Memória Roda Viva

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Cauby Peixoto

7/3/1988

O cantor fala sobre sua paixão pela música e pelos palcos e conta experiências pessoais no mundo da fama

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Antonio Carlos Ferreira: Boa noite. Nós estamos começando o programa Roda Viva, que é transmitido simultaneamente pela Rádio Cultura AM de São Paulo e retransmitido pelas TVs Educativas de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Bahia, Piauí e Espírito Santo. O nosso entrevistado desta noite é Cauby Peixoto. Cauby Peixoto de Barros nasceu em Niterói no dia 10 de fevereiro, o ano ninguém sabe com certeza, porque ele não gosta de dizer quantos anos tem. 53 anos talvez, 55...57 disse uma enciclopédia respeitável [risos de todos]. Mas Cauby não diz, ninguém sabe realmente quantos anos ele tem. O que se sabe é que em 54 [1954], há 34 anos atrás, já era um ídolo nacional, com fã-clubes espalhados pelo país inteiro e meninas desmaiando na platéia. De lá para cá, sua carreira registra momentos de sucesso absoluto com períodos de relativo ostracismo. Em 1958, por exemplo, tentou sucesso nos Estados Unidos com o nome de Ron Coby. Não deu muito certo. Em 1970 ganhou o Festival Internacional da Canção em San Remo, mas só há oito anos, com o LP Cauby, Cauby de músicas de Chico Buarque, Caetano Veloso eTom Jobim, Cauby Peixoto conquistou o público refinado e a crítica de música. O brega virou chique e mostrou a todo mundo, definitivamente, que é o dono de uma das melhores vozes da música brasileira. E é por isso que Cauby Peixoto está no centro desta Roda Viva de hoje e será entrevistado pelos seguintes jornalistas e críticos de música: Teresa Cristina de Barros, repórter da TV Cultura; Maria Cristina Duarte, diretora de redação da revista Cláudia; Okky de Souza, editor-assistente da revista Veja; Celso Curi, empresário e jornalista; Leão Lobo, crítico de TV da Folha da Tarde; Ruy Castro, jornalista e sócio da produtora The Cat’s Miau; Maurício Stycer, repórter da Folha Ilustrada da Folha de S. Paulo e Kleber de Almeida, editor do Caderno de Sábado do Jornal da Tarde. O cartunista Negreiros fará desenhos que serão mostrados ao longo do nosso programa. A platéia é formada por membros do fã-clube de Cauby, do bairro de Santana, aqui de São Paulo. O telespectador poderá fazer perguntas por telefone, através da Bernadete, da Zezé e da Cidinha pelo telefone 252-6525. E a primeira pergunta que eu vou fazer ao Cauby, eu tenho certeza que é uma pergunta que vai surgir muito aqui pelos telefones de todos os nossos entrevistados depois dessa introdução que eu fiz aqui de apresentação ao Cauby. Cauby, afinal quantos anos você tem e por que todo esse mistério?

Cauby Peixoto: Olha, Tonico... não é? [confirmando o apelido do apresentador]. Tonico, eu sou aquariano, certo?

Antonio Carlos Ferreira: Isso nós já sabemos. O mês está bem fixado, é fevereiro. [sorri]

Cauby Peixoto: O aquariano é uma pessoa realmente diferente, sabe. Claro que com seus defeitos também, muitos defeitos, mas ele é "um povo" que não gosta muito - me parece que, pelo menos a maioria - não se preocupa muito com a velhice, com a idade, aniversário. Nós fugimos sempre dessas coisas convencionais. Não vibramos com isso, vibramos para os outros, mas para nós não. Eu vou a muitos aniversários e tal, as pessoas contam a idade para mim, festejam, comemoram, mas eu não, eu faço o contrário, eu fujo, eu desapareço. Eu fiz uma auto-catequese em mim mesmo de... Porque quando eu vim para São Paulo, eu vim muito jovem, 16 anos, e eu queria cantar, era fissurado em música e não podia cantar de noite. Meu irmão era pianista na boate Oásis, pianista de jazz, Moacir Peixoto, e eu queria cantar de qualquer maneira, então eu tive que falsificar os documentos, aquele jeitinho nosso, não é? Falsifiquei os documentos para 19 [anos] e aí me perdi mesmo na idade, certo?

[risos]

Antonio Carlos Ferreira: Não é possível. O Ruy já tem uma pergunta, Ruy?

Ruy Castro: Cauby, acontece que os jornalistas têm por obrigação bisbilhotar a vida dos outros e nem todo jornalista é aquariano, então a gente fica com vontade de perguntar isso. Por exemplo, se você oficialmente nasceu em 1935 e você estreou na boate Casa Blanca, no Rio, em Copacabana, com seu irmão Moacir, em 1950, você tinha, teria 15 anos. Como você com 15 anos podia trabalhar numa boate em Copacabana?

Cauby Peixoto: Como é? Trabalhar? [Cauby demonstra, durante o programa, certa dificuldade de audição]

Ruy Castro: Como você poderia trabalhar aos 15 anos numa boate em Copacabana?

Cauby Peixoto: Pois é, a boate tinha, tinha uma pilastra, era escura, todas as boates naquela época era mais escurinhas ainda. Então tinha uma pilastra assim [gesticula], duas pilastras e eu cantava meio escondido. Tinha uma cortina atrás do palco e eu cantava ali, escondido e tal, até que um dia o dono descobriu e me botou para fora. E procurava cantar sempre no [tom] grave. O Moacir dizia: “Olha, canta grave para pensarem que você já é um rapaz adulto".

Ruy Castro: Com que idade você gravou seu primeiro disco?

Cauby Peixoto: O primeiro disco foi aqui em São Paulo, no Corte Real, uma música chamada “Tudo lembra você”,  versão do Mário Nonato, que era diretor da Rádio Excelsior. Muito bonita por sinal, mas não fez um grande sucesso porque eu não tinha nome também. Mas foi muito executada aqui em São Paulo. O primeiríssimo disco.

Antonio Carlos Ferreira: Cauby...

Maria Cristina Duarte: Cauby, deixa eu... Como você está bem na minha frente e eu queria atestar, não sei se a televisão está fazendo jus, mas você não precisa ficar no escuro se você quiser enganar porque você está com uma pele de bebê! [risos] É verdade, é verdade. Mas eu me lembro que quando tinha a Revista do Rádio [uma das publicações impressas sobre música  e celebridades mais famosa do Brasil, que circulou entre os anos 40 e 50], não é? Eu via você sempre rasgado, cheio de beijos, as mulheres te consumiam. Se você tivesse que escrever um livro de memórias, você podia contar qual foi o amor mais correspondido e o mais desastrado?

Cauby Peixoto: Poderia contar muita coisa. Muita coisa. Realmente eu já devia ter escrito, mas eu escrever, né? Já escreveram um livro e tal, mas foi uma biografia. Era a minha viagem nos Estados Unidos, alguma coisa da época dos Anos Dourados, realmente foi uma coisa que marcou muito, a rádio. Mas eu deveria escrever um livro, um pouco de Cauby e um pouco do homem, do ser humano, juntar os dois, digamos assim. Porque... uma carreira é uma coisa muito, muito difícil para se fazer, não pelas dificuldades, pelos obstáculos, não. Mas o artista tem que ter uma capacidade, uma obediência, tem que ser um ótimo aluno, senão ele não chega lá, sabe? É uma... filosofia, fui muito bem orientado, um homem muito inteligente, chamado Di Veras [empresário e "padrinho" Edson di Veras, que em meados dos anos 50, ajudou a forjar Cauby como artista e produto, providenciando desmaios de fãs, jabás, roupas mal alinhavadas que se rasgavam com facilidade ao assédio da platéia], que hoje é como meu pai, super inteligente, um Q.I. acima do normal.

Maurício Stycer: Cauby, você tem saudade dessa Era do Rádio?

Leão Lobo:  Uma borboleta!

Cauby Peixoto: Saudade?

Leão Lobo: Uma borboleta está voando aí. [interrompe]

Cauby Peixoto: É, tudo bem. Ótimo. Dá sorte.

[risos]

Antonio Carlos Ferreira: Só para explicar para os telespectadores que talvez não tenham visto é que tem aqui uma libélula, se não me engano, circulando em torno do nosso estúdio. Por favor, Cauby.

Cauby Peixoto: Bom, claro que a gente tem saudades, né? Eu tenho saudade de tudo, da música... A música brasileira é...quando eu canto nos shows, é pouco executada hoje, né? Mas interessante que o público, o público quer ouvir essa música que eu cantei, inclusive, antes da minha aparição, que é essa riqueza maravilhosa, desde a seresta, do chorinho, samba-exaltação [gênero de samba que surgiu no Brasil na década de 40, sofisticado, exaltando as qualidades e a grandiosidade do país. A principal composição é Aquarela do Brasil, de Ary Barroso]. É isso que eles gostam, é isso que eles pedem.

Maurício Stycer: Como você explica isso? Por que você acha que existe essa volta? Querem que você cante os seus velhos sucessos? Não há coisas boas novas para serem cantadas?

Cauby Peixoto: Por favor, aumenta o sonzinho um pouquinho mais. [pedindo para aumentar o tom da voz, pois não está escutando as perguntas]

Maurício Stycer: Não há músicas novas boas para ser cantadas?

Cauby Peixoto: Jovem, tem a música romântica jovem e muito boa, muito boa. Têm aí autores, compositores brasileiros e americanos, cubanos...

Leão Lobo:  Quem que você gosta hoje?

Cauby Peixoto: Tem coisa jovem muito boa...

Leão Lobo: Quem que faz sucesso hoje que você gosta?

Cauby Peixoto: ... Que dá até para dançar, né? Rita Lee tem músicas bonitas.

Leão Lobo: Você, por exemplo, falou que as pessoas pedem para você cantar músicas e tal, não só as antigas, mas todos os seus sucessos, né? Por que você acha, então, que se as pessoas pedem tanto para você cantar, por que que você não faz shows em estádios, por que que você não grava discos hoje?

Cauby Peixoto: Esquema.

Leão Lobo: Pois é. O que é esse esquema? Isso que eu queria que você... você que está dentro do esquema...

Cauby Peixoto: Olha, esquema... As coisas já foram muito mais espontâneas, né? E... Nós dávamos para o público com mais autenticidade, digamos assim, e era uma época em que se exigia mais potencial vocal. Se bem que eu, eu canto das duas formas, né? Soltando a voz nas estradas e com a voz mais intimista, que eu gosto muito - aliás, eu gosto, eu prefiro uma voz mais suave, é como se faz hoje. O que acontece é que nós não temos uma gravadora, não temos uma televisão. As coisas mudaram, hoje a gente vai na televisão e canta uma música e geralmente tem que ser “Conceição” [maior sucesso do cantor] ou então uma música que o produtor pede para cantar porque está em sucesso, porque tem que ser uma música alegre. Eu sou um cantor romântico...

Leão Lobo: Mas por que você acha que acontece isso?

Cauby Peixoto: ... Eu quando canto num programa, por exemplo, do Fausto Silva [apresentador de programa dominical Domingão do Faustão da Rede Globo de Televisão], aí eu tenho que cantar uma música que possa agitar o auditório, né? Não tem que ser uma romântica, eu posso cantar "Conceição", mas eu preciso cantar uma outra para agitar. Então aí é aquela coisa de quase uma apelação, se bem que eu fui crooner [cantor(a) que se apresenta normalmente acompanhado por uma orquestra completa e cuja maior característica é a versatilidade, já que interpreta vários estilos musicais], o crooner canta qualquer gênero de música, cha cha cha, mambo, rock, qualquer coisa, não é? É um exercício, é muito bom ser crooner. A gente aprende muito...

Leão Lobo: Mas, esse esquema que eu queria que você me explicasse um pouco mais, eu nunca entendo direito o que é esse esquema das gravadoras com as televisões, porque eu vejo...

Cauby Peixoto: Esse esquema é o dólar, amigo, é o dólar.

Leão Lobo: Hum-hum.

Cauby Peixoto: O dólar, a displicência nossa, minha também, porque eu sou brasileiro. A negligência, digamos assim, e a falta de uma lei, uma lei que possa proibir [que] possam tocar mais música estrangeira do que...Você liga um rádio hoje, parece que você está na América [refere-se aos Estados Unidos], não é isso? E aí a nossa cultura vai ficando esquecida e tal, aquela história do país sem memória. Nós não somos culpados, os jovens também não são culpados, não é? Porque eu gostava de rock também na minha época eu cantava rock, mas eu ouvia muito mais música brasileira, eu me fiz cantando música brasileira e o povo pede música brasileira, sabe? É interessante. É uma coisa que não dá para entender, sabe?

[...]: [interrompendo] Cauby, eu ouvi dizer...

Cauby Peixoto: Eles preferem também o cinema nacional. Tudo que é brasileiro eles gostam mais. Só que a gente não ouve, não vê, não é?

Kleber de Almeida: Cauby, Cauby, antigamente os compositores entregavam suas músicas para os cantores profissionais. Hoje os compositores é que apresentam suas próprias músicas, eles gravam os discos, eles fazem shows, espetáculos. Agora aí não tem uma questão de direito autoral? Quer dizer, para o compositor é melhor gravar a música, porque se ele passar para o cantor profissional, ele vai ter que passar parte desse direito autoral que vai para o cantor, não vai? Ou ele... Só porque ele quer cantar, aparecer também como cantor?

Cauby Peixoto: Não, não. É porque cada compositor tem mais de mil músicas e, às vezes, o cantor, na minha época, por exemplo, o cantor era, era... os compositores tinham muita dificuldade em chegar até nós. Nós às vezes até corríamos deles. Então eles se revoltaram com os cantores da minha época e passaram a gravar. Está certo. Mas alguns cantam até muito bem, sabe? Eu considero o Milton Nascimento...

Kleber de Almeida: Mas aí eles cantam bem... talvez seja fruto da tecnologia.

Cauby Peixoto: ...Ivan Lins e tal... cantam direitinho, afinados e tal, a maioria. Aprenderam também a cantar, não é? A gente aprende com os cantores. Eu aprendi muita coisa com essa nova geração, com os baianos, Maria Bethânia, Ney Matogrosso. A gente vai renovando, vai inovando, isso aconteceu com eles. Agora, na minha época, poucos cantavam bem. Eles cantavam mal, eles tinham que dar [a composição] para o cantor. O cantor tinha voz, aquele vozeirão, tinha que ter voz mesmo, não é?

Antonio Carlos Ferreira:  Cauby, Cauby, só, uma questão aqui. Você disse, respondendo ao Leão, que na sua época, nos anos 50, as coisas eram mais espontâneas. Agora tem um caso aqui que eu gostaria de confirmar com você. Porque seu grande sucesso, quando você surgiu, quando você apareceu, foi com “Conceição” em 1954 e a história, não sei se é história ou se é uma lenda, diz que não foi tão espontâneo o sucesso. Claro, a sua interpretação era ótima, a música era boa, mas chegou ali o seu empresário e deu um jabá - um jabá é um dinheiro na linguagem da música, na linguagem da rádio - deu um dinheiro para o sujeito colocar “Conceição” no meio das notícias sobre o suicídio de Getúlio Vargas [Getúlio Dornelles Vargas (1882-1954) um dos mais importantes políticos brasileiros, foi, por duas vezes, presidente da República. Suicidou-se em 1954, gerando comoção nacional]. Isso é verdade?

Cauby Peixoto: É verdade, é verdade. Eu fui um cantor já... eu apareci no Brasil já com uma publicidade organizada, não é? Mas não como hoje. Hoje é jabá e meio [risos]. Toneladas de jabá, mas era um jabazinho e tal. E o meu empresário, quando Getúlio morreu, se suicidou, ele foi imediatamente na Rádio Nacional e levou um  [disco de] acetato de "Conceição". Acetato, vocês sabem o que é? É um disco de cera, que se faz mesmo na rádio, só que não pode vender. Até é mal gravado mesmo. O fato é que a “Conceição” estava lá e ele foi, deu o jabá ao DJ, ao técnico, não era nem DJ, para que nos intervalos das notícias sobre a morte do Getúlio, ele tocasse “Conceição”. Ele foi despedido da rádio por causa disso. Não podia de jeito nenhum, mas ele tocou e “Conceição” estourou.

Leão Lobo: Cauby, eu soube que... lendo alguma coisa sobre você, eu vi que você parece que começou imitando a Dalva de Oliveira [(1916-1972), uma das maiores cantoras brasileiras de samba-canção e boleros], não é? Então eu queria te fazer uma pergunta, primeiro se isso é verdade e segundo, se você hoje tivesse que ser uma cantora que cantora você gostaria de ser?

Cauby Peixoto: Olha, eu tirei muito, eu aprendi muito com as cantoras, os falsetes da Dalva, né? Os finais da Ângela Maria. A interpretação da Elizeth Cardoso [(1920-1990) cantora de samba-canção e bossa nova], sabe? Tirei também das cantoras. Eu sou um misto de, de cantor...

Leão Lobo: Você é um pouco de Lisa Minelli [atriz e cantora norte-americana de grande sucesso nos anos 70] no palco, não é?

Cauby Peixoto: ... Feminino e masculino, não é?

Leão Lobo: Exatamente.

Cauby Peixoto: Eu sou... Se você prestar atenção eu tenho um pedacinho de cada cantor.

Maria Cristina Duarte: Esse abanar de lenço você aprendeu de quem?

Cauby Peixoto: Hein? 

Maria Cristina Duarte: Esse abanar com o lenço, que ficou consagrado, foi com quem? É seu mesmo?

Cauby Peixoto: É isso? [mostrando o gesto]

Maria Cristina Duarte: É.

Cauby Peixoto: O lenço...

[...]: O Cauby, você já calculou... [interrompendo]

Cauby Peixoto: ... Eu, eu trabalho muito no palco, sabe? Eu me entrego totalmente. E uma vez eu saí suado demais e meu padrinho disse: “leva um lenço, porque fica feia a imagem, não fica legal” e eu passei a  usar o lenço, a transar o lenço, pá, pá, pá, ficou! A história do lenço.

Celso Curi: Cauby, eu confesso que eu preferia estar lá em cima com o pessoal do fã-clube do que aqui no lugar onde eu estou. Mas queria saber uma coisa, você se acha brega? Como as pessoas estão chamando o músico, o cantor romântico hoje é chamado de brega. Você se acha brega?

Cauby Peixoto: Eu adoro brega. Quem dera se eu fosse mais brega. Ele acabou de falar [refere-se à Antonio Carlos Ferreira]. Em 80, 81 me fizeram o cantor “classeado”, não sei o que, pá, pá, pá... Eu cantei em Copacabana, eu também sou... porque meu irmão é jazzístico, né? E essa classe A, que... - eu não discrimino nada, para mim gente é gente - mas realmente existe um público mais sofisticado, né? Eu também canto esse gênero, que eu aprendi, mas eu preferia, eu gostaria de ser brega mesmo, sabe? Vender disco e tal, ver o povo, né? Porque eu vim do povo eu sou um rapaz humilde, pobre, e eu já era brega. Me fizeram, me vestiram, né? Enfeitaram o pavão, né? O pavão foi enfeitado!

Tonico Ferreira: Mas você gostou disso ou não?

Cauby Peixoto: Eu gostei, sim. Gostei porque eu fui me aperfeiçoando, sabe? Eu fui passando a cantar com mais seriedade, passando a melhorar o repertório, sabe? Cantar músicas mais bonitas. Gostei sim.

Leão Lobo: Cauby, o que você acha do Julio Iglesias [cantor romântico espanhol famoso em todo o mundo, com centenas de milhões de discos vendidos] ? Você acha que ele também é fabricado? Como é que é? É jabá e meio também?

Cauby Peixoto: Eu acho, eu acho que é. Ali é dólar, não é?

Leão Lobo: E você acha, por exemplo, que ele tira mercado do cantor brasileiro?

Cauby Peixoto: Eu acho, mas eu já acho o Julio Iglesias um cantor bom. Acho um bom cantor.

Leão Lobo: Você acha que ele é brega também?

Cauby Peixoto: É. Meu padrinho me disse uma vez que tudo que se faz por uma coisa boa se tem sempre um bom resultado. Se ele fosse ruim nós diríamos, porque enganar brasileiro é muito difícil, né? Eu acho difícil.

Leão Lobo: Você acha difícil?

Cauby Peixoto: É, o brasileiro está chamando já hoje as coisas [de] "descartáveis". Realmente são." E o fulano? É descartável. E sicrano? É descartável. E o Cauby? Ah!... E o Nelson? Ah!..."

Leão Lobo: Cauby, e o Sarney é descartável?

Cauby Peixoto: Então nós sabemos, nós somos “musical”, né? O brasileiro sempre foi, a nossa escola foi ótima! Foi até melhor que a minha. O Sílvio Caldas, o Orlando Silva [cantores de samba-canção], não é?

Maria Cristina Duarte: Mas precisava ser bonitinho né? Nós sempre precisamos que também seja bonito o cantor. Quer dizer, a gente é difícil enganar, mas precisa ser bonito. Você não acha que o fato de você ser bonito ajudou? Como ajuda o Julio Iglesias?

Cauby Peixoto: Não, eu, eu acho que ajuda mesmo é a simplicidade do artista. Por exemplo, meus colegas são apaixonados por mim, sabe? As cantoras os cantores e os profissionais de televisão, como esse moço aqui e você. A maioria. [apontando pelos entrevistadores do programa]. Pela minha maneira de ser. Às vezes eu até penso assim, será que eles gostam mais de mim do que do cantor, porque eu também sou assim, sabe? Eu cobro muito do artista a humildade dele, cobro demais. Aqueles mais quentes, os mais frios.

Antonio Carlos Ferreira: Só um minutinho, Leão, é que tem umas perguntas de telespectadores interessantes, nós estamos já com algumas perguntas aqui, Cauby...

Cauby Peixoto: Pois não.

Antonio Carlos Ferreira: Eu gostaria que você respondesse, são muitas perguntas, estou selecionando aqui...

Cauby Peixoto: Ótimo, perguntem mais, mais, tudo [volta-se para a câmera, chamando a atenção dos telespectadores]

Antonio Carlos Ferreira: Então já que nós estávamos discutindo, conversando um pouco sobre a necessidade ou não da beleza do cantor, a Celeste Frederico, da Vila Monumento aqui de São Paulo, quer saber quantas plásticas você já fez?

Cauby Peixoto: Quantas? Eu poderia citar, um amigo meu aqui de São Paulo, foi quem fez a primeira plástica, posso ou não?

Antonio Carlos Ferreira: Pode, não há problema.

Cauby Peixoto: Raul Loeb. É um artista como eu nunca vi em país nenhum, sabe? Quando eu fiz a plástica, quando cheguei na Record, na época da Record, milhares de programas, né? Foi um escândalo, sabe? Chocante, né? Coisa assim: “mas como? mas você se machucou, teve um desastre e você ficou melhor? Onde foi esse desastre que eu quero fazer igualzinho?" [risos] A mulherada toda e homens também. Foi perfeito! Me deixou realmente mais bonito.

Teresa Cristina de Barros: Cauby, você tem medo da velhice?

Cauby Peixoto: Não eu não tenho, mas eu tenho um respeito muito... enquanto eu não estiver desafinando eu acho que eu devo me cuidar, sabe? Questão de plástica é uma coisa higiênica. As pessoas falam para mim, eu faço tudo o que o público gosta e quer. Sempre fui assim. Eu pergunto muito "como é que está?". As pessoas vão dizendo "você está ótimo". Os homens também: "o que você faz, cara?". Porque eles talvez tivessem relaxado um pouco. Eu não bebo, não bebo álcool, eu como com disciplina, não como muito. Eu procuro ter uma vida para palco, mesmo. Me cuido para isso. Por isso que eu faço e farei todas.

Antonio Carlos Ferreira: Cauby, ainda continuando aqui as perguntas, a Priscila Cardoso aqui de São Paulo, quer saber - é uma série de perguntas nesse mesmo sentido - por que você ainda não se casou. A Marilena Cardoso, da Chácara Flora em São Paulo, também pergunta.

Cauby Peixoto: Como é nome dela?

Antonio Carlos Ferreira: Marilena Cardoso, essa é a segunda.

Cauby Peixoto: Marilena Cardoso, foi por isso que eu deixei de ir 20, quase 20 anos no programa do Silvio Santos, sabe? Porque o meu padrinho...- não foi por mim, não! Eu sou um cara que eu tenho muita personalidade, nada me agride, eu levo desaforo para casa e tal - mas o meu padrinho disse: “você não vai mais porque o Silvio te fez uma pergunta capciosa, uma espécie de gozação”. Ou talvez não. Para mim não foi gozação. Como nada é gozação. Porque o brasileiro brinca muito. Aquela coisa um chama o outro de " viado", “ô, bicha!”.O Chacrinha me chama de bicha "tá Caubicha",  bota a mão no bumbum e tudo bem eu chamo ele de "velha senhora"...

Antonio Carlos Ferreira: E você fatura com isso, não?

Cauby Peixoto: ... Aquelas coisas de brasileiro...

Antonio Carlos Ferreira: Você usa isso também para você...

Cauby Peixoto:  ... e de colegas. É, as mulheres também: “ô, sua vaca”, “sua isso”, “sua filha da, pá, pá, pá, ti, ti, ti”. É coisa nossa, não é? É uma maneira de ser do brasileiro, então eu nunca levei como agressão. Mas o meu padrinho disse: “olha você não deve ir mais no programa do Silvio porque ele está muito nessa de mandar você dar uma voltinha no palco e tal, você não é manequim”. Mas o Silvio gostava era das minhas roupas, sabe? É! Ele gostava, ele perguntava "quem é que faz a sua maquiagem? E esse cabelo? Pá, pá, pá, e essa roupa? Mas quem foi que fez? E o sapato?".

Antonio Carlos Ferreira: Mas, veja Cauby, que a pergunta, a pergunta aqui da Priscila... 

Cauby Peixoto: Então ele curtia, o Silvio curtia isso.

Antonio Carlos Ferreira: Mas a pergunta da Priscila, da Marilena, da Marília e de outras são todas no sentido se você é casado. Eu tenho aqui outras perguntas perguntando se você é homossexual e tudo que eu não li ainda e nem vou ler porque acho que você já respondeu que você não se interessa por resolver esse tipo de problema. Agora, a pergunta é realmente se você é casado, se você, porque você não se casou e porque você não tem filhos.

Cauby Peixoto: Não, eu não casaria não porque isso é outra coisa também que, que eu aprendi com meu padrinho, eu espero até, eu espero até que os jovens, os jovens...

Antonio Carlos Ferreira: O seu padrinho é melhor explicar um pouquinho também para o telespectador... Cauby, antes você tem que explicar que é o seu padrinho de quem já falou várias vezes, nós sabemos que..

Cauby Peixoto: Falei o nome dele né, Di Veras [Edison di Veras].

Antonio Carlos Ferreira: ... É o empresário Di Veras, mas foi o empresário que te descobriu e te levou. É só para o telespectador poder acompanhar o raciocínio.

Cauby Peixoto: Eu posso contar? Por que não o casamento para mim, no meu caso? Bom, eu tinha uma garota, transava com ela e tal, numa boa, gostava e tal mas ela não aceitava esse assédio das fãs. Era ciumenta. O aquariano não se liga muito nessa coisa de ciúme, não, sabe? Enche o saco. Pegar no pé e tal. E ela uma vez brigou comigo no hotel por causa de uma garota que deu dois beijos, tal, ela achou que eu estava olhando com segunda intenção e não. Eu a estava olhando como fã, né? Com carinho, o mesmo carinho para todas, né? Ele, então, [o padrinho] disse assim, olha você tem que escolher: “ou você fica com essa, com essa dona (ele a chamava de dona) ou você fica com a carreira”. Eu fui para casa reciclar, porque tudo que falam para mim, sabe, eu guardo, reciclo, vou analisar e tal. O que é bom fica, o que é ruim vai para fora, para a lata do lixo.

Teresa Cristina de Barros: Agora, Cauby, diz que duas fãs suas não se casaram até hoje porque estão esperando ainda que você se case com elas. Como é que é essa história?

Cauby Peixoto: É. É. Eu tenho inveja dessas moças porque eu não tenho esse amor por ninguém. Eu invejo isso. Uma pessoa viver 24 horas em função de uma pessoa, é uma coisa invejável. Eu tenho uma secretária assim...

Teresa Cristina de Barros: E como é que é a tua relação hoje com elas?

Cauby Peixoto: Sabe, Lídia não casou também. Sou eu e a mãe dela, só. Mata, né?... Mata, esfola por duas criaturas, a mãe e eu. Eu acho isso legal. Bom, muito bom.

Leão Lobo: Oh, Cauby, a apresentadora Xênia Bier [apresentadora da TV Bandeirantes nas décadas de 70 e 80]. também parece que é apaixonada por você, pelo menos ela me contou isso uma vez. Como é  essa história?

Cauby Peixoto: A Xênia é algo muito especial, né?

Leão Lobo: Eu vi uma vez você jogando flores para ela...

Cauby Peixoto: A Xênia não tem cobrança, é uma vez por ano, dois anos, três anos e tal, sabe? Também quando me toca arrepia... tudo. [cantando] "Se você pensa que vai me seduzir, se você pensa que vai me arrepiar..." [risos]

Celso Curi: Cauby, você nunca amou violentamente "de ficar de quatro" de paixão?

Cauby Peixoto: Já, já.

Celso Curi: E aí o que aconteceu?

Cauby Peixoto: Não deu. Quebrei a cara. Não deu. Tentei, tentei novamente, depois tentei e depois tentei e depois tentei e, e... Só que eu fui evoluindo, é um negócio, eu hoje tenho uma cabeça que, se eu casasse, a mulher teria que morar, de preferência, em outro apartamento. Dormir junto, nunca, jamais. Eu quero sentir saudade, sabe aquela coisa, eu quero continuar amando, nada de rotina, não funciona rotina.

Celso Curi: Isso não é um defeito do aquariano, de amar à distância?

Cauby Peixoto: Não, eu quero amar mesmo. Eu gostaria de amar mesmo, tipo namoro.

Maria Cristina Duarte: Quando você ficou "de quatro", você não quis casar? A gente sempre capitula nessas horas, aí diz: “caso, caso, caso!”

Cauby Peixoto: Eu não casaria e depois hoje está aí né: casa quem quer. Está aí o resultado daquilo: eu acho muito bonito o Gilberto Gil. Uma vez na Bahia, o meu pianista foi cumprimentá-lo:  “ah, o Cauby está aí?” “Está no clube”.  E "esse cara, eu amo esse cara porque ele foi precursor de tudo isso...”[risos]. “Ele foi o precursor”. Eu nem sei se fui, eu sei que eu fui muito atrevido, não é? Para a época!

Maria Cristina Duarte: Pelo menos você resistiu.

Kleber de Almeida: Cauby, a música “Bastidores” tem a ver alguma coisa com você mesmo, com sua vida? [Música de Chico Buarque, feita para Cauby]

Cauby Peixoto: Tem. Eu gosto de brilho. Gosto. Eu gosto de me enfeitar, ficar bonitinho no palco, roupa e tal. E quem me veste, amigo, são as mulheres, sabe? Às vezes eu estou assim um pouco... Porque eu não tenho ainda aquela, aquela... Eu não sou ainda senhor de mim. Ainda tenho aquela preocupação de como vou me apresentar, e eu chamo as pessoas. Estou fazendo um show numa boate e tem aquelas pessoas curiosas que vão até o camarim para ver as roupas e aí eu chamo uma fêmea e um macho, entendeu? Para olharem as roupas. Aí eu digo, olha eu vou com esse blazer aqui. Que tal? Um blazer vermelho e tal? Imagina na minha época, vermelho, levava uma surra né? [risos] Imagina o lilás! Você sabe, sabe o que acontece? A fêmea e o macho, o casal escolhe a roupa de brilho. Quanto mais brilho... "não é essa aqui, tem que ser essa", "Paetê, olha, pelos sete lados".

Leão Lobo: Sei.

Cauby Peixoto: Aí eu coloco.

Okky de Souza: Cauby, sua vida pessoal sempre foi muito reservada. Quem é você hoje? O que você faz para se divertir, quando você não está trabalhando?

Cauby Peixoto: Olha, eu só sei que hoje eu estou me dedicando mais à música porque eu sou muito preguiçoso, é... preguiçoso mesmo, sabe? Muito, demais. Eu tenho que ser empurrado sempre, empurrado, secretariado, empresário sempre me empurrando, senão não vou. Primeiro passo é cantar de graça porque eu gosto muito de cantar. Cantar de graça é uma ótima, sabe, porque aí eu canto tudo que quero...

Teresa Cristina de Barros: Quantas vezes você conseguiu fazer isso, cantar de graça?

Cauby Peixoto: Muitas, muitas. Eu continuo cantando de graça. Eu saio do meu trabalho e vou para o outro, a boate, e fico assim no cantinho, louco para pedirem para eu cantar, não é? Louco, alucinado.

Maurício Stycer: Cauby...

Okky de Souza: Cauby, dá licença só para completar minha pergunta. Nas suas horas de lazer, o que você gosta de fazer?

Cauby Peixoto: Nenhuma.

Okky de Souza: Nenhuma?

Cauby Peixoto: Nenhuma.

Okky de Souza: Nem de manhã, nem...

Cauby Peixoto: Não, não gosto de nada. Não gosto de carro, não gosto de iate, não gosto de nada, nada. Eu gosto de palco. Palco!

Maurício Stycer: Você no passado..

Cauby Peixoto: Dormir, eu durmo muito bem, sabe?

Antonio Carlos Ferreira: Aliás, eu ouvi Cauby, que você dorme dez horas durante a noite e depois ainda...

Cauby Peixoto: É, eu durmo duas vezes.

Antonio Carlos Ferreira: ... E ainda depois do almoço mais algumas horas! É isso?

Cauby Peixoto: Depois do almoço é a melhor.

Antonio Carlos Ferreira: Mais algumas seis horas? É isso?

Cauby Peixoto: Claro. Umas quatro, cinco.

Antonio Carlos Ferreira: Sobra [tempo] só para o palco mesmo... [risos] Para 24 horas, sobra o palco e mais nada.

Cauby Peixoto: Tem mais é que sobrar. Porque o cidadão tem que ser autêntico, tem que gostar de uma coisa. Música é um ideal é uma coisa que eu sempre amei e cada vez mais, não pode parar. Eu sinto que tem horas que até eu extrapolo, o coração sai pela boca, sabe?

Maurício Stycer: Cauby, você deu algumas entrevistas, o ano passado, à propósito de um show que você fez em São Paulo e você falava muito da sua porção feminina que você tinha descoberto e citou algumas vezes, eu li, o [cantor] Ney Matogrosso, como uma fonte de inspiração para você. Queria que você falasse disso e queria que você falasse também da transformação do Ney Matogrosso, que agora está cantando de terno branco, sobriamente.

Cauby Peixoto: Transformação de?

Maurício Stycer: Do próprio Ney, que agora mudou, né? Quer dizer, a porção feminina que você viu no Ney, agora, eu acho que ele recolheu e agora está cantando de terno.

Cauby Peixoto: É aí que está. O Ney é um cara fora de série, sabe? Ele faz o que quer. Ele fez exatamente... Não, eu não fiz como ele, mas eu fiz mais ou menos como ele.  É que eu sou de outra época, também. O Ney faz, ela bola tudo, ele é que faz as coisas. Então ele é o maior artista brasileiro, maior visual, palco, teatro. É demais...

Maurício Stycer: E o que você está achando dessa fase dele mais sóbria?

Cauby Peixoto: ...Além da voz. Uma vez, eu fui vê-lo no teatro para ver se ele realmente era um cantor ou se aquelas máscaras, aquelas coisas, não é? Aí ele cantou uma musiquinha assim de cócoras no palco. Séria, para valer. Foi a mais aplaudida. Sabe, aí eu entendi. Passei a respeitá-lo mais ainda.

Leão Lobo: Cauby, eu estou vendo uma paixão pelo palco, não é? Parece que você vive no palco. Mas você deve ter um tempinho teu para transar, para dormir, essas coisas. Quer dizer, eu perguntei agora há pouco, né? Machos e fêmeas, como você usou agora mesmo, estão preocupados [com a aids] com essa coisa de transar hoje.. Como você está vendo isso? Quer dizer, está difícil, quer dizer, para uma pessoa solteira?

Cauby Peixoto: As vezes, eu sou versátil também na minha maneira de transar. Eu transo de diversas formas, já fui muito promíscuo, quando garoto, já transei com porca, galinha, papagaio. Outro dia um empresário disse assim “pernilongo”. Eu disse: “Não, pernilongo, não. Não dá”. Mas eu fui, depois não. Na fase de garoto e tal, foi quebra-galho.

Leão Lobo: Mas foi uma coisa natural ou é por causa...

Cauby Peixoto: Quebra-galho.

Leão Lobo: Mas foi uma coisa natural, quer dizer, você foi ficando menos promíscuo ou é por causa dessa...

Cauby Peixoto: Não, é tesão mesmo. Tesão, brincadeira e tal.

Leão Lobo: Perdeu o tesão, é isso?

Cauby Peixoto: Não, não, não. Não, é que agora está... as coisas estão mais fáceis. Mas a história da camisinha, nós já usávamos também... Porque na minha época transava-se mais com prostituta, que é um mal necessário, elas são maravilhosas! Então a camisinha existia. Não tinha problema.

Leão Lobo: Não tinha problema?

Cauby Peixoto: Não.

Teresa Cristina de Barros: Cauby, você estava falando uns minutos atrás sobre a sua porção feminina, sobre a sua porção masculina. Qual é o seu ideal de mulher? Se você nascesse mulher, que mulher você gostaria de ser?

Cauby Peixoto: Que mulher? Nós já citamos uma aqui, a Xênia, não é? Eu gosto de mulher inteligente, eu gosto de mulher .. Bom, seria tudo.

Teresa Cristina de Barros: E como que é essa tua porção feminina? Como você sente esse seu lado?

Cauby Peixoto: Meu lado feminino? Lado delicado, eu sou um rapaz educado. Para o Brasil já é e sempre foi uma coisa assim meio estranha, porque o homem brasileiro ele tem que falar palavrão, tem que se sentar com perna aberta, mais ou menos assim, né? [gesticula sentando com as pernas abertas] Isso eu digo na minha área, não vocês, perdão. Na minha área, fala-se em futebol, da mulher "boa". Eu não, eu gosto de falar da vida, e me comporto assim. Todos os meus irmãos são muito educados, o mais velho então é demais, parece um príncipe, o Moacir, sabe, finíssimo, fino. É de família.

Leão Lobo:  Cauby, você... É engraçado, você fez muito sucesso, depois teve umas fases de menos sucesso, mas você nunca fez, pelo menos que eu me lembre, um programa de televisão. Por quê? Você nunca quis? Por exemplo, o Agnaldo Rayol [cantor brasileiro que, nos anos 80, comandou por oito anos o sucesso Festa Baile, programa musical produzido pela TV Cultura] agora faz programas, vários cantores da sua geração, inclusive, fazem programa.

Cauby Peixoto: Eu já fiz sim, mas não deu certo. Eu já fiz na [TV] Record.

Leão Lobo: Ah. Na TV Record.

Cauby Peixoto:  É, já fiz. Um programa meu, mas aí o produtor...  No texto, no script, eu teria que chamar a Leny Eversong de “elefante”. Aquilo me chocou, sabe? Ele disse, não é uma brincadeira: "você chama o Jô Soares  de não sei de quê, você chama a Leny de “elefante” e a Leny te chama de “mosquito” ou uma outra coisa qualquer". Quer dizer, ela pode me chamar de tudo que ela quiser, agora de elefante não dá. E nós brigamos, nos desentendemos. Ele disse "ah você fica cantando esses boleros aí, não sei o quê, o programa é outro contexto". Mas eu não chamo a Leny de “elefante” de jeito nenhum. Acabou o programa aí.

Antonio Carlos Ferreira: Só um minutinho, aproveitando ainda essa deixa sobre a televisão, eu gostaria de fazer uma pergunta, Cauby. Qual é a diferença entre o rádio, aquela Rádio Nacional, no qual você fez grande sucesso, e a TV? Ou seja, era mais fácil fazer sucesso naquela época com a rádio do que hoje com a televisão?

Cauby Peixoto: Eu sou mais hoje, eu sou mais hoje. Porque hoje nós não podemos enganar mais. Talvez, nós tivéssemos enganado, não pela voz não, mas pela personalidade. A televisão vai dentro da casa das pessoas e quem pode entrar, entra e quem não é, não entra. Não sei se você me entendeu. Quem é, entra, quem não é... E o "to be or not to be" [ser ou ão ser] é muito complicado ainda no Brasil, porque a gente leva logo para o sexo, para a coisa sexual, e não é. Realmente tem pessoas que não são, fazem gênero, fazem tipo. E tem aquelas pessoas autênticas. Eu assisti a um programa aqui [na TV Cultura] que me emocionou... A seriedade. Um programa político, não sei se foi este aqui [o Roda Viva], talvez, uma coisa muito séria, sabe, aí eu me orgulhei de ser brasileiro em São Paulo. Em São Paulo as coisas são muito mais sérias.

Antonio Carlos Ferreira: Aliás, tem uma pergunta de telespectador aqui perguntando se você realmente foi proibido alguma vez de cantar em Minas Gerais? Se essa história é verdadeira? Houve isso, uma proibição?

Cauby Peixoto: Onde, na rádio?

Antonio Carlos Ferreira: De cantar no estado de Minas Gerais, uma proibição de censura.

Cauby Peixoto: Não, não.

Antonio Carlos Ferreira: Nada disso.

Cauby Peixoto:  Eu sempre entrei na... Eu sou um cantor familiar, sabe? Eu posso ter muitos rótulos, sei lá, mas quando as pessoas me vêem, quando eu vou numa casa, as pessoas não querem que eu saia mais. Porque eu entro como artista e ser humano e o que eu dou de melhor para as pessoas é o respeito, sabe? Qualquer ser humano. Não quero...preto, vermelho, encarnado, verde e tal, para mim é tudo igual, é ser humano. Eu sou espiritualista, então não podia ser diferente.

Leão Lobo: Cauby, você falou agora em ser brasileiro, e esse "ser ou não ser". E eu tinha te feito uma pergunta antes, mas alguém fez uma outra e ficou confuso. Eu queria saber, como é que você vê...Por exemplo, você falou que ninguém engana brasileiro, né? Como você vê hoje o governo Sarney [José Sarney era presidente do Brasil na época da entrevista]? Como você vê hoje o Silvio Santos para prefeito, por exemplo? Ser ou não ser prefeito? Como você vê essas coisas que acontecem no Brasil que a gente fica meio assustado, às vezes?

Cauby Peixoto:  Eu vejo que o brasileiro não fala muito não, mas ele age, sabe, ele é. O brasileiro é um povo único no mundo, porque as coisas lá fora... é tudo muito definido. A mulher tem que ser "assim, assado e cozido", o homem, não sei o quê. Não, aqui não. É uma mistura maravilhosa, inclusive, de raça, de sangue. E o brasileiro é um pouco mais civilizado. Não sei se você me entende. Mais um pouquinho para frente do que os outros povos, que é tudo definido, padrão. Mulher, mulher. Homem, homem. Aqui não, a coisa, de que será?

Leão Lobo: Tem jogo de cintura.

Cauby Peixoto: Parece que todo mundo quer ser, né? Será que fulano... Essa preocupação já é ótima. Não resta a menor dúvida.

Teresa Cristina de Barros: Cauby, e sobre política, você não gosta? E política, você não gosta de falar de política? Política!

Cauby Peixoto: Não, porque eu não sou, eu não sou, eu não vou falar, porque realmente... não sou, não.

Maria Cristina Duarte: Cauby, você falou de preconceito e eu me lembro que a Revista do Rádio tinha muita fofoca de que além de você fazer plástica, você fez uma maquiagem a la Michael Jackson [cantor americano famoso pelo processo de "embranquecimento"], um cabelo mais liso do que você tinha. Você realmente se preocupou em deixar suas raízes mais morenas para trás?

Cauby Peixoto: É isso aí,  eu já entrava em conflito com o empresário. Eu achei que o empresário era muito machão. Também não tenho nada com isso. Seja macho ou não, ele é. Na cabeça dele, ele é. Manda na mulher e tal, aquelas coisas. Mas eu já estava começando a sentir essa mudança no Brasil. E quem mudou? Foram os jovens. Nós temos uma experiência e o jovem, iniciativa. Então eles que criam tudo, né, e eu tinha que fazer, mudar também um pouco. Não para conquistar esse público, o meu já está conquistado, mas para, para consolidar, digamos assim, o Cauby Peixoto [anos] 50. E isso aconteceu porque eu vejo, nas platéias, muita gente jovem. Eu acredito que o rapaz, uma moça depois dos 20 anos começa a gostar da gente ou dos cantores românticos porque estão amando. Então já não querem mais [outros gêneros musicais]. E eu sei também que o rock, a música jovem - que eu não acho que é jovem também - é adulta porque eu também gosto de dançar, adoro dançar, é uma música que foi feita para dançar. Hoje tem música para tudo, para almoçar, para jantar, para dormir, tem tudo. Então tem o rock, amanhã terá outra. É assim, eu vejo assim. E, de vez em quando, numa platéia... Uma vez eu fui numa discoteca e só tinha gente jovem. Eu tive que mudar o repertório. Só pintou “Conceição”, eu não tinha gravado “Bastidores” ainda, que é uma música muito boa. O jovem hoje está com um ouvido muito mais afinado do que nós. Porque se você comparar, a música hoje é muito mais difícil de ser cantada. Música do Milton Nascimento, do Ivan Lins, Jobim [Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (1927-1984), maestro, cantor, compositor reconhecido internacionalmente e um dos criadores da bossa nova]. São músicas dificílimas de serem cantadas, não é qualquer um que canta não. Sabe, muito difícil, muito bonita. Então você tem que cantar também, entendeu?

Ruy Castro: Cauby, você já calculou quantas vezes cantou “Conceição” até hoje?

Cauby Peixoto: Ah, meu amigo, eu tentei uma vez não cantar “Conceição” em Fortaleza, num clube, o Clube Ideal. E estava o governador lá na festa. Parece que era festa da filha dele, uma coisa assim e eu aí disse assim "não vou cantar 'Conceição'". Cantei tudo que era sucesso, cantei “Granada”. Até "Granada", é demais, me entreguei, me entreguei!. [risos] Aí, terminou o show e eu saí agradecido. Eu volto sempre duas vezes, agradeço devido aos aplausos e saí pelo meio do salão. Aí uma senhora me pegou pelo braço e disse “aonde você pensa que vai?” Eu disse “eu terminei o show”. Ela disse “Terminou como? Você vai cantar 'Conceição', não vai sair daqui”. Assim, mesmo sem cantar “Conceição”, voltei e cantei. [risos]

Ruy Castro: Olha, eu fiz um cálculo para você. Eu fiz um cálculo do “Conceição” para você. A música existe há 34 anos, se você cantou pelo menos 300 vezes por ano, que eu acho que foi pouco, você já cantou Conceição 11.200 vezes ao vivo.

Kleber de Almeida: “Conceição” deve ter te dado um grande lucro também, não?

Cauby Peixoto: É, demais.

Kleber de Almeida: Você não pode tratar tão mal essa “Conceição” porque ele é muito importante na sua vida.

Cauby Peixoto: Felizes daqueles cantores que conseguem um carro-chefe, uma coisa assim... E é uma coisa tão brasileira “Conceição”. Verde e amarela.

Celso Curi: Cauby, você ganhou dinheiro? Você ganhou dinheiro?

Cauby Peixoto: Não dá para traduzir. Como é que eu traduziria? Aliás, é aquilo que eu falei. O brasileiro é um pouco mais. Como é que nós cantaríamos “Bastidores”? Em que país? Não dá. “Me pintei, me pintei e cantei” [cantando]. Não dá. E “Medo de amar”? Não daria, né? [cantando] "Quando eu te encontro, te beijo na testa, te mordo na boca, e te lambo na nuca ". Não dá! [risos] Não dá, nem na Argentina. Aqui é lindo.

Antonio Carlos Ferreira: Uma pergunta do Celso Curi. A pergunta dele é se você ganhou dinheiro e há também uma pergunta aqui de Benedito Braga, de Lorena, no mesmo sentido, qual é a sua situação financeira atual?

Cauby Peixoto: Boa, é boa. Uma pessoa equilibrada. Sobre dinheiro, tive também orientação do Di Veras, sempre comprar tijolinho né? Imóvel, compro, vendo e ele vai administrando, eu continuo. A família agora está bem, sabe? Eu gozo de um conforto razoável. Se estivesse num outro país... mas é a tal coisa, o dinheiro demais atrapalha, né? Dinheiro demais é... Não sei se dá para explicar. O meu negócio é cantar mesmo.

Antonio Carlos Ferreira: Agora, quando você foi para os Estados Unidos, você foi em busca do dinheiro, não? Ou foi em busca da fama?

Cauby Peixoto: Em busca da fama. E se eu ficasse nos Estados Unidos cinco anos, eu teria uma fama de um Michael Jackson, talvez. Porque lá a gente aprende, tem que fazer. Aprendi muita coisa, eu aprendi idiomas, piano, aulas de canto. Eu cheguei a cantar, é... não uma ópera assim, operetas, né, que o [Agnaldo] Rayol canta muito bem. Mas eu não sabia cantar. Eu aprendi dança, já estava dançando cha, cha, cha com coreografia, jazz e tal. Tem que aprender e eu seria um showman. Teria talvez até mais que Michael, somaria a voz.

Maurício Stycer: Roberto Carlos está agora... fez um show esse fim de semana em Nova Iorque e foi meio ignorado pela crítica, não fez muito sucesso, mas foi classificado por um jornal, o Village Voice, como muito sexy. Você acha o Roberto Carlos muito sexy? Você acha ele um bom cantor? O que você acha do Roberto Carlos? O que você acha dele como cantor?

Cauby Peixoto: Eu acho que se o Roberto sentisse a música americana e não fosse tão autêntico, um pouco mais versátil, como eu, ele estouraria na América. Ele tem tudo para estourar, mas o americano não aceita, é preciso que o cantor cante. É como se uma americano viesse no Brasil, cantasse um samba bem cantado, nós ficaríamos apaixonados. É muito difícil, eu consigo porque meu irmão é jazzístico, quer dizer, os meus princípios, minha escola é jazzística. Então quando eu canto “New York, New York” dá até para voar. Sabe, eu me entrego, eu incorporo o americano, falo, inclusive: “let´s get together”, “come on”, essas coisas. E o brasileiro que conhece muito e que sabe quem canta, quem não canta ou em espanhol ou em italiano ou sei lá. Aí não se trata de cultura não, é uma questão de ouvido. O brasileiro tem um ouvido excepcional. Vocês que são intelectuais não, o povo diz que o cidadão não está com nada cantando inglês. Que não deveria cantar porque não chega lá. É preciso chegar lá.

Maurício Stycer: Você acha então que o Roberto não tem chance nos Estados Unidos?

Cauby Peixoto: Ele já gravou, me parece, um disco, mas não foi bem, porque é preciso competir. É aquilo que eu disse antes. Se um gringo, um francês... A única que conseguiu foi Catarina Valente [cantora italiana que interpreta canções em diversos idiomas], que eu ouvi no rádio e pensei que fosse uma brasileira. A única. É raro, é difícil, é muito difícil. Mas ela consegue, tem um ouvido privilegiado. Ela incorpora a coisa, então ela cantou uma bossa nova como uma brasileira, em português.

Kleber de Almeida: E o Sinatra [Frank Sinatra (1915-1998), cantor e ator norte-americano], incorporou, pelo mesmo, ritmo? O Sinatra, quando gravou um disco com músicas do Antonio Carlos Jobim, incorporou, pelo menos, o ritmo?

Cauby Peixoto: Eu acho o Sinatra um ótimo cantor, mas o idioma é que, quando eles [os estrangeiros] tentam cantar em português fica feio. Eu acho.

Antonio Carlos Ferreira: Só um minutinho, nós temos que fazer um pequeno intervalo, nós vamos voltar a estas e outras questões. Então o Roda Viva, entrevistando hoje Cauby Peixoto, volta dentro de alguns instantes.

[intervalo]

Antonio Carlos Ferreira:  Nós voltamos ao programa Roda Viva, que está entrevistando hoje Cauby Peixoto, ao vivo, em conjunto com a Rádio Cultura AM. Na primeira parte do nosso programa, nós falamos muito de “Conceição”, em todo show que você vai, pedem para cantar “Conceição”. Eu recebi aqui vários pedidos, mas não de “Conceição”, pedindo para você cantar...quem está ganhando no momento é “Zíngara”...

Cauby Peixoto: Obrigado.

Antonio Carlos Ferreira: ... Pedem para você cantar um trechinho dessa música.

Cauby Peixoto: [Cantando] "Minhas mãos...Zíngara, diga logo o destino meu, eu nada reclamo...". É por aí.

Antonio Carlos Ferreira: O que você sentiu quando você ganhou o prêmio com essa música?

Cauby Peixoto: Hein?

Antonio Carlos Ferreira: O que você sentiu quando você ganhou o San Remo com essa música?

Cauby Peixoto: Eu não ganhei o San Remo, não. Desculpe.

Antonio Carlos Ferreira: Não foi com ela?

Cauby Peixoto: Não, não foi não. Foi na Espanha, na Espanha eu ganhei um festival. Mas a "Zíngara", quando apareceu eu gravei, parece que Moacir Franco gravou também. Eu fui muito feliz na gravação e correu. Hoje não se pode fazer mais isso, o cantor lança uma música e só depois de seis meses o outro pode gravar. E então foi um sucesso muito grande, eu cantava muito em todos os shows, mas depois vai aparecendo outras músicas e a gente vai esquecendo, é muita coisa na cabeça, né? Só “Conceição” que não dá, porque eu tenho que cantar.

Antonio Carlos Ferreira: “Conceição” nós vamos guardar para o final. Nós vamos fazer como o Silvio Santos, a gente vai ficar dizendo "daqui a pouco Cauby Peixoto vai cantar 'Conceição'".

[risos]

Teresa Cristina de Barros: Cauby, qual é a música que você mais gosta de cantar? Quando você está embaixo do chuveiro, você começa a cantar o quê?

Cauby Peixoto: Vou cantar um pedacinho para você. Em homenagem a você, moça.

Teresa Cristina de Barros: Obrigada.

Cauby Peixoto: [cantando] "Chorei, chorei, até ficar com dó de mim. E me tranquei no camarim, eu tomei um calmante, um excitante, um bocado de gim. Amaldiçoei o dia em que te conheci. Com muitos brilhos me vesti, depois me pintei, me pintei, me pintei. Cantei, cantei, como é cruel cantar assim..." [Trecho da música "Bastidores"]

Teresa Cristina de Barros: Que beleza!

Celso Curi: Cauby, você chora, Cauby?

Teresa Cristina de Barros: Está perguntado lá, Cauby, olha o Celso.

Celso Curi: Você chora?

Cauby Peixoto: Sim.

Celso Curi: Muito ou pouco?

Cauby Peixoto: Choro com o belo, sabe, Celso? Tudo que é belo. O belo não é visual não. É uma palavra, uma pessoa, um homem, uma mulher, uma criança, a natureza. Tudo que é belo, eu choro, sabe. Eu acho que o mundo tem que ser, será, uma coisa muito bonita. Me emociono com São Paulo, muito. Me desculpe, eu acho outro país. Não mudou. O paulista não muda, ele cresce, mas ele é igual. Exatamente como eu sou, por isso essa afinidade com o paulista, sou muito querido aqui, muito, demais.

Leão Lobo: São Paulo é aquariana também, não é?

Cauby Peixoto: Hein?

Leão Lobo: São Paulo é aquariana também, não é?

[risos]

Antonio Carlos Ferreira: Agora, Cauby, o que lhe dá mais satisfação, você diz "gosto muito de cantar, quando estou sozinho", canta “Bastidores”, mas será que cantar “Conceição” nos anos 50 com platéia e tudo não era uma coisa também que, apesar de ser a música que você cantou não sei quantas mil vezes, o Ruy já fez o cálculo ali...

Ruy Castro: Onze mil e duzentas, por baixo.

Antonio Carlos Ferreira: ... Onze mil e tantas vezes, não é mais prazer cantar numa grande platéia do que a música que você gosta, sozinho ou com um grupo de amigos?

Cauby Peixoto: Olha, quanto maior a platéia, quanto mais difícil, melhor para mim. Por exemplo, tem cantores que não cantam em clube, não gostam de cantar em clube, porque não tem aquele aparato que um teatro tem. É a luz, é... Quanto mais perto do público para mim melhor, sabe, é um desafio. Eu gosto de desafiar, principalmente nessa brincadeira de jovens, que ficam olhando para mim : “será que esse cara é mesmo aquilo que falam e tal?” Aí começa aquele risinho. Mas quando eu abro a garganta parece que é como se fosse uma arma, sabe? É uma coisa como se fosse mágica, porque imediatamente eles passam a encarar a coisa com seriedade e acabam vibrando e aplaudindo de pé, como os adultos. Porque eu também canto essa  variedade imensa de repertório. É preciso cantar para todo mundo.

Antonio Carlos Ferreira: O Ruy tem uma questão.

Ruy Castro: Cauby, você tem uma coisa que nunca ninguém vai poder tirar de você que é o gogó. Agora o gogó, às vezes está na moda, às vezes não está na moda. Então, por exemplo, o João Gilberto, que foi o cantor que praticamente substituiu os cantores da sua geração, influenciou todo mundo, sem gogó nenhum. Você acha que a bossa nova de certa maneira foi o que ajudou a atrapalhar os cantores românticos daquela época?

Cauby Peixoto: Eu acho que o João Gilberto criou um estilo de se cantar diferente, com músicas belíssimas do Tom Jobim, a bossa nova. E isso agrada muito mais lá fora do que aqui. Por isso que o João Gilberto não conseguiu uma fama, popularidade. Porque a nossa maneira de cantar também, o brasileiro, cada país tem o seu estilo, sua coisa própria, sua maneira de dizer as coisas, mesmo do cantar, do seresteiro, nós temos raízes. Ele conseguiu, e foram músicas belíssimas. O que está acontecendo agora é uma inversão enorme de valores em que a música está correndo na frente do cantor. Por isso, que eu procuro cantar sucessos atuais, porque se eu não cantar vai ficar aquela coisa assim, “ah ele é meio careta, meio antigo, estacionou!”. Eu estou sempre cantando duas, três músicas, estou cantando agora “Anos Dourados”, é uma música belíssima, estou cantando “Personagem” da Fafá de Belém, que é demais, sabe, estou cantando Joana, Bethânia, Simone. Então eu sinto que as pessoas, o público também evolui. Nós não paramos, não, sabe? Quem gosta de música, vai ficando mais exigente, digamos assim. Eu acho por aí. Aí eu canto a música “Flor-de-lis” que é uma música que agita, jazzística [cantando] “Valei-me, Deus, é o fim do nosso amor. Perdoa, por favor. Eu sei que o erro aconteceu...” , e o jovem gosta, porque ele sabe o que é. Eu não tenho preocupação com nenhuma faixa etária, sabe? É que eu respeito muito a minha, canto mais para a minha, para o meu público.

Teresa Cristina de Barros: Qual o rock que você gravaria?

Cauby Peixoto: Qual o rock? Um rock que pudesse cantar mais para o tradicional do que pauleira. Se bem que eu entrei uma vez no rock pauleira e quem me acompanhou foi o Erasmo Carlos e o Roberto [Carlos].  Eles não, eles estavam ainda procurando, buscando, lutando por uma chance e o Imperial [apresentador Carlos Imperial]  convidou o conjunto, tocava num clube lá no Rio: “olha vocês vão acompanhar o Cauby Peixoto". O Roberto já era macaco [fã] meu, macaco declarado e tal. Aí tocaram um rock e eu cantei, dançando. E outro dia eu vi num especial do Erasmo, eu fiquei, levei um choque, sabe? Porque depois eu entrei naquela de careta, cantor senhor, terno, gravata e tal, meio cafona, repertório. Mas vende, é o negócio do brega. Brega vende, está acabado, não é?

Maurício Stycer: Você já gravou... Cauby, você já gravou 86 discos...

Cauby Peixoto: Em compensação o disco, nós somos dependentes do disco, muito dependentes, sabe as rádios..

Maurício Stycer: Você já gravou 86 discos, quer dizer já deve ter gravado umas 600 músicas ou mais. Qual música você gostaria de gravar que você ainda não gravou?

Cauby Peixoto: Ah. Tem muitas, muitas. Eu perdi muitas oportunidades. Perdi, perdi “New York, New York”. E as pessoas dizem que eu interpreto melhor que Sinatra, eu acredito, acredito. Sinatra já está com setenta e poucos anos, né? Já não vai nos agudos como antes e tal e ele também é fissurado por Chicago e eu, New York. Amo New York, entende? As pessoas sentem isso também, né? Quer dizer, quando eu canto uma música que fala de São Paulo, “Ronda”, eu canto melhor do que uma que fala do Rio, digamos assim. Eu gosto mais daqui. Então eu canto “Ronda”... É assim, me parece que é assim para todo mundo. Para todos os cantores.

Okky de Souza: Cauby, você toma algum cuidado com a voz?

Cauby Peixoto: Tenho, tenho.

Okky de Souza: O que você faz para preservá-la?

Cauby Peixoto: Não tomo gelado, não tomo álcool, não pela voz não, mas felizmente, sorte não gostar. Tomo mel, muito mel. As pessoas me dão mel. As fãs: “olha toma esse mel, que é bom, puro”. E eu todo dia tomo. Não tenho problema de voz, não tenho. Canto resfriado, gripado. Não afeta, também é sorte,, porque tem pessoas que têm problema de garganta, ficam roucos. Dificilmente eu fico. Eu já cantei em Recife, no Carnaval, a noite inteira, os quatro dias e não fiquei rouco.

Leão Lobo: Cauby, você disse que é um cantor família agora há pouco. Em 62, parece que você teve um problema com negócio de droga, você foi preso em Buenos Aires por causa de drogas. Quer dizer, deve ter sido algum mal entendido né? Eu acho que é uma oportunidade de você falar disso, explicar, que hoje está todo mundo preocupado com isso. Como é que foi essa história? Foi, deve ter sido uma...Acho que um grupo de artistas brasileiros que estava em Buenos Aires, uma coisa assim, pelo menos eu li uma notícia sobre isso. Existiu isso mesmo?

Cauby Peixoto: Olha, eu acho que família é família, não adianta.  As pessoas, a maioria é boa, o mundo é feito de pessoas maravilhosas, pessoas inteligentes, pessoas medíocres, pessoas mal-educadas, pessoas agressivas, estúpidas, grossas. Eu acho que quando um artista, ele se propõe a...Ele tem que melhorar e eu estou vendo isso, sabe? Eu não posso ir com uma roupa que eu ando em casa, um pijama mais velho, rasgado, chinelo, até as pessoas se decepcionam. Eu não me visto com aquele robe de chambre, aquilo não existe. Às vezes me dão de presente, mas eu tenho pavor. Agora eu não admito, eu não aceito entrar num palco com o sapato, sei lá, sujo, uma roupa mal passada, uma cara borrada, olheira, essas coisas...

Antonio Carlos Ferreira: Cauby, tem algumas perguntas aqui de telespectadores. O Wilson Oliveira, da Penha, quer saber o que a Ângela Maria significa na sua vida e na sua carreira e Riva Dávila, de Santa Cecília, aqui também de São Paulo ,quer saber qual a cantora, excluindo a Ângela Maria, com quem você gosta de cantar junto.

Cauby Peixoto: Cantar juntos?

Antonio Carlos Ferreira: Mas antes você fala sobre Ângela Maria. 

Cauby Peixoto: A Ângela, bom a Ângela é incrível. A Ângela é a voz mais bonita do mundo, sabe? É um potencial, uma caixa sonora, que ela tem, de voz que uma Barbra Streisand [cantora e atriz norte-americana] não tem. Pode ser que Barbra tenha mais técnica, digamos assim, mas a beleza de voz... porque voz é uma coisa que entra por dentro da gente e não dá para explicar. As pessoas dizem “por que eu gosto de você?” E eu tento explicar isso, é o som. O som, ou ele vem bem ou ele bate e volta. Porque tem vozes feias, horrorosas. Porém, são grandes intérpretes, eu posso citar aqui: Bethânia. A voz da Bethânia é feia, mas é uma cantora que eu não perco um show, sabe? Porque diz bem. A da Gal [Costa] já é mais bonita. A Simone já é uma cantora maravilhosa. A Elis [Regina (1945-1982)], então, nem se fala, é hors-concours, a cantora mais perfeita que existe é a Elis, foi, é.

Antonio Carlos Ferreira: Alexandre Franco Antonio aqui do Itaim, quer saber se você já se sentiu intimidado em cantar com alguma platéia. Ele é músico, inclusive, e disse que de vez em quando ele sente isso. Você já se sentiu intimidado frente a uma platéia?

Cauby Peixoto: Não, não. Eu tiro partido de tudo num show. Eu quando estou num show, aquilo é um trabalho, eu não sei se para vocês é assim. A gente tem que ser 101% profissional. Então eu, eu levo desaforo para casa. Eu, quando tem uma pessoa, que vem na pista de pileque, eu abraço esse homem, faço ele cantar comigo e vou tirando ele da pista aos pouquinhos, e ele vai saindo e tal. Nada me agride. Público eu só vejo amor, até do pilequeiro. Ou do jovem que tenta falar alguma coisa para mim, eu vejo aquilo bem, sabe, tiro partido da...

Ruy Castro: Cauby, apesar disso você acha que já foi muito prejudicado, ludibriado, por empresários, gravadoras... Te roubaram dinheiro?

Cauby Peixoto: Não. Eu, eu vejo a coisa muito bem e procuro passar para eles o que eu aprendi. Eu tenho tido ótimos resultados. Os amigos, alguns aprendem, assimilam a coisa com mais facilidade. Eu passo, eu vou passando: “cuidado, olha, humildade, não seja prepotente, não fala assim, não pede assim, nunca diga ‘não’”. Vou passando, não tenho tido problema não. Nenhum deles.

Kleber de Almeida: Cauby, você disse que recebeu influência de várias cantoras. Você citou a Dalva de Oliveira, a Ângela Maria e a Elizeth Cardoso. E daqueles grandes cantores do final da década de 40 e começo da década de 50, como o Chico Alves, Sílvio Caldas, Vicente Celestino, Orlando Silva, Carlos Galhardo e Mário Reis, você não teve influência de nenhum desses cantores?

Cauby Peixoto: É, o Orlando. Eu tinha oito anos, o primeiro cantor que pintou na minha vida foi o Orlando Silva, foi que eu comecei a querer cantar com oito anos.

Ruy Castro: Você lembra da música?

Cauby Peixoto: Escolhi bem, modéstia à parte. Eu deixaria para os jovens, o jovem às vezes não recebeu, não recebem essa orientação para o amanhã. Por isso que tem aquela coisa do descartável. Porque eles ficam na moda, ficam falando, praticamente falando... “Minha casa, minha televisão!” E isso é comércio. É engraçado, é debochado, é ótimo, formidável, mas a tendência é passar. Eles deveriam cantar também com a voz, educar a voz porque os próprios jovens dizem, falam isso para a gente, voz,  aquele respeito: “voz é voz! voz é voz! Eu posso não gostar da “Conceição”, mas voz é voz".

Teresa Cristina de Barros: Cauby, na sua carreira você fez muito sucesso, mas teve uns períodos de ostracismo. Como é o ostracismo para o artista, dói?

Cauby Peixoto: Não. Para mim no meu caso, não. O que foi o ostracismo? Foi a preguiça, que eu falei há pouco...porque está cada vez mais raro voz no mundo, isso não é no Brasil não, nós já tivemos muitos cantores ótimos. Faleceram e tal. E no mundo é difícil, é muito difícil. Então, eu uma vez comprei uma boate para ajudar os meus irmãos, a Drink, no Rio. Um é pianista, o outro é pistonista, Araquém, muito querido aqui em São Paulo, o músico mais querido em São Paulo, às vezes agrada até mais que eu! Bom, e minha irmã também, que cantava. E fiquei cantando de noite, acordava às três horas da tarde, quatro horas, não tinha tempo para nada, nem para gravar. Dava preguiça: “ah não vou”,  “não, não posso, estou cansado e tal, a voz não está boa e tal”. E andei um tempo morando em São Paulo, também caí na boemia. Porque eu sou boêmio. Cantando só em boate, quase que eu me rotulei de cantor de boate, mas não é uma boa, cantor tem que cantar até em circo. Agora o brega, tem que ser brega.

Antonio Carlos Ferreira: Por falar em circo, Cauby, tem uma história aqui que eu também gostaria que você confirmasse, que uma vez você foi cantar no interior, era um circo e o conjunto que ia te acompanhar era um triângulo, uma sanfona e uma zabumba. É verdadeira essa história?

Cauby Peixoto: É.

Antonio Carlos Ferreira: E como você fez? Bom, está certo que você cantou aqui, agora, sem nada. Mas...

Cauby Peixoto: É outra coisa, a música para mim, não é problema, sabe? Nunca foi problema. Porque veja bem, eu fui em Aracaju e o diretor do clube... - hoje a coisa está melhor, a gente encontra um som muito bom, qualidade boa e luz, mas não existia isso. Então o nome do show era “Seresta com Cauby Peixoto”. Eu canto algumas serestas, mas eu não sou um seresteiro. Seresteiro mesmo é Altemar Dutra, Sílvio Caldas, mas dava para quebrar um galho. Algumas serestas eu canto bem. Então, estava lá, eu fui, me arrumei, perguntei se estava tudo bem lá no clube e “ah sim, os músicos são ótimos. Aqui não precisa trazer músico ”. E eu levantei, afastei um pouquinho a cortina e olhei. Tinha um bumbo, você falou...

Antonio Carlos Ferreira: Zabumba.

Cauby Peixoto: Zabumba. Não tinha instrumento eletrônico nenhum. Eu disse assim, “meu Deus, o que eu vou fazer agora?”. Um cavaquinho, uma cuíca... Aí eu me lembrei que eu tinha um repertório imenso, e disse: “vou atacar de Clara Nunes, Beth Carvalho e Martinho da Vila, vou ver o que que acontece”. É isso que o cantor precisa ter, a opção de poder jogar com essas coisas, porque senão não dá. Podem até vaiar o artista. E aí fui cantando samba e tal. Mas tinha uma mesa enorme pedindo “People”, sabe, “People”, grande sucesso, E eu fingia que não escutava. “People!”. “Ah? O quê?” “People!”. Aí pediam “People”. Aí eu peguei o cara da cuíca e disse “vem cá, faz um negocinho aí que eu vou cantar uma música até o fim, hein?” Ele disse ok, começou e eu... [cantarolando e imitando a cuíca]. Quando eu canto assim as pessoas dizem realmente que eu não preciso de nada. Eu acho que preciso. É porque a voz é sonora. Quando eu estou cantando numa casa de família, por exemplo, só com um violãozinho, até fica melhor. Uma vez um senhor de 80 e poucos anos disse assim: “Cauby esses músicos estão muito altos, sua voz é uma voz bonita, sonora, atrapalha. Você não precisa disso”. É, coisas que a gente vai aprendendo também, as pessoas me dizendo, para a gente...

Leão Lobo: Cauby, sem falsa modéstia, você se acha o maior cantor do Brasil ou você acha que tem um outro que é o maior cantor do Brasil?

Cauby Peixoto:  Cantor?

Leão Lobo: É. Ângela Maria, por exemplo, depois de Elis, é a maior cantora do Brasil né, alguns acham...

Cauby Peixoto:  Eu gosto muito da Simone.

Leão Lobo: Mas cantor?

Cauby Peixoto: Cantor?

Leão Lobo: É.

Cauby Peixoto:  Emílio Santiago, Peri Ribeiro, o Rayol está muito bom ainda, Rayol...

Leão Lobo: Mas tem algum que você ache o maior de todos?

Cauby Peixoto: Tem, mas eles estão ainda na fase de aperfeiçoamento.

Leão Lobo: E você, não é o maior?

Cauby Peixoto:  Não.

Leão Lobo: Quem que é, então?

Cauby Peixoto:  Não sou eu.

Leão Lobo: Nelson Gonçalves [(1919-1998)]?

Cauby Peixoto:  Não sou não. O maior seria o Roberto Carlos.

Leão Lobo: Você acha que ele é o maior cantor do Brasil?

Cauby Peixoto:  É, é o "rei".

[risos]

Celso Curi:  Cauby, você já foi vaiado alguma vez ou não?

Cauby Peixoto:  Não.

Celso Curi:  Não passou por essa experiência?

Cauby Peixoto:  Não, não.

Antonio Carlos Ferreira:  Tem medo de ser vaiado um dia ou não?

Cauby Peixoto: Não. Nem mesmo naqueles programas em que fica até bonito uma vaia. Uma vez até fiquei com medo do show do Chico Buarque. O Chico me convidou: “Cauby, pinta lá e canta duas músicas”. E eu fui. Aquela coisa displicente que ajuda o artista, a displicência no caso me ajudou, porque eu poderia ficar com medo, nervoso por atirarem uma pedra em mim. Mas me saí bem, fui muito bem.

Celso Curi: Quem você ouve em casa? Em casa você põe o quê na vitrola, ou no toca-discos que é mais moderno?

Cauby Peixoto:  Ah, eu coloco bons cantores.

Celso Curi: Brasileiros?

Cauby Peixoto:  Brasileiros de todas as épocas... Guardo com muito carinho a Maísa, Elis, Simone, Alcione. Adoro.

Celso Curi: E os homens? Você sempre fala de mulheres...

Cauby Peixoto:  Também, eu tenho, eles me dão discos.

Celso Curi:  Que homens você ouve em casa?

Cauby Peixoto:  Tenho muitos discos de cantores, tenho disco de quase todos os cantores... Elizete, Angela, Altemar Dutra, Orlando Silva... Nelson Gonçalves...

Celso Curi: Lobão, por exemplo? O que você acha do Lobão, do tipo de som?

Cauby Peixoto:  Lobão é uma...

Celso Curi:  Você não gosta das músicas dele?

Cauby Peixoto:  Não, é que... não é porque não goste, é que já estou... no amanhã. Ele não faz minha cabeça hoje, e teria que fazer... amanhã.

Celso Curi: Já ouviu “Me chama” do João Gilberto, na voz de Lobão, uma música linda, você não gosta?

Cauby Peixoto:  Já, linda. Eu gosto dos cantores, dos compositores. Ivan Lins eu adoro. Tenho quase todas os discos do Ivan Lins. Canta bem. Milton Nascimento, nem se fala. Aliás, eu não citei o Milton aqui. Milton é uma voz, é um cantor.

Maria Cristina Duarte: Cauby, o que você fez com essa voz particularmente, com esse grave? Você tirou proveito dela? Essa voz que está apresentando aqui pra gente, grave, gostosa. Você tirou proveito dela na sua vida particular? Para falar ao telefone, para cantar alguém?

Cauby Peixoto: Hum muito inteligente moça, muito inteligente. Eu...já falei perto. Aliás, a Xênia me pediu pra falar. Sabe...eu falo muito pouco, muito pouco. Eu não sei falar, não tenho o dom da palavra. Às vezes, quando estou dançando ou dando autógrafos, as mulheres me perguntam assim:"Fala um pouquinho que eu quero ouvir sua voz". Aí eu falo: "Tudo bem?" [risos de todos]. Arrepia. É aquele negócio que eu te falei, a sonoridade da voz. Mas a minha voz era feia no começo. E eu fui educando minha voz para o grave, que eu não sabia que tinha. É o tal negócio, a gente não sabe. Eu não sabia que tinha potencial. Eu tentava, cantava Dick Farney - gostava muito de Dick Farney também. Enfim, poderia até ter viciado em cantar baixinho e não teria a voz que tenho hoje. Isso também foi trabalhando né?

Antônio Carlos Ferreira: Cauby, mudando um pouquinho....O Paulo Ricardo Soares, aqui de Campo Belo, São Paulo, quer saber se é verdade que você estava com um problema de audição e sofreu uma cirurgia mediúnica, espírita.

Cauby Peixoto: Ah, é verdade sim, é verdade.

Antônio Carlos Ferreira: Como foi essa operação?

Cauby Peixoto: Eu operei e já estou ouvindo melhor. E tenho certeza que vai ficar bom, legal.

Antônio Carlos Ferreira: E o que é uma operação mediúnica? É uma operação sem anestesia

Cauby Peixoto: É uma cirurgia mesmo.

Antonio Carlos Ferreira: Uma cirurgia?

Cauby Peixoto: É, uma cirurgia.

Antonio Carlos Ferreira: E você fez nos dois ouvidos?

Cauby Peixoto: Sim, nos dois ouvidos. Tanto que o primeiro já está quase bom, normal, digamos assim. E pretendo fazer uma outra, que não é de uma vez. Já estou tomando os medicamentos especiais e tenho certeza que vai ficar bom.

Antonio Carlos Ferreira: Isso atrapalha sua performance como cantor?

Cauby Peixoto: Atrapalha sim. Talvez essa maneira de ser um pouco caído, mais pra baixo. Já me disseram, um médico, que isso é falta de audição. Não quando estou cantando, porque os instrumentos são altos demais, tudo muito alto. Mas para conversar, para falar. Uma vez fui na casa de uma família e não ouvi nada, absolutamente nada. Eu dizia sim quando tinha que dizer não. Era uma coisa...uma das piores coisas.

Antonio Carlos Ferreira: E quando você começou a sentir essas coisas? Há muito tempo ou é recente?

Cauby Peixoto: Eu não sei se isso foi causado pela quantidade enorme de antibióticos que eu tomei por causa da gripe. Eu não tive tempo ainda para fazer direitinho os testes. Saber se é comida, alguma coisa, sei lá...eu descobri duas coisas que não posso comer: ovo e...Ah, travesseiro de penas de aves também me provoca alergia. Aí eu fico com esse canal aqui...[aponta para o ouvido]. A secreção, ao invés de sair pelo nariz, sai pelo ouvido. Vem a otite, é complicado...

Teresa Cristina de Barros: Qual é o espaço que a religião ocupa na tua vida? Você é um homem muito religioso?

Cauby Peixoto: Olha...se você me perguntasse se eu acredito, eu diria que não. A minha religião, eu sei.

Teresa Cristina de Barros: Que religião é essa então?

Cauby Peixoto: É...é a religião da lei. Eu sei, vim de uma família de princípios católicos. Mas aquilo ia bem para mim, eu ia forçado à igreja, aquele negócio de fazer primeira comunhão..

Teresa Cristina de Barros: [interrompendo] Você é espírita?

Cauby Peixoto: ...aquelas coisas do século XV. Senti que era outra coisa, fui analisar meu sentimento.Vi que eu tinha alma. Alma. O ser humano tem alma. Eu não sou uma pessoa fria, ninguém pode dizer isso "totalmente, eu não quero, eu sou frio". E não é. Eu também tenho intuições.

Teresa Cristina de Barros: Muitas vezes aqui a gente já falou em família, você é um cantor família. Agora família, por livre associação me lembra neurose. Quais são suas neuroses, Cauby?

Cauby Peixoto: É contra as pessoas burras, os maus alunos. Por que acho que é fácil aprender as coisas, é só aprender. Aprender rápido. Mas como a minha religião explica também, aqueles pobres de espírito que realmente têm, que nós achamos medíocres, invejosos, ignorantes.

Teresa Cristina de Barros: Quais são os seus defeitos, Cauby?

Cauby Peixoto:  Preguiçoso.

Teresa Cristina de Barros: Só?

Cauby Peixoto:  Displicente, sabe? Se você for na minha casa, Cristina, eu vou recebê-la muito bem, mas eu vou esquecer de dar um café para você, um drinque e tal. Eu esqueço. Eu sou capaz de não dar nada para você, mas fora da minha casa eu sou capaz de buscar o céu e te dar. Dá para entender? Aniversário, por exemplo, eu...

Tereza Cristina Barros:  Nunca lembra?

Cauby Peixoto:  Não te dou nada, nem os parabéns, porque é uma coisa minha. Agora, fora do aniversário, aí eu dou tudo. Sabe? Isso é natural meu. Eu não faço nada forçado, sabe? Eu saio dessa coisa convencional de querer agradar as pessoas. Uma flor é uma flor é para valer! Ou não dou nada. Presente é presente, não é uma coisinha, não tem que ser caro, barato, sabe como é?

Ruy Castro: Cauby, agora, há poucos dias atrás, o Roberto Carlos teve que interromper um show dele México porque na hora que estava cantando, entrou uma mosca pela boca. Já te aconteceu algum acidente parecido com esse?

Cauby Peixoto:  Já, já. E...[simula tosses] era um mosquito! Pior foi um morcego que não saia do palco. Tenho pavor a morcego! Mas pavor! E o morcego passava para lá, passava para cá.

César:  Cauby, você disse que é aquariano, você já fez mapa astral? Você curte isso? Já acompanhou isso através de mapas? Como é que foi para dar a idade para o cálculo de um mapa?

Cauby Peixoto: Não sei, César.

[...]: Você já fez algum mapa para saber como é a coisa astral?

Cauby Peixoto: Eu sou muito, eu sou místico também né, só que eu tenho uma certeza, talvez... de mim né? Como eu sou, para que, por quê? Por que eu nasci, para quê? Sabe? Mas eu respeito muito os sábios, respeito demais. Eu acho que a pessoa por se aprofundar naquilo, ela é capaz de conhecer. Há pouco uma moça me deu o meu ciclo [astral], sabe, e é exatamente aquilo que eu sou, e ela não me conhecia, não convive comigo, só pediu a data do nascimento. Aí ela fez, exatamente. Até missão, até essa coisa que eu tenho, chata, enjoada, de querer botar na cabeça dos outros como é fácil vencer na vida. É fácil. Fácil demais. Então as pessoas cansam, cansam. Meu papo é para 48 horas, sabe? Nesse departamento. Nesse departamento converso tudo. Acordo, olho brilha e tal. Aí dá amnésia na pessoa, amnésia, cansaço. Dormindo, desliga.

Leão Lobo: Cauby, você falou muito nesses alunos seus. Você teve vários alunos durante a vida. E parece que você sempre se refere a alguns alunos que não aprenderam. Parece que tem algum determinado que você tentou ensinar e que não aprendeu com você, algum cantor famoso, alguém que não aprendeu com você? 

Cauby Peixoto: Cantores, muitos.

Leão Lobo: Alguém que não aprendeu com você?

Cauby Peixoto: Mas muitos. Por isso que.. tem que ser. É negócio do ser. O cidadão tem que assumir, tem que criar um jeito, uma maneira de ser, uma personalidade interessante.

Leão Lobo: Quem é que está aí que não é...

Cauby Peixoto: É o que o americano chama de “to get a personality” [ter uma personalidade], eles falam muito nisso! “Oh! What a personality!” [Uau, que personalidadde!]. Nós é que copiamos mais, copiamos mais do que somos.

Leão Lobo: Certo.

Cauby Peixoto:  Daí eu compreendo o Lobão, é uma personalidade. Pode ser não que seja um bom cantor, ótimo cantor, mas é personalidade. Homem e tal, sabe das coisas..

Leão Lobo: Quem é um que não aprendeu? Que você acha que não aprendeu?

Cauby Peixoto:  Não aprendeu, sabe o que é, é o medo por causa dos rótulos. Milhares de rótulos, quando eu convido um colega meu para bater um papo comigo. “Vamos bater um papo” eles já levam para o outro lado: “será que o Cauby vai me passar uma cantada?” A gente sabe que o homem brasileiro é assim, por quê? Porque as maravilhosas cantam todo mundo. Cantam todo mundo, não interessa, se é homem, está com calça, estão cantando. E eu não canto, nunca cantei ninguém, acho que a minha é outra, o lance de “feeling” [sentimento] mesmo, arrepiar ou não.

Leão Lobo: Pinta naturalmente, né?

Cauby Peixoto:  Não sou de cantar nenhuma!

Leão Lobo: Sei.

Celso Curi:  Essa dúvida sobre sua sexualidade...

Cauby Peixoto: Vocês sabem como eu vivo? Vocês conhecem a vida da bicha, como elas vivem? Já conversaram com elas?

Leão Lobo: Quais bichas?

Cauby Peixoto: A gente tem que conhecer tudo, né?

Celso Cury: Essa dúvida a respeito, atrapalhou ou...

Cauby Peixoto: Eu pintei aqui numa boate e estava um sapatão e um travesti. Não entendi bem aquilo, pensei que fosse brincadeira. Disse: “não, é que o travesti é mais feminino que a mulher”. Um lance assim, e o "sapatão" era mais macho o que homem. Aí eu entendi. Aquariano entende essas coisas. Entende esse lance.

Celso Cury: Cauby...

Antonio Carlos Ferreira:  Cauby, essa franqueza em tratar desses temas, você não acha que você pode perder público? Eu vou...

Cauby Peixoto:  Não.

Antonio Carlos Ferreira:  Eu vou ler duas cartas de fãs, tem uma aqui a Regina Carvalho que disse que é sua fã há trinta anos e até precisaria de um alô seu especial porque está aguardando você na casa dela e tudo. De outro lado, a Verônica, de Diadema, pede que você dê uma palavra para as fãs que agora, segundo ela, estão decepcionadas com a sua entrevista e com a reviravolta que aconteceu em sua vida.

Cauby Peixoto: Como é o nome da moça?

Antonio Carlos Ferreira: Verônica, que disse que você teve uma reviravolta na sua vida. 

Entrevistador: Sei, a reviravolta que eu dei, Verônica, aumentou a quantidade de público. Esse público mais exigente, esse público mais aberto sabe, querida? Mas eu não deixei de ser o cantor romântico, até de uma forma careta hoje. Eu sou tudo! Verônica, eu sou careta, eu sou romântico, eu sou sóbrio, eu sou discreto, mas também rodo a baiana, Verônica, rodo, tem que rodar. É preciso conquistar sempre as outras pessoas, Verônica, sempre conquistando. É assim como a televisão está sempre inovando. Você viu o Silvio [Santos], me emocionou, eu nem vi, me contaram, me emocionei porque eu conheço o Silvio. E o que o Silvio era para nós? Era uma coisa, um mistério. De repente ele abriu o verbo. Falou mal até da mãe dele sabe, Verônica?

Leão Lobo: O que você acha dele prefeito? Candidato a prefeito?

Cauby Peixoto: Ótimo, teria o meu voto, teria. Ser humano maravilhoso, um brasileiro, muito mais que eu. Silvio ama esta pátria, conhece o povo. É um homem inteligente, humano, ajuda muitos, mas não pode ajudar a todo mundo porque não é possível ajudar o Brasil inteiro. Venceu pelo trabalho, pelo esforço, pelo talento. É um talento, já falei aqui há pouco, eu canto, não falo. Isso é muito bom, o Silvio está aí!

Leão Lobo: Seu candidato?

Cauby Peixoto: E soma a fortuna que ele tem, que não precisa tirar do pobre, de ninguém, nem nosso. Seria uma ótima. Uma ótima!

Antonio Carlos Ferreira: Ótima para artistas ou para o país?

Cauby Peixoto: Para o país, para o país!

Leão Lobo: Por que, Cauby? Por que você acha isso?

Cauby Peixoto: Porque os poderosos, nada mais são do que poderosos. Poder.. quem tem dinheiro tem poder, o Silvio tem poder, não é? Mas  eu acredito na vaidade do Silvio, sabe? A vaidade de querer mostrar serviço, bons resultados. E através desse amor que ele tem pela nossa pátria, de ser o brasileiro que ele é, fazer. Como o Jânio está fazendo aí em São Paulo, Jânio Quadros está limpando São Paulo né? São Paulo está muito sujo, muito abandonado e tal, Jânio está fazendo.

Antonio Carlos Ferreira:  Duas perguntas e em seguida...

Cauby Peixoto:  Nada de velho ali, ali é cuca: “Vamos lá!” Jovens gostam do Jânio!

Tereza Cristina Barros: Cauby, se a eleição para presidente fosse hoje, em quem você votaria? 

Cauby Peixoto:  Para prefeito?

Tereza Cristina Barros: Presidente.

Cauby Peixoto: [pensativo] Não pintou ainda.

Antonio Carlos Ferreira:  Ruy Castro.

Cauby Peixoto:  Não vibrei ainda, não vibrei.

Ruy Castro: Você achou que a atitude do seu discípulo Agnaldo Timóteo [cantor brasileiro, entrou para a política em 1982, quando foi o deputado federal mais votado da história do Rio de Janeiro tendo alcançado o expressivo número de 600 mil votos] a se candidatar a deputado e foi eleito com uma grande votação, foi um gesto de vaidade dele?

Cauby Peixoto:  Eu acho que o Timóteo não estava preparado, sabe? Para política. Talvez ele hoje está inclusive se retratando com as pessoas. Imagina eu me candidatando? O que eu sei de política? Nada, absolutamente nada, analfabeto de pai e mãe. Quer dizer, ele deveria pelo menos ter sido orientado e cada político tem os assessores, eu penso que é assim. Inclusive até para parecer, fazer imagem. É o que está faltando em político, por exemplo, eu acho que seria o caso de Carlos Lacerda [jornalista e político carioca (1914-1977), pivô da crise que culminou com o suicídio de Getúlio Vargas de quem era ferrenho adversário]. Quando meu padrinho disse: “se Carlos Lacerda fosse mais popular não sobraria para ninguém”. Eu não entendia, meu padrinho entendia. Me parece que ele foi um ótimo político. Mas faltou o quê? Aquele negócio: terno, gravata. É preciso entender, político tem que ser camisa, e falar de vez em quando: “nóis vai e vai bem!” Dá para entender? Porque a maioria, é a maioria que faz o político. E parece que o Silvio tem esse idioma quando ele fala. Essa coisa de se comunicar bem, todo mundo entendê-lo. E nós chamarmos, até, ele de cafona ou disso e daquilo, não interessa, o que interessa é a massa, então, ele é autêntico. Eu talvez pudesse até passar por um político isso, ia tirar fotografia de um político, um cavalo, um campo sabe, uma calça surrada, e tal. Para ver como eu me coloco nos programas, eu fui no programa da Hebe [Camargo], eu "ataco" de manequim, porque ela é uma maneca [manequim], é um programa chique, a proposta é essa. Ou não? Aí as pessoas, é claro que algumas pessoas ficam chocadas porque eu ponho tudo o que tenho direito. Hebe Camargo, aquelas mulheres maravilhosas, e eu com uma roupa sóbria!

Cristina Duarte: Se você foi na Hebe de "maneca", aqui você vem de quê?

Cauby Peixoto:  Eu faço roupas para ir na Hebe, especiais.

Cristina Duarte: Aqui você fez alguma preparação especial?

Cauby Peixoto:  Eu mudo, a cada programa eu jogo uma personalidade, um lance.

Tereza Cristina Barros: Qual é seu estilo hoje, Cauby?

Cauby Peixoto: Para estar de acordo com a personalidade daquele programa. Eu espero sempre a Hebe maravilhosa.

Antonio Carlos Ferreira: O que nós queremos saber é por que você veio todo de preto para este programa aqui.

Tereza Cristina Barros: Qual é seu estilo hoje?

Cauby Peixoto: Sério.

Antonio Carlos Ferreira:  Sério, para você, é preto?

Cauby Peixoto:  É.

Antonio Carlos Ferreira: Cauby, estamos quase terminando o nosso programa. Tem algumas perguntas aqui, todas no mesmo sentido, gostaria que você respondesse bem rapidamente. Renato Pacheco Borges, de Moema, quer saber qual foi o momento mais feliz da sua vida e da sua carreira. O Jorge Falco, de Higienópolis, quer saber também qual o maior momento da vida de Cauby, e Araci Carvalho, de Tremembé, quer saber qual foi sua maior emoção no palco? Então, qual seu maior momento como profissional e cantor?

Cauby Peixoto:  Diversos.

Antonio Carlos Ferreira:  Mas o maior, tem algum especial sempre?

Cauby Peixoto: Primeiro, se me perguntasse, suas decepções  ou emoções, eu diria, eu diria que foram as emoções, os prêmios que eu ganhei. Importantíssimos. E momentos felizes, por exemplo, encontrar um ídolo meu na América, e ver o show desse ídolo, que me inspirou muito e oferecer uma versão do LP de Nat King Cole, que foi grande sucesso aqui no Brasil. E isso foi demais. Está tudo dentro da música, porque realmente a música é meu mundo, não é? Encontros com Dick Farney, que não consegui cantar. Uma coisa, tive um... Um negócio! Não sei explicar o que é. Mas pelo respeito. Prêmios de melhor cantor na rádio, Rei do Rádio, muita coisa que não dá, não teria tempo para...

Tereza Cristina Barros: E o momento mais engraçado, Cauby? A história que mais me fascina é a história do terno alinhavado para as fãs poderem rasgar mais facilmente. Para você, qual o momento mais engraçado da sua carreira? Foi esse?

Cauby Peixoto: Foi esse, não podia fazer a reportagem para o Time Life Magazine American ,“O Elvis Priesley do Brasil”,  no caso eu era o Elvis Presley do Brasil, ídolos e tal. E pedimos ao diretor da rádio que fizesse, melhorasse aqueles aplausos, se bem que elas já gritavam e tal, e que pudessem subir no palco para me rasgar. Ele disse: “não, absolutamente, aqui não, de jeito nenhum”. Era o Time Life Magazine. Mas meu padrinho disse: “ah, não pode fazer lá, nós vamos fazer na rua”. Era um espaço assim, sabe, um edifício mais ou menos assim, um pouco maior, um negócio enorme, quarto, seis elevadores, enormes. E elas então esperaram ali, e meu empresário disse: “quando você descer eu vou mandar a Marina - a esposa dele - alinhavar pedaços da roupa. Você vai ficar sem paletó, a camisa também”. Mas não pensei que elas fossem...eu me surpreendi, porque tiraram sapato e calça e eu fiquei de cueca, correndo pela rua e os fotógrafos eram muitos. Fizemos uma reportagem maravilhosa, sabe? Maravilhosa! Por isso que eu estou sempre dizendo obrigado à imprensa e nada daquilo de “falem mal, falem de mim”. O mal para mim já é uma ótima coisa, é algo sensacional, respeito demais e agradeço sempre, muito obrigado, por isso que eu sou conhecido em todo o Brasil, por todas as faixas etárias porque eu apareço no jornal, estou sempre aparecendo. Às vezes uma crítica, crítica é crítica, eu levo para casa e vou: "onde foi que eu errei? Caramba!". Mas nunca vou... criticar a imprensa? De jeito nenhum. Pelo contrário, se pudesse puxar o saco, eu puxaria, para ver a importância que é, eu fui fotografado, o mais fotografado artista, isso tem uma importância. Sair numa nota, numa notinha no jornal mais pobrezinho, sabe, qualquer coisinha, Notícias Populares [jornal da época pertencente ao Grupo Folha], revistinhas, as fofocas quentinhas. Isso é maravilhoso, gente. Pior é não é falarem nada...

Antonio Carlos Ferreira:  Cauby...

Cauby Peixoto: Viu, Verônica? Verônica, pior é não falarem nada, aí o cidadão morreu, querida.

Antonio Carlos Ferreira: Cauby, então você...

Cauby Peixoto: Olha o câmera lá rindo!

Antonio Carlos Ferreira: Cauby, então você vai fazer o último favor a seus fãs, que esta noite te entrevistaram aqui em Roda Viva, e vai cantar aquilo que você prometeu para nós, cantar mais uma vez, "a onze mil e não sei quantas interpretações" de “Conceição” para gente encerrar nosso programa.

Cauby Peixoto: Muito obrigado, muito obrigado pela presença de vocês, muito obrigado pelo respeito, sabe? Muito obrigado pelo programa. Há muito tempo que não eu faço um programa assim em que eu pudesse falar mesmo.

Antonio Carlos Ferreira: Mas canta um trechinho para nós.

Tereza Cristina Barros: Vamos fazer um coro aqui de “Conceição”.

Cauby Peixoto: Um fá maior, pá-pá-pá... [cantando] “Conceição, eu me lembro muito bem. Eu vivia no morro a sonhar com coisas que o morro não tem! Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu, pois hoje o seu nome mudou, e estranhos caminhos pisou! Só eu sei que tem tentando a subida desceu, e agora daria um bilhão para ser outra vez Conceição! Conceição! Conceição!” 

[aplausos]

Antonio Carlos Ferreira: Cauby! Muito obrigado por sua presença, muito obrigado por sua presença aqui em Roda Viva, agradeço aos jornalistas e críticos que participaram no programa, ao fã-clube de Cauby Peixoto que esteve aqui presente também em nossos estúdios e Roda Viva volta na próxima segunda-feira às nove e vinte da noite. Uma boa noite a todos.

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