Memória Roda Viva

Listar por: Entrevistas | Temas | Data

Nelson Motta

14/8/1995

Como produtor, compositor, articulista, amante e boêmio, Nelson Motta conta histórias sobre as mais variadas vertentes da música popular: discoteca, bossa nova, rock, tropicalismo, dance music e até música negra americana

Baixe o player Flash para assistir esse vídeo.

     
     

Matinas Suzuki: Boa noite! Ele é o perfeito carioca nascido em São Paulo. Agora, está quase virando nome de igreja em Nova Iorque Na cadeira giratória do Roda Viva desta noite está Nelson Motta. Jornalista, compositor, homem de rádio e televisão, Nelsinho está lançando no Brasil, por intermédio do seu selo Lux, o [disco do] Coral Negro da Igreja Mount Moriah, do Harlem [bairro de Nova Iorque]. Para entrevistar o Nelson Motta esta noite, nós convidamos o Felipe Zobaran, que é editor-chefe da revista Bizz; o Guga Stroeter, que é músico das bandas Heartbreakers e Nouvelle cuisine; Marcos Augusto Gonçalves, editor de domingo da Folha de S. Paulo; Maria Amélia Rocha Lopes, do programa Metrópolis, da Rede Cultura; Edgard Piccoli, apresentador da MTV; Carlos Rennó, jornalista, compositor e coordenador do setor de música do Museu da Imagem e do Som, e João Wady Cury, repórter do jornal O Globo. O Roda Viva é transmitido em rede nacional com outras trinta emissoras de 13 estados. Como este programa foi gravado, nós não estamos recebendo perguntas dos telespectadores, nem telefones, nem por fax. Boa noite, Nelsinho.

Nelson Motta: Boa noite, Matinas! Boa noite a vocês todos! Vários amigos presentes aqui... só aqui!

Matinas Suzuki: Nelsinho, como é que é essa história de estar virando nome de igreja em Nova Iorque? Eu vi no Harlem, num domingo de manhã, várias pessoas procurando: “Onde é a igreja do Nelsinho Motta?”

Nelson Motta: Você viu que eu sou... eu fiquei popular lá. Isso é uma história de amor, né, Matinas... Porque, logo que eu fui para Nova Iorque, há quase três anos, num domingo, acabei indo parar... fui numa excursão ali, no Harlem, ouvi uma música na igreja e entrei. Tinha pouquinha gente, mas era uma música tão maravilhosa, aquela... Aí, entrei e fiquei maravilhado. Mas o som era uma porcaria, era tudo precariozinho, ali. E, no domingo seguinte, já peguei um táxi e já fui sozinho. Comecei a freqüentar a igreja. Aí, dei um PA de um sistema de som para a igreja, anônimo. Porque era tão lindo eles cantando, mas [imita ruídos com a boca] aquele microfone... E ficou aquele mistério: ninguém sabia quem tinha dado aquele som da igreja. Daí, acabaram descobrindo e fui ficando amigo do pessoal, do reverendo Johnson e tudo. De branco, só tinha eu e minha filha, Joana – que estava morando comigo esta época em Nova Iorque–, na igreja. E aí comecei a falar e a levar amigos meus lá. Porque – você me conhece e tudo
eu sou desses... eu descubro uma coisa boa e quero contar logo, novidadeiro, igual a Caetano [Veloso, compositor e cantor], quero logo mostrar. [o vídeo mostra imagens do Coro de Mount Moriah, enquanto continua o som da entrevista do Roda Viva] E levei um monte de gente e todos os amigos que estiveram em Nova Iorque foram à igreja. Começou um boca-a-boca e dei entrevista na televisão, falei no [programa de TV] Manhattan [Connection], aqui na [TV] Cultura, escrevi... Olha só [referindo-se à imagem na tela, que mostra dois cantores], esse neguinho aqui, esse da direita, é o Dwayne Jackson, tem 18 anos, vocês vão ouvir muito falar desse garoto nos próximos vários anos. Acho que vai ser um grande cantor internacional. [as imagens voltam a focalizar o programa Roda Viva]

Matinas Suzuki: Nelsinho, só para o nosso telespectador entender bem, esse é uma igreja... qual é a religião? Como é que é? No Harlem?

Nelson Motta: A igreja é a igreja batista Mount Moriah Baptist Church. [voltam as imagens do Coro de Mount Moriah] E eu, na verdade, não sei nem direito, ali, a coisa... como é que se diz... o sistema religioso. Eu fui tão bem recebido ali, como um irmão, eles me chamam de “brother Nelson” na igreja... [risos] Agora, estou íntimo; o reverendo brinca comigo, fala: “Você é a ovelha branca aqui.” [as imagens voltam para o programa Roda Viva] Então a igreja, agora, está entupida de brasileiros. Todo domingo tem três, quatro ônibus de turistas brasileiros que vão à igreja e... bom, as pessoas choram, ficam desbundadas, mesmo porque, realmente, aquelas quarenta vozes e os solistas cantando o gospel... [voltam as imagens do Coro Mount Moriah] Eu sou uma pessoa muito religiosa, sempre fui, mas não sou muito ligado especificamente a nenhum sistema religioso. Eu gosto muito de budismo, da religião, mas fui criado na Igreja Católica. [retornam as imagens ao Roda Viva]

Matinas Suzuki: Então, inclusive, vendo aquela missa lá, às vezes, parece que nós estamos num ritual de candomblé, quer dizer, há um transe...

Nelson Motta: Eu sou filho da Mãe Menininha do Gantois [(1894-1986) a mais famosa ialorixá (chefe de terreiro de candomblé) brasileira] com o maior orgulho. O Gilberto Gil me levou lá em 71 e fiquei lá. Eu adoro aquilo. Alô, meu pessoal do Gantois! Ali é a casa da paz, é um lugar maravilhoso. Fui educado por jesuíta e acabei batendo numa igreja batista no Harlem. Eu sou tão... acredito tanto, que eu tenho várias fés.

Matinas Suzuki: E aquela é uma fé muito apropriada a você, porque é uma fé de uma alegria...

Nelson Motta: De uma alegria... Isso é uma coisa que eu buscava, assim... No ritual católico, tem vários aspectos do catolicismo que eu gosto muito, filosoficamente, metafisicamente. Mas o ritual acho pesado. É triste, é culpado, é duro, né? E lá, não! Lá, é uma igreja de celebração, da alegria. O que mais [se] fala é: [erguendo os braços, imitando a euforia típica de um culto protestante] “Praise the Lord! Praise the Lord! Thank you, Lord!” [“Louvemos ao Senhor! Louvemos ao Senhor! Obrigado, Senhor!”]. Parece estádio de futebol, quando o cara fala “obrigado, Deus, por estar vivo hoje, estar aqui na igreja, ter tomado café da manhã” e o povo ali [diz]: [erguendo os braços, imitando novamente a enforia] “Thank you! Thank you!” [“Obrigado! Obrigado!”] É espetacular! É uma vibração e só celebração.

Maria Amélia Lopes: Você virou batista?

Nelson Motta: Não. Isso veio como uma coisa maravilhosa que... Eu estou lá há quase três anos, vou lá, sou tratado como irmão. Nunca o reverendo Johnson chegou para mim [com] aqueles papos: “Não, meu filho, você devia entrar mais...”

Maria Amélia Lopes: Se converter.

Nelson Motta: “...se aprofundar”, nunca teve esse papo. Mesmo porque ele sabe que não tem, sabe que eu gosto, que eu acredito, que eu tenho esse sentimento religioso, sou um homem de fé. E lá eu encontrei, através da minha linguagem, da língua que eu falo bem, que eu amo, que eu entendo melhor, que é a música, encontrei uma expressão para a minha espiritualidade. A gente vai no Harlem, lá, [e] a gente sai da igreja como se fosse um baile de carnaval, porque sai todo mundo alegre e com um sentimento de... de estar cheio de... com o espírito...

Maria Amélia Lopes: Agora, Nelsinho, como é que é a comunidade negra vê um branco brasileiro chegar lá e interferir dessa maneira, levar o som para melhorar tudo, fazer todo mundo gravar um disco, como é que eles vêem isso?

Nelson Motta: Olha, acho que vêem muito bem. Nunca, na minha vida, em poucos lugares eu fui tão bem tratado e sou tão bem tratado como sou tratado na igreja. [as imagens do Coro Mount Moriah voltam ao vídeo, enquanto a voz de Nelson Motta continua a ser ouvida] Lá, todo mundo, o pessoal do coro me conhece. Eu também tomo muito cuidado para não misturar essas coisas. [a imagem volta para o Roda Viva] Tanto que esse disco surgiu assim: eles estiveram aqui no Brasil no ano passado num festival de artes cênicas, fizeram dois concertos no Mosteiro de São Bento, deslumbrantes – a [TV] Cultura até gravou um concerto deles lá– e... então... eu não interferi em nada. Quando a gente voltou a Nova Iorque, eles adoraram. Daí, o reverendo chegou para mim um dia e falou assim: [falando lenta e delicadamente] “Ah, meu filho, olha aqui, você, que mexe com música, a gente está pensando, a gente podia gravar, aqui, uma fitinha para vender aqui na igreja.” Ah! Era a dica que eu estava esperando! [risos] “Ô, reverendo...! Nós vamos fazer um CD, vamos vender isso no mundo inteiro, que esse som é maravilhoso!” E aí eles receberam muito bem, porque eu tenho... da mesma forma que eu respeito as características deles, da religião deles, eles me respeitam do jeito que eu sou: como eu disse, ninguém nunca veio perguntar para mim se eu sou católico, se sou budista, se sou protestante, nada. Eles vêem que eu estou ali, vêem que eu tenho um sentimento, que eu tenho um respeito pela coisa. Eu orientei artisticamente, entendeu, porque eu sou um diretor artístico de música. Eles tem um repertório de sessenta músicas, eu escolhi dez: “Olha, essa é melhor, essa...” E, no estúdio: “Olha, vamos fazer com fulano solando essa; aqui, essa parte, o coro não canta”, coisa de produção, realmente. Então, mexi nos arranjos, um pouco, aí, na produção de disco, mas está tudo no sentido [para] mostrar o que eles têm de melhor, que é essa alegria, essa coisa... E tem esses dois garotos que, olha, é o seguinte! [voltam imagens do Coro de Mount Moriah]

João Wady Cury: Mas como é que foi feito o contrato com eles? Porque é um disco. Afinal, é um produto como outro qualquer, como é o da [cantora] Marisa Monte, do Caetano, do [grupo de rock] Pink Floyd.

Nelson Motta: Claro.

João Wady Cury:
Como é que foi acertado isso? Qual o quinhão deles?

Nelson Motta: Nós temos um contrato...

João Wady Cury: Qual o quinhão deles?

Nelson Motta: Nós temos um contrato com a igreja, com a Mount Moriah. Um contrato, digamos, coletivo, para poder usar o nome e tivemos contratos individuais só para este disco. Todo mundo assinou para liberar o disco...

João Wady Cury: Mas eles recebem o mesmo percentual que um artista qualquer receberia?

Nelson Motta: Um artista de primeira linha...

João Wady Cury: De primeira linha?

Nelson Motta: Recebem um royalty excelente e, ainda, nós fizemos uma doação caprichada para a igreja. Porque foi um prazer.

Matinas Suzuki: Agora, Nelsinho, seu selo é o Lux.

Nelson Motta: Lux.

Matinas Suzuki: Ele já começa multinacional, é isso?

Nelson Motta: Já começa multinacional.

Matinas Suzuki: Não é... Esse negócio de lançar em Nova Iorque... Como é que é a sua estratégia? O que você está pensando com esse selo? O que você foi fazer em Nova Iorque?

Nelson Motta: Eu, na verdade, fui para Nova Iorque para desenvolver um selo de música. Queria trabalhar música brasileira em Nova Iorque. A vida é cheia de surpresas... A vida é uma caixinha de surpresas, igual [a] futebol. Eu fui para Nova Iorque para fazer esse selo. Eu saí daqui, era diretor da [gravadora] Warner, estava de saco cheio, foi em 91, foi aquela grande crise econômica [a inflação esteve acima dos 40% ao mês durante quase todo o ano]. Fiquei um ano na Warner, consegui fazer três discos, fiquei numa frustração. Falei: “Eu vou embora, vou largar isso aqui e vou para Nova Iorque. Vou fazer um selo para promover música brasileira.” Lancei dois discos lá, duas compilações, um que chama Melting pop, que é a seleção brasileira: uma do [cantor e compositor Gilberto] Gil, uma do Caetano, uma do [cantor e compositor] Djavan, uma da Marisa [Monte], uma da [cantora] Gal [Costa], uma do [grupo de rock] Titãs. Então, o disco está... não vendeu muito, mas vende sempre. E, depois, lancei um tributo à Carmen Miranda, que são as grandes músicas da Carmen Miranda com gravações novas, também: com Gal, com Caetano, com a [atriz e cantora] Marília Pêra, com uma gravação fantástica da [cantora] Vanderléia de 73, a [cantora] Maria Alcina, aquela genial [música] “Alô, alô!” Então, montei uma compilação da Carmem Miranda que está indo muito bem. Nós vamos, até, fazer um show no Lincoln Center [em Nova Iorque] agora, 25 de agosto, na concha acústica do Lincoln Center, uma grande celebração de Carmem Miranda e vai muita gente que cantou neste disco. E fiz o disco da [cantora] Patrícia Marx, que foi o primeiro disco no Brasil que queria... Eu gosto muito dessa menina, acho que ela tem grande talento. Fiz [com ela] um disco de dance music para as pessoas não ficarem dizendo que eu só sei fazer coisas ecléticas, cantores ecléticos, ah! Uma... É brincadeira, isso. Eu fiz porque eu gosto dela, achei que ela tinha qualidade para fazer esse tipo de trabalho. E aí, quando estava já imaginando essas coisas, me apareceu esse negócio do Harlem. Então, o disco do Harlem vai sair, já saiu no Brasil agora; só vai sair nos Estados Unidos em setembro. É distribuído pela Warner lá. É do meu selo, é Lux, também, mas é distribuído pela Warner lá; então, ele é multinacional. Se alguém me dissesse, se uma cartomante me dissesse três anos atrás que eu estaria fazendo um disco com um coral gospel no Harlem, eu chamava a carrocinha para ela [risos], seria um absurdo total!

Edgard Piccoli: Você acha, Nelson, que só o fato de eles verem você, um produtor que, com a possibilidade de lançar um CD... E, também, o fato de você, através da sua divulgação, matéria no jornal em relação à igreja, também ser visto como um “cifrão” para o pastor?

Nelson Motta: Tomara, tomara. [risos]

Edgard Piccoli: Porque, afinal de contas, os turistas vão lá e derramam quantias todo o domingo...

Nelson Motta: Olha, isso foi uma coisa que... Eu tenho a maior alegria nisso, que faz... Eu, como eu disse, eu sou um homem de fé, eu sou um instrumento de outras vontades maiores; então, tenho isso com a maior humildade, eu sou só um instrumento, nisso. Eu acho que fui ótimo para a igreja, não por mim, mas por ser um instrumento disso, porque a igreja tinha pouquinha gente, é uma igreja... eles são paupérrimos, é uma igreja dura, no fim do Harlem. E eles ajudam todo mundo: tem lá um monte de drogado de crack – não é cara que fuma um baseadinho; é aquele [de] coisa pesada, mesmo–, tem a sopa e dão roupa no inverno, uma gente maravilhosa que ajuda todo mundo ali na igreja. Com a igreja lotada de todo domingo... eles são é bobos, entendeu? Pelo contrário! Porque esses turistas que vão na igreja, quando chegam... começa [a missa] às 11; aí, [quando] chega meio-dia e pouco, assim, as agências de turismo já levam o pessoal embora para ir almoçar no Silvia, no Cotton Club, aquele troço, faz aquele negócio. E o pessoal da igreja não passava a bandeja. Saía todo mundo e, aí, eles passavam a bandeja, [mas já] não tinha mais ninguém. Eu falei: “Pelo amor de Deus, agora tem que passar antes!” [risos] Aí, ficaram empolgados. O [cantor e compositor] Lulu Santos foi uma vez lá comigo; ficou, chorou, ficou até emocionado, botou cem dólares na bandeja, a crioula ficou branca! [risos] E tem muita gente que vai e põe nota de cem dólares, três ou quatro, todo domingo, eles estão fazendo uma grana, lá, todo domingo. Eles merecem muito mais. Mas o Lulu falou...

João Wady Cury: Mas agora não vai ser só domingo, porque o reverendo Johnson falou hoje, na entrevista...

Nelson Motta: Estão fazendo sexta-feira!

João Wady Cury: ...eles vão fazer sexta-feira e já fecharam pacotes com uma agência de turismo do Brasil, com uma operadora, para levar grupos todas as sextas-feiras à noite para lá.

Nelson Motta: Já estão fazendo sexta-feira, às seis horas, porque não dá vazão mais no domingo, estava tanta gente... E essa coisa, o Lulu botou cem dólares e falou: “Vou botar porque foi o melhor show que eu vi em Nova Iorque e é de graça.” [risos] Então, muita gente tem esse sentimento.

Edgard Piccoli: Eu faço, aqui, um agradecimento, também, porque eu conheci essa igreja por intermédio da tua divulgação no jornal e percebi que, lá, você tem a maior autonomia, você tem liberdade, você cumprimenta o pastor, você cumprimenta os coristas na maior informalidade, é um clima, realmente...

Nelson Motta: Ah, é, eu adoro eles, adoro mesmo, uma gente tão boa! Eu fico muito feliz. Tomara, se Deus quiser, que esse disco vá vender bastante e tudo, eles vão ganhar uma nota, uma grana. É diferente, também, essa coisa de igreja batista americana: eles não têm problema de ganhar dinheiro, não. É muito diferente da coisa onde eu fui criado - Igreja Católica, voto de [pobreza]...

Edgard Piccoli: Dinheiro muito bem recebido.

Nelson Motta: Ninguém tem voto de pobreza, lá. De castidade também não. [risos] Então, essa coisa... O que eles vão fazer com o dinheiro? Eu sei que vão fazer coisas ótimas, tomara que eles ganhem muito, muito, muito, que eles merecem, porque são grandes artistas e, em nenhum momento, acho que... Eles não sabiam quem eu era, entendeu? Em nenhum momento. Quando eles vieram ao Brasil, no ano passado, aí é que ficaram sabendo que eu sou uma pessoa conhecida no Brasil e tudo. Mas não sabiam, achavam que era um amigo, uma cara que está ali, um brasileiro que... Vagamente, sabiam que eu lidava com música. Então, eles não sabem. Tomara que dê tudo certo e...

Marco Augusto Gonçalves: Nelson, deixa eu dar uma mudada de assunto aqui, radical. Sair dessa alegria aqui para um tempo um pouco menos alegre. Eu lembro, uma vez – talvez você nem saiba disso–, eu fui parar na sua casa no Rio de Janeiro. Também não me lembro mais, porque, nos anos 70, setenta e...

Nelson Motta: Não me comprometa, não me comprometa! [risos]

Marco Augusto Gonçalves: Vou te comprometer...! E eu me lembro - você me confirma se era de fato a sua casa, era ali em Copacabana, se não me engano–... e eu me lembro bem que eu fiquei sentado numa salinha, assim, e tinha um retrato do [Antônio] Delfim Netto [ministro da Fazenda de 1967 a 1974, da Agricultura em 1979 e do Planejamento de 1979 a 1985] maquiado, um Delfim Neto assim, de batom, de...

Nelson Motta: Era do [Ernesto] Geisel. [presidente do Brasil de 1974 a 1979; iniciou a abertura política que culminaria no fim da ditadura militar em 1985]

Marco Augusto Gonçalves: Era do Geisel?

Nelson Motta: Era do Geisel.

Marco Augusto Gonçalves: Ah, exatamente!

Nelson Motta: Que eu roubei de uma delegacia. Nós fomos fazer uma filmagem numa delegacia, tinha aquela tipo foto oficial de faixa [verde e amarela] e eu peguei, achei engraçado aquilo. Daí tinha... E a gente maquiou tudo e ficou...

Marco Augusto Gonçalves: Tinha batom...

Nelson Motta: Tinha batom, tinha olho pintado... o [empertigando-se] general Geisel... Com todo o respeito... [risos]

Marco Augusto Gonçalves: Enfim... e como é que foi a sua relação nesse período, aí, com o regime militar? Você chegou a ter problemas com o governo?

Nelson Motta: A minha relação foi péssima, né? Como [para] toda a minha geração, a minha relação foi péssima. Eu fui preso uma vez em 68... [corrigindo-se] Não, não: já tinha nascido a minha... minha filha era recém-nascida. Não, foi em 70, quando nasceu a Joana, ela estava no hospital, ainda. Eu fui preso naquela leva do Pasquim [o mais influente jornal de oposição durante a ditadura militar (1964-1985). Nelson Motta refere-se à prisão de toda a sua equipe de redação em 1970, o que não impediu o jornal de circular com contribuições de outros intelectuais]. Só que eu fui antes um pouco, assim, uns dois, três dias antes. E foram uns caras na minha casa; eu estava com a filhinha recém-nascida e a minha mulher, a Mônica, teve tétano, ela quase morreu, ela ficou dois meses... três paradas cardíacas, foi um horror, aquilo. Nesta circunstância, eu tinha acabado de voltar para casa – a Mônica toda torta de tétano, uma coisa horrorosa, com a neném pequena–, me apareceu, num sábado, em casa, tinham três Fuscas, tudo de metralhadora, parecia que iam prender o [Che] Guevara [famoso guerrilheiro cubano, morto na Bolívia pelo exército daquele país em 1967 e que tornou-se ícone da esquerda latino-americana]. Eu  nunca fui ligado à militância, a nenhum grupo. Eu escrevia no Última Hora, no tempo do [jornalista] Samuel Wainer [(1912-1980) fundador do Última Hora]. Eu tinha uma coluna que se chamava "Roda viva" no Última Hora. E o Samuel dava gás na gente. O Última Hora, em 68... entrei em 68 no Última Hora. E eu escrevia. Quando os caras foram lá em casa – “O senhor está preso, à disposição do Primeiro Exército!”–, eu falei: “Olha, mas eu não tenho nada a esconder, o que eu escrevo são minhas opiniões, estão escritas num jornal, são públicas.” Eu trabalhava na TV Globo, no Última Hora. Falaram: “Não tem questão, está preso, à disposição.” “Mas o que eu fiz?” “Não tem nada, vai, me acompanha.” Eu falei: “Posso dar um telefonema? A minha mulher está doente, eu tenho filho pequeno.” Deixaram eu dar um telefonema, o cara com a metralhadora assim [fazendo o gesto com a mão]. Eu liguei para o meu avô, que morava no mesmo prédio que eu! Foi isto que me salvou: o meu avô era ministro do Supremo Tribunal Federal, ministro Cândido Motta Filho [(1897-1977)]. Meu avô era ministro do Supremo e eu falei: “Vô, estão me prendendo aqui e eu não sei para onde estão indo me levar...” Ele pegou um táxi e foi atrás e eu fui para o Dops [Departamento de Ordem Política e Social, orgão repressor do governo durante a ditadura militar] no Rio. Fiquei numa sala lá; falei: “Mas que...” [representando truculência:] “Cala a boca! Não vai falar nada!” E eu falei: “Pô, o que é que há...?” E o meu avô estava lá, parlamentando. Fiquei a noite inteira. Quando era cinco da manhã, veio o meu avô com um, sei lá, com um chefão lá, daqueles, que falou: “Não, tá, considerando não sei o quê, que sua mulher está doente, a filha não sei o quê, você está liberado. Não pode sair da cidade e vai ser chamado de novo” e tal. Aí, eu fiquei puto, falei: “Olha, não queria vir aqui. Agora que eu estou, quero depor, não tenho nada a esconder, quero falar.” “Não, vai embora logo!” [representando a voz do avô] “Que é isso? Não vai discutir, vamos embora!” E nunca mais me chamaram...

Carlos Rennó: Do que acusaram você, Nelson?

Nelson Motta: Hã?

Carlos Rennó: Do que eles acusaram você?

Nelson Motta: Não sei até hoje. Gostaria de saber.

Carlos Rennó: Com esse interrogatório todo, não dava para...

Nelson Motta: Com esse interrogatório todo... Depois... Eu fiquei apavorado. Aí, nunca mais me telefonaram, não me procuraram, não. Agora, eu estou esperando até hoje, não sei do que [era acusado]... Eu realmente não tinha atividade... Eu tinha opiniões, claro, mas o que eu tinha de opinião escrevia no jornal. E eu era tão idiota nesse tempo, que... em seguida, foi preso todo mundo do Pasquim, menos o Tarso, o Tarso de Castro, que era diretor do Pasquim. Onde que o Tarso ficou escondido? Na minha casa. Olha, que idiota! Tinha acabado de ser preso! Meu pai quase teve um ataque cardíaco: “Você é um idiota, um louco! Mas, olha, esconder o cara!” O Tarso ficou dois, três dias na casa. A polícia toda procurando o Tarso pelo Rio de Janeiro para prender junto com os caras do Pasquim e o Tarso escondido na minha casa. E eu ia arrumar um problemaço. Aí, prenderam a mulher do Tarso, deram uma chantageada nele e aí ele se entregou. Mas ficou escondido na minha casa.

Carlos Rennó: Problema com censura, com alguma canção sua, você teve?

Nelson Motta: A minha estréia foi censurada quando uma peça do [dramaturgo] Dias Gomes [1922-1999], O berço do herói, que o [ator e diretor de teatro Antônio] Abujamra estava dirigindo no Rio [em 1965] e chamou o [compositor] Edu Lobo para fazer as músicas e eu ia fazer as letras... Eu fiz as letras e a peça nunca estreou.

Carlos Rennó: Mas isso quando?

Nelson Motta: Isso em 67, por aí. Foi antes de 68. Em 68, também, eu era da Esdi, Escola Superior de Desenho Industrial do Rio, eu era presidente do Diretório [dos Estudantes]. Então, já viu, né? Saía em todas as coisas, naquela... [Eu] era da liderança estudantil: era suspeito por definição também. Então, para mim, esse tipo de militância estudantil, eu tinha, também, mas sempre tive horror [de violência]. Eu sou um pacifista radical, tenho horror de violência.

Edgard Piccoli: Teve um efeito bom essa época, também, né Nelson? Porque foi uma época supercriativa em termos de...

Nelson Motta: Isso é um mistério para mim...

Edgard Piccoli: ...sonoridade musical, letra...

Nelson Motta: Eu fui censurado em várias músicas. [Como] produtor de teatro, produzia Apareceu a Margarida, com a Marília Pêra, peça do Roberto Athayde. Uma semana em cartaz. Foi tirada na marra e fui a Brasília e corri e fui para liberar a peça e [a peça] voltou... Eu penei com isso um pouco, muito menos do que outros, né, do que o [cantor e compositor] Chico [Buarque, que teve vários trechos de canções vetados pela censura e teve que se auto-exilar na França e na Itália em 1969 e 1970], que outras pessoas...

Matinas Suzuki: Nelsinho, você foi casado com a Marília Pêra. Como é que foi o começo do romance... Como é que você conheceu a Marília... O que você estava fazendo...?

Nelson Motta: A Marília, é... A Marília, eu conheci [quando] ela fazia a Carmem Miranda. Ela estava fazendo um espetáculo, ela fazia na TV Globo. Eu tinha feito Cafona e fazia uma outra novela e... e ela estava fazendo A pequena notável, que era um musical... [no vídeo, imagens da apresentação de Marília Pêra] Olho para onde? [surpreso com as imagens:] Olha!!! Ah, mas isso é agora... Mas a Marília fazia... isso aí era em 71, que eu conheci a Marília. Eu namorava a [cantora] Elis Regina [1945-1982]. Daí, fui abandonado pela Elis Regina, fiquei arrasado e tudo. Aí, procurei, mudei de estrela e fiquei... [voltam as imagens do Roda Viva] Aí, comecei a namorar a Marília. Eu brinco com ela que talvez eu tenha me apaixonado pela Carmem Miranda e não por ela. Ela fica furiosa. E, agora... Você vê como tudo volta: esse pedaço que a gente viu aí é do Elas por elas [voltam as imagens de Marília Pêra], o show que ela fez, onde ela fazia a Elis também. Elas brigaram por minha causa, Matinas, sabia? Depois, ficaram...

Matinas Suzuki: Olha, que loucura...

[...]: Saíram no tapa? Saíram no tapa, não?   

Matinas Suzuki: De tapa, não, né, Nelsinho?

Nelson Motta: [voltam as imagens do Roda Viva] [após duas ou três palavras junto com os outros entrevistadores] ...num bate-boca de telefone, porque, quando eu comecei a namorar a Marília, a Elis voltou atrás. A Elis falou: [representando ira] “Não! O que é isso? É meu homem!”, com aquela delicadeza que lhe era peculiar. E elas eram amigas; daí, brigaram... por causa disso aqui, imagina! [risos] Mas depois ficaram amicíssimas. Teve até uma história muita engraçada dessa reconciliação. Eu casei com a Marília, nunca mais falei com a Elis, ficou um tabu, era um nome que não se podia falar em casa. Aí, quando a Elis estava fazendo...

Matinas Suzuki: Tocar... podia ou tocar, nem pensar?

Nelson Motta: Nem pensar! Era um tabu. Aí, a Elis estava fazendo [o show] Falso brilhante [realizado em 1975 e transformado em disco homônimo em 1976] aqui em São Paulo. Eu vim aqui com a Marília, a Marília falou: “Vamos ver a Elis.” Eu falei: “Não, Marília, vamos...” “Vamos ver a Elis! Vamos ver a Elis!” Fiquei apavorado o show inteiro, assim, com medo de a Elis dar uma olhada e a Marília achar que eu estava olhando... Um terror, nem vi direito o show. Daí, “vamos falar com a Elis, vamos no camarim.” Eu falei: “Ai, meu Deus! E agora?” Aí, cheguei lá - porque as duas são um pouco explosivas, digamos assim -, e  aí, quando fomos ali, no camarim - a Marília entrou no camarim da Elis assim, ficamos eu e o César Camargo Mariano [
o então marido de Elis Regina; é pianista, diretor musical e arranjador de MPB] que nem dois otários, ali...

João Wady Cury: Na expectativa...

Nelson Motta: ...ali, esperando, e a gente só ouvia as gargalhadas e gargalhadas e gargalhadas lá dentro. Saíram as duas ali aos beijos e os dois babacas, ali, sem ter o que falar.

Maria Amélia Rocha Lopes: O Ronaldo Bôscoli [(1928-1994) letrista e produtor musical, ex-marido de Elis Regina] te perdoou? Você começou a namorar a Elis e eu acho que ela não estava ainda separada. Não tem essa história?

Nelson Motta: Não, ela estava casada ainda. Mas acho que ficou uma coisa tão pública... Ele... eu não sei se perdoou. Eu, sinceramente, acho que eu pisei na bola nessa história, porque o Ronaldo era uma espécie de um padrinho meu. Ele me ensinou tudo. Quando eu tinha 18, 17, no começo da bossa nova, o Ronaldo que me levava a tudo. Foi um pai para mim, um cara legal. E o Ronaldo estava lá... comia todas mulheres... era o “Ronaldo Bôscoli”! Fazia letra de música, era amigo dos artistas todos... E eu adorava. Vivia na casa do Ronaldo. Dia e noite eu estava lá com ele. Quando ele casou com a Elis, a Elis detestava, em princípio, todos os amigos do Ronaldo, porque eram amigos do Ronaldo e ponto. Eu fui padrinho de casamento da Elis e meu pai e minha mãe foram...

Matinas Suzuki: Padrinho, eu não aceito!

[muitos risos]

Nelson Motta:
Padrinho... Que vergonha, né? Mas acontece, o coração é... Porque eu fui apaixonado pela Elis, eu adorava ela, foi a que eu mais amei na minha vida. E a Elis foi minha madrinha de casamento. História rodrigueana, assim [referência ao dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues (1912-1980) cujas peças e contos freqüentemente tratavam do desejo e dos amores forjados pela convivência íntima que, não raro, acabavam em traição e tragédias familiares]. Meu pai e minha mãe foram padrinhos, eu fui padrinho da Elis...
A Elis cantou no meu casamento com a Mônica, cantou maravilhosamente bem. Meu casamento não deu certo, mas o show foi maravilhoso. Cantou a Elis, teve o [influente compositor, pianista e arranjador] Luizinho Eça [(1936-1992) Descendente do escritor português Eça de Queirós, Luiz Eça estudou piano desde a infância e começou a tocar na noite carioca nos anos 1950. Formou o Tamba Trio, no início da década de 1960, e também ficou conhecido por ensinar harmonia aos colegas mais jovens de profissão], Quarteto de Cordas, [o cantor e compositor] Milton Nascimento... Foi uma maravilha. Casei na igreja, com Dom Hélder Câmara [(1909-1999) bispo brasileiro muito atuante na área social, que combateu a ditadura militar de 1964 a 1985] e tudo! Bom, e...

Matinas Suzuki: Casamento que marcava posição, né?

Nelson Motta: Marcava posição, é! E então depois... Eu não me dava bem com a Elis, no começo, porque eu era amigo do Ronaldo, eu adorava o Ronaldo e os amigos todos. Depois eu comecei a produzir, virei produtor da Elis. Eu era produtor da [gravadora] Philips nesse tempo. Produzi um disco da Elis, nos demos bem, aí fomos ficando amigos e trabalhando e produzindo disco. O casamento dela já estava muito ruim. Um ano depois... O casamento dela já começou mal, já era uma... Nunca vi ninguém brigar tanto que nem ela e o Ronaldo. Aí, um ano, a gente trabalhando junto e ali e a coisa... tinha... já estava muito ruim, o meu casamento já estava mal, o dela também, claro que todo mundo sabe que essas coisas só acontecem... E eu me apaixonei completamente pela Elis. Imagina, foi um... Você vê, quando eu digo que sou um homem de fé: para mim foi um drama, uma coisa pavorosa, encarar essa situação! Mas que iria fazer? Hoje eu não sei o que eu faria se acontecesse de novo. Mas aconteceu, né? E...

[Ronaldo Bôscoli dirigiu com Luís Carlos Miele o primeiro show de Elis no célebre Beco das Garrafas. Trabalhando juntos, se apaixonaram um pelo outro e viveram um casamento intenso, apaixonado e turbulento. Nas palavras de Bôscoli, "era uma relação deliciosamente perigosa". Ao menos no início estabeleceu-se uma antipatia mútua entre Elis e os amigos de Ronaldo. Após uma das brigas do casal, Elis chegou a jogar pela janela os discos do marido]

Felipe Zobaran: Nelson, você acredita que a Elis morreu de overdose?

Nelson Motta: Acredito que a Elis morreu assim, um... não, de overdose, não! Acredito que foi um engano terrível, uma coisa que bateu mal, sabe. Porque a Elis estava... Eu não tinha muita convivência. Depois, fiquei muito amigo dela. Depois dessas separações, dessas idas e voltas, eu produzi dois discos da Elis. Depois, no final, ela estava muito minha amiga de novo. Tinha estado com a Elis havia pouco tempo no Rio, quando ela lançou o disco Essa mulher [em 1979]. E ela estava ótima e toda amiga da Marília, família, ficou tudo bem. Eu fiquei tão assustado... A única explicação que eu tenho para isso foi um milagre, o avesso de um milagre, da mesma forma que é um milagre uma menina como a Elis, que era feia, baixinha, pobre, de um subúrbio de Porto Alegre – tinha tudo para não ser nada – se tornar uma das maiores cantoras do mundo: isso é um milagre. O avesso de um milagre é ela morrer de repente, assim. Porque a gente conhece centenas de pessoas que cheiraram, beberam feito loucos a vida inteira e que ficaram vivos. E a Elis não era uma pessoa de excessos, a Elis não tinha uma alma de drogada, aquela coisa de pé-na-jaca, cair de boca: não era. Ela era uma pessoa que... O que me contaram é que parece que ela, por causa da voz e tudo, ela tava botando misturado com uísque. Aí, não tinha um controle e foi uma coisa... Fiquei arrasado, mas foi uma coisa terrível. Eu acho que foi um... Esses mistérios que a medicina [tem] muito pouco para explicar por que certas coisas acontecem ou deixam de acontecer na vida da gente. Eu dou muito... respeito muito os mistérios. Tem certos mistérios que eu acho que são feito para serem mistérios e ponto. Você tem que conviver com ele assim, não adianta ficar especulando e tudo. Mas a Elis, sem a menor dúvida, é uma das maiores cantoras do mundo.

Felipe Zobaran: Tem um outro mistério também. Vi o último filme do [cineasta norte-americano] Woody Allen e ele coloca essa questão de protagonista se apaixonar pelo artista ou pela pessoa. E você falou isto: que, no caso da Marília, talvez você tivesse se apaixonado pela Carmem Miranda...

Nelson Motta: Isso era para sacanear. Só para brincar com ela. Não, não!

Felipe Zobaran: Mas isso não é um mistério para você também? Saber se você se apaixona pela...

Nelson Motta: Não, porque a Marília é várias, né? Eu talvez tenha me apaixonado pelas várias Marílias que tinha, porque é uma mulher de... Cada personagem que ela fez é uma mulher de uma riqueza interior, de uma exuberância muito grande. Então, fui completamente apaixonado por ela, anos e anos. Depois, brigávamos feito loucos...

Matinas Suzuki: Você tem duas filhas com a Marília, é isso?

Nelson Motta: Tenho duas filhas: a Esperança, que mora comigo em Nova Iorque, e a Nina Morena, que é de 15 anos e que está indo agora comigo, também. Todas atrizes, também. E eu tenho a minha filha Joana, de 24, que é atriz também.

Maria Amélia Rocha Lopes: Agora, Nelson, você, que é um sujeito superliberal, namorador convicto, como é que você é com as suas meninas?

Nelson Motta: Pode perguntar a elas: sou ultraliberal. Ultraliberal num sentido, pensa assim, as minhas mais velhas... A Nina tem 15, ainda está... mas a Esperança, que tem 20, agora, e a Joana, elas podem comprovar isso. O que eu sempre tive medo, pavor, pânico com duas meninas bonitas no Rio de Janeiro é o obvio: é a cidade, a integridade física delas, a violência, essa coisa. O mais, eu sempre preferi [assim:] elas sempre namoraram em casa, levaram os namorados, dormiam com quem queriam, faziam em casa. O que eu não quero, sempre falei para elas, não quero é filha minha mentindo para mim: “Ah, pai, eu vou aqui, dormir na casa de não sei quem”; eu ligo para lá, não está. Porque [é para] sempre estabelecer uma relação de confiança. Eu quero que me digam: “Olha, estou aqui, vou dormir na casa do meu namorado.” “Ótimo, muito obrigado”, viro para o lado e durmo. Não tem o menor problema. O que não pode [é] se disser para mim “ah! vou chegar meia-noite”. [Se já é] uma e meia da manhã e não chegou, já estou louco! Completamente enlouquecido. Porque eu tenho medo como todo mundo. Uma vez eu disse para um analista: “Eu estou completamente paranóico com essas meninas.” Ele falou: “Calma, filho, no Rio de Janeiro a paranóia é o método.” [risos] E é verdade. Eu sou superliberal, não tem essas restrições morais. As meninas ficaram superbem informadas. Elas tiveram informação, tudo que faz... Não quero saber de...

Matinas Suzuki: Agora, Nelsinho, como é que o contrário? Como é que elas administram a sua vida?

Nelson Motta: Elas são muito menos liberais do que eu. Elas são tirânicas. Elas chegam e falam, às vezes: [falando com uma calma cínica] “Quem é essa ratazana que esta aí com você? Quem é essa jararaca?” [risos]

João Wady Cury: Você continua namorador? Porque você tem a fama... Você falou do Bôscoli, mas você parece que herdou do padrinho a fama. Você continua assim?

Nelson Motta: Não, não, já fui mais... E é verdade...

João Wady Cury: Eu posso perguntar para elas depois? Para confrontar informação?

Nelson Motta: Pode... Já fui; namorei, realmente, namorei demais mesmo e...

Matinas Suzuki: Nelsinho, você sabe que, nessa cadeira sua, aí, Darcy Ribeiro [(1922-1997, grande antropólogo, indigenista e escritor - ver entrevista com Darcy Ribeiro no Roda Viva] falou assim: “Namorei menos do que eu mereço”? [risos] “Namorei bastante, mas menos do que eu mereço.” [risos]

Nelson Motta: Não, eu não sei. Acho que já foi de bom tamanho. E tem essa vantagem de que muitas e muitas dessas muitas namoradas são minhas queridas amigas até hoje! E algumas até namoro um pouco de vez em quando. Então, isso, eu acho que é uma coisa que conquistei na minha vida. Não tem nenhuma mulher ou ex-mulher ou namorada [em] que a coisa acabou feio, que ficou brigado. Jamais. Pelo contrário: são minhas amigas, me dou... E aprendi muito com elas.

Maria Amélia Rocha Lopes: Agora, casar, nunca mais?

Nelson Motta: É difícil agora, né, Maria Amélia? Nunca se sabe, né? Nunca se sabe. Mas é difícil, que eu sou muito dedicado para as minhas filhas, eu adoro e as meninas enchem muito a minha vida, não só de preocupação, mas de tudo. São atrizes, estão envolvidas no mundo artístico. Eu tenho prazer em ensinar para elas o pouco que eu sei e o muito que aprendi.

Carlos Rennó: Você e o Chico [Buarque] têm três [meninas]...

Nelson Motta: E o Francis Hime [compositor carioca que muitos críticos consideram como seguidor da linhagem de Villa-Lobos, Radamés Gnatalli e Tom Jobim, que transitavam pela música popular e erudita, fundindo elementos de ambas. Fez muitas canções com parceiros como Vinicius de Moraes ("Anoiteceu", "A dor a mais"; Ruy Guerra ("Minha", "Último canto") e Chico Buarque, com quem divide muitos sucessos ("Atrás da porta", "Trocando em miúdos", "Meu caro amigo", entre outras). Desde 1973 também compõe trilhas sonoras para o cinema e para o teatro] tem três também e a [roqueira] Rita Lee tem três meninos.

Maria Amélia Rocha Lopes: Nunca se encontraram, [suas meninas com] os meninos da Rita?

Nelson Motta: Não; já tentamos fazer uma aproximação com a Rita, aí. Porque são uns gatos, os da Rita!

Maria Amélia da Rocha Lopes: São...

Nelson Motta: Mas não...

Matinas Suzuki: Nelsinho, o... Mudando aqui um pouco de assunto, você está imortalizado em uma das crônicas do Nelson Rodrigues, como um dos últimos românticos...

Nelson Motta: Em várias, em várias, em várias, em várias!

Matinas Suzuki: Pois é. Numa das passagens, você era um dos personagens – isso que eu queria dizer
, do Nelson Rodrigues, como o Nelsinho Motta, o último romântico.

Nelson Motta: O pálido.

Matinas Suzuki: O pálido e o suicídio. Ele perguntava: “E o suicídio? E o suicídio, Nelsinho?”

Nelson Motta: É maravilhosa.

Matinas Suzuki: Agora, aparentemente, nada mais anti-suicídio do que Nelsinho Motta. Como é que essa...

Nelson Motta: Ué, nada mais aparentemente antilógica do que o Nelson Rodrigues, né? Imagine: em 68, eu - trabalhando com o Samuel, líder estudantil e essa coisa toda e escrevia no jornal -, Eu mandava pau todo dia e o Nelson era exatamente o contrário. E, hoje, eu acho que ele tinha muita razão em coisas que ele escrevia. “Mas, peraí, o poder jovem...!”, [aos] vinte anos, 22 anos. Mas a gente se gostava muito pessoalmente. Eu acho, até, que o Nelson pegou leve comigo. Nunca o Nelson falou uma coisa... ele brincava, ele me ironizava, debochava, mas nunca pegou pesado igual ele pegava com outras pessoas. Ele tinha muito carinho por mim, eu adorava ele e não entendi. Uma vez escrevi um artigo num jornal... mas violento, malvado, assim, esculhambando o Nelson. E [ele]: “Você, logo você, que foi a vida inteira censurado nas suas peças, perseguido, como é que você pode dar força para essa gente, para os seus algozes!” Foi uma coisa... Ele ficou magoadíssimo com essa história e tudo. Eu não tinha razão nenhuma, eu fui de uma grossura total. E o Nelson, o jeito dele: ele escrevia as crônicas e, daí, ele tinha umas obsessões que não tinham nenhum compromisso com a lógica ou com a realidade sequer. Ele inventou que eu era um pálido, que eu era pálido, que eu era o único brasileiro – vivo ou morto– pálido. [risos] Todos eram havaianos de peito de... É mentira! [risos] Eu ia à praia todo dia. Eu tinha 22, 23 anos. Quem não fosse à praia no Rio estava fora, não sabia onde era a festa, não comia ninguém. Não fazia nada quem não fosse à praia. Eu ia todo dia, era moreníssimo. E ele falava: “Encontrei o Nelsinho Motta na TV Globo, o único pálido, aquela palidez diáfana, o último romântico.” Ele dizia que eu era um guerrilheiro, um revolucionário, mas tinha um coração de cambaxirra [pássaro que também é chamado de corruíra, parente do uirapuru] - no que ele tinha toda a razão, mais uma vez -, e falava assim: que, às vezes, ele me encontrava e me pegava pelo braço e tinha vontade, certamente com o olho rútilo e pendendo uma baba elástica bovina, [de] me perguntar: “Meu Werther, quando é o suicídio, quando é o suicídio?” [Werther é o famoso protagonista suicida de uma das obras-primas do romantismo, A paixão do jovem Werther, do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)] Então, ele inventou essas coisas e escreveu várias crônicas sobre a minha palidez, que eu tinha um coração de cambaxirra e tudo. Era delicado, era engraçado. Era sacanagem dele, mas não tinha nenhuma correspondência e hoje, lendo esse... eu li A cabra vadia, [em] que saíram essas crônicas. O Nelson, realmente, era um gênio. Eu tive uma bênção na minha vida...

Matinas Suzuki: Além de se chamar Nelson, você é fluminense também, né? [risos]

Nelson Motta: Pô, fomos juntos! Talvez por isso, o Nelson livrava... Agora você me deu uma dica, Matinas, pra mim. Não é porque ele gostava de mim: é porque nós éramos fluminense! Era uma solidariedade tricolor.

Matinas Suzuki: “Nelson” e fluminense...

Nelson Motta: Porque ele esculhambava a esquerda toda todo dia, que era toda a minha geração, mas livrava muito a cara do Chico Buarque. Sempre livrava a cara do Chico dizendo: “Não, o Chico Buarque é um doce, o Chico é um romântico! [risos] Querem fazer dele um revolucionário”, não sei o quê. No que ele tinha, também, uma boa parcela de razão. E, agora, eu estou descobrindo: ele livrava a nossa cara, porque acho que era uma solidariedade tricolor, né?

Matinas Suzuki: Você chegou a ir ao [estádio do] Maracanã com o Nelson?

Nelson Motta: Muitas vezes, muitas vezes. Nós fizemos... somos fundadores, eu, o Ronaldo Bôscoli, o [ator e cineasta] Hugo Carvana, o Chico. Era a [torcida] Jovem Flu. Foi fundado pela gente. No tempo da "Máquina", dos [jogadores] Horta, Paulo César Caju, Rivelino, aquilo... Dirceuzinho...

Maria Amélia Rocha Lopes: Nelsinho, você achou que [o Fluminense] fosse ser campeão este ano?

Nelson Motta: Não. Estou afastado. Foi uma doce surpresa, logo que voltei ao Brasil, de ver um partidaço do Fluminense. Estou aqui só para receber a faixa.[risos]

Matinas Suzuki: Guga, por favor. Está quietinho, aí!

Guga Stroeter: Então, Nelsinho, eu queria saber onde você estava no começo do tropicalismo e se você participou de alguma maneira do surgimento dessa coisa.

Nelson Motta: No começo do tropicalismo eu estava no Última Hora. Tinha essa coluna, "Roda viva", que era uma espécie de porta-voz do Cinema Novo, do tropicalismo, dessa coisa toda que aparecia. Eu era muito amigo de Caetano, de Gil, nós éramos da mesma turma, quando... Éramos uma turma no Rio: o Edu Lobo, o [compositor] Marcos Valle, Dori Caymmi
[premiado compositor, cantor, violonista e arranjador. Filho de Dorival Caymmi, Dori estudou teoria musical, harmonia e piano com professores como Nize Obino, que formou Nelson Freire, e Moacir Santos e se diz influenciado pela música dos impressionistas Debussy e Ravel, Tom Jobim, Villa-Lobos e Dorival. Aprendeu violão de ouvido e teve como mestres no arranjo Tom, Eumir Deodato e Luiz Eça, que lançou Dori, com a música "Amando", no disco Luiz Eça e cordas], eu, o Francis Hime. E aí ficamos conhecendo o Chico [Buarque] em São Paulo, o [compositor e violonista] Toquinho. E éramos todos anônimos, mas já éramos amigos nesse tempo. E, aí, chegaram os baianos, que a gente adorou! A chegada dos baianos foi um impacto na vida da gente: Caetano e Gil e Torquato Neto [(1944-1972) compositor e cantor que nasceu em Teresina, mas estudou em Salvador, junto com Gilberto Gil, e se tornou uma das figuras mais expressivas do movimento tropicalista. Trabalhou como jornalista na grande imprensa e chegou a fundar veículos alternativos. Cometeu suicídio depois de completar 28 anos]. E... eu participei, muito como testemunha, divulgando as coisas do tropicalismo. E, sem querer, acabei batizando o movimento, que foi uma... já existia, é claro, o movimento já existia, já estavam fazendo as músicas, já tinha atitude, já estava... Tinha O rei da vela [considerada a primeira peça de teatro do modernismo brasileiro, escrita por Oswald de Andrade nos anos 1930. Só foi encenada, porém, pela primeira vez em 1968, adaptada por José Celso Martinez para metaforizar e criticar a realidade social, econômica e política brasileira e latino-americana da época. Seu texto influenciou decisivamente o tropicalismo], do Zé Celso [o José Celso Martinez], tinha o Terra em transe do Glauber [Rocha] [1939-1981], já estava aquilo tudo pronto; tinha música do Gil e do Caetano. E, uma noite, nós fomos no bar Alpino, ali no Jardim de Alá. Era só gente de cinema, que eram muito meus amigos: o Glauber, que era meu amicíssimo, estava Luís Carlos Barreto, estava o Cacá Diegues, eu acho que o Gustavo Dahl estava [todos cineastas] e a gente estava numa euforia ali! Então, estávamos inventando, bolando uma festa que juntasse tudo isso, o Zé Celso e coisa, onde todo mundo estaria de terno branco, ia ter pingüim na geladeira, bananas, era... E estávamos bolando esta tal festa, que jamais aconteceu, que era papo de bar. No dia seguinte, eu fui para o jornal e escrevi um artigo chamado "Cruzada tropicalista", contando essa festa e a coisa do movimento. Aí o nome pegou, “tropicalista”, do "Cruzada". [O texto] foi ilustrado com uma foto do [cantor] Vicente Celestino, até, que era uma coisa totalmente tabu, naquele tempo, era o mau gosto total e era a “cruzada tropicalista” assumindo... só na superfície, entendeu? Era só uma festa, não era um artigo, uma súmula teórica do movimento. Era uma gozação, era despretensioso. E o nome pegou daí.

Guga Stroeter: Agora, essa geração brilhante, Nelsinho, o que você localiza como os elementos formadores dessa geração? De onde veio a qualidade de composição, qualidade da atitude e o resultado do trabalho, que até hoje continua sendo tão característico de quando a gente lembra de uma coisa brasileira muito boa?

Nelson Motta: Eu acho que, basicamente, veio da bossa nova. Acho que tudo isso, somos todos filhos da bossa nova. Onde a bossa nova era um movimento, através de João Gilberto, especialmente, do Tom [Jobim][(1927-1994)], do João Gilberto, do [poeta, letrista e compositor] Vinicius [de Moraes (1913-1980)], era uma coisa de um rigor, um rigor rigorosíssimo, um rigor formal... Então, isso tudo, acho que, da bossa nova, a qualidade, a poética, a qualidade musical das harmonias, a essência do João Gilberto, aquela coisa toda foi uma escola para todos nós. E como, na verdade, na vida de todo mundo, o filho chega... alguma hora tem que romper um pouco com o pai para se afirmar com individualidade, nesse tempo, com Caetano e Gil, muita gente se equivocou: “Eles estão brigando com a bossa nova!” E não estavam, eles estavam... não foi um movimento... o tropicalismo não foi feito contra a bossa nova, foi feito para além da bossa nova. E foi absolutamente necessário, porque a bossa nova estava se degenerando numa coisa muita chata, muita chata, negócio de samba-jazz, uma coisa meio americana que não se comparava às grandes coisas americanas e também não era brasileira. Estava indo por um caminho muito esquisito a bossa nova – e muito careta–. Ficou uma música de classe média; tinha só aqueles valorezinhos, ali, negava completamente a tradição musical brasileira, o Ary Barroso [1903-1964], o Dorival Caymmi [1914-2008], o Luiz Gonzaga [1912-1989], isso tudo. Os tropicalistas se basearam nisso. Então, eles trouxeram à tona, de novo, eles resgataram as grandes músicas do Ary Barroso, de Assis Valente [1911-1958], de todos os nossos grandes compositores, onde se formou o Tom Jobim – a maior influência do Tom certamente foi o Ary Barroso, que era... o Custódio Mesquita [1910-1945], maravilhoso. Então, essa gente toda que formou a bossa nova... Fomos formados pela bossa nova e deu... Eu não sei, também, por quê. Ainda tem esse mistério, que eu não sei direito, essa coisa de [inaudível]... Eu tenho cinqüenta anos, que têm todos, Caetano, Gil, Chico, Milton, essa nossa turma que teve a maravilhosa produção artística de uma criatividade raríssima na música do mundo, exatamente sobre as piores condições: não tinha liberdade nenhuma! Eu não sei se era por que [eram] todos muito jovens, não sei. Ninguém vai saber nunca o que teria feito essa gente se tivesse vivido num clima de liberdade. Também, por outro lado, eu não posso acreditar, não sou masoquista a tal ponto de achar que só porque estavam levando porrada, aí criavam melhor.

Guga Stroeter: Mas eu acho que é uma geração que ficou no Brasil, né? Como na Argentina [que teve também uma ditadura militar, de 1976 a 1983] a coisa foi, por exemplo, muito mais cruel, o pessoal foi embora mesmo. Então, acho que houve uma defasagem.

Nelson Motta: É verdade.

Guga Stroeter: Acho o mérito dessa geração... um deles é ter ficado e trabalhado. Mas a gente estava brincando...

Nelson Motta: Eu acho que o grande mérito mesmo é o da bossa nova. Uma geração formada pela bossa nova e que tinha talento é uma geração que tinha todo o instrumental para fazer. E depois temos um mistério: o que faz juntar numa mesma geração gente como Chico, Gil, Caetano?

Matinas Suzuki: Nelsinho, antes do intervalo, no primeiro tempo, a gente terminou encerrando, aqui, falando sobre a passagem da bossa nova, o tropicalismo, essa coisa toda. E eu queria... eu já te disse essa história, mas gostaria de te perguntar na frente de muitas testemunhas o seguinte: uma das primeiras imagens que eu tenho da televisão brasileira foi da televisão que chegou na casa do meu pai em Barretos, o Programa Flávio Cavalcanti, Nelsinho Motta na bancada, ali, ao lado de feras como Fernando Lobo [(1915-1996) compositor e radialista, pai do compositor, violonista e cantor Edu Lobo] etc., Mister Eco e tal e o Flávio Cavalcanti perguntou para você: “Nelsinho Motta, o que é ser cafona?” E você respondeu: “Cafona é o hino nacional.” [risos] Quer dizer, essa era uma atitude tropicalista, esse tipo de provocação já era uma...

Nelson Motta: Era uma provocação, né? Uma provocação...

Matinas Suzuki: Em anos difíceis, para se dizer isso na televisão...

Nelson Motta: Puxa, era duro. Quando teve aquele episódio, teve um episódio... foi uma commotion [comoção] só quando o [cantor e compositor] Sérgio Ricardo quebrou o violão e jogou no público num festival aqui [depois de ser tão vaiado enquanto apresentava sua música “Beto bom de bola” no festival da Record de 1967, que não conseguia ouvir o que tocava]. Depois, ele foi esculhambado pelo programa do Flávio Cavalcanti inteiro e eu fui a única pessoa que defendeu ele. Eu detestava a música, achava... Mas defendi a atitude dele ali e, aí, foi um tumulto, teve até briga física. Depois, o Sérgio Ricardo exigiu, foi no programa e brigou, teve porrada, pancadaria e livrou minha cara, porque eu tinha falado... Eu tinha, sei lá, 21, 22 anos e eles eram todos mais velhos e eu fazia “o jovem” ali. Aliás, eu continuo nesse papel: muitas vezes, quando eu estou no [programa de TV de análise econômica e política] Manhattan Connection hoje, eu me sinto... eu falei com meu pai: “Pai, sinto que, agora, eu estou de novo no Flávio Cavalcanti, onde começou tudo”, guardadas todas as proporções. Onde tinha o Zé Fernandes, o cara que odiava todas as músicas, era careta; depois, tinha um outro cara, Mister Eco, que era todo culto, sabia a história da música e tudo e tinha vários tipos. Era um painel, assim... E o Manhattan Connection é mais ou menos isso: tem o [jornalista] Paulo Francis [1930-1997] – eu melhorei de turma agora, né? [risos]–... mas tem o Paulo Francis, que as pessoas adoram e odeiam também, que tem a posição dele; tem o nosso querido Caio Blinder, que vai lá, que é o primeiro da classe, que é politicamente correto; tem o Lucas Mendes, que é o cara mais equilibrado e eu, que faço como... eu represento as mulheres e as crianças. [risos]

Edgard Piccoli: Nelson, falando em bossa nova, falando em tropicalismo, você era considerado filho de Vinicius de Moraes, juntamente com Edu Lobo, Francis Hime o Dori Caymmi. Vocês tinham uma espécie de agrupamento musical, vocês se reuniam e faziam... Como é que eram as músicas, do que falavam as letras?

Nelson Motta: Isso foi uma maravilha e uma bênção que tive na minha vida também: ter podido conviver com o Vinicius. Conheci-o num verão em Petrópolis. O Vinicius e a gente fazíamos umas festas, a gente chamava: “Ô, vai ter viniçada hoje!” Então, era o Vinicius e a gente e o pessoal tocava, muitas meninas, tudo ali. Quem não tocasse violão, naquele tempo, não comia ninguém, estava morto. E a gente se formou ali, em volta do Vinicius, que ensinava para a gente as coisas da vida, da morte, do amor, da música. E aí que o pessoal começou a fazer música. O Vinicius fez umas letras para o Edu e o Francis Hime também veio para aquela turma; aí que a gente se formou. Eram festas maravilhosas que iam a noite inteira até oito, nove da manhã. O pessoal bebia, enchia a cara... E era só música. Tocavam, tocavam, tocavam, Vinicius cantava, todo mundo cantava junto. Teve umas cenas dessas em que eu fiquei até comovido: na [minissérie da Rede Globo] Anos rebeldes [(1992) de Gilberto Braga], nas festinhas lá no apartamento da personagem da Cacau, da [atriz] Cláudia Abreu... então, era aquele apartamento muito luxuoso, que era ali; foi [inaudível] igual à casa da Olívia Hime - que é hoje mulher do Francis Hime; ela era filha do Cícero Leuenroth [(1907-1972) importante figura da propaganda brasileira], que morava num apartamento muito lindo, ali na Avenida Rui Barbosa; tinha muita festa, aliás, de música. Era [aparentemente volta a falar das festas com Vinicius] festa de bossa nova: então, um cara tocava e todo mundo cantava. E criaram músicas inéditas, mas que já ficaram conhecidas, ali, da turma. E cantavam algumas coisas, clássicos do Tom, que já tinha alguma coisa, muito lindo. Eu vi uma cena ali [no Anos rebeldes], igualzinho, o cara tocando e todo mundo cantando sentado em volta, ali.

Edgard Piccoli: E vocês ficaram só nas intimidades das festas da bossa nova ou vocês chegaram a se apresentar profissionalmente como um grupo mesmo, fazendo um show?

Nelson Motta: Eu cheguei. Eu tive um grupo com Francis Hime, que chamava “Seis em ponto”. Fizemos até um disco uma vez que, graças a Deus, sumiu [risos], ninguém sabe, nem eu tenho e... Quando eu tinha 18 anos. E o grupo... Mas o disco tinha contracapa de... Ronaldo Bôscoli e Antônio Carlos Jobim! A gente prensou o Tom: “Escreve uma coisa aí, Tom!” E o Tom, com a maior generosidade: [gesticulando com os braços] “Sinto no grupo os perfumes da terra brasileira...” [risos] Aqueles papos maravilhosos. E cheguei a tocar com esse grupo. Tocava violão. Eu fui aluno do [compositor e violonista Roberto] Menescal.

Matinas Suzuki: Nelsinho, você... O João Gilberto, de todos esses nomes que nós citamos aqui, você sempre declara que o João Gilberto tem uma especial influência na sua vida. E eu sei que você procura ver todos os shows possíveis e imagináveis do João Gilberto, seja lá em que lugar do Brasil ou do mundo esses shows...

Nelson Motta: Ah, é! Do mundo. Acho que ninguém viu tanto show do João Gilberto que nem eu.

Matinas Suzuki: Agora você podia falar um... como é que você viu o João? Como foi o primeiro encontro, como é que...

Nelson Motta: O João, o João também é...

Matinas Suzuki: Porque o João sempre tem histórias boas.

Nelson Motta: Sempre tem, mas ele não gosta [de] que conte. O João tembém é outra benção. A gente estava falando aqui que eu sou um privilegiado. Sempre me considerei um privilegiado: “Praise the Lord!”. [risos] Poder ser amigo do Vinicius, conviver, aprender com ele, [no vídeo, cenas de João Gilberto tocando violão] do Nelson Rodrigues... do Glauber Rocha... do João Gilberto... falei: “Meu Deus! Puxa, isso já vale uma vida de uma pessoa, vale três cursos universitários, ter podido ficar horas, noites inteiras de papo com esses caras!” [as imagens voltam para o Roda Viva] O João, logo no começo da bossa nova, a gente fazia... Aí que eu entrei para o negócio de música: na minha casa, também tinha essas festinhas de bossa nova, porque o Ronaldo, a [cantora] Nara Leão [dita a “musa da bossa nova”], o Menescal, eram amigos do meu pai e da minha mãe, que [me] levava. Eu tinha 14, 15 anos. E aí começou. Tinha na minha casa essas festinhas de bossa nova antes de sair o disco Chega de saudade [de 1959, primeiro disco solo de João Gilberto] até. Aí que eu me interessei por música. [no vídeo, voltam as cenas com João Gilberto, cantando “Chega de saudade”] Eu não tinha o menor interesse por música quando era adolescente, 14. Não sou aquele cara que: “Não, eu sempre fui um cara musical!” - nada disso. Eu gostava de pintura, artes plásticas, literatura; disso que eu gostava. [volta a imagem para o Roda Viva] Não queria saber; música, eu achava um saco, porque, quando eu tinha [aquela] idade, o que tocava era bolero, samba-canção, era isso que tocava na rádio: não tinha nada a ver comigo. Quando eu vi a bossa nova, eu fiquei louco. “Puxa, é isso que eu quero!” Era tudo que eu queria: as músicas, as letras, a atitude, os caras de camisa vermelha, camisa cor-de-rosa... era uma coisa de louco, naquele tempo. Era uma música de Copacabana, “música de apartamento”, [como] chamavam pejorativamente. E o João foi algumas vezes numas festas dessas e ficou muito amigo do meu pai. Ele adora meu pai. Até hoje, meu pai gosta muito dele, também. E, numa dessas festas, foi engraçado, o João foi e falou assim: “Olhe, eu vim só para dizer que não venho.” [risos] [imagens de João Gilberto no vídeo] Eu aprendi com ele: várias vezes mandei essa também. Chegava, porque achava que tinha quatro ou cinco pessoas e tinha quarenta... o João com toda... “Olhe, vim só para dizer que não venho” e pronto. Mas depois fiquei amigo do João. Encontrei o João em Nova Iorque, vi um show dele quando ele já estava morando lá. [voltam as imagens do Roda Viva] Eu era garoto, tinha uns 22, 23, estava em Nova Iorque, vi um show dele no Rainbow Room, lá no andar 60 da coisa. Depois, vi outros shows dele em outros lugares. Quando ele voltou definitivamente para o Brasil, ficamos amicíssimos. É um privilégio, também, na vida, porque o João não só é um gênio musical - gênio absoluto, não tem a menor dúvida sobre isso -, como ele é um homem de uma inteligência, de uma inteligência, e de uma sensibilidade, e engraçadíssimo, também. Acho o João muito engraçado e aprendi muito com ele. Nós temos uma relação de muito amor, muita amizade. Ele adora conversar no telefone e falar. E depois deu, sempre meio por acaso... Quando eu estava morando na Itália - eu morei em Roma de 84 a 85 -, João fez três, quatro shows em Roma. E eu estava lá e vi. Depois, no Festival de Montreaux: eu estava lá no dia em que ele fez o show. Depois, ele fez um show em Madri: eu estava. Em Nova Iorque vi vários também. Aqui no Brasil, eu não perdi um. Só perdi aquele de Águas Claras [risos] e um do Teatro Castro Alves, que ele fez há pouco. Mas eu vi quase todos. E é uma experiência quase mística para mim...

Maria Amélia Rocha Lopes: O disco Amoroso [de 1977], do João Gilberto, é uma coisa muito especial na sua vida?

Nelson Motta: É o disco que eu mais amo na minha vida. Se tivesse aquela pergunta que vocês não vão fazer... “se tivesse que ir para uma ilha deserta com CD player e só um disco”, eu levaria o Amoroso.

Carlos Rennó: O Amoroso será um disco do João que está entre os que ele prefere? Porque... ele não tem algumas restrições quanto aos arranjos ali, da parte de cordas?

Nelson Motta: Eu acho que... [hesita] Eu não... Eu também sou amigo do João e me dou bem com ele porque eu não repito publicamente as coisas que ele me fala. Porque ele não gosta... Mas, sem estar com muita intimidade... porque o João nunca deu uma entrevista formal na vida, formal mesmo...

Carlos Rennó: Deu através de você por exemplo.

Nelson Motta: Ele fala aqui e ali, tal e coisa, podia, mas... Eu acho que os discos do João [de] que ele mais gosta são o Amoroso e o Chega de saudade. Ele adora o disco Chega de saudade,  que é, realmente, uma obra-prima, um disco extraordinário em tudo! Um disco que foi gravado em mono! Hoje, na minha casa, na casa de qualquer um, tem um cassete que tem o som melhor, tecnicamente, do que tinha na época. O som, até o som do disco é maravilhoso e os arranjos do Tom [Jobim], o repertório, e a novidade toda. Eu acho que os discos que ele mais gosta e dos que ele mais fala é o Amoroso - no Amoroso ele tem, ele reclama um pouco é do negócio de... o que é que era...? Não: é o disco de Montreux, que tinha umas palmas. Do Amoroso acho que ele não tem nada a reclamar, não. Se bem que ele... Eu descobri por que o João não gosta, até, dos discos dele – porque ele sempre reclama, né: “Ah, não está muito bom”–, porque ele deve ter um ouvido, cara, para cantar o que ele canta, com a precisão que ele canta, ele deve ter um ouvido alucinante. É impossível você saber como é que é o ouvido... Você pode saber como é a voz dele, mas o cara, para cantar bem, tem que ouvir muito bem, senão, é impossível. Se o cara não ouve bem, ele não pode cantar bem. Se ele não se ouve... Então, ele acha... Uma vez, nós tivemos uma conversa e ele falando, assim, que ele acha todo som, toda palavra, em princípio, feia, rombudo, o som. Então, o que é o trabalho dele? [É] de que nem um seixo, uma pedrinha que rola no rio e vai indo ali...

Carlos Rennó: Ao mesmo tempo, ele faz tanto pela palavra...

Nelson Motta: É isso que ele faz. Então, ele encontra um jeito de dizer aquela palavra para que ela não fique brusca, agressiva. Ele faz esse polimento. E o método dele é cantar infinitamente a música, que é, com todos os artistas com que eu trabalho, o que eu digo, o conselho que eu dou: faça como... “Qual é o jeito de cantar, melhorar?” [olhando para a câmera] Dando publicamente: jovens artistas, vocês, que me procuram tanto [risos] com aquelas torrentes de fitas, façam como João Gilberto. Peguem a mesma música, cantem milhares de vezes igualzinho. Nunca ela vai ficar igual; cada vez que você canta, vai ter alguma pequena mudança que até você não percebe. Pode cantar. Quando você achar que está pronto, é porque faltam ainda umas dez mil vezes. Aí você vai cantar bem.

Edgard Piccoli: Tem música que ele até – nessa história de ser perfeccionista, vamos dizer assim, em relação ao trabalho final–... tem música que ele demorou até cinco, quatro anos para falar “agora acho que está pronta e vou gravar.” E, mesmo assim, ele não fica contente com...

Nelson Motta: Não fica contente. Tem música que ele canta há dez anos.

Matinas Suzuki: Nós somos testemunhas, eu e o Nelsinho Motta, de uma noite, num estúdio no Rio de Janeiro – há dois anos, isso–, onde ele cantou 34 vezes, gravando “Chega de saudade”, porque ele não ficou satisfeito com nenhuma – e, detalhe: ele canta essa música há trinta anos–.

Nelson Motta: Divinamente.

Matinas Suzuki: Divinamente há trinta anos e nenhuma das vezes foi boa. Nenhuma das vezes foi boa.

Nelson Motta: É o ouvido dele. Ele deve ter um ouvido, uma coisa... O que ouve João Gilberto!

Felipe Zobaran: Nelson, considerando a genialidade, a inteligência do João Gilberto, por que ele é tão recluso? Se ele é uma pessoa tão amada, todo mundo admira tanto a obra dele, por que ele não se permite dividir isso com as pessoas?

Nelson Motta: Eu acho que essa vida monástica que o João vive... Eu já comparei ele a um mestre zen, desses que você vê... você atinge um equilíbrio, uma serenidade, uma ausência de dor, uma ausência do medo, de dúvida - por muitas maneiras: arranjando flor, [ou] em várias artes zen. E o João desenvolveu isso, essa arte, essa meditação zen. Quando ele está em casa cantando a mesma música... como um mantra! São mantras gigantes, digamos assim, mantras de quatro minutos que ele canta, canta, canta, canta aquilo... E, quando você está cantando, é o mesmo princípio da meditação: você está cantando a música –  mesmo se você canta a música há trinta anos, como ele está cantando–; se, em algum momento sua cabeça voar um pouquinho, se você pensar "não, mas aquela garota...”, você erra. Então, isso vai até o fim da música. E a técnica da meditação... Ao contrário do que muita gente pensa, meditação não é meditar sobre uma coisa; pelo contrário: é pensar em nada, esvaziar a cabeça. Aí, você se esvazia da dor, do sofrimento, do medo. Se você esvazia a cabeça... Como esvaziar? Fazendo uma outra coisa ou cantando um mantra hare krishna ou fazendo uma atividade mínima ali, de ikebana, de arrumar uma flor. Se você errar, ela atrapalha, tem que começar tudo de novo. Enquanto você está concentrado naquilo, você não está pensando em você, você não está pensando no mundo, você não está pensando em dinheiro, você não está pensando em ambição. Então isso é... E acho que o João tem muito essa coisa. Eu digo sempre: ele é um “zen baiano”. Então, ele vive lá no Himalaia dele, no Leblon, naquele trigésimo andar, vendo o Rio todo , porque ele é “zen baiano”, também. E ele é um homem muito afetuoso, ele fala muito, ele... Ele não gosta é de sair de casa. Ele gosta de ficar ali recolhido, mas ele tem muitos amigos, especialmente telefônicos.

Matinas Suzuki: Marcos, você.

Marco Augusto Gonçalves: Nelson, você teve uma época em que, para minha geração, que veio logo em seguida da sua, você representou um pouco uma referência de uma música mais ligada ao pop e ao rock também. Em determinado momento em que a música popular estava uma pouco chata, estava um negócio um pouco...

Nelson Motta: Muito nacionalista, tenho horror...

Marco Augusto Gonçalves: Muito nacionalista, estava um negócio meio baixo astral e você entrou em cena com um... Enfim, um dado de alegria, de pegar esse lado da música mais ligada à tradição do rock e do pop. E, mais recentemente, você fez uma entrevista, acho que ao [jornal] O Globo, até, dizendo que o rock era um gênero esgotado. Como é que você vê, hoje, essa sua relação com esse tipo de música?

Nelson Motta: Eu vejo que, naquela época, você vê, teve o tropicalismo, [que] foi muito isso também: teve uma passeata contra a guitarra elétrica aqui em São Paulo e tudo. Era muito estranho. Então, tinha essa coisa nacionalista muito chata. Começou um negócio de música de protesto, de raízes e, pô, comecei a achar essa coisa chata. Pô, a gente está lutando justamente para abrir o Brasil para o mundo, para a gente pegar esse... Eu era muito jovem em 68. As coisas estavam acontecendo no mundo inteiro, na Califórnia, em Paris [referência às manifestações de maio de 68 na França], a juventude estava tomando o poder, né, brincando de tomar um poder, mas estava... Pílula anticoncepcional: essa geração de hoje não sabe o que é namorar antes da pílula [anticoncepcional, inventada em 1951]. Era um pavor, uma coisa, era um horror, não tinha nada, foram... [Depois da invenção da pílula], as mulheres saíam dando feito loucas, porque foi uma [onda] “liberou geral” mesmo. Graças a Deus, participamos disso. E o Brasil estava se abrindo, tentando se abrir para o mundo também. Aí vêm uns chatos, aqui, e tiram... eu não tenho nada contra esse negócio de moda de viola, do [compositor e cantor Geraldo] Vandré [autor de canções de protesto que provocaram a sua perseguição pela ditadura militar], grandes músicos, mas não pode ser só aquilo, aquela coisa sectária. Aí eu, de sacanagem – era para provocar– comecei... Eu gostava dos Mutantes, gostava... Era amigo da Rita Lee, era...

Marco Augusto Gonçalves: Depois, você cunhou aquela expressão “música pra pular brasileira”, que era...

Nelson Motta: É do Júlio Barroso [(1954-1984) DJ de diversas casas noturnas, entre elas a Dancin'Days de Nelson Motta, e jornalista (revistas Som três e Música do Planeta Terra), fundador e líder do grupo de rock Gang 90 & as absurdettes – considerado um precursor do "rock brasileiro" ou BRock dos anos 1980, juntamente com a Blitz–, Barroso se envolveu pesadamente com drogas e álcool e morreu precocemente ao cair da janela de seu apartamento] essa expressão. Eu usei muito, divulguei essa música. Essa expressão, quem inventou foi esse cara genial, meu amigo Júlio Barroso – [manda um beijo com a mão] querido esteja onde estiver!– O Júlio foi um cara excepcional. Ele [é] que inventou essa expressão. E depois ele... teve uma coisa engraçada, o Júlio também. Uma vez estava [dizendo] “não, eu gosto da revitalização do chorinho”, essa coisa de raiz – que era chato!–, “o choro é ótimo!”, tudo mais. O Júlio fez o Manifesto gargalhada contra o chorinho! [risos] Não queria saber de chorinho, era uma coisa para fora. Eu tive o primeiro programa de clip, fui o primeiro VJ da televisão brasileira. [risos] Tinha o Sábado som, na TV Globo, que é... Naquele tempo, eram filmes que a TV Globo comprava e eu selecionava. O Pink Floyd, Jimi Hendrix, Janis Joplin [astros do rock internacional], tudo passou no Sábado som, que eu tinha na TV Globo. Tive durante uns dois anos, isso. E eram filmes de concertos do Don Kirshner [produtor musical norte-americano de rock]. Agora, em Nova Iorque, eu vi de novo esses mesmos, porque está passando Os grandes anos 60...

Matinas Suzuki: Agora, Nelsinho, quando você foi para Nova Iorque, você andou também falando que a coisa aqui estava muito “sertanejo”, quer dizer, você voltou a ter uma tensão, aí, com o ambiente musical, né?

Nelson Motta: Eu... Eu tenho horror dessas coisas hegemônicas. Mesmo no tempo da bossa... Eu sempre tive muitos problemas – probleminhas, assim– na minha vida porque, entre os roqueiros, eu era considerado um cara de MPB e, entre os caras de MPB, eu era considerado um roqueiro. Então, nunca fiquei muito confortável ali entre as coisas, porque eu tenho... Detesto essa coisa de “ter que ser uma coisa”. Por isso, eu sou de várias igrejas, eu gosto de tudo, gosto de ópera, gosto de pop, gosto de rock and roll, de bossa nova. E posso, ao mesmo tempo, gostar, me dou o direito e acho que todo mundo tem o direito de gostar do João Gilberto e do Jimi Hendrix. Porque isso é uma coisa do Brasil. E, no tempo da ditadura, onde as coisas eram todas mais duras, mais rígidas, ou você estava contra ou a favor. Quem não estava contra a ditadura, estava a favor. Isso se espalhou muito por várias coisas... na [área] musical, gerando vários sectarismos. Então detesto essas coisas hegemônicas. Não tenho nada especialmente contra a música sertaneja do jeito que está. Eu, pessoalmente não gosto – sinceramente, com todo o respeito–, não sou chegado, não entendo direito e...

Edgard Piccoli: Voltando ao teu selo, tua gravadora, a Lux Records, você já expressou a intenção de que, por intermédio desse selo, os músicos e artistas brasileiros têm uma porta aberta ao maior mercado fonográfico do mundo, que são os Estados Unidos. Essas bandas novas que estão por aí, artistas novos que estão hoje no mercado ou estão tentando encontrar um lugar no mercado, você tem interesse por alguém para um futuro lançamento lá fora?

Nelson Motta: Interesse eu tenho; eu não tenho dinheiro nem tempo nem... capacidade para fazer, que é muito difícil...

Edgard Piccoli: Quais os que te chamam a atenção, hoje em dia?

Nelson Motta: Olha, das coisas, é...

Edgard Piccoli: Esse som que vem de Pernambuco, Chico Science [Francisco de Assis França (1966-1997), um dos principais expoentes do movimento manguebeat, apontado por críticos e músicos como um grande talento da música. Morreu num acidente de carro, entre Recife e Olinda, em 2 de fevereiro de 1997], os de Brasília, Minas Gerais...

Nelson Motta:
Eu conheço pouco. Eu vi o Chico Science domingo passado, há vinte dias, no Central Park [em Nova Iorque]. Eles abriram o show para o João. Eu nunca tinha visto, gostei muito. E tinha ouvido o disco deles, também. Acho o Gabriel interessantíssimo, o Gabriel, o Pensador [nome artístico de Gabriel Contino,  polêmico cantor e compositor de rap], que é meu protegido. Gosto muito dele, conheço o garoto desde... Acho que ele é inteligente, engraçado, tem uma... Está muito sério, também, um pouco; ele tem de... [Mas] ele tem 19 anos, é relaxado...

Felipe Zobaran: Nelson, o Gabriel vem aí com o segundo disco. É sempre um momento difícil.

Nelson Motta: É dificílimo, né? Vamos ver. O primeiro disco dele é muito bom...

Felipe Zobaran: Você já ouviu alguma coisa desse segundo?

Nelson Motta: Não, não ouvi nada. Mas o primeiro disco é muito bom, acho muito bom, muito bem produzido. E ele trouxe essa... E acho bonito essa juventude. Ele é ingênuo, é claro, mas essa indignação da juventude, esse idealismo... é bonito isso, é bacana. Eu não acredito, porque já sei que não é assim, mas não vou dizer, como eu não digo para as minhas filhas: “Olha, não é bem assim.” Deixa elas verem como é que é.

Felipe Zobaran: E o Gabriel tem a ver com o [compositor] Ary Barroso [1903-1964]?

Nelson Motta: Vai ter. Vai ter. Porque, às vezes, é muito... Ed Motta [cantor e compositor ligado ao funk], por exemplo, que é o maior cantor da geração dele, eu acho, o maior talento. Ed Motta e [a cantora] Marisa Monte...

Felipe Zobaran: Estava em Nova Iorque o Ed Motta, né?

Nelson Motta: Eu nunca vi ele lá. Eu soube várias vezes que ele estava lá, mas eu nunca vi. Quando eu estava na Warner, o Ed Motta era contratado pela Warner e ele queria porque queria lançar esse disco, Entre e ouça, que eu acho que é um disco equivocado, eu não gostava do disco. “Você quer lançar, você lança: vai ser um desastre isso.” Ele fez o disco, fez como ele queria, porque é cabeça dura, pior do que o tio [o Tim Maia], né? Mas talentosíssimo, inteligente também, o Ed Motta: “Eu não ouço música brasileira, eu não quero saber de nada” e não queria nunca, nesse começo, não queria saber. Então, às vezes, esse tempo que ele passou em Nova Iorque e tudo... tem muita gente que precisa sair do Brasil para ver o Brasil, para ver a riqueza da música brasileira. Eu vi entrevistas do Ed Motta, não ouvi nada recente dele, mas já vi que está muito misturado com coisa... com samba, já está mais perto do Ary Barroso, que vai chegar no Gabriel. A coisa do Gabriel que eu mais gosto no disco, a faixa que eu mais gosto no primeiro disco... eu esqueci o nome, mas é uma que é um xaxado, que é o... [cantando] “meu sonho é morar numa favela”. Um cara que é tão ferrado, coitadinho, que o sonho dele é morar numa favela, mas o ritmo que está atrás, com sanfoninha, é aquele ritmo de xaxado. O Gabriel vai chegar rapidamente nisso. Acho que é também um grande caminho para o rap brasileiro. O rap brasileiro pegando essa base rítmica que o Brasil tem, riquíssima, que é muito mais rica que a base... ritmicamente, muito mais [rica] do que a black [music] americana, acho, porque tem mais variedade, todos esses ritmos... E os caras “rapando” em cima e com essa variedade de ritmos, de samba, de xaxado, de maxixe, de baião e toda essa coisa brasileira... o rap brasileiro, acho que tem um enorme futuro.

Maria Amélia Rocha Lopes: Agora, Nelsinho, o que você diria para a parte da crítica que caiu de pau em cima do Gabriel, o Pensador pelo fato de ele ser um garoto de classe média e ficar cantando essas coisas como se ele fosse um garoto pobre de morro? Ele foi muito criticado por isso.

Nelson Motta: Ele é um porta-voz na verdade. Essa coisa sempre... era uma discussão antiga que tinha quando tinha essas músicas no final dos anos 60, as coisas políticas: “Ah, como é que o cara vai falar da favela morando na Vieira Souto, morando no apartamento?” Às vezes, são generosidades que só a juventude tem, eu acho, essa generosidade de se tornar porta-voz de quem eles acham sofre, que precisa, que não tem voz para cantar. Então, eles vão e cantam, porque é muito difícil... Não quer dizer que seja mais ou menos autêntico. Eu não quero saber direito de onde as pessoas vêm, qual é o background delas e tudo, se uma pessoa... Se o Cole Porter [(1891-1964) grande compositor norte-americano], que era um homem chique, um aristocrata, podia fazer música [assim]; se o Tom Jobim era um aristocrata também; o Chico Buarque é um príncipe e é um dos maiores compositores populares – quem vai negar a raiz popular da música do Chico?– O Chico Buarque... O homem não interessa, interessa a obra dele. Quem vai ousar negar o que o Chico Buarque... Quantas pessoas falaram pela boca do Chico Buarque, com a poesia dele, com o gênio dele? As mulheres, os sofredores, os deserdados da vida, todos falaram pela voz do Chico Buarque. É uma coisa extremamente brasileira. Então, é uma coisa que eu acho que é restritiva, ofensiva e ressentida achar... então, o cara tem que ser nascido na favela, tem que ser analfabeto e tudo para fazer...? Tem uma história até engraçada de um trompetista que foi fazer um teste. E veio lá. Então, veio um cara que era todo loiro, bonito, com um trompete brilhante e tocou mal à beça. Daí, veio outro que era um neguinho todo mal ajambrado, com o trompete todo amarrado com fita isolante, esparadrapo, “toca aí, cara!”, puóó!  Pior ainda! [risos] Então, essa verdade ilustra o...

Matinas Suzuki: Nelsinho, e... Mas hoje...

Nelson Motta: Vale o escrito, né, Maria Amélia? Tem que ser o...

Matinas Suzuki: Olhando lá o mercado, o que você acha que vai dar para... A música brasileira, para onde vai jorrar, nos ouvidos americanos?

Nelson Motta: A música brasileira jorra nos ouvidos americanos desde a bossa nova. Toca em tudo que é lugar, de uma maneira ou de outra, é uma música estabelecida. Você vê que hoje...

Matinas Suzuki: Mas a bossa nova sim, desde sempre.

Nelson Motta: Desde sempre...

Matinas Suzuki: Mas os novos estão presos a um circuito? Como é que...

Nelson Motta: [palavra dita junto com Matinas Suzuki] ...os novos, eu vou dizer uma coisa, que é um velho lugar-comum e que é uma verdade: fazer sucesso nos Estados Unidos sem cantar inglês é impossível, impossível. No way [“sem chance”]. [risos]

Matinas Suzuki: Para dizer, para explicar bem...

Nelson Motta: Não tem como, não tem como. As músicas do Tom Jobim também se tornaram standards internacionais, tornaram ele um compositor respeitado nos Estados Unidos, no mundo inteiro, porque tiveram excelentes letras em inglês, muitas do próprio Tom até. Músicas em inglês. Mas é impossível. Americano não vê filme europeu, porque não lê legenda. Eles acham complicado o negócio de ler; não vêem. Perderam os [Federico] Fellinis, os [François] Truffauts e tudo, porque não vêem... não vêem filme estrangeiro. Americano é muito nacionalista, muito xenófobo também, tem essa coisa, esse lado horrível. E, sem cantar em inglês... claro, pode fazer um sucesso esporádico, uma coisa ou outra: Daniela Mercury foi a Nova Iorque, fez, botou três mil pessoas no Super Club, tinha muito americano, eles adoram e tudo; fez show em Atlantic City, no Trump Plaza, a Daniela, um senhor sucesso, também cantando em português, do jeito dela. É uma vez. Mas, para fazer carreira, para tocar no rádio, para ir nos programas de televisão, para dar entrevista, [para] isso tudo, tem que falar inglês e cantar em inglês. Pelo menos...

Guga Stroeter: E talvez morar lá ajuda bastante também, né?

Nelson Motta: Talvez... Não digo nem morar, Guga, mas fazer como a Marisa está fazendo. A Marisa Monte, eu acho que vai ser a primeira cantora brasileira a se tornar uma artista realmente internacional. Eu não estou negando a qualidade fantástica da Gal, da Elis, da [Maria] Bethânia, de várias outras, mas a Marisa tem a juventude também. Tem que ser jovem para fazer uma carreira no exterior, porque, como é que se faz uma carreira nos Estados Unidos? Lança-se o disco. Aí, vai em todos os programas de televisão dar entrevista, vai no rádio e faz a turnê, faz quinze, vinte shows em cada lugar. E vai... Aí, o disco começa a tocar no rádio. Toca no rádio, vai mais gente no show. Daí, vê na televisão. Aí, vai. Igualzinho no Brasil, só que é muito maior, mas igualzinho, como é que se faz sucesso nos Estados Unidos. Então, a Marisa, já há três, quatro anos, todo ano ela faz. Primeiro ano, ela fez três shows só em Nova Iorque; segundo ano, acho que fez cinco, seis, já fez em Boston e em Washington; ano passado, ela esteve, estreou, fez Nova Iorque, fez Atlantic City, fez Boston, fez Chicago, fez San Francisco, fez 13, 14 shows. Ano que vem, ela vai fazer, sei lá, 15, 20. Então, o artista, para fazer sucesso nos Estado Unidos... E, em cada lugar que vai, tem repórter, tem coletiva, vai lá, tem que falar inglês para explicar...

Matinas Suzuki: Nelsinho, você que descobriu a Marisa?

Nelson Motta: A gente se descobriu.

Matinas Suzuki: Mas como foi isso?

Nelson Motta: A Marisa... A mãe da Marisa é amiga da minha irmã. Eu estava morando na Itália e ela falou: “Olha, a minha filha quer estudar ópera, não sei o quê, na Itália.” Eu falei: “Ai, meu Deus, mais uma...” Mas, como eu gosto muito da minha irmã, Sílvia Maria, falei: “Está bom, manda a garota aqui em casa.” Eu estava no Rio e ia voltar para a Itália. Aí, apareceu a Marisa lá, com 18 anos. Cantarolou umas coisas, queria ser cantora de ópera. Falei: “Está bom...”, indiquei umas poucas coisas que eu conhecia em Roma, voltei para Roma e nunca mais a vi. Passaram-se uns seis meses, a Marisa me ligou, em Roma: “Ah, estou aqui em Veneza. Desisti de ser cantora de ópera, isso é muito chato, tem que viver na Europa... Eu estou aqui em Veneza, vou fazer um showzinho num bar aqui. Tem um amigo meu, um italiano, que é um violonista improvisado"... Eu peguei um avião e fui para Veneza para ver o show da Marisa! Quer dizer, coisas que ninguém explica: o que me levou a fazer isso? Essa loucura, uma insensatez, uma insanidade, para ver isso. Aí, vi a Marisa fazendo o show em Veneza, num barzinho ali. Um cara, o italiano, tocando violão, tudo errado, aquelas músicas de Milton Nascimento, aquele repertório emepebezão chato, coisas de Caetano, mas tudo meio mais ou menos, mas foi um sucesso! Começou com um pouquinho de gente e foi enchendo a calçada toda, estava cheio de gente. A Marisa ganhou cinqüenta mil liras [moeda italiana da época]. Ela vai se lembrar: o primeiro cachê dela, cinqüenta dólares. Foi, eu sou testemunha...

Felipe Zobaran: Nelson, a Marisa usou o seu famoso sex appeal com você?

Nelson Motta: Não! A Marisa não tem muito sex appeal, assim, não. Ela... Acho ela muito bonita, tem muita classe e é uma cantora extraordinária. Quando ela voltou ao Brasil, ela me procurou e falou: “Olha, eu quero”... Eu tinha voltado ao Brasil também, da Itália, ela falou: “Eu quero... Desisti mesmo [do canto lírico], quero ser cantora popular. "Vamos fazer uma coisa juntos?, eu falei, “eu quero fazer.” Fui eu que me ofereci. E aí começamos a fazer uns showzinhos, ensaiamos três, quatro meses, [para] formar um repertório. Aí, começamos no Jazz Mania, num barzinho, depois foi outro. Em um ano, a Marisa estava enchendo o teatro...

Matinas Suzuki: Ela fez [show com o grupo] Nouvelle cuisine aqui em São Paulo, foi um sucesso.

Nelson Motta: Com o Nouvelle cuisine, né, Guga, no...

Guga Stroeter: Foi no Masp [Museu de Arte de São Paulo].

Nelson Motta: No Masp... [inaudível] Entupido. Ninguém conhecia a Marisa Monte, [que] nunca tinha gravado disco, ela foi um boca-a-boca fantástico. E a Marisa, o que vai ajudar a carreira internacional da Marisa, também, primeira [coisa], além do talento musical dela... que muitas têm talento musical, mas a Marisa fala um inglês ótimo, fala francês perfeito, fala italiano, sabe lidar com as coisas e tem essa juventude, essa disposição de fazer 15 shows em vinte dias pelos Estados Unidos, fazer 15 shows no Japão, 20 shows na Europa... Tem que fazer isso todo ano para fazer uma carreira. E a Marisa tem a juventude à disposição. E a Marisa só pensa naquilo, quer dizer, em cantar... [risos] Então, ela tem essa motivação toda para fazer. Eu tenho quase certeza de que a Marisa vai ser a primeira artista brasileira a ser realmente internacional. E, quanto ao sex appeal da Marisa e tudo, é... Eu adoro ela até hoje, gosto imensamente dela e essa vida nossa, como é que foi, como é que aconteceu - ela disse numa entrevista na Playboy, falando, então eu posso falar... "Ah, vocês namoraram, que não sei o quê..." Ela falou: "O que nós tivemos foi muito mais e muito melhor que isso." Então, faço minhas as palavras da Marisa e encerro o assunto.

Carlos Rennó: Nelsinho, agora, você está trabalhando com uma menina, não é? A Patrícia Marx, que é de uma musicalidade excepcional, não é? O que você poderia nos dizer dela e desse seu trabalho com ela?

Nelson Motta: Olha, ela é uma garota muito talentosa. Ela tem duas grandes vantagens: ela tem a juventude, ela tem esse frescor da juventude, ela tem vinte anos, e a experiência, ao mesmo tempo, porque a Patrícia canta desde cinco anos de idade. Ralou, sofreu a vida inteira, aí, cantando uma bregaiada, uma música... E ela se desenvolveu tecnicamente muito, muito bem. Ela tem sensibilidade, eu acho que ela tem que fazer. O disco dela foi um sucesso, vendemos mais de sessenta mil discos no Brasil e ela está se firmando com uma coisa mais techno, mais dance, que é uma coisa a que ela se adapta muito bem, que é um tipo de música de que eu gosto também. E procuramos fazer uma coisa adequada. Quem produziu o disco dela junto comigo foi o Tuta Aquino, que é de Nova Iorque, um produtor brasileiro fantástico que mixou coisas da [cantora norte-americana] Madonna, de uma porção de gente. Ele trabalha muito bem nessa área. Vai fazer o segundo disco agora, vai fazer lá...

Matinas Suzuki: Aliás, Nelsinho, você é um dos responsáveis pela dance music no Brasil, né?

Nelson Motta: Com [o grupo] As Frenéticas, é claro, importante orgulho!

Matinas Suzuki: Com As Frenéticas e as casas de Dancin' Days.

Nelson Motta: Dancin' Days. Eu fui dono do Dancin' Days. Eu tive cinco boates. Hoje, se pagarem meu peso em ouro, eu não vou numa boate para receber uma encomenda! [risos] Não adianta... Adorava.

Matinas Suzuki: Mas o Dancin' Days teve um... Quer dizer, foi além de ser uma casa noturna, porque teve todo um comportamento... Foi um momento difícil...

Nelson Motta: Foi um momento da discoteca. O Dancin' Days ficou tão... O Dancin' Days durou quatro meses só. É porque era no shopping da Gávea e os caras me deram o espaço para promover o shopping da Gávea. De graça, aquilo. Então, fiz uma cooperativa com meus amigos, com disk jockey, com o Don Pepe e o Djal, produtor, segurança, todo mundo era sócio. Em quatro meses, todo mundo comprou carro, foi uma maravilha. [risos] E durou quatro meses só. Então, ficou uma lenda, aquilo, que... Todo mundo Iá, a Maria Bethânia – você imagina a Maria Bethânia dançando, Milton Nascimento de boné e tudo?–, dançando lá no Dancin' Days!

Marco Augusto Gonçalves: E elas [As Frenéticas] cantavam música do Gonzaguinha. Eu fui lá no shopping com uma música do Gonzaguinha.

[...]: Elas fizeram sucesso com uma música “Trem da alegria” [cujo título original é “A felicidade bate à sua porta”, de Gonzaguinha].

Nelson Motta: [cantando com voz rouca, agitando os braços] “O trem da alegria promete-mete-mete...”

[vários falam ao mesmo tempo]

Matinas Suzuki:
Virou novela com o mesmo nome, fez... Está na música ["Tigresa", que fala de uma mulher que "hoje dança no Frenetic Dancin'Days"] do Caetano, quer dizer, virou um...

Nelson Motta: A novela... A TV Globo comprou o nome. A TV Globo me comprou o nome. O nome era meu, “Dancin' Days”...

Matinas Suzuki: Que eu vi no México, chamando Dias de baile, durante a Copa de 86. [risos].

Nelson Motta: Então, a TV Globo comprou, me comprou esse nome, “Dancin' Days”.

João Wady Cury: Quanto ela pagou pelo nome?

Nelson Motta: Hã?

João Wady Cury: Como é que é feito, como é que você mede o valor de um nome como esse? Uma coisa que dura quatro meses?

Nelson Motta: Ih, eu vendi barato, isso. [risos]

João Wady Cury: Você lembra quanto foi, não?

Nelson Motta: Não... Me lembro que foi... É, foi uma besteirinha assim e... Envolveu acho que um disco, uma trilha sonora – do Dancin' Days, da boate– e acho que também envolveu uns espaços de publicidade. É uma graninha, uma mixaria. Mas hoje eu não faria esse negócio. Hoje, eles iam levar um hard time [isto é, teriam um trabalho duro] comigo, aí, para vender isso... Mas ficou um nome que nem Gillette, uma Brahma: na época, era Dancin' Days. O Daniel Filho [ator, diretor e produtor de TV] e o Boni [produtor de TV muito influente da Rede Globo] [disseram]: “Estamos estreando essa novela aí, só pode ser esse nome!” “Vamos vender, vamos fazer um achego, aí!” Ah, também fiz a música da novela! A música de abertura da novela é minha e do Ruban [Barra], um pianista muito bom do Rio. A música do [cantando] “abra suas asas...” é minha e do Ruban. E me encomendaram a música, me enrolaram ali, e foi, nesse troço.

Edgard Piccoli: É verdade que você, a princípio, queria as meninas [das Frenéticas] – isso acho que a Leiloca falou, não se se foi a Leiloca ou Sandra Pêra [membros das Frenéticas]–... que você queria, a princípio, as meninas para trabalhar como garçonetes...

Nelson Motta: Claro!

Edgard Piccoli: ...na discoteca e elas propuseram para você uma outra... “vamos além disso”?

Nelson Motta: Elas começaram, elas foram como garçonetes, então me chamaram – eu era casado com a Marília, a Sandra era amiga da Lidoca, da Leiloca–, chamaram, “ah! vamos fazer, a gente quer ser!” Ótimo, vão ser garçonetes, que ninguém tinha, e cantar alguma coisa. Cantavam três, quatro músicas. E foi um sucesso tão grande, pô! De repente, as pessoas iam ao Dancin' Days para ver As frenéticas!

Marco Augusto Gonçalves: Elas eram garçonetes.

Nelson Motta: Elas eram. Durante muito tempo, passavam bandeja o tempo todo, subiam no palco, cantavam e aí voltavam a passar bandeja. Enquanto durou o Dancin' Days...

Edgard Piccoli: Era um charme a mais, então?

Nelson Motta: Era um charme a mais.

Matinas Suzuki: Eu vi Caetano Veloso beijando Sônia Braga no Dancin' Days! [risos]

Nelson Motta: Sonia Braga ia muito, Caetano, Cazuza [(1958-1990) cantor e compositor de rock] tinha 16 anos.

Matinas Suzuki: Vi beijando!

Nelson Motta: Cazuza ia escondido lá no Dancin' Days. Era um lugar maravilhoso. Abriu com a Rita Lee. Rita Lee lançou [a música] “Arrombou a festa” na noite de abertura do Dancin' Days. Fez um show ao vivo, arrebentou, foi uma maravilha! E lançou “Arrombou a festa”.

Matinas Suzuki: Guga.

Guga Stroeter: Nelsinho, muitas vezes, quando a gente está conversando sobre música brasileira, vem uma sensação de que já foi muito bom e hoje não é tão bom. Eu queria saber o que você pensa disso.

Nelson Motta: Que a música brasileira já foi melhor?

Guga Stroeter: É, e... Se isso é um sentimento nostálgico, tem procedência ou é parte da psicologia coletiva que sempre houve.

Nelson Motta: Olha, o Chico [Buarque] falou uma coisa muito interessante e eu concordo com ele. Perguntaram a ele se a música brasileira estava melhor ou pior, em outros termos, assim. Ele falou que, além de termos os novos compositores todos, gente de muito talento que veio depois – tipo o Herbert Vianna, o Cazuza, o Lulu [Santos], a Marina [Lima] e outros mais jovens e as Marisas, os Ed Mottas, o Carlinhos Brown, o Gabriel até, tem esses novos todos–, ainda tem mais todos esses que faziam – o Gil, o Caetano, o Jorge Ben–, que continuam fazendo. Então, a música está melhor. Isso é a tese do Chico e que eu tenho a tendência a concordar com isso. Eu gostava mais do tempo... Eu tenho sentimentos nostálgicos em relação ao Rio de Janeiro dos anos 70 e tudo, que era muito melhor mesmo! Era mesmo! Muito melhor! E tudo era mais tranqüilo, mais alegre. Mesmo com ditadura, com tudo, era uma coisa... Também, nós éramos mais jovens, por isso é difícil você [saber] se você tem saudade do tempo ou se você tem saudade de você mesmo, né...? Então, eu não tenho... Eu vejo que os nosso grande nomes... Esse último disco do Chico Buarque [Uma palavra, de 1995] é extraordinário, um disco dos melhores, no nível dos melhores discos dele; esse disco do Gil, os dois últimos: o acústico e o Parabolicamará, fantástico; o Tropicália 2 [de Caetano Veloso e Gilberto Gil]; Jorge Ben Jor... Tim Maia! Um gênio, uma maravilha! Então, eles estão tão bons quanto os melhores momentos deles. Então, acho que nós não temos muito a reclamar.

Maria Amélia Rocha Lopes: Agora, Nelsinho, você é nostálgico também com relação ao futebol? Você cobriu várias copas do mundo...

Nelson Motta: Ah, sou! Isso mais do que tudo! Cobri sete copas do mundo.

Maria Amélia Rocha Lopes:
Você tem nostalgia de que seleção?

Matinas Suzuki: Não foi a do [técnico Carlos Alberto] Parreira, [pela qual] a gente brigou, lá... [risos]

Nelson Motta: Eu tenho nostalgia da seleção de 82, que é a minha favorita. Eu estava no México em 70. Assisti e acompanhei aquela década de 70 maravilhosa, aquela geração de ouro, realmente, era empolgante o futebol, era muito mais gostoso de ver. Mas a que eu tenho mais afeição, que mais me emocionou e tudo, foi a de 82 na Espanha. Aquela com Falcão, com [Toninho] Cerezo, Júnior, Zico. O jeito de jogar, porque dava show, era uma coisa... E acho que até ter perdido faz parte de ficar num lugar específico.

Maria Amélia Rocha Lopes: Virou mais mito, virou mais mito ainda.

Nelson Motta: Hoje em dia, eu acho, o futebol... Agora, melhorou um pouquinho.

[vários falam ao mesmo tempo]

Nelson Motta:
Melhorou bastante [desde] a Copa da Itália, que foi um dos piores futebóis do mundo. Eu odiei a copa de 90, na Itália, não só [por ser] ridícula a seleção do Brasil, mas tudo. Tudo era ruim, tudo era chato.

Maria Amélia Rocha Lopes: E a de 94 também, você odiou?

Nelson Motta: Não, 94 não odiei. 94 tinha... O time do Brasil teve bons momentos e tinha... Graças a Deus que a Argentina, aconteceram as coisas [o Brasil perdeu para a Argentina nessa copa], porque senão... senão, a coisa ia ficar dura, porque era um timaço! A Argentina era um timaço e jogava bonito, para a frente. A Nigéria era um time legal. Romênia jogava bacana. Essa copa teve bons momentos, muito bons momentos. Até a Itália teve bons momentos, também a Itália, a seleção italiana.

Matinas Suzuki: Infelizmente, nosso tempo está acabando. Eu gostaria [de] que você contasse um projeto que você tem, algum... Como é que anda o projeto que há anos você está para soltar e não solta, que é o esperado livro sobre [o cineasta] Glauber Rocha?

Nelson Motta: Desta vez, como dizia o velho Adhemar de Barros [(1901-1969) governador de São Paulo de 1947 a 1951 e de 1963 a 1966]: [imitando, rouco, a voz de Ademar de Barros] “Desta vez, vamos!” Vou. Agora eu vou ter um mês de férias em agosto, vou passar na Bahia, porque me faltam ainda algumas entrevistas, coisas que eu quero aperfeiçoar e, depois, vou escrever em Nova Iorque. Já estou no meio, quase, do livro. Aguardem. Chama-se A primavera do dragão. Já foi anunciado, torçam por mim. É uma versão romanceada da juventude do Glauber até ele, com 24 anos, fazer [o filme] Deus e o diabo na terra do sol e ser premiado [no festival de] Cannes. E aí tem o golpe de 64 e o meu livro termina aí, porque eu não quero me envolver em coisas tristes. Eu quero, ali, a juventude do Glauber, a “primavera do dragão”. Glauber Rocha com 18, 20 anos, histórias de que vocês vão morrer de rir.

Matinas Suzuki: Nelsinho, muito obrigado pela sua presença. Eu gostaria também de agradecer à nossa bancada...

Nelson Motta [interrompendo]: Obrigado a vocês todos! Para mim...

Matinas Suzuki:
...de entrevistadores, agradecer a atenção do nosso telespectador e lembrar que o Roda Viva estará com vocês de volta na próxima segunda-feira, às dez e meia da noite. Até lá! Uma boa semana para todos!

 
Sobre o projeto | Quem somos | Fale Conosco