Memória Roda Viva

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Pedro Simon

24/4/1989

Líder do PMDB, Pedro Simon fala das disputas políticas envolvendo as eleições para presidente e mostra crença no parlamentarismo como melhor forma de governo

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Augusto Nunes: Boa noite. Começa aqui mais um Roda Viva pela TV Cultura de São Paulo. Este programa é transmitido também ao vivo pela rádio Cultura AM e pelas tevês educativas do Piauí, do Ceará, da Bahia, de Porto Alegre e do Espírito Santo. É também transmitido simultaneamente pela TV Cultura de Curitiba e ainda retransmitido pelas tevês educativas de Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. Os telespectadores que desejarem fazer perguntas ao nosso convidado desta noite poderão usar o telefone 252-6525. Repito: 252-6525. As perguntas serão anotadas pela Bernadete, pela Carla ou pela Iara e, em seguida, encaminhadas ao nosso convidado, que é o governador do Rio Grande do Sul, Pedro Simon. O governador Simon conhece profundamente o PMDB [Partido do Movimento Democrático Brasileiro, registrado em junho de 1981], conheceu bastante o MDB [Movimento Democrático Brasileiro, fundado em 1966], conhece agora o PMDB e é um dos personagens mais importantes, sobretudo, nestes últimos tempos, nestes últimos meses, da cena política nacional. Ele sabe muito bem, por exemplo, o que está acontecendo no PMDB; talvez seja hoje o fato político mais importante em curso no quadro da sucessão presidencial. Para falar deste e de outros temas, o governador Pedro Simon estará sentado ao centro de uma Roda Viva, formada pelos seguintes entrevistadores: Marilena Dêgelo, repórter do jornal O Estado de S.Paulo; José Marcio Mendonça, editorialista do Jornal da Tarde e comentarista político da TV Bandeirantes; Emanuel Nery, repórter do jornal Folha de S. Paulo; Carlos Alberto Sardenberg, editor do informe econômico do Jornal do Brasil; Roberto Fernandes, [Bob Fernandes]  diretor da sucursal de Brasília da revista Isto é – Senhor; Alex Solnik, repórter do jornal Folha da Tarde e Flávio Porcello, editor regional da TVS de Porto Alegre. Também estará conosco registrando cenas e momentos desse programa o cartunista Paulo Caruso. Também registramos e agradecemos a presença entre nós de convidados da produção do Roda Viva. Governador Pedro Simon, nós estamos a uma semana praticamente da convenção do PMDB, pelo menos é a data prevista, próximo fim de semana; todos os grandes partidos já escolheram os seus candidatos, falta a definição do PMDB. Qual é o candidato à presidente do PMDB? Ou se o partido não tiver, qual é o candidato presidente da República do senhor?

Pedro Simon: Primeiro lugar: é uma satisfação estar aqui presente. E apenas em homenagem a todos os partidos, se me permitem uma pequena retificação: não dá para dizer que todos os grandes partidos escolheram o seu candidato. O PFL [Partido da Frente Liberal, fundado em 1985 e extinto entre 2006 e 2007, dando origem ao Democratas], que é o segundo partido, está inclusive com uma prévia marcada e o PDS [Partido Democrático Social, criado em 1980, sucessor da Arena – Aliança Renovadora Nacional e atualmente denominado PP (Partido Progressista)] que a rigor é o terceiro partido, também não escolheu. O PMDB tem a sua convenção marcada para o próximo domingo. Eu diria com muita tranqüilidade que o meu nome, se eu escolhesse, era o nome do doutor Ulysses Guimarães.

Augusto Nunes: Doutor Ulysses... Nesse noticiário dos últimos dias foi publicada uma reportagem em que o senhor aparece fazendo uma espécie de censura aberta ao governador Orestes Quércia. Como que foi esse episódio e o que o senhor disse exatamente ao governador?

Pedro Simon: Não dá para a gente analisar em um debate feito entre catorze governadores, durante praticamente dois dias, ao longo de uma longa discussão. Na verdade, se debateu, se discutiu, se analisou e se chegou a conclusão de que nós não iríamos escolher o candidato a governador, à presidência da República. Eu faço justiça de que o governador Orestes Quércia teve desempenho. Leal, concreto, objetivo, ele se dizia não-candidato, entrou e saiu não-candidato, ele se dizia favorável à candidatura do doutor Ulysses e foi um dos que mais lutou pela candidatura do doutor Ulysses.

Augusto Nunes: O senhor não fez nenhum tipo de censura ao governador Orestes?

Pedro Simon: Censura não, eu posso ter dito em um determinado momento que eu achava que ele poderia se desempenhar um pouco mais à ação com relação à defesa da candidatura do doutor Ulysses. Ele respondeu que está fazendo e eu acredito que ele que tinha razão - eu que estava equivocado - tudo aquilo que ele podia em termos da defesa da candidatura do doutor Ulysses.

Augusto Nunes: Alex Solnik, Folha da Tarde.

Alex Solnik: Governador, há poucos dias quando o senhor veio a São Paulo, o senhor foi um dos primeiros governadores a conseguir de Quércia que ele dissesse que, dependendo de uma pressão maior de todos, ele até poderia vir a ser candidato. Foi isso que o senhor declarou na imprensa e acabou parecendo como aquele governador conseguiu extrair esse depoimento do doutor Quércia. O senhor disse agora que o seu candidato é o doutor Ulysses, eu imaginava que seria doutor Quércia.

Pedro Simon: É que geralmente, quando a gente dá uma entrevista coletiva, nem sempre saem as coisas como a gente gostaria que saíssem, principalmente quando ela é feita não transmitindo a coletiva, mas junto com uma série de matérias. O que eu disse em Porto Alegre, quando me perguntaram, era que nós tínhamos três candidaturas e aí me perguntaram que o doutor Ulysses saindo, e Álvaro [Álvaro Dias, ex-governador do Paraná e líder do MDB e do PMDB] saindo e Waldir [Waldir Pires, baiano, foi exilado político, ingressou no MDB quando retornou ao Brasil em 1970] saindo, o que eu achava da candidatura do Orestes Quércia, se era ou não um bom candidato. Eu respondi: “Olha eu estou chegando de São Paulo, fiquei impressionado com o prestígio que o Quércia tem em São Paulo, eu acho que ele é um bom candidato”. Agora, a bem da verdade eu devo dizer que em nenhum momento para mim o Quércia afirmou que seria candidato, pelo contrário: de todas as oportunidades que eu falei com ele, ele sempre foi categórico, “eu não sou candidato”.

Augusto Nunes: Marilena Dêgelo, [do] Estadão.

Marilena Dêgelo: Você participou das articulações nos dias dos governadores, inclusive pensando no nome de Quércia como alternativa?

Pedro Simon: É evidente que nós não podemos deixar de reconhecer que uma campanha, uma coordenação de ação para escolher o candidato do PMDB, não se poderia deixar de fora um nome como o Quércia, Ulysses, Waldir, Álvaro, Arraes [Miguel Arraes , pernambucano, pertenceu ao PMDB, ingressando em 1990 no PSB – Partido Socialista Brasileiro. Faleceu em agosto de 2005]. Agora um nome [do] governador de São Paulo, por ser um governador de São Paulo, e o nome do governador de São Paulo pelas qualidades do Quércia, não poderia nunca de deixar de ser cogitado como candidato. E na verdade nunca se aprofundou muito as discussões em torno do seu nome porque ele sempre categoricamente afirmou que não era candidato.

Marilena Dêgelo: O senhor acha que ele ainda pode ser? Até o final da semana ele pode apresentar a candidatura?

Pedro Simon: Eu acho que poder, pode, embora ainda hoje falando pelo telefone ele manteve comigo a sua palavra.

Augusto Nunes: Emanuel Nery, Folha de S. Paulo.

Emanuel Nery: O governador Orestes Quércia, numa declaração feita a semana passada, falou que se o doutor Ulysses perdesse a eleição, faria uma estátua para ele aqui em São Paulo. O senhor não acha que o PMDB está tratando doutor Ulysses com muita crueldade?

Pedro Simon: Olha, uma das pessoas que tem a maior amizade e mais longa com o doutor Ulysses sou eu. Eu acredito que o PMDB do Brasil sempre teve muito carinho e muito respeito pelo doutor Ulysses, e acho que a recíproca é verdadeira. O doutor Ulysses sempre dedicou praticamente toda a sua vida para o PMDB. O que há - nós somos obrigados a reconhecer - ao longo de uma caminhada o doutor Ulysses ficou durante algum tempo exposto ao sol e à chuva, e a análise que a gente tem que fazer é interessante. Eu vejo com muita alegria de quarta e quinta-feira para cá a grande imprensa do país tecer loas ao doutor Ulysses: é o grande herói, é o grande homem da resistência, merece respeito, merece carinho. Mas a grande verdade...

Emanuel Nery: Mas isso pode ser a resposta...

Pedro Simon: Mas a grande verdade... Isso pode ser resposta do que aconteceu na quarta e na quinta. Agora o que aconteceu na quarta e na quinta pode ser resposta aos dois anos que, se ligando televisão, era o tri-presidente, tetra-presidente, era o homem que queria empolgar, o homem que exigia; na verdade houve uma crítica um pouco áspera ao longo da reunião com doutor Ulysses Guimarães.

Augusto Nunes: O senhor me permita, até porque, pessoalmente até, eu escrevi um artigo em que eu fiz algumas observações que eu acho que a imprensa tem feito e não são bem nessa direção. O senhor me permita discordar. A imprensa não está...

Pedro Simon: ... se fosse concordar em tudo aqui...

Augusto Nunes: ...dizendo que o Ulysses Guimarães deve ser candidato do PMDB, a imprensa está dizendo que o doutor Ulysses Guimarães merecia ser tratado com mais respeito pelos correligionários dentro do PMDB, esse é o tom do noticiário da imprensa. Até porque não é a imprensa que escolhe o governador, o candidato a presidente do PMDB.

Pedro Simon: Eu acredito que todos nós estamos tratando o doutor Ulysses com maior respeito.

Augusto Nunes: Não é o que pensa a dona Mora, mulher do doutor Ulysses.

Pedro Simon: Eu acho que a dona Mora também reconhece que estamos tratando doutor Ulysses com maior respeito. [Estão tratando] Com respeito aqueles que acham que ele deva ser o candidato e com respeito inclusive aqueles que por essa ou aquela razão acham que eventualmente ele não deva ser o candidato. Eu acho que ele deve ser o candidato porque ele tem condições, ele é líder, ele tem capacidade de ser.  As afirmações que fazem contra ele me parecem grotescas. Ele é acusado de ter 72 anos. Se essa é uma acusação, o cidadão que passou a vida que ele passou, com os cargos que ele ocupou, com a liderança que ele teve e tem acusação apenas de ter 72 anos. Eu tenho dito que com essa idade, Churchill ajudou a salvar o mundo [Sir Winston Leonard Spencer Churchill (1874-1965) foi um estadista britânico, primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial], De Gaule salvou a França [Charles de Gaulle (1890 – 1970) foi um general , político e estadista francês, chefe do governo provisório formado após a Segunda Guerra Mundial], Adenauer salvou a Alemanha [Konrad Adenauer (1876 — 1967) foi chanceler da extinta Alemanha Ocidental (1949 - 1963)] e com 26 anos Nero [imperador Romano] incendiou Roma. Com quarenta e poucos anos, Jânio Quadros [(1917 – 1992) presidente do Brasil pela UDN (União Democrática Nacional) entre janeiro e agosto de 1961] renunciou à presidência da República.  Não me parece que o fator idade seja um fator determinante para que alguém seja ou não candidato. Agora, de que existem aqueles que acham que o doutor Ulysses de certa forma sofreu um certo desgaste e que ao longo desses vinte anos se pegou ele numa fase não muito alta a nível de respaldo popular, isso é algo que me parece importante. Mas de qualquer maneira – só para sintetizar - eu acho muito importante, altamente positivo que, de repente, e, até se houvesse equívoco, erro, por parte dos governadores, de repente nós estamos aqui, o Brasil inteiro a se lembrar da figura histórica, do trabalho extraordinário que o doutor Ulysses prestou a este país.

Augusto Nunes: Carlos Alberto Sardenberg, Jornal do Brasil.

Carlos Alberto Sardenberg: O senhor falou de governadores que, como o senhor, que são favoráveis à candidatura do deputado Ulysses Guimarães e também tem outros governadores que são contra essa candidatura. Houve aquela reunião...

Pedro Simon: Eu não diria contra; defendem outra tese. Se me permite, ser contra é termo contrário, é discordar. Defender outra tese é quem acha que outra candidatura é mais propícia do que aquela.

Carlos Alberto Sardenberg: Qual é o argumento que eles levantaram, que esses governadores levantaram - o senhor não se encontra entre eles, não é? - o que dá tese da inviabilidade da candidatura de Ulysses Guimarães?

Pedro Simon: É a tese de que os levantamentos que prefeitos, que vereadores, que deputados, que lideranças do PMDB estariam a fazer nos estados mostravam que a aceitação do doutor Ulysses não era a melhor.

Carlos Alberto Sardenberg: O senhor concorda com essa avaliação?

Pedro Simon: Eu posso até concordar, eu não seria sincero se não reconhecesse que ele não está no seu melhor momento perante a opinião pública. Agora, discordo no momento que eu acho que tendo dois meses, três meses de campanha de rádio e televisão, o doutor Ulysses reúne todas as condições para explodir, para demonstrar toda a sua capacidade, toda a sua liderança e aquilo que ele almeja para esse país.

José Marcio Mendonça: Governador, aquele espetáculo que o PMDB ou a dita ala progressista do PMDB deu quarta e quinta-feira em Brasília, ficou um pouco confuso e muita gente não entendeu na verdade o que se pretendeu lá, depois de tanta reunião, tanta gente vetando todo mundo. O governador Newton Cardoso [governador mineiro (1987 – 1991)], um dos poucos que falou depois da reunião, chegou a classificar aquilo tudo lá de palhaçada. Como é que o senhor classifica aquele encontro lá?

Pedro Simon: Primeiro lugar eu diria que eu não vi ninguém vetar ninguém. Eu vi pessoas defendendo a candidatura do doutor Ulysses, eu vi pessoas defendendo a candidatura do Quércia, eu vi pessoas defendendo a candidatura do Álvaro, eu vi pessoas defendendo a candidatura do Waldir. Vetos eu sinceramente não vi. Eu acho o que aconteceu em Brasília, surpreendentemente, talvez eu surpreenda os meus amigos aqui da Roda Viva, é algo com o qual realmente nós não estamos acostumados. Esse país é um país que na nossa existência está acostumado como? Está acostumado com..., deram um golpe de Estado, derrubaram o doutor João Goulart [conhecido como “Jango”, foi presidente do Brasil entre 1961 e 1964, até deposto por um golpe militar]; se reuniram os governadores Ademar de Barros [foi interventor federal no estado de São Paulo – de 1938 a 1941 – prefeito da capital e governador do estado duas vezes] daqui, Carlos Lacerda [filiado à UDN, foi vereador, deputado federal, governador do estado da Guanabara e líder civil que apoiou o golpe militar que derrubou João Goulart] do Rio de Janeiro, o Meneghetti [Ildo Meneghetti, filiado ao extinto PSD (Partido Social Democrático), foi governador do Rio Grande do Sul e prefeito da capital desse estado] do Rio Grande do Sul, Magalhães Pinto [governador de Minas Gerais, deputado federal e senador por esse estado; filiado aos extintos UDN e PP (Partido Popular) e também ao PDS (atual Partido Progressista)] de Minas e outros, e elegeram, entre aspas, o senhor Castelo Branco presidente [chefe do Estado Maior do Exército, nomeado por João Goulart, a quem ajudou a depor, tornando-se o primeiro presidente militar após a tomada do poder]. Aí o Castelo escolheu Costa e Silva [marechal do exército brasileiro, segundo presidente do regime militar; implantou o AI-5 que, dentre outras providências, fechou o Congresso Nacional]. O Costa e Silva morreu, a junta militar escolheu Médici [Emílio Garrastazu Médici]; o Médici escolheu o Geisel [Ernesto Geisel foi o quarto presidente militar, dando início à distensão política no Brasil]; o Geisel escolheu o Figueiredo [João Figueiredo foi general e último presidente do regime militar (1979 – 1985)]. De repente, nós verificamos o quê? Nós temos partidos já consolidados: PT [Partido dos Trabalhadores, fundado em 1980], de Lula; PDT [Partido Democrático Trabalhista, fundado em 1979] tem o “seo” Brizola há mais de trinta anos como candidato. O senhor Jânio Quadros está na Europa, se diz que ele virá. Qual é o partido? Não se sabe. O senhor Collor de Mello [Fernando Collor de Mello, presidente do Brasil (1989 – 1992) pelo pequeno e extinto PRN (Partido da Reconstrução Nacional). Renunciou para evitar processo de impeachment] é candidato e depois funda um partido para ser candidato. O senhor Caiado [Ronaldo Caiado foi candidato à presidência em 1989 pelo PSD (Partido Social Democrático), partido incorporado em 2003 ao PTB] é candidato há muito tempo pela UDR [União Democrática Ruralista – entidade de classe de proprietários rurais] e agora está no PDC [Partido Democrata Cristão, incorporado em 1993 ao PDS]. Em meio a todo esse quadro de repente aparece o PMDB e resolve, me perdoem a sinceridade, eu considero praticar a democracia. Os governadores se reuniram. Dizem que foi uma crise, que foi isso, que foi aquilo. Na verdade os governadores se reuniram e decidiram o quê? Decidiram que eles não iriam escolher o candidato. Que não eram os governadores que deveriam escolher os candidatos. Pelo lado certo ou pelo lado errado, na minha opinião a decisão foi a mais correta. Entregaram para a executiva. A executiva decidiu o quê? Que também não era a executiva que deveria escolher o candidato, que deveria se deixar para a convenção. Está na convenção. Então, a crise que nós temos no PMDB é que ele quer e vai exercer a democracia. Que um cidadão que é filiado ao PMDB escolheu o convencional municipal, o convencional municipal escolheu o convencional regional, o convencional regional escolheu o convencional nacional e a convenção nacional vai escolher o candidato. Eu acho que isso é democracia! Agora, na verdade nós não estamos acostumados à prática da democracia, então parece crise aquilo que em qualquer país normal é democracia.

Augusto Nunes: Governador, o senhor acha que isso é um equívoco da imprensa todinha. Toda a imprensa apresenta como uma crise do PMDB, apresenta o PMDB como um partido um tanto perplexo pela falta de um candidato natural...

Pedro Simon: Eu até diria a você o seguinte: o próprio PMDB está perplexo, por isso que eu disse: por caminhos errados, provavelmente sim, o PMDB está caminhando para a consolidação da democracia na escolha do candidato. Porque a grande verdade é que nós poderíamos dizer: “os governadores se reuniram e esses governadores impuseram um candidato”, não aconteceu. Nós poderíamos dizer: “a executiva se reuniu, a executiva impôs um candidato”; isso não aconteceu. Aconteceu na convenção, onde trinta convencionais podem escrever o nome e esse nome é candidato.

Augusto Nunes: José Márcio, eu só queria completar a roda e depois a gente volta a esse assunto...

José Marcio Mendonça: Me faltou..., acho que eu precisava dar uma explicação. Governador o senhor você fala que aquilo lá foi uma prática da democracia e chegou à conclusão que a coisa devia ser jogada para a convenção. Pelo menos a impressão, além do que a imprensa publicou, a impressão é a seguinte: é que se demonstrou lá uma incapacidade desse pequeno grupo de escolher, então ele voltou ao que deveria ter sido desde o princípio: “vamos decidir na convenção”. Não será isso? Para que então se fez aquela reunião lá? Para decidir o que já é a regra, que é a convenção?

Pedro Simon: Você não acha que política é conversar, política é dialogar, política é debater? Eu acho que nós ganhamos, nós não perdemos nada. E repare, o que é mais importante, nós estamos há dois meses discutindo. Algum tempo atrás se dizia que a solução para [...] era PT e PDT; quando ele não existia, que não tinha mais nada com relação ao PMDB, que era um partido em decadência. De repente pára o país durante dois a três meses para debater que o PMDB existe e que tem grandes nomes, e que tem grandes lideranças, e que estão discutindo. Estão discutindo! Estão discutindo num debate de alto nível, estão discutindo num debate de alta qualificação, amigos inclusive dos mais ímpios como doutor Ulysses e Waldir, e que estão discordando em termos de busca de uma candidatura, mas isso é absolutamente normal. Eu acredito que, se a essa altura houvesse rompimento, se a essa altura o debate fosse pesado, as posições fossem de radicalizações, tudo bem. Mas nós estamos mostrando... e repito: a prática da democracia. Nós estamos mostrando aquilo que está nos deixando tontos porque a verdade nós estamos acostumados a um jogo de carta marcada e desta vez não vai ter jogo de carta marcada, nós vamos para uma convenção onde os convencionais vão decidir.

Augusto Nunes: Bob Fernandes.

Roberto Fernandes: Governador, o senhor chegou a sugerir durante o encontro em Brasília que a convenção fosse transferida para depois do dia 14 de maio para punir a incompetência dos seus colegas. Aquilo foi um desabafo ou uma tese?

Pedro Simon: Eu até não nego que pode ser uma tese. Eu digo com toda sinceridade. Eu argumentei ali, já pelas tantas, já que não chegava ao entendimento, porque não? Nós fazermos uma grande prévia entre todos os filiados, acredito a essa altura cerca de dois milhões, para até o dia 14 de agosto, que é o último prazo para se realizar convenções, fazer a escolha do candidato. Os governadores ficariam de fora, daria uma demonstração - e esse aspecto de diferença de grandeza, de desprendimento, de renúncia - e os governadores ficando de fora, ficariam com muita autoridade para coordenar, cada um no seu estado, uma prévia de que nós escolheríamos o candidato.

Roberto Fernandes: Mas eles foram incompetentes onde? Eles foram incompetentes onde?

Pedro Simon: Olha, incompetente talvez tenha sido mais um desabafo do que uma representação da realidade.

Augusto Nunes: Não seria incompetência para escolher um candidato, governador?

Pedro Simon: Talvez sim.

Augusto Nunes: Mas nesse caso...

Pedro Simon: Talvez até o fórum fosse incompetente, talvez eu tivesse me traído e, na verdade, na verdade, o fórum é incompetente. Porque, eu prefiro... eu prefiro... eu prefiro que nós sejamos acusados de incompetentes por não temos escolhido o candidato, do que nós sermos acusados de prepotentes por termos imposto um candidato. E você há de concordar que nós seríamos uma das duas manchetes nós teríamos no jornal no dia seguinte.

Augusto Nunes: Perfeito. A gente fecha a roda aqui, em seguida entrada em cena livre.

Flávio Porcello: O senhor falou em jogo. No jogo há ganhadores e perdedores. O seu grupo, o grupo dos progressistas do PMDB, perdeu na convenção para os moderados? O senhor apóia o candidato Íris Rezende?

Pedro Simon: Em primeiro lugar é muito difícil falar em hipóteses; eu não vejo nenhuma hipótese do chamado grupo progressista perder a convenção. Eu tenho absoluta convicção, e isso eu falo com a mais sincera firmeza do que estou afirmando, de que o nosso grupo vai ganhar a convenção. Vai ganhar com doutor Ulysses, vai ganhar com o Waldir, vai ganhar com Álvaro, vai ganhar com Quércia. Agora por outro lado eu sou obrigado a reconhecer o seguinte: o outro candidato, que é o ministro Íris Rezende, é uma figura que merece todo apreço, é um ministro que vem batendo safras recordes de agricultura, é um ministro que se impõe ao nosso respeito. E repare você: podemos ter divergência? Sim, nós temos. Ele vem por um outro lado e se diz sempre que o homem é ele e as suas circunstâncias; pode ser que sim, mas é um homem que merece todo respeito.

Alex Solnik: Eu queria saber antes disso, se o senhor considera realmente esse grupo chamado de “progressista”, de progressista. Já que há políticos nele, como Newton Cardoso, que, a priori, não pode ser considerado um progressista. O Quércia também não poderia se enquadrar. O senhor considere esse grupo progressista, formado só por progressistas?

Pedro Simon: Eu diria que houve um determinado momento em que um grupo de pessoas se formou em torno de um princípio que idealizou uma chapa, que teve o nome de “chapa progressista”. Eu concordo com você que tem muitas pessoas que acompanham esse grupo que são menos progressistas do que outras, que estão inclusive incluídos na outra chapa. Mas a grande verdade é o objetivo, é ação, é a finalidade desse grupo que se compõe. E o grupo e o objetivo de ação desse grupo que se compõe, o que se chama de “chapa progressista” é exatamente a das transformações. Nós defendemos a tese de que esse país precisa mudar, que a nossa sociedade precisa mudar, que as injustiças sociais que aí estão, como estão, não podem continuar. Então, o que há? É o compromisso, não importa se isoladamente esse ou aquele é mais ou é menos [comprometido]. O que importa é que o conjunto do todo é o que defende uma política para as eleições de 15 de novembro, de uma bandeira de transformações da sociedade brasileira.

Carlos Alberto Sardenberg: Governador, o senhor disse ao deputado Ulysses Guimarães que ele não estava no seu melhor momento naquela reunião? Não estava no seu melhor momento junto à opinião pública?

Pedro Simon: Eu disse ao doutor Ulysses cerca de um mês antes que eu estava preocupado, de que estava sentindo, de certa forma, em alguns segmentos do Rio Grande do Sul, que ele não estava num bom momento. Essa afirmativa, com toda a lealdade, eu tinha obrigação de dizer e disse pessoalmente.

Roberto Fernandes: Na bancada do Rio Grande do Sul mesmo, o doutor Ulysses não está bem, não é?

Pedro Simon: Não. Eu voto no Rio Grande do Sul. Tem eu e mais um grupo, mas eu reconheço que Quércia e o Waldir tem preferência na bancada no Rio Grande do Sul.

Roberto Fernandes: Os dois como, governador?

Pedro Simon: Está dividido entre ambos.

Roberto Fernandes: Entre Ulysses, Quércia e Waldir ou entre Quércia e Waldir?

Pedro Simon: O Ulysses tem menos e Quércia e Waldir, decidindo entre eles. Agora, sou obrigado a reconhecer que eu, por enquanto, não tenho participado. Nem é do meu feitio; eu sou um governador que, talvez os senhores estranhem, mas eu defendi uma tese muito longa quando eu era oposição, de que eu devo respeitar, sempre busquei respeitar a individualidade dos componentes do meu partido, como deputados à época e hoje inclusive membros do meu governo e secretários do meu governo, como deputados e senadores, têm a mais absoluta autonomia. Eu digo o que penso, mas não determino a obrigatoriedade de que as pessoas têm que seguir o meu pensamento.

[...]: Qual foi a reação do doutor Ulysses?

[sobreposição de vozes]

Augusto Nunes: Governador, por favor, quando o senhor ouvir várias vozes ao mesmo tempo o senhor olha para cá!

Pedro Simon: O importante é ter chefe, né!? [risos]

Augusto Nunes: Governador... nós vamos voltar a esse tema; agora eu preciso também preciso fazer ao senhor algumas perguntas que chegam pelos telespectadores, não necessariamente ligadas ao que estamos conversando. Depois a gente retoma o assunto. Mauro Soares, de Cosmópolis, diz o seguinte: “o senhor diz que hoje vivemos uma democracia, mas o senhor não tem práticas democráticas, não pratica democracia, tanto que não dialogou com os sem-terra da fazenda Santa Elmira, deixando a polícia gaúcha agir com violência com as pessoas daquela localidade”. E a Rosália Silva, de Porto Alegre, diz que “os gaúchos reclamam pelos sem-terra e o senhor se preocupa, no momento, exclusivamente com a candidatura do PMDB”.

Pedro Simon: Antes de chegar aqui, a última coisa que fiz foi visitar a um grupo de agricultores e dois sacerdotes que estão fazendo uma greve da fome. Antes de vir aqui, determinei ao meu secretário de agricultura que fosse a Santa Maria falar a Dom Aloísio Lorscheider [cardeal e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de inclinação progressista e ligado a movimentos sociais; faleceu em 2007], para discutir com ele sobre aquisições de terras. É uma coisa muito interessante. Reforma agrária é um problema do governo federal, não é problema do governo do estado; mesmo sendo um problema do governo federal, o meu governo está comprando terra e está fazendo assentamento. Agora, diga-se de passagem, há que ser o único governo de estado que está comprando terra e está fazendo o assentamento. E é o único lugar do estado que estão fazendo greve e exigindo que o governo do estado que compre terra. Essa figura é grotesca. Porque a grande verdade, a grande realidade, é que a responsabilidade de reforma agrária é do governo federal. Eu não posso desapropriar; eu posso comprar, desapropriar eu não posso. E na hora de comprar, a grande verdade é que eu tenho que buscar o dinheiro, e estou conseguindo o dinheiro do governo do estado, e estou tentando comprar e estou conseguindo comprar. Os assentamentos estão sendo feitos. A grande verdade é que, aos poucos, nós estamos colocando, e é para mim uma questão de honra, que é a fazenda [...] que todos que ali estão sejam reassentados. O que está acontecendo é realmente um fato estranho. Houve uma determinada reunião com grupos aqui em São Paulo onde se disse que os agricultores sem-terra lá de Porto Alegre estavam muito pacíficos, estavam indo muito na conversa do Simon, que estava fazendo assentamento, que ela precisava fazer uma reação. Aí foi feita a reação. Foi feito uma ocupação numa terra absolutamente agricultável e quem fez, quem coordenou e quem comandou a saída desses agricultores foi o juiz de direito. O juiz de direito que determinou a retirada deles, e o juiz de direito que comandou a brigada na retirada e determinou a prisão dessa pessoa, não foi o governador Pedro Simon, que, aliás, diga-se de passagem, nem estava em Porto Alegre.

Emanuel Nery: Governador, na semana passada, ao conversar com o senhor em Brasília, o ministro Luciano Coutinho [economista, secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia (1985 – 1988)], que é do seu partido fez a seguinte declaração...

Pedro Simon: Não é verdade.

Emanuel Nery: A declaração é textual.

Pedro Simon: Não é verdade.

Emanuel Nery: Posso ler a declaração?

[sobreposição de vozes]

Pedro Simon: Tem inclusive um palavrão. Pode.

Emanuel Nery: “O doutor Ulysses está mal nas pesquisas do Rio Grande do Sul porque você está fazendo um governo de merda e todo mundo sabe que você é amigo do doutor Ulysses”. Eu queria saber que o senhor acha dessa avaliação?

Pedro Simon: Não é verdade. Eu acho que o jornal devia [...] mais antes de fazer uma afirmativa dessa natureza e que, pela palavra dele, eu posso lhe afirmar que não é verdade. Pelo contrário. O Luciano, que é um amigo íntimo meu - inclusive quando eu fui ministro o convidei para meu secretário geral e quase que ele aceitou - estava realmente muito magoado, muito ressentindo com as negativas com relação à candidatura do doutor Ulysses. Mas não teve nada, nenhuma vírgula parecido com isso aí. Ele está vivo, mora aqui em São Paulo. Vocês podem perguntar isso para ele.

José Marcio Mendonça: Governador, o economista Luciano Coutinho pode não ter dito isso, como disse o senhor nós acreditamos. Mas o doutor Ulysses, na reunião que teve com os governadores, quando o senhor foi lá para dizer para ele que ele já não servia mais como candidato do PMDB, disse a todos que ele estava com problemas por causa da administração de muitos, por causa de ter ficado com muitos e várias questões, inclusive um apoio ao mandato de cinco anos com presidente Sarney.

Pedro Simon: Com relação a essas duas coisas, são verdade. Com relação ao mandato de cinco anos, eu acho que o doutor Ulysses é o grande responsável pelo que esta aí. Porque se ele tivesse aceitado a minha proposta, e eu lutei terminantemente para que nós tivéssemos o parlamentarismo, eu dizia para ele, doutor Ulysses: “Doutor Ulysses, adotado o parlamentarismo esse país não tem outro candidato a ser presidente no parlamentarismo que não o senhor”. Infelizmente o doutor Ulysses foi deixar para defender a tese do parlamentarismo na última hora, quando praticamente foi impossível derrotar o presidente eleito. Eu fui daqueles que defendi os cinco anos, sim, com parlamentarismo. Se dependesse de mim... se dependesse de mim... Como?

Carlos Alberto Sardenberg: Parlamentarismo por cinco anos?

Pedro Simon: Sim, senhor! Se dependesse de mim, desde o dia 5 de outubro do ano passado, que o doutor Ulysses já não governava esse país, não era presidente, mas nós teríamos um gabinete com um primeiro ministro. Então, a mim não atingem essas afirmativas do doutor Ulysses. Com relação à segunda parte, quando ele diz que tem governadores que estão mal de pesquisa e por isso ele está mal, também é verdade, é que ele é a cara do PMDB. Na hora que o PMDB vai bem, ele vai bem, na hora da vitória de 1986, ele era o grande herói. Se o PMDB está mal, é natural que repercute também nele. Então, ele não está dizendo isso que parece uma coisa muito bombástica, ele está dizendo a realidade. Se ele é a cara do PMDB, se ele é a síntese do PMDB, quando o PMDB vai bem, ele vai bem, quando o PMDB vai mal, ele vai mal. Em 1986 ele era o herói: o PMDB ganhou. 1988 nós fomos mal, atinge a ele diretamente. Não atinge o governador de São Paulo, por quê? Porque o governador de São Paulo tem a pesquisa pessoal dele. Não atinge o governador do Paraná, por quê? Porque o governador do Paraná tem a pesquisa pessoal dele. Agora, o partido no seu todo, então indo mal, é a cara do doutor Ulysses.

[sobreposição de vozes]

Augusto Nunes: ... no momento está indo mal?

Pedro Simon: ... eu acho que vai muito bem atualmente. De uma hora para outra...

[sobreposição de vozes]

Pedro Simon: ... de uma hora para outra... de uma hora para outra, as respostas estão sendo no sentido afirmativo. Eu só estou querendo dizer o seguinte: nós podemos ficar aqui até amanhã, o meu candidato é o doutor Ulysses.

[sobreposição de vozes]

Pedro Simon: Eu levo daqui até três horas, discutindo essa afirmativa; até acho muito boa, muito positiva, eu acho que nós estamos prestando uma grande homenagem ao doutor Ulysses. Eu acho os jornais, as televisões...

Augusto Nunes: Então o senhor vai tirar uma dúvida que nós temos aqui, que é a seguinte: os governadores se reuniram e foram até a casa do doutor Ulysses para dar alguma notícia a ele. O doutor Ulysses, pela primeira vez, fez questão de que a dona Mora, a sua mulher, ficasse o lado para ver o que ia acontecer. Se não era a notícia...

Pedro Simon: Em primeiro lugar não é verdade...

Augusto Nunes: Só para completar...

Pedro Simon: Vamos repor aos poucos a verdade...

Augusto Nunes: ...mas, se não era notícia de que ele não servia para ser candidato, ele ia ser a notícia de que ele era o candidato, do contrário não dá para entender porque tantos governadores foram até lá...

Pedro Simon: Eu não tenho por que negar...

Augusto Nunes: ...afinal, o que os governadores foram fazer na casa do doutor Ulysses?

Pedro Simon: Em primeiro lugar, apenas uma retificação: a dona Mora participa das nossas reuniões quase que permanentemente.

Augusto Nunes: Não desse tipo, não é, governador?

[sobreposição de vozes]

Augusto Nunes: Ela participa de reuniões sociais...

Pedro Simon: Não! ...discussões políticas eu tenho participado com a dona Mora presente permanentemente, ela é uma mulher de grande valor, uma liderança extraordinária, uma companheira que eu tenho grande carinho e grande respeito...

Augusto Nunes: Mas consta que... [tentando interromper]

Pedro Simon: ...não há como deixar de reconhecer que os governadores foram dizer ao doutor Ulysses que estavam preocupados com o nome dele. É verdade! Isto é verdade. Não vou deixar de reconhecer. É verdade. Foi essa afirmativa que foi levada a ele. “Olha, doutor Ulysses”, diziam os governadores, “nós achamos que o seu nome a essa altura tem dificuldade e nós, como seus amigos, achamos que tem que se refletir sobre isso”.

Augusto Nunes: Marilena quer fazer uma pergunta?

Marilena Dêgelo: Há duas semanas o senhor esteve conversando com o candidato do PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira, fundado em 1988 por dissidentes do PMDB], o senador Mário Covas, em São Paulo, e dessa conversa, caso o candidato do PMDB seja o Íris Rezende, o senhor pode apoiá-lo?

Pedro Simon: Eu tenho o um carinho muito grande pelo Covas; eu acho até que nessa altura, se o Covas tivesse ficado no PMDB, muito provavelmente ele teria condições de ser o candidato do PMDB. Eu acho também [que] se o grupo do PSDB não tivesse saído, a nossa situação seria de menos atrito dentro do PMDB. Acho também que o Covas podia ter feito assim como fez Tancredo [Foi dos quadros do PSD, PP, MDB e PMDB; eleito presidente do país pelo Colégio Eleitoral, faleceu antes de tomar posse, em 1985]: saiu, fundou o PP, lá pelas tantas ele viu que aquele não era o caminho e retrocedeu...

Roberto Fernandes: Ainda dá tempo governador...

Pedro Simon: ...de outra que a questão fosse retificada. Agora, acho o Covas um grande quadro, acho o Covas um grande nome, mas, com toda franqueza, acho que ele cometeu um grande equívoco.

Emanuel Nery: Agora, governador, o que sobra para o senador Mário Covas com essa possível implosão do PMDB?

Pedro Simon: Olha essa “possível implosão do PMDB”, me perdoem, eu tenho... desde o antigo MDB até hoje, essa é uma pergunta que pelo menos uma vez por mês a imprensa me faz: “na próxima semana implode o MDB”. Essa é uma tese que ao longo do tempo nós vamos discutindo e vamos debatendo. Pelo menos, até agora não implodiu...

[sobreposição de vozes]

Pedro Simon: [...] pelo menos até agora não implodiu. Eu não sei, mas eu, se fosse os amigos, esperava até segunda-feira, porque muito provavelmente o resultado possa ser bem diferente e aquilo que você imagina ser uma implosão do PMDB, seja algo que os nossos sociólogos e os nossos historiadores políticos têm que analisar. Uma convenção altamente democrática, onde se decidiu por maioria.

Roberto Fernandes: Mas, governador, parece que existe uma dúvida: a convenção vai ser nesse final de semana mesmo ou vai ser adiada?

Pedro Simon: Eu acredito que ela deverá ser este final de semana. Agora há um fato novo de que deverá falar a representação do Tribunal Superior Eleitoral de um lado e o Congresso Nacional do outro. O Congresso Nacional provavelmente vote ali até domingo ou o Tribunal Superior Eleitoral descida também. Na minha opinião não vejo nenhum problema nesse sentido.

Flávio Porcello: Governador, o senhor...

Pedro Simon: Para mim - só para dar a resposta completa - para mim o problema que a convenção pode sair; ela saindo, está saindo; ela tomando uma decisão, está decidido; se a lei alterar ou se o tribunal modificar, nada impede que a gente repita, tendo alguma dúvida, a gente repita, mas o nome será aquele nome indicado na convenção...

Roberto Fernandes: O senhor é contra o adiamento então, é isso?

Pedro Simon: Eu sou contra o adiamento; ela deve ser feita independente, porque, ou vale a palavra ou não vale nada. Se faz uma convenção, se decida na convenção, a decisão que ela tomar, se amanhã ou depois houver alguma alteração na lei, nós apenas faremos adaptação à convenção.

Flávio Porcello: O senhor é muito amigo do deputado Ulysses Guimarães. Consta até que o senhor fazia parte, o senhor fazia parte daquele chamado ministério de Ulysses dentro do governo Sarney. O senhor e o governador Waldir Pires e mais o ministro Archer, Renato Archer [militar e político, fundador do PMDB, e ministro da Ciência e Tecnologia (1985 – 1987) e também da Previdência Social (1987 – 1988)]. O senhor teria dito ao doutor Ulysses, depois de promulgada a Constituição, dia 5 de outubro [de 1988], que ele deveria se afastar da cena política, se preservando para voltar agora em plena campanha eleitoral como o grande nome do PMDB, sem carregar o desgaste de estar próximo do governo Sarney?

Pedro Simon: Primeiro: eu sempre fiz parte do grupo dos amigos do doutor Ulysses; não fui [...] por uma simples razão que não devo [...]. Agora, fui dos amigos íntimos do doutor Ulysses, dos chamados “ministros do doutor Ulysses”, embora não fui ministro escolhido pelo doutor Ulysses. Diga-se de passagem, pelo doutor Ulysses eu não teria sido ministro, eu teria sido líder do governo e pelo doutor Tancredo eu também teria sido líder do governo. A minha escolha para o ministério foi quase que uma imposição a mim e ao doutor Tancredo da bancada do PMDB do Rio Grande do Sul, que reivindicava o ministério para o Rio Grande do Sul na minha pessoa. Agora a segunda parte também é verdade. Um mês antes da promulgação da Constituição, o doutor Ulysses nos chamou aos seus amigos pessoais para dizer – e eu acho que isso é bem dele - o que ele faria depois de promulgada a Constituição. A minha sugestão foi no sentido de que ele deveria renunciar o mandato de presidente da Câmara, afastar-se da presidência do MDB [PMDB] e fazer uma longa viagem pela Europa. Viagem essa que ele estaria debatendo, discutindo, da qual nós o chamaríamos para ser presidente da República. Eu lembrei o caso do doutor Getúlio que é eleito senador por dois estados e deputado por sete, indo para o senado, sentando no senado pensando que seria o grande herói, a UDN [a União Democrática Nacional era opositora de Getúlio Vargas; extinta no governo militar, seus quadros compuseram a Arena] começou a fazer uma série de bateria de discursos contra ele. O que ele fez? Fez jus se defendendo, foi para Itu e ficou até lá até o momento em que veio para presidente da República.

Flávio Porcello: Porque o senhor não conseguiu convencer o doutor Ulysses a sair do país?

Pedro Simon: Porque ele é um lutador, ele é um homem de garra, ele é um homem que tem um outro estilo. Ele achava que a obrigação dele era ficar aqui, era participar das eleições municipais, era continuar na luta, e esse é o seu estilo e não sei se tem condições de mudar.

Carlos Alberto Sardenberg: Governador, está parecendo que o senhor está apoiando o deputado Ulysses Guimarães mais pelo passado, pela fidelidade, pela história do doutor Ulysses. Porque o senhor diz que está numa situação ruim, que ele, sabidamente, as pesquisas vão ruins para ele, essa situação toda. O senhor acha que tem alguém melhor que ele no PMDB?

Pedro Simon: Perdão, não me faça essa injustiça! Ao mesmo tempo eu estou dizendo que o doutor Ulysses reúne todas as condições. Com rádio, com televisão, vamos reverter este quadro. Eu não tenho nenhuma preocupação desse tipo. Agora respondo, com toda prontidão: na minha opinião pessoal: doutor Ulysses, Waldir Pires, Miguel Arraes, Orestes Quércia, Álvaro Dias, qualquer um deles! O PMDB, o nível do PMDB, com eles, ganha facilmente as eleições, não tenho nenhuma preocupação.

Augusto Nunes: O senhor não menciona deliberadamente o ministro Íris Resende?

Pedro Simon: Eu sou até capaz de dizer que inclusive ele poderia ganhar as eleições.

Alex Solnik: Governador, o ministro Íris Resende por sinal...

Augusto Nunes: Otimista em relação ao PMDB?

Pedro Simon: Eu posso até estar otimista, mas se você olhar até as tais das pesquisas você repara que tem dois candidatos que estão aí na briga há mais de dois anos; aliás, tem um que está na briga há trinta anos; e sai lá das Alagoas um jovem desconhecido e de repente nem mais de trinta dias, faz um programa e fica em primeiro lugar. Você há de convir que no momento em que nós nos unirmos, que nós somarmos, que nós nos identificarmos, que nós vamos nos apresentar com a nossa ideologia e com a nossa bandeira, nós temos condições de chegar lá.

Alex Solnik: Governador, o ministro Íris Resende, que é o candidato moderado, ocupa o ministério que o senhor ocupou – Ministério da Agricultura - então o senhor deve conhecer bem dimensão da máquina que isso representa, não é? E está claro que está utilizando...

Pedro Simon: No meu tempo não representava nada.

Alex Solnik: Sim, mas eu estava dizendo...

[sobreposição de vozes]

Augusto Nunes: Milagre está fazendo então o ministro Íris Resende, porque há alguma máquina funcionando.

Pedro Simon: Eu reconheço apenas que o ministro Íris Resende, sou obrigado a reconhecer, não há como negar: em três anos tem safra recorde.

Alex Solnik: A safra de outdoors... [risos]

[sobreposição de vozes]

Alex Solnik: ... a safra de outdoors que há pela cidade ou pelo Brasil [...] também é recorde, não é?

Pedro Simon: Essa é equivocada, essa [...] eleitoral.

Alex Solnik: Eu queria perguntar o seguinte: o senhor considera democrático o ministro estar utilizando a máquina dentro da sua campanha, como a gente está vendo?

Pedro Simon: Eu não conheço que ele tenha utilizado a máquina, agora essa dos outdoors, indiscutivelmente, é contrária à lei...

[sobreposição de vozes]

Pedro Simon: ... foram retirados. Essa eu conheço porque vi, e essa que eu conheço e vi eu reconheço que ela é contrária à lei e deverá ser retirado.

José Marcio Mendonça: Governador o senhor falou que...

Pedro Simon: Espero que me perdoe. Ao longo - você sabe melhor do que eu - que ao longo das campanhas municipais, isso tem sido um vício nosso, de não respeitar a lei. Aqui em São Paulo, por exemplo, muito antes de nós sairmos para as convenções, os candidatos a prefeito e, antes, os candidatos a governador faziam cartazes, faziam o diabo e não respeitavam e é uma tradição desse país: leis muito boas, muito perfeitas; e ninguém cumpre.

José Marcio Mendonça: Governador, o senhor falou na resposta à pergunta anterior, nesse PMDB unido que vai levar o doutor Ulysses, o governador Waldir Pires e os outros...

Pedro Simon: Eu disse que, se o PMDB tiver essa humildade e mantiver essa integridade, seja qual for o candidato, ganha.

José Marcio Mendonça: Qual o PMDB que o senhor está falando? PMDB que também juntaria o grupo do ministro Íris Resende, o grupo do pessoal do palácio do planalto ou só esse PMDB dito progressista?

Pedro Simon: O PMDB que eu defendo eu não o executaria em termos de idéias propriamente dita. O próprio amigo Waldir, que é hoje o líder dessa área progressista, quando teve que compor o seu governo, ele já foi mais liberal na forma de compor, o seu vice e o seu senador. Isso demonstra que o nome, e repito que na hora de debater, na hora de analisar, ele analisa caso a caso. O que eu defendo, e me perdoe à franqueza, eu sou obrigado a dizer, é uma vida que eu defendo desde os meus tempos de estudante. Eu tenho uma linha reta. Eu acho que nós temos que ser um país de transformações e acho que esse país não pode ser a oitava potência do mundo convivendo com tanta fome, com tanta miséria, com tanta injustiça social. Eu não defendo a revolução social, eu não defendo quanto pior melhor, mas eu não defendo a acomodação dessa realidade que está aí. Eu acredito que nós temos condições imensas de, apesar das nossas dificuldades, olhar para o social. Nós temos condições de que esse país, que tem a potencialidade que tem, terminar com a fome, terminar com a miséria, terminar com a subnutrição. Eu acho que o PMDB que eu defendo é em cima dessas idéias; os nomes, para mim, pouco importam, porque se fora por nome eu estaria em outro partido eu não estaria no PMDB. Eu defendo um partido que lute por idéias, que lute por conteúdo; se eu sou simpático pelo doutor Ulysses? Sim, mas não acho que o doutor Ulysses é o salvador do Brasil, como não acho que nenhum candidato que vá ser eleito presidente da República será salvador. Aliás, digo mais: tenho muita preocupação de que esse debate seja feito a nível de quem for eleito presidente no dia 15 de novembro vai salvar o Brasil, não vai salvar coisa nenhuma. Está lá Venezuela, onde se fez uma campanha espetacular, um herói foi eleito presidente da Venezuela, 45 dias depois deu no que deu. Eu acho que, se dependesse de mim, inclusive, nós estaríamos vivendo um regime parlamentarista. Chega dessa história da gente endeusar o doutor Getúlio [Getúlio Vargas], todo Brasil é Getulio e aí o quê: ele terminou se suicidando, o seu maior adversário vai para o poder, que é o Café Filho [presidente de 1954 a 1955, apoś o sicídio de Getúlio]; chega de a gente achar que o salvador da pátria foi Jânio Quadros, daí a sete meses ele renuncia e dá no que deu. Chega da gente achar que o salvador desse país era doutor Tancredo. Eu era ministro, dormi ministro do Tancredo, acordei ministro do Sarney. Eu acho que defender nomes e achar que os homens vão salvar este país, este país que vai fazer um século de República, um século de grotesco, de errado, de fora da realidade. Por isso que eu acho que nós devemos defender idéias. Você me diz: o que eu acharia mais importante nesse debate, mais do que escolher o presidente da República? [Seria] se nós conseguíssemos que o candidato da presidência da República assumisse perante a nação o compromisso de que vai defender a implantação do parlamentarismo para o regime que há de vir [corrigindo-se]... para o próximo governo que há de vir.

[...]: É a proposta do Mário Covas.

Roberto Fernandes: O senhor é aliado então de Covas e de Lula.

Pedro Simon: Sou aliado de Covas e de Lula, por que não? Acho que por aí eu sou parlamentarista. Não sei ao nível desse Congresso, não sei se ao nível da oportunidade, será nesse governo que vem aí ou não, agora que eu sou apaixonado pelo parlamentarismo, eu sou; que eu acho que, se nós formos na análise da história desse país, nós vamos verificar que o regime presidencialista é o chamamento de todas as crises, é! O regime presidencialista. Eu mesmo! Fui eleito governador do estado com a maior diferença da história que se teve em toda eleição no Rio Grande do Sul; daí a dez dias eu estava cercado; a não ser a brigada militar, o funcionalismo todo estava em greve; daí a 15 dias invadiram 20 mil domicílios numa guerrilha urbana, uma coisa “fantástica” que aconteceu em Porto Alegre; esse é o regime presidencialista. O cara é Deus, daí dois dias ele vira diabo. No regime parlamentarista, no parlamentarismo o primeiro ministro é sério, é honesto, é digno e é decente, porque senão tiver qualquer coisa dessas, ele cai no dia seguinte. O primeiro ministro não tem parente, não tem cunhado, não tem genro, não tem dúvida sobre ele, ele cai na mesma hora.

Alex Solnik: É que muita vezes o primeiro ministro é aquilo, o senhor disse com toda razão, presidencialismo trouxe crise...

[sobreposição de vozes]

Alex Solnik: ...eu quero saber...

Pedro Simon: No parlamentarismo... [digo] no presidencialismo que elege e ele fica circulando, ou tu mata, como nos Estados Unidos, ou tu derruba, como no Brasil. No parlamentarismo o primeiro ministro fica; se ele cometer uma irregularidade, o Congresso derruba ele; se o Congresso fez violência, o presidente dissolve o Congresso; é diferente! Ele não é obrigado a agüentar! Tu não faz um contrato por cinco anos, onde um presidente da República é praticamente um ditador e tu tem que agüentar! No parlamentarismo, o primeiro ministro fica enquanto tiver a confiança do Congresso! Não tem a confiança do Congresso, cai o nome dele! O Congresso usurpou de suas funções, o presidente da República derruba o Congresso!

Alex Solnik: Mas pode provocar crise da mesma maneira que o presidencialismo...

Pedro Simon: Não, não... uma coisa é ter tantos primeiros ministros quanto quiser, outra coisa é você agüentar um presidente por cinco anos, queira ou não queira.

[...]: Isso é uma referência ao presidente Jose Sarney ou não?

Pedro Simon: A todos que antecederam. Nós vivemos crises semelhantes. Se for olhar o presidencialismo nesse país, desde Deodoro [Manuel Deodoro da Fonseca, militar, proclamador da República e primeiro presidente do país, cujo governo provisório durou de 1889 a 1891], o Deodoro já não cumpriu. Logo depois veio o Floriano [Floriano Peixoto, militar, presidente de 1891 a 1894]. Desde o primeiro até hoje, é uma crise que vem se sucedendo, ela é permanente.

Carlos Alberto Sardenberg: Por falar em presidente, governador, o senhor foi ministro do primeiro governo na Nova República [período político iniciado com a eleição indireta do primeiro presidente civil (Tancredo Neves) após o regime militar]. Na sua avaliação sobre o governo: ele foi piorando desde o primeiro dia até aqui?

Roberto Fernandes: Deixa eu completar a pergunta dele. Tem um episódio meio mal explicado até hoje. O senhor foi portador, teria sido portador, às vésperas da Nova República, de um veto da bancada do Rio Grande do Sul ao presidente José Sarney por corrupção. Está correta essa história ou não?

Pedro Simon: É verdade. Uma parte é completamente falsa [...]; eu nunca falei em corrupção. O PMDB no Rio Grande do Sul defendeu a seguinte tese...

Roberto Fernandes: Isso não aconteceu na reunião à noite...

Pedro Simon: Isso ocorreu na minha casa, onde estava o doutor Tancredo, o doutor Ulysses, eu, doutor Sarney, o doutor Aureliano [Antônio Aureliano Chaves de Mendonça foi governador de Minas Gerais pela Arena, de 1975 a 1978; faleceu em 2003] e o doutor Marco Maciel [fundador do PFL (atualmente Democratas) por uma cisão do PDS, foi deputado, governador, senador e vice-presidente da República]; e aí eu levei uma decisão que do PMDB do Rio Grande do Sul, onde eu dizia que o candidato do PMDB do Rio Grande do Sul, o natural, era o doutor Ulysses, mas que, os chamados na época “governadores da frente liberal”, que eram os governadores do Nordeste e que tinham saído, divergido do PFL - do PDS, perdão - e apoiado doutor Tancredo, diziam que o candidato tinha que ser o doutor Tancredo, por uma razão muito simples: que o doutor Ulysses era o presidente do PMDB; ao longo da vida tinha havido grandes divergências, grandes discordâncias entre o presidente do MDB, que era o doutor Ulysses, e presidente da Arena [A Aliança Renovadora Nacional foi um partido criado em abril de 1966, que seria o suporte do regime militar, criado a partir da extinção do pluripartidarismo, passando a viger no país o bipartidarismo – com o MDB a ela se contrapondo], depois presidente do PDS, que era o doutor José Sarney. Nós concordávamos, reconhecemos que, na verdade a candidatura do doutor Ulysses deveria ser afastada e entrar a candidatura do doutor Tancredo, que tinha mais homogeneidade em torno dela. Mas o PMDB do Rio Grande do Sul achava que a recíproca devia ser verdadeira: que também o presidente da Arena deveria ser afastado e se colocar num âmbito que teria mais homogeneidade. Agora, nunca falamos em corrupção e não foi nenhum outro motivo senão esse que eu estou afirmando e não foi meu, foi o PMDB do Rio Grande do Sul.

Augusto Nunes: Por favor, eu preciso chamar o intervalo. A gente volta esse assunto em seguida. Roda Viva com o governador do Rio Grande do Sul, Pedro Simon, volta já, já.

[intervalo]

Augusto Nunes: Retomamos aqui a nossa entrevista com o governador do Rio Grande do Sul, Pedro Simon, convidado do Roda Viva desta segunda-feira. Antes de fazer a primeira pergunta da segunda parte do programa ao governador, eu registro a presença aqui na platéia entre nós do deputado Cezar Schirmer, que foi secretário e líder na Assembléia do governo Pedro Simon. Governador, neste fim de semana ocorreu um crime que despertou bastante comoção em Porto Alegre, agora com a divulgação pelas emissoras de TV, de alguns detalhes desse crime em todo Brasil, chamado ‘Crime de Ipanema’. A Lurdes de Souza, de Porto Alegre pergunta o seguinte: “O Crime de Ipanema, onde se envolveram um coronel, seu filho – que era capitão da brigada” - o senhor falou de brigada agora há pouco – “sua mulher e um filho de 16 anos. Todos eles, me parece, massacraram até a morte um jardineiro, um caseiro”. Pergunta, Lurdes de Souza, depois de dar essa informação: “O senhor não vai exigir alguma providência? Vai haver mais um caso de impunidade, só porque o chefe da família envolvida no crime é militar da brigada?”. Manoel dos Anjos, de Santo André, aqui no ABC, pergunta: “O senhor se sente constrangido com o noticiário sobre a morte de um caseiro por um oficial da brigada no Rio Grande do Sul?”. E Mário Piva, de Pirituba quer saber: “Que providências o senhor tomou ou vai tomar quanto ao chamado ‘Massacre do Caseiro’”?

Pedro Simon: Eu posso garantir que há um respeito muito grande pela brigada do Rio Grande do Sul. Ela é uma corporação séria, que inclusive na época do regime militar não esteve envolvida naquilo que se chama tortura [...]. Eu posso garantir que, antes de eu conversar com o comandante da brigada, o coronel Jerônimo, eu já tinha iniciado todas as providências e posso garantir que, exatamente por ser coronel da brigada, ele vai ter um tratamento mais rigoroso e vai ter uma cobertura mais enérgica do que fosse um cidadão comum. Ele vai ter que responder mais, com mais firmeza do que fosse um cidadão comum, isso eu posso garantir, pelo meu governo e pelo comandante da brigada.

Emanuel Nery: Governador, já que o assunto, agora, foi para o Rio Grande do Sul, eu queria saber do senhor como que está a sua convivência com o prefeito Olívio Dutra [prefeito de Porto Alegre (1989 – 1993) e governador do Rio Grande do Sul (2003 – 2005)] do PT? E queria saber também se o prefeito de Porto Alegre contrata parente, como a Luíza Erundina [prefeita de São Paulo (1989 – 1993) pelo PT, filiando-se depois ao PSB] fez aqui em São Paulo?

Pedro Simon: Em primeiro lugar, a minha convivência com Olívio vai muito bem. Ele é um homem de bem, um homem sério, um homem respeitável [...], e está fazendo uma administração que a mim merece muito respeito. Ao que sei eu posso me encontrar com o Olívio Dutra nesse sentido. Eu não conheço nenhum parente dele na sua administração que tenha sido nomeado. Aliás, essa é uma coisa que [...], que eu considero realmente importante. Fazer um governo sério. Tem aí candidato que se apresenta com a austeridade e faz o carnaval da austeridade. Eu acho que isso é obrigação. Eu posso dizer com toda sinceridade. Eu, por exemplo, tenho três anos de vereador, 16 anos de deputado estadual, tenho oito anos de senador, um ano de ministro e dois anos de governo do estado. Na minha vida eu nunca nomeei nenhum parente, eu nunca nomeei um cupincha, eu não nomeei ninguém que ficasse depois que eu saí. Na Assembléia Legislativa não tem um funcionário nomeado por mim, por que quando eu saí, ele saiu; no senado não tem um funcionário nomeado por mim, quando eu saí, ele saiu; no Ministério da Agricultura não tem funcionário nomeado por mim e quando eu saí, eles saíram e no governo do estado provavelmente também não ficará nenhum funcionário meu. Não tenho uma diária, não tenho uma viagem para o exterior, nunca entrei num jatinho quando ministro, não morei na residência do ministro, não moro no palácio Piratini. Eu acho que isso, toda via, é minha obrigação. Fazer alarde de seriedade, de integridade é algo que não faz o meu jeito e não faz o meu gênero.

Augusto Nunes: Governador, a produção do Roda Viva gravou uma pergunta dirigida ao senhor, do prefeito de Porto Alegre, Olívio Dutra. O senhor vai poder acompanhar por aqueles monitores e responder em seguida.

Olívio Dutra [vídeo]: ... e temos recebido inúmeras queixas e reivindicações da população de Porto Alegre, das comunidades, a respeito das escolas públicas estaduais, algumas delas caindo aos pedaços e a população nos reivindicando que interditemos essas escolas. Interditar uma escola significa fechar essa escola e as crianças não terem para onde ir, continuar os seus estudos. Então, é do interesse do governo, da administração popular aqui em Porto Alegre, que, junto com o governo estadual, a gente venha a investir mais recursos na construção de mais escolas, mais salas de aulas e na contratação de professores. É possível a gente fazer isso aqui em Porto Alegre em curto prazo, governador?

Pedro Simon: Eu acho que a pergunta é muito correta por parte do prefeito Olívio Dutra. Não há dúvida nenhuma de que nós herdamos uma situação escolar realmente dramática. O prefeito que antecedeu, o prefeito Collares [Alceu Collares, prefeito de Porto Alegre (1986 – 1989) e governador do Rio Grande do Sul (1991 – 1995)], inclusive interditou, só em Porto Alegre, mais de 100 escolas que estavam em situação totalmente sem condições de serem ocupadas. O meu governo? O meu governo tem se dedicado de corpo e alma à reconstrução dessas escolas. Nós ficamos praticamente uma dezena de anos sem investir um centavo em construção de escolas e manutenção de escolas. A situação - e o doutor Collares me fez um favor, porque ele filmou e mostrou a população [...], como estavam essas escolas, como eu recebi essas escolas - e posso dizer que metade delas já estão praticamente novas. Um quarto delas nós já estamos reconstruindo e que fizemos, em termos de escola, praticamente em dois anos o que se fez nos oito anos que antecederam o meu governo. Ainda falta? Ainda falta. Na verdade, na verdade não se pode exigir e vamos reconhecer que eu estou substituindo um quarto de século, em 24 anos com o mesmo grupo que esteve no poder - é o único caso no Brasil desde que o doutor Brizola deixou o governo em 1962 até o dia que eu assumi - 24 anos! O mesmo grupo político, não mais do que cem pessoas ocuparam os cargos de predominância política no Rio Grande do Sul eu estou mudando, a nível de educação, estamos reformando. Como posso dizer que a nível de contexto geral, nós estamos modificando a imagem do Rio Grande do Sul.

Augusto Nunes: Senhor Alex já, já o senhor faz a pergunta. O Renato Gonçalves, de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, diz que os professores lá na região ganham 136 cruzados por mês e quer saber o que o senhor pensa disso. Eu acrescento outra pergunta...

Pedro Simon: Qual é a região?

Augusto Nunes: Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Quanto ganham os professores gaúchos da rede estadual, o salário médio?

Pedro Simon: Eu diria que no meu governo - é muito importante a análise que eu vou fazer - no meu governo não houve ninguém nos dois anos que eu estou no governo que ganhou um centavo menos que a inflação. Pelo contrário. O magistério ganhou bem mais do que a inflação. Eu digo mais: nós temos, no Rio Grande do Sul, o que se chama o quadro de carreira, que significa que o professor entra e de período em período, de anos em anos, eles vão aumentando a sua qualificação. No Rio Grande do Sul a professora, o professor, leciona vinte horas, que são 16 horas de lecionar e quatro horas de preparação dessas aulas. Eu diria que no Rio Grande do Sul, a até bem pouco tempo, uma professora ganhava algo superior a duas vezes o salário mínimo e deve estar por aí hoje no Rio Grande do Sul.

Augusto Nunes: O que o senhor pensa desse salário de 136 cruzados?

Pedro Simon: Aqui em São Paulo? Eu não penso nada.

Alex Solnik: É o mesmo! São dois salários mínimos? Seria 120 cruzados... um salário é 60 [cruzados]... É o mesmo salário então...

Augusto Nunes: Como é que o senhor faria para sobreviver com 136 cruzados? Daria?

Pedro Simon: Eu digo que não. Eu digo que é muito difícil. Eu digo que a situação, hoje, realmente não é uma situação fácil. Mas eu diria o seguinte: eu recebi um estado onde eu gastava 118% da folha [corrigindo-se] da arrecadação para pagar o funcionalismo público.  Essa é a situação. O que eu tenho que fazer é mudar a fisionomia do Rio Grande do Sul. Eu tenho que mudar o modelo econômico do Rio Grande do Sul. Nós precisamos fazer algo como, por exemplo, terminar o pólo petroquímico, que está estagnado. Nós temos que buscar o desenvolvimento industrial, criando um fundo desenvolvimento. Já temos novas indústrias buscando se instalar no Rio Grande do Sul num valor de 3,5 bilhões de dólares. Nós temos que fugir daquela posição do Rio Grande do Sul ser canto do Brasil e colocar numa posição de centro geo-econômico de uma grande região no futuro, que será entre Buenos Aires e São Paulo. Nós temos que buscar a ligação do porto de Rio Grande com o porto de Antofagasta, no Chile, que é uma ligação Atlântico e Pacífico, exatamente no meio da América Latina, que fará com que o Atlântico e o Pacífico se unam, atravessando o Rio Grande do Sul. Nós temos que fazer o gasoduto, que trás o gás da Argentina e o desenvolvimento para o Rio Grande do Sul. Nós temos que duplicar a refinaria Alberto Pasqualini, como estamos duplicando...

[sobreposição de vozes]

Augusto Nunes: O senhor tem verbas, recursos para isso?

Pedro Simon: Muitas delas... eu diria que uma parte, sim; nós investimos nesses dois anos cerca de 500 milhões de dólares. Eu diria que esses investimentos, a maioria deles, são inclusive de empresários, inclusive particulares. Aqui mesmo em São Paulo, empresários paulistas estão agora investindo no Rio Grande do Sul. Eu acredito que é mudando o perfil e aumentando a arrecadação ao lado, de algo que me parece importante, pode me acusar do que quiser, mas não me acuse de eu ter gasto um centavo em obra que não era absolutamente necessária. Nós não gastamos em obras suntuosas, nós não gastamos em mármore, nós não gastamos em obras desnecessárias. Nós estamos gastando ali onde é mais necessário; estamos fazendo estradas, estamos melhorando energia, estamos reconstruindo a imagem do Rio Grande do Sul; estamos criando centro de biotecnologia, que agora de pouco foi apontado inclusive pela Organização das Nações Unidas como a mais moderna da América Latina, estamos modernizando o Rio Grande do Sul. Eu acho que só assim, só aumentando a arrecadação, que nós podemos melhorar as condições de vida.

Flávio Porcello: Apesar desse esforço, o salário, o senhor sabe disso, continua baixo. O funcionalismo não estaria contente e esse problema não é só seu: os outros 22 governadores do PMDB enfrentam, em maior ou menor escala, problemas idênticos. Eu quero saber como o senhor e os outros governadores do PMDB vão à campanha eleitoral, sendo governo nos estados, também governo federal, como é que vão tentar ganhar a eleição com esse quadro aí?

Pedro Simon: Olha, eu te diria em primeiro lugar: eu vou muito tranqüilo. Vou para a campanha, não vou como candidato. Eu vou como um cidadão muito tranqüilo para a campanha eleitoral, por uma razão muito simples: é de que eu posso responder pelo meu governo e pelo que eu fiz no meu governo. Posso responder que nós vivemos dois anos com as duas maiores inflações da história do Brasil e que o funcionalismo público do Rio Grande do Sul ganhou muito mais aumento do que a inflação. Eu diria que quando eu assumi, os escalões inferiores do funcionalismo público ganhavam até menos de um salário mínimo; esperavam aumentar o salário mínimo para depois equipar ao salário mínimo. Hoje o salário mínimo do Rio Grande do Sul é o dobro do salário mínimo do Brasil! Quer dizer, o funcionário público do Rio Grande do Sul, quem ganha menos, ganha dois salários mínimos, o dobro do funcionalismo público. Eu digo mais: no meu governo não só eu estabeleci que nenhum cidadão, nem aposentado - nós tínhamos aposentados que ganhavam meia dúzia de centavos - nenhum aposentado ganha menos do que o piso no meu governo, que é duas vezes o salário mínimo. E digo mais: eu estabeleci um teto. Quando se fala tanto em marajá, no Rio Grande do Sul nós estamos estabelecemos um teto, ninguém pode ganhar mais do que um valor de referência que é vinte vezes esse salário.

Alex Solnik: Agora, governador apesar de tudo isso que o senhor teve nesses anos de mandato, as pesquisas presidenciais indicam que o doutor Brizola tem uma larga maioria do Rio Grande do Sul. O senhor atribui isso, o senhor entende isso como uma desaprovação do seu governo ou seria um mérito do doutor Brizola?

Pedro Simon: Primeiro, pode ser até uma desaprovação do meu governo, pode até ser. Se você perguntar quanto é que eu gastei em publicidade, eu te respondo: praticamente zero. Se você me perguntar: “Mas e o governo do estado e o povo conhecem praticamente as obras que o senhor fez?” Eu respondo: não. Se você me perguntar: “São inauguradas estradas, são inauguradas fonte de energia e são inauguradas escolas, o senhor comparece?” Eu respondo: não. Se o senhor me perguntar: “Quantas placas tem do seu governo?” Eu lhe respondo: nenhuma. Se você me perguntar: “E as fotografias nas escolas, as fotografias no banco do Rio Grande, a fotografia na Caixa, há fotografias nas repartições públicas no seu governo?” Eu digo: não existe, porque eu proibi. Então, realmente, eu estou tentando fazer um governo diferente, um governo muito diferente. Se você me perguntar quantos companheiros eu nomeei, eu te respondo: a não ser os cargos absolutamente necessários, nenhum. Isso é uma forma de fazer governo que realmente não se conhece; é algo meio completamente fora da realidade. Muitos me chamam meio de maluco, meio de grotesco, uma figura que quer fazer uma política sonhadora e utópica dentro de uma realidade completamente diferente. Eu sou assim e pretendo ser assim.

Marilena Dêgelo: A situação que se encontra o seu governo o coloca em condições de disputar a presidência da República?

Pedro Simon: Como?

Marilena Dêgelo: A situação que se encontra o seu governo coloca o senhor... [interrompida] ...não, do senhor disputar a presidência da República.

Pedro Simon: Se fora pelo meu governo eu não tenho nenhuma preocupação em debater o meu governo. Eu acho até esse é o programa..., me perdoe o... é chefe que a gente chama? [apontando Augusto Nunes – risos]

Augusto Nunes: Mediador.

Pedro Simon: Mediador, mediador. Então eu diria, mediador [risos], eu estou vivo, ativo, na verdade [...], mas em meio a esse debate, eu gostaria, com toda sinceridade, em uma outra oportunidade lá adiante, de vir debater o meu governo...

[sobreposição de vozes]

Pedro Simon: Eu quero dar a resposta completa. Eu não teria nenhum problema se fosse por aí. Em nível de candidatura - que eu não estou aspirando - eu gostaria de ter dois meses para dizer o que eu pretendo fazer, o que fiz como ministro da Agricultura sem divulgar uma obra, o que fiz como governador, sem que ninguém pudesse saber e o que eu poderia fazer a nível dessas orientações. Estou dando a resposta, a resposta foi um pouco provocativa, eu tenho que responder pelo que fiz como governador, eu não teria nenhuma preocupação, porque tive a oportunidade de mostrar o que eu fiz e por aí eu acho que me sairia bem.

Marilena Dêgelo: Agora os governadores estão colocando que o seu nome pode surgir esta semana.

Pedro Simon: [...]

[sobreposição de vozes]

Augusto Nunes: Bob, um minutinho... Governador... [vou] só fazer uma pergunta aqui. [dirigindo-se ao entrevistador] – Bob, só um minuto, aí já voltamos - vamos ver se o senhor é um governador diferente. O Rui de Camargo Barbosa, de São Carlos pergunta se as viagens que o senhor tem feito - esta, por exemplo, para tratar da candidatura do PMDB - se “essas viagens são pagas com recursos do estado ou com recursos próprios?”, ou seja, é do bolso do governador?

Pedro Simon: Eu já nem durmo aqui, vou voltar para Porto Alegre, e o estado não tem participação nisso. É algo que o governo me conhece e sabe como eu sou; sabe que eu não moro no palácio Piratini [residência oficial do governador do Rio Grande do Sul], sabe que sábado e domingo eu guio o meu próprio carro, sabe que...

Augusto Nunes: Mas, essas viagens... o senhor mesmo tem custeado essas viagens?

Pedro Simon: Eu mesmo.

[...]: O senhor vem de avião particular?

Augusto Nunes: Só para completar, desculpe. O senhor está fazendo um governo, como o senhor afirma, tem sido um bom governo. Porque isso não ajudou o deputado Antônio Britto a ganhar a eleição para a prefeitura de Porto Alegre?

Pedro Simon: Não estou dizendo que estou fazendo um bom governo, estou dizendo que peguei o estado numa situação muito difícil e estou tentando recuperar; seria imodéstia da minha parte dizer que eu estou fazendo um bom governo, mas acho o meu governo defensável; é um governo que eu estou mais semeando, mais do que colhendo; a maioria das obras que eu estou fazendo, são obras que, eu diria, são praticamente o alicerce; eu estou plantando aquilo que outros virão poder [...]

Augusto Nunes: O senhor fica convidado a falar sobre isso o quanto o senhor quiser.

[sobreposição de vozes]

Pedro Simon: Eu não respondi, a pergunta era...

Marilena Dêgelo: De Antônio Britto.

Augusto Nunes: O senhor respondeu.

Pedro Simon: Não, não, eu não respondi. Antônio Brito na verdade, até um mês antes das eleições ele estava eleito; ele estava eleito prefeito de Porto Alegre. Ocorreram três fatos determinantes que alteraram. Ele estava eleito, não porque eu fiz um bom governo. Ele estava eleito pelas qualidades dele e pelo esforço que se estava a fazer. Houve três fatos que alteraram isso. Quando se fez, quando se falou no tal de “pacto social” e se estabeleceu o tal de Pacto Social [negociação empreendida pelo governo federal de Sarney tentando harmonizar interesses dos empresários, sindicatos e governo visando a redução da inflação], nos últimos trinta dias em Porto Alegre e, parece que pelo Brasil afora, os preços dobraram. Se falava que iam terminar o compulsório da gasolina e que se ia devolver a gasolina [digo], devolver o compulsório; ao invés de devolver o compulsório, a gasolina aumentou um bocado, e os fatos de Volta Redonda? O fatos de Volta Redonda sofreram um impacto tremendo em Porto Alegre, que reverteu o quadro de maneira dramática. [No dia 09 de novembro de 1988 o exército e a polícia militar do Rio de Janeiro invadiram a Companhia Siderúrgica Nacional, de Volta Redonda, que estava ocupava pelos funcionários em greve. Três operários grevistas morreram na ação]

Carlos Alberto Sardenberg: Governador, isto leva àquela outra questão que eu tinha feito, quer dizer, o senhor falou que responde pelo seu governo...

Pedro Simon: Você quer ver uma coisa, só para analisar com toda gentileza? O que a gente mais fala? Então, você traz um economista aqui... o que que ele diz? “Esse país vai mal por que tem que zerar o déficit público”, não é verdade? “Tem que zerar o déficit público, o Brasil vai mal, os estados vão mal porque [não] estamos zerando o déficit público”. Pois eu peguei o meu estado que há vinte anos, o déficit público era de 20%, 15%, 18%, 13%; no primeiro ano do meu governo eu zerei o déficit público, teve um saldo positivo; no segundo ano do meu governo eu zerei o déficit público e tive um saldo positivo; e este terceiro ano eu tenho previsto 18% de investimento no meu orçamento. Então, três anos, três anos que eu zerei o déficit público; e será considerado... é a grande de luta e grande esforço...

Carlos Alberto Sardenberg: É só um fato a registrar, e como o senhor disse, esse é um tipo de governo que demora para aparecer; em geral aparece só para o sucessor que gasta o dinheiro que o senhor economizou. Mas em todo caso, o que eu queria saber é o seguinte: o senhor responde pelo seu governo, o senhor responde por, o quê? Dois anos de Ministério?

Pedro Simon: Um ano.

Carlos Alberto Sardenberg: Um ano de Ministério...

Pedro Simon: Poderia falar alguma coisa do Ministério, poderia falar. Poderia dizer que entreguei ao presidente Sarney um plano de irrigação onde nós poderíamos irrigar, não com modelo de Israel, nem com modelo alemão, nem com modelo americano, que sai cerca de cinco mil dólares o hectare, mas com o modelo da Índia, que está irrigando um milhão de hectares por ano e que sai seiscentos dólares o hectare. Eu apresentei ao presidente José Sarney um projeto, um projeto de paióis de armazenamento de alimentos, porque nós temos, para ter uma política de agricultura, para ter uma política de abastecimento, nós temos que armazenar uma safra e não plantar e colher, plantar e colher. Eu fiz um grande debate nacional e entreguei ao governo o primeiro plano de agricultura; pela primeira vez se debateu, se discutiu, se apresentou um projeto de agricultura e eu apresentei um projeto de abastecimento. Acho que o ministro que me substituiu fez muita coisa; eu sou obrigado a reconhecer que, a nível de plantar e a nível de desenvolver a agricultura, o esforço que ele vem fazendo é positivo.

Carlos Alberto Sardenberg: Agora, o senhor disse o preço dos combustíveis, o compulsório, tal, foi derrubar o Antônio Britto lá em Porto Alegre. Todo o conjunto do governo não pode derrubar qualquer candidato do PMDB, qualquer que seja?

Pedro Simon: Seria uma pena se isso acontecesse. Eu acredito que, se depois de 29 anos que nós levamos para escolher um presidente da República, nós vamos discutir a presidência da República em cima do aumento da gasolina, em cima de um fato de ontem, seria um fato muito doloroso. E aqui eu faço um apelo à imprensa brasileira. Com toda sinceridade, eu faço um apelo à imprensa brasileira: eu acho que nós temos que discutir e decidir o futuro deste país baseado no futuro. Com toda sinceridade, acho que não deve ser em cima do governo Sarney, não deve ser em cima dos problemas apenas que estão aí. Nós temos que olhar o que vem pela frente nos próximos cinco anos. Se tivéssemos que fazer o balanço, se tivéssemos que fazer o balanço, nós tínhamos obrigação de analisar todo o período. A última eleição foi a do doutor Jânio Quadros. Teríamos que começar o debate na renúncia do doutor Jânio Quadros, passar pelo governo do doutor João Goulart, as causas que determinaram a queda do doutor João Goulart, os regimes militares e também do José Sarney. Se for para fazer esse tipo de debate, nós tínhamos de debater desde a última vez que houve um debate nacional; e a última vez que houve um debate nacional foi quando ganhou o senhor Jânio Quadros. Eu não digo o que não se discuta; eu não digo que não se faça oposição; eu não digo que não se critique, mas, na minha opinião, nós temos que olhar a nível de qual a proposta que o candidato e que o partido apresenta para o futuro. Aliás, eu digo mais: nem do candidato; o partido, mais do que o candidato, porque, essa história de “salvador da pátria” é bom em novela e a novela é atrapalhada.

Augusto Nunes: Por favor, antes do Bob, o Paulo Caruso quer fazer uma pergunta.

Paulo Caruso: Eu queria saber do senhor, quem sabe o senhor possa me ajudar a completar um desenho que eu tenho!

Pedro Simon: É difícil, não é o meu forte...

Paulo Caruso: Como é que o senhor analisa a perspectiva e a trajetória do governo Leonel Brizola no país?

Pedro Simon: Primeira preocupação que eu teria é que eu acho que a salvação desse país está no parlamentarismo. Eu acho que se nós não adotarmos o regime parlamentar, nós estamos completando cem anos de crise e vamos ter mais cem anos de crise. E o doutor Brizola, pelo seu estilo e ponto de vista, eu não tenho nenhuma dúvida de que ele vetaria de todas as formas o regime parlamentarista. Segundo lugar: a grande preocupação que eu tenho é de que a Constituinte [Assembléia Constituinte] cometeu um enorme equívoco. Quando a Constituição saiu da Comissão de Sistematização, ela saiu com regime parlamentarista. Quando foi para o plenário, o plenário derrubou o regime parlamentarista, mas esqueceu de mudar as atribuições do Congresso. Nós estamos então vivendo um regime onde o Congresso tem a força do regime parlamentarista, mas não tem a responsabilidade do regime parlamentarista. Um presidente da República conviver com minoria no Congresso, Congresso com poderes e sem responsabilidades, vai ser muito difícil; conhecendo como conheço doutor Brizola acho que nós vamos ter uma crise de condições imprevisíveis... [...]

Augusto Nunes: O senhor já esteve politicamente próximo do governador Leonel Brizola; a hora que ele voltou do exílio, eu me lembro que houve articulações envolvendo o senhor, os brizolistas, até pensando, se cogitando na formação de um partido no qual o senhor também participaria. O que aconteceu? O que decepcionou o senhor na figura do Brizola?

Pedro Simon: Há um equivoco na sua informação. Eu fui companheiro do Brizola no PTB; eu entrando e ele já líder máximo; eu defendendo algumas idéias e ele já defendendo outras.

Augusto Nunes: Mas eu me refiro a 1979, na volta dele.

Pedro Simon: Sim, eu chego lá. Então nós viemos do mesmo partido que era o PTB. Veio a revolução [tomada do poder pelos militares em 1964], eu estava iniciando a minha carreira política, ele foi para o exílio. Eu fiquei aqui; me integrei ao MDB. Quando nós conseguimos a anistia, eu fui a Nova Iorque falar com o doutor Brizola e o convidei para entrar no MDB e ofereci a ele a liderança do MDB do Rio Grande do Sul, dizendo que eu o receberia com a maior satisfação. A divergência minha com o doutor Brizola foi apenas essa. Eu nunca pensei em sair do MDB. Eu defendia a tese que nós tínhamos que ficar num grande partido até consolidar a democracia e convocar a Assembléia Nacional Constituinte; convocada a Assembléia Nacional Constituinte eu achava que, ali sim, no momento em que fosse convocada a Assembléia Nacional Constituinte, os partidos iriam ser dissolvidos e cada um ia para a sua agremiação. A divergência que eu tive com doutor Brizola foi por aí: ele vinha, ele exigia criar o seu partido e eu achava que nós deveríamos ficar juntos até a Constituinte.

Augusto Nunes: Bob Fernandes.

Roberto Fernandes: O PMDB, que deu pelo menos dois ministros da Fazenda no atual governo, com que discurso o senhor acha que ele pode chegar ao eleitor? O que ele vai dizer para o eleitor?

Pedro Simon: Olha, eu acho que a tua pergunta ela é muito concreta e ela é muito objetiva. Eu acho que nós não podemos fugir às responsabilidades dos equívocos que possamos ter cometido. Embora eu reconheça que o ministro Funaro [Dílson Funaro, ministro da Fazenda durante o governo de José Sarney e presidente do BNDES; faleceu em abril de 1989] é um homem que tentou acertar, que lutou e que fez um esforço muito grande e que talvez o ano do Plano Cruzado seja um grande ano na história do povo, dos miseráveis, dos mais humildes, dos mais necessitados. Houve equívocos graves e equívocos sérios, a nível de que as retificações necessárias não tivessem sido feitas. Alguns dizem que elas não foram feitas para favorecer o PMDB; que como era uma época de véspera de eleição, não se fizeram as retificações no Plano Cruzado por motivo eleitoral. Pois eu vou dizer aqui, com toda sinceridade, que eu discordo. Vamos analisar o quadro brasileiro: lá no Rio Grande do Sul, quem apareceu na televisão abraçado com o doutor Sarney - “faça como o Sarney, confie em Chiarelli” - era o governador [corrigindo-se] era o candidato Chiarelli [Carlos Chiarelli pertenceu à Arena, ao PDS e, depois, PFL; foi deputado federal e senador pelo Rio Grande do Sul, além de ministro da Educação no governo de Fernando Collor]. Se não ganhasse Pedro Simon, ganhava o Chiarelli. Em Santa Catarina, se não ganhasse o PMDB, isto é, se o governo federal tivesse feito as adaptações necessárias ao Plano Cruzado, se não tivesse ganho o Pedro Ivo [Pedro Ivo Campos foi prefeito de Joinville, deputado federal por Santa Catarina e governador desse estado, entre 1987 e 1990], ganhava o candidato do PFL. No Paraná a mesmíssima coisa. Aqui em São Paulo, todo mundo sabe que o candidato do doutor Sarney era Antônio Ermírio [Antônio Ermírio de Moraes, empresário do grupo Votorantim, candidato derrotado para o governo de São Paulo pelo PTB] ; se não ganhasse o Quércia, ganharia Antônio Ermírio. Em Minas Gerais, se não ganhasse o Newton Cardoso, ganharia o candidato do doutor Sarney, que era o Itamar [Itamar Augusto Cautiero Franco, Itamar Franco - baiano, foi presidente do Brasil de 1992 a 1995, cargo que assumiu com a queda de Fernando Collor, sendo que pertenceu ao PRN e ao PMDB]. Na Bahia, a mesmíssima coisa: não era o Waldir o candidato do Planalto, como em Pernambuco não era o Arraes. Então, as retificações ao Plano Cruzado que deveriam ter sido feitas, se tivessem sido feitas, nós estaríamos agora no quinto Plano Cruzado, assim como Israel, nós estaríamos caminhando em um plano inclinado, rumo à normalidade. Isso não foi feito, não por causa eleitoral. Isso não foi feito porque, com 90% de pesquisa favorável - nunca houve na história deste país alguém que teve uma pesquisa tão alta como o ministro Funaro e como o presidente Sarney - isso envaideceu o ego dele e por isso não foram feitas.

Bob Fernandes: Mas o PMDB não pode chegar com o discurso do “se” para o eleitor. O que ele vai dizer? O que ele vai contar? O que ele vai propor?

Alex Solnik: Eu acho que o senhor cometeu um equívoco. O doutor Quércia fez toda a sua campanha de 1986 baseado no Plano Cruzado.

[...]: O “boi gordo” [em 1986, o governador Orestes Quércia promove a “caça ao boi gordo”, para combater a alta dos preços, já que o governo federal obrigava os produtores a fornecer a carne para abate com preços congelados, em época de inflação alta].

Alex Solnik: Que é o “boi gordo”. Então a ligação do doutor Sarney com o Quércia era muito patente e não doutor Antônio Ermírio...

[sobreposição de vozes]

Pedro Simon: Eu até não discuto que o doutor Quércia tenha feito essa campanha baseado no Plano Cruzado. O que eu quero dizer é que se não ganhasse o Quércia, ganhava o Antônio Ermírio.

Alex Solnik: [interrompendo] Sim, por que... [...] é a mesma coisa!

Pedro Simon: Para o doutor Sarney era a mesma coisa! Para o doutor Sarney era a mesma coisa, aí que eu quero chegar! As retificações que deveriam ter sido feitas ao Plano Cruzado, não foram, não por motivo eleitoral de favorecer o PMDB, mesmo porque, com 90% de popularidade, o doutor Sarney...

[sobreposição de vozes]

Augusto Nunes: Só um minutinho Alex. O senhor reivindicou essas correções que o senhor disse que deveriam ter sido feitas? Porque o senhor percebia que alguma coisa no Plano... O senhor como candidato pediu isso ou não?

Pedro Simon: Você fez uma bela pergunta e eu tenho que responder com toda sinceridade. Não. Eu estava em meio a uma campanha e em meio a essa campanha eu estava vibrando; eu estava vibrando, não posso negar. Não usei isso em televisão, não apareci uma vez na televisão de Porto Alegre ou nos rádios de Porto Alegre, cartazes em Porto Alegre do lado ou do Sarney, ou do Tancredo, ou de Funaro ou de quem quer que seja. Aliás, o Funaro eu tenho um carinho, um afeto muito grande por ele...

Emanuel Nery: O senhor não assou boi lá no Rio Grande do Sul?

Pedro Simon: Também não. Agora o que eu quero dizer a você é o seguinte: eu reconheço. Eu estava numa campanha e estava achando o povo satisfeito e estava achando que aquele plano ia muito bem e achava que ia muito bem. Se você me cobrar: “você cobrou do presidente Sarney, do ministro Funaro as retificações?”, eu te respondo: não. Eu estava no meio de uma caminhada e achava que aquilo era por aí.

Flávio Porcello: Pela sua confiança governador, no desempenho eleitoral do PMDB, se eu lhe perguntar quem vai para o segundo turno o senhor vai dizer: PMDB e mais alguém. Quem é o maior adversário do PMDB nessa eleição? O PDT de Brizola, o PT de Lula?

Pedro Simon: Eu acho que, com toda sinceridade, que é imprevisível, eu não poderia te responder. Eu te diria que se aparecer um candidato de centro, no mínimo for de centro, se PFL, PDS, PTB, porque é um equívoco muito grande. Está todo mundo achando que nas eleições passadas houve uma grande guinada para esquerda. Na verdade não é verdade. Aqui em São Paulo, sim, ganhou a esquerda, lá em Porto Alegre também ganhou a esquerda; em Santa Catarina ganhou o seu Amin [Esperidião Amin, prefeito nomeado pelo governo militar para Florianópolis e governador de Santa Catarina (1983–1987; 1999–2003) pelo PDS (atual PP – Partido Progressista)], que era um homem da direita, homem da Arena, do PDS; no Paraná, embora fosse um nome do PDT, o senhor Lerner [Jaime Lerner, político e urbanista, prefeito de Curitiba (1971–1974 (nomeado); 1979–1983 (nomeado); 1989 – 1993) e governador do Paraná (1995 – 2003)] foi um prefeito nomeado oito anos pelo sistema anterior, pelo regime da ditadura; em Minas Gerais ganhou o representante dos tucanos [animal-símbolo do PSDB]? Sim, mas ganhou com o apoio do senhor Aureliano, com o apoio do PFL; lá em Pernambuco, em Recife, onde a esquerda nunca perdeu uma eleição, pela primeira vez ela perdeu uma eleição; ganhou a direita, que era o candidato do PFL. E, mesmo na Bahia, onde o MDB [PMDB] ganhou, mas o candidato do MDB que ganhou não era apoiado pelo Waldir; o Waldir tinha um candidato que tinha o apoio do PC, do PC do B e terminou perdendo as eleições. Então há um equívoco de muita gente quando diz que a esquerda ganhou essas eleições. Eu acho que nós estamos... O PMDB tem a obrigação...

Augusto Nunes: Em todos esses exemplos o PMDB...

Pedro Simon: Perdeu! Mas não para esquerda; perdeu para a esquerda e perdeu para a direita; o governo perdeu sempre.

Roberto Fernandes: Perdeu para todo mundo, então...

Pedro Simon: O governo perdeu sempre. Agora nessa eleição que está aí - eu estou fazendo a resposta, e às vezes eu me perco um pouco - mas eu estou te respondendo apenas dizendo o seguinte: quem não diz que o candidato que vai se opor ao candidato do PMDB pode ser até de centro. Eu analiso da seguinte maneira: nós vamos ter um candidato de centro-esquerda, que é o candidato do PMDB; nós vamos ter um candidato de extrema esquerda, embora seja de extrema esquerda só na legenda, que é PC [Partido Comunista], porque como pessoa, o Roberto [Roberto Freire, deputado pelo MDB, foi líder do governo durante o governo de Itamar Franco, integrava o PCB (Partido Comunista Brasileiro), que desde 1992 é denominado PPS (Partido Popular Socialista)] é um belo companheiro, é um homem de bem, que eu quero um bem enorme, mas os seus discursos... inclusive não sei até que ponto... acho que ele está mais para o PC [Partido Comunista] russo moderno do que para aquilo que a gente imaginava num partido [...]. Nós vamos ter um candidato de esquerda real, que é o Lula; nós vamos ter um candidato com imagem de esquerda e com discurso de direita, que é o doutor Brizola; nós vamos ter uma candidatura de centro-esquerda, que é o MDB [PMDB]; nós vamos ter candidatos de centro, que não sei quantos serão e nós vamos ter uma candidatura de extrema direita [...]

Augusto Nunes: E o Mário Covas?

Pedro Simon: Mário Covas... De esquerda, entre o PMDB e o PT.

Flávio Porcello: E no segundo turno, se o PMDB não entrar, o senhor apóia quem?

Pedro Simon: Não há a hipótese do MDB [PMDB] não entrar. Concorda comigo que é uma hipótese completamente fora da realidade. A sua primeira pergunta ela é mais feliz. Qual será o concorrente do PMDB? [risos] E aí eu te respondo: pode ser pela esquerda e pode ser pela direita, depende de como é que vai ser o desenvolvimento e como é que vai ser o racha na esquerda e o racha na direita. Se a esquerda e se a direita se unirem, se o centro, direita perdão, desculpe... Se o centro e a direita se unirem, o nosso adversário [pode] surpreendentemente até vir pela centro-direita.

Augusto Nunes: Governador, o jornalista Valter Galvani, de Porto Alegre, quer saber se o senhor acha que o governador Fernando Collor de Mello poderia ser uma reedição do fenômeno Jânio, concentrando os votos da direita? E se o senhor teme esse tipo de fenômeno? Ele quer saber. Agora eu não me lembro se o senhor colocou Fernando Collor nesse espectro... onde é que ele entra? Eu não me lembro ter ouvido.

Pedro Simon: Nem eu me lembro.

Augusto Nunes: Então, por favor, o senhor tem a chance agora.

Pedro Simon: [rindo] O Fernando é um fenômeno. Em primeiro lugar demonstra que as candidaturas que a gente apresentava como irrefutáveis, não são tanto assim. Quer dizer: PT, PDT, Lula e Brizola, de repente aparece o Collor e está aí estourando em primeiro lugar. Porque ele está estourando hoje em primeiro lugar? Porque representa uma inconformidade. Não há como deixar de reconhecer que o povo brasileiro está “inconforme” com os governos, com os partidos, com a igreja, com a sociedade no seu conjunto geral. Isso eu reconheço. O Collor representa um pouco isso. Eu faço uma diferença entre ele e o Jânio. O Jânio, quando foi candidato, representava realmente uma esperança consolidada: ele tinha sido um grande prefeito de São Paulo, ele tinha sido um grande governador de São Paulo e se apresentava em cima disso. O Collor está enchendo o governo com muitas dificuldades em Alagoas; vai largar para se candidatar à presidência. Uma expectativa? sim! Uma candidatura que vai largar bem? sim. Agora, como chegar até o final? não sei. Poderá ser ele o candidato que disputará com o PMDB? talvez até sim. Eu não posso dizer que não.

José Marcio Mendonça: Governador, o senhor tem colocado o PMDB sempre como um partido centro-esquerda e ao mesmo tempo o senhor tem falado o PMDB deve ter um objetivo único, uma finalidade única, que o senhor descreveu no discurso no segmento anterior. Eu lhe pergunto o seguinte: como realizaram esse milagre de síntese de fazer o PMDB um partido de esquerda e buscar o objetivo único, unindo ao mesmo tempo o governador Newton Cardoso com governador Miguel Arraes, o governador Orestes Quércia, com o governador Waldir Pires - só para dar os exemplos - nós teríamos todos eles, que são pessoas que pensam e têm objetivos absolutamente diferentes.

Pedro Simon: Eu acredito que a tua pergunta ela se coloca mais ou menos ao nível de quando eu quis tentar mostrar que nós estamos numa convenção, que alguns dizem que é crise e que eu digo que é um ato de uma grande afirmação democrática. Nós temos que aprender a conviver com a maioria. Eu acredito que o PMDB, para sobreviver, ele terá que, obrigatoriamente, decidir o seu rumo. Por exemplo, na última convenção se decidiu o rumo do PMDB, que é um rumo progressista; por outro lado, na mesma convenção, embora a imprensa não tenha dado o destaque que se poderia estar na expectativa de esperar, nós aprovamos uma série de propostas de programa de partido, e ele tem condição e, com representação em todos os estados, para debater aquele programa mínimo que nós temos que apresentar como partido. A nossa tese, e me parece que é por aí que o PMDB está andando, é que, independente de qual for o candidato, nós teremos um programa e essa vai ser a grande diferença entre nós e os outros partidos, à exceção do PT, que é exatamente esta: seja qual for o candidato, nós teremos um programa a ser definido. Se você me pergunta: “Mas como nós vamos defender este programa, se temos setores tão diferentes dentro do partido?” Pela maioria. A maioria terá que decidir, e a minoria terá que aplicar.

Alex Solnik: Os tucanos também têm um programa.

Pedro Simon: Um bom programa.

Alex Solnik: Inclusive é muito parecido com o PMDB, a nível de objetivos.

Pedro Simon: Um bom programa, um bom candidato e um grande equívoco. Tivesse um bom programa, um bom candidato e se não tivesse cometido um equívoco talvez não estaria [...]

Roberto Fernandes: Porque o senhor não convida ele para voltar a ser o candidato do PMDB?

Pedro Simon: Como é que é?

Roberto Fernandes: O senhor convidaria o Mário Covas para voltar, ou não?

Pedro Simon: Olha, eu veria ele com muito carinho dentro do PMDB; e se ele tivesse dentro do PMDB eu estaria aqui citando, entre os nomes que citei, com muito carinho, o nome do Mário Covas.

Marilena Dêgelo: Independente do resultado da convenção do PMDB, o senhor não pensa em deixar o PMDB e apoiar o Covas?

Pedro Simon: Eu estaria prestando um desserviço enorme ao meu partido se eu te dissesse que sim. Eu só tenho a dizer primeiro: que eu tenho a convicção absoluta de que nós vamos sair bem nessa convenção e tenho a convicção absoluta que nós nos apresentaremos juntos com o resultado [...]

Emanuel Nery: Governador, hoje, no Rio Grande do Sul, há setores políticos que levantam a bandeira separatista. Eu queria saber como é que o senhor encara esse tipo de movimento e saber também se isso é fruto do esquecimento ou do abandono estratégico que foi feito no Rio Grande do Sul durante o regime militar?

Pedro Simon: Eu fico satisfeito com a tua pergunta por dois ângulos: a primeira parte e a segunda parte. Não há dúvida nenhuma de que o Rio Grande, ao longo desse período militar, quando surpreendentemente os presidentes eram gaúchos – Costa e Silva, Geisel, Médici - e o próprio Figueiredo, embora não seja gaúcho, ele tem toda a sua formação no Rio Grande e se identifica muito com Rio Grande do Sul, o Rio Grande foi colocado à margem do desenvolvimento neste país. Mas o movimento separatista não passa de um ato de pilhéria, um ato que não merece maior conteúdo e nem maior seriedade. Não há ninguém nesse Brasil que goste mais do Brasil do que o gaúcho; perdoem-me a sinceridade de eu falar isso aqui em São Paulo, mas é por uma razão muito singela: é que o Rio Grande do Sul é fronteira e a fronteira é exatamente com a Argentina. Não é por nada que durante um século, metade do exército brasileiro estava na fronteira do Brasil com Argentina. Acho que pouca gente sabe. Nós temos cidades onde nós temos cinco quartéis e nenhuma fábrica. Durante cem anos foi proibido ter construção de fábrica na região de fronteira. Foi necessário que viessem os colonos italianos e os colonos alemães e que fossem para a zona de floresta começar uma nova civilização para plasmar uma nova realidade. Porque, desenvolver no Rio Grande aonde ele nasceu, que é exatamente na região de fronteira, era proibido. Por essas razões, por nós sermos fronteira, é que o gaúcho ama o seu país, ama demais o Brasil. Agora, na verdade, eu de certa forma reconheço que o gaúcho também ama o seu Rio Grande. Ele tem um carinho, um afeto muito grande pelo Rio Grande do Sul. Agora, o fato dele gostar do Rio Grande não significa que ele não tenha paixão pelo Brasil. Pelo contrário. Eu diria que, por ser fronteira, ele tem mais orgulho, ele tem mais civismo, porque ele se identifica mais do que qualquer um pelo Brasil. Agora, lá pelas tantas, eu reconheço que aparece algo que a gente pergunta... tem uma emenda na nova Constituição do Rio Grande do Sul que diz que as bombachas e a bota é o traje oficial do Rio Grande, tem na emenda. Lá pelas tantas tem alguém que diz: “Mas nós não vamos estabelecer a República de Piratini?”. Lá pelas tantas tem uma emenda, mas isso não simboliza nada mais do que um gesto, vamos dizer assim, de respeito e carinho pelo Rio Grande; mas o Rio Grande é Brasil, e mais Brasil ou pelo menos tão Brasil como qualquer outro pedaço da nossa terra.

Augusto Nunes: Governador, Cotiguara Paiva, de Porto Alegre, quer saber se o senhor vai encontrar terras para os colonos que se encontram em greve de fome antes que alguns deles morra?

Pedro Simon: Veja a injustiça da pergunta! Essa pergunta tinha que ser endereçada ao governo federal. De repente, veja a crueldade da realidade: reforma agrária é responsabilidade do governo federal. Reforma agrária, quem pode desapropriar, é o governo federal; quem tem dinheiro para comprar é o governo federal. E as misérias do estado, eu estou encontrando dinheiro, e estou comprando terra e estou comprando! Comprando a preço de mercado. Essa greve de fome - e eu estive com eles hoje - eu disse: vocês estão fazendo um gesto que eu respeito, mas na verdade vocês estão prestando um desserviço, porque as terras que tinham sido ofertadas há 15 dias atrás, um mês atrás, eles já estão pedindo um aumento maior, porque é a lei da oferta e da procura. Com essa pressão que vocês estão fazendo eles estão sabendo que nós estamos querendo comprar e como eles sabem que nós estamos querendo comprar então de repente aparece alguém querendo comprar vinte mil hectares, o preço está subindo. Agora, de repente me pergunta o cidadão: “o senhor vai comprar, o senhor é obrigado a comprar antes que alguém morra”? Isso quem deveria estar interessado é o governo federal. Eu vou tentar comprar, eu estou fazendo e, repito, aquilo que não é a minha obrigação. Agora, veja o gesto da pergunta que ela pode ser até sincera , mas ela não corresponde à realidade. Eu estou fazendo o que não é a minha obrigação, porque acho que mesmo não sendo a minha obrigação eu tenho que fazer. Agora, não posso ser colocado com uma faca no peito de responsabilidade, pelo contrário. Tenho dito a esses ilustres amigos, irmãos do Rio Grande do Sul com quem eu falei e a quem visitei hoje antes de vir aqui a São Paulo, eu tenho dito, que inclusive irmãos nossos [...]... que devem conversar com eles, eles estão fazendo um gesto que eu respeito, mas um gesto que não é construtivo.

Augusto Nunes: Governador, eu vou fazer ao senhor a última pergunta do nosso programa.

Pedro Simon: Terminou?

Augusto Nunes: É uma pergunta que... a gente terminou. Estamos há uma hora e meia conversando; praticamente uma hora e meia. Vários telespectadores querem saber, perguntaram, o que que o senhor pensa dessa onda de greves que o Brasil tem enfrentado? Eles querem saber também se, de alguma forma, a situação social, que é difícil no Brasil, pode tornar inviável a eleição presidencial prevista para 15 de novembro?

Pedro Simon: A eleição vai sair, nada haverá de alterá-la. Não devemos aceitar nenhum tipo de argumento, não tenho nenhuma dúvida de que as eleições vão sair. Nós estamos vivendo um regime difícil; nós estamos vivendo um regime onde não há como se compreender que o cidadão viva pelo salário que aí está. Nós temos que fazer profundas transformações na nossa sociedade. Nós temos que reconhecer que este é um país onde nós temos que dar prioridade ao que é prioritário. Para produzir alimentos, nós não precisamos de dólar, nós não precisamos de multinacionais, nós não precisamos buscar know how de fora. Nós temos todas as condições de produzir alimentos, de dar saúde, de dar habitação à nossa gente e, no entanto, nós vivemos essa situação dramática. Ela é injusta? É. Ela é cruel? É. Agora, por outro lado, nós temos que constatar uma realidade: durante muitos anos, a greve foi proibida. Então, nós estamos vivendo, por assim dizer, um regime onde o cidadão acha que fazer greve é uma afirmação de democracia. Eu acho que está na hora de entender que greve é algo que se faz, sim, para reivindicar, sim, mas se faz quando absolutamente necessário. Greve é o último recurso e não o que a gente está vendo hoje; primeiro se faz greve, depois vai negociar. Qual é o país que existe isso? Qual a democracia do mundo que se possa imaginar que a forma de fazer é essa. Primeiro fazer greve e depois negociar. O que é mais importante: a gente vê fazendo greve escalas da sociedade que não são as mais necessitadas. Vamos ver as vilas, vamos ver as favelas, vamos ver os bairros, vamos ver aqueles que ganham realmente salários mínimos, nós vamos ver que geralmente são eles que estão fazendo as greves. Estão fazendo a greve aqueles que ganham alguns salários-mínimos. Na verdade, na verdade, eles não estão cometendo um bom serviço para esse país.

Augusto Nunes: O senhor acha que isso pode colocar em risco a realização da eleição?

Pedro Simon: Não tenho nenhuma preocupação em que essa minoria, pela esquerda ou pela direita, que quer “o quanto pior melhor” e não realizar as eleições, não terá nenhum intento, nenhuma vitória, pelo contrário: a imensa maioria que deseja a realização das eleições, há de ver concretizado aquilo que nós esperamos; haverão eleições. Agora, o que eu gostaria - se você me permitisse - eu acho que depois de 29 anos, depois de tanto tempo que nós esperamos, eu acho que seria profundamente lamentável que nós fossemos para uma eleição pensando apenas na greve de ontem, pensando apenas no acontecimento de anteontem; eu acredito que essa é uma eleição que deve ser afirmativa! Essa é uma eleição onde você, telespectador, deve analisar, refletir, meditar e votar um voto de confiança a nível de futuro. Votar no candidato, votar no partido, votar no grupo de pessoas que representam realmente um compromisso com mudança, com transformação da nossa sociedade. Não deve ser um voto nem de vingança, nem de ódio e nem de conquista e nem de populismo e nem de reconhecimento. O voto é algo que não se dá, que não se pede, que não se compra e que não se vende: é uma continuação da nossa personalidade. Agora, por amor de Deus, telespectador, não imagine você, que você vai votar no dia 15 novembro, terá um salvador da pátria, você voltará para casa e ele haverá de te salvar! Não! No dia 15 de novembro nós vamos eleger um presidente, sim! Esse presidente haverá de iniciar um processo de mudanças, sim! Mas essas mudanças terão que ser coletivas, nós temos que ter um trabalho comunitário, nós temos que entender que temos que participar: participar trabalhando, participar participando, participar olhando, fiscalizando e estando presente. É [somos] nós com o nosso trabalho comunitário. Nós não apenas cobrando “o que que o meu Brasil faz por mim?”, mas o que que eu posso fazer pela minha sociedade. Nós no nosso trabalho coletivo que vamos mudar o Brasil. A tristeza que o Brasil está, sempre à busca de um pai, à busca de um salvador, imaginando que alguém - “esse sim, com esse vai dar certo” - não é por aí! Ou nós temos um trabalho coletivo, de participação coletiva, ou - isso me preocupa - depois de 29 anos, de tanta luta, de tanto temor, de tantas injustiças e de tantas incompreensões, nós vamos ter mais um dia de vitória onde alguém será o herói e logo ali adiante um dia de mágoas, que poderão trazer conseqüências incalculáveis.

Augusto Nunes: O senhor deve ter antecipado o discurso de campanha do PMDB! Nossos agradecimentos ao governador Pedro Simon, convidado do Roda Viva desta segunda-feira. Agradecemos também a presença dos nossos entrevistadores, dos convidados da produção, dos telespectadores que nos ligaram, da Bernadete, da Clara e da Iara que fizeram as anotações das perguntas - serão todas elas encaminhadas agora ao governador Pedro Simon. O programa Roda Viva volta na próxima segunda-feira às nove e meia. Boa noite.

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