Memória Roda Viva

Listar por: Entrevistas | Temas | Data

Amyr Klink

15/5/2000

Fascinado, desde criança, por mapas antigos e pela história das grandes navegações, o economista e velejador brasileiro fala da viagem à Antártida no veleiro Paratii

Baixe o player Flash para assistir esse vídeo.

     
     

Paulo Markun: Boa noite!  Ele já escalou a cordilheira dos Andes, foi de moto até a Patagônia, atravessou o Atlântico Sul num barco a remo, e acabou se transformando no mais ousado navegante brasileiro, com sucessivas viagens à Antártida e voltas ao mundo sozinho num veleiro. O Roda Viva entrevista esta noite o economista, navegador e escritor Amyr Klink.

[VT narração Valéria Grillo]: Tudo começou em Paraty, velho porto do Brasil-colônia, no litoral do Rio de Janeiro. Foi nessas águas tranqüilas e nessa paisagem de canoas que o paulistano Amyr Klink despertou seus sonhos de homem do mar. Desde criança é fascinado por mapas antigos e pela história das grandes expedições marítimas, das descobertas dos continentes e dos pólos. E foi no relato dos grandes navegadores que Amyr Klink encontrou o que precisava para tirar os pés do chão e se lançar em aventuras que já acumulam recordes e muita lição de vida. Ele se tornou conhecido do público quando fez a travessia do Atlântico Sul, sozinho, num barco a remo. A aventura foi narrada em seu livro Cem dias entre céu e mar. Com esse barco, de menos de seis metros de comprimento e mais de uma tonelada de peso, incluindo as provisões, ele remou durante cem dias, de um porto da Namíbia, no sul da África, até chegar à Praia da Espera, no litoral da Bahia. Loucura? Nem tanto. O que motiva uma aventura é a pesquisa e o aprendizado para uma outra aventura – ainda maior– e um novo livro. Já escreveu seis, relatando as viagens à Antártida e a longa travessia do pólo Sul ao pólo Norte. Agora, chega com Mar sem fim, uma viagem de cinco meses para dar a volta ao mundo mais curta, mais rápida e mais difícil, circunavegando a Antártida. Uma rota com as piores ondas e tempestades, muitas vezes tentada e nunca conseguida antes. Uma viagem que, como as outras, revela uma experiência incomum, que transforma medo em respeito, que testa todas as convicções e que leva o aventureiro a romper fronteiras da vida e repensar o devir. E repensar, nesse caso, pode significar olhar outra vez para a água, para o barco no horizonte e para o mastro apontando o céu, o mesmo céu das estrelas que há tanto tempo se via nos sonhos de navegantes e astronautas.

Paulo Markun: Para entrevistar o navegador Amyr Klink, nós convidamos Paula Saldanha, jornalista, escritora, presidente do Instituto Terra Azul e atualmente no programa Expedições, transmitido pela TV Educativa do Rio de Janeiro. Convidamos também a bióloga Cristina Bonfiglioli, coordenadora da campanha de Ecologia Marinha do Greenpeace; Hélio Alcântara, repórter do departamento de esportes da TV Cultura de São Paulo; o meteorologista Rubens Villela, professor-assistente do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP; Sergio Túlio Caldas, editor da revista Terra, e Ulisses Capozoli, repórter da área de ciências e tecnologia. Boa noite, Amyr! Eu queria começar fazendo uma pergunta que você já respondeu algumas centenas de vezes, no mínimo. E, inclusive, respondeu por escrito de maneira muito competente aqui no seu livro, ótimo livro, Mar sem fim, em que você diz que entende bem hoje o seu pai, por que um homem precisa viajar por sua conta e não por meios de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu, para um dia plantar suas próprias árvores e dar-lhe valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor e o oposto. Bem, mesmo assim eu faço a pergunta, que me resta da leitura do teu livro, quer dizer, como é que uma pessoa se dispõe fazer uma viagem tão complicada, uma viagem tão arriscada, embora cheia de cuidados e planejamentos, por um mar tão difícil no extremo sul do nosso planeta, e a pergunta é assim: por que você viaja? Por que você, embora não queira ser chamado de aventureiro, coloca uma aventura, um desafio depois de outro, depois de outro?

Amyr Klink: Bom, o que acho que diferencia uma viagem de uma aventura, é que uma viagem tem um objetivo muito preciso, ainda que por uma rota imprópria ou vaga ou mutante. E uma aventura não, uma aventura a gente vai à deriva. Eu já vivi aventuras, quando quebrava um barco, a gente ficava perdido, mas fazer uma volta ao mundo ao redor da Antártida era uma idéia extraordinariamente simples que eu tive moleque, na escola, olhando para os mapas.  Primeiro eu ficava intrigado: por que raios que a gente tem que aprender geografia olhando através de uma projeção de Mercator, que é completamente idiota? É uma casca de laranja esmagada no chão. E eu gostava de olhar para a Terra como se eu tivesse olhando a Terra do espaço; ela não é plana, ela é tridimensional. E essa rota ao redor da Antártida, além de ser uma rota difícil, havia muitos exageros de histórias escabrosas de navegadores e eu fiquei encantado porque, enfim, conhecendo outras pessoas que estiveram lá como Villela [Rubens Junqueira Villela foi o primeiro brasileiro a pisar no Pólo Sul geográfico, em 1961], na verdade é uma região de muita vida, talvez a maior exuberância de vida animal do planeta se localize nessa região. Então, da vontade para a iniciativa foi um passo. A viagem foi meio dura, mas é uma viagem bonita, e [foi] aí que surgiu a idéia de, enfim, depois da viagem, transformá-la em livro.

Paulo Markun: Volto a insistir, lendo o teu livro, em que você conta com muita habilidade, assim, com as palavras, os momentos marcantes dessa viagem, eu ficava pensando o seguinte: entre um albatroz e outro, entre às vezes um aquecedor que quase pega fogo e uma capotagem, deve existir numa viagem desse tipo, uma quantidade imensa de horas em que...

Amyr Klink [interrompendo] : Você se pergunta: de onde surgiu a maldita idéia? [risos]

Paulo Markun: ...mais ou menos, e onde há uma rotina, está certo? Quer dizer, você está pilotando um barco sozinho numa posição como a que você estava, numa distância imensa de qualquer possibilidade de resgate, por exemplo, não é? Você tem que estar permanentemente ligado, a ponto que você dormia vinte minutos a cada hora, se não me falha a memória. 

Amyr Klink: Isso.

Paulo Markun: O que deve ser um exercício fantástico de desligar e ligar rapidamente, [estalando os dedos] o relay que a gente normalmente usa uma vez por dia só para desligar. Então eu penso o seguinte: tudo bem, a parte desse livro que emociona e entusiasma as pessoas que não vão lá, que jamais pensarão em pisar na Antártida, que jamais subirão num veleiro, tudo bem, esse lado é bacana. E o outro lado?  O que no fim das contas faz com o que compense esse esforço todo, essa batalha até contra o sono?

Amyr Klink: Puxa vida, não sei te responder. Existe uma coisa, assim, que é marcante em todos os relatos de expedições de exploradores, principalmente da fase heróica dos meados do século passado e início do nosso século. Todos os exploradores, viajantes, aventureiros, passantes, transeuntes, que foram de alguma maneira parar na Antártida ficaram de alguma maneira contagiados por um vírus, por uma vontade inexplicável de querer voltar para lá. Então, eu acho que é nesse vírus, nessa vontade que está esse porquê. Eu não sei o porquê também, eu fiquei fascinado, primeiro por causa dos primeiros livros que eu li e depois porque eu nunca tive a pretensão de querer desafiar os limites do homem, essas besteiras, e muito menos os limites da Antártida ou da natureza, mas eu via como um desafio anterior, um desafio pessoal que me cutucava. Dá para ir pra lá sozinho sem ter que sofrer muito por causa disso. Eu acho que eu provei isso voltando para casa inteiro, mas existe essa atração meio inexplicável.

Hélio Alcântara: E nessas viagens todas que você fez me parece que tem um traço comum, que é a história da determinação, não é isso? O Markun estava falando de acordar a cada tanto tempo sem estar acostumado. Para você fazer isso, você tem que ser muito determinado, muito disciplinado.

Amyr Klink: Às vezes tem gente, sei lá, tias velhas libanesas que me citam como exemplo de determinação. E não é verdade. Nesse caso, no caso dessas viagens, a determinação é uma questão de sobrevivência. Então você é obrigado a disciplinar coisas extremamente simples do seu cotidiano. Você falou da rotina, então a rotina é uma necessidade do corpo humano também, a gente não gosta da palavra rotina. Eu trabalhei num lugar horroroso, no banco Mercantil Finasa, aqui em São Paulo, fazendo análises financeiras. Eu condenava de todos os modos a rotina e, no entanto, eu descobri poucos anos mais tarde que a rotina é uma necessidade. Almoçar nas mesmas horas, o sono... e fui obrigado a criar uma rotina diferente da minha como essa de dormir os 25 minutos, mas eu acho que esse exercício é saudável, uma vez na vida é bom. [risos]

Ulisses Capozoli: Amyr, deixe eu te fazer uma pergunta: essa rota que você fez, esse tipo de navegação, na verdade ela foi feita em 1774 pelo James Cook

Amyr Klink [interrompendo]: Foi, só que ela foi interrompida três vezes.

Ulisses Capozoli: Isso. Já te ocorreu a experiência, num determinado momento, de [se] lembrar do Cook e falar: "O que eu faço capitão, nessa situação?" Ou você não esteve em nenhuma situação mais tensa que te levou a uma reflexão mais tensa sobre que solução tomar?

Amyr Klink: Acho que a grande vantagem de estar sozinho é que você não tem para quem perguntar: O que eu faço? Só resta fazer. Então existe uma frase muita bonita do Eric Tabarly [(1931-1998) navegador e velejador. Capitão de mar e guerra da marinha francesa, deixou o cargo e começou a participar de várias regatas com o centenário navio da família Pen Duick. Morreu em 1998 em uma viagem marítima no navio Pen Duick para Escócia], que era o meu grande ídolo na vela, e ele dizia de uma maneira até meio simplista, "quand il faut il faut", quando é preciso é preciso e a gente tem que ir. Então, não sobra a natureza, as exigências são tão mais fortes do que outros problemas, que a gente tem que simplesmente atacar esses problemas...

Ulisses Capozoli [interrompendo]: E ir em frente.

Amyr Klink: Isso, na verdade, é uma experiência que envolve uma dose de sacrifício pessoal muito maior do que coragem ou espírito aventureiro – essas bobagens todas que a gente cita tantas vezes. E, neste sentido, eu admirava profundamente o Cook: embora ele não tenha navegado sozinho, ele navegou pelo desconhecido. E a carreira dele teve uma pequena maculazinha, ele acabou contornando a Antártida ao longo de três viagens em quase seis/sete anos, e nunca viu o continente Antártico.

Hélio Alcântara: Foi muito azar dele, não é?

Amyr Klink: Foi muito azar, sem dúvida, foi muito azar. Mas, enfim, também era o outro lado fascinante da viagem que eu queria fazer, quer dizer, é gostoso ver que a terra é redonda e era gostoso poder parar no final num cantinho agradável de um continente [de] que eu gosto muito.

Paula Saldanha: Amyr, eu queria saber uma coisa. A gente já conhece a importância do planejamento... da pesquisa e do planejamento.  É importante para uma simples reportagem, imagina para viagens como você faz, não é? Então, seria interessante você passar para o público, porque teria a ver com essa coisa do pessoal dizer “ah, ele é aventureiro”. Não é aventureiro, é tudo minuciosamente planejado...

Amyr Klink [interrompendo]: Mais ou menos [risos].

Paula Saldanha: Como é que você absorve tudo isso? Como é que você programa? Eu sei que você leva, às vezes, um ano inteiro ou mais de dois anos preparando uma viagem dessas. Seria importante contar para o público a importância da pesquisa.

Amyr Klink: Eu, por exemplo... o Villela trabalhou na área científica e eu nunca tive a pretensão de fazer qualquer abordagem ou menção ou tentar explicar científicamente o que eu faço.  Não há nada de científico, aliás, a minha velha tia libanesa tem razão e ela sempre me perguntava qual é a utilidade de fazer uma volta ao mundo. Eu sempre achava uma desculpa e hoje não preciso provar mais nada para ninguém, eu não tenho vergonha de falar que não serve para absolutamente nada, é uma obra completamente inútil. Mas, muitas vezes, [n]uma obra inútil, mas que te motive pessoalmente muito, você acaba usando o rigor científico, então eu sou muito criterioso na hora de escolher equipamentos, desenvolver materiais, estudar toda a minha logística, enfim, não são exemplos...

Paula Saldanha [interrompendo]: Para dar certo, não é?

Amyr Klink: Porque não tem alternativa quando você não tem onde buscar o apoio de fora. E é esse aspecto do desafio de abrir mão de algumas coisas pessoais com as quais a gente se acostuma sem perceber e como lidar com o dia a dia, como virar a torneira e sair a água. Todo mundo vira a torneira e nem conta quanta água sai. Num barco não dá para ter uma torneira, você tem que controlar o fluxo da água. São infinitas pequenas situações nas quais você tem que pensar para o êxito de uma viagem. Eu gosto desse exercício, porque faz a gente olhar o mundo de uma maneira mais simples: pra que usar sapato se a gente pode andar descalço? Aqui eu fui mais ou menos intimado a ficar com o sapato.

Paula Saldanha: Mas desconfio [de] que você gosta mais é exatamente [de] buscar essa fronteira imensa ou ampliar essa fronteira com o desconhecido.

Amyr Klink: Talvez. O desconhecido atrai, não há dúvida, mas eu acho que todo mundo tem essa curiosidade de querer ver o que há além e eu não pretendo dar exemplo para ninguém nem usar como regra de planejamento ou nada disso. Mas o fato é que é bonito você não fazer uma viagem, mas construir uma viagem, que é fazer o que eu fiz, quer dizer que não só foi o fato de ir lá com um barquinho, eu tinha um ano completo de autonomia. Quer dizer, se eu entrasse numa roubada, numa fria e ficasse na Antártida, não ia ser divertido, mas não ia ser o fim do mundo, mas isso eu tinha construído antes. Então esse é um exercício bonito também de construir um pedacinho do futuro.

Sergio Túlio Caldas: Amyr, você estava dizendo que você não tem um objetivo concreto. Como você disse, você pegou o seu barco e foi fazer uma viagem sem objetivo. Essa falta talvez de objetivo...

Amyr Klink [interrompendo]: Eu tenho um objetivo completo! Eu não tenho um objetivo científico, mas tenho um objetivo muito preciso, que é o porto lá de casa.

Sérgio Túlio Caldas: E isso não seria um desafio, uma busca dos seus limites a partir do momento [em] que você pega um barco e você diz: "eu tenho uma autonomia de um ano", quer dizer, você vai enfrentar um desafio que você está criando para você mesmo, não?

Amyr Klink: Acho que os meus limites são muito piores que uma volta ao mundo, muito mais indecentes, sei lá.  Não é pelo desafio de uma volta ao mundo. Às vezes o meu desafio interior é conseguir escrever uma coisa que eu gostaria muito para alguém em três linhas e, às vezes, eu fico anos e não consigo escrever em três linhas. Tem toda a sorte de desafios que...

Ulisses Capozoli [interrompendo]: Amyr, quando você fala que, na verdade, você não tem um objetivo muito claro, que a viagem não serve para muita coisa – o que certamente é um exagero–, você não acha que essas suas viagens motivaram uma parte da juventude brasileira que não tinha antes em quem se mirar para desenvolver seus projetos? Esses projetos de navegação podem ser transferidos para outras áreas, quer dizer, as pessoas se darem conta, especialmente o pessoal mais jovem. Quando você tem uma idéia, um desejo, por mais exótico que ele possa parecer à primeira vista, se você tiver um planejamento, se você tiver uma determinação, você tem esse encontro com o desconhecido. Porque, se a gente olhar, por exemplo, a ciência: não é outra coisa a não ser um encontro com o desconhecido, a filosofia é um encontro com o desconhecido. Então você não acha – eu acho que essa é uma questão clara, não?– que você foi um exemplo muito bonito nessa direção de você motivar especialmente o pessoal mais jovem, para que eles tenham fé nos seus projetos e nesse sentido consigam levantar e ir à frente. Você não acha que você fez essa contribuição e que sua viagem não é tão, digamos assim, vaga como você mesmo coloca? Falando sinceramente.

Amyr Klink: Pode ser, pode ser que tenha alguma utilidade, mas não concordo plenamente com você pelo seguinte: se eu achasse ou qualquer um achasse que aquilo que ele faz, obrigatoriamente, tem que servir de exemplo para os outros, ele acabaria sendo muito chato, muito pretensioso, muito arrogante. Eu seria muito besta se, de repente, “não, eu viajo para estimular a juventude”, sem ter feito nada. Mas eu acho que o exemplo individual de cada um, as derrotas, os êxitos, a soma das pequenas conquistas é que, ao longo do tempo, talvez sirva de exemplo para os outros. É possível que sirva de exemplo.  Tenho muitos amigos que acabaram indo morar em barcos.

Ulisses Capozoli [interrompendo]: Indo para o mar como o Markun?

Amyr Klink: É, indo para o mar [risos], por causa disso, mas em momento algum me preocupei com isso. Eu acho que a gente não pode se preocupar, pelo menos em vida, com essas coisas. Uma das coisas que eu acho bonita é uma forma de comunicação maravilhosa, muito mais legal do que essa que a gente está usando agora, que é a televisão, que é o livro. O livro foi para mim uma forma de contágio profunda. O livro é uma forma de comunicação, a palavra escrita, muito íntima, muito profunda. Você convive com a palavra escrita intimamente.

Paulo Markun: A propósito, Guilherme, aqui de São Paulo, pergunta: "Qual seria uma bibliografia básica para quem, sem querer chegar tão longe", diz ele, "se interessa por aventuras desse tipo?" Que livros você indicaria para quem quer começar a se aventurar por mares nunca dantes navegados?

Amyr Klink: Puxa vida, ele perguntou para o cara errado, eu iria ficar uma hora aqui falando.  Nas costas do Mar sem Fim, o livro que nós estamos lançando amanhã aqui na Livraria Cultura, no shopping Villa Lobos, tem uma pequena sugestão de leituras sugeridas. Tem alguns títulos que, além de serem relatos de histórias bonitas, são relatos bem escritos. O que eu mais gosto atualmente, aliás, é um que eu ganhei do Villela muitos anos atrás, é um livro do Roland Huntford sobre a expedição do Scott [(1868-1912) oficial da marinha britânica e explorador antártico. Morreu na expedição de 1912 para chegar ao Poló Sul. Os problemas da viagem ficaram registrados em seu diário] e do Amundsen [(1872- 1928) explorador norueguês das regiões polares. Liderou a primeira expedição a atingir o Pólo Sul em 1911-1912]. Na verdade, é um livro que, mesmo para quem deteste barcos e viagens polares, é um livro fantasticamente interessante, porque ele analisa o perfil, não só de dois exploradores completamente diferentes, onde um simbolizava o poder e a força do Estado público e a arrogância. E o outro que simbolizava a competência, [pois] o cara, com poucos recursos, com uma equipe pequena com eficiência e, acima de qualquer coisa, com amor pelo o que fazia... Então, é uma análise, até, do perfil do norueguês e do perfil do inglês. O livro é muito bonito, acredito que a Companhia das Letras deve lançar esse livro no ano que vem, os direitos já estão adquiridos e deve se chamar O último lugar da Terra, do Roland Huntford.

Sérgio Túlio Caldas: A literatura parece estar, assim, bem próxima de você. Você falou que suas grandes viagens até nasceram de livros que você leu na infância. Nessas grandes expedições você deve levar bastante livro. Você leva uma carga grande de livros ou você é o tipo do cara que vai chegar em uma hora [em] que vai ficar lendo até bulas de remédios? Como que é: os livros te dão força durante a viagem? Você escolhe livros que, espiritualmente, podem estar te ajudando, tecnicamente?

Amyr Klink: Depende do tipo de viagem. Quando é uma regata, uma prova, assim, de cunho esportivo, aí você elimina tudo que é peso e os livros infelizmente vão para fora dos barcos. Mas, por exemplo, em uma viagem para a Antártida, eu considero um item fundamental levar pelo menos uns cem ou cento e cinqüenta quilos de livros, de bons livros.

Cristina Bonfiglioli: Pegando essa ponte com essa história dos livros, uma das coisas que percebi lendo seus livros e as reportagens ao seu respeito é que... a sensação que eu tenho é que você é um apaixonado por história da navegação; na verdade, você gosta muito. As pessoas falam “o Amyr é apaixonado pelo mar”, eu acho o Amyr apaixonado por história da navegação. E aí eu acho que vem essa coisa da sua paixão por escrever, de repente, do registro, de registrar a sua viagem. A minha pergunta é assim: como é que é planejar um registro?  Porque a viagem eu sei que você planeja detalhadamente. Como é planejar o registro da sua viagem?

Amyr Klink: É um inferno, é um pesadelo constante. Eu tenho uma profunda admiração por quem escreve. Eu penso que escrever é uma das formas mais bonitas de comunicação, mas é uma forma difícil, porque ela permanece. O que a gente fala aqui fica no ar, talvez alguém registre em fita, mas o que você escreve numa revista, numa página, numa folha, num livro fica. Na verdade, eu não planejo, algumas viagens resultaram em livros. Eu não viajo para escrever livros. Fiz muitas viagens bonitas onde não pretendo contar nada do que aconteceu porque eu seria preso [risos], mas eu tenho dificuldade de escrever quando estou sozinho. Sozinho num barco, primeiro o desafio é administrar o próprio tempo: a gente dorme, eu durmo períodos de 25 minutos a cada 45 mais ou menos, então não dá tempo e dá preguiça de ficar escrevendo. Eu me disciplino para, no mínimo, uma página inteira cada dia, fazer de um diário numerado. Então eu sempre viajo com cadernos numerados em branco e preencho, religiosamente, uma página por dia. [Se] eu estou com preguiça de escrever, às vezes eu só desenho nessa página, às vezes eu faço anotações no código ship [indicativo para navios do código sinótico internacional], às vezes rabiscos, mas aparentemente é um registro caótico.

[...] [interrompendo]: É um diário de bordo.

Amyr Klink: É um diário de bordo caótico, que no final...

Cristina Bonfiglioli [interrompendo]: Que você não sabe o que vai ser usado no final...

Amyr Klink [interrompendo]: Não. Às vezes tem histórias que terminam bem, mas que são muito chatas. Agora terminamos a viagem de descobrimento, foi uma das viagens mais legais que eu fiz na vida, mas também o motivo da viagem foi completamente sem graça, nesse sentido, chatíssimo se fosse escrever alguma coisa a respeito.

Paula Saldanha: E fotografia? Fotografia você faz bastante, mais a parte de documentação em vídeo. A gente lá no seu barco, em Jurumim, ali em Parati, você estava confessando para a gente que você se atrapalha todo. Porque, obviamente, na hora da "pauleira", na hora em que você começa entrar numa fria, fica difícil documentar em vídeo esse material. Você falou que...

Amyr Klink [interrompendo]: O registro em película ou em vídeo, como eu chamo isso, dinâmico, é muito difícil, mesmo para quem está fazendo só o registro, por exemplo, fazer fotografia e cinema ou fotografia e vídeo, a mesma pessoa, é praticamente impossível de fazer bem feito. Eu resolvi me render às minhas capacidades. Eu sei fazer, já fiz as duas coisas, mas não dá para fazer as duas coisas...

Paula Saldanha [interrompendo]: Mas tem aquelas camerazinhas que você prende, usada até em fórmula-1...

Amyr Klink [interrompendo]: Eu levei, mas não me dei ao trabalho de ligar, porque eu nunca faria um trabalho de boa qualidade e daí que surgiu a idéia do Paratii 2, que é um barco concebido para captar imagens, e daí surgiu a idéia de não viajar sozinho e poder levar ou as meninas ou uma tripulação experiente e poder cutucar lugares difíceis com o propósito específico de captar imagens. O barco talvez vá para a água este ano, talvez no ano que vem.

Paulo Markun: O que ele tem de especial para isso?

Amyr Klink: O barco é uma máquina maravilhosa. Eu acredito que no mundo não há hoje uma máquina com essas características. É um veleiro, o teste dele foi essa volta ao mundo que está contada no Mar sem fim, onde o grande mérito que eu tenho na viagem foi ter apostado numa solução maravilhosa de um inglês maluco, que inventou esse mastro sem estaiamento que já tinham inventado os nossos cearenses, aqui, com as jangadas. Então, o barco novo vai usar uma mastreação desse tipo, extremamente simples, e é um barco que vai ter quatro anos de autonomia e a idéia é poder... ao mesmo tempo em que ele pode fazer travessias em situações difíceis, ele pode navegar em lugares muitos rasos como fizeram os vikings quando tiveram na América....

Paulo Markun: A bolina é retrátil, não é? [equipamento que fica submerso e é usado para garantir o equilíbrio do barco. Ele pode ser recolhido para dentro do corpo da embarcação quando necessário] 

Amyr Klink: Exatamente, então, é um barco muito grande, quatro anos de autonomia, pode levar muita autonomia para até dez pessoas, mas ele pode navegar em águas muito rasas. E exatamente essa particularidade foi o que diferenciou o Cook da marinha britânica, o que o Villela falou: a grande diferença, na época a marinha Britânica foi ficando burra e os barcos eram todos padronizados e ele percebeu a necessidade de um barco com autonomia. Então nós projetamos um barco, ele está lindo de morrer. Faltam ainda recursos para acabar e meu propósito, meu grande objetivo agora é trabalhar para burro para acabar esse barco.

Rubens Villela: Em relação a esse sistema inovador de mastreação, eu acho isso tão importante, chega a ser até revolucionário que merecia mais explicações no seu livro.

Paulo Markun [interrompendo]: Tem gente que nem sabe o que é estaiamento, tem que dar uma idéia para o público leigo também.

Amyr Klink: Estaiamento é tudo aquilo que quebrou na Nau Capitânia [risos]. Esse barco novo, ele tem um mastro que, simplificando, ele tem estrutura de um coqueiro: ele é suportado pelo pé, ele não é suportado por cabos de aço. A idéia é muito simples, é muito antiga, a diferença é que ele é rotativo, ao mesmo tempo está apoiado em dois rolamentos de plástico sintéticos e, com isso, ele traz uma extraordinária facilidade de manejo para o barco.

Rubens Villela: O que gira é a retranca [peça horizontal que parte do mastro e compõe o conjunto mastro, vela e retranca], não o mastro.

Amyr Klink: Não o conjunto todo, o mastro vira e a retranca....[demonstrando o movimento rotativo com um pedaço de papel]  O conjunto todo vira 360 graus, como se fosse essa cadeira onde eu estou sentado. A idéia é muito simples e muito eficiente.

Ruben Villela: Mas como é que o mastro gira se o perfil é de uma asa? Ele não é cilíndrico?

Amyr Klink: Na altura dos rolamentos o perfil é cilíndrico e essa pequena facilidade – que se transformou em sofisticação dos materiais modernos, a fibra de carbono–, na verdade, é uma idéia antiga. Os juncos chineses já se valiam desse princípio, do balanceamento de velas. O que mostra que, muitas vezes, a tecnologia de ponta no mundo vem de soluções muito antigas, que não foram colocadas em prática pela falta do conhecimento do uso dos materiais.

Paula Saldanha: E para velejar sozinho é muito mais fácil.

Amyr Klink: Para viajar sozinho é uma coisa maravilhosa. Então, para velejar com uma equipe, a gente tem uma "equipezinha". Esse ano a gente correu a regata do descobrimento com mais quatro tripulantes e, assim, eu não gosto de falar, mas, modéstia à parte, a gente fez um show no Cabo Verde.  Nós éramos trinta veleiros participando de uma prova onde ninguém levantava as velas nos portos. Porque as entradas e saídas dos portos eram feitas a motor e a gente fez uma saída completamente diabólica no Cabo Verde, fazendo voltas em torno de todos os barcos, tirando finas dos barcos da marinha, dos cisnes brancos, dos Salles, da Caravela Boa Esperança, dos outros veleiros para mostrar o que é possível fazer quando você tem um sistema simples de comando rápido. E os cabo-verdianos ficaram alucinados. Acabei de receber uma carta aqui dizendo que o pessoal da cidade ficou abismado de ver um veleiro fazer umas manobras tão radicais dentro do... praticamente dentro da cidade.

Paulo Markun: Amyr, nós vamos fazer um... nada radical intervalo rapidinho e já voltamos, já,  já.

[intevalo]

Paulo Markun: Vários telespectadores, Amyr, abordam a mesma questão com pequenas nuances.  Jeane Rodriguez,  como as pessoas de Volta Redonda, no Rio de Janeiro – alguns mandam por Internet e a gente fica sem saber de onde é –  Henrique Trindade, de Recife, em Pernambuco, Marcos Kaiser, que não diz de onde é, Rita Elisa, de São José dos Campos, e o Jeane, que eu já mencionei, querem saber sobre solidão. 

Amyr Klink [interrompendo]: A Joana também [risos] [essa pergunta veio depois do intervalo e subentende-se que o Markun entregou diretamente ao entrevistado, um pedaço de papel com a pergunta da telespectadora Joana]

Paulo Markun [repetindo com risos]: A Joana também... que eu entreguei direto para ele a pergunta, que é mais objetiva. Mas, enfim, todos abordam assim: como é que a solidão é uma parte da sua vida? Porque algumas dessas viagens que você fez foram viagens solitárias.

Amyr Klink: Bom, eu penso que a gente só desfruta das coisas sobre as quais a gente sentiu falta uma vez na vida ou desejou muito. Então, ela pergunta sobre sexo. Não adianta, não tem em alto-mar, não tinha o Cook e a tripulação dele, não tiveram todos os portugueses que vieram para cá.

Paulo Markun: Como diz ela: sexo não-solitário.

Amyr Klink: Não-solitário. A distância da família da pátria e todas essas coisas.  Eu não gosto de ficar sozinho, eu detesto a sensação de solidão, mas eu descobri que essa sensação é muito diferente do que a gente imagina. Não é estar num barco no sul do Oceano Índico, nas bordas da Antártida. A solidão é estar abandonado. É um sentimento de falta de apoio e não existe isso para um barco que está em boas condições técnicas. Para um barco afundando à deriva, aí, sim, aí a gente está mortalmente solitário. É pena que no Brasil se divulguem pouco as provas em solitária. Eu gosto muito de acompanhar as regatas em solitário, são provas muito bonitas exatamente pelo espírito de equipe que existe nelas. Quer dizer, um coitadinho ou uma menina que está dentro de um barco, tem o metereorologista que está dando o apoio atrás, tem uma equipe que está dando informações atrás, e são provas bonitas, porque não acontecem cercadinhas no meio do mundo, num alambrado ou em volta de três boinhas, mas acontece ao redor da Terra. E aí não dá para brincar, quer dizer, não entra só o aspecto da velocidade, mas entra o respeito ao meio e o respeito aos próprios materiais, entra o aspecto da logística, quer dizer, quão rápido você pode ir sem quebrar por exemplo. Então, nessas provas existe a solidão técnica, digamos, que não é ruim, é divertido. Tudo [se] compensa [com] a chegada, na chegada tudo aquilo que faltou a gente aproveita.

Paulo Markun: Agora, você falou da solidão e que existia uma equipe acompanhando você. Essa equipe basicamente se comunicava, no caso dessa última viagem, pelo bom e velho rádio amador e você menciona uma pessoa que se chama América, se não me engano?

Amyr Klink: É uma rádio armadora de Curitiba que acompanha muitos velejadores brasileiros, muitas famílias e também muitos brasileiros trabalhando em navios, plataformas, que têm dificuldades de comunicação com...

Paulo Markun [interrompendo]: Mas você também usou, nesse caso específico, um pager e um telefone iridium [por satélite], não é, ainda na primeira versão?

Amyr Klink: Eu usei o equipamento iridium. Infelizmente, houve um problema com a iridium no mundo e são os problemas das tecnologias muito novas, quer dizer, não é só um problema tecnológico, mas tem um problema econômico.

Paulo Markun: Mas funcionou bem?

Amyr Klink: Funcionou maravilhosamente bem.

Paulo Markun: E o que muda isso de você ter a possibilidade efetiva de... Porque uma coisa imagino que seja a comunicação via rádio amador, em que tem toda aquela estática e uma ponte complicadíssima, e a outra é você pegar o telefone e ligar e falar com a tua casa.

Amyr Klink: Interessante a sua pergunta. Tira muito da graça. Um amigo nosso na Antártida, o Júlio, uma vez ele viu o iridium na minha mão e falou: "Puxa, não acredito! Um telefone? Não é possível!" A gente estava num lugar escabroso, ele ligou para a casa dele e desligou profundamente decepcionado. Ele falou: "Acabou em mim o sentido de viajar". E é verdade, porque o mundo fica muito pequeno. Então eu tive o privilégio, nessa volta ao mundo agora, de acompanhar as duas fases. Eu comecei lá no bom e velho rádio amador e no final terminei usando o iridium que, no fim, faliu ou fechou. Enfim, os satélites foram sendo desligados. Existe uma característica do rádio-amadorismo que não há nos outros veículos e que eu prezo muito, não há a internet. A internet, sem dúvida, é um veículo fabuloso, mas a característica do rádio-amadorismo que não há no chat da internet é a solidariedade. É uma profunda e verdadeira solidariedade. Ninguém se esconde atrás...

Paula Saldanha [interrompendo]: Para o que der e vier.

Amyr Klink: Para tudo. Ninguém se esconde atrás de um pseudônimo, fazendo gracinhas ou perguntas que não tire a coragem de fazer face a face.  Esse é um aspecto que eu respeito muito.

Hélio Alcântara: Amyr, eu conheci muitos velejadores fazendo travessias, lógico, da Europa para a América do Sul e América do Norte e a grande maioria não sei se eu definiria como aventureiros, não no sentido pejorativo, mas de pessoas que se lançam no mar em busca da própria viagem, vamos dizer assim, do velejar e tal.  E a maioria dizia a verdadeira vida, o verdadeiro viver estava nessa comunhão, nesse trato com as pessoas que se encontravam nos lugares, como alguns de que você fala aqui, do casal na base. Você acha que isso também perpassa toda a sua idéia, quer dizer, você também sente um pouco ou sentiu que, no mar, você está longe das várias hipocrisias da sociedade e especialmente da sociedade brasileira ou você acha que é exagero?

Amyr Klink: Sem ser pedante, sem ser contra a sociedade de consumo, essas bobagens, mas o fato é que, quando você está viajando e quando chega em lugares pouco freqüentados ou mesmo lugares tumultuados, sei lá, como Barcelona ou capitais européias, essas coisas... o fato é que as pessoas que chegam ali de barco, há automaticamente uma comunhão natural entre elas. Não há diferenças. Alguns andam em barcos de milhões de dólares, alguns em barcos que eles mesmos construíram com as próprias mãos e são absolutamente iguais. Existe uma comunhão natural entre essas pessoas independente...

Hélio Alcântara [interrompendo]: Que só quem faz experimenta.

Amyr Klink: Só quem faz sente.. Independente do fato de estarem solitários ou com a família ou com cinqüenta caras num navio veleiro, escolhe. E [d]esse espírito eu gosto muito e eu descobri esse espírito em Parati, porque Parati é um lugar tão maravilhoso e o Brasil é cheio de tantas coisas maravilhosas, que, pelo fato de existir em fartura, a gente simplesmente se acostuma a elas e não vê. Eu descobri que havia uma comunhão de pessoas, de famílias, centenas, talvez milhares de famílias viajando pelo mundo sem recursos, sem apoio, sem tarjetas de aventura, não sei o quê, mas pelo puro amor ao fato de estarem viajando e conhecendo outras pessoas viajando, que iam dividindo problemas. “Como a gente faz para conservar os ovos? Como é que a gente faz para arrumar um pouquinho mais de dinheiro no Pacífico? Pescando, colecionando conchas. Onde é fácil arrumar um trabalho para poder ficar mais uns dois ou três meses? A África do Sul é um bom lugar, agora é melhor ir para as..”.

Paula Saldanha [interrompendo]: Essa solidariedade faz parte das leis do mar. Você está em qualquer veleiro, qualquer embarcação, você é obrigado a ser recebido em qualquer iate clube...

Amyr Klink [interrompendo]: Então, o mar funciona como uma espécie de filtro que naturalmente elimina os chatos. Não há muito espaço. Tem muita gente chata no mundo, arrogante e pretensiosa. Existe esse processo natural que se chama mar, que vai comendo ou corroendo eles pelo caminho. [risos]

Paula Saldanha: E você virou uma rã, um homem do mar! Você não era, mas virou uma rã.

Amyr Klink [interrompendo]: Eu não sou ainda.

Paula Saldanha: Ainda não é? Você ainda não se considera ainda?

Amyr Klink [interrompendo]: Eu não sou, porque não moro dentro do barco assim.  A nossa casa em Parati, a Marina e das meninas ainda é o barco, mas nós não moramos permanentemente lá.  O dia em que nós morarmos num novo barco, aí sim eu vou me considerar um homem do mar.

Ulisses Capozoli: Amyr, você falou agora a pouco das coisas maravilhosas do Brasil. Você me disse, há vários anos, um bom número de anos atrás, que o Brasil tem memórias de construção naval, de técnicas de construção de barcos que vêm dos fenícios, de coisas muito antigas e você estava muito preocupado com a preservação disso de alguma forma. Como é que estão essas coisas? A gente está perdendo essas técnicas, aquelas técnicas de construção de barcos da Amazônia e, mesmo, ao longo da costa. Você trabalhou um pouco mais com isso, como é que estão essas coisas?

Amyr Klink: Bom, eu trabalhei nisso, ajudei a criar um Museu Nacional do Mar onde tem a principal coleção de embarcações brasileiras, não porque eu seja tarado...

Paulo Markun [interrompendo]: Em São Francisco do Sul, não é isso?

Amyr Klink: São Francisco do Sul. 

Paulo Markun: Santa Catarina.

Amyr Klink: ...não porque eu seja doente por embarcações, mas porque eu penso que, talvez, foi a primeira manifestação genuinamente autêntica da cultura brasileira, foi a arte de construir barcos. Eu adoro barcos por isso, porque os barcos são uma pequena célula de expressão de uma cultura. É diferente de um avião. Um avião não exprime cultura coisa nenhuma. Um carro também não... uma parcela, mas um barco, não, um barco...

Ulisses Capozoli [interrompendo]:  Por que um barco exprime e um avião não?

Amyr Klink: Porque você dorme dentro dele, você não dorme dentro de um avião. Você faz filhos dentro de um barco e cria os filhos dentro de um barco, não cria dentro de um avião. Você leva sua música predileta, você escreve poemas para a sua namorada, você recebe as pessoas, você cozinha as coisas que te ensinaram na sua cultura e esse intercâmbio é natural num barco. E o Brasil tem uma cultura, nesse aspecto, maravilhosa. Quando a gente ouve, às vezes, um professorzinho da USP falar que "não tem importância a memória, não sei o quê!" me dá alergia, eu fico completamente abismado da falta de interesse pela nossa própria cultura que existe. Então... e há informações maravilhosas, né? Por exemplo, a jangada é uma embarcação altissimamente evoluída, não há uma peça metálica numa jangada de piúba. Ela orça [capacidade que o velereio tem de se inclinar contra o vento] trinta e oito graus contra o vento [inclinação da vela em relação ao vento, imaginando que ele está contrao vento].

Paulo Markun: Só para explicar isso. Significa que ela anda muito perto do ...

Amyr Klink [interrompendo]: Isso. Ela anda contra o vento, num ângulo [em] que embarcações sofisticadíssimas não andam. O Paratii, que é um barco que acaba de ganhar um prêmio importante por sua tecnologia, não anda trinta e oito graus contra o vento como uma jangada, então a...

Paulo Markun [interrompendo]: Ela só tem três furinhos que você muda de posição.

Amyr Klink: Três furinhos hoje, mas antes, no passado, havia onze furos, cinco furos de cada lado e um furo central. Você mede a corrosão da nossa cultura pela diminuição dos furos da jangada. Enfim, há muitos traços importantes da cultura brasileira que têm que ser preservados. Não para ficar em um museu criando poeira, mas para estimularem os filhos desses construtores a continuarem ou evoluírem. O que não se pode é deixar morrer e está morrendo.

Ulisses Capozoli [interrompendo]: Depois dessa fala sua, Amyr, desculpe te interromper, belíssima. Como é que a gente, com que olhos a gente olha, por exemplo, a Nau Capitânia, esse fiasco da Nau Capitânia [refere-se ao problema da réplica da embarcação que trouxe Pedro Álvares Cabral ao Brasil, que não conseguiu sair de Porto Seguro. O evento fazia parte das comemorações dos 500 anos de descobrimento], o que é que está por trás disso? Isso é uma agressão contra a cultura brasileira, contra os nossos valores em vários sentidos, não – nesse, inclusive, [a] que você acabou de se referir?

Amyr Klink: Bom, hoje me ligou um amigo português que fez a regata com a gente e perguntou "puxa, o que eu achava do fiasco", como você disse, dos erros. Eu disse: acho que não há, não houve nenhum fiasco na história da Nau Capitânia e muito menos erros. Para quem construiu um barquinho de papel que seja, que tenha o mínimo conhecimento, é visível que, desde o começo, houve um deliberado ato de má-fé. Eu penso que os responsáveis por isso, não sei se é o Ministério da Cultura, Esportes ou se é a Marinha, devem uma explicação ao contribuinte brasileiro. Ali não houve erro nenhum, houve um ato deliberado de má-fé. Não havia intenção de fazer um barco ali, havia a intenção de fazer uma maquete.  Então, é triste porque, por outro lado, põe a perder o trabalho que se fez em Portugal com a Caravela Boa Esperança, que é belíssimo, onde eles educam jovens há dez anos. Estão trazendo jovens para o mar para conhecer as técnicas portuguesas que foram... não esquecidas, foram escondidas para fazer treinamento, para fazer viagens, viagens de representação, inclusive. Então, eu gostaria de ver uma explicação. Parece que houve um almirante, Castelo Branco, que pediu desculpas pelo erro. Ele não deve desculpas por erro nenhum, ele deve uma prestação de contas para a nação.

Rubens Villela: Amyr, você precisa ensinar essas coisas na sua escola.  Eu sei que você tem preocupações sociais também, você fez uns comentários lá na África desse rally de Dakar [prova de automobilismo bastante conhecida que sai de Paris, França, e vai até Dakar, capital do Senegal, no norte do continente africano] que mostra isso, que você achou que o povo africano estava sendo afrontado pelo comportamento daqueles europeus lá no Rali.  Então você precisa mostrar essas coisas aqui no Brasil, você precisa ensinar a arte naval, você precisa ensinar navegação, precisa ensinar construção de barcos.  Eu tive a felicidade de ver a construção do Paratii. Eu cheguei naquele estaleiro lá em Riacho Grande da Serra, e o que vi foi um monte de chapa sujo de terra. Daquilo saiu um barco que eu não conseguia imaginar, e saiu um belíssimo de um barco, o Paratii. Deu trabalho e foi preciso mudar para outro estaleiro, mas eu via aquele sonho se concretizar, não só o barco saiu bom, mas ele foi colocado em mãos capazes e competentes e está ai até hoje, dando provas da competência de quem construiu, dos seus soldadores, dos chapeadores, dos marceneiros, do desenhista na prancheta e tudo isso.  Mas isso precisa ser passado às pessoas, no Brasil. Você já andou recebendo muitos jovens lá naquela escola, fez um sucesso extraordinário...

Amyr Klink [interrompendo]: A escola, na verdade, não existe ainda, Villela. A gente tem dificuldades em fazer com que essas atividades sejam permanentes, mas ao longo do tempo...

Paulo Markun [interrompendo]: Onde fica, Amyr?

Amyr Klink: Lá em Parati. Num sítio que a gente tem, onde a idéia, a primeira idéia era ocupar uma parcela importante da juventude paratinense que não tem opção de trabalho e que tem um amor declarado pelo mar.  Eles adoram o mar. O mar de Parati faz parte da cidade, então a gente criou essa idéia da escola.  Agora eu penso que este exemplo deve vir de algumas instituições diretamente relacionadas com o assunto.  Eu falei mal desse, eu não conheço esse almirante Castelo Branco, Domingos Castelo Branco, mas por outro lado a marinha faz iniciativas fantásticas, por exemplo, a aquisição do navio veleiro Cisne Branco, extraordinariamente importante, para quê? Se um navio veleiro caro e tecnologia do século passado. Para a formação das pessoas, que é o item mais importante de qualquer atividade. E nesse item eu penso que nós erramos no Brasil há muito tempo, pelo fato de não praticar mais o treinamento no mar. Esse português que me telefonou hoje de Portugal, ele falou uma frase que eu não vou esquecer, repetiu: A Marinha perdeu o sal. E é verdade.  A gente pôde perceber que perdeu-se muito do senso marinheiro, do bom senso, dessa capacidade de sacrificar um pouco do que é seu para o seu vizinho, de formar uma equipe com gente que não necessariamente tem o mesmo gosto que você, de conseguir alcançar um objetivo, enfim, resolvendo problemas e então acho que, aos poucos, a gente vai achar o caminho.  Esse fato da Nau Capitânia, sem dúvida, é um crime contra todos os construtores de barcos e é um crime contra os brasileiros. Eu gostaria muito...

Paulo Markun [intyerrompendo]: Como se nós não tivéssemos bons, excelentes projetistas...

Amyr Klink [interrompendo]: Infelizmente, nós temos outros problemas infinitamente mais sérios do que naus e, mesmo se fosse uma nau...  O que me assusta é que, se fosse bem-sucedido o projeto, serviria absolutamente para nada. Quem é que quer aquele barco de graça?  Se me dessem agora de graça para pôr em casa, no quintal de casa... ninguém quer.  Não serve para absolutamente nada. Um dinheiro jogado fora. Um dinheiro belíssimo é o dinheiro do Cisne Branco, quer dizer, um navio que vai representar o Brasil no mundo e que vai formar jovens e que talvez vá criar neles esse espírito de que o Villela falou, o espírito de amor ao mar, de respeito ao meio.

Cristina Bonfiglioli: Pegando esse gancho, Amyr, falando em solidariedade, em má-fé, em crime, em formações de jovens e tudo isso, você, nesse seu último livro, fala das baleias, fala da questão da base baleeira que você encontrou. Você sempre, nos seus livros, fala dos bichos, fala de como você fica impressionado de ver o tamanho dos bichos, das baleias, dos pingüins, dos wandering-albatrozes, dos albatrozes errantes. Como é que é? A questão ambiental, ela aparece como nos seus livros? Ela não aparece muito, você não quer falar sobre isso? Mesmo esses projetos da escola do mar e do museu, eles têm uma outra proposta. Dentro dos seus projetos, a questão ambiental não entra muito, como é que é?

Amyr Klink: Entra, só que entra de uma maneira totalmente natural. Eu não gosto de ficar dando lição de moral, eu penso que se falou tanto em meio ambiente ou termos ambientais, que muitas vezes houve um esgotamento de alguns termos e simplesmente há uma automação na cabeça das crianças quando escutam falar. É muito mais bonito ver isso em pequenas coisas. Eu acho besteira ficar falando em preservação ambiental só na Amazônia, tem que falar em preservação ambiental em São Paulo, no Rio de Janeiro, dentro das metrópoles, onde a gente comete o início dos erros nessa cadeia de erros que a vida humana pratica na Terra. Essa viagem do Mar sem fim, para mim, foi interessante, porque ela começou e terminou num sítio que é exemplo disso. A demanda mundial por óleos, por fixadores para cosméticos e essas coisas gerou um preço formidável dos produtos da baleia. E ali praticou-se talvez a maior operação de extermínio de baleias. A gente deveria olhar isso como um crime? Talvez, mas todas as pessoas, nossos avós, nossos pais e talvez nós mesmos, na época, fomos coniventes com isso, nós adquiríamos produtos resultantes disso. Então, não basta você simplesmente [dizer] "eu sou contra a poluição". Aí você vai ao McDonalds e compra lá uma embalagem e joga no lixo. O mundo não tem o direito de comer um big Mac, porque se todas as pessoas do mundo comessem um big Mac, viraria uma montanha, algum continente viraria uma montanha de caixinhas de big Mac. Então, há uma participação, hoje, [em que] cada um tem que ser responsável. Exterminaram praticamente as focas-de-pêlo, elefantes marinhos e diversas espécies de baleias. As focas se recuperaram, há mais focas hoje do que havia no início da exploração foqueira e há mais elefantes marinhos. O problema é que as baleias não se recuperaram, então...

Paulo Markun [interrompendo]: Mesmo aqui no litoral do Sul, em Santa Catarina, onde há vários vestígios de armações de baleias, a caça à baleia aconteceu até bastante pouco tempo atrás, em mil setecentos e pouco. Chegaram a matar quinhentas baleias por ano e hoje não aparece nem cinqüenta, quer dizer, quase duzentos anos depois e a coisa não ...

Paula Saldanha [interrompendo]: Por outro lado, no banco de Abrolhos, em poucos anos, a gente pôde ver o crescimento do número de baleias jubarte pelo simples fato de o Brasil não caçar mais baleias. Então, no banco de Abrolhos esse número está crescendo, que é um terço...

Amyr Klink [interrompendo]: Está crescendo, mas eu parei lá agora, há umas semanas atrás e acredito que talvez [seja] porque ali seja um ponto da rota delas muito importante.

Paula Saldanha: Muito importante e local de reprodução, não é? Agora, eu discordo de você [refere-se a Cristina Bonfiglioli], eu acho que o Amyr acaba falando sobre essa questão ambiental em frases curtas, nas entrelinhas como, por exemplo, quando você fez [viagem] entre dois pólos, não é? Você comentando o absurdo das embalagens no mar do Norte, na grande quantidade de lixo que é produzido.

Amyr Klink: Eu penso que os exemplos da baleias, pelo fato de... as minhas meninas sabem tudo sobre as baleias. Com três anos de idade, elas ficam impressionadas. É um ser que emociona, que impressiona, que assusta, que dá medo,e que mostra como nós somos perigosos, quer dizer, a nossa intervenção é perigosa. O que está acontecendo, que você mesma falou agora, por exemplo, em relação ao subsolo das áreas indígenas, é o exemplo de intervenção completamente ainda desregrada.

Paula Saldanha: E que, ainda há pouco... A gente estava conversando antes do programa, entrevistei hoje de manhã, Orlando Vilas-Boas [(1914-2002) sertanista. Dedicou grande parte de sua vida à defesa dos povos indígenas brasileiros] e ele preocupadíssimo com os interesses internacionais em relação ao subsolo das áreas indígenas.

Amyr Klink: A ocupação da Amazônia, enfim, inúmeros exemplos de intervenção perigosa, mas eu citei no livro e talvez seja chato de ler, é uma tabela de mortes de baleia. Eu achei uma das coisas mais bonitas que vi até hoje. Você analisa ano a ano os números das baleias e acompanha os números, ou seja, é uma fotografia do grau do perigo da intervenção humana, assim, nítida.

Cristina Bonfiglioli: É muito interessante porque a Comissão Baleeira Internacional...

Amyr Klink [interrompendo]: Aliás, queria pedir desculpas, porque no livro há um erro no total de baleias mortas, setenta e um mil, e está faltando o um, é um erro da editora, é cento e setenta e uma mil baleias mortas.

Cristina Bonfiglioli: Porque o que eu acho impressionante nesse registro que você colocou no seu livro é que a Comissão Baleeira Internacional, que trata de proteger as baleias no mundo todo, foi criada em 1945 e, mesmo depois, você vê que ela não conseguiu regulamentar ou cuidar ou evitar que o desastre acontecesse. Então, é até por causa disso que hoje a Comissão Baleeira Internacional já tem uma postura mais conservacionista e procura não defender mais a caça, apesar de a gente saber que os japoneses vão lá todos os anos, não é? [risos]

Amyr Klink: Mas a nossa intervenção, de qualquer maneira, aos poucos, vai ter que mudar. E a embalagem, eu sei que embalagem não polui, digamos, poluição visual, mas interfere no meio. Por exemplo, a gente, na viagem de Portugal para cá, de Fernando de Noronha para baixo, pegamos só vento no nariz, vento contrário. Então fomos obrigados a fazer bordos, um bordo em direção ao Brasil, um bordo em direção à África e passamos lambendo João Pessoa, Recife, norte da Bahia, Salvador e, a cada cidade um pouco maior [por] que a gente passava, era espetacular, espetacular a quantidade de sacos plásticos que estão semi-submersos. Então, você passava num mar de manchas brancas na água de saquinhos plásticos de embalagens, quer dizer, onde vai parar isso?

Cristina Bonfiglioli: É muito, é no mínimo contraditório, porque as leis de navegação que falam inclusive do tipo de tratamento que tem que ser feito com lixo, a bordo dos navios, proíbe justamente... o único tipo de produto que não pode de qualquer maneira ser jogado é plástico no oceano. Justamente por causa...

Amyr Klink [interrompendo]: É, mas esse plástico não foi jogado pelos navios.

Cristina Bonfiglioli: Sim, as correntes levaram, então, quer dizer, não adianta nada se os navios não estão jogando, se as cidades não estão tratando dos lixos.

Amyr Klink: Por isso que eu disse que esse problema...

Paula Saldanha [interrompendo]: As pessoas jogam o lixo no lixo e os governos pegam o lixo e jogam nas águas.

Amyr Klink: Isso acontece com freqüência no Brasil.

Paulo Markun: Só uma licença. Nós vamos para mais um intervalo e voltamos daqui instantes.

[intevalo]

Paulo Markun: Pergunta sobre o mesmo tema. Paulo César de Lima, de Osasco, São Paulo, Sidney Bianco, de Ji-Paraná, Cláudio Canata, de Diadema, São Paulo, e Fabiana Camargo, de Rio Claro, São Paulo, [perguntam]: e o dinheiro, de onde vem, se é difícil, como é que se faz para conseguir tutu para fazer essas viagens?

Amyr Klink: Sem dúvida é o mais difícil. O que eu vejo hoje é que tem muita gente que está sentada numa cadeira, tem uma linda idéia e sai por aí e contrata uma assessoria de imprensa, contrata desenhistas para fazer a capa do seu projeto e não colocou nada, não apostou nada do seu sacrifício, do seu trabalho. É muito difícil. Eu tenho este problema até hoje, a gente faz os projetos com extraordinária dificuldade e tem anos em que a gente não consegue suporte. Esse ano nós tivemos o apoio da Petrobras, outros anos nós não tivemos. Às vezes, o Bradesco nos ajudou muito a viabilizar o projeto, às vezes a gente não consegue viabilizar por falta de recursos. Sem dúvida é o preço, que é o primeiro desafio de alguém que vai colocar um projeto em prática. A receita para resolver esse problema não tenho e eu penso que não é uma coisa que você pode dar, botar numa capa bonita, dar uma orientação muito objetiva. Depende muito da...

Paulo Markun [interrompendo]: Isso ficou mais fácil depois do primeiro, hoje em dia ficou mais fácil do que antes?

Amyr Klink: Não, tem uns projetos que... alguns são mais caros. O projeto do Paratii 2 é bastante caro, mas é um projeto de cinco anos. Quer dizer ...

Paulo Markun: É um projeto de quanto?

Amyr Klink: É um projeto de quase cinco milhões de dólares. Nós já colocamos quase 40% disso. Trabalhando, estou trabalhando há quatro anos e meio; todas as minhas economias vão para esse projeto. Não estou preocupado se vai ficar pronto amanhã ou fim do ano, mas estou me esforçando muito. Eu não queria era fazer um festival de patrocinadores onde nenhum deles sai ganhando. Por outro lado, levantar recursos desse valor é muito difícil, então eu sei que é difícil e não vou ficar esperando e a gente vai aos poucos diminuindo essa conta.

Hélio Alcântara: Amyr, e quando você vai atrás do chamado patrocínio ou da ajuda, essa empreitada está ligada ao sucesso? Quer dizer, há um condicionamento por parte da empresa, de que se não der certo...

Amyr Klink [interrompendo]: Às vezes. Varia muito. Tem empresas que se interessam em apoiar um projeto que já deu certo. Tem algumas que não querem participar do risco. Tem tipos de patrocínio que são muito importantes. Por exemplo, no caso da Petrobras, no Mar sem fim, eles patrocinaram o custo de edição do livro, então o livro com os mapas que eu queria colocar, com os cadernos em cor, eles chegariam para o público à R$42,00, R$43,00, mas está sendo vendido à R$26,00. Eu não teria condição de pôr o meu dinheiro para baixar o custo do livro de R$40,00 para R$26,00. O submarino está vendendo por R$18,00, R$19,00. Enfim, nesse sentido acho eu que há um benefício direto para terceiros, para quem participa. Agora, há muitos projetos estapafúrdios infelizmente. Gente que acha que vai ficar rica, gente que, no primeiro ano de projeto, já quer saber como vai administrar o sucesso e a verba. Então é muito difícil. Eu não sei orientar. Penso que o que ajuda viabilizar um projeto, primeiro, é você mostrar que você está até o pescoço nele, é vestir a camisa do que você quer fazer. Já ter apostado alguma coisa, já ter colocado algum esforço próprio e a sinceridade do contato.

Paulo Markun: O Eduardo Campos, aqui de São Paulo, menciona o episódio que é um dos momentos mais impressionantes do teu livro, que é um determinado momento da viagem [em] que você acorda, se eu não estou narrando errado, olha para trás e vê um iceberg do tamanho de um quarteirão, que você não tem a menor a idéia de como você passou por ele – quer dizer, por dentro dele, pelo lado?. E ele pergunta o seguinte, se você descobriu por que é que o Paratii não bateu nesse iceberg quando você dormiu mais que os 25 minutos permitidos. Se foi o leme de vento, se foi sorte, se você chegou a uma conclusão.

Amyr Klink: Eu fiz uma mea culpa no livro, eu admiti que eu escapei por sorte e, de fato, houve um fator de sorte. Eu não sei como aconteceu, mas o barco, ou passou muito próximo... Pode ser que ele tivesse se deslocando, mas eu acredito que, pelo fato de estar com o leme de vento e não com o piloto eletrônico.... O leme de vento é muito sensível: três ou quatro graus de variação no vento implicam numa variação igual do leme e, como a parede desse iceberg deveria ter mais ou menos cinqüenta metros de altura por quatrocentos metros de largura... 

Paulo Markun [interrompendo]: Mais que um quarteirão.

Amyr Klink: ...quatro quarteirões e meio quarteirão de altura; quatro de largura e meio de altura. Eu acredito que houve uma variação no vento quando eu cheguei, enquanto dormia, não acordei, não sei por que não acordei, nunca tinha acontecido. Talvez esse desvio no vento tenha feito o barco desviar, o leme de vento desviou e o barco desviou.

Paulo Markun: O Villela tem uma pergunta, mas eu queria emendar na pergunta da Cristina, de Taubaté, São Paulo, que é professora de história.  Ela pergunta o seguinte: “A respeito da espiritualidade, como você se relaciona com a idéia de Deus? Até que ponto essa idéia é importante para você nos momentos em você se sente um ser insignificante e só?” Porque de alguma forma você, no livro, deixa uma janela aberta para dizer: não sei exatamente se alguém ou alguma coisa...

Amyr Klink [interrompendo]: Eu não sou muito religioso, nem muito espiritualista, mas eu fui obrigado a concordar que, se Deus existe, ele me deu uma mãozinha nesse dia [risos].  Eu disse no livro: “Eu não espero de Deus... acho que Deus deve ter um monte de preocupações mais importantes do que tirar a gente de apuros causados por erro.” Eu fiz uma besteira, dormi demais, não acordei nos 25 minutos, mas não sei quem foi que me tirou dessa.

Rubens Villela: Todo marinheiro é temente a Deus [risos], mas, voltando ao caso do iceberg, eu fiz umas continhas aqui. Normalmente esses icebergs se deslocam a um nó, é uma velocidade típica. Eles se deslocam mais com as correntes de fundo do que [com] o vento que está no momento. Então, um nó dá 1.852 metros em uma hora, digamos 1.800 metros. Se você dividir por quatro, dá 450 metros, que era mais ou menos o comprimento do Iceberg. Este comprimento seria feito em 15 minutos, então quando você olhou para trás, o iceberg estava meio distante, você viu a sua esteira diretamente na direção do iceberg.  Me parece que é bem provável que o Iceberg tenha se deslocado bem na sua frente, além do efeito do desvio pelo leme de vento, também pode ser, mas eu acho que o deslocamento do iceberg tem que ser levado em consideração. Se ele estava perpendicular a sua rota, então ele passaria na sua frente em 15 minutos.

Amyr Klink: Eu concordo com a sua hipótese. O que me deixou nervoso quando eu pensei nisso foi que a predominância de correntes ali são de Oeste, o rumo que eu fazia era Leste, quer dizer, estava na mesma orientação e, portanto, se havia um deslocamento do iceberg, o vento estava forte, tinha uns 30 a 35 nós de vento, esse deslocamento seria na mesma direção que a minha. Então, de alguma maneira eu passei muito perto, muito perto. Mesmo que eu tenha passado a cem metros dele, o fato de você lamber por cem metros uma parede de gelo de 400 metros de largura é uma loteria muito grande escapar.

Paula Saldanha: O que teria acontecido se tivesse acertado a proa?

Amyr Klink: Eu teria morrido, porque não há chance de...  Eu acredito no barquinho que a gente construiu ...

Paula Saldanha [interrompendo]: O casco do Paratii não agüenta o...

Amyr Klink [interrompendo]: O problema é que o vento nessa região ao redor da terra é predominantemente de Oeste, então esses icebergs têm sempre a sua face voltada para o vento diabolicamente erodida pelas ondas. Então, nessas paredes, formam-se gargantas e passar a uma milha, que são dois quilômetros de distância, já deixa a gente tremendo de medo. Dá medo.  Porque a uma milha, a gente escuta as sucessões de explosões na frente dele. Se a gente entrar numa parede de 40 metros de altura com grutas de cinco ou oito ou dez metros...

Paula Saldanha: Como num glaciar [geleira], ele vem todo.

Amyr Klink: Não sobra muito o que fazer. Não adianta ter balsa da marinha, porque a gente vai ser moído nessas... então, não é para bater em icebergs.

Sérgio Túlio Caldas: Amyr, num momento como esse, você sozinho no mar, navegando... a gente sabe que o controle da tensão é primordial para você escapar de uma situação como essa. Queria saber como você controla esses momentos tensos quando você está no mar e se esse medo que você sentiu diante do iceberg colossal foi só um medo ou se você já experimentou... você teve aquela sensação que a morte podia estar ali perto ou se você já conviveu com a morte assim próxima de você.

Amyr Klink: É meio besta falar isso, mas eu não me incomodaria de morrer lutando, se eu tivesse a chance de escapar, como já tive algumas vezes, para sair de um problema como, sei lá, voar a âncora ou em outros barquinhos menores ou quando quase me afoguei uma vez nadando. Mas o que me doeu nesse episódio... não me incomodaria mesmo se tivesse que tentar desviar o barco, escapar, batesse o mastro, voasse um pedaço. Mas o que me doeu no episódio foi o fato de que o acidente já tinha passado e eu simplesmente não tinha o que fazer.  Eu fui poupado por alguma razão.  Então este fator de sorte é horrível, aí, sim, talvez foi a única aventura que tive.

Paula Saldanha: Nessa linha disso que a gente está falando, você, sentado lá no Paratii, em Parati, dando entrevista para a gente, estava comentando naquele momento em que você começou a surfar nas ondas gigantescas e teve que ficar de costas para a proa, olhando para trás, as ondas que vinha quebrar em cima do Paratii.  Esse foi um momento em que você sentiu a mesma sensação ou é diferente?

Amyr Klink: É diferente. Eu senti muito medo, mas naquela hora eu tinha só duas coisas para fazer. Uma, eu não podia dormir. E a segunda: eu não podia relaxar do leme. Mas, à medida que eu fui conseguindo controlar o barco ...

Paula Saldanha [interrompendo]: Você até gostou da história. [risos]

Amyr Klink: É fácil falar isso aqui nesta cadeira, que é bem confortável [apontando para a cadeira onde está sentado].  Mas o fato é que é uma coisa....  Parece sadomasoquista, mas não é, eu não sou masoquista. Mas é uma coisa absolutamente maravilhosa, descer ondas de 20, 25 metros, aquelas explosões. Eu nunca tinha visto um mar desse tamanho. E você com uma casquinha de 15 metros descendo essas paredes durante semanas a fio, dias e dias e de repente uma “pauleira” de 50 horas. Por isso que eu disse que no Paratii 2 eu gostaria muito de ter alguém com a única função de captar imagens. Eu adoraria ver a cara dos meus amigos descendo essas paredes de 25 metros [risos].

Ulisses Capozoli: Amyr, enquanto você falava disso, eu me lembrei aqui da narrativa do Nansen [Fridtjof Wedel-Jarlsberg Nansen (1861-1930), cientista e explorador norueguês], o construtor do Fram [navio de 402 toneladas, Fram significa “avante” em norueguês], o navio que o levou a fazer a conquista do pólo Sul. Mas, quando eles começaram a descer, o primeiro navio deles foi esmagado pelo gelo. E eles falando, ele com mais um companheiro, da possível solidão galáctica do homem na noite polar do Ártico. Quando você navega, especialmente quando você navega sozinho e quando você olha o céu estrelado, é inevitável que você tenha essa dimensão de Deus. Eu não falo da dimensão de Deus do Papa. Eu falo de Deus, essa natureza profundamente misteriosa.  Esse não é, na verdade, ou essa não é uma forma de você ter este contato com o grande desconhecido? Quando é que a gente pode falar sobre a natureza de Deus, que é uma coisa profundamente misteriosa? Mas não é uma sensação desse tipo?

Amyr Klink: Talvez, mas eu sou muito reservado para falar sobre Deus. Eu sempre tive zero nas aulas de religião no colégio São Luís. Talvez, talvez seja, talvez seja isso uma das coisas que atraem tanto a gente para um lugar como a Antártida, às proporções tão fora do convencional, onde, de repente, a gente se sente de fato pequeno. Sem ser pejorativo esse pequeno e, ao mesmo tempo, a gente se sente poderoso pelo simples fato de estar lá, convivendo com essas forças extraordinárias. A primeira vez que eu vi um iceberg encostar numa pedra, eu fiquei absolutamente paralisado, porque é uma coisa tão impressionante um gelo batendo numa pedra e arrancando pedaços pequenos de pedra. Eu nunca tinha imaginado isso. Na segunda vez, também, foi com um iceberg,  quando ele se deslocava contra o vento. E eu não entendia por que é que ele podia andar contra o vento com uma parede de 40, 50 metros de ...

Paulo Markun [interrompendo]: Por que ele podia andar?

Amyr Klink: Porque, é óbvio, ele tem 4 quintos para baixo da água. O mundo que a gente vê, de ondas, dificuldades, é nada para ele, ele é movido pelas correntes submarinas, então ele está pouco se lixando para os nossos problemas. Talvez a ótica de uma baleia, ela deve ter uma visão completamente diferente de uma tempestade [da] que a gente tem. Ela deve se divertir nas ondas ao contrário. Então, o fato de navegar faz com que a gente aprenda a ver sempre o mundo de formas diferentes.

Paulo Markun: O Sebastião Ribeiro, aqui de São Paulo, pede para você falar um pouquinho sobre o episódio da capotagem. No finalzinho dessa circunavegação teu barco capotou, não é isso?

Amyr Klink: É o segundo grande erro que o ser humano faz. Primeiro, é essa da arrogância de se achar senhor da situação, e a gente erra em pequenas coisas. Eu cometi um grande erro na circunavegação, comemorei antes da hora. Eu tinha uma garrafa de champanhe que eu ganhei da Marina para tomar no Natal. O Natal foi um pesadelo no sul da Austrália, não havia condição de beber álcool jamais. Eu deixei para tomar no Ano Novo e foi pior ainda e deixei para tomar no dia em que pisasse em terra, na Baia Dorian, na Antártida. Isso aconteceu 72 dias depois de partir. E, no dia em que eu sentei em cima de uma pedra com a garrafa de champanhe e dois copinhos de cristal de morango para tomar, eu pensei "caramba! Acabei de fazer 333 graus ao redor da Terra, que significam 92,5% de uma volta ao mundo". Qual é a graça de comemorar 92,5% de um sonho? Ridículo, né? Ou a gente comemora a volta inteira ou não.  E, 18 dias mais tarde, eu completei os 360 graus. Só que eu não tinha chegado, não basta completar um projeto, a gente tem que chegar em casa. Eu completei os 360, faltavam sete horas para eu ancorar e eu relaxei. Tinha vela demais a uma hora da manhã, o barco capotou.

Paulo Markun: Quer dizer, então vamos só esclarecer para o bem dos amantes da champanhe. Não foi a champanhe a culpada? Foi apenas o fato de que você...

Amyr Klink [interrompendo]: Não foi. Mas tantas vezes eu tive esse entrever [dificuldade, problema] com a champanhe, que minutos antes eu olhei para a bendita garrafa de champanhe e comecei a [achar] maldita... e comecei achar que ela estivesse me dando azar e no final, acabei tomando ela depois de chegar em terra.

Paulo Markun: Você capotou e ficou trancado numa parte do barco com...

Amyr Klink [interrompendo]: Fiquei fechado por 15 minutos no escuro e não foi muito divertido.

Paulo Markun: Agora, isso é uma outra coisa interessante de mencionar, o barco voltou a andar para cima?

Amyr Klink: Voltou. O barco deve ter ficado uns 3 minutos, no máximo, deitado, porque não foi uma capotagem completa, o mastro deve ter [se] enterrado, as velas colam na água e demorou não sei alguns minutos para ele voltar. O problema é que, quando ele voltou, eu não sentia medo mais, eu estava completamente anestesiado. Tudo que eu sabia era que eu o meu querido, maravilhoso mastro tinha quebrado e eu só pensava no número de dólares que eu tinha acabado de perder.

Sérgio Túlio Caldas: Amyr, uma curiosidade. Esse seu projeto, que você está indo fazer... Brasil vai para a China, fazer Parati–Pequim cruzando os pólos, viajando por todos os mares, não é?  Essa sua viagem, ela tem um caráter diferente agora? Porque, primeiro, você está indo com uma equipe, você não vai mais sozinho, até [dá] uma curiosidade de saber como você está trabalhando isto na sua cabeça, de viajar em equipe. E, segundo, essa sua viagem, ela tem um caráter diferente, ela tem um caráter exploratório? Tem alguma busca científica? Você vai em busca de algo diferente, que até então são desafios, você parte para aventuras, como é que vai ser?

Amyr Klink: Eu pretendo viajar em equipe. Adorei fazer essa travessia, agora, do Atlântico em equipe. Eu percebi que o Paratii exerce um fascínio muito grande por parte do pessoal que gosta de mar e que não tem oportunidade. E eu só pude me tornar navegador, porque um dia me deixaram num clube de velas – que eu detesto os clubes de velas todos, porque são instituições fechadas, enfim, me deixaram colocar o pé no barco e eu fiquei fascinado. Então, a primeira característica do Paratii 2 é [que é] um barco que permite levar muitas pessoas, até mais do que o número que a gente pretende levar na viagem. Daria para viajar com 40 ou 50 pessoas. A segunda intenção do barco é que ele possa levar grupos, por exemplo, trabalhar com grupos de alpinistas e tem esse caráter exploratório, sim. Talvez mais um aspecto desportivo do que científico. E, por último, é um barco que eu não queria aposentar e deixar guardado e que eu gostaria [de] que pudesse funcionar como um barco escola. Então são muito freqüentes no mundo, hoje, os veleiros de exploração que atuam como barcos-escola ou junto a entidades ou junto a escolas, mas principalmente para formar tripulações. E é isso que aconteceu na França com o [Éric] Tabarly [homem de poucas palavras que foi um exímio e competitivo velejador e construtor de veleiros e se tornou capitão de mar-e-guerra da Marinha Francesa em 1988]. O Tabarly, na verdade, mais do que um supervelejador solitário, foi o maior formador de velejadores que houve no mundo moderno, quer dizer, sem ele ter consciência disso, ele foi sempre, mesmo sozinho, uma escola. Dos barcos da série dele saíram os maiores nomes da vela que tem no mundo hoje. E desses nomes saiu a indústria fortíssima da vela, que tem...

Sérgio Túlio Caldas [interrompendo]: E você está com esse objetivo, também, de treinar e passar o conhecimento que você tem de todo esse tempo velejando pra que as pessoas...

Amyr Klink: No barco, sim. Estou, porque eu vou ficar a vida inteira com esse barco. Eu tenho consciência de que daqui a uns 50 anos tem que parar.

Paulo Markun: Vou voltar atrás. Você falou da capotagem e disse que estava preocupado com o mastro. Mas, se eu não li errado, o mastro não quebrou.

Amyr Klink: Não quebrou.

Paulo Markun: Só para esclarecer.

Amyr Klink: Foi um teste que, bom... difícil de fazer, mas não quebrou.

Paula Saldanha: E funcionaram muito bem também aquelas coisas das portas se fecharem. Porque o barco, quando vira, tem que se fechar para virar uma caixinha.

Amyr Klink: Não tinha esse intuito. A porta fechou por azar e a maçaneta voou e eu não conseguia sair.

Paula Saldanha: Não, porque quando você vira, enfim, quando o mastro entra na água, não pode entrar água no casco.

Amyr Klink: Mas a porta de entrada estava aberta nessa hora, entrou um pouco.

Paula Saldanha: Você teve mais uma vez sorte, que isso ...

Hélio Alcântara [interrompendo]: Amyr, voltando um pouquinho no que o Villela falou no bloco anterior. Você espera que o poder público tome alguma iniciativa no sentido de educar as crianças, vamos dizer assim?  Não sei se eu entendi direito, mas que não deveria partir só de você ou de você.  Você tem algum intuito de passar além do livro?  Acho que você faz palestras em escola, tal. Mas você tem intuito de formar as crianças no sentido mais holístico, não só do velejar... mais ampla?

Amyr Klink: Tenho. Eu não espero do poder público isso, eu falei com relação à marinha. No caso da marinha, eles têm que formar profissionais com competência marinheira. E, nesse caso, penso que é importante. No caso das pessoas que não vão se inscrever na marinha, eu não espero nada, nunca do poder público, o mínimo que a gente espera é que não atrapalhem. E, nesse sentido, está havendo problemas hoje, nesse sentido o Brasil hoje é um país ainda desorganizado, as suas instituições não estão organizadas. A gente vive uma burocracia fantástica. Quem quer abrir uma empresa sabe disso, das dificuldades de se abrir um negócio, uma empresa, quer dizer, quando deveria haver um convite, facilidades. Há toda sorte de empecilhos. Nós estamos aprovando agora, em Parati, um sistema de portos de lazer flutuantes, que é a solução mais correta do aspecto ambiental que tem no mundo. O Brasil é o único país do mundo que não adotou isso como norma. E a gente vai aprovar e é barrado, passa dois ou três anos.

Paulo Markun: Seria bom você explicar o que é isso.

Amyr Klink: São portos que, ao invés de serem fixos sobre o mar, são flutuantes. E eles têm milhares de vantagens. Guarda-se melhor as embarcações, permitem um acesso mais fácil, são estética e arquitetonicamente mais bonitos e ambientalmente corretos, porque você não constrói sobre o mar, você coloca estruturas que flutuam sobre o mar. Mas, enfim, o Brasil ainda tem muitos problemas nas instituições, por exemplo, fala-se no turismo náutico. Não existe o turismo náutico no Brasil. Talvez nós sejamos o único país de costa tropical, voltada para o lado positivo do anticiclone, ou seja, do lado favorável, meteorologicamente falando, que não tem a indústria do charter. Por que a gente não tem? Porque nós não temos os portos de lazer ou as marinas, as instalações, temos só clubes privados de pessoas da alta sociedade.

Hélio Alcântara: Não tem a cultura da verba?

Paulo Markun: Não tem lugar para você encostar.

Amyr Klink: Porque a gente não disponibilizou para o sujeito comum. Não tem as facilidades para se parar. Os barcos de fora não vêm, porque um veleiro que vem da Europa é tratado, no Brasil, em cada estado por um procedimento burocrático diferente. Então, não existe uma simplificação desse procedimento. Existem fora do Brasil normas nas marinas e nos portos recomendando não parar no Brasil, porque as instituições brasileiras não são confiáveis. É muito feio, é muito ruim como brasileiro você ouvir lá fora que o teu país, a visita ao teu país não é recomendada, porque ela é insegura, é arriscada e tem instituições não-confiáveis. Porque o procedimento de entrada em cada estado é diferente, na Receita Federal, na Saúde, na Capitania dos Portos. Trata-se um veleiro que não tem intenção comercial como se fosse um navio. Pergunta-se: "quem é o seu agente?", ou seja, criam-se milhares de dificuldades que... obviamente vocês sabem o que acontece com as facilidades. E essa imagem do Brasil tem que mudar. Portugal perdeu uma grande parte da sua industria náutica, porque a Espanha se antecipou nas simplificações desses procedimentos e o que aconteceu? A indústria náutica e do turismo e lazer do mar foi para a Espanha e não foi para Portugal.

Sérgio Túlio Caldas: Mas você não acredita que essa consciência está começando a despertar no Brasil, ainda que engatinhando?

Amyr Klink: A consciência está, mas a organização e a estrutura de organização das instituições está errada.

Sérgio Túlio Caldas: Mas até em termos de ações, por exemplo, a gente vê que, por exemplo, ligadas ao meio ambiente, existem mais publicações, existem mais profissionais ligados à conservação. O próprio exemplo de Parati, que está fazendo os portos flutuáveis.

Amyr Klink: Bom, nós estamos tentando fazer. Se eu fosse fazer o que há de mais incorreto no aspecto ambiental, que é construir um cais fixo, já estaria aprovado, quer dizer, não há estímulo a fazer de modo correto, porque é ainda há um desconhecimento técnico. E esse desconhecimento técnico existe também na esfera burocrática. Todos os países passaram por esse problema. O que fazer com o transito de embarcações? Como tem a família Schürmann, na França tem mais de 22.000 famílias que estão viajando ao redor do mundo. Deve ter uma centena de milhares de embarcações fazendo volta ao mundo nesse instante.

Sérgio Túlio Caldas: Tem muitos brasileiros anônimos fazendo isso. 

Amyr Klink: Infelizmente são poucos. Sei lá tem umas 20 ou 30 famílias de brasileiros. Mas as dificuldades são muitas. Muitos países se anteciparam. O Brasil ainda trata muito mal, porque, às vezes, um oficial ou o rapaz da capitania lá na Bahia recebe mal um barco, faz o cara ficar três dias na fila ou precisa ir não sei aonde. O que acontece? O cara sai apavorado do Brasil e não quer mais voltar e sai falando mal. Então eu não tenho a menor cerimônia, eu gosto de cobrar das instituições. São os meus direitos e acho que eu tenho obrigação de lutar pelos direitos dos que me dão condições iguais fora. Eu gostaria [de] que, enfim, que se unificasse o procedimento burocrático, que se desse mais atenção aos procedimentos, intervenções ambientais corretas. Não há um projeto de marina correto no Brasil, ainda, funcionando plenamente. Todos têm deficiências técnicas e eles têm que ser convidados a agir corretamente, a colocar seus projetos corretamente e não [ser] simplesmente punidos ou negociados ou acertados ou simplesmente multados.

Paulo Markun: Amyr, nosso tempo terminou e eu queria completar nossa entrevista com a pergunta de Maria Tereza de Medeiros, de Moema, São Paulo, que pergunta: o que você vai fazer quando suas filhas pedirem para velejar com você?

Amyr Klink: Elas adoram velejar com a gente, elas são pequenininhas para decidir, mas eu gostaria [de] que um dia elas pudessem viajar junto... A gente está produzindo mais filhos ainda, até lá elas vão ter mais uns irmãozinhos. Mas gostaria muito [de] que elas se tornassem velejadoras, mas eu vou deixar para elas escolherem quando ficarem maiores.

Paulo Markun: Muito obrigado pela sua entrevista, obrigado pelo seu livro. Obrigado aos nossos entrevistadores. A você que está em casa, uma boa noite, uma boa semana e até lá!

Sobre o projeto | Quem somos | Fale Conosco