Memória Roda Viva

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Aldo Rebelo

11/6/2001

O presidente da CPI da CBF-Nike analisa a situação do futebol brasileiro e comenta as evidências de atos ilícitos levantadas pelas investigações

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[programa ao vivo]

Paulo Markun: Boa noite. Ele criou uma CPI para investigar o mais discutido contrato assinado no Brasil e descobriu que o futebol é realmente uma caixinha de surpresas. Comunista alagoano e ex-presidente da UNE [União Nacional dos Estudantes] é deputado federal desde 1990 pelo PC do B [Partido Comunista do Brasil]. No centro do Roda Viva esta noite [está] o presidente da CPI da CBF-Nike, o deputado federal Aldo Rebelo.

[início vídeo]

[Comentarista: Vladir Lemos]: A CPI da Nike foi instalada em outubro do ano passado para investigar o contrato de patrocínio da empresa de material esportivo com a CBF, além das federações estaduais de futebol. O autor do requerimento para abertura da CPI foi o deputado federal Aldo Rebelo, do PC do B de São Paulo, que também foi escolhido para presidir os trabalhos em Brasília. Inicialmente, a CPI da Nike, como ficou conhecida, começou com 34 membros; entre titulares e suplentes, pelo menos dez deles tinham ligações com o futebol, como Eurico Miranda, presidente do Vasco e Nelo Rodolfo [jornalista e advogado, então filiado ao PPB], conselheiro do Palmeiras. As primeiras investigações contaram com depoimentos importantes, como do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e J. Hawilla, presidente da Traffic, empresa que intermediou o contrato entre a CBF e a Nike e do ex-técnico Zagalo [Mario Jorge Lobo Zagalo. Treinador e supervisor técnico da Seleção Brasileira, sendo campeão das Copas de 1970 e 1994, respectivamente].

Zagalo: Querem que eu fique calado! Diante do que está sendo dito! Isso não existe.

Vladir Lemos: Jornalistas e alguns da Copa de 1998 também foram chamados a depor e falaram sobre a relação CBF e Nike.

Edmundo: Eu não sou sabedor de que a Nike teria escalado o Ronaldo naquele jogo.

Vladir Lemos: No decorrer das investigações, alguns fatos foram surgindo e sendo investigados pelos deputados, como o caso dos passaportes falsos envolvendo os jogadores brasileiros na Europa, que fizeram com que empresários ligados ao futebol, como Juan Figger e ex-jogadores como Edinho [zagueiro, tendo atuado pela Seleção Brasileira entre 1977-1986. Depois, tornou-se treinador] e Careca [centroavante. Jogou na Seleção Brasileira nas Copas de 1986 e 1990], fossem chamados a prestar esclarecimentos. O presidente da Federação Paulista de Futebol, Eduardo José Farah, também depôs aos deputados, que queriam saber sobre o uso de verbas pela Federação.

Eduardo José Farah: Gastamos, na obra, quatro milhões e setecentos e já estão totalmente pagos.

Vladir Lemos: Apesar de ter sido integrante da CPI, o presidente do Vasco, Eurico Miranda, teve que esclarecer o endosso do cheque de 110 mil dólares recebido pelo Vasco, fazendo isso bem ao seu estilo.

Eurico Miranda: Vá para onde deve ir para aprender a falar sobre isso, vá para a escola aprender.

Vladir Lemos: Após quase nove meses de trabalho, o relatório final da CPI, com quase oitocentas páginas, foi apresentado na semana passada pelo relator, o deputado [federal] Silvio Torres [PSDB]. No relatório, o deputado não propõe punição a Eurico Miranda e recomenda o indiciamento de 33 pessoas ligadas ao futebol. Para ter validade, o documento terá que ser votado e aprovado depois de amanhã, na Câmara dos Deputados, em Brasília.

[fim do vídeo]

Paulo Markun: Bem, para entrevistar o presidente da CPI da CBF-Nike, estão conosco aqui, o jornalista Flávio Prado, apresentador do [programa] Cartão Verde e comentarista da rádio Jovem Pan; o jornalista Juca Kfouri, do jornal Lance!, da rádio CBN, da Rede TV e da revista Carta Capital; o jornalista Alberto Helena Junior, colunista do Diário Popular; está com a gente também, Vital Battaglia, diretor de conteúdo do site Olé; participa do Roda Viva ainda o jornalista Roberto Avallone, da TV Gazeta; Paulo Vinícius Coelho, comentarista da ESPN Brasil e editor da revista Placar; e o jornalista Marcelo Damato, editor do jornal Lance!. Boa noite, deputado.

Aldo Rebelo: Boa noite. Boa noite aos amigos e aos companheiros aqui.

Paulo Markun: Eu queria começar pelo seguinte: esse relatório da CPI, ele será posto em votação? Porque a imprensa já chegou a noticiar que talvez o senhor não o coloque em votação, pois poderá ser desvirtuado pelos integrantes da bancada futebolística, digamos assim, dentro da própria CPI.

Aldo Rebelo: A nossa idéia, Paulo Markun, é por o relatório em votação. O nosso objetivo é discuti-lo, acolher as emendas que aperfeiçoem o relatório e que contribuam para que se transforme em um documento de referência do próprio Congresso e, no caso, da CPI. Agora, é evidente que nós não podemos admitir que oito meses de esforço e de investigação, realizados com seriedade e profundidade pelo relator e integrantes da CPI, que esse esforço seja ameaçado por uma maioria artificial que a CBF, ou os cartolas, ou empresários do futebol, venham a formar dentro da comissão. Eu acho que seria um prejuízo para a sociedade e para o futebol brasileiro se esse relatório viesse a ser mutilado.

Paulo Markun: Antes de entrar no debate do relatório, das conclusões, eu queria que o senhor resumisse: quais foram as principais conclusões da CPI?

Aldo Rebelo: O relatório, ao longo das suas 814, oitocentas e poucas páginas, apresenta um diagnóstico, ou seja, a situação, o estado do futebol brasileiro nos dias de hoje; todos os seus problemas, principalmente na sua estrutura fundamental, que é formada pela CBF com as federações. Apresenta também uma síntese de problemas relacionados com a transferências de menores para o exterior, falsificação de passaportes e a ruína administrativa em que se transformou a CBF e as federações. E ele conclui apresentando uma série de propostas com o objetivo de modificar essa realidade. Ou seja, além do indiciamento de 33 pessoas, 33 dirigentes, cartolas e empresários que a CPI julgou ter algum grau de responsabilidade nesses desmandos e nessas irregularidades, nós apresentamos uma espécie de código do esporte brasileiro, com as sugestões que democratizam e dão ao poder público a capacidade de fiscalizar o futebol no nosso país.

Paulo Markun: E em relação ao contrato com a Nike?

Aldo Rebelo: Em relação ao contrato com a Nike, a nossa conclusão é que ele confronta a legislação federal na medida em que transfere para a empresa que patrocina a Seleção Brasileira atribuições que são próprias da CBF, [portanto] são intransferíveis. Mas a própria CBF e a própria Nike reconheceram, no decorrer das investigações, algumas [irregularidades]  - eles não chamaram assim mas nós chamamos -, entre elas, o privilégio de fórum que a própria Nike detinha ao ter em Zurique, na Suíça, um local para o julgamento de demandas para a arbitragem de conflitos com a CBF. E eles assumiram transferir para o Rio de Janeiro a convocação de jogadores, os oito jogadores da chamada Seleção "A" ou seleção principal, que figura também no contrato; o caso dos jogos da Seleção Brasileira que são marcados.

Paulo Markun: Os amistosos?

Aldo Rebelo: Os amistosos marcados pela Nike, que eram no número de cinco, foram reduzidos para dois e, segundo anunciou a própria CBF e a Nike, o contrato [foi alterado] para que a própria CBF, a própria Seleção Brasileira escolha os seus adversários. E há outros episódios que não foram esclarecidos, mas que dizem respeito ao contrato, porque o contrato de quatrocentos milhões de dólares hoje é a principal fonte de receita da CBF e a gestão, a administração desses recursos é uma coisa completamente questionável.

Paulo Markun: Estou às ordens dos companheiros.

Juca Kfouri: Deputado, na abertura do programa já foi dito e a opinião pública estranha muito o fato de que o deputado Eurico Miranda não tenha saído com pedido de indiciamento no relatório. No próprio relatório diz-se, lá pelas tantas, que, além do mais, a CPI do futebol instalada no Senado já havia se encarregado de investigar os clubes, conseguiu a quebra de sigilo deles e certamente está fazendo as investigações pertinentes. No capítulo que tange ao deputado Eurico Miranda, o que houve aí? Foi corporativismo ou foi uma eventual ilusão de que dessa maneira se neutralizaria Eurico Miranda, que se teria Eurico Miranda a favor do relatório, coisa que já é mais ou menos clara, agora, [que] não teremos, ele já declarou que votará contra. Por que Eurico Miranda escapou tão assim, limpamente desse relatório?

Aldo Rebelo: Eu acho que o primeiro esclarecimento, Juca, é dizer que o deputado Eurico Miranda, desde o início, tentou evitar a CPI. Inclusive, chegou a declarar à imprensa que eu não conseguiria sequer cem assinaturas, e isso foi publicado na época. Ele liderou aquele processo na Comissão de Constituição e Justiça que terminou por declarar extinta a CPI, que foi uma batalha que nós tivemos que reverter posteriormente para que a CPI fosse criada. E, no começo, inclusive você e o Flávio [Prado] participaram de uma audiência pública, em que se viu o confronto do Eurico com a direção dos trabalhos. E quando precisou, nós fomos investigar em São Januário. Fizemos um relatório duro em relação àquele episódio da queda do alambrado [Durante a decisão da Copa João Havelange entre São Caetano e Vasco, em dezembro de 2000, parte do alambrado do estádio São Januário (RJ) cedeu, devido à superlotação, ferindo 139 pessoas. Eurico Miranda, presidente do Vasco na época, foi acusado de ser conivente com a superlotação do estádio e de dar preferência ao reinício do jogo em prejuízo ao atendimento dos feridos]; chamamos o deputado Eurico Miranda para explicar o cheque dos US$ 110 mil. Depois, o chamamos novamente para explicar o caso da queda do alambrado e convocamos também o representante do banco que patrocina o Vasco da Gama. Agora, como nós não quebramos o sigilo bancário dos clubes e dos dirigentes dos clubes, porque não tínhamos tempo - ou nós fazíamos a investigação sobre a CBF, sobre as federações, sobre os empresários dentro do prazo que nós tínhamos ou não faríamos investigação nenhuma - nós ficamos sem as condições técnicas para fazer o indiciamento. E, diga-se de passagem, que nem eu nem o relator deputado Silvio Torres pedimos o indiciamento de ninguém e não fizemos a exclusão de ninguém que tenha sido indiciado ou pelos sub-relatores ou pela comissão de advogados que compões a assessoria Jurídica da Câmara. E eles nos informaram que não tinha condições, com aqueles dados, de fazer um indiciamento, mas recomendavam o encaminhamento ao Ministério Público do que nós apuramos, para que o Ministério pudesse submeter a uma investigação, para uma conclusão que a nossa CPI não teve condições de fazer.

Juca Kfouri: O senhor citou o deputado Silvio Torres, o relator. Notas esparsas na imprensa, nos últimos dias, dão conta de que o relacionamento do senhor e do deputado Silvio Torres azedou, isso é verdadeiro, azedou? Se azedou mesmo, por que azedou?

Aldo Rebelo: Não, não é verdadeiro. Até nós pudemos aqui, hoje, dizer publicamente o que suscitou esse tipo de boato, não é? Porque nunca aconteceu nenhuma conversa minha com o Silvio Torres sobre isso, vazou uma parte do relatório para um jornal do Rio de Janeiro, para o jornal O Globo, e alguém pode ter dito ao Silvio Torres que esse documento poderia ter saído do meu gabinete, o que não saiu, vocês sendo jornalistas ali, circulam livremente, e alguém pegou esse relatório. Mas o deputado Silvio Torres, em nenhum momento, tomou a iniciativa de me perguntar sobre isso. Eu posso lhe dizer, com toda a segurança, que nunca, em todo o decorrer da CPI, a unidade entre o presidente e o relator, até por necessidade das circunstâncias, foi tão sólida. Eu posso lhe dizer o seguinte: até o último momento da CPI o deputado Silvio Torres vai ter 100% do meu apoio e da minha defesa do relatório dele.

Alberto Helena Junior: Deputado, esse negócio do Eurico sair ileso dessa Comissão Parlamentar de Inquérito, dado o fato que hoje nós vivemos em uma sociedade... aquela coisa da imagem muito poderosa de marketing e tal, hoje, identifica-se o Eurico Miranda como um dos pilares de um grande problema, a tragédia do futebol brasileiro e tal e coisa, assim como se identificam os políticos como uma das grandes tragédias da vida brasileira, porque eles não teriam caráter, não teriam um comportamento digno etc, tudo isso a gente já sabe. O fato de ele sair ileso, não acha que é um grande golpe para essa CPI, que esteve no centro de toda a mídia, de toda a divulgação nesses últimos meses? Acho que isso foi mais uma coisa e mais um nutriente para aquele negócio de dizer assim: "Olha, não tem jeito mesmo, eles são todos iguais, cartola, político é tudo a mesma coisa, tudo farinha do mesmo saco". Não teme por isso? E eu quero aqui deixar claro o meu reconhecimento pela sua competência e pela sua bravura nesse trabalho todo, não é pessoal, mas vale para todo esse conjunto de elementos que compõe esse quadro que está aí.

Aldo Rebelo: Muito obrigado pela sua referência, Alberto Helena, mas eu penso, eu imagino que não. Em primeiro lugar é preciso... até por formação, eu não divido as pessoas entre os santos e os diabólicos. O deputado Eurico Miranda, no início, lutou contra a CPI, nos deu muito trabalho. Inclusive, tive que, em determinados momentos, cortar os microfones do deputado Eurico Miranda para controlar a situação. Mas eu preciso deixar também público que, em momentos difíceis da CPI ele ajudou, nós não tínhamos condição de conseguir quebrar o sigilo bancário da CBF, do senhor Ricardo Teixeira, do senhor J Hawilla. Então, [quanto à votação do] sigilo bancário, sigilo fiscal, foi uma votação difícil: nove a 14. Nessa votação, pelo menos, o Eurico votou pela quebra do sigilo e no caso das federações do mesmo jeito. E acho que ninguém estaria confortável tendo um relatório com uma série de denúncias e com todos os anexos que nós recolhemos, empréstimos, as denúncias em relação àquelas transferências de dinheiro para o exterior. Tudo isso vai para o Ministério Público. E acho que, se a CPI não teve o tempo suficiente e as condições de fazer o indiciamento, só o fato de enviar ao Ministério Público toda essa documentação solicitando que seja examinada e que o Ministério Público faça a sua investigação já é positivo. Nós tivemos vários casos em que a própria iniciativa do Ministério Público foi conclusiva em relação aos trabalhos que nós não fizemos. E se isso foi um limite da CPI não é o único limite, eu quero deixar claro, a CPI tem outras lacunas que não foram preenchidas porque nós fomos, inclusive, ameaçados de não ter nem o tempo necessário para concluir o relatório. Foi polêmica, inclusive houve pressão para que a CPI não tivesse mais tempo. E, nesse tempo, o que foi possível ser feito, eu acho que se deixou alguns [casos] de fora, daqueles que foram indiciados, eu posso dizer com tranqüilidade que nenhum foi, assim, injustamente.

Roberto Avallone: Deputado, eu estou lendo aqui um artigo seu, na Folha de S.Paulo, cujo título é até sugestivo: “Esse jogo não é um a um” e a CPI, com o seu relatório final, corre o risco, talvez, dentro da perplexidade de não ter sido indiciado o deputado Eurico Miranda, de acabar em um a um, no popular em “pizza”. Então, eu pediria ao senhor que se desvinculasse um pouquinho do cargo de presidente da CPI e jogasse no ataque, como propõe aqui o Tostão, o Rivelino e tal, o que vai acontecer ao Ricardo Teixeira, ele sair da CBF ou não?

Aldo Rebelo: Prezado Avallone, o título do artigo é, bem na verdade, um plágio, é uma música do Jackson do Pandeiro [pseudônimo de José Gomes Filho (1919 – 1982), cantor e compositor de forró e samba].

[sobreposição de vozes]

Roberto Avallone: Plágio ou não, vamos confessar que esse jogo não pode ser um a um, quis dizer que não pode ser um a um.

Aldo Rebelo: Então, é uma homenagem ao nosso Jackson do Pandeiro. O que vai acontecer com o nosso Ricardo Teixeira? Ele está indiciado em 13 itens no relatório final da CPI. Nós, como eu já disse, não sugerimos e nem pedimos à nossa consultoria legislativa que fizesse um indiciamento a mais ou a menos. Pedimos apenas que a consultoria legislativa, formada de advogadas e advogados competentes, de espírito público e profissional, fizessem aquilo que julgasse dentro dos critérios do direito. E exatamente resultou nesses indiciamentos e, aliás, nós também recebemos assessoria do próprio Ministério Público para que a consultoria da Câmara não enviasse uma série de pedidos de indiciamentos para que eles fossem arquivados depois por falta de provas. Ele responderá a esses processos, às ações civis e penais de iniciativa do Ministério Público, não sei no que isso resultará, porque depende da Justiça.

Roberto Avallone: Não pode dar palpite?

Aldo Rebelo: Não devo, está certo? Posso ser acusado de estar induzindo a uma decisão Judicial. Mas creio que o próprio doutor Ricardo Teixeira percebe a situação dramática e difícil [em que está]. E ele próprio, há duas ou há uma semana, sugeriu uma série de alterações na estrutura da CBF como, por exemplo, o fim dessa perpetuação do poder com eleições que contemplem uma reeleição, ou seja, com os mandatos...

Alberto Helena Junior: Antes, porém, de ter saído o relatório. Agora, hoje, pelo que se sabe, ainda hoje, o comentário do doutor Ricardo Teixeira a respeito do relatório é que se trata de uma obra pífia.

Flávio Prado: Ele é doutor em quê? Fica assim doutor, doutor, doutor de quê?

Alberto Helena Junior: É como a gente chama de doutor o Paulo Machado de Carvalho, o doutor, coisa e tal.

Flávio Prado: Por que doutor?

Alberto Helena Junior: Deve ser doutor em...

Flávio Prado: Em cima disso, quando o senhor começava, quando o senhor teve a idéia de pensar uma CPI, o senhor conversava e tinha um certo receio...

Alberto Helena Junior: Mas espera aí, ele respondeu isso aí.

Flávio Prado: Não, mas eu acho que ele responde até juntamente. Quando o senhor tinha a idéia da CPI o senhor dizia que tinha até uma dificuldade com relação ao conhecimento mais profundo da estrutura do futebol e por isso o senhor conversava com vários jornalistas, um dos primeiros depoimentos foi exatamente de jornalistas, o Juca [Kfouri], o [José] Trajano e eu. E hoje, depois de oito meses, eu tenho a impressão que o senhor é um doutor em termos de estrutura de futebol brasileiro, em cima disso eu lhe pergunto: o futebol brasileiro é gerido por gente séria?

Aldo Rebelo: Em primeiro lugar, Flávio, nem em disciplinas menos complexas se formam doutores em oito meses, muito menos no futebol. Eu acho que, respondendo aí à última questão do Alberto Helena, se ele não cumprir nós estamos, pelo menos, prevenidos com uma proposta de legislação que faz com que isso seja cumprido por lei. Ou seja, proibir a reeleição, [colocar] o Ministério Público para fiscalizar, deixar na mão do poder público para investigar, transparência e publicidade dos atos administrativos das prestações de contas. Isso, nós temos já nesse tal código. Eu acho, Flávio, que nós temos em regra uma administração no futebol brasileiro que está longe de ser qualificada como séria e como honesta, lamentavelmente. Você vê pelo número de indiciamentos que nós somos obrigados a fazer na estrutura da CBF... Olha, o Hélio Viana [então sócio da empresa Pelé Sports & Marketing, do jogador Pelé. Mais tarde, houve rompimento não amigável da sociedade] chegou na CPI e a pergunta foi feita mais de uma vez já, eu pedi para um deputado repetir a pergunta porque eu fiquei estarrecido com a resposta; o senhor Salim, diretor tesoureiro da CBF, pediu um milhão de dólares em uma conta nos Estados Unidos para entregar a organização de um campeonato à empresa do Pelé ou do Hélio Viana, e ele disse: “Sim, é isso mesmo!” Outro deputado disse: “Mas é isso mesmo o que o senhor está dizendo? Ele pediu um milhão de dólares?”. Ou seja, não é o tesoureiro do clube da periferia do interior ou não sei da onde, é o tesoureiro da Confederação Brasileira de Futebol, uma entidade que gasta por mês, por ano... em um desses anos gastou nove milhões de reais, quando o real era real [refere-se ao momentos em que a cotação do real equiparava-se ao dólar, em meados dos anos 1990], em passagem aérea. O Congresso Nacional, com 513 Deputados, viajando toda a semana, com seus assessores viajando, alguns viajam para o exterior, vão à reunião da Alca, Mercosul, gastam vinte milhões e, nesse mesmo ano, a CBF gastou nove milhões em passagens com tarifas cheias. Sinceramente, isso é um escândalo que não tem tamanho e nem tem dimensão. E as federações, todas elas sem exceção - há algumas que nós não pudemos fazer o indiciamento porque nós não tínhamos o material - mas a maioria, os seus dirigentes foram indiciados, então, isso prova que não é propriamente pela regularidade administrativa.

Paulo Markun: Paulo.

Paulo Vinícius Coelho: Só para completar, nessa linha. O país vive uma série de denúncias de corrupção em todos os níveis, o senhor diria que a situação no futebol brasileiro é ainda mais grave do que, por exemplo, o Senado, o governo federal?

Aldo Rebelo: Eu diria que é mais grave porque é mais difícil de você investigar, está certo? Há uma correlação entre os dois fenômenos, mas como você criou... no caso do Senado, você pode investigar, você tem uma comissão de ética, o Senado cassou o senador Luiz Estevão [Luiz Estevão (PMDB-DF) foi acusado de desviar 169 milhões de reais nas obras do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo e teve seu mandato cassado pelo Senado em 2000]. O Congresso cassou o deputado Hildebrando Pascoal [([PFL-AC) acusado de mentir nos depoimentos que deu à CPI do Narcotráfico e à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara sobre a seu envolvimento com o narcotráfico e grupo de extermínio no Acre] cassou tantos outros envolvidos no escândalo do orçamento, e, no futebol, você não tem esses mecanismos porque tirou-se, da chamada Lei Pelé, a fiscalização do Ministério Público, e não há o que substitua. E é um esporte que movimenta, por ano, segundo a Fundação Getúlio Vargas, 16 bilhões de dólares, movimenta uma fortuna sem qualquer tipo de regra. Ou seja, diz que é empresa, mas a CBF não é empresa, outra batalha que nós vencemos é a batalha desse conceito, se é empresa ou se não é.

Juca Kfouri: Pois é, eu gostaria exatamente de pegar constatações, está aqui, no relatório, a reprodução do Artigo 13 do Estatuto da CBF: “Os membros dos poderes de órgãos não serão, de qualquer forma, remunerados pelas funções que exercerem na CBF.” E está aqui na página anterior um quadro da remuneração da diretoria neste ano, encabeçado pelo senhor Ricardo Teixeira, presidente, 35 mil reais por mês; Alfredo Alberto Nunes, vice, 23 mil; Carlos Eugênio Lopes, jurídico, 23 mil; José Carlos Salim - aquele do um milhão de reais - marketing, 23,2 mil reais; Luiz Gustavo Castro, também; Euclides Mariano, 23 mil; e assim por diante, até chegar em Marco Antônio Teixeira, secretário geral, 37 mil reais, mais até que o presidente.

Alberto Helena Junior: Marco Antônio Teixeira, 37 mil?

Juca Kfouri: ...37 mil reais. A questão que eu coloco é a seguinte: nessa página 93 e 94, na 93 está a relação dos ganhos, na 94 a reprodução de um artigo e estatuto. Essa página é suficiente para fazer com que o presidente Ricardo Teixeira cumpra a promessa que fez ao jornal O Globo, que se o relatório, que ele chama de panfleto, apresentasse uma prova que fosse de irregularidade cometida por ele, ele imediatamente renunciaria. Eu não estou entrando no empréstimo do Delta Bank [Pelo relatório da CPI, a CBF tomou empréstimos no Delta National Bank fora do padrão administrativo, já que as taxas de juros cobradas pelo banco eram de 14,5% e 25% ao ano, dependendo do contrato, enquanto as taxas de juros praticadas no mercado internacional giravam entre 5,22% anuais], que é uma cosia complicada das pessoas entenderem. Eu não estou nem sequer mostrando que a CBF paga advogado para ele, não para  defender sua imagem como presidente da CBF, mas naqueles processos da Receita Federal, [aqueles processos] contra a pessoa física Ricardo Teixeira pela sonegação de imposto; não cheguei aí ainda, estou nisso. O senhor não vai cobrar que ele cumpra a promessa, que o panfleto tem, pelo menos, se não tiver mais nada nas setecentas páginas, uma página que tem um artigo que é desmentido pela página anterior? Porque os diretores são remunerados.

Aldo Rebelo: Primeiro, eu quero repudiar a palavra usada para definir o relatório como panfleto. O relatório é o produto do esforço de um grupo de deputados que levou a sério a sua missão e compreendeu o futebol brasileiro não como empresa nem como negócio privado, está certo? Porque seria negócio privado se qualquer um de nós pudéssemos chegar na rua da Alfândega, no outro lado da CBF, abrir uma CBF, convocar uma seleção brasileira, vender os direitos para a Nike, vender os direitos para a Ambev [companhia de bebidas, fruto da fusão entre Antarctica e Brahma], vender os direitos de transmissão por oitocentos mil dólares cada jogo e fazer com o dinheiro o que bem entender. A CBF é quase uma para-estatal é quase uma concessão, só ela pode convocar a Seleção, só ela pode vender os direitos de imagem da Seleção. Então, não é um negócio privado, é uma entidade civil, como o estatuto que o próprio Ricardo Teixeira desconhecia define, e eu espero que ele haja de acordo com a consciência dele, está certo? Se a CBF fosse administrada com a seriedade que os relatores desse relatório trabalharam o senhor Ricardo Teixeira não estaria na situação em que se encontra.

Vital Battaglia: Deputado, o senhor vai ter que provar que esse relatório concebido na CPI não é um panfleto. Por exemplo, se eu tivesse dois números de CPF, o que aconteceria comigo? Essa CPI começou como em um filme de mocinho e bandido: o Pelé era o mocinho e o Ricardo Teixeira era o bandido. Passados oito, nove meses da CPI, qual é a diferença que existe entre a Pelé Esportes, do cidadão Edson Arantes do Nascimento e Hélio Viana [PS&M]; e a Traffic, do Ricardo Teixeira e do J. Hawilla?

Aldo Rebelo: Primeiro, eu acho que é a dimensão da responsabilidade de cada uma dessas instituições, na organização, na estrutura e na situação em que se encontra o futebol brasileiro, está certo? Elas são empresas, elas não são responsáveis pela gestão, pela administração, pela organização e pelo todo o contrário que acontece no futebol brasileiro. No mais, eu acho que essa empresa, a Pelé Esportes e Marketing, que teve seu sigilo bancário e fiscal quebrado, foi investigada, resultou no indiciamento do senhor Hélio Viana, que resultou em vários crimes também. Acho que, do ponto de vista da irregularidade, houve uma parceria entre essa empresa, a Pelé Esportes e a CBF...

Vital Battaglia: Em síntese, o senhor quer dizer que o mocinho morreu antes do filme acabar, só ficaram os bandidos?

Aldo Rebelo: Eu acho que não, Vital, porque o Pelé, desportista, o jogador, que é isso o que permanece...

Vital Battaglia: Eu não falei Pelé.

Aldo Rebelo: Eu sei, mas eu estou falando para estabelecer essa separação, para que amanhã o telespectador não pense que nós, na CPI, contribuímos para vetar...

Vital Battaglia: A CPI tem medo disso?

Aldo Rebelo: Não tem medo, eu tenho é posição sobre isso, ou seja, eu procuro separar o Pelé jogador, que eu acho que o Brasil deve preservar e conservar, é uma realização do seu povo ou de sua capacidade. Agora, o  Pelé empresário, eu acho que deve ser tratado e investigado como outro empresário qualquer, e suas empresas devem ser investigadas da mesma forma, e foi o que nós fizemos. O que eu não quero é que alguém pense que nós investigamos a empresa do Pelé porque não aceitamos que alguém que veio do povo, que venceu na vida, tenha que ser destruído porque os políticos ou quem quer que seja não podem ver uma pessoa simples e humilde triunfar. Essa imagem, sinceramente, eu não quero...

Juca Kfouri: Mas deu na Folha de S.Paulo que o empresário José Hawilla disse que esse relatório o absolve, que trabalharam oito meses para pegá-lo e que ele saiu absolutamente limpo do relatório, isso o senhor concorda?

Aldo Rebelo: É lógico que não.

Vital Battaglia: Esse é o ponto, esse é o ponto básico. Será que essa CPI veio só para dar uma conotação de honestidade a essas pessoas, mandar um atestado de idoneidade moral a essas pessoas todas, a esses indivíduos acima de qualquer suspeita?

Aldo Rebelo: Mas que pessoas Vital?

Vital Battaglia: Essas que eu estou me referindo.

Aldo Rebelo: Não, essas pessoas foram investigadas, a empresa do Pelé foi investigada com profundidade, nós constatamos a existência de várias irregularidades e ilícitos na atuação dessas empresas, estão todos eles notificados na CPI, e o senhor Hélio Viana, que é o responsável pela empresa, com o indiciamento devido. No caso do senhor J Hawilla, nós não tivemos o material suficiente para fazer o indiciamento dele, mas tudo aquilo que nós recolhemos será enviado ao Ministério Público. E o fato da CPI ou dos técnicos da CPI, ao fazerem a leitura de todos os dados do sigilo bancário e fiscal dele especificamente, terem concluído pela ausência de provas não significa que o Ministério Público não possa fazê-lo amanhã. E o fato de você não descobrir um crime não significa que o investigado seja inocente. Não significa que até aquele momento não seja criminoso, mas também não pode declarar sua inocência enquanto uma outra investigação não for feita e essa investigação pode ser feita pelo Ministério Público.

Paulo Markun: Nós vamos fazer, deputado, um rápido intervalo e voltamos já, já, com o Roda Viva. Até já.

[Intervalo]

Paulo Markun: Estamos de volta com o Roda Viva, esta noite entrevistando o deputado federal Aldo Rebelo, o presidente da CPI da CBF-Nike [...] Olha aqui, Ariston Júnior, da Vila Maria, de São Paulo, pergunta: "Até onde a CPI tem autonomia para punir alguém?" E reforço que muitos telespectadores mencionam o que pode acontecer com o senhores Eurico Miranda e Ricardo Teixeira? Essa segunda parte, de certo modo, o senhor já mencionou, mas qual é a autonomia? Até onde ela pode punir? Porque a CPI pode punir deputado, agora, pessoas que não são parlamentares, ela tem o direito de punir ou ela apenas encaminha para o Ministério Público, como funciona?

Aldo Rebelo: Ela faz o que nós denominamos indiciamento. Não é o indiciamento compreendido, do ponto de vista jurídico, porque não tem essa força, mas é o indiciamento no sentido de indicar ao Ministério Público provas e conclusões que dêem a possibilidade de iniciativa penal ou civil da proposta de ação com relação a essa pessoa, física ou jurídica. No caso do Ricardo Teixeira, a CPI propôs 13 indiciamentos; 12 ou 13 indiciamentos.

Vital Battaglia: 13.

Aldo Rebelo: 13.

Vital Battaglia: O número de sorte do Zagalo, o 13.

Aldo Rebelo: E no caso do senhor Eurico Miranda, a CPI encaminhou ao Ministério Público um [parecer pedindo] aprofundamento de investigações por falta de provas conclusivas porque, em determinados episódios, houve respostas, [conseguimos] documentos do banco, do próprio Vasco, que nós encaminhamos ao Ministério Público para que se possa fazer o aprofundamento das investigações. Agora, a partir da iniciativa do Ministério Público, a Justiça vai fazer... eu acho que aí depende, naturalmente, da decisão da Justiça. Uma ação, muitas vezes, termina em uma condenação...

[Sobreposição vozes]

Juca Kfouri: Deputado, eu queria, só para que o telespectador entenda certas coisas que acontecem dentro do relatório. Quando o relatório menciona especificamente a situação da Federação Paulista de Futebol, em que se observa, inicialmente, que a Federação não entregou as declarações de imposto de renda referentes aos anos calendário de 1995 e 1996 e, ainda com relação ao fisco federal, o presidente da Federação afirmou em seu depoimento que a Federação possui em aplicações financeiras o montante de 23 milhões de reais, mas nas declarações de renda da entidade não foi encontrado nada que faça referência a esse valor. Eu pergunto: independentemente desse relatório ser provado ou não ser aprovado, isso não é elemento suficiente para que, no mínimo, a Receita Federal autue quem praticou essa falha, essa falta?

Aldo Rebelo: Com certeza, não só a Receita Federal, como no caso dos ilícitos cambiais o próprio Banco Central. Nós trabalhamos permanentemente em colaboração com o Banco Central que enviou vários técnicos e enviou para a CPI e a Receita Federal também. Mas a CPI tem mais poderes do que a Receita Federal; a Receita Federal, por exemplo, não pode fazer as investigações que a CPI fez. A Receita, por exemplo, não descobriria esse tipo ilícito da mesma forma que o Banco Central. Ninguém pode chegar lá na Receita Federal e dizer o seguinte: “Eu quero a declaração de renda de "A"" e chegar no Banco Central, "Eu quero a movimentação financeira do senhor "A"" e fazer o cotejamento entre a declaração de renda e a movimentação financeira. O Banco Central e a Receita Federal não podem fazer isso. A Receita Federal não pode pedir a movimentação financeira dos contribuintes ao Banco Central. E nem o Banco Central pode pedir à Receita Federal a declaração de bens daqueles que têm conta no sistema financeiro brasileiro. Como as CPIs podem fazer as duas coisas e a investigação é 80% baseada na comparação da movimentação bancária com a declaração de renda, e os técnicos da Receita e do Banco Central acompanham, independente da CPI tomar iniciativa, já de pronto e de ofício, eles tomam iniciativa de enquadrar o crime fiscal cometido pelo contribuinte, seja pessoa física ou jurídica. Isso aí, também do ponto de vista fiscal, esses ilícitos já estão nas mãos da Receita.

Roberto Avallone: Deputado, eu quero dizer o seguinte: eu admiro muito a sua luta, eu acho que é uma brava luta. Então, tudo o que se foi falado aqui são perguntas profissionais e nada pessoal. E eu estou sentindo uma série de incoerências em relação a um dos nossos mitos, se é que ainda nós temos mitos, mas na minha opinião, não houve ninguém, nenhum jogador como o Pelé. Então, realmente, separar o jogador do empresário... Eu sei que ninguém bateu como ele de direita e de esquerda e tal, de tabelinha etc e tal. E eu sempre tive a maior admiração pelo Pelé, mas leio aqui na Folha de S.Paulo, no dia quatro de fevereiro deste ano, declarações do deputado Aldo Rebelo acusando o Pelé de integrar complô contra a CPI. De uma certa maneira, deputado, o senhor, que tem um coração romântico que pulsa pelo Palestra [Palmeiras] que enfrenta o Boca [Boca Juniors time argentino de futebol] quarta-feira... De uma certa maneira está sendo preservado um mito? Porque eu não entendi uma coisa jurídica e eu pergunto como leigo: Pelé Esportes não é do Hélio Viana e do Pelé? Por que só foi indiciado o Hélio Viana e não o Pelé?

Paulo Markun: E pergunta aqui Alessandra Faria, do Aeroporto, bairro aqui de São Paulo capital, que é designer, qual o envolvimento do Pelé na máfia do futebol.

Aldo Rebelo: Primeiro, o título da matéria é do jornal, eu não usei a expressão, a palavra complô em nenhum momento, eu disse que havia uma articulação envolvendo o Pelé, o Ricardo Teixeira e o governo brasileiro, o poder executivo, para tentar fazer um atalho.

[sobreposição de vozes]

Aldo Rebelo: Para impedir que a CPI pudesse... Esvaziar a CPI, isso foi o que eu disse. E acho que aconteceu de fato, acho que eles tentaram esvaziar a CPI, [mas] não conseguiram porque produziram também resultados pífios, não tinham uma proposta, um programa, não tinham nada. Quanto ao Pelé, eu lhe digo abertamente, eu tenho interesse, como um cidadão brasileiro que tem interesse em preservar o mito Pelé, tenho interesse sim, ele é patrimônio do país.

Roberto Avallone: Mas é por isso que...

[sobreposição de vozes]

Roberto Avallone: Foi indiciado ou não?

Aldo Rebelo: Não aí.

Roberto Avallone: Ou juridicamente. Não, se são sócios?

Aldo Rebelo: Como o filósofo aqui do esporte, citado pelos senhores, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Vital Battaglia: Seguindo essa linha, deputado, eu tenho um receio enorme que outros mitos sejam preservados. Por exemplo, como que se pode pegar um senhor octogenário, que entrou pelos elevadores privados da presidência da República, pelos governos mais democráticos desse país, desde Juscelino Kubitschek [Juscelino Kubitschek (1902-1976); presidente do Brasil entre 1956 a 1961], passou pelo governo de esquerda de João Goulart [(1919-1976), conhecido popularmente como "Jango", foi presidente do país entre 1961 e 1964], passou pelo governo dos militares, sempre entrando pelo elevador privativo da presidência da República, até chegar a esse glorioso governo, reeleito pelo povo. E vocês levam esse homem à CPI, para investigar a vida de um cidadão do mundo chamado João Havelange [Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange], o que os vocês estão fazendo, senhores deputados?

Aldo Rebelo: Vital, só terminando a pergunta do Avallone.

Roberto Avallone: Juridicamente?

Aldo Rebelo: Juridicamente, por que o Hélio Viana e não o Pelé? Porque juridicamente o Hélio Viana é o responsável pela empresa, ou seja, tem a função de responder.

Roberto Avallone: De laranja.

Aldo Rebelo: De dirigir, de assinar.

Roberto Avallone: De laranja, deputado!

Aldo Rebelo: É, pode ser. Mas juridicamente é o responsável. Ou seja, aí você, quando toma decisões na esfera do direito tem que levar em conta a esfera dos direitos, ou seja, o ordenamento jurídico. E, no caso das empresas, a responsabilidade era do senhor Hélio Viana. E as providências foram tomadas por causa disso.

Roberto Avallone: Eu só gostaria de acrescentar, à imagem do Vital Battaglia, desse senhor octogenário chamado pelo nome pomposo, aliás o nome verdadeiro de Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange, realmente.

Aldo Rebelo: É, mas eu...

Roberto Avallone: O que é que o senhor fez ali?

Aldo Rebelo: Mas ele não gosta de ser chamado por esse nome, ele gosta de ser chamado João Havelange, nós convidamos, nós convocamos o senhor João Havelange porque ele tem uma larga trajetória no futebol brasileiro. Ele presidiu, chegou a presidente da CBF, ou ainda era CBD?

Roberto Avallone: CBD [Confederação Brasileira de Desportos].

Juca Kfouri: CBD.

Aldo Rebelo: CBD.

Juca Kfouri: CBD, CBF não.

Aldo Rebelo: E presidiu a Fifa. Aliás, na Fifa, ele inaugurou esse tipo de contrato de patrocínio, acho que no caso foi com a Coca-Cola e mais a Adidas.

Juca Kfouri: Adidas, exatamente.

Flávio Prado: E nos entregou esse maravilhoso Ricardo Teixeira, não é?

Aldo Rebelo: Exatamente, ou seja, o senhor Teixeira também surgiu no bojo da gestão e da trajetória do senhor João Havelange e nós o convocamos exatamente porque achamos que ele tinha muito a esclarecer, por conhecer a estrutura do futebol. Não apenas no Brasil mas, inclusive, mundial, pela Fifa.

Flávio Prado: Deputado, o que...

Paulo Markun: Só um segundinho Flávio.

Flávio Prado: Pois não.

Paulo Markun: No mesmo assunto, Alcenir Fernandes de Castro, de Salvador. Bahia, pergunta se o senhor não acha que o poder paralelo, entre aspas, imposto pela Fifa, entidade que chega a ser mais forte do que a própria ONU e que interfere diretamente na Constituição Federal quando impede que se recorra ao judiciário, que esse poder anula qualquer coisa que se possa fazer para punir a CBF?

Aldo Rebelo: Eu acho que não, porque a Fifa trata do coordenamento do futebol, [de estabelecer] as regras do futebol. No que diz respeito à relação da Fifa com a CBF, como entidade que integra o sistema nacional de desporto e que deve estar submetida às regras, às leis do país, a Fifa - pelo menos foi o que me falou, na Suíça, o próprio presidente da Fifa - ela não tem nem um tipo de interferência, pelo contrário. Agora, também, a CPI não foi constituída para questionar o papel da Fifa nem suas relações com a CBF.

Vital Battaglia: Mas parece que há um equívoco no caso.

Aldo Rebelo: Sim.

Vital Battaglia: Porque o presidente João Havelange ameaçou o Brasil de não participar de uma Copa do Mundo, caso a legislação da Fifa não fosse obedecida.

Roberto Avallone: Ele já tinha feito isso com a lei Pelé.

Vital Battaglia: Pela Constituição Federal deste país.

Roberto Avallone: Ele bravateou muito.

Aldo Rebelo: E, aliás, o próprio presidente da Fifa, o senhor Blatter [Joseph Blatter, sucessor do brasileiro João Havelange na presidência da Fifa desde junho de 1998] também teria - hoje eu já não tenho tanta certeza assim - feito esse ameaça, ainda porque deve ter sido mal informado por alguém da CBF sobre o que era a CPI. Mas quando nós fizemos um breve relato das irregularidades que encontramos e de alguns problemas que nós vimos, a reação dele não foi...

Vital Battaglia: Mas traduzindo então...

Juca Kfouri: Além do mais, o senhor Blatter, neste momento, tem muito mais com o que se preocupar, que é explicar as reações dele com a ISL [caso Fifa grupo ISL-ISMM], que a Uefa [União das Associações Européias de Futebol] está tratando de saber...

[Sobreposição de vozes]

Vital Battaglia:  ...Para chegar a essa conclusão, quem concede a uma entidade de direito privado, como a CBF, o direito e a responsabilidade de usar todos os símbolos da pátria? Quem concede a esses irresponsáveis esse direito, quem?

Aldo Rebelo: A Lei Federal não o faz diretamente, meu caro Vital, mas ao organizar o sistema nacional de desporto como sistema integrado e atribuir as diversas entidades que organizem cada modalidade, no caso da CBF, o futebol, e ao dar essa entidade quase que o direito de organizar a representação nacional de cada um desses esportes, isso está implicitamente concedido.

Vital Battaglia: O direito de vender [todos os símbolos da pátria] à Nike, conceder à Trafic, ao Pelé assim...

Aldo Rebelo: Exatamente, exatamente e eu acho que quem fez a lei para estabelecer... No entendimento da lei, esse direito não se complementou, estabelecendo também as obrigações e a fiscalização e é isso que dá ao senhor Ricardo Teixeira [afirmar] que é dirigente de um empresa privada, e nós dissemos que empresa privada, vírgula, não é.

Roberto Avallone: Vírgula.

Aldo Rebelo: Vírgula. Não tem empresa privada é quase como uma concessão, na verdade, é isso, é quase como uma concessão.

Roberto Avallone: Marcelo, no pique, por favor.

Marcelo Damato: Eu queria perguntar para o senhor o seguinte: no fundo, toda essa discussão só tem sentido diante da perspectiva do torcedor. A CPI só existe porque o objetivo final de tudo isso é que os estádios se encham, que os campeonatos fiquem mais atraentes e que, enfim, que o mundo do futebol volte a ter credibilidade. Em toda a sua explanação até aqui uma coisa que eu observei é que o senhor tem uma certa preocupação em fazer aprovar o seu relatório. O senhor disse que não vai admitir que o trabalho de oito meses vá ser jogado fora, e a minha pergunta é a seguinte: se essa preocupação, ao meu ver, não revela uma certa fragilidade da CPI? Não só agora, nessa votação, quanto em uma votação mais importante, que vai ocorrer depois, que vai ser a votação no Plenário da Câmara [na hora] da aprovação das medidas propositivas que, no fundo, são as mais importantes no trabalho da CPI, mais do que punir as pessoas, mais do que limpar o passado é construir o futuro. Depois de oito meses e de todo esse trabalho da CPI, todo esse ponto de vista político parece muito frágil. Não seria melhor tomar uma posição, vamos dizer assim, forte e enfrentar as barreiras, do que ficar fazendo o que aparenta ser pequenas concessões e indo jogar cada vez mais na defesa, na esperança de ganhar o jogo final? Isso me parece um pouco a política dos aliados contra Hitler, cada um faz pequenas concessões, e, no fundo, deu no que deu.

Aldo Rebelo: Marcelo, você tem razão em uma coisa: a nossa CPI de fato é frágil e é frágil desde o início, mas nós chegamos até aqui de fragilidade em fragilidade. Você há de lembrar que, no primeiro momento, nós não conseguimos nem o número de assinaturas para criar a CPI, 34 deputados retiraram as assinaturas. Depois de um lobby poderosíssimo da CBF, de governadores de estado, ministros de Estado, do Zagalo, do Luxemburgo [ex-técnico da Seleção Brasileira, do Real Madrid e de vários times de futebol no Brasil], que escreveram para dizer que não tinha nada para ser investigado, que a Nike nunca fez nada, que estava tudo normal. Depois de uma ofensiva dessa, eu lembro da sua matéria. Inclusive, você trabalhava na Folha de S.Paulo, quase fui crucificado, porque eu estava lá em um negócio da Antártida, em uma viagem oficial da Marinha e quando voltei, a CPI já era. Retomamos para conseguir assinaturas, ultrapassamos as duzentas assinaturas, depositamos e a CPI foi acolhida. Depois, desarquivaram uma série de CPIs para postergar a instalação dessa, CPIs que já tinham sido arquivadas em uma outra legislatura. Depois, veio a votação do salário mínimo, aproveitaram a bancada da CBF e levou para a Comissão de Constituição e Justiça, aprovou na Comissão de Constituição de Justiça a extinção da CPI, você lembra disso? Foi aprovada a extinção, acabou a CPI. Nós fomos ao presidente Michel Temer [deputado federal pelo PMDB], vamos recorrer ao Supremo, o Supremo vai dar uma decisão contra a decisão da Comissão de Constituição de Justiça que não pode declarar a inconstitucionalidade da Constituição, a CPI é criação da Constituição, não foi uma lei, um decreto, cuja a constitucionalidade pudesse ser apreciada e a Comissão de Constituição e Justiça não poderia fazê-lo. Depois de muitas idas e vindas, fomos ameaçados de sermos responsabilizados pelo Brasil não sediar a Copa do Mundo de 2006 ou 2010. Tudo isso aconteceu. E nós fomos, assim, não de fracasso em fracasso, como diz o samba, mas de fragilidade em fragilidade e chegamos. Para aprovar a quebra de sigilo também foi uma batalha e nós teríamos cometido um erro fatal se tivéssemos jogado na defensiva. Quando nós precisamos dizer a verdade sobre o acordo que foi feito entre o Pelé, o Teixeira e o governo, a pessoa aqui, que é deputado do PCdoB, mas três ou quatro ali com um acordo, mas você diz: "não, vamos enfrentar o acordo". Nós fizemos com toda essa fragilidade, mas enfrentamos. E digo: amanhã, vamos fazer a votação, aceitando as emendas possíveis ao relatório. Agora, se for para mutilar o relatório, nós não vamos aceitar.

Flávio Prado: Deputado, o que mais o estarreceu nessas investigações que o senhor fez durante tanto tempo ou o senhor esperava isso? Foi além do que o senhor esperava? Bom, que o futebol brasileiro está na lama, a gente percebe até pelo que a Seleção vem jogando, que eu vejo uma influência direta do comando do futebol que se joga dentro de campo.

Paulo Markun: Só não está na lama porque não entra na dividida, não é.

Flávio Prado: É, também tem isso, o que mais o estarreceu dentro dessas investigações que o senhor fez?

Aldo Rebelo: Olha, eu acho que não é um fato assim. Eu acho que há uma série de episódios que demonstram a situação de certa degradação, de certo abandono. Você vai na Suíça, na Holanda e você vê lá um garoto que foi levado daqui com 11 anos, tuberculoso, assistidos por entidades públicas ou assistenciais do governo holandês ou belga, isso é uma degradação! É uma criança brasileira que foi levada daqui por algum irresponsável e lá foi abandonada, a criança apanhou tuberculose e ficou lá internada durante não sei quantos dias, isso nos foi estarrecedor, nós...

Flávio Prado: Crianças brasileiras no exterior?

Aldo Rebelo: Crianças brasileiras no exterior.

Flávio Prado: E o que o senhor diria dos meninos japoneses que vieram aqui para o Brasil?

Aldo Rebelo: Para a Bélgica.

Flávio Prado: Também.

Aldo Rebelo: Eu acho que se foram tratados dessa forma, é condenável do mesmo jeito.

Flávio Prado: O senhor sabe como se processava isso?

Aldo Rebelo: Eu imagino

Flávio Prado: Não, eu acho que o senhor não imagina, o senhor sabia que um diretor da Federação trazia meninos japoneses que pagavam em dólar.

Aldo Rebelo: Para vir treinar aqui.

Flávio Prado: Para vir treinar aqui e eram abandonados aqui na cidade de Jaú, debaixo das arquibancadas do estádio de Marília e também ficavam doentes.

Aldo Rebelo: Eu acho que são crimes da mesma natureza...

Juca Kfouri: Deputado, eu queria só...

Aldo Rebelo: ...Seja lá onde acontecer.

Juca Kfouri: ...Dar nome um pouco aos bois, na resposta ao Marcelo, o senhor falou de governadores e ministros que pressionaram para que a CPI não viesse à luz. É possível mencionar os nomes desses ministros e desses governadores, porque é estarrecedor que essa gente se meta em uma questão do futebol?

Aldo Rebelo: Eu não acho necessário, Juca, não acho necessário.

Juca Kfouri: Ah, mas é sim.

Aldo Rebelo: Eu não sei quem são, mas os deputados... porque alguns foram pressionados e inclusive não cederam as pressões, porque se todos tivessem cedido, nós não teríamos alcançado as duzentas e tantas assinaturas. O que demonstra também que havia, por parte de uma parcela representativa do Congresso, o desejo de investigar. Ou seja, 34 retiraram, mas mais de duzentos mantiveram as suas assinaturas. E muitos desses me informaram as pressões realizadas por ministros, diretores de empresas estatais, governadores, além, naturalmente, da CBF e das Federações.

Juca Kfouri: Deputado, é claro, mas que a CBF faça, é o papel dela, não é? É compreensível. Me preocupa o seguinte, deputado, quando se fala: "olha, houve governador que pressionou, houve ministro que pressionou" me permite suspeitar, por exemplo, embora não suspeite, mas, em tese, me permite [suspeitar] que o governador Mário Covas tenha pressionado a bancada do PSDB de São Paulo para não aprovar a CPI.

Aldo Rebelo: Não, de forma nenhuma.

Vital Battaglia: O senador em Tocantins é presidente da Federação local, por exemplo.

Flávio Prado: Agora, deputado, nas escolhas das equipes para Copa do Brasil, essa mutreta para aumentar o número de clubes do Campeonato Brasileiro, o senhor não se surpreendia com as escolhas dos times, o senhor sentia ali a reação [Copa João Havelange]?

Aldo Rebelo: Não, porque soubemos que essa engenharia fez parte do acordo entre o Pelé, o Teixeira e o Lúcio que foi o que circulou em Brasília. Agora, a parte ao acordo, porque não bastava fazer um acordo entre os três e uma cúpula, é preciso angariar apoio na base, inclusive, na base da CPI da Câmara e na CPI do Senado também, nas duas CPIs para neutralizá-las. E a engenharia, ou seja, o tijolo que erguia esse edifício era a construção do calendário do organograma desses torneios.

Alberto Helena Junior: Deputado, pegando o mote do Marcelo que parece interessante, esse negócio de vai prender, não vai prender, é muito relativo e, pelo visto, não vai ninguém em cana não, não vai acontecer nada com ninguém. Mas e o futuro? Qual é a proposta, o que a CPI bebeu dessa experiência toda e o que ela vai propor para que - acabar com essa gente não acaba - mas, pelo menos, ter uma esperança, um certo futuro, uma certa ordem nessa bagunça.

[Sobreposição de vozes]

Flávio Prado: O senhor descarta totalmente a possibilidade de alguém ser preso através desse relatório?

Aldo Rebelo: Não, eu não descarto, eu acho que...

Roberto Avallone: O senhor não descarta? Há essa chance, essa possibilidade?

Aldo Rebelo: Não descarto, depende da Justiça, mas eu não descarto, quando eu respondi a sua pergunta eu fui muito claro.

Flávio Prado: No relatório existem indícios que podem levar, com boa vontade, pessoas à prisão?

Aldo Rebelo: Eu acho, não é? Mas depende.

Juca Kfouri:  Não, boa vontade não, o senhor não leu o relatório?

Flávio Prado: Não, eu li, mas o problema é que existe uma má vontade natural.

Juca Kfouri: Não na Justiça.

Flávio Prado: Digamos, está bom, nem má vontade, nem boa vontade.

Alberto Helena Junior: Não se trata de boa ou má vontade, é a estrutura da Justiça. Como ela é feita, dificilmente pune quem tem grana, quem tem poder, essa coisa toda.

Flávio Prado: Bom, mas se nós admitirmos isso... Eu tenho grandes esperanças de ver prisões.

Alberto Helena Junior: Sim, mas não é a questão de...

Flávio Prado: Na cadeia sim.

Paulo Vinícius Coelho: Percentualmente, qual é a porcentagem que o senhor acha que tem de gente ir para a cadeia? E, seguindo o gancho da pergunta do Helena, como vai se controlar, daqui para frente, o caso das exportações de menores, por exemplo, dá para controlar? Tem muita gente no interior do Brasil que...

Aldo Rebelo: Dá, dá para controlar. Primeira coisa é o seguinte: eu acho que as provas que a CPI procurou juntar e que reuniu durante esse período são provas consistentes. Nós não ficamos perguntando na esquina, nós analisamos a movimentação financeira dessas entidades e dessas pessoas. Nós analisamos a evolução patrimonial, nós descobrimos propriedades que nunca tinham sido declaradas na Receita Federal. Nós associamos que essas propriedades foram adquiridas e comparamos com a movimentação financeira dessas pessoas. E todas essas informações estarão à disposição a partir da entrega do relatório ou do que vier a ser o relatório para o Ministério Público Federal e, portanto, ao poder judiciário. Eu acho que essa é uma parte da comissão. Outra parte, diante da desorganização, da anarquia, do descrédito, qual tipo de modelo propor para o esporte e para o futebol brasileiro? E aí, também, você não tem muita mágica, nem muita invenção, você tem um modelo do tipo cubano, herdeiro do antigo modelo soviético, que é o modelo estatal, o Estado é promotor, o Estado é gestor, o Estado toma conta do esporte. E você tem um modelo baseado no mercado, que será hipoteticamente o modelo norte-americano. Evidente que eu estaria louco se eu achasse que, dentro desse sistema que o Brasil vive, eu podia botar o modelo cubano. Mas também, dentro desses sistemas sem regras, é difícil adotar o modelo norte-americano baseado somente no mercado. Nós estudamos dois modelos.

Vital Battaglia: O que o senhor acha do modelo do Nabi Abi Chedid [(1932-2006) advogado e político pelo PFL. Figura  polêmica do futebol, sempre esteve ligados aos políticos conservadores. Foi diretor do Clube Atlético Bragantino, presidente da Federação Paulista de Futebol e vice-presidente da Confederação Brasileira de Futebol e da Confederação Sul-Americana de Futebol ], por exemplo?

Aldo Rebelo: Nós não estudamos esse modelo, em particular,

[risos]

Aldo Rebelo:  ...Mas nós observamos dois: o espanhol e o francês. Nos reunimos, pedimos toda a documentação, o Itamarati nos ajudou, então, tudo o que existia sobre a regulamentação, a legislação da França e da Espanha [nós pegamos] e nós chegamos a conclusão que ali havia um equilíbrio, está certo? De entrar na presença do Estado como provedor, fiscalizando, e o setor privado. E nós procuramos não copiar porque a nossa realidade é outra, a França e a Espanha são países uniformes, menores, com muito mais recursos do que o Brasil, de poder aquisitivo. Nós procuramos estabelecer um equilíbrio que dê ao Brasil um modelo, um código de esporte para que o Estado tenha uma parcela da responsabilidade, principalmente em promover o esporte. Nós não temos nem o esporte escolar, as nossa escolas não têm quadras de esporte. Às vezes, você vai no interior do país e você vê que as escolas não tem um espaço para a prática do esporte ao mesmo tempo que o prefeito constrói um ginásio para vinte mil pessoas em uma cidade de dez mil habitantes e fica lá, três funcionários da prefeitura tomando conta do ginásio, não há um jogo, enquanto as crianças passam dia e noite na escola sem ter espaço para... Então, o Estado esteve ausente do esporte quando havia intervenção estatal, havia regulamentação estatal, mas não havia promoção do esporte por parte do Estado. E acho que essa responsabilidade, dentro das nossas condições, a CPI procura, pela legislação que propõe, atribuir. O outro papel é o de fiscalizar. Ou seja, o Ministério Público, que tem como atribuição Constitucional a investigação de irregularidades ilícitas ou denúncias que envolvam recursos federais, esse conceito tem que ser ampliado para investigar aquilo que seja do interesse público. A gestão continua sendo privada, os senhores empresários, os competentes etc, a gestão do esporte. Agora, a promoção tem que ser em parte do poder público e a fiscalização tem que ser do poder público, quem vai fiscalizar...

[Sobreposição de vozes]

Roberto Avallone: No próximo bloco, qual é a porcentagem de dar cadeia em tudo isso.

Paulo Markun: Nós vamos chegar, no próximo bloco, nós vamos voltar com o deputado Aldo Rebelo.

[Intervalo]

Paulo Markun: Nós estamos de volta com o Roda Viva, esta noite entrevistando o deputado Federal Aldo Rebelo do PCdoB, Presidente da CPI CBF-Nike [...] ficou faltando, deputado, dizer, em termos percentuais, o que o senhor imagina... quantos por cento que o senhor acha que podem [ser presos]? Porque há uma quantidade imensa de telefonemas que nós recebemos das pessoas, achando que a CPI vai acabar em "pizza", como não indiciou o Eurico Miranda é um sinal de que nada vai ser feito. E muito a sensação, do telespectador, de que, na verdade, "tudo bem, o relatório vai apurar uma porção de coisas, mas isso para aí e não segue adiante". Muitas vezes, as pessoas ignoram que determinadas decisões não são da alçada da CPI.

Aldo Rebelo: Olha, Paulo, se eu fosse ser tomado desse espírito de pessimismo e de derrotismo, nós não tínhamos...

Paulo Markun: O senhor não seria palmeirense [risos] nem teria saído lá de Alagoas para vir e se aventurar aqui nesse meio do mundo, nem teria proposto essa CPI, é uma coisa, assim que, alguns até ridicularizavam...

Roberto Avallone: ...Aquele pau de arara lá.

Aldo Rebelo: É, eu acho que a CPI, em oito meses, produziu um resultado limitado. Mas o que ela mostrou da estrutura do futebol brasileiro já é o suficiente para que o Congresso, o poder público, o judiciário, a imprensa, tomem conhecimento de coisas que não se imaginavam. Nós tentamos, antes da CPI, buscar o Ministério Público, o Juca sabe o nome da procuradora do Rio de Janeiro. Eu fiz a representação, fui várias vezes ao Rio, não conseguimos, o Ministério Público não conseguiu abrir investigação na CBF. Tentei no Rio de Janeiro, tentei em Brasília e não consegui. A Receita não conseguia, o Banco Central não conseguia. A CPI pôs no relatório o que é a estrutura fundamental do futebol brasileiro. Levou grandes empresários a explicar como se faz o milagre da multiplicação, não dos pães, mas da fortuna, empresários que são mais ricos, que movimentam mais dinheiro do que grandes clubes como o Palmeiras e Corinthians juntos, empresários que formam jogadores dentro do Brasil, vendem por 15, 25 milhões de dólares...

Alberto Helena Junior: ...Por exemplo, tem alguma proposta que saiu dessa CPI para o futuro, para regulamentar?

Aldo Rebelo: Tem.

Alberto Helena Junior: Para controlar a ação desses empresários, porque esses empresários, eles não só tem um poder maior de que muitos grandes clubes, como eles têm um poder sobre a própria Seleção Brasileira.

Vital Battaglia: É o caso específico do Juan Figuer, que compra um jogador de dia por quatro milhões de dólares e vende a noite por oito milhões de dólares e tudo dentro da lei.

Juca Kfouri: Tudo dentro do Uruguai, não é.

Alberto Helena Junior: O que é que está...

Vital Battaglia: Tudo dentro da lei uruguaia.

Alberto Helena Junior: O que é que está previsto?

Aldo Rebelo: Dentro da lei não, o senhor Figuer também está indiciado. E ele vai responder por alguns ilícitos, inclusive a transferência de jogadores brasileiros que nunca nem conheceram o Uruguai, nunca passaram nem pelo aeroporto de Montevidel, e são jogadores juridicamente uruguaios. E o dinheiro que seria dinheiro, o câmbio, os impostos teriam que ser recolhidos no Brasil, esse dinheiro vai...

Alberto Helena Junior: Então, qual é a proposta para controlar isso?

Flávio Prado: Esse não é um caso que pode dar prisão, deputado?

Alberto Helena Junior:  Evasão de divisas, é o caso.

Aldo Rebelo: Tomara que todos os casos, meu prezado Flávio, dêem em prisão, está certo, ali...

Alberto Helena Junior: Isso é a Justiça que vai resolver.

Aldo Rebelo: O relatório não indiciou nenhum inocente não. Não houve nenhum caso de inocente que tenha sido indiciado. Agora, eu não posso responder pelo poder judiciário.

Alberto Helena Junior: Mas qual é a proposta da CPI para controlar a ação, para reduzir o poder dessa gente? Tem alguma proposta para o futuro?

Aldo Rebelo: Olha, em alguns casos, Alberto Helena, não havia nem a necessidade da lei. Em alguns casos, se a CBF fosse uma entidade, uma estrutura que cuidasse da preservação e da conservação do futebol brasileiro  e não  fosse como uma máquina de vender direitos de imagem da Seleção Brasileira; se fosse uma entidade que integrasse esse futebol, que é tão desequilibrado, tão desigual entre as regiões, entre os Clubes, que procurasse fazer com que os Clubes mais fortes se fortalecessem ainda mais e os fracos não desaparecessem, como está ocorrendo, a própria CBF poderia tomar essa...

Vital Battaglia: Deputado Aldo Rebelo.

[Sobreposição de vozes]

Paulo Markun: Só um minutinho, pela ordem Battaglia.

Roberto Avallone: Pelo contrário, pela ordem.

Vital Battaglia: Só dentro dessa, dentro dessa questão que ele está dizendo, Paulo.

Paulo Markun: Fala...

Vital Battaglia: Recentemente - eu acho que o Paulo estava até participando desse programa comigo pela Rádio Bandeirantes - o presidente Eduardo José Farah disse que o cargo da presidência da CBF custa 23 milhões de reais, bate mais ou menos com o que o senhor conseguiu levantar.

Aldo Rebelo: E em seguida disse que não precisava de CPI.

Vital Battaglia: É, esse é o modelo atual.

Aldo Rebelo: Talvez por isso, não precisasse de CPI, talvez por isso, a CPI fosse um estorvo.

Vital Battaglia: Esse empréstimo que foi feito à Federação mineira já seria o início de uma campanha ou não?

Aldo Rebelo: Eu não sei.

Vital Battaglia: O senhor não entende assim?

Aldo Rebelo: Eu não estou dizendo que não entendo, eu estou dizendo que o empréstimo foi... nós que descobrimos, inclusive, pela quebra do sigilo da Federação mineira, nós que descobrimos esse empréstimo. Eu sei que também se dizia por aí que, em uma das eleições da CBF, o voto da Federação do Acre custou mais caro do que o estado do Acre.

Vital Battaglia: Foi o modelo do Nabi Abi Chedid ao qual eu me referi a pouco.

Paulo Vinícius Coelho: Como o senhor qualifica as Federações, quer dizer, o senhor já disse que todas têm irregularidades, em especial três: a Federação Mineira, do presidente José Guilherme, a Federação do estado do Rio de Janeiro, do Eduardo Viana, e a Federação Paulista, do Eduardo Farah.

Aldo Rebelo: Eu acho que as Federações fugiram a sua vocação. As Federações, elas são a CBF. A CBF só existe porque as Federações reunidas resolveram se constituir em confederação. Agora, elas aceitam... A de São Paulo não, parece que tem uma esfera de autonomia para cada uma cuidar dos seus interesses. Mas as demais, que tem maioria na CBF, elas aceitam, como disse o próprio presidente Ricardo Teixeira, mesadas. Eu disse  [a eles], quando tomamos o depoimento de vários deles, que eles aceitam essas migalhas. Quando esse dinheiro é tomado em nome deles, quando o Ricardo Teixeira faz um acordo com a Nike ou com a Ambeve, está representando essas Federações. E eles aceitam vinte, trinta mil reais porque não agiam com seriedade, porque não apresentam...

Roberto Avallone: Deputado Aldo Rebelo, é para esse telespectador que está pessimista, não é? Entender o seguinte: entre os indiciamentos há coisas do seguinte tipo: o presidente da Federação, o senhor José Farah, deve ser imputado o crime previsto no inciso tal, não sei o quê, da lei tal, por quanto afirmou frente a CPI que não recebia remuneração da Federação. Não obstante, em 1996, recebeu 164 mil  reais e em 1998, 194.556 reais. Ou seja, imaginar-se aqui.

Alberto Helena Junior: Perjúrio.

Juca Kfouri: Sim, não saia... Então fecha a porta do país e vamos embora, não é? E o último que sair nem precisa apagar a luz do aeroporto que já vai estar apagada, não é isso?

Aldo Rebelo: Eu acho também, que as pessoas, me permita, meu caro Juca, não querem também transformar a CPI, ao mesmo tempo, em legislativo, executivo e judiciário.

Juca Kfouri: Claro!

Aldo Rebelo: Não pode, esse trabalho não foi feito, de por no papel com provas materiais, no caso dos cheques, na audiência que é feita em São Paulo, o deputado Jurandir Juarez estava com a cópia de todos os cheques, com todas as provas. Ou seja, é mais do que o suficiente o que está apontado o relatório em todos os 33 casos de indiciamento. Ou seja, nós só fizemos o encaminhamento e o pedido quando as provas materiais estavam caracterizadas com todos os requisitos.

Juca Kfouri: Qual foi o papel do Conselho Federal de Contabilidade, nesse relatório? Eu acho que é importante esclarecer isso, quer dizer, o que é o Conselho Federal de Contabilidade?

Aldo Rebelo: Foi um papel fundamental.

Juca Kfouri: O que é esse Conselho?

Aldo Rebelo: São conselhos profissionais reconhecidos pela Constituição por lei federal e que inscrevem os seus profissionais para o exercício da atividade profissional, assim como o Conselho de Engenharia, de Medicina. Nós, inclusive, não conhecíamos ninguém, mas resolvemos procurar, eles determinaram que dois técnicos colaborassem com a CPI sem remuneração, não cobraram nada, a não ser a passagem de ida e volta a Brasília e a hospedagem e mais nada, nem ajuda de custo e nem coisa nenhuma. E eles fizeram um trabalho insubstituível. Porque na CPI, nós não somos contadores, nós não somos auditores, um é jornalista, o outro é médico, o outro é sei lá o quê, empresário ou comerciante. E eles fizeram, na CPI, naquela auditoria, naquela diligência que nós realizamos eles passaram lá um tempo longo examinando e comparando as informações contábeis com as notas. Ou seja, informações contábeis são basicamente números mais as notas correspondentes, a escrituração do que tinha e foi aí que eles descobriram todas aquelas irregularidades, algumas das quais, inclusive, apresentadas durante o depoimento do senhor Ricardo Teixeira. E foi um trabalho do Conselho Federal de Contabilidade que permitiu a apresentação de provas mais contundentes por parte da CPI e que faz com que, inclusive, a CPI eu sugeri que no Conselho das Confederações tenha lugar permanente o representante instruído e com mandato não renovável, pelo Conselho Federal de Contabilidade.

Roberto Avallone: Deputado, a gente está falando tanto em percentagem, em percentual de dar cadeia, de não dar cadeia, é para que a impunidade não siga adiante, e eu estou mais otimista que o Flávio Prado, então, vamos para o futuro, como propôs o Marcelo. De uma certa maneira, já lhe foi perguntado isso, o relator Silvio Torres, primeiro, não está mesmo distante das suas idéias? É a primeira pergunta.

Aldo Rebelo: Não.

Roberto Avallone: Não mesmo?

Aldo Rebelo: Não.

Roberto Avallone: Eu sinto no seu olhar, deputado, que há alguma coisa estranha. Que o senhor não diz, que o senhor não tem a mesma postura [Aldo Rebelo mostra um sorriso e a câmera se aproxima do entrevistado]. Pelo senhor... eu acho que o senhor queria acabar com o jogo e nós estamos dominando, dominando, dominando, dominando e falta a explosão do gol. Hoje, o relator Silvio Torres tem essa explosão do gol, tem esse “push” que o senhor quer ter, eu sinto isso no teu olhar?

Aldo Rebelo: Olha, Avallone, eu assino aquele relatório, que o deputado Silvio Torres assinou, deu 840 páginas, sem retirar uma vírgula e sem acrescentar uma vírgula. Assino e sustento o relatório até a decisão final da CPI. E vou acompanhar porque agora o papel é mais do relator, do Deputado Silvio Torres, a orientação que ele adotar, na votação, pode ter certeza que vai ser uma orientação comum com o presidente.

Roberto Avallone: E segunda pergunta, a pergunta, depois eu passo a bola para o Marcelo que está levantando a mão. Segunda, a CPI do Senado já indiciou o deputado federal Eurico Miranda, que aliás, deputado do Vasco, Eurico Miranda?

Aldo Rebelo: Não, porque ele, inclusive, não foi ouvido ainda na CPI do Senado, acho que ele foi convocado, mas até agora não foi ouvido e acho que, não sei quando, mas vários funcionários do Vasco já foram ouvidos, e creio que quando o deputado Eurico Miranda for ouvido na CPI do Senado, que ainda não foi, eu creio que aí o Senado adotará uma posição em relação ao deputado Eurico Miranda.

Roberto Avallone: E terceira e última pergunta, para passar a bola.

Paulo Markun: Ainda bem, você está, você está... A bola está dura de passar.

Roberto Avallone: Segura um pouquinho. Terceira, a CPI do Senado vai ajudar a CPI da Câmara Federal? Vai driblar as limitações que o senhor encontra agora?

Aldo Rebelo: Tem ajudado porque informalmente, tem havido uma distribuição de atribuições. Nós investigamos mais a CBF, as Federações e alguns empresários de futebol. E a CPI do Senado tem se dedicado mais a investigar empresários e dirigentes de clubes que a CPI da Câmara investigou muito pouco. Eu acho que isso... Por exemplo, passamos várias informações das Federações, daquilo que nós investigamos com a CPI do Senado, nós ouvimos primeiro o presidente da Federação Mineira, depois o Senado ouviu, nós passamos as informações, e acho que essa colaboração tem sido importante.

Paulo Markun: Marcelo.

Marcelo Damato: Então, o senhor, além dessa indicação de um representante do Conselho Federal de Contabilidade, no Conselho de Administração da CBF, que medidas, como o Alberto Helena já tinha perguntado, a CPI está tomando para que daqui a dez anos não haja uma nova mesa redonda, com um novo presidente da CPI do futebol e que tudo continue como está, que se troque o Teixeira e o Farah por outros, mas que tudo continue mais ou menos na mesma?

Aldo Rebelo: olha, eu apontaria duas medidas. Eu acho que uma, que seja proibida a eternização do poder de dirigentes e de grupos, às vezes, até oligarquias se constituem a sombra das entidades e das organizações esportivas. E a outra medida que eu acho que seria a mais importante e de destinação mais duradoura, mais profunda, é que o Ministério Público passe a ter poder de investigação sobre as entidades de esporte. Eu acho que se o Ministério Público passar a ter esse poder, se estender na lei a atribuição ao Ministério Público para promover essa fiscalização, eu acho que essa medida teria um poder saneador inestimável.

Roberto Avallone: Eu só queria...

[Sobreposiçào de vozes]

Paulo Markun: Por favor, por favor.

Alberto Helena Junior: A Justiça desportiva, como ela seria?

Aldo Rebelo: Teria autonomia financeira, teria um sistema de indicação que está lá apontado, que permitisse uma democratização maior, que tirasse o controle quase que direto da CBF ou das Federações sobre a Justiça desportiva e aqueles que examinaram, os juristas, acharam também  - aliás, eles que propuseram esse tipo de medida. E outra, são procedimentos que não precisa nem de lei, se o gooverno federal orientar a Polícia Federal a fazer um cadastro de todo o menor que saia do Brasil desacompanhado dos pais ou da mãe, do pai ou da mãe, eu acho que se esse cadastro for feito, você vai ter, em alguns meses, um mapa de todos aqueles que levam menores do Brasil para o exterior.

Flávio Prado: Deputado, quanto custou a CPI ao país, e quanto o senhor esteve contra, em termos de dinheiro, para aqueles acusados, aqueles que a gente sabe que compõe a banda podre do nosso esporte, quanto eles investiram, mais ou menos, para se defender. Ou seja, eu quero que o senhor nos dê o percentual de desigualdade, que me parece que a defesa custou muito caro, muito dinheiro, foi uma briga igual, em termos financeiros?

Aldo Rebelo: Não foi, não foi, porque em primeiro lugar, nenhum deputado foi remunerado a nenhum centavo a mais pelo trabalho na CPI. Nenhum servidor, todos aqueles, advogados, por exemplo, auditores da Comissão de Orçamento e de outras que se dedicaram a examinar aquele documentos, nenhum recebeu a mais para realizar esse rabalho, ou seja, todo esse exame das matérias que foram apreciadas, nenhum servidor recebeu a mais por isso. Agora, eu sei que alguns dos que compareceram para prestar depoimento, pelos advogados que levaram, naturalmente gastaram fortunas...

Paulo Markun: Deputado, só...

Aldo Rebelo: Se comenta o preço daqueles advogados e você sabe, mais ou menos, em vários casos o que foi gasto, além, naturalmente, de outras mobilizações que foram feitas, desde o começo da CPI, não apenas para impedir a sua criação, mas também o seu funcionamento.

Paulo Markun: O Alfeu Dederson Junior, daqui de São Paulo Capital, queria saber o seguinte: a Sessão da Câmara da CPI vai ser transmitida pela TV Câmara, essa que vai votar o relatório.

Aldo Rebelo: Imagino, nós não temos o poder de decidir o que a TV Câmara transmite ou não.

Juca Kfouri: Aliás, a TV Câmara não transmite ao vivo, coisas importantes da CPI da Nike CBF.

Roberto Avallone: A TV aberta nem pensar, não é?

Aldo Rebelo: Mas amanhã, ou seja, a partir das 14:30hs, nós iniciamos o processo de discussão, e seja qual for o desfecho, até quarta-feira, nós teremos concluído o nosso trabalho.

Paulo Markun: Fica a sugestão, mais uma pergunta dele, que eu acho que é pertinente, a votação do relatório, está definida se vai ser aberta ou secreta?

Aldo Rebelo: Aberta.

Paulo Markun: Aberta?

Aldo Rebelo: Aberta, isso não tem...

Juca Kfouri: No painel de votação ou é em papelzinho?

Aldo Rebelo: Não, essa votação é ao vivo e a cores.

Paulo Markun: Ao vivo e a cores na...

Aldo Rebelo: Com o Deputado manifestando com a própria voz?

Alberto Helena Junior: Mas isso não faz diferença.

Vital Battaglia: Pela televisão.

Juca Kfouri: Só um pouquinho, senhor Battaglia, que eu acho que era importante também registrar que a CPI da CBF -Nike, por exemplo, descobriu e comprovou que a CBF dá dinheiro para a Associação dos Colunistas Esportivos do Brasil.

Paulo Markun: Pergunta de Alexandre Francisco.

Juca Kfouri: ...A exemplo do que acontece em São Paulo.

Paulo Markun: Então, só para registrar.

Juca Kfouri: ...Onde a Federação Paulista dá dinheiro para a Associação dos Colunistas Esportivos de São Paulo.

Paulo Markun: Alexandre Francisco, que é advogado de Santo André, São Paulo pergunta: “qual é a parcela de culpa da mídia e da imprensa na corrupção do futebol?” E o Luiz Carlos Rotenberg, do Rio de Janeiro, professor universitário: “não estaria a mídia esportiva, em grande parte, viciada pelas relações de clientelismo que mantém com os cartolas acusados ao não verem a possibilidade deles serem condenados?”.

Vital Battaglia: Markun, só para completar a sua pergunta. E por que a CPI, ingenuamente, manda quebrar o sigilo bancário das Federações, dos contratos que faz com a televisão e não o sigilo bancário das televisões que levam os cheques para as Federações?

Aldo Rebelo: Nós examinamos todos esses contratos e recebemos e tal. E o que tinha de fundamental ali era o contrato de duas ou três Federações: a de São Paulo, a de Minas e a do Rio; e no caso, a da CBF. Ou seja, esses contratos eram fundamentais. E as informações que nós consideramos importante, nós encontramos todas, todas, inclusive, contratos muito interessantes, realizados com a Federação do Paraná, uma parte do dinheiro se transformando em depósito e aplicações em ouro, qual é a outra pergunta mesmo?

Paulo Markun: A pergunta é qual é a parcela de culpa da mídia e da imprensa na corrupção do futebol?

Aldo Rebelo: Eu acho que a imprensa esportiva, eu não quero fazer um julgamento. Eu acompanho e sou um leitor atento e assíduo da imprensa esportiva no Brasil, compreendo as limitações para investigar, mas acho que em alguns episódios, sinceramente, a imprensa esportiva poderia ter investigado com mais profundidade. Eu falo da  [imprensa] do Rio, de São Paulo e não falo nem dos pequenos estados porque aí é uma situação desesperadora. Muitas vezes, o jornalista nem tem condições de receber a remuneração de vida do órgão no qual trabalha, daí tem que fazer ali, uma assessoria para o público, para a Federação, o que naturalmente prejudica a função de investigação que a imprensa deve ter nesses casos.

Paulo Markun: Para finalizar deputado, o nosso tempo está acabando.

Alberto Helena Junior: Me permita só um...

Paulo Markun: Pois não.

Alberto Helena Junior: Eu acho que, nesse caso, o deputado está sendo muito injusto. Porque aqui, nessa mesa, nós temos um representante clássico jornalista que é o Juca Kfouri e que seguramente é o ponta de lança de tudo isso que aconteceu. Se não fosse as investigações, se não fosse as denúncias feitas pelo Juca Kfouri, não haveria CPI.

Aldo Rebelo: Certamente, Alberto, não apenas o Juca.

Vital Battaglia: E eu acrescento mais.

Aldo Rebelo: Mas eu não falei dos casos óbvios.

Vital Battaglia: Eu falo mais.

Aldo Rebelo: Espere aí, Vital, só um minuto, eu não falei dos casos óbvios.

Vital Battaglia: Na incompetência dos deputados em apurarem as questões. Eu li tanta mentira dentro dos relatórios que passou batido pelos deputados porque estavam ali querendo saber apenas se o Ronaldinho tinha perdido o gol, podia fazer de bicicleta ou de meia pochete.

Aldo Rebelo: Não, você está sendo desesperado e está sendo injusto, está certo? Eu não falei das exceções, não falei das exceções porque elas são públicas e conhecidas, não precisa falar nem do papel que o Juca Kfouri teve, que o senhor teve em determinados casos ou o Alberto Helena e todos os outros, não estou falando desses casos.

Vital Battaglia: Não, não é uma referência específica, deputado.

Aldo Rebelo: Eu estou falando, espere aí, calma, é uma referência específica, sim senhor, deixa eu lhe dizer. O que eu estou falando é que, além das exceções e das personalidades conhecidas que ajudaram, inclusive a produzir essa CPI e esse relatório por terem acompanhado desde esse momento, eu estou falando, naturalmente, das omissões de uma parcela que é a maioria da imprensa esportiva, está certo? Já que no transcorrer dessa... são cem anos de futebol brasileiro, está certo? E acho que pelo que eu vi é que há, em certos casos e principalmente nos estados menores, uma proximidade muito grande entre a imprensa e as entidades que organizam o futebol.

Flávio Prado: Precisava fazer um Cartão verde lá, não é? Até foi citado que o cartão verde era um referencial disso quando nós estávamos lá depondo.

Aldo Rebelo: E acho, inclusive por que a CBS iria dar dinheiro para a Associação dos Colunistas Esportivos Brasileiros, está certo? Deu ou não deu esse dinheiro? E a Federação Paulista deu para a Associação dos Colunistas aqui de São Paulo.

Paulo Markun: Muito obrigado pela sua entrevista, deputado. O nosso tempo acabou, eu espero que o relatório seja aprovado. Mais do que isso, espero que providências sejam tomadas no âmbito da Justiça para que os que forem investigados e, efetivamente, caracterizados a sua culpa sejam punidos. Porque essa é a tônica das críticas e das observações dos telespectadores. Obrigado aos nossos entrevistadores, a você que está em casa, e nós voltamos na próxima segunda-feira às dez e meia da noite, uma ótima semana e até lá.

 

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