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Henry Philippe Reichstul

8/5/2000

Os novos desafios da maior empresa brasileira de energia, que adotou o perfil competitivo do mercado internacional, aparecem nesta entrevista com o então presidente da Petrobras

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[Programa ao vivo]

Paulo Markun: Boa noite. Ele comanda a maior multinacional brasileira, um gigante estatal que já foi monopólio, que agora tem o desafio de transformar na maior companhia de petróleo da América Latina e em uma das principais empresas de energia no mundo. O Roda Viva entrevista esta noite Henry Philippe Reichstul, o presidente da Petrobras. Francês naturalizado, esse economista já participou da administração de grandes empresas estatais. No ano passado assumiu a presidência da Petrobras para virar a companhia de ponta cabeça. No começo deste ano, enfrentou o maior desastre ecológico já provocado pela empresa em seus quase cinqüenta anos, que foi o vazamento de óleo na Baía de Guanabara. O acidente levou a Petrobras a rever a política de proteção ambiental, e Reichstul agora conduz a mega empresa de 36 mil funcionários de modo a transformá-la de empresa de petróleo em empresa de energia, de empresa doméstica em empresa internacional, de corporação pesada e quase monopolista a uma firma ágil e preocupada com o lucro como todas as companhias. Para entrevistar o presidente da Petrobras nós convidamos a jornalista Célia de Gouveia Franco, editora de Brasil do jornal Valor; Chico Santos, repórter de Economia da Folha de S. Paulo; Carlos Alberto Sardenberg, comentarista do programa Opinião Nacional da TV Cultura; Sônia Racy, colunista do jornal O Estado de S. Paulo e da Rádio Eldorado; o vereador do Partido Verde, no Rio de Janeiro, Alfredo Sirkis, vice-presidente da ONG Onda Azul, e a editora executiva da revista Exame, Nely Caixeta.

Paulo Markun: Boa noite, presidente.

Henry Philippe Reichstul: Boa noite.

Paulo Markun: Acompanhando aí o material que registra a sua participação nesse... Já fez um ano de Petrobras? 

Henry Philippe Reichstul: Já, um ano e dois meses.

Paulo Markun: Um ano e dois meses. E descontada mesmo a questão do acidente ecológico, sobre o qual certamente nós vamos falar, me resta uma pergunta. Qual é ou qual tem sido o maior desafio para o senhor: é mudar a mentalidade da corporação, é mudar a estrutura de funcionamento da Petrobras? Ou é se adaptar para comandar uma empresa desse tamanho? 

Henry Philippe Reichstul: Olha, eu acho que é o conjunto dessas várias coisas. Eu acho que o setor de petróleo, quer dizer, a economia brasileira, o país, está vivendo um período de transição importante, e no setor de petróleo a Petrobras está vivendo essa transição. Então, a transformação da empresa que viveu durante mais de quarenta anos numa estrutura de monopólio, que a protegia de uma certa forma, mas com o tempo passou a atrapalhá-la também... E transformar essa empresa em uma empresa que seja bem sucedida num mercado competitivo vai implicar em mexer na estrutura da empresa, na cultura da empresa; vai mexer nos procedimentos, nas práticas de negócios. Enfim, vai mexer em tudo da empresa.

Paulo Markun: Agora, a Petrobras sempre teve, apesar dessa característica monopolista, ou talvez até por causa disso, uma imagem positiva, não é? Imagino que se perguntar para o cidadão comum o que ele acha da Petrobras ele acha, em primeiro lugar, que a Petrobras é bacana, para usar um jargão popular. Em segundo lugar, que ela funciona direito; e em terceiro lugar, que ela é um patrimônio brasileiro. Tanto assim que as iniciativas tímidas aí do governo de falar em privatização da Petrobras e tal, imediatamente recuou dessa hipótese, e já colocou “não, isso não é para agora, é mais para diante”, porque não colou bem. Essa visão que o público, que o leigo tem da Petrobras confere com a realidade, a Petrobras é realmente uma empresa que merece, é motivo de orgulho para o brasileiro? 

Henry Philippe Reichstul: Eu acho que com certeza. Eu acho que não há uma necessidade histórica de um país como o nosso ter uma Petrobras. Ela foi construída com muito trabalho, sangue, suor e tecnologia dos brasileiros. Então, eu acho que ela é uma empresa que conseguiu ter uma liderança na área de águas profundas, que foi em função da própria realidade brasileira, pois nós achamos pouco petróleo em terra, e nós tivemos que ir para o mar que é um processo muito mais custoso, mais difícil tecnologicamente falando. E a Petrobras conseguiu ter uma liderança clara nessa tecnologia de águas profundas que é reconhecida por todas as grandes empresas do mundo. A Petrobras conseguiu ter sucessivos aumentos de produção de petróleo, hoje nós estamos produzindo dois terços do consumo nacional, enfim, ela claramente é um motivo de orgulho para todos nós. Agora ela...

Sônia Racy: Presidente... 

Henry Philippe Reichstul: Só um minutinho. Por outro lado, ela precisa ser transformada para ficar melhor ainda, para ter um sucesso empresarial num mercado competitivo. E ela tem todas as condições, eu acho, para ela ser bem sucedida.

Paulo Markun: Eu vou pedir... desculpa, normalmente eu procuro democratizar aí as perguntas evidentemente, mas eu queria insistir neste ponto. Tudo bem, se ela é um orgulho para os brasileiros e se ela funcionou durante tanto tempo - quase cinqüenta anos - dessa maneira, o que mudou na realidade que faz com que hoje em dia tenha que mudar, tenha que fazer parcerias... Enfim, [por que] que ela tem que ficar parecida com as outras companhias, por que ela deixa de ser aquela Petrobras do passado?  

Henry Philippe Reichstul: Isso foi uma decisão de governo, da sociedade brasileira de promover uma abertura, uma globalização, uma maior inserção do Brasil na economia internacional. E essa maior inserção se dá no nível micro abrindo os vários mercados. Então foi uma decisão tomada em 1997, depois de um longo debate, que acabou com o monopólio da Petrobras. Ela passou então a ter as mesmas condições de atuação - não totalmente iguais ainda, porque ainda falta liberar ainda importação de gasolina e diesel - mas em princípio ela está caminhando para um regime de plena concorrência. Então essa decisão veio de um debate que aconteceu e está trazendo para o país uma série de benefícios também, porque o fato de você ter outros investidores procurando petróleo, gás, atuando no mercado de energia, eu acho que é bom para o país. E para a Petrobras não é ruim. Eu acho que ela tem todas as condições de competir com sucesso e ser vencedora, mesmo com concorrentes. Nós, este ano, por exemplo, já assinamos mais de 35 parcerias joint ventures [modelo estratégico de parceria empresarial para alcançar objetivos comuns, em que há união legal entre duas empresas sem que haja necessariamente subordinação societária], com mais de trinta empresas, e nós estamos ampliando o leque de investimento e, para o país, a probabilidade de encontrar mais petróleo, aumentar a produção, aumenta.

Sônia Racy: Presidente. 

Henry Philippe Reichstul: Pois não.

Sônia Racy: Eu tenho aqui uma dúvida. O senhor assumiu a Petrobras com a missão de torná-la uma empresa mais competitiva, mais globalizada, enfim, entrar com todas as práticas do comércio privado dentro dessa empresa. Por outro lado, o governo ainda é dono desta empresa. Não existe aqui um conflito de interesses, como, por exemplo, caso haja uma oportunidade dentro do mercado nacional brasileiro de compra de outras empresas pela Petrobras, e a Petrobras analisar que essa compra desse ativo seria uma boa aquisição, que agregaria valor à empresa? Por outro lado, o monopólio foi quebrado, mas não de fato, em vários setores do petróleo. O governo, a Petrobras, ainda controlam 90% do setor do petróleo. Como é que você soma essas duas coisas? O bem do consumidor, que o governo tem que defender e a Petrobras como empresa cujo objetivo é lucro? Como é que soma essas duas coisas dentro de uma só empresa? 

Henry Philippe Reichstul: Eu acho que é possível somar, tanto é que esse é o exercício que a gente está praticando. A companhia tem um Conselho de Administração, que tem o governo, com dois ministros. O presidente do conselho é o ministro [Rodolpho] Tourinho [ex-ministro das Minas e Energia], tem o Pedro Parente que é o ministro da Casa Civil, que também é membro do conselho, tem quatro a cinco membros do setor privado que estão atuando. E, obviamente, ela não é privada, não vai ser privatizada, mas o objetivo que nós temos é transformá-la em uma corporação transnacional, em uma grande corporação.

Sônia Racy: Então, crescer para fora, não para dentro do país? 

Henry Philippe Reichstul: Não, também para dentro, eu acho que obviamente ela vai estar procurando...

Sônia Racy: Agora, para dentro do país, ela cada vez vai ficar maior e o monopólio dela vai ser maior? 

Henry Philippe Reichstul: Mas ela vai ter restrições, ela tem restrições de atuação. Você tem organismos que, no caso da guerra da cerveja [referência à polêmica fusão, em 1999, entre as maiores fabricantes de cerveja no Brasil, Brahma e Antarctica, criando a Ambev (Companhia de Bebidas das Américas)], houve uma atuação clara de vários organismos dentro do governo para regulamentar isso, definir parâmetros. E a Petrobras vai atender a esses parâmetros como qualquer outra empresa que está atuando no Brasil, brasileira ou estrangeira atuando no Brasil.

Sônia Racy: Então, por que a Petrobras não compra um pólo petroquímico, por exemplo, que seria um bom negócio para ela? 

Henry Philippe Reichstul: Porque nós não temos interesse em pólos petroquímicos, nós saímos dos pólos petroquímicos.

Sônia Racy: Por quê? Ele não dá lucro? 

Henry Philippe Reichstul: Não, porque nós temos na verdade... Aí é uma outra discussão, que é a petroquímica. Nós estamos defendendo uma petroquímica do entorno, quer dizer, uma petroquímica que está integrada no nosso sistema de produção de refino, ou está integrada à nossa oferta de matéria prima, que foi o pólo do Rio. Mas claramente, que foi um pólo que nos interessa, ele está colocado ao lado da Refinaria Duque de Caxias, que vai ser construída e que vai usar todo gás natural, uma boa parte do gás natural da Bacia de Campos e dos líquidos de gás natural. Então essa petroquímica nos interessa, ela é mais rentável, aumenta a nossa cadeia de valor. Agora, a petroquímica de pólo é um outro business, poderia vir a interessar, mas no caso não nos interessa...

Sônia Racy: Mas em que isso prejudica o consumidor? Eu só queria deixar uma coisa clara aqui, o seguinte. Existe a defesa do consumidor, que o governo faz isso; existe a empresa privada, cuja função - uma empresa privada que funciona bem e que tenha lucro - é abocanhar a maior parte do mercado e ser maior que tudo. E o governo barra essa empresa, por outro lado. A Petrobras é as duas coisas. Como é que funciona isso? 

Henry Philippe Reichstul: Olha, eu não acho que haja essa contradição, acho que as empresas privadas não são contra o consumidor. Quer dizer, elas não necessariamente estão em oposição ao consumidor.

Sônia Racy: Quer agradar, mas [quer] a maior fatia do mercado, se ela puder monopolizar tudo. 

Carlos Alberto Sardenberg: Philippe, deixa eu colocar a questão de outro modo, que é o seguinte. O presidente Fernando Henrique se queixou domingo, ontem, naquele fórum de Davos [referência ao Fórum Econômico Mundial, que acontece anualmente na cidade suíça de Davos, com a participação de empresários, políticos e artistas de renome internacional, para discutir problemas mundiais] sobre as restrições que pesam sobre as estatais, em virtude dos conceitos que se tem de contas públicas. Ele se queixou, por exemplo, que as estatais não podem investir, porque aqui não entra na conta da despesa, não pode tomar financiamento porque aumenta o endividamento do setor público, isso tem acordos com FMI, metas que você tem que cumprir etc. Isso também atrapalha a Petrobras, não é isso? Recentemente a Petrobras teve que fazer um corte nos seus investimentos por decisão do governo não foi?

Henry Philippe Reichstul: Não houve cortes. Mas vamos entrar, então, um pouco nessa discussão.  

Carlos Alberto Sardenberg: Então, o que o fato de ser estatal atrapalha na atividade da Petrobras hoje?

Henry Philippe Reichstul: O que é importante entender é o seguinte: existe um projeto em relação à Petrobras, que é um projeto de governo, do presidente Fernando Henrique, do ministro Tourinho, nosso aqui na Petrobras, que é transformar a empresa em uma grande corporação transnacional, com a liberdade de atuação de uma grande corporação. Então existe esse projeto, esse projeto tem todo o apoio do governo, o governo entendeu que a Petrobras não vai ser privatizada, não deve ser privatizada, ela pertence de uma certa forma a todos os brasileiros. Como o Markun está dizendo, os brasileiros têm orgulho, todo mundo se sente dono da Petrobras, de uma certa forma, e têm todos os motivos, espero que tenha mais ainda, no futuro, para esse orgulho. Então existe esse projeto de promover uma Petrobras crescendo, não privatizada, mas com liberdade de atuação. Então, a partir daí, esse projeto tem várias etapas. Ele teve a reforma do Conselho de Administração, colocando gente do setor privado dentro do conselho, uma reestruturação da companhia para deixá-la mais ágil, uma limpeza do balanço da companhia que foi feito, um registro das ações da companhia no mercado internacional, nas bolsas internacionais; uma reforma organizacional, um trabalho de reposicionamento da companhia, que foi o nosso planejamento estratégico, uma reforma organizacional - que nós estamos no meio dela, em curso, nesse momento. Então, tem todo um projeto de transformar justamente essa empresa em uma empresa que possa crescer. Muito bem, aí é a questão, o que a atrapalha de ser uma empresa pública? Bom, tem algumas restrições, sem dúvida. Você mencionou a questão da restrição do investimento. Acontece que os investimentos em petróleo podem ser estruturados de forma que o risco do investidor possa ser coberto pela própria produção do investimento. Então nós estamos, há um certo tempo, já trabalhando em estruturas que fazem com que você monte empresas de propósitos específicos, que a gente chama de SPCs [sigla em inglês de Special Purpose Company, traduzido para o português Empresa de Propósito Específico], onde você tem investidores entrando, em que a definição do investimento, a operação de investimento é feita pela Petrobras. E esse investidor ou financiador corre o risco daquele projeto. É o que a gente chama no jargão de non-recourse finance. Você monta a estrutura de financiamento, onde a Petrobras não é a financiada, mas sim o projeto. E aí é perfeitamente aceitável dentro dos parâmetros e critérios de déficit público que esse tipo de investimento não faça parte dos investimentos, do risco que o sistema financeiro está tendo com o setor público brasileiro. Porque aquele investimento está fora daquele risco. Dessa forma ela é um pouco rebuscada, mas, justamente, a gente tem um departamento... 

Carlos Alberto Sardenberg: É um truque para fugir do...

Henry Philippe Reichstul: Não é um truque, faz parte, existe no mundo inteiro, é o project finance, sem que o balanço da companhia esteja em jogo. Isso acontece em todos os países subdesenvolvidos de Terceiro Mundo, ou que estão crescendo. Acontece também na Europa e nos Estados Unidos, em vários momentos... 

Carlos Alberto Sardenberg: Agora veja...

Henry Philippe Reichstul: Então, nesse caso, essa restrição que era tradicionalmente uma restrição que as estatais viveram, no caso específico da Petrobras nós não estamos sentindo isso. Portanto, nós hoje não temos nenhuma restrição de investimento, de volume de investimento. Este ano nós estamos pretendendo investir direta e indiretamente, através das parcerias também, mas a nossa parte no total disso dá em torno de seis bilhões de dólares. Em 1999, nós conseguimos montar estruturas para investir em torno de sete bilhões de reais, foram quatro bilhões e meio de dólares, mais ou menos.

Carlos Alberto Sardenberg: Não têm restrições para licitação, essas coisas? 

Henry Philippe Reichstul: Não, existem algumas restrições, sem dúvida, existem procedimentos de uma empresa pública... Se bem que a Petrobras tem, dentro da Lei do Petróleo, uma certa liberdade de contratação de serviços, de obras; ela tem um estatuto que lhe dá mais flexibilidade que o resto das estatais.

Nely Caixeta: Mas, presidente, essa é uma resposta que o senhor costuma dar sempre que é feita essa pergunta ao senhor... 

Henry Philippe Reichstul: Não, porque é a verdade. [risos]

Nely Caixeta: Mas desde que o senhor chegou lá, por exemplo, existe restrição também da ordem de contratação - os melhores profissionais - o senhor queria contratar mil, sair contratando mil novos funcionários para a Petrobras - sobretudo da área de marketing, da área de administração, MBAs [um tipo de mestrado em administração], já que a empresa sempre teve excelência técnica. A intenção do senhor era dar à empresa uma excelência administrativa, gerencial, mudar esse conceito de uma estatal. E o senhor sempre também disse que essas restrições, a Lei do Petróleo flexibilizava, permitia a vocês flexibilizá-la. Então, desde que o senhor chegou lá, essas mil pessoas já foram contratadas? 

Henry Philippe Reichstul: Parece um gancho que você está me dando. Essa semana, nós começamos a publicar o anúncio das inscrições - vão de 8 a 12 de maio - nós estamos contratando 700 e poucas vagas de profissionais de todos os tipos de categoria, que passa por jornalistas, geólogo, geofísico, MBAs, engenheiros, administradores, contadores... Nós vamos estar repondo, nós estamos abrindo 700 e poucas vagas.

Paulo Markun: Isso é um concurso? 

Henry Philippe Reichstul: É um concurso público que está sendo anunciado esta semana, já hoje começou a ter informações na mídia, é só entrar no site da Petrobras. É a UnB [Universidade de Brasília] que está promovendo esse concurso e nós esperamos que até o final deste semestre, até o final de junho, que a gente tenha... Não, no final de junho nós não vamos conseguir; mas, enfim, nos próximos 90 dias nós vamos colocar essas pessoas para...

Paulo Markun: Presidente... [vários falam ao mesmo tempo] 

Nely Caixeta: O senhor tem recursos? 

Henry Philippe Reichstul: Nós estamos autorizados, nós estamos contratando já. 

Célia de Gouveia Franco: Mas o senhor tem recurso para contratar?

Carlos Alberto Sardenberg: Mas o espírito da pergunta dela é o seguinte: você precisa de um funcionário qualquer, que é super qualificado, e você precisa daquele sujeito para aquela função. Você não pode ir no mercado e pagar qualquer salário para ele? 

Henry Philippe Reichstul: Não, não posso.

Carlos Alberto Sardenberg: Mas já contratar diretores assim, não pode, você tem a restrição... 

Henri Philippe Reichstul: Posso contratar diretores, posso contratar diretores, eu tenho algumas...

Célia de Gouveia Franco: É lento o processo, tem que fazer concurso público, mas tem restrição. 

Henry Philippe Reichstul: Eu tenho restrições.

Célia de Gouveia Franco: O senhor teve muita dificuldade para contratar, por exemplo, diretor na área financeira, porque todo mundo que o senhor procurava ganhava muito mais no setor privado e não queria ir para a Petrobras, não é verdade? 

Henry Philippe Reichstul: Sem dúvida, nós temos então... Vamos organizar. A questão é se pode contratar ou não. As estatais, em geral, têm restrições. No caso, a Petrobras, na medida em que ela está reduzindo o seu quadro de pessoal, ela tem condições de contratar e está contratando. A segunda questão é: temos condições de contratar? A Petrobras, a maior empresa do Brasil, funciona à semelhança das grandes empresas também privadas, organizações bancárias, que eu posso citar como o Bradesco, o Citibank ou grandes multinacionais. Que tradicionalmente recrutam onde? Na faculdade. O sujeito se forma e vai, faz programa de trainee, treinamento etc. Dificilmente essas grandes organizações vão contratar, a preço de ouro, profissionais de outras organizações. Elas já têm por tradição... elas são fornecedoras de mão-de-obra para terceiros, muito mais do que elas pegam mão-de-obra de outras organizações.

Paulo Markun: A propósito disso... 

Henry Philippe Reichstul: E a Petrobras tem essa característica. Então ela é diferente, tem problemas, tem problemas de salário - nós já discutimos problema de salário algumas vezes - não há dúvidas que há problemas. Mas o que eu estou dizendo é que também há semelhanças a grandes organizações. Então, eu não acho que seja um impeditivo grave que faça com que a Petrobras não consiga crescer, não consiga se posicionar em relação ao mercado.

Paulo Markun: A propósito dessa questão da Nely, o Dácio Azevedo Rodrigues, aqui de São Paulo, menciona esse concurso público que está sendo aí, anunciado, e pergunta o seguinte: “Por que a Petrobras não aproveita os selecionados no concurso passado que, desde julho de 98, aguardam convocação?" E se os novos candidatos podem criar algumas expectativas de serem contratados no futuro. Ele, por sinal, foi habilitado na qüinquagésima terceira posição desse concurso que previa noventa vagas. Segundo essa menção, e outras mensagens aqui, houve concursos anteriores em que diversas pessoas foram selecionadas e não foram contratadas, justamente pela restrição de contratação. 

Henry Philippe Reichstul: Houve um aproveitamento desse concurso anterior, foi um concurso muito pequeno. A Petrobras não faz um grande concurso há dez anos, nove anos praticamente. Então, nós vamos aproveitar... A nossa idéia é a gente passar a ter concurso todo ano, os talentos não vêm a cada dez anos, a cada década, não é? Todo ano as universidades estão produzindo uma série de talentos e nós queremos competir por esses talentos todos os anos, quem sabe em uma escala menor, mas para oxigenar a companhia. E nós achamos que temos condições de contratar essas pessoas. Agora, a questão de salários ainda se coloca na questão de um... Se você está no mercado concorrencial novas empresas estão chegando, isso pode trazer uma perda...

Paulo Markun: O presidente da Petrobras ganha quantas vezes menos do que o equivalente em uma companhia... 

Nely Caixeta: Shell.

Carlos Alberto Sardenberg: O presidente da YPF [Companhia Internacional Integrada de Petróleo e Gás]. 

Henry Philippe Reichstul: Olha, a gente fez uma pesquisa. O Conselho, que estava muito preocupado com essa questão pediu que contratasse uma pesquisa, nós contratamos uma grande empresa de RH multinacional até, e ela chegou à conclusão que - eu tenho até vergonha [risos], mas eu vou estar falando em benefício próprio. Mas provavelmente eu ganho 17% do que eu deveria ganhar no pacote anual.

Paulo Markun: Isso não é de alguma forma - longe de mim estar fazendo qualquer tipo de insinuação - um estímulo para que as pessoas que assumem esses cargos encontrem outras maneiras de serem remuneradas. Porque a Petrobras, com a característica de corporação que ela tinha... e ela tinha caixas pretas absolutamente invioláveis dentro dela, em relação a diversas contratações multibilhardárias sendo decididas por pessoas que, em primeiro lugar, ganhavam muito menos do que quem está no mercado; e, em segundo lugar, tinham muito pouca satisfação a dar para o contribuinte que, no final das contas, é o dono da empresa. 

Henry Philippe Reichstul: Eu acho que, na verdade, são pessoas que estão há vinte, trinta anos dando o sangue na empresa. Então a questão salarial, obviamente, não é só a questão salarial, tem outros valores que fazem parte da cultura da Petrobras. A Petrobras tem uma cultura de trabalho impressionante, ela gosta do trabalho. Está no Rio de Janeiro, um prédio formigando, e todo mundo gosta, todo mundo gosta de desafio na Petrobras; é incrível a capacidade que ela tem de reagir, de fazer as coisas. Eu acho que existem outros valores em relação a isso. Agora, certamente a questão salarial tem que ser tratada e ela está sendo tratada. Nós estamos discutindo isso com o governo, com o Conselho da Administração da companhia.

Paulo Markun: Isso é no âmbito interno da Petrobras, é uma decisão interna ou é... 

Henry Philippe Reichstul: Do Conselho onde está presente o governo.

Paulo Markun: Mas, por exemplo, ninguém pode ganhar mais do que o presidente da República? 

Henry Philippe Reichstul: Não, a Petrobras não tem mais...

Paulo Markun: Não tem mais essa limitação? 

Henry Philippe Reichstul: Não existe, não existe essa limitação.

Chico Santos: Doutor Philippe, eu queria aproveitar essa discussão da limitação de recursos para o senhor nos dar uma notícia. A Petrobras quer - o que se diz na Petrobras, o que se diz no mercado - comprar a parte de derivados de combustível da Ipiranga. Como é que vai ser esse arranjo financeiro? E será que vai ser possível, considerando a questão da limitação do Cade [Conselho Administrativo de Defesa Econômica, autarquia vinculada ao Ministério da Justiça que regula práticas concorrenciais] na concorrência? 

Henry Philippe Reichstul: Eu não tenho conhecimento dessa informação.

Chico Santos: Todos os técnicos da empresa têm o conhecimento, e o presidente não tem. 

Henry Philippe Reichstul: É, não tenho não.

Chico Santos: A Petrobras não vai comprar a Ipiranga, então? 

Henry Philippe Reichstul: Eu não tenho conhecimento, nem sei se a Ipiranga está à venda. A última coisa que eu li é que a Ipiranga está em reestruturação. Agora tem muita coluna aqui, tem muita fofoca aqui e ali, mas...

Chico Santos: Ela contratou o banco para colocar a negociação no mercado. 

Sônia Racy: Mas qual seria a importância? 

Alfredo Sirkis: Eu queria falar um pouco, se vocês permitirem, sobre o futuro da Petrobras. Em um horizonte de 15 a vinte anos, qual a tendência das companhias de petróleos se diversificarem? E o próprio futuro do petróleo merece ser discutido à luz das questões de mudanças climáticas, efeito estufa. A gente pode imaginar que, no futuro, o petróleo não vai ser o combustível com a importância que tem hoje. E diversas empresas de petróleo estão diversificando suas atividades e estão se tornando empresas de energia, não apenas empresa de petróleo. Então, diante disso, como você vê o futuro da Petrobras, daqui a 15 anos, vinte anos? O que a Petrobras vai produzir além do petróleo? 

Henry Philippe Reichstul: Bom, nós, nesse trabalho de planejamento estratégico, nos trancamos durante quatro, cinco meses, ficamos passando fins de semana em hotéis... e no grupo um, que são cinqüenta ou sessenta pessoas-chave da companhia, nós fomos bombardeados por informações de consultores, contratamos quatro consultorias internacionais que nos trouxeram informações, definições de outras companhias. E também usando toda a história, a massa crítica da Petrobras que, obviamente, em vários momentos se colocou essa questão, o Brasil se colocou essa questão na área do álcool, na outra crise do petróleo, mas ficou claro para nós que uma empresa de petróleo não tem futuro só como empresa de petróleo. O gás natural, obviamente, é um grande facilitador nessa transição, nessa tradução, de uma empresa de energia; o gás natural está crescendo no mundo inteiro a taxas três ou quatro vezes mais altas do que o consumo de produtos de derivados de petróleo. Só para vocês terem uma idéia, nos Estados Unidos, hoje, se consome um volume equivalente de gás natural e de petróleo. Enquanto hoje, aqui, nós consumimos... é irrisório o que a gente consome em termos de gás natural. Mas, independentemente disso, independente das reservas, do volume total de reservas de hidrocarbonos que pode ter de petróleo no mundo, nós também percebemos que vai haver restrições, já existem e há restrições crescente em relação à questão ambiental. É o efeito que o uso desse combustível traz para a camada de ozônio, para o bem-estar da população no mundo como um todo. A partir daí deve-se pensar: “nós não dependemos só do petróleo, nós somos uma empresa de energia”. Qual vai ser o energético do futuro? Eu não sei, pode ser um carro que seja a hidrogênio, então nós podemos produzir hidrogênio, distribuir hidrogênio também. E aí nos reposicionamos como empresa de energia. Eu estou pegando o hidrogênio que é uma coisa ainda muito mais longínqua.

Alfredo Sirkis: Células de energia. 

Henry Philippe Reichstul: Mas, por exemplo, a natural e a energia termoelétrica é uma coisa que está imediata. Nós estamos, como todos sabem, nos lançando em um programa de incentivo ao gás natural no Brasil, e em um programa também de incentivo à construção de termoelétricas a gás natural. Isso vem a atender uma crise que existe no setor energético, e que pode ser rapidamente atendida com a construção de térmicas a gás. E para nós, que fizemos já grandes investimentos na área de gás natural, também nos interessa muito esse setor.

Nely Caixeta: O senhor vê uma mudança na paisagem das ruas brasileiras? O senhor acha que daqui, sei lá, cinco anos, mais e mais pessoas vão estar usando carros movidos a gás? Ou, como alguns cientistas americanos já imaginam o hypercar - que seria feito de outro tipo de fibra - você usaria a energia elétrica, você pararia seu carro no estacionamento e ali mesmo você abasteceria seu carro? 

Henry Philippe Reichstul: Num posto da Petrobras.

Alfredo Sirkis: Tudo isso já existe. Acabou de ser lançado no mercado o carro binário, que tem um motor metade do tempo movido à energia elétrica. E a gasolina serve, inclusive, de gerador para a bateria. 

Henry Philippe Reichstul: Que na partida, você sai...

Alfredo Sirkis: Tem a célula de energia que é, na verdade, o único carro que é de poluição zero. Então, as inovações tecnológicas mais importantes dos últimos vinte anos estão acontecendo agora. A Petrobras já tem uma estratégia, tem um planejamento para poder pegar essa situação ali mais adiante, na próxima curva? 

Nely Caixeta: Em vez de vender gasolina vender energia elétrica?

Henry Philippe Reichstul: Bom, nós estamos vendendo gás natural nos postos, estamos crescendo. Mas eu não acho, por exemplo, que nós vamos chegar no ponto da Argentina que tem, acho, 40% da frota automotiva alimentada por gás natural. 

Sônia Racy: Porque lá sobra gás, não é, presidente?

Henry Philippe Reichstul: Exatamente, porque tem muito gás natural, nós não temos tanto gás natural assim, tanto é que estamos importando da Bolívia, da Argentina; estamos até trazendo... No futuro vamos trazer gás natural liquefeito regaseificado aqui, principalmente na área do Nordeste - que é uma área onde é difícil - o gás da Bolívia, o gás de Campos [vai] poder chegar. Tem uma outra questão, tem uma especificidade do Brasil que é o programa do álcool, tem o programa de biomassa, que de uma certa forma atende às questões ambientais, e que é um programa que já existe, e é muito importante. Então já existe uma especificidade do Brasil nessa questão de combustíveis alternativos que é grande. E hoje, por exemplo, na gasolina, nós estamos colocando 24% de álcool, que é produzido aqui no Brasil. Então, existem algumas questões que são do Brasil, [além] dessas questões mais mundiais que é [como a d]o carro a hidrogênio, o carro elétrico e a gasolina, ou a questão da energia solar, ou o carro elétrico. 

Alfredo Sirkis: A energia eólica, energia solar...

Henry Philippe Reichstul: Exatamente. Nós vamos entrar também neste circuito, mas nós não conseguimos fazer tudo ao mesmo tempo, não é? [risos] Nós estamos num processo de transformação da empresa, acabamos de reorganizar a estrutura da empresa, montamos uma nova área de negócio que se chama Gás e Energia, concentrando toda essa área de gás e energia em uma diretoria só, em uma área só. E nós temos interesse, à semelhança das grandes empresas, nós queremos ser uma grande transnacional. Nós vamos tentar explorar outras fontes de energia também para poder manter essa liderança empresarial nessas outras fontes. Em algum momento elas vão se transformar em soluções comerciais. E aí a Petrobras ou vai ser a Enerbras, sei lá, porque a Petrobras dá uma idéia de que você só está ligado ao petróleo. Ela vai ser um excelente agente para poder empresarialmente vender esse produto, vender energia solar, eólica, o que seja. 

Paulo Markun: Presidente, nós vamos fazer um rápido intervalo e o Roda Viva volta daqui a instantes, entrevistando o presidente da Petrobras, até lá.  

[intervalo]

Paulo Markun: Bem, estamos de volta com o Roda Viva, esta noite entrevistando o presidente da Petrobras, Henry Philippe Reichstul. Como o senhor nadou de braçada no primeiro bloco eu vou começar o segundo bloco colocando em questão o tema do vazamento de óleo na Baía de Guanabara, com duas perguntas. Paulo Gomes, de São Bernardo do Campo, pergunta se a Petrobras já acertou com todas as vítimas do vazamento, porque segundo ele não houve uma repercussão maior, porque ele acha que foi favorável à Petrobras o resultado do episódio. E Humberto Torini, de São Caetano do Sul, pergunta, referente ao acidente da Baía de Guanabara: “Isso não foi um boicote dentro da própria Petrobras para colocar a opinião pública contra a empresa e facilitando a privatização?” Aliás, essa hipótese foi levantada pela revista Caros Amigos em uma reportagem que diz que diversos setores de Associação de Engenheiros e etc não encontravam explicação para o acidente. 

Henry Philippe Reichstul: Bom, são duas perguntas bastante diferentes. Quanto à primeira, nós assumimos integralmente a responsabilidade pelo acidente e nós montamos várias comissões de reparações. O acidente atrapalhou a vida dos pescadores, de pessoas que viviam do turismo, principalmente de [Ilha de] Paquetá [bairro da Baía de Guanabara], comerciantes, vendedores ambulantes, as balsas; afetou, então, a atividade econômica dessas pessoas. Em relação aos pescadores, nós os indenizamos até a retomada da pesca, que já ocorreu; no caso dos ambulantes também; no caso dos comerciantes ainda existem negociações com as sub-sedes da Associação Comercial do Rio, nos vários locais, e nós estamos negociando isso. Nós queremos fazer o reparo o mais rápido possível e o mais justo possível dentro de uns critérios que...

Paulo Markun: O senhor acha que o acidente foi... Desculpe interromper antes do senhor responder a segunda pergunta. O senhor acha que o acidente está superado, está resolvido o problema, não há mais danos para o meio ambiente? 

Henry Philippe Reichstul: É o seguinte. A água da Baía de Guanabara está, de acordo com todas as universidades, os órgãos ambientais consultados - e aqui está um vereador verde que pode até confirmar ou não as informações que eu recebi - mas a água voltou à normalidade ruim anterior, vamos dizer, porque a Baía de Guanabara, como todos sabem, não é aquele primor de pureza. Então, os efeitos do derramamento na água da Baía acabaram, nós já limpamos todas as praias, limpamos todas as pedras; nós chegamos a ter 2,5 mil pessoas limpando o fundo da Baía. Então tudo isso já foi limpo, tem gente até que diz que as praias estão mais limpas do que estavam antes.

Alfredo Sirkis: Não exagera, também. [risos] 

Henry Philippe Reichstul: Agora, houve uma parte dos manguezais de uma reserva, que é a que fica no fundo da baía, que chama reserva de Guapimirim, que foi afetada. Essa reserva foi afetada em torno de 0,5% da área total da reserva e nesse caso, esse processo de recuperação dessa área de manguezais vai demorar de três a cinco anos, tem gente que fala até dez anos. Então, isso vai representar um trabalho que vai ter que ser feito, que está sendo feito, de replantio, de montar uma fazenda de manguezais para poder replantar o manguezal. E existe um dano que vai demorar a ser recuperado nessa área propriamente dita. Ainda sobra um pouquinho de óleo, algumas placas perto de algumas praias de Paquetá, que ficam... São manchas de óleo que estão misturadas com areia e, dependendo da maré, elas afloram. É um óleo que chegou até a praia e depois misturou com areia e recuou, fica a quatro ou cinco metros da praia. Mas nós temos ainda gente tentando identificar algum problema que tenha e [para que] continue a limpar.

Paulo Markun: O boicote. 

Henry Philippe Reichstul: A questão da segunda pergunta era se havia uma...

Paulo Markun: O boicote, se houve boicote ou se houve... 

Sônia Racy: Se o acidente foi provocado?

Paulo Markun: Se foi provocado? 

Henry Philippe Reichstul: Nós não temos nenhum indício de boicote, sabotagem nem nada. Houve de fato uma campanha muito forte em relação ao acidente. Eu acho que aí...

Carlos Alberto Sardenberg: A campanha muito forte como? Uma campanha contra a Petrobras, o senhor acha? 

Henry Philippe Reichstul: Não necessariamente contra a Petrobras, mas contra uma agressão ao meio ambiente, claramente.

Célia de Gouveia Franco: O senhor acha que o consumidor brasileiro, especialmente lá do Rio, ele parou de ir aos postos da BR Distribuidora porque identificava com a Petrobras? Então falou: “Eu não vou comprar combustível aqui como uma forma de boicotar" Vocês perceberam um movimento nesse sentido? 

Henry Philippe Reichstul: Olha, isso não aconteceu, mas poderia ter acontecido dependendo da forma de reação da companhia. Eu acho que todos nós, como cidadãos, estamos preocupados com a questão ambiental. Você não pode tomar banho do mar, você tem que abrir o jornal para saber em que praia pode ir. Enfim, volta e meia, no seu cotidiano, você é agredido, o meio ambiente é agredido e você sofre conseqüências. Então, na hora em que fica claro que houve um acidente, e esse acidente pode ser claramente responsabilizado - tem uma empresa que até assumiu o acidente -, toda essa sua angústia ambiental é canalizada para isso. E nós sentimos isso na carne, houve uma reação muito forte da sociedade através dos meios de comunicação. Agora, o que nós percebemos - eu pelo menos percebi - é o seguinte: uma empresa de energia ou de petróleo tem que ver com a vida de todo cidadão de uma sociedade no Brasil, ou em qualquer outro país – ainda mais  dada à importância da Petrobras aqui. Então ela tem que atender aos anseios dessa sociedade onde ela está muito intimamente inserida, e a consciência ambiental do Brasil está mudando, claramente mudou.

Alfredo Sirkis: Eu gostaria, Philippe, de aproveitar até para dar o meu testemunho. Bom, em primeiro lugar, o acidente foi um acidente muito grave, não só em função das conseqüências ambientais que ele teve... embora houve sorte, porque uma série de condições de clima, de correntes e tudo, permitiram que se circunscrevesse o acidente, ele poderia ter sido muito mais grave. Enfim, então ele foi grave por causa do impacto ambiental que ele teve e foi grave por causa das circunstâncias em que ele se deu. O fato de ter sido um duto que já tinha vazado dois anos antes, o fato de ter passado quatro horas e meia antes de se saber que tinha havido o vazamento, o fato de ter havido uma demora naquelas operações necessárias para poder circunscrever a possibilidade da mancha de óleo se espalhar. Então isso, evidentemente, provocou uma grande indignação por parte dos ambientalistas e muito também por parte da própria mídia. Foi um caso em que você deve se lembrar naquela reunião que nós tivemos, e eu até falei: “Poxa, na verdade a TV Globo está batendo em você com mais contundência ainda do que os próprios ambientalistas”. Mas, por outro lado, acho que esse processo propiciou uma espécie de eletrochoque dentro da empresa, e criou-se a partir de um certo momento uma interlocução com os ambientalistas - da qual eu participei - que possibilitou, ao fim e ao cabo, realmente um progresso. Acho que hoje a Petrobras é uma empresa mais preocupada com a questão ambiental do que ela era no ano passado; ela é mais transparente, é menos arrogante. Havia até, no caso do Rio de Janeiro, em administrações anteriores à sua, a truculência a ponto de, por exemplo, fiscais da Feema [Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente] não poderem entrar na refinaria de Duque de Caxias. Então se costuma dizer que há males que vêm para o bem. Evidentemente é péssimo que haja um derramamento de petróleo, mas esse, pelo menos, propiciou uma grande mobilização da sociedade, uma interlocução e uma negociação dos ambientalistas com a Petrobras. E no próximo dia 15 nós devemos assinar esse protocolo do compromisso que a Petrobras vai assumir, perante a sociedade brasileira. Sem dúvida nenhuma, vai representar um progresso o fato, por exemplo, de vocês colocarem todas as unidades industriais da Petrobras no ISO 14000 [é uma série de normas desenvolvidas pela International Organization for Standardization (ISO) que estabelecem diretrizes sobre a área de gestão ambiental dentro de empresas] até o final do ano de 2002. Isso é um progresso muito importante, porque a maior parte dessas instalações não tem nem a ISO 9000 [grupo de normas técnicas que estabelecem um modelo de gestão da qualidade para organizações em geral, qualquer que seja o seu tipo ou dimensão]. Então eu acho que, na verdade, pode-se dizer, ao fim e ao cabo, que entre mortos e feridos, salvaram-se todos, embora eu ache que a vigilância deve continuar. Porque o que ficou claro para gente nesse processo é que havia duas mentalidades dentro da empresa. Aí eu vou até concluir com uma pergunta para você. Ficou claro para mim que você teve uma atitude, quando se deu todo esse problema, muito diferente daquela das administrações anteriores, que eram muito arrogantes, eram prepotentes, essa coisa e tal. Mas que por outro lado, dentro da empresa, ainda subsiste muito da mentalidade antiga. Então a pergunta que eu gostaria de fazer é como você detecta esse problema. Você encontrou muitos obstáculos nesse processo? E como você vê o futuro em relação a essas questões? 

Henry Philippe Reichstul: Bom, a empresa está em uma grande transformação, obviamente a área ambiental é uma área que está sofrendo uma transformação muito grande também. Só para fazer um gancho com a pergunta que eu estava fazendo, eu acho que essa questão da consciência ambiental ela vai avançando, quem sabe por acidente, por patamares que nem o direito feminino que vai... Tem acidentes, você tem eventos. Eu acho que esse desastre é uma marca claramente dentro da história da própria companhia também. Se a gente tem um projeto de se transformar em uma transnacional, que está fazendo parcerias com as maiores empresas do mundo, que está atuando fora do Brasil e tem uma imagem a ser mostrada, nós precisamos ter uma excelência ambiental. Além do que [pode] alimentar o orgulho de todos os brasileiros saber que a empresa Petrobras tem essa excelência ambiental, chegou nela. A Petrobras tinha e tem excelência ambiental. Ela não é generalizada, ela tem unidades que são um primor. Eu vejo, por exemplo, na Bacia de Campos, que tem 32 plataformas, você sobrevoa aquilo lá - a gente está manuseando um milhão ali, novecentos mil barris/dia, dia e noite - e você não vê uma gota de óleo no mar, de fato não tem. Sobrevoa ali 32 plataformas, você não vê. [Em] Urucu a gente conseguiu, no meio da Amazônia, ter o ISO 9.000, ISO 14.000, enfim, certificados sobre os quais as pessoas diziam “Não vai nunca conseguir nesse ambiente, no meio da Amazônia conseguir esse certificado”. Agora, isso eram atitudes que não representavam uma política corporativa da empresa. Eu acho que a grande mudança com esse acidente é isto: virou uma preocupação da corporação.

Paulo Markun: É o senhor que cuida pessoalmente, avocou a si o...  

Henry Philippe Reichstul: Eu evoquei a mim, até a estruturação completa da área e terminar esse processo de transição. E quem sabe daqui a dois ou três anos ela vá para uma área de serviços. Mas hoje ela está diretamente sob a minha responsabilidade. Nós estamos trabalhando paralelamente ao grupo que estava limpando a baía, chefiando essas 2,5 mil pessoas, paralelamente ao grupo que estava trabalhando na questão dos reparos, das reparações, dos pescadores, dos comerciantes, enfim, dos danos causados pelo derramamento. Nós montamos um grupo com mais de sessenta técnicos, que montou uma radiografia da questão ambiental da Petrobras e que, a partir desse trabalho, que durou mais de noventa dias, não, setenta dias, montou um plano de revisão da política ambiental, um plano de investimento e de custeio também, que nós pretendemos lançar segunda-feira que vem, dia 15, com um volume de recursos gigantescos, que nós vamos, nos próximos quatro anos, gastar para trazer a Petrobras no estado da arte.

Paulo Markun: Quanto vai ser gasto? Dá para dizer? 

Henry Philippe Reichstul: A cifra é muito, muito elevada.

Paulo Markun: Não quer dizer para a gente? Diz agora. [risos] 

Célia de Gouveia Franco: Quanto que o acidente custou para a Petrobras?

Henry Philippe Reichstul: Ele custou muito, porque a gente tem uma imagem a cuidar  e a gente investe nessa imagem, é fruto de um trabalho de tecnologia. E, de uma hora para outra, as pessoas dizem “mas como é que a Petrobras não conseguiu perceber que estava saindo óleo, como é que acontece um acidente?"

Paulo Markun: Como é que ela não conseguiu perceber?

Henry Philippe Reichstul: Como é que acontece um acidente? Então é aquelas coisas, é pouco da lei de Murphy [ditado popular da cultura ocidental que afirma que "se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará"]. O duto tem uma vida útil de trinta, quarenta anos, esse duto tinha oito anos. Existe um novo sistema que está começando a ser... começou não, há três anos vinha sendo implantado em todos os dutos da Petrobras. É um sistema que dá uma leitura imediata da pressão, de quanto entra no duto, quanto sai. E esse programa foi montado começando com os dutos mais velhos, e esse duto era dos mais novos. Então esse programa estava implantado e em experiência lá, quer dizer, se o acidente tivesse ocorrido dois ou três meses depois, 15 minutos depois, você teria identificado o problema. 

Sônia Racy: E a Comissão de Sindicância, presidente, não foi instalada uma comissão para apurar a responsabilidade?

Henry Philippe Reichstul: Várias comissões foram instaladas, apuraram a responsabilidade, puniram, criaram censura dentro da companhia. 

Sônia Racy: Quais foram as responsabilidades apuradas? Quem foi punido? E quais as antecedências do acidente, por que o acidente aconteceu?

Henry Philippe Reichstul: Então, a questão do porquê do acidente diz respeito a uma movimentação, o tubo que carregava um produto quente... 

Sônia Racy: Não foi sabotagem? Como a pergunta ali do leitor?

Henry Philippe Reichstul: Não, não tenho nenhuma evidência de sabotagem, não temos nenhuma. 

Sônia Racy: Então, nessa comissão, que responsabilidades foram apuradas?

Henry Philippe Reichstul: Foi um misto de um problema cuja origem pode estar no projeto, ou na montagem, ou na própria movimentação do solo no fundo da baía. 

Sônia Racy: Existem três possibilidades?

Henry Philippe Reichstul: É um misto das três também, não é? Você não consegue chegar exatamente, [como] no trabalho de Sherlock [Holmes, nome de um detetive que ficou famoso por utilizar, na resolução dos seus mistérios, o método científico e a lógica dedutiva, que é o personagem principal dos livros do escritor britânico Sir Arthur Conan Doyle], [e dizer] “o culpado é esse”. Então você teve o problema da ruptura. A ruptura do tubo não foi total; se ela fosse total era muito mais fácil identificar o acidente dez, 15 minutos depois. Acontece que foi uma ruptura parcial e foi saindo de uma forma uniforme 15% do produto na água; os 85% chegaram do outro lado, então a questão é... 

Sônia Racy: A culpa é do concreto?

Henry Philippe Reichstul: Como? 

Sônia Racy: A culpa é do concreto? Do tubo? De quem? O que aconteceu?

Henry Philippe Reichstul: Foi um misto, que dizer, foi um acidente. Não é que alguém foi lá e deu uma batida lá, está certo? 

Sônia Racy: Mas alguém construiu esse tubo mal, foi mal construído?

Henry Philippe Reichstul: Tem um problema que pode estar ligado com a movimentação da terra e a questão do projeto. Até que ponto o projeto concebeu movimentação, que ocorreu ou não, o fundo da baía é um terreno muito instável, segundo os engenheiros.  [vários falam ao mesmo tempo] 

Carlos Alberto Sardenberg: Philippe, então você não sabe!

Sônia Racy: Então, a Comissão de Sindicância apurou o quê, presidente?

Carlos Alberto Sardenberg: Pode ser o terreno, pode ser o projeto...

Alfredo Sirkis: Ainda mais tendo acontecido um acidente similar, dois anos antes, só que o de dois anos antes foi dentro do manguezal, e esse foi dentro d’água. Agora eu só queria fazer um... 

Henry Philippe Reichstul: Infelizmente, eles são uma combinação de várias coisas. Então pode ter havido, quer dizer, tem um problema de projeto, que não concebeu uma variação tão grande da movimentação de terra. Eu estou falando de uma coisa que eu não sou... eu sou economista, e tenho um ano de empresa, mas enfim, vamos lá.

Sônia Racy: Mas aí economista, presidente, posso? 

Henry Philippe Reichstul: Mas a questão v... Esse foi um acidente, por quê? Porque houve uma série de coincidência que deram errado e fez com que o tubo estourasse, muito bem. O segundo problema foi que o operador não percebeu a tempo isso. Ele estava no processo de treinamento desse novo sistema e ele não acreditou com clareza de que havia o vazamento. Como esse sistema não estava totalmente operacional, então o operador é culpado? Ele deveria ter percebido o vazamento. Então, ele foi punido, foi suspenso. Agora, nós ficamos também em uma questão: “vamos mandar embora o operador por causa disso”? Eu estou preferindo manter o operador, inclusive ele saiu da função dele, e vai explicar o que aconteceu com ele para os outros operadores no Brasil inteiro, para que isso sirva de um alerta, sirva de experiência dentro da companhia de que acidentes podem acontecer. Infelizmente, aconteceu o acidente. A gente movimenta uma quantidade enorme de produtos diariamente, mais de um milhão de litros diariamente no Brasil inteiro, são 22 mil quilômetros de tubos, conexões, e esse acidente ocorreu. Eu acho que o outro acidente ocorreu três anos atrás. Enfim, é um acidente, não é uma coisa que foi alguém lá e quebrou.

Sônia Racy: Presidente, presidente, então vamos falar? 

Alfredo Sirkis: Agora, em relação aos dutos, atualmente, vão ser colocados sensores em todos os dutos da Petrobras?

Henry Philippe Reichstul: Obviamente, tudo vai ser feito, nós estamos acelerando este programa de investimento, nós estamos revendo os pontos críticos da companhia. E nós vamos atacar, já estamos atacando isso, com um programa já em curso. 

Alfredo Sirkis: Antes de passar para outro assunto, apenas um reparo sobre os pescadores, senão vai escapar. O fato de a situação ter se normalizado e dos peixes terem voltado não significa que o problema dos pescadores esteja totalmente resolvido. Porque há uma questão de percepção na sociedade em geral que torna muito mais difícil nesse momento para eles colocarem o seu peixe no mercado.

Sônia Racy: Vender o seu peixe. 

Henry Philippe Reichstul: Então quando se fala na questão da indenização é importante levar em conta esse aspecto. Embora, na verdade, os peixes não tenham sido afetados pelo desastre - os peixes simplesmente fugiram - foram afetados os caranguejos e as aves, os mergulhões, mas os peixes não. Agora, a situação está normalizada, realmente voltaram os peixes, a maior parte daquela área já está despoluída. Mas existe uma percepção muito forte no mercado consumidor de que peixe vindo daquelas colônias de pescador não serve. Então, isso não deixa de ser uma seqüela do acidente, não tem dúvida. Nós conhecemos esse problema e estamos montando um trabalho, uma campanha de consumo de peixes da Baía da Guanabara. Estamos analisando uma sugestão - como nas plataformas nós somos grandes consumidores de refeições - de fazer, quem sabe, com que as empresas que nos fornecem, comprem o peixe, que está ótimo, está perfeito. O pessoal que trabalhou na limpeza da baía foi lá, comeu o peixe, ele não tem odor, não tem cheiro, não tem gosto, não tem nada, ele está ótimo.

Alfredo Sirkis: [gosto] De petróleo! [risos] 

Henry Philippe Reichstul: De óleo, ele tem tudo...

Nely Caixeta: Presidente, eu gostaria de mudar um pouco de assunto. 

Henry Philippe Reichstul: Vamos lá! Eu também! [risos]

Nely Caixeta: Na verdade, vou insistir um pouco mais com essa questão da transformação da Petrobras, que está havendo agora. Vocês vão ter que enfrentar as grandes companhias multinacionais que estão se instalando aqui no Brasil. E há muita gente que acha que, sendo estatal, a Petrobras não tem condições de igualdade para competir com essas empresas. Já discutimos um pouco a respeito disso. Eu gostaria que o senhor narrasse um pouco essa transformação interna dentro da empresa. Por exemplo, a Petrobras foi sempre uma empresa que deu grande valor à simbologia do poder, você tem um elevador privativo, o presidente sobe até o último andar, despacha, sozinho, numa sala enorme, longe de seu diretores. Eu gostaria de saber o que está sendo feito, que transformação está sendo feita para que acabe esse tipo de comportamento, para que acabe o corporativismo dentro da empresa, para que se estabeleça a meritocracia: você vai ter um bom salário dependendo do resultado da sua função. Eu queria ouvir um pouquinho dessa transformação que está havendo lá.

Henry Philippe Reichstul: Está havendo uma grande transformação claramente que, para ser permanente, precisa ser estrutural. E aí o que nós estamos mudando? Nós fizemos nosso planejamento estratégico e definimos que nós queremos ser uma regional player [uma empresa importante na região] no mundo do petróleo, queremos ser uma grande corporação transnacional de sucesso em um mercado competitivo. E aí nós fomos para a nossa organização. Será que nós temos a organização e os meios para atingir essas metas, nos nossos planejamentos estratégicos? Nós chegamos à conclusão que nós não temos, que nós precisamos adquirir esses meios, transformar a companhia, mudar a organização, para que a gente tenha sucesso, condições de sucesso. Então nós recentemente também mergulhamos de novo na nossa estrutura, analisamos estruturas de grandes companhias de petróleo, de energia, técnicas mais modernas de organização, como é que funciona. E chegamos à que conclusão? A Petrobras é uma empresa que tem ainda uma estrutura pesada, mas que está em transformação.

Nely Caixeta: Pesada em que sentido?  

Henry Philippe Reichstul: Ela é muito vertical, ela é um totem, ela precisa ser mais horizontal, precisa ter um processo de agilidade de decisões maior. Além do quê, nós identificamos que as “atividades meio” tinham um número de órgãos muito maior que as “atividades fins”, então nessa reestruturação...

Paulo Markun: Por exemplo, Presidente!  

Henry Philippe Reichstul: Sim.

Paulo Markun: Por exemplo? 

Chico Santos: O que é que quer dizer isso?

Paulo Markun: Dê um exemplo, porque senão fica uma frase solta no ar, meio e fim, por exemplo? 

Henry Philippe Reichstul: Nós tínhamos seis diretorias: uma diretoria de engenharia, uma corporativa, uma de participações, uma financeira, uma de abastecimento - que eram três e eu juntei em uma só - e uma de exploração e produção, o upstream. Então essas duas áreas são as diretorias que tratavam diretamente do petróleo: uma da produção de petróleo e gás e a outra de refino e distribuição. As outras quatro diretorias eram de apoio.

Paulo Markun: Agora, tudo com secretária, escritório grandão, cargos? 

Henry Philippe Reichstul: Não, isso mudou tudo, isso mudou...

Paulo Markun: Já não era assim? 

Henry Philippe Reichstul: Não, pode ter sido no passado, isso já foi a primeira reforma, a gente desceu do vigésimo quarto, nós estamos sentando os diretores juntos no mesmo andar, muito próximos um do outro. Isso tudo foi feito já na primeira reforma, nós estamos fazendo uma reforma muito mais estrutural. Essa questão que não é menor - essa primeira - porque ela é muito emblemática, ela foi feita. Eu acho que nos primeiros três meses nós resolvemos sentar... não todos juntos numa sala, porque não é mercado financeiro, é diferente. Mas estamos todos muito próximos, temos reuniões diárias, enfim, uma dinâmica, compartilhamos serviços etc. Mas isso já foi feito, isso é importante, mas não é nem de longe o suficiente. Nós tínhamos então seis diretorias, o que nós fizemos? Nessa reestruturação nós passamos a ter só duas diretorias de apoio, duas diretorias meio e quatro diretorias de negócios. Então, nós criamos uma diretoria de serviços e uma financeira e quatro de negócios. Uma de exploração e produção - que é a produção de petróleo e gás - a outra continua de abastecimento, de downstream - que é refino e distribuição; uma diretoria nova que é de gás e energia, é justamente para atender a esta transformação do nosso business, do nosso negócio; e uma diretoria internacional, que é para dar suporte a toda atuação nova internacional da Petrobras. Então, agora, das seis diretorias, nós temos duas de apoio e quatro de negócios propriamente dito, essa é uma reforma estrutural importante. Uma segunda questão é passar a ter a responsabilização dentro da companhia, por resultados. Então, montar centros, unidade de negócios, nós estamos criando uma área que a gente chama de avaliação e desempenho, que vai estar calculando o que cada área de negócio, nessas diretorias, está contribuindo para o resultado da companhia.

Nely Caixeta: Quer dizer, incutir na companhia a noção do lucro e a obrigação de que ela tem que render dividendos para os seus acionistas. 

Henry Philippe Reichstul: Ela precisa ter resultado, porque essa é a condição para a empresa crescer também. Quer dizer, você precisa estar defendendo o valor - que a gente chama - dos acionistas, mas por quê? Porque são instrumentos também de financiar os seus investimentos, de poder crescer e enfrentar a concorrência. Então, além disso, as unidades de negócio vão ter resultados, e as pessoas vão ser avaliadas por esses resultados. Eu acho que isso vai incutir uma nova forma de encarar o trabalho, de reorientar a companhia e vai dar mais flexibilidade, mais instrumentos para a companhia concorrer com grandes empresas estrangeiras, que já têm esses sistemas adotados de longa data.

Paulo Markun: Para que a gente tenha resultado no programa Roda Viva, nós temos que ter dois intervalos, nós vamos para o segundo e voltamos já, já. 

[intervalo]

Paulo Markun: Estamos de volta com o Roda Viva, esta noite entrevistando Henry Philippe Reichstul, presidente da Petrobras. Tem muitos telespectadores aqui perguntando questões um pouco menos estratosféricas do que essas que nós estamos discutindo. Por exemplo, Duílio Patelli, de Santo André, administrador, pergunta o seguinte: “Por que a gasolina é tão cara se o Brasil produz dois terços do que consome?” Robson Campos, de Salvador, da Bahia: “Por que mesmo quando a cotação do barril de petróleo está em baixa no mercado exterior o preço dos combustíveis sobe no Brasil?” Arthur Mendes, de Campinas, diz o seguinte: “Conforme informações disponíveis, o custo da gasolina, já com o lucro incluso, está ao redor de quarenta centavos. Por que, então, os brasileiros pagam algo em torno de um real e vinte e cinco centavos? Quem é que leva os oitenta e cinco centavos que separam o preço de fábrica do preço da bomba?” 

Henry Philippe Reichstul: É importante o consumidor entender, o telespectador entender que a Petrobras não fixa preços de gasolina, quem fixa isso é o governo. Nós vendemos os produtos da refinaria - tanto a gasolina, como o óleo diesel, hoje - a preço internacional. Apesar de o mercado não estar totalmente liberado a Petrobras, nessa fase transitória, vende o litro de gasolina exatamente ao preço internacional, baseado em Roterdã, Golfo do México, mais o custo do transporte desse litro de gasolina, como se nós estivéssemos vendendo isso no mercado internacional...

Paulo Markun: Em outras palavras, como se a gente não tivesse produção própria e estivesse importando? 

Henry Philippe Reichstul: É, também. Então, essa diferença entre os quarenta e poucos centavos que a Petrobras recebe na refinaria, e o preço de bomba, é definida por custo de distribuição das várias distribuidoras envolvidas. A Petrobras tem uma distribuidora também, mas ela tem do mercado automotivo, um quarto do mercado automotivo apenas, e também pela estrutura fiscal que é montada tanto do ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços], PIS [Programa de Integração Social], Cofins [Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social, contribuição federal, de natureza tributária]  e PPE [Parcela de Preço Específica]. Então, na verdade, isso não diz respeito...

Paulo Markun: Desculpe a ignorância! PPE é a tal conta petróleo, é isso? 

Henry Philippe Reichstul: É um imposto que é cobrado sobre a venda de derivados, cobrado da Petrobras na refinaria pelo governo federal. Então, a Petrobras não influi sobre o preço de bomba, ela tem esse preço internacional, e só.

Carlos Alberto Sardenberg: Então, a Petrobras vende a gasolina na refinaria da Petrobras por quanto? 

Henry Philippe Reichstul: Quarenta e poucos centavos hoje.

Carlos Alberto Sardenberg: O litro, quarenta e poucos centavos de real? 

Henry Philippe Reichstul: De reais, o litro.

Sônia Racy: Mas, presidente... 

Henry Philippe Reichstul: É isso que a gente recebe.

Sônia Racy: O que o consumidor não consegue entender... 

Carlos Alberto Sardenberg: [ignora a pergunta de Sônia Racy] E dentro desses quarenta centavos está esse imposto?

Henry Philippe Reichstul: Não, não, quarenta e poucos centavos... 

Carlos Alberto Sardenberg: O que é? É o custo do petróleo...

Henry Philippe Reichstul: É o custo do petróleo e o lucro da Petrobras. 

Paulo Markun: O refino.

Henry Philippe Reichstul: O custo industrial do refino, enfim, para produzir aquele litro de gasolina. 

Carlos Alberto Sardenberg: Está certo, quer dizer, aquele imposto não está nisso?

Henry Philippe Reichstul: Não, não está. 

Carlos Alberto Sardenberg: Em cima disso vem imposto, Cofins e tal?

Henry Philippe Reichstul: Exatamente. 

Sônia Racy: Mas, presidente, quando o petróleo cai lá fora, esse preço não cai aqui dentro?

Henry Philippe Reichstul: Na Petrobras ele cai, cai imediatamente. 

Sônia Racy: Então, vamos dizer, esse custo de...

Paulo Markun: O resto vai para o governo é isso? 

Henry Philippe Reichstul: Então, o resto é uma questão de... Pois é, é uma questão fiscal que envolve...

Paulo Markun: Desculpe, mas eu queria que o senhor fosse mais explícito. 

Henry Philippe Reichstul: Mas é que é uma questão muito importante...

Paulo Markun: Tudo bem, não é a Petrobras, mas alguém fica com esse dinheiro!  

Henry Philippe Reichstul: Sim, mas desde o fim do monopólio, e nesse período de transformação da Petrobras nessa empresa, ela é uma empresa como outra qualquer dentro do país em relação a essa questão.

Sônia Racy: Como “como outra qualquer” se ela não fixa seus preços de venda de refino?

Henry Philippe Reichstul: É verdade que ela nesse momento... 

Sônia Racy: Se não é essa a função, se é o governo que fixa, presidente?

Henry Philippe Reichstul: O preço de venda do litro de gasolina na refinaria é dado pelo mercado internacional, não é dado pelo governo. Nós recebemos o valor exatamente vigente no mercado internacional naquele litro de gasolina. 

Sônia Racy: O consumidor que está nos assistindo quer saber o seguinte, presidente...

Henry Philippe Reichstul: Nós não temos nada que ver com isso, com a diferença. Pois não. 

Sônia Racy: Por exemplo, o petróleo sobe lá fora, os preços da gasolina sobem aqui dentro; o petróleo cai lá fora, os preços da gasolina nunca caíram aqui dentro! É só isso.

Henry Philippe Reichstul: Eu entendo essa pergunta do consumidor. O que eu estou dizendo é o seguinte: a Petrobras não é responsável por essa questão, não é o departamento dela.  

Paulo Markun: Mas, então, quem é responsável?

Sônia Racy: Então quem é?

Henry Philippe Reichstul: É o governo, é o governo federal. 

Paulo Markun: É isso que eu queria entender.

Henry Philippe Reichstul: É o Ministério da Fazenda e o Ministério de Minas e Energia. 

Sônia Racy: Então, o governo fica com essa diferença que deveria ser repassada ao consumidor?

Henry Philippe Reichstul: Eu não sei se deveria ser passada ou não, essa é uma outra questão. Podemos discutir a questão da fiscalidade sobre gasolina, o que acontece na Europa, nos Estados Unidos etc. Mas a Petrobras não se envolve com essa questão. 

Sônia Racy: O que acontece na Europa e nos Estados Unidos? Quando cai o petróleo, cai para o consumidor nos Estados Unidos, por exemplo?

Henry Philippe Reichstul: Não, o que acontece é o seguinte. Na Europa, assim como o cigarro, a bebida existe uma... A gasolina e o óleo diesel são instrumentos de arrecadação fiscal. 

Sônia Racy: Mas esse imposto é fixo, então quando o petróleo sobe ou desce ele tem que subir ou descer?

Henry Philippe Reichstul: Depende dos países. Tem país que têm sanfona, e quando o preço do petróleo sobe, eles não deixam subir muito, quando ele cai, eles não repassam isso. 

Sônia Racy: Que é o caso brasileiro, presidente?

Henry Philippe Reichstul: É o caso parecido com o brasileiro. Por outro lado, os Estados Unidos não taxam o petróleo em um imposto específico, não taxam a gasolina, é só o imposto comum de uma venda, um ICMS, vamos dizer. 

Alfredo Sirkis: A Alemanha reduziu uma série de impostos e aumentou o imposto exatamente sobre os derivados de petróleo. Eu acho que toda a Europa pratica uma certa lógica do ponto de vista... [Reichstul fala ao mesmo tempo que Sirkis]

Henry Philippe Reichstul: Não, a Inglaterra, a Europa pratica preço ao consumidor 50% em média acima dos nossos. Agora, o que é importante é que essa definição, que antes era da Petrobras, passou há um ano e meio a não ser mais da Petrobras, a Petrobras não se envolve com essa questão. 

Paulo Markun: É da Agência Nacional de Petróleo?

Henry Philippe Reichstul: Não, é do Ministério da Fazenda e do Ministério de Minas e Energia. E daí, toda a vez a Petrobras é... 

Sônia Racy: É Receita Federal também, presidente?

Henry Philippe Reichstul: O Ministério da Fazenda, não é? 

Chico Santos: Doutor Philippe, é verdade que, nesse momento, o preço da gasolina, inclusive, está um pouco primido, o governo está... A Petrobras está bancando um subsídio de 100 milhões por mês, nessa tal de PPE, nesse imposto variável?

Henry Philippe Reichstul: A Petrobras não banca nada, hoje a Petrobras recebe... 

Chico Santos: A conta petróleo não está aumentando novamente de valor? Quer dizer, o governo não está devendo mais à Petrobras, novamente crescendo a dívida do governo com a Petrobras, por conta da conta petróleo.

Henry Philippe Reichstul: Sem dúvida nenhuma, mas não é a Petrobras que está subsidiando. A Petrobras vende aquele litro da gasolina, ou o botijão de GLP [Gás Liquefeito de Petróleo], ao preço dado. Se a PPE é negativa, ela não recebe o recurso cheio, mas ela inscreve, isso é um ativo da companhia... 

Chico Santos: Mas está subsidiando momentaneamente, está financiando, digamos assim, em outras palavras, está financiando?

Henry Philippe Reichstul: É, pode ser financiando, mas isso rende juros. Nós não temos nenhum... A Petrobras não subsidia nada nessa questão, nesse modelo que nós estamos vivendo, que tem um ano e meio, tem mais de um ano e meio, em vigor. Na verdade é um modelo necessário para você chegar na abertura total do setor. 

Nely Caixeta: Que seria em agosto e agora foi transferido para o próximo ano e quiçá o ano seguinte.

Henry Philippe Reichstul: Quer dizer, vai depender um pouco da reforma fiscal, e da transformação desse imposto, PPE, que hoje é aplicado sobre a Petrobras, num imposto comum a todas as empresas. 

Sônia Racy: Presidente, o que dá para perceber é o seguinte: a Petrobras e o governo brasileiro fazem uma enorme ginástica para que a empresa funcione como uma empresa produtiva ou organizada, como se fosse uma empresa privada, em vez de privatizá-la, por exemplo. Qual a sua opinião sobre uma futura privatização, talvez, da Petrobras?

Paulo Markun: Aliás, só para... Desculpe...  

Henry Philippe Reichstul: Eu não estou fazendo nenhuma ginástica, inclusive pessoalmente. [risos]

Paulo Markun: A pergunta de Antônio C. Sobrinho, de São Mateus, São Paulo, é o seguinte: se o objetivo do senhor é privatizar a Petrobras e em quanto tempo? E há uma outra pergunta de um telespectador, que não estou localizando agora, peço desculpas a ele, pergunta é o seguinte: “Qual é a opinião do senhor sobre a privatização? O senhor é favorável?” 

Henry Philippe Reichstul: Só terminar um pouco a questão, e aí a gente entra nessa.

Sônia Racy: Isso quer dizer sim, presidente? 

Henry Philippe Reichstul: Não, não, por quê? 

Sônia Racy: Não, ele perguntou se o senhor era favorável à privatização? O senhor fez assim [balança a cabeça positivamente] [risos] ...

Henry Philippe Reichstul: Não, foi uma leitura errada. Não, porque eu sou contra a privatização da Petrobras, é conhecido, todo mundo conhece a minha opinião a respeito. Mas eu vou substanciá-la. Eu acho que na questão do...  não existe essa ginástica colocada entre a Petrobras e o governo. A regra é absolutamente clara, a Petrobras recebe preço internacional na venda dos seus produtos. 

Sônia Racy: Se ela fosse privada como é que seria?

Henry Philippe Reichstul: Seria a mesma coisa, ela receberia preço internacional também. Na hora em que você puder ter liberdade de importação... 

Carlos Alberto Sardenberg: Não, mas se ela fosse privada, seria tabelado do jeito que é.

Henry Philippe Reichstul: Como? 

Carlos Alberto Sardenberg: Seria tabelado.

Henry Philippe Reichstul: Não, mas é algo mais próximo... 

Carlos Alberto Sardenberg: O Ministério da Fazenda tabela, se não fosse estatal...

Henry Philippe Reichstul: Não é tabelado, é preço Roterdã. Você vê qual é o preço internacional na bolsa de Roterdã... 

Carlos Alberto Sardenberg: Sim, mas é um burocrata lá da Fazenda que faz a conta e diz “a Petrobras vai cobrar tanto”, não é isso?

Henry Philippe Reichstul: Há uma fórmula. Ele pega quanto está valendo a gasolina em Roterdã e fala: a Petrobras nesse mês vai receber por cada litro de gasolina vendida... 

Carlos Alberto Sardenberg: Sim, se fosse em um mercado livre você ia vender a sua gasolina no mercado pelo preço que quisesse.

Henry Philippe Reichstul: Eu sei, mas ficaria mais... É a situação mais próxima, na medida em que você está usando, no mercado extremamente competitivo que é o mercado internacional, onde a atividade de refino não é uma atividade rentável, existe uma concorrência enorme entre as refinarias, por exemplo. O preço de Roterdã é um preço muito competitivo. Então, nessa fase intermediária, onde não tem a competição de verdade, porque não se permite a importação, e as refinarias ainda não foram construídas no setor privado, o que você tem? Você tem a aproximação desse mercado livre, é pegar um preço... 

Sônia Racy: Isso não é uma ginástica, presidente? 

Henry Philippe Reichstul: Tá certo! Nesse sentido eu concordo, mas é uma ginástica que eu acho que é útil, que é preparar o sistema para conviver no mercado totalmente aberto. Quando o mercado se abrir você vai poder ter alguém importando gasolina. Qual é  o preço de referência? É uma commodity não é? Então vai ser provavelmente preço de Roterdã, mais ou menos, aí depende da eficiência da logística do sujeito. Isso é uma questão, então que seja uma certa ginástica, muito bem! Quanto à questão da privatização, o governo não vai privatizar a Petrobras, já colocou isso claramente.

Paulo Markun: Sim, já assinou até um compromisso por escrito, dizendo que ele não vai privatizar.  

Henry Philippe Reichstul: Sim, tem uma lei que não permite privatizar a Petrobras, eu acho que não é esse o momento de privatizar a Petrobras, mas nem sei se existe um momento de privatizar.

Paulo Markun: Desculpe, deixa eu interromper o senhor. 

Henry Philippe Reichstul: Pois não.

Paulo Markun: Tudo bem, agora, a Petrobras está sendo preparada para competir no mercado como qualquer outra empresa, perdeu as características de monopólio que ela tem; está vendendo agora, se o senador Álvaro Dias não conseguir mudar o caminho, 32% das ações... 

Henry Philippe Reichstul: 34%

Paulo Markun: 34% das ações - os dois eu já queria comprar agora [risos]. 34% das ações, que estão com o governo, e que são a mais do que o 50% mais um necessários para que o governo mantenha o controle. Está criando a Transpetro [Petrobras Transporte S.A, subsidiária da Petrobras para o transporte de petróleo e derivados, gás e álcool], Gaspetro [Petrobras Gás S.A, subsidiária do setor de gás da Petrobrás] e outras estruturas que parecem indício de uma divisão da companhia, ou seja, é aquela coisa que tudo parece que vai conduzir para a privatização e o governo diz: “Olha, nós não vamos privatizar agora, não sabemos se no futuro”. Não é o caminho natural de uma empresa desse tamanho a privatização?

Henry Philippe Reichstul: Eu não tenho certeza, eu sei que tem gente que pensa assim. Primeiro, só para lhe dar uma informação. Nessa revisão organizacional, depois do nosso planejamento estratégico, chegamos à conclusão muito clara de que uma empresa de energia precisa ter sinergia nas várias áreas de negócio, e nós estamos trazendo essas subsidiárias para dentro da companhia, ao contrário. Então, esse movimento está refluindo fortemente, principalmente na área da Braspetro [Petrobras Internacional S.A, empresa de economia mista, subsidiária da Petrobras], na área da Petroquisa [Petrobras Química, subsidiária do setor petroquímico da Petrobrás] e na área da Gaspetro. Nós estamos mudando, trazendo as empresas para as unidades de negócios dentro da companhia, num movimento totalmente oposto ao que foi mencionado. Caracterizando que nós precisamos ter essa sinergia, precisamos trazer essas empresas para dentro da companhia, para ela ter mais condições de crescer com eficiência e com lucro. Então, não há essa intenção. A própria venda das ações acima do controle não muda em nada a administração da companhia hoje. A companhia tendo 51% ou tendo 84%, não muda a gestão, não mudam os objetivos, não mudam os investimentos da companhia. E se o acionista majoritário entende que é um bom momento de vender, como eu acho que é, porque houve uma valorização bastante significativa da companhia... Só para vocês terem uma idéia, em dezembro de 1998, janeiro de 1999, a companhia valia em bolsa 12 bilhões de reais. A companhia estava valendo, no final do mês passado, começo deste ano, deste mês, estão falando em torno de 45 bilhões de reais.

Chico Santos: Doutor Philippe, agora em termo de retorno para o acionista majoritário não é nem tanto, porque o governo, as autoridades econômicas têm dito aí, na tentativa de convencer políticos a mudar, a aprovar essa venda de parte das ações, que a empresa rende só cerca de 180 milhões por ano de dividendos para o Estado. [Para] Uma empresa que fatura em torno de 30 bilhões é muito pouco, não? 

Henry Philippe Reichstul: O faturamento é diferente do lucro, obviamente. O lucro distribuído em 1999 para os vários acionistas representou para o governo um dividendo de 180, 200 milhões de reais. O governo pensa o seguinte: se a participação que excede o controle pode ser vendida em torno de 8 bilhões de reais, ele pode ter uma economia de juros muito maior do que o dividendo que ele está recebendo, sem afetar a orientação, o direcionamento da companhia. [vários falam ao mesmo tempo, e Reichstul continua falando] Então eu acho que faz sentido, quer dizer, não afeta nossa gestão em nada, não é uma privatização; 51% ou 84%, do ponto de vista da gestão, da orientação da companhia, é a mesma coisa, e portanto eu acho que é um movimento que é bom.

Sônia Racy: Eu só queria fazer um adendo aqui. 

Chico Santos: Qual o sentido estratégico do Estado ser dono de uma empresa de petróleo?

Carlos Alberto Sardenberg: Esse negócio que ele colocou, a gente discutiu sobre as dificuldades e as desvantagens que a Petrobras teria por ser uma estatal. Então, vamos fazer a pergunta por outro lado: qual é a vantagem dela ser estatal? O que ela ganha sendo uma estatal? 

Paulo Markun: Por que o senhor é contra presidente?

Carlos Alberto Sardenberg: E o que o país ganha ela sendo assim? 

Henry Philippe Reichstul: Eu acho que é por causa do momento político que a gente está vivendo no Brasil, eu acho que é um pouco...

Carlos Alberto Sardenberg: [interrompendo Reichstul] Só para completar, quer dizer, ele colocou agora que o lucro que a Petrobras dá é muito pequeno. Então o acionista, que é o governo, supostamente a população brasileira, recebe muito poucos dividendos por ser dona de uma coisa tão grande como essa. Quer dizer, paga uma mixaria de lucro, em resumo. Então qual é a vantagem de ela ser estatal? 

Henry Philippe Reichstul: Eu acho que passa pelo momento político que a gente está vivendo. Essa própria introdução que foi feita aqui, em relação à Petrobras ser um orgulho de todos brasileiros, de pertencer aos brasileiros, é que eu acho que seria um ônus político muito grande ao governo privatizar essa companhia neste momento que a gente está vivendo agora. Eu acho que não existe uma maturidade hoje, no sentido de uma clareza de que ela precisa ser privatizada. Eu não sinto isso no sentimento político existente hoje que isso possa ser uma coisa boa.

Carlos Alberto Sardenberg: O que quer dizer isso, que "ela pertence aos brasileiros”? O que os brasileiros ganham? 

Henry Philippe Reichstul: É uma coisa um pouco difusa como um pouco a política é. [risos]

Nely Caixeta: Mas, presidente, as mesmas razões que o governo apresentou, e convenceu uma boa parte da população - razões pelas quais o setor elétrico deveria ser privatizado, o setor siderúrgico deveria ser privatizado, as telecomunicações, as rodovias e tudo mais que aconteceu aqui-, se o governo achava que deveria mover nessa direção porque com a Petrobras não? O que difere essa empresa das demais? É esse sentimento de brasilidade? Eu acho que as pessoas não se sentem donas da Petrobras, sabendo que ela rende muito pouco? Que ela é uma empresa até agora bastante ineficiente? Eu acho que não há esse sentimento. [sobreposição de vozes] 

Henry Philippe Reichstul: Não, eu não acho que seja ineficiente, não, espera aí...

Carlos Alberto Sardenberg: É verdade que a Petrobras gasta mais com o Fundo de Pensão dos funcionários do que ela paga para o governo em dividendos e impostos? 

Henry Philippe Reichstul: É provável... Não, impostos não, porque a quantia de impostos é enorme. Sobre o Fundo de Pensão dos funcionários, hoje o máximo de cobertura que um funcionário da Petrobras recebe da Petros [Fundação Petrobras de Seguridade Social, plano de previdência para os funcionários], se ele entrou na Petrobras depois da década de 1980, é equivalente a três vezes o teto do INSS, são 3,6 mil reais.

Carlos Alberto Sardenberg: Isso hoje, agora quanto que se... 

Henry Philippe Reichstul: Pois é, mas essa é a prática hoje, é a prática hoje.

Carlos Alberto Sardenberg: Sim, mas quanto a Petrobras já colocou no Fundo de Pensão é mais do que ela devolveu para o governo? Porque... é só para ver essa questão, se ela pertence ao governo ou pertence aos funcionários.

Sônia Racy: Ao Fundo de Pensão?

Henry Philippe Reichstul: Olha, eu acho, quer dizer, essas coisas não são [Reichstul ri] tão claras assim. Mas, de qualquer jeito, a gente tem o problema de salário na Petrobras. Nós não temos hoje uma estatal que está pagando salários acima de mercado, ao contrário. Nós temos justamente um problema aí. E o Fundo de Pensão acompanha a estrutura salarial. Então, eu não estou com os números aqui da Petros, e podia em outra ocasião vir aqui e a gente tratar de questão de previdência, de estatal e entrar em mais detalhes sobre isso. 

Carlos Alberto Sardenberg: Porque um argumento da privatização, como os textos do senador Roberto Campos [(1917 – 2001), economista, diplomata e político brasileiro. Foi ministro do Planejamento. Conhecido por sua defesa do liberalismo econômico], por exemplo, o argumento básico é o seguinte: é que a empresa não pertence ao país e não pertence ao governo, mas é uma empresa que pertence aos seus funcionários.

Henry Philippe Reichstul: Não, eu acho que a gente tem um projeto muito claro, um projeto de governo, do presidente, do ministro, de transformar essa empresa, [projeto] que é atender aos seus acionistas. Esse é o movimento claro que a gente está fazendo, ela pertence aos acionistas. O Conselho de Administração deixa isso claro, o meu patrão é o Conselho de Administração, está certo? É a ele que eu me reporto e sinto que reporto claramente, está certo? 

Paulo Markun: Falando nisso, essa venda dos 34% de ações, já está decidido que será uma venda pulverizada e já está definida também a questão do Fundo de Garantia [FGTS, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço] que estava sendo discutida a possibilidade de utilizar? Isso já está sacramentado?

Henry Philippe Reichstul: Parece que sim, os recursos do FGTS vão ser alocados... 

Paulo Markun: Vão ser usados, embora eles fiquem retidos, não é verdade? Porque se o sujeito vender as ações, aquele dinheiro volta para o Fundo de Garantia.

Henry Philippe Reichstul: É, e além do quê, o comprador brasileiro vai ter um desconto de 10% em relação ao comprador internacional. E se ele retiver essas ações por um prazo acima de um ano ele recebe mais um bônus de 10%, então isso daria uma redução em relação ao preço vendido lá fora... 

Paulo Markun: Quer dizer, tudo isso levaria à possilidade de que muitas pessoas comprem ações da Petrobras.

Henry Philippe Reichstul: Uma grande pulverização, eu acho que é um projeto muito interessante democratizar o capital da Petrobras entre poupadores no Brasil. 

Carlos Alberto Sardenberg: Quanto custa a ação hoje?

Henry Philippe Reichstul: Hoje a ação, agora houve um reagrupamento, acho que são quarenta e poucos reais, uma coisa assim, cada ação.

Carlos Alberto Sardenberg: E as pessoas vão poder comprar que lote, qual é o lote mínimo?

Henry Philippe Reichstul: É o seguinte, como a gente não está envolvido no processo de venda, o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] que é o agente vendedor. Porque não é um aumento de capital da Petrobras, esse dinheiro não vem como um recurso que entra na empresa. Isso é um acionista majoritário que está vendendo um pedaço das suas ações. Então, nós estamos envolvidos, mas mais marginalmente em um processo de venda, eu não saberia dizer os detalhes disso.  

Alfredo Sirkis: Olha só, eu queria voltar aqui ao tópico anterior, que era a discussão a respeito da privatização.

Paulo Markun: Só esclarecendo, nós temos um minuto, e essa é a ultima pergunta. 

Alfredo Sirkis: Bom, sem dúvida nenhuma a história da Petrobras é completamente diferente daquelas outras empresas que foram privatizadas. Nenhuma dessas empresas surgiu no bojo de uma grande mobilização popular, como foi aquela que deu a origem à Petrobras. Então, eu acho que você tem toda razão de colocar claramente que ainda que houvesse essa intenção por parte do governo, não existem as menores condições políticas, esse país certamente entraria em convulsão se houvesse agora uma tentativa de privatizar a Petrobras.

Henry Philippe Reichstul: Mas o governo não tem essa intenção, ele deixou isso claro, deixa claro o tempo todo, eu deixo claro e a questão volta. Tudo bem! 

Carlos Alberto Sardenberg: É porque o argumento, o que a Nely colocou... quer dizer, todo o argumento que vale para todas as outras privatizações vale também para a Petrobras.

Alfredo Sirkis: Sim, mas as outras foram... 

Henry Philippe Reichstul: A Petrobras é diferente.

Alfredo Sirkis: Mas as outras, no momento, estão sendo extremamente criticadas, pelo menos algumas delas foram francamente desastrosas. 

Carlos Alberto Sardenberg: É, mas é diferente.

Alfredo Sirkis: Então, na verdade, se no início do processo de privatização havia nas pesquisas uma maioria de opinião pública favorável, hoje esse quadro se inverteu completamente; a visão da maior parte da população é crítica em relação a pelo menos várias das privatizações ocorridas. Então, não há a menor condição sequer de se pensar numa coisa dessas em relação à Petrobras. 

Paulo Markun: Bem, eu queria então colocar uma última questão aqui para o presidente que é uma questão específica, mas parece importante. Enviada por Cláudio Zata, de Belo Horizonte, que menciona a Medida Provisória de 1981 que determinou que a partir de julho agora a Petrobras recolha no ato de faturamento o PIS-Cofins das distribuidoras, acabando com a indústria de liminares que faz com que muitas empresas possam vender gasolina sem estar pagando imposto, fazendo uma concorrência desleal e, ao mesmo tempo, prejudicando a população brasileira que devia se beneficiar desses impostos. Diz ele que na semana passada o poder judiciário concedeu uma medida de exceção, fazendo com que a Petrobras não mais recolha esses impostos para as mesmas, e que isso vai causar uma verdadeira convulsão no mercado de distribuidores. Qual é a opinião da Petrobras em relação a essa decisão judicial? E o que você pretende fazer?

Henry Philippe Reichstul: A decisão judicial contra a cobrança do... 

Paulo Markun: Contra a cobrança pela Petrobras?

Henry Philippe Reichstul: Bom, eu não conheço os detalhes dessa decisão judicial e nem sou advogado. Mas claramente o que aconteceu foi que o governo resolveu reduzir a alíquota de PIS-Cofins [Programa de Integração Social e Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social. Os recursos oriundos dessa arrecadação são destinados ao trabalhador em forma de abonos ou rendimentos salariais, porém são mantidos por pessoas jurídicas e repassados ao consumidor] na redistribuição para zero e aumentar a alíquota de PIS-Cofins da Petrobras. Esse é um direito que cabe ao governo, assim como podia subir a alíquota, descer, enfim. Eu sei que existem algumas liminares contra essa decisão, que aí eu não tenho condições juridicamente estar colocando uma opinião abalizada. Mas eu acho que é uma forma que o governo encontrou para acabar com essa questão das liminares que, como foi bem dito, está desvirtuando todo mercado de distribuição. 

Paulo Markun: Nesse mercado específico de distribuição, para finalizar, vocês pretendem aumentar a participação da Petrobras, que ainda não é compatível com o que ela tem na refinaria e no outro setor?

Henry Philippe Reichstul: Nós temos um propósito a médio e longo prazo de aumentar a nossa participação no mercado de distribuição. Hoje nós temos apenas 25% do mercado automotivo brasileiro. 

Paulo Markun: Presidente Reichstul, muito obrigado pela sua entrevista, obrigado aos nossos entrevistadores e a você que está em casa. 

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