Memória Roda Viva

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Carlos Arthur Nuzman

14/4/2003

O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro diz que o estímulo ao esporte de base é fundamental e que, além do investimento estatal, é preciso contar com o patrocínio da iniciativa privada

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[Programa ao vivo com perguntas de telespectadores]

Paulo Markun: Boa noite. O nosso convidado de hoje prometeu tornar o Brasil uma potência olímpica. Se a promessa tem chance de ser cumprida, nós vamos saber daqui a pouco. Mas o brasileiro já aprendeu a admirar os "meninos e meninas" do vôlei, sabe de cor o nome dos campeões da natação e do judô e vê, a cada dia ,crescer o número de atletas olímpicos e de ginastas olímpicos. Por tudo isso, depois de 36 anos, há outro brasileiro, além de João Havelange, no Comitê Olímpico Internacional. É o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, o entrevistado desta noite nesta Roda Viva.

[Comentarista Valéria Grillo]: Carlos Arthur Nuzman nasceu no Rio de Janeiro em 1942. É advogado, jogou voleibol por mais de 15 anos. Com a Seleção Brasileira, disputou os Jogos Olímpicos de Tóquio em 64. Abandonou as quadras, mas continuou no vôlei. Foi presidente da Confederação Brasileira de 1975 a 1995. Em 20 anos transformou o Brasil de um simples competidor em uma potência temida. Mais do que isso, a gestão de Nuzman marcou o início da profissionalização desse e de outros esportes no país. Em 95 deixou o vôlei e assumiu a presidência do Comitê Olímpico Brasileiro. Nos jogos de Atlanta, no ano seguinte, conduziu o Brasil ao melhor resultado de sua história olímpica com 15 medalhas, sendo três de ouro. Em Sidney, quatro  anos depois, o desempenho discreto dos atletas brasileiros lhe rendeu críticas severas. De acordo com elas, o planejamento inadequado e um certo triunfalismo explicariam as escassas 12 medalhas conquistadas, nenhuma delas de ouro. Articulador hábil, Nuzman é membro do Comitê Olímpico Internacional, também pertence à executiva da Organização Desportiva Panamericana, a Odepa, e é presidente da Organização Desportiva Sulamericana. O trabalho de Nuzman nos bastidores foi recompensado com a escolha do Rio como sede dos Jogos Panamericanos de 2007. O próximo desafio é preparar a candidatura de uma cidade brasileira à sede da Olimpíada de 2012. Rio e São Paulo disputam a indicação. Enquanto isso, Nuzman, um empreendedor nato, costura alianças, sela acordos, transita com desenvoltura pelos corredores do poder. Elogiado e criticado com a mesma intensidade, Nuzman não é do tipo de dirigente do qual se fala com indiferença, ele mesmo não gostaria disso. 
Paulo Markun: Para entrevistar o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Nuzman, nós convidamos: Flávio Prado, apresentador do programa Cartão Verde, aqui da TV Cultura, e comentarista esportivo da rádio Jovem Pan. Marcelo Damato, editor do jornal Lance. Denise Mirás, sub-editora de esportes do Jornal da Tarde. Álvaro José, comentarista e narrador esportivo da Rede Bandeirantes. Aurélio Miguel, campeão olímpico e coordenador de judô do São Paulo Futebol Clube e Magic Paula, diretora do Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa Marechal Mário Ary Pires. Boa noite, Nuzman.
Carlos Nuzman: Boa noite.
Paulo Markun: No dia 7 de julho haverá a decisão sobre qual cidade brasileira vai pleitear uma vaga de sede da Olimpíada. Eu não vou perguntar qual é o seu voto, porque já sei que...
Carlos Nuzman: Que eu não voto.
Paulo Markun: Você não vota e, se votasse, não diria. Mas o que eu queria saber é o seguinte: vale a pena existir essa disputa interna, isso não enfraquece a candidatura brasileira?
Carlos Nuzman: Não, é o contrário. Nós já tivemos algumas experiências unitárias com resultado não proveitoso, valeram como experiência. Hoje as duas cidades que são candidatas, São Paulo e Rio de Janeiro, transformaram a cultura olímpica, não só nessas cidades, mas no Brasil inteiro em um grande trabalho, um trabalho, diria, até majestoso, em busca do melhor aperfeiçoamento do dossiê das duas candidaturas. Talvez se tivéssemos uma só, não tivesse esse apuro, essa luta e essa busca. Nós assistimos hoje à entrega dos dossiês, tanto pela prefeita Marta Suplicy [São Paulo] como o prefeito César Maia [Rio de Janeiro], e os dossiês seguem as recomendações do Comitê Olímpico Internacional na sua forma e na sua estrutura. Por isso eu acho que é o momento, hoje é um dia histórico em que o Brasil ganha uma maioridade internacional da demonstração de São Paulo e Rio de Janeiro.
Paulo Markun: Agora, eu queria fazer uma outra pergunta que pode parecer um despautério, mas me passa pela cabeça. Qual é a vantagem de um país ter uma cidade sediando a Olimpíada? 
Carlos Nuzman: Eu poderia lhe responder com alguns exemplos do sucesso das cidades e dos próprios países. Se nós pegarmos pós [Olimpíadas de] Los Angeles, que é uma nova era em organização de jogos olímpicos, nós temos em 88 Seul que deu uma transformação na Coréia; nós tivemos Barcelona que transformou a Espanha, depois Atlanta já em outra dimensão. Tivemos em seguida Sidney que transformou tanto a cidade como a Austrália, e agora estamos assistindo Atenas se transformar e transformando a Grécia. Todas elas têm um legado econômico fantástico. Pequim hoje tem um número de indústrias que estão abrindo na China, não é só em Pequim, um número que ela nunca poderia imaginar. A transformação, o benefício para o país é muito grande. Eu diria que se nós colocarmos de lado a área esportiva e nós formos para a área econômica, industrial, geração de empregos, eu não tenho a menor dúvida de que nós estaremos assistindo um crescimento, em pouco tempo, de que o Brasil precisaria de décadas. 
Flávio Prado: Nuzman, o esporte brasileiro não está carecendo de fortalecer mais a célula básica, que é o clube, antes de sonhar tão alto com uma Olimpíada?
Carlos Nuzman: Flávio, veja só. Há uma questão importante a ser discutida entre o clube e a escola. Eu venho da escola, não venho do clube. Eu comecei a jogar e fui à Seleção Brasileira dentro de um colégio. Acho que nós temos que melhorar as instalações esportivas e termos instalações em colégios, coisa que nós hoje deixamos de ter. O clube, por sua vez, tem que definir o que quer. Nós não podemos imaginar hoje um clube fazendo cinco, oito, dez esportes; ele não tem dinheiro e nem há dinheiro no mercado. Eu entendo que um clube para poder ser e voltar a ser essa célula, ele deve fazer no mínimo ou no máximo um esporte coletivo e um a dois esportes individuais. Não há mais dinheiro para isso. Se ele se concentrar nisso e conseguir compor com os seus associados, esse clube vai produzir atletas e vai poder entrar. Mas hoje o que acontece? Cada célula de uma modalidade esportiva é uma célula eleitoral dentro do clube. Se você deixa de fazer, por exemplo, judô em um clube, os adeptos do judô estarão contra aquele candidato da situação porque ele está lá, e assim sucessivamente. Se você for fazer um levantamento, principalmente nos clubes de futebol, o número de esportes que eles têm, e você for fazer a matemática, não fecha. Então eu defendo que o clube continue. Eu acho que o clube é muito importante, que o clube pode ter programas para isso, mas não do jeito que ele hoje está. Eu digo isso há muito tempo, eu fui a um Congresso Brasileiro de Clubes no Pinheiros, tem uns cinco anos, e eu disse isso, e disse dentro de um dos maiores clubes do Brasil. Eu acho que o Pinheiros junto com o Minas Tênis Clube, mais um pouquinho abaixo, a Sogipa [Sociedade de Ginástica Porto Alegre] de Porto Alegre, são os maiores clubes em termos de esportes, sem ser o futebol. E eles têm um conflito com o associado, e eles têm um conflito com o número das suas instalações que precisam disso. Então eu acho que é uma questão que tem que ser debatida melhor para nós definirmos como ele deve se conduzir no processo.
Magic Paula: Nuzman.
Carlos Nuzman: Diga.
Magic Paula: Foi muito bem respondida a sua pergunta, porque o que a gente vê hoje nos clubes que investem no esporte, existe uma briga interna entre o associado e quem pratica o esporte, porque eles querem a quadra, os associados querem a quadra, ou querem o campo, ou querem o tatame para utilizar e muitas vezes você não pode fazer um treinamento adequado. Então a minha pergunta é a seguinte: já não está na hora de o Brasil começar a criar alguns centros esportivos específicos para as suas modalidades, para que a gente tire um pouco dessa responsabilidade de só o clube fazer atletas, porque nós vivemos em um país totalmente clubístico, não é?
Carlos Nuzman: Você tem toda razão no que você diz. Eu acho que além do clube, se nós pudermos ter centros de treinamentos, centros olímpicos como o de São Paulo, que você herdou em uma miséria e que o está levantando, é um dos caminhos. É difícil ter no Brasil inteiro, mas poderia ter por regiões. E poderia com isso se desenvolver e também é uma oportunidade da criança que não pode ser sócia de um clube, o pai não pode pagar a mensalidade ou não pode pagar a escolinha de um clube, ele poder freqüentar um centro olímpico, ou um centro de treinamento, ou uma vila esportiva que seja, não importa o nome, mas que ele possa ter essa atividade. Acho que essa é uma preocupação que nós temos. O número de quadras construídas no Brasil através de emendas parlamentares, é um número muito grande. Eu não quero dizer que não deva ter, eu acho que na política tudo é possível, só que as cidades deveriam ter essa preocupação em poder ter uma vila. Se ela é municipal, se ela é estadual não importa. Mas ela deveria ter para dar a sua comunidade, principalmente carente, uma oportunidade, senão nós vamos somente trabalhar dentro de uma imagem daquele que tem dinheiro, e aquele que não tem não pode freqüentar.
Magic Paula: Faz quadra para fazer baile também, não é?
Carlos Nuzman: Faz, tem outros que fazem quadras para baile, é verdade.
Aurélio Miguel: Nuzman, aproveitando que o Flávio falou da célula, que seriam os clubes, você foi um dos grandes articuladores para a aprovação da Lei Agnelo Piva que, sem dúvida alguma, está ajudando muito o esporte de alto rendimento. Você não acha que está na hora de você ser o porta bandeira para nós conseguirmos uma lei de incentivo ao esporte, inclusive na medida provisória foi tirada, para que a gente realmente conseguisse a redenção do esporte e os clubes pudessem investir nas modalidades?
Carlos Nuzman: Aurélio Miguel, vou lhe agradecer...
Paulo Markun: Nuzman, deixa eu só explicar para o telespectador, porque imagino que os aficcionados do esporte, com certeza, sabem o que é a Lei Agnelo Piva...
Carlos Nuzman: É verdade.
Paulo Markun: Mas vai ter gente que vai empacar nessa história que é a lei que estabelece um percentual do valor das loterias diretamente para o esporte, 85% do valor arrecadado...
Carlos Nuzman: Para o esporte olímpico...
Paulo Markun: Para o esporte olímpico e 15% para o paraolímpico.
Carlos Nuzman: Exatamente. Aurélio, eu acho que a sua pergunta - eu lhe agradeço - como todas é tão importante, por um detalhe simples. Não vamos ter na idéia que a lei de incentivo seja somente para o alto nível. Eu acho que a lei de incentivo deve ter um elenco de oportunidades para inserção social, a inclusão social, para centros, como a Paula falou, de comunidades carentes que possam facilitar isso. E em relação aos clubes, eu acho que poderia ter desde que se tivesse uma regra estabelecida dentro, não do que estou dizendo, [mas] do que fosse mais factível. Você hoje é dirigente do São Paulo Futebol Clube, então você convive dentro de um clube, você convive com as facilidades e com as dificuldades. Mas se o clube pudesse, seja de futebol ou não, mas que ele definisse o que ele pode oferecer, um esporte coletivo ou nenhum coletivo e dois individuais, no máximo. Aí é que estaria dentro de uma possibilidade de beneficiar. Porque, além disso, você não pode esquecer que o alto nível também deve ter, os atletas devem ter, os institutos que hoje têm, que divulgam e fazem o esporte, têm muitos. Tem o do Raí, tem o do Zequinha e tantos outros, como tem do Leonardo, do Dunga que fazem um trabalho comunitário. Então eu acho que esse incentivo fiscal, e eu estou à disposição para trabalhar, mas nós deveremos ter essa consciência do que a gente vai pedir, para também que não tenha um mundo grande. E não pode deixar de não ter a fiscalização. Eu queria dizer que - eu que já passei por algumas experiências em termos de prestação de contas de convênios - eu prefiro a fiscalização do Tribunal de Contas da União. É mais dura, é mais exigente, é mais precisa e é mais imediata. Eu sou obrigado a ter e me julgam. Então o tempo que eu tenho é muito curto; se eu estiver equivocado ou precisar melhorar, eu vou melhorar. Muitas vezes a prestação de contas leva mais tempo. Então eu defendo que, se tiver incentivo fiscal, que haja o estilo de fiscalização que tem na Lei Agnelo Piva que, de três em três meses, é fiscalizado e, no final do exercício, tem o julgamento.
Aurélio Miguel: Fazendo aqui só um adendo...
Carlos Nuzman: Além de - perdão - além da auditoria externa que nós também somos obrigados a apresentar as contas.
Aurélio Miguel: Então a Lei Agnelo Piva vem com um percentual das loterias. Eu queria que o senhor falasse um pouquinho em relação à Itália, porque a loteria me parece que vai toda para o Comitê Olímpico, é isso?
Carlos Nuzman: É, tem alguns comitês olímpicos que dirigem o esporte no país, o da Itália até pouco tempo arrecadava 650 milhões de dólares ano. O Comitê Olímpico da Itália administrava o total de tudo: distribuía a parte do futebol, a parte do esporte olímpico e a parte das administrações das entidades. Tem outros como o Comitê Olímpico dos Estados Unidos que tem uma verba quadrienal em torno de 480, 500 milhões de dólares; a Austrália trabalhou para a Olimpíada de Sidney com uma média de 100 milhões de dólares ano, ou seja, 400 milhões de dólares. Cada um destes têm dinheiro do governo e também de sorteios, seja de loteria, de lotos e incentivos fiscais. Eu gostaria até de esclarecer que o que nós recebemos da Lei Agnelo Piva, previsão deste ano, em torno de 42 milhões de reais, representam nos dias de hoje em torno de 13 a 14 milhões de dólares. Mas, com isso, nós já melhoramos muita coisa dentro do esporte; é apenas para dar uma dimensão e não achar que nós recebemos muito. Mas realmente o que você está dizendo é uma colocação importante, porque esses comitês olímpicos que recebem essas verbas preparam também instalações esportivas. Essas instalações são centros de treinamento que muitas vezes a gente vê, você foi a muitos centros de treinamento, tanto na Europa, como na Ásia, para treinamento. A mesma coisa, a Paula esteve, e isso é um dos temas importantes que nós temos.  
Álvaro José: Nuzman, é o seguinte. Você conseguiu um grande tento com o Rio 2007, o Rio acabou batendo San Antonio no Texas, o Texas que teve o seu segundo Álamo em função disso, porque o Álamo fica justamente na cidade de San Antonio, e Texas que é justamente o estado do presidente americano George Bush [referência ao nome do forte e da batalha de Álamo (entre México e EUA) na cidade de San Antonio que fica no Texas]. O que eu queria perguntar para você é o seguinte: São Paulo e Rio de Janeiro vão entrar nessa candidatura dia 7 de julho contra potências como Madri, Nova Iorque, Moscou, que estão postulando a candidatura olímpica. Até aí tudo bem. Só que há sempre aqueles parênteses, ou seja, a candidatura de São Paulo vai ser julgada por conselheiros do Rio de Janeiro que são os conselheiros do COB [Comitê Olímpico Brasileiro]. Como é que você vê isso?
Carlos Nuzman: Não, na verdade vai ser julgado, e eu posso lhe dar em números, para não termos dúvidas. São 37 votos, menos o meu, porque eu não vou votar, seriam 36, menos o presidente Havelange, 35. E dentro dos 35 são 29 confederações e 6 membros do COB. Das confederações, os presidentes são 13 do Rio, 9 de São Paulo e 7 fora das duas cidades. Então não existe um absolutismo tão grande e, além disso, veja bem, o julgamento, eu até hoje, quando eu estava, durante a cerimônia de São Paulo, e eu estava analisando e vendo a apresentação que, aliás, foi muito bonita como a do Rio, eu pensava o seguinte: imagine se não tivesse um dossiê de candidatura.
Álvaro José: Lembrando que eu posso fazer essa pergunta, porque eu nasci no Rio e fui criado em São Paulo, então essa vantagem eu tenho, estou neutro também. [risos]
Carlos Nuzman: Então analise se não tivesse o dossiê da candidatura, dossiê este que é baseado no próprio dossiê do Comitê Olímpico Internacional... Lógico, tem algumas tolerâncias que são naturais. Nós não vamos exigir os 100%, mas o percentual de cumprimento de obrigações é enorme. Se nós não tivéssemos isso e fosse julgar pelas cidades ou pelo que cada um pudesse fazer [em termos de] publicidade, uma campanha publicitária, aí seria uma coisa completamente diferente. Hoje você julga por um dossiê.
Álvaro José: Claro, claro.
Carlos Nuzman: Você julga com elementos que tem, e são esses elementos que vão ser julgados. Eu dou sempre o exemplo do que aconteceu em 2008. Osaka, nas cinco finalistas, foi quinto, sendo quarto Istambul. Não temos nada contra as anteriores, agora Osaka faz uma Olimpíada a cada quatro anos sem nenhum problema, e os demais não fazem.
Álvaro José: Com certeza.
Carlos Nuzman: Por quê? Porque o dossiê não estava completo, o dossiê faltava. Então vamos dizer “todos estiveram contra o Japão”? Não, ninguém era contra o Japão. Eram favoráveis a Pequim? Não, ninguém era favorável a Pequim, foram favoráveis às circunstâncias. Eu não vou aqui explicar porque Pequim ganhou já na segunda volta com a maioria absoluta...
Álvaro José: Não, aí eu gostaria que você explicasse como Salt Lake City ganhou a sede da Olimpíada de Inverno, Pequim não.
Carlos Nuzman: Porque eu não era membro, eu não estava lá. Eu nem vou explicar porque Paris ficou em terceiro com um belíssimo dossiê. Então essas coisas eu não tenho, então hoje se nós temos isso, vamos ter uma comissão de avaliação que vai avaliar e ela não recomenda que se deve votar em A ou em B, ela vai colocar apenas abertamente o que cada um tem. É uma experiência totalmente nova, acho que é uma experiência de maioridade para o esporte brasileiro, e uma experiência importante para o próprio futuro do esporte brasileiro em termos de integração. Eu não sei se no mundo teria duas cidades que tivessem tantas características importantes.
Álvaro José: E diferentes...
Carlos Nuzman: Diferentes e que as duas lutam, podem todas as duas sediar os Jogos Olímpicos, na minha opinião.
Álvaro José: Mesmo porque, Nuzman, nós estamos entrando, pela primeira vez na história olímpica, o Brasil está entrando em um grande ciclo olímpico. Ou seja, temos os Jogos Panamericanos em 2003, a Olimpíada de Atenas em 2004, os campeonatos mundiais em 2005, a Olimpíada de Inverno em 2006, que nós já mandamos delegação, também os jogos da sua entidade, da qual você preside, os Jogos Sul-Americanos que foram um sucesso este ano em São Paulo, temos o Rio 2007 e Pequim em 2008. Quer dizer, são cinco anos de esportes olímpicos de alto nível. Como é que o COB está se capacitando para fazer realmente uma boa performance aí nessas provas?
Carlos Nuzman: Bom, hoje nós temos a Lei Agnelo Piva que é realmente uma grande redenção. Nós estamos na luta por patrocinadores e esperamos que o governo também possa ajudar as confederações quando puder. Enquanto não puder, nós vamos procurar administrar. Eu acho que todos devem ser parceiros. Nós temos um governo que está com uma apresentação de melhoria do país enorme, e nós temos que apoiar o presidente Lula nisso. Temos um ministro de Esportes que foi o co-autor da lei e que tem uma visão de esporte muito grande, não é de hoje, ele tem uma história já passada dentro disso. Então, nós estamos prontos para trabalharmos juntos. Nós temos, em São Paulo e Rio, nós temos secretários de altíssimo nível, as pessoas trabalham nas secretarias, e em outros estados também. Então nós temos que juntar esforços e procurar melhorar. Com esse pouco que nós já temos... nós temos uma medalha de prata no Mundial de Esgrima, que nunca se imaginou classificar, não foi nem na última Olimpíada a esgrima...
Álvaro José: Claro.
Carlos Nuzman: O remo, depois de 15 anos, voltou a ser campeão sul-americano. Não se esqueça de que em Winnipeg, o remo da Argentina teve sete medalhas de ouro. Nós não podemos esquecer de que...
Álvaro José: A Argentina tem mais medalhas de ouro na história que o Brasil, tanto que Buenos Aires justamente teve a vantagem da candidatura olímpica porque foi mais capacitada com relação a resultados olímpicos. Inclusive [teve] medalhas nobres como no boxe, em maratona, na natação, quer dizer, medalhas de ouro que nós não possuímos. A maioria das nossas medalhas são do judô, atletismo e por aí afora.
Carlos Nuzman: Agora eu queria fazer uma observação que eu acho que é importante. A Lei Agnelo Piva deu uma oportunidade para nós – nós do esporte, a todos - de descobrir uma coisa. E eu vou confessar que eu descobri isso no final do ano de 2002, quando estava sendo finalizada a prestação de contas. Muitas vezes - e aqui não me interessa saber o porquê - os recursos que iam do governo federal - olha como isso é importante - recursos que iam do governo federal para uma confederação, eram dados ou por pedidos para um projeto ou também, como era pouco, dividia como uma fatia de bolo: “olha, você vai ganhar tanto, você tanto, você tanto”. Só que uma coisa faltou ser analisada: será que essa entidade tinha capacidade de gestão? Gestão que eu digo é técnica administrativa e financeira. E eu só fui descobrir isso quando, no final de 2002, fui apurar quanto de recursos foram gastos, que cada confederação tinha, e algumas não gastaram o dinheiro todo porque não tinham nem atletas para isso.
Magic Paula: O que você faz com esse dinheiro quando ele volta?
Álvaro José: Ele é estornado e depois ele volta.
Carlos Nuzman: Ele é reestornado para o ano seguinte para essa entidade, então nós estamos ajudando, com o gerente esportivo, estamos ajudando com pessoas para ajudarem a ter uma administração. Então o que eu estou querendo concluir é que se antes você dava o dinheiro, você dava de uma maneira que não sabia como ia gastar, daí tinham problemas. Eu não vou entrar aqui no mérito desses problemas, eu vou dizer que eles existiam. Hoje estão todas dentro da busca, todas têm sede que não tinham, hoje todas têm a administração e estão podendo fazer melhor. Eu acho que esse documento aqui [pega o documento e o exibe], que foi divulgado para todos no Brasil, essa lei, essa prestação de contas técnico-financeira foi distribuída para a imprensa toda, é um documento que poucas vezes foi feito no esporte. Ele levou muito tempo para ser feito, e acho que ele tem agora que ser melhorado e cada vez mais e sempre. E hoje cada um pode saber o que está sendo feito em uma entidade. [Isso] Não quer dizer que todas vão acertar, que todas vão melhorar, porém todas estão embuídas desse espírito. E isso traz um grande denominador favorável, e aqui é muito claro, percentualmente, em quê está sendo aplicado. Nós estamos melhorando, até por observações que a gente tem colhido, de como e em que número de percentuais de atletas estão sendo gastos de faixas etárias.
Magic Paula: Qual é a contrapartida das confederações nisso? Elas recebem a grana, investem na preparação de seleções, mas eu acho, eu acho que as confederações...
Carlos Nuzman: Não é só seleções...
Magic Paula: ... poderiam fazer muito mais pela formação, por quem vão ser as peças que vão ser repostas depois que aquelas que estiverem lá, da formação mesmo, do trabalho de quem vem?
Carlos Nuzman: É, você está certa, Paula, você está certa, nós estamos procurando...
Magic Paula: Porque não adianta pegar o dinheiro e gastar em viagem, e...
Carlos Nuzman: Mas não está. Se você pegar em cada um deles, inclusive isso aqui é facultado, isto aqui está ali [pega o documento de prestação de contas], é [para] todo mundo, todos receberam.
Aurélio Miguel: Mas é importante justamente...
Carlos Nuzman: Pode falar.
Aurélio Miguel: O problema nosso, quer dizer, a Lei Agnelo Piva recolhe um valor que o senhor falou de aproximadamente 13 milhões, e distribui entre as confederações, mas não é o suficiente para a redenção do esporte. Se ela distribuir para as categorias de base, ela não vai preparar as categorias de alto rendimento, então...
Flávio Prado: Nuzman, em cima disso que o Aurélio está falando e a gente está colocando muito na história de prestação de contas, que é fundamental em todas as áreas, o papel dos bingos no esporte, qual é? Existe algum papel dos bingos? Porque eles estão cheios de faixas agora: “Estão querendo acabar com o nosso patrocínio”, “Confederação de não sei o quê”. Afinal de contas, qual é a utilidade ou o papel do bingo efetivamente?
Carlos Nuzman: Flávio, eu agradeço a pergunta. Vou lhe agradecer porque isso é um assunto hoje que tem ocupado um espaço muito grande, não só na mídia mas também dentro de entidades e dentro de governo. Eu queria deixar a minha posição, ela é pessoal, poderia ser do Comitê Olímpico, mas eu quero colocar a minha: eu sou contra os bingos. Eu sou contra na medida em que não pode o esporte cuidar do bingo. Isso não é uma questão do esporte. Se o governo brasileiro, como o governo de qualquer país, quiser fazer um determinado tipo de jogo, quem sou eu para dizer que não?
Flávio Prado: Claro.
Carlos Nuzman: Eu jamais vou entrar nisso. Se o governo brasileiro entender que deve fazer bingo, que a Caixa Econômica que é a entidade que se ocupa de jogo, se ocupar disso, tiver uma fiscalização da Polícia Federal ou de quem eles entendam, a ser feita, o governo federal elencar os beneficiários disso, isso é problema do governo federal. Eu acho que quando nasceram os bingos e ajudaram as confederações em algum momento, e o comitê em um determinado momento, na véspera de Sidney, eles ajudaram por uma circunstância. Talvez isso foi deturpado e ao passar do tempo, piorado. E com o passar do tempo, ele está entrando dentro de uma piora que nos assusta, nos assusta...
Flávio Prado: E envolve, não é?
Carlos Nuzman: Ele envolve, e eu vou colocar uma questão que talvez não tenha sido colocado publicamente, e que piora. Nós estamos tratando hoje aqui, por exemplo, numa reunião com jornalistas, com atletas, e atletas hoje dirigentes. Amanhã eles podem querer tomar uma entidade, porque eles vão ter recursos, vão ter pontos de bingo e querer dominar um determinado esporte, e você perde o controle daquela modalidade. E são pessoas que não são do esporte propriamente dito. Então eu acho que chegou o momento, está se votando o Estatuto do Desporto, essa minha opinião eu já transmiti ao ministro [do Esporte] Agnelo Queiroz, eu já transmiti ao relator deputado Gilmar Machado, e deixei muito claro o que eu acho, e já transmiti às confederações. Porque a coisa que eu mais quero é a seguinte: acertar e errar dentro de um campo em que se possa discutir, como aqui está se discutindo idéias, mas não dentro de alguma coisa que não seja favorável. Por isso eu agradeço pela pergunta e acho que isso não é benéfico para ninguém, porque muitas confederações que tinham essas vantagens, tomaram os pontos. “Olha, se não tem fiscalização, por que eu vou dar a determinada entidade um percentual? Se não tem fiscalização eu vou tomar sozinho tudo”. Eu não tenho que deixar ninguém. Então eu queria deixar isso muito claro e agradeço a oportunidade da TV Cultura em poder dizer essa mensagem.
Paulo Markun: Nuzman, nós vamos fazer um rápido intervalo e a gente já volta já, já.
[intervalo]
Paulo Markun: Voltamos aqui à nossa entrevista com o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Nuzman. Nuzman, a pergunta mais mencionada aqui pelos telespectadores é a seguinte: “Por que o futebol de salão, o futsal, não é disputado nos Jogos Olímpicos? É muito difícil incluí-lo? João Vicente Gazola, de Santos, São Paulo faz essa pergunta; Olavo Martins Góis, de Uberaba, Minas Gerais, vendedor e Daniel Saldos, da Vila Mariana, aqui em São Paulo, perguntam isso.
Carlos Nuzman: Bom, o futsal é filiado, é uma modalidade do futebol da Fifa [Federação Internacional de Futebol]. Um esporte, para entrar nos Jogos Olímpicos, deve ter uma discussão entre a sua entidade internacional, no caso a Fifa, e o Comitê Olímpico Internacional, são eles que decidem. Se eles decidirem [que deve] entrar a modalidade, entra. Estou dizendo muito à vontade, porque eu presidi o Conselho Mundial de Vôlei de Praia e ele entrou nos Jogos Olímpicos dentro de uma estratégia traçada quando eu fui presidente.
Paulo Markun: Quer dizer, leia-se nas entrelinhas que a Fifa não está querendo botar o futsal lá?
Carlos Nuzman: É, nas entrelinhas é mais ou menos isso. Então, agora, no momento do Panamericano de 2007, eu sugeri à Fifa que mandasse um ofício à Organização Desportiva Panamericana para que ela aceitasse a entrada do futsal, e eu mandei um ofício dizendo que o Comitê Olímpico Brasileiro está de acordo. Isso foi aceito para ser levado à assembléia da Odepa em julho, para que o futsal seja considerado esporte panamericano. Sendo considerado, ele entra no Panamericano de 2007. É o máximo que se faz. A partir daí, não pode entrar esporte que não seja olímpico em jogos olímpicos. Agora a questão é entre a Fifa e o COI [Comitê Olímpico Internacional]. O empenho nosso é total, até porque [para] fazer uma pequena propaganda, eu fui um bom goleiro de futsal.
Álvaro José: Ele foi disputado nos jogos...
Carlos Nuzman: O Álvaro José foi testemunha.
Álvaro José: É verdade, mas ele foi disputado nos Jogos Sul-Americanos. Nos próximos Jogos Sul-Americanos da Udesur, da qual o senhor é presidente, o futsal vai ser disputado também?
Carlos Nuzman: Eu acho que o organizador vai ter juízo. [risos]
Denise Mirás: Agora, Nuzman, deixa eu lhe perguntar uma coisa: você foi atleta dirigente, você veio passando por vários governos, desde a ditadura militar ou antes disso, veio vindo até agora. A esquerda brasileira sempre foi refratária ao esporte, não era nada, não era importante. E, de repente, precisou se chegar a uma situação de esquerda para o esporte parecer que está ganhando um valor. O que você pensa disso, essa trajetória política em que você veio vindo?
Carlos Nuzman: Eu acho que a sua análise é muito interessante, porque o que eu sinto é o seguinte: o esporte, eu disse isso hoje, inclusive na apresentação de São Paulo, nenhum segmento da sociedade consegue unir todos os partidos políticos, as linhas políticas, como o esporte. Só o esporte une e talvez a sensibilidade dos governantes, as suas vontades políticas, o que é fundamental, entenderam que o esporte é um meio, não só para o esporte, é para alavancar uma nação. E isso tem sido demonstrado através dos tempos por países que organizaram, cidades que organizaram os Jogos Olímpicos, sejam eles de esquerda, sejam eles de centro, ou sejam eles de direita. Todos eles se beneficiaram dos Jogos Olímpicos, todos eles construíram, nos seus países, não só uma melhoria de vida, como também da indústria, a indústria cresceu. Hoje, brevemente, vocês da imprensa estarão fazendo matérias sobre Pequim. Pequim hoje tem um crescimento inacreditável. Pequim hoje tem 87 mil quartos [de hotel] entre quatro e cinco estrelas, não existe cidade no mundo que tenha isso. Terão, para os Jogos Olímpicos, 105 mil quartos, o número que está se pedindo está a – a Paula pode dizer inclusive, a secretária Nádia Campeão que está aqui conosco - em termos de 25 mil, 30. E isto só é possível se existe mercado para trabalho, porque senão o hotel fecha. Então, essas coisas somente o esporte... E essa passagem por esses sistemas que tivemos, de governo, que a gente tem assistido, tem trazido, eu acho que, uma evolução, um crescimento dentro do que se pode ver. Eu acho que cada um tem uma característica diferente, cada um está procurando fazer do seu governo o melhor dentro do esporte. Hoje, nós estamos assistindo talvez um equilíbrio muito importante, talvez o mais importante que o país já teve. Procurar equilibrar o alto rendimento com a inserção social, a inclusão social, e dar uma oportunidade aos jovens carentes. Então eu acho que esse vai ser, talvez, esse patamar é o patamar da grande arrancada do país, esportivamente falando.
Marcelo Damato: Nuzman, é verdade que há um grande interesse pelo esporte nesse momento, mas você sabe que no governo do Lula, o ministério onde houve mais cortes foi o do Esporte. A área de projetos foi cortada de 330 milhões para 7  milhões. E o COB só não ficou sem dinheiro, porque o dinheiro da Lei Piva vem por um outro caminho, porque senão provavelmente teria sido cortado também.
Magic Paula: 330 com as emendas, porque...
Marcelo Damato: Com as emendas, isso.
Carlos Nuzman: Era isso que eu ia falar, exatamente.
Marcelo Damato: Mas eram os 98 milhões sem as emendas, e ficou para sete.
Carlos Nuzman: Dá quarenta e poucos...
Magic Paula: Quarenta e três.
Carlos Nuzman: Quarenta e três milhões.
Marcelo Damato: Sem as emendas?
Carlos Nuzman: Sem as emendas... A verba no ministério é de 43 milhões...
Marcelo Damato: Mas sete é para projetos e o resto é para tocar aquilo que já é do dia-a-dia, não é? Mas para projeto...
Carlos Nuzman: Sete que você diz é para o alto rendimento ou não?
Marcelo Damato: Não, sete para projetos fora aquilo que é o dia-a-dia que são tarefas diárias, de programas que já vêm há muito tempo. Sete para projetos novos ou que estão há pouco tempo como a questão, por exemplo, de produção de material esportivo para as escolas, por presidiários, aquele negócio todo. Ao mesmo tempo, a gente vê que o COB, para os Jogos Panamericanos de 1999, se eu não me engano, tinha 12 patrocinadores, um número muito grande e agora tem três patrocinadores.
Carlos Nuzman: Exatamente.
Marcelo Damato: Era um número bem grande. Eu acho que está um pouco claro que o Brasil, por alguns anos, pelo tamanho da dívida externa e tudo, vai ter dificuldades de financiar o esporte de alto rendimento. E a questão do esporte de base é muito importante não só para formar atletas; para formar as pessoas, você precisa investir dinheiro no esporte das escolas. Qual a estratégia do COB e qual a estratégia das confederações para buscar dinheiro na iniciativa privada, onde no Brasil hoje é o que parece ter mais dinheiro? As empresas de telefonia, por exemplo, tem um monte de empresas hoje no Brasil que dão sinais de que têm um dinheiro grande, tanto é que fazem muita mídia, fazem alguns patrocínios de algumas coisas e tudo o mais?
Carlos Nuzman: Marcelo, de 99 para cá houve algumas transformações em termos de mercado. Hoje, o que a gente está assistindo é algumas empresas buscarem, com o Comitê, poderem patrocinar algumas modalidades esportivas, mesmo por cotas, mas estarem presentes. Agora que nós assinamos com a Coca-Cola, dá uma demonstração de algumas dessas confederações. Nós, por exemplo, lutamos para que os atletas pudessem ter um prêmio em dinheiro por medalhas, coisa que não pode com o dinheiro do governo.
Marcelo Damato: Público.
Carlos Nuzman: Então hoje o COB abriu mão dos seus recursos, poderia ter dividido, mas preferiu abrir mão e vai tudo para os atletas para eles poderem dividir. É para a Olimpíada? É para a Olimpíada. Mas é talvez o primeiro movimento em prol de novas empresas a darem prêmios aos atletas. O que está havendo hoje são ações do departamento de marketing voltadas mais para o dia-a-dia, de aparecer a imagem do seu patrocinador na mídia, e muitas vezes isso não é possível com a velocidade que se gostaria. O esporte que tem um número de atividades maiores, vai aparecer mais, vai ter benefício, mas tem outros que não. Os esportes coletivos são os mais prejudicados com isso, porque eles têm as suas competições nacionais em maior número e em maior tempo. A luta para isso nós estamos tendo, nós estamos fazendo. Eu até queria aproveitar e fazer um comentário, nós estaremos mudando o sistema de agência de marketing do Comitê. Eu espero divulgar brevemente, ainda não...
Álvaro José: Que era a ISL [International Sports License] que teve...
Carlos Nuzman: Era a IMG [Sports Media], nós estamos encerrando com eles e devemos divulgar brevemente. E nós vamos mudar o sistema buscando uma nova fórmula e uma nova agilidade para poder atender esse mercado.
Paulo Markun: Nuzman, essa questão da Coca-Cola aí, que dá prêmios de até 70 mil reais a quem subir no pódium ou quebrar recordes na Olimpíada de Atenas, isso não é a última pá de cal na idéia do esporte olímpico como algo que não tem a ver com o velho e bom "vil metal"? 
Carlos Nuzman: Ao contrário, isso aqui são as novidades que vêm, eu vou lhe explicar. Eu primeiro queria fazer um parênteses da definição exata do atleta profissional. O atleta profissional - perdão - a expressão atleta entrou na Carta Olímpica em 1972, aí foi abolida a palavra amador. E o presidente [Juan Antonio] Samaranch, quando assumiu em 1980, disse: “Participam dos Jogos Olímpicos atletas amadores ou profissionais”. Muito bem. Cada federação internacional tem uma regra do que é atleta profissional, e o COI aceita. Não vou aqui entrar no mérito de estar certo ou estar errado, mas são regras próprias de cada esporte; uns têm mais sucessos e outros têm menos sucesso. O atletismo hoje dá prêmios de 1 milhão de dólares no Golden...
[...]: No Golden Gala.
Carlos Nuzman: No Golden Gala. Dá 1 milhão de dólares e não é profissional. No Brasil o único atleta profissional reconhecido por lei é o atleta de futebol, ele tem carteira, então ele é. Se o atleta vier e declarar: “Eu quero que no meu contrato esteja escrito ‘atleta profissional’", esse atleta, para ir a uma Olimpíada, vai ter que saber se na sua federação internacional, o estatuto permite, senão quando chegar lá, ele não vai. Isso não quer dizer que ele não receba, isso não quer dizer que o Aurélio, a Paula, a Hortência, o Giba, qualquer um, que tenha o seu contrato, ele joga e recebe o seu dinheiro. Ou se não recebeu ,como no Vasco, ele entra com uma ação para discutir. Então, esse problema do prêmio é algo que os Estados Unidos fazem, é algo que vários países da Europa estão fazendo. E Europa, ex-Europa socialista e a que não é, ambas estão dando prêmios em dinheiro. A única diferença que nós temos, e isso vem dos Estados Unidos, é o incentivo ao atleta que bate o seu recorde pessoal. Ele é o trigésimo do mundo, chegou na Olimpíada foi o vigésimo quinto, ele vai ter um prêmio. Porque ninguém começa sendo campeão olímpico, ele vai crescendo, ele vai subindo e isso vai ser um incentivo para o atleta. Claro que o individual tem uma vantagem enorme, porque ele vai ter mais chances de poder ganhar. Mas os esportes são assim, uns têm vantagens e outros não têm, tem sua desvantagens entre o coletivo e o individual.
Magic Paula: Eu vi uma entrevista sua, não sei se é verdade ou se é mentira, sobre essa coisa dos prêmios, que eu acho interessante, é a primeira vez que isso vai acontecer. Dizia a matéria que esse atleta iria poder, com essa grana, se preparar futuramente, quer dizer, o que ele ganhar ele iria gastar. Esta era uma pergunta que eu queria que você respondesse: se é verdade ou se é mentira. E em cima disso, eu nunca o vi falando o que você pensa da lei de incentivo, porque muito se fala “tem que ter uma lei como a cultura tem”. Como é que você pensa isso, de que forma poderia ser e se isso viria a ajudar mesmo o esporte brasileiro?
Carlos Nuzman: Paula, primeiro deixa dizer do prêmio, eu não disse que isso vai resolver o problema da vida do atleta, nós sabemos que não dá. Mas eu acho que é importante ajudar em alguma coisa pessoal, uma casa, um apartamento, um automóvel, ajudar a família, enfim...
Magic Paula: Se tiver cabeça, né?
Carlos Nuzman: Se tiver cabeça, é o que nós esperamos. A minha satisfação foi tão grande no dia em que eu assinei isso, muito, mas muito, porque isso era um desejo desde que eu entrei no comitê de poder ter isso, só que eu não conseguia que ninguém quisesse. Então isso foi possível porque os presidentes da Coca-Cola, o que saiu e o que entrou, são americanos e entenderam isso. Eu acho que falta gente - e eu vou dizer isso de uma maneira muito tranqüila - eu acho que falta gente para poder conversar mais, conversar mais em todos os níveis. Eu estou tendo, hoje, uma oportunidade de ouro aqui, que a TV Cultura está me dando, para eu poder expressar muito do que eu penso. Às vezes a gente conversa, mas conversa pouco. Às vezes, eu encontro com o Marcelo em um evento, e a gente conversa uma fração de tempo; ou com a Denise, com quem eu me encontro mais. Ou muitas vezes estou com o Álvaro, mas não tem tempo de com calma você procurar explicar. E eu acho que nós temos que pensar em todos. Eu quando estava no voleibol, e nós fazíamos o circuito voleibol de praia Banco do Brasil, em horários que não os da competição, nós trazíamos uma garotada carente para participar de atividades. Lá ganhavam uniforme, um lanche para poder participar, porque a gente sentia essa necessidade. Então, eu acho que seria muito importante. O incentivo fiscal deve ser muito bem pensado e ser destinada a sua maior parte para aqueles que necessitam, para as obras que podem oferecer essa comunidade. E o [esporte de] alto nível tem a sua parcela dentro do que for condizente a ele, sem deixar de ter. Porque nós não podemos pensar que uma criança que vai começar em uma escolinha ou no centro, no seu centro olímpico, se ele não tiver a expectativa de chegar à Seleção Brasileira, ele desiste. Ele tem que ter esse sonho de poder [dizer] “eu quero ser igual à Paula”. Qualquer um deles, você é o simbolismo, como o Aurélio lá no São Paulo vai chegar dentro disso, como foi em São Caetano. Agora, para isso você tem que dar expectativa de que ele vai começar pequeno, ele vai crescer, ele vai poder chegar lá. Não são todos, existe um funil dentro disso, mas nós vamos ter que dar isso. Então tem uma parcela para o alto rendimento também.    
Álvaro José: Nuzman, eu vou pegar carona aqui na pergunta do Marcelo, que eu acho que foi muito pertinente com relação ao Panamericano de 99, e já que nós estamos falando de marketing esportivo, [sobre] os 12 clientes ou investidores naquela ocasião. Hoje são três, mas a gente sabe também que a maioria das empresas mudou a sua forma de atuação, quer dizer, querem quase que uma exclusividade. Vamos colocar assim, os valores são iguais aos de 99 só com três, são maiores?
Carlos Nuzman: São menores.
Álvaro José: Menores.
Carlos Nuzman: São menores, os valores são menores e é perfeitamente compreensível. Eu acho que agora cada modalidade que está recebendo, tem uma grande oportunidade de mostrar o seu trabalho para melhorar. O difícil é você começar a receber. Estou dizendo isso muito à vontade, porque você acompanhou isso a vida inteira no voleibol. Os primeiros recursos que nós recebíamos de patrocínio eram pequeninhos, e a gente foi melhorando nos resultados até crescer e poder depois ter um contrato, que eu consegui na época com o Banco do Brasil. Ninguém vai conseguir um contrato da noite para o dia de "zilhões", porque ninguém vai dar.
Álvaro José: E ninguém vai discutir também as verbas, afinal de contas, [se] você destina verbas para o atletismo, pouco importa que seja 1 milhão, 1,2 milhão ou 2 milhões. A única verba que eu discutiria aí é a verba com relação aos Jogos Olímpicos de Inverno. Quer dizer, o snowboard [esporte olímpico de inverno, praticado nas encostas de montanhas com neve, em que o atleta equilibra-se sobre um tipo de prancha, que deve ser proporcional ao corpo do praticante], o skeleton [esporte olímpico de inverno de modalidade individual em que o atleta utiliza um tipo de trenó para descer uma pista estreita de gelo] vão receber 300 mil reais nesse ano [mesmo] não tendo Olimpíadas de Inverno, e eles sabendo que todos esses praticantes têm alto poder aquisitivo. Essa curiosidade eu tenho.
Carlos Nuzman: Álvaro, deixa dizer uma coisa para você. Tem uma febre de esportes de inverno neste país, uma febre! Você não sabe o que tem de gente praticando, tanto que nós estamos criando e separando uma entidade que vai dirigir o esporte de neve e uma de gelo, porque não dá para criar uma entidade para cada um. Tem um monte de gente hoje praticando, até figure skating [patinação artística] nós temos agora. Nós tivemos agora o bobsled [esporte de inverno no qual equipes de duas ou quatro pessoas realizam, em um tipo de trenó, movido pela força da gravidade, descidas cronometradas em uma pista de gelo sinuosa e estreita especialmente construída para a competição] de mulheres que ganhou uma prova da Copa do Mundo. Quando que se ia pensar em uma história dessas? Então estão aumentando, os equipamentos são caros...
Álvaro José: São. Mas nós tivemos patrocínios na última Olimpíada. Entraram de última hora, mas entraram.
Carlos Nuzman: Tem um trenó dado pelo Comitê Olímpico Internacional. Custou 20 mil, 17,5 nós demos, eu acho que foi 20 mil dólares.
Flávio Prado: A gente falava agora há pouco sobre o apoio às crianças, o centro olímpico que a Paula dirige com tanto carinho e com tanta competência, e nós sabemos que o mundo vive hoje um flagelo de drogas, e o Brasil não é diferente. O esporte hoje ainda é sinômino de saúde ou até nessa área os cuidados têm que ser redobrados? Hoje o controle fica mais difícil. Você diria, para aquela pessoa cujo filho vai sair do convívio mais direto com a mãe, que seguramente essa criança, que vai praticar esporte, vai fazer alguma coisa boa para a saúde dela? 
Carlos Nuzman: Flávio, o esporte, com todo o seu crescimento, evidente que crescem as alegrias e crescem as tristezas. E crescem também os problemas, crescem as soluções, cresce o que se pode melhor controlar, mas crescem os problemas. E o doping não pode ser diferente. O Comitê Olímpico Internacional e a Agência Mundial de Controle de Doping hoje estão em uma cruzada muito grande contra o uso da droga, contra o doping. Eu participei da reunião que foi criada, a Agência Mundial, foi criada com a participação e solicitação dos ministros de esportes da Europa, inclusive do Vaticano. Hoje o mundo participa, o nosso governo participa, o ministro Agnelo Queiroz esteve na reunião das Américas em Santo Domingo. O Brasil contribui e o Brasil participa, e terão algumas etapas que o Brasil tem que cumprir como a criação de uma Agência de Controle de Dopping e uma lei federal. Isto vai ser feito por etapas. Agora, qual é o receio? É o tráfico da droga. Você perguntou sobre o pai que vai deixar a criança sair. O grande problema que nós temos, a falta de controle, é alguém chegar para um garoto, que está em fase de crescimento, e dizer: “Olha, está aqui. Isso aqui é uma vitamina para você. Essa vitamina é ótima, não dá problema nenhum, está perfeito, você pode tomar”.  Aí ele está dopado. O que aconteceu com o técnico, ou médico, ou o preparador físico? Nada. O punido foi só o atleta. Então isso não pode. Segunda coisa, o atleta só pode tomar alguma coisa ouvindo o médico da sua entidade. Nós estamos preparando, o doutor [José] Veloso está preparando, com o doutor [João] Grangeiro, são os médicos do comitê, uma nova cartilha - deve estar pronta agora, desse mês para o mês que vem - já com as novas decisões da Agência Mundial. Então nós temos que ter um controle permanente disso, cada vez mais vai aumentar esse controle, mas por outro lado, a gente tem que estar sabendo que, do outro lado, estão lutando para burlar.
Flávio Prado: E com relação a drogas que não chegam a melhorar o rendimento do atleta, por exemplo, maconha, cocaína? Há quem defenda que como não há um efeito direto no rendimento do atleta, favorável ao atleta, que essas drogas poderiam ser suprimidas das leis antidoping. O que você pensa disso, Nuzman?
Carlos Nuzman: A Agência Mundial de Controle de Doping considerou que vai classificar como doping, não como um benefício da performance do atleta, mas um mal que traz como imagem, que traz para o esporte, essa foi a decisão da Agência. Então nós temos que nos ater a essa decisão da Agência Mundial. Então, mesmo que seja uma droga, chamada droga social, hoje é considerada como...
Flávio Prado: E o seu pensamento sobre isso?
Carlos Nuzman: O meu pensamento é que eu acho que deve ser considerado como droga. E vou explicar o porquê.
Flávio Prado: Deve haver punição, tudo isso?
Carlos Nuzman: Eu acho que tem que ter uma ajuda, eu sou favorável a ter ajuda. Se nós temos o atleta como um exemplo, o atleta tem que ser exemplar em todos os seus níveis. Ele não pode ser diferente, ele não pode. Isto não quer dizer que ele vai ser considerado um criminoso e bandido, de forma alguma! É a mesma coisa que um atleta expulso de campo, que foi julgado, foi suspenso. Um atleta - vamos até o máximo - agrediu um árbitro, pegou uma pena maior, da mesma maneira vai ser punido e deve ser punido.
Denise Mirás: A gente falou da profissionalização a vida inteira, de dirigentes esportivos. Você se considera um dirigente profissional, você recebe para isso?
Carlos Nuzman: Não, Denise, eu não recebo. Deixa eu lhe contar a minha história.
Denise Mirás: Conta.
Carlos Nuzman: Eu trabalho desde os 17 anos. Meu pai me disse um dia: “se você quer ser jogador de voleibol, vai trabalhar”. [risos] Então você treina de madrugada ou treina à noite, e foi o que eu fiz. Então, aos 17 anos eu estava no clássico, era um bom datilógrafo, eu datilografava as escrituras dele. Quando entrei na faculdade, eu já entrei trabalhando, trabalhei a vida inteira. Trabalhei, ganhei dinheiro, trabalhei em muitas coisas. Eu tenho alguma condição de poder viver bem, tenho o meu escritório de advocacia, eu tenho uma loja de venda de móveis e tenho condições para isso. Agora, isso é uma questão minha, que eu estou respondendo. Eu tenho o meu escritório, tenho tudo isso. Eu acho que o dirigente deve ser profissional.

Denise Mirás: E a profissionalização do dirigente?

Carlos Nuzman: Eu acho que ele deve ser profissional em todos os seus sentidos. Pode ter alguma federação internacional? Eu estou dizendo pode, porque eu não conheço, mas às vezes não [se] conhece a riqueza de todos [para] que não [se] permita [ligação com federação internacional]. O Comitê Olímpico Internacional estabelece uma regra de que ele [o dirigente] não pode receber um salário, ele pode ser indenizado pelo que ele deixa de ganhar se fosse trabalhar. Ou seja, é como se fosse uma substituição do que receberia para custear suas despesas. Este é o quadro. Mas a minha opinião é favorável a que tenha. É evolução, é o que deve ser e o que será. Eu não tenho dúvidas de que vai ser, muitas entidades gostariam, mas não têm dinheiro.
Paulo Markun: Nuzman, para a gente encerrar esse bloco, tem vários telespectadores que fazem também a mesma pergunta. Marcos Prado, de Fortaleza, no Ceará, que é professor de educação física; Adriano de Souza, de Vinhedo, aqui em São Paulo, professor universitário; Antônio dos Santos, de Carapicuíba, São Paulo, professor de educação física e José Maria Barros, da Unesp de Rio Claro, querem saber duas coisas. O papel das escolas. Isso foi abordado indiretamente, mas eu vou citar a pergunta, por exemplo, do Marcos Prado: “O que o Covas está fazendo para melhorar o projeto "Esporte na escola", já que nem mesmo chegaram as bolas nas escolas”? E o Adriano de Souza diz: “Para o benefício do esporte brasileiro não seria melhor uma administração que olhasse para as crianças e adolescentes e apostasse no longo prazo ao invés de apostar nos esportes de alto rendimento e dos resultados a curto prazo”? São perguntas que eu acho que, de alguma forma, enfocam a mesma questão. O Antônio dos Santos diz que o esporte começou na escola no seu caso, mas hoje o espaço para ele nas escolas é cada vez menor. Qual o incentivo que o Covas está dando em relação ao esporte nas escolas?
Carlos Nuzman: Primeiro [é preciso] esclarecer ao telespectador que o Comitê Olímpico Brasileiro não tem nenhuma ingerência nem obrigação em relação ao trabalho das escolas. Este é um trabalho que deve ser ou do Ministério da Educação ou do Esporte, quando ele optar pelo projeto que tenha, seja esporte na escola ou o que seja. O comitê participa como apoio e ajudando junto aos ministérios, porque eu acho que onde o comitê puder ajudar, ele vai ajudar mesmo não tendo obrigações. Com relação aos recursos, eu volto ao que eu tinha respondido anteriormente. Nenhuma criança pode entrar em qualquer ramo de atividade esportivo ou não, e não ter uma perspectiva de, na vida, poder ser ou um profissional, ou uma pessoa de destaque, ou uma pessoa que vença e apareça. O esporte hoje é a solução de famílias; tem jovens que hoje, ao ganhar dinheiro, estão sustentando as suas famílias e isso é muito nobre. Então, nós não podemos tirar isso da criança. Acho que temos que abrir esse leque de poder dar a todos uma oportunidade, mas manter o alto rendimento como uma das questões. Muitas vezes as pessoas fazem perguntas desse gênero para mim, até pela linha de ação que o Comitê Olímpico tem, até por características minhas, eu gosto de estar na linha de frente, eu não gosto de estar na retaguarda. Eu gosto de estar - mesmo me expondo - mas eu gosto de estar podendo participar e construindo muito do que eu recebi no esporte como atleta, por isso eu tenho... Não vou tirar o prazer da matéria que a Denise fez do porquê que eu estou no esporte, mas foi exatamente dentro disso.
Magic Paula: Em cima disso eu podia fazer uma pergunta, dá tempo?
Paulo Markun: Dá.
Magic Paula: Tem-se falado muito da lei de incentivo, da Lei Agnelo Piva, e até e-mails eu tenho recebido sobre o fato de que não estaria sendo investida a verba que viria para o desporto escolar e universitário. Então eu queria que você se defendesse. 
Carlos Nuzman: Perfeitamente. Dia 9 de abril, [Nuzman começa a procurar algum documento relacionado à pergunta feita] foi quinta-feira passada, o Tribunal de Contas da União julgou uma consulta, a nosso pedido, ao Ministério do Esporte, justamente para poder utilizar esses recursos. Quando foram destinados a nós, nas reuniões de trabalho com o próprio TCU [Tribunal de Contas da União], nós não sentimos segurança de poder utilizar o recurso e amanhã nós estarmos diante de um problema da fiscalização. Então nós entendemos que esse dinheiro está todo guardado, aplicado, a fiscalização comprova, então houve a consulta. E no dia 9 de abril, ou seja, cinco dias atrás, saiu a decisão em que nós vamos poder utilizar. Então está aqui, inclusive aqui na minha mão, e esta é a decisão que nós pretendemos fazer, é uma questão que eu fiz no voleibol quando eu entrei. Quando eu entrei no voleibol em 1975, eu disse o seguinte: “o Brasil tem um técnico, um masculino e um feminino”- masculino tinha dois, para deixar eles me criticarem menos, masculino tinha dois, feminino não tinha nenhum. Eu disse “precisa ter cursos, nós temos que formar técnicos”. Então eu fui à Federação Internacional e comecei a formar. Comecei a formar, comecei a trazer as federações e criei um padrão de voleibol no Brasil inteiro, nos 27 Estados. Criado esse padrão, os atletas que vinham de qualquer lugar do Brasil sabiam como é que jogava a Seleção Brasileira e não tinha problema. Então, o que eu estou querendo fazer é exatamente isso para os demais esportes. Nós criamos o Instituto Olímpico e nós vamos dar cursos tanto na área escolar como na área universitária, a professores de ambos, para usar os professores da educação física, atletas que foram de expressão, como vocês que, mesmo não tendo curso, podem fazer essa formação...
Magic Paula: A unificação.
Carlos Nuzman: E podem ter. Então, terão de técnicos, fisioterapeutas, médicos, advogados, jornalistas, administradores, operadores, que isso é um outro tema fundamental. Não basta ser administrador, tem que saber fazer a operação de uma competição. Muitas vezes vocês reclamam do jogo de futebol, não é o administrador só, quem é que vai fazer a operação - o estatuto do torcedor - quem é que vai fazer?
[...]: Quem vai colocar em prática?
Carlos Nuzman: Quem vai colocar em prática? O nosso Portela montou tudo e o fez magnificamente bem, os nossos cumprimentos ao então secretário executivo José Luiz Portella. É exatamente quem vai fazer a operação. Então isso que nós vamos construir, as pessoas que vão trabalhar. Esse Instituto Olímpico eu estou preparando de uma maneira modesta para depois crescer. Então nós queremos crescer e crescer juntos, seja no Rio, seja em São Paulo, seja em Curitiba, [com] que já estamos conversando, seja em Uberlândia, em vários estados do Brasil, para poder formar e aumentar isso. Trazer professores de fora e ter um cuidado que aqui eu não quero citar exemplos, é o seguinte: o interesse do Instituto Olímpico será de formar e não econômico. Logicamente tem que cobrar, porque tem que pagar, mas não para, com isso, fazer e criar grandes filiais, como muitos educandários e universidades fazem. O que nós queremos é a formação. Isto é um dos caminhos que nós vamos fazer com esses recursos.
Paulo Markun: Nuzman, nós vamos fazer mais um rápido intervalo e voltamos daqui a instantes.
[intervalo]
Paulo Markun: Bem, nós estamos de volta com o Roda Viva para o último bloco da entrevista com o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro Carlos Nuzman. Usando aqui um pouco das atribuições do mediador e legislando em causa própria, eu pego a carona na pergunta de Alessandro Procópio, de Belo Horizonte, que é médico veterinário, que pergunta o seguinte: “O COB tem alguma verba para pesquisa de eqüinos já que o hipismo é um dos esportes olímpicos mais fortes do Brasil”? E eu acrescentaria: e um dos mais complicados na medida em que as categorias de acesso acabam sendo barradas porque o custo de cavalos e a qualidade do cavalo brasileiro, a gente não tem grandes quantidades.
Carlos Nuzman: Infelizmente não. Nós não temos verbas para pesquisas. Eu acho que isso vai ser uma etapa no crescimento da estrutura da organização do esporte, mas infelizmente nós não temos; e o hipismo é o esporte mais caro que tem e de maiores dificuldades.
Paulo Markun: E o que explica o sucesso dos cavaleiros brasileiros? Porque não é só o Rodrigo Pessoa, né?
Carlos Nuzman: Talento, eu acho que é talento e cavalo. Não adianta você ter um grande cavaleiro, uma grande amazonas se você não tem um cavalo. Ele não vai conseguir, e se o cavalo não estiver em um bom dia, também não adianta ele ser um ás, porque ele vai amargar as faltas no percurso que normalmente ele tem. Então talvez seja um esporte que tenha os maiores altos e baixos e de imprevisibilidade que possa ter.
Flávio Prado: Quando a gente vê o Nuzman, com certeza muita gente que ligou a televisão, “Olha, o Nuzman”, o pessoal está falando de vôlei. Não tem jeito de desvincular a sua imagem do vôlei, na abertura a gente mesmo mostrou isso.
Carlos Nuzman: É verdade.
Flávio Prado: Existem outras pessoas que têm a mesma marca, marca do momento de vitória, transformação do vôlei. Uma delas é Bebeto de Freitas. Como você definiria Bebeto de Freitas?
Carlos Nuzman: Bebeto é um dos grandes técnicos de voleibol que o Brasil já teve, eu diria até do mundo. Acho que foi um momento muito especial que o voleibol teve de transformação. Eu sempre costumo dizer que quem dirige tem que ter a sorte também de escolher bem os técnicos, e eu acho que quando eu escolhi o Bebeto, foi pós-Moscou, o que eu tive de críticas! Meu Deus! [Diziam sobre ele] “É um garoto, cara novo, veio dos Estados Unidos, nem sabe como é que [o Brasil] está”. Mas eu joguei com ele e eu conhecia como ele poderia mudar um jogo, que é a grande questão que os analistas de esporte fazem: um técnico muda um jogo? Muda.
Flávio Prado: Se for bom, muda.
Carlos Nuzman: Exatamente, poucos mudam, quer dizer, dentro da minha concepção. Tem muitos bons técnicos, mas que não mudam um jogo, então, no meio, você está assistindo, quantas vezes vocês comentam e não vê ninguém mexer. Eu acho que o Bebeto foi isso, ele escolheu um caminho agora de ser dirigente. Nós tivemos muitas discussões, muitas questões, e eu acho que isso faz parte. Nós fomos companheiros de clube, jogamos muitos anos juntos, trabalhamos juntos no voleibol, muito tempo. Acho que isso faz parte da história e dos problemas que existem dentro do esporte, soluções, e o que eu desejo a ele é sorte no Botafogo, no Botafogo que eu joguei, apesar de não ser Botafogo, [de] eu ser Fluminense, eu sou sócio emérito, com muita honra, do Botafogo. E eu espero que o Botafogo volte rápido à primeira divisão e que tenha sucesso.
Aurélio Miguel: Você falou há pouco do estatuto do desporto estar tramitando no Congresso. Você, que foi um grande dirigente do vôlei, transformou o vôlei na década de 80, está transformando o Comitê Olímpico Brasileiro também, você não acha que está na hora de transformar - você já falou que está dando uma certa assessoria na gestão na parte administrativa das confederações - de mudar um pouquinho o sistema de eleição nas confederações para que os clubes, os atletas até, participassem desse processo? O que você acha disso e como é que você vê a viabilidade disso?
Carlos Nuzman: Aurélio, eu tenho uma opinião muito clara para isso. Eu acho que hoje alguém para ser dirigente tem que subir os degraus, tem que estar em um clube, tem que estar em uma federação para poder chegar a uma confederação e, aí, outros vôos que possam ter. Só a experiência de quem passar por isso é que pode dar uma segurança maior. Eu acho que esse problema do tempo, de limite de mandato, eu sou contra. Isso não tem nada a ver, a história mostra isso. A credibilidade e confiabilidade internacional precisa de ter tempo, precisa de anos para você conquistar um espaço, para você conquistar sede, para eles acreditarem nas pessoas; e se for bem, vai continuar e, se não for, vai perder. Eu queria até mostrar um dado que levou muitos anos para alguém fazer essa menção e eu quero fazer esse comentário com o Marcelo aqui, foi a revista Mais do [jornal] Lance desse domingo, que fez uma análise do dossiê olímpico da luta, você lembra disso. E fez a menção de que lá tinha um presidente e que esse presidente viajava com a família, e que não tinha um atleta, não tinha movimento nenhum, e que hoje mudou, que ele foi suspenso em 90 dias. E é verdade. Onde eu pude interferir, e fui eu que interferi, sem poder intervir, mas eu interferi. A única coisa que faltou na matéria, Marcelo, foi dizer que o Comitê Olímpico tomou atitude e mudou. E hoje nós temos um caminho que está seguindo até, inclusive, com muita procura no Centro Olímpico da Paula. Veja bem, qual foi a diferença de ganhar a sede do Panamericano? Os Estados Unidos nunca tinham perdido uma eleição. Porque nós somos os melhores, fizemos o melhor? O nosso dossiê era bom, o dos Estados Unidos era bom. A única diferença foi que quem liderou a campanha do Brasil foi o Comitê Olímpico e quem liderou a de San Antonio foram os políticos. Então esse tempo foi até para você descobrir certos porquês. Eu vou contar só um porquê aqui de um processo eleitoral que teve. A eleição de um Panamericano é ganha por quem consegue quebrar o reduto eleitoral do outro. O deles é América do Sul e o nosso é o Caribe. Quem quebrar um ganha. Nós tivemos 40% dos votos do Caribe, por quê? Aí é que vem a experiência e o tempo é que dá isso aqui. Nós estávamos em uma reunião...
Denise Mirás: E o Zequinha Barbosa...
Carlos Nuzman: O Zequinha é um craque, o Zequinha é um político de primeira, ele já tem missão na Odesur [Organização Desportiva Sul-americana]. Eu já disse a ele hoje: “Zequinha, seu destino agora é Odesur”. E é verdade, eu vou levá-lo para a Odesur. O que aconteceu? Nós descobrimos em uma reunião que os jogos da [...] não tinham nada a ver conosco, nós tínhamos gente. E eles reclamando que esses países do Caribe nunca assistiam a sua delegação desfilar nos Jogos Olímpicos. E eu disse: “espera aí um instantinho, como é que é possível isso? Não tem televisão para o mundo inteiro?” Tem, só que para o Caribe quem faz a geração de imagem é a NBC [rede norte-americana de TV].
Marcelo Damato: É americano, é isso mesmo.
Carlos Nuzman: Não é isso? E quando entra a [...]
Paulo Markun: Comercial.
Carlos Nuzman: Exatamente. [risos] Corta para o comercial!
Álvaro José: Histórias de atletas americanos, eles não transmitem a cerimônia inteira. É um outro conceito de [...].
Carlos Nuzman: Nos Jogos Sul-Americanos quem ganhou a prova clássica do atletismo,100 metros rasos, foram as Antilhas Holandesas e nós colocamos no ar. Foi uma festa o sujeito ganhar uma prova clássica do atletismo. Ele disse: “Se fosse em uma Olimpíada, uma medalha de ouro, ninguém ia ver”. A Claudia Poll [nadadora], que foi bicampeã olímpica, na Costa Rica, só apareceu depois, porque durante a prova não aparecia. Então, é só o tempo que dá isso. Esse é o motivo da minha insistência de que nós devemos ter mais dirigentes nas entidades internacionais para poder defender os interesses.
Aurélio Miguel: Mas o meu questionamento é em relação às entidades de administração do desporto, que são as confederações. Você não acha que deveria aumentar o colégio eleitoral, os clubes? Por exemplo, o vôlei. Quantos clubes existem hoje no Brasil? Deve estar a grande maioria no eixo Rio, São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul. Você não acha que esse voto unitário de cada estado ter o mesmo poder de voto atrapalha um pouco e fica uma politiquinha de interesses, em que vão só esses dirigentes que viajam e os atletas nem viajam para as competições. Você não acha que deveria mudar isso?
Carlos Nuzman: Deixa eu lhe explicar. Em nenhum critério de eleição no mundo tem o voto plural. Não estou aqui dizendo que eu não sou favorável, até...
Aurélio Miguel: Nem dos clubes?
Carlos Nuzman: Não, aí cada um tem um sistema eleitoral...
Aurélio Miguel: A vela tem, né? A vela hoje... porque na Lei Zico [Lei nº 8672 de 1993, que regula normas e regras para a prática desportiva] foi facultado na assembléia...
Carlos Nuzman: Cada um faz o que quer...
Magic Paula: Mas não muda muito o clube votar, Aurélio.
Aurélio Miguel: Muda bastante.
Magic Paula: Não muda, porque os clubes são coniventes. Às vezes, não pagam taxas de federações e votam para depois quitar, zerar, entendeu?
Carlos Nuzman: A Paula tem razão, o problema não é aí...
Aurélio Miguel: Eu não concordo.
Carlos Nuzman: Aurélio, eu fui candidato de oposição quando eu assumi a CBV [Confederação Brasileira de Voleibol], eu não fui candidato de situação. Na federação, quando eu fui presidente, fui candidato único, apesar de ter três votos em branco dos 8, mas eu fui eleito. Eu fui candidato de oposição, eu fiz um trabalho, eu fiz na federação, eu provei a minha capacidade.
Aurélio Miguel: Tanto é que está no COB e está na Odesur.
Carlos Nuzman: Então eu fiz, porque eu trabalhei, então eu acho que é a mesma coisa. Veja bem, o universo eleitoral. Vamos separar o futebol dos demais, é variado. O importante, o que eu acho é o seguinte: a comunidade tem que estar junta para poder fazer. Se estiver junta, vai mudar, eu não tenho a menor dúvida disso, Aurélio. Olha, já teve períodos no Brasil de limitar e não deu certo.
Aurélio Miguel: As dinastias aí dentro do esporte são justamente em função da...
Carlos Nuzman: Você está falando do seu esporte, Aurélio.
Aurélio Miguel: Não, senhor, a dinastia do [Troféu Ruben] Dinar [de Araújo] da natação, quanto anos ficou o Dinar?
Carlos Nuzman: O Dinar é só...
Aurélio Miguel: O taikendo, o automobilismo, do  [...], não é isso? Que é o presidente...
Carlos Nuzman: Mas não é olímpico.
Aurélio Miguel: Sim, mas eu estou querendo dizer o sistema de eleição das confederações...
Carlos Nuzman: Eu entendo a sua mágoa pelo que você passou.
Aurélio Miguel: Não é em relação ao meu esporte. Eu acho que ele [sistema de eleição] não é legítimo, porque...
Carlos Nuzman: Você viu que quando foi preciso eu tive... Vou lhe contar: um dos maiores desafios que eu tive na minha vida foi aquela reunião com os atletas. Sorte que eu já fazia com o voleibol, senão encarar essas feras aí e eu não ter encarado as minhas antes, eu pude fazer isso e foi ótimo. No final deu certo.
Marcelo Damato: Gostaria de fazer uma pergunta.
Carlos Nuzman: Pois não.
Marcelo Damato: Você falou o negócio da luta olímpica que você ajudou, em que você interferiu. Nesse exato momento, o presidente da Confederação Argentina de Vôlei está pedindo o impeachment do presidente da Federação Internacional, que é o Rubén Costa [Hernandez], que você conhece há 30 anos. Acusação de desvio de dinheiro, fraude em balanço e tal. Qual é a sua posição sobre isso?
Carlos Nuzman: Eu não conheço as questões todas, porque eu não estou mais no voleibol.
Marcelo Damato: Certo, mas você...
Carlos Nuzman: Do que eu tomei conhecimento, eu tomei por jornais. Eu não conheço as decisões que foram tomadas em relação ao que ele fez ou deixou de fazer, se tinha autorização do conselho ou não, eu não conheço.
Marcelo Damato: Você acha que o Ary [Graça Filho] tem competência para ser o presidente da Federação Internacional?
Carlos Nuzman: Acho que sim, acho que tem. O Brasil hoje, no voleibol, talvez é um exemplo raro no mundo, um país sem ter recursos financeiros, como as grandes potências do esporte têm, ter hoje um esporte como número 1 no mundo, que é o voleibol. E isso é uma questão que, hoje, nós temos o primeiro do mundo, e nós temos aí perto de 15 anos que o voleibol brasileiro é o melhor do mundo. E acho que ele é um exemplo e, desse exemplo, o que mais me alegra, não é o quando eu fiz, é ter dado continuidade. Teria sido fácil escolher qualquer pessoa, mas eu procurei, na época, eu apoiei uma pessoa que eu achava que tinha todas as condições. Então, eu vejo o voleibol como um exemplo, um exemplo em todos os sentidos. Se você me perguntar se esse é o ideal que eu gostaria para todos os esportes, é. É porque eu vivi isso, eu estou muito a vontade para dizer, porque o voleibol que eu joguei, eu fui sétimo na Olimpíada, fui décimo no Campeonato Mundial, décimo terceiro, enfim. Então, eu não tenho nenhum saudosismo. Agora, foi demonstrado que o atleta brasileiro tem condições, e se o voleibol hoje leva esse público enorme aos estádios, aos ginásios, é porque esses ídolos puderam fazer, no masculino e no feminino.
Marcelo Damato: Continuando um pouquinho, por que, se os ginásios estão tão cheios, a gente está assistindo uma debandada completa de todos os jogadores de seleção, estão todos indo embora? O Maurício declarou nesse ano que essa foi a pior superliga que ele jogou, todos os melhores atletas estavam indo embora, ele inclusive vai embora agora.
Carlos Nuzman: É, eu li. Parece que ele brigou no clube dele. O que acontece é o seguinte: Brasil campeão mundial, Brasil com os resultados que têm, as propostas em dólares são muitas, são irrecusáveis. O dólar pelo real hoje, as propostas que ele tem, não dá, não dá para ele ficar.
Álvaro José: E o êxito do vôlei sempre foi normal.
Carlos Nuzman: Sempre foi normal...
Magic Paula: O basquete feminino tem 14 jogadoras na Europa agora.
Carlos Nuzman: A maioria dos países, veja bem, hoje eles têm isso. Eu acho que nós convivemos com o mundo do profissionalismo, não tirando o que eu conversei com o Paulo, mas de qualquer maneira, de uma maneira no esporte muito grande, hoje, muitas vezes, tem atletas que casam e se separam com uma mudança até de nacionalidade, e isso vai depender da limitação que uma entidade internacional tenha. Você tem nisso alguns exemplos muito claros por aí. E é justo que um atleta vá e ganhe. Se tem um movimento de repatriamento, como nós fizemos, acho também importante. Se não conseguir, paciência! Mas isso faz parte, isso nós não vamos conseguir, nós temos de conviver com isso.
Paulo Markun: Nuzman, agora em agosto acontece o Panamericano em Santo Domingo, na República Dominicana, e as notícias que a gente tem é de algumas dificuldades ou muitas dificuldades em termos de instalação. E, de outro lado, uma dúvida sobre qual é a performance que o Brasil poderá ter. Eu queria saber um pouco das duas coisas: quais são essas dificuldades, estão resolvidas, o atleta brasileiro vai estar lá em condições de competir?
Carlos Nuzman: O Panamericano vai haver, eu acho que todas as instalações vão estar prontas dentro do possível, e nós vamos lutar para continuar no quarto lugar, acho que é importante. Agora eu vou fazer uma coisa, eu vou fazer com a minha experiência do que eu fiz com os atletas do vôlei e com os judocas, eu vou reunir todos os atletas, todos os técnicos de todas as modalidades e vou dizer o que será o Panamericano. Não quero nenhum atleta me dizendo: “Ah, se eu soubesse eu não iria”. Ninguém vai no escuro, todos vão saber se vai estar bem, ou vai estar mal. Isso para mim é uma questão fechada, não tem jeito, vai ser uma reunião pública, não vai ser de porta fechada, e todos vão saber e vamos mostrar como está ou como [vai] deixar de estar. Tem muitos esportes [em] que as instalações estão magníficas, não tem problema nenhum. Vão em frente, tem uma minoria que tem problemas. A vila nós vamos mostrar como será. Então nada vai ser escondido. Mas isso a gente também volta ao passado. Cada um de nós, quando a gente viajava, todo mundo viaja em avião de pára-quedista, nem viaja de ônibus aí 40, 50 horas. Mas nós não vamos encontrar sempre facilidades nas competições que a gente participa, nós, que eu digo, são todos. Então se...
Paulo Markun: Qual é o prognóstico do Brasil?
Carlos Nuzman: Nós vamos lutar para continuar no quarto lugar, que foi nossa classificação em Winnipeg, nós vamos manter.
Álvaro José: Nuzman, em Winnipeg o Brasil passou das 100 medalhas. Nós vamos conseguir manter isso? E mais do que isso, as instalações estão em dúvidas, a vila também e tal. A Paula é testemunha, ela esteve lá naqueles Jogos Panamericanos de Caracas em 83 quando  - a instalação eu não preciso nem falar tudo, porque você tirou os jogadores de vôlei da vila, e os colocou em um hotel em Caracas. Você prevê que isso possa acontecer?
Carlos Nuzman: Isso fez a diferença, por isso foi campeã do Panamericano.
Álvaro José: Claro, ganhou de Cuba na final com aquela atuação.
Carlos Nuzman: Veja, eu não posso antever o que vai acontecer, até por uma questão de recursos, mas vamos aguardar até lá. Vocês não tenham dúvidas que eu vou reunir todo mundo, ninguém vai ao Panamericano sem saber como está. Agora, o basquete tem um ginásio magnífico, o boxe vai ter um ginásio com ar refrigerado. Essas coisas existem, vão ter outros com boas instalações.
Álvaro José: Não, exatamente, por isso que eu falo de Caracas, quer dizer, em Caracas 83 nós tínhamos um ginásio maravilhoso.
Carlos Nuzman: Caracas, você tem razão. Quem viveu Caracas...
Álvaro José: E uma vila que os atletas de alto nível ficavam amontoados em colchões.
Aurélio Miguel: Tem que lavar os quartos antes.
Carlos Nuzman: Tinha operários trabalhando, e os atletas entrando em Caracas em 83.
Magic Paula: O que tem que servir de exemplo de Winnipeg e depois Sidney, que a gente ficou com aquela ilusão de muitas medalhas em Winnipeg, e chegou em Sidney todo mundo achando que ia arrebentar e... Eu acho que aquilo tem que ser uma coisa que ninguém pode esquecer...
Carlos Nuzman: Exatamente.
Magic Paula: Panamericano é Panamericano e Olimpíada é Olimpíada.
Carlos Nuzman: Olimpíada é Olimpíada.
Álvaro José: Nuzman, é exatamente isso. Dois meses do Panamericano, o Brasil em Sidney teve aquele susto. Passado esse tempo, como é que você analisa justamente aquele momento em que o Brasil foi para todas aquelas finais, não conseguiu a medalha.
Carlos Nuzman: Oito finais.
Álvaro José: E o futebol realmente foi uma decepção muito grande, no resultado, praticamente com o time que tinha, com o Alex e Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, e perder da forma que perdeu.
Flávio Prado: Custou o cargo ao técnico.
Carlos Nuzman: Exatamente, teve um preço.
Flávio Prado: Até na seleção principal.
Carlos Nuzman: O que acontece em termos de... Você veja, em Atlanta nós fizemos seis finais olímpicas e ganhamos três de ouro. Em Sidney fizemos oito finais olímpicas e não ganhamos nenhum ouro, isso faz parte. Se é estatística, é raro...
Álvaro José: Mas como você analisa isso hoje? Você, com essa sua mania de vencedor, você, por exemplo, da forma como colocou o Comitê Olímpico Brasileiro, inclusive, já com prestação de contas, atuação multinacional, quer dizer, o perfil de si ou de multinacional que até é o certo. Quer dizer, o dirigente tem o resultado, recebe a remuneração, se não dá certo, sai. Isso é uma coisa normal em qualquer multinacional, em qualquer banco, em qualquer segmento de empresa de alto nível. Como é que você vê essa situação do Brasil e aquilo que foi? Como é que você analisa isso?
Carlos Nuzman: Álvaro, depois de ser presidente de uma final olímpica em que a medalha de ouro mais fácil da história nós perdemos - falei nós - perdemos, oito anos depois, em uma final olímpica, a medalha de ouro mais difícil da história do voleibol em Jogos Olímpicos nós ganhamos. Então, depois desse batismo, acho que eu fiquei preparado para qualquer coisa, para qualquer surpresa e qualquer situação de ganhar ou de perder. Talvez esse sentimento o Aurélio possa ter, porque ele foi campeão olímpico, deixou também, perdeu uma medalha, enfim. Só o esporte tem isso e eu acho que nós temos que estar preparados. O importante é você colocar, dar condições aos atletas, aos técnicos, para eles poderem produzir o máximo que eles podem. Aí sim o resultado vai ficar por conta de detalhes.
Aurélio Miguel: Nuzman, falando de jogos. Você não teme que essa violência no Rio de Janeiro atrapalhe um pouco a realização dos Jogos Panamericanos de 2007? Até porque a Colômbia foi transferida para o Brasil em virtude disso. Isso não pode atrapalhar também a postulação do Brasil para os Jogos Olímpicos de 2012?
Carlos Nuzman: Olha, o que aconteceu nos Jogos Sul-Americanos foi diferente. Foi diferente ali assassinar o candidato à Presidência da República, senadores, é um negócio de 20 anos que tem. A história de eventos... agora teve o X Games [evento esportivo anual de modalidades consideradas radicais, em que os competidores disputam por medalhas e prêmios em dinheiro. Os jogos são transmitidos ao vivo pelas redes de TV Espn e ABC] sem nenhum problema. É óbvio que vai ter que ter uma solução para isso, não vai ser diferente. Agora, em termos de Jogos Olímpicos, países que têm problemas maiores de terrorismo têm que estar mais preocupados do que o Brasil. O que nós temos, hoje, eu entendo que tem solução, mas terrorismo você não sabe de onde vem.
Aurélio Miguel: E como estão os preparativos para 2007?
Carlos Nuzman: Muito fortes, nós já temos o diretor técnico do Panamericano, que é o Agberto Guimarães. Pela primeira vez na história – Flávio, escute essa - pela primeira vez na história de Jogos Panamericanos ou Jogos Olímpicos, um comitê organizador tem uma coordenadora de arbitragem, tem uma xerife de arbitragem. Não apita, vai ser a professora Berenice Arruda, da ginástica, é uma professora linha dura que vai cuidar da organização de toda a parte de arbitragem. Então, nós vamos ter uma pessoa para isso. Nós estamos trabalhando, temos os regulamentos quase todos prontos e vamos ter condições melhores do que esse dissabor que a gente assistiu ainda agora. Eu só queria fazer um pequeno comentário que a minha assessoria de imprensa me passou, se me permitir, Paulo.
Paulo Markun: Claro.
Carlos Nuzman: Marcelo, no Panamericano de Winnipeg nós tivemos seis patrocinadores: Olympikus, Petrobras, Odontoprev, Roche, Zipnet e Varig. E em Sidney, 10 patrocinadores: além destes, mais o Banco Real, a Samsung, a Intelig, a Wizard e Papel Report.
Marcelo Damato : São 11. Seis com cinco, 11.
Carlos Nuzman: O quê?
Marcelo Damato : Seis mais cinco são 11.
Carlos Nuzman: Não. Então eu li... Ah não, e no lugar da Zipnet foi a Intelig. Não, não. [começa a contar no papel que recebeu de sua assessoria] Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez. Então eu li a mais um deles. Então são seis de dez.
[...]: A Petrobras não era também um dos parceiros?
Carlos Nuzman: Era, mas eu falei, Petrobras tinha.
Paulo Markun: O nosso tempo acabou, eu queria fazer uma última pergunta, rapidinho, do Eduardo da Silva, de Campinas, que é enfermeiro: “Quais são as chances do vôlei feminino neste Panamericano”? Aí é o palpite do ex-dirigente e não do...
Carlos Nuzman: Olha, no Panamericano, no feminino, o Brasil deve ir, pelo que eu li nos jornais - eu ainda não recebi a composição da delegação - deve ir com o juvenil. Se for com o juvenil, ele deve lutar por uma classificação mais modesta, até porque eu acho que Cuba vai com a equipe principal e acho que os Estados Unidos vai com a equipe principal. Mas vai depender de quem irá com a equipe principal, é o único esporte que tem o Grand Prix no mesmo período na Ásia, os demais vão com as equipes principais.
Paulo Markun: Carlos Nuzman, muito obrigado pela sua entrevista, boa sorte na sua empreitada. Tomara que a decisão no dia 7 de julho seja a mais justa possível. E eu fico aqui, distante, já que a cidade onde eu vivo hoje, que é Florianópolis, não está na parada. Sou paulistano e gosto do Rio. Boa sorte, muito obrigado aos nossos entrevistadores e a você que está em casa.
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