçalves: Quem?

Sérgio Roveri: O prefeito?

Dercy Gonçalves: Conheço ele há muito tempo. Eu tenho muitas coisas, tenho [...] há muito tempo. Ele não é um grande criminoso, o grande criminoso é o prefeito que veio e ele apoiou. Então, se ele apoiou... Eu estava apoiando ele, pensando que ele não iria apoiar o outro. De repente, ele vira para mim e diz: “time que está ganhando não se tira”. Eu digo: “seu filho da puta! Você não podia fazer uma coisa dessas comigo. Então corta! Estou cortada, compreendeu?”. E apoiou a molecagem do outro e continuou fazendo a mesma coisa. Então é isso que precisava. Eu não posso dizer: "ele roubou aquele, roubou...". Isso precisa provas, eu não tenho provas. Vai lá, gente, pelo amor de Deus! [grita] Pelo menos deixa a minha moral limpa, que eu não estou aqui para falar besteiras.

Flávio de Souza: Aquela história do túmulo que você falou que ele pichou, o que é isso?

Dercy Gonçalves: Mandou pichar meu túmulo, mandou uma menina receber santo e dizer que meu túmulo em forma de pirâmide dá azar na cidade.

Flávio de Souza: Quem é essa?

Dercy Gonçalves: Uma menina lá recebeu um santo. Olha, ficaram com medo! Mas aí... Olha, eu nem quero falar mais, nem tocar no assunto. Eu pago porque ele, o que ele... Porque a briga começou por causa desse processo que ela [a sobrinha] fez em cima dele, querendo os direitos dela. Que ela também não deveria ter feito, porque se ela me contasse [antes] eu diria: “eu te pago, mas não tira o dinheiro de Madalena”.

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, podemos - agora já falamos de Madalena - voltar ao cinema?

Dercy Gonçalves: Pode falar que eu sei [por]que você adora [...] até da tua mãe. [risos]

Matinas Suzuki Jr.: [risos] Está bom. Mas olha, você fez o filme Se meu dólar falasse, em 1970. Nós temos umas imagens desse filme, que gostaríamos de ver. [Trecho do filme] Você disse que o diretor Carlos Coimbra [(1925-2007) também foi roteirista, ator e produtor de filmes] foi o único que conseguiu te manter nas filmagens, tal... o que foi?

Dercy Gonçalves: Não, o Carlos Coimbra foi o único que disse que não queria que eu fizesse graça. Ele disse: “não quero que faça graça”. Eu disse: “está bem!”.

[...]: Mas não era uma comédia?

Dercy Gonçalves: Ele me contratou para fazer aquela atriz aqui do... Como é que...? Cacilda Becker [(1921-1969) considerada o maior mito do teatro nacional pela forma revolucionária de interpretação e por ter morrido cedo, aos 48 anos, praticamente em cena. Participou do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), Teatro de Arena e Teatro Oficina e atuou em dois filmes]! “Não quero que faça graça!”. Carlos Coimbra! Então, eu não fazia graça.

Zeca Camargo: Foi muito difícil não fazer graça?

Dercy Gonçalves: Não, para mim era...

Zeca Camargo: Mais um papel.

Dercy Gonçalves: Se riram, eu não fiz com graça. Riram. [risos]

Matinas Suzuki Jr.: Você faz alguma distinção entre papel sério e papel...

Dercy Gonçalves: É... Um papel para mim não tem seriedade. Eu torço ele como eu quero. Hoje eu tenho a capacidade de saber fazer o que eu quero da graça, o que eu quero do papel. Até a [oração] - Ave Maria - eu faço você mijar de rir.

Marta Góes: Dercy, e quem faz você rir?

Dercy Gonçalves: Muita gente, muita gente me faz rir, mas eu não vou discriminar quem é porque nem sempre... O Jô Soares [(1938) humorista, escritor e diretor de peças teatrais, comandou um dos programas mais famosos da televisão brasileira, o Viva o gordo. Desde 1988, apresenta programas de entrevistas. Escreveu, entre outros livros, O xangô de Baker Street], de vez em quando, dou umas boas gargalhadas dele. Gosto de ver o Jô Soares. Gosto do Golias [(1929-2005) Ronald Golias, comediante que atuava no programa de TV A praça da alegria (1953) de Manoel da Nóbrega e ficou bastante conhecido ao interpretar, mais tarde, Pacífico no programa A praça é nossa de Carlos Alberto da Nóbrega, filho de Manoel. Com este personagem cunhou o famoso bordão "Ô, Cride! Fala pra mãe!". Também participou de programas como Família Trapo e alguns filmes aolado de Grande Otelo, outro grande humorista brasileiro] , gosto do Ivon Curi [(1929-1995) considerado um dos maiores showman do Brasil, era ator e cantor. Iniciou sua carreira no rádio, apresentou o famoso Ritmo da Panair, na Rádio Nacional, nos anos de 1940. Nos anos 1950 foi eleito o rei do rádio, cantando canções como "Me leva", "Tá fartando coisa em mim" e "Xote das meninas". Posteriormente, teve grande reconhecimento como humorista em programas de televisão e filmes como O petróleo é nosso, de 1954] - o Ivan Curi que agora está passando mal. Gosto de quem... Gosto... O Costinha... [(1923-1925) humorista  brasileiro conhecido por suas piadas e palavrões. Representou Seu Mazarito no programa Escolinha do professor Raimundo, criado por Chico Anysio] eu acho o Costinha muito relaxado. Uma vez ele disse: “é muito engraçado você dizer que me acha imoral”. Eu disse: “acho. [risos] Acho você muito imoral”. Eu não sei por que, mas eu acho.

Matinas Suzuki Jr.: [fala como se fosse a Dercy] “Com toda a moral para falar do assunto eu acho”. [risos]

Dercy Gonçalves: Eu acho! E eu falei a ele... Ele disse: “você me acha imoral?”, [eu disse] “acho”. Eu tenho moral. [risos]

Maria Cristina Poli: Dercy, o dinheiro que você ganha - estou vendo aí você toda caprichada com jóias e tudo mais - você gasta com o quê?

Dercy Gonçalves: Eu tenho uma família que sustento. Tenho uma família que sustento não [se corrige]: eu ajudo minha família. Tenho uma porrada de gente que está debaixo das minhas asas. Agora, não faço promoção. Nem peço subvenção. Nunca ganhei um vintém de ninguém. Então, o meu dinheiro eu não conto, não digo, não falo o que faço. Porque é ganho suado, não tem moleza, não ganho dinheiro de ninguém. Nunca ganhei uma subvenção, nunca tive [...]. O único dinheiro mole que ganhei foi a Antarctica [empresa de bebidas] que me pagou para dizer: “falou!”. [risos]

Maria Cristina Poli: E essas jóias lindas?

Dercy Gonçalves: Essas jóias aqui quase tudo foi o Faustão [Fausto Silva] que me deu. Tudo isso foi o Faustão que me deu nos meus aniversários. Esse aqui ele me deu ontem, esse aqui me deu o ano passado. Ele é meu amante. Espiritual! [risos] Ele e o Boni. São duas pessoas muito queridas para mim, que tudo que eu quero - eu não abuso nem de um, nem de outro... Que são pessoas que me amam de graça. E eu sei disso, então não abuso.

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, nós temos que fazer um intervalinho e voltamos já com o Roda Viva, que está entrevistando, esta noite, a atriz Dercy Gonçalves.

Dercy Gonçalves: É que está quase morrendo a Roda Viva. [risos]

Matinas Suzuki Jr.: Imagina, está mais viva do que nunca e a gente volta daqui a um pouco.

[intervalo]

Matinas Suzuki Jr.: Bem, nós voltamos com o Roda Viva que, esta noite, entrevista a atriz Dercy Gonçalves. Nós lembramos a você que este programa foi gravado, por isso nós não estamos recebendo as perguntas por fax ou por telefone. Dercy, no intervalo você falava de um encontro com a primeira dama, Ruth Cardoso [(1930-2008) antropóloga, casada com Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil entre 1995 e 2003, criou e atuou no programa Comunidade Solidária, de combate à exclusão social e à pobreza, dando novo formato a essa questão no país]. Você podia contar para o telespectador o que você contou aqui para a gente?

Dercy Gonçalves: Mas já contei!

Matinas Suzuki Jr.: Mas só entre nós aqui... Como foi o seu encontro com a primeira dama?

Dercy Gonçalves: É porque eu pensava que era Ruth Escobar [atriz e produtora de teatro portuguesa].

Maria Cristina Poli: Onde você estava, Dercy?

Dercy Gonçalves: Estava no Palácio [do Itamaraty], lá no Palácio. E ela estava dentro de um quarto todo fechado. E o presidente estava recebendo a comitiva estrangeira. Eu estava aflita [por]que queria ir embora, [mas] eu queria falar com a Ruth. Aí desci até a Ruth, que foi a Ruth até que me envolveu na... ela que lançou o Fernando Henrique [Fernando Henrique Cardoso] aqui em São Paulo na presidência. Eu aí falei: “eu queria falar com a Ruth!”. Aí o polícia lá falou assim: “ela está lá dentro”. “Está difícil”, eu pensei. “Porra, mas a Ruth conseguiu isso?". [risos] "Então fala com ela que eu estou aqui, se ela quer falar comigo...”. “Tá bom”. Ele disse que ia falar com ela. Eu no vidro. Ele chegou fez assim, me chamou que a Ruth queria falar comigo. [Falei]: “então abre lá que eu já vou!”. Abriu a porta e eu fui, mas lá estava meio escuro eu toco a procurar a Ruth [faz gestos como se procurasse]... [Falei]: “cadê a Ruth?”. [Ela falou]: “estou aqui!”. Falei: “porra! Mas não é você! [risos] Não é você, nega!”. [risos] Eu não sabia nem quem era, que ela se chamava Ruth. Aí ficou assim. Ela riu, foi muito gentil...

Maria Cristina Poli: Vocês conversaram alguma coisa assim?

Dercy Gonçalves: Não, eu falei com ela, falei nos ouvidos dela: “olha, eu vim aqui para deixar um recado, uma mensagem [por]que eu vou-me embora e eu tenho certeza [de] que eu não vou falar com o presidente. Então, como ele agora é nosso presidente, eu queria que ele não desse dinheiro para artista nenhum [que] fizesse teatro. [risos]. Não desse dinheiro para essa gente ficar satisfazendo o ego. Porque o teatro, em todo lugar, está muito ruim, está muito difícil. E a gente indo aos lugares é muito agradável. Facilite a vida da gente para ir no lugares e faça teatro, mas não dê dinheiro para ninguém! Porque essa gente não sabe fazer teatro sem o dinheiro do governo”.

Matinas Suzuki Jr.: Pelo jeito ele te ouviu, não é, Dercy?

Dercy Gonçalves: Pois é. [risos] Acho que está fazendo muito bem. Acho que ficar dando dinheiro à toa... Tantas companhias que tem aí... Você forma com o que você tem. Para quê colocar peças estrangeiras extraordinárias? Se é a sua cultura... A minha cultura é essa! A minha cultura é essa eu estou mostrando para todo o mundo, cada um mostre a sua.

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, tem algum político por quem você tenha admiração?

Dercy Gonçalves: Não tenho assim nenhum privilegiado, não. Aprecio o presidente [Fernando Henrique Cardoso], aprecio. Acho que... Espero, estou esperando com muita boa vontade, que ele resolva o problema. Tenho certeza. Tem que dar um tempo, não pode ser em cima, “pé na tábua” conforme estão fazendo... Ele é um grande democrata, a gente vê que é. [O] que é erro aqui no Brasil. Não pode ter essa democracia, porque é um povo ainda muito incivilizado, muito sem... Ainda é submundo!

Matinas Suzuki Jr.: Tá, mas você acha que a democracia ajuda, atrapalha o país a crescer nesse...?

Dercy Gonçalves: É porque não tem ordem, fica todo mundo mandando... Fica virando “cu da mãe Joana”.

[...]: Você é a favor de quem, então?

Dercy Gonçalves: Eu sou a favor de uma ordem, de uma disciplina. Não pode ser é esculhambação.

Matinas Suzuki Jr.: Mas, Dercy, você não acha que no tempo que houve muita disciplina, por exemplo...

Dercy Gonçalves: Nunca houve disciplina. O roubo começou, meu filho; a roubalheira começou quando fizeram Brasília. Foi onde começaram as empreiteiras. O Brasil não tinha nada, o Brasil... A gente falava assim: “o meu contrato é esse; é um fio de bigode”, acabou. Era um fio de bigode, não havia nada. Então o Brasil começou a se desenvolver, o Brasil começou a ter contratos, leis trabalhistas... As leis eram contra todo mundo. E agora... As leis eram contra os empresários, agora estão sacaneando os empresários e os contratados. Aqui você não tem mais nada! Você não tem mais hospital, você não tem mais colégio. Eu estudei... Na minha terra tinham duas escolas públicas, três escolas particulares e um ginásio. Pô! Hoje não tem! Tem o Cieps [Centros Integrados de Educação Pública] que eles querem jogar fora. Fizeram Ciep, fizeram Ciep... Olha que tem Ciep pra caçamba por aí afora e agora querem tirar o Ciep fora! Onde é que se viu isso? Isso é uma esculhambação.

Matinas Suzuki Jr.: E teve algum político que você se decepcionou muito com ele?

Dercy Gonçalves: Com todos. [Com] todos eu me decepcionei, porque como eles têm uma facilidade de prometer... Como não têm vergonha de dizer que não podem fazer? Então fica muito ruim.

Matinas Suzuki Jr.: Agora, Dercy, voltando só um pouquinho ao negócio da ordem, você não acha que quando tem... [Quando] se excede na ordem - na tentativa de fazer ordem - dá coisa como a censura, por exemplo? Porque você sofreu muito com a censura...?

Dercy Gonçalves: Não, censura não pode haver num país... Num país deste, que ninguém tem moral para censura, ninguém porra! Ninguém tem censura, moral pra te dizer para fazer aquilo [...]. Minha mão era censurada, diziam que minha mão era pornográfica.

Flávio de Souza: Isso na televisão, não é?

Dercy Gonçalves: Na televisão. Minha mão era pornográfica, eu fazia assim ou eu fazia... [risos] Então a minha mão era pornográfica. Isso é coisa que se faça? Agora, você... Haver um pouco de respeito na vida pública, na vida da presidência... Eu acho que não devia de esculhambar tanto porque se eu esculhambo você, seu filho não te respeita. E seu filho vê eu te respeitar. Então eu acho que a gente precisa ter um respeito. Eu cumpro o meu dever. Olha, falam para não jogar papel na rua, eu fico com o papelzinho na mão. Quando eu vejo que ninguém viu, aí eu jogo.

[risos]

Marta Góes: Dercy, por que você quis escrever um livro?

Dercy Gonçalves: Eu não quis escrever, minha filha. Eu... Tudo na minha vida foi necessidade. Eu fiz esse livro... Falei assim, disse... Bom, eu pensei que livro dava para comer [risos], não dá nem para beber água [risos]. E então falei assim: “vou escrever um livro. Estou com 88 anos, vou escrever a minha vida. Quem quiser comprar, compra”. Não pensei que sairia um livro tão bom. Porque tive a sorte de encontrar a Maria Adelaide. Maria Adelaide é um gênio! O livro é mais dela do que meu, porque ela é que fez o livro. Gostei tanto do livro, me senti tão gloriosa, me senti tão realizada. Para mim foi a maior realização! A Viradouro [escola de samba do Rio de Janeiro], o samba: “Obrigado Dercy, Mercy! Dercy!” [canta]. Pô, aquilo para mim foi... Quando toca meu coração bate! Então Viradouro e meu livro. Eu fiz o livro, falei:  “bom, vou ajudar minha filha, depois, a viver”, porque sou contratada da Globo, mas pela minha empresa. Não vou deixar rastro. Não deixo nada para a minha filha. Eu sou aposentada, não vou deixar nada para a minha filha. O que a minha filha ganha... ajuda, é o meu salário e é a minha aposentadoria. Não tenho nada para deixar para ela. Deixei o apartamento [em] que ela mora e mais algumas coisas, que eu estou feliz. Sou rica porque tenho tudo isso. Não tinha nada. Então eu digo: “vou fazer um livro [por]que, pelo menos, ela não precisa - com sessenta anos que ela já está - ser obrigada a se humilhar”. O livro dá 10%, 10% da renda. Então... Mas assim mesmo já vendeu, já está na sétima edição.

Marta Góes: Não te dá prazer que conheçam a sua história?

Dercy Gonçalves: Não, a minha história não pensei que desse prazer. Eu pensei que desse prazer a mim [risos] e fiquei me conhecendo também, porque não me conhecia.

Flávio de Souza: Você lembrou de coisas que você já tinha esquecido por causa...

Dercy Gonçalves: Não, eu nunca esqueci de nada meu. Mas não dava o valor... É aquele negócio, eu nunca fui convencida [de que]: “o que é meu é o que é bom”. Não, o que é meu é igual ao de todo mundo. É que as minhas coisas foram contadas com muita sinceridade, não foram contadas com invenção, nem com adendos para dar desfecho. O desfecho é exatamente o que era. Ela copiou tudo o que eu disse.

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, você tem boa memória para o teatro, para a memorização dos textos? Como é que é?

Dercy Gonçalves: Não, eu tenho. Tenho... Eu faço textos, eu faço um texto de uma hora e vinte.

Matinas Suzuki Jr.: Você mesmo escreve texto hoje?

Dercy Gonçalves: Eu mesma escrevo... Eu não escrevo nada, [por]que eu não sei escrever. Eu dito [risos], eu não leio.

Matinas Suzuki Jr.: E depois você ouve e vai memorizando?

Dercy Gonçalves: Só ouvindo, eu ouço melhor do que leio. Ler, eu leio mal e me distraio. Eu estou assim: “padre nosso que estais no céu... Meu Deus, tenho que ir amanhã a São Paulo fazer...”. [risos] Embrulho tudo, não tenho persistência em concentração.

Matinas Suzuki Jr.: E durante a apresentação você muda o texto, esquece?

Dercy Gonçalves: Olha, que você sabe que durante a apresentação eu sou tomada. Eu sou tomada por um efeito qualquer que eu não sei o que é, não sou eu.

Zeca Camargo: Mas o que dá isso em você? É a risada do público? Você fala assim: “estou agradando, vou em frente!”?

Dercy Gonçalves: Não, quando ele não quer rir é que eu gosto. [risos] Aí eu vou fazer, eu vou fazer ele rir!

[risos]

Iara Jamra: Você quer fazer eles rirem!

Dercy Gonçalves: Eu faço eles rirem. Aí vou a fundo mesmo! Vou a fundo, com mais garra ainda! Eu sou terrível mesmo.

Maria Cristina Poli: Quando é que você mostra o teu corpo, assim... Que você se exibe...?

Dercy Gonçalves: Eu não! Eu quis mostrar! Mas aquela [revista] do coelhinho falou que não queria [risos]! Eu quis mostrar, [por]que ela me convidou... A... Como é que ela chama?

Matinas Suzuki Jr.: Revista Playboy.

Dercy Gonçalves: Playboy me convidou para fazer! Tenho retratos lindos, menina. Posso fazer um nu artístico lindo sem mostrar... Sem indecência e posso fazer com 88 anos. Vou tirar agora um book, eu mesma. Vou fazer um book no meu banheiro, nua no banheiro. Mas as necessidades a gente mostra, as infelicidades você não mostra, não mostra [risos].

Maria Cristina Poli: Você se acha sensual, Dercy?

Dercy Gonçalves: Não sei o que é isso. Nunca provoquei isso para ninguém, não. Sensual... Eu sou uma mulher esperta. Não sou burra. Agora, sensual...? Sensual, porra?

Zeca Camargo: Eu estou vendo você falar assim, das atrizes novas, que são muito bonitas e não estão lembrando que um dia vão ficar velhas. Você lembrava disso quando você era mais moça? Falava assim: “isso aqui vai acabar”, chegou a ser esperta?

Dercy Gonçalves: Nunca pensei em ficar velha. Nunca pensei. Por isso que eu digo: a gente não pensa que vai ficar velha. A gente, quando vai fazer quarenta anos, pensa que já esta acabando. Pensa que já está acabando: “já estou velha”. Pô, entra nos cinqüenta: “porra, já estou velha!”. Não está! Agora você imagina eu, com 88... Eu não me acho velha!

Marta Góes: Dercy, tem alguma coisa que você acha que não pode mais fazer?

Dercy Gonçalves: Tudo eu posso fazer. Não há nada que eu não possa fazer. Eu tenho cabeça, raciocínio, equilíbrio, inteligência.

Marta Góes: O físico está bom?

Dercy Gonçalves: Eu tenho memória ótima. Então tudo eu posso fazer. Não há nada que eu não possa fazer. Agora tem a discriminação dos sabidos - dos grandes astros da Globo, principalmente - que acham que a gente não pode fazer.

Sérgio Roveri: Quem que te ajuda hoje, Dercy? Você tem um empresário, uma secretária, alguém que...?

Dercy Gonçalves: Não, eu tenho quatro pessoas que me acompanham. Eu tenho a Elma, que é uma artista que quando eu mudo de roupa ela embroma. E tenho um secretário que passa para mim: “olha! Tenho um espetáculo lá no Brás de Pina você vai?”. [Eu digo]: “vou. Quanto é que ele cobra? Quanto que é? Quantas cadeiras tem?”. [Ele diz]: “tem seissentas”. [Pergunto]: “quanto é que ele vai cobrar?”. [Diz]: “vinte mil”. [Pergunto]: “quanto dá?”. [Ele diz]: “casa lotada. Dá seis milhões”. [Então eu digo]: “faz por três [milhões]”. [risos] É assim que eu vivo!

Iara Jamra: Dercy, o que você acha que é preciso para ser uma mulher de peito?

Dercy Gonçalves: De peito?

Iara Jamra: É, qualquer peito.

[risos]

Dercy Gonçalves: Não sei... Você, pra ser uma mulher de peito. É primeiro... Você precisa ter dignidade, isso é a primeira coisa. Dignidade no que você fala, você [precisa] se respeitar, não se avacalhar, não fazer mutreta, não fazer coisa que te envergonhe, se amar. [Fazendo] isso tudo, você chega a ser uma mulher de peito.

João Wady Cury: O que te levou, em uma época da tua vida, a fazer análise?

Dercy Gonçalves: Foi meu marido.

João Wady Cury: Porque a gente que te conhece, que te vê na televisão, no teatro; a gente fala: “como é que essa mulher deita num divã?”. Como é que foi? Você deitou no divã mesmo...?

Dercy Gonçalves: Não, não consegui [risos]. Eu virava com ele de frente, tinha medo dele.

João Wady Cury: Não, mas como é que começou? O que te levou a um analista?

Dercy Gonçalves: Quem me levou foi meu marido, porque o meu marido teve uma mãe que era doida. A mãe dele era doida. O pai levou ela ao doutor Henrique [Brito de Belford] Roxo [(1877-1969) psiquiatra], que era outro doido. Aí ele... Eu estava muito... Na menopausa eu fiquei muito... Uma vida tão tumultuada, como eu levei... Eu fiquei, na menopausa, muito perdida, muito atribulada, muito cheia de complexos de inferioridade com o que eu já tive. Não tive mãe, fui criada na rua, fui criada menina de rua, uma porrada de coisas... Eu não queria, brigava, xingava, tinha ciúmes, tinha ciúmes mórbidos, doentios, porra! Inveja, eu tinha tudo. Ele disse: “vai fazer análise”. [Perguntei]: “o que é isso, análise? O que é isso?”. [Ele disse]: “é análise”. [Pensei]: “porra! Não sei o que é isso, como é que eu vou fazer?”.

João Wady Cury: Você nunca tinha ouvido falar?

Dercy Gonçalves: Eu não! [Pensava]: "isso me cura? Então eu vou, quem eu vou? Doutor Henrique Roxo". Fui lá. Então falei para o doutor Henrique Roxo: “eu tenho isso, eu tenho aquilo”. [Ele diagnosticou] : “você tem complexo de reação”. Fiquei pior do que fui lá. [risos] Fiquei pior do que fui. Complexo de reação... Falei: “Danilo [Danilo Bastos, foi marido de Dercy], ele disse que eu tenho complexo de reação, o que é isso?”. [Ele respondeu]: “é... Você reage antes do tempo”. Ele me deu uma explicação...  Eu fiquei me observando, só que eu tinha... Eu observei que eu tinha um bocadinho disso e até hoje eu tenho, porque ainda não saiu. Aí eu falei: “vou chamar outro”. Chamei doutor Geraldo Jucá [analista que mantinha consultório em sua casa no Leblon, segundo consta no livro de Dercy de cabo a rabo]. Fiz a... Aí é que foi a merda, aí é que eu fiz a transferência toda para ele, comecei a amar o cara... Puta merda!

Matinas Suzuki Jr.: Ficou apaixonada por ele?

Dercy Gonçalves: Mas apaixonada [faz cara de apaixonada, falando devagar]... Mas eu sonhava... Eu vinha do Rio Grande do Sul no meu dia marcado para fazer análise com ele.

Iara Jamra: Apaixonada!

Dercy Gonçalves: Fiquei, né?

João Wady Cury: Quanto tempo você fez análise com o doutor Jucá?

Dercy Gonçalves: Nove anos. Eu fiz nove anos. Não, fiz uns cinco anos com ele. Aí, um dia, tive uma crise - tudo mentira! [risos] [Falei]: “chame o médico para mim”. Armei a cama, botei luzes... O cara foi lá, sentou e me desmascarou. Olha... Fiquei com tanta vergonha! [Ele falou]: “você esta apaixonada por mim!”. [Respondi]: “eu?...”. Olha, eu senti falta de ar. Ele falou aquilo, eu fiquei numa vergonha...

Maria Cristina Poli: Aí começou a passar mal mesmo! [risos]

Dercy Gonçalves: Passei mal mesmo...

João Wady Cury: Mas não aconteceu nada entre vocês?

Dercy Gonçalves: Não. Ele era um cara bom!

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, você diz no livro que tem duas coisas que valem a pena: a psicanálise e fazer plástica...

João Wady Cury: Tem alguma ordem de prioridade nisso?

[risos]

Dercy Gonçalves: Não... Eu acho que a plástica é uma necessidade. Você tem um vestido que você lava muito ele faz ponta, você tem que consertar, senão vão te chamar de relaxada. [Vão dizer]: “você é uma relaxada! Você não tem vaidade, porra!”. Se você pode tirar... Se a tecnologia te dá esse direito, faça! Fique linda sempre! Não é bonito você se olhar...? O diabo é que está todo mundo com a mesma cara! [risos] Parece que eu estou no Japão! [Estica o rosto com as mãos]

Iara Jamra: É o cirurgião que está na moda!

Dercy Gonçalves: Pode? Não pode.

Marta Góes: Dercy, além de plástica o que mais você faz para ter esse pique?

Dercy Gonçalves: Não faço mais nada. Eu fiz plástica a última vez eu tinha... Eu estava na Bandeirantes. Na Bandeirantes... ou na Record [ambas emissoras de TV]? Na Bandeirantes... Sei lá, na Record. Não sei bem... É um programa que eu fiz aí, que eu tinha... Quando eu saí da Globo fiquei meio perdida, andando por aí afora. Fiz e estava, mais ou menos, com setenta e poucos anos... 72, 73 anos, por aí. Nunca mais fiz. Agora quero assumir a minha idade. Acho linda a minha idade. Acho que eu, com 88 anos, sou espetacular [enfatiza] porque sou mulher que cruza pernas, sou mulher que tem umas pernas perfeitas, sou uma mulher que ainda é “comível” para quem gosta de comer com pimenta!

[risos]

Zeca Camargo: Alguma época da sua vida você não achou que você era uma mulher legal assim?

Dercy Gonçalves: Não, aos quarenta e poucos anos eu me senti uma bosta, me senti quando meu marido me disse: “você está velha! Você está velha. Tem que dar chance aos jovens”. Foi quando ele fez Society em baby-doll [(1957) peça de Henrique Ponguetti, cuja principal atriz era a belíssima Odette Lara] e não me botou... Eu não entrei. Eu dei a chance de entrar a Odette Lara [(1929) atriz, cantora e escritora.Seu nome é Odete Righi, mas adotou o nome artístico de Odette Lara. Participou do programa TV de vanguarda da TV Tupi e de novelas como A volta de Beto Rockfeller. Fez parte do Teatro Brasileiro de Comédia e estreou na peça dirigida por Adolfo Celi, Santa Marta Fabril S/A. Além da televisão, participou de algumas produções cinematográficas como Dona Violante Miranda e de espetáculos musicais de Vinícius], as mulheres bonitas daquela época. E fiquei olhando, fui fazer plástica. Enquanto elas estavam levando Society em baby-doll, que a empresa era do meu marido. E ali ele se apaixonou por uma delas, pela Odete. Não sei se a Odete gostou dele, mas ele se apaixonou por ela... Andei fazendo uns “esporrozinhos”, comecei a perceber que o caminho não era largar, era enfrentar. E a Clô Prado [atriz do Teatro Brasileiro de Comédia e diretora de teatro] também me ajudou muito. Pensei besteira... A Carla Civelli [(1921-1977) italiana radicada no Brasil, dirigiu espetáculos teatrais como O prazer da honestidade (1955) do Teatro de Arena. Também adaptou e traduziu peças como Electra e os fantasmasA ronda dos malandros e, posteriormente, dirigiu filmes como É um caso de polícia (1959) e programas de televisão. Além disso, era casada com Ruggero Jacobbi, diretor, autor e cenógrafo italiano que foi de fundamental importância para o teatro brasileiro], também muito minha amiga [dizia]: “Dercy! Deixa de ser boba, teu marido é um pilantra!”. E eu comecei a ver, falei: “eu quero ir para o teatro de novo”. Aí botei ele para correr. Era o Teatro Cultura [construído em São Paulo no final da década de 1940 e inaugurado em 1950, com concertos de Heitor Villa-Lobos e Camardo Guarnieri], que era meu. Tive o Teatro Cultura dez anos nas minhas mãos.

Maria Cristina Poli: Dercy, hoje você se cuida? Passa cremes nas pernas, no rosto?

Dercy Gonçalves: Não, creme eu não passo! Não gosto de dormir lambuzada! Não faço nada. Mal tomo banho! Gosto muito pouco de banho. Lavo da minha maneira. Me lavo muito bem, me lavo muito bem, me limpo muito bem, me enxáguo sempre que eu faço xixi. [Uso] sabonete perfumadíssimo preparado para mim, para não ter mau cheiro, de velha - cheiro de velha é horrível. Eu sou uma mulher vaidosa, mas não faço trabalho nenhum de ginástica, de comida... Eu como tudo. Ontem, para dormir, eu comi oito pastéis! Para dormir.

[risos]

Iara Jamra: É porque é admirável essa energia, né? É admirável! Você é uma mulher privilegiada.

Dercy Gonçalves: Sou, mas sou uma mulher de estudo! Pra, quando morrer, estudarem! Porque eu não tenho uma dor. Em lugar nenhum! Eu sou leve, olha! Leve...

Zeca Camargo: Mas nem um “estimulantezinho”, um guaraná em pó?

Dercy Gonçalves: Não tomo nada. Não... Guaraná em pó eu tomo quando eu acordo meio cansada, meio “sonada”, às vezes meio resfriada e não quero sair da cama. Não admito! Tem que sair, aí eu tomo um guaraná em pó.

Maria Cristina Poli: E pra baixar?

João Wady Cury: Mas normalmente é ao contrário... Pelo que você estava falando, você toma Lorax [tranquilizante] para baixar a bola.

Dercy Gonçalves: Para trabalhar.

João Wady Cury: Para trabalhar.

Dercy Gonçalves: Não posso misturar. Para trabalhar, uma hora antes do espetáculo, eu tomo um Lorax de 1mg, de criança. E faz efeito de droga.

João Wady Cury: Você já consumiu drogas? Você já experimentou alguma droga?

Dercy Gonçalves: Não! Nunca, nunca. Eu não bebo. Nem cerveja. Não gosto nem de Coca-Cola, bebo muito pouco. Não bebo. Chupo muita fruta... Gosto muito de uva, uva moscatel [originária do sul da Itália e caracterizada pelo sabor adocicado] da boa.

João Wady Cury: Você cozinha em casa, que prato você faz?

Dercy Gonçalves: Eu cozinho, só gosto da minha comida. Aqui como no Paes Mendonça, que [a comida] é deliciosa; como no Giggeto, que é deliciosa; como no Bolinha, que é deliciosa. São as casas que eu gosto de comer.

Maria Cristina Poli: Tem um prato que você faz para o Boni, não tem uma história assim?

Dercy Gonçalves: A carne assada! A carne assada do Boni! Chama "Carne assada do Boni". Porque o Boni, quando era pobre - aí quando não era presidente da Globo - ele ia para a minha casa para fazer os programas... E ele ia sem comer. Era pobre mesmo, né? [risos] Então eu fazia um jantarzinho, uma carne assada, ele comia toda. Eu falava: “esse cara gosta...”. [risos] Eu sempre gostei dele, pela inteligência dele. Eu me apaixonei pela inteligência do Boni. Eu era a estrela e ele não era. Quem era a estrela era eu. O que ele me dava de inteligência, eu fiquei apaixonada por ele.

João Wady Cury: Mas só pela inteligência dele?

Dercy Gonçalves: Não, só pela inteligência.

João Wady Cury: Você nunca se apaixonou, de fato, pelo Boni?

Dercy Gonçalves: Não, não. Se não eu dizia, pô! Porque uma trepada aqui, outra trepada ali não faz mal a ninguém [risos]. Não tem diferença. Nunca! Eu me apaixonei como um filho, aquela coisa do filho que eu queria ter. E que me ajudava e que resolvia meus problemas. [Eu pedia]: “Boni! Eu quero umas férias, vê se arranja para mim”. Boni arrumava passagens para eu viajar. Fiquei muito amiga dele. Quando roubaram o carrinho dele - roubaram um Volks dele - ele chegou [e disse]: “roubaram o meu carro!”. Puto da vida, ele [dizia]: “porra! Porra! Porra! Roubaram meu carro! Porra!”. Eu saí e fui comprar um carrinho para ele. Comprei um Volkswagen e dei a chave a ele. Ele ficou doido.

João Wady Cury: Mas uma vez quando levaram um carro teu, uns amigos teus que estavam fugidos levaram teu carro, você encomendou um trabalho em centro espírita, não foi?

Dercy Gonçalves: Não, não... Aí foi na ditadura. Foi na ditadura que eu emprestei meu carro para os caras fugirem. Será que agora tem perigo eu falar isso? [risos] Eu dei meu carro para eles fugirem e fugiram. Dormiram na minha casa. Mas era tudo molecagem, eu não sabia o que estava fazendo! Era tudo molecagem minha!

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, no seu livro você confessa que fez alguns abortos, não é?

Dercy Gonçalves: Fiz oito.

Matinas Suzuki Jr.: O que você pensa? Você acha que o aborto deveria ter uma legislação no Brasil mais adequada? Como é que você...?

Dercy Gonçalves: Eu não sei, meu filho! Cada um manda na sua "xereca". [risos] Quem vai mandar na minha? Eu vou pedir licença? Não peço licença a ninguém. Eu arranjava uma parteira, aquela que me fazia mais fácil. Porque eu peguei um filho, eu não fui fazer [enfatiza] filhos. Eu fui trepar e fiz um filho. [Então eu pensava]: "agora eu tenho que tirar essa merda porque eu não posso ter. Eu não posso comigo, como é que eu vou ter uma coleção de nove filhos?". E o governo não tem nada a ver com isso, nem padre, nem ninguém. Acho que padre deve ficar rezando lá, enganando os outros. E governo [deve] cuidar mais das suas obrigações do que ficar se metendo na vida particular. Na vida particular... Porra! Antigamente, às vezes, o pescador pegava peixe e vendia na porta da gente. Hoje o pescador não pode mais vender... O mar é do governo? Mas não é dele! Para que esse controle com o mar? Deixe os pescadores pescarem e venderem os peixes para a gente, pô!

Zeca Camargo: Você falou um pouquinho de religião, de padre, você não é muito católica... Ou é?

Dercy Gonçalves: Não, não sou não. Eu não sei o que eu sou. Eu sei que eu tenho uma força muito grande, eu tenho uma proteção espetacular. Porque eu não aprendi nada com ninguém: sou analfabeta de pai e mãe. Tive uma escola, tive o terceiro ano primário e, ainda, não passei. Ela [a professora] perguntou: “como é que chama o osso do joelho?”. Falei: “Clavícula”. [risos] Para você ver, para você ver como é o que eu estudei.

Zeca Camargo: Igreja nunca te ensinou nada de fé...?

Dercy Gonçalves: Não, eu gostava de igreja pra burro, só para sair de casa. Para poder dizer: “vou à missa! Vou ao catecismo! Vou cantar na igreja!”. Papai deixava.

Marta Góes: Dercy, você chora?

Dercy Gonçalves: Não.

Marta Góes: Nunca chorou?

Dercy Gonçalves: Não gosto de chorar. Minhas lágrimas, quando saem, são verdadeiras. Não tenho "lágrima de crocodilo" [de mentira]. Não choro à toa de jeito nenhum. Não tenho saudade de ninguém. Não tenho amor por ninguém. Não tenho ódio por ninguém. Não tenho mágoa. Não tenho inveja. Hoje [enfatiza] não tenho nada disso.

Maria Cristina Poli: Mas qual foi a última vez que você chorou? Você lembra?

Dercy Gonçalves: Não chorei... Quando que eu chorei? Olha, para te contar, eu nem sei... Não choro, minhas lágrimas não vêm.

Sérgio Roveri: Você reza, Dercy? Pede alguma coisa?

Dercy Gonçalves: Não, eu não sei! Nem o Padre Nosso eu sei, entende? Eu fico no “padre nosso que está no céu, tenho que ir embora, vou para São Paulo...” [risos] e já misturei tudo! Nem perco tempo, nem fico embromando os caras.

Sérgio Roveri: Mas a noite, quando você se deita, assim... Você faz planos?

Dercy Gonçalves: Não! Eu me deito como uma pedra e levanto como uma vaca [risos], já louca para meter o chifre por aí afora.

Sérgio Roveri: Não tem nem tempo de pedir nada?

Dercy Gonçalves: Não, não peço e não ofereço. Não peço e não ofereço nada a ninguém.

Marta Góes: Dercy, eu li que você gosta de viajar com sua família, de ir para Nova Iorque.

Dercy Gonçalves: Ah, viajar é comigo! Aí uma coisa que não me saiu ainda: a inveja. Quando [alguém] vai viajar eu fico com inveja... Eu queria ir!

Marta Góes: O que você faz nas suas viagens?

Dercy Gonçalves: Eu viajo. Eu viajo. Vou em todo lado! Não sei nada, fico sabendo depois. O que é aquilo ali? Por que aquilo? Por que essa pirâmide? Como é que fizeram isso? Da onde é que vieram essas pedras? Então eu não quero saber da história, eu quero saber aquilo que me compete.

Marta Góes: Então você vai a shows, vai a teatros?

Dercy Gonçalves: Vou! Eu vou ver! Eu vou... Nos Estados Unidos eu vou a quase todos os shows. E agora até troquei tudo pra ver o Fantasma da ópera [romance francês, de 1910, escrito por Gaston Lerouxque, tornou-se um dos principais espetáculos da Broadway, região onde acontecem grandes produções teatrais em Nova Iorque]... E aquele outro... Chapeuzinho vermelho [fábula infantil]? Não, não! Aquele outro... [risos] A bela e a fera [versão teatral do conto de fadas]. Eu confundo aquelas merdas todas! Eu vi e gostei. Achei linda a tecnologia! Mas não é nada daquilo, não é? Você vê que tudo muda! O que é certo? O que é certo no teatro? Aquilo? Ou o “besteirol” que eu fazia, que era feio e que agora chama besteirol ou a cultura do Brasil? Porra, que merda é essa? O que é cultura no Brasil?  O que é cultura? Cultura é tudo! Eu acho que é tudo.

Zeca Camargo: Você é cultura do Brasil? Você gosta de ser chamada como parte da cultura brasileira?

Dercy Gonçalves: Eu acho um deboche. Quando me chamam eu acho um deboche, porque eu acho que... Eu, de fato, sou uma pessoa extraordinária no país, porque eu movimentei um país. O país me conhece, o país grita: “Dercy! Fala palavrão!”, [eu grito de volta]: “Vai tomar no cu!”, eles morrem de rir.

Zeca Camargo: Isso é cultura, então?

Dercy Gonçalves: Isso é cultura?

Zeca Camargo: Virou cultura.

Dercy Gonçalves: Mas quem é que disse que tomar no cu é feio?

[risos]

Zeca Camargo: Mas quando alguém te chama de cultura brasileira você fala: “não é nada disso! Eu nunca quis ser parte disso”?

Dercy Gonçalves: Não, eu deixo ele se masturbar. Isso é masturbação [risos], isso é falta de assunto! Falta de assunto, sabe como é? É para poder viver, é para se defender a vida.

Marta Góes: Dercy, você diz, em seu livro, que nunca deu a menor bola para crítico, né?

Dercy Gonçalves: Nunca dei? Não, [eu] dei. Mas eles nunca me deram. Eles é que nunca me deram bola, nunca falaram de mim. Sempre, quando falavam de mim, era pejorativo. Sempre quando... Nunca falou do meu sucesso... Porque uma artista como eu, num país civilizado, não era o que eu sou. Era tratada com muito mais respeito pela imprensa. Hoje, por exemplo, eu pedi... Fui lá pedir ao Boni, encarecidamente... Até hoje [quando] eu estréio... A Cristiane fez um lançamento da cultura de setenta anos na Praça Tiradentes. Deu uma [enfatiza] chamada. Jornais não deram. Então, não é um desrespeito? O que esse país quer? Quer Lula [Luís Inácio Lula da Silva]? Então vai ter Lula.

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, em 1960 você fez Dona Violante Miranda [filme dirigido por Fernando de Barros, com texto do dramaturgo paulistano Abílio Pereira de Almeida, feito especialmente para Dercy]. Nós temos também umas imagens, que a gente gostaria de mostrar para os nossos telespectadores também terem uma idéia da sua carreira, já que você está falando...

Dercy Gonçalves: Para disfarçar, né, o ambiente!

[risos]

[Trecho do filme Dona Violante Miranda]

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, Esse filme é de 1960... Que diferença você sentia entre o ambiente do teatro e o ambiente do cinema? Você acha que o teatro era mais rico, mais...?

Dercy Gonçalves: Nem me lembrava o que estava fazendo, alguma coisa... A minha posição era, exclusivamente, de sobrevivência. Eu não pensava nem arte aqui, nem arte ali. Nem [pensava]: “eu estou fazendo, estou preparando um esquema, estou estudando para ser ou para deixar de ser”. Eu queria chegar aos 88 anos. E amanhã, quero chegar aos cento e cinqüenta. De resto, eu não quero saber se aquilo é cultura, se aquilo me vale a pena... Eu passei pela vida, vi tudo e fiz tudo. Vivi e não me machuquei. Estou inteirinha, nem coração eu tenho. Não tenho mágoa em rim, não tenho mágoa em pulmão, não tenho mágoa em coração. Então, nada disso para mim valeu nada. Nada representa nada. Tem os sabidos que tiram proveito disso e fazem: “isso aqui é cultura, então nós temos que valorizar...”, então mandam um memorando... Têm sorte, então quando é enviado... Mandam os pedidos e vem verba, é uma beleza. Eu nunca me preocupei. Tinha uma mulher que se chamava Bárbara Heliodora [poetisa, autoridade nacional em William Shakespeare e crítica de teatro temida pelos atores e diretores por ser muito rigorosa] que falou, uma vez, para mim: “não gosto de você! Não gosto do seu teatro!”. Aquilo chegou para mim, nunca mais fui perguntar a ninguém se gostava. Nunca mais pedi um tostão para ninguém.

Marta Góes: Dercy, por que você pôs então o Sábato Magaldi [nasceu em 1927, teve participação de extrema importância, como teórico do teatro, nos momentos mais decisivos do teatro brasileiro. Foi crítico teatral e professor de história do teatro nacional, se envolvendo na publicação de diversas obras sobre o tema] no posfácio no seu livro?

Dercy Gonçalves: Não foi eu, foi a Maria Adelaide. A Maria Adelaide lembrou dele que, de fato, Sábato Magaldi foi uma das pessoas carinhosas comigo. O Sábato Magaldi como, também, a Helena Silveira [(1911-1984) escritora e jornalista que mantinha uma coluna de críticas sobre os programas de televisão e as celebridades na Folha de S. Paulo].

Matinas Suzuki Jr.: Você fala do Décio de Almeida Prado [(1917-2000) Um dos críticos de teatro mais importantes do Brasil] também.

Dercy Gonçalves: Décio de Almeida Prado, um dia, foi me assistir e foi me cumprimentar. Eu fiquei tão comovida. Décio de Almeida Prado era gente, parente Matarazzo... Então eu fiquei assim, “embasbacada”. Vai cumprimentar a mim?... Porque eu sempre fui uma pessoa muito tímida e muito simples e nunca me veio à cabeça [coisas como]: “eu sou isso, eu sou aquilo”. Eu nem sei o que eu sou. Hoje eu estou vendo que, diante das coisas que apresentam por aí, eu sou importante. Mas para mim...

Iara Jamra: Você acha que porque você sempre foi cômica é que a imprensa...?

Dercy Gonçalves: Não sei, porque eu não sou cômica, eu sou uma artista. Eu sou uma mulher séria, eu sou muito séria.

Zeca Camargo: Eu acho que é difícil, é difícil falar sério... Você fala... Quando você falou de Madalena e outras coisas que você falou aqui. Mesmo quando você quer falar brava, você fala [e as pessoas pensam]: “Lá vem a Dercy com outra!”. É difícil falar sério?

Dercy Gonçalves: É, mas eu tenho uma característica... Porque você, há oitenta anos que me vê. Você me vê. Eu nunca saí da pauta, eu nunca saí para fazer nada, para criar filho. Eu nunca saí porque fui expulsa do teatro. Eu nunca saí, nunca saí. Eu saí quando tive a minha filha, quando fiquei tuberculosa. Fiquei um ano fora. Eu voltei correndo para trabalhar, não me aceitaram.

Zeca Camargo: Por que você estava sumida? Por que?

Dercy Gonçalves: Não, não tinha mais vaga. Eu pedi emprego, fui no teatro Casa de caboclo... Já tinha minha vaga tomada. Então fui lutar por outros lados, fui lutar por outros lados. Quando na Casa de caboclo eu fui chamada pelo Jardel Jércolis para fazer uma peça, eu estava trabalhando no Cabaré na Lapa, quando ele foi lá me assistir. Ele disse: “eu gosto dessa mulher!”. Ele já tinha esquecido que eu já estive na Casa de caboclo. Ele já tinha esquecido! Aí o Custódio Mesquita [(1910-1945) compositor] foi lá dentro do Cabaré e me chamou: “vai lá no teatro que o Jardel quer falar com você”. [Eu disse]: “eu não gosto desse homem, ele me tocou do teatro, ele me tocou do teatro dele”. Eu fui vender perfume porque não tinha dinheiro para comprar leite para minha filha. Fiz perfume, comprei vidro na [avenida] Visconde de Rio Branco e comprei a essência e fui fazer. Batia nas portas dos edifícios para vender. Fui vender no teatro e ele me tocou [dali], fiquei com um ódio... Daí roguei uma praga nele! [risos] Eu [...] foi na porta do teatro. Esculhambei, falei: “não vou!”.

Maria Cristina Poli: Dercy, você gostaria de viver mais oitenta anos para fazer o quê exatamente?

Dercy Gonçalves: Eu não sei se gostaria... Eu quero ver até aonde eu vou! Só estou de olho!

Flávio de Souza: Como foi a história de você ter ganhou na loteria esportiva 15 vezes?

Dercy Gonçalves: Ganhei porque joguei! Eu acompanhava, eu fazia esquema.

Flávio de Souza: Você assistia aos jogos, acompanhava?

Dercy Gonçalves: Assistia aos jogos. Eu assistia! Uma vez que eu ganhei, [o prêmio] me tirou da merda. Eu ganhei trezentos e cinqüenta mil cruzeiros. Comprei um apartamento que tenho até hoje.

Matinas Suzuki Jr.: Você continua jogando em loteria ou não?

Dercy Gonçalves: Não, avacalhou. Depois, não é... Hoje eu ganho mais dinheiro, não tenho tempo de fazer... De acompanhar a vida emocional dos jogadores... Porque [uma vez que ganhei] eu joguei no Vasco e deu um time ordinário, danado. Eu botei empate, botei o outro e botei empate. E deixei o Vasco com toda a categoria dele e ganhou o outro. É porque... [Diziam]: “o Vasco está uma merda! O Vasco não está recebendo!”. [Pensei]: “então, estão todos emocionalmente fodidos”. [risos]

Zeca Camargo: Não só pela loteria, Dercy... Você acha que você tem sorte?

Dercy Gonçalves: Eu sou de muita sorte. Eu sou [uma] mulher que vim de onde vim e estou aqui.

Zeca Camargo: E essa sorte é espiritual, vem de onde? Ou é do acaso?

Dercy Gonçalves: Não sei! Ah, se eu soubesse, eu ia abrir uma banca. [risos] Eu ia ensinar todo mundo como é que fazia, mas não sei.

Zeca Camargo: Eu falei espiritual porque você falava: “eu estou passando pela essa vida e pronto”. Você vai passar dessa vida para onde?

Dercy Gonçalves: Não, eu não sei se estou passando por aqui não, se eu vou ficar... Não sei, não. Ainda não me falaram para onde eu vou. Eu sei que eu fiz meu túmulo. Agora, por que eu fiz meu túmulo? Tenho a impressão [de] que não sou eu quem vai ficar lá.

Zeca Camargo: Você tem uma pessoa que...?

Dercy Gonçalves: Já tem minha irmã lá. Quem sabe se o túmulo não era para ela? Eu fiz para mim...

Zeca Camargo: Mas por que você fez o túmulo, Dercy?

Dercy Gonçalves: Eu fiz o túmulo, em primeiro lugar, [porque] eu adoro minha terra. Em segundo lugar, Madalena é uma terra muito turística, mas não tem turismo porque aos prefeitos que vão não [se] interessam que descubram Madalena. Eles não querem que Madalena cresça, eles querem Madalena uma fazenda para eles comerem e roubarem. Porque têm verbas para a cidade. Esses filhos da puta, infelizes... Têm verbas ótimas e toda s quartas-feiras chegam verbas nas mãos deles e eles ó... [gesto de roubo] não aparecem. E eu fiz lá o túmulo para chamar a atenção de Madalena. Fiz o túmulo, fiz o museu... Para chamar atenção. Botei um livro [de visitantes] e mais de dez mil pessoas passaram por lá. Encontrei com um maleiro em Brasília quando eu saltei do avião. [Ele me disse]: “dona Dercy, eu fui numa comitiva de ônibus à sua terra para ver seu túmulo”. Achei aquilo legal, um maleiro.

Matinas Suzuki Jr.: E o museu está aberto ainda?

Dercy Gonçalves: Não, o museu não está. Não tem... A casa deu cupim, a casa que o prefeito me deu. E ele brigou com a minha sobrinha, porque a minha sobrinha queria aumento. Queria aumento porque ela estava fazendo teatro, dando aula e fazendo... Então eu não estava sabendo de nada daquilo... Mas acabou, acho que o que ele estava dando, eu acho que era o suficiente para as duas coisas que ela fazia. Eu estava pensando que era assim. Mas quando eu vejo, estava processando o prefeito e ele ficou puto por causa de quê? Vai pagar dois mil cruzeiros. É o castigo dele: é dois mil cruzeiros. Eu não quero que ele tenha esse castigo. Eu quero pagar.

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, tem uma coisa que também me chamou atenção no seu livro: você disse que não gosta de buquê de flores. Por quê?

Dercy Gonçalves: Eu não gosto de flor, detesto flor. Eu recebo, às vezes me dão... Dá vontade de jogar fora na hora!

[risos]

Matinas Suzuki Jr.: Então você não tem nenhum prazer em receber um buquê de flores? Nada?

Dercy Gonçalves: Não, nenhum!

Marta Góes: Nem troféu?

Dercy Gonçalves: Nem troféu! É muita porcaria junta, sabe? Eu tenho uma porrada de troféu lá, dá trabalho... O que eu gasto para limpar aquilo tudo [risos] não é normal! Eu acho troféu uma babaquice. Eu preferia que me dessem um frango assado, que me dessem dinheiro... Não era melhor?

Sérgio Roveri: Mas eles vão para o museu, Dercy? Você vai enviá-los para o museu?

Dercy Gonçalves: Vou fazer o meu museu... Não é... O meu museu, sabe quanto fica? Não fica nem cinqüenta mil.

Marta Góes: Você vai fazer?

Dercy Gonçalves: Vou fazer.

Zeca Camargo: Agora, você não gosta de troféu, mas gosta de homenagem. Você falou da escola Viradouro...

Dercy Gonçalves: Ah, mas a Viradouro... Eu fiz para ajudar a Viradouro, [por]que a Viradouro estava lá no “cu do Judas”. Ela veio para a linha de frente e não voltou mais, tá na linha de frente. Fiz para ajudar e a Viradouro me prestou aquela grande homenagem.

Zeca Camargo: Mas homenagem como essa falta alguma... Receber, assim? Quem que devia?

Dercy Gonçalves: Não, não gosto de muita homenagem também, sabe? Para mim é muito cansativo.

Maria Cristina Poli: Você acha que já houve reconhecimento? Já existe um reconhecimento sobre a sua história?

Dercy Gonçalves: Eu sei lá se existe! Também, se não existir, para quê eu quero? Está todo mundo fodido! Para quê eu quero? Para quê eu quero reconhecimento? Eu quero que faça como eu sou hoje: o público vai ao meu teatro, me aplaude de pé quando eu entro e quando eu saio. Porque pior é quando aplaude na entrada e na saída vaia. [risos]

João Wady Cury: Fernanda Montenegro ontem, no [jornal] O Globo, reclamou que na carreira dela ele teve quase tudo, só não teve na platéia o presidente da República. Você tem uma ambição como essa, por exemplo, Fernando Henrique na...?

Dercy Gonçalves: Eu não! O dia ele for eu vou tremer tanto, que eu prefiro que ele não vá.

João Wady Cury: Mas por que você vai tremer?

Dercy Gonçalves: Porque vou! Porque quando falam que tem uma personalidade qualquer na platéia, eu fico querendo apurar e me “embuceto” toda. [risos]

Matinas Suzuki Jr.: E se você desfilaria outra vez de seios nus no sambódromo?

Dercy Gonçalves: Não! Aqui eu sou convidada pelos Gaviões [Gaviões da Fiel, escola de samba de São Paulo]. Não pense ele que eu vou desfilar, mas vou fazer uma surpresa!

[risos]

Maria Cristina Poli: Qual é a parte do teu corpo que você mais gosta?

Dercy Gonçalves: Eu acho... Eu me acho linda, eu me acho toda muito boa. Basta ter uma roupa bonita, saber jogar aqui... Pareço uma veada lá em cima! [Risos]

Matinas Suzuki Jr.: Você tem uma cor que você gosta mais de vestir, uma coisa assim?

Dercy Gonçalves: Eu gosto de preto... Eu não gosto de marrom, não gosto de azul-marinho.

Zeca Camargo: Dercy, falando de reconhecimento aqui e misturando um pouco com o presidente da República - que você contou a história da dona Ruth, que você foi entrando na sala dela porque, afinal de contas, você é Dercy Gonçalves - ser Dercy Gonçalves abre qualquer porta?

Dercy Gonçalves: Qualquer porta. Fui na embaixada do Brasil pedir... Porque roubaram a bolsa da minha amiga, faziam duas horas. Três horas nós estaríamos embarcando para o Rio, porque roubaram a bolsa dela com o passaporte.

[...]: Você estava onde?

Dercy Gonçalves: Em Miami. Eu falei: “e agora? Vamos na embaixada!”. As portas se abriram, tinha uma fila enorme. Eu passei... As portas se abriram porque eu era Dercy Gonçalves. O carinho que... Tanto que eu vou voltar para lançar o meu livro lá em Miami [por]que eles pediram... O embaixador, o cônsul [se corrige] vai lançar o meu livro e vou fazer mais dez espetáculos lá. Qualquer porta se abre - até a do xadrez - para mim! [Risos]

[...]: Já se abriu alguma vez? Você já foi presa?

Dercy Gonçalves: Não! Nunca ninguém teve a audácia [enfatiza] de me botar a mão! Nunca lhes dei essa confiança de perder minha moral de [modo que] algum polícia, ou detetive, ou delegado me botasse a mão.

João Wady Cury: Mas você já teve censores em cima de você na época do teatro...

Dercy Gonçalves: Censores, censura tinha, mas quando... Eu esculhambava eles! [Eles diziam]: ”não pode falar ‘puta que o pariu’”. [Eu dizia]: “pois é, está bem... Então tem cinco ‘puta que o pariu’, eu falo três ‘puta que o pariu’. Pode?”. Porra! Por que é que não querem mais que três “puta que o pariu”? E acabava falando todos eles na cara deles! Nunca desrespeitei porque acho que o meu palavrão não é palavrão, é para fazer graça.

Matinas Suzuki Jr.: Dercy, nosso programa chegou rapidamente ao fim...

Dercy Gonçalves: Pifou!

[risos]

Matinas Suzuki Jr.: Você... Eu acho que foi bom, você quer dizer alguma coisa?

Dercy Gonçalves: Eu acho... Estou muito contente, estou muito satisfeita! Não pensei... Pensei que fossem perguntas daquele esquema antigo: terrorismo! Mas eu não tenho medo de terror! E vim preparada para dar respostas de acordo como que me perguntassem. Vocês são muito educados, são muito gentis! É gente muito fina para o meu gosto!

[risos]

Matinas Suzuki Jr.: Eu agradeço muito a sua presença e queria agradecer, também, a nossa bancada de gente fina que entrevistou você [risos], agradecer a atenção dos telespectadores e lembrar que o Roda Viva volta na próxima segunda-feira às dez e meia da noite. Até lá e uma boa semana para todos e uma boa noite!

[Dercy Gonçalves faleceu, aos 101 anos, no dia 19 de julho de 2008. A atriz e humorista costumava dizer: "Só vou morrer quando eu quiser! Não programo morte, eu programo vida!"]

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