Memória Roda Viva

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Gal Costa

2/10/1995

Histórias da Bahia, a trajetória de sucesso, a relação com compositores e cantores e a sua fase atual são temas tratados nesta entrevista

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Matinas Suzuki: Boa noite. Ela chega aos 50 anos como a musa maior da MPB [Música Popular Brasileira]. Seu nome é Gal. E a sua cara invade a cena do balancê do Roda Viva desta noite. Gal Costa está em cartaz em São Paulo, com o show Mina d' água do meu canto, que chegará em novembro ao Rio de Janeiro.

[vídeo e comentário sobre Gal Costa] O nome dela mesmo é Maria da Graça Costa Penna Burgos. Em casa, era chamada de "Gracinha"; entre os amigos, "Gal". A menina tímida e introvertida, que desembarcou em São Paulo em meados dos anos 60, veio na esteira dos Novos Baianosos "doces bárbaros" que aqui chegavam reinventando a música brasileira. De chinelo e cabelo encaracolado, a musa dos hippies e do Tropicalismo explodia no palco um canto agudo e provocador, com a energia da jovem que parecia ter dado muito trabalho para a mãe, mas nem tanto.  Dona Mariá contou mais tarde que foi meio responsável pela vocação da filha, pois ouvia música em casa uma hora por dia. Na vitrola, discos clássicos; no rádio, os cantores da época. Gal passou a infância ouvindo música e cantando e começou a carreira bebendo na fonte certa. Como tantos baianos, Gal foi cria de João Gilberto. Aprendeu no violão a dissonância que revirava a música brasileira nos anos 60 e entrou na reviravolta ao lado de eternos parceiros, que com a cara da Bahia, procuravam a cara de um novo Brasil. Cantando Gil e Caetano, Gal puxou a corda do Tropicalismo, mesmo quando os dois baianos se exilaram em Londres durante o Regime Militar. Eles mandavam as músicas para ela gravar aqui. Sem timidez, já assumia ares de guerreira. E nos primeiros dez anos, seu canto forte se espalhou por mais de dez discos e mais de dez shows. Nesses 28 anos de carreira, quem tem prestado atenção em seus discos, quem tem acompanhado Gal pelos palcos percebeu que no peito dessa cabrocha misteriosa, há muito mais que o decote provocador. Perfeccionista, faz de seu trabalho um desafio de inovação, corre atrás do novo com a energia de eterna menina, que chega aos 50 anos de idade, amadurecida, brejeira, sofisticada, com envergadura de grande intérprete. Mostrando que na "mina d'água de seu canto" existe uma identidade cultural, uma rara referência de Brasil.  
 
Matinas Suzuki: Bem, o Roda Viva começa hoje um pouco mais tarde por causa do horário eleitoral gratuito. Para entrevistar a Gal Costa, nós convidamos hoje o publicitário Nizan Guanaes, diretor de criação e presidente da DM9 Publicidade e também o nosso mais novo letrista brasileiro; Tarik de Souza, que é crítico de música do Jornal do Brasil; Lorena Calábria, apresentadora do programa Metrópolis, da Rede Cultura de Televisão; Marcos Augusto Gonçalves, que é editor de domingo da Folha de S. Paulo; João Marcelo Bôscoli, que é produtor musical e apresentador do programa Companhia da Música, da rede CNT; Mauro Dias, que é crítico de música do jornal O Estado de S. Paulo. O Roda Viva é transmitido por 41 outras emissoras, de 17 estados brasileiros. Preste a atenção, porque cresceu o número de emissoras que transmitem o Roda Viva. A partir de hoje passam a transmitir o Roda Viva a TV Cidade, de Macapá, no estado do Amapá e a TV Imigrantes, de Teófilo Otoni, Minas Gerais. Sejam bem vindas. Boa noite, Gal Costa.
 
Gal Costa: Boa noite, Matinas. Boa noite a todos.

Matinas Suzuki: Eu queria te dizer que esse Roda Viva, além de ser um Roda Viva que vai entrevistá-la, é também um Roda Viva que pretende homenageá-la pelos 50 anos que você está completando.

Gal Costa: Obrigada.

Matinas Suzuki: E eu queria, então, começar perguntando para você como você conseguiu chegar aos 50 anos tão bem e tão serena?

 Gal Costa: Bom, a maturidade tem suas compensações. Pelo menos, serenidade e tranqüilidade a gente tem que ter. E, eu estou bem, fisicamente bem, porque eu me cuido, eu me trato, não só do espírito, mas como do corpo também.
 
Matinas Suzuki: O que você faz, Gal? Conta aqui os seus segredinhos.

Gal Costa: Eu tomo muita vitamina. Muita vitamina. Eu uso muito creme. E cuido da alimentação, essas coisas.

Matinas Suzuki: Morar uma parte do tempo na Bahia também faz parte desta...
 
Gal Costa: Faz parte. Faz parte da maturidade, porque eu sempre disse, desde o início da minha carreira, quando eu vim para o sul, que eu queria voltar à Bahia, e eu nunca tive uma casa na Bahia, depois que eu saí de lá. Meus companheiros, os Doces Bárbaros todos têm, e eu não tenho. Então, eu resolvi fazer uma casa na Bahia. Não é em Salvador, onde eu nasci, mas é na Bahia, em Trancoso, no sul da Bahia e lá eu estou tranqüila entre o sul e o sul da Bahia. Entre o sul, Rio de Janeiro, que eu vivo lá, moro lá e o sul da Bahia.
 
Matinas Suzuki: Agora, Gal, você, como esse programa também tem um pouco esse caráter, a gente pode se permitir a pedir para você contar um pouco como era a sua vida na Bahia, como foi a sua adolescência, como é que era a sua família?
 
Gal Costa: Bom, minha vida na Bahia foi muito tranqüila, eu tive muitos amigos, eu cresci junto com Dedé e Sandra, que foram esposas de Caetano [Veloso] e [Gilberto] Gil.
 
Nizan Guanaes: Então não pode ter sido tão tranqüila assim. [risos]
 
Gal Costa: Por quê?
 
Nizan Guanaes: Com Dedé e Sandra?
 
Gal Costa: Não, mas era. Nós somos muito irmãs, muito ligadas, crescemos e não nos perdemos, o que foi muito bom.

Matinas Suzuki: Você é filha única?

Gal Costa: Eu sou filha única, fui criada pela minha mãe, porque logo que eu nasci meu pai e minha mãe já estavam separados e eu fui criada com uma família, com uma tia, minha mãe morava com uma irmã dela, que tinha cinco filhos, e a gente vivia na Barra, em frente ao Hospital Português. Depois eu me mudei, já adolescente, acho que com 14 anos, mais ou menos, para Graça. Eu já era, então, amiga de Dedé.

Matinas Suzuki: [interrompendo Gal] Você era a "gracinha" da Graça...

Gal Costa: Eu mudei para Graça e fiquei, por acaso, em frente à casa de Dedé e Sandra. E lá eu tive uma infância maravilhosa, aquela coisa de turma de rua, de brincar, molecagem. Era muito bom. Eu sempre gostei muito de música, ouvia, e naquela época a Bahia tinha uma vida cultural muito intensa. Edgar Santos, que era o reitor, tinha muitas peças de teatro que a minha mãe me levava, quer dizer, ela sempre incentivou esse lado cultural em mim. Eu fui muito a teatro, fui muito a cinema, ia assistir aos concertos de música da reitoria, música clássica.

Marcos Augusto Gonçalves: Como foi seu encontro com o Caetano, Gal? E com o Gil? Vocês já se conheciam?
 
Gal Costa: Meu encontro com Caetano foi ["Foi lá na Bahia?", interrompe Marcos Augusto]  quando eu estava na casa de Dedé, Laís estava lá, era um aniversário. Laís era a professora de dança de Dedé, que conhecia Caetano. Então, me ouviu cantar lá e disse: "Quero que você conheça um amigo meu, que é compositor". E marcou um encontro com Caetano na Bazarte, que era um lugar pequeno, onde os intelectuais se encontravam, tinham exposições de quadros e eu fui ao encontro de Caetano e cantei para ele. Levei meu violão, cantei para ele. Ele gostou muito. Me ensinou imediatamente exatamente uma música dela...
 
Marcos Augusto Gonçalves: Na pesquisa que o programa distribui tem uma entrevista sua você dizendo que o Caetano foi encontrar com você meio sem saco. [risos]
 
Gal Costa: É, ele me contou isso, porque a Laizinha já tinha levado a ele duas garotas, que ele não tinha gostado.
 
Matinas Suzuki: Gal, só para situar, nesse momento Caetano já era conhecido, já tinha feito alguma coisa? E você já tinha feito algum trabalho fora, além de cantar com os amigos?
 
Gal Costa: Não, até então eu nunca tinha feito nada. Eu conheci o Caetano através da televisão local da Bahia. Tinha um programa do Carlos Coquejo, um programa de música, que Caetano cantava algumas canções dele. [Maria] Bethânia cantava. Gil cantou algumas vezes. Enfim, o pessoal de música ali da Bahia fez aquele programa, naquela época. E eu não fazia, eu assistia apenas. E eu conheci Caetano naquele dia, na Bazarte, e foi maravilhoso, porque quando eu cantei para ele, ele me perguntou assim: "Para você, quem é o maior cantor do Brasil?" Eu falei: "João Gilberto". E ele disse: "Eu também acho". Pegou o violão e me ensinou uma música dele.

Matinas Suzuki: Ele Caetano [confirmando]. Qual música que era?

Gal Costa: Sim, foi você, que eu vim a gravar num compacto simples que eu fiz, para a RCA, na época. Eu gravei duas músicas: Sim, foi você e Eu vim da Bahia, do Gil.

Mauro Dias: Esses compactos têm uma história engraçada, ele vendeu 80 cópias lá numa loja que você tinha trabalhado?

Gal Costa: É, eu trabalhei [risos]. Eu trabalhei numa loja de discos, para ajudar em casa...

Tarik de Souza: Foi lá que você conheceu o João Gilberto? É verdade essa história?
 
Gal Costa: Não, nessa loja não.
 
Tarik de Souza: Disseram que você foi apresentada ao João Gilberto e ele foi à loja para te conhecer.
 
Gal Costa: Não, não, essa história não é bem assim. Mas a história da loja é a seguinte: eu trabalhei nessa loja, do Roni, que era ali no porto da Barra, e eu depois de ir embora, gravei esse disco. Depois eu fui receber os meus direitos, meus royalties e eu recebi, exatamente, 80 discos. Foram vendidos 80 discos. Aí depois eu vim a saber, anos depois, que foi o Roni que comprou [risos].
 
Matinas Suzuki: Que bom, ele deve ter 80 raridades a essa altura.
 
Gal Costa: É, o disco é bonito.
 
Matinas Suzuki: Gal, e o Gil como é que foi?
 
Gal Costa: O Gil, eu conheci...desculpe... Respondendo a pergunta do Tarik, João Gilberto eu conheci, eu estava na casa de Sandra, quando Silvio Laméia, um cronista social, na época no Jornal da Bahia, ele me disse que ia ao encontro de João Gilberto. E eu pedi a ele que me levasse, porque eu adorava João. E ele me levou. João estava no pátio do prédio da casa da mãe dele e eu fui falar com ele. Laméia me apresentou a ele e ele fez assim: "Ah, eu já ouvi falar de você, aquela menina que canta. Vá buscar seu violão, você tem violão? Vá buscar". Aí eu voltei com o Silvio em casa, peguei meu violão e fomos para a casa do Silvio Laméia. Então, eu fiquei lá com João, ele me pediu para cantar. Ele virou para mim e disse assim: "Cante Mangueira". Por acaso eu estava cantando Mangueira naquela época, em casa, com meu violão. E eu cantei, eu tocando violão, e depois ele pegou o violão e me pediu para cantar canções que eu quisesse. E eu cantei o repertório dele todo. E então, ele não dizia nada, não dizia nada e eu ia ficando tensa, achando que ele estava achando horrível [risos], e ele mandava eu cantar. Meu ídolo ali na minha frente, eu não acreditava. Então, quando eu acabei de cantar, ele virou para mim e disse assim: "Você é a maior cantora do Brasil". Eu não tinha nem saído da Bahia ainda. E depois ele me levou em casa e conversou com minha mãe, que estava na janela. Nos recebeu na janela. E ficamos conversando, ele queria saber por que que eu era tão musical...
 
Matinas Suzuki: [interrompendo Gal] O João ficou na calçada com você conversando com sua mãe na janela, é isso?
 
Gal Costa: Minha mãe é. Porque minha casa era assim: era uma casinha pequenininha, com duas janelas, tinha uma parede, duas janelas e um portão centrado e tinha uma porta. Então, a gente ficou ali embaixo, conversando com minha mãe. Ele foi fazendo perguntas a minha mãe. Queria saber quem era musical na família e tal. E assim ficamos amigos e nos reencontramos outras vezes. E você [Matinas] me perguntou do Gil. Gil eu via através da televisão, adorava ele, era superfã dele e conheci Caetano primeiro. Conheci Bethânia primeiro e um dia, nas noitadas da Bahia, eu estava com Caetano, com Bethânia, todo mundo, e encontrei o Gil, numa churrascaria chamada Bicu. Aí o Gil veio e eu, quando o vi, saí correndo, tipo fã assim, dei um abraço nele. Ele já veio, já estava com o violão, eu cantei, ele também já tinha ouvido falar que tinha uma menina, na Bahia, que cantava. E eu cantei para ele e aí ficamos amigos. Ficamos uma amizade que está até hoje.
 
João Marcelo Bôscoli: Eu queria saber em que momento você soube daquele problema todo com o Gil e com o Caetano? Onde você estava quando recebeu a notícia?
 
Gal Costa: Eu estava com eles. Na época do Tropicalismo, eu vivia aqui em São Paulo. Eu vim junto com eles para cá, aluguei um apartamento na avenida São João, eu morava sozinha e o Guilherme Araújo quis empresariar dois rapazes e me pediu que passasse para o apartamento dele e cedesse meu apartamento para esses rapazes. Então, eu fui morar com Guilherme Araújo, que morava no mesmo prédio de Caetano. Na avenida São Luis, num andar mais baixo. Então, eu morei lá, quer dizer, eu vivi naquela época do Tropicalismo, eu estava ali com eles. E, quando eles foram exilados, eu estava aqui em São Paulo...
 
Matinas Suzuki: Isso é 68, né, Gal?
 
Gal Costa: Foi, 68. Eu sou péssima pra .... [incompreensível]
 
Matinas Suzuki: Você veio depois, cronologicamente, depois de Caetano e Gil, para São Paulo. Na verdade, você apareceu com o Divino maravilhoso, em 68, no Festival da Record.
 
Gal Costa: Antes disso eu tinha feito coisas aqui em São Paulo. Na TV Record, eu vim trazida por Chico [Buarque de Holanda]. Eu morava no Solar...[incompreensível]
 
Matinas Suzuki: Na verdade, foi o Chico Buarque?
 
Gal Costa: Não, eu morava no Solar das Fossas, lá no Rio de Janeiro, e dura, sem grana. Então o Chico foi maravilhoso, me ajudou, me levou a Colocci, que era empresário dele na época, que me trouxe até a TV Record. Eu vim com o Chico, ele tinha aquele programa com a Nara [Leão, cantora], A Banda, na Record. E ele me trouxe, eu encontrei o Marcos Lázaro no escritório dele, acertamos um cachê e eu fiquei fazendo os programas da TV Record. Foi o Chico que me trouxe, na verdade. Ele não lembra disso [risos]. Ele não lembra disso, um dia eu conversei com ele sobre isso, mas ele não lembra disso, mas ele me trouxe. E eu fiz muita coisa na TV Record, por causa do Chico.
 
Lorena Calábria: Gal, muita gente fala e fica um mistério, o que a gente tem de referência é o que a gente lê nos jornais, sobre as "dunas de Gal". Em Ipanema rolam muitas histórias sobre as "dunas de Gal" e a gente não sabe direito o que acontecia naquela época. Avançando um pouco no tempo e voltando, o que ficou, o que existia nessa época, que turma era essa? Eu sei que era você e o Macalé, que, digamos, fundaram, as dunas de Gal.
 
Gal Costa: É, as "dunas da Gal", na verdade, chamava Dunas do barato também, era um lugar [risos e comentário de Matinas: "Bons tempos..."] onde existia uma construção ali. Então, aquela área de praia ali ninguém ia. Por causa daquela obra que tinha lá. Então, eu e Macalé passamos a ir lá. Justamente porque não tinha ninguém, era uma praia vazia. E, de repente, as pessoas começaram a ir e virou moda aquela praia ali. Todos os loucos iam, todos os intelectuais, era um lugar maravilhoso, porque conversando com o Jorge Mautner no outro dia, a gente estava lembrando das Dunas do barato, que Jorge freqüentava, ele me disse que ali era uma espécie de redoma. Que as pessoas que estavam ali, na verdade, estavam cercadas por uma aura que era defendida, aquelas pessoas, na verdade, estavam sendo defendidas de todo o regime de ditadura da época. Toda aquela barra que existia. Uma espécie de salvação, assim...
 
Lorena Calábria: E é verdade que também tinha aplauso para o pôr-do-sol?
 
Gal Costa: O quê?
 
Matinas Suzuki: Aplausos para o pôr-do-sol.
 
Gal Costa: Ah, tinha! [risos].
 
Lorena Calábria: E isso tem até hoje. Tem até hoje, quando as pessoas aplaudem, fazem uma coisa, meio assim, simbólica a essa época.
 
Nizan Guanaes: Gal, uma Bahia onde você tropeçava no Gil, no Caetano, no João Gilberto, todos ali conversando. Um Rio de Janeiro com as dunas de Gal. Você acha que nós somos menos felizes hoje, quer dizer, com uma geração musical menos próspera na Bahia ou com um Rio de Janeiro mais violento, menos feliz. Você acha que a gente avançou, que a gente mudou?
 
Gal Costa: Eu acho que hoje em dia a cidade é mais violenta, o Rio de Janeiro é mais violento, São Paulo também, as cidades são mais violentas. Mas eu acho que a música brasileira continua criativa, rica, bonita. Na Bahia, especialmente, com o surgimento destes blocos afro, que são de uma riqueza extraordinária. Compositores dentro desses blocos, que fazem coisas lindas. Eu acho que nessa área cultural, e especificamente na área de música, o Brasil é...
 
Nizan Guanaes: Mas você consegue identificar na música baiana pessoas do tamanho de vocês?
 
Gal Costa: Eu acho que não, não sei, porque nós somos uma geração que ficamos aí, que somos, temos anos de carreira, 30 anos ou mais de carreira e somos ainda contemporâneos, estamos ainda aí vivos, fazendo coisas. Eu acho que as pessoas que têm surgido da Bahia e de outras regiões são, na verdade, crias do Tropicalismo, crias nossas. Todas as cantoras que estão aí, os novos compositores, são filhos da gente, porque a música tem a bossa nova, o Tropicalismo, que na verdade mudou muita coisa dentro da música brasileira.
  
Tarik de Souza: Gal, recentemente o Caetano fez uma crítica justamente à axé music, achando que tem muita quantidade e pouca qualidade. Você assinaria embaixo dessa crítica?
 
Gal Costa: Eu não li essa crítica do Caetano, não ouvi ele falar isso, mas eu acho que tem muita coisa boa na Bahia também. É claro que tem coisa ruim...
 
Tarik de Souza: Mas não tem uma produção excessiva de coisas muito parecidas e tal?
 
Gal Costa: É possível que sim. Mas eu acho que a Bahia sempre foi um lugar que teve uma riqueza cultural tão incrível, desde a minha época de criança e que hoje continua sendo um lugar que exporta uma riqueza musical tão extraordinária, que eu acho que em todo lugar tem coisas boas e coisas ruins, quer dizer. Mas eu acho que o nível de coisas de qualidade extrapola o nível de coisas de má qualidade.
 
Matinas Suzuki: Gal, ainda para ficar um pouco nesse assunto, o telespectador Edson França, de Santos, pergunta se você sente falta dos programas musicais, quando cantava junto com Gil e Caetano e o que você acha da televisão brasileira hoje, dos tipos de programas musicais que tem nela? Lembrando aqui que nós temos um excelente produtor de programas de música na TV, que é o João Marcelo [este responde: "Obrigado"].

 
Gal Costa: Eu sinto falta de programas de televisão, de música na televisão. Quer dizer, aquela época da Record, dos festivais, foi uma época que passou e não volta mais. Mas eu sinto falta, eu acho que as televisões deveriam produzir mais programas musicais. É bacana que tenha, eu sinto falta, acho que falta.

Marcos Augusto Gonçalves: E o que você acha da MTV, Gal?
 
Gal Costa: Eu não vejo MTV, porque na minha casa, na verdade, é complicado, porque tem que ligar pelo vídeo, eu não sei ligar [risos]. Então, eu nunca vejo MTV, na verdade. E só toca rock, a MTV?
 
Marcos Augusto Gonçalves: Toca música brasileira também.
 
Lorena Calabria: Passa clipe da Gal também.
 
Gal Costa: Então, eu preciso ver MTV [risos].
 
Lorena Calábria: Bom, falando em imagens e televisão, Gal, a gente mostrou no começo do programa imagens suas daquela época. Quando você se vê na televisão ou fotos, tudo, o que você sente? Dá muita saudade, é uma coisa nostálgica, aquele tempo já passou?
 
Gal Costa: Não, não me dá saudade. Pelo contrário, ["Você se acha mais bonita?", interpõe-se Calábria] o tempo vai passando eu me acho mais bonita. Hoje eu me acho mais bonita que há 15 anos atrás, por exemplo. Eu vejo fotos minhas que eu me acho mais jovem, mais bonita do que há 15 anos, com certeza.
 
Matinas Suzuki: Gal, você claramente tem construído um percurso de procurar concentrar energias mais no seu canto, procura um tipo de colocação de voz e de postura de palco, essa coisa toda, mesmo a procura, o caminho dos seus discos tem sido cada vez mais numa concentração de energias no canto, vamos dizer assim. Como é que é isso? Você tem trabalhado isso conscientemente, isso é um projeto seu, como é que é?
 
Gal Costa: Tenho, eu tenho trabalhado e tenho pensado muito nisso, porque, na verdade, você cantar no palco é uma coisa meio complicada, porque você tem mil interferências externas. Quer dizer, quando você entra no palco já tem o público, que é um tipo de interferência, depois tem o som, que é eletrificado, então às vezes você quer ouvir mais um violão do que um baixo ou um outro instrumento... Então são coisas que, na verdade, perturbam a integridade do canto. Eu acho que isso também tem muito a ver com maturidade, com serenidade e com descoberta mesmo. Eu acho que ao longo da minha carreira eu fui descobrindo essa tendência, que na verdade é uma tendência minha. A minha história pela música brasileira é rica, está ligada ao Tropicalismo. A época que eu fiquei aqui, durante o exílio de Caetano e Gil, defendendo o Tropicalismo, como na verdade, segurando a bandeira, mantendo viva a ideologia do Tropicalismo. Embora eu tenha consciência de que nessa época eu não tinha, talvez, consciência da grandeza política que tinha, do peso político que tinha a minha postura de estar ali defendendo. Mas é como eu disse para Caetano uma vez, eu fazia aquilo com amor no coração, com sofrimento, porque eles estavam exilados, quer dizer, tudo o que foi minha história, quer dizer, minha história é rica de comportamentos, de atitudes, mas, na verdade, a minha essência é o som e a música. Isso, na verdade, é o que eu procuro. Talvez todas essas mudanças, em alguns momentos até radicais, da minha carreira, tenham sido coisas para eu buscar dados novos e crescer dentro do meu trabalho. Mas, na verdade, a minha essência é o show, é a música, e nesse espetáculo - Mina d' água do meu canto - especialmente eu busco isso. Eu me comporto no espetáculo como uma concertista, eu pouco me movimento no palco e eu quero centralizar as atenções na minha voz, na música. É um espetáculo muito musical, onde os arranjos são muito bonitos, são do Jaques Morelembau [violoncelista e arranjador], e os músicos têm uma performance cada um, quer dizer, eles têm a sua presença no palco, eles têm o seu momento de solo, todos eles, então é um espetáculo de música. Foi isso o que eu quis fazer. É uma coisa bacana que eu sinto é que ele é um espetáculo meio que educa as pessoas a assistirem o espetáculo. É um espetáculo que você vai para assistir, não um espetáculo energético. Não é para dançar. Entendeu? É para você ouvir. Se quiser fechar os olhos, até pode. E ficar ouvindo o espetáculo. E um espetáculo suave, tranqüilo e centrado na voz. Eu sinto ali na frente, onde eu posso ver a cara das pessoas, eu sinto que as pessoas ficam hipnotizadas pela coisa da voz e do canto. E como eu estou muito tranqüila e muito serena no palco, cantando, e querendo estar inteira, buscar um canto mesmo da minha alma, do meu coração, tranqüilo, relaxado, sem nenhuma interferência externa. E é uma coisa que eu trabalhei e que eu acho que consegui nesse espetáculo. Tem algumas pessoas que até dizem: "ah, o espetáculo é assim"... Hoje estavam me falando, a Marina, que é minha assessora de imprensa, que um jornalista comentou com ela que o espetáculo é muito quieto, é muito parado. Se eu faço um espetáculo cantando frevo, neguinho reclama [risos]. Então, o espetáculo é música, é um espetáculo sofisticadíssimo, com um grupo de músicos maravilhosos, extraordinários músicos, com arranjos lindos, e eu estou cantando muito bem. Pelo menos eu estou procurando cantar melhor do que nunca eu cantei.
  
Matinas Suzuki: Aliás eu acho que a nossa produção foi bastante feliz, porque esse é um dos momentos, no meu modo de entender, mais altos do show, que é essa música de fundo.
 
Gal Costa: É um espetáculo denso, é um espetáculo adulto. É um espetáculo que acho que as pessoas que gostam de música e que admiram meu canto, gostariam de ver. Acho que ali está uma coisa que todas as pessoas que gostam de mim, gostariam de ouvir.
 
Matinas Suzuki: Agora, Gal, você sente o crescimento, eu fiquei muito impressionado com o crítico do New York Times, que colocou você como uma das grandes cantoras que o mundo tem hoje e da maneira categórica como ele dizia isso. Você sente o crescimento da sua voz, você trabalhou, você estudou, como é que foi? Você tem falado muito que essa serenidade, essa postura de vida tem ajudado no seu canto, mas houve um outro trabalho?
 
Gal Costa: Não, outro trabalho técnico, eu nunca estudei canto. Eu nunca estudei impostação de voz, eu sempre tive uma inteligência naturalmente voltada para isso. O uso do diafragma, o lado rítmico do canto, a coisa da harmonia, enfim, a divisão, o vibrato [técnica vocal que consiste em fazer a voz vibrar ao cantar], isso tudo são coisas que eu sempre, desde que comecei a cantar, tive uma inteligência voltada para isso e eu sabia, eu conhecia que isso eram elementos que um cantor tem que usar no seu trabalho. Agora, eu não fiz nenhum trabalho ao longo desses anos.
  
Matinas Suzuki: Nenhum "trabalhinho"? [risos]
  
Gal Costa: Nenhum trabalhinho. Foi experiência de palco mesmo e eu sou muito exigente comigo mesma. Então, foi uma coisa de dedicação mesmo, de eu me dedicar, de eu querer crescer, de eu me dedicar ao meu trabalho. Com amor, com paixão, fundamentalmente foi isso.
  
Lorena Calábria: E, Gal, antes do show, como é que é a preparação? Você, sendo uma pessoa mística e tendo todos esses cuidados, isso foi mudando com o passar do tempo? Você antes fazia um tipo de ritual ou de preparação antes de no palco e agora você faz outro? Como é que é você antes de pisar no palco?
 
Gal Costa: Olha, eu já tive várias fases. No início da minha carreira eu não fazia ritual nenhum, depois passei a fazer ritual. Hoje em dia, o ritual que eu faço, é claro, é pedir aos orixás que me dêem luz, me dêem força, me dêem tranqüilidade, serenidade para estar no palco, inteira, para que eu possa cantar bem e eu faço o esquentamento de voz. Isso eu faço.
 
Lorena Calábria: Mas você está sozinha no camarim? Você pede para todo mundo sair?
 
Gal Costa: Não, teve uma época que eu gostava de ficar só. ["Ficar em silêncio?", interpõe-se Calabria]. Não queria ninguém. Faltando 20, 15 minutos pra entrar em cena, eu gostava de ficar só, recolhida, comigo mesma. Hoje não. Hoje, nesse show, nesse espetáculo, por exemplo, meus amigos ficam ali comigo, conversando.
 
Nizan Guanaes: Agora, Gal, nós temos uma indústria musical potente, nós temos talentos fenomenais, o próprio Matinas disse que o crítico do New York Times disse que você é uma das maiores cantoras do mundo, atualmente. Por que, então, a música popular brasileira não acontece no exterior como ela deveria? Quer dizer, eu sinto, eu viajo, eu levo discos seus, discos do Caetano e de tantos outros talentos da música popular... Por que a gente não é uma indústria bem sucedida em escala? Eu não falo em prestígio...
 
Gal Costa: Porque a gente não fala espanhol [risos].

[entrevistador não identificado]: Posso emendar uma pergunta?

Nizan Guanaes: Mas o Caetano gravou Fina estampa em espanhol e não estoura como poderia, quer dizer,  - claro que vende, é um disco fenomenal - as gravadoras não sabem trabalhar? Porque o Fina estampa é fenomenal.

Gal Costa: Eu acho que as gravadoras não se empenham. Elas não investem dinheiro nos nossos discos fora do Brasil. E eu acho que a música brasileira tem crescido sim. Hoje, um público muito maior gosta de música brasileira. Eu fiz uma turnê pela Europa esse ano e eu vi uma quantidade de gente enorme que fala português por causa de música brasileira, porque gosta de Chico, porque gosta de Caetano, porque gosta de Gil, enfim, e fala mesmo, fala legal, fala bem. E eu disse até em Portugal, numa entrevista coletiva, sem querer ser agressiva, porque eu acho que é verdade, que eu acho que a música brasileira é responsável, será no futuro responsável, pela difusão da língua portuguesa no mundo, [por]que não se fala português em muitos lugares. Então, eu acho que a música brasileira será responsável pela difusão da língua portuguesa.
 
Marcos Augusto Gonçalves: Emendando a pergunta, uma pergunta fofoqueira na verdade, que o Nelsinho falou aqui, que ele vê como a única cantora, talvez não a única, mas a com mais possibilidades de vir a fazer uma carreira internacional do Brasil, a Marisa Monte. Ao passo, que você também tem uma grande... enfim, você é uma cantora conhecida na Europa, conhecida nos Estados Unidos. O que você acha que é necessário para que se possa ter uma carreira internacional, além de .....[incompreensível]?
 
Gal Costa: Bom, eu acho que para você ter uma carreira internacional, nos Estados Unidos, tem que ficar lá. Tem que morar, tem que gravar, tem que dar entrevista, tem que estar na televisão, tem que falar inglês, tem que cantar em inglês. Eu canto bem em inglês, eu gosto de cantar em inglês, muito.
 
Matinas Suzuki: Aliás, você está nos devendo um disco só com canções em inglês.
 
Gal Costa: Eu quero fazer esse disco. Eu quero fazer e vou fazer. Eu gosto muito de cantar em inglês, eu tenho um acento bom. Eu gosto de falar em inglês. Eu falo pouco inglês, entendo um pouquinho. Eu pretendo, inclusive, aprender inglês. Não tenho intenção de fazer carreira nos Estados Unidos, nada disso, mas eu acho que para você fazer carreira lá, você tem que morar lá, tem que ficar, quer dizer, recomeçar tudo de novo, um trabalho exaustivo e eu não vou fazer isso. Eu vou fazer shows, quando chamarem.
 
Matinas Suzuki: Agora, Gal, você, a sua carreira, como você a vê daqui para a frente? Você vai fazer os discos que você quer fazer, os shows que você quer fazer e só? Ou você ainda pensa em fazer, por exemplo, um trajeto cada vez maior em todos os anos para aumentar esse circuito internacional? Você tem uma idéia de que para que lado você vai caminhar?
 
Gal Costa: Eu pretendo, eu pretendo. Eu tenho algumas idéias de projeto, eu quero fazer um disco com músicas do Paulinho da Viola, porque eu acho que eu devo isso ao Paulinho, eu acho Paulinho um extraordinário compositor. E Paulinho não grava há muitos anos, não está aí. Eu acho que quero trazer de volta, quero trazer à tona de novo o Paulinho da Viola, que eu acho extraordinário. E, segundo, eu tenho esse projeto de fazer esse disco com os hispanos-americanos, eu quero gravar esse disco e quero fazer turnês fora do Brasil também. Eu quero fazer turnês pela Europa, continuar esse esquema. Eu não quero mais fazer as turnês de verão, são muito cansativas. E às vezes, em algumas cidades, se apresenta mais de um grupo, então é tudo corrido, às vezes fica, às coisas ficam mal feitas e eu não quero. Eu acho que vou fazer os festivais de outono, que são festivais, são espetáculos em teatro, onde, enfim, você tem mais conforto para fazer o seu trabalho. Mas eu quero continuar a fazer coisas lá fora, porque é bom, eu gosto de cantar fora do Brasil.
 
Matinas Suzuki: A propósito do seu futuro, de projetos, etc, nosso Dancan Lins, lá de Cuiabá, quem diria, diz que ficou sabendo que você foi convidada para fazer o Kaiser Music, no Rio de Janeiro, cantando as músicas do Tom Jobim, com orquestra sinfônica, no começo do ano que vem. Ele pergunta quais são as canções dele que mais lhe dão alegria de cantar? Dele, Tom Jobim, não dele, Dancan. [risos]
  
Gal Costa: Esse projeto é verdade, deverá acontecer em janeiro, no Rio, eu espero que aconteça, porque vai ser bonito, com a orquestra sinfônica, composições do Tom. Aliás, eu tinha que ter feito esse disco com o Tom, não fiz, mas quero fazer mesmo sem o Tom. E acho que as músicas que me dão mais prazer de cantar são todas, porque são todas lindas. Eu estou cantando agora no show Janelas abertas, que é um momento que eu adoro cantar. Eu adoro cantar essa canção e hoje eu estive, por acaso, com Paulinho Jobim, que a orquestra sinfônica do Rio de Janeiro vai fazer um disco só com músicas do Tom Jobim e o Paulinho me pediu para cantar algumas músicas e eu vou cantar quatro canções. Uma delas é Insensatez, que eu adoro e Um grande amor também, que eu vou gravar. São todas lindas. Eu adoro cantar tudo do Tom, é impossível saber qual é a mais bonita.
  
Tarik de Souza: Gal, você tocou num ponto aí interessante, já que a gente está fazendo uma espécie de reconstituição histórica. Você lembrou que aquele período que o Caetano e o Gil ficaram exilados, você ficou quase sozinha com Macalé e mais poucas pessoas defendendo a bandeira do Tropicalismo. Agora, você foi incomodada também pela polícia, você foi interrogada, te mandaram algum recado tipo "se comporte, senão você também vai em cana, também vai ter que sair"? 

Gal Costa: Não, eu nunca fui interrogada. Eu tive um problema no LP Índia, que é um LP que tinha uma capa na qual eu estava vestida de índia, com o seio à mostra, e foi proibida naquela época. Então, a gravadora teve que vender o disco dentro de um envelope preto, negro. Foi o único problema que eu tive. E com uma música do [Luiz] Melodia também.

Tarik de Souza: Qual foi a música?

Gal Costa: Esqueci o nome agora. Me falhou a memória.

Tarik de Souza: Eles te chamaram por causa da música, mandaram cortar a música?
 
Gal Costa: É. Teve problema....[diz algo incompreensível] Só.
 
Tarik de Souza: Agora, a que você atribui isso, quer dizer, Caetano e Gil foram presos e você, que estava dentro do movimento, ninguém falou nada, e você continuou cantando o mesmo tipo de música, com o mesmo tipo de comportamento e não aconteceu nada?
 
Gal Costa: Olha, eu não sei. Quando o Caetano e Gil foram presos e exilados, eu, na verdade, estava começando uma carreira. Eu tinha feito, ou ainda não tinha feito, não me lembro, o primeiro espetáculo com a banda, que foi feito no Teatro de Arena, que foi logo depois do Divino maravilhoso. E aí eles foram, quando eu estava para estrear, ou estreei, não lembro, eles foram presos e eu fui para o Rio. Eu acho que a minha história, o sucesso daquela época, estava muito ligado... Eu acho que as pessoas prestavam mais atenção à coisa política mais do que a própria coisa da cantora que eu era. Eu acho que a minha figura era muito ligada à figura do Caetano, à imagem da figura dele. E, tanto que Caetano quando voltou do exílio, não sei se vocês lembram, ele fez um espetáculo no teatro João Caetano, onde ele usou um colete que eu usava, que eu vestia nos shows e ele pôs batom vermelho. Foi como se dissesse assim: "Eu estou aqui tomando o bastão".
 
Matinas Suzuki: Tinha um cabelo parecido com o seu.
 
Gal Costa: Sim. Eu acho que as pessoas se ligavam mais, quer dizer, a minha presença estava mais ligada a essa coisa política, à postura política, à atitude política, estar ali, o Tropicalismo, sabe, era como se fosse uma espécie de complô, porque era um público muito especial que gostava do meu trabalho.
 
Tarik de Souza: E você, em nenhum momento, temeu que sobrasse para você, por estar mantendo essa postura? Porque você também participou do Divino maravilhoso, aquele programa da [TV] Tupi, não participou?
 
Gal Costa: Participei, participei.
 
Tarik de Souza: Então, e aquele programa foi considerado uma coisa muito agressiva na época.
 
Gal Costa: Medo a gente tinha, mas não vai deixar de fazer por causa disso. Eu fiz corajosamente e como eu te disse, na época, talvez eu não tivesse a consciência da grandeza política que tinha...
 
Tarik de Souza: E nem do perigo.
 
Gal Costa: Talvez até nem do perigo também.
  
Matinas Suzuki: Eu sou de uma geração, isso já deve ter sido falado para você milhares de vezes, que foi o show Fatal é um acontecimento existencial muito importante. Não só musical, porque era um show maravilhoso, virou um disco maravilhoso, mas era uma espécie de catalisador, de respiradouro para quem pode ficar aqui. O show Fatal você tinha dimensão dessa importância, que ele tinha naquele momento e que ele adquiriu posteriormente?
  
Gal Costa: Tinha, tinha. Tanto que, eu acho que a dimensão política do Fatal é muito mais, para mim, é muito mais grandiosa, muito mais importante do que a dimensão musical. Porque eu ouço as pessoas dizerem "o Fatal é lindo, eu adoro o Fatal". Mas tem coisas no Fatal que, musicalmente, eu não gosto.
  
Matinas Suzuki: O quê, por exemplo?
  
Gal Costa: Sei lá, eu não me lembro, mas tem coisas que me incomodam, algum jeito de cantar uma canção ou outra. Tem alguma coisa, eu não sei, porque também eu ouço, às vezes, discos do passado, que eu faço críticas, tem coisas que eu cantaria diferente, é claro. Hoje eu tenho uma visão, eu canto diferente, sou outra pessoa. Então, eu tenho uma visão crítica, uma distância para poder criticar. Mas eu acho que a dimensão política dele é muito mais grandiosa do que a coisa musical. Se bem que tinham grandes músicos, tinha o Leni, tinha um repertório maravilhoso. Eu acho Fatal um show espetacular.
  
João Marcelo Bôscoli: Apesar de você ter uma ligação muito forte com o Gil, com o Caetano, com o Chico, com o Tom, você sempre, ainda mais olhando essa pesquisa que a gente recebeu, você sempre gravou muita gente. Depois de Djavan, que acho que é indiscutível o talento dele, qual compositor que te chamou a atenção ou qual é o grupo de compositores que te chamou a atenção, você que conviveu a vida inteira com gênios. Caetano sempre foi o Caetano. O Chico, desde a primeira música é o Chico. Depois do Djavan, quem é que você destacaria ou um grupo de pessoas ou uma pessoa especialmente?
  
Gal Costa: Olha, eu confesso que dessa geração pós Os [Novos] baianos, Djavan é o compositor que eu mais gosto. E eu gosto dele como cantor também... não sei.
  
João Marcelo Bôscoli: Tem gente que ainda está se desenvolvendo, né? Tem alguma pessoa... É porque, realmente, é o que o Nizan estava falando, não sei se a gente está muito próximo, mas a envergadura, o tamanho do Gil, do Caetano, do seu, a gente ainda não consegue enxergar nos novos. Eu queria saber se você, como cantora, que está acostumada a ver matéria-prima ali crua, se tem alguém que te chamou muita a atenção?
  
Gal Costa: Eu acho que o Djavan é o que eu mais gosto desta geração, que não é tão nova. [alguém faz algum comentário incompreensível sobre o que Gal acabou de falar]

João Marcelo Bôscoli: Ele joga bola que nem um louco [respondendo ao comentário do outro entrevistador].

Gal Costa: Ele vai ficar puto comigo porque eu falei isso. [risos]

Matinas Suzuki: Gal, você recebe muitas fitas, muitos pedidos, muitas solicitações, compositores mandam...Como é esse contato com o pessoal mais jovem?

Gal Costa: Recebo, recebo muita fita. Esses últimos anos eu não tenho recebido não, porque eu tenho feito projetos, teve o Sorriso do gato de Alice, que foi um projeto de cantar os quatro compositores. Em seguida, eu fiz esse disco cantando Chico e Caetano...eram projetos pensados. Então eu não tenho, ultimamente, recebido muita coisa. Mas eu sempre recebo, volta e meia, durante o show, no hotel, às vezes eu recebo uma fita ou outra, mas nada me interesse muito, que eu tenha gostado.


Matinas Suzuki: Nós vamos fazer agora um rápido intervalo e a gente volta daqui a pouquinho com o segundo tempo da entrevista de Gal Costa. Até já.

[Intervalo]

Matinas Suzuki: Bem, nós voltamos com o Roda Viva que esta noite tem a honra de entrevistar a cantora Gal Costa. Gal, nós estávamos falando de você cantar em inglês e um pouco sobre o início de sua carreira. Nós temos mais algumas imagens, creio que dos anos 70, vamos revê-las e depois a gente continua a conversar. 

[vídeo com Gal]
 
Gal Costa: Sabe que essa música é minha. Eu fiz essa música com Leni e Macalé. Brincando, em casa, curtindo um som. Eu sou compositora dessa música [risos].

Matinas Suzuki: Gal, já que estamos nessa praia, Billie [Holiday], Ella [Fitzgerald], ou Sarah [Vaughan]? [cantoras estadunidenses de jazz, consideradas como as melhores vozes femininas nesse gênero musical]  

Gal Costa: As três. É difícil eleger apenas uma. A Sarah eu adoro o timbre da voz dela e o jeito que ela divide. A Ella é superelegante, chique, tem uma coisa mais de negro, de improviso, de tribal mesmo, aquela coisa do crioulo, né. E a Billy Holyday é aquele canto doce e ao mesmo tempo amargurado, timbre rascante da voz que ela tinha, que ela tem. Eu gosto das três, eu não elejo uma. Cada uma de um jeito diferente.
 
Matinas Suzuki: Agora, tirando as três, quais são as cantoras que você ouve, que admira, que você gosta bastante? Não vale Maria Callas [cantora lírica soprano de ascendência grega, considerada uma das melhores do período pós-guerra] [risos].
 
Gal Costa: Bom, eu ouço muito essas três cantoras. Eu tenho ouvido muito. E, o que eu ouço mais? Na verdade, eu acho que eu ouço, eu tenho ouvido muito João Gilberto de novo, tenho ouvido muito Chet Baker [trompetista estadunidense, amante do jazz], que eu adoro. Eu tenho ouvido Fina estampa [disco de Caetano Veloso], eu tenho ouvido mais cantores homens que mulheres.
 
Matinas Suzuki: A esse propósito, está acontecendo um fenômeno no Brasil, que nós temos poucos cantores e mais cantoras. Estão minguando os cantores. Você teria uma explicação para isso ou é só uma constatação?

Gal Costa: Eu não sei, realmente tem surgido muita cantora, virou moda ser cantora [risos]. Agora, os compositores, eles cantam bem. Eles cantam as suas coisas. Caetano canta bem, Gil canta bem. Chico, eu gosto do jeito que Chico canta, acho que ele tem um charme especial. Mas, realmente, tem muita cantora. Eu não sei explicar por que razão.

Matinas Suzuki: Marcos, você estava querendo fazer uma pergunta... 

Marcos Augusto Gonçalves: Na verdade eu vou retornar porque...Quando você estava falando do show do Caetano, na volta... Caetano teve até essa polêmica com o correspondente do New York Times, que ele nunca usou vestido, etc, enfim, mas o fato é que houve naquele momento, por uma questão de época, e houve por parte dele, da sua parte, enfim, de todos que estavam envolvidos naquele clima do Tropicalismo e depois da contracultura, uma atitude política que era muito mais, na verdade, ligada ao comportamento do que à política propriamente dita, sentido estrito. E estavam sendo temas culturais ali presentes, como a bissexualidade, que é uma coisa que o Caetano reforçava muito, o próprio Ali, você também, enfim, todos ali envolvidos com isso. Hoje em dia, esse tipo de relação com a questão do comportamento parece que ficou um pouco estetizada, um pouco comercializada, como no caso da Madonna, por exemplo. Como é que você vê, especialmente no seu meio, hoje em dia, a questão, é um meio menos ou mais liberal, menos ou mais preocupado com a questão da liberdade sexual, com esse tipo de coisa? Você acha que esse é um tema que saiu de pauta?
 
Gal Costa: Eu acho que a minha geração é uma geração que viveu isso, quer dizer, viveu intensamente isso, quer dizer, não tem mais o que contestar. E foi uma época que passou. Não tem que se ter mais nenhuma postura, nem atitude. Você tocou na questão da Madonna e do Michael Jackson, eu acho, quer dizer, eu particularmente não gosto da Madonna como cantora, nem gosto, não ouço os discos dela, não gosto do timbre da voz, não gosto da música que ela grava, nem dos arranjos, eu não gosto de nada, mas eu gosto da postura da atitude dela. Eu acho ela uma mulher inteligente. Acho que ela faz aquilo verdadeiramente, isso que eu admiro. Já, diferentemente do Michael Jackson, que passa uma figura andrógina, é uma figura estranha, já é uma coisa meio... Outro dia eu estava vendo o Michael Jackson na televisão e eu estava vendo que atrás daquela pureza artificial, daquela figura E.T esquisita que ele acabou se tornando, tinha uma coisa muito mais, terrivelmente assim, da sexualidade... Não sei, não sou a rainha da oratória, não estou conseguindo explicar, mas Michael Jackson tem essa coisa, quer dizer, que está escondido, a coisa da tara. E a Madonna passa uma coisa mais verdadeira, mais natural. E a nossa geração viveu isso, quer dizer, não tem o que contestar, não tem mais o que brigar. E depois nós estamos numa época difícil, quer dizer, a Aids está aí para castrar, cortar a liberdade sexual dos jovens, que estão começando a sua sexualidade, a descobrir a sua sexualidade. É uma coisa complicada.
 
Tarik de Souza: Emendando ali com que falou o João Marcelo, sobre os novos compositores, eu queria saber se você conhece a obra do Guinga [Carlos Althier de Souza Lemos Escobar, compositor e violinista carioca], se você já tomou conhecimento?
 
Gal Costa: Não, eu não conheço a obra do Guinga. Eu vi a matéria do Mauro outro dia no [O] Estado [de S. Paulo] e li, uma matéria bem empolgada, assim apaixonada. Eu tenho muita curiosidade de ouvir as coisas do Guinga. Eu nunca ouvi o Guinga tocar, não conheço o trabalho dele, e eu quero conhecer.
 
Tarik de Souza: E a Marisa Monte como compositora, você gravaria uma música dela?
 
Gal Costa: Não sei. Se ela der uma música bonita para mim, eu gravo [risos].
 
Matinas Suzuki: Gal, a esse propósito, a [nome incompreensível] Leonel aqui de São Paulo e  a Silmara Bedac perguntam por que você não compôs mais?
 
Gal Costa: Porque, olha, eu não sou compositora, eu sou cantora, é o que eu faço bem, com competência, então eu prefiro centrar minha coisa no canto. E, na verdade, quando eu componho uma música ou quando eu canto uma música, eu estou dando a minha visão daquela, colocando a minha marca naquela canção. Então, eu acho que isso é uma forma de compor. Eu, na verdade, tomo para mim, quando eu pego uma música para cantar, eu tomo para mim e dou a minha versão. É uma forma de compor também. Eu não sei se eu seria uma boa compositora, então eu prefiro cantar muito bem, que eu sei que eu faço, canto bem, do que compor mais ou menos.
 

Lorena Calábria: Bom, já que o assunto está esquentando, já falamos de liberação sexual, a temperatura também, eu queria voltar a um tempo atrás, ao show dirigido pelo Gerald Thomas [dramaturgo brasileiro polêmico e ousado]. Eu queria saber, Gal, se você chegou a se arrepender em algum momento e por quê? E se você não chegou a se arrepender, se aquilo te incomodou muito, principalmente a reação da crítica e do público?

Gal Costa: Não me arrependi em nenhum momento de ter feito o espetáculo com Gerald Thomas [referindo-se a O sorriso do gato de Alice, espetáculo dirigido por Gerald Thomas, em 1994, no qual Gal causou polêmica ao mostrar os seios nus]. Era o que eu queria. Acho que eu tenho muita honra e muito orgulho de ter feito esse espetáculo. Acho que era um espetáculo belíssimo, cenicamente era lindo, era uma espetáculo bem acabado, que eu acho o Gerald Thomas talvez o melhor encenador - estou falando encenador - brasileiro. A luz era deslumbrante, o cenário era lindo. Eu não me arrependo em nenhum segundo. Eu fazia o espetáculo com o maior prazer, não me sentia oprimida, como a imprensa falou, que o Gerald me oprimiu, não me oprimiu, porque eu fiz aquilo que eu quis. Eu só faço aquilo que eu quero. E eu me sentia bem e acho que faz parte da minha história. Quem conhece a minha história sabe que eu sou ousada e que eu faço essas coisas. Eu sei que elas têm um preço, mas eu encaro.

Lorena Calábria: Inclusive peitar.
 
Gal Costa: Inclusive peitar [risos]. Peitei mesmo.
 
Lorena Calábria: Mas você sabia, tinha idéia...
 
Gal Costa: Aliás, eu fiz um espetáculo em 70...
 
Lorena Calábria: Isso passava pela sua cabeça, quando vocês estavam conversando como é que ia ser o show, você tinha idéia que isso ia chocar, que as pessoas iam reagir dessa maneira? Mesmo sabendo que você tem essa trajetória, de buscar coisas novas, experimentar.
 
Gal Costa: Eu, na verdade, eu fiquei um pouco surpresa. Eu sabia que algumas pessoas iriam se chocar com essa atitude. Eu fiquei impressionada com a quantidade, com o número de pessoas que se chocaram por ver um peito de uma mulher de fora, num palco. Eu acho que aquilo era colocado de uma maneira tão digna, era um momento tão importante, quer dizer, no momento em que eu cantava Tropicália, era um momento que estava ligado à história do Tropicalismo, à história dessa irreverência, dessa coisa que ele falou, de comportamento. Estava ligado a isso. Na verdade, aquilo era um pouco uma retomada da minha carreira. Eu cantei coisas do início da minha carreira, gravações. E a atitude também de entrar no palco, a atitude inusitada de entrar no palco como uma gata, não entrar como uma estrela, é engraçado como isso também incomodou as pessoas. E as pessoas reclamam, reclamam que a gente é igual. O que eu tenho medo é de me estagnar, de ficar igual. Podia entrar no palco, ao som de uma banda, com um vestido lindo, uma mulher bonita, e pronto...cantar, mas não é isso que eu quero. Eu prefiro, entendeu, ir por caminhos mais difíceis até porque eu sei que essas coisas provocam reação, provocam polêmica, mas para mim são mais enriquecedoras, porque me dão coisas novas, à minha personalidade.
 
Mauro Dias: Você sentiu essa reação no público? Eu sei que houve um espanto na imprensa. Pelo que eu me lembro, de assistir o show, o público se comportou muito bem e gostou.

Lorena Calábria: Mas não em relação ao Gerald, né?

Gal Costa: É, o Gerald é polêmico, as pessoas não gostam dele...
 
Mauro Dias: Mas você sentiu o choque na platéia?
 
Gal Costa: Não. Não. As pessoas até iam ao show e diziam assim: "Puxa, eu não vi nada demais. Não vi nem o peito. É tão normal"!
 
Nizan Guanaes: Mas isso, então, aconteceu por quê? Porque a imprensa implica, porque a imprensa cultua o fracasso, porque a imprensa é careta? Aconteceu por quê? Quer dizer, eu também tive lá e também tive a mesma sensação, disso que você está falando.
 
Gal Costa: Eu acho que isso aconteceu porque ninguém gosta do Gerald [ri ao mesmo tempo que fala]. Aconteceu muito por causa dele, bronca dele. Eu acho que foi uma pena, porque acho que a imprensa até atrapalhou um pouco a carreira do espetáculo, porque muita gente que deixou de ver o espetáculo por causa da imprensa, que acontece, isso tem, gente que não vai...
 
Matinas Suzuki: Você acredita mesmo nesse poder da imprensa?
 
Gal Costa: Eu acho que, de certa forma, tem um pouco.
 
Matinas Suzuki: Eu com 15 anos de jornalismo, eu tenho muitas dúvidas com relação a isso. Senão Roberto Carlos não venderia a quantidade de discos que ele vende, e todo ano a crítica fala mal do disco do Roberto Carlos.
 
Gal Costa: Mas é diferente nesse caso, né?
 
Matinas Suzuki: Talvez a polêmica tenha até criado um interesse maior pelo show, você não acha?
 
Gal Costa: Não, não é que o espetáculo não tivesse tido uma carreira boa, teve sim. Mas imagino que algumas pessoas possam não ter ido ao espetáculo por causa disso. Perderam um espetáculo maravilhoso, porque, para mim, foi um dos shows mais bonitos que a história da MPB teve nesse país. É a minha opinião. Eu me orgulho muito de ter feito esse espetáculo.
 
Marcos Augusto Gonçalves: Houve muita reação também não só na imprensa. O meio musical, especialmente no Rio de Janeiro, que foi onde estreou, os produtores, os tradicionais produtores de música...
 
Gal Costa: [interrompendo Marcos Augusto] Até algumas pessoas de música e de  teatro também.
 
Marcos Augusto Gonçalves: Exatamente. Houve uma reação grande ali daquelas pessoas, não necessariamente da crítica, pelo menos do que eu li...

Gal Costa: [interpondo-se à fala de Marcos Augusto] É...[faz algum comentário incompreensível]

Lorena Calábria: A frase mais citada foi a "Gal não precisava fazer isso".

Gal Costa: [fala ao mesmo tempo que Lorena Calábria] Tem gente que achava que eu devia....

Marcos Augusto Gonçalves: Eu não fui ...[incompreensível] essa história que o Ezequiel detestou, falou não sei que.... [outros falam ao mesmo tempo]

Gal Costa: Eu faço o que eu quero, pô!

Matinas Suzuki: Agora, Gal, você trabalhou com diretores polêmicos, diretores ousados, caso do Gerald, caso do Wally Salomão [compositor e poeta baiano], também trabalhou com Nelsinho Motta [jornalista, compositor, escritor, roteirista, produtor musical e letrista brasileiro]. Como é essa relação da cantora com o diretor, como é que você trabalha com o diretor? Em geral, você está com uma idéia e localiza um diretor ou, às vezes, você senta antes com o diretor para falar "puxa, vamos desenvolver um trabalho para um show", como é isso?
 
Gal Costa: Olha, geralmente, todos os diretores que dirigiram os meus espetáculos, eles, na verdade, nunca me dirigiram cenicamente. Porque eu tenho uma noção de palco intuitiva, natural, que eu domino. Eu sei o momento que eu tenho que ir para lá, que eu tenho que ir para cá, que eu tenho que ficar. Então, é uma coisa que é natural. Só roteiro normalmente o diretor faz, às vezes, de uma maneira geral comigo, enfim, ou algum roteirista que ajude. O único diretor realmente que me dirigiu cenicamente foi o Gerald. Inclusive foi muito bom ter trabalhado com ele, porque eu descobri o tempo do teatro, coisa que eu não sabia, não tinha consciência. Eu descobri isso. O tempo de você estar no palco, você vai fazer um gesto, sabe, tudo, essa coisa, essa magia da coisa do ator, eu aprendi com o Gerald. Ele me dirigia...
 
 Matinas Suzuki: [interrompendo Gal] Gal, esse show era o show do...

Gal Costa: O sorriso do gato de Alice. Foi maravilhoso porque...

Matinas Suzuki: [interrompendo Gal] Eu estou perguntando isso, porque o Zeca Abud, lá de Belo Horizonte, que está nos vendo, enviou aqui um fax dizendo que "o show O sorriso do gato da Alice foi o melhor que já assisti. Gostaria de saber se tem algum projeto de gravar esse show em vídeo ou em CD".
 
Gal Costa: Olha, eu gostaria muito de ter gravado esse espetáculo em vídeo, mas eu não consegui patrocínio, por incrível que pareça. Não foi possível gravar, eu tentei, o Gerald também, porque eu achava que esse show merecia ser registrado, mas não consegui. E agora não é mais possível, porque já passou. Então, eu fico contente de ouvir esse fax.
 
João Marcelo Bôscoli: Gal, você falou duas vezes "eu só faço o que eu quero". Sempre foi assim ou você teve que, no começo da carreira, brigar muito para conseguir fazer o que você quer com relação à gravadora, principalmente?
 
Gal Costa: Não, não tive que brigar. Nunca precisei. Sempre foi tranqüilo....
 
João Marcelo Bôscoli: Você me passa a impressão de uma pessoa muito forte quando você fala da crítica, não da crítica especializada, mas da crítica de uma maneira geral. Eu sempre vejo você muito forte. Em algum momento da sua carreira, você se abateu com alguma crítica que te pegou assim muito intimamente, a ponto de você se desmontar? Porque aparentemente as críticas não te atingem, o que eu acho louvável.
 
Gal Costa: Eu não vou dizer que eu não leio crítica, [por]que artista que disser que não lê crítica é algo que eu não acredito, [por]que lê. E não vou dizer que eu nunca me chateei com crítica, claro que já me chateei com crítica. Mas eu confesso que hoje eu tenho uma serenidade em relação a isso tão grande, uma determinação e uma consciência daquilo que eu quero, com serenidade, que uma crítica negativa, a coisa do Gerald, do espetáculo do Gerald, por exemplo, foi uma enxurrada de críticas contra o espetáculo. Não contra mim, pessoalmente, isso eu não tenho nenhuma reclamação, mas contra o espetáculo e contra o Gerald. Porque, se está contra o Gerald, contra o espetáculo, fatalmente está contra mim. E aquele espetáculo fui eu que escolhi fazer. Aquele diretor fui eu que escolhi chamar. Então, eu recebi aquilo como uma guerreira. Eu vi que eu tinha que lutar contra aquilo, que defender daquilo. Primeiro, porque eu gostava daquilo que eu estava fazendo, acreditava e era meu filho predileto, mas porque essa coisa de polêmica é muito cansativa. Eu não sei como o Gerald agüenta [risos].
 
Lorena Calábria: Você já tinha assistido, Gal, alguma peça dele? Por que você escolheu o Gerald?
 
Gal Costa: Já, já tinha assistido. Eu acho ele um encenador maravilhoso. Acho a luz dele magnífica, bem feita, bem acabada. Acho os espetáculos dele bem acabados.
 
Marcos Augusto Gonçalves: Você já conhecia ele há muito tempo, não?
 
Matinas Suzuki: Gal, é verdade que ele chegou para você e falou: "Eu não conheço nenhuma música brasileira. Você que vai ter que escolher o repertório" [risos]. "E esse negócio de banda no palco não é comigo, esconde a banda".
 
Tarik de Souza: Gal, o Caetano gravou agora esse repertório latino de boleros e guarânias e foi uma das maiores vendagens da carreira dele, 250 mil discos. A Bethânia gravou Roberto Carlos e passou dos 800 mil. Você se sente um pouco injustiçada de vender muito menos com o repertório ultra-selecionado que você tem gravado?
 
Gal Costa: Não, não me sinto não. Eu adoro esse disco que eu fiz. E esse disco, já ganhei disco de ouro com ele, vendeu 130 mil. E vai caminhar para 250, segundo a BMG [gravadora].
 
João Marcelo Bôscoli: Se um cantor brasileiro faz música brasileira e por algum momento da carreira dele, ele resolve, para que possa crescer internacionalmente, ele resolve cantar em espanhol, embora ele faça música brasileira, e vamos supor que ele estoure no mundo inteiro. É legítimo dizer que essa música é brasileira ou você acha que tem que ter a língua portuguesa na canção para se caracterizar que seja música brasileira?
 
Gal Costa: Não, eu acho que é legítimo você dizer que é brasileira, porque na verdade, o Caetano, ele fez o Fina estampa, mas na verdade é um ponto de vista brasileiro. Então, eu acho que é brasileira.
 
Lorena Calábria: Numa entrevista recente ao Metrópolis, a nossa repórter, Lilia Amarante, comentou que você estava muito zen. E você falou: "eu sempre fui zen, estou mais zen do que nunca". Gal, quando você não está concentrada na música, qual o seu outro interesse? Eu li alguma coisa a respeito de fotografia. É verdade isso?
 
Gal Costa: Olha, eu sempre tive interesse por fotografia. Eu tinha, na década de 70, eu tinha uma máquina fotográfica com todas as lentes, máquina profissional, eu gostava e tirava muita fotografia. Tanto que eu tenho toda a .... tenho muita foto dos meus discos, dos meus shows, das exposições.
 
Lorena Calábria: O que você gostava de fotografar? Pessoas?
 
Gal Costa: Pessoas na rua. Tenho uma infinidade de slides, feira de Caruaru [Pernambuco], figuras estranhas, figuras de povo. E eu voltei a esse interesse. Eu abandonei isso durante um tempo e agora voltei a esse interesse. Comprei uma máquina fotográfica. Comprei alguns livros também, agora em Barcelona, sobre fotografia e quero, assim que terminar esse ciclo de A mina d'água do meu canto, eu vou aquietar e vou começar a ler e vou estudar um pouco fotografia.
 
Lorena Calábria: Parte técnica? Tem algum fotógrafo predileto?
 
Gal Costa: Parte técnica. Eu tenho, eu gosto muito de fotografia tipo reportagem, fotografia....Gosto muito daquele fotógrafo que vive nos Estados Unidos...
 
Lorena Calábria: Sebastião Salgado?
 
Gal Costa: Exatamente. Salgado para mim é o maior fotógrafo do mundo.
 
Matinas Suzuki: Gal, como nós estamos com um acúmulo muito grande aqui de fax e perguntas por telefone, eu vou pedir licença um pouquinho à mesa e fazer um ping-pong com você. Vamos ver se a gente pode responder meio rapidinho aos nossos telespectadores. O Pacinatam, aqui de Higienópolis, pergunta se você pretende gravar alguma coisa do Cazuza? Você já gravou. Aliás, perguntando se você tinha gravado pessoas mais novas, além do Cazuza, Arnaldo Antunes, etc. Você pretende gravar alguma outra coisa do Cazuza?
 
Gal Costa: Não no momento. Eu tenho o projeto de gravar o Paulinho da Viola e depois esse disco de músicas hispano-americanas e não sei, para frente eu não sei.
 
Matinas Suzuki: O Eduardo Almeida Wolf, da Liberdade, pergunta que influência a sua religião, o candomblé, tem na sua carreira e na sua vida pessoal?
 
Gal Costa: Tem uma influência muito grande, porque me dá serenidade, me dá energia, me dá força, me dá tranqüilidade.
 
Matinas Suzuki: A Gilka Maria Morais, lá de Belo Horizonte, pergunta se você é casada, tem filhos e, se não, se pretende ter no futuro?
 
Gal Costa: Não. Já tive vontade de ter filho, mas não tive. E agora também não quero mais. Não, não sou casada.
 
Matinas Suzuki: O Marcelo Mott, que é professor em Jaú, pergunta pra você se existe alguma música que você gostaria de gravar e não grava porque acha que já existe uma interpretação definitiva daquela música?
 
Gal Costa: Houve época em que eu pensava assim. Hoje em dia não, eu acho que posso gravar qualquer música.
 
Matinas Suzuki: Depois de gravar João Gilberto, uma música cantada por João Gilberto, por exemplo....
 
Gal Costa: Bom, eu já gravei música cantada pelo Gilberto, imagine só...
 
Matinas Suzuki: E a Silvana Regina, de Campinas, pergunta se você já se arrependeu de ter gravado alguma música?
 
Gal Costa: Não.
 
Matinas Suzuki: O Artur Leandro Lopes, de Araçatuba, interior do estado de São Paulo, pergunta se você tem alguma cantora nacional que gostaria de dividir o palco com ela, teria prazer em dividir? Existe alguma no momento?
 
Gal Costa: Não, eu já dividi palco com Bethânia, com Elis [Regina], aliás eu tive a alegria de ter feito isso, ter sido a cantora brasileira que convidou Elis para participar do especial que eu fiz na Globo. E logo depois ela veio a falecer e, na época, algumas pessoas que não gostavam muito da Elis, no Rio, e até foram contra e tal... Mas eu queria muito, porque eu admirava Elis e depois que ela foi embora, então, eu tive mais certeza de que foi uma atitude muito certa.
 
Matinas Suzuki: A esse propósito, com relação ao tema Elis Regina, tem aqui vários faxes. O Marcelo Jabara, do Brooklyn, pergunta como foi para você quando cantou com a Elis Regina num especial para a TV Globo. O Paulo Freitas, do Tatuapé, pergunta como foi a sua relação com Elis Regina e como foi tê-la como convidada. Jorge Luis, da Vila Mariana, pergunta o que você sentiu com a perda da Elis Regina. O Gilberto Amaral, de Santo Amaro, pergunta também sobre o especial e quais comentários você teria sobre a Elis Regina?
 
Gal Costa: Bom, a minha relação com a Elis, eu não tinha uma relação assim muito próxima, mas a gente se falava por telefone, ela me ligava, me procurava, eu ligava para ela. Ela era muito carinhosa comigo e ela ia ver os meus shows, eu ia assistir shows dela e eu sei que ela gostava muito de mim e a gente tinha uma relação assim, quer dizer, era uma coisa meio de flerte à distância. E quando eu fiz o especial na Globo, que eu falei para o Daniel que eu queria convidar a Elis, ele falou assim: "Ela não vem, não convide que ela não vem". E eu falei: "Ela vem". Ela estava em Los Angeles, foi logo depois da morte do John Lennon. Então, nós ligamos para Los Angeles e falamos com Elis. Eu falei com a Elis, ela disse: "Eu estou indo rápido". E ainda perguntou assim: "Vamos cantar uma coisa do John Lennon, vamos cantar uma coisa em inglês"?. Eu disse: "Vem para cá, que aqui a gente decide o que fazer". Ela veio, foi para o Rio, a gente ensaiou e fez o programa e eu tinha admiração por ela. Inclusive, naquela época, o último disco dela eu estava ouvindo muito, até falei muito pro Caetano que eu estava ouvindo ela muito, aquele último disco dela. E eu a admirava como cantora, achava que ela era extremamente musical, ficava muito impressionada com a musicalidade dela e com a técnica dela. Eu gostava muito dela, nossa relação era legal.
 
João Marcelo Bôscoli: Em casa, para não deixar nenhuma dúvida, ela dizia que a Gal era a maior cantora do Brasil, sempre falou. E ela ouvia, um pouquinho antes de morrer, em dezembro, janeiro, novembro, ela ouviu Meu bem, meu mal, exaustivamente.
 
Gal Costa: Eu sabia que ela queria gravar essa música.
 
João Marcelo Bôscoli: Ela falava assim: "Desgraçada, gravou essa música". [risos]
 
Matinas Suzuki: Para esclarecer o nosso telespectador, o João Marcelo, que nos honra aqui com a presença hoje, é filho de Elis Regina.
 
Nizan Guanaes: Gal, mudando de um pólo ao outro completamente, hoje, a cidadã Gal Costa se sente como no Brasil? Quer dizer, você votou em quem nas últimas eleições, está feliz com o seu voto?
 
Gal Costa: Eu votei em Fernando Henrique. Eu ia votar no Lula, mas depois optei por Fernando Henrique. Eu ia votar no Lula pelo seguinte: porque eu achava que o Brasil tinha que passar por uma radicalização. Eu não sei se o PT seria, eu não entendo de política, vou aqui dizer o que me ocorreu na época. Eu não sei se o PT tinha capacidade ou consistência para governar o país, mas eu achava que o Brasil tinha que passar por um abismo, sei lá! Por um processo radical, talvez o PT fosse o abismo naquele momento e daí como se passasse por uma limpeza geral e recomeçar num fôlego novo. Mas eu acabei votando no Fernando Henrique. Não votei no Lula.
 
Matinas Suzuki: O Gil e o Chico foram mais fortes ["eles votaram no PT"..., diz Gal] no poder de convencimento? [risos]
 
Nizan Guanaes: O Chico não.
 
Matinas Suzuki: Desculpe, o Gil, o Chico apoiava o Lula.
 
Gal Costa: O Chico votou no PT.
 
Matinas Suzuki: Mas, Gal, você acha que o Brasil melhorou, você está satisfeita, acha que tem um caminho, estamos num caminho ou não estamos, ainda falta muito que fazer?
 
Gal Costa: Acho que o Brasil está melhor. Eu acho que tem muitas dificuldades, mas eu acho que está melhor. Eu acho que o povo hoje é mais consciente, e de certa forma, hoje eu acho que as pessoas podem se programar, coisa que não acontecia na época da alta inflação. Quer dizer, você tem um dinheiro, você pode se programar.
 
Matinas Suzuki: Por falar em dinheiro, tem um fax que eu não estou achando aqui, peço desculpas ao telespectador que enviou. Você tinha dinheiro no [banco] Econômico [em 1995, o 8º maior banco privado brasileiro, sofreu intervenção do Banco Central, o que o levou, mais tarde, à sua extinção] Gal?
 
Gal Costa: Graças a Deus, não. [risos] Não tinha dinheiro no Econômico, não tinha não. Inclusive, o Econômico é um banco baiano, aliás, eu já tive conta no Econômico há muito tempo, fechei há muito tempo atrás, porque eu achava o Econômico, eu tinha uma difícil relação com o banco Econômico. Muita burocracia, era tudo muito difícil, muito complicado. Então, eu resolvi fechar minha conta, graças aos bons orixás [risos, Gal fecha as mãos como numa prece, apontando para cima].
 
Matinas Suzuki: Quem administra a sua vida financeira, Gal?
 
Gal Costa: Atualmente sou eu. Eu sempre tive muita dificuldade em lidar com dinheiro. Eu sempre tive. Eu não tinha noção de dinheiro, quanto era o quê. Mas eu, com a perda da minha mãe, com a morte da minha mãe, que era um ponto de referência muito importante na minha vida, quando minha mãe morreu eu me senti meio sem chão, sem referência, então eu procurei meios de sobreviver. Aí eu pedi a meu irmão que tomava conta das minhas coisas. Eu disse: "Eu quero, me dá as minhas coisas, que eu quero tomar conta delas". Quer dizer, foi uma coisa objetiva, uma atitude objetiva. Então, eu peguei, fui aprendendo aos poucos tudo e hoje eu administro minha vida. Quer dizer, não é complicado também, até facilitou mais porque eu não quero ter nada além daquilo que eu usufrua. Tem coisas que hoje eu estou me desfazendo, que eu não preciso ter. E eu quero ter uma vida mais simples mesmo. Estou simplificando a minha vida. Hoje eu sei até onde eu posso ir, o que eu posso comprar, porque antes eu não tinha noção do que eu podia comprar do que eu não podia, não tinha noção de dinheiro. Realmente, eu não sabia lidar com dinheiro. E hoje eu sei.
 
Mauro Dias: Gal, essa mudança para Trancoso faz parte desse processo de simplificação, é mais fácil viver lá do que aqui? E quanto tempo você pretende passar lá do seu ano?
 
Gal Costa: Olha, faz parte sim e eu vou lhe confessar, eu não sou uma pessoa muito rueira, muito festeira, eu não tenho uma vida social intensa no Rio de Janeiro. Eu sou uma pessoa muito caseira, muito quieta. Vou a casa de pessoas, mas não gosto de festa nem badalação. Então, Trancoso, fui parar lá por acaso, aliás, Roberto Pinho, que é um amigo meu, que é idealizador do projeto Museu Aberto do Descobrimento, que eu fui até o presidente da República, Itamar [Franco, presidente do Brasil de dezembro de 1992 a dezembro de 1994] na época, com o projeto para ele assinar...

Matinas Suzuki: O projeto está andando, Gal?

Gal Costa: Parece que agora está andando. Eu tive notícias do Roberto que o ministro da Cultura, o governador da Bahia, Paulo Souto, está interessado, mas essas coisas são como farinha na mão, escorregam, a gente não sabe. Na época que eu fui com ele ao Itamar, o Itamar ficou emocionado com o projeto e disse que, com certeza, iria assinar e que só dependia da gente e que a gente se apressasse para que a burocracia não atrapalhasse a atitude, o apoio político que ele daria. E acabou não acontecendo nada. Mas parece que as coisas estão andando e eu espero que sim, porque aquilo é um espaço que é importante para o Brasil. Ali nasceu o país, daqui a pouco, no ano 2000, faz 500 anos do descobrimento do Brasil e é importante que o Brasil tenha aquele pedaço ali bem cuidado, quer dizer, existe o projeto da filha [Maria Elisa Costa] do Lucio Costa [urbanista e autor do projeto do Plano Piloto de Brasília], um planejamento urbano para aquela região ali, de preservação e um museu de cultura indígena, negra, portuguesa, enfim, uma série de coisas. É um projeto muito bonito, que eu acho que tem que acontecer e eu fui parar em Trancoso um pouco por causa do Roberto, que esteve lá em casa, hospedado com a mulher dele, ficou mais de duas semanas lá, e eu fui lá e me apaixonei pelo lugar, foi uma coisa assim muito espontânea. Eu me apaixonei pelo Quadrado, por aquele lugar ["Que quadrado"?, alguém pergunta], e acabei construindo uma casa. O quadrilátero que chama, é o lugar, na verdade, não é um quadrado. Tem uma igreja, que é uma das igrejas mais antigas do Brasil e são casinhas pequenas, ainda se preserva como na época do descobrimento, como se fosse uma pequena aldeia.
 
Matinas Suzuki: Gal, toda vez que eu leio uma matéria sobre você em Trancoso, sai que você tem 5 cachorros, 7 cachorros, 12 cachorros, 3 cachorros. Quantos cachorros você tem realmente?
 
Gal Costa: Eu tenho cinco rottweilers. São lindos.
 
Matinas Suzuki: Você sempre teve essa ligação com cachorros?
 
Gal Costa: Tive, sempre tive, de todas as raças, vira-latas, tudo. Sempre tive cachorro.
 
Tarik de Souza: Gal, essa corrente principal da música brasileira, a que você pertence, hoje está cercada de tendências, vamos dizer, bem mais simplificadas, como o funk no Rio de Janeiro, esse samba suingue aqui de São Paulo, a música sertaneja dessa turma tipo Zezé di Camargo e Luciano. Como é que você vê isso, essa ascensão desse tipo de música onde não há muito interesse em harmonia, melodia, é tudo bem simplificado e vende muito?
 
Gal Costa: Eu não ouço. Eu não gosto. Eu não ouço.
 
Tarik de Souza: Você não acha que essa corrente da MPB pode virar uma coisa quase como a música erudita do Brasil, essa coisa mais elaborada que vocês fazem, em relação à música funk, que hoje em dia tomou conta do Rio, por exemplo?
 
Gal Costa: A música funk tem seu lado interessante, que é a coisa rítmica, às vezes as letras...
 
Tarik de Souza: Mas é um ritmo repetido.
 
Gal Costa: É um ritmo repetido. As letras têm algum fundamento. Eu não ouço, eu não conheço. Na verdade, eu não posso nem falar muito sobre o trabalho dessa geração nova que faz música funk e música rap, eu não ouço muito, não posso nem falar. Na verdade, o que eu gosto é de música, João Gilberto, enfim, música com harmonia, com ritmo, com uma certa sofisticação. Então, eu não tenho muita. Meu elo de ligação com esse pessoal aí dessa área é nada, nenhum.
 
Nizan Guanaes: Agora, você não acha que nisso a música popular brasileira de melhor qualidade está sitiada? Porque de um lado você tem essa música que é quase jingle, ela é fácil, ela entra pelos ouvidos e ela é montada pelo país afora na base do jabá. Do outro lado, você tem uma produção de música mais talentosa, de maior qualidade, mas um pouco [...] do ponto de vista mercadológico. Quer dizer, você vê um disco como o Fina estampa, que com um pouco de apoio podia ser um sucesso mundial, porque ele é genial, porque ele é lindo, porque ele é fantástico, mas que a gente não sente por parte das gravadoras o mesmo rolo compressor que podia dar um suporte, pra que seja um sucesso que já é aqui, mas que pudesse ser potencializado?
 
Gal Costa: Não, eu acho que Fina estampa é um sucesso.

Nizan Guanaes: Não, não, eu não nego isso. 

Gal Costa: Mina d' água também. Mas o Brasil sempre foi assim, quer dizer, música popular brasileira mesmo, de uma qualidade mais sofisticada, vendeu sempre menos do que música sertaneja, que há anos, desde que eu nasci, está aí. E rock, não sei o quê. Sempre foi assim, não é novidade.

Lorena Calábria: Gal, o João levantou um ponto que colocou você como uma pessoa decidida, forte, firme e que não se abate com nada. Já pintaram dois assuntos aqui que seriam polêmicos - sexo e política - e a gente fica aqui ouvindo você falar e começa a dar uma de analista. Tem algum assunto, Gal, que te incomoda, que você foge da raia, que você não quer falar de jeito nenhum? Não vou perguntar [risos], não vou além disso.

Gal Costa: O que é que você quer me perguntar? [risos]
 
Lorena Calábria: Só para saber, se tem algum assunto. Por exemplo, religião é uma coisa pessoal, relação amorosa.
 
Gal Costa: Tem algumas coisas sim que são minhas, pessoais, particulares, que eu preservo, claro.
 
Lorena Calábria: E a fama, como é que a fama, o sucesso, te incomodam?
 
Gal Costa: Olha, na verdade, a fama não me incomoda, o sucesso não me incomoda, porque, enfim, é minha vida, eu sei conviver com isso. É claro que em alguns momentos eu quero estar quieta. E quando eu quero estar quieta eu procuro a minha quietude. Mas ser famosa não me incomoda, ser reconhecida na rua não me incomoda, pelo contrário, de certa forma me gratifica porque foi essa a carreira que eu escolhi. Não sei se, claro que por determinação minha também, eu como sou uma pessoa muito mística, acho que tem aí um caminho de destino, tem aí uma missão, porque desde pequena eu tive uma estranha intuição. Além de gostar de música e determinação para ser cantora, tinha uma estranha intuição, como se eu já soubesse antes que tudo isso ia ser verdade. É estranho isso, mas é verdade.
 
Lorena Calábria: Bom, as pessoas apontam Marisa Monte, não como uma sucessora, mas que ocuparia o teu posto de grande cantora e diva da música brasileira. O que você acha disso?
 
Gal Costa: Eu acho que a Marisa é uma menina que tem muito talento. Eu vi alguns espetáculos dela, eu gosto dela, eu acho ela bonita. Aliás, eu fui ver um espetáculo dela no Rio, em alguns momentos até eu me vi, há 15, 20 anos atrás...O jeito de sentar...
 
Tarik de Souza: Você acha que ela imita você, Gal? Tem gente que acha que ela imita você, que ela tem o mesmo timbre.
 
Gal Costa: Essa coisa de dizer que imita, eu acho que é muito pejorativo, porque na verdade, eu, quando conheci João Gilberto, eu fui muito influenciada por ele e cantava muito parecido com ele e fui chamada até de "João Gilberto de saias" [risos]. Aliás, o que me orgulha muito. Eu acho que todos têm seu ídolo, eu tive os meus, todo mundo tem os seus e eu sou uma pessoa que a Marisa gosta, sou um ponto de referência para ela e é claro que isso foi marcante na vida dela e é natural que ela tenha influência minha. E eu vejo isso com muita alegria, que eu possa formar gerações. E eu acho que a Marisa tem potencial para fazer uma carreira longa. A prova está aí, esse é o terceiro disco que ela faz, o terceiro espetáculo que ela faz com sucesso, mas ela tem uma carreira longa pela frente. 
 
Matinas Suzuki: Por falar em "João Gilberto de saias", o Aerson Plural, que é transformista e presidente do fã-clube "O Sorriso de Gal", pergunta o que você sente quando vê um transformista te imitando no palco? [risos]
 
Gal Costa: Eu acho engraçado. Eu não me vejo muito, não acho que seja igual, nem parecido. Eu gosto, acho bacana.
 
Matinas Suzuki: A Márcia Mesquita, lá do Recife, diz que está notando que a sua voz está um pouco mais grave. Ela pergunta se é o momento que você está vivendo ou é uma mudança da sua voz mesmo?
 
Gal Costa: É uma mudança da voz. Quando a gente vai ficando mais velho, a tendência é os graves irem se acentuando mais, isso é o que acontece agora, os meus graves estão mais claros, então eu estou utilizando mais a região grave da minha voz. Os agudos ainda permanecem com brilho, mas os graves ficaram mais bonitos. Então, eu exploro.
 
Matinas Suzuki: Gal, nós estamos, infelizmente, chegando ao fim do programa. Eu só queria fazer mais uma pergunta, que foi enviada pela Ana Paula Soares, de São Paulo, que diz que a maioria das pessoas acha que uma mulher só pode ser completamente feliz se tiver um filho. Você concorda com isso? E pergunta: "você é uma mulher completamente feliz"?
 
Gal Costa: Eu sou, sou uma mulher feliz, acho que sou completamente feliz. Na medida do possível... Eu já imaginei, eu já pensei que a mulher seria completamente feliz se tivesse um filho, mas eu não acho mais isso. Eu acho que filho não é tudo, o importante é você ter serenidade diante da vida, você buscar o seu caminho, você ser corajosa, você, enfim, viver a vida e ser feliz, procurar a felicidade, procurar ser feliz. Isso foi uma coisa pela qual eu batalhei muito a minha vida inteira, através até de psicanálise, de macrobiótica, de yoga, milhares de coisas. E eu acho que sou uma pessoa feliz sim. Sou uma pessoa vencedora, sou uma guerreira.
 
Matinas Suzuki: E o Fábio Gurjão mostra aqui todo o amor pela Gal, dizendo que você é a maior e que te adora. [o apresentador mostra um fax onde está escrito em letra maiúscula: Você é a melhor. Te adoro]. Fábio, 21 anos, te manda um beijo [Gal também manda um beijo para o rapaz]. Gal, eu te agradeço muito pela presença neste Roda Viva. Foi ao vivo. Queria agradecer também bastante a presença dos nossos entrevistadores, agradecer sua atenção aí em casa, que o Roda Viva hoje se estendeu até mais tarde e ele volta na próxima semana, na próxima segunda-feira, às dez e meia da noite, quando nós teremos a entrevista com o ministro da Educação, Paulo Renato. Até lá, uma boa semana a todos e uma boa noite.
 
 
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