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José Gomes Temporão

14/7/2007

Integrante do movimento sanitarista, no final dos anos 80, o ministro da Saúde elogia o Programa Brasileiro de Combate à Aids e o Sistema Único de Saúde (SUS) e defende um amplo debate sobre a descriminalização do aborto

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Paulo Markun: Boa noite. Ele assumiu o Ministério [da Saúde] dizendo e deixando claro que compraria duas brigas, acho que comprou três: evitar interferências políticas na nomeação de auxiliares; impedir o desvio de recursos da Saúde para outras áreas e, terceiro, abrir um debate nacional sobre a polêmica questão do aborto. Responsável por um orçamento que é quase a metade de todos os recursos do governo, ele comanda uma estrutura gigante que carrega marcas de corrupção, de prestação ruim de serviços e que tem dificuldades, não só de combater as velhas doenças, como também o desafio de combater as novas. O entrevistado desta noite, no Roda Viva, é o médico José Gomes Temporão, novo ministro da Saúde. José Gomes Temporão é um reconhecido especialista em doenças infecciosas. A formação e a carreira na administração pública pesaram na escolha de seu nome como ministro da Saúde, no segundo mandato do presidente Lula.

[Comentarista]: Carioca, 56 anos, médico, mestre em saúde pública e doutor em medicina social, José Gomes Temporão participou do movimento sanitarista no final dos anos 80, que resultou na criação do SUS, o Sistema Único de Saúde. No setor público, foi subsecretário de Saúde do estado e depois da prefeitura do Rio de Janeiro. Presidiu o Instituto Vital Brasil, a área de Tecnologia em Saúde do Instituto Oswaldo Cruz. Foi também secretário geral do Instituto Nacional do Câncer e, desde 2005, chefiava a Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, de onde saiu para assumir a função de ministro. De perfil técnico e filiado, no final do ano passado, ao PMDB, Temporão teve o apoio do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho [assumiu o cargo em janeiro de 2007, com permanência até 2010], e da bancada do partido no senado. Mas não dos peemedebistas da Câmara, que queriam um deputado do partido no comando da Saúde. A disputa interna terminou na definição ministerial do presidente Lula, que deu cinco ministérios para o PMDB, incluindo o da Saúde com José Gomes Temporão. Sem contar com força política, mas apostando no seu currículo de médico sanitarista, Temporão assumiu de olho da regulamentação da Emenda 29, que há anos se arrasta no Congresso. Ela prevê que o orçamento da Saúde não pode ser menor do que o do ano anterior e deve ser corrigido conforme o crescimento do PIB, o produto interno bruto. Enquanto pensa no reforço de verbas e num pacote de ações novas para a área da saúde, José Gomes Temporão já tem pela frente assuntos polêmicos, como as restrições à propaganda de bebidas alcoólicas e um tema ainda mais delicado: a questão do aborto. A legislação atual considera o aborto crime, com pena de um a três anos de prisão. Só é permitido em casos de gravidez por estupro, ou de risco de morte para a mãe. A idéia da legalização do aborto, várias vezes já discutida e engavetada pelo Congresso, é motivo, agora, de uma proposta de plebiscito para que a sociedade se manifeste. O ministro, que defende o plebiscito, já enfrentou protestos por isso, em uma recente viagem para Fortaleza no Ceará. O protesto resumiu a posição do brasileiro, manifestada em recente pesquisa do instituto Datafolha: 65% das pessoas são contra a legalização do aborto; apenas 16% acham que a interrupção da gravidez poderia ser permitida, além dos casos de estupro ou casos de morte para a mãe. Temporão considera que o tema precisa ser melhor discutido no país, uma vez que o aborto inseguro se tornou um problema de saúde pública, a estimativa no Brasil é de um milhão de abortos clandestinos por ano, e não se pode ignorar que eles representam a terceira causa de morte materna no país.

Paulo Markun: Para entrevistar o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, nós convidamos Reinaldo Azevedo, articulista da revista Veja e do blog Reinando Azevedo; Cristiane Segatto, repórter especial da revista Época; Laura Greenhalgh, editora executiva do jornal O Estado de S. Paulo e editora do caderno Aliás; Laura Capriglione, repórter do jornal Folha de S. Paulo; Demétrio Weber, repórter do jornal O Globo; e Alexandre Machado, comentarista de política da TV Cultura. Também temos a participação do cartunista Paulo Caruso, registrando com seus desenhos os principais momentos e os flagrantes do programa. Boa noite, ministro.

José Gomes Temporão: Boa noite Paulo.

Paulo Markun: Eu queria entender porque o senhor decidiu tomar a frente essa discussão do aborto, que não é uma discussão fácil. É uma forma de, digamos assim, desviar a atenção de outras questões graves da saúde brasileira?

José Gomes Temporão: Na realidade, não fui eu que tomei a frente dessa questão, foi a realidade que se impôs à nossa frente. É interessante lembrar um pouco como foi o contexto. No meu discurso de posse, um dos 22 pontos que eu coloquei como grandes questões, de grandes desafios, digamos assim, coloquei a questão da política de direitos sexuais reprodutivos. E, dentro dessa política, uma política de planejamento familiar, democratização de acesso aos métodos, de educação e informação. E em uma entrevista para o jornal O Dia, logo na primeira semana, dentro de uma discussão muito ampla, discuti sobre quase tudo que se pode imaginar sobre saúde pública. Houve uma pergunta específica sobre esta questão, uma repórter virou para mim e perguntou qual era a minha posição sobre o aborto. E eu coloquei que a minha posição era uma posição de abrir o debate, de um lado. E de outro lado, que eu queria falar como sanitarista, e que esta era uma questão de saúde pública importante, que afetava de perto a saúde, a vida e a morte de milhares de mulheres brasileiras. E a partir daí, o que se viu, na realidade, com essa minha colocação, o que estava coberto com um véu, e eu diria que por certo tom de cinismo da sociedade, o que aconteceu foi uma grande discussão que começou. O que demonstra que a sociedade quer discutir esta questão.

Paulo Markun: O senhor acha que foi positivo?

José Gomes Temporão: Com certeza. É sempre positivo.

Reinaldo Azevedo: Ministro, vamos então tirar o véu do cinismo. Eu me desculpo primeiro pelo chapéu, por razão médica, o senhor é médico, há de compreender. Então, vamos tirar o véu do cinismo. No debate entre o Kerry [John Forbes Kerry, atual senador do estado de Massachussets, EUA. Disputou as eleições presidenciais em 2004, quando perdeu para George W. Bush] e o Bush [George Walker Bush, presidente dos EUA], na eleição dos Estados Unidos, naqueles debates que eles fazem, uma eleitora americana perguntou a ambos: "o senhor é favorável ao aborto?". E o Kerry disse: "Veja bem, eu como homem público sou a favor do debate, como católico sou contra, então, eu gostaria que vocês entendessem...". Os Estados Unidos não se tornaram uma grande nação assim. Eles se tornaram uma grande nação dizendo sim ou não, inclusive na hora de fazer guerra. Foram perguntar para o Bush e o Bush disse: "Sou favorável ao aborto". Então, eu faço uma questão que a grande nação americana se fez: o senhor é favorável ao aborto?

José Gomes Temporão: Ninguém é favorável ao aborto. Nem as mulheres que praticam, eventualmente, ou que foram levadas a praticá-lo.

Reinaldo Azevedo: Então, faço rigorosamente aquela pergunta: o senhor é favorável à descriminalização do aborto?

José Gomes Temporão: Eu vou responder. Acho que aí é que está o viés, os que não querem discutir, não querem enfrentar essa questão de frente, de peito aberto, puxam sempre a questão do aborto: sim ou não. Nós temos que discutir esta questão dentro da política de direitos sexuais e reprodutivos, de planejamento familiar, onde as pessoas possam ter acesso à informação. Desde a escola, que os jovens e adolescentes possam ter orientação sexual, que os casais possam discutir quando, em que momento, em que número querem organizar a sua família e que o Estado provenha aos casais à possibilidade de ter acesso aos métodos contraceptivos, com regularidade, tempo e hora. Uma pesquisa de 2004 realizada pelo Ministério da Saúde mostrou que apenas 50% dos municípios brasileiros tinham, no momento da visita das unidades de saúde, pílula anticoncepcional e preservativo masculino disponíveis.

Reinaldo Azevedo: Mas isso é então incompetência do Ministério da Saúde?

José Gomes Temporão: Não. É do sistema. Inclusive eu acho que há uma necessidade de uma mudança radical no processo de “dispensação” e de colocar à disposição da população...

Reinaldo Azevedo: Quer dizer que o senhor admite que se houver uma universalização da distribuição de pílulas anticoncepcionais e de preservativo, gratuitos para quem precisa, a questão do aborto se torna menos importante?

José Gomes Temporão: Eu acrescentaria: informação, educação e liberdade para discutir livremente as questões relativas à sexualidade.

Reinaldo Azevedo [interrompendo]: Junto com a informação, a educação, quer dizer que a questão do aborto nasce da falta de informação e nasce da falta de uma política eficiente da saúde pública?

José Gomes Temporão: Com certeza é um componente importante. E veja, nós estamos falando de um milhão e 100 mil abortos clandestinos por ano no Brasil. Aliás, eu tenho uma pergunta interessante: se os homens pudessem engravidar, o aborto seria criminalizado como é no Brasil?

Reinaldo Azevedo: Eu respondo ao senhor com outra pergunta, encerrando a minha intervenção agora: o Ministério da Saúde que não consegue prover a laqueadura de trompas para quem quer, consegue dar conta de um milhão e 100 mil abortos? Quanto custa cada aborto? Quanto isso implica em dinheiro?

José Gomes Temporão: Nós gastamos cerca de 34 milhões de reais no ano passado para atender 220 mil mulheres que fizeram curetagem após o aborto.

Reinaldo Azevedo: Um milhão de abortos seria mais barato?

José Gomes Temporão: Você não entendeu. Um milhão de abortos é o número que o Instituto Americano projeta de abortos não legalizados. Eu estou dizendo que os números oficiais, que as estatísticas registradas falam em 220 mil curetagens. Então nós temos entre 220 e um milhão, o número gigantesco de mulheres que sequer eventualmente chegam ao serviço de saúde. Quero chamar a atenção que essas mulheres passam por uma situação de dor física e psíquica extremamente grave. Na discussão, esta questão fica sempre de fora. Eu quero colocar esta discussão dentro, porque é uma questão de saúde pública. Eu, como ministro da Saúde, como um dos responsáveis, talvez o maior responsável pela política de saúde, não posso me calar diante de uma coisa desse tamanho. Nós estamos falando de quantos Iraques, de quantos? Sei lá... É uma coisa séria, dramática.

Laura Greenhalgh: Depois dessa entrevista que o senhor deu, o repórter fez uma pergunta, e o senhor teria se manifestado em relação à adequação de um plebiscito em torno da questão do aborto no Brasil. E sabemos que, historicamente, no movimento de mulheres, por exemplo - eu falo do movimento de mulheres porque é realmente um movimento que está acompanhando há décadas essa questão, não só do aborto, mas dos direitos reprodutivos - o movimento de mulheres tem medo de se colocar essa questão num processo plebiscitário pelo tipo de reação, ou de eventual desvio ou pelo clima passional que esse debate pode vir a ter. No entanto, a gente viu há pouco tempo, há dias, o que se passou em Portugal. Ou seja, a questão foi submetida a um plebiscito, perdeu, passou por outra consulta popular e agora, recentemente, o aborto, dentro de determinadas condições, vai ser ainda regulamentado, deixou de ser crime em Portugal. O senhor acha realmente que a sociedade brasileira está madura... O senhor falou em cinismo, mas enfim, com cinismo a gente não vai muito longe em um debate, não é? O senhor acha que a sociedade está madura para passar por este processo?

José Gomes Temporão: Quando eu coloquei esta questão, pensei exatamente pelo fato dela levantar aspectos muito polêmicos, isso remete à religiosidade, às questões morais, às questões médicas e sanitárias, porque inclusive essa coisa é importante, eu não sou filósofo e nem teólogo, eu sou um médico sanitarista e por isso estou puxando a questão para a dimensão sanitária, médica. Exatamente por isso, eu não tenho medo e a sociedade brasileira não deve ter medo desse processo. Eu diria que o ministro da Saúde tem que ter uma postura político-pedagógica também. Tem que colocar para a sociedade de que maneira se constrói consciência sobre saúde, uma consciência política sobre essa questão. Eu não estou muito preocupado, porque é um problema das feministas, se elas acham que taticamente, estrategicamente, a coisa deve se dar melhor no Congresso Nacional ou se deve se abrir o debate para a consulta popular. É uma questão que não... Quando eu olhei essa questão de frente, percebi que no espaço da democracia e do livre debate das idéias, a sociedade vai ganhar.

Laura Greenhalgh: O senhor acha que a classe médica vai aderir a este debate?

José Gomes Temporão: Olha a sociedade de especialistas e as entidades que representam os médicos se posicionaram apoiando a minha proposta. Isso não quer dizer que necessariamente os 320 mil médicos brasileiros tenham na sua maioria essa posição.

Laura Greenhalgh: O senhor está recebendo manifestações?

José Gomes Temporão: Eu recebi manifestações de dezenas de entidades, inclusive de mulheres da Ordem dos Advogados do Brasil, todo o conjunto de movimentos feministas, muitas entidades, fora Brasília, no meio da semana passada, que foi entregue ao presidente da República, de apoio.

Laura Capriglione: Ministro, o presidente Lula concorda com o senhor com relação ao plebiscito ou ele lhe deu uma bronca, depois desse mal entendido?

José Gomes Temporão: O presidente disse que o governo não terá uma posição enquanto governo. Ele não vai orientar os líderes do Congresso em relação a essa questão, vai deixar que o Congresso decida e discuta. Ou seja, se isso vai ser resolvido, debatido e discutido no âmbito de uma legislação ordinária ou se o Congresso Nacional vai optar para fazer uma consulta pública, o governo não tomará uma posição sobre isso. E o presidente colocou que o ministro da Saúde está falando do seu ponto de vista, da sua perspectiva de sanitarista e especialista em saúde pública, como ministro da Saúde.

Demétrio Weber: Ainda mais agora, só para lembrar, que o Papa [Bento XI] vem aí, eu acho que a posição do presidente Lula fica muito circunscrita a esse evento. Se eu pudesse só retomar a questão inicial do ministro, que quando começa a se discutir esse assunto, que é muito complexo, envolve muitas questões, sei lá se é porque o assunto é complexo mesmo ou se as pessoas querem evitar tornar público uma posição clara, acaba se fugindo a uma resposta direta. Eu queria entender: o senhor traz o assunto, há necessidade de se discutir isso no âmbito da saúde pública? Ok. Mas, o que o senhor tem a dizer a quem é contra o aborto, as pessoas que defendem o direito à vida. Eu queria ouvir quais são os argumentos que o senhor traz além da questão da saúde pública, para se permitir que o Estado faça o aborto, não só nos casos que hoje são legalizados.

José Gomes Temporão: Eu acho que o primeiro ponto é uma evidência que choca: apesar do aborto ser um crime, ele é praticado um milhão e 100 mil vezes por ano por mulheres brasileiras. Significa o quê? Que a legislação não dá conta da realidade. Nós temos uma realidade que transcende o que a lei estabeleceu, não é? Acho que esta é uma questão fundamental. Quer dizer, como você trata situações individuais que se colocam de uma gravidez indesejada por questões que pode ir... A gente pode discutir, aqui, a noite inteira sobre questões que possam levar a uma gravidez indesejada. E essa mulher muitas vezes sozinha, eventualmente, com o apoio do seu companheiro ou da sua família, mas eu afirmaria que na maior parte das vezes só, com uma sensação de culpa importante, submete-se a um procedimento que pode levar à morte. Na semana passada morreu uma jovem de 32 anos em Belém, submetida a um abortamento clandestino. Esse final de semana, no Rio de Janeiro, o jornal publicou uma matéria dizendo que medicamento abortivo proibido no Brasil é vendido em camelôs no centro da cidade do Rio de Janeiro. O que é isso?

Reinaldo Azevedo: Falta de governo, ministro.

José Gomes Temporão: Não, não. É a realidade batendo a nossa porta, no nosso rosto. Então, essa é a questão que eu quero discutir.  E quero que a sociedade escute. Agora a decisão compete ao Congresso de um lado, e o Congresso reflete as diversas posições e tendências que estão expressas na sociedade, ou o Congresso vai decidir por uma consulta popular.

Reinaldo Azevedo: Mas, então, o senhor é favorável à descriminação?

José Gomes Temporão: Sou favorável à discussão.

Reinaldo Azevedo: Não, ministro. O senhor está parecendo o John Kerry [candidato do partido democrata nas eleições americanas de 2004], ele perdeu a eleição. O que não torna a sua resposta menos ambígüa, o senhor faz toda uma argumentação favorável à descriminação e evita dizer que é favorável à descriminação. Você tem medo da opinião pública?

José Gomes Temporão: Não. É que eu acho que nesse momento não teria muito sentido expressar a minha opinião enquanto cidadão. Eu acho que neste momento estou preocupado com o debate.

Reinaldo Azevedo: Eu estou perguntando ao ministro de Estado, não estou perguntando ao cidadão.

José Gomes Temporão: O ministro de Estado não tem posição sobre esta questão neste momento.

Laura Capriglione: Deixe eu fazer a pergunta de uma outra maneira então. Esse debate, como o senhor mesmo disse, é um debate que ninguém quer fazer, é interessante. E o senhor mesmo constatou isso. As feministas, ou uma boa parte das feministas não querem plebiscito e é em uma situação curiosa. Porque em Portugal, o aborto acabou de ser aprovado em plebiscito, e agora se tornou lei de forma até vitoriosa, das pessoas que defenderam a legalização. Mesmo assim, aqui no Brasil, com esse exemplo tão recente, a maioria das feministas com quem eu falei são contra o plebiscito. A Igreja Católica diz o seguinte: “eu não quero mexer na legislação, para mim está bom do jeito que está”. Então, o senhor fala um negócio e o presidente diz o seguinte: "olha, isso é com ele, eu nesse momento, não quero cuidar disso". Como o senhor acha que é o futuro desta discussão? Porque a impressão que eu tenho é que a questão do aborto vive em soluços no Brasil. De vez em quando ela vem e aparece, e vem alguém e fala... No ano passado, a gente teve a Comissão Tripartite, que apresentou um grande projeto e ficou encalacrado no Congresso [Criada em 2004 por decreto, a Comissão Tripartite de Igualdade de Oportunidades de Gênero e Raça no Trabalho é formada por representantes do governo federal, entidades de trabalhadores e empresariais e tem como objetivo promover políticas públicas para a igualdade de oportunidades no emprego e na ocupação para as minorias]. Já houve tantos outros projetos que também suscitaram a discussão e a gente que está acompanhando isso há muito tempo, vê que entra em discussão e cai. E as mulheres continuam morrendo, por conta de abortos mal feitos, de uma legislação inadequada, no meu ponto de vista, e tudo mais. O que o senhor, como ministro, que cuida dessa área estratégica e está vendo essas mulheres morrendo, pretende fazer para que o debate, de fato, desta vez prospere e que, de fato, a gente vença estas resistências todas e faça uma discussão aberta?

José Gomes Temporão: Veja, Portugal fez um plebiscito e demorou nove anos para fazer um outro e aprovar. Como vai se dar o processo na sociedade brasileira? Eu não sei. Mas, olha que coisa interessante. O Supremo Tribunal Federal também está preocupado com essa questão. Dia 20 o Supremo convocou filósofos, médicos, especialistas, neurocientistas para discutir quando começa a vida. A preocupação do Supremo não tem a ver muito com o nosso objeto de discussão aqui. Tem a ver com a utilização das células tronco embrionárias para pesquisa em medicina em saúde pública. E, portanto, afinal de contas, é possível, é ético, é legal a utilização de células de embriões até um determinado tempo, em medicina ou não. Se o Supremo tem dúvidas, imagine a sociedade. Agora, essa discussão do Supremo pode ser interessante. Ontem, o Fantástico [programa de variedades exibido aos domingos pela Rede Globo desde 1973] mostrou uma matéria muito interessante, mostrando as diversas visões, e a maior parte dos espectadores, 60 e poucos por cento, acha que a vida começa no momento da fecundação; que é uma questão. No limite, nós podemos dizer até o seguinte: seria uma contradição, por exemplo, a posição da Igreja, pois concordar com o aborto no caso do estupro? Porque se na essência a vida começa na fecundação e toda vida tem que ser preservada... [audiência STF]

Reinaldo Azevedo: A Igreja não concorda.

José Gomes Temporão: Não concorda, mas aceita, digamos assim. O que já é uma certa contradição em si. Mas eu acho que essa é uma questão que vai dar muito pano para manga.

Paulo Markun: Se não fosse uma questão tão relevante nós não teríamos ocupado um bloco para discutir esse tema. Nós vamos fazer um rápido intervalo e voltamos em um instante com o programa que tem na platéia hoje: Adib Domingos Jatene, médico e ex-ministro da Saúde; José da Silva Guedes, ex-secretário de Saúde do estado de São Paulo e professor de medicina social da Santa Casa de São Paulo; Nise Yamaguchi, ex-presidente da Associação Brasileira de Cuidados Paliativos; e Roberto Kalil Filho, professor em cardiologia da Universidade de São Paulo. A gente volta já.

[intervalo]

Paulo Markun: O Roda Viva entrevista esta noite o novo ministro da Saúde José Gomes Temporão. No primeiro bloco, nós falamos sobre a questão do aborto e a proposta do ministro de que se estabeleça um plebiscito para a questão. Nós vamos voltar a falar disso ao longo do programa. Mas, de qualquer maneira, eu queria lembrar que ele, como médico e sanitarista, com mestrado e doutorado na área de saúde pública, enfrenta também um desafio corriqueiro na área, a volta e o retorno das doenças não erradicadas no país.

[Comentarista]: O novo ataque da dengue no Brasil registrou um aumento de casos nos três primeiros meses desse ano, em relação ao mesmo período do ano passado. Um levantamento feito pelo Ministério da Saúde contabilizou: de primeiro de janeiro a 26 de março, deste ano, 134.909 casos suspeitos em todo o país, 25% a mais, comparado com o mesmo período de 2006. A região Centro-Oeste é a mais atingida: 69.060 casos. Em seguida vem o Sudeste com 30.557 casos. Nordeste, com 18.089, Norte, com 9.172 e Sul, com 8.011 casos. Em relação à dengue hemorrágica, o tipo mais grave da doença, que pode levar à morte, foram notificados 124 casos em todo país, com 17 óbitos. Um dos motivos apontados para o surto é o clima quente neste início de outono, que favorece a reprodução do mosquito transmissor. Mas um outro levantamento do ministério já alertava, em novembro do ano passado, que mais da metade da população de 170 cidades brasileiras vivem em áreas de risco de epidemias. E que a dengue poderia voltar com o verão. Nas áreas atingidas, agora, há um reforço no combate aos focos da doença. No Rio de Janeiro, os governos federal, estadual e municipal preparam uma grande ação conjunta para evitar um surto da doença durante os jogos pan-americanos. A dengue é provocada por um vírus e é transmitida por um mosquito Aedes (Stegomyia) aegypti, ao picar uma pessoa infectada o mosquito adquire o vírus e espalha a doença quando pica outras pessoas. Geralmente, na primeira contaminação, ocorre a dengue clássica; numa segunda contaminação, aumenta o risco da pessoa contrair a dengue hemorrágica, que pode ser fatal.

Paulo Markun: Ministro esse é um caso bastante diferente do caso do aborto: não há discussão filosófica, não há dúvidas sobre a questão, a medicina e a saúde pública sabem exatamente como resolver o problema e, no entanto, não se resolve. O que é que está faltando?

José Gomes Temporão: Muita coisa. Dengue é complicado, porque as características climáticas do país favorecem a reprodução do mosquito, de um lado. De outro, e esse é um ponto que eu quero destacar porque se fala pouco: saneamento ambiental. Como você vai impedir a transmissão da doença com terrenos baldios sem coleta regular de lixo... O governo do presidente Lula vai investir 40 bilhões de reais em quatro anos em saneamento básico; nunca houve um investimento desse porte. Isso vai ter um impacto muito grande no perfil das doenças, inclusive das doenças transmissíveis. Outra característica, e essa é muito importante, é a sazonalidade da doença. Isso faz com que se desencadeie um processo epidêmico, um surto. A sociedade se mobiliza, a mídia mostra, a população fica mais sensível e, como vocês sabem, o mosquito é domiciliar, ele está dentro de casa... Os casos se reduzem, vem o inverno, as pessoas ficam mais tranqüilas... Essa é uma doença que veio para o Brasil para ficar por um longo tempo. Para controlá-la adequadamente, teremos que fazer um grande esforço, uma grande mobilização, que passa muito pela informação, pelo saneamento ambiental, e por uma postura de combate persistente e regular de médio e longo prazo. Sem isso nós não vamos conseguir resolver.

Alexandre Machado: Ministro, o senhor, no seu discurso de posse, mencionou um notável médico italiano, Giovanni Berlinguer [sanitarista e bioeticista, com vasta produção científica e um dos principais mentores intelectuais do movimento sanitarista brasileiro], irmão do político italiano [Enrico Berlinguer (1922-1984)] que foi presidente do Partido Comunista Italiano, e que eu uma vez entrevistei e ele dizia o seguinte: "a política de saúde tinha como objetivo não construir mais hospitais, mas construir menos hospitais", que é um pensamento clássico de um médico sanitarista. E o senhor, quando falou sobre os recursos para a saúde, mencionou a importância dos recursos para o saneamento, segurança alimentar, e se colocou contra a possibilidade de que recursos do Ministério da Saúde sejam desviados para essas áreas em função da premência de recursos para outras áreas. Mas o saneamento básico e a segurança alimentar não são fundamentais para a redução dos casos dos problemas de saúde do país?

José Gomes Temporão: Com certeza. Giovanni Berlinguer foi um mestre para nós todos. Você tocou em um ponto muito importante, que é exatamente o que nós chamamos a determinação social da doença. Quais são as bases materiais que fazem com que determinadas parcelas da população apresentem um determinado perfil de mortalidade e morbidade, de adoecer; e que haja uma grande diferença entre grupos, entre classes, que é exatamente a questão da distribuição de renda, do emprego, do trabalho, da habitação, do saneamento básico, do acesso à educação...

Alexandre Machado: Os médicos erradicaram a palavra doença tropical para doença da pobreza, é isso?

José Gomes Temporão: É isso. Então, veja, no limite, saúde é um espaço de determinação de várias outras políticas e dimensões do processo de produção, do desenvolvimento da sociedade. Então, se nós partimos desse raciocínio, tudo tem a ver com saúde no limite. Daí a importância, quando a gente discute a questão do financiamento, da regulamentação da Emenda 29, é definir com clareza o que são ações de serviços de saúde. É evidente que saneamento é importante, educação é importante, que a habitação é importante, que meio ambiente é importante. Mas cada um desses espaços de intervenção social tem que ter os seus recursos. E outra coisa: o Brasil está passando por um processo de transição demográfica brutal. O que a Europa fez em 100 anos, nós fizemos em 20, 10% da população brasileira já tem mais de 60 anos. A população envelhece, aumenta a incidência de doenças crônicas, aumenta o custo. E a medicina tem uma outra característica que eu queria chamar a atenção: ao contrário de outras áreas, onde você, quando incorpora tecnologia, reduz emprego, na saúde, quanto mais tecnologia você incorpora, mais emprego você precisa. No futuro, nós vamos precisar de mais ressonâncias magnéticas, mais tomógrafos, mais cirurgiões, mais enfermeiros, mais fisioterapeutas, mais terapeutas ocupacionais. Isso significa custo para a sociedade. E se a Constituição Brasileira diz que "a saúde é um direito de todos e um dever do Estado", é evidente que o Estado e a sociedade têm que prover o setor Saúde dos recursos necessários a enfrentar, desde as políticas de promoção aos transplantes de medula óssea. Essa é a missão do serviço de saúde.

Alexandre Machado: Há uma praga terrível no país, que um dirigente como o senhor tem que lutar contra, que é o empreguismo, o compadrio. Em suma, o aproveitamento político das verbas da saúde. O Paulo Markun, na abertura chamou atenção que o senhor comprou algumas brigas, uma delas foi em relação à nomeação dos seus auxiliares. Na qual o senhor exigiu que fosse uma nomeação suprapartidária e que não houvesse loteamento político. Como está se dando em Brasília, desde que o senhor disse isso?

José Gomes Temporão: Confortável. Ainda recebo os deputados dos partidos com toda cortesia, recebo vários currículos.

Reinaldo Azevedo: Os deputados continuam sendo corteses, os do PMDB?

José Gomes Temporão: Estão sendo. Muito. Estão entregando muitos currículos, mas eu devo confessar que a maioria dos currículos tem sido rejeitada também com elegância. E eu estou montando minha equipe técnica. A minha vida toda, sempre trabalhei com técnicos.

Paulo Markun: Esta é uma atitude política? Montar uma equipe técnica...

José Gomes Temporão: Com certeza. Eu sou radicalmente a favor da profissionalização da gestão da administração pública. Você tem que ter carreiras de Estado, pessoas que ascendam na administração e que possam ter qualificação e responsabilidade.

Laura Greenhalgh: E o senhor já tem uma idéia a essa altura do mandato, do segundo mandato do presidente Lula, como fica essa relação interministerial? Quer dizer, por mais que o senhor tenha essas suas idéias, esses seus critérios, enfim, de nomeações técnicas, é preciso haver um trabalho coligado, um trabalho partilhado com os outros ministérios. O senhor está sentindo esse apoio? Porque uma coisa é chegar no governo com essa garra, que o senhor está chegando, e a bordo de boas referências que o senhor traz. Agora, é preciso articular. O senhor está sentindo que é possível isso? O seu PAC [Programa de Aceleração de Crescimento] da Saúde vai decolar?

José Gomes Temporão: Eu tenho tido uma relação muito boa com os outros ministros, nós discutimos tudo sempre. Vou dar um exemplo. A secretária executiva do Ministério da Saúde, que é o cargo mais importante, que controla todas as compras, que controla o Fundo Nacional de Saúde, eu levei uma mulher, é a primeira vez que uma mulher ocupa esse cargo no Ministério da Saúde, uma técnica de carreira. Eu a conheci há 20 anos, ela era secretária de Planejamento e Orçamento do Ministério da Previdência Social, uma pessoa altamente qualificada. Da mesma forma, estou fazendo com os meus secretários nacionais. O que não quer dizer que eu não possa, eventualmente, aceitar indicações que tenham aqueles três critérios que eu falei: tem que ter currículo, você tem que ser da área, do ramo e ter qualificação técnica; tem que ter experiência na administração pública. Quer dizer, uma indicação que cumpra esses três requisitos com conforto, digamos assim, essa pessoa estaria em condições de trabalhar comigo.

Laura Greenhalgh: Qual vai ser a área mais difícil? O senhor vai fazer uma confissão para poucas pessoas aqui no estúdio, qual vai ser a sua área mais difícil, o senhor diria hoje? O senhor diria: "olha, aqui eu vou ter mais problemas". Dentro do ministério.

José Gomes Temporão: Dentro do ministério? Eu tenho uma vantagem que eu já estava no ministério com isso dentro do ministério. Eu sou professor da Fiocruz [instituição, criada em 1908 pelo governo federal sob a direção do médico sanitarista Oswaldo Cruz, que tem como objetivo promover pesquisas e debates na área da saúde pública] há 27 anos, e em 2003 eu fui para o Instituto Nacional do Câncer, você deve se lembrar, quando teve aquela crise [falta de abastecimento e ameaças de funcionários, acusações de incompetência administrativa, problemas agravados pelo pedido de demissão do chefe do Centro de Transplante de Medula Óssea (Cemo), alegando a existência de critérios políticos e não técnicos nos mecanismos de transplante. O ministro da Saúde, Humberto Costa, pediu, então, a demissão de boa parte do corpo médico e diretores, não aceita pelo diretor geral, que se demitiu], então eu estou desde 2005, quando vim para Brasília, para a Secretaria de Atenção à Saúde, do Ministério, que é uma secretaria importante. Então eu conheço bem e tenho uma visão boa do ministério, ele tem um corpo de funcionários muito qualificado.

Laura Greenhalgh: Mas qual é o seu maior desafio, ministro?

José Gomes Temporão: O meu maior desafio, eu já falei outro dia... Me perguntaram assim: "quando o senhor sair do ministério, pelo que o senhor gostaria de ser lembrado?". Eu falei o seguinte: "eu gostaria que a população brasileira reconhecesse, na política de saúde pública, que o Sistema Único de Saúde é um bem de alto valor. Como os cidadãos ingleses e canadenses, por exemplo, percebem o seu sistema de saúde como uma coisa de extremo valor. Porque eles lutaram para a construção deste sistema, e percebem nele muita qualidade, muito retorno para que a qualidade de vida, para que a sociedade avance".

Reinaldo Azevedo: Ministro, uma pergunta para quem já estava no ministério, portanto, um técnico do ministério. O Paulo Markun divulgou alguns números sobre a dengue, voltando ao nosso mosquito, nosso astro, e são 60.060 casos, se eu não errei na minha anotação, no Centro-Oeste e 30.057 na região Sudeste.

Paulo Markun: 69.060, quase 70.000.

Reinaldo Azevedo: Isso, na região Centro-Oeste. O que significa que nós temos mais do que o dobro de casos na região Centro-Oeste, que não obstante deve ter 10, 12% da população, e o Sudeste concentra quase 50%. E também não está claro que o Mato Grosso do Sul, administrado pelo grande criador de mosquitos do Brasil, o maior terror dos mosquitos que o Brasil já teve, chamado Zeca do PT [José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT,  governador do estado de Mato Grosso do Sul por dois mandatos (1999 - 2007)], responde por mais da metade desse número. O Mato Grosso do Sul, administrado por alguém que tem nome e, sobretudo, sobrenome. O Ministério da Saúde não atentou para a tragédia que estava acontecendo no Mato Grosso do Sul, e não interveio a tempo?

José Gomes Temporão: Atentou, com certeza.

Reinaldo Azevedo: E o que aconteceu?

José Gomes Temporão: O ministério faz com regularidade uma coisa que nós chamamos de Lira [Levantamento Rápido de Infestação por Aedes aegypti], que é o levantamento rápido. A gente faz um levantamento por bairro, em todas as cidades, e com parceria com os municípios, para você ver o índice de infestação do mosquito. Sempre que esse índice está acima de 1% nos domicílios visitados, há um risco de surto. Em Campo Grande, nós tivemos uma epidemia, nós tivemos por muito tempo muitos casos por dia. No relatório que o Ministério da Saúde entregou à prefeitura, alguns meses antes, mostrava um índice de 6%. Ou seja, era evidente que os números eram robustos, de que em Campo Grande nós iríamos ter um problema sério. E nós tivemos uma epidemia muito grave, que agora já está aliviada. Eu acho que nós já superamos aquela discussão de alguns anos atrás, se o mosquito é estadual, federal ou municipal. Aliás, esse mosquito é democrático - dengue pega de classe média alta ao proletário. A responsabilidade é nossa, do setor saúde. Evidentemente houve um erro ali. Houve uma falha. Essa falha foi... Do ministério em comunicar? Não houve, com certeza. A prefeitura foi avisada. Da prefeitura, foi ter o cuidado para que todos os guardas sanitários visitassem todos os domicílios. Evidente que isso não foi feito, porque senão não teríamos esse índice de 6%, ele estaria mais baixo. Mas sempre que acontece uma situação como essa, o setor saúde como um todo, e eu estou assumindo essa responsabilidade também, falhou. O que nós precisamos... Rio de Janeiro, por exemplo. Eu estive visitando o Rio de Janeiro essa semana...

Reinaldo Azevedo: Para você me dar os parabéns porque eu sou não sou um chato que só pega no pé, o senhor é o primeiro do governo Lula que admite uma falha. Parabéns ministro.

José Gomes Temporão: Obrigado. Eu estive com o prefeito César Maia para fazer uma visita de cortesia e para discutir os problemas do Rio de Janeiro, que são muito complexos. E o governo do Rio de Janeiro também está com um problema de dengue, temos o Pan [Jogos Panamericanos], e eu não estou preocupado com a dengue por causa do Pan, porque isso é um absurdo, nós temos que estar preocupados é que a população não esteja submetida a esse tipo de coisa permanentemente. Mas é um fato, o Pan. E o que me mais preocupa no Pan é que a população no Rio está imunizada contra os sorotipos um, dois e três. Mas não está contra o tipo quatro. A Venezuela já teve o tipo quatro, se tiver um turista, um atleta...

Reinaldo Azevedo: É um sinal de que a Venezuela é uma vanguarda do que acontece no Brasil às vezes, é sinal que o tipo quatro pode chegar aqui.

José Gomes Temporão: O tipo quatro pode chegar durante os jogos e nós teríamos uma situação dramática, porque a população no Rio de Janeiro não tem nenhuma imunidade contra esse tipo. Nós estamos fazendo um grande esforço. Nós temos quatro mil jovens que vão participar como dinamizadores dos jogos, são jovens que vão participar ajudando, recebendo os turistas e os atletas. Nós temos capacitado esses jovens e vamos fazer um grande movimento em maio, vão ficar circulando na Vila Olímpica e na região. Esse é um bom exemplo que nós temos que fazer isso o ano inteiro, e que a população tem que estar muito bem informada. Quero dizer também o seguinte, o ministério tem repassado, com regularidade absoluta, os recursos para o combate à dengue, 700 milhões de reais. Não está faltando dinheiro. Falta, a meu ver, organização e uma visão de médio e longo prazo para que a gente possa voltar aqui dizendo: "realmente nós conseguimos controlar a doença".

Laura Greenhalgh: Estamos falando de dengue. E dengue é uma doença, como o senhor disse, democrática, mas que não tem a ver com pobreza, tem a ver com criadouros e matas que acabam sendo derrubadas e criando desequilíbrios ecológicos. Mas a gente tem uma situação grave, que é a situação dos hospitais. E essa não tem nada de democrática: quem está nesses hospitais públicos são os pobres, de uma forma geral, que não encontram atendimento, que ficam em filas desumanas. Eu queria saber o seguinte: o senhor tem um monte de dinheiro, o seu ministério é um ministério rico, no entanto, o senhor está falando que está mudando o perfil da doença no Brasil. Quando o senhor fala em tomógrafo, em ressonância, está falando de coisas caras. Tem também o drama que vem sendo discutido aqui em São Paulo, que é o drama dos medicamentos de alto custo, que oneram bastante a folha de recursos de seu ministério. Como a gente vai fazer para conciliar os tratamentos caríssimos que serão necessários e para os quais o Brasil tem que se preparar, e já está, em alguma medida atendendo, com essa demanda enorme e tão profunda das camadas mais pobres da população. Como esse "cobertor curto" vai poder cobrir tudo isso?

José Gomes Temporão: Eu acho que é mais complexo ainda. Não é verdade que apenas os pobres usam o sistema público de saúde. Vou dar um exemplo. Você precisa de um transplante de fígado, o SUS que vai fazer; você precisa de um transplante de medula óssea, a maioria das vezes; você tem aids e precisa ser tratado, o único país do mundo que trata universalmente. Eu posso fazer uma propaganda do Sistema Único de Saúde? Rapidinho. Em todos os lugares que eu vou a tendência nossa é: "não funciona e tal". E é verdade. Não funciona. Mas também funciona. Um exemplo, para o nosso Programa Nacional de Imunizações, nós erradicamos sarampo, poliomielite, difteria, tétano. Introduzimos o rota-vírus, que vai dar um impacto importante na mortalidade infantil. E olha que coisa interessante, no ano passado 85% dos brasileiros com mais de 60 anos foram imunizados contra a gripe, o que levou a uma redução importante no número de internações de idosos por pneumonia. Ninguém faz isso. O programa de aids é premiado no mundo inteiro. Nosso programa de transplantes: o segundo maior país transplantador de órgãos é o Brasil. E olha que coisa legal, essa semana, primeira página do Wall Street Journal - Brasil. O Brasil, o governo brasileiro, o Ministério da Saúde está financiando uma pesquisa inédita no mundo de utilização de células-tronco no tratamento de doença cardiovascular.

Reinaldo Azevedo: Ministro o senhor fez uma coisa extraordinária neste governo que foi admitir um erro, que é uma coisa rara, e até eu o parabenizei. Eu dou um segundo parabéns ao senhor que é admitir que isso é continuidade do governo Fernando Henrique. O senhor tem essa coragem?

José Gomes Temporão: Tenho. A política de saúde no Brasil deixou de ser uma política de governo, de Estado, há um bom tempo. É evidente que os distintos governos através de iniciativas e medidas de aperfeiçoamento podem aproximar essa política de Estado em mais ou menos o ideário que nós, sanitaristas, queremos para esse processo. Mas, sem dúvida... O Wall Street Journal, e mais, o jornal da Associação Médica Americana publicou na mesma semana um trabalho de Ribeirão Preto [cidade do interior do estado de São Paulo], financiado com recursos do Ministério da Saúde, usando células-tronco para curar diabetes tipo um. Isso foi um sucesso internacional, o mundo inteiro: "o que é que está acontecendo no Brasil na área da saúde?". Eu poderia aqui listar outras coisas.

Alexandre Machado: Esse comercial que o senhor faz...

José Gomes Temporão: É para levantar o nosso astral...

Alexandre Machado: Mas não a ponto de falar, como o presidente Lula, há um ano atrás,  que "tratamento de saúde no Brasil está quase perfeito".

José Gomes Temporão: Eu estava no momento que ele fez essa declaração. Era uma situação tão emblemática de um pronto-socorro público em Porto Alegre, tão fantástico, tão fantástico, de uma qualidade maravilhosa. Enfim... Política, ele falou. É evidente que o sistema tem imperfeições, é evidente.

Paulo Markun: O ministro não respondeu à pergunta da Laura.

Laura Greenhalgh: Fala do cobertor...

José Gomes Temporão: Como eu vou garantir o acesso da medicina de alta complexidade, da atenção básica... Essa é a questão. O Brasil gasta 7,7% do PIB em saúde; 45% deste gasto é público, ou seja, a maior parte do gasto é privado. Todos os países do mundo que tem um sistema de saúde semelhante ao brasileiro, de perfil universal, a participação do Estado no financiamento é 75%.

Paulo Markun: Tem que gastar mais.

José Gomes Temporão: Tem que gastar mais, não tem jeito. Veja, o gasto per capita brasileiro, metade do gasto do Chile e da Argentina. Vou dar outro número, esse é irrefutável: o SUS, esse ano, vai gastar... O Ministério da Saúde tem um orçamento de 40 bilhões. Estados e municípios vão colocar mais 40... 80 bilhões para cobrir 180 bilhões. O sistema de saúde suplementar, para atender 40 milhões de brasileiros, vai ter 40 bilhões de reais. Sendo que do meu lado eu tenho que fazer promoção, a vigilância sanitária e epidemiológica, vacinação da população, garantir o transplante, garantir o medicamento de alto custo para as doenças raras, e atender a população inteira. Tá vendo? É uma equação que não fecha. Agora é claro que isso tem que ser discutido dentro de um contexto de um governo como um todo. O governo tem metas da economia, tem superávit primário, tem a questão macroeconômica para ser discutida, a minha função como ministro é lutar para ter mais recursos.

Cristiane Segatto: Ministro, eu gostaria de falar, então, sobre uma coisa que não vai tão bem assim. Eu gostaria de falar sobre o tratamento do câncer. Uma das maiores reclamações dos pacientes é que os protocolos de tratamento - aquela lista de medicamentos usada no tratamento de cada doença - são muito defasados. Quer dizer, novos medicamentos são lançados e eles demoram muito para ser oferecidos pelo SUS. Isso cria um problema enorme, porque o paciente desesperado entra na Justiça, o juiz decide que o Estado tem que pagar, tem que oferecer aquele tratamento para aquele paciente específico e a Secretaria de Saúde é obrigada a desviar um recurso que poderia atender um número muito maior de pessoas, para atender aquele paciente. Eu queria saber: este paciente que está desesperado, que não encontra outro tratamento na rede pública, ele está certo? Ele tem direito de ir à Justiça e lutar para conseguir esse medicamento?

José Gomes Temporão: Ele tem esse direito. Mas, ainda, estamos tratando de um aspecto importante, que você chamou a atenção, que se refere ao processo de incorporação de novas tecnologias. E aí eu queria chamar a atenção de todos. Sempre que a gente fala em saúde, a gente pensa sempre em médico, hospital e cirurgia. A saúde é um dos setores da economia que mais incorporam tecnologias, mais criam riquezas, trabalho e desenvolvimento no mundo inteiro. A dimensão econômica, do que nós chamamos do complexo produtivo da saúde, é significativa. Então, o setor de saúde no Brasil tem dois milhões e meio de empregos diretos de alta qualificação. Movimenta 8% do PIB. Por outro lado, nós temos uma balança setorial, ou seja, a diferença do que o Brasil importa na área de saúde e exporta é cinco bilhões de dólares ao ano negativo. Por quê? Porque as indústrias nacionais, da década de 80 para cá, perderam competitividades em todas as áreas, equipamentos, insumos para a indústria farmacêutica, vacinas, reagente para diagnósticos, todo esse complexo. E se você somar isso aos 67 mil estabelecimentos de saúde, hospitais, postos de saúde, unidades, você tem um gigantesco complexo econômico, e este gigantesco complexo econômico tem interesses. Óbvio. Ele tem que remunerar os seus acionistas, ele tem que dar retorno financeiro. Muitas vezes, os interesses da indústria não são exatamente os mesmos interesses que atendem os interesses da política de saúde. Há uma dinâmica de propaganda, de estratégias de marketing, da indústria, no sentido de sempre colocar as últimas novidades do mercado dentro do portfólio de ações que o sistema de saúde oferece aos seus cidadãos. Isso pode ser bom, mas não necessariamente é bom sempre. No caso, por exemplo, de alguns medicamentos para câncer que são lançados no mercado, a um custo altíssimo, absurdamente caros, são produtos protegidos por patente. Quando você avalia o custo de efetividade, ou seja, a eficiência do tratamento que eu vinha realizando e a mudança para esse novo tratamento, em termos, por exemplo, de ganho de anos de vida, ou de meses de vida ganhos pelo paciente, isso pode ser muito pequeno. Então, qual é a solução, respondendo a sua questão? Nós temos que trabalhar com protocolos clínicos. O Sistema Único de Saúde tem que ter protocolos clínicos, e aí eu concordo com você, que muitas doenças esses protocolos estão defasados. É necessário incorporar novas drogas a esses protocolos. Mas os critérios para a elaboração têm que ser técnicos e científicos. Então, o ministério montou uma comissão que agora toda e qualquer tecnologia, para ser incorporada no SUS, passa pelo crivo de um conjunto de especialistas e entidades, inclusive a idéia daquele trabalho com as sociedades médicas, para trabalhar com esses protocolos. A tua pergunta original está correta: pelo que está na Constituição "todo cidadão tem o direito de buscar os seus direitos", ou seja, o tratamento da saúde. Agora, compete ao Estado estabelecer dentro de que limites essa tua questão vai se dar, porque senão não há orçamento que dê conta de uma demanda infinita pressionada pela indústria.

Paulo Markun: Por falar em orçamento, ministro, eu queria que o senhor comentasse uma notícia do dia nove de abril de 2007, e a notícia é a seguinte: foi suspensa pelo Tribunal de Contas da União, na semana passada, a implantação de um canal televisivo criado pela Fundação Nacional de Saúde [Funasa]. Foram detectadas irregularidades no projeto de uma TV digital corporativa que geraria um prejuízo de 49 milhões de reais. Os gastos previstos eram de 71 milhões em cinco anos e já tinham sido repassados seis milhões e 400 mil reais. Quer dizer, eu tenho certeza que o senhor não vai dizer que concorda, obviamente, que uma instituição como a Fundação Nacional de Saúde precisa ter uma TV. A pergunta que eu faço é: qual é o remédio para evitar que isso se repita?

José Gomes Temporão: O remédio foi... Parte do remédio foi a demissão do presidente da Funasa, que não mais responde pelo órgão, Paulo Lustosa [Paulo de Tarso Lustosa da Costa, economista e administrador, foi deputado federal pelo PMDB (1997) e presidente da Funasa entre 2005 e 2007, quando foi exonerado do cargo] a segunda foi a suspensão, obviamente houve intervenção do Tribunal, mas o ministério já havia se antecipado e abriu uma sindicância. Ou seja, todos os procedimentos foram tomados. Aliás, eu acho isso um absurdo. A Funasa tem duas missões: atender a população indígena brasileira, que faz mal; e cuidar do saneamento básico dos municípios com menos de 50 mil habitantes, que também faz mal. Ela é uma entidade que tem um corpo técnico muito bom, mas que ultimamente foi politizada, no mal sentido. Então, o que nós vamos fazer agora é trabalhar no outro sentido. O ministério... Eu falei outro dia na Câmara, inclusive, "não existirá 'república independente da Funasa', existirá uma entidade trabalhando em sintonia com o ministro e atendendo suas determinações'". No campo da atenção à população indígena, nós temos que nos aproximar da Funai [Fundação Nacional do Índio] e temos que aproximar da política de atenção básica de saúde da família. Porque hoje a Funasa faz uma centena de convênios com diversas entidades não governamentais que eu tenho dúvida sobre a eficiência e ao bom uso desses recursos. Nós vamos ter que rever isso tudo. E, no caso do saneamento básico, agora, a gente vai avançar mesmo. Todos os recursos da Funasa, são cinco bilhões de reais nos próximos quatro anos, vão estar dentro do PAC de Saneamento, e vão estar focados para atender problemas de saúde, dengue, malária... Nós vamos aproximar as necessidades sanitárias do portfólio de projetos da Funasa. Mas essa questão da TV está encerrada.

Paulo Markun: Nós vamos fazer mais um intervalo e voltamos daqui a instantes com o Roda Vida, que é acompanhado na platéia por: Avanir França, estudante de jornalismo; Silvano Raia, pioneiro no transplante de fígado no Brasil; Márcia Salhani, médica dermatologista; e, Carlos Daniel Magnoni, cardiologista e nutrólogo do Instituto Dante Pazzanese.

[intervalo]

Paulo Markun: Ministro: sobre a questão do planejamento familiar brasileiro, o médico Dráuzio Varella tem uma pergunta.

[VT de Dráuzio Varella]: Ministro, eu queria cumprimentá-lo e dizer que é muito bom nós termos um ministro da Saúde no país. A pergunta que eu quero fazer é a respeito do planejamento familiar. O senhor sabe, nós temos uma lei de planejamento familiar no país que é uma lei bastante avançada. Só que ela não é aplicada na prática, de modo que as mulheres pobres e os homens pobres não têm acesso aos métodos modernos de contracepção. Os postos de saúde não têm os medicamentos, as pílulas. O DIU [dispositivo intra-uterino] ninguém consegue colocar pelo SUS e fazer laqueaduras e vasectomias menos ainda. Qual é o seu plano para levar o planejamento familiar para as classes pobres?

José Gomes Temporão: Eu acho que o doutor Dráuzio tem razão, é verdade, eu já havia me referido, uma pesquisa de 2004 mostrou que apenas metade dos municípios dispunha de alguns dos métodos anticoncepcionais. Eu acho que nós temos alguns problemas. A proposta é colocar em prática a política de direitos sexuais e reprodutivos, onde está dentro a questão do planejamento familiar. A maneira como o ministério trata hoje essa questão é a seguinte: o ministério compra, de uma maneira centralizada, os métodos anticoncepcionais, milhões de cartelas de pílulas, métodos também injetáveis, diafragmas. As empresas que ganham a licitação entregam tudo isso em Brasília. Eu já achei estranho, porque fica tudo estocado, não tem nem lugar para estocar, tem que alugar lugares para estocar. E depois começa o processo de descentralização para os municípios. Uma coisa desse tamanho - são 5.500 municípios -  eu tenho a sensação de que alguma coisa vai dar errado no meio desse caminho. Perdas, desvios, demoras, e fluxo. Quando chegar lá em alguma cidadezinha perdida em algum lugar... Eu acho que a gente tem que mudar radicalmente essa questão.  Eu acho que o eixo aí é: informação. Nós estamos discutindo com o ministro Fernando Haddad [assumiu em 2005 o cargo de ministro da Educação do Brasil] uma parceria importante de saúde e escola, aproximar o mundo da saúde e o mundo da escola. A escola tem que se aproximar mais da política de saúde da família e da atenção básica, que são os passos em que o potencial de integração ainda é muito precário.  E a questão da sexualidade, da informação é fundamental, principalmente dos jovens. Gravidez na adolescência está aumentando: falta de informação e falta de acesso aos métodos. Então, eu tenho que trabalhar em uma ponta na ampliação da informação e, na outra ponta, garantir que de fato lá no posto de saúde, no centro de saúde, o casal, uma mulher que decidiu usar determinado método possa ter acesso e encontrar o método, com regularidade, o tempo todo. Senão perde completamente o sentido.

Cristiane Segatto: Além de tudo informação, não é? Porque você está falando de um problema de distribuição dos métodos, agora também tem na outra ponta o seguinte: como é está esse profissional que vai repassar esses métodos? Vocês têm algum mecanismo de controle, de aferição de como está isso?

José Gomes Temporão: Isso é fundamental. Este é um outro problema. Nós temos uma política de capacitação e treinamento permanente dos profissionais. Isso existe. Você tocou em um problema importante: esse cidadão e esse casal têm que estar devidamente informado sobre as vantagens e desvantagens, os riscos. Porque senão o risco dessa discussão que o doutor Dráuzio colocou é você escorregar do planejamento familiar para o controle da natalidade. Então, nós vamos impedir que os pobres estejam se reproduzindo. Muito cuidado com isso. Você tem que formar as pessoas adequadamente para que as pessoas decidam quantos filhos querem ter. Mas, para isso, você tem que garantir o acesso aos métodos anticoncepcionais, senão você fica na retórica, no discurso, não chega ao ponto.

Demétrio Weber: Para garantir o acesso, ministro, o senhor toca, por um lado, o combate à corrupção, por outro lado a questão da gestão, e ainda por outro lado, a questão dos recursos. O senhor disse que o país tem que investir mais em saúde. De onde virá o dinheiro?

José Gomes Temporão: O dinheiro virá dos impostos, imagino. Eu vou responder à sua questão. A regulamentação da Emenda 29, que está no Congresso patinando... Eu já conversei com o presidente, já conversei com a ministra Dilma [Dilma Vana Rousseff Linhares é economista, filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), foi a primeira mulher a ser nomeada ministra-chefe da Casa Civil, cargo que exerce desde 21 de junho de 2005. É responsável pelo PAC - Programa de Aceleração do Crescimento, que teve início em 2003] nós abrimos uma discussão no governo para ter uma posição do governo em relação a essa questão. Os estudos que nós temos é que, com a regulamentação da Emenda 29, nós colocaremos dentro desse setor saúde dez bilhões de reais por ano a mais. Porque hoje, grande parte dos estados, que pela lei eles têm que aplicar 12% das receitas correntes em saúde, mas quando você vai ver o que está lá dentro contabilizado como saúde, entra saneamento, pagamento dos aposentados... Quando você tira isso e vê só saúde, em muitos estados isso cai para 7%, 6%. Então, com a regulamentação nós conseguiríamos recursos adicionais que teriam um impacto muito importante na qualificação, na expansão de serviços...

Demétrio Weber: O governo Lula quer regulamentar a emenda?

José Gomes Temporão: Eu quero. Eu vou começar essa discussão dentro do governo.

Demétrio Weber: O senhor fala em nome do governo, ministro?

José Gomes Temporão: No momento. Daqui a quatro dias vai fazer um mês. Por enquanto eu só estou falando em nome do ministro da Saúde. E o que eu vou fazer é abrir uma discussão dentro do governo, com a área econômica e com a Casa Civil para que a gente possa tirar uma posição de governo. A posição que eu vou levar para essa discussão é a de defesa da regulamentação.

Alexandre Machado: O senhor já falou sobre a questão da Funasa, sobre aquela televisão bárbara que queriam fazer, e estava falando também da distribuição dos remédios, o senhor tem falado da necessidade também de se criar um novo tipo de administração dos hospitais públicos, que é importante. Quanto desse dinheiro que é gasto o senhor calcula que seja mal gasto no Brasil? O senhor tem idéia do que uma revolução de gestão, uma mudança de métodos pode fazer com que uma parte desse dinheiro seja destinada efetivamente à saúde?

José Gomes Temporão: Esta questão é muito importante. Aí eu vejo algumas dimensões. Uma, o dinheiro pode estar sendo desviado. Ou seja, usado de uma maneira fraudulenta. Dois, o dinheiro pode estar sendo mal utilizado... Vou dar um exemplo: no Nordeste é muito comum você ter pequenos hospitais com 20, 30 leitos. A gente sabe que o hospital com esse número de leitos é ineficiente, você só consegue uma escala de funcionamento adequado, quando o número da relação custo-benefício é boa, em torno de 150 leitos, ou acima disso. Então, o que significa isso? Eu estou botando dinheiro em uma unidade que não tem o perfil adequado para operar com eficiência. Redes que não se integram. É aquela velha história do cidadão que vai no médico e pede um exame, depois ele vai em outro e pede o mesmo exame, repete o exame, tudo isso são gastos para o sistema. E tem uma terceira dimensão que é a estrutura da administração pública, principalmente hospitalar, que é altamente ineficiente. Então, os hospitais, por exemplo, do Ministério da Saúde, com raras exceções, o que vem acontecendo nas últimas décadas? Todos eles criaram redes privadas de apoio para fazer o que a legislação não permite que hospitais façam dentro da administração direta: contratação de pessoal, pagamento de complementação salarial, os salários da administração pública são baixos... Você imagina um cirurgião que faz transplantes de fígado que ganha 1200 reais por mês? É o que paga o Ministério da Saúde. Como a vida resolveu isso? Uma fundação privada paga uma complementação salarial. O Tribunal de Contas da União e todos os órgãos de controle dizem que isso é ilegal. Qual é a saída? Eu estou dia 23 no Conselho Político do governo apresentando um projeto de lei complementar que regulamenta o Artigo 35 da Constituição que permite ao Estado criar fundações estatais.

Reinaldo Azevedo: Ministro, eu sou contra a ampliação do direito ao aborto, eu acho que já deu para perceber, e vou usar o senhor a favor da minha causa. Quando o senhor diz que a questão deve ser centrada na educação, quando o senhor conta como é o sistema de recebimento de camisinhas, de preservativos e de pílula anticoncepcional, eu cheguei à conclusão que, de fato, há um problema fundamental de gestão, que se resolvida com o tempo, a questão do aborto talvez não se coloque. E acho isso... Eu vou usar a sua entrevista a meu favor. Mas eu queria colocar uma outra coisa. O que há de errado nesse raciocínio, que parece meio jocoso, mas eu juro que é muito sério. Se eu der de cara com um ninho de tartarugas e resolver fazer um omelete, eu não faria isso por nojo e porque eu acho que não é para comer tartaruga. Mas eu seria preso, crime inafiançável, crime ambiental. Os caiçaras às vezes têm esse problema. Outro dia um sujeito foi preso porque matou um minhocuçu [são anelídeos muito utilizados para a pesca, sendo reconhecida como a melhor isca para surubim. A região de Caetanópois, localizada a 100Km da capital mineira, Belo Horizonte, é o pólo de existência desses animais que estão ameaçados de extinção pela alta procura para pescarias]. O senhor não acha que os fetos brasileiros têm direito a, pelo menos, a mesma lei que têm as tartarugas?

José Gomes Temporão: Eu acho que as mulheres brasileiras que estão vivas merecem o direito à vida.

Reinaldo Azevedo: E os fetos não?

José Gomes Temporão: Eu defendo a vida. Eu tenho quatro filhos. Sou de formação católica. Sempre defendi e sempre vou continuar defendendo. Eu não posso fechar os olhos para a realidade que eu expus aqui.

Paulo Markun: Ministro, eu vou fazer a pergunta de vários telespectadores, que eu acho que integram essa mesma questão de uma outra maneira, eu diria que talvez mais competente do que a que meus colegas estão tentando. Roberto Zanin, jornalista de São Paulo, Isac Kioshi Fugita, Jéferson Moraes, Gilmara Aires, Luciano Carlos Araújo, Luiz Rodrigo Leni, Paulo Medeiros Cláudio, Vanderson Douglas questionam o seguinte: "Em caso de existir plebiscito, o senhor vai votar a favor ou contra o aborto?".

José Gomes Temporão: Não sei. Depende do debate.

Demétrio Weber: Mas ministro, o senhor que levantou o debate... A lei já existe, o Código Penal de 1940 está aí, diz os casos que podem e os que não podem.

José Gomes Temporão: Eu propus o debate... Ou melhor, eu não propus o debate não. Na realidade, no começo eu respondi: essa questão, isso me impressiona muito. Não fui eu que lancei essa questão. Eu fui usado, na realidade, para que essa questão aparecesse. Ela está na cara de todo mundo. Camelô no centro do Rio de Janeiro vendendo medicamento. Vende porque tem mercado. As pessoas estão tomando, as mulheres estão usando. As mulheres estão morrendo.

[Sobreposição de vozes]

Reinaldo Azevedo: Ministro, eu que lhe dei os parabéns duas vezes, vou brigar com o senhor agora. O senhor é ministro da Saúde, não pode dizer, como se fosse eu, que não sou nada, sou apenas um abelhudo, que estão vendendo Cytotec [remédio usado para tratamento de úlcera, porém se usado em excesso provoca contrações uterinas, causando hemorragias, vendido clandestinamente para uso em tentativas de aborto] imagino, no Rio de Janeiro.

José Gomes Temporão: Isso é uma questão de polícia.

Reinaldo Azevedo: É questão de governo, de política pública.

José Gomes Temporão: Mas no caso específico é uma infração grave à lei: polícia. As pessoas estão comprando pela internet... Como você controla? É outro problema.

Laura Greenhalgh: Ministro, eu gostaria de fazer uma pergunta para o senhor, também nesse campo, que é a seguinte: o senhor, enfim, está lidando... O senhor sabe do tamanho da encrenca que o senhor tem ao seu lado, mas eu concordo que é um tema absolutamente importante e candente na sociedade brasileira. O senhor vai trabalhar muitas vezes muito perto do poder judiciário, o senhor mesmo já falou dessa audiência do Supremo, da Justiça brasileira que vai então promover uma audiência pública [audiência STF] para se discutir, entre outras questões, a questão do início da vida, que não é só essa, mas entre outras questões esta, que é fundamental, face às pesquisas de células-tronco no Brasil, pesquisas na área de genética, que estão caminhando muito bem, pelo que se sabe, no entanto, esbarram nessa questão da utilização das células-tronco embrionárias. O senhor mesmo falou no início do programa da questão do cinismo, o senhor coloca a questão do aborto é uma questão fundamental, mas que a gente vai levando aí, no dia a dia, com certo cinismo. Por outro lado, a gente sabe das clínicas de reprodução assistida, a gente sabe da fabricação de embriões, de estocagem de embriões, de descarte de embriões, embriões são descartados cotidianamente nas clínicas. E, no entanto, os nossos pesquisadores estão impossibilitados de utilizá-los para pesquisa e para desenvolver tratamentos que podem vir a beneficiar várias doenças. Qual é a sua questão, como que o senhor se manifesta em relação a isso: de um lado a questão dos embriões, nos moderníssimos e caríssimos métodos de reprodução assistida e descarte de embriões, de outro lado, a impossibilidade de utilização dessas células-tronco para o avanço das pesquisas. Qual é a sua opinião a respeito?

José Gomes Temporão: Eu sou a favor da utilização de células-tronco embrionárias para pesquisas. Claramente a favor.

Laura Greenhalgh: O senhor será convocado nessa audiência, vai haver alguma participação, o senhor gostaria de participar dessa audiência?

José Gomes Temporão: Olha, nesse momento, parece que a decisão do... A linha do Supremo é ouvir visões bastante heterogêneas sobre essa questão. Por isso eles chamaram filósofos, neurofisiologistas, pesquisadores que trabalham nessa área. E vamos aguardar e ver o que vai acontecer. Na realidade essa é uma questão que está na legislação, houve um recurso ao Supremo, do ex-procurador geral da República, que questionou a utilização para fins de pesquisa. Então o Supremo foi argüido a se posicionar sobre isso.

Laura Greenhalgh: Então, o senhor é a favor da utilização das células-tronco?

José Gomes Temporão: Com certeza. Isso vai trazer um grande benefício para a humanidade e isso é importante.

Paulo Markun: Ministro, nós vamos fazer mais um rápido intervalo e voltamos com a entrevista de hoje, que é acompanhada em nossa platéia por: Édson Rafael, estudante de jornalismo; Ricardo de Almeida Magalhães, jornalista; Roberto Domênico, bancário; Gabriela Satir, estudante de jornalismo; e, Raul Cutait, membro do Conselho Superior de Responsabilidade Social da Fiesp e professor de medicina da USP.

[intervalo]

Paulo Markun: A pergunta é sobre o Programa Brasileiro de Combate à Aids, e é feita pela diretora executiva da Agência de Notícias da Aids, Roseli Tardelli, vamos ver:

Roseli Tardelli: O Programa Brasileiro de Combate à Aids é reconhecido internacionalmente e eventualmente acontece falta de distribuição de medicamentos, falta de exames da carga viral. Eu quero saber o que a sua gestão vai fazer para que, efetivamente, as pessoas que vivem com HIV e aids tenham um atendimento cidadão, solidário e que problemas como esse não aconteçam mais? Uma outra questão, ministro, a indústria farmacêutica nacional, segundo observadores internacionais, tem condições de desenvolver alguns medicamentos que combatem essa doença. A sua gestão vai proporcionar algum tipo de incentivo à indústria farmacêutica nacional? E qual é a sua postura em relação à possibilidade de decretação de uma licença compulsória para os medicamentos que combatem o HIV/aids?

José Gomes Temporão: Aids é a única doença no Brasil que existe uma lei específica para ela. Esse ano, o Ministério da Saúde vai gastar um bilhão de reais só em medicamentos para o [seu] tratamento. Eu acho que o programa, como um todo, é muito bem avaliado. É evidente que um programa desse porte... São 180 mil brasileiros vivendo com HIV/aids em tratamento hoje no Brasil. Nós temos 30 mil novos casos por ano e dez mil óbitos por ano. A mortalidade caiu: significa que o programa está sendo eficaz. Duas preocupações: o número de mulheres vem aumentando - hoje eu tenho para cada 1,4 homem infectado, uma mulher. E está havendo um aumento da faixa etária média. A gente ainda está analisando isso... Possivelmente, o pessoal com mais de 50 anos, 60 não está usando camisinha, ou não está se cuidando, enfim. Eu avalio como um programa bem avaliado; que pode ter, eventualmente, a falta de um insumo, faltou reagente de diagnóstico. Mas eu não diria que esse é um problema em larga escala do programa que é muito bem avaliado, aliás, é um programa que na raiz, na sua origem tem uma forte participação da sociedade, das entidades de pacientes, de organizações não governamentais. A outra dimensão que ela coloca, e isso é importante, é a questão da viabilidade do programa. Vamos recolocar de outra maneira. Hoje existe uma forte vulnerabilidade das políticas sociais do governo por conta do que eu falei atrás: da extrema dependência do país a importação de insumos e produtos de fora. Quer dizer, como o Brasil não desenvolveu uma capacidade própria de produzir aqui tecnologia para atender os nossos problemas de saúde, nós importamos essas tecnologias. A gente importa equipamentos para diagnóstico, terapia, tratamento... Acreditem ou não, no ano passado nós importamos um bilhão de reais de medicamento pronto, na caixinha. Então, o negócio é completamente absurdo: poderíamos estar produzindo aqui. Respondendo a pergunta dela: Sim. Uma das minhas prioridades vai ser trabalhar uma política de integração e de utilização da capacidade de compra do Estado para o fortalecimento da pesquisa e do desenvolvimento científico e tecnológico na produção de insumos para a saúde no Brasil.

Laura Greenhalgh: Ministro, a propósito disso que você está falando, como está a história da vacina contra a dengue? Recentemente até, em uma entrevista, o professor Isaías Raw até comentou: o Brasil passou muito tempo preocupado com mosquitinho, com a água, com aquela coisa e quando uma linha de conduta poderia ter sido acelerar a pesquisa da vacina. Como é que está isso?

José Gomes Temporão: A vacina está sendo pesquisada por vários laboratórios. Nenhuma delas está em fase próxima da utilização para uso humano. Por quê? Pela complexidade de você ter uma vacina que proteja contra os quatro tipos, você até tem umas vacinas que protegem do sorotipo um e dois, mas, para ela poder ser usada em larga escala em saúde pública, ela teria que proteger dos quatro tipos. Aí, do ponto de vista tecnológico e de pesquisa é muito mais complicado.

Laura Greenhalgh: Vai demorar então.

José Gomes Temporão: Vai demorar. Mas, olha uma boa notícia, por outro lado, o Butantã, o governo de São Paulo está investindo 20 milhões de reais e 30 milhões do Ministério da Saúde, em uma fábrica de vacina contra a influenza [vírus causadores de infecções respiratórias], essa epidemia que pode chegar ao Brasil. O Brasil talvez seja um dos primeiros países do mundo a ter uma vacina contra essa doença. Porque pouca gente sabe, mas o Brasil tem hoje um parque de produção biotecnológica de vacinas muito importante. O Bio-Manguinhos na Fundação Oswaldo Cruz e o Instituto Butantã hoje produzem boa parte das vacinas que o Programa Nacional de Imunizações utiliza.

Demétrio Weber: Ministro, o governo vai quebrar a patente de laboratório estrangeiro para remédio contra a aids, para viabilizar o programa?

José Gomes Temporão: Quebrar patente soa como um rombo, assim: "vamos quebrar a patente". Aliás o nome já é contundente. Essa questão tem que ser tratada dentro de uma visão do interesse público. Eu acho que o Brasil tem que trabalhar...

Demétrio Weber: Qual é o interesse público em questão no caso?

José Gomes Temporão: Eu acho que se há ameaça à viabilidade do programa de tratamento de aids para os 180 mil brasileiros que dependem dela, o governo tem que tomar uma medida - e pode ser uma medida extrema - ou não. Isso vai depender do processo de negociação dos laboratórios detentores de patente em relação ao preço. Eu vou te dar um exemplo. O Brasil usa hoje medicamento Efavirez [anti-retroviral], que a empresa vende um comprimido ao governo brasileiro a um dólar e 65 centavos. A mesma empresa vende o mesmo produto na Tailândia por 50 centavos de dólar. O Brasil está subsidiando o tratamento de aids na Tailândia.

Demétrio Weber: E por que não quebra a patente então, não sei se nesse caso, mas em outros medicamentos?

José Gomes Temporão: A primeira coisa a fazer é chamar a empresa e rediscutir o preço.

Demétrio Weber: Essa discussão não vem desde o Fernando Henrique [presidente do Brasil entre 1994-2002 pelo PSDB. Durante sua gestão foi implantado o Programa Brasileiro de Combate à Aids, pelo então ministro da Saúde José Serra, em 1998]...

José Gomes Temporão: Mas eu não estava com o Fernando Henrique, eu cheguei agora. Então eu vou chamar a empresa...

Laura Capriglione: A Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] está disposta a tomar medidas sérias em relação à propaganda de bebidas alcoólicas. Eu vou fazer uma pergunta até um pouco provocativa: a gente sabe que obesidade é um problema sério, dá para esperar que daqui a pouco a gente esteja com propagandas advertindo sobre os riscos de comer biscoitos, “croquinhos”, e “porcaritos” e tal? Particularmente, por exemplo, na publicidade para crianças?

José Gomes Temporão: Você tocou em um ponto importante: o padrão alimentar da população brasileira está mudando muito. O brasileiro está deixando de comer feijão, o arroz com feijão, e está passando a comer produtos com baixo valor alimentar. Alguns deles através de uma propaganda que estimula esse consumo. Aí eu entro na promoção à saúde, de certa forma, a gente tem que pensar o que leva as pessoas a adoecer. Por exemplo, no Brasil morrem anualmente 550 mil pessoas de câncer e doenças vasculares. Vários estudos mostram que se vários cidadãos caminhassem 30 minutos por dia, algum exercício moderado, regularmente, controlasse o seu peso e mudasse o seu padrão de alimentação, consumindo mais frutas, legumes, verduras e menos gordura, nós reduziríamos pela metade esse número de mortes. Fazendo um gancho com outra questão. É a questão das publicidades no sentido amplo: eu sou radicalmente contra a atual... como é que eu vou dizer... com o atual estado que a gente vê na televisão de publicidade de bebidas alcoólica, principalmente de cerveja, ofensivas, do ponto de vista do senso comum do cidadão e, muitas vezes, no princípio das mulheres, na minha percepção. Nós vamos precisar tratar disso. Não é possível nem que a gente mantenha o horário dessa publicidade, que está atingindo crianças, crianças, jovens e adolescentes, e é perceptível o aumento do consumo de bebidas entre jovens de 11 e 10 anos, é perceptível, isso é claro. Nem poderemos permitir que os conteúdos publicitários continuem do jeito que estão, induzindo violentamente, escancaradamente, o consumo de bebida, o álcool é hoje a droga mais consumida no Brasil e é um problema grava de saúde pública, o alcoolismo é um problema gravíssimo.

Reinaldo Azevedo: Aliás, mais grave do que a droga, não é?

José Gomes Temporão: Muito mais, porque ele leva não só do ponto de vista das doenças hepáticas, cardíacas, neurológicas, câncer, como causa sofrimento, dor e morte, violência doméstica... São 40 mil mortes por ano por acidentes de trânsito nas estradas brasileiras. Então, esse conteúdo que aparece, aquela coisa maravilhosa e que depois vem uma coisa assim: "aprecie com moderação". Eu penso que isso é dramático. Hoje o Ruy Castro [jornalista e escritor, autor de Chega de saudade: a história e as histórias da bossa nova (1990); O anjo pornográfico: A vida de Nelson Rodrigues (1992), entre outros], na Folha de S. Paulo, tem lá uma coisinha deliciosa mostrando como é tão dramático isso. Então, não tem jeito, nós vamos ter que regulamentar: nós vamos sentar com o Conar [Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária], vamos sentar com a indústria, vamos discutir, a Anvisa já tem uma proposta pronta, e nós vamos discutir. Vai haver mudanças.

Paulo Markun: Ministro, eu queria agradecer muito a sua entrevista e te desejar boa sorte nessa empreitada, em várias delas, agradecer a você que está em casa e convidá-lo para estar aqui na próxima segunda feira, 10:40 da noite com mais um Roda Viva. Boa noite, boa semana, e até lá.

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