Memória Roda Viva

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Fernanda Torres

27/1/1992

Além de curiosidades da vida pessoal e profissional, a atriz conta detalhes sobre a peça de teatro feita para ela encenar com a mãe, Fernanda Montenegro

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[Programa ao vivo, permitindo a participação dos telespectadores]

Jorge Escosteguy: Boa noite, estamos começando mais um Roda Viva pela TV Cultura de São Paulo. Hoje nós vamos conversar com uma pessoa famosa, filha de pais famosos [os atores Fernanda Montenegro e Fernando Torres], ainda que ela não goste muito disso, não goste muito de falar sobre isso. Mas o público em geral parece que gosta, até porque, ao contrário da maioria das pessoas, que não consegue se livrar do estigma do nome famoso, ela fez seu próprio caminho, sua vida e sua carreira. No centro do Roda Viva, esta noite, está sentada a atriz Fernanda Torres. Lembramos que o programa também é transmitido para as TVs Minas Cultural e Educativa, TVE do Ceará, TV Cultura do Pará, TVEs do Piauí, Bahia, Porto Alegre e Mato Grosso do Sul. Fernanda Torres tem 25 anos, atua em teatro, televisão e cinema. [Recentemente], fez a peça Orlando [1989, de Bia Lessa] em São Paulo, fez A marvada carne [1985, dirigido por André Klotzel, filme que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Gramado], Com licença, eu vou à luta [1986, de Lui Faria]. Foi premiada em [Festival de] Cannes, em 1989, com Eu sei que vou te amar...

Fernanda Torres [interrompendo]: 86.

Jorge Escosteguy: Em 1986, perdão... de Arnaldo Jabor [ver entrevista de Arnaldo Jabor no Roda Viva em 11/04/05]. Atualmente, ela divide a cena com a mãe na peça The flash and crash days, de Gerald Thomas [dramaturgo e diretor de teatro, ver entrevista  no Roda Viva em 16/05/88]. Para entrevistar Fernanda Torres, nós convidamos Rinaldo Gama, subeditor de Artes e Espetáculos da revista Veja; Aimar Labaki, jornalista, crítico de teatro, produtor e apresentador do programa Tara teatro, da Rádio 89 FM; Maria Cristina Duarte, diretora de redação da revista Máxima, da Editora Abril; Serginho Groisman, diretor e apresentador do Programa Livre, do SBT; Alberto Guzik, crítico de teatro do Jornal da Tarde e do programa Metrópolis, da TV Cultura; Eugênio Bucci, editor da revista Playboy; Teresa Cristina de Barros, repórter da TV Cultura. Você, que está em casa e quiser fazer perguntas por telefone, pode chamar 252-6525. A Shizuka, a Cristina e a Márcia estarão anotando suas perguntas. Boa noite, Fernanda.

Fernanda Torres: Boa noite.

Jorge Escosteguy: Você não gosta de falar da sua mãe...

Fernanda Torres: Eu não entendi. De onde você tirou isso?

Jorge Escosteguy: Pelas entrevistas que você deu anteriormente. Mas agora você está fazendo uma peça com ela. Como é trabalhar com a mãe?

Fernanda Torres: Não, não me recuso a falar...

Jorge Escosteguy: Aliás, em outras entrevistas, você dizia que era um projeto, que você gostaria e tal...

Fernanda Torres: De trabalhar com a mamãe? Era uma idéia antiga, mas o perigo era cair num certo pieguismo de fazer uma peça diretamente ligada à mãe e à filha, aquelas duas figuras. [Mas] o Gerald é um cara bastante maldito para entregar esse material e não virar piegas, entendeu? Então, a gente acabou entregando, acho, para a pessoa certa.

Jorge Escosteguy: E como é a peça? Conta um pouquinho para os telespectadores.

Fernanda Torres: A peça é maravilhosa e acho uma grande sacada dele ter [me] posto tentando matar a minha mãe e a minha mãe tentando me matar em cena. Só por isso já devo muita coisa ao Gerald. Porque o normal seria o quê? Seria botar as duas com problemas de relação. Não dava para ir para a cena com uma relação real, exibindo ali a minha vida com a minha mãe. E o Gerald pegou esse material e transformou na coisa mítica do que é uma mãe e uma filha ou do que é um fim e um início, do que é a mesma pessoa na sua finitude e no seu começo. E esse papo de que a peça não se entende é uma bobagem, não há nada além do que está ali para se entender. É uma espécie de telequete [show de luta livre] familiar, eu me sinto lutando um boxe diário com a minha mãe em cena. A peça é muito simples na verdade.

Jorge Escosteguy: E como é que você faz, tentando matar sua mãe? De repente, você não olha e...é a sua mãe que está ali mesmo, não é a atriz? Como é que é?

Fernanda Torres: A minha também, ela tem seus músculos, viu?

Jorge Escosteguy: Eu pergunto para você, não para sua mãe.

Fernanda Torres: Eu me preparei, lutei capoeira antes de começar a ensaiar. Tento puxar a perna dela diariamente em cena, mas ela é mais esperta do que eu e se dá bastante bem. Mas é isto: tenho o maior orgulho. Quando olho para ela, não vejo muito a minha mãe que me deu de comer, vejo a minha mãe meio mítica, uma continuidade. Nossa família veio da Sardenha [região autônoma da Itália], então há uma tradição familiar de mulheres fortes, de "bruxas da Sardenha". Às vezes falo que eu herdei,  sou uma bruxa também de certa maneira. E acho que o Gerald pegou isso e transformou em algo [como] "pavio, fósforo e pólvora", ao invés de transformar numa coisinha piegas, que não combina comigo nem com minha mãe.

Jorge Escosteguy: Você disse que sua mãe também tem músculos, em que sentido?

Fernanda Torres: Aqui, olha. [apontando para a cabeça]

[risos]

Alberto Guzik: Fernanda, você faz parte de uma geração... ou, pelo menos, várias de suas colegas de geração começaram na televisão ou fizeram televisão durante um bom tempo e, progressivamente, foram se afastando e indo para o teatro e o cinema. É de caso pensado ou é mera coincidência?

Fernanda Torres: Não, não é mera coincidência. É que TV é uma indústria, então... Nasci em Ipanema, no Rio de Janeiro, onde a [Rede] Globo está centrada. E a Globo é indústria, é nossa Hollywood brasileira. Isso é meio brega, mas é verdade. Então, quando você tem, sei lá, 15 anos e está começando, você sonha em fazer "a novela das oito". Um dia te oferecem "a novela das oito" e você vai, com aquela ingenuidade, assina seu contrato e desce para trabalhar oito horas por dia durante oito meses dizendo “Cris, Cris, eu te amo” [refere-se a uma das frases mais interpretadas por ela na novela Selva de pedra, em 1986] .

[risos]

Fernanda Torres: Aí, você descobre que há muito mais coisas a se viver do que dizer “Cris, Cris, eu te amo” durante oito meses! Então, as pessoas espertas começam a perceber que é preciso ler, se informar, ver filmes, é preciso fundar uma outra cultura, trabalhar de outra forma. A televisão vai, gradativamente, se tornando cada vez menos interessante, porque não dá para trabalhar, é emburrecedor, por exemplo, o corredor da TV não tem janela, a literatura que se lê ali no corredor é Amiga [revista de celebridades que circulou até o final da década de 90], parece que o mundo está restrito àquele corredor, àquela novela e à próxima novela. E, quando está chegando o final da novela, o cenário que era enorme é só um canto, entende? É muito efêmero. E aí você aprende que em cinema você desenvolve qualidade com a sua equipe, aprende a trabalhar idéias, e não a sua pequena vaidade de ator, que é muito... É uma profissão muito imbecil se ela é apenas tratada pela vaidade de ficar famoso ou não. Acho que há grandes trabalhos em TV, mas são raros. Na verdade, não sei muito trabalhar em televisão, porque não sei muito fazer um personagenzinho, ter o meu sucessozinho, dar autógrafos e ir para casa. Gosto de trabalhar idéias, de misturar filmes que vi com histórias que li e poder discutir com o meu diretor de uma forma mais... Sou uma atriz de idéias, não sou uma atriz da pequena vaidade, então é por isso. Acho que, quanto mais inteligente você é, mais você percebe que dizer “Cris, eu te amo” é muito pouco.

Jorge Escosteguy: Eugênio Bucci, por favor.

Eugênio Bucci: Queria voltar um pouco a sua peça. Ela é, no mínimo, uma peça chocante. E não podemos negar que grande parte das pessoas vai lá [para] ver a Fernanda-mãe e a Fernanda-filha, porque são pessoas famosas da televisão também. E o que chama muito a atenção, além das atrizes, é a força de um diretor que consegue colocar as atrizes em situações tão extremas. Tem cenas em que, por exemplo, você se masturba, tem uma cena que, em uma espécie de briga, você e a sua mãe estão no limite entre morte e relação sexual. Que cena dessas foi mais difícil de fazer? Você sentiu que precisava superar uma barreira, um limite para encenar, para viver no palco?

Fernanda Torres: Olha, quando a gente começou a ensaiar, o Gerald veio com a história do paninho, com a entrada flechada da mamãe e estávamos entrando ali. Quando deu uma semana de ensaio, ele veio com a famosa cena da masturbação, que era um movimento da peça que ia da masturbação até a “trepada”. E lembro que fiquei com muito medo de que o Gerald... eu não o conhecia. Às vezes, um diretor quer a tua alma, quer te chocar e fiquei com medo de que fosse o Kama Sutra da mãe e da filha até o fim da peça. Eu falei: “Será que me meti nisso? Será que eu e minha mãe vamos fazer as 25 posições do amor aqui, para satisfazer uma certa vaidade do Gerald de nos exibir nisso?”.Ao mesmo tempo, eu falava: “Teatro não tem moral, não pode ter moral, não pode ser um lugar da moral e dos bons costumes, senão você não está fazendo teatro: está lidando com nada”. E também falava: “Isso aqui é o trampolim da loucura da peça, se a gente passar por isso aqui...” Então, assim como para o público, quando chega essa cena, neguinho respira fundo e vai, no ensaio nós respiramos fundo e fomos. Em princípio, é meio constrangedor estar montada em cima da sua mãe, mas logo ela vira uma mãe mítica, e não real...

Eugênio Bucci: Mas é sempre a mãe.

Fernanda Torres: Não, vira teatro!

Alberto Guzik: É a personagem também, quer dizer, é a figura que se confunde com a figura da...

Fernanda Torres: Em Orlando, beijar aquela mulherada como se fosse um homem era constrangedor no início, depois vira uma verdadeira brincadeira infantil, entendeu? Hoje, eu "como" a minha mãe muito melhor do que já "comi", porque me divirto muito mais, posso fazer o que quiser, hoje é teatro. E talvez o público [tenha] o mesmo choque que tive ao receber as cenas.

Eugênio Bucci: Você não sentiu, em nenhum momento, um psicodrama naquela peça?

Fernanda Torres: Não, não tem psicodrama nenhum. É totalmente oposto a isso, é jogo cênico, é loucura cênica. Acho que...é incrível, porque faço muito mais coisas, eu como o coração da minha mãe, a minha mãe arranca minha cabeça e ninguém me pergunta se eu realmente como o coração dela ou se ela realmente arranca minha cabeça. Mas Freud está certo, sexo realmente ainda é um problema...

Eugênio Bucci: Tanto é que está na peça.

Fernanda Torres: A coisa mais chocante da peça ainda é isso. Essa peça tem muito de um livro do Paul Auster [escritor norte-americano] que o Gerald me deu sem me dizer. A história é a seguinte: o pai tranca o menino num quarto desde pequeno para ele aprender a linguagem dos deuses, para ele falar com Deus. Então todo o início do balde, de eu sozinha naquele quarto, da minha mãe que aparece atrás [refere-se a algumas cenas da peça], seria meio esse menino com os deuses. E tinha a seguinte frase, que me libertou da moral e dos bons costumes depois que li: “o que teria acontecido de tão terrível naquele quarto?” E o Gerald faz teatro, ou seja, ele lida com ação, não lida com literatura, onde você pode deixar essa frase solta e o leitor voar com a sua idéia. Então, ele bolou o que de tão terrível poderíamos fazer para dar o trampolim da morte que a peça tem. A coisa mais terrível, um dia ele me disse, seria o incesto entre uma mãe e uma filha. Quando ele me falou isso, aquilo virou matéria teatral.  Entendi que ele não estava querendo exibir eu e a minha mãe, duas figurinhas tão queridas e bonitinhas, num jogo pervertido. Ele queria era dar o trampolim da morte ali e, quando entendi isso, vi que não estava sendo usada. E aí faço o que quiserem entendeu? Aí não tem moral e bons costumes. Uma coisa é você ser usado apenas para ficar ali se exibindo, se masturbando, outra coisa é você saber do que está se tratando.

Maria Cristina Duarte: Você acha que o público entende tudo isso que você está tentando explicar? Você não acha que, de toda maneira, tem uma armação em cima das duas Fernandas? Se não fossem duas Fernandas, não seria mais teatral do que ele jogar duas Fernandas, realmente mãe e filha, para uma platéia. Eu não sei, no caso de uma platéia de estudantes, você acha que eles têm capacidade de dar esse trampolim da loucura?

Fernanda Torres: Não posso cuidar da cabeça de ninguém, não é?

Jorge Escosteguy: Só reforçando um pouco a pergunta da Cristina, o Álvaro Silveira, de São José dos Campos, telefonou dizendo [que] “adorou as duas Fernandas, mas achou a peça um desastre”.

Fernanda Torres: Ela é um desastre, ela é uma catástrofe.

Jorge Escosteguy: Desastre, em outro sentido.

Fernanda Torres: Encarei o "desastre" dele em um outro sentido, ela realmente é uma catástrofe. E nisso você está quase dizendo o quê? [falando com Maria Cristina Duarte] Que ele nos usou. E ele nos usou muito. Como não usar? Como ter um material desses na mão e não usar o que você tem?

Maria Cristina Duarte: Não, não estou negando que ele tenha usado. Eu estou tendo uma explicação do que é a peça, mas o público não tem acesso, a não ser agora, por esse programa, ao que você está explicando...

Fernanda Torres: Não, mas ele não precisa ter lido...

Maria Cristina Duarte: Eu gostaria de saber como você tem visto a reação da platéia. A platéia tem entendido esse trampolim da loucura ou se choca ainda com um material que é altamente incendiário?

Fernanda Torres: Olha, acho o seguinte: primeiro, o público não precisa ler o livro do Paul Auster para entender o que acontece na peça e, depois, o público que vê é extremamente heterogêneo. Não posso cuidar da cabeça de ninguém. Quando falo do trampolim da loucura, é pura emoção, é você estar sentado numa cadeira e fazer [dá um grande suspiro]... e entrar, acreditar que aquele coração está sendo roubado, ter um impacto tão chocante, que te coloque dentro daquela peça. Então, se alguém se choca ali e pára e não vê mais nada, não posso fazer nada. Outros verão. E a gente tem [visto] reações muito loucas, por exemplo, mães e filhas muito caretas, completamente em estado de choque com algo que tinha as tocado em um plano não da consciência, mas [inconsciente]... O Gerald não lida com isso, lida com metáforas impactantes que são inexplicáveis, lida com Edgar Allan Poe [(1809-1849) escritor norte-americano dos gêneros terror e policial, mestre do terror psicológico, vindo do interior de seus personagens, fruto de suas próprias fobias e pesadelos. Dentre suas obras mais famosas estão O corvo (1845) e o volume Histórias extraordinárias (1837)], com coisas que você não entende, que te pegam além da morte. São enigmas mortais, entendeu? Não é no entendimento que se passa, não há nada a se entender. Se o cara fica chocado com uma cena de masturbação, fica irritado, acha um desastre e sai, ele não foi pego. Outros são pegos por aquilo e pela loucura. No final, as duas acabam jogando cartas miticamente e estão chorando.

Jorge Escosteguy: Fernanda, eu queria reforçar um pouco... telefonou mais um telespectador aqui de São Paulo, no sentido de que você disse que o Gerald não usou você e a sua mãe, ou seja...

Fernanda Torres: Não, usou. [interrompendo]

Jorge Escosteguy: ...no sentido das duas Fernandas, porque são Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, usou no sentido de atriz para o trabalho.

Fernanda Torres: Não, ele usou também no sentido de mãe e filha.

Jorge Escosteguy: Talvez o que ela quis dizer foi o seguinte: se fossem a Vera Fischer e Giulia Gam [atrizes brasileiras], por exemplo, talvez não tivesse o mesmo impacto.

Fernanda Torres: Não, mas não seria essa peça. É isso que não entendo! Se fossem a Vera Fischer e a Giulia Gam, o Gerald teria trabalhado sobre... Essa peça foi feita para mim e para minha mãe, sobre mãe e filha. Foi feita sobre finitude, sobre duas pessoas que têm o mesmo nome, que têm caras parecidas. Não é uma peça que o Gerald tinha na gaveta dele e montou com essas duas atrizes ou com outras. Essa peça não existiria sem mim e a minha mãe; ele pode até montar, mas não tem o mesmo impacto. Então essa pergunta não existe, entendeu? Porque ele  trabalha com o material que tem, é atento, não é um "vegetal", ele vê o material que tem.

Rinaldo Gama: Fernanda, você falou muito do Gerald, evidentemente, porque a peça é uma concepção dele e todo trabalho do Gerald Thomas se, de alguma maneira, causa um desconforto... Ele faz o que eu chamaria de teatro de diretor, pensando em termos de cinema. O teatro de diretor é uma tendência que há algum tempo se percebe na produção teatral brasileira, quer dizer, acho que o próprio Orlando tem um pouco isso. Você falou, bem no comecinho, que você era uma atriz de idéias. A atriz de idéias se dá melhor com o teatro de diretor? Ou, agora que a gente está assistindo aí a uma espécie de redescoberta de clássicos, você pensa em trabalhar com os textos que existem há trezentos anos e que, de alguma maneira, os diretores brasileiros deixaram um pouco de lado, seja porque é muito criativo, seja porque não havia dramaturgia nacional? Agora que a gente está assistindo a uma redescoberta de textos de trezentos anos, a atriz de idéias amadurece mais com o teatro de diretor. É por isso que você tem feito esse tipo de trabalho ou você trabalhar com o teatro de diretor tem sido uma coincidência?

Fernanda Torres: Olha, acho que não há teatro sem diretor, sem atores, sem iluminadores. Eu acredito em equipes. E sobre essa discussão que você está falando, é engraçado, uns anos atrás um diretor me disse que o teatro agora é que caminhava para serem espetáculos onde o ator não teria vez, o reinado do ator havia acabado e ele seria mais uma máquina dentro de um grande espetáculo. Achei aquilo uma bobagem profunda, porque acho que não há teatro sem ator, o ator é o cara que vai levar aquilo ali. Em cinema, o diretor tem um produtor...

Rinaldo Gama: A oposição que estou fazendo não é entre diretor e ator, é de diretor e autor.

Fernanda Torres: Não, eu entendi, vou chegar lá. Então achei isso um absurdo, que o teatro de diretor excluísse o ator. Agora, o que você está me falando é que talvez um ator que trabalhe idéias só possa fazer um teatro de diretor e que talvez o teatro de diretor exclua o autor.

Rinaldo Gama: Não, não foi isso que falei.

Fernanda Torres: Mais ou menos, quer dizer, que não se pode montar clássicos...

Rinaldo Gama: Não, não foi isso que falei. Eu só disse para você o seguinte: se o fato de você, que se define como uma atriz de idéias, ter feito trabalhos na linha de teatro de diretor foi uma coincidência ou não.

Fernanda Torres: Isso foi uma coincidência, mas também acho o seguinte: montar uma peça "como ela é",  acho que isso não existe mais. É impossível você pegar uma peça hoje em dia e achar que ela é, assim, uma montagem clássica. Qualquer diretor vai ter que dizer a que veio, por que está montando aquilo. Outro dia, conversando com o Gerald, ele falou uma coisa fundamental para mim: ele fazia uma diferença entre metáfora e efeito em teatro. E acho que, aqui no Brasil, ainda se faz muito efeito em teatro. E ele dizia que ele estava tentando ir para a metáfora. Nisso, ele falava do Peter Brook  [(1925-) diretor britânico de cinema e teatro, fundador do Centro Internacional de Pesquisa Teatral, em Paris] que, em A tempestade [espetáculo baseado na obra de William Shakespeare], botou um crioulo enorme no início, com uma caravela na cabeça, bêbado. E era a tempestade que ele tinha bolado para o início da peça. E, em outra encenação, ele já viu [alguém] balançando o pano com a caravela, a chuva caindo e isso tudo era efeito; metáfora mesmo ele tinha encontrado no Peter Brook. Então, a coisa da inventividade no teatro pode estar até meio excessiva, entendeu? Todo mundo está inventando muito efeito. E, quando o Gerald me falou sobre metáfora, foi a primeira vez que alguém abordou a diferença [entre haver] tanto efeito em cena e de haver realmente uma tradução teatral do que está se falando num texto. Então, acho que você pode montar um texto de trezentos anos, mas é preciso achar a metáfora do que você quer dizer ali, mais do que achar se você vai botar um balde entrando dentro de cena, um caminhão saindo ou... É mais metáfora, entendeu?

Teresa Cristina de Barros: Fernanda, até agora há pouco você estava falando sobre a relação entre mãe e filha no palco. Agora, fiquei curiosa para saber como é essa relação nos bastidores, porque esse tipo de relação é sempre muito complicada, delicada. Você aceita um conselho da sua mãe, por exemplo, se ela disser “acho que você tem que fazer assim” ou vocês "quebram o pau" nos bastidores?

Jorge Escosteguy: Ou você discute com ela? Por exemplo, você esculhambou a televisão, disse que a televisão é uma coisa burra, que...

Fernanda Torres [interrompendo]: Não, não esculhambei a televisão.

Jorge Escosteguy: No sentido do trabalho do ator, você disse que era uma coisa fechada, é um corredor...

Fernanda Torres [interrompendo]: Mas alguns fazem muito bem.

Jorge Escosteguy:... e a sua mãe acabou de fazer uma novela, um papel excelente na televisão.

Fernanda Torres: Mas a minha mãe já tem quantos anos de roda para poder ir para uma TV e saber... entendeu? Ela já se divertiu muito para poder fechar um contrato e saber que aquilo ali passa. Mas, quando você está começando tua vida... Eu tinha muito medo de trabalhar com a minha mãe, falava “cara, ir para o teatro com a mãe?! Levei tanto tempo para sair de casa!”

[risos]

Fernanda Torres: Achei que eu ia ficar muito sozinha, mas a minha mãe é muito especial, ela é uma moleca, muito estranha. Às vezes, parece uma senhora; outras vezes, ela parece um guri. Prefiro quando ela é um guri.

Eugênio Bucci: Quando ela parece um guri? Dá um exemplo.

Fernanda Torres: Ensaiando, cara. Ela é uma louca, ela assobia aquele... E, quando vai a jantares formais, aqui em São Paulo, minha mãe vai vestida de senhora. Eu falo: “O que é isso, mãe, não é possível?”

[risos]

Eugênio Bucci: Mas o que ela faz no ensaio?

Fernanda Torres: Ela faz tudo. Ela faz qualquer coisa que você pede. Às vezes, olho a minha mãe, ela está cansada de subir uma escada. Aí ela entra em cena e fica igual uma louca, ela se desbarranca de um vulcão. A profissão é meio fonte da juventude da minha mãe. Então foi um alegre reencontro, porque eu estava com uma relação meio formal, meio distante da minha mãe e ela é muito companheira de trabalho, ela é um guri, é muito legal.

Teresa Cristina de Barros: O que acontece quando vocês discordam? Por exemplo, ela diz “acho que você tem que fazer assim” e você diz “não, não acho”.

Fernanda Torres: Ah, teve um dia em que, na [cena da] masturbação, minha mãe começou a dizer que eu estava fugindo da cena, que levava tudo para a comédia, que eu escapava pelo canto. Eu dizia: “Pentelha!” É assim que a gente escapa: com muito bom humor.

Alberto Guzik: Fernanda, sua mãe é uma figura muito pública e muito política, quer dizer, ela é de tomar posição, de sair em defesa de causas. Você sente que o ator precisa ocupar esse espaço político? Você faria campanha por algum partido? Já fez ou pretende fazer?

Fernanda Torres: É terrível no Brasil, porque ator no Brasil vira quase [autoridade]... A figura pública vira um “cagador” de regras sobre tudo, todos. Eu me sinto uma ingênua, politicamente, não sei como os políticos pensam, não confio neles. Votei no Brizola [foi candidato à Presidência da República em 1989], mas nem sei o porquê. Depois votei no Lula [candidato à Presidência  em 1989, perdeu no segundo turno para Fernando Collor de Mello], porque o Collor foi dizer que o outro tinha uma amante [refere-se a uma das denúncias contra Lula durante a campanha]. Achei aquilo de uma baixaria tão nojenta, que votei no Lula, mas não sei quem seria melhor. É quase a minha posição religiosa, prefiro ser uma atéia, entendeu? Prefiro ter uma atuação política no meu campo de trabalho, ou seja, melhorando o teatro, melhorando o cinema. Eu me acho tão ingênua politicamente, acho que os problemas do Brasil são tão complicados, que me sinto tão burra quanto qualquer cidadão. E tenho muito medo de crença política, de crença ecológica, tenho muito medo dessa ingenuidade, “agora é a democracia”. Acho sempre que a democracia esconde uma nojeira,  acho sempre que a ecologia esconde uma nojeira. Então, sei que o que não esconde uma nojeira é o trabalho que estou fazendo. E aí eu me seguro.

Jorge Escosteguy: Fernanda, você respondeu também ao Jaime Souza Matos, aqui de São Paulo, que telefonou perguntando sobre a questão política. E a Rosângela de Souza, de São José dos Campos, disse que, além de te achar uma ótima atriz, a peça é fabulosa.

Fernanda Torres: Obrigada.

Serginho Groisman: Fernandinha, o programa que faço é com jovens cujos pais foram jovens nos anos 70. Eu estou ouvindo aqui e estou ligando duas questões, uma delas é  referente ao teatro mesmo. Parece que, nos anos 70, ele usava muito da metáfora, mas no sentido mais político, em função da ditadura, da censura. Eu queria que você falasse um pouco a respeito dessa questão, no sentido do prazer que você tem com as estéticas diferentes que o teatro proporciona hoje. Você acha que o "teatro da metáfora" – que pressupõe, para o espectador, um repertório para que ele teça essas relações – é um teatro que você abraça com o maior carinho e prazer na relação com o público? Quer dizer, o entendimento do público em relação a essas metáforas precisa estar sintonizado, não é? Por outro lado, queria aproveitar essa história dos anos 70, porque me parece que muitos pais liberais, guerrilheiros, maconheiros, militantes, hoje também são pais repressores com os filhos, por outros motivos. Em que momento, quanto à sua família, você falou: “quero sair, estou de saco cheio”?

Fernanda Torres: Primeiro, não me fecho. Aliás, minha mãe me ensinou bem isso. Ela é libriana e diz que é capaz de ter duas idéias contraditórias vivendo dentro dela sem nenhum problema. Então não me fecho com o "teatro da metáfora" ou de nada. Por exemplo, Cacá Rosset [ator e diretor de teatro. As peças que encena mesclam elementos como música ao vivo, performances circenses e representações marcadas pela irreverência. É um dos fundadores do Teatro do Ornitorrinco] não faz um teatro de metáfora, mas acho maravilhoso o que ele faz. [Tenho interesse em] trabalhar em várias áreas, mas essa história da metáfora do Gerald me explicou o que era efeito e o que era metáfora, por isso entendi o que eu estava fazendo, entendeu?

Serginho Groisman: Mas você não acha que o espectador precisa ter certas referências, quer dizer, às vezes, ter um livro numa estante?

Fernanda Torres: Gente, não precisa ter referência nenhuma! No caso da nossa peça, ela é feita de truque de circo. Ela é a peça... Eu me sinto no cinema mudo com a minha mãe, não há nada além para se entender do que aquilo, alguém tentando matar o outro, que vai entrar pela porta a qualquer momento. E tem outra coisa legal do Gerald, ele fala que "o teatro é uma continuação da mente", porque cinema ficou realista, a TV é realista, então se o teatro é realista, ele não tem atração. Então, [quando] o cara senta naquela cadeira, tem que ter alguma viagem sensorial além do que o cinema, com aquele telão, apresenta a ele ou do que a TV, com aquele acesso tão fácil na vida cotidiana, apresenta a ele. E nisso eu concordo com o Gerald: quero sentar numa cadeira e "viajar" e isso ele faz muito bem. Aliás, ele está se afastando de um esteticismo intelectualóide, está abraçando teatro mais do que nunca. Essa peça é metáfora teatral simples, não precisa entender que aquele livro é de não sei quem. Não entenda! Aliás, os melhores públicos que a gente tem são públicos extremamente populares, que morrem de rir de eu estar me masturbando na frente da minha mãe. No Rio de Janeiro, tinha uma que falava assim: “ai, eu não agüento! Olha a cara dela, gente".

[risos]

Fernanda Torres: Isso é que é legal. Não quero um público que senta e fala “o que ele quer dizer com isso”, “mas o que será que quer dizer o pano?” Um deles veio me perguntar “o que quer dizer o paninho?” e eu disse “não tenho a menor idéia, meu querido, pergunta ao Gerald, talvez ele saiba”. Então não quer dizer nada, é um bando de metáforas que não querem dizer nada, mas que te tocam para você viajar ali. E em que horas a minha mãe foi repressora? Quando toda mãe é.

[...]: Primeiro namorado...

Fernanda Torres: Não, é a hora em que realmente aquele filho adolescente atrapalha em casa, não cabe mais naquela família, naquele quarto-e-sala. Você precisa ter uma sala, precisa sair de casa. E minha mãe é muito conservadora e, às vezes, ela é muito liberal. Ela é contraditória, mas nunca deixou de me dizer " vai à vida". A gente andou afastada muito tempo. Na hora em que  ganhei [Festival de] Cannes, em que fui viajar, era uma época em que a vida da minha mãe estava muito dura. E fui de uma crueldade digna da peça do Gerald, falei “adeus, estou indo”. E depois voltei a encontrá-la. Além do mais, ela me teve com 37 anos, é da geração de [1950], então tem uma vida conservadora, foi casada a vida inteira com o meu pai. Minha vida não é assim.

Jorge Escosteguy: E como é essa relação com ela? Ela é casada a vida inteira, você já teve três casamentos aos 25 anos...

Fernanda Torres: Quando me separei do segundo, ela virou para mim rindo e falou: “Minha filha, quantos vão ser?”

Jorge Escosteguy: E o que você respondeu?

Fernanda Torres: Falei: “Ah, minha mãe, te prepara!”.

[risos]

Fernanda Torres: Minha avó, por exemplo, falou outro dia com a minha mãe, disse assim: “Quando a Nanda se separou a primeira vez, fiquei chocada, mas hoje, minha filha, não vou amarrar minha vida por homem nenhum!” Então, também se reconhece que você não vai ter uma vida promíscua, que você criou um filho que não é promíscuo. Acho que, às vezes, os pais têm uma paranóia muito grande com relação ao que os filhos vão fazer, se vão ser promíscuos ou não.

Aimar Labaki: Só uma coisa para acabar de vez com essa história da conversa com a mãe. Do ponto de vista do ofício, atores jovens, da sua geração, como Edson Celulari, Giulia Gam, depois que passaram pela experiência do palco, com ela com certeza se enriqueceram. Tem uma parte do ofício do ator que você só aprende com o ator mais velho, não tem diretor, não tem escola que te ensine. Você está conseguindo aproveitar essa escola da Fernanda?

Fernanda Torres: É diferente, sabia? Vi minha mãe desde cedo...

Aimar Labaki: Estou falando de técnica mesmo.

Fernanda Torres: Não, de técnica não.

Aimar Labaki: Não?

Fernanda Torres: Não, não. O que mais me encantou é que vi que muitas coisas que eu achava que eram minhas eram dela como, por exemplo, trabalhar em equipe. Achava que era algo que eu tinha descoberto e, quando vi, minha mãe trabalha em equipe. O humor da minha mãe, a cara-de-pau que é atuar, a falta de "psicologismo" em representar...

Alberto Guzik: Falta de pudor, você diria?

Fernanda Torres: Falta de pudor... Ela faz o que quiser ali dentro e não se vende por sentimentozinhos baratinhos. Ela falou uma coisa muito legal da peça, disse que a geração dela foi caminhando para [Constantin] Stanislavski [(1863-1938) ator russo criador do sistema Stanislavski de atuação realista] e repudiavam Itália Fausta [Polloni (1879-1951) atriz considerada uma das grandes damas e renovadoras do teatro brasileiro] e que hoje ela se via fazendo Itália Fausta, fazendo “ohhhhhhhhh” [gritando]. Ela disse: “Isso aqui para mim é uma brincadeira”.

Aimar Labaki: O tempo inteiro você fala do que aprendeu com a tua mãe. Teu pai também é ator e também teve uma viagem grande no teatro brasileiro. Queria que você falasse um pouquinho do que ele deixa para você.

Fernanda Torres: [sorri] O que meu pai me deixa? Meu pai me deixa a loucura, cara! Meu pai é um maluco. Sou muito grata a ele por isso. É uma dupla muito engraçada.

Jorge Escosteguy: Fernanda, como você se sentiu quando descobriu que aquelas coisas não eram suas, mas da sua mãe? Você ficou satisfeita ou com raiva?

Fernanda Torres: Fiquei muito feliz, porque vi que era uma herança que eu tinha, vi que era algo que ia além de mim. É como a peça, é algo... Mas, mais do que aprender, as pessoas se relacionam com a minha mãe como se ela fosse uma mestra, uma grande atriz e isso me irrita profundamente.

Aimar Labaki: Mas não é isso que estou querendo dizer.

Fernanda Torres: Não, eu sei, mas é que às vezes essa coisa do “nunca mais fui o mesmo depois que pisei no palco com Fernanda Montenegro". Nem sei se a Giulinha ou o Edson disseram isso...

Aimar Labaki: Não, não é nesse sentido...

Fernanda Torres: ...mas isso me irrita.

Aimar Labaki: É no mesmo sentido que você ficar com grandes comediantes, como Dercy Gonçalves [ver entrevista de Dercy Gonçalves no Roda Viva]. Você sai diferente, com certeza.

Fernanda Torres: Mas acho que o que você aprende é que eles são tão cara-de-pau quanto você e que, se você for tão cara- de-pau como eles, você será tão grande quanto, entendeu?

Jorge Escosteguy: Rinaldo, por favor.

Rinaldo Gama: Você falou aqui que você se sente ingênua politicamente – não é? –, que você desconfia da política, desse movimento ecológico... Não sei então se, dentro desta auto-análise que faz, você vai poder responder a pergunta. 

Fernanda Torres: Será que vou passar na prova?

Rinaldo Gama: É uma questão ligada à política, o problema do subsídio, do incentivo do Estado ao teatro. A gente teve aí dois anos sem nada, o governo Collor chegou e acabou com a Embrafilme [o entrevistado refere-se especificamente ao Plano Collor, plano econômico para conter a inflação elevada do final dos anos 1980, que incluía, dentre outras medidas, a extinção de incentivos fiscais. Na época, a Embrafilme, que financiava boa parte do cinema nacional, foi extinta], acabou com a Lei Sarney e agora propõe uma coisa parecida, que é a Lei Rouanet. Isso está gerando uma série de discussões, mas o que parece um pouco de consenso é que, durante esses dois anos, quando todo mundo achava que a coisa ia para o buraco, a cultura brasileira não foi para o buraco apesar de tudo. Eu queria saber – embora seja um assunto que tenha a ver com política e você não goste muito de tocar nisso – como é que você vê essa questão do Estado tendo um papel de incentivo à cultura?

Fernanda Torres: Acho que, às vezes, ter um cara como o Ipojuca Pontes [secretário nacional da Cultura do governo Collor até 1991, quando Sérgio Paulo Rouanet assumiu o cargo] foi transformar o subsídio no pequeno "dinheirinho" que ele vai roubar do governo, quando você precisa ter um cara que encare investimento em cultura como algo necessário, como algo de um país forte se expondo culturalmente. Então acho que ele ter saído foi fundamental, porque não pode haver alguém achando que os outros estão roubando aquele dinheirinho “merda”, entendeu? Isso é triste. No caso da Lei Rouanet, é terrível porque ela poderia ser a Lei Sarney modernizada, mas, como chamava Lei Sarney, demorou-se dois anos para tirar aquela lei e fazer outra com o nome desse novo governo. Então é terrível, está sempre se começando do zero. Ao mesmo tempo, eu não teria feito nem Orlando nem a peça The flash se o Banco do Brasil não tivesse investido na Fundação Cultural Banco do Brasil. É tão complicado... Por exemplo, no caso do cinema, houve um emburrecimento muito grande da classe, precisava passar por uma reforma. Não sei se foi o fato de a Embrafilme existir que emburreceu todo mundo, o fato de poder ter um subsídio sem passar por um mercado competitivo, talvez sim. A Lei Sarney ou Lei Rouanet é interessante, ou seja, captar recursos no mercado, deixar a coisa andar sozinha, mas com dinheiro do mercado. Acho que tem que haver incentivo, a Alemanha tem incentivo, todos os países de cultura violenta incentivam a cultura. O Rouanet disse uma coisa muito legal: “Existem a verticalidade  e a horizontalidade da cultura. Ao pobre, só é permitida a horizontalidade, ele só pode ser popular, ir para a escola de samba... Não pode ir à ópera, porque ele não vai entender. O rico, não, ele desfila na escola de samba e depois paga a sua ópera no [Teatro] Municipal, pode ter a verticalidade cultural”. Ele dizia que achava importante no Brasil promover a verticalidade cultural para todos. Acho que a gente faz isso quando viajamos pelo Brasil com uma peça, mas para isso tem que ter apoio, [por exemplo] da Vasp, que nos apóia. Mas acho que não deve ser encarado como uma mendicância da classe cultural. É isso que você queria saber?

Jorge Escosteguy: Eugênio, por favor.

Eugênio Bucci: Acho que você recebeu o prêmio de melhor atriz em Cannes aos 22 anos, não é?

Fernanda Torres: É, acho que sim.

Eugênio Bucci: É, não é?

Fernanda Torres: 1986... é.

[...]: Quantos anos você tem?

Fernanda Torres: Tenho 26.

Eugênio Bucci: Vamos fazer as contas. 

Fernanda Torres: 21.

Eugênio Bucci: E o Sarney estava lá, não é?

Fernanda Torres: Não. O Sarney me deu a Palma [prêmio] aqui, porque eu não estava lá, estava fazendo “Cris, Cris, eu te amo”.

[risos]

Eugênio Bucci: Na vida de qualquer atriz do mundo, ganhar prêmio de melhor atriz em Cannes não é brincadeira. Como foi isso na sua carreira, que impacto teve? Você mencionou aquele período como uma coisa um pouco desagradável, talvez até com uma certa dor de consciência, falou: “Quando ganhei a Palma de Ouro, quando ganhei o prêmio em Cannes, fui embora, deixei minha mãe, que estava num período difícil”...

Fernanda Torres: Olha, eu estava tão infeliz! Lembro que saí de uma gravação, fui para a casa do meu irmão...

Eugênio Bucci: Você deve ter decorado um calhamaço para fazer aquele filme do [Arnaldo] Jabor, você não parava de falar. Era uma coisa... [refere-se ao filme Eu sei que vou te amar]

Fernanda Torres: Eu não parava de falar, mas foi muito bom.

Jorge Escosteguy: Para compensar o “Eu te amo, Cris”.

Fernanda Torres: [risos] Quando eu ganhei, lembro que estava muito infeliz com o processo da TV – também dei azar, peguei uma novela muito ruim–, mas... Estava na casa do meu irmão, falando: “Cara, vou abrir um restaurante, vou fazer qualquer coisa”. Aí minha mãe ligou e falou: “Você ganhou em Cannes”. E parecia que, no dia seguinte, eu ia ter contratos internacionais, seria a Cinderela... E aí vi que não. Por quê? Porque o filme não foi lançado lá fora, não foi vendido.

Eugênio Bucci: É falado em português.

Fernanda Torres: É falado em português. Então, na verdade, eu tinha um prêmio, que tenho até hoje, mas vi que ainda ia ter que andar "pra burro", aprender inglês, aprender francês, trabalhar, fazer teatro antes de usufruir do que isso poderia me dar.  E aconteceu uma coisa engraçada: fechei um contrato com a Sempre Livre para vender o absorvente higiênico, que me deixou dois anos com um salário muito bom e com muitas viagens ao exterior. Então passei dois anos sem produzir; filmei, mas filmes que não me... E eu falava: “Meu Deus! O que eu estou fazendo da minha vida? O que está acontecendo?” E, quando voltei, falei: “Estou de saco cheio de contratos de  filmes de um milhão de dólares que nunca existem. Preciso sentar e ensaiar”.

Eugênio Bucci: Mas você teve algum contrato de um milhão de dólares?

Fernanda Torres: Não, são os filmes para os quais sempre estão faltando um milhão de dólares para filmar.

Aimar Labaki: Dessa época é o filme de Portugal, O judeu? [1988, dirigido por Jom Tob Azulay, o filme é brasileiro]

Fernanda Torres: Fiz O judeu, aí fiquei lá [em Portugal] e fiz um filme do José Fonseca e Costa [A mulher do próximo (1988)], voltei e fiz o Kuarup [filme brasileiro de 1989, dirigido por Ruy Guerra, baseado na obra de Antônio Callado, mostra os rituais indígenas do Xingu, as mazelas da condição sacerdotal e política do Brasil], mas em nenhum desses trabalhei realmente em equipe com idéia. Eram filmes em que meu nome estava lá, eu fazia, mas tanto fazia ser eu como outra pessoa.

Fernanda Torres: O judeu é igual ao Sexta-feira 13 [longa série norte-americana de filmes de terror].

[risos]

Fernanda Torres: É, porque ele não acabou... Então toda hora alguém me liga e diz assim: “Jason vive! O judeu vai voltar!"

Jorge Escosteguy: Como é a história de um filme que você fez e que não chegou a ser exibido, O beijo [1989,de Walter Rogério]?

Fernanda Torres: Então, O beijo é um desses assim, que fiz e nunca foi exibido. Não teve...

Eugênio Bucci: Porque ele não chegou numa conclusão da montagem que ele queria dar, não é isso?

Fernanda Torres: Nunca vi esse filme montado.

Eugênio Bucci: Vi esse filme em Gramado.

Fernanda Torres: Pois é, não pude ir a Gramado. Então, o que aconteceu, na verdade, foi um afastamento do cinema, ao fim, porque eu tinha um contrato que me segurava e comecei a ser chamada para filmes que não dependiam de mim. Então vi que eu tinha me esvaziado ali. E falei: “Tudo que quero é ensaiar e trabalhar”. Aí a Bia [Lessa] veio sem nenhum “puto” no bolso e falou: “O ensaio é sexta-feira”. Eu falei: “É isso”. Passei seis meses trabalhando sem ganhar dinheiro, mas ensaiando. E foi o que me levou a fazer essa peça, com a qual vou viajar provavelmente o mundo.

Maria Cristina Duarte: Quando você descreveu a Palma de Ouro, me deu a sensação de que nesse período você não viveu...

Fernanda Torres: Vivi muito, mas não trabalhei.

Maria Cristina Duarte: E como é essa relação? Vi que você foi casada com, pelo menos, um jornalista e um cineasta. Não sei o próximo capítulo. Você já se casou com um ator?

Fernanda Torres: Não, nunca me casei com um ator.

Maria Cristina Duarte: Com qual dos dois, com o cineasta ou com o jornalista, você se viu melhor, quer dizer, qual te julgou menos? Tenho a sensação de que você, no palco, parece estar mais em casa do que na vida.

Fernanda Torres: É? Então, estou em casa na minha vida. Ah, não sei qual me julgou, são pessoas tão diferentes.

Maria Cristina Duarte: Mas como é que você fica na aproximação mais com o teatro?

Fernanda Torres: Como assim? Quem é que vou namorar?

Maria Cristina Duarte: Se a pessoa está no teatro, isso te aproxima mais da vida, dessa ligação que você tem com o teatro?

Fernanda Torres: Olha, sou uma [pessoa] solitária. Eu... independe. Minha profissão não tem... Não espero que um homem me apóie profissionalmente. Até se eu namorar alguém que está ligado diretamente àquilo não vou depender daquela pessoa, espero não depender nunca.

Maria Cristina Duarte: Nem quando você chega arrasada e diz: "Meu Deus, meu bem! Acho que hoje não foi...acho que o Gerald me usou, o que faço?” Você não espera nem um ombrinho?

Fernanda Torres: Ah, tem, mas quem está de fora... É como perguntar se minha mãe diz alguma coisa sobre os meus trabalhos. Quem está de fora não tem nada a ver com o processo que está rolando ali. Ele é resolvido ali em cena, no palco, não tem nada a ver com a realidade, entendeu?

Jorge Escosteguy: Fernanda, nós voltaremos em seguida com esse assunto. Vamos fazer um rápido intervalo, o Roda Viva volta daqui a pouco entrevistando hoje a atriz Fernanda Torres. Até já.

[intervalo]

Jorge Escosteguy: Voltamos ao Roda Viva, que hoje está entrevistando a atriz Fernanda Torres. Ela está nervosa; inclusive, antes do intervalo, perguntou: “Está chato?”

Fernanda Torres: Está chato aí, gente? [risos]

Jorge Escosteguy: Mas vou ler para você uma série de perguntas e/ou questões dos telespectadores que denotam mais uma reação deles ao seu comportamento, suas respostas e sua maneira de falar. Então você só ouça, depois no final você... até levanto um pouco a bola" para você com a última pergunta. O João Luís Ferreira, aqui de São Paulo, pergunta: “Você fala da moral e dos bons costumes como se fosse algo ultrapassado. É isso que a peça quer transmitir?” A Eliane Gomes, aqui de São Paulo: “Você tem uma maneira de se portar como “porra louca”. É uma maneira de agredir? E a quem?” Alba Prado, de São Paulo: “É necessário ser uma pessoa de grandes idéias para se masturbar em público?”

[risos]

Fernanda Torres: Estão acabando comigo, não é? Está horrível...

Jorge Escosteguy: Irene de Souza, de Caieiras: “Essa mancha roxa que você tem no braço é devido à peça?” Paulo Cabral, do Jabaquara, diz: “Percebi que você está com o braço sem depilar. Não é estranho isso nos dias de hoje?”

Fernanda Torres: Mandaram, gente.

Jorge Escosteguy: Nívea Simões, dos Jardins: “Você é tão bonita, por que você não depila os braços?” E Roberto Matoso, de São João da Boa Vista, agora "levantando a bola" para você: “Nossa educação é fundamentalmente baseada no medo e você não tem medo de nada, é muito corajosa e voluntariosa. Como você perdeu o medo?”

Fernanda Torres: Bom... primeiro, não depilo o braço, porque na peça [me] mandaram não depilar o braço. Sou muito limpinha, tomo banho todo dia, lavo a minha calcinha e não depilo porque o Gerald falou que não queria e não ficava bem na peça. É tão violenta e uma mulherzinha com o bracinho raspado [destoaria]... por isso que não raspo, ouviu? E não falo moral...  Sou muito bem comportada, o que falo é de moral e bons costumes em cena, que em cena você não pode se comportar conforme a lei, senão você... E eu sou uma “porra louca”? Vocês acham que me comporto como uma “porra louca”? Minha mãe me falou isso, ela disse assim: “Nanda, não fala tanto palavrão, que parece que está querendo ser moderna”. Eu falei: “Mãe, mas palavrão para mim é quase um ponto e vírgula”. E ela falou: “Mas pega mal”.

Jorge Escosteguy: E o medo?

Fernanda Torres: Medo de...?

Jorge Escosteguy: O telespectador acha que você perdeu o medo, que você não tem medo de nada. E a nossa educação é fundamentalmente baseada no medo. Como você perdeu o medo? O que você fez para perder o medo? Se é que você perdeu – essa é a impressão do telespectador.

Fernanda Torres: Ah, tenho medo de tantas coisas. Aqui não tenho muito medo, não, essa argüição moral não me dá medo, mas morro de medo de...

Jorge Escosteguy: Barata?

Fernanda Torres: Não, mas levei anos para dormir com a luz apagada. [risos]

Teresa Cristina de Barros: Vamos às confissões sentimentais. Uma vez você declarou que o seu homem ideal não deveria ser nem muito musculoso, nem muito magro, deveria ter uma testa larga e, uma coisa que não entendi, deveria ser paulista.

Fernanda Torres: Mas já mudei muito.

Teresa Cristina de Barros: Ah, é? Como que é agora?

Jorge Escosteguy: O paulista foi uma decepção?

Fernanda Torres: Não, não. É que eu adorava São Paulo. São Paulo era meio que uma diferença, sair do Rio e vir para São Paulo era uma...

Maria Cristina Duarte: Também fiquei intrigada.

[risos]

Fernanda Torres: É que eu gostava muito dos paulistas, eles tinham um mundo...

Maria Cristina Duarte: Porque eles eram sérios?

Fernanda Torres: Não, não. Eles são mais cultos, às vezes, do que os cariocas, mas isso é outra fase da minha vida em que São Paulo... Aí namorei uns paulistas. Atualmente, São Paulo é a minha casa.

Teresa Cristina de Barros: Qual é o perfil atual do pretendente?

Fernanda Torres: Não tem perfil. Acho que estou mais velha, acho que é mais um homem...

Eugênio Bucci: Fernanda, eu queria pegar carona numa das perguntas dos telespectadores. Um deles perguntou sobre uma mancha roxa no teu braço e no intervalo a gente estava falando sobre isso. De perto, dá para ver alguma coisa nos teus joelhos também. Tudo isso é da peça?

Fernanda Torres: Tudo isso é da peça, não é nada mais do que da peça. E ela é melhor do que Orlando, que tinha aquela chuva de terra. Tive gripes seguidas em São Paulo, tive inflamações no ouvido por causa da terra, o meu cabelo virou black power de tanta terra que tinha. Essa é melhor, mas ela é tão violenta...é um telequete.

Eugênio Bucci: Você tem adicional de insalubridade?

[risos]

Fernanda Torres: Não, mas devia ter. E tenho um negócio que chama melancolia, que é quando eu fico muito nervosa, eu tenho mancha roxa. Mas essa aqui [não é disso]. E fico ajoelhada na maior parte da peça, e é uma lona que queima o meu joelho. Atualmente, eu ponho uma faixa aqui, porque quando eu vim para esse teatro maior, sangrava, ficou realmente machucado. Isso aqui tudo [ela aponta para os joelhos] é da peça.

Alberto Guzik: Fernanda, queria te perguntar sobre a relação da mídia com o ator. Certos atores ficam muito mais expostos que outros, mas de qualquer maneira é uma relação estranha, uma relação que o Louis Malle [diretor de cinema francês] sintetizou de uma forma muito cruel, mas muito legal naquele filme Vida privada [1962], com a Brigitte Bardot [atriz e cantora francesa, conhecida mundialmente como símbolo sexual dos anos 60 e 70].

Fernanda Torres: Não vi.

Alberto Guzik: É terrível o filme. No fim, a mídia praticamente mata a Brigitte Bardot, ela sobe no muro de uma casa numa cidade medieval italiana para ver um espetáculo que o marido dela, [vivido pelo ator italiano] Marcello Mastroianni, está fazendo na praça da cidadezinha e acaba sendo ofuscada pelos flashes de fotógrafos. Acaba escorregando, cai e morre. A mídia pode matar, tem essa relação invasiva? Como é que você se sente em relação a isso?

Fernanda Torres: Sabe que em São Paulo há uma diferença fundamental [em relação ao] Rio. No Rio, como minha mãe diz, "o nordeste começa", então há...

[risos]

Fernanda Torres: É verdade! Então há uma certa... o carioca é mais blasé [indiferente] com relação ao que o outro faz. Há uma liberdade pessoal maior. Quando chego em São Paulo, fico muito impressionada com a mídia, com a importância do que você está fazendo. A coisa da masturbação em São Paulo é muito violenta, do aparecer nua em Orlando era muito violenta, é uma cidade mais...

[...]: Não tem praia, não é?

Fernanda Torres: É mais moralista, é muito mais moralista do que o Rio. Então São Paulo às vezes me assusta, porque sinto isso com o Gerald. É muito engraçado, a figura pública é muito diferente da figura pessoal dele. E, às vezes, vejo os jornalistas se recusarem a ouvir como ele é. Eles preferem a figura agressiva e polêmica do Gerald e aí a entrevista acaba virando polêmica e agressiva, às vezes, por um posicionamento de quem está perguntando. É como isso a masturbação: você explica que é teatro, que não é real, mas a pessoa vai até o fim de que aquilo ali é algo talvez condenável ou chocante. Então, em São Paulo, às vezes, a mídia e o seu moralismo cansam. Mas o Rio também é triste, porque você faz um trabalho e tanto faz você ter feito ou não. E, quando você vem a São Paulo, ele é destrinchado. A mídia é necessária, às vezes. Com ela você discute o seu trabalho, é quase como uma análise do seu trabalho. Você precisa da mídia.

Jorge Escosteguy: Você acha que a mídia te trata bem? E você não desconfia que pode estar sendo bem tratada porque é filha da Fernanda Montenegro?

Fernanda Torres: Não. Acho que, às vezes, sou uma figurinha sweetheart na mídia por ser filha da mamãe, sabe? E sou tratada, às vezes, com menos humor do que tenho. Sou uma figura mais careta na mídia do que sou na vida.

Eugênio Bucci: O que você acha engraçado?

Fernanda Torres: A vida. De uma maneira geral, acho tudo muito engraçado.

Serginho Groisman: Fernanda, eu queria seguir o que o Alberto estava falando, passando da mídia para uma imagem que as atrizes tentam impor ou a mídia tenta impor às atrizes. As pessoas estão meio perplexas com algumas atitudes verbais, alguns posicionamentos físicos...

Fernanda Torres: É tão chocante assim? Não, né? [interrompendo]

[...]: O quê?

Fernanda Torres: Eu pareço uma “porra louca”?

[risos]

Teresa Cristina de Barros: Você fica insegura com esse tipo de coisa, sobre como as pessoas te vêem?

Fernanda Torres: Fico meio chocada com o cara achar que sou uma “porra louca”. Fico pensando se estou fazendo um gênero aqui. Isso me incomoda, entendeu? Não estou fazendo gênero, sou assim. Então é meio chocante, porque parece que estou querendo ser agressiva e não sou. É a minha forma de ser.

Serginho Groisman: Até acho o contrário...

Fernanda Torres: E também é ruim quando acham: “Ah, você é tão bonitinha, é tão queridinha”.

Serginho Groisman: Você mesma falou da postura que a televisão tem em relação aos atores e que os atores também começam a se moldar frente a algo mais clean [limpo em inglês], de nunca se envolverem com um tipo de teatro mais agressivo, visceral ou metafórico. Você acha que existe uma cobrança, não só da mídia, mas das pessoas, da sociedade em geral, para que as pessoas que elas vêem na televisão, enquanto representativas de seus desejos, sejam como as novelas retratam? Ou seja, alguém que não fala palavrão, que se veste tranquilamente ou que se depila todo dia e que não se masturba?

Fernanda Torres: Parece que ninguém faz. Todo mundo faz, não é? [sobre a masturbação]

Serginho Groisman: Eu queria que você falasse um pouco sobre o papel que as atrizes têm que ter frente à sociedade, e por outro lado, você acha que é uma profissão legal em termos de poder sobreviver, de viver legal? E ainda, desculpe, mas é a oportunidade...Como é o homem da sua vida? E parece que tudo tem que girar em torno de você, né? Quer dizer, seu homem não pode ter o seu carinho, parece que você...

Fernanda Torres: Vou ter o carinho dele.

Serginho Groisman: E a mídia também privilegia muito a pessoa em termos de achar que só ela é que existe. Sua vida privada vai para os "cafundós", não é?

Fernanda Torres: É que sua vida privada vive em função da sua vida profissional, mas são coisas diferentes. Você é carente, é apaixonado ou não, como qualquer um na vida pessoal. Espera aí, agora as perguntas.

Serginho Groisman: Agora você vai querer que eu lembre as perguntas...

[risos]

Fernanda Torres: Não sei...Você pode escolher sobreviver... Há formas e formas, assim... Prefiro uma vida mais arriscada,  prefiro não ter um salário. Quando tive salário, que foi com o Sempre Livre, vi que produzi muito menos e  acho que ator lida com o risco, que isso faz com que você trabalhe em coisas melhores. Contrato longo me angustia, porque acho que estou sendo paga para ficar parada na vida. Mas passo muito bem, vivo numa casa maravilhosa, construí uma casa...

Maria Cristina Duarte: Você guardou dinheiro para construir essa casa? Qual é sua relação com o dinheiro?

Fernanda Torres: Adoro dinheiro, fico muito angustiada quando não tenho dinheiro.

Teresa Cristina de Barros: É verdade que você é "pão-dura"?

Fernanda Torres: Gosto muito de gastar, mas se não tenho [dinheiro] guardado, tenho medo.

Maria Cristina Duarte: Você aplica seu dinheiro?

Fernanda Torres: Atualmente, nem estou com tanto dinheiro para aplicar...

Maria Cristina Duarte: Mas você não guarda debaixo do colchão?

Fernanda Torres: Não. Apliquei na minha casa, tenho algum dinheiro guardado, uma pequena reserva que me deixa dizer não a trabalhos que eu não quero. Então minha relação com o dinheiro é essa, gosto de ter para fazer o que quero. Não tenho uma vida suntuosa, mas gosto de viajar todo ano se possível. O Brasil é muito longe do mundo, então tem que ir lá para fora, voltar, temos que quebrar essa "barreira atlântica" que o Brasil tem com o mundo. Quero viver bem, quero poder voltar para uma casa que não seja deprimente. Tenho uma vida muito legal, uma casa muito bonita que construí com a grana lá do comercial, com novela e filmes. Hoje me orgulho de não depender de nenhum contrato, de viver do que se apresenta e de poder escolher o que faço. Acho que o ator tem que viver no risco, senão se acomoda, fica chato.

Jorge Escosteguy: Você não é candidata, então essa pergunta não vai te incomodar muito. Você não acredita em Deus?

Fernanda Torres: Eu acredito naquele Deus antes de Cristo, num Deus enigmático e metafórico, que dialoga com você na vida. Acredito no Deus de "José e seus irmãos" [história bíblica do Velho Testamento] , que pega o José e o joga no fundo do poço. E, embora o José saiba que é o escolhido, vai para o fundo do poço, porque sairá melhor dali. Então acredito num Deus que dialoga com a gente.

Maria Cristina Duarte: Dialoga ou cobra?

Fernanda Torres: Não, dialoga no sentido de “Ah, você acha que é o escolhido? Então vá para o fundo do poço agora”. E depois  dá subsídios para você sair do poço muito melhor do que quando caiu lá dentro.

Maria Cristina Duarte: Você vai purgando até ficar melhor?

Fernanda Torres: Não. Quando José cai no poço, é um imbecil.

Maria Cristina Duarte: Então ele vai [se] purificando até...

Fernanda Torres: Não, não. Ele é um ingênuo, achou que é o escolhido, porque ele é lindo e maravilhoso, mas cai no poço e aprimora a capacidade...

Eugênio Bucci: Você falou que acredita num Deus que dialoga com você. Você já dialogou com Deus? Você sente isso?

Fernanda Torres: Vivo dialogando com Deus. Vivo falando: “O que você quer de mim? O que você quer de mim?”.

Eugênio Bucci: O que ele responde?

Fernanda Torres: Ele responde assim: “Vai por ali”. É isso, por exemplo, fazer uma novela como Selva de pedra, que era muito ruim, foi o fundo do poço.

Maria Cristina Duarte: E ele falou: “Vai lá e bate na sua mãe, mas bate mesmo”.

Fernanda Torres: Selva de pedra foi o fundo do poço para mim. Mas ele vai me dar um prêmio em Cannes e fala: “Você tem fortuna, mas está falando mal dela. Bendiga sua fortuna, bendiga o que você tem, fale bem de sua herança!” É um Deus do bem dizer, entendeu?

Alberto Guzik: Que trabalhos você tem em vista? O que está articulando para breve? E tem algum personagem de teatro ou literatura que te fascina, que você adoraria viver?

Fernanda Torres: Não tenho muitos, sabia? Adoro literatura, toda vez que leio um livro, acho que é possível fazer aquilo, mas é estranho. Minha mãe me deu José e seus irmãos [romance de Thomas Mann, baseado na história bíblica] para ler, eu falei: “Cara, isso dava para fazer com a minha mãe! Ela faria o papel de Deus e eu, o papel do José”. E essa peça do Gerald é isso.

Alberto Guzik: De certa forma, é isso.

Fernanda Torres: Então é estranho, você vê como Deus escreve? Você ouve coisas, é só saber ouvir.

Alberto Guzik: E os projetos, o que você está articulando?

Fernanda Torres: Afora a peça, que tem uma temporada lá fora e aqui...

Alberto Guzik: Tem uma carreira longa ainda.

Teresa Cristina de Barros: Lá fora onde?

Fernanda Torres: Ah, em Nova Iorque... Há uma temporada nos Estados Unidos e uma na Europa. E afora isso, vou começar a filmar com André Klotzel, que foi um dos caras...

Eugênio Bucci: Capitalismo selvagem [filme lançado em 1992]?

Fernanda Torres: É, tenho o maior orgulho disso, porque o André foi o cara com quem mais trabalhei em equipe no cinema. É o melhor diretor que a gente criou nessa loucura toda. Ele é um cara com visão antropológica do Brasil, tem uma visão além de um pequeno filme. E esse filme, eu vi ele começar a elaborá-lo no Japão, quando levamos A marvada carne para o Japão, então estou desde o início. Tenho uma intimidade enorme com esse filme, vou começar a filmar.

Jorge Escosteguy: Antes de passar ao Aimar, tenho uma pergunta para você. O Vicente Damasceno, aqui do Centro [de São Paulo], disse que é professor de inglês e, se você quiser, ele te dá aulas, já que você falou que precisava aprender inglês para trabalhar no exterior.

[risos]

Fernanda Torres: Ele dá aula de línguas! [risos]

Aimar Labaki: Fernanda, vou ser obrigado a " fazer" uma revista Amiga rápida com você.

Fernanda Torres: Hummmmm!

Aimar Labaki: Semana passada, numa entrevista do Gerald, ele dizia – ou deixava nas entrelinhas – que namorar as atrizes dele fazia parte do processo de trabalho. Eu queria saber como foi...

Jorge Escosteguy: O processo de trabalho.

Aimar Labaki: ... o processo de trabalho. A segunda pergunta...

Serginho Groisman: Mas em relação a ela ou à mãe dela?

Aimar Labaki: A tudo de que ela tenha participado, não sei até que ponto foi o ensaio. Outra coisa que você deixou lá atrás: tua mãe teve um casamento só, sólido, e que segue até hoje. Você, aos 25 [anos] - está com 28 agora -, já teve três ou quatro. Você vê uma relação entre uma coisa e outra?

Fernanda Torres: Entre o quê?

Aimar Labaki: O fato de você ter tido quatro casamentos rapidamente tem a ver com o fato de ela ter tido um só?

Fernanda Torres: Não, acho que é por causa da vida mesmo. Hoje em dia as pessoas se conhecem e se "gastam" mais rápido. Acho que há uma relação utilitária entre homem e mulher...

Aimar Labaki: Você não fantasia a possibilidade de ter um casamento?

Fernanda Torres: Nem sei se já tive um casamento na verdade. Morei mais com todo mundo, dividi uma casa e trocamos, tivemos casamentos, mas talvez eu não tenha tido o meu homem, entendeu? Talvez eu ainda esteja para ter, não sei. Eles foram meus casamentos lá, mas hoje olho e foram mais relações da época mesmo. Talvez eu ainda esteja para casar, sou uma moça "casadora".

[risos]

Jorge Escosteguy: O processo de trabalho do Gerald Thomas.

Fernanda Torres: O processo de trabalho do Gerald foi engraçado. Às vezes, é terrível isso com o Gerald, porque outro dia vi uma entrevista com uma fotografia da Bete [Coelho] e da Giulinha e parece que elas não optaram por ele, parece que ele é um garanhão, um vampiro de mulheres. Isso é mentira, há uma troca, elas também vampirizaram, acho que há um vampirismo na relação amorosa. Enquanto alguém tiver algo para te dar, você vai estar com ele e o outro vai estar com você. O dia em que você não tiver mais o que dar, um dos dois vai embora mesmo. Então é utilitário, o amor é utilitário, sim, é para crescer. Então, o Gerald comentou isso comigo: “Como o Brasil é machista, como é terrível que ponham a fotografia das duas como se eu tivesse as usado. Nós nos usamos mutuamente!” É machista achar que a mulher também não usou aquele cara, entendeu?

Eugênio Bucci: Mas acho que você não respondeu...

Fernanda Torres: Olha, não namorei o Gerald e foi muito bom isso...

Jorge Escosteguy: Faltou a resposta Amiga, é isso?

Fernanda Torres: Não namorei e foi muito bom, porque limpou, havia uma calma no ensaio. Eu tinha acabado de conhecê-lo. Brincava com ele e falava: “não, namora minha mãe, que é muito mais original”.

Jorge Escosteguy: Fernanda, a Ângela, de Mairiporã, telefonou e pede para você contar uma história. Ela leu uma entrevista sua em que você falava de uma camiseta em que estava escrito: “Entendi uma peça de Gerald Thomas”. Ela quer saber se essa camiseta existe, se você a usou.

Fernanda Torres: Não, essa foi uma brincadeira maravilhosa, “eu entendi uma peça do Gerald Thomas”. E podiam confeccionar, porque é uma piada muito boa.

Serginho Groisman: Fernanda, você acha que sua vida profissional está definida? Eu falo isso, porque jogador de futebol vai até uma idade e pára, modelo vai até uma idade e pára. Você está com 25...

Fernanda Torres: Não, graças a Deus é uma profissão na qual vou poder trabalhar até os 90 [anos]. Morta num caixão, ainda vai ter um papel para mim. [risos]

Serginho Groisman: Isso eu sei, mas você já tem sua vida definida enquanto profissão?

Fernanda Torres: Não, de jeito nenhum. Olha que coisa engraçada: agora tenho um agente na Inglaterra, estou armando um book de vídeo pela primeira vez na vida, pela primeira vez tenho um filme em inglês...

Aimar Labaki: Que filme é esse?

Fernanda Torres: É um filme que fiz no México com Anthony Hopkins e a Norma Aleandro [refere-se ao filme One man's war, de 1990]. Não é um filme muito bom, mas me deu esse agente, que está tentando me "bookar" para alguns filmes.

Aimar Labaki: Você contracenou com eles?

Fernanda Torres: Sim, foi muito legal. Eles reconheceram que eu era uma atriz, que eu não era uma deslumbrada.

Aimar Labaki: Teu inglês dá para isso?

Fernanda Torres: Meu inglês dá para isso. O agente elogiou muito o meu inglês.

Jorge Escosteguy: O telespectador perdeu o emprego.

[risos]

Fernanda Torres: Então, acho que não está definido de jeito nenhum. Por exemplo, o Gerald fala: “Olha, indo lá para fora, acho que você vai ter chance”. Hoje ele me disse: “Vamos mandar este filme para o [Pedro] Almodóvar [ver entrevista do cineasta espanhol no Roda Viva], porque ele vai gostar”. Ou então: “Vamos deixar na casa do [Martin] Scorsese". Eu disse: “Imagina, você está louco”. O Gerald é uma boa companhia, ele não vê o mundo como algo tão longe, então ainda tem muita coisa para ver.

Alberto Guzik: Fernandinha, eu queria te perguntar sobre nudez. Quando você estava fazendo Orlando, fiz uma matéria sobre atrizes e nudez e você me deu uma resposta muito bonita. Disse que, quando você ficava nua na peça, tua pele era o figurino, quer dizer, você estava vestida com a tua pele, que isso era um figurino suficiente para você e por isso você podia ter aquela nudez radiosa. Eu nunca vi ninguém nu tão bonito em cena quanto você, era uma coisa absolutamente natural...

Fernanda Torres: Com aquela cara de quem está vestido.

Alberto Guzik: Exatamente. Você continua achando que, quando a nudez tem sentido no trabalho, ela é efetivamente um figurino, uma segunda pele? E outra coisa: você já fez algum trabalho ou já te propuseram algum trabalho em que você teve uma nudez que não era um figurino, mas se sentiu exposta pela nudez?

Fernanda Torres: Não sei, não [me] lembro direito, mas me incomoda, às vezes, que em cinema sempre haja cenas de “trepada”. Em filme brasileiro sempre tem, é uma coisa quase burocrática!

Eugênio Bucci: Em geral de cueca, não é? Você já viu, o cara está de cueca, é invariável.

[sobreposição de vozes]

Fernanda Torres: Minha mãe falou: “Nanda, um dia eu queria ter uma relação igual à do cinema, em que mal é tocada e a mulher já está fazendo ai” [simula sensação de prazer].

[risos]

Fernanda Torres: É verdade! Porque é cena burocrática. Os filmes do [Emir] Kusturica [cineasta nascido na Bósnia conhecido por filmes como Underground, mentiras de guerra, premiado em Cannes em 1995], ele filma sexo de um jeito que realmente você fica nervoso na cadeira e, em outras cenas, você fica apenas constrangido. Então, às vezes, isso me chateia. Aliás, estando a Playboy aqui, é engraçada essa coisa do posar nua. Ali eu não me sentiria bem, sabe por quê? Porque eles propõem um trabalho extremamente artístico, como algo de profunda beleza. E fico achando que tenho que entrar no jogo, fingir que sou ingênua e ele tem que fingir que não está me propondo um negócio para vender uma revista e que, duas folhas antes, vai ter a gostosa das Havaianas com um peito deste tamanho [gesticulando]. Uma das coisas que mais me incomodam na Playboy é o jogo da sedução mentirosa. Eu lembro, a proposta comigo era assim: quadros clássicos, a Monalisa nua [risos]. Então falo “não dá, cara”, é melhor dizer: “Quanto você tem para me pagar? Toda puta tem um preço, então vamos a ele". Não acho que quem posa é puta, de jeito nenhum, acho algumas matérias maravilhosas. Mas, às vezes, vejo pessoas de uma ingenuidade incrível posando como se aquilo fosse um trabalho realmente artístico e não é. É a Playboy, pô!

Serginho Groisman: Mas o que é o nu artístico? Existe o nu artístico? Ou nu é nu?

Fernanda Torres: Algumas fotos são nu artístico.

Serginho Groisman: Não, digo isso porque em Orlando...

Fernanda Torres: Não sei se é artístico, o Orlando é quase uma boa piada:" você acha que a peça acabou? Não, a peça não acabou!" Eu via como isso era um truque cênico quase.

Serginho Groisman: Mas naquele caso era um nu artístico?

Fernanda Torres: Também não, entende? Era um nu-joke [piada em inglês], que é legal.

Alberto Guzik: Era um nu lúdico.

Fernanda Torres: É um nu “ah, não acredito”, algo encantador, entendeu? E era só isso. Às vezes, a Bia falava que era o ator nu se mostrando em cena, mas juro que não achava isso.

Alberto Guzik: Mas a Bia gosta de teorizar.

Fernanda Torres: Gosta de teorizar, mas eu não achava isso.

Rinaldo Gama: Você falou que sentia, aqui em São Paulo, a imprensa, com essa repercussão que teve a cena da masturbação, muito moralista, muito diferente do Rio de Janeiro. Uma telespectadora ligou e fez uma pergunta provocativa, disse assim: “Será que precisa ser mesmo uma atriz de idéias para poder se masturbar no palco?” Então pergunto para você: é mesmo uma coisa só nossa, só da mídia?

Fernanda Torres: Não, não. Acho que o moralismo é paulista, de uma maneira geral, por não ter praia, por ser uma cidade...

Rinaldo Gama: Você acredita mesmo que é porque não tem praia?

Fernanda Torres: É, mas acho que é uma cidade caipira, de certa maneira, uma grande metrópole caipira. E no bom sentido,  adoro os caipiras, mas é uma cidade mais moralista. A burguesia paulista não existe no Rio, porque lá a burguesa vai no carro dela, suando, pára na praia e tem a [favela da] Rocinha inteira na praia com ela. E São Paulo é uma cidade com cinturões de riqueza e de pobreza. A burguesia aqui é diferente, é mais chocante... Acho que a mídia é um reflexo da sociedade. Então, não acho que é a mídia, acho que é São Paulo, mas gosto muito de lidar com isso em São Paulo.

Jorge Escosteguy: Alberto Guzik, por favor.

Alberto Guzik: Eu queria te perguntar sobre os diretores com quem você já trabalhou. Fale um pouco deles, das diferenças, de como eles te ensinaram, o que eles te ensinaram. Você não fez escola de teatro, quer dizer, você fez...

Fernanda Torres: Eu fiz O Tablado [companhia de teatro amadora fundada pela dramaturga Maria Clara Machado (1921-2001) no Rio de Janeiro, cujo objetivo é trabalhar peças internacionais e infantis de maneira eclética e contribuir com a formação de atores, cenógrafos, figurinistas, diretores e músicos], mas não é uma escola, é mais um despertar para [ver] se você quer ou não aquilo. O Walter Lima [cineasta, jornalista e crítico de cinema, premiado nacional e internacionalmente. Seus filmes principais são Menino de engenho (1965), Inocência (1983) e A ostra e o vento (1987)] me salvou na vida, ele foi o primeiro cara, me olhou e me trouxe para uma especialidade. Há dois filmes que eu acho que sobrevivem até hoje, dos que eu fiz: A marvada carne e Inocência [1983]. Eu olho Inocência hoje e ele é a alma do Brasil, é sobre o machismo brasileiro, a caipirice brasileira, a sociedade fechada que é o Brasil, sobre como se tratam as mulheres ainda hoje. O Walter é um cara fenomenal, fenomenal! Então,  tenho um profundo orgulho de ele ter me tirado do limbo. Ele me tirou do limbo, ele me tirou de ser mais uma atriz de novela de sucesso, filha da Fernanda Montenegro ou de todos os terrores que poderiam ter em volta de mim. Aí veio o André [Klotzel], que é a minha equipe, meu companheiro, com quem viajei para o Japão. Vejo isso hoje quando a gente vai filmar, tenho uma relação de companhia com ele.

Aimar Labaki: Eu sei que vou te amar não sobra na tua lista como um filme que sobrevive?

Fernanda Torres: Não, porque o Eu sei que vou te amar é datado como filme. Acho que o Tudo bem [Arnaldo Jabor, 1978] não é, Toda nudez será castigada [Arnaldo Jabor, 1973] não é, A Opinião Pública [Arnaldo Jabor, 1967] não é. Mas acho que, se o décor [cenário] do Eu sei que vou te amar fosse em Copacabana, ele sobreviveria, mas é numa casa rica com neon. E aquilo não sobrevive.

Aimar Labaki: Você o reviu recentemente?

Fernanda Torres: Revi agora, montando meu book.

Eugênio Bucci: Que cenas do Eu sei que vou te amar entraram no seu book?

Fernanda Torres: Entrou a cena da piscina. E o Jabor é maravilhoso, é Copacabana, ele é filho do Nelson Rodrigues, é aquele desespero de Copacabana. Então, sabe, o Jabor é maravilhoso! Como ele é engraçado! Aquela loucura do Jabor, parece que tive algum contato com Nelson Rodrigues na vida...

Alberto Guzik: E de teatro?

Fernanda Torres: De teatro? Trabalhei com o Celso Nunes [diretor de teatro entre as décadas de 60 e 80. Dirigiu Rei Lear, em 1983]. Não sei, o Celso é quase um professor para mim, ele é muito amigo dos meus pais, li uma tese dele que foi muito influente para mim... A Bia [Lessa] foi a primeira pessoa que me fez fazer as pazes com o teatro, gosto muito dela.

Alberto Guzik: Você estava meio de mal com o teatro quando você fez Orlando, estava longe fazia muito tempo...

Fernanda Torres: Não, eu achava que nunca ia conseguir fazer, que era uma coisa que não fazia parte de mim. O trabalho com a Bia foi de equipe e me resgatou o amor ao teatro. E o Gerald, estou adorando trabalhar com ele, inclusive, porque eu tinha muito medo dele. Eu não falava com o Gerald, ele não falava comigo. Eu via tudo que ele fazia, mas achava que era uma pessoa inatingível, que ele era o que é em jornal.

Alberto Guzik: Ele é um grande tímido, não é?

Fernanda Torres: É, talvez. Ele é uma pessoa adorável. Eu achava que ele não tinha humor, que ele era um cara voltado para ele. Não é, ele escuta muito, é uma grande surpresa. Ele tem muito a me ensinar pela vida, a gente deve continuar a trabalhar.

Teresa Cristina de Barros: Fernanda, em relação às atrizes, quer dizer, você é da mesma geração, década de 80, da Andréa Beltrão, da Débora Bloch...

Fernanda Torres: Da Debby, da Giulinha [Gam]...

Teresa Cristina de Barros: Pois é, você acha que tem uma característica comum às atrizes da década de 80?

Alberto Guzik: Embarcando nisso, você acha que o teatro brasileiro realmente é um matriarcado? As atrizes são sempre melhores que os homens...

Fernanda Torres: É incrível, não é?

Teresa Cristina de Barros: Impressionante.

Fernanda Torres: Não é impressionante? Isso é terrível, porque, para todo papel, a gente já sabe a fila. É assim: bom, se a Debby não fizer, devem me chamar ou devem chamar a Giulinha ou a Andréa ou a Bete.

Eugênio Bucci: Mas é assim em qualquer lugar do mundo.

Fernanda Torres: Mas é que os atores não são assim. Você conta nos dedos, temos sete boas opções de atriz para um papel.

Aimar Labaki: Em qualquer faixa etária, dos 90 aos dois, com certeza.

Fernanda Torres: É uma loucura, então acho que aí o matriarcado se mantém. E são todas muito espertas. A Regina Casé [atriz e apresentadora da Rede Globo] e o Luiz Fernando Guimarães, que fizeram agora o Programa Legal [programa que mesclava documentário e humor com reportagens de rua, exibido pela Rede Globo entre 1991 e 1992], fundaram um buraco para eles dentro da TV, que era impossível...

Maria Cristina Duarte: A que você atribui esse sucesso matriarcado?

Fernanda Torres: Não sei.

Alberto Guzik: Ao fato de elas serem melhores mesmo, talvez.

Jorge Escosteguy: Um grande ator para você, quem seria?

Fernanda Torres: Acho que o Procópio Ferreira é um grande ator, Buster Keaton [(1895-1966) diretor e ator norte-americano, que atuou principalmente em comédia muda] foi um grande ator, os irmãos Marx [grupo norte-americano de cinco irmãos comediantes: Chico, Harpo, Goucho, Zeppo e Gummo. Atuaram em teatro e em cinema no início do século XX, com enorme sucesso em Hollywood e em todo o mundo, pelo senso de humor que satirizava a alta sociedade e o comportamento humano] são grandes atores.

Serginho Groisman: Marlon Brando.

Fernanda Torres: Ah, o Marlon é... Cara, o Marlon não existe.

Jorge Escosteguy: Brasileiros, brasileiros. Nós estamos falando do matriarcado brasileiro, agora os atores brasileiros.

Fernanda Torres: O Lima [Duarte - ver Roda Viva com o ator]. Tem coisas do Lima que são adoráveis. O Tarcísio [Meira] você não pode dizer que não é um maravilhoso ator.

Aimar Labaki: Da tua faixa etária?

Fernanda Torres: Da minha faixa etária? Pedro Cardoso é um grande ator, Luiz Fernando Guimarães é maravilhoso! Acho que o Luiz Fernando é o melhor ator que a gente tem. É o maior de nós todos, ele é maravilhoso.

Jorge Escosteguy: A Ivani Fernandes, aqui de São Paulo, pergunta se você já fez psicanálise.

Fernanda Torres: Faço psicanálise.

Teresa Cristina de Barros: Ainda com o [psicanalista] Rubens Molina?

Fernanda Torres: Ainda com o Molina.

Teresa Cristina de Barros: Quantos anos já?

Fernanda Torres: Outro dia parei e falei “gente, estou há oito anos com o Molina”. É inacreditável!

Jorge Escosteguy: O que te levou a fazer psicanálise?

Fernanda Torres: Não sei o que me levou a fazer. Mas fico com o Molina porque ele não faz psicologismo, não está ali para resolver o meu pequeno problema com a minha mãe ou com a minha profissão, mas para me passar um saber, que é a psicanálise, uma relação com a vida, que é a psicanálise, algo que é além da religião. É algo que mistura religião com... hoje em dia, como toda essa coisa da linguagem, do dizer bem, do maldito, do bem dito, do bem dizer sua herança, do matar a sua mãe e sobreviver com ela. Não sei se é o Molina, mas minha relação com ele fez a psicanálise ser não um psicologismo imbecil, mas um saber. É quase um estudo sobre as relações humanas.

Teresa Cristina de Barros: E você continua brigando contra os quilinhos a mais, fazendo regime?

Fernanda Torres: Olha, melhorei muito. Fazer teatro melhora muito, porque você malha. Entrei para a capoeira e o meu corpo mudou. Agora tenho até uma divisão na barriga, depois da capoeira.

Teresa Cristina de Barros: Contra a maquiagem. Maquiagem é coisa de perua?

Fernanda Torres: Não, não sou contra a maquiagem. Tem gente que fica bem maquiada. Eu fico horrorosa maquiada, porque o dente fica grande, o olho salta, o nariz fica violento e fico com uma cara de múmia, com a sensação de que estou embalsamada. E faz muito calor no Brasil, não consigo usar maquiagem.

Teresa Cristina de Barros: Qual é o teu grande sonho hoje, Fernanda?

[Fernanda está pensativa]

[...]: Nossa, que silêncio!

Fernanda Torres: É que não tem um...

Eugênio Bucci: Trabalhar no exterior?

Fernanda Torres: Não, não. Meu grande sonho é continuar... é poder... Sempre quando estou para cair no abismo, alguém me salva, eu tenho dado sorte na vida. Então, [o sonho] é que a fortuna não me escape mais.

Jorge Escosteguy: O Cristiano Salera, aqui de São Paulo, telefonou...

Fernanda Torres: Cris!

[risos]

Jorge Escosteguy: Ele pergunta qual é a melhor coisa que você recebeu do seu pai e da sua mãe.

Fernanda Torres: Ah, não sei.

Alberto Guzik: Foi a vida, não foi?

Teresa Cristina de Barros: E a pior?

Fernanda Torres: É, acho que sim, não é?

Teresa Cristina de Barros: E a pior?

Fernanda Torres: Ah, perdoei tudo, viu?

Jorge Escosteguy: A Rosangela Grigolon, de Santo André, quer saber o que você acha das drogas, se você consome ou já consumiu.

Fernanda Torres: Olha, acho que se devia liberar, porque é hipócrita. Não ser liberado induz ao uso, porque a coisa proibida induz ao uso. Mas sei que não interessa a ninguém liberar, porque ninguém paga imposto. Sem liberar, muita gente ganha dinheiro. Mas acho cocaína horrível e acho triste ver que a cocaína virou algo da sociedade, do Brasil, comum. E se consome muito.

Jorge Escosteguy: E como reage? Quer dizer, você, certamente, já se encontrou com pessoas que consomem ou já estava em um local onde era consumida.

Fernanda Torres: Ah, muito amigos. Adoro meus amigos, mas quando eles não estão "cheirados"... especialmente a cocaína, porque acho triste que o Brasil esteja virando um corredor de tráfico. Acho triste que se consuma de uma maneira normal. Não sei, fui para a Europa agora e não se consome tão normalmente lá. E é melhor assim, as pessoas são mais tranqüilas. E sem moralismo, estou falando isso sem moralismo mesmo.

Serginho Groisman: Dentro desses assuntos dos proibidos, queria que você falasse um pouco sobre o aborto. Particularmente, se você engravidasse, o que você faria?

Fernanda Torres: Hoje talvez eu teria, mas em outras épocas talvez eu abortasse, porque não daria para ter.

Jorge Escosteguy: Qual é sua posição sobre o aborto?

Fernanda Torres: Pois é, acho que se devia liberar também, porque essas coisas são feitas, entende? Então, é muito triste quando você faz na clandestinidade. Por exemplo, hoje se fuma menos, porque, como é liberado, criou-se uma campanha de que isso não é legal. Então, é muito mais fácil você educar, induzir a não fazer do que proibir achando que as pessoas não vão fazer. Se você libera o aborto, talvez as pessoas façam quando necessário. Ninguém gosta de fazer aborto, não é uma coisa feliz, não é o que a mulherada vai sair fazendo. Mas talvez seja mais fácil você induzir a não engravidar... Acho que tudo que é proibido é burro.

Serginho Groisman: Você tem algum preconceito?

Fernanda Torres: Contra crente.

[risos]

Eugênio Bucci: Contra crente [no sentido da] religião?

Fernanda Torres: Crente, ingênuo, crente na vida. Contra gente que acredita no "Bem", no "Mal," na missão, na verdade, que a vida não é dialética, que a vida não é contrária...

Eugênio Bucci: Nossa! Mas nesse modelo enquadra-se todo mundo.

Fernanda Torres: Quase, muita gente.

Eugênio Bucci: Então, você tem preconceito contra 95% da humanidade?

Fernanda Torres: Talvez, mas não vivo com 95% da humanidade. Escolho pessoas para viver. Mas não é preconceito a ponto de não poder falar. Tenho pena de quando o cara é tão crente na vida a esse ponto, acho que ele vai apanhar muito. É como acreditar em política, acreditar em...

Eugênio Bucci: E acreditar no teatro, não é ser crente?

Fernanda Torres: Mas não acredito de uma maneira crente, acredito de uma maneira vital. Eu não acho que o teatro vai salvar a vida de ninguém.

Alberto Guzik: Quer dizer, você não acredita em absolutos, você acredita em relativos. É tudo...

Fernanda Torres: É, exatamente. É isso que a minha mãe fala, herdei isso dela.

Aimar Labaki: Você está pensando cada vez mais parecido com a sua mãe, na vida e no teatro? Está com cara...

Fernanda Torres: Será?

Aimar Labaki: Parece.

Fernanda Torres: Não, acho que tenho um comportamento diferente da minha mãe na vida.

Maria Cristina Duarte: Fernanda, você concorda alguma vez com alguém?

Fernanda Torres: Sempre.

Maria Cristina Duarte: Aqui você disse muito "não".

Fernanda Torres: Sou muito antipática?

Maria Cristina Duarte: Não, não acho você antipática. Acho que você está...

Jorge Escosteguy: Veja só, como ela está preocupada com isso, Cristina! O Reginaldo Anselmo acabou de telefonar, aqui de São Paulo, para parabenizá-la e diz: “Gosto muito de você e acabei de constatar que minha mulher é muito parecida com você”.

[risos]

Fernanda Torres: Reginaldo! [risos]

Jorge Escosteguy: Por favor, uma última pergunta, nosso tempo está se esgotando. Eu queria que você fosse mais objetiva. O que é a vida para você? Você acredita em quê, em relação à vida?

Fernanda Torres: Não sei. Definições...é meio terrível, não é? A vida é um jogo, então aprenda a jogar.

Jorge Escosteguy: Você tem aprendido?

Fernanda Torres: Acho que apanho muito, mas tento... tenho melhorado.

Jorge Escosteguy: E como você acha que vai terminar esse jogo, vai passar a vida inteira jogando e aí...

Fernanda Torres: Ah, certamente vou morrer, não é?

Rinaldo Gama: Você acha que as pessoas podem passar duzentos anos sem ver teatro?

Fernanda Torres: Sem ver teatro?

Rinaldo Gama: É, porque você falou que acredita em teatro como algo vital, mas não acha que é uma coisa absoluta. Então  pergunto: você acha que as pessoas poderiam tranquilamente não ver suas peças ou não ver peça nenhuma, passar uma vida inteira sem ir ao teatro, sem ler um livro, sem ir a uma exposição?

[sobreposição de vozes]

Fernanda Torres: Elas teriam que fazer outras coisas na vida que suplantassem isso. Para mim, ler um livro foi fundamental. Os livros que eu li foram maravilhosos. Acho que, se uma pessoa tem fome, alimente-se. E alimente-se bem! Para mim, teatro é alimento, cinema é alimento, televisão, livros, tudo isso é alimento.

Teresa Cristina de Barros: As pessoas estão muito pessimistas. Você está otimista ou não?

Fernanda Torres: Sou muito otimista, embora seja muito pessimista.     

Jorge Escosteguy: Fernanda, agradecemos sua presença esta noite aqui no Roda Viva.

Fernanda Torres: Obrigada!

Jorge Escosteguy: [Agradecemos] também aos nossos companheiros jornalistas e aos telespectadores. Lembrando que as perguntas que não puderam ser feitas ao vivo serão entregues à Fernanda Torres após o programa. O Roda Viva fica por aqui e volta na próxima segunda-feira, às nove horas da noite. Até lá!

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