Memória Roda Viva

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Arrelia

4/1/1993

"Falta a gargalhada. A criança não ri". Com essa crítica à TV moderna, Arrelia conta sua trajetória, do picadeiro aos estúdios da televisão, e fala sua luta para manter a tradição circense

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Jorge Escosteguy: Boa noite. Quem disser que a televisão brasileira muitas vezes é um reduto de “palhaços de cara lavada” não está muito longe da verdade. Mas, a televisão também já foi um dos domínios do palhaço de cara pintada, os palhaços legítimos, verdadeiros, engraçados, que encantavam as manhãs e as tardes de muitas crianças brasileiras. A vida e suas implicações, como se diz, foram tomando espaço desses artistas; eles ficaram por aí mambembando, viajando, sobrevivendo. No Roda Viva que começa agora pela TV Cultura de São Paulo, nós vamos conversar um pouco com um símbolo desses artistas de circo, um símbolo dos palhaços alegres de cara pintada. No centro da roda está sentado, nesta noite, o palhaço Arrelia. Arrelia nasceu Waldemar Seyssel, no Paraná, há 87 anos. Não dá para contar quantas viagens ele já fez com o circo, mas sabe-se que ele teve 20 anos de sucesso na televisão, junto com o sobrinho, Pimentinha, e fez 18 filmes. É casado há 49 anos com Dona Arlete, tem quatro filhos, dez netos e seis bisnetos. Toca flauta, concertina, saxofone e está aprendendo órgão. Também formou-se em direito pela respeitável Faculdade de Direito do Largo São Francisco [USP], mas sempre achou que como advogado seria um palhaço. Formou-se em direito a pedido da mãe. A paixão ele herdou do avô, um nobre francês, que largou tudo para casar com uma dançarina de um circo alemão que passou pelo “condado de Seyssel”. Ali nasceu a dinastia circense, que chegou a São Paulo em 1913, e nos deu o talento de Arrelia. Lembramos que o Roda Viva também é transmitido pela TVE da Bahia, pela TVE do Ceará, TVE do Piauí, TVE de Porto Alegre, TVE do Espírito Santo e TV Minas Cultural e Educativa. Para entrevistar esta noite no Roda Viva o Arrelia, nós convidamos: Luciano Amaral, ator do programa Mundo da Lua da TV Cultura; Décio Piccinini, jornalista do Sistema Brasileiro de Televisão [SBT] e do Shopping News; Maria Teixeira de Mello, repórter do Jornal da Tarde; a escritora Tatiana Belinky; Teresa Cristina de Barros, repórter da TV Cultura; Murilo Antunes Alves, repórter da TV Record, e Luiz Otávio Burnier, professor de artes cênicas da Universidade de Campinas [Unicamp]. Como o Roda Viva de hoje foi gravado, não haverá perguntas pelo telefone. Boa noite, Arrelia.

Arrelia: Boa noite.

Jorge Escosteguy: Sem nenhuma nostalgia ou anacronismo, eu gostaria de perguntar a você como você vê hoje os programas infantis na televisão, o que você sente lá dentro, no seu peito?

Arrelia: Nesses programas infantis eu vejo beleza de moças lindas, bailarinas, cantoras que se movem com graça. É uma programação bonita através da Xuxa, da Angélica, e outras moças bonitas também. E vejo que a criança trabalha pura... Mas eu acho falta em uma coisa, sabe qual é? A gargalhada. A criança não ri. A criança não ri. Eu acho que é uma necessidade que a criança deve ter de rir. Porque a criança já nasce rindo e chorando, são duas qualidades que ninguém tira da criança. Ela não rindo, falta uma qualidade.

Jorge Escosteguy: Eu queria registrar uma chegada agora de outro convidado no Roda Viva, que vai nos ajudar a entrevistar o Arrelia, que é o Aimar Labaki, crítico de cinema e televisão da TV Bandeirantes. Agora, quando você faz essa constatação dá uma certa mágoa, uma certa tristeza, vamos dizer assim? Você, que fez tanto sucesso na televisão, eu me lembro de tê-lo visto muitas vezes na televisão, junto com o Pimentinha, na época que tinha o Torresmo, o Carequinha, etc?

Arrelia: Eu acho que a TV progrediu muito, tem grandes espetáculos, grandes programas. Mas eu acho que, não sei se eu sou daquela época antiga, de fazer "cruz credo" [faz o sinal da cruz] quando vê uma coisa errada, então eu vivo fazendo, quando assisto a TV uma porção de "cruz credo" toda hora, fico com o braço cansado de fazer "cruz credo" [risos]... Porque eu acho que a criança de hoje ela vê coisas que não devia ver. Vocês sabem disso.

Jorge Escosteguy: O quê, por exemplo? O que é que ela não deveria ver, por exemplo? As pernas da Xuxa, por exemplo?

Arrelia: Assalto à mão armada, assassinatos, drogas, tomando drogas, matando um ao outro, brigando, pelados em cima de uma cama, me desculpem... Eu acho que isso já é uma afronta à sociedade. Não é só a TV, é o cinema, o próprio teatro, que é uma arte pura, ele está precisando disso por quê? Todo mundo quer ganhar dinheiro, então se esquece da própria decência para ganhar dinheiro.

Teresa Cristina de Barros: Quando eu era pequena, eu não perdia o Circo do Arrelia. O senhor acha que as crianças de hoje perderam essa magia do circo?

Arrelia: Não, perderam porque não dão. Então tem que perder. Você perde até o hábito de beber água, se deixar de tomar água. Então, eu acho que é a falta de bom circo. Você sabe por quê?  Muita gente pergunta: "o circo está morrendo, Arrelia?". E eu falei: "ele não está morrendo, ele modificou-se". Ele se retraiu, por diversas coisas. A começar, nós tínhamos visitas aqui de grandes circos, que vinham aqui: Sarrazani, o Arrembeki (que era mais de zoológicos), o Circo de Moscou, o Circo Americano, circos argentinos, bons, vinham aqui. Mas eles não vêm mais, porque eles pagam artistas a dólar, a ouro lá fora, e vem receber aqui em cruzeiros, tenha paciência... Não vêm mesmo, pagando em cruzeiro não vêm.

Jorge Escosteguy: Pegando essa questão da criança, o senhor, além de todas essas coisas que eu mencionei aqui, o senhor também é escritor, escreveu alguns livros, o último deles é esse: O menino que queria ser palhaço (1992). Você ainda acha que, no Brasil, ainda há crianças que queiram ser palhaços de circo? 

Arrelia: Tem. Tem porque criança que vai a um circo, se não levantar um circo no quintal da casa dele, é porque ele não tem casa. Então mora em apartamento, não pode levantar um circo. Mas a primeira coisa que ele se apaixona é pelo palhaço, que é a coisa que remete a ele uma coisa engraçada, que ele ri, que ele vê, ele se assusta, mas fica atento, olhando, então, é uma figura que chama a atenção da criança. Então, a criança precisa daquilo que ela gosta. E tirando isso, ele vai para outras coisas. Então, ele vai ver assassinatos, ele levanta da cama para ver uma cena, depois de tantas horas, uma cena pornográfica, sexo... Isso eles tão muito... Lá em cima.

Aimar Labaki: Essa criança que tem vontade de ser palhaço e levantar o circo, como ela faz? Quer dizer, circo se aprende na escola? Segundo, tem escola no Brasil? Quer dizer, a criança que estiver vendo você na TV hoje e quiser seguir o seu caminho, o que você diz para ela?

Arrelia: Olha, aqui tem diversas escolas. Tem uma nos Jardins [bairro de São Paulo], o Circo Picadeiro, particular agora... A prefeitura parece que agora tem um circo. O estado também tem. Mas não há um progresso nessas escolas. Os professores que estão ensinando, talvez, não tenham a cultura que tem um professor da Inglaterra de circo, da França, da América do Norte, e de outros. Então, eles estão ensinando aquilo que eles aprenderam, então, estão passando para esses alunos jogar três bolinhas, três garrafinhas, não dá para trazer público... E não dá para levar artistas daqui para fora. Eu fui um dos que mandei mais artistas para fora, na minha época, porque eu dizia: "vai fundo". “Com esse número que você fez”. Tinha um brasileiro que fazia um número “percha” - como nós chamamos - é aquele número de bambu no ombro que um sobe e tudo... E subiam quatro, e não um. Aqui no Brasil é um com muito sacrifício correndo...muito sacrifício, corriam e tal... [risos]. [Nesse número], subiam quatro, dois em cima, e outro no meio jogando objetos e fazendo acrobacias. Esse homem saiu daqui e foi para lá, me mandou cartas e disse: "olha, você fez a melhor coisa do mundo para mim, eu te devo a minha vida, eu estou aqui agora aposentado”. Tem uma cidadezinha perto de Miami, onde todos os artistas de circo aposentados moravam lá. E até empresários, agora, tem empresários brasileiros morando lá também. Ganharam o dinheirinho deles aqui e agora oh, vão para outro lugar.

Luciano Amaral: Arrelia, voltando ao assunto: você falou que as crianças...

Arrelia: Fala mais alto, por favor...

Luciano Amaral: ...voltando ao assunto...

Arrelia: Não, fala mais alto...Mais alto, você fica de pé que você fica mais alto....

[Risos]

Luciano Amaral [sorrindo]: Mas voltando ao assunto, você disse que a criança se apaixona pelo palhaço, e você acha que o palhaço, hoje em dia, atrai tanto as crianças como antigamente?

Arrelia: Olha, se ele não atrai mais também é porque entrou muito progresso nesse assunto de aniversários em casa de família. Antes era o palhaço que mandava nesses shows... Hoje não, há outros que são palhaços também que se enfiaram, mas não são profissionais de circo, são profissionais de festas... Então, o palhaço ainda é chamado. Eu sempre sou chamado. Mas não vou, por diversas razões, não tenho mais a mesma elasticidade que eu tinha, com a idade que eu tenho. Naquela época eu levava um segundo para cair e outro para levantar. Agora, eu levo uma hora para cair e duas para levantar, e olha lá... [Risos] Então, os pais também mudaram para também mudar um pouco também a feitura da festa na sua residência, então hoje eles contratam uns grupos que cantam nessas bandas de rock, e vão paras as festas. Quer dizer, tiraram o palhaço também. Mas o palhaço está sempre lá, se ele não estiver lá, está na frente de uma loja ali na ladeira do... Carmo. O palhaço sempre está aí. Eu vejo sempre os programas, principalmente do Silvio [Santos, empresário, dono do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) e apresentador de programa dominical que faz sucesso há décadas na TV brasileira], ele sempre põe uma atração circense, uma boa atração circense de bom circo. Isso é garantido, e é aplauso geral.

Tatiana Belinky: O circo está fragmentado, aparece um pedacinho aqui, um pedacinho ali, mas o grande circo, onde ele está? Eu, quando cheguei ao Brasil, eu tinha 10 anos, Waldemar, eu tinha 10 anos e tinha visto circos russos, maravilhosos... E aqui encontrei um maravilhoso, o Piolim...que era grande. Você estava também.

Arrelia: Piolim, foi... Na época dele foi... Eu trabalhei com ele...

Tatiana Belinky: O primeiro que eu vi aqui foi o Piolim. Eu fiquei deslumbrada. Agora, eu queria fazer-lhe uma pergunta, mais ou menos técnica: como você definiria o verdadeiro e bom humor infantil? Eu falo isso porque eu escrevo para crianças, porque eu escrevi muito para crianças e eu tenho uma idéia sobre isso.

Arrelia: A meninada de hoje, talvez goste porque aprendeu, de uma piada picante, de uma piada meio pornográfica, a criança ri, principalmente o menino. E se esborracha de rir. Mas na nossa época, não. Eles gostavam mais daquela correria, daquele pega, aquelas apostas. Então aí entrava o senso do palhaço e da criança, um recebia do outro, então havia gargalhadas.

Tatiana Belinky: Uma troca?

Arrelia: É. Então cada pontapé que o palhaço desse, era uma gargalhada, quer dizer... Mas o pontapé hoje está tão ocupado na rua que já ninguém acha mais graça...

Murilo Antunes Alves: Arrelia, nós nos conhecemos há mais de meio século. Só na Record trabalhamos mais de 20 anos, 21. Uma pergunta que já me acudiu ao espírito várias vezes, mas nunca formulei, vou formular agora: todos nós sabemos que você freqüentou a nossa faculdade de direito, formou-se advogado, não sei se inscreveu na Ordem [dos Advogados do Brasil], mas inscrevendo-se ou não, o que o levou a trocar a barra dos tribunais pelo picadeiro do circo?

Arrelia: Por duas razões: eu não queria ser advogado, queria ir para América do Norte fazer filmes. E meu pai me dizia: "não, você vai me substituir, porque eu já estou velho". E eu disse: "não, pai, me deixe ir para a América do Norte, eu quero fazer filme, eu vejo aquelas boazudas lá beijando todo mundo... Como é que eu não vou beijar?".  [Risos] E ele disse: "não, você fica". E minha mãe queria que eu fosse advogado. Eu fui, para fazer a vontade dela, eu fui estudar. No ano em que eu ia desistir, ela falece, fiquei na obrigação de lhe dar uma homenagem póstuma. Mas não, eu não me registrei na Ordem, portanto não sou advogado, sou apenas bacharel. E bem baixo.

Marina Teixeira de Mello: Arrelia, como você levava essa vida universitária junto com o circo? Você conseguia levar essa vida de estudante de universidade ao mesmo tempo trabalhar no circo? Como foi isso?

Arrelia: Não, eu não trabalhava no circo naquela época. Mamãe era muito doente, eu era o acompanhante, porque o circo tinha que viajar, então, eu acompanhava minha mãe, até o falecimento dela. Então eu fiz lá o que pude e voltei para o circo. Ai meu pai me pegou, quase que à força, ele e meus manos, me balançaram, me puseram uma careca, me puseram batom no rosto, uma bengala de uma tonelada embaixo do braço, uma lancha que eu não podia nem andar, as luvas então, que eu não podia nem pegar meu nariz, porque não dava, balançava na porta do picadeiro, e me jogaram no picadeiro. E eu, por azar meu, eu caí em cima da bengala que era grossa e me machuquei. Fiquei gemendo: “ai, ai, ai”. E o povo começou a rir. E eu pensei: não é que eu estou agradando? Aí comecei, dei um pontapé em um coitado de um pretinho que estava ali embrulhando um tapete, eu acho que peguei mal, porque ele estava de costas para mim, esse pretinho virou os olhinhos para mim e reclamou, passou a mão em um pedaço de pau, sempre um pedaço de pau está desocupado no circo, e ele veio, e eu corri. E o caboclo gritava lá: "corre, palhaço, que ele te pega!" E eu corria e ele gritava: "Paulo, Henrique" - meus irmãos - "segura porque o negócio é sério". E todos morreram de rir. E eu entrei cortina adentro, lá seguraram o pretinho e eu virei bicho... Nas cortinas... Cada palavrão que o pretinho falava... E eu respondia e o outro... E o povo morrendo de rir lá fora. Aí acabou, acalmaram o negócio, o meu pai veio e bateu no meu ombro e disse: "é você mesmo, meu filho...".

Décio Piccinini: Arrelia, há alguns anos, logo depois do plano Funaro [refere-se ao Plano Cruzado I, lançado por Dílson Funaro em 1986, ministro da Fazenda durante o governo Sarney (1985-1989)], você deve estar lembrado, eu fiz uma entrevista com você, com o Torresmo, com o Carequinha, com os palhaços mais tradicionais, uma espécie de uma enquete perguntando a vocês: este é um país sério? O Brasil é um país sério? E a resposta do Carequinha, eu me lembro que foi muito política. A resposta do Torresmo já foi um pouco mais séria. E a sua foi muito amarga, a sua foi a seguinte, eu lembro até hoje, que eu publiquei isso. A sua foi que: "um país que não tinha o menor respeito pelos idosos, que não tinha o menor respeito pelas pessoas que ajudaram a construí-lo e que não tinha a menor memória, artística ou cultural, não podia ser um país sério". Isso alguns anos atrás, no governo Sarney. E eu pergunto: hoje, mudou o Brasil, mudou a sua opinião, ou continua tudo a mesma coisa?

Arrelia: Olha, eu vou responder sobre o que você está perguntando. Politicamente não. Eu acho que sobre essa opinião sua... ou minha opinião na ocasião, eu acho que o Brasil ainda não saiu do atoleiro. Ainda permanece. É preciso que alguém venha, tire o pé, nem que fique a bota lá embaixo, no atoleiro, que o pé saia limpo, então eu tenho agora fé. Mas uma fé ferrenha nessa juventude que vem. Não esses que estão saindo da juventude, esses que vêm atrás, que viram o sofrimento dessa juventude pelo rock, maconha e de outros vícios e não querer... O Deus deles, hoje em dia, ainda é o de muitos empresários, o Deus deles é o dinheiro. Então, o credo do povo desapareceu. Eles não têm compaixão, o Deus deles é esse. Eu só tenho um Deus: o amor. Porque Deus é amor.

Jorge Escosteguy: Você falou em vários vícios e citou o rock. Você acha o rock um vício? Uma coisa ruim para juventude?

Arrelia: Eu acho ruim para a nossa música. Ele combate a nossa música dentro do nosso país. Então, porque que não fazem isso lá com os americanos, com o nosso samba, com as nossas marchas carnavalescas, de marchas-samba? Tem músicas lindas, eu tinha um compadre chamado Hervé Cordovil, Hervé Cordovil tinha cada marcha que era uma coisa... Mas ninguém tomava conta disso e ele foi murchando. Acaba murchando. Acaba a vontade de progredir, de produzir porque não é levado a gastos, à compra. Então eu acho que o rock é uma música americana. Eu não toco. Eu não toquei na minha flauta... também não no meu violão mal tocado... Eu não toco nem no meu órgão, também não tenho mais elasticidade no dedo para tocar rock. Mas eu acho que a única coisa que eu aponto é que é contra a nossa música, é por isso.

Teresa Cristina de Barros: Qual foi a última vez que o senhor vestiu a fantasia de Arrelia? De palhaço?

Arrelia: De Arrelia, a última vez? Eu quase não visto, eu quase não pinto o rosto, e quando pinto é a única coisa que eu tenho para vender é o Arrelia, coitado, é meu escravo. Então eu só faço isso quando for muita vontade de um fã meu, que tem uma casa e é casado e tem dois filhinhos e tem loucura para que os filhos me conheçam, e há insistência dele... Aí eu vou. Agora, fazer shows, cobrar, o que muitos me dizem: "Ah, mas eu contratei fulano por tanto". E eu digo: "então é isso, meu filho, é o que eu estou fazendo, se eu tirar o pão da boca desse coitado que está ganhando para comer... eu não sou rico... vocês já viram algum dia um palhaço rico? Não, não tem. Tem palhaço...

Jorge Escosteguy: Tem outro tipo de palhaço muito rico, mas enfim, é outra história...

Arrelia: Então, eu não vou a shows por isso. Fui há uns três meses atrás na casa de um amigo, ele disse: "Arrelia, você leva o seu livro porque eu vou vender o seu livro". E eu falei: "é já!". Fui para lá, ele vendeu... Eu nem vou falar o quanto ele vendeu, eu fiquei até me babando todo. Acabou o que eu levei! E depois ele me dá um envelope. Isso me doeu, ele me dar um envelope, depois de ter me dado um serviço de venda do meu livro, O menino que queria ser palhaço, que eu estou lançando agora, e me deu o envelope e eu fiquei: puxa vida, eu só ganhei isso em Las Vegas. Eu fiz uma exibição na TV de Las Vegas...

Jorge Escosteguy: No jogo ou no palco?

Arrelia: Foi na... Depois eu conto a história de Las Vegas.

Tatiana Belinky: Arrelia, você não é mais humorista do que palhaço? Eu acho que você sempre foi um palhaço muito elegante...

Arrelia: Sabe o que aconteceu? Eu, quando entrei, quando eles me apontaram como um palhaço de circo, eu falei: "é muito bom, entra uma figura dessas, dar uma gargalhada ao povo". E a continuidade? Eu tenho que ter continuidade: pegar todas as piadas antigas, que o povo já conhece, também não vai ficar bem. Então eu comecei a trabalhar o tipo, pensar, estudar, no espelho e compor um tipo assim mais sociável, um tipo mais afastado da sociedade, mas ele vive dentro da sociedade, o tipo do Arrelia...

Tatiana Belinky: Faz um humor verbal, gestual, mas não tanto aquele humor de trambulhão...

Arrelia: Eu precisava de um rosto melhor de palhaço que era para poder beijar as namoradas, ter as namoradas...

Tatiana Belinky: O nariz atrapalhava?

Arrelia: Não, não atrapalhava. Eu não tinha um “narizão” que atrapalhava o beijo, não tinha muito lábio pintado, que atrapalhava também.

Tatiana Belinky: Agora está explicado...

Arrelia: Então eu fiz esse tipo. Depois eu fiz filmes com o tipo do Arrelia, mas bem mais separado da pintura ardente do rosto, queimando. Um tipo da cabeleira mais ou menos, com os traçinhos acompanhando mais ou menos o Arrelia, e deu sorte. Você sabe que eu fiz cinco filmes com essa caricatura.

Tatiana Belinky: Eu me lembro.

Luiz Otávio Burnier: O Arrelia nunca quis ensinar? Passar para frente o que ele aprendeu no picadeiro para aqueles que querem também fazer palhaço?

Arrelia: Eu gostaria disso, havia até uma escola. Mas se eu fosse ter uma escola, iriam me chamar de pedante, os meus colega,  porque eu ia fazer contra eles, que eles já estavam cimentados naquilo que eles faziam; eu ia provocar uma mudança. Então eu estava provocando a derrota deles. Eu senti isso porque eu ensinei duas ou três duplas, que não eram também profissionais nem de TV, nem de circo. E eles fizeram sucesso. Eu tomei telefonema - "Agora você é contra nós, também, seu vagabundo?". Mas não diziam quem eram. Então, não recebi o "vagabundo".

Décio Piccinini: Arrelia, me dá só uma informação. O palhaço da sua época... Na sua época, não é a minha época de vê-lo, mas de assisti-lo, eu tenho 47 anos, ele tinha uma caracterização quase que uniforme. O Torresmo, por exemplo, usava aquele nariz de batata. E todos eles, de uma forma geral usavam um nariz de batata. E você usava um nariz de Cyrano de Bergerac. Por que isso? Pela galanteria do Cyrano, é pelo lado romântico? É por aí?

Arrelia: Já em uma expressão diferente, que eu estava ensinando os palhaços que tirassem aquela fita, porque a criança é muita esperta, tinha aquele elástico que prendia atrás da cabeça, e eu escutei isso vendo circo, sendo convidado, assistir uma estréia, e coisa e tal. E perto do camarote que eu estava a criança manifestava: "isso não é palhaço, isso é homem; olha lá, está amarrando o nariz". Então eu nunca usei. Então eu criei o meu tipo de nariz. Era uma massa teatral feita para deformar a feitura do rosto, então essa máscara também serve para nós de circo. Eu trouxe da América, dei para diversos palhaços, nunca usaram. 

Murilo Antunes Alves: Arrelia, só uma perguntinha. Eu vou desdobrar minha pergunta em duas partes. Primeira é só isso: afinal de contas, como surgiu o nome Arrelia?

Arrelia: Isso é porque eu devo ter sido um ótimo menino, um garoto muito amável, que tratava bem os meus primos, eu não batia nos meus primos [risos] E os meus tios não ficavam zangados, só corriam atrás de mim para me pegar. Então, um dia eu bati em um primo meu e veio o meu tio, pai do menino: "seu sem vergonha, eu te pego". E estava perto e eu não podia virar as costas que ele me pegava. Então, eu passei por debaixo das pernas dele e dei um tombo no meu tio. Ih, ele ficou... E eu ficava de longe [provocando com caretas] lá da esquina. E ele louco da vida, não podia fazer nada. Então, ele xingava: "você é um arrelia, onde você entra é uma verdadeira arrelia, isso não é brinquedo, ouviu, seu arrelia". E eu fiquei bravo: "arrelia, é...". Eu não sabia o que era arrelia. Eu achei que era um palavrão. E eu fiquei queimado com os meus primos, que me chamavam de arrelia ,de longe, e eu corria atrás deles com pedras e tal. E pegou o nome Arrelia em família. Quando eu me tornei palhaço, eu achei que era interessante um nome curto, Arrelia, que servia bem para um palhaço comprido.

Burnier: O palhaço Arrelia foi... Na época que surgiu o Arrelia era muito comum o Chicharrão e o Piolim, serviam como modelo de palhaços da época, e o Arrelia não seguiu esse modelo. O Arrelia seguiu um caminho muito particular e muito dele. Como foi a construção do Arrelia?

Arrelia: Olha, eu vi Chicharrão, vi Piolim. Piolim foi o rei na época dele. Antes de Piolim, foi Chicharrão, antes de Chicharrão foi  [...], cunhado de Chicharrão, espanhol. Foi quem trouxe os irmãos Queirolo [circo irmãos Queirolo] para o Brasil. E ele era o palhaço do elenco. E eu observava no Piolim muito humorismo, muita graça, mas achava ele meio picante. Aquela bengala, eu morria de rir, todos os adultos, e não saia debaixo das pernas dele... E as piadas deles eram meio macarrônicas, picantes. Macarrão picante é ardido na boca. Então eu achava que esse tipo para mim não serve, não vou seguir. O Piolim era quase uma cópia do Chicharrão, pegando todo o material que o Chicharrão deixou, porque o Piolim entrou no lugar do Chicharrão na briga dos irmãos Queiroz, e os dois brigaram, não sei porque, e o Chicharrão se apartou da família. Então o pai do Piolim, que era o diretor, o empresário do Circo Queiroz, disse em uma reunião: "olha, agora ficamos sem palhaço, que palhaço nós vamos pôr aqui?". Aí o pai do Piolim disse: "olha, eu tenho o meu filho, o meu filho fazia palhaço, chamava-se Careca". "Então vamos pôr". Aí entraram, escolheram o tipo que serviria para o tipinho do Abelardo Pinto, que era magrinho, então escolheram e os Queiroz disseram: "não vamos pôr Careca, não tem graça, é uma expressão 'careca'. Chega a marcha “é dos carecas que elas gostam mais”, foi uma marcha que teve um grande sucesso, e não pegou o Piolim, que era careca, ele era muito mais velho. Então eles puseram o nome de Piolim: é barbante em castelhano. Então ficou Piolim, e pegou porque ele era fininho. Ele vestia umas calças estreitas e o sapatão grande aparecia bem. Então ficava um tipo engraçado. Ele entrava e o povo morria de rir.

Jorge Escosteguy: Ele acabou não respondendo a pergunta: como você construiu o seu personagem...

Arrelia: Eu tirei conclusões que para mim não servia aquela escola deles, então eu tive que criar uma escola, acompanhar o meu pai. O meu pai já tinha ficado no passado também. Eu não ia lançar uma coisa nova no presente de uma coisa do passado. Então eu comecei a estudar que eu ia mudar o tipo. Quando eu falei que ia mudar o tipo, meu pai quase me bateu. E eu falei: “mas precisa mudar, papai, o circo também precisa mudar". E o circo mudou. E eu vou lhe responder aonde está o maior circo do mundo. Então eu fui estudando e cheguei a um apurado de que ele servia, que não assustava a criança, aquela cara não dava para assustar ninguém, nem assombração ele assustava, e assustar criança não dava. Então ficou aquele tipo do Arrelia.

Luiz Otávio Burnier: Sempre os palhaços, normalmente, eles funcionam em dupla, um palhaço que é o mandão, comumente, e aquele que é mais bobo... Que é o caso do Arrelia.

Arrelia: O palhaço vindo da Europa, que tem o clown que tinha aquele cone, chapeuzinho, o rosto branco, roupa de paetês, seda, veludo, Henrique, que me acompanhava, ele tinha esse tipo. Então é o inteligente do terreno. E veio depois o Pimentinha, que era a segunda escada, também companheiro do inteligente. E vinha depois o truão, o bobo do rei, que era o que dava os desfechos, sem saber que estava dando o desfecho feliz, ele dava e ganhava a aposta dos outros. Então esse é o tema. Mas, na Europa, são mais de cinco, seis palhaços em um tempo só, é uma banda. Eles não falam. São músicos de instrumentos engraçados. Eles fazem o povo morrer de rir com música, tocando "La Traviatta", coisas já conhecidas, que eles entravam em correria e paravam e saiam para uma valsa e voltavam para a coisa e o povo morrendo de rir. Veio uma dessas bandas com o circo no Ginásio do Ibirapuera, um que foi mágico e trouxe o circo aqui... Tem hora que eu não lembro nem meu nome, tem hora que me falta [Risos]. Então, trouxe uma banda assim parecida. O povo no ginásio morreu de rir, e eu também, tirei o paletó porque eu estava suando de tanto rir, e também fazia calor. Então, eu vi a banda e o que eles fizeram lá, de músicos palhaços. Um outro gênero, diferente desse comum nariz achatado, nariz seguro, amarrado...

Murilo Antunes Alves: Ficou no ar uma pergunta, se me permite regressar. Se eu fizesse trocadilho, como o senhor disse que o senhor é "barbante", quando escolheram o nome tinha gente como "corda", né? Mas o importante não é isso. Eu queria fazer uma pergunta sobre o futuro do artista no Brasil. O Arrelia sempre teve o “spirit corp”, sempre ajudou os companheiros. Deixe eu fazer essa revelação. Inclusive, eu achei no meu arquivos uma foto, de 1947 [mostra a foto], quando houve um baile em benefício da Casa dos Artistas [instituição beneficente que abriga artistas velhos e sem recursos]. Nesta foto aparece você, que foi coroado rei, a Isaura Garcia [(1919-1993) cantora, começou a carreira no concurso na rádio Record, em1938, e fez seu primeiro disco "Chega de tanto amor" em 1941], ao centro, foi coroada a rainha dos artistas, e do outro lado está o Manoel de Nóbrega [(1913-1976) ator e humorista de grande importância para o humor de rádio e de TV. Criou programas como Cadeira de barbeiro e A praça da alegria], e eu estava radiando essa solenidade, realizada no Coliseu. A pergunta é esta: com o passar dos anos, hoje o artista circense no Brasil já ganha o suficiente para não morrer de fome, pelo menos na velhice?

Jorge Escosteguy: Só para complementar, eu tenho uma pergunta do pessoal da platéia, alguns artistas de circo, alguns palhaços aqui presentes, é o palhaço Piruleta, ele inclusive mandou aqui o talão de cheque dele para dizer que ele é o único palhaço que tem um cheque personalizado. Ou seja tá escrito aqui “Palhaço Piruleta” e ele assina aqui palhaço Piruleta.

Arrelia: Está assinado?

[Risos]

Jorge Escosteguy: Não, não está assinado, é um cheque em branco, precisa ser assinado depois... ele pergunta o que você acha disso e tá ligado com a pergunta que o Murilo fez para você.

Murilo Antunes Alves: Dá para ganhar para não morrer de fome?

Arrelia: Dá. Dá para os melhores circos. Não são grandes como eu acabo de citar. Eu vi na América do Norte o Ringling  [Ringling Brothers Circus] três picadeiros, duas plataformas e uma pista em volta. Armava a lona dele, cabiam 25 mil pessoas. É um estádio, então ele tinha de contratar grandes atrações que não falam. Tudo mímica. Era, naquela época. Então, o que acontece aqui no Brasil? Os que eu chamo de médios circos bons: Garcia, Bartollo, Queirolo que está no Norte que diz que não vem para cá, porque ele diz que abre falência. Eu disse: por quê? Ele disse: a vida está mais barata do que aqui e outros elencos que eu não me lembro agora. Esses artistas que são contratados têm muito estrangeiros também lá dentro [e] têm brasileiros. Eles montam um espetáculo de ballet com música folclórica e cantos. Else formam uma espécie de, como se diz, de uma revista digamos, não é totalmente um circo. Não é um espetáculo de circo com acrobacias e grandes acrobatas, não, mas é um espetáculo que pode se ver

Jorge Escosteguy: Bom, então nós vamos fazer um rápido intervalo. O Roda Viva volta daqui a pouco entrevistando hoje o palhaço Arrelia.

[intervalo]

Jorge Escosteguy: Voltamos com o Roda Viva que esta noite está entrevistando o palhaço Arrelia. Lembramos aos telespectadores que infelizmente não podem fazer perguntas por telefone porque o programa foi gravado. Arrelia, no primeiro bloco você deixou algumas coisas para depois. Eu vou pedir a você que comece a contar agora. Você queria contar uma história que aconteceu com você nos Estados Unidos, quando você fez uma apresentação. E, ao mesmo tempo, eu pergunto se você, ao mesmo tempo, não teria a oportunidade de morar e trabalhar no exterior, ou se nunca quis morar e trabalhar no exterior, como o colega seu que o senhor citou.

Arrelia: Olha, fora do Brasil eu só trabalhei em Las Vegas, na TV de Las Vegas. Por pedidos eu fui visitar a Leny Eversong, e ela era um sucesso, ela era americana, vi um homem ajoelhar-se na frente e beijar a mão da mulher e fazer salamaleque para ela. Ela era um assombro, não conhecia uma frase em inglês, e cantava em inglês que era uma maravilha, a mulher. Bem, eu mandei um cartão para ela, fui esperar pelo garçom, para dizer que eu queria vê-la. Ela subiu já me procurando, dizendo que era minha amiga, minha fã, e quando acabou o número, ela veio correndo e sentou-se ao meu lado. E começou a conversa e aí chamou o gerente do hotel e me apresentou, e o americano gosta de propaganda, na casa que ele trabalha ele gosta de propaganda, chamou dois jornalistas. Eu e ela prestamos uma audiência à imprensa, ela falando de mim e eu falando dela, o meu inglês macarrônico, se eu falar italiano é melhor do que falar inglês, e demos a entrevista. Vieram os jornais no dia seguinte. E quando foi à noite, veio a rádio de Las Vegas me pedindo também uma entrevista, porque queriam conhecer, muitos sabiam que estava lá, e fomos lá, fomos à rádio e demos uma entrevista, eu e ela. Foi muito bem. No dia seguinte, veio um gerente da TV de Las Vegas e disse: "nós queremos uma entrevista de vocês". E demos a entrevista e tal. No dia seguinte, a Leny veio para o Brasil. E eu fiquei lá por mais três dias. Aparece o gerente e diz: "olha, senhor Arrelia, o senhor vai me desculpar, mas eu estou tomando telefonemas me perguntando como é o Arrelia. Falaram tanto que eu falei: "olha, eu não trouxe nada de roupa, nem de pintura, e nem cabeleira". E ele disse: "não se incomode, o senhor me dá uma fotografia, o senhor tem?". Por sorte eu tinha, eu estava levando duas ou três fotografias para amigos meus que moram lá. Aí, peguei uma e pensei “um amigo vai ficar sem fotografia”. Dei para eles e ele disse: "exatamente isso que está aí o senhor vai receber, e qual é o cenário?". Eu falei que o cenário era um canto do cassino que eu vou fazer uma entrada de um americano, um turista, que vai jogar, que acaba com o bolso para fora, bêbado, fumando charuto, tudo à custa do cassino. Mas sai pronto. E depois a mulher, quando ele chega em casa, desce a vassoura nele. E eles aprontaram direitinho, aqueles caça-níqueis, dois ou três, com a alavanca de puxar, e toca duas de uma vez, duas daqui. E quando eu entrei eu entrei com uma banca e pedi: "whisky". E me deram whisky. "Cigarro" - e veio o cigarro. E fuma e bebe, e veio sanduíche, e já estava meio bêbado e eu bebi o sanduíche, mastigava o whisky, e, invés de pôr o níquel eu punha o charuto no caça-níquel e fumava o níquel, e ficava naquilo. E no final, tira dinheiro e compra ficha, os bolsos todos para fora e, no final, ele já bêbado, entra a mulher dele que eu pedi que entrasse, que diz: "seu canalha" e pam-pam-pam. Terminava. Foi um sucesso.

Décio Piccinini: Arrelia, como te chamavam lá? “Arelaia”? Como é que foi lá?

Arrelia: "Arreláia". Eu tinha nome de todo jeito: Arreláia, Aneláia, Reáia... não acertavam o meu nome.... Arrelia, eles não falavam mesmo.

[Risos]

Aimar Labaki: Em que ano foi essa história?

Arrelia: Isso foi há pouco tempo, 1959... [Risos] Eu tenho os jornais. Bom, quando acabou o show eu fui lá... Tinha um camarim, e eu disse: "isso é um camarim de príncipe, não é de palhaço, meu Deus do céu...". Tinha tudo naquele camarim. E eu tiro a tinta, e estou quase tirando a tinta e veio o gerente: "senhor Relia, não é o que o senhor merece, é apenas para o senhor tomar uma Coca-Cola conosco". E eu pensei: "ainda vou ter que pagar a Coca-Cola...". E ele me dá o envelope e eu disse: "muito obrigado". Louco para saber o que tinha naquele envelope. Aí tirei a fantasia, tirei já a cabeleira e tal. Trouxe essa cabeleira comigo, aqui custava caro, eu recebi de graça... E quando eu estava saindo veio o gerente do cassino, era o Thunderbill, e disse: "eu vou falar em castelhano porque o seu inglês é miserável". E eu disse: "acertou". E ele falou em castelhano comigo: "eu tenho um contrato aqui em branco para o senhor assinar". E eu disse: "em branco? Em branco eu não assino". E ele disse: "o senhor põe o que quiser". Em seis meses o senhor vai fazer Reno e o estado de Nevada. E eu disse que ia estudar isso e fiquei seis meses lá. Cheguei no hotel e abri o envelope. Naquela época, tinha 1500 dólares. Pagou minha passagem de ida e volta... E depois eu conversei com minha senhora, com a Arlete, nossa família toda, eu tinha compromissos com a Record, compromisso com outros negócios meus, tinha aberto um clube, e falei: "não posso ficar tanto tempo, mas eu vou dar uma resposta". Eu acho que o coitado deve estar esperando até hoje, porque eu nem dei resposta para não dizer que eu não quis ir.

Burnier: O senhor nunca pensou em se instalar no estrangeiro? Qualquer lugar, fora do Brasil?

Arrelia: Olha, pensar eu pensei, mas nunca ousei. Não ousei porque eu me sinto tão bem no Brasil, ficar rico... É morrer logo... Se eu ficar rico hoje, amanhã eu estou morto, então eu não quero ficar rico. Do jeito que eu estou: como o meu feijão, que já está pago, fico debaixo do meu teto, que já está pago, não ando de automóvel porque eu já não guio mais... Não é medo de morrer, é medo de matar os outros [risos] Então, eu não vou por isso. Gosto do meu povo, então desta cidade, eu morro por São Paulo, fico louco da vida de estar preso e os ladrões soltos na rua, e eu preso dentro das grades para não ser assaltado. Todos nós estamos assim, né? Dizem que lá fora o negócio também está igual ao nosso país ou está pior, então eu fico aqui, onde tem menos.

Marina Teixeira de Mello: Todos os seus fãs, quando falam em Arrelia todos lembram do "como vai, como vai, como vai". Então, tem gente que gostaria de saber como surgiu isso, que ficou como uma marca registrada do Arrelia...

Arrelia: Olha é engraçado, para pouca gente eu tenho contado isso. Eu viajava no interior, em uma das vezes que eu estive em São Paulo na Praça Marechal Deodoro. E eu fiz quase dois anos de estadia em São Paulo, mas meus manos disseram: "vamos viajar, porque isso, aquilo, a gente compra uma caravana para levar o circo", e eu fui ao canto deles. Então no canto do meu mano Paulo eu ia sempre, era o mais velho. Então eu chego a Catanduva, uma cidade do noroeste [paulista], e eu ia sempre à tardinha ao clube porque eu era convidado da diretoria, eu entrava pela sociedade. E mesmo que a sociedade fechasse as portas eu arrombava e entrava. Eu sempre procurava bons ambientes. Eu gostava de ser grã-fino às custas dos outros. [Risos] Bom, então eu ia tomar meu aperitivo, contar minhas anedotas, para pagar o aperitivo, e a turma morria de rir. Nisso, aparece um senhor lá no canto que vinha entrando pela porta adentro. Quem tomava conta do clube era um velho jogador de futebol, Chico Neto, não sei se vocês lembram do famoso beque, Chico Neto. Então o Chico Neto disse: "xi..., Arrelia, aí vem um cara que gosta de atrapalhar a vida da gente". "E o que eu vou fazer, vou ficar esperando". E me apresentaram para ele: "doutor, este é o Waldemar Seyssel, é o nosso palhaço Arrelia, fazendo um sucesso aqui, ele veio lá de longe". E o homem disse: "como vai?... Como vai?... Como vai?...". E eu não tive dúvida, balancei a mão dele e disse: "muito bem, muito bem, muito bem-bem-bem". Tibum na cara dele... Essa turma quase morreu de dar risada.

[Risos]

Murilo Antunes Alves: Lá nos Estados Unidos traduziu: how are you, how are you?

Arrelia: Eu poderia... Então, depois que o homem saiu, eu vi que ele saiu meio quebrando a esquina e me disseram: "sabe quem é ele?". E eu disse: "não". "É o juiz de direito". E eu disse: “vocês querem me mandar para a prisão?”

Aimar Labaki: Você teve um trabalho muito sério na frente da Comissão Estadual de Circo. Você trabalhou... Eu queria fazer duas perguntas: eu queria que você contasse sobre essa sua experiência, que às vezes é pouco conhecida e, segundo lugar, em que estado está a Comissão Estadual de Circo, que existe, e que trabalho pode ser feito, a nível de estado ou município, enfim de governo, para conseguir de alguma forma fomentar, ou a criação de circos, ou as escolas?

Arrelia: Há de diversas formas, ou pegar gente de circo, capazes, que possam organizar uma comissão que possa dirigir com intelecto, com a vontade, com o idealismo, uma escola de circo e, se não tiver gente de circo, então pega meia dúzia de idealistas e que sintam essa necessidade no Brasil: viajar. Já que se gasta tanto quando vai um presidente para fora, vai 250 mil viajando ao mesmo tempo, era só pôr meia dúzia, sai mais barato, e traz um proveito para o Brasil, que estudem nas escolas, que vão à Rússia, vão à Inglaterra, vão à América do Norte, que têm as escolas e o próprio circo. Vários circos têm a sua própria escola.

Aimar Labaki: A sua experiência como foi, na comissão?

Arrelia: Eu entrei naquela comissão... Eu vou ter que falar mais ou menos quieto como você fez agora [colocando o dedo em frente à boca]. Eu peguei o seu gesto, não peguei o seu ato... Mas é o seguinte: eu fui presidente da Comissão Estadual de Circo na Secretaria da Cultura, que era anexa ao Departamento Esportivo, à Secretaria dos Esportes. Ora, uma secretaria esportiva comandando a cultura? Só no Brasil, mesmo. Então, eu estava lá. Todas as comissões, música, balé, pintura, todas que estavam lá representando as classes tinham a sua verba. Mas era uma verba que “verbava” só. Então ele chega e diz: "Arrelia" - na reunião da comissão, e vinha o secretário...

Aimar Labaki: Quem era o secretário?

Arrelia: Me foge o nome... E o secretário disse: "eu queria que você fizesse uma coisa que levantasse o circo, eu estou aqui para fazer isso, vou botar vocês para trabalhar". E eu falei para ele: "eu posso fazer uma escola, um projeto de escola para circo". "É ótimo", todo mundo levantou e festejou. E eu falei: acho que eu estou agradando aqui. E aí eu fui e trabalhei, eu e a minha comissão, estava lá esse rapazinho que você perguntou, o Fuzaca, Albânio Pereira, que também fazia parte da comissão. Ele me ajudou a fazer o projeto. E eu coloquei nesse projeto tudo que eu podia pôr de bom para o circo e para o Brasil, para São Paulo...

Labak: Isso quando foi?

Arrelia: Em 1973, mais ou menos. Então eu fiz um projeto que tinha departamento médico, escolar, departamento de relação com o exterior, vendendo os artistas depois de formados, contratos com empresários de fora, circo, o circo montado, o circo escola, um galpão, um segundo galpão, se fosse preciso, animais. Muito bem, e na outra reunião eu entreguei e leram. "Formidável, quanto vai custar isso?". Eu eu disse: "não sei, vocês pesquisem aí, eu não sei. Não sei o preço de materiais, não sei nada, e ela vai funcionar o que está aí, se vocês acharem que devem contar...". Aí foi lá, mexe cá, mexe lá, não cortaram a metade, cortaram inteirinha, nem metade mais tinha do troço. Me deram tanto trabalho. Eu estava por aqui. Eu pagava até a minha gasolina para ir às reuniões... Bom, um dia, eu já estava louco para sair, e o secretário da Secretaria de Esportes, o senhor Pedro, não me lembro o sobrenome. Ele o que faz? Eu tinha 60 mil cruzeiros, para 42 circos, para dividir por espetáculo. Um espetáculo de circo custa mais do que 60 mil. E eu falei: "não é possível". O sujeito vinha pedir, e eu dizia que não tinha, que tinha uma esmola de dois mil cruzeiros, se quisesse levar esmola. O camarada estava com fome para comer sanduíche, e eu levava. Eu ficava envergonhado, chateado, e foi me enchendo, me aborrecendo, e eu não me aproveitava como muitos presidentes que entraram lá e se aproveitaram daquilo, do pouco eles se aproveitavam muito, e eu não queria isso. Um dia veio a secretária da comissão e disse: "Sr. Waldemar, o senhor não sabe de uma coisa...". E eu falei: "que coisa?". "O Dr. Pedro ele cassou todas as verbas deste mês e do outro para mandar vir um balé inglês dos espetáculos no Municipal". E eu falei: "muito bem". E eu me despedi dele ali mesmo e falei: "você leva minha desistência, que eu vou tratar da minha saúde, que eu estou muito doente por causa dessa comissão". E não voltei.

Jorge Escoteguy: Arrelia, pegando uma carona nesta questão de escola de circo, o palhaço Tic-Tac que é um dos nossos convidados aqui na platéia, ele pergunta o seguinte: hoje existem várias escolas de circo na Secretaria do Menor, as escolas de circo picadeiro poderiam ser a solução para tirar as crianças carentes da rua?

Arrelia: Olha, é difícil tirar, eu vou ser franco com vocês e explicar uma coisa que eles até hoje não fizeram. Nenhuma das escolas me convidou para ir ver sequer o programa que eles estão fazendo. Nunca me convidaram para ir. Eu só fui a um desses circos, ali no Jardins, que era um espetáculo beneficente, então, eu fui prestar meu trabalho a eles, para eles terem lucro. Foi a única vez que eu fui. Nem me indicaram camarim para me pintar. Então, fui de cara limpa mesmo, fiz um ato e saí. Quer dizer... no Brasil há uma política dentro de cada profissão que é uma luta tremenda para eliminar essa política. Então é o que acontece.

Décio Piccini: Arrelia, queria satisfazer uma curiosidade, deixa eu te fazer uma pergunta. Como é aniversário de filho de palhaço? [Risos] Porque normalmente, se contrata um palhaço para animar a festa do filho. E aí, como faz com o filho do palhaço, ele contrata outro palhaço? Como é? Porque você tem quatro filhos, dez netos e seis bisnetos...

Arrelia: Deixa eu te contar o que eu faria naquela época, porque agora eu tenho os netos deles e tenho também alguns bisnetos - são seis bisnetos e dez netos. Bem eu fazia o seguinte: [perguntava] "o que vocês gostam? Gostam de palhaço?" [e elas] "Nós gostamos do Arrelia" e eu falava " o Arrelia não pode trabalhar com vocês esta noite" [Risos] "é muito tarde, muito tarde". "O que vocês mais gostam, sem ser o Arrelia. Querem ir ao um circo?" E eu via que elas não estavam querendo ir ao circo... O circo sai mais barato. Ai eu via que  os garotos [não queriam]. E eu " vocês querem ir ao cinema, parque de diversão?" "Parque de diversão vovô! Parque de diversão!" Aí levava os netos ao parque. Depois eu peguei para os filhos dos filhos dele: "vamos para o parque de diversão!" Eu já autorizava, era parque de diversão. O palhaço, coitado eu tinha que pagar o palhaço lá na minha casa [risos] e para pagar o coitado do palhaço eu dizia para ele: "quanto você quer?"

[Risos]

Arrelia: ..."não, não quero nada". E eu não queria tirar o pão da boca dele né.

Murilo Antunes Alves: Você já passou, para a alegria nossa, a barreira dos 80 anos. Eu também, estou indo para lá. Pergunta: primeiro, se você pudesse voltar à juventude, tantos anos vividos, você gostaria de ter sido o que foi? E segundo, qual é o segredo dessa longevidade?

Arrelia: Da longevidade? Bom, o primeiro eu respondo para você, eu voltaria cegamente para fazer, arrumar o que eu fiz. Me dedicaria melhor para ver se conseguia um grande público nessas crianças que estão hoje [se volta para Luciano Amaral]. Eu via [gente] fumando maconha, tomando drogas para convencer as crianças, só podia ser isso. Eu tenho medo de me apresentar às crianças de hoje, [pois] eu tenho medo deles não me aceitarem. Um palhaço puro e sadio não vai ser aceito. Você me desculpem...

[..]: Eu acho que vai...

Arrelia:... eu falar certas verdades...

[Sobreposição de vozes]

Arrelia:... Se estou falando isso é porque eu sinto isso, mas eu sinto [isso] sofrido. Eu sofro pelas crianças, que não tem direito de assistir essas coisas, pela tenra idade que tem. Eles estão aprendendo coisas que, meu Deus do céu, quando chegarem à minha idade, o quê vai fazer? Sair pelado tocando flauta?

Décio Piccinini: A gente costuma dizer que, na sua época, os programas infantis eram vistos na sala. E, agora, o menino, normalmente, leva a televisão para o banheiro, tranca a porta e... é isso que virou o programa infantil..

Luciano Amaral: Arrelia, você acha que existe diferença entre as crianças das grandes cidades e as crianças do interior assim?

Arrelia: Do interior? Sim há uma grande diferença da criança de cidade grande para as crianças do interior. Quando a cidade grande não está perto de outra cidade grande: Campinas, Sorocaba, estas já estão com os mesmos bichinhos que nós temos aqui [em São Paulo], para as nossas crianças. Agora, vai mais profundamente para lá, onde o caboclo manda a criança dormir seis horas, "porque seis horas da manhã você tem que levantar para ir pescar, vagabundo. Se você não for 'toma um couro'". E ele vai mesmo e estuda e obedece ao pai e a mãe. Aqui, tem gente severa com os filhos, eu conheço muitas famílias que trazem os filhos na direção deles, mas, infelizmente, a maioria não.

Luciano Amaral: E quando elas estão de frente para um palhaço? A reação é diferente [entre a criança do interior e a de cidade grande]?

Arrelia: A do interior é de carinho, de abraço, quer levar o palhaço para casa. Quer dizer, é uma confiança que se tem no palhaço. Aqui, ele pensa que é bicho...

[Risos]

Arrelia: É diferente.

Murilo Antunes Alves: E o segredo da longevidade?

Arrelia: Eu ia responder, mas quando veio a pergunta de um menor eu devo ceder. Mas a longevidade veio de família. Meu avô, que entrou em um circo e aí começou a palhaçada, ele morreu com 102 anos. Meu pai, filho desse cavalheiro que morreu com 102 anos, morreu com 99 anos no ano que ia fazer 100. O caçula da família do meu pai, morreu com 88 anos . Então, eu acho que não é assim ...levando na cara: "olha você tem que viver tantos anos". Não é assim. Sei lá, ele tem que viver, [mas] não sei quantos anos ao certo. Tenho um amigo que trabalhou comigo muito tempo, [ele] tem 93 anos.

Tatiana Belinky: Não é também por fazer um trabalho lindo que lhe dá prazer, que prazer aos outros. E isso dá forças, e eu acho que isso é o segredo.

Arrelia: No programa da [apresentadora] Silvia Popovic, eu disse isso. Gente de circo é mais saudável, é mais amiga, mais aberta...

Tatiana Belinky: ...Passa energia e recebe energia

Arrelia: Isso. Porque, para começar, é uma tarefa que exige físico, quase todos eles são atletas, tem que fazer exercício. Depois de fazer exercício, tem que tomar banho, isso é higiene. Depois, ele vai comer e come bem. Depois tem que passear, ver a cidade, se encantar com a cidade, fazer amigos. Depois sai para trabalhar, trabalha é aplaudido, sorri para todos os amigos que estão lá. Então, ele tem uma vida alegre... Dali um pouco está cansando, o povo já não vai mais, não dá mais assistência, ele muda para outro lugar. Modifica tudo outra vez para ele: novas amizades, novo ambiente, nova respiração. Porque ele vai em uma cidade que tem muitas fábricas e em outra só tem árvores. Então, ele respira melhor naquela.... e é saudável... Então, eu disse isso no programa. Muito obrigada pela sua lembrança.

Teresa Cristina de Barros: Quais seriam os melhores momentos, aqueles que o senhor guardou hoje? E os piores momentos durante todo esse tempo da sua profissão?

Arrelia: Eu diria que foi o fim da gargalhada, foi o fim da gargalhada do adulto. Mas a melhor gargalhada é da criança, é pura é sincera, é sadia. Ela dá vida para gente, ela joga vida na gente. Eu recebia aquela gargalhada como vida. Eu estava absorvendo vida. Aquele olhar meigo, querendo comer o palhaço com a boca, olhos... Então, aquilo tudo...

Décio Piccinini: Senhor Arrelia, pegando uma carona em um pergunta que a Marilia fez há pouco. Ela perguntou como surgiu o "Como vai? Como vai? Como vai?" e você explicou. Então, pegando carona nessa pergunta dela, como surgiu aquela coisa de segurar o interlocutor com a perna?

Arrelia: Aquilo lá foi um momento...que vem. Eu estava cansado de fazer o "como vai? como vai? como vai?" então, comecei a pegar o Pimentinha com a bengala, puxar com uma ponta, levar pela outra...Eu pensava e não avisava. Então, uma vez eu peguei pela perna dele [mostra] e ele disse: "vai demorar muito?" E eu: "até o carnaval você segura" [Risos] E ele morreu de rir. Outro dia eu resolvi trançar a perna. Pensei: "vou trançar a perna para ver o que ele faz" E ele " o que é isso? Que cumprimento é esse" E eu é "pernóstico"...

[Risos]

Aimar Labaki: Arrelia, você falou bastante que o circo é uma coisa familiar, que está junto com as crianças. Agora, você foi amigo  do Hervé Cordovi, foi amigo da Leny Eversong, o senhor deve ter uma vida de boemia também? Eu queria que você falasse um pouco dessa boemia e o que era antes e o que é hoje.

Arrelia: Tive uma vida de boemia, fui encarregado do Largo Marechal Deodoro, até uma pizzaria que tinha na Praça da República, antiga, eu não me lembro do nome dessa pizzaria, eu fui chamado... Como era o nome dele? Eu não me lembro do nome. Tem hora que eu não me lembro do meu nome, como vou lembrar do nome dos outros. Em todo caso, ele foi um político muito bom. E disse: "o Arrelia, nós somos velhos conhecidos, papai ele não gosta de você, ele te ama". E eu falei: "e daí? Quer que eu fique amasiado com ele?". E ele chega e disse: "eu quero dois espetáculos, porque eu estou fazendo a campanha da presidência do meu grupo". E eu falei: "bom, isso não é comigo, você acerta com os meus manos". Eu era diretor artístico e o Arrelia, e nada mais. Eu trabalhava para a família, não tinha idealismo nenhum, naquela época, eu queria trabalhar, queria ver os outros rirem, serem felizes, era esse o meu ideal. E aí ele falou com o meu mano, e eu falei: "senta aí, conversa com ele". Contratou dois espetáculos, duas segundas-feiras. E quando ele ia sair eu falei: "vem cá, você vai me dar, para este espetáculo, os mais levados para dentro da escola, para dentro da faculdade. Eu quero os mais levados". E ele disse: "para quê?". E eu disse: "eu quero, eu preciso". Eu conheço quem é o estudante. Eu fui assistir um espetáculo do Procópio, com estudantes do ensino. O Procópio veio para agradecer e levantou o lencinho e assobiou. E todos os outros responderam [assobiando]... e o Procópio não podia falar, e o Procópio saiu. E o Procópio voltou a terceira vez, e o Procópio mandou dizer que descia o pano e não trabalhava mais. Não sei o resultado porque eu saí e falei: "ih, vai dar um borró aqui". Eu conhecendo o que eram os estudantes, sendo estudante, no meu passado, eu falei: "bom, então eu vou me preparar para entrar em cena". Porque eu sei que quando eu entrar em cena vai ter um engraçado lá em cima... Porque eles são engraçados, são jocosos, uma quantia grande de estudantes tem sempre meia dúzia engraçado. Então eu precisava ter a finura de poder agüentar eles. De fato, quando eu entro com o meu mano e tal, "ta ra ra tra tra" - aquela musiquinha, sabem? E o outro disse: "ooo ta ra ra, aonde é que você vai?" E ele disse: "Para onde você for, para a casa da mamãe". E todos riram. E eu falei: "olha, fulano, eu vou com você para a casa da mamãe”, eu não disse “para a casa da sua mãe". E todos riram. E um outro levantou e eu falei: "vai levantar também? Tem mamãe também?". E ele sentou. E quando ele sentou, eu pensei: ganhei, ganhei a aposta. E assim foi, fiz os dois espetáculos, e quando terminava o espetáculo, eles me levavam de charol, carregado na Praça da República, comer pizza com ele. Só que na última vez, quem pagou fui eu... Todo mundo pulou fora e me deixaram lá...

Murilo Antunes Alves: Arrelia: "terminou em pizza", né?

Arrelia: Terminou em pizza. Eu não sou pizzaiolo...

Teresa Cristina: Arrelia, e o que acontecia nos bastidores do Circo do Arrelia, da TV Record? Aconteceram coisas tão engraçadas quanto na frente das câmeras?

Arrelia: Olha, no Circo, da Record quase não aconteciam coisas engraçadas porque era um espetáculo rápido, de uma hora. Eu tinha que me espremer... Sabe como é TV, não é? Horário de TV: eu tinha que fazer a parte circense com as acrobacias, um trio de palhaços, e uma comedinha. Imagine você com que rapidez tinha que fazer aquilo tudo. Não dava tempo de acontecer grandes coisas. Aconteciam lá no meio do povo, mas era levado para fora. Conosco uma trapezista caiu e fraturou o braço. Esse então eu tive que pagar o hospital, a Record ficou esquecida, não pagou, enfim. 

Jorge Escosteguy: O Tic-Tac vai entrar aqui, para conversar com você.

Tic-Tac: Mestre, as crianças de hoje querem saber como é o Arrelia, eu sei que o senhor não trouxe a maquiagem, sei que não trouxe a sua peruca, nem o seu nariz...

Arrelia: Mas nós já estamos no final?

Tic-Tac: Já estamos chegando no final, estamos há uma hora e quinze minutos rapaz...

Arrelia: Então vai acabar?

Tic-Tac: Oh gente, e você quer ficar até amanhã aqui...

Arrelia: É claro. E você ficou tantos anos aqui... Então, eu posso ficar mais uns quinze minutos...

Tic-Tac: O senhor quer tirar o paletó?

Arrelia: Tiro. Tiro, eu vou pintar e termina?

Jorge Escosteguy: Não, tem mais uns 15 minutos, estamos começando. Vamos conversando enquanto ele vai maquiando o senhor e vamos continuar a conversar.

Arrelia: Eu vou me maquiando e conversando. Eu vou me mal-criando...

Aimar Labaki: Alguns de seus filhos, netos, ou bisnetos quiseram continuar?

Arrelia: Não. Nenhum quis ser palhaço, e eu também não obriguei porque eu acho que cada um deve procurar aquilo que gosta de fazer. Eu fui feliz, se eu apertasse um deles para entrar no circo e eles não fossem felizes, o que eu sentiria? Um espeto, um espinho no calcanhar. Eu não sou Aquiles, que tem "calcanhar de Aquiles".

Jorge Escosteguy: Eles achavam você engraçado como palhaço?

Arrelia: Eles achavam, eles riam, e tal, mas não estavam muito a fim de entrar junto comigo não.

Tic-Tac: Enquanto o senhor fala o senhor vai pintando, viu?

Arrelia: Vou pintando? De óculos mesmo?

Tic-Tac: É. Eu vou fazer o seguinte, vou mandar este espelhinho daqui, mandaram da produção, e veja como você está bonito.

Arrelia: Eu vou segurar e pintar, não dá!

Tic-Tac: Eu seguro o espelho e o senhor pinta.

Arrelia: Então eu tenho que virar. Vou virar palhaço?

Teresa Cristina de Barros: Arrelia, quando você está pintando o rosto, se transformando no Arrelia, pintando a pintura do rosto: acontece uma transformação interna também?

Arrelia: Olha, na hora que eu estou me pintando, não. A hora que me transformo, que eu perco o jeito de Waldemar Seyssel, é quando eu entro em público. Eu me perco, não encontro o Waldemar, só encontro o Arrelia. Eu posso chegar doente, e me pintar doente, tal, para trabalhar. Tocou a música para eu entrar, acabou, eu levo tombo, canto, faço as minhas gracinhas... Um sujeito doente não faz graça para ninguém. E eu já fazia graça... Quase que obrigado também. Mas, eu acabava de sair e de tirar a pintura e ficava molejado já, já vinha a febre, não sei, havia uma coisa que separava as duas personalidades.

Tic-Tac: Agora passa o branquinho para ficar bonitinho... Passa o branco.

Arrelia: Ponho. Como é que eu vou pintar?

Tic-Tac: Olha para cá. Está vendo aí. Branco. Essa não é a mesma maquiagem do Arrelia, a maquiagem dele, é a maquiagem que a produção arrumou aqui, da maquiagem da TV Cultura, e ele vai tentar mostrar às crianças de hoje como é o Arrelia. Olha aí. Está começando a virar palhaço.

Arrelia: Mas eu tinha que tirar os óculos, pôr cabeleira... E quem não me conhece muito... Mostra aquele Arreliazinho... Na primeira página. Para mostrar para alguém que não me conhece. Muito obrigado. Desculpe fazer de você o Pimentinha me segurando... Agora o contorno...

Teresa Cristina: Qual é o segredo do bom palhaço?

Arrelia: É ser bom. O segredo é ser bom, porque o resto é bom. Não “sebão”, de sebo. Ser bom.

Décio Piccinini: Arrelia, estão me soprando uma pergunta agora. Hoje em dia, o palhaço ainda é "ladrão de mulher " ou deixou de ser?

Arrelia: Olha, eu não vou responder isso, porque chego em casa e apanho... Mas deve ser. Eu, como palhaço, quando eu saía do meu espetáculo tinha uma porção de moças bonitas, que queriam conhecer o palhaço. Nesse conhecimento saía muito namoro por aí afora; eu acho que algum palhaço roubou mulher, roubou. Esse apelido não vem de ser ladrão de mulher, na verdade. No tempo antigo, os circos menores, como não tinha mecânica, nem eletricidade para propaganda, eles pegavam um empregado da barraca e meio xucro, e pintavam de palhaço, vestiam-no de palhaço montado em um cavalo ao contrário. No lugar da cabeça era o bumbum do cavalo. E um menino puxava a corda do cavalo pela cidade e atrás ia uma porção de meninos com marcas de cruzinha na testa, todos eles, para entrar de noite no circo de graça, e acompanhar o palhaço. Então o palhaço ensinava para eles: "o palhaço o que é?". E a criançada: "é ladrão de mulher", e assim ia. "Olha a nega na janela tem?". "Tem cara de panela!” "E a nega do portão?"; "Tem cara de tição". E era uma cantiga de propaganda. E o povo aceitava e ia. Era a inocência que ia atrás da inocência, que era o circo.

Tic-Tac: O palhaço de ontem, misturado com o palhaço de hoje, use esse chapéu que eu vou sair, até logo.

Arrelia: Escuta: não pense que vai receber mais o chapéu que eu vou levar embora.

Tic-Tac: Mãe, perdi o chapéu.

Jorge Escosteguy: Arrelia, você disse no primeiro bloco que não ficou rico, mas estava bem de vida. E também disse que tinha outros negócios, tinha um clube... Que outros negócios que você fez na vida além de trabalhar como palhaço?

Arrelia: Eu sempre vivi do meu trabalho, não com ordenado. Porque o ordenado vocês sabem, vocês trabalham em TV... Existe um ordenado, mas não enriquece ninguém, nem o artista. Não enriquece ninguém. Os coitados dos “limpa-chão” das emissoras vêm se queixar para mim: "o senhor não precisa de um empregado para a sua casa?". E eu digo: "olha, eu vou ver e tal". E eu não tenho aonde pôr, eu moro em um apartamento, que não é um apartamento: é um apertamento. E para dois, com três quartos, banheiro, cozinha, a situação de três banheiros, um para a empregada, outro para a minha senhora e outro para mim. E eu penso: "eu acho que eu não sou rico, mas eu estou vivendo mais ou menos como rico". Olha que ilusão besta. É isso.

Jorge Escosteguy: Teve um clube e outros negócios uma época da sua vida, além de trabalhar como palhaço?

Arrelia: Nesse negócio eu dava o nome ao clube, e recebia um tanto. Nesse tanto eu fui um tanto posto fora do negócio. Aí eu passei a minha parte...

Jorge Escosteguy: Fizeram você de palhaço?

Arrelia: Eles achavam que, eu sem cara pintada, era palhaço também. Eu tive que bancar o palhaço... Então saí do negócio, foi vendido aquilo para uma empresa que era correta, tem o clube até hoje, ele existe ainda, quem comprou, quando telefona para mim eu disse: "olha, fulano, fulano, está esperando um telefonema seu para você ir lá e acertar o negócio". E eu não tive mais negócio nenhum. Então eu fazia shows. Os shows é que me davam dinheiro. Eu ficava em TV, mais porque a TV ela divulga o indivíduo, o indivíduo que botar a cara na cortina de uma TV ele fica conhecido no mundo todo. Concordaram?

Burnier: No início do programa você dizia que não estava de acordo com as pessoas que diziam que o circo está morrendo.

Arrelia: Não, estou de acordo, eu estou de acordo porque tudo mudou. Veja o cinema. O cinema começou com flashes de fotografia. Depois veio uma fotografia atrás da outra e o movimento. Depois do movimento eles fazem o filme mudo. Depois do cinema mudo, das comédias mudas e tal, aí veio a voz, veio o som. Depois do som veio a cor. E agora é isso que está aí. Um grande espetáculo, com grande pornografia, depois de certas horas, e esse mudou. O teatro também mudou. O teatro antigamente era meio cantado. As representações, os dramas principalmente eram cantados. Você sentia que o ator cantava a frase e a dama respondia como quase que cantando também. Então era uma música agradável também se você entendesse o que era. Era o idílio deles, dos namorados, principalmente. Depois vieram as grandes peças, grandes comédias, e foram melhorando, o cenário foi melhorando, cada dia melhor. E o público gozando essa melhoria. O circo não tinha direito de mudar? Ele mudou. O primeiro circo era de pau-a-pique, aqui no Brasil. Não vamos falar na Europa porque eu levo duas horas para descrever o que era o circo lá. Então de pau-a-pique, fazendo aquelas bancadas com pau-a-pique, de pregos, cabo, e punha aquelas tábuas, e depois tinha um picadeiro que não tinha toldo, lona. Depois veio a lona, depois da lona veio o cercado. E depois vieram as cadeiras, não tinha cadeiras. O povo levava as cadeiras da casa dele, pagava o lugar e levava as cadeiras. Aí montava o circo. Depois o circo veio já com todo material pronto, cadeira, picadeiro, tal. Depois veio uma espécie de zoológico, o povo correu mais em cima para ver os espetáculos de zoológicos misturados com equitação, com acrobacias, ficou um grande circo. Muito bem. Agora eu vi circos não só no Brasil. Esse que eu disse que mora lá em Miami, ele montou um circo em cima de um grande palco que sobe em todos os números lá em cima. Elefantes, jaulas, cavalos, macacos, vai tudo lá em cima do palco, não tem mais a poeira. Eu acho que eles eram contra a poeira no nariz dele e então ele tirou o picadeiro. Agora eu pergunto a todos vocês: aonde é que está o maior circo do mundo?

Jorge Escosteguy: Onde?

Arrelia: O que que teve há pouco tempo na Espanha?

Jorge Escosteguy: Olimpíadas?

Arrelia: Olimpíadas. As Olimpíadas têm barras, argolas, cavalo de pau, paralelas, trampolim, saltos no tapete, balé acrobático, balé com malabarismo, balé com equilibrismo, quer dizer, só falta o palhaço... Para ser o palhaço maior do mundo...

Jorge Escosteguy: É que o nosso tempo está se esgotando, nós já passamos um pouco o nosso horário, eu gostaria que você respondesse então a uma última pergunta, ou desse uma última mensagem aos telespectadores, principalmente às crianças que estão nos assistindo e que não conheceram o Arrelia, o que você teria para dizer para a criança de hoje que assiste aos programas infantis de televisão.

Arrelia: Você quer uma mensagem minha... Sem ser palhaço, só o meu coração? Eu peço às crianças de hoje que prestem atenção nos pais, que amem os seus pais, e depois dos seus pais, os seus professores, porque são os professores e os pais os maiores amigos deles, que os tornam grandes homens, grandes políticos, grandes empresários, tudo de grande, é o papai e a mamãe e os professores que querem que seus alunos e seus filhos sejam. Pelo amor de Deus, prestem atenção no papai e nos seus professores. Vamos lá, vamos amar este Brasil. Vamos tirar o Brasil do jeito que está. Viva o Brasil.

Jorge Escosteguy: Nós agradecemos a presença, esta noite aqui no Roda Viva, do Waldemar Seyssel, o palhaço Arrelia, dos companheiros jornalistas que nos ajudaram na entrevista e dos artistas de circo aqui presentes. O Roda Viva fica por aqui e volta na próxima segunda feira, às 9:30 da noite, até lá e uma boa semana a todos.

[Waldemar Seyssel manteve a tradição circense da logenvidade. O palhaço Arrelia morreu aos 99 anos, no dia 23 de maio de 2005, vítima de uma pneumonia.]

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